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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

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De 13 a 19 de junho de 2016

 

O último número de «Heritage in Action», órgão de «Europa Nostra», assinala a realização do Congresso Europeu do Património, e os quarenta anos da Hispania Nostra, instituição irmã do Centro Nacional de Cultura na defesa e salvaguarda do património cultural, material e imaterial.

Heritage in Action

 

 

LEMBRAR A BATALHA DE LEPANTO

 

Quando entramos no Palácio dos Marqueses de Santa Cruz, na Calle de San Bernardino, em Madrid, próximo da Calle de la Princesa, deparamo-nos de um lado e de outro da escadaria principal com as imponentes lanternas decoradas com golfinhos tomadas à Armada turca na Batalha de Lepanto (1571) pelo Capitão das Galeras de Espanha, D. Álvaro Bazán y Guzmán, primeiro Marquês de Santa Cruz. Álvaro, o atual Marquês, velho amigo de combates pelo Património Cultural na Europa Nostra, com a hospitalidade de diplomata irrepreensível, faz questão de explicar com pormenor cada uma das preciosidades que aquela fantástica casa alberga. É um edifício típico do século XVIII, com fachada neoclássica, que corresponde à reunião de três solares e se tornou morada da família no último quartel do século XIX. Mais do que das coisas extraordinárias, a alma de uma casa alimenta-se sobretudo de memórias que várias gerações foram transmitindo. As dedicatórias dos Reis de Espanha à Marquesa D. Casilda, mãe do amigo que nos acolhe, falecida há poucos anos, são prova de admiração, afeto e de reconhecimento de um trabalho intenso e persistente na defesa de um património que ilustra a História de quase cinco séculos. Se a vitória de D. João de Áustria no Mediterrâneo é a referência maior e primeira, a verdade é que há muitos outros acontecimentos relevantes e que merecem atenção. Em Lepanto os portugueses estiveram ao lado dos vencedores. Mas a vitória não enfraqueceu, por diversas circunstâncias políticas e arranjos imediatos, o império turco – ao contrário do que esperariam os estrategas envolvidos. Foi, aliás, essa vitória que levou o nosso rei D. Sebastião a encontrar motivos fortes para aventurar-se, do modo imprudente como o fez, em Marrocos, numa intervenção que terminaria tragicamente em Alcácer Quibir. Com cuidado e a simpatia de uma cumplicidade sincera e antiga, o meu Amigo Álvaro recorda a vitória importante de seu antepassado nos mares dos Açores, à frente da Armada do nosso Filipe I, contra D. António, Prior do Crato, o derradeiro resistente na crise dinástica. Mas falamos ainda de como os Bazán conservam as chaves de Tunis, desde o tempo do pai do primeiro Marquês, aquando da conquista da cidade pelas tropas de Carlos V, em 1535. E não podemos deixar de referir o funesto acontecimento que vitimou ambos os povos peninsulares, aquando da «Invencível Armada».

 

 

AS CASAS TÊM ALMA

 

Entrando nas salas do Palácio, sentimos uma residência vivida, onde coexistem quadros e objetos históricos e arte contemporânea. Goya está bem presente nas paredes de San Bernardino – desde o retrato do segundo Duque de San Carlos, ministro de Estado de Fernando VII, a quem acompanhou no exílio, até à invocação de S. Francisco de Borja (o fidelíssimo servidor da Imperatriz Isabel de Portugal, de quem Sophia disse - «Nunca mais / A tua face será pura limpa e viva / Nem o teu andar como onda fugitiva / Se poderá nos passos do tempo tecer»), sem esquecer os ambientes silvestres de um «Baile no Campo» e de uma «Merenda». Em frente de um célebre retrato da Rainha Vitória Eugénia, com manto de arminho (1908), de Joaquin Sorolla, percebemos a força singular do grande pintor. Está aqui uma das obras-primas de um artista que os historiadores de arte continuam a considerar um exemplo referencial do naturalismo. Cada quadro de Brueghel ou de Van Dyck, de Lucas Jordan, de Carreño de Miranda ou de Madrazo, cada peça de porcelana, cada tapeçaria, cada medalhão tem uma história - que é apenas a ponta de um iceberg num acervo documental riquíssimo, que D. Casilda e seus filhos, a começar no meu amigo Álvaro Santa Cruz, sempre fizeram questão de preservar e de pôr ao serviço dos investigadores e ao acesso do público. Basta apenas recordar que, além da ação do velho Almirante, a família obteve o privilégio do exclusivo do serviço de correio com as Américas… Afinal, o património cultural não é algo de distante e inacessível, faz parte da vida.

 

 

DEFESA DO PATRIMÓNIO CULTURAL

 

A minha vinda a Madrid teve a ver com a realização do Congresso Europeu do Património Cultural, promovido pela Europa Nostra, aproveitando a celebração dos quarenta anos da «Hispania Nostra». Álvaro Santa Cruz tem sido um exemplo de persistência e de uma rara coerência no tocante à defesa do património histórico, não encarado como realidade estática e retrospetiva, mas como fator dinâmico – na linha do que hoje se encontra consagrado na Convenção de Faro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (27.10.2005). Foi, por isso, justíssima a homenagem que foi prestada no Teatro da Zarzuela, onde lhe foi entregue a medalha de ouro da Europa Nostra por Plácido Domingo, presidente da instituição. Aliás, nessa ocasião, foram entregues os prémios europeus a dois projetos portugueses, que se destacaram pela grande qualidade, num certame em que houve uma afluência excecional de concorrentes de excecional qualidade. A Catedral e o Museu Diocesano de Santarém tiveram obras de conservação e restauro na fachada e interior, envolvendo pinturas, esculturas, objetos de culto e a consolidação arquitetónica – o que foi realizado com grande qualidade, devendo ser exemplo para situações semelhantes, designadamente para valorização da importante Rota das Catedrais. Deve, aliás, referir-se a obra sobre as «Catedrais Portuguesas», de grande qualidade, há pouco editada pelos Correios de Portugal. Foi ainda reconhecida a grande importância do projeto educativo sobre Desenvolvimento Sustentável no Planalto de Mourela, no Parque Nacional Peneda-Gerês. Para o júri: «este projeto é uma maravilhosa combinação de preservação do património material e imaterial, no âmbito da proteção do meio ambiente…». Estes dois prémios europeus para Portugal são motivo de regozijo, mas também de responsabilidade. E não poderemos esquecer ainda que a Europa Nostra está envolvida diretamente no incentivo a dois projetos de grande importância entre nós, no Convento de Jesus de Setúbal e nos Carrilhões do Convento de Mafra – tendo ainda recomendada a urgente recuperação do Palácio Valflores em Loures… O património cultural obriga a uma conceção que ligue a sua defesa e salvaguarda ao desenvolvimento humano. Cultura e economia ligam-se, assim, intimamente - percebendo-se que só a inovação no campo das ideias enriquece um entendimento dinâmico da criação de riqueza, não confundível com o curto prazo ou o imediatismo, com a indiferença e consumismo. Se a recente crise financeira deixou uma lição clara - essa foi a da necessidade de não confundir a ilusão sobre a riqueza com a exigência de ligar a capacidade de criação à satisfação das necessidades comuns. Como disse Octávio Paz: «hoje a cultura e as artes estão ameaçadas não por uma doutrina ou uma ideologia, mas por um processo económico fechado, sem rosto, sem alma e sem direção». Eis por que razão os exemplos são essenciais.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

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De 29 de junho a 5 de julho de 2015.


«Cultural Heritage counts for Europe» (2015) é um documento que merece uma atenção especial. Foi elaborado sob a égide da «Europa Nostra» e constitui um guião que deverá ser seguido para que a política cultural e a proteção do património, da herança e da memória sejam adequadamente salvaguardados em nome da capacidade criadora de valor.

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O CONGRESSO DA EUROPA NOSTRA
O Norske Selskab é uma referência na história norueguesa. É um antigo clube literário e cívico, fundado por estudantes noruegueses na Dinamarca em 1772, cujos membros participaram ativamente na redação da Constituição da Noruega, assinada em 17 de maio de 1814 em Eidsvoll, pequena cidade histórica ao norte da antiga Christiania, hoje a capital Oslo. A lei fundamental foi inspirada, como se sabe, na Declaração de Independência dos Estados Unidos (1776) e nos ideais da Revolução Francesa, iniciando a sua vigência no começo da união pessoal com a Suécia, depois de uma ligação ancestral à Dinamarca, desde 1381. Só em 1905 a Noruega alcançaria a independência total, sempre sob a inspiração da Constituição de 1814. E foi impressionante ver a melhor coleção de pintura norueguesa detida por uma instituição particular, entre livros antigos e um ambiente de circunspeção e sabedoria. O Conselho da Europa Nostra reuniu-se este ano no «santo dos santos» desse clube de antigas tradições, na sala de jantar dominada pelo imponente quadro a óleo de Eilif Peterssen, de 1892, alusivo às origens da agremiação, em que os pais fundadores se apresentam com impecáveis indumentárias do século XVIII. Sendo certo que neste ano celebramos os oito séculos da «Magna Carta Libertatum», foi muito significativo que nos tenhamos encontrado nesse lugar histórico do constitucionalismo norueguês, no Congresso Europeu do Património Cultural, que se desenrolou em sítios tão emblemáticos como o Palácio da Cidade, onde todos os anos é entregue o Prémio Nobel da Paz, na Domus Academica e na Aula da Domus Media da Universidade de Oslo, entre as obras-primas de Edvard Munch «História» e «Alma Mater», bem como no Teatro Nacional (sob a inspiração de Ibsen e de Bjoernson) ou na Sociedade Militar… Entre as referências históricas do Norske Selskab e os alertas contra a destruição do património histórico do Médio Oriente, lembrámos a lição de T. S. Eliot e da misteriosa Elena Ferrante: «não há obra literária ou cultural que não seja fruto de uma tradição, de muitos talentos, de uma espécie de inteligência coletiva».


PATRIMÓNIO CULTURAL COMO PRIORIDADE
O tema do património cultural entra na ordem do dia no momento em que a crise financeira e as suas consequências revelam uma exigente necessidade de associar a inovação à criação de valor, em lugar da ilusão em torno da mera aparência de riqueza, apenas pelo crédito e pela circulação monetária, marca do risco da mediocridade contemporânea. Ora, em Oslo, no Congresso Europeu, foi apresentado, sobre este tema, um documento de grande relevância: o relatório intitulado «O Património Cultural conta para a Europa» (www.encatc.org/culturalheritagecountsforeurope), elaborado graças ao impulso da «Europa Nostra» (representada em Portugal pelo Centro Nacional de Cultura), com a participação da Rede Europeia da Gestão Cultural e da Política Cultural da Educação (ENCATC), da Associação de Cidades e Regiões Históricas (Heritage Europe), da «Heritage Alliance» do Reino Unido, do Centro Cultural Internacional de Cracóvia e do Centro Internacional Raymond Lemaire para a Conservação de Louvaina. Estamos perante uma reflexão muito séria, que se afasta claramente do entendimento que tem subalternizado o tema do Património Cultural, como pedra angular das políticas públicas de cultura. Em lugar de se entender o património de forma estática e retrospetiva, há um novo pensamento dinâmico sobre a herança recebida das gerações que nos antecederam, que devemos desenvolver, protegendo e salvaguardando o legado histórico e sabendo articulá-lo com a sociedade e a criação contemporâneas. A Convenção-Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural, assinada em Faro em 27 de outubro de 2005 e entrada em vigor em 1 de junho de 2011, demonstra, com meridiana clareza, que não pode haver uma política pública de cultura digna desse nome sem a defesa coerente e sistemática do património, da herança e da memória. Plácido Domingo, presidente da «Europa Nostra», lembra o que Albert Einstein teria dito: «nem tudo o que conta pode ser contado, e nem tudo o que pode ser contado conta». Neste sentido, urge uma ponderação muito séria sobre o que verdadeiramente conta. Longe da ideia de que a cultura é um adorno ou um luxo, do que se trata é de dar uma importância transversal à criação e à inovação, ligando-as à paz, ao desenvolvimento humano, à coesão social, à inclusão, à diferenciação, à educação e à ciência.


PRESERVAR A MEMÓRIA
Os monumentos, a paisagem, os arquivos, as bibliotecas, as cidades, as tradições imateriais constituem a matéria-prima por excelência da preservação séria da memória – de que nos fala Elena Ferrante. Lembramo-nos das campanhas de Garrett e Herculano. Não podemos deixar estragar ou destruir o que existe, devemos restaurar e valorizar o que recebemos, tornando-o acessível, divulgando-o, estudando-o e conservando-o. E devemos autonomizar as atividades criativas, constituindo um Conselho das Artes, estável, respeitado e não dependente dos ciclos eleitorais. O relatório fala-nos de dez pontos, que devemos ter bem presentes: o património cultural é uma componente-chave para o desenvolvimento, criação e competitividade de regiões, cidades, povoações e meios rurais; os países e as regiões europeus só poderão ganhar valor e atratividade (desde o turismo ao investimento económico) pelo património cultural; a criação de emprego, em especial nas pequenas e médias empresas e em áreas de grande potencial inovador, precisa da valorização do património cultural; estamos, pois, diante de uma importante fonte de criatividade e inovação, em especial pela necessidade de atrair novos públicos e de fazer participar os cidadãos; o património cultural gera riqueza, de que beneficiam todos os agentes económicos e, por via dos deveres fiscais, os próprios Estados; o património cultural ajuda à regeneração e ao ordenamento dos territórios; contribui em parte para a resposta aos desafios das mudanças climáticas pela lógica integrada em que intervém no urbanismo e nas construções; permite ainda garantir uma melhor qualidade de vida, tornando lugares de referência aprazíveis, enquanto fatores de uma melhor existência pessoal; o património cultural favorece a educação permanente, o melhor conhecimento e compreensão da história, do espaço e do tempo; e combina e articula diferentes fatores que melhoram o capital social, a coesão económica, social e territorial, favorecendo a confiança, a participação e o compromisso dos cidadãos. Deste modo, o «desenvolvimento sustentável» terá de envolver os domínios cultural, social, ambiental e económico. Daí cinco recomendações estratégicas, que passam pela transversalidade da cultura, pela avaliação do respetivo impacto, pela consideração de prazos alargados na ação, pela partilha e disseminação de informações e dados e pelo impacto e visibilidade desses procedimentos. Eis que o património cultural deve ter voz, significado e importância.

 

Guilherme d'Oliveira Martins