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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XLIII - “A LÍNGUA PORTUGUESA EM NÓS”

 

Quer funcionando como a primeira pessoa no plural, quer no sentido da medida de navegação ligada ao movimento e à velocidade, quer significando o entrelaçamento de cordas, cordões, fios, linhas ou algo mais, a palavra “nós” possibilita múltiplas interpretações assumindo, pelo menos, um triplo sentido de leituras, como metaforicamente o pretende simbolizar a exposição “A Língua Portuguesa em Nós”, na Central Tejo, em Lisboa, entre 6 e 21 de outubro de 2018.

 

Sem fausto, deslumbramento, pompa e circunstância, esta exposição, de raiz brasileira, pretende informar, historiando ao sabor dos tempos e resumidamente, a história do nosso idioma, aí atualmente quantificado em 270 milhões de falantes. 

 

Na sua simplicidade, economia de espaço e meios, fala-nos da grande viagem, de viajantes, promotores e divulgadores da língua portuguesa, desde as navegações marítimas portuguesas e correspondente expansão pelo mar, até aos dias de hoje, com especial enfoque no contributo do Brasil, ou não fosse ela uma iniciativa brasileira, uma espécie de miniatura ou pequena amostra do Museu de Língua Portuguesa, de São Paulo, em recuperação, após o incêndio de 2015 (em parceria com o Governo do Estado de São Paulo, a Fundação Roberto Marinho, o Instituto da Língua Portuguesa, a Fundação EDP e o Instituto Camões). 

 

Por entre painéis, livros, vídeos, era digital, há uma espécie de puzzle onde sobressaem música, textos, culinária e a Cápsula, tendo esta a particularidade de recolher testemunhos individuais da fala, de cidadãos comuns, convidados a falar e gravar depoimentos em vídeo, expondo a sua relação com o nosso idioma, para integrar uma coleta de falares que farão parte do acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, Brasil.

 

Há a literatura, essa linguagem trabalhada, com frases, textos, referências a Camões, Vieira, Pessoa, Vergílio Ferreira, Sophia, Machado de Assis, Monteiro Lobato, Drummond, Guimarães Rosa, Nelson Rodrigues, Oswaldo de Andrade. 

 

E há a música do Brasil que se internacionalizou e tanto universalizou a língua portuguesa, a quem esta tanto deve, vindo-me à memória uma guia italiana, em Veneza, sem ligações lusófonas, que me surpreendeu pelo seu português tão bem falado, cujo porquê indaguei, respondendo-me que o aprendeu graças à música brasileira, que sempre amou, desde Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, João Gilberto, Jorge Ben, Betânia, Gal Costa, Elis Regina, Vinícius de Moraes, entre outros, como Mariza Monte, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, nomes que vamos reconhecendo no decurso da exposição.

 

Fala-se também de Agostinho da Silva, a propósito da canção de Caetano “Minha pátria é minha língua”, dando eco a uma nova cultura que emergiria dos falantes de português no Brasil e na África, que a Praça da Língua intenta difundir e promover.

 

Da culinária e do samba, naquele português com açúcar do Brasil, da fruta e sotaque doce, a que acresce a eterna viola e o violão. 

 

Reconhecendo ser o nosso idioma uma das línguas mais faladas no mundo, dando-lhe o estatuto de língua global, aparecendo entre as seis primeiras (por vezes em quarto ou quinto lugar, consoante as fontes), estranha-se que a população da Guiné Equatorial seja contabilizada para efeitos do número de falantes do português, decerto por arrastamento, dado ser um país membro da CPLP (sendo mera retórica, até agora, ser tido como um país que tem como língua oficial a portuguesa, embora  um pressuposto necessário para integrar a CPLP).

 

Na sua modéstia e contenção de custos, vale a pena a visita, embora merecesse voos mais altos, pelo valor estratégico que a língua portuguesa tem, sem esquecer as ameaças globais que a rodeiam, mesmo a nível interno e lusófono, não obstante uma língua global e a este nível ser enfatizada, em défice com a condição de língua ainda dominada a vários níveis institucionais (e não só), factualidade de que a exposição é omissa.    

 

14.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

LIVRO E EXPOSIÇÃO SOBRE ALMADA NEGREIROS

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A Câmara Municipal de Tavira e a Fundação Calouste Gulbenkian apresentam no Museu Municipal - Palácio da Galeria uma exposição subordinada ao tema “Mulheres Modernas Na Obra de José de Almada Negreiros”. Desde logo se saliente o interesse da iniciativa e a qualidade da mostra, que reúne um conjunto relevante de obras de Almada, aqui devidamente expostas, analisadas e documentadas num livro onde, além de estudos e documentação importante e pouco conhecida no conjunto, representa acervo notável de reproduções de numerosas obras exemplarmente documentadas por textos e escritos diversos do próprio artista evocado e homenageado.

 

Na introdução do livro, sobre a obra de Almada, salienta-se um conjunto de textos e estudos introdutórios de Jorge Botelho, Presidente da Câmara Municipal de Tavira, de Isabel Mota, Presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, de Jorge Queiroz, Diretor do Museu Municipal de Tavira e de Mariana Pinto dos Santos.

 

E seguem-se centenas de reproduções de obras de Almada Negreiros, devidamente “ilustradas” e enquadradas por textos do próprio Almada.

 

Porque Almada Negreiros é como bem sabemos um extraordinário artista plástico, um excecional dramaturgo, um notabilíssimo escritor: e tudo isto surge devidamente documentado neste vasto e notável livro-catálogo da exposição.

 

Evidentemente, o que mais sobressai na exposição e no livro é a reprodução do conjunto das pinturas e desenhos de Almada. Mas aqui, queremos sublinhar também os textos que convertem o catálogo numa verdadeira antologia da obra escrita de Almada Negreiros.

 

Salientamos então algumas referências a peças, a teatro e a cinema, a espetáculos, feitas pelo próprio Almada Negreiros e reproduzidas no livro:

 

«Deixa-me passar! Tira-te da minha vida! Já viram isto? Sentinela à vista! Toda a vida sentinela à vista! O meu íntimo devassado!» (in “Deseja-se Mulher”)

 

«De uma vez num passeio, o arco-íris foi quadrado até ao fundo dos raios x para lá do cavalo transparente numa continuidade cinematográfica contornando a apologia feminina sagradamente epiléptica em SS de cio todo realce e posse de reflexos.» (in “K4 O Quadrado Azul”).

 

«Uma noite encontrou-a num cine. Ela não devia tê-lo visto. Seria uma boa ocasião de observá-la desprevenida. Ela porém era invariável.» (in “Vera”)

 

«Um dia “La Argentinita” entra em cena pelo mesmo lado que as outras, faz o mesmo que as outras fazem, dá as mesmas voltas, o sapateado, as castanholas, os couplets, e tudo é diferente, saudável, genial. Nós ficamos com a opinião de que a Espanha artista tem estado mal representada até à chegada triunfante de “La Argentinita”» (in DL- 17.02.1925).

 

E muitas mais são as citações, e muitíssimas mais as reproduções que tanto valorizam este livro, notável “catálogo” da exposição do Palácio da Galeria de Tavira.

 

E a Tavira voltaremos.

 

DUARTE IVO CRUZ

 

 

 

 

  

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há alguns anos, quando o Luís visitava uma exposição de pintura ou outra que lhe agradasse, carecia de ver logo certos filmes, ler ou reler determinados livros e ir a alguns espetáculos. Depois almoçávamos no restaurante do costume e quase em silêncio. Junto ao momento do café, normalmente o Luís respirava fundo e perguntava: vamos conversar?

 

- Pois é, há uns dias a esta parte, olha, desde a nossa visita à exposição x, que vejo que a vida se tem aproximado dos fundamentos daquilo a que chamaria uma cultura tradicional, uma cultura mole, assente na bancarrota da criação. Quase tudo é pouco mais do que uma forma de entretenimento secundário, ideias, ideais e valores e artes tudo numa dimensão comestível e confinada ao público que se diz de elite pensante. Depois, basta que estes digam que sim que o paladar é agradável, e transborda o êxito e a influência para o conjunto da sociedade. Deste modo chega-lhes também um sentido da vida e uma razão que entendem superior, uma razão até de mecenas e que transcende o mero bem-estar material. Pois é! Nunca se esteve tão desconcertado, sobretudo em relação às razões básicas, sem as quais o norte é a mera sobrevivência. Até a responsabilidade é volúvel e as ideias de progresso enganosas. Que fazer?

 

- Pois não sei, respondi. Sempre pensei que a razão última da cultura era dar uma resposta cabal a esse tipo de perguntas. Ainda assim desconheço se a clonagem não se voltou apenas para os grupúsculos vaidosos dos intelectuais de instantâneo.

 

Luís sei que sabes que os enclaves da vergonha feliz, se instalaram na opulência da ignorância e há muito que se sentem lá bem. Talvez por isso as pessoas virem costas à dureza dos tempos e aos hífens do ato de criar. Não sei, mas não é só por aqui que tudo passa. Os paraísos artificiais das vidas de cada um são tidos por boa marijuana que proporcionam boas e constantes férias do dia-a-dia.

 

- Continuando nos pois, pois, amanhã, e aproveitando estarmos aqui, vamos à exposição de Goya e, se estás de acordo, às seis da tarde não perdemos Mahler. Não podes ficar o resto da semana? É tão grande a solidão que tenho sentido. Desculpa ter dito. Não me quero em lamentos, todavia é muito bom conversarmos. Sabes? lembro-me constantemente de duas coisas: do medo e da felicidade. Custa-me dormir. 

 

Teresa Bracinha Vieira
Agosto 2017