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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

DOS "NOVÍSSIMOS KEYNESIANOS"

 

Para minha surpresa, que desde os anos 70 me venho assumindo como neokeynesiano, constato que o COVID19 converteu às minhas teses muitos ultraliberais, alguns, ex-adeptos das teses monetaristas, outros, ex-“supply-sliders”, e outros, ainda, que não sabem o que tudo isso representa, mas que têm como princípio existencial mudarem de ideias sempre que as mesmas não são conciliáveis com os seus interesses pessoais.

 

Pelos vistos, muitos são aqueles que, quando descobrem que se está confrontado com uma crise insusceptível de ser solucionada com mero recurso aos mecanismos ditados pela “ mão invisível”, optam por suspender, ainda que temporariamente, as suas convicções neo-liberais, adoptando uma postura pró-intervencionismo estatal.

 

Vem tudo isto a propósito de estarmos confrontados com uma situação que, por ser dramática e por se apresentar insusceptível de ser ultrapassada sem recorrer a uma flexibilização dos critérios de convergência nominal na UEM, impõe, simultaneamente, que sejam dados passos fundamentais no sentido de uma reforma das políticas e das instituições existentes no que se convencionou designar de “ área do euro”.

 

É preciso completar a União Monetária com a União Económica e com a implementação de uma maior União Política da Europa.

 

Importa reforçar o Orçamento da UE e passar a haver um Orçamento da UEM.

 

Importa reforçar os fundos estruturais e os mecanismos de transferência de recursos do “ centro europeu” para as “ periferias europeias”.

 

Importa criar um Ministério da Economia e das Finanças Europeu.

 

Importa possibilitar que o BCE passe a poder comprar dívida pública no mercado primário “ a la Roubini”.

 

Importa que a UEM caminhe no sentido da aceitação da mutualização da dívida.

 

Importa dar passos no sentido da implementação de um Plano Europeu de Recuperação Económica Pluri-Anual.

 

Michael Cox, na sua “ International History since 1989”, procurou explicar que entre as teses liberais optimistas de Francis Fukuyama e o radicalismo de Noam Chomsky, existem as contribuições teóricas realistas de Mearsheimer e de Huntington, as quais pretendem atender às especificidades económicas, políticas, sociais e culturais a que os povos estão, necessariamente, confinados.

 

E se é verdade que o “ realismo” nos leva a admitir que as reformas acima mencionadas não podem ser feitas num dia, sem se entrar em linha de conta com toda a problemática da correlação de forças endógenas e exógenas, também não é menos verdade que alguma transformação tem que existir no momento único que atravessamos.

 

Talvez uma solução um tanto híbrida.

 

Talvez a aceitação de algumas das ideias acima mencionadas, que não de todas.

 

Mas, algo vai ter de acontecer, para que o projecto desenhado por Jean Monet e Robert Schumann, os “ founding fathers” da EUROPA, continue a fazer sentido.
Nem mais, nem menos...

 

António Rebelo de Sousa

CRÓNICA DA CULTURA

A EUROPA uma possibilidade.jpg

 

   A EUROPA: uma possibilidade

 

Creio que se deseja uma Europa que consiga preservar a paz, uma Europa próspera, uma Europa em cuja cultura civilizada os cidadãos se identifiquem, desafiadores de um futuro responsável, responsável também pela ordem social que abarca a procura de uma justiça justa, uma justiça fora dos cenários das utopias, uma justiça como condição única e natural forma dos povos se entenderem e se serenarem.

Quero crer que se deseja a Europa! Quero crer que esse desejo é consciente de que terá de ser urgentemente realizado nesta Europa, um imediato futuro diferente daquele por onde tanto errámos. Em rigor, também sinto que o projecto de integração europeia, na actual União Europeia resultou nesta Europa sacudida e doente; tombada pelas mãos das inúmeras políticas e instituições que dela se serviram para a abater, para a partir em tantos pedaços quanto os necessários à manipulação da sua fragilidade, de modo a que o seu reerguer não se pudesse concretizar.

Todavia, volto a insistir: quero crer que se deseja uma Europa unida e noutros parâmetros, quero crer que se vai lutar por ela, ou a certeza de que o corolário natural da actual situação, se nada de relevante for feito, terá tantas consequências negativas que este nosso Portugal se transformará em mero ancião-cidadão-comum de destino de inaceitável preço.

A nível global, a realidade que acarretaria a queda desta Europa sem alternativa no seu seio, tenho-a, na minha modesta opinião, como imprevisível e perigosíssima, ou essa realidade não deitasse mão da entropia e dos equívocos vividos neste projecto, para que as grandes rupturas globais, onde se não desejam, fossem activadas, clarificando-se enfim, o mundo, que se não apraz nas ideias da consensualização.

Urge falarmos, discutirmos, actuarmos em urgência prioritária à ideia de uma Europa unida com possibilidades de “exigência pragmática de utopia” como referiu Steiner, mas igualmente com a capacidade de protegermos objectivamente as democracias dos nacionalismos que se deleitam a provar, em estratagemas de ocasião, o quanto os direitos humanos são exigentes de concretizar.

Quero crer que iremos saber provar que para um novo mundo europeu, existem caminhos que só se percorrem pelo respeito dos menos poderosos; pelo respeito pelas diferenças pois que a Europa é plural, pelo assumir da solidariedade, e entre tantas outras vertentes nucleares, pelo conhecimento de que as grandes preocupações são não-territoriais.

A Europa continuará a ser uma possibilidade, se desde logo não descurarmos que o aumento terrível da pobreza na União Europeia significa, em última análise, a descrença de milhões de europeus na sua melhoria de vida, e por essa descrença somos todos responsáveis de modo agravado, se não criarmos de imediato, dentro da União Europeia as vias que concretizem a união política que venha a suportar outras uniões que façam frente aos poderosos interesses instalados.

Quando o nosso futuro comum, enquanto europeus, resvala para o abismo, e depois das grandes guerras vividas, resta acreditar que a Europa é uma possibilidade! sim! é uma esperança!, sim!, contra os fatalistas, se se souber refundar  a tempo de não permitirmos que esta Europa seja mero joguete esfarrapado nas mãos dos directórios internacionais.

Urge que um dos grandes muros a destruir seja o que impede o vigor no combate para que se inicie um futuro melhor, um futuro que seja pedra fundamental e pedra filosofal, pedras que impeçam, nomeadamente que a hegemonia do capital e a desregulação que lhe deu chão impeçam de vez, que a arquitectura do dinheiro se infiltre nos processos de deliberação política.

A Europa: uma possibilidade!

 

                                                       Se voltasse ao princípio, começava pela cultura.

                                                                                Jean Monnet

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

FRANCISCO: A EUROPA, A AMAZÓNIA, AS MIGRAÇÕES

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1. O Papa Francisco deu no passado dia 9 uma longa entrevista ao diário italiano “La Stampa” sobre os temas anunciados no título. Dada a sua importância, fica aí uma síntese, acrescentando algumas reflexões pessoais, referentes concretamente à possibilidade da ordenação de homens casados, um dos temas na agenda dos trabalhos do próximo Sínodo para a Amazónia, a realizar em Roma no próximo mês de Outubro, e ao problema imenso e dramático das migrações.

Francisco constata que o sonho dos pais fundadores da Europa unida “se debilitou com os anos”, sendo “necessário salvá-lo”. Quando se fala dos pais fundadores, trata-se nomeadamente dos políticos franceses Robert Schuman e Jean Monnet, do alemão Konrad Adenauer e do italiano Alcide De Gasperi. Eles perceberam que era urgente superar as feridas deixadas pela Segunda Guerra Mundial e “o seu sonho teve consistência porque foi uma consequência desta unidade”. É esta unidade que está fragilizada e que é preciso valorizar e realçar. Sem renunciar, evidentemente, à própria identidade, mas sem cair nos extremos do soberanismo nem no populismo. A Europa não pode nem deve fragmentar-se. “É uma unidade não só geográfica, mas também histórica e cultural.” Apesar das dificuldades, Francisco mostra-se confiante em que, com um novo Parlamento e novos órgãos de governo, “se inicie um processo de impulso nesse sentido, que avance sem interrupções”.

Para isso, impõe-se o diálogo, pois “na União Europeia deve-se falar, argumentar, conhecer. Muitas vezes só se ouve monólogos de compromisso. Não, é preciso escutar.” Este diálogo deve ter como “mecanismo mental” o lema: “Primeiro a Europa e depois cada um de nós”. Evidentemente, este “cada um de nós não é secundário, mas a Europa conta mais”. Para um autêntico diálogo, “é necessário partir da identidade própria; a identidade própria não se negoceia, integra-se. A identidade é uma riqueza - cultural, nacional, histórica, artística - e cada país tem a sua, mas que seja integrada com o diálogo.” “Isto é decisivo: desde a identidade própria é necessário abrir-se ao diálogo para receber da identidade dos outros algumas coisas maiores. Nunca se pode esquecer que o todo é superior às partes. Cada povo conserva a sua própria identidade na unidade com os outros.”

É neste enquadramento que se deve atender aos perigos e enfrentá-los: o soberanismo e o populismo. “O soberanismo é uma atitude de isolamento. Estou preocupado porque se ouvem discursos que se parecem com os de Hitler em 1934. ´Primeiro nós. Nós... nós...’: estes são pensamentos aterradores. O soberanismo é fechar-se. Um país deve ser soberano, mas não fechado. A soberania deve ser defendida, mas as relações com outros países e com a Comunidade Europeia também devem ser protegidas e promovidas. O soberanismo é um exagero que acaba sempre mal: leva a guerras”. Acrescentou: O populismo também “fecha as nações” como o soberanismo. “O povo é soberano (tem uma maneira de pensar, de exprimir-se e de sentir, de avaliar); pelo contrário, os populismos levam-nos aos soberanismos: esse sufixo, ‘ismos’, nunca acaba bem.”

Sobre a identidade cristã da Europa, sublinhou que “a Europa tem raízes humanistas e cristãs, é a História que o diz. E quando digo isto, não separo católicos, ortodoxos e protestantes.”

Um dos desafios maiores para a Europa é a imigração. Acentuou, à partida, que não se pode perder de vista o direito à vida. “Os imigrantes chegam, principalmente, para fugir da guerra ou escapar à fome, do Médio Oriente e da África. Quanto à guerra, devemos comprometer-nos e lutar pela paz. A fome afecta principalmente a África.” Lembrou que, chegados às costas europeias, “acolher também é uma missão cristã, evangélica. As portas devem estar abertas, não fechadas.” Recebidos, apelou a que sejam acompanhados, promovidos e integrados. Ao mesmo tempo pediu prudência por parte dos governos, sublinhando que “quem governa é chamado a reflectir sobre quantos imigrantes podem ser acolhidos.”

Na entrevista, também falou do meio ambiente e, nesse contexto, do Sínodo para a Amazónia em Outubro próximo. Pediu que se leia a sua encíclica Laudato si’, “porque quem não a leu não compreenderá nunca o Sínodo sobre a Amazónia. A Laudato si’ não é uma encíclica verde, é uma encíclica social que se baseia sobre uma ‘realidade verde’, a protecção da Criação”. Para Francisco, é esta a justificação deste Sínodo: A Amazónia é “um lugar representativo e decisivo. Juntamente com os oceanos contribui de maneira determinante para a sobrevivência do planeta. Grande parte do oxigénio que respiramos vem-nos de lá. Por isso, a desflorestação significa matar a Humanidade.”  Criticando os danos causados pelos interesses dos “sectores dominantes” sobre a região, desafiou a classe política a eliminar “os compadrios e corrupções” e a assumir as suas responsabilidades, “responsabilidades concretas”, para salvar a Amazónia e a Humanidade.

Ainda neste contexto, uma vez que no “Instrumento de trabalho” para o Sínodo se fala da possibilidade da ordenação de homens casados, por causa da falta de clero numa região tão extensa, foi-lhe perguntado se este será um dos temas principais do Sínodo. Resposta: “Não, de modo nenhum. Trata-se apenas de um número do “Instrumento de trabalho”. O importante serão os ministros da evangelização e os diferentes modos de evangelizar.

 

2. Algumas reflexões

2.1. O Papa Francisco moderou o tom ao falar da possibilidade da ordenação de homens casados. Também porque sabe que os ultraconservadores, liderados pelo cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que acusou de “herético” o documento preparatório do Sínodo, se lhe opõem também neste tema. Pessoalmente, estou convicto de que essa possibilidade se concretizará precisamente neste Sínodo, abrindo lentamente a porta ao fim da lei do celibato obrigatório e da discriminação das mulheres na Igreja. Note-se a observação de agrado de Francisco pela eleição de Úrsula von der Leyen para presidir à Comissão Europeia: “Porque uma mulher pode ser adequada para voltar a pôr em marcha a força dos pais fundadores.” As mulheres “têm a capacidade de acompanhar, unir”. Pergunta-se: Porque não também na Igreja?

2.2. Quero sublinhar a lucidez com que o porta-voz da Conferência Episcopal Espanhola, Luis Argüello, depois de constatar e lamentar que “continuam os barcos à deriva e mortos no Mediterrâneo e noutros lugares de cruzamento entre morte e esperança, opressão e liberdade, fome e segurança”, apresentou o que se poderia e deveria considerar os eixos da política migratória: “Afirmar a dignidade sagrada da vida, organizar a hospitalidade, combater as máfias e estudar as causas económicas e políticas das migrações forçadas podem ser elementos de um programa de governo para o bem comum.” O que está em causa é a nossa humanidade.

Neste contexto, eu que há muito tempo defendo algo de parecido com um “Plano Marshall” para África, quero igualmente sublinhar a lucidez das declarações do Presidente da República Portuguesa na sua recente visita oficial à Alemanha. Marcelo Rebelo de Sousa defendeu que a União Europeia tem de ir “muito mais longe” na cooperação e apoio ao desenvolvimento em África: isso faz parte substancial de uma resposta “duradoura” ao “drama das migrações”. Quem emigra? “Quem não tem condições para viver onde vive”, cabendo, por isso, à União Europeia como um todo encontrar formas de ajudar a “criar essas condições”. Não se trata de “tentar resolver a questão no ponto de chegada, mas de resolvê-lo no ponto de partida”. “A Europa tem de apostar em África porque, sendo importante o relacionamento da Europa com todo o mundo, há aqui este continente vizinho, que tem muitas afinidades com a Europa desde sempre, e só isso poderá efectivamente criar condições para duradouramente não existir o drama das migrações.” O Presidente português disse ainda que a Alemanha e Portugal coincidem na necessidade de mais colaboração “entre a união Europeia e África”.

Ainda no quadro das migrações, o próprio Papa Francisco tem chamado a atenção para a necessidade de integrar os migrantes. Mas, aqui, acrescento eu, também eles terão de fazer um esforço para se integrar. Neste contexto, não posso aceitar os protestos de islamistas e feministas na Holanda contra a lei que proíbe a burka (não deixa ver nenhuma parte do rosto) e o niqab (cobre o corpo e a cara, exceptuando os olhos), lei que entrou em vigor no passado dia 1. Desde há muito tempo que me manifestei contra o uso da burka e do niqab, não por motivos religiosos, mas cívicos. De facto, no espaço público, todo o cidadão deve poder ser reconhecido.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 18 AGO 2019

CRÓNICA DA CULTURA

 

O silêncio é de oiro

 

Ó menina não me faça perguntas, tire lá daqui o microfone, não insista. E lá volta ela

 

O que é que eu sou? Sou um homem sem opiniões daquelas que a menina gosta de ouvir e depois passa na televisão e foi o seu programa ou lá o que seja. Não é?

Se não tenho opinião sobre nada? Pronto, então vamos lá a ver: até tenho. Olhe tenho-as fresquinhas todos os dias pois troco-as com as minhas vacas quando as levo ao monte ou a dar-lhes de beber ou a levá-las a dormir ou quando as acordo. Quer saber? Não quer saber? Mas eu digo

 

A minha opinião de hoje - aquela fresquinha que troquei com a Eulália, esta vaca que aqui vê e que me dá grandes alegrias pelo leite que faz meu pão - foi a seguinte

 

A minha vaca não quer ser europeia e eu também não quero que ela seja. Está no seu direito, ou não? E eu também, ou não? Ela é corajosa mesmo quase calada. É tão corajosa como eu quando digo com firmeza à menina que é precisa coragem para não ter opiniões. A menina consegue? Ah! pois é, até fica muda. Mas olhe, que se conseguir não ter opiniões, ou, tê-las frescas como a minha Eulália me ensina, olhe que no seu caso, se for capaz, ainda vai parar a um cargo bom. Aqui ou na Europa. Sou eu que lho digo. Mas olhe que é preciso que esteja muito tempo caladinha e não pergunte o que não quer ouvir.

 

Ainda há uns dias voltei a lembrar-me que o silêncio é de oiro. Ora veja o preço dele aqui em Ponte de Lima. Mas viu, viu, como já lhe respondi, já não consigo ser rico proximamente. Temos que falar para dentro e por isso eu não lhe queria dizer nada, já que, acredite, a maioria das vezes não tenho opinião e acho que até é bom para o país que não exista mais um palavroso. Entende? E muito menos que fale também em nome de outro, neste caso outra, como foi o caso da minha Eulália. Prometi-lhe e agora descaí-me com a opinião dela também.

 

Pois com licença, cá vou à vida que já pequei e que a sua já está feita, ao menos por hoje.

 

Eulália? Tens a certeza que tens sede? Ou é só para conversar? Pronto a tua mãe vai connosco também. O que é um rumo? Olha é eu andar ao teu passo e aguardar há anos consulta para a dor nas cruzes. Pensa bem, tens opinião sobre quem quer ser um de nós?

 

Pois. Eu também fui sempre assim, como sabes. Seria bom que, por uma vez…

 

Pois.

 

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - XI

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Escreves-me, em resposta à minha última carta, que te pareci adoentado e pessimista... Dizes mal: na verdade, continuo afligido por dores e maleitas velhinhas e não me refugio em sonhos de recuperações passadas que, próprias de outras idades e viços, não creio que possam repetir-se. Mas, se dou comigo a cair em tentações de lástima ou resmunguice, logo tento eu mesmo entrar em dialética com a vida, neste tempo atual e em modos possíveis. Esqueço o que me pesa, tampouco olho para trás, procuro descortinar na realidade presente a substância das coisas por vir. Ganho a leveza necessária para, em vez de me prender ao que fui, voar até onde não estive ainda.

 

   Entrar em dialética com a vida que anima o mundo das pessoas e das coisas visíveis e invisíveis é como estabelecer uma relação de contacto e afeto com a realidade, isso a que, quiçá, muitas vezes chamamos progresso. Costumo, aliás, dizer para comigo que a diferença entre essa minha perspetiva dialética e a hegeliana, ou a marxista, é que a minha não é obsessivamente determinável, nem necessariamente fatal, antes se desenrola numa dinâmica de liberdade, isto é, em animação do espírito criador.

 

   E a talho deste, calha falar-te dum opúsculo de Paul Valéry, originalmente escrito em francês, mas para tradução em inglês e sua publicação na famosa e já antiga revista londrina Athenaeum - hoje dirigida por John Middleton Murry - em abril de 1919. Há um século... A Amazon, para comemorar tal centenário, edita agora, pela primeira vez, o original francês, intitulado La Crise de l´Esprit. O texto breve distribui-se por duas cartas, tendo a primeira sido publicada pela Athenaeum em 11 de abril de 1919, e a segunda em 2 de maio. Com um século, eis um documento profético, na medida em que já anuncia preocupações do nosso tempo, ecoadas em raros mas pertinazes passos de discursos e comentários hodiernos, no quadro desta campanha para as eleições europeias de 2019. Traduzo-te seguidamente alguns trechos das seculares cartas de Paul Valéry:

 

   Nós, as civilizações, sabemos agora que somos mortais.

 

   Ouvimos falar de mundos inteiramente desaparecidos, de impérios afundados a pique com todos os seus homens e engenhos; levados até ao fundo inexplorável dos séculos com os seus deuses e leis, as suas academias e as suas ciências puras e aplicadas; com as suas gramáticas, os seus dicionários, os seus clássicos, seus românticos e simbolistas, seus críticos e os críticos dos seus críticos. Sabemos bem que toda a terra aparente é feita de cinzas, que a cinza significa alguma coisa. Apercebemo-nos, através da espessura da história, dos fantasmas de imensos navios que vogavam cheios de riqueza e de espírito. Não podíamos contá-los. Mas esses naufrágios, ao fim e ao cabo, não eram de nossa conta.

 

   Elam, Nínive, Babilónia, eram belos nomes etéreos, e a ruína total desses mundos tinha para nós tão pouco significado como a sua própria existência. Mas França, Inglaterra, Rússia... seriam também belos nomes. Lusitânia também é um belo nome. E vemos agora que o abismo da história chega para todos. Sentimos que uma civilização é tão frágil quanto uma vida. As circunstâncias que atirariam as obras de Keats e de Baudelaire para o pé das obras de Meandro já não são inconcebíveis: vêm nos jornais. 

 

   ... ... Uma primeira ideia surge. A ideia de cultura, de inteligência, de obras magistrais, tem para nós uma relação muito antiga - tão antiga que raramente subimos até ela - com a ideia de Europa.

 

   Outras partes do mundo tiveram civilizações admiráveis, poetas de primeira ordem, construtores e até sábios. Mas nenhuma parte do mundo possuiu esta singular propriedade física: o mais intenso poder emissor unido ao mais intenso poder absorvente.

 

   Tudo veio à Europa e tudo dela veio. Ou quase tudo...

 

   Ora, no presente, levanta-se esta questão capital: irá a Europa conservar a sua preeminência em todos os géneros?

 

   Tornar-se-á a Europa no que, na realidade é: um pequeno cabo do continente asiático?

 

   Ou permanecerá a Europa aquilo que parece, ou seja: a parte preciosa do universo terrestre, a pérola da esfera, o cérebro de um vasto corpo?

 

 

   [Abro aqui um parêntese entre as citações de Valéry, para te lembrar, Princesa de mim, um passo de Os Lusíadas do nosso Camões (Canto III, 20):

 

                                       Eis aqui, quase cume da cabeça

                                       De Europa toda, o Reino Lusitano,

                                       Onde a terra se acaba e o mar começa

                                       E onde Febo repousa no Oceano.

                                       Este quis o Céu justo que floreça...

   Aí nos tens.]

 

   E termino as citações de La Crise de l´Esprit traduzindo o fim da segunda daquelas centenárias cartas do francês:

 

   Mas o Espírito europeu - ou, pelo menos, o que le tem de mais precioso - será totalmente difundível? O fenómeno da entrega do globo à exploração, o fenómeno da igualização das técnicas, o fenómeno democrático, que nos levam a prever uma deminutio capitis da Europa deverão ser considerados decisões absolutas do destino? Ou teremos nós ainda alguma liberdade de contrariar tal ameaçadora conjunção das coisas?

 

   Talvez procurando essa liberdade a criemos. Mas para tal procura será necessário abandonar por uns tempos a consideração dos conjuntos, e estudar no indivíduo pensante, a luta da vida pessoal com a vida social.

 

   E assim chego ao que te queria dizer. Como em cartas, mais recentes do que remotas, já te escrevi, a crise do mundo atual é, em sentido próprio, um ponto crítico, ou seja, um instante insistente, um momento em que se confrontam encruzilhadas, e caminhos parecem abrir-se como opções de orientação: não tenho nenhum dom profético, tampouco pensossinto que o profeta seja ou possa ser um adivinho... Mesmo profetizar é apenas anunciar que dado momento ou a presente hora é do apelo, da vocação, essa do chamamento que nos oriente, no íntimo de nós, para a via que nos aparece como a da virtude, isto é, da fortaleza na construção da cidade aberta a todos. Pois que não há convívio possível no mundo sem consciência da humanidade comum. E digo-te isto, minha Princesa de mim, não primeiramente por razão evangélica tão insistente nos escritos de S. João, mas por não poder, eu próprio, pensarsentir-me noutra condição que não seja essa, genética, comum a todos nós: Deus criou o Homem, e criou-o homem e mulher. Pertencemo-nos na nossa humanidade.

 

   Cada vez menos, e muito rapidamente, o mundo nosso habitat se divide entre centro e periferia, antes na ribalta vão surgindo povos e culturas clamando igualdade. Até o próprio fenómeno migratório massivo que todos os dias é invasivo mais não é do que um sintoma do impulso generalizado de emergência das gentes e da sua dignidade, a reclamarem o espaço de liberdade e progresso que perderam nas pátrias em que a ganância e o poderio de outros as submergiram.

 

   A urgência do momento atual não é equacionar poderes dominantes ou para tal vocacionados, é saber aceitar e compreender o diálogo como condição indispensável do convívio inevitável, para que este antes seja fator de construção de um mundo de justiça e paz. O Espírito da Europa - com a qual tudo foi ter, e da qual tudo, ou quase tudo veio - diz Valéry logo após o fim da Grande Guerra, talvez tenha essa missão de propor o caminho da liberdade, da tal liberdade que criamos quando a procuramos. Demanda só possível em jeito e amor de távola redonda dos povos todos, nos antípodas das tentações hegemónicas das grandes ou maiores potências ou das pretensões nacionalistas de pequenos satélites votados a sonhar com qualquer Retrotopia.  E, por falar nisto, fecho esta carta traduzindo-te trechos do final do livro de Sygmunt Bauman com o mesmo título (originalmente editado, em inglês, na versão que possuo, pela Polity Press, Cambridge, 2017):

 

   Todavia, há condições a respeitar para nos percebermos e tratarmos uns aos outros como ´válidos parceiros de diálogo´. As probabilidades de diálogo frutífero, tal como o Papa Francisco nos recorda, dependem do nosso recíproco respeito e a assumida, garantida e mutuamente reconhecida igualdade de estatuto:

 

   «A justa distribuição dos frutos da terra e do trabalho humano não é mera filantropia. É uma obrigação moral. Se quisermos repensar a nossa sociedade, precisamos de criar empregos dignificantes e bem pagos, especialmente para a gente nova. Fazê-lo requer conceber novos, mais inclusivos e igualitários modelos económicos, visando não só servir uns poucos mas beneficiar gente comum e a sociedade no seu conjunto. Isto chama-nos a passar de uma economia líquida para uma economia social.» 

 

   Não há atalhos para um regresso rápido, hábil e sem esforço à construção de diques contra a corrente - seja a Hobbes, às tribos, à desigualdade, ou ao ventre materno. Repito: a tarefa presente de se elevar a integração humana ao nível de toda a humanidade não terá provavelmente qualquer precedente, precisamente por se revelar tão árdua, onerosa e perturbante de perspetivar, realizar e completar. Temos que nos preparar para um longo período, marcado por mais perguntas do que respostas, mais problemas do que soluções, tal como para agirmos na penumbra de difíceis equilíbrios entre as probabilidades de êxitos e de derrotas. Mas neste caso - contrariamente aos casos em que Margaret Thatcher invocava falta de alternativas - o veredito de que "não há alternativa"

 

depressa perderá sentido e não beneficiará de qualquer apelo. Mais do que em quaisquer outros tempos, nós - habitantes humanos da Terra - estamos numa situação de ou/ou, assim ou assado: ou nos damos as mãos, ou iremos cair na mesma sepultura.

 

   As campanhas eleitorais europeias perderam mais uma oportunidade de suscitar uma reflexão cidadã.

 


Camilo Maria       

 

Camilo Martins de Oliveira

UM DIA COM JEAN MONNET

 

TU CÁ TU LÁ
COM O PATRIMÓNIO

Especial. 27 de novembro de 2018.

 

Jean Monnet era um visionário. Começou a sua vida como comerciante de Cognac, e assim pôde conhecer o mundo e sobretudo a sua diversidade. Viajou muito, menos para passear do que para obter resultados. Um dia, já no ocaso da sua existência, passeava na sua herdade com o feitor. Parou e disse: “Aqui deveria haver um carvalho, este é o espaço ideal para o efeito”. O feitor concordou com o velho Senhor, mas foi dizendo que uma árvore dessas demoraria muito a crescer, e pela ordem natural das coisas já não seria vista no seu esplendor por Monnet. Nesse ponto, o ancião, cheio de sabedoria, disse determinado: “Então planta-se já antes de almoço”… A resposta caracteriza bem o espírito indómito de quem sabia que o querer e a determinação são sempre fundamentais, independentemente do calculismo. O importante era criar e fazer, a pensar nas gerações futuras. E foi assim que pensou a Europa, como uma construção de vontades, de esperanças, de valores e de sonhos… E foi a economia e a funcionalidade que o determinou. Como mercador dos tempos modernos, ele sabia que a paz exige confluência de esforços. E num século de guerras, o fundamental seria preparar o entendimento, a segurança e o respeito mútuo. As instituições deveriam convergir e representar os cidadãos. Os interesses comuns deveriam somar-se aos interesses próprios. A imperfeição das sociedades humanas deveria ser um forte incentivo ao gradualismo, no sentido de um mundo melhor. Sem a tentação do Admirável Mundo Novo de Huxley, haveria que recusar a ilusão e o imediatismo. O exemplo dessa árvore plantada ainda antes do almoço, ensina-nos a sermos a um tempo prudentes e audaciosos, para que os bons ventos nos ajudem. “Audatia fortuna juvat” – diziam os latinos… E temos de o entender com espírito positivo. Nunca Jean Monnet disse, porém, que, se voltasse atrás, começaria pela cultura. Foi sim Helène Arweiller que lançou a si mesma esse desafio numa Aula Inaugural na Sorbonne. Tratou-se de uma proposta especulativa. A cultura é por natureza diversa, plural e irrepetível. Zygmunt Bauman advogava, por isso, o método persistente do jardineiro, por contraponto ao do caçador. O jardineiro simboliza a cultura e a sabedoria – e, como tem afirmado Jacques Delors, o método comunitário obriga a passos seguros e à realização de três objetivos incontestáveis -  Paz e segurança. Desenvolvimento humano sustentável e Diversidade cultural. Eis por que o gradualismo obriga a pensar uma sociedade assente na diversidade enquanto comunidade plural de destinos e valores. A Europa vive hoje momentos difíceis e precisa de lutar contra a irrelevância. Ora, um homem do campo, como o autor destas linhas, escritas em Vila Nogueira de Azeitão, a pensar no meu padrinho Frei Agostinho da Cruz, tem de dizer que é chegado o momento de pensarmos mais longe do que um palmo à frente do nosso nariz. Fui e sou um fiel anglófilo, mas entendo cada vez menos os meus amigos britânicos. Estou muito preocupado, pois podem faltar peças para o meu querido MGA. Mas o pior não é isso. Os meus amigos súbditos de Sua Majestade Sereníssima estão em cada dia que passa a caminhar para o precipício. Muitos não compreendem que ao tempo dos Impérios sucedeu o tempo das interdependências. E alguém me dizia, num dos meus passeios matutinos, quando a humidade nos deixa caminhar, que depois de se terem destruído as fronteiras erigiram-se muros, incompreensões e tribalismos… Há receitas? Não há! Não tenho ilusões. O Brexit está condenado a prazo, mas vai haver um estranho e duro purgatório para todos. Ouvi ontem mesmo a voz do velho Winston, em Zurique. Ele falava de paz contra o ressentimento, e de cooperação em lugar do egoísmo. E eu não esqueço conversas antigas com o Embaixador Calvet de Magalhães, a dizer-me que a aliança luso-britânica levou-nos até à EFTA / AECL e às Comunidades Europeias – e que a Europa do futuro precisaria sempre de uma frente atlântica… Volto rapidamente a Jean Monnet. O carvalho plantado antes do almoço, a cultura como caleidoscópio de diferenças, a economia como convergência de valores e interesses, as instituições mediadoras construídas passo a passo. Eis o que não devemos esquecer… E agora vou ligar o meu MG, para que a bateria não vá abaixo… Mas antes deixo-vos com a primeira parte do poema «Europa» de Adolfo Casais Monteiro, lido aos microfones da BBC por António Pedro:

 

«Europa, sonho futuro!

Europa, manhã por vir,

fronteiras sem cães de guarda,

nações com seu riso franco

abertas de par em par!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

em que arda enfim, falsa grandeza,

a glória que teus povos se sonharam

— cada um para si te querendo toda?

 

Europa, sonho futuro,

se algum dia há-se-ser!

Europa que não soubeste

ouvir do fundo dos tempos

a voz na treva clamando

que tua grandeza não era

só do espírito seres pródiga

se do pão eras avara!

Tua grandeza a fizeram

os que nunca perguntaram

a raça por quem serviam.

Tua glória a ganharam

mãos que livres modelaram

teu corpo livre de algemas

num sonho sempre a alcançar!

 

Europa, ó mundo a criar!

 

Europa, ó sonho por vir

enquanto à terra não desçam

as vozes que já moldaram

tua figura ideal,

Europa, sonho incriado,

até ao dia em que desça

teu espírito sobre as águas!

 

Europa sem misérias arrastando seus andrajos,

virás um dia? virá o dia

em que renasças purificada?

Serás um dia o lar comum dos que nasceram

no teu solo devastado?

Saberás renascer, Fénix, das cinzas

do teu corpo dividido?

 

Europa, tu virás só quando entre as nações

o ódio não tiver a última palavra,

ao ódio não guiar a mão avara,

à mão não der alento o cavo som de enterro

— e do rebanho morto, enfim, à luz do dia,

o homem que sonhaste, Europa, seja vida!»

 

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

    É claro, também, no palco político-diplomático do mundo, que os discursos se assemelham, cada potência se declarando alvo de perseguição pela outra, e vítima de conspirações sucessivas. Estamos em pleno teatro trágico-cómico, de que o episódio Skripal (ainda por cima o homem, ao que consta, era espião duplo...) é lamentável cartaz e nem sequer serviu cabalmente para escamotear os vários e graves problemas, que o Reino Unido tem com o Brexit, quer internamente (Escócia e Irlanda do Norte, entre outros; ou o da crescente percentagem de votantes "sim" que hoje se sente aldrabada no referendo), quer externamente (se os parceiros europeus do RU se sentem desagradados, o Brexit encontra dois aliados (promotores?) estranhos: EUA e Rússia). Além disso, quiçá tivesse sido mais prudente, e certamente mais inteligente, apontar-se sem formar culpas o gravíssimo incidente de tentativa de homicídio com arma internacionalmente proibida e reclamar-se a condenação internacional do mesmo, solicitando-se a organização de esforços convergentes de investigação de responsabilidades, que envolvessem todos os possíveis suspeitos. Mas preferiu-se a precipitação e o arremesso de culpas não substancialmente provadas (ainda por cima, ao que consta, o tal gás também já poderá ter sido fabricado no RU...). Bem estiveram o Presidente da República e o Governo de Portugal, tal com muitos pensadores independentes, como Jaime Nogueira Pinto, que se pronunciaram pela independência de juízo portuguesa. Não sou, nem quero ser, comentador político. Ao conversar epistolarmente contigo, Princesa de mim, falando destes temas, procuro apenas olhá-los caleidoscopicamente. Assim, sobre o caso Skripal em geral, e a posição até agora assumida pela diplomacia portuguesa. E não esquecendo que Theresa May talvez se tenha lembrado de Margaret Thatcher que, nos finais dos anos 70, para distrair a opinião pública da dureza da sua política relativamente aos mineiros grevistas, ressuscitou o caso Anthony Blunt, que chegara a ser conservador das coleções de arte da Coroa britânica e professor consagrado e condecorado, mas fora comunista na juventude, e não só, mesmo chegando a ser espião por conta da URSS, em tempo de guerra.... [Ele pertencia, tal como Kim Philby e Guy Burgess, ao célebre Grupo dos Cinco de Cambridge]. Tal como tenho memória fresca de notícias sobre a brutalidade com que Putin pode tratar oponentes e adversários...

 

   A chamada "Guerra Fria" sinalizava um clima de tensão entre duas grandes potências e seus respetivos aliados, cada grupo constituindo um bloco ideológico, político, económico e militar, em que, felizmente, a diplomacia ia tendo umas oportunidades de intervenção, sobretudo devido à memória amarga que, de um lado como do outro, os povos guardavam da barbárie da 2ª Grande Guerra, bem como à consciência generalizada de que qualquer conflito à escala global poderia implicar o recurso a armas nucleares, cujo poder de destruição, até essa altura, "apenas" fora testado em Nagazaki e Hiroshima, pelos americanos. Foi-se, pois, fazendo friamente a guerra, como quem joga num tabuleiro de damas ou xadrez, colocando agentes e conflitos em palcos alheios. E fazendo batota, claro, cada jogador dispondo redes de espionagem e procedendo a "execuções" cirúrgicas, independentemente de se ser ditadura ou democracia a dar ordens: entre muitos outros, incluindo franceses e israelitas, e não só, foram-se celebrizando KGB, CIA ou M15 e 16... A autêntica competição, todavia, situava-se sobretudo na corrida ao armamento e no desenvolvimento das tecnologias inerentes ao complexo militar e industrial, designadamente no domínio espacial. Em tudo isto, o que contava era o campeonato, as ideologias eram para esquecer. O problema maior, para cada concorrente, era o financiamento da aventura. Neste capítulo, o capitalismo liberal mostrou-se mais capaz de resultados do que o capitalismo estatal. E, para o que ao tema nos traz, Princesa de mim, não foi despicienda a participação de um maior número de democracias na globalização e incremento das trocas comerciais. A vitória "ocidental" deveu-se ao desafogo económico conseguido, que não só beneficiou os países participantes, como fomentou um mimetismo político-económico na zona comunista, assim levada a promover glasnost e perestroika...

 

   "Roma e Pavia não se fizeram num dia", tampouco se desfazem, de hoje para amanhã, mazelas e cicatrizes deixadas pela "guerra fria"... Mesmo no subconsciente popular vão ficando referências como "Europa de Leste", mais com carga ideológica e política, e até de sinónimo de barbárie, do que simplesmente apontando um posicionamento geográfico... Por essa e outras se vai mantendo um clima mental de guerra fria, apesar do fim do bloco soviético e do crescimento de relações a vários níveis e em muitos campos, desde a agricultura ao comércio, das infraestruturas aos combustíveis energéticos, artes e futebol. Curiosamente, aliás, os maiores investimentos financeiros em clubes de chuta a bola muito populares em países como o Reino Unido, a França, etc., têm acentuada origem em magnates árabes, chineses e...russos! E olhemos para as bandeiras nacionais dos países de leste, alguns dos quais hoje membros da UE, que ostentam símbolos heráldicos de passadas monarquias e impérios (reparaste, Princesa, nas cruzes e águias bicéfalas exibidas sobre edifícios públicos de Moscovo e S. Petersburgo?), e prestemos atenção às razões que levam alguns deles a eleger governos nacionalistas que, no "ocidente", seriam de direita-direita. Sofreram quase meio século de dependência e humilhação, não tiveram, depois, como a RDA, uma outra metade abastada no lado de lá (de cá, para nós) que os ajudasse a mais fácil integração num regime socioeconómico diferente. Ainda por cima, tiveram de passar por crises de confiança e identidade... As sociedades não se transformam por toques mágicos nem eletrónicos ou informáticos. Os povos, além de resistentes, são resilientes (qualificativo que, como bem sabes, Princesa de mim, é hoje empregue pelos nossos políticos com significação algo confusa...). O fim da "guerra fria", Princesa, permitiu e promoveu uma corrida aos  armamentos mais alargada, a emergência de mais potências regionais, algumas com tentações evidentes de interferência a nível global... A guerra mundial de hoje é, como foi na "guerra fria", uma semear de conflitos parciais, com a diferença de que as grandes potências - que sofreram revezes, como os EUA no Vietnam e a URSS no Afeganistão  -  têm agora de procurar fomentar alianças ou blocos regionais, retirando os seus próprios peões da liça : pensa, Princesa, no recente entendimento russo-turco-iraniano sobre a Síria, em simultaneidade com o anúncio de retirada de Trump.

 

   Mas também guardo, para carta por seguir, uma reflexão sobre a Europa e o que nela já foi, é hoje, e poderá ser ocidente e oriente, sem esquecer essa ideia inicialmente alemã da Mitteleuropa (título do livro do geógrafo Joseph Partsch, publicado em 1904), que até serviu para desenhar um espaço político a separar a Europa da Rússia, nação europeia, cujo estado ocupa o maior território nacional do mundo, quase todo na Ásia, de que a Europa apenas é uma península dela separada pelos Urais... 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

INICIAMOS O ANO EUROPEU DO PATRIMÓNIO CULTURAL -2018!

 

O património cultural não se refere apenas ao passado, mas à permanência de valores comuns, à salvaguarda das diferenças e ao respeito do que é próprio, do que se refere aos outros e do que é herança comum. Como compreenderemos a Europa sem o diálogo entre a tradição e o progresso, sem o entendimento das raízes e sem a complementaridade entre judeus, cristãos e muçulmanos? Urge entender, afinal, que o que tem mais valor é o que não tem preço. A compreensão do património cultural que nos permite assumir uma cidadania civilizada. Desde a Torre dos Clérigos ou da charola do Convento de Cristo à custódia de Belém, passando pela pintura de Nuno Gonçalves, pela poesia trovadoresca, pela lírica e épica de Camões ou pelo Romanceiro de Garrett, estamos perante símbolos do caminho de um povo, que se afirmou e engrandeceu em contacto e no respeito dos outros.

 

O Comissário Europeu para a Educação e Cultura, Tibor Navracsics, ao abrir oficialmente o Ano Europeu do Património Cultural, recordou no Fórum Europeu da Cultura de Milão, não estarmos a falar «de literatura, arte, objetos, mas também de competências aprendidas, de histórias contadas, de alimentos que consumimos e de filmes que vemos». De facto, precisamos de preservar e apreciar o nosso património, como realidade dinâmica, para as gerações futuras. Compreender o passado, cultiva-lo, permite-nos preparar o futuro. Estamos a encetar um momento importante na vida da União Europeia. É tempo de não deixar o património ao abandono, de estudá-lo e compreendê-lo designadamente através de uma forte aposta na educação de qualidade para todos. Como poderemos compreender um monumento ou uma obra de arte se não soubermos de onde vem e qual o seu significado?

 

O conceito moderno de património cultural, definido na Convenção de Faro, valoriza a memória e considera-a fator de cidadania, de dignidade e de democracia. Quanto à atenção e ao cuidado, pensamos que vai haver muito mais pessoas despertas para o culto e a proteção do património.

 

Se é verdade que, segundo o Euro-barómetro, 8 em cada 10 europeus consideram o património cultural importante, não só para cada um, mas também para a comunidade, para o país e para a União no seu conjunto, importa compreender que estamos a falar de um fator crucial para podermos superar egoísmos, fechamentos e conflitos insanáveis. Mais de 7 em cada 10 europeus concordam com a necessidade da ligação entre património e qualidade de vida, em nome de um desenvolvimento humano. E 9 em cada 10 consideram que o despertar nas escolas para a defesa do património é fundamental. As políticas culturais têm de se centrar cada vez mais na atenção efetiva atribuída ao património cultural.

 

Não podemos esquecer o valor económico do património cultural como fonte de desenvolvimento – 7,8 milhões de postos de trabalho na União Europeia estão ligados indiretamente ao tema, como o turismo e tantos serviços conexos como a mobilidade, a segurança e o conhecimento. 300 mil pessoas estão diretamente ligadas ao património na União Europeia. Afinal no velho continente está cerca de metade dos sítios classificados (mais de 450) no âmbito do Património Mundial da UNESCO. Compreende-se que a decisão de declarar 2018 como o Ano do Património corresponda à afirmação de um desígnio ambicioso: baseado na necessidade de consagrar a mobilização de vontades em torno de uma herança comum, de um ideal europeu de respeito mútuo, de qualidade e de humanismo, certos de que não podemos deixar ao abandono o que nos legaram as gerações que nos antecederam, nem acomodar-nos à irrelevância e à mediocridade. Como poderemos preparar, de modo informado e conhecedor, o progresso futuro sem cuidar da continuidade e da mudança? Procura-se sensibilizar a sociedade e os cidadãos para a importância social e económica da cultura – com o objetivo de atingir um público tão vasto quanto possível, não numa lógica de espetáculo ou de superficialidade, mas ligando a aprendizagem da História e o rigor no uso e na defesa das línguas, articulando educação e ciência, numa perspetiva humanista.

 

CNC

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

André Gide. 1927 [Foto de Berenice Abbott]

 

XIX - CRISE E RUTURA DOS VALORES E CHOQUE DA GUERRA – I

 

No século XIX e até à primeira grande guerra, a Europa viveu um período eufórico de criatividade científica e intelectual, de inventos permanentes e sucessivos que faziam crer que o progresso estava intimamente ligado ao desenvolvimento científico. Desenvolveu-se o cientismo, corrente de pensamento de matriz positivista segundo a qual a resposta a todas as questões humanas estava na ciência, tida como superior a todos os outros meios de compreensão da realidade humana, como a filosofia, a metafísica, a política e a religião, dado o seu determinismo cognitivo e resultados práticos.

 

Mas a crença no sentimento de superioridade da razão e vontade humana, por oposição à resistência das forças da natureza, começou a declinar e a ficar ameaçada, no fim do século XIX, pelo próprio desenvolvimento científico das ciências. A sociologia, psicologia e psicanálise revelavam que o ser humano não é só conduzido pela razão, mas também por forças instintivas e naturais, onde impera o inconsciente. A biologia, a antropologia e a física demonstravam ser um ser natural como os demais e que as suas ações eram regidas pela natureza, o que conflituava com a ideia de liberdade e responsabilidade defendida pela moral estabelecida. Questionou-se o determinismo e a tentativa de aplicar os mesmos métodos das ciências naturais às restantes áreas do conhecimento.

 

Ante o derruimento de valores tradicionais, estes foram vistos como sendo tabus e preconceitos, pseudovalores de uma sociedade enganadora e falsa, apenas servindo para ferir e inibir a plena realização humana. Havia na ciência novos valores que revelavam novos caminhos, numa permanente experimentação de um sentimento de libertação e de uma nova ética assente na liberdade individual e realização total do indivíduo.

 

André Gide, em Les Nourritures Terrestres, no poema Nataniel, Eu Te Ensinarei o Ardor, proclama:

     Mandamentos de Deus, magoaste a minha alma.
     Mandamentos de Deus, sois dez ou vinte?
     Até onde os vossos limites?
     Ensinareis vós que há sempre mais coisas proibidas?

 

     Novos castigos prometidos à sede de tudo quanto achei de belo na terra?
     Mandamentos de Deus, tornastes a minha alma doente.
     Envolvestes de muros as únicas águas que me dessedentavam…

 

     … Foi por certo tenebrosa a minha juventude;
     Disso me arrependo.
     Não provei o sal da terra.
     Nem o do grande mar salgado.

 

     Julgava que era eu o sal da terra.
     E tinha medo de perder o meu sabor.
     O sal do mar não perde o seu sabor; mas os meus lábios estão velhos para o saborear. Ah, porque não respirei eu o ar marinho quando tinha na alma a avidez desse ar?
     Que vinho conseguirá agora embriagar-me?
     Ah! Nataniel, entrega-te à alegria enquanto ela sorri à tua alma - e satisfaz o desejo de amar enquanto os teus lábios estão belos ainda para beijar e o teu abraço é jubiloso.
     Porque tu pensarás, tu dirás:
     - Os frutos ali estavam; o seu peso já curvava, fatigava os ramos; - a minha boca ali estava e plena de desejo: mas continuou fechada e as minhas mãos não puderam estender-se porque estavam unidas em oração; - e a minha alma e a minha carne ficaram desesperadamente sequiosas. - Desesperadamente a hora passou.

 

O belicismo, a brutalidade e o choque da guerra agravaram angústias e interromperam esperanças e otimismos.

 

22.08.2017
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

 

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXVI - OS DOIS OCIDENTES


No ocidente há dois ocidentes: a Europa e os países descendentes da Europa, por exemplo, os Estados Unidos da América, o Brasil e a Austrália.

 

O passado colonial teve um papel preponderante na formação e consolidação de espaços, globalmente dispersos e suficientemente amplos em termos demográficos e territoriais, o que originou que os atuais quatro idiomas ocidentais mais falados mundialmente sejam o inglês, o castelhano, o português e o francês.

 

A revolução industrial, iniciada em Inglaterra, contribuiu para a sua afirmação como potência e para o seu progresso económico, este extensivo a algumas das suas colónias, desenvolvimento de que beneficiou a França ou as regiões que deram lugar à Alemanha, embora apenas duas línguas mantivessem a condição de línguas dominantes: o francês e o inglês. O que foi reforçado com a admissão de ambas nas conversações da Conferência de Paz que veio a findar com a redação do tratado de Versalhes escrito em francês e inglês, servindo de primeiro passo para que fossem as duas línguas oficiais da Sociedade das Nações.

 

Nos novos países, antigas colónias europeias, onde foram os próprios descendentes dos colonos europeus que tomaram em mãos o poder e o destino político desses territórios, sem participação das populações indígenas, não era um problema a escolha de uma língua, dado que não era um dilema a resolver para os seus novos dirigentes ou elites, uma vez o idioma materno da potência colonizadora ser o dos novos colonos e países independentistas. Foi o que sucedeu na América do Norte, Central e do Sul, na Austrália e Nova Zelândia, ao invés do que sucedeu com as antigas colónias africanas e asiáticas, com dirigentes nativos, umas vezes optando, e outras não, pela língua do colonizador.

 

Quando a Europa perdeu estatuto, nomeadamente após o advento da segunda guerra mundial, deixando de ser um ator ativo em termos políticos, houve uma espécie de justiça imanente dos países emergentes, começando a impor o seu modelo.

 

Há modelos e países emergentes como a China, a Índia e o Brasil. Destes três o único que nos tranquiliza, a nós ocidentais, em termos de transferência e transmissão sucessória, é o Brasil, uma vez tomar como modelo e referência o ocidente, apaziguando-nos como potência emergente, dado ser aquele que agarra mais de perto as caraterísticas do mundo ocidental.

 

Se a Europa é o antigo e velho ocidente, uma espécie de museu vivo em termos históricos, os seus descendentes eurocêntricos e sucessores mais diretos são o novo ocidente, um outro ocidente, desde o Canadá, Estados Unidos, Brasil, Argentina, até à Austrália e Nova Zelândia. Exemplificam-no novas regiões e novas localidades com nomes em homenagem ao velho ocidente, como Nova Inglaterra, Nova Escócia, Nova Iorque, Nova Jersey, New Hampshire, Nova Orleães (Estados Unidos), Óbidos, Alenquer, Almeirim, Santarém, Bragança, Caxias, Oeiras, Valença, Belmonte, Campo Maior (Brasil), Córdova (Argentina) e Newcastle (Austrália). A que acrescem nomes cristãos, importados da Europa: São Paulo, São Salvador, Santa Catarina, São José (Brasil), São Francisco, São Luís, São Bernardino, Santo António (Estados Unidos), Santa Fé (Estados Unidos e Argentina), entre tantos outros.  


04.07.2017

Joaquim Miguel De Morgado Patrício