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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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LIVRO E EXPOSIÇÃO SOBRE ALMADA NEGREIROS

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A Câmara Municipal de Tavira e a Fundação Calouste Gulbenkian apresentam no Museu Municipal - Palácio da Galeria uma exposição subordinada ao tema “Mulheres Modernas Na Obra de José de Almada Negreiros”. Desde logo se saliente o interesse da iniciativa e a qualidade da mostra, que reúne um conjunto relevante de obras de Almada, aqui devidamente expostas, analisadas e documentadas num livro onde, além de estudos e documentação importante e pouco conhecida no conjunto, representa acervo notável de reproduções de numerosas obras exemplarmente documentadas por textos e escritos diversos do próprio artista evocado e homenageado.

 

Na introdução do livro, sobre a obra de Almada, salienta-se um conjunto de textos e estudos introdutórios de Jorge Botelho, Presidente da Câmara Municipal de Tavira, de Isabel Mota, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, de Jorge Queiroz, Diretor do Museu Municipal de Tavira e de Mariana Pinto dos Santos.

 

E seguem-se centenas de reproduções de obras de Almada Negreiros, devidamente “ilustradas” e enquadradas por textos do próprio Almada.

 

Porque Almada Negreiros é como bem sabemos um extraordinário artista plástico, um excecional dramaturgo, um notabilíssimo escritor: e tudo isto surge devidamente documentado neste vasto e notável livro-catálogo da exposição.

 

Evidentemente, o que mais sobressai na exposição e no livro é a reprodução do conjunto das pinturas e desenhos de Almada. Mas aqui, queremos sublinhar também os textos que convertem o catálogo numa verdadeira antologia da obra escrita de Almada Negreiros.

 

Salientamos então algumas referências a peças, a teatro e a cinema, a espetáculos, feitas pelo próprio Almada Negreiros e reproduzidas no livro:

 

«Deixa-me passar! Tira-te da minha vida! Já viram isto? Sentinela à vista! Toda a vida sentinela à vista! O meu íntimo devassado!» (in “Deseja-se Mulher”)

 

«De uma vez num passeio, o arco-íris foi quadrado até ao fundo dos raios x para lá do cavalo transparente numa continuidade cinematográfica contornando a apologia feminina sagradamente epiléptica em SS de cio todo realce e posse de reflexos.» (in “K4 O Quadrado Azul”).

 

«Uma noite encontrou-a num cine. Ela não devia tê-lo visto. Seria uma boa ocasião de observá-la desprevenida. Ela porém era invariável.» (in “Vera”)

 

«Um dia “La Argentinita” entra em cena pelo mesmo lado que as outras, faz o mesmo que as outras fazem, dá as mesmas voltas, o sapateado, as castanholas, os couplets, e tudo é diferente, saudável, genial. Nós ficamos com a opinião de que a Espanha artista tem estado mal representada até à chegada triunfante de “La Argentinita”» (in DL- 17.02.1925).

 

E muitas mais são as citações, e muitíssimas mais as reproduções que tanto valorizam este livro, notável “catálogo” da exposição do Palácio da Galeria de Tavira.

 

E a Tavira voltaremos.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

 

 

  

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há alguns anos, quando o Luís visitava uma exposição de pintura ou outra que lhe agradasse, carecia de ver logo certos filmes, ler ou reler determinados livros e ir a alguns espetáculos. Depois almoçávamos no restaurante do costume e quase em silêncio. Junto ao momento do café, normalmente o Luís respirava fundo e perguntava: vamos conversar?

 

- Pois é, há uns dias a esta parte, olha, desde a nossa visita à exposição x, que vejo que a vida se tem aproximado dos fundamentos daquilo a que chamaria uma cultura tradicional, uma cultura mole, assente na bancarrota da criação. Quase tudo é pouco mais do que uma forma de entretenimento secundário, ideias, ideais e valores e artes tudo numa dimensão comestível e confinada ao público que se diz de elite pensante. Depois, basta que estes digam que sim que o paladar é agradável, e transborda o êxito e a influência para o conjunto da sociedade. Deste modo chega-lhes também um sentido da vida e uma razão que entendem superior, uma razão até de mecenas e que transcende o mero bem-estar material. Pois é! Nunca se esteve tão desconcertado, sobretudo em relação às razões básicas, sem as quais o norte é a mera sobrevivência. Até a responsabilidade é volúvel e as ideias de progresso enganosas. Que fazer?

 

- Pois não sei, respondi. Sempre pensei que a razão última da cultura era dar uma resposta cabal a esse tipo de perguntas. Ainda assim desconheço se a clonagem não se voltou apenas para os grupúsculos vaidosos dos intelectuais de instantâneo.

 

Luís sei que sabes que os enclaves da vergonha feliz, se instalaram na opulência da ignorância e há muito que se sentem lá bem. Talvez por isso as pessoas virem costas à dureza dos tempos e aos hífens do ato de criar. Não sei, mas não é só por aqui que tudo passa. Os paraísos artificiais das vidas de cada um são tidos por boa marijuana que proporcionam boas e constantes férias do dia-a-dia.

 

- Continuando nos pois, pois, amanhã, e aproveitando estarmos aqui, vamos à exposição de Goya e, se estás de acordo, às seis da tarde não perdemos Mahler. Não podes ficar o resto da semana? É tão grande a solidão que tenho sentido. Desculpa ter dito. Não me quero em lamentos, todavia é muito bom conversarmos. Sabes? lembro-me constantemente de duas coisas: do medo e da felicidade. Custa-me dormir. 

 

Teresa Bracinha Vieira
Agosto 2017