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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICA DA CULTURA

Lembro-me do medo e da felicidade 

  


1.

Também se deita a mão a um galho de água.

De dentro do destino,

e quando já não fazem parte de nós

as lembranças dos dentes de leite,

expõem-se as nossas bagagens de refugiados

que, vento por vento,

dizem da nossa vida


2.

E chegada a altura,

é sempre ela, a nossa força consigo mesma,

rasgando espaços para outras vias, outras inconstâncias,

outras fronteiras, outros rouxinóis atravessando aniversários,

e no que à nossa morte respeita,

o silêncio em todas as extremidades,

o adestrar dos pássaros


3.

Depois nós,

ora assustados, ora confortados,

enfrentamos abismos, saudades e ceifas

que estavam escritas nos livros de culinária que aconteceriam depois das claras em castelo bem firmes,

para que reinasse a paz nas nossas casas, para que a descrevêssemos com as mãos.

Mas o cantor das feridas questionava:

e se nos escapou o principal

brunido pela sua passagem?


4.

De regresso, de regresso atravessamos o Inverno e o esquecimento

e mais tarde

atamos uma corda ao ar

para chamarmos a razão de sermos aves migratórias,

tornando-nos no voo,

lentamente

pó, vertigem

e amor.


5.

E nós, nós de novo agarrados ao galho de água,

mais prontos.

Eis:

eu, passarinho pequenino, pequenino,

no meu lugar forrado com penugem,

porque me olho do lá, do muito fundo,

da escola,

daquele sítio único de onde se veem nascer

os dias grandes


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


215. A FELICIDADE REALIZÁVEL


Consta que a felicidade é quase sempre medida não por aquilo que se tem, mas por aquilo que falta. E que basta que aconteça algo pior para percebermos que, afinal, o que sentíamos não era infelicidade. 

Trata-se de uma permanente e incessante busca de ser feliz, o que é normal dentro de certos limites, tidos como razoáveis, tornando-se nociva quando excessiva e irrealizável.

Em princípio, todas as pessoas que gozam de boa saúde e podem atender plenamente as suas necessidades fundamentais deveriam ser felizes, dado que para além da felicidade depender (segundo estudiosos), por um lado, de condições interiores e, por outro, de condições exteriores, tem inerente alguma subjetividade e indeterminabilidade.

Afastando, desde já, liminarmente, uma felicidade que, de tão exigente, é humanamente irrealizável, parece-nos que, correlativamente, daqui decorre ser necessário afastarmos de nós determinados objetos ou desejos que são, na sua essência, inacessíveis, como o exemplifica a obtenção de um conhecimento absoluto em qualquer área do saber.  Expurgadas vontades e fins inalcançáveis, há que descobrir e procurar o que é desejável e acessível, fazendo-nos feliz, vivendo objetivamente, com interesses plurais, propensão para o afeiçoamento e sentido crítico, estimulando a autoconfiança e a capacidade de querer estar só, quando necessário, purgando ideias erradas sobre o mundo e a humanidade, imperfeitos por natureza, priorizando o que temos de bom e excluindo a infelicidade diária de que sofrem tantas pessoas.   

Excelente preventivo contra a tristeza, o ócio e o tédio é a pluralidade de interesses pelo mundo exterior, que incentiva a atividade, sem prejuízo do conhecimento por nós próprios, defrontando-nos com o silêncio, a introspeção e os mistérios da vida, em equilíbrio e conjugação de esforços, dando luta, em qualquer caso, à inatividade.   

Um interesse excessivo por nós próprios, pelo contrário, pode conduzir-nos a egocentrismos de várias espécies, como o narcisista, o megalómano e o pecante, destrutivos por si e incentivadores de infelicidade. 

Tem que haver um apetite e gosto natural por coisas realizáveis, de que a felicidade não é exceção, tendo presente a nossa imperfeição de que ela também depende.


30.05.25
Joaquim M. M. Patrício

POESIA

FELICIDADE 

  


Mais digo, sim

que as lágrimas eram e porque foram e são uma alegria a assomar-nos aos olhos nessa forma líquida e deles se soltaram e soltam para uma malga que fizemos da matéria do coração para nos darmos a beber quando na cama limpa os corpos nus

Isso foi certo, era certo e é certo o nome dessa realidade

E foi assim ontem e em todos os dias anteriores e hoje

o pulso do poema continua à janela e nós reconhecemo-nos

muito azuis naquela estrela-do-mar que veio ao mundo abrindo imensamente

as mãos até ao ponto mais longínquo,

depois, entrando em casa sim, entrando em casa ávida

como nós

Sim, foi isso mesmo e a partir daí e até quando

começámos a ler os livros abertos sobre o mar redondo

quando juntos nesta multidão minúscula

o puro tempo se calou


Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

  


Procurar a felicidade é uma necessidade humana e como todas as necessidades ela é atribuída a uma falta.

Aprender a desenvolver as nossas potencialidades, é tomarmos consciência do sentido que queremos dar às nossas vidas, é tomarmos consciência dos limites e da finitude.

Sabemos que para vivermos melhor todos carecemos de amigos a fim de nos conhecermos a nós mesmos. Ter amigos é, sem dúvida, uma necessidade. Somos seres relacionais e a nossa autonomia implica a própria realidade que nos torna dependentes uns dos outros.

Aristóteles afirmou que a procura da amizade e a busca da felicidade são um mesmo caminho e afirmou mesmo que «quando os homens são amigos, não há necessidade de justiça».

Encontrarmo-nos para conversar é uma harmonia resolvida que implica a harmonia dos outros connosco, e se acaso esta harmonia encontra fissuras, algo nos desassossega no equilíbrio da dependência recíproca, na experiência da comunhão afetiva que é indissociável da condição humana.

A amizade proporciona segurança e autoconfiança; proporciona a meditação entre amigos; proporciona o bem comum que nos conecta: a sympatheia que nos faz sentir afetados pelo sofrer e pelo prazer dos outros.

David Hume cultivou com Adam Smith uma profunda amizade e entendia de que o que motivava o comportamento das pessoas era o calor dos sentimentos e não a fria razão. Assim, este «sentir com» levou-nos também a entender o quanto a felicidade da sociedade é aquela que merece o entendimento daqueles que a compõem.

A felicidade não tem receitas para ser alcançada, mas razões para se não sucumbir ao não esforço por este bem maior - que exige tempo e paciência - na consecução de algo rico, de algo com limite, mas que concede.


Teresa Bracinha Vieira


Obs.

Pierre Aubenque, no seu livro sobre a virtude da prudência aristotélica, e tal como o interpretámos, convida-nos a refletir sobre o querer apenas o que é possível e desfrutarmos da vida até onde ela depende de nós.

Jesus Mosterín, no seu livro Racionalidad y acción humana, e tal como o interpretamos, atenta o quanto a racionalidade não promete o caminho da felicidade, mas pode constituir um guia de onde podemos extrair soluções para prosseguirmos os nossos fins «(…) que são mais amplos do que as nossas vidas e que se espalham no tempo.»

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


121. TRABALHAR A FELICIDADE


Para Aristóteles o homem é um ser social, sendo a procura da felicidade a finalidade da vida, só no fim se podendo dizer se fomos felizes.

Há quem diga que a felicidade está nas pequenas coisas, num cheiro apelativo e sedutor matinal, em estados de alma.   

E quem sustente que é uma atividade, não um estado.

Se para uns o trabalho é escravatura, para outros é ser feliz.

Temos de trabalhar a felicidade, num equilíbrio entre interesses pessoais, impessoais e o trabalho, sabido que este, mesmo com amor e gosto, não preenche as nossas necessidades, menos ainda as espirituais.   

Necessário é o meio termo, para fixar o equilíbrio entre o esforço exigível para saber o que é indispensável à maioria das pessoas para serem felizes.

O que exige atividade e esforço, desde a alimentação, a habitação, o amor, reconhecimento e compensação profissional, saúde, respeito de quem e por quem nos rodeia. Para alguns, constituir família e ter descendência. Ou ter interesses por aquilo que não tenha uma importância prática na vida.   

Há interesses à margem das atividades essenciais da nossa vida que nos ajudam a manter o sentido das proporções, que são gratificantes e momentos felizes: uma boa leitura não relacionada com a nossa atividade profissional, ir a jogos, ao cinema, ao teatro, caminhar, correr, atividades e práticas desportivas, artes e cultura em geral. 

Segundo Aristóteles, sem amigos não se alcança a eudemonia, palavra grega que significa felicidade, sendo caso para dizer, exemplificando-o: se grande remédio do mal foi sempre a conversação, idem uma boa conversa a dois.   

 

14.10.22
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

51. O ESSENCIAL E O SUBJETIVO NA FELICIDADE

 

Há coisas imprescindíveis à felicidade da maioria das pessoas: saúde, alimentação,    habitação, amor, ter trabalho, ser respeitado, liberdade de circulação e de movimentos. Para alguns, constituir família e ter descendência é fundamental. Na sua ausência, só alguém excecional é capaz de ser feliz.   

As pessoas que gozam de saúde e podem satisfazer as suas necessidades, deveriam ser felizes, e nem todas o são.   

Quem adquire facilmente as coisas que deseja, sem esforço, e mesmo assim é infeliz, dá razão a quem conclui que o privar-se alguém de algumas coisas de que precisa é parte indispensável da felicidade. 

Mas a felicidade não é uma evidência.

Cada um tem a sua interpretação. 

Há quem a negue e tenha como uma quimera. 

É um conceito amplo, variável no tempo e espaço, de pessoa para pessoa. 

Que impõe limites excluindo, desde logo, a obsessão pela felicidade.

A cultura do excesso, do sempre mais e mais, do espírito de competição doentio, do culto do dinheiro sem limites, parece ser um modo de fuga da realidade e de vivermos num mundo virtual.   

O dinheiro, por si só, não dá felicidade, apesar de dar jeito e, até um certo limite, a aumentar.

O sentimento de triunfo gerado pelo êxito da competição, torna a vida mais agradável, mas por si só também não chega.

Parecem ser um dos vários elementos da felicidade, sendo demasiado elevado o preço a pagar se em função de um deles se sacrificarem todos os demais. 

Será assim se se considerar o triunfo como um único fim em si mesmo, como a finalidade, o desfecho e meta da vida.

O mercado providencia pela procura em alta da felicidade, oferecendo várias terapias, numa sociedade orientada pela medicalização dos comportamentos e seus litígios, orientações psicológicas ou pontuais, com a pressão social para consumirmos cada vez mais, parecendo sempre felizes.

O que gera uma insatisfação permanente, uma incapacidade de resistência à frustração, criando a ilusão que ser feliz é viver sem angústia, tristeza, derrota, medo, desgosto, entre tantas outras coisas que fazem parte da condição humana, devendo ser aceites e compreendidas como tal e para melhor com elas lidarmos.

O lema de que nada é impossível, tudo depende de nós, está errado.

Há que ter como dado adquirido que saber viver e ser feliz se deve, em grande parte, ao facto de termos descoberto e termos alcançado o que mais desejávamos e, também, por termos excluído dos nossos anseios o incessível, como a aquisição filosófica e científica de um conhecimento absoluto em todas as coisas, ou o prazer ilimitado do culto do dinheiro, sob pena de cairmos no pessimismo, por vezes causa de várias formas de infelicidade, como a de quem tem tudo para ser feliz e ainda assim é infeliz, concluindo que a vida humana é essencialmente desprezível.     

Que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, o relacionamento com as coisas, os animais, a natureza, o nosso semelhante seja o mais factível e saudável, a par de interesses subsidiários, além dos pessoais, que são o núcleo central da nossa mundividência. 

É uma mensagem a reter, sem esquecer o sentido crítico, interrogando o sistema, tentando libertar-nos duma realidade distópica e niilista.

Sem narcisismo, egocentrismo, megalomania, vaidade, aborrecimento, tédio, sentimento de culpa, ou de pecado, mania de perseguição, nem agitação, fadiga, inveja ou pessimismo derrotista. 

Antes sim, e tão só, um acessível e tranquilo gosto de viver.  

 

15.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

O QUE QUEREMOS? SER FELIZES. DECÁLOGO PARA A FELICIDADE

 

1. Agora, há dias de tudo e para tudo. Certamente o dia mais universal é o dia 20 de Março, porque nele se celebra o Dia Mundial da Felicidade. Sim. O que é que verdadeiramente queremos? Não há dúvida sobre isso. Queremos todos ser felizes. O Papa Francisco acaba também de o reconhecer e dizer: “A busca da felicidade é algo comum em todas as pessoas, de todos os tempos e idades”, pois foi Deus que colocou “no coração de todo o homem e mulher um desejo irreprimível da felicidade, da plenitude”. “Os nossos corações estão inquietos e em contínua busca de um bem-estar que possa saciar a nossa sede de infinito”, desejo dAquele que nos criou e que é, Ele mesmo, o amor, a alegria, a paz, a verdade e a beleza.

 

2. Precisamente por ocasião desse dia a celebrar a felicidade, Vatican News propôs, a partir de textos e declarações de Francisco, uma espécie de decálogo para a alegria e a felicidade.

 

Ficam aí, em síntese, dez pontos sobre o tema, esse Decálogo.

 

2.1. O início da alegria é começar a pensar nos outros

O caminho da felicidade começa pela necessidade de passar do egoísmo ao pensar nos outros. “Quando a vida interior se encerra nos próprios interesses”, sem “espaço para os outros”, não se goza da “doce alegria” do amor. Não se pode ser “feliz sozinho”. É necessário redescobrir a generosidade, porque, como disse São Paulo aos Coríntios, “Deus ama quem dá com alegria”. Jesus também disse: “Dá mais alegria dar do que receber”. “Se conseguir ajudar uma só pessoa que seja a viver melhor, isso já é suficiente para justificar o dom da minha vida”.

 

2.2. Afastar a melancolia

Francisco gosta de citar o livro bíblico de Ben Sira: “Meu filho, se tens com quê, trata-te bem. Não te prives da felicidade presente, e não deixes perder nenhuma parcela de um legítimo desejo que se te apresente no caminho”. “Deus deseja a felicidade dos seus filhos também nesta terra, embora estejam chamados à plenitude eterna, porque Ele criou todas as coisas ‘para que’ todos possam desfrutá-las”. “O cristianismo não consiste, lembra, não consiste numa série de proibições que reprimem os nossos desejos de felicidade, mas num projecto de vida que pode fascinar os nossos corações”. Deus não é invejoso da nossa alegria e felicidade, o seu único interesse é que sejamos felizes, todos, para isso nos criou.  Portanto, “quer que sejamos positivos” e não prisioneiros de “complicações intermináveis” e pensamentos negativos. Lá está o dito, que não se deve esquecer nunca: “Por cada minuto que nos zangamos, perdemos 60 segundos de felicidade”.

 

2.3. Não são o poder, o dinheiro ou os prazeres efémeros que dão alegria, mas o amor

“A felicidade não é algo que se compra no supermercado, a felicidade vem apenas de amar e deixar-se amar”. “Quando procuramos o êxito, o prazer, o ter de forma egoísta e fazemos ídolos, também podemos experimentar momentos de intoxicação, uma falsa sensação de satisfação; mas, no final, convertemo-nos em escravos, nunca satisfeitos, vemo-nos obrigados a procurar mais e mais, sempre mais”. A alegria verdadeira “não vem das coisas, do ter; nasce do encontro, da relação com os outros, do sentir-se aceite, compreendido, amado e do aceitar, do compreender e do amar”.

 

2.4. Ter sentido de humor

O caminho da alegria também tem um sentido do humor: saber como rir-se das coisas, dos outros e de si mesmo é profundamente humano, é uma atitude “próxima da graça”. O contrário de graça não é desgraça? É preciso dar particular importância à auto-ironia, para vencer a tentação do narcisismo: os narcisistas, diz Francisco, “olham-se ao espelho, compõem o cabelo”. Dá este conselho: quando te vires ao espelho, “ri-te de ti mesmo, far-te-á bem”.

 

2.5. Saber agradecer

A alegria também consiste em poder ver os presentes que todos os dias a vida nos oferece. Estar vivo, a maravilha da beleza da vida e das coisas grandes e pequenas que preenchem os nossos dias. Por vezes, a tristeza está relacionada com a ingratidão, com “a incapacidade de reconhecer os dons de Deus”. É preciso seguir o exemplo de São Francisco de Assis, “capaz de sentir-se emocionado com gratidão diante de um pedaço de pão duro ou louvar a Deus com alegria pela simples brisa que acariciava o seu rosto”. Viver com alegria também é “a capacidade de saborear o essencial” com sobriedade e partilhar o que se tem, renovando “em cada dia o maravilhamento pela bondade das coisas, sem se afundar na opacidade do consumo voraz”. Um coração que sabe ver e como agradecer e louvar é um coração que sabe regozijar-se.

 

2.6. Saber perdoar e pedir perdão

Num coração devastado pela ira, pelo ódio e pelo rancor, não há lugar para a felicidade.  Quem não perdoa causa dano, prejudica-se, antes de mais, a si mesmo. O ódio é causa de tristeza e autodestruição. É preciso perdoar como Deus nos perdoa. Perdoar inclusivamente a si mesmo. Infelizmente, observa Francisco, por vezes “não somos conscientes do perdão de Deus”, e isto vê-se nas caras tristes dos cristãos. E recorda um filósofo que disse: “Os cristãos dizem que têm um Salvador; eu acreditarei, acreditarei no Salvador, quando tiverem  o rosto de gente salva, de redimidos, felizes por estarem salvos”. O que faz o perdão? “Engrandece o coração, gera a partilha, dá serenidade e paz”. 

 

2.7. A alegria do compromisso e o descanso

Francisco convida a experienciar a alegria de trabalhar  com outros e pelos outros na construção de um mundo mais justo, fraterno e livre. E, “contra o pensamento dominante”, apela para o espírito das Bem-aventuranças, que são “o caminho da verdadeira felicidade”. São felizes “os simples, os humildes que deixam espaço para Deus, que sabem chorar pelos outros e pelos seus erros, continuam tranquilos e serenos, lutam pelo justiça, são misericordiosos com todos, mantêm a pureza do coração, trabalham continuamente pela paz e permanecem na alegria, não odeiam e até, quando sofrem, respondem ao mal com o bem”. As Bem-aventuranças não são comportamentos e virtudes para heróis, mas um estilo de vida para aqueles que se reconhecem necessitados de Deus. Não perdem “nunca de vista o caminho de Jesus”: estão sempre com Ele no trabalho e sabem descansar com Ele para empreender o percurso com alegria.

 

2.8. Oração e fraternidade

Pelo caminho da felicidade também há provações e fracassos que podem levar ao desalento. Contra isso, duas indicações, para não perder a esperança e não se render: perseverar na oração e nunca caminhar sozinho. “A oração muda a realidade, não o esqueçamos. Muda as coisas ou muda o nosso coração, mas muda sempre a situação. Rezar é agora a vitória contra a solidão e o desespero”. E Francisco adverte contra a tentação do individualismo: “Sim, podes ter êxito na vida, mas não, sem amor, sem companheiros, sem essa experiência tão bela que é o arriscar juntos. Não se pode caminhar sozinho”.

 

2.9. Abandonar-se nas mãos de Deus

Na vida, há o tempo da cruz, da noite e da dúvida, momentos tenebrosos em que nos sentimos abandonados por Deus, e é nesse silêncio de Deus que precisamos ainda mais de nos abandonarmos confiadamente nas suas mãos. Aí, encontramos a paz, na certeza de que “as graças do Senhor não terminaram, as suas misericórdias não se esgotam”. Como diz Jesus: “A tua tristeza transformar-se-á em alegria ‘e’ ninguém poderá tirar-te a tua alegria”. “A Boa Nova é a alegria de um Pai que não quer que nem um dos seus filhos se perca”.

 

2.10. Saber que és amado

A alegria autêntica provém do encontro com Jesus, de acreditar que Ele nos amou a ponto de dar a sua vida por nós. Fonte da alegria verdadeira é saber que somos amados por Deus, que é Pai e Mãe. Fundamento inabalável da alegria é escutar Deus que nos diz: “Tu és importante para mim, amo-te, conto contigo”. Para Deus, “não somos números, mas pessoas” que Ele ama. “Nascemos para nunca morrer, nascemos para desfrutar eternamente da felicidade de Deus”.

 

3. Este é o segredo do Papa Francisco: “Sou amado, logo existo”. Por isso, “não tem medo de nada”.

 

Aqui, permita-se-me uma confissão pessoal. Tentei um dia dizer isso numa palestra em Maputo: que valemos para Deus, temos valor para Ele, e isto é que justifica a vida, na perspectiva da doutrina célebre da justificação em Lutero. Vim depois a saber  que um moçambicano tinha feito uma caminhada de mais de 10 quilómetros a pé, para ir dizer a uma irmã: “Sabes? Agora percebi: valemos para Deus, temos valor para Ele. Esta é a fonte da nossa alegria. Tinha de vir dizer-to.”

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 31 MAR 2019

 

 

Caminhos para a Liberdade - Episódio 05 - Anselmo Borges >> Assista aqui

 

Ainda aí, por conseguinte, o corpo do novo Código (cont.)


ARTIGO 100º
(Estado de necessidade)
 

São consideradas nulas as pirâmides conceituais positivadas a menos que projetadas por arquiteto costumeiro em traços de futuro.
 

ARTIGO 112º 

(Legítima Defesa)
 

Aplicam-se todas as lacunas da alma inerentes à capacidade de sonhar nas exatas condições do possuidor da mesma, desde que visem a transmissão da felicidade dos próprios a pessoa singular, bem como aos povos e às nações:

 

      a) Para efeitos da presente norma entende-se por felicidade transmissível apenas aquela que tenha modo de se eternizar e probabilidade de ser entendida como tal. 

 

Teresa Bracinha Vieira 

Outubro 2016