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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A PERGUNTA POR DEUS: UMA QUESTÃO INFINITA

  


Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.


Ora, as coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. "Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo, um 'creio que Deus não existe' e não um 'sei que Deus não existe'".


O chamado crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus nem a vida eterna, exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.


Evidentemente, sendo humanos e, portanto, racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração.


Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em Santo Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a opinião, a dúvida...


Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de fundamentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões, mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam. Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...


Aprofundando a conhecida diferença entre problema e mistério, estabelecida por Blondel e sobretudo por Gabriel Marcel, Pedro Laín Entralgo distinguia entre problema, enigma e mistério.


Problemas são aquelas questões que mais tarde ou mais cedo o Homem pode resolver. Assim, concluiu-se que a Terra é redonda e que gira à volta do Sol, e pode encontrar-se solução para uma crise financeira...


O enigma está referido àquelas questões que nunca serão completamente resolvidas, mas de cuja solução racional o Homem se vai aproximando cada vez mais, ainda que apenas assintoticamente. Enigmas são, por exemplo, a realidade da matéria ou o pensamento. Hoje, sabemos muito mais sobre o que é a matéria do que Aristóteles ou mesmo Galileu ou Newton, mas isso não significa que tenhamos uma intelecção plena ou que algum dia venhamos a possuí-la. Neste domínio, há um saber cumulativo, mas num horizonte assintótico, na medida em que, como escreveu H.-G. Gadamer, o horizonte não é uma fronteira fixa, mas algo para onde viajamos e que ao mesmo tempo se desloca connosco, de tal modo que o não alcançamos...


Finalmente, o mistério refere-se a uma realidade na qual se crê, mas cuja intelecção racional estará para sempre vedada ao Homem. O mistério refere-se às perguntas últimas, como: Qual o sentido último do universo e da existência? Porque é que existo precisamente eu? Porque é que há algo e não nada? A vida continua depois da morte? Deus existe?


Estas perguntas colocam-nos perante o que é por si mesmo misterioso, pois relacionam-se com a ultimidade, que não é objecto do saber de evidência, mas do saber de crença. Daí, um dos dramas maiores da existência, pois, como não se cansava de repetir P. Laín Entralgo, o objecto da ciência é penúltimo, mas o último é objecto de crença, seguindo-se daí que "o certo é penúltimo e não pode não ser penúltimo, será sempre penúltimo, e o último é incerto e não pode não ser incerto, será sempre incerto".


Mas, por outro lado, repetindo, a crença, para ser autêntica e verdadeiramente humana, não pode ser cega, o que significa, portanto, que tem de ser argumentativa, isto é, tem de dar razões de si mesma. A fé não demonstra, mas tem de argumentar, de tal modo que mostre que é razoável. As razões que tem a capacidade e o dever de apresentar têm de mostrar a sua plausibilidade.


Concretamente quanto à questão de Deus e da vida depois da morte, isto é, com a morte, o Homem acaba definitivamente ou, pelo contrário, entrará na sua plena realização na Realidade Última e Primeira a que chamamos Deus, quanto a esta questão, nem o não-crente nem o crente podem demonstrar a sua respectiva posição, pois é de uma crença que, em última análise, se trata. No entanto, um e outro apresentarão razões a que ambos serão sensíveis. Ser ser humano é levar consigo esta questão. Melhor: ser esta própria questão. E o que, em última instância, une os homens é esta procura sem fim e o diálogo à volta desta questão infinita.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 11 de maio de 2024

O DEUS SOLIDÁRIO COM AS VÍTIMAS

  

Comunidades cristãs vivas estão assentes em três núcleos ou pilares, que se interpenetram e exigem mutuamente.


Evidentemente, tudo se baseia na fé em Jesus Cristo e no seu Evangelho — Deus é bom, Pai e Mãe — como determinantes na vida e na morte e a celebração fraterna e bela dessa fé.


O outro núcleo é o da prática da justiça e do amor, o do combate lúcido e eficaz pela dignidade livre de todos os homens e mulheres, a começar pelos mais pobres, pelos humilhados e excluídos, no seguimento de Jesus, do que Ele fez e como fez. Não há religião verdadeira sem justiça e solidariedade. Mas isto implica que a justiça e o respeito pelos direitos humanos têm de começar pelo interior da própria Igreja. Na Igreja, Jesus queria mais do que uma democracia, pois o que Ele propunha era uma filadélfia, isto é, comunidades de amigos e irmãos (lê-se no Evangelho de S. João: “Já não vos chamo servos, mas amigos”).


O terceiro núcleo, que pode ser o primeiro, é o da pastoral da pergunta, da interrogação, e tem a ver com dar razões da dúvida e razões da fé e da esperança. Lá está a Primeira Carta de São Pedro, capítulo 3, versículo 15: “No íntimo do vosso coração, confessai Cristo como Senhor, sempre dispostos a dar a razão da vossa esperança a todo aquele que vo-la peça.” Isto significa que a fé não pode encerrar-se nas muralhas de um dogmatismo fixo e morto, tem de abrir-se ao diálogo e à razão crítica.


Esta abertura e este diálogo são tanto mais urgentes quanto os fundamentalismos (muçulmano, católico, protestante, das seitas) se tornam um desafio e perigo maiores. Não se pode esquecer que na religião, como se constata ao longo da História, há do melhor e do pior e, por vezes, em nome de Deus, o ridículo andou à solta e anunciaram-se e praticaram-se autênticas barbaridades, que tornaram a vida das pessoas menorizada, desgraçada, infeliz. Houve um número incontável de pessoas para quem teria sido preferível não terem encontrado a religião na sua vida.


A fé verdadeira não tem medo da razão autónoma, pois sabe que a razão, levada até aos limites das suas possibilidades, se acende na noite e também sabe que só um homem e mulher livres podem dizer sim ao Mistério. Para tentar balbuciar este Mistério, é necessário entrar em diálogo com todas as ciências, com todas as filosofias, com todas as religiões. Nestes tempos de penúria e de noite, como disseram Hölderlin e Heidegger, nestes tempos de niilismo, é tarefa decisiva da Igreja não deixar obturar a interrogação originária que nos faz homens e mulheres livres. É necessário manter acesa a pergunta radical e inconstruível, que é o sinal de que o Homem transcende o dado e de que não pode ser encerrado num positivismo crasso e obtuso.


E permita-se-me concretizar.


Uma das situações em que o ser humano é confrontado com o limite é o caso do perdão do algoz por parte das vítimas mortas, como se torna palpável na história contada por Simon Wiesenthal numa obra sobre Auschwitz. Como contou o teólogo Jürgen Moltmann, o judeu Wiesenthal era prisioneiro num campo de concentração e foi chamado ao leito de morte de um chefe nazi, que lhe queria confessar a ele, o judeu, que tinha participado nos fuzilamentos em massa de judeus na Ucrânia. Queria pedir-lhe perdão, para poder morrer em paz. Simon Wiesenthal disse-lhe que podia ouvir a confissão do assassino, mas que não podia perdoar-lhe, pois "nenhum vivo pode perdoar em nome dos mortos aos seus assassinos". Não pode fazê-lo, porque não tem o direito nem o poder para isso. E Wiesenthal ficou tão abalado com esta impossibilidade de perdoar que escreveu a muitos filósofos e teólogos europeus a contar-lhes a sua história, que publicou juntamente com as respostas num livro com o título: Die Sonnenblume (O girassol).


A razão, se não quiser sucumbir à parcialidade, isto é, se quiser ser verdadeiramente universal, não pode não ser "razão anamnética", isto é, tem de deixar-se iluminar pela memória das vítimas. E é imprescindível a memória para que as tragédias acontecidas não voltem a acontecer... Por outro lado, quem fará justiça às vítimas, também para que os algozes possam reconciliar-se e encontrar a paz?


O religioso autêntico, o místico, é aquele que caminha com Deus e para Deus, mas sem abandonar a noite. Ele não se distingue do crente e do descrente, que simultaneamente somos com dor e sofrimento, por já ter sido subtraído à noite na qual todos os mortais vivemos submersos.


"Distingue-se por ter avançado na noite o suficiente para que a noite seja para ele 'amável como a alvorada', outra forma de luz", como escreveu o teólogo Juan Martín Velasco. Para muitos, em nenhum lugar da História esta experiência mística em que culmina a experiência de Deus foi tão radical como na cruz de Cristo, onde, segundo a fé cristã, "Deus se revela de forma definitiva e por isso insuperavelmente obscura". Aí, precisamente na dor insuportável da sua ausência, nessa noite de trevas, Deus está infinitamente presente, escutando aquela oração simultaneamente desesperada e confiante, que atravessa os tempos: "Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste? Pai, perdoa-lhes, por que não sabem o que fazem".


Os cristãos ousam acreditar que Deus ressuscitou de entre os mortos esse Crucificado, que o foi por blasfémia e sublevação do povo oprimido político-religiosamente. NEle, Deus revelou-se solidário para sempre com todas as vítimas.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 de abril de 2024

A FÉ EM DEUS E O MAL

  


"Ou Deus quer tirar o mal do mundo, mas não pode; ou pode, mas não o quer tirar; ou não pode nem quer; ou pode e quer. Se quer e não pode, é impotente; se pode e não quer, não nos ama; se não quer nem pode, não é o Deus bom e, além disso, é impotente; se pode e quer - e isto é o mais seguro -, então donde vem o mal real e porque é que não o elimina?"


Este é o famoso dilema de Epicuro: ou Deus pôde evitar o mal, mas não quis, e então não é bom; ou quis, mas não pôde, e então não é omnipotente.


Quando se considera o dilema, é preciso ser consequente. De facto, não é legítimo invocar o mistério de modo cego. O mistério é, pela sua própria natureza, supraracional ou transracionl, mas não pode ser contra a razão. A primeira luz que temos é a da razão e, concretamente depois da modernidade, quando a razão alcançou a sua maioridade autónoma, não se lhe pode ser infiel. Isto significa, no caso pendente, que, se Deus pudesse criar o mundo sem mal e o não tivesse feito, não poderíamos acreditar nele, já que seria um Deus que não merece o nosso crédito nem a nossa confiança. Qual é o pai ou a mãe que, se pudesse evitar o mal do filho, o não faria? Que diríamos de alguém que, podendo aliviar as dores de outra pessoa, o não fizesse? Não consideraríamos essa pessoa sádica? Deus não pode ser menos bom do que os seres humanos.


Assim, ou há alguma falha no dilema de Epicuro ou só resta mesmo a alternativa do ateísmo.  O que falha é o pressuposto de que é possível um mundo perfeito. Mas precisamente um mundo finito perfeito é o que não é possível, pois é contraditório. Já Leibniz viu claramente que é a limitação do mundo que torna inevitável a existência do mal. Isto não significa que o mundo seja mau em si mesmo, mas que, dada a sua finitude, inevitavelemente está afectado pela negatividade, seguindo-se daí os males  concretos, físicos e morais. Como escreve o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga — e a filosofia e a teologia terá sempre essa dívida para com ele —, um mundo finito "não pode existir sem que no seu funcionamento e realização apareça também o mal". Portanto, isto também não significa que Deus seja impotente ou mau. O mesmo filósofo dá um exemplo: a mãe, matemática famosa, não pode ensinar ao seu menino de quatro anos trigonometria ou a teoria da relatividade. Teoricamente, ela sabe e pode ensinar e ama o filho, mas este, dada a sua tenra idade, não é ainda capaz de receber as lições. Deus é omnipotente e infinitamente bom, mas, quando se fala em omnipotência, ela não pode ser entendida de modo arbitrário, infantil e abstracto: por exemplo, Deus não pode cometer suicídio nem fazer com que dois mais dois não sejam quatro nem criar um mundo finito perfeito... Não pode criar pessoas livres - já pensámos suficientemente no milagre da liberdade? – e, ao mesmo tempo, por causa da finitude, evitar o seu mau uso.  Já São Paulo se queixava: “Ai de mim, que sou um homem desgraçado, pois faço o mal que não quero e deixo de fazer o bem que que quero”.


Surge então a objecção de fundo. Como pode Deus dar-nos a salvação plena que esperamos depois da morte, se continuaremos finitos e precisamente a finitude é que torna inevitável a existência do mal? A resposta desdobra-se. Em primeiro lugar, é preciso compreender que este mundo é finito, mas perfectível. O mundo e as pessoas nele não apareceram fixos, acabados, já feitos. Pense-se, por exemplo, no que seria cada um de nós aparecido no mundo já adulto. Alguém é capaz de pensá-lo? Portanto, tanto o mundo como as pessoas estamos em processo de nos fazermos e realizarmos. O tempo pertence constitutivamente à estrutura do ser finito, de tal modo que se deve mesmo dizer que o tempo é o modo como o ser finito se realiza. Depois, o crente é aquele que espera —  e não é verdade que, no que se refere às respostas às questões últimas, todos (crentes religiosos, ateus ou agnósticos) se colocam num plano de fé? —, após o tempo do crescimento e da maturação na história, a salvação plena por dom gratuito do Deus que lhe vem ao encontro. Então, já para lá dos limites da História, "não se pode afirmar que seja contraditório que, ao intensificar-se a presença criadora fora dos limites do espaço e do tempo, a criatura participe, de algum modo, com tal força na infinitude divina, que resulte livre do mal", conclui Andrés Torres Queiruga.


De qualquer forma, só temos indícios que nos permitem esperar com razões. Immanuel Kant viu bem quando preveniu que estamos apetrechados para conhecer dentro do espaço e do tempo. A morte é o abalo total precisamente porque nos arranca do espaço e do tempo, deixando-nos, por isso, em total silêncio.  Quando se trata de representações para lá do espaço e do tempo cósmicos, ficamos sem palavras.


O mal é o aguilhão contra a fé; assim:  por um lado, a existência do mal põe a fé em sobressalto, mas, por outro, sem a fé em Deus, não há resposta para o abismo do mal. No processo de nos fazermos, é sensato e razoável acreditar e esperar em Deus que dará realização plena à aspiração de plenitude, constitutiva do ser humano.


Entretanto, é essencial, vital, evitar o mal evitável, pelo qual somos directa ou indirectamente responsáveis.  E já nem me refiro aos horrores incríveis da guerra, como a gente vê agora na Ucrânia,  mas a coisas simples:  cumprir o nosso dever, impedindo males e contribuindo para a alegria de outros; por vezes, uma simples palavra basta.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 de junho de 2023

ANTOLOGIA

  


LEMBRANDO TRISTÃO E ISOLDA
por Camilo Martins de Oliveira


Escrevo em noite tranquila de sábado de Carnaval. Vi TV e jornais, surpreendeu-me a insistência publicitária na promoção do "Dia dos Namorados" que, por coincidência com o calendário do tempo litúrgico - o qual, curiosamente, assemelha a perspetiva escatológica do ocidente cristão à noção cíclica do tempo circular dos orientais -  com a celebração adventícia e, para nós, pós-modernista, da "festa" de S. Valentim, apaga da "comunicação social" a nossa "Quarta-Feira de Cinzas"... A fé é - ou melhor deve ser, para os crentes de qualquer religião que acreditem que Deus não é a minha verdade nem o meu código, mas o Senhor da minha libertação - motivo de esperança e vocação de amor. O propósito do ciclo quaresmal, que esta 4ª feira anualmente inicia, é lembrar-nos o paradoxo da condição humana: a morte que não é fim, mas regresso ao estado inicial, onde somos recriados. Memento homo quia pulvis es et in pulverem reverteris. Aqui, mutatis mutandis, também não estamos longe de filosofias orientais.... Com a diferença de que acreditamos que a nova criação resulta do envolvimento histórico de Deus na condição do mundo e das pessoas que criou. Esta fé, ou simples crença, ou mesmo só um mito fundador da nossa cultura, torna a memória das nossas cinzas uma celebração bem mais vital para a sociedade hodierna do que o festejo comercial de entusiasmos efémeros. O amor - e penso no amor humano, de corpo e alma - mesmo esse pode, e deve ser celebrado na consciência da nossa precaridade, mas também no conforto "terreal" que nos oferece a promessa da plenitude por vir. A moral cristã não é maniqueísta. E, por isso mesmo, não pode ser leviana. O funcionamento da consciência cristã é como o aparelho digestivo. Já Jesus dizia, que não é o que entra em nós que nos torna impuros, mas o que de nós sai. Será, quiçá, "nosso dever e nossa salvação" rever uma qualquer insistência mórbida num cristianismo contrito, que nos leva a esquecer a alegria natural da promessa que é a vivência do amor em cada dia, em cada um de nós segundo a sua vocação e a circunstância da sua vida. Até na celebração eucarística, a postura sofredora dos comungantes lembra, a quem de fora assista, mais uma condenação do que a libertação dos filhos de Deus. Por outro lado, sou negativamente sensível a essoutra manifestação de precaridade, a tal a que Zigmunt Bauman chamou "amor líquido", como a vemos no "Dia dos Namorados". Revela, afinal, o apego contemporâneo à aparência agradável das coisas, que determina, precisamente ao invés das "Cinzas", o esquecimento ou o disfarce da morte. Assim regresso a uma carta que Camilo Maria me escreveu: "Os quatro primeiros "Essais sur l´histoire de la mort en Occident" são os textos das quatro conferências que Phillipe Ariès proferiu, no início desta década (1970) na John Hopkins University, nos EUA. O primeiro tem por título "La mort apprivoisée" e cobre mil anos de uma mesma atitude perante a morte, tal como a encontramos desde a "Chanson de Roland" (em Roncesvales, Rolando, Olivier e o arcebispo Turpin, todos sentem que a morte se aproxima e os vai tomando), ou nos romances da "Távola Redonda" (a morte de Lancelote, p. ex.) e de "Tristão e Isolda" (esta, vendo Tristão morto, sabe que morrerá também e a seu lado se deita, virada para o Oriente), até, séculos mais tarde no "Dom Quixote": "minha sobrinha, diz ele, muito serenamente, sinto-me perto da morte". Esta anuncia-se sem sinais sobrenaturais ou mágicos, mas simplesmente por circunstâncias naturais e uma convicção íntima. Como nos "Três mortos" de Tolstoi - que Ariès refere - quando um velho cocheiro agoniza e uma mulherzinha lhe pergunta “como vai isso?” e ele responde “a morte está aí, eis o que é”. Da sua convivência com os mujiks, gente do campo, aprendeu o grande escritor russo a resposta natural à pergunta que ele mesmo formularia, na hora da sua morte, numa estação de província: E os mujiks? Como morrem os mujiks? Cada um aceita a sua morte e todos convivem com a morte dos outros. Saltarei agora as conferências sobre a "Mort de soi" e a "Mort de toi", muito embora, meu caro Camilo Lusitano, ainda tenhamos de debater - pese a nossa diferença de idades - essa questão da aproximação de Eros e Thanatos que atraiu tantas atenções místicas, literárias e artísticas, sobretudo no século XVI... Pois quero hoje chegar à contraposição da morte domesticada (apprivoisée) com a morte interdita, ou tabu. Mas não me esqueço daquele jantar que tivémos (foi no "Le Muniche" ou no "Le Diplomate"?) em que, dessa tua sageza juvenil que sempre me "iscou", me atiraste a afirmação lapidar de Georges Bataille: "L’érotisme c’est l'affirmation de la vie jusque dans la mort"... Sabes bem - e o que agora pronuncio será, talvez, mais do que um laço de sangue, ou uma pertença de classe, contigo, uma atitude cultural comum - que, sobretudo para um aristocrata, já não é afirmar ou impor. Importante, sim, é partilhar o gosto e o conhecimento que, por privilégio de nascimento ou condição, nos foi dado, de modo a que a partilha possa despertar noutros espíritos a ousadia de novas descobertas. Um aristocrata que só olha para trás é um idiota... Não vou, portanto, formatar ideias. Vou simplesmente deixar-te para reflexão, dois passos dos tais "Essais" do Ariès: "Hoje, a iniciativa passou da família, tão alienada como o moribundo, para o médico e para o hospital. São eles os patrões da morte, e, também, do momento e das circunstâncias da morte, e verificámos que se esforçam por obter do seu paciente um "acceptable style of living while dying", um "acceptable style of facing death". A tónica cai no "acceptable". Lendo isto, receio perceber que o aceitável é hoje o que nos convém, e não o como e o para que fomos feitos... Mas volto a Philippe Ariés, quando cita o sociólogo inglês Geoffrey Gorer que, num artigo publicado em 1955, sob o título "The Pornography of Death", afirmava que, no séc. XX, a morte substituiu o sexo como principal tabu ou interdito. Traduzo do Ariès: "Dantes, dizia-se às crianças que tinham vindo ao mundo numa couve. Mas elas assistiam à grande cena do adeus, à cabeceira do moribundo. Hoje, são iniciadas, desde tenra idade, na fisiologia do amor, mas quando já não veem o avô e perguntam por ele, dizem-lhes que está a descansar num jardim, entre flores."

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 22.02.2013 neste blogue.

NASCER É OBRA DE MILÉNIOS…


Meu Caro José:


Saberá, meu unilateral correspondente, melhor, muito melhor do que eu, o quanto gostei do seu relato da Natividade de Jesus: "O filho de José e de Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo. "Sei bem que me desvio (um pouco?) da contemplação feliz, apaziguadora, certamente necessária, de um Presépio tradicional, inodoro e bonito. Eu, como todos, gentes várias de muitas condições, preciso dessa paz, do instante, curto que seja, em que sinto, no coração angustiado ou perdido, o conforto duma lareira amiga, a visão de uma esperança como promessa antiga... (Uso as ... reticências, sei que o José as não usava nem gostava delas. Mas não é por mim nem para mim que as uso. É tão só porque assim exprimo uma expetativa, que mais não é do que querer aguardar o que ainda não conheço. Modos de ser, concedo...) Mas gosto, sem reticência alguma, da verdade humana, dessa densidade tão sentida do parto de Jesus, do livramento de Maria. Essa foi a Incarnação de Deus. É, como todas as dores de parto, contra todos os atentados contra a vida e todos os desvios dela, o Manuel, o Deus connosco. É, para o cristão, o que a poesia é para Novalis: o real absoluto. Fundador da nossa cultura como visão metafísica do mundo e da história. O Deus que "nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo..."morrerá, infamemente talvez, mas para que, na hora da morte, ao fechar os olhos, cada um de nós os possa abrir com Ele. Deus é como a semente: morre para renascer. E porque não será assim, na nossa condição de trânsfugas, quando até do casulo da lagarta sempre nasce uma borboleta? Ou do coração que está na boca de um poeta analfabeto, se liberta um poema que nos prende o vadio pensamento? Onde se nos promete Deus? Se à sua imagem e semelhança fomos feitos, ele certamente habita o segredo do nosso coração. E é esse o segredo, José, da vida de cada um. O tal que cada um, à sua maneira, desvendará ou não. Por isso sempre penseissenti que de nada vale, nem para nada serve, a santa inquisição ou outra qualquer perseguição. A verdade não se impõe de fora para dentro, nem sequer se demonstra fora da íntima intuição de cada um. Creio muito que, no coração de Deus, a verdade é uma vocação lançada ao coração dos homens. E Deus lá sabe. Posso entender que almas piedosas se amofinem à imagem súbita dessa natividade tão carnal do Deus humanado. Mas assim terá sido, nenhum escrito canónico nem apócrifo o contesta, e, pelos séculos de piedade cristã que se sentia na rudeza do mundo em que ela vivia, tal sentido de pertença de Jesus à terra e à condição dos homens esteve sempre presente. Mas é também parte do humano coração dos povos uma eucaristia, ação de graças. A incarnação de um deus transcendente, nem nos olimpos onde os deuses incarnavam os nossos desejos e fúrias, nem mesmo nos neopaganismos "à Ricardo Reis", em que se contentavam com o espetáculo do mundo, despidos já de qualquer intervenção nas nossas vidas, tem, para os fiéis de religião monoteísta, explicação plausível. É um escândalo. E tal é o espanto, que a sua representação terá de se apoiar em sinais de transcendência. Até o José Saramago talvez não tenha resistido a essa tentação: no seu "evangelho", percebo, a conceção de Jesus terá de ser realizada pela união carnal de Maria com José. Não me escandalizou a ideia, devo dizer-lhe, nesse tempo terrenal (como diria o nosso Gil Vicente), em que o José a pôs por escrito. Nada tem contra a natureza das coisas. Aliás, nem sempre compreendi, antes de estudar alguma antropologia, o horror "religioso" ou "puritano" ao ato carnal - que, na minha religião, tal como a fui entendendo, é sacramento do amor criador, com Deus, entre um homem e uma mulher - nem ganhei horror ao sangue menstrual da mulher; nem me passou pela cabeça que a união de meu pai e minha mãe fosse um ato reprovável... Abençoado gozo que me deu vida! Mas também não vejo por que razão, antes e depois de ter estudado antropologia, eu não hei de perceber que um acontecimento de dimensão cósmica como é a incarnação de Deus, não possa ter, nos textos que nos transmitem testemunhos coevos - que, aliás, ó José, note bem!, não eram de gente interesseira, antes de pessoas simples, muitos pobres, todos talvez agradecidos por esse gesto de Deus, que maravilhava a sua fé! - essa expressão de pureza absoluta, o gesto sem mácula possível, livre de qualquer outro pensamento - desses muitos que nos ocorrem quando em ato sexual, a luxúria ou a violência vêm apagar a ternura e o amor. Somos trânsfugas, sabê-lo-á hoje, bem melhor do que eu. Por isso tanto precisamos dessa "Ó estrelinha do norte, espera por mim, que já vou, alumia o meu caminho, já que o luar me enganou..." Cá em baixo, José, digo-lhe com franqueza: preciso de esperança, não de mitos que os homens construíram e trucidantemente se entreteram a destruir... Como Antero de Quental, tenho um coração que procura a mão de Deus... Amar os outros, amar mesmo este destino de escuridão e saudade, a que tantas vezes nos sentimos condenados, não é fácil. Para nenhum de nós, sobretudo para os que o fado despojou e nós outros desamparámos. Só por isso seja abençoada a virgindade de Maria, pois não é de um insignificante pormenor físico de que então falamos, mas desse indizível sentimento de dignidade inicial, essencial, falo-lhe, José, do intocável que habita o cerne de cada pessoa e que, à falta de melhor, os mais pobres reconhecem na Virgindade Maternal de Maria.


Por isso, à margem e contra as tradições misóginas e machistas de civilizações, culturas e religiões, se foi impondo, no culto popular, a revelação do que não deixamos que alguém desrespeite em nós. No seu "evangelho", o José Saramago tem algum temor (?), ou será premonição temerosa (?), quanto ao sobrenatural de Jesus: concebido pela união de Maria e José, não se livra todavia de um mendigo - anjo? - a quem Maria dá de comer numa tijela, onde ele deitará terra, no fundo da qual brilhará uma luz e que, mesmo enterrada, por obra de José e dos da sinagoga, será sempre semente de uma árvore sempre renascida. Será esse anjo (?) escolta de Maria até ao livramento, aí feito pastor que lhe leva o pão. Bonita imagem, no seu presépio, aliás, só os pobres participam e oferecem ... Se algum dia eu chegar aí acima - pois duvido de que o José possa entretanto voltar cá abaixo - far-me-á o favor de explicar porque insistiu em que o outro José (o carpinteiro) fizesse mais filhos a Maria, e lhes deu os nomes que uma narrativa egípcia, de que se conhecem originais em copta e árabe, atribuiu aos filhos do primeiro casamento de José Nazareno, antes de Maria. Estes textos, como outros coevos, e a tradição dos povos crentes, sempre referem a Virgindade Maternal de Nossa Senhora. Ora, se o Alfredo Marceneiro perguntava, sobre ele mesmo, "há maneira melhor de ser fadista?", não poderei eu inquirir se há maneira melhor de concebermos a incarnação de Deus? Noutro texto apócrifo, uma vida de Jesus em árabe, de origem síria, remotamente persa, diz-se "Em nome de Deus, Benevolente e Misericordioso: no Tempo de Moisés, o profeta, sobre ele permaneça a paz, vivia um homem chamado Zoroastro; foi quem revelou as ciências da magia. Certo dia, em que, junto de uma fonte, ensinava as ciências do magismo, disse-lhes em seu discurso: A virgem engravidará, sem ter conhecido homem, sem que o selo da virgindade tenha sido rompido..." E diz o Corão: "Deus não pode ter filhos. Longe da sua glória essa blasfémia! Quando decide uma coisa, diz: Seja! E ela é." Mas antes disse: "A ela enviámos o nosso espírito... ... Disse-lhe: sou o enviado do teu Senhor, para te dar um filho santo... Como, contestou ela, terei eu um filho? Homem algum se chegou a mim e certamente não sou uma dissoluta... Respondeu-lhe: Será assim, disse o teu Senhor: isso é fácil para mim. Será o nosso sinal diante dos homens, prova da nossa misericórdia." Haverá forças ocultas, ânimos, que nos escapam e perseguimos com símbolos e ritos que possam possuí-las; ou deuses olímpicos, tão cheios de vícios nossos que poderemos corrompê-los; ou divindades sanguinárias que exijam sacrifícios que medularmente nos anulem. Ou, ainda, promessas de homens com memória mais curta e força mais fraca do que a sua própria existência. E aparece esta proposta de um Deus que fecunda, ele mesmo, o ventre de uma mulher humilde e nos diz: Quero ser convosco! Posso acreditar, aceitar ou não. Se disser sim, sei que participo dessa geração. E não preciso de mexer numa história que foi tão lindamente contada.

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 03.11.2013 neste blogue.  

CRER NUM DEUS IMORAL?


A palavra fé vem do latim fides, donde deriva também fiel, fidelidade, confiar, fiador, confiança, confidência. Crer vem de credere, donde deriva também credo, crença, crente, acreditar, credor, crédito. Até etimologicamente, ter fé não significa, portanto, em primeiro lugar aceitar um conjunto de afirmações doutrinais ou dogmas. A fé é, antes de tudo, a entrega confiada a Deus, Fonte originária de tudo quanto existe. Entregar-se-lhe confiadamente como Sentido último de toda a realidade e da existência própria. Como um homem se entrega confiada e amorosamente a uma mulher, como um amigo confia num amigo.


A pergunta é inevitável: mas Deus terá crédito, a ponto de se poder realmente acreditar n'Ele, sem ilusões? Quem quiser reflectir sobre a fé religiosa medite na relação amorosa humana, no que ela implica de confiança, de decisão racional e de crédito.


Teria crédito um Deus em relação ao qual se pudesse dizer, como escreveu Ernst Bloch, que o Homem pode e deve ser melhor que o seu Deus?


Com este critério, é necessário, por exemplo, recusar o Deus que exigiu a Abraão o sacrifício do próprio filho. Segundo Kant, à pretensa voz divina que ordenava sacrificar Isaac, Abraão deveria ter respondido: "Que eu não devo matar o meu bom filho é absolutamente certo; mas que tu, que me apareces, sejas Deus, disso não estou certo, nem posso estar, mesmo que essa voz ressoasse desde o céu (visível)". Como é inadmissível um Deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de um pecado dos primeiros pais. Quem pode acreditar num tirano, num Deus mesquinho e sádico?


Frequentemente, foi um Deus indecente e intolerável que os ateus justamente recusaram. Segundo Nietzsche, o Deus que objectiva o ser humano "tinha de morrer, porque via com olhos que viam tudo... A sua piedade desconhecia o pudor: ele metia-se nos meus recantos mais sórdidos".


A religião, que tem de ser, pela sua própria natureza, o espaço da nobreza humana e da sua dignificação, da liberdade e da libertação, da fraternidade sem limites, da beleza e alegria feliz, do perguntar simultaneamente humilde e ousado, foi frequentemente o lugar da mesquinhez reles, da indignidade, da exclusão, do opróbrio, do mau gosto, da superstição ridícula. No Decâmeron, de Bocaccio, um frade enumera algumas das relíquias que encontrou: uma unha de um querubim, alguns raios da estrela que apareceu aos Reis Magos, uma garrafa com o suor de S. Miguel quando combateu com o Diabo... E hoje? Pregações infantis, infantilizantes e totalitárias, sem apelo ao debate esclarecido, ao diálgo crítico e a decisões adultas, contribuíram para o presente "vale tudo" do niilismo moral e para que, para tomar as grandes decisões da sua vida, já quase ninguém tenha em conta as posições da Igreja.


Feuerbach e os "mestres da suspeita" viram-se na necessidade de negar Deus, porque pensaram que Ele era um vampiro que se alimentava do sangue, dos direitos e da dignidade do Homem. Ai de nós, se não tivesse havido nem houvesse ateus, não os ateus vulgares, mas daqueles que sabem o que isso verdadeiramente quer dizer! Sem eles, muitos crentes continuariam de rastos diante da Divindade. Mas que Deus seria esse que nos obrigasse a andar de rastos diante dEle e nos tornasse mesquinhos e ridículos aos nossos próprios olhos?...


Deus tem de ser um Deus moral. Portanto, qualquer ser humano tem de exigir que Deus seja pelo menos melhor do que nós. Ora, embora não sejamos bons, nenhum ser humano sadio permitiria, se estivesse nas suas mãos, que alguma vez um ser humano sofresse os horrores do inferno para sempre. Como foi possível acreditar num Deus proclamado como amor originário e ao mesmo tempo aceitar a condenação eterna, com tormentos sem fim, no inferno, de tal modo que muitos homens e mulheres viveram já na Terra uma existência totalmente envenenada, torturada, por causa do pânico do inferno? Como é que foi possível acreditar em Deus e ao mesmo tempo num pecado dos primeiros homens entendido como um pecado transmitido de geração em geração, de tal maneira que o fruto do amor que as mães levam no seu ventre seria portador da mancha do pecado, da qual só o baptismo pode libertar? Pergunta, com razão, o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: "Em que cabeça cabe que Deus pudesse 'exigir' a morte violenta do seu Filho para perdoar os pecados da Humanidade? Que mãe pode acreditar de verdade que a sua criaturinha recém-nascida, perante a qual o seu coração se desfaz de ternura, 'está em pecado' enquanto não for baptizada?"


A não ser que o consideremos um déspota imoral e arbitrário, Deus não pode exigir aos homens aquilo que ele próprio não faz, não pode obrigar os homens àquilo a que ele próprio não está obrigado. De facto, se, por exemplo, Deus fosse um Deus vingativo, um Deus opressor, seja qual for o género de opressão, porque é que não haveríamos de poder nós também vingar-nos e oprimir?


Impõe-se, porém, reconhecer que tudo isto não passou de um enorme equívoco. Na realidade, o Deus cristão não é um rival do Homem, mas um companheiro. E a própria ideia de liberdade e da dignidade inviolável de todos os homens e mulheres, tem a sua raiz na Bíblia e veio ao mundo pelo cristianismo, como reconheceram também Hegel e o próprio Ernst Bloch.


Aí está a razão por que o crime da pedofilia é ainda mais odioso quando praticado pelo clero, que tem por missão levar a todos a mensagem do Deus da dignidade, da liberdade, da salvação. 

    

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 22 de outubro de 2021

CRENTES E ATEUS: A FÉ E A RAZÃO


1. “Ele (Deus) permitiu que trevas densíssimas se abatessem sobre a minha alma e que o pensamento do Céu, que desde o tempo da minha meninice era para mim tão felicitante, se tornasse um objecto de luta e de tormentos. A duração desta provação não se limitou a alguns dias ou semanas. Há já meses que sofro e ainda aguardo pela hora da minha libertação. Quereria poder exprimir o que sinto, mas é impossível. É necessário ter passado pelo túnel escuro, para captar a sua escuridão...


Para tranquilizar o meu coração, pois está cansado por causa das trevas que o envolvem, tento fortalecê-lo com o pensamento de uma vida futura e eterna. Mas então a minha tortura duplica-se. É como se as trevas assumissem a voz dos incrédulos, escarnecessem de mim e me dissessem: ‘Tu sonhas com a luz..., tu crês poder fugir à treva em que desfaleces! Avança! Avança! Alegra-te com a morte, que não te dará o que esperas, mas uma noite ainda mais profunda: a noite do nada!’"


Quem iria supor que estas palavras são da carmelita Therèse Martin (conhecida como Santa Teresinha do Menino Jesus) em 1897, quando tinha apenas vinte e quatro anos, vindo a morrer em Setembro desse ano?


Foi uma irmã de sangue, também ela carmelita, que manteve em segredo o original manuscrito da História de uma Alma, vendendo ao mundo a imagem de uma Santa Teresinha açucarada. Mas, como escreveu o teólogo Hubertus Halbfas, a verdadeira história da alma de Teresa é o destino de uma jovem que dentro dos muros frios do convento não perdeu apenas a saúde, mas também "toda a certeza da fé": "Se ao menos sentíssemos Jesus! Mas não, ele parece estar a milhares de léguas de distância. Estamos sós connosco mesmos.", são palavras de Santa Teresinha. E o teólogo acrescenta que se deve à mesma irmã a impressão de que a santa não viveu "a noite da incredulidade", mas "a noite mística", como a de São João da Cruz, no século XVI. Ora, se este místico passou pelos sofrimentos indescritíveis da "noche oscura", "o seu deserto não foi a perda da fé". Teresa, pelo contrário, apesar do gueto católico em que viveu, "assumiu em si", através dos muros do claustro, "como que por osmose", "o niilismo do século XIX". Quando, em face da morte, a irmã Marie lhe disse que em breve estaria com Jesus e os anjos, respondeu: "Todas essas imagens não me dizem nada. Apenas posso alimentar-me da verdade. Por isso, também nunca pedi visões. Prefiro aguardar pelo depois da morte". Esta resposta não é ateia, mas há aqui algo de novo, conclui o teólogo: "a confissão corajosa da incerteza sobre as coisas últimas", que constitui "a situação religiosa genuina da maior parte das pessoas no século XX" e, digo eu, também do século XXI.


A fé não é, ao contrário do que frequentemente se pensa, ópio e consolação, mas luta e combate no meio das trevas e da dor. No domínio da fé, o perigo não vem do ateísmo que sabe o que isso quer dizer, mas da indiferença.


2. Também o ateísmo é uma crença. Tem-se frequentemente a ideia de que, à partida, o ateu, quando nega a existência de Deus ou quando afirma que, com a morte, acaba tudo, tem do seu lado a razão, ficando o crente sob a suspeita de não-racional, de tal modo que é a ele apenas que compete ter de apresentar razões da sua fé.


As coisas não são assim, de modo nenhum. Por paradoxal que pareça, também o ateu assenta a sua negação da existência de Deus ou da vida depois da morte num acto de fé, melhor, numa crença. "Em qualquer das suas formas, o ateísmo é uma crença e não uma evidência, escreveu o filósofo Pedro Laín Entralgo, um 'creio que Deus não existe' e não um 'sei que Deus não existe'".


O crente e o ateu encontram-se exactamente no mesmo plano: o crente não pode demonstrar a existência de Deus nem a vida eternal — aliás um Deus demonstrável não seria Deus, mas um ídolo, que a razão constrói e destrói —, exactamente como o ateu não pode demonstrar que Deus não existe ou que a morte é o termo definitivo da existência da pessoa. No que se refere a Deus ou à vida depois da morte, as posições do crente, do agnóstico ou do ateu assentam na crença.


Evidentemente, sendo humanos e, portanto, seres racionais, todos - o crente, o agnóstico, o ateu - têm de apresentar razões para a sua crença, pois esta, se quiser ser verdadeiramente humana, não pode ser cega. Sublinhe-se, porém, que se trata, para todos, de um acto de fé, certamente com razões, mas sempre de um acto de fé, e não da conclusão de uma demonstração.


Assim, o crente, o agnóstico, o ateu, em vez de se excluírem, devem encontrar-se e enriquecer-se mutuamente num conflito dialógico de razões, e, por paradoxal que pareça, num diálogo sincero e aberto, concluirão que há entre eles muito mais sintonias do que poderiam supor à primeira vista. Quantos crentes, por exemplo, não ficarão surpreendidos ao ler em São Tomás de Aquino que o saber da fé, não podendo ser evidente, convive com a dúvida, a opinião, a suspeita...


Fé religiosa e dúvida não se excluem. Pelo contrário, a fé está sempre acompanhada de perguntas. Estas perguntas humanizam a religião, pois impedem todo o tipo de fundamentalismo, abrem ao diálogo não só com os crentes de outras religiões mas também com os ateus e agnósticos, obrigando a uma reformulação constante das fórmulas doutrinais, que ao mesmo tempo que tentam dizer o Mistério também o ocultam.


Por outro lado, é bem possível que também ateus e agnósticos aceitem que há um Mistério inominável que a todos envolve...

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 de outubro de 2021

A VIDA DOS LIVROS

de 18 a 24  de outubro de 2021

 

“Que Fizeste do Teu Irmão? – Um Olhar de Fé sobre a pobreza do mundo” de Alfredo Bruto da Costa (Cáritas, Forum Abel Varzim, 2020) constitui um testemunho fundamental do autor sobre o momentoso problema da pobreza.

 

DOCUMENTO PRECIOSO E ORIGINAL
Quando a engª Vera Bruto da Costa me mostrou o texto que o marido deixara incompleto, ao partir, não tive dúvidas em dizer que se tratava de um documento precioso e original, sobre um tema que ocupou intensamente Alfredo Bruto da Costa. É um conjunto indispensável de temas, no qual se unem o rigor da análise e o alerta atualíssimo relativamente a uma situação dramática da pobreza na atualidade. Seguindo passo a passo o livro, começamos pela referência ao “maior equívoco da história da Humanidade”, a contradição entre a espera de um libertador e a sua recusa, como vemos na atitude do Grande Inquisidor em “Os Irmãos Karamazov” de Dostoievsky, a dizer a Jesus Cristo, regressado inesperadamente, que deveria desaparecer rapidamente por ser indesejado. É verdade que não era a pobreza o tema do grande equívoco, mas a partilha e a exigência do cuidado dos outros e da não indiferença, marcantes na essência da novidade cristã. E, refletindo sobre o Amor de Deus, o autor pergunta: “quem pode ousar falar do Amor de Deus”, realidade tão complexa e indefinível, não suscetível de simplificações humanas. E então a pobreza surge como exigência de disponibilidade, como obrigação de compreender o outro e de ter respostas. Assim, os pobres de que fala a Bíblia são aqueles que o são no seu íntimo, como afirma a primeira Bem-Aventurança. É de disponibilidade que se fala, como scolè é a origem etimológica grega da palavra escola como lugar do ócio, enquanto disponibilidade plena para saber e compreender. Não há, contudo, não pode haver, elogio da pobreza sociológica. E lembre-se o que dizem os Atos dos Apóstolos relativamente à vida na comunidade cristã. “Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum”. Estamos perante a relação do ser humano com os bens materiais. Não está em causa o reconhecimento do direito de propriedade, mas a compreensão do princípio do destino universal dos bens da terra. E assim temos de compreender o sentido e o alcance do direito de uso e do direito de posse. Como afirma a encíclica Laborem Exercens de João Paulo II, “a propriedade adquire-se primeiro que tudo pelo trabalho e para servir ao trabalho”. Eis a importância do desapego ao material, para que dele não nos tornemos servos. A necessidade do outro, como outra metade de nós, para usar a expressão do Padre Mateo Ricci, significa a possibilidade de ter resposta ao outro, não nos fechando sobre nós mesmos.


OS BENS DA TERRA NO MUNDO
A distribuição de bens da terra no mundo é hoje, contudo, cada vez mais desigual. As disparidades agravam-se. Em 1960 o rendimento dos 20 % mais ricos da população mundial era 30 vezes o rendimento dos 20 % mais pobres. Mas no ano 2000 essa relação passara a 75 vezes. Por outro lado, “as desigualdades no domínio das capacidades avançadas estão a agravar-se. Por exemplo, apesar dos desafios no tocante aos dados, as estimativas apontam para ganhos ao nível da esperança média de vida aos 70 anos, entre 1995 e 2015, duas vezes superiores nos países com um nível muito elevado de desenvolvimento humano, em relação aos países com um baixo nível de desenvolvimento humano. Existem elementos que demonstram a presença do mesmo padrão de divergência num vasto leque de capacidades avançadas. De facto, as divergências no acesso a um conhecimento mais avançado e à tecnologia são ainda mais vincadas” (p. 107). Daí a exigência, para Alfredo Bruto da Costa, de uma leitura evangélica da pobreza no mundo. A noção de cidadania mundial, de que falou o Papa João Paulo II e de que fala o Papa Francisco vem reforçar a urgência de alargarmos o horizonte do nosso pensamento para além das fronteiras nacionais. Trata-se de assumir o princípio da subsidiariedade, que significa, a um tempo, tratar e solucionar os problemas o mais próximo possível das pessoas, mas sempre a um nível adequado. O pensamento “glocal” é a um tempo global e local, centrífugo e centrípeto. Se as questões do ambiente ou das pandemias, do aquecimento global ou da cultura da paz têm de ser tratadas acima das fronteiras nacionais, as opções ligadas à organização local ou aos cuidados das pessoas concretas têm de ter dimensão local e comunitária.


GLOBALIZAÇÃO E DESCENTRALIZAÇÃO
Como lembra Bruto da Costa: “a globalização é demasiado importante para ser deixada ingovernada, como acontece presentemente, porque tem capacidade de fazer extraordinário mal, como bem”. Exige-se, assim, coesão social, sustentabilidade cultural, económica, social e ambiental, conhecimento e aprendizagem. O que é libertar os pobres de hoje? É combater e resolver a privação (fome, sede, nudez, falta de abrigo) e a falta de recursos, de modo a garantir autosuficiência, autonomia e defesa do bem comum. “A definição de pobreza que adotámos (diz ABC) conduz-nos a duas conclusões da maior relevância teórica e prática. A primeira reside no facto de ser possível resolver a privação, sem resolver a pobreza. Para tanto, basta que o pobre tenha acesso aos bens e serviços básicos por via de apoios extraordinários (por exemplo, o acesso aos alimentos do Banco Alimentar, a algum ‘roupeiro’ gratuito, a uma residência social para indivíduos e famílias sem habitação, etc.). Apoios deste tipo têm duas características importantes: resolvem a privação, mas mantêm o pobre numa situação de dependência. Isto acontece porque, apesar de sair da privação, o pobre continua sem os recursos necessários para satisfazer as necessidades básicas como o comum dos cidadãos. Matar a fome, sendo indispensável, não conduz, só por si, à autonomia. Daí a segunda conclusão, a de que a pobreza só é vencida quando o pobre sai da situação de privação por seus próprios meios… Por outras palavras o pobre só vence a pobreza quando já não precisa de recorrer a medidas e políticas de luta contra a pobreza” (p. 131).


O QUE FAZER? 
O que fazer? Agir em vários tabuleiros: na igualdade de oportunidades, na correção das desigualdades, na justiça distributiva, na equidade integeracional, no desenvolvimento sustentável. Não é por acaso que o primeiro dos objetivos das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento Sustentável é a erradicação da pobreza. Partindo do destino universal dos bens da terra e da exigência de sobriedade, o combate à pobreza obriga a haver metas claras e uma definição de meios que nos permitam superar as condicionantes que nos afetam, sobretudo depois da pandemia, que agravou as disparidades e tornou mais difíceis os objetivos anteriormente definidos. E Alfredo Bruto da Costa deixou-nos o desafio de não baixarmos os braços nesse caminho no sentido da cidadania e da dignidade da pessoa humana. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

À MARGEM DE CARTAS ANTIGAS


Recordo-me de que várias das minhas cartas à Princesa de mim, nos interrogavam acerca da fé. Duas delas me ocorreram mais profunda e assiduamente no decurso da minha presente caminhada pela areia fugidia de um deserto desconhecido, ardente talvez, todavia silencioso. Até por dentro me queima, a tal ponto que já nem gritar sei. E com silêncio, como num desafio, à minha mudez responde. Seco de recursos, só a mim pergunto o que tantas vezes implorei em versos velhinhos, como estes que compõem um dos meus Sonetos de Amor Mordido que enviei em carta à Princesa de mim, e o blogue do Centro Nacional de Cultura publicou em agosto de 2013. Rezava a carta: O amor humano é procura e sinal. Como no Cântico dos Cânticos, poderia dizer-te o grito que lanço a Deus:    


No deserto cresce o meu desejo
    
por ti tantas vezes destemido:
     
és a minha fome e o meu pedido
 
de ver-te, Senhor, a Quem não vejo...

Minha sede é seres, e só procuro    
a fonte da sede que me dás;
 
no desejo de ti vivo e duro 
   
com sede da sede que me traz
    

este deserto em que sou despojo,       
lixo de ser, graça do teu nojo...
Esqueleto ebúrneo me levanto,  

branco de areia, de morte e de espanto,  
e de ti te grito a minha fome.

E sei que te chamo pelo teu nome!
 


Ao evocar a definição de fé na epístola aos Hebreus (11, 1), automaticamente ela me ocorre na versão latina da Vulgata: Fides est substantia sperandarum rerum. Traduzo empiricamente: "A fé é a substância das coisas que devemos esperar". Tradução ambígua, significação ambivalente, já que substantia é o que está por baixo, ou seja, o assento ou sustentáculo, o apoio; mas também é o que constitui, isto é, aquilo de que algo é feito. Mas não será a fé isso tudo? Na respetiva tradução direta do grego, o cónego José Falcão escreve: "A fé é o sustentáculo das coisas que se esperam". O professor Frederico Lourenço, por seu turno em tradução direta do grego: "Fé é garantia de coisas que se esperam", versão próxima da francesa de Bible de Jérusalem: "Or la foi est la garantie des biens que l´on espère... Assim sendo, pode pois concluir-se que sem fé não há esperança, da qual ela é, necessariamente, a base, o sustentáculo. Mas a fé surge também enquanto garantia de bens por vir, como se, não havendo ou faltando fé, esses futuríveis não se realizassem. A partir daqui, fará pleno sentido a afirmação latina constante da Vulgata, que traduzi por "a fé é a substância das coisas que devemos esperar", ou seja, que ela é mais do que sustentáculo e sustento, sendo afinal a própria essência delas, a sua realidade atual.


Para qualquer leitor assíduo do Novo Testamento - isto é, da Bíblia propriamente cristã -, tal como para qualquer observador atento da história e escritos dos primitivos cristãos, ressalta a evidência de que a sua fé se vota e devota fundamentalmente à pessoa de Jesus Cristo. A fé cristã é, assim, a confiança posta na pessoa do Verbo feito carne, com o qual, e pelo qual, todos nos tornamos filhos de Deus. Acreditamos na palavra do Senhor Jesus, e por ela sabemos que o bem que devemos esperar, o Reino, já está dentro de nós : Interrogado pelos fariseus sobre quando chegaria o Reino de Deus, Jesus respondeu-lhes : «O Reino de Deus não vem de maneira observável. As pessoas não afirmarão "Ei-lo aqui" ou "Ei-lo ali". Pois o Reino de Deus está dentro de vós». (Lucas, 17, 20-21). A nós cabe fazê-lo crescer, somos parte integrante da sua vinda.


Quando vier o Filho da Humanidade na sua glória...   ...dirá o rei àqueles que estão à sua direita: «Vinde, benditos do meu Pai, e herdai o reino preparado para vós desde a fundação do mundo. Eu tive fome e destes-me de comer, tive sede e destes-me de beber, eu era estrangeiro e acolhestes-me, estava nu e vestistes-me, estava doente e visitastes-me, estava na prisão e viestes até mim».
(Mateus, 25, 34-36)


E dizia ainda: «Bem aventurados os mendigos, porque vosso é o Reino de Deus. Bem aventurados os que agora tendes fome, porque sereis saciados. Bem aventurados os que chorais agora, porque rireis». (Lucas, 6, 20-21)


Vale a pena citar aqui a tradução, por Frederico Lourenço, dos versículos 1 a 10 do capítulo 5 do evangelho segundo Mateus: 


Vendo as multidões, Jesus subiu até à montanha e, sentando-se, vieram ter com ele os seus discípulos. E abrindo a sua boca, ensinou-os, dizendo: 


   «Bem aventurados os mendigos pelo espírito,
   porque deles é o reino dos céus.
   Bem aventurados os que estão de luto,
   porque eles serão reconfortados.
   Bem aventurados os gentis,
   porque eles herdarão a terra.
   Bem aventurados os esfomeados e os sedentos de justiça,
   porque eles serão saciados.
   Bem aventurados os misericordiosos,
   porque eles serão alvo de misericórdia.
   Bem aventurados os puros pelo coração,
   porque eles verão Deus.
   Bem aventurados os que fazem a paz,
   porque eles serão chamados filhos de Deus.
   Bem aventurados os perseguidos por causa da justiça,
   porque deles é o reino dos céus.


O Reino de Deus está dentro de nós: o luto ou saudade dorida, a gentileza ou mansidão, a sede de justiça e a misericórdia, a pureza de intenções e o amor da paz, a perseverança no bem, tudo isso, com sua paixão, nasce connosco, é parte integrante da nossa contraditória condição humana. E é essencialmente a nossa fé, desde já substância do bem que um dia nos será dado. O Reino, ensina-nos Jesus, não está fora de nós, antes em nós cresce, se o procurarmos. As suas bem-aventuranças são-nos dadas, como potencialidade e chamamento. A religião cristã é simples, no sentido em que não exige grandes especulações metafísicas ou teológicas, mas tão somente a humanidade benevolente de escutarmos e nos inspirarmos nas palavras misericordiosas de Jesus. E será pelo amor aos outros que nos reconhecerão.


Escrevia estas linhas, quando um telefonema de um hospital de Torres Vedras me anunciou a morte da Isabel Maria, minha Mulher há mais de 55 anos. Na dor que me enche o coração, encontro ainda a alegria de ter assistido, durante esses anos todos, à bondade cristã de uma mulher que amava e procurava a concórdia e a paz, a justiça e a misericórdia, a visão de Deus no coração da humanidade. Foi sempre construindo um pedacinho do Reino de Deus, atenta aos sinais temporais dos bens que devemos esperar, e sempre disponível para o acolhimento, a consolação e a partilha.


Regresso agora das exéquias fúnebres e retomo a escrita. Para acrescentar apenas que escolhi a versão portuguesa de Frederico Lourenço para citar o sermão da montanha, porque gosto das expressões mendigos pelo espírito e puros pelo  coração, já que me sugerem a ação do espírito e a do coração por ele movido. Essa é a lembrança que guardo da Isabel Maria, bem perto da fonte da nossa religião.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

KÜNG E A FÉ


1.
Hans Küng, um dos maiores teólogos católicos e um pensador de influência mundial, deixou-nos. Fica a sua teologia com os novos horizontes que abriu no sentido de uma esperança que formulou assim na sua última lição na Universidade de Tubinga, em 1996: "Spero unitatem ecclesiarum, espero a unidade das Igrejas. Spero pacem religionum, espero a paz entre as religiões. Spero communitatem nationum, espero uma verdadeira comunidade das nações." Fica também como inspiração a sua reflexão epistemológica, introduzindo na Teologia "a teoria de mudança de paradigmas", a partir da obra famosa de Thomas Kuhn: The Structure of Scientific Revolutions, sobre o desenvolvimento da ciência (lembro a definição de paradigma de Kuhn: "Uma constelação total de crenças, valores, técnicas, etc., partilhada por uma determinada comunidade"). Também na Teologia há paradigmas: o paradigma paleocristão apocalíptico, o helenístico da Igreja antiga, o católico-romano medieval, o protestante reformado, o iluminista moderno, estando presentemente a esboçar-se um novo paradigma, o paradigma de uma "teologia ecuménica crítica", com duas constantes ou pólos, em "correlação critica" - a primeira constante, pólo ou horizonte é "o nosso mundo presente de experiência em toda a sua ambilvalência, contingência e mutabilidade"; a segunda constante, pólo ou norma essencial é "a tradição judeo-cristã, que, em última análise, se funda na mensagem cristã, no Evangelho de Jesus Cristo" -, e duas orientações: ad intra, isto é, ecuménica, no sentido do ecumenismo intracristão, e ad extra, enquanto dirigida para as religiões do mundo e para toda a Terra habitada.


2.
Küng era um cristão convicto, e também me confessou, da última vez que nos vimos - foi em Barcelona em 2004, por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo -, a alegria com que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


A sua teologia era uma exigência da fé, porque a fé tem de dar razões, o que ficou claro logo na sua tese de doutoramento sobre A Justificação. O que se entende, em termos simples, por justificação? Se se pensar bem, andamos todos a tentar justificar a nossa vida, a nossa existência. É que não nos basta existir, precisamos que outros, concretamente pessoas significativas, nos reconheçam. Há uma luta pelo reconhecimento, como tão bem mostrou Hegel na sua Fenomenologia do Espírito. Tanto individual como colectivamente. Temos necessidade vital de que reconheçam o nosso valor, que valemos. Foi isso que Lutero descobriu ao ler na Carta de São Paulo aos Romanos: "o Homem justifica-se pela fé", isto é, podemos e devemos entregar-nos confiadamente a Deus, porque valemos para Ele, Ele reconhece o nosso valor, e, assim, confiando n'Ele, estamos salvos. Lembro-me de ter tentado explicar isto numa palestra em Maputo, e soube depois que um moçambicano negro tinha feito mais de dez quilómetros a pé para ir dizer a uma irmã: "Está aí um padre de Lisboa que esteve a explicar que valemos para Deus, Deus reconhece-nos, tu tens valor para Deus, já pensaste? Precisava de vir dizer-te isto: tu vales para Deus, Ele dá-te valor."


Küng ouviu muitas vezes a pergunta: "Com toda a sinceridade, em que crê pessoalmente?" Para responder a este desafio deu uma série de lições, a cada uma das quais assistiram cerca de mil pessoas, de que resultou um livro: Aquilo em que Creio. "Escrevo para pessoas que se encontram em processo de busca." Para crentes e não crentes..., "também para todos aqueles que vivem a sua fé e, além disso, querem dar razão dela. Para aqueles que, longe de limitar-se a crer desejam "saber" e esperam, portanto, uma interpretação da fé que esteja fundada filosófica, teológica, exegética e historicamente e tenha consequências práticas". "A fé cega levou e leva muitas pessoas e povos inteiros à perdição." Estava a referir-se aos fundamentalismos. E também não é fé verdadeira a que se contenta com o cumprimento de rituais religiosos.


De modo geral, quando falamos de fé, pensamos apenas na fé religiosa, esquecendo que a nossa vida toda está baseada na fé - fé vem de fides, de cum+fides provém confiança. Quanto nos metemos à estrada, confiamos que não venha um carro contra nós... Cremos num futuro melhor (crer vem de credere, donde procede o crer religioso e o crer até nos bancos: eles concedem (concediam...) crédito... Retire-se a fé, a confiança, o crer e o crédito na vida e... tudo se desmorona... O bebé vem ao mundo e entrega-se, numa confiança radical, à mãe, ao pai... Se a confiança de base (basic trust) for frustrada, a vida pode tornar-se-lhe um inferno.


Com o tempo, vai perguntando se há razões para confiar... E chegamos às perguntas decisivas: porque há algo e não nada? Que sentido tem a minha vida, Sentido último? O que será feito de mim? Fica a alternativa: o nada ou a plenitude, o absurdo ou o Sentido final em Deus. O crente não pode demonstrar Deus, mas o não crente também não pode demonstrar o nada; e ele tem razões melhores do que o crente? Küng acreditava em Deus e na vida eterna. Confiava, com razões, que, na morte, não ia para o nada mas para "o Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus", disse-me. O mundo e a existência são ambíguos. É no próprio acto de confiar radicalmente em Deus que se mostra que é um acto racional: com ele, num mundo ambivalente, de bem e de mal, de sentido e de absurdo, tudo se ilumina e ganha sentido, Sentido último.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JUNHO 2021