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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de agosto de 2021


Eduardo Lourenço em “Nós e a Europa ou as duas razões” (INCM, 1994), tendo na capa a figura de Erasmo, assume claramente a linhagem da Geração de Setenta, e fala de “ressentimento” e de “fascínio” como referências polarizadoras que coexistiam na atitude dos intelectuais de Setenta, sendo a consciência da distância e da marginalidade uma marca permanente.


FASCINADOS E RESSENTIDOS
Portugal precisaria de ser outro, mais consonante com o continente civilizado, menos condenado à periferia e à distância. Fascinados ou ressentidos, a verdade é que precisaríamos da Europa – “com a mesma ironia calma com que Caeiro se vangloriava de oferecer o universo ao universo, nós, primeiros exilados da Europa e seus medianeiros da universalidade com a sua marca indelével, bem podemos trazer a nossa Europa à Europa. E dessa maneira reconciliarmo-nos, enfim, connosco próprios”. A receção do Realismo e do Naturalismo constituiu um momento fundamental em que uma geração intelectual procurou romper com o fatalismo do atraso e da mediocridade. Para tanto, haveria que seguir as tendências da modernidade, mesmo que isso representasse o assumir do escândalo da rutura. Mas se essa diferenciação era mister de gente culta, importava comparar, até para tentar perceber o que deveria fazer-se para romper com a inércia da repetição conformista ou dos nossos males que tanto irritavam os viajantes estrangeiros. Em maio de 1885, Oliveira Martins, no primeiro número de “A Província”, órgão do movimento da “Vida Nova”, afirma: “Esta é a vida nova que surge dentro do nosso partido, não como um renegar do passado, mas sim como uma afirmação positiva das suas tradições mais nobres e invariavelmente defendidas”. E nesse texto, invoca a referência europeia: “Toda a Europa se acha numa época de reação vitoriosa contra a anarquia económica; em toda ela predomina o pensamento da nacionalização do trabalho e da proteção dos trabalhadores”. Trata-se, assim, da invocação de um projeto claramente socializante, centrado na criação económica e na valorização do trabalho e dos trabalhadores. A Europa e a comparação com a Europa nunca são indiferentes à Geração de 70. Mas não se trata da Europa do livre-cambismo e das injustiças, mas do continente das ideias novas, da liberdade e da igualdade. Por outro lado, há sempre uma preocupação com o tentar perceber por que razão seremos menos europeus.


SEMPRE A EUROPA…
Continue a ler-se Eça de Queiroz, e veja-se como o tema europeu é quase obsessivo – o Primo Basílio vem de Bordéus, Maria Eduarda e Dâmaso Salcede também viajam num paquete vindo de Bordéus, “Os Maias” não se podem compreender sem a referência europeia, Alencar no célebre jantar do Hotel Central fala da “democracia humanitária de 1848” e diz querer “uma república governada por génios, a fraternização dos povos, os Estados Unidos da Europa” e em “A Cidade e as Serras” o que temos é um diálogo sui generis entre Portugal e a Europa. De qualquer modo, há sempre um confronto entre a Europa aceite como um horizonte referencial e a Europa considerada como desafio contra o fatalismo. O Alencar que fala dos Estados Unidos da Europa é o romântico, influenciado pelos engenheiros de Saint-Simon de que Fontes Pereira de Melo é o principal dos émulos. E o sentido crítico que Eça introduz a propósito de Tomás de Alencar aponta o dedo à inconsequência do utopismo romântico, contra o qual se ergue o naturalismo de Ega. A mesma crítica está, aliás, simbolizada no conde de Gouvarinho, representante do fatalismo e da mediocridade aceite. Quando lhe é posta a possibilidade de sobraçar a pasta dos Negócios Estrangeiros: “- essa nunca! – prosseguiu ele muito compenetrado. – Para se poder falar alto na Europa, como ministro dos Estrangeiros, é necessário ter por trás um exército de duzentos mil homens e uma esquadra de torpedos. Nós infelizmente, somos fracos… E eu, para papéis subalternos, para que venha um Bismarck, um Gladstone, dizer-me ‘há de ser assim’, não estou!...”. Como é sabido, Gouvarinho não foi para os Estrangeiros, mas para a Marinha e Ultramar, e então tomou a medida fundamental de criar um teatro normal em Luanda. Ainda em “Os Maias”, Carlos, no final do romance, cético e distante dos entusiasmos reformadores de dez anos antes, vindo da Europa, descreve o viver bem: “Passeio a cavalo no Bois; almoço no Bignon; uma volta pelo boulevard; uma hora no clube com os jornais, um bocado de florete na sala de armas; à noite a Comédie Française ou uma soirée; Trouville no Verão, alguns tiros às lebres no Inverno; e através do ano as mulheres, as corridas, certo interesse pela ciência, o bricabraque e uma pouca de blague. (…) Nada mais inofensivo, mais nulo, e mais agradável”. Eis o retrato de uma decadência perigosamente atrativa. E Carlos da Maia vê Portugal como uma realidade dividida: entre o dever ser civilizado e europeu e o peso do atraso e da sociedade antiga. De um lado, a “gente feísssima, encardida, molenga…”; de outro os sinais de imitação do que vem de fora – a Avenida, o obelisco dos Restauradores, a moda das botas aguçadas na ponta… A Europa aparece, assim, com um sentido nitidamente ambivalente – ora como referência externa que se imita sem consequência séria, ora como desafio transformador que não esqueça as nossas características próprias.


O CASO DA CIDADE E AS SERRAS
O caso de “A Cidade e as Serras” é bem ilustrativo. Jacinto está cansado da civilização e vem para as serras, não para a capital. Mas sabemos que, de certo modo, a insatisfação permanece. É verdade que Jacinto assume a clássica “aurea mediocritas”, que Gonçalo Mendes Ramires sonha com o Portugal em África, que Fradique Mendes entroniza a Quinta de Refaldes e outras deambulações no país genuíno – mas isso não significa a recusa queiroziana da referência europeia, antes representa o assumir de um mal-estar moderno europeu, simbolista. É, de algum modo, por influência da Europa que a crítica do excesso de civilização se faz. E, se bem virmos o que está em causa, não estamos perante um apelo isolacionista, mas um cosmopolitismo, que se centra no horizonte europeu. Em suma, o que está em causa é a recusa da condenação ao atraso, o apelo à vontade, às diferenças e à abertura de espírito e de fronteiras. Entre o fascínio e o ressentimento, sobretudo num tempo em que a história europeia prepara um século de incerteza máxima, e em que Portugal sofre uma crise muito profunda de credibilidade e de vontade, a Geração de Setenta sentiu no íntimo de si o peso de todas as contradições. A referência europeia é, no entanto, permanente e marcante, mas não pode ser superficial e mimética. A Europa de Alencar é aquela de que foge Jacinto. Ao invés do tédio que enfastia Jacinto, a Geração de Setenta tem no horizonte uma “sociedade outra” (na linha de Henriques Nogueira e de Lopes de Mendonça, influenciados pela “Primavera dos Povos” de 1848). Daí que o ceticismo de Carlos da Maia e o sentido crítico de João da Ega recusem a claustrofobia do país isolado e só. O “europeísmo” que a Geração assume é sempre o da abertura e da emancipação, não o da burguesia instalada e do bem-estar que entedia Carlos da Maia. “Ligar Portugal com o movimento moderno, fazendo-o assim nutrir-se dos elementos vitais de que vive a humanidade civilizada” – continua bem presente – na perspetiva de “adquirir a consciência dos factos que nos rodeiam, na Europa”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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  De 24 a 30 de maio de 2021

 

A “Conferência Europeia das Humanidades 2021” constituiu oportunidade para debater a necessidade de dar ao conhecimento lugar central na sociedade contemporânea.

 

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COMPREENDER O FUTURO

A realização, na Fundação Gulbenkian, da Conferência Europeia das Humanidades, organizada pela UNESCO, FCT e Conselho Internacional para a Filosofia e as Ciências Humanas (CIPSH), no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da UE, permitiu um debate aprofundado sobre um tema complexo que não pode ser abordado de forma simplificada, como se tratasse de um mero dilema entre duas culturas – literária e científica. A verdade é que, como salientou durante os trabalhos António Damásio, a compreensão da complexidade obriga-nos a não cair no velho erro de Descartes e a garantir a complementaridade efetiva entre razão e sentimento. O programa, ao propor como tema geral “Humanidades Europeias e Além”, deu especial ênfase à ligação entre reflexão e espírito científico, já que, como o Presidente da República notou, na abertura da Conferência “nenhuma sociedade tem futuro sem conhecimento e sem colocar esse conhecimento como fundamento das suas decisões sociais e económicas”, sobretudo quando nos encontramos numa circunstância de tempos críticos muito desafiantes, já que os dilemas que se nos têm colocado, designadamente com a pandemia, têm obrigado a uma articulação efetiva entre pensamento e ação, coesão social e estratégias científicas. Com efeito, os problemas complexos e multidisciplinares em causa exigem abordagens que devem combinar várias perspetivas e disciplinas, de modo a compreendermos que a medicina e a ciência política, a saúde pública e a economia têm de andar permanentemente a par, de modo que a evolução da sociedade se faça num equilíbrio permanente entre as diferentes áreas de Investigação e Desenvolvimento. Nesse sentido, a diretora-geral adjunta da UNESCO, Gabriela Ramos recordou o livro de 1722, "Diário do Ano da Peste", de Daniel Deföe, onde se retrata a sociedade de Londres durante a Grande Peste de 1665 e mostra como os fenómenos são cíclicos e as atitudes se repetem: "Para entender uma pandemia temos de compreender as relações entre diferentes realidades, desde o clima, à geografia e à história. Temos de aprender com o passado para preparar o futuro e as humanidades são os guardiães desse conhecimento". De facto, como salientou ainda, “não vale a pena ter avanços e soluções científicas se a sociedade os não compreende”. As pessoas aceitam as decisões desde que tomadas por autoridades em quem confiem e desde que disponham de informação fiável, designadamente no domínio digital. Contudo, essa relação de confiança só é possível estabelecer se houver uma presença segura das Humanidades, como fatores de diálogo e de qualidade.

 

FONTE DE CRIATIVIDADE E DE INOVAÇÃO

De facto, as Humanidades são uma fonte de criatividade e inovação. E, como afirmou o crítico de arte e escritor inglês, John Ruskin (1819-1900): "As grandes nações escrevem a sua autobiografia em três manuscritos: o livro dos seus feitos e acontecimentos, o livro das palavras e o livro das artes". Contudo, "nenhum destes livros pode ser entendido se não tivermos em consideração os outros dois". Factos, palavras e artes constituem a base estrutural para entendermos a evolução histórica – daí que a pedagogia e a escola tenham de assentar a aprendizagem na permanente ligação entre os diferentes domínios do pensamento. Assim, falar de Humanidades não pode reduzir-se à literatura ou à reflexão, como realidades separadas, devendo, sim, participar como estímulo permanente à Ciência como Cultura. Daí a necessidade de não subalternizar a Filosofia. Não é demais lembrar que as sete Artes Liberais, o trivium (lógica, gramática e retórica) e o quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia), associavam naturalmente as Humanidades aos diversos ramos do saber. Lembremo-nos dos exemplos de Leonardo da Vinci e de Leibniz, ou de portugueses como Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro. Fácil é de notar como, para eles, as Humanidades ligavam todas as áreas do conhecimento, não de modo autossuficiente, mas como fatores de coordenação e exigência. A crise financeira de 2008 ou a crise pandémica de 2020-21 demonstraram como a lógica positivista da cultura científica falhou rotundamente, incapaz de distinguir realidade e ilusão, verdade e aparência. O racional e o razoável têm de se articular. E hoje a questão das alterações climáticas e o estado de emergência em que nos encontramos no domínio ambiental – deixaram de ser (com a pandemia) temas longínquos, já que as questões de sobrevivência da humanidade passaram a ser bem atuais e próximas de nós. Não há desenvolvimento sem aprendizagem de qualidade e sem a prioridade dada à educação, à ciência e à cultura. Por isso, o património cultural é cada vez mais fonte de criatividade e inovação, uma vez que nos permite entender o tempo nas sua diferentes dimensões, já que o passado projeta o futuro e as raízes são chaves para a compreensão sobre de onde vimos, quem somos e o que nos distingue dos outros… Numa sociedade de informação, devemos estar aptos a transformar informação em conhecimento e o conhecimento em sabedoria. T. S. Eliot disse “Where is the wisdom we have lost in knowledge? Where is the knowledge we have lost in information?” – Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”.

 

A IMPORTÂNCIA DA COMPLEXIDADE

A reflexão sobre a complexidade de Edgar Morin (que se aproxima de completar cem anos) leva-nos a entender a célebre afirmação de Pascal: «considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, mas tenho por não menos impossível a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes». Há, assim, um vai-e-vem em que se funda a diligência de conhecer. E é esta preocupação que nos permite articular o uno e o múltiplo, o próximo e o distante, a teoria e a experiência… De facto, a complexidade está no coração da relação entre o simples e o complexo porque uma tal relação é a um tempo antagónico e complementar. A ciência funda-se não só no consenso como no conflito. Ao mesmo tempo, evolui a partir de quatro colunas fundamentais: a racionalidade, o empirismo, a imaginação e a verificação. Sabemos que há um diferendo permanente entre o racionalismo e o empirismo. As novas descobertas empíricas e o experimentalismo foram pondo em causa, de diversas maneiras, as construções racionais – que permanentemente se reconstituem e reconstroem constantemente a partir de novos elementos e fatores. Ao salientarmos a importância das Humanidades, entendemos que a complexidade não é uma receita, mas um apelo à civilização das ideias. De facto, «a gigantesca crise planetária é a crise da humanidade que não consegue aceder à humanidade». Duas barbáries coexistem e agem sem contemplações: a que vem da noite dos tempos e usa a violência; e a barbárie moderna e fria da hegemonia do quantitativo, da técnica e do lucro. E ambas levam-nos ao abismo. Importa, pois, entender o que Hölderlin nos ensinou: «onde cresce o perigo, cresce também o que salva».

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de maio de 2021

 

“Portugal – Ser e Representação” de Miguel Real (Difel, 1998) constitui uma reflexão crucial, no conjunto de uma obra que atinge os quarenta anos de persistente labor intelectual.

 

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PERMANENTE INTERROGAÇÃO

Os quarenta anos de Escrita de Miguel Real correspondem a uma permanente interrogação sobre o tema dos mitos e da essência da cultura. Eis por que razão a sua obra tem de ser analisada a partir do seu sentido crítico e não apenas através de uma identificação simplificadora das glosas que tem desenvolvido, por exemplo, a partir de Teixeira de Pascoaes, Jorge Dias, António José Saraiva e Eduardo Lourenço. De facto, o elemento dominante encontrado pelo ensaísta no homem português de “ser o que não é”, leva-nos à compreensão de que a riqueza do pensamento de Miguel Real é a sua capacidade de pôr em causa os lugares comuns e de assumir a complexidade. Tal como refere José Gil, sobre o “ensaísmo trágico”, relativamente a Eduardo Lourenço, Miguel Real não segue os dois caminhos tradicionais do pensamento filosófico – ora partindo dos grandes conceitos, com o horizonte reconfortante e estável das sínteses, como em Kant e Hegel; ora exercendo a análise pura e direta da decomposição das noções. Miguel Real prefere os conceitos, encarados como “figuras simbólicas”, a partir da função ontológica do mito. Com efeito, aceita que há dois tipos de existência – a empírica e a mítica, mas é a segunda que estrutura a primeira e fá-la consistente. A mitificação do empírico conduz-nos ao primado do sentido crítico, não havendo confusão entre a invocação dos mitos, o seu efeito, e a respetiva aceitação. Eis por que são importantes os mitos que a sociedade produz, assumindo a dupla dimensão de integração e renovação. De facto, o mito evolui e adapta-se à realidade e, simultaneamente, contribui para fazer alterar a própria realidade. Não por acaso, M. Real faz da crítica literária o seu terreno de eleição, a fim de compreender melhor a capacidade criadora. É a busca da complexidade hermeneutica, ontológica e histórico-sociológica que o preocupa. O “imaginário português” é, assim, o campo de ação do analista, como fator de liberdade, de independência e de diversidade. Ao aventurar-se no lugar dos outros e no campo do ser o que não se é,  depara-se, tantas vezes, com uma menor compreensão daquilo que verdadeiramente põe em causa. Pode, assim, aplicar-se-lhe o que Eduardo Lourenço afirma em “Heterodoxia – I”: “o homem é livre de aceder a uma visão geral da vida através duma reflexão incondicionada, cuja essência consiste na possibilidade de recusar ou discutir toda a espécie de postulados”. Por isso a distância em relação à ideia de sistema, e a evidente preferência pelo método ensaístico, tal como preconizado por Sílvio Lima. E assim eis-nos perante a interrogação exigente sobre o modo como somos e como imaginaríamos ou deveríamos ser. Daí uma especial coerência em recusar os temas circunstanciais ou as ilusões da moralidade – o que se evidencia nas incursões romanescas, com evidente sucesso, em que a singularidade dialoga com a comunidade, sem pretensão de uma qualquer conclusão edificante.

 

QUALIDADES E DEFEITOS…

Portugal é visto com qualidades e defeitos, com avanços e recuos, com características próprias, as mais das vezes contraditórias: a Providência e o anti-clericalismo; a unidade e a diversidade; o conformismo e o inconformismo; o lirismo e o picaresco, a tragédia e a ilusão. Afinal, urge denunciar o “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”, como lemos no autor de “O Labirinto da Saudade”. Longe da placidez das explicações unívocas, encontramos no caminho da nossa História: os gestos traumáticos da independência nacional; a longa hesitação do Mestre de Avis; o desastre de Alfarrobeira; a tragédia do Infante Santo; a morte da esperança do Principe Perfeito; a loucura de D. Sebastião; a ambiguidade do Quinto Império; o efeito do Ouro do Brasil; a partida da Corte para o Brasil; a humilhação do Ultimato inglês; o colonialismo; a neutralidade colaborante do Estado Novo… Tudo se projeta na vida coletiva, na gestação e desenvolvimento dos mitos. “Os Lusíadas” são uma genial ficção, em que Camões segue os passos de Virgílio e põe-nos na linhagem de Eneias e dos heróis de Tróia. É uma ficção grandiosa que não esconde a excecionalidade de uma evolução dificilmente explicável de uma “existência crepuscular”. De facto, só a crítica, do mito e pelo mito, pode tentar encontrar uma chave para esse encontro com o destino difícil de explicar.

 

EUROPA E LUSOFONIA

Os mitos da Europa e da lusofonia obrigam, no fundo, à interrogação paradoxal sobre o velho continente e as relações ancestrais ambíguas que o tempo tem procurado resolver: depois de a Europa nos ter feito e de nós termos feito a Europa é tempo de assumir criticamente um sonho, apesar do desencantamento que resulta do confronto com a realidade. Afinal, Portugal e a Europa fazem-se mutuamente, designadamente através de uma relação ibérica inteiramente nova e absolutamente necessária… É de uma reconciliação connosco próprios que falamos, deixando de nos sentirmos marginais ou sós – com uma garantia de segurança e liberdade. De facto temos “Duas Europas”: uma, a nossa (em conjunto com a Espanha), castiça, do sul, arrastada pela má consciência de termos sido grandes; e a outra nórdica, avançada e acelerada… Já a “lusofonia” corresponderá a um espaço de língua, que não significa espaço de cultura unívoca. Tratar-se-á sempre de uma ligação de geometria variável, em que as complementaridades e as imperfeições serão muito mais importantes do que qualquer falso sucedâneo imperial. E Miguel Real diz-nos que, como nó central do imaginário português, o sebastianismo é um ativo cultural gerado pela consciência popular. Fernando Gil diz ser a alucinação um operador natural da evidência. O que obriga a que a crítica do mito se torne aguilhão de maior exigência futura. Prova póstuma de existência e desafio à lucidez. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

                                         

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

 

74. UMA IDEIA DE EUROPA E DE CIVILIZAÇÃO EUROPEIA


Civilização define-se por oposição à barbárie. 

Traz em si um juízo de valor.   

Um conjunto de caraterísticas espirituais e materiais. 

Começa por significar um elevado nível de desenvolvimento espiritual e social.  

São tidos por civilizados os indivíduos polidos e bem-educados. São povos e culturas que usufruem de privilégios de um nível elevado e superior de desenvolvimento científico e tecnológico, cultural, espiritual, político e social.  

Uma civilização pode reunir várias culturas, sendo interdependentes reciprocamente em termos de um mínimo de denominador comum.  

A civilização é tida como o nível mais abrangente de identidade cultural.

Enquanto a cultura agarra mais de perto os valores próprios dos grupos que lhe são mais próximos (o biológico, a família, a tribo, a terra, a pátria, o país, a língua materna), a civilização é mais abrangente, englobando várias culturas, ocupando mais espaço e perdurando mais tempo, apesar das mudanças ocorridas no seu interior.   

Abrangendo múltiplas culturas no seu seio, uma civilização pode consagrar a solução da diversidade sem unidade, da unidade sem diversidade e da unidade na diversidade.   

Que dizer da Europa e da civilização europeia?  

Embora com elementos comuns a outras civilizações, há nela elementos que a particularizam, resultantes da sua longa temporalidade.  

Tem como principal base civilizacional a tradição greco-latina e judaico-cristã, a que acresce as navegações, a tradição revolucionária e liberal e a revolução industrial, com consequências a nível dos fundamentos políticos, económicos e técnicos, entre outros.  George Steiner, na palestra A Ideia de Europa, define-a em cinco axiomas: o café; a paisagem a uma escala humana que possibilita a sua travessia a pé; ruas e praças com nomes de artistas, cientistas, escritores e estadistas do passado; a herança dupla de Atenas e Jerusalém; as trevas que a ensombram, mesmo nas horas mais luminosas, de Auschwitz ao Gulag.

Considerando que mesmo as ideias mais abstratas têm de estar ancoradas na realidade, questiona-se: como é que isso se aplica à ideia de Europa?     

Responde num parágrafo célebre: 

“A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Estes vão da cafetaria preferida de Pessoa, em Lisboa, aos cafés de Odessa frequentados pelos gangsters de Isaac Babel. Vão dos cafés de Copenhaga, onde Kierkegaard passava nos seus passeios concentrados, aos balcões de Palermo. Não há cafés antigos ou definidores em Moscovo, que é já um subúrbio da Ásia. Poucos em Inglaterra, após um breve período em que estiveram na moda, no século XVIII. Nenhuns na América do Norte, para lá do posto avançado galicano de Nova Orleães. Desenhe-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos mapas essenciais da “ideia de Europa”.

Concebendo a Europa como uma identidade cultural, é a partir daqui que se deve pensar a civilização europeia e aquilo que deve ser a União Europeia, defendendo: 

“O génio da Europa é aquilo que William Blake teria chamado “a santidade do pormenor diminuto”. É o génio da diversidade linguística, cultural e social, de um mosaico pródigo que muitas vezes percorre uma distância trivial, separado por vinte quilómetros, uma divisão entre mundos. Em contraste com a terrível monotonia que se estende do ocidente de Nova Jérsia às montanhas da Califórnia”.    

É a defesa de uma solução de síntese: da unidade com diversidade.

E se o legado ontológico da Europa é o questionamento, perfilha a ideia de que a Europa ocidental pode “ter o privilégio imperativo de produzir, de pôr em prática, um humanismo secular”. E acrescenta: “Esta tarefa pertence ao espírito e ao intelecto”. 

Uma ideia de Europa e de civilização europeia que tenha como valores fundamentais a democracia, a tolerância e os direitos humanos.     

Exemplifica-o o ânimo espiritual e mental que permitiu a sobrevivência do pianista judeu-polaco Wladyslaw Szpilman, na segunda guerra mundial, com a imprescindível ajuda do oficial alemão Wehrmarcht Hosenfeld, retratado no filme O Pianista, de Polanski, ao som de Chopin, como se, naqueles momentos, a guerra não existisse, eclipsada pelo poder e força da música, unindo-os e libertando-os na adversidade, aliando  inesperadamente em dignidade, tolerância e na unidade com diversidade, duas pessoas oficialmente inimigas, fazendo jus a uma matriz europeia humanista e transversal.   

 

14.05.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .3

 

1. Ninguém pode negar que o cristianismo histórico é responsável por crimes, tragédias, barbaridades. Não duvido de que houve muitos para quem teria sido preferível não ter ouvido falar de Deus nem de Cristo, tantos foram os horrores cometidos em seu nome. Mas, no cômputo geral, estou convencido de que o positivo supera o negativo. Ainda hoje a Igreja presta serviços incalculáveis aos mais pobres e fracos em toda a parte... E é a multinacional do sentido, Sentido último.


Cito Antonio Piñero, grande especialista em cristianismo primitivo e agnóstico. Depois de declarar que Jesus afirmou a igualdade de todos enquanto filhos de Deus, escreve que, a partir deste fermento, “se esperava que mais tarde chegasse a igualdade social. Se compararmos o cristianismo com todas as outras religiões do mundo, vemos que essa igualdade substancial de todos é o que tornou possível que com o tempo se chegasse ao Renascimento, à Revolução Francesa, ao Iluminismo e aos direitos humanos. Isto quer dizer: o Evangelho guarda, em potência, a semente dessa igualdade, que não podia ser realidade na sociedade do século I. O cristianismo está, à maneira de fermento, por trás de todos os movimentos igualitários e feministas que houve na História, embora agora não o vejamos claramente, porque o cristianismo evoluiu para humanismo. Mas esse humanismo não se vê em religiões que não sejam cristãs. Ou porventura o budismo, por si, chegou ao Iluminismo? O xintoísmo? O islão? Os poucos movimentos feministas que há nas religiões estão inspirados na cultura ocidental. E a cultura ocidental tem como sustento a cultura cristã. Embora se trate de uma cultura cristã descrida, desclericalizada e agnóstica, culturalmente cristã.” O mesmo dizem muitos outros filósofos, incluindo agnósticos e ateus.


2. A pergunta é: Ainda será possível hoje ser cristão na Europa?


Tudo tem de começar por uma experiência, como sucedeu com os primeiros discípulos e comunidades. A experiência de abertura ao Mistério e à Transcendência e a oferta de esperança, alegria, futuro e sentido pleno para a existência. Essa experiência de vida humanamente realizada, na justiça, na solidariedade, no perdão, no combate por um mundo melhor, dá-se num encontro de fé em Jesus, que revela que Deus é Pai/Mãe, Amor incondicional e que dá a salvação, Sentido último. Mesmo os que já são baptizados, a começar por cardeais, bispo e padres, têm de perguntar a si mesmos se fizeram ou não esta experiência e se, através dela, podem responder: “Isto é bom para mim. Para mim”. Haverá conversão e começará então a verdadeira reforma da Igreja, que só pode ser uma Igreja de voluntários e que dá testemunho do melhor, do Evangelho, notícia boa e felicitante.


3. O cristianismo não é um sistema religioso nem pode ser uma obrigação, implica sim um caminho para uma vida com dignidade e sentido. Também não é, em primeiro lugar, um discurso, mas um percurso de vida. Como dizia Simone Weil, a filósofa mística, “onde falta o desejo de encontrar-se com Deus, não há crentes, mas pobres caricaturas de pessoas que se dirigem a Deus por medo ou por interesse.”


Mas o ser humano também é racional e, por isso, o cristão precisa de dar razões da fé e da  esperança. A fé não pode agredir a razão. Por exemplo, o modo como se tem apresentado o pecado original é incompatível com a evolução. Não se pode continuar a baptizar para “apagar a mancha do pecado original”. A morte de Jesus na cruz não foi querida por Deus, ofendido pelo pecado e exigindo uma reparação infinita. Isso contradiz o Evangelho: Deus é Amor. O que é pecado? O que prejudica as pessoas, o que lhes faz mal. Na celebração da Eucaristia, não se pode continuar a pregar de tal modo que subreptícia e inconscientemente se instala a ideia de uma presença física de Cristo: impõe-se entender a distinção entre presença física e presença real, pois é bem sabido que podemos estar fisicamente presentes e realmente ausentes, quando, por exemplo, não há amor. Só exemplos.


4. Jesus não fundou a Igreja-instituição que temos. Ele anunciou, por palavras e obras, o Reino de Deus, força de transformação do mundo a favor de todos, começando pelos mais frágeis e abandonados. É claro que não se pode ser ingénuo: alguma organização é precisa. O problema está em que, contra a vivência das primeiras comunidades, organizadas carismaticamente, se foi instalando uma organização de poder e já não de serviço. Na Igreja, sempre houve carismas, funções, serviços, ministérios. A ruptura deu-se, quando, contra o Novo Testamento, que até evitou a palavra hiereus (sacerdote que oferece sacrifícios), apareceram ministérios com uma ordenação sacra, que faz com que o padre e o bispo se transformem, dir-se-ia, ontologicamente, implicando uma distinção essencial, não só de grau, entre o “sacerdócio dos fiéis” e o “sacerdócio ordenado”. A Igreja ficou então dividida em duas classes: o clero, que manda, e os leigos, que obedecem.


Esta é a raiz da “peste” do clericalismo, pois só o sacerdote ordenado pode presidir à Eucaristia, só ele, “senhor de Deus”, perdoa os pecados..., e a autoridade na Igreja pressupõe a ordenação sacra. Esta sacralização levou à lei do celibato e à exclusão das mulheres...


É urgente a renovação da Igreja como instituição, mas ela estará bloqueada enquanto se não superar o equívoco da ordenação sacra. Devem existir ministérios ordenados — na Igreja é preciso um ordenamento —, mas sem ordens sacras.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 MAR 2021

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .2

 

1. Pergunta-se: o que se passou para que o jesuíta Victor Codina tenha podido escrever, num estudo sobre Ser Cristiano en Europa?, que estamos a assistir a um colapso do cristianismo na Europa?


Realmente, os dados são preocupantes. Exemplos: na Espanha, o número de agnósticos e ateus supera o dos católicos praticantes. Na França, a maior parte da população já não é católica. Na República Checa, mais de 60% declaram-se ateus. Nos Países Baixos, na Noruega, na Suécia..., o número dos que se declaram sem religião ronda os 50% da população. E tudo indica que o número de católicos e dos que se confessam cristãos vá diminuindo na Europa em geral e é, de facto, notória a exculturação do cristianismo... Quanto à juventude, os números são alarmantes: “uma grande parte vive à margem da Igreja, que, para ela, se converteu numa pequena e estranha seita”. A situação reflecte-se na queda vertiginosa das vocações, com seminários vazios, muitas paróquias — o seu número aumentará sempre — não têm padre. E não é só “um inverno eclesial europeu”, assistimos também a um exílio de Deus...


Procurando causas. Quanto à Igreja-instituição, temos o impacto brutal dos escândalos clamorosos da pedofilia, bem como dos escândalos económico-financeiros e da corrupção no Vaticano. E, quando olhamos para as estruturas eclesiásticas, é inevitável a pergunta: onde está a simplicidade e a fraternidade exigidas pelo estilo do Evangelho? Acrescente-se o patriarcalismo, a exclusão das mulheres, o clericalismo, que é uma verdadeira “peste da Igreja”, como repete o Papa Francisco, implicando uma “estrutura perversa”, segundo G. Schickendanz. Há “um desfasamento teológico e cultural da doutrina e dos dogmas”, cujas formulações se devem à cultura helénica, longe da mentalidade moderna e pós-moderna. Acrescente-se “uma moral legalista e casuística, proveniente de uma antropologia dualista, pré-moderna, pouco personalista, muito centrada no sexo, que utiliza a pastoral do pecado e do medo do castigo para manter o povo cativo da Igreja.” Uma liturgia hierática, ritualista, ininteligível para a maioria dos fiéis, pouco ou nada participada. Para muitos, o cristianismo e a Igreja constituem “um déjà vu”, algo ultrapassado e em desuso; pior: para alguns, a Igreja é a personificação do pior da nossa cultura: “repressão, ânsia de poder, inquisição, censura, machismo, moralismo, ódio à vida, sentido de culpa e de pecado”.


Mais preocupante é que Deus se tornou longínquo, um estranho, “um Deus no exílio”, na expressão de L. Duch. No mundo da tecnociência, do consumo, do conforto, do hedonismo, do ter, do parecer e do aparecer, à volta de um “eu” desvinculado de toda a norma, entrou-se num imanentismo fechado, mais a-religioso do que anti-religioso, mas sem horizontes de transcendência: não interessa “o que vai para lá da vida quotidiana, do trabalho, do dinheiro, da comida, da saúde, do consumo, do sexo, do bem-estar e da segurança de uma velhice tranquila”. A vida é para gozar no sentido mais imediato do termo, na busca de uma juventude perene...


A pergunta é: E quando toda esta lógica é barrada, posta em causa? Isso constata-se agora, no meio desta catástrofe trágica da pandemia. De repente, um vírus invisível que invadiu o mundo todo, apoderando-se da Humanidade, veio travar e pôr em causa estes ideais. O mal-estar é deprimente, e a esperança está em que, depois de um interregno, a que uma vacina ponha termo, se volte à “normalidade”, isto é, ao ponto onde fomos apanhados, para podermos avançar outra vez na lógica na qual se vivia. Ainda se não pensou profundamente sobre a impossibilidade deste raciocínio e seus pressupostos. De facto, já não se pode ignorar que o modelo anterior está posto radicalmente em causa. Porque é preciso entender que não é possível continuar o modelo tecnocrático de desenvolvimento ilimitado, que somos globalmente interdependentes, que o progresso tem de ter em conta as alterações climáticas, a biodiversidade, e avançar, portanto, segundo um modelo coerente com a urgência de “uma ecologia integral”, para utilizar a expressão feliz do Papa Francisco: o grito da Terra e o grito dos pobres, clamando por uma humanidade justa.


2. Mas também pode acontecer que as pessoas, confrontadas com o abismo da existência, com a morte, parem e reflictam, indo ao encontro do essencial, das perguntas últimas, do Mistério vivo e acolhedor. Vêm-me à memória palavras luminosas do grande Václav Havel, que constatou: “Estamos a viver na primeira civilização global”. Acrescentou: “Mas também vivemos na primeira civilizaçãoa ateia, isto é, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade.” As consequências disso: uma civilização obstinada em perseguir objectivos a curto prazo”, “o que é importante é que um investimento seja rentável em 10 ou 15 anos” e não os efeitos dentro de 100 anos. Depois, “o orgulho”, a hybris dos gregos. Por isso, suspeitava que “a nossa civilização caminha para a catástrofe”, a não ser que cure “a sua miopia e a sua estúpida convicção de omnisciência, o seu desmesurado orgulho”. Achava que “o desenvolvimento desenfreado de uma civilização deliberadamente ateia deve alarmar-nos”. Considerava-se apenas meio crente, mas com “a certeza de que no mundo não é tudo apenas efeito do acaso” e convencido de que “há um ser, uma força velada por um manto de mistério. E é o mistério que me fascina”. “A transcendência é a única alternativa à extinção.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 FEV 2021

FIM DO CRISTIANISMO NA EUROPA? .1


Quem nasceu num contexto de cristianismo tradicional talvez nunca se tenha dado verdadeiramente conta do que o cristianismo significou na História.

 

1. Na sua base, está Jesus de Nazaré, que nasceu uns 4 ou 6 anos antes da nossa era — isto deve-se a um engano do monge Dionísio, o Exíguo, encarregado de estabelecer no século VI o novo calendário. Filho de Maria e de José, teve uma juventude despercebida, trabalhou duramente em vários lugares como artesão. Foi discípulo de João Baptista, por quem foi baptizado, mas fez uma experiência avassaladora de Deus como Abbá (querido Papá), que o chamava a anunciar e a testemunhar o seu Reino, o Reino de Deus, Reino da verdade, da justiça, do amor, da alegria para todos. Uma notícia boa e feliz. A vida pública foi curta.


Em Jesus, o Reino de Deus estava actuante. Preocupou-se com a saúde das pessoas, com que não passassem fome. Curou doentes, física e psiquicamente doentes. Comia com prostitutas e pecadores públicos. A causa de Deus é a causa dos seres humanos e, por isso, proclamava com os profetas estas palavras postas na boca de Deus: “Ide aprender: eu não quero sacrifícios, mas justiça e misericórdia”. Ousava declarar: “O Sábado é para o Homem e não o Homem para o Sábado”: a saúde, a justiça, a misericórdia estão acima do culto. Por isso, entrou em conflito com  o Templo, os sacerdotes, os escribas, os doutores da Lei... Assim, Jerusalém e Roma uniram-se, numa coligação de interesses religiosos e imperiais, para o crucificar. Ele podia ter negociado, mas não: foi até ao fim, para dar testemunho da Verdade e do Amor.


Os horrores da crucifixão não têm descrição. Os romanos consideravam-na tão humilhante que só a aplicavam aos escravos e estrangeiros. “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, rezou Jesus, sempre confiante: “Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito”. 


2. Aparentemente, foi o fim. O enigma da história do cristianismo é como é que os discípulos, que tinham voltado, desiludidos, às suas vidas, pouco tempo depois estavam outra vez reunidos e foram anunciar que aquele Jesus crucificado é o Cristo, o Messias salvador. O que é que se passou naquele intervalo?


Como escreveu J. Duquesne, a História não pode dizer se Jesus está vivo ou se morreu para sempre, “o que pode dizer é que se passou alguma coisa naqueles dias, um acontecimento que, abalando aqueles homens e mulheres, abalou o mundo.” A ressurreição, mistério central do cristianismo, não é um facto verificável historicamente, ela é um “obscuríssimo mistério”, como diz o filósofo e teólogo Andrés Torres Queiruga. Na sua obra célebre A verdadeira história de Jesus, E. P. Sanders, da Universidade de Oxford, conclui que é muito o que sabemos do Jesus histórico. “Nada é mais misterioso do que a história da sua ressurreição”, mas “sabemos que, depois da sua morte, os seus seguidores fizeram a experiência de algo que descreveram como a ‘ressurreição’: a ‘aparição’ de uma pessoa, que tinha realmente morrido, agora viva, mas transformada. Eles acreditaram nisso, viveram-no e morreram por isso.” Neste processo, criaram um movimento que cresceu e se estendeu pelo mundo. “Sabemos quem Jesus era, o que fez, o que ensinou e porque morreu; e, talvez o mais importante, sabemos como inspirou os seus seguidores, que, por vezes, não o entenderam, mas que lhe foram tão fiéis que mudaram a História.”


Essa experiência pessoal do Jesus vivo foi igualmente tão avassaladora para São Paulo que ele, de perseguidor dos cristãos, se tornou apóstolo, fez milhares e milhares de quilómetros, incansavelmente, a pé, a cavalo, de barco, para levar a Boa Nova de Jesus, o Crucificado-Vivente, desde a costa sul da actual Turquia, a bacia do mar Egeu (Filipos, Tessalónica, Atenas, Corinto), até Roma e projectando ir à Hespanha...


Mas São Paulo, na história do cristianismo, não é só fundamental pela universalidade que lhe deu. O seu papel decisivo consiste também na reflexão crítica sobre a identidade da fé cristã e as consequências sócio-políticas da sua verdade: Deus, ressuscitando Jesus, revela que está com Ele, com a sua mensagem do Evangelho, que é ele que tem razão. O teólogo François Vouga viu bem, quando escreveu que a ressurreição de Jesus, o crucificado, “implica uma revolução do olhar sobre a pessoa humana”. “Se realmente Deus se revelou como o Pai de um crucificado que perdeu tudo quanto um ser humano pode perder para lá da adopção de Filho, é claro que as linhas de separação religiosas, culturais e sociais pertencem agora a um mundo ultrapassado. A universalidade deve ser pensada como o reconhecimento individual de cada sujeito humano, sejam quais forem a sua nacionalidade, as suas pertenças, o seu sexo: “Já não há nem judeu nem grego, nem escravo nem livre, nem homem nem mulher” (Carta aos Gálatas 3, 28). Por isso, “ninguém, nem em Israel, nem na Grécia, nem em Roma, poderia, por exemplo, imaginar que mulheres ensinem, presidam à Ceia do Senhor ou sejam enviadas de uma cidade a outra como apóstolas”.


3. Foi pelo cristianismo que veio ao mundo a ideia de pessoa e da sua dignidade inviolável.


Lentamente, o cristianismo estendeu-se por toda a Europa, e a Europa foi cristã até aos séculos XVII-XVIII. O que se passou para que, num trabalho recente, o jesuíta Victor Codina, possa escrever: “Assistimos agora na Europa a um verdadeiro colapso da fé cristã..., o cristianismo é culturalmente irrelevante e foi exculturado. É um inverno eclesial europeu.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 FEV 2021

A VIDA DOS LIVROS

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   De 2 a 8 de novembro de 2020


Comemorou-se em Faro na última semana os 15 anos da Convenção-Quadro sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea celebrada no âmbito do Conselho da Europa, cuja génese recordamos.

 

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DISCURSO HISTÓRICO

Ao falar na Universidade de Zurique, em setembro de 1946, Winston Churchill apelou para “uma espécie de Estados Unidos da Europa”. Do que se tratava não era de repetir a experiência histórica de além-Atlântico, mas de pensar as bases de um acordo estável de paz no velho continente, de modo a evitar a repetição das causas dramáticas que tinham conduzido aos conflitos europeus do século XX. É verdade que a Europa viveu muitos séculos mergulhada em conflitos internos, mas nenhum tinha tido expressão mundial, com as consequência tremendas em vítimas e destruição como aquele terminado em 1945. Sobretudo, havia que lembrar o que tinha sucedido depois do Tratado de Versalhes de 1919, em que a humilhação dos impérios vencidos tinha dado lugar a uma vingança, ainda mais sangrenta e destruidora do que o conflito provisoriamente terminado em 1918. Mas, segundo Churchill, havia que saber como começar. E a esta pergunta procurou responder, dizendo que tinha uma proposta que iria deixar perplexos os seus ouvintes. “A primeira etapa para a recriação da família europeia seria uma parceria entre a França e a Alemanha”. De facto, não poderia haver um ressurgimento da Europa sem uma França espiritualmente grande e uma Alemanha também espiritualmente significativa. E o apelo de Churchill para a reconciliação entre a França e a Alemanha Ocidental, como prelúdio de uma Europa unida, era feito sob a sombra de um “horrível agente de destruição”. E esse era a bomba atómica e o conflito nuclear. A ser utilizada pelas nações em guerra, a bomba não só poria fim a “tudo o que chamamos civilização”, como poderia ter um efeito destruidor de todo o globo e da humanidade. Daí a urgência em procurar acabar com um conflito ancestral entre as duas nações da Europa Ocidental. O processo teria de começar imediatamente, e corresponderia a uma nova organização de paz. Mas não seria suficiente apenas um processo de reconciliação na Europa. Esse trabalho difícil exigiria “amigos e patrocinadores”, a começar na Grã-Bretanha e na Comunidade Britânica, bem como nos poderosos Estados Unidos da América, acrescentando ainda, que se esperaria que a Rússia Soviética também devesse colaborar, para que tudo pudesse funcionar estavelmente. Churchill teve, alás, a preocupação de se referir à União Soviética não como um permanente adversário, mas como um parceiro potencial. O certo é que, apesar da surpresa, a ideia de Winston Churchill foi, no essencial, bem recebida, apesar de dúvidas e perplexidades. Em bom rigor, Churchill lançava para o tabuleiro diversas pistas, desde uma grande organização intergovernamental para cuidar dos direitos humanos e da cooperação económica até àquilo que veio a ser, por outro lado, uma organização supranacional de tipo novo, correspondendo à ideia de um Mercado Comum, mais do que uma mera união aduaneira, ao qual o Reino Unido aderiria apenas na década de 1960.

 

ANTECIPANDO A COOPERAÇÃO

Foi este discurso que antecipou a necessidade de um Conselho da Europa, mas pressupôs a criação de condições de equilíbrio de poderes no velho continente. Daí a defesa da participação da Alemanha Ocidental num projeto que permitisse ao centro da Europa defender-se das ambições da União Soviética e do bloco de leste. Se nos anos 1919 e 1920 a Sociedade das Nações (SDN) saíra de uma ideia de democratização, a verdade é que a solução encontrada não deu a resposta que se exigiria, originando o contrário do pretendido – a vitória dos totalitarismos. Com os seus oito pontos, a Carta do Atlântico de 1941 foi, com mais realismo, o complemento dos catorze pontos da declaração W. Wilson. Para estabelecer uma relação democrática duradoura importaria que em cada país o poder fosse exercido por força democráticas, com pluralismo e eleições livres, com alternância no poder – e as características do Estado de direito: primado da lei (rude of law); e a legitimidade da origem e do exercício. Se a solução da SDN tinha falhado, haveria que encontrar um quadro institucional estável que não só prevenisse os conflitos, mas também que definisse um quadro democrático, de nível interno e externo - a começar nas Nações Unidas (ONU), como um sistema de freios e contrapesos, a completar nas organizações de cooperação e de defesa da democracia e dos direitos fundamentais nos diversos Continentes. Como defendera Kant, no seu ensaio sobre a “Paz Perpétua”, haveria que tornar coerente a organização interna e a sua inserção internacional no sentido da salvaguarda da paz e do respeito mútuo entre os cidadãos.

 

O CONGRESSO DE HAIA DE 1948 

Devido à iniciativa de diversos movimentos federalistas, o Congresso da Haia reuniu em maio de 1948 mil delegados representando dezanove Estados e alertou as opiniões públicas para a necessidade de haver um esforço comum europeu. A Mensagem aos Europeus adotada pelo Congresso é um manifesto vigoroso, no qual se fazem sugestões precisas: a criação do Tribunal Supremo encarregado de pôr em prática a Carta Europeia dos Direitos Humanos, uma Assembleia europeia de representantes das forças vivas das nações, assim como a criação um Centro Europeu da Cultura. O Conselho da Europa, cujo Estatuto foi assinado um ano mais tarde, criando-se o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos e a Convenção com o mesmo objetivo, naturais corolários das recomendações do congresso Europeu da Haia. Assim, os fundadores do Conselho da Europa ensaiaram o esforço de dar vida a um ideal de cooperação europeia. Apesar de haver perspetivas mais avançadas e outras mais cautelosas, o Conselho da Europa surgiu como um verdadeiro percursor do ideal europeu – sendo a primeira organização a consagrar uma representação parlamentar ao lado da representação dos governos. Apesar de tudo, a regra da unanimidade limitou a influência do Conselho da Europa no velho continente. No entanto, se as perspetivas poderiam parecer favoráveis na Europa do fim da Guerra (1945), dois anos depois, os vencedores estavam desunidos, havendo dois blocos hostis em confronto, emergia um modo de guerra, diferente do habitual, designado como “guerra fria”, com dois blocos de superpotências (EUA e URSS). É o tempo do Plano Marshall, que visava assegurar a reconstrução das economias do continente europeu e que permitiu um reforço da coperação entre os países do velho continente. Daí o Tratado de Washington de 16 de abril de 1948 e a constituição da Organização Europeia de Cooperação Económica (OECE), hoje OCDE, Organização de Cooperação e Desenvolvimento Económico, já com um âmbito não exclusivamente europeu. O ressurgimento da Europa vai, pois, corresponder à assistência externa na reconstrução, mas também a um movimento de unificação completamente novo na história do continente. No plano militar, o Tratado de Bruxelas (17 de março de 1948) e o Pacto do Atlântico (4 de agosto de 1949) completaram a cooperação no velho continente, numa perspetuiva integrada. Se a ideia é antiga, vinda sobretudo da reflexão utópica do Duque de Sully, Abade de Saint-Pierre, de Condorcet, Saint-Simon ou Coudenhove Kalergi e de outros precursores, como Aristide Briand, foi sobretudo o efeito da guerra que obrigou a gestos concretos de sobrevivência, centrados na igualdade entre Estados, na cooperação reforçada, envolvendo vias complementares – a intergovernamental, no Conselho da Europa e supranacional nas Comunidades Europeias e hoje na União Europeia.

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

22. PENSAR EM GRANDE

Continente pequeno, cheio de pequenos e médios países, eis a Europa.

Ultrapassada uma visão imperial e eurocêntrica, o seu futuro depende, cada vez mais, da capacidade de pensar em grande, em especial para países como Portugal.

Pequenos ou médios países, como o nosso, usualmente não iniciam guerras, são mais moderados e menos arrogantes e cínicos que os maiores.

Tendo como referência o índice de desenvolvimento humano de 2019, há onze pequenos e médios países entre os quinze mais desenvolvidos, nove deles europeus: Noruega, Suíça, Irlanda, Islândia, Suécia, Singapura, Holanda, Dinamarca, Finlândia e Nova Zelândia, ocupando Portugal a quadragésima posição, em 189 países, incluído no grupo de Estados com um padrão de crescimento muito alto, em termos globais. 

É uma vantagem a reter, não sendo necessário ser um grande país em termos territoriais e populacionais para se ter um índice de desenvolvimento elevado, estando provado que pequenos e médios países precisam de um ótimo ou bom sistema de ensino, incluindo bolsas, estudo e investigação no exterior, uma vez que a educação tem de compensar e suprir a pequenez e estreiteza dos horizontes paroquiais e locais.

Com a agravante de Portugal ter a particular vantagem de ter um passado visível, um historial memorável, em especial quando portugueses andaram por mares desconhecidos, achando novos mundos e povos, tendo como consequência atual ser a língua portuguesa a mais falada do hemisfério sul, e das mais faladas mundialmente, com mais falantes que o francês, alemão, italiano, russo, holandês, polaco, grego, entre tantas outras.     

Foi o mar, o Atlântico, que nos abriu as portas do mundo, que moldou a nossa identidade, pelo que Portugal não se esgota na Europa, embora nela se inclua, porque sua parte integrante, podendo usar a diplomacia como mediador entre várias potências ou países de várias latitudes onde deixámos raízes ou influência. 

São vantagens, mas também há desvantagens: os custos de transação dos pequenos e médios países podem ser mais elevados, o provincianismo e uma mentalidade paroquial são o inverso do ser moderado e pensar proporcionalmente em grande.

Fundamental, também, é construirmos um pensamento crítico de renovação cultural e científica, renunciando a autoritarismos totalitários e repressivos de sufocamento estrutural em termos culturais, sociais e económicos, abrindo-nos à criação e inovação, pondo de lado interpretações e retóricas estereotipadas.

Há que pensar em grande, com equilíbrio e bom senso, por confronto com a nossa posição geográfica, dimensão física e imaterial, em conjugação com o princípio da adequação e da proporcionalidade, excluindo uma construção mitificada da nossa história.

 

10.07.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

52. A EUROPA QUE QUIS SER EUROPA E NÃO FOI

 

Houve sempre tentativas de unidade europeia que se frustraram.   
Unidade que foi simbolizada pela República Cristiana, e falhou. 
Pelo império de Carlos Magno, fragmentando-se com a sua morte.  
Carlos V também quis ser Europa, e não foi.
Napoleão ambicionou ser Europa, e não foi.
Hitler desejou ser Europa, e não foi.   
Para além do falhanço de uma tentativa saxónica de poderio continental, que levou à guerra dos 100 anos, do expansionismo germânico, com Frederico da Prússia, do império Austro-Húngaro, de Bismark e Guilherme II, invasões da França e da Rússia, de vindas de eslavos para o ocidente. 
Todos falharam, ao pretenderem conquistar ou exercer hegemonia sobre os demais.
Contra tudo, vingou o princípio das nacionalidades, face ao qual os países não mudam os seus objetivos permanentes, nem o seu contexto físico ou configuração geográfica. Há, no presente, uma tentativa de unidade: a União Europeia. 
Num mundo cada vez menos eurocêntrico, num ocidente em crise e numa Europa em declínio.  
Em que há uma crise de liderança europeia.
Com os líderes europeus olhando em demasia para o seu umbigo. 
Em que a França conta na Europa, cada vez menos, como uma média potência imperial.
A Alemanha por ter relações relevantes com os países do leste europeu. 
A Inglaterra por ser ponto de referência dos Estados Unidos da América. 
Em que Portugal deve ter uma visão europeísta e atlantista.
Estará a UE à altura dos desígnios dos seus pais fundadores? 
Estará a UE disponível a superar os seus egoísmos económicos e financeiros, perante a pandemia vigente, criando um mecanismo solidário de entreajuda? 
Até agora, perante a realidade do coronavírus (da COVID 19), são mais as promessas que os resultados.   
Cada país, no essencial, age por si, por sua conta e risco.
Se tomarmos como referência as tentativas históricas frustradas da Europa que quis ser Europa e nunca o foi, nada haverá de novo na UE.
Se tivermos como orientação as clivagens permanentes quando há crise, agudizadas pela gravidade global do atual contexto, haverá algo de novo a esperar?   
Será o salve-se quem puder, cada um por si, o melhor que puder?
Uma solução excecional para uma situação excecional? 
Oxalá!? Esperamos que sim!? 
O amanhã di-lo-á.  

 

22.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício