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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ABECEDÁRIO DA CULTURA DA LÍNGUA PORTUGUESA


L. LOPES (FERNÃO)


Nesta visita sistemática dos fantasmas da Casa Portuguesa, chegamos ao loquaz Fernão Lopes, autor da “Crónica de D. João I”, um dos grandes marcos da língua portuguesa. A vida de Fernão Lopes é um mistério. Por ironia do destino, o homem através de quem conhecemos a História da geração que o precedeu, é-nos quase desconhecido como pessoa. A própria efigie que aqui reproduzimos é duvidosa. Talvez seja ele uma das figuras representadas nos Painéis de S. Vicente de Nuno Gonçalves. Não sabemos quando nasceu, mas presumimos que tenha sido nos anos da crise. A sua origem era plebeia, e esse facto explica a atenção que reserva na sua escrita à “arraia miúda de ventres ao sol”. O seu nome aparece-nos pela primeira vez em 1418, como guarda-mor das escrituras da Torre do Castelo de Lisboa. Um ano depois, é escrivão dos livros de D. João I e em 1422 exerce o cargo de escrivão da puridade do Infante D. Fernando, sendo depois nomeado tabelião geral do reino. D. Duarte atribui-lhe uma tença anual vitalícia em 1434 para escrever as crónicas da história geral do reino, até D. João I. Como cronista-mor exerce funções, com zelo e competência, até 1454, altura em que, por estar “mui velho e flaco”, é aposentado. Gomes Eanes de Zurara é quem escreve a versão final da terceira parte da Crónica de D. João I. Estando Fernão Lopes com avançada idade em 1459, julga-se que morreu no ano seguinte. Como cronista é o primeiro grande estilista da prosa em língua portuguesa, com a sua escrita fluida e atraente, presenciamos uma sucessão de acontecimentos que anunciam uma nova era, diferente do estilo medieval. Assistimos ao “crepúsculo” do tempo antigo, na sequência de um rumo modernizador preparado na passagem dos séculos XIII para o XIV no período dionisíaco. Um dos temas novos é o da legitimidade política, que deixa de ser fundada no património e no senhorio, para passar a ser ditada pelas gentes e pelo “poboo”. Sente-se a influência da escola de Bolonha. Desde que se fixara a fronteira do reino e que a língua comum se tornara idioma oficial dos tabeliães foram abertos os caminhos do “direito de naturalidade”, por contraponto ao “direito senhorial”. E se houve divisões drásticas na sociedade portuguesa, com a alta nobreza e o alto clero a sustentarem o conceito “legitimista” de D. Beatriz, e a burguesia das cidades a ansiar por um entendimento mais ligado aos povos, o certo é que a matriz legitimadora do reino (o Estado que precedeu a nação) atribuía uma forte importância aos municípios, aliados naturais do poder real. O “direito de naturalidade” representava o anúncio de uma nova conceção. E Fernão Lopes desenvolve na “Crónica de D. João I” esse entendimento, quer na narração quer nas reflexões. Fala de “verdadeiros portugueses”, mas também de “cidadãos honrados”, de “amor da terra”, do grito “Portugal” da gente “miúda” e até de “evangelho português”. E esse entendimento leva-o a conceber a historiografia como uma procura de factos fiéis à realidade, em nome da causa legitimadora do Mestre da Avis. Lembremo-nos dos relatos do Cerco de Lisboa e da batalha de Aljubarrota. Os acontecimentos são minuciosamente descritos, numa cadeia de factos que culmina no sucesso de D. João I. Se o cronista apresenta um novo entendimento social e político, fá-lo com o recurso originalíssimo à narrativa, demonstrando “o estofo de um dramaturgo poderoso”, como dirá António José Saraiva, afirmando-se como um exímio “contador da História” na expressão de Teresa Amado… Fernão Lopes reúne os elementos fundamentais para justificar a “justa aclamação”. O relato das Cortes de Coimbra é magistral. O cronista dá-nos, com minúcia, as provas da argumentação jurídica de João das Regras. Aí estão a incerteza da paternidade de D. Beatriz, a situação matrimonial irregular de D. Leonor Teles, o apoio cismático de D. João de Castela ao Papa de Avinhão, a demonstração da ilegitimidade (e da indignidade por apoio á causa de Castela) de D. João de Castro, filho de D. Inês de Castro… A argumentação jurídica alia-se aos sinais da Providência, protagonizados pelo jovem Condestável do Reino D. Nuno Álvares Pereira, chefe militar da linhagem de Galaaz, o cavaleiro de Camelot e companheiro do Rei Artur, do ciclo bretão. Álvaro Pais, o rico cidadão de Lisboa, é a verdadeira alma do movimento. As hesitações e até a descrição da personalidade contraditória de D. João, Mestre de Avis, demonstram com meridiana clareza que houve um forte impulso, vindo do movimento popular, mobilizador de vilões, mesteirais e lavradores. E se o Mestre começa por ser quem está em posição mais frágil na linha sucessória, sem mesmo desejar ser rei, como várias vezes afirma, considerando ser seu meio-irmão D. João de Castro quem teria maior legitimidade dinástica, a verdade é que a sua condição de clérigo o afastava da sucessão. O certo é que os acontecimentos (e a determinação de Álvaro Pais) irão colocá-lo no centro dos acontecimentos e à frente dos destinos do reino.  Em Coimbra, porém, o legista João das Regras, depois de declarar o trono vago, demonstra que a nova legitimidade, a dos povos, não oferecia dúvidas, cabendo ao Mestre ser o novo Rei. O movimento popular não tinha, é certo, a aceção que hoje lhe daríamos. Opunha-se à aristocracia fidalga, na linha da consolidação da monarquia fundada por Henrique de Borgonha e seu filho Afonso Henriques. E como é facilmente compreensível a conceção do “direito de naturalidade” reforçou o peso e a importância dos povos dos concelhos, segundo o que Jaime Cortesão designaria como “os fatores democráticos na formação de Portugal”. Estamos, assim, perante uma revolução de “cidades” e de “vilões”, logo desde os acontecimentos de Lisboa, em 1383, com a morte do conde de Andeiro, mas também em Beja, em Évora, no Porto. Sente-se a “epopeia” das mudanças profundas, a partir da “gente pequena dos lugares” e, sobretudo, de uma razão nova: “Ó geração que depois veio, povo bem-aventurado, que não soube parte de tantos males nem foi quinhoeiro de tais sofrimentos” … As vilas combatem os castelos, a legitimidade nova destrona a legitimidade senhorial. Novos espíritos se anunciam.


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