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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Guilherme d'Oliveira Martins chamou-me a atenção para o facto de, na minha última carta, eu atribuir a autoria de uma quadra de Mário de Sá Carneiro a António Ferro: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto, / e hoje, quando me sinto, / é com saudades de mim. Tem toda a razão  o meu amigo Guilherme: na verdade - e tal qual os transcrevo - estes versos integram um conjunto de quadras feitas e reunidas por Sá Carneiro numa poesia intitulada Dispersão que, aliás, dá  nome a um livro, publicado em 1914, mas composto em maio de 1913, marco cronológico das edições da obra poética do autor. Terá acontecido que  António Ferro, amigo de Mário, usou aquela primeira quadra de Dispersão como epígrafe (ou dedicatória) de um livro de poemas seus: Saudades de Mim. Li-os em 1957, ano da sua publicação, e nunca mais vi o livro. Mas a quadra de Sá Carneiro, que o encabeçava, ficou-me na memória e, quiçá por tê-la lido no livro de Ferro, associei-a a este. Mas terá sido assim? Estaria essa quadra mesmo lá? Eis que é antiga a lembrança, nada posso garantir para além de ter decorado esses versos... Curioso ainda é o facto de eu não encontrar, entre as dezenas de milhares de livros da minha biblioteca pessoal, a obra de António Ferro, mas de lá estarem as opera omnia de Mário de Sá Carneiro, cujo 2.º volume, na edição da Ática (em 1953), dá pelo nome de Poesias e inclui Dispersão e suas quadras. Neste volume, o adolescente que eu então era registou a data em que o adquiri: CALMO (as letras iniciais do meu nome e apelidos) 1956. Possuo ainda outras edições das Poesias, incluindo do poema Diapasão, como, por exemplo, a do Círculo de Leitores (1990) ou a chamada Obra Essencial, planeada por Fernando Pessoa, conforme desejo expresso do autor, e editada pela E-Imprimatur em 2016. Dessa respigo estes trechos do poema de Pessoa (1934) cujo título é SÁ CARNEIRO:

 

                     Nesse número do Orpheu que há-de ser feito
                     Com rosas e estrelas em um mundo novo.

 

                     Nunca supus que isto que chamam morte
                    Tivesse qualquer espécie de sentido...
                    Cada um de nós, aqui aparecido,
                    Onde manda a lei e a falsa sorte,

 

                   Tem só uma demora de passagem
                   Entre um comboio e outro, entroncamento
                   Chamado o mundo, ou a vida, ou o momento;
                   Mas seja como for segue a viagem.

                   [...]

                   Hoje, falho de ti, sou dois a sós.
                   Há almas pares, as que conheceram
                  Onde os seres são almas.

 

                 Como éramos só um, falando!
                  Éramos como um diálogo numa alma.
                  Não sei se dormes... calma,
                  Sei que, falho de ti, estou um a sós.

 

   A releitura destes versos traz-me memórias da amizade, em tempos bem mais antigos, entre Montaigne e La Boétie: esqueço a distância do tempo e das culturas, pensossinto a igual consciência de pertença e comunhão com o próximo. A morte de um amigo é sempre também um pouco de mim que me deixa só. [E todos nós o teremos experimentado, sobretudo depois de chegados a uma certa idade: ainda quando iniciava esta carta para ti recebi a nova da morte, consequente a uma contaminação por covid 19, do meu grande amigo e compadre Miguel João Rodrigues Bastos. Tê-la-ei sentido mais, talvez por não ter sequer havido uma despedida, nem a possibilidade de eu dar um abraço amigo à família...]  

   Quando, em carta anterior à presente, Princesa de mim, citei a quadra que de cor guardava, não pretendia falar doutro tema que não fosse a meditação que então fiz contigo. Hoje, já que veio à baila Mário de Sá-Carneiro (o hífen entre apelidos pondo-lhe o nome "à francesa", tal como ele quis durante o "exílio" parisiense), falaremos mais sobre o poeta.

   No prefácio que escreveu para a edição do Círculo de Leitores acima referida, Nuno Júdice começa por afirmar; Podia-se começar por uma constatação: a de que a escrita de Sá-Carneiro  é uma escrita doente. Não é uma doença física, mas «qualquer coisa de intermédio», como ele próprio diria - entre o corpo e a alma. E esta divisão reflete-se dolorosamente na sua imagem do mundo, transportando para o interior da ficção e da poesia um drama que o consumirá até ao instante do suicídio. Esse «qualquer coisa de intermédio» acima referido é verso de um poema, o 7, de Indícios de Ouro:

 

                    Eu não sou eu nem sou o outro,
                    Sou qualquer coisa de intermédio:
                    Pilar da ponte de tédio 
                    Que vai de mim para o Outro.

 

   Este é de 1914, mas já em 1911, no seu A um suicida, Sá-Carneiro escrevia:

 

                    Tu, morreste.

 

                    Foste vencido? Não sei.
                    Morrer não é ser vencido,
                    Nem é tão pouco vencer.

 

                    Eu, por mim, continuei
                    Espojado, adormecido,
                    A existir sem viver.

 

                   Foi triste, muito triste, amigo, a tua sorte - 
                   Mais triste do que a minha e malaventurada.
                   ... Mas tu inda alcançaste alguma coisa: a morte,
                   E há tantos como eu que não alcançam nada...

 

   Pensossinto que a morte, precisamente por ser certa e certeira, não é algo que deva estar ao nosso alcance. Não é preciso. Ela virá, e nunca sabemos nem o  dia, nem a hora. O que podemos sempre tentar alcançar é a vida, na medida possível  do nosso alcance. Afinal, é ela a nossa vocação, a alma que nos anima (perdoa-me o pleonasmo). E a vida é-nos dada, não nos pertence: chama-nos, mesmo que para fora de nós. É no dom de si mesmo que se semeia o amor e se comunica (e comunga) a vida. Mais um dos nossos humanos paradoxos: se o grão de trigo lançado à terra não morrer, permanecerá sozinho. Mas se morrer dará muito fruto. Quem amar a sua vida perdê-la-á... (João, 12, 24-25). E até sem citar os evangelhos, Georges Bataille escreveu que l´érotisme c´est l´affirmation de la vie jusque dans la mort... 

   O drama, a tragédia, de Sá-Carneiro foi nunca ter percebido que é grande ilusão alguém ter saudades de si mesmo. Como, afinal, num texto publicado na revista Athena, nº. 2, Novembro de 1924, escreve, a dado passo, Fernando Pessoa: Génio na arte, não teve Sá-Carneiro nem alegria nem felicidade nesta vida. Só a arte, que fez ou que sentiu, por instantes o turbou de consolação. São assim os que os Deuses fadaram seus. Nem o amor os quer, nem a esperança os busca, nem a glória os acolhe. Ou morrem jovens ou a si mesmos sobrevivem, íncolas da incompreensão ou da indiferença. Este morreu jovem, porque os Deuses lhe tiveram muito amor. Dito que não é assim tão contrário ao que escrevo acima, já que pensossinto que tais deuses não morrem de amores.

   Mas para nos dar uma visão pela perspetiva de um crítico literáriotrago-te agora, Princesa de mim, uns trechos de João Gaspar Simões, que recolhi do estudo que esse crítico publica em apresentação do poeta. Pensando também como teriam certamente cabimento nas considerações da minha carta anterior, se então me tivesse lembrado de Sá-Carneiro, logo quando parti duma citação de versos seus pelo António Ferro. Vamos a Gaspar Simões:

   Os simbolistas, de acordo com os progressos da psicologia, inverteram os termos da inspiração. O poeta deixou de se inspirar na natureza, para se inspirar em si mesmo. Já não precisa de olhar as águas para ver que as mágoas correm como elas. Começa por olhar as suas mágoas e só depois procura, no domínio dos símbolos, quer naturais quer espirituais, uma correspondência equivalente...   ...O simbolismo é, portanto, um movimento poético em que o centro da poesia está no poeta. O poeta constitui-se fulcro do poema. A poesia não é uma introversão do mundo no poeta; o poeta é que o extroverte. O mundo está nele: dele, poeta, é preciso partir para encontrar o mundo...

   ... Tendência nativa, vento de feição - eis que o simbolismo nos trouxe os mais subjetivos dos nossos poetas. Mário de Sá Carneiro é a quinta essência desse simbolismo: será mesmo o seu símbolo vivo. 

   Todavia, não foi por isso que citei a primeira quadra de Dispersão. Fi-lo tão somente por ter guardado comigo aqueles versos, durante muitos e muitos anos. Talvez por eles me terem dito algo que, aos meus quinze anos, já sentira como tentação de auto refúgio e que, a pouco e pouco, paulatinamente, por lindos que os versos fossem, penseissenti que devia ultrapassar, buscando na minha circunstância, não a minha essência impossivelmente reconhecível, mas a minha existência efémera na sua razão de ser estando. 

   Finalmente, Princesa de mim, devo confessar-te que, ao reler escrupulosamente o poema Dispersão, alertaram-me a memória três outras quadras que, se bem recordo agora, me impressionaram há quase sete décadas, negativamente. Aqui vão:

 

                    Como se chora um amante,
                    Assim me choro a mim mesmo:
                    Eu fui amante inconstante
                    Que se traiu a si mesmo.

 

                   Não sinto o espaço que encerro
                   Nem as linhas que projeto:
                  Se me olho a um espelho, erro - 
                  Não me acho no que projeto.

 

                  Regresso dentro de mim
                  Mas nada me fala, nada!
                  Tenho a alma amortalhada,
                  Sequinha, dentro de mim.

 

      E concluo com a primeira: Perdi-me dentro de mim / porque eu era labirinto... Pois não será a ensimesmar-nos que daremos com uma saída airosa para qualquer crise do drama da nossa tão paradoxal condição humana. Não sei em quê a educação e o meio possam ter contribuído para Sá Carneiro ter sido o que foi. É esse um problema a que me não quero abalançar - escreveu, em 1940, João Gaspar Simões. Tampouco quero fazê-lo, mas talvez se possam situar já na infância do poeta algumas das raízes do tão doentio narcisismo que o desesperou. Perde-se no labirinto de si, não só o órfão de mãe mimado por avós e uma ama, e cujo pai se ausenta frequentemente, mas todo aquele que, talvez por outras razões, acaba por se sentir apenas na saudade de um si mesmo utópico que, por ser imaginável, ele próprio todavia desconhece. O encontro de mim com eu mesmo só será possível pelo Outro, que me dá a minha auto descoberta na minha circunstância. Na cultura japonesa, por exemplo, a contemplação da natureza é anterior à poesia. E brevemente te falarei, em rebusca do Japão, do conceito de fusosei, que o filósofo Watsuji Tetsuro define com elemento estrutural da existência humana. E talvez seja interessante comparar o livro dele, intitulado, na versão francesa Fudo, le milieu humain com uma obra de Teilhard de Chardin, lida também na minha adolescência, Le Milieu Divin.

   O velho que hoje sou aprendeu desta vez que até as falhas de memória podem abrir-nos portas para novas peregrinações. Bem haja, Guilherme amigo! 

 

Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS

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  De 26 de outubro a 1 de novembro

 

Maria Aliete Galhoz é uma referência fundamental na cultura portuguesa, para quem a cultura era uma só, apesar das cambiantes erudita e popular.

 

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SURPRESA E DESLUMBRAMENTO

Toda a vida ouvi falar de Maria Aliete. Era da mesma geração e conterrânea de minha Mãe. As referências e a admiração foram sempre indiscutíveis e uma constante. E com o tempo fui seguindo o seu percurso de professora, de investigadora, de referência fundamental da cultura portuguesa, no sentido mais amplo. Se foi das primeiras a desvendar o lado menos conhecido de Fernando Pessoa, em especial com “O Livro do Desassossego”, cuja revelação se deve ao trabalho minucioso da infatigável estudiosa, com Teresa Sobral Cunha, na equipa de Jacinto do Prado Coelho, também foi e é uma referência essencial na descoberta da cultura popular, com fantásticas revelações, que nos permitem compreender as raízes da dimensão meridional da nossa identidade. De facto, ao lermos a interpretação que foi fazendo de um material riquíssimo recolhido na tradição oral algarvia, facilmente percebemos como a cultura portuguesa que herdámos e continuamos a construir se foi fazendo no continente em curiosos movimentos das gentes e das tradições, de norte para sul, de sul para norte, e internamente em trocas complexas, fruto dos movimentos migratórios entre regiões diversas e de uma rica oralidade, numa sociedade com muito analfabetismo. Há dias, trocando mensagens com Lídia Jorge, partilhámos a grande admiração por Maria Aliete Farinho das Dores Galhoz (dela vos falo), e considerámos ser essencial manter viva a sua memória, não como mera recordação de quem foi - e isso é indispensável para quem, como nós a conheceu e admira -, mas por fidelidade ao trabalho que lançou e fez, nos vários domínios em que se empenhou, para que não se perca e para que continue, em nome dessa simbiose necessária entre a cultura popular e a cultura dita erudita. Em bom rigor, as duas culturas fazem parte de uma mesma realidade, mas só seguindo a orientação que a investigadora adotou podemos enriquecer o património cultural, como realidade viva. De facto, quando aprofundamos o conhecimento do património imaterial, as tradições, os falares, as crenças, as artes, as estórias, é que podemos entender melhor o conjunto do património, da herança e da memória. Quando saiu a primeira edição de O Dia dos Prodígios logo se notou a presença forte dessa oralidade algarvia, palavrosa e criativa. E a razão de ser dessa mágica criatividade está muito explicada no que Maria Aliete foi estudando e investigando. Não esqueço, de muito pequeno, ouvir as estórias mirabolantes de lobisomens aparecidos nas encruzilhadas dos caminhos no breu da noite, dos fantasmas aparecidos e desaparecidos, e das mouras encantadas… E se isto assim era na memória letrada de meu avô Mateus, também o era nas canções e toadas transmitidas por quem não sabia ler nem escrever, mas tinha em si uma reserva literária incomensurável. As mulheres, enquanto faziam empreita de esparto ou de palma, faziam gala em praticar o cancioneiro popular, com os inevitáveis versos-bordão e muita ironia e escárnio… A poesia de António Aleixo está impregnada dessa influência. Muitas narrativas populares misturavam invariavelmente a verdade e o sonho, a realidade e a imaginação. E quando estudamos a rica história algarvia descobrimos a verosimilhança de muitas referências reais, desde a memória moçárabe e da presença da cultura e poesia em língua árabe, até à lembrança da presença dos piratas, vindos do norte, mas também do Mediterrâneo, numa costa vulnerável e plena de inesperados sortilégios.

 

CULTURA ERUDITA E POPULAR

Insistindo na compreensão da cultura popular, Maria Aliete Galhoz considerava que a ideia de um Cancioneiro ajuda a proteger o “perfil ecológico da ecúmena”, ou seja, da grande casa que habitamos: a Terra. E assim “todo o cancioneiro popular é coerente na sua expressão total da natureza do homem integrado no Cosmos, relacionado numa sociedade, confrontado consigo mesmo”. O trabalho partilhado com Idália Farinho Custódio no caso do Cancioneiro Popular vale pela ligação entre a tradição oral (como acontecia na antiga Grécia com os aedos) e a compreensão etnográfica, antropológica e historiográfica de uma das regiões mais ricas de Portugal no campo da memória cultural. Na linha de Ataíde Oliveira e Estácio da Veiga, permito-me ainda referir o trabalho de José Ruivinho Brasão que tem sido fundamental nesta procura da riqueza cultural de uma verdadeira encruzilhada de influências, num cadinho inesgotável de identidades e diferenças. Este trabalho baseia-se numa lição muito fecunda em que nos é dito que deveremos aproveitar os ensinamentos da tradição que nos podem ajudar a mudar de vida – num sentido de valorizar mais o ser, em relação ao ter, e de praticar a existência simples, o contacto com a natureza viva, e a procura da natureza das palavras, dos afetos e menos das aparências – “Não há luz como a do sol / nem água como a da chuva, / nem pão como o do trigo / nem vinho como o da uva”… Lídia Jorge fala de “uma sombra luminosa, muito amada” – e recorda Maria Aliete “passeando na Praia dos Olhos de Água, com um barrete às riscas, era ela então muito jovem. E mais tarde, já nos anos 60, vejo-a no mesmo areal, levando um pequeno cesto no braço. Dentro desse cesto, guardava umas tiras de papel que decifrava” (cf. JL, 7 a 20 de outubro de 2020). Sim, essa é a verdade. Não há que ter dúvidas. Tenho, na distância, a mesma memória de uma menina muito jovem, célebre por lidar com a melhor literatura, de uma investigadora prestigiada, a revelar um Fernando Pessoa que não se suspeitava que existisse – novo semi-ortónimo, para além dos heterónimos. Isto, para não falar de Mário de Sá Carneiro ou José Régio e da sua própria poesia, em Poeta Pobre (1960), Não choreis meus olhos (1971) ou em Poemas em Rosas (1985). E Luiz Fagundes Duarte tem razão ao afirmar que, nos estudos pessoanos, Maria Aliete Galhoz veio introduzir um novo paradigma: “a obra de um autor é aquela que ele efetivamente escreveu, e tal como a fez: é solidária na sua variedade com a unidade do autor (Campos, Caeiro e Reis são heterónimos, mas todos eles são Pessoa) e, num autor de grande envergadura, como é o caso de Pessoa, é tão válida a obra que ele deu por terminada e que publicou, como aquela que, por qualquer razão, ele entendeu não publicar” (Ibidem.). De facto, Maria Aliete Galhoz foi em Portugal a primeira pessoa a entender o trabalho filológico aplicado aos textos modernos – transmitindo a interpretação dos textos aos leitores e estudiosos, de forma clara, persistente e sempre disponível para repensar o sentido das palavras. E não esqueço a dedicatória de amizade que me enviou quando na Edição crítica das obras de Fernando Pessoa publicou Rubaiyat. Como disse da sua frequência da Biblioteca Nacional, a experiência que mais a entusiasmava era “sempre a surpresa e o deslumbramento”, como em Fernando Pessoa, “poeta da fulguração, do ‘encontro’ de um fulcro de poema à altura dessa primeira fulguração: tenteando, riscando, optando, retomando e, ao fim, a impecabilidade do conseguido”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXIV) FERNANDO PESSOA, ALMADA E AMADEO

 

Fernando Pessoa representa o seu tempo de um modo singularíssimo, ligando a leitura do universo à circunstância de ser português – esse curioso casamento entre a história de um povo que o escritor procura interpretar e uma reflexão cosmopolita e universalista, que assume com todas as consequências, é uma característica única, que torna fascinante a leitura de uma obra caleidoscópica, que não pode ater-se a uma cultura particular. Como disse Eduardo Lourenço no fecho do seu imprescindível «Pessoa Revisitado», o poeta «foi uma espécie de aparição fulgurante descida das brumas culturais alheias ao nosso desterro azul, para nele inscrever em portuguesa língua o mais insubornável poema jamais erguido à condição exilada dos homens na sua própria pátria, o universo inteiro». Estamos em Pessoa perante uma totalidade fragmentada. A relação entre o ortónimo pessoano e os principais heterónimos (Alberto Caeiro, Álvaro de Campos, Ricardo Reis e o semi-heterónimo Bernardo Soares do “Livro do Desassossego”) corresponde a uma curiosa representação da pluralidade do universo.

«Desejo ser um criador de mitos, que é o mistério mais alto que pode obrar alguém da humanidade» - afirmou Pessoa. Compreende-se que os amigos presencistas de Pessoa tenham lamentado a publicação da «Mensagem» antes do outro manancial poético do autor. O poeta não deixou de concordar junto de Adolfo Casais Monteiro, mas preferiu falar de um momento crítico de «modelação do subconsciente nacional». Mas será Eduardo Lourenço quem melhor articulará a necessidade crítica da consideração dos mitos pessoanos com a interrogação de Antero de Quental sobre «as causas da decadência dos povos peninsulares», com a obrigação crítica da Geração de 1870 e em especial de Oliveira Martins, com a vontade de renascimento de «A Águia» e com o ensaísmo seareiro. Pessoa disse sobre «Orpheu» a Cortes-Rodrigues que tinha como objetivo «agir sobre o psiquismo nacional», trabalhando-o por «novas correntes de ideias e emoções», sendo uma espécie de «ponte por onde a nossa Alma passa para o futuro». Há um pequeno texto de Fernando Pessoa, em «Sobre Portugal», que trata do provincianismo. Muitas vezes tem sido referido e citado, talvez como um juízo definitivo, que não é. Do que se trata é da definição de uma atitude crítica contrária do conformismo. «O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz. A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e a admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade da ironia». É fundamental sermos capazes de nos vermos projetados no espelho da crítica. A poesia encarrega-se de perscrutar diversos caminhos. Mais do que encontrar soluções, que não cabem à arte, trata-se de iluminar e de ajudar a ver.

E Almada Negreiros? Eduardo Lourenço fala dele como o “único autêntico modernista em sentido estrito de sintonizado com o vanguardismo (ou sucessivos vanguardismos) da época”. Se virmos o percurso de Almada compreendemos que esse gosto absoluto da novidade o leva a crer, menos na lógica dos sistemas, e mais na força da criação. Nesse sentido, quis ser ele mesmo, permanentemente interrogante, ávido da busca. “Os sistemas e os programas servem para conduzir e jamais para criar”. “A Arte não pode viver antes de criar a sua própria autoridade de autonomia dentro da coletividade”. Dêem-se dois exemplos: os painéis da Gare da Rocha do Conde de Óbidos (1945-48) e “Começar” na Fundação Gulbenkian (1968-69). Estamos perante duas abordagens que representam facetas complementares da mesma atitude. A verdade é que estamos diante de obras-primas da pintura portuguesa de sempre, que Almada considerou como as mais próximas da sua própria capacidade criadora, “pinturas da nossa solidão”. Na composição “Começar” temos uma verdadeira síntese de vida e de incessante pesquisa, dando continuidade à tapeçaria “O Número” executada para o Tribunal de Contas (1958). A obra pretende demonstrar que “a arte precede a ciência, a perfeição precede a exatidão”. Afinal, “a perfeição contém e corrige a exatidão”. A paixão de Almada pelo teatro invoca ainda a preocupação do encenador, designadamente quando dispõe as figuras nos painéis, como o da Rocha do Conde de Óbidos. É a sociedade heterogénea, multifacetada e inconformista que se manifesta. José-Augusto França fez a síntese adequada: “Almada situa-se na história da arte portuguesa contemporânea como uma figura única, no seu valor estético tanto quanto no valor referencial da sua mensagem poética”. A expressão “português sem mestre” caracteriza plenamente o artista completo que procurou abrir caminhos novos – “chegar a cada instante pela primeira vez”.

E Amadeo? Se os heterónimos de Pessoa dão a multiplicação de uma personalidade criadora, que interpretou como ninguém os novos tempos de uma modernidade contraditória e inesgotável, foi a capacidade de Amadeo de Souza-Cardoso dar um sentido universal a uma perspetiva multifacetada, produzida num tempo relativamente curto, impressiva e assente em raízes fecundas, que revelam uma espécie de recriação ou reconstrução da realidade e do mundo. Na revista «Portugal Futurista», Álvaro de Campos coincide com Amadeo - «só tem direito a exprimir o que sente em arte, o indivíduo que sente por vários». Almada Negreiros disse que Amadeo «é a primeira descoberta de Portugal na Europa do século XX» - e, maravilhado, deu nota de como partiu de uma identidade próxima para a tornar global - «toda a arte reflete o seu rincão natal. E nunca é o rincão natal o que o pintor retrata. O seu rincão natal são as próprias cores. Foram estas cores que teve para começar a sua mensagem de poeta».

GOM

 

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TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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“LIVRO DO DESASSOSSEGO” (XXXI)

 

“O Livro do Desassossego” foi o resultado da descoberta e do estudo da célebre “arca pessoana”. A publicação é de 1982 e Jacinto do Prado Coelho, Maria Aliete Galhoz e Teresa Sobral Cunha são os artífices. É um conjunto de fragmentos, uma espécie de diário, pensamentos, reflexões, da autoria de Fernando Pessoa (1888-1935), um quase ortónimo, uma vez que o poeta lhe dá nome próprio, Bernardo Soares, ainda que a primeira parte seja atribuída a Vicente Guedes ou quiçá ao próprio Pessoa.

Como tem sido afirmado, há como que uma autorrepresentação do próprio através de um artifício criativo. No fundo, é o próprio poeta que encontramos, com a multiplicidade de temas e de desígnios. Ou seja, para além dos heterónimos principais de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis, encontramos em Bernardo Soares uma chave que nos permite ligar a heterogeneidade da heteronomia à identidade de quem reúne essa diversidade.

Bernardo trabalha num escritório na Baixa de Lisboa, como o próprio Pessoa. Seguimos os seus passos. Podemos sentir a sua solidão, os receios, o sentido e não sentido da vida, os temores, a morte, o amor e vários outros temas sobre a existência. A ideia de desassossego significa inconformismo, criatividade, intranquilidade, angústia, dúvida, aceitação e recusa. Se muitos referem o pessimismo de Pessoa, a verdade é que, em toda a sua obra, percebemos que a consciência certa do valor próprio. É verdade que Pessoa apenas publicou em vida um livro, “Mensagem” (1934), mas quando estudamos o conteúdo da “arca”, percebemos que o poeta foi escrevendo para a posteridade. “Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar”. E quando começa por apresentar o quase heterónimo, diz: «Bernardo Soares, distinguindo-se de mim por suas ideias, seus sentimentos, seus modos de ver e de compreender, não se distingue de mim pelo estilo de expor. Dou a personalidade diferente através do estilo que me é natural, não havendo mais que a distinção inevitável do tom especial que a própria especialidade das emoções necessariamente projeta”.

O mestre Caeiro prenuncia, Campos afirma-se por si, até demarcando-se de Pessoa, mas não deixa de procurar enriquecê-lo e de torná-lo relevante. “Cada um tem a sua vaidade, e a minha vaidade de cada um é o seu esquecimento de que há outros com alma igual. A minha vaidade são algumas páginas, uns trechos, certas dúvidas…” “Tudo me interessa e nada me prende. (…) Tenho fome da extensão do tempo e quero ser eu sem condições”.

Foi Jorge de Sena quem primeiro deu importância à coerência dos fragmentos de Pessoa, ao seu carácter autobiográfico e ao facto de estarmos perante uma espécie de outro autor que, no entanto, tinha tudo a ver diretamente com Pessoa, ele mesmo. Mas Sena, ao partir para o Brasil, foi deixando Fernando Pessoa, para se render ao génio multiforme de Camões.

Bernardo Soares faz parte do universo Pessoa, que ele procura analisar fora de si. “Era um homem que aparentava trinta anos, magro, mais alto que baixo, curvado exageradamente quando sentado, mas menos quando de pé, vestido com um certo desleixo não inteiramente desleixado. Na face pálida e sem interesse de feições um ar de sofrimento não acrescentava interesse, e era difícil definir que espécie de sofrimento esse ar indicava — parecia indicar vários, privações, angústias, e aquele sofrimento que nasce da indiferença que provém de ter sofrido muito…”

“O Livro do Desassossego” é um livro póstumo, autobiográfico, publicado quase cinquenta anos depois da morte do autor, e funciona como o conjunto de reflexões relativamente ao permanente enigma que Fernando Pessoa representa…

Agostinho de Morais

HETERÓNIMOS NO CINEMA

 

Foi há poucos dias. Se bem sei, Fernando Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos tinham ido ver um filme ao cinema Ideal, aqui tão perto do Centro Nacional de Cultura, e não resistiram a tomar uma bica e outras amenidades de boca na Brasileira. Gravei-lhes a conversa e transcrevi, ipsis verbis, o que livremente quiseram dizer. Faltou Alberto Caeiro que, creio, nunca entrou numa sala de cinema.

 

“Ó Fernando, com tanta angústia patriótica a saltar-lhe da mão esquerda para a direita, você nem a bica consegue tomar.”

 

Foi o que o engenheiro disse, fazendo rir a mesa heteronímica a que se sentam. São três: Pessoa, Ricardo Reis e Álvaro de Campos. Mortos, descontraídos e invisíveis para os turistas de 2019 da Brasileira.

 

Pessoa lamentou-se: “Sabe, engenheiro, é a mágoa de um presente infeliz. Somos o pingo de tinta seca de quem escreveu Impérios na geografia do mundo.”

 

Reis, mal o deixou acabar: “Lá vem você com o Quinto Império. Basta-nos o mito ou, para que as actuais gerações compreendam, um milagre como no cinema. Ainda ontem voltei a ver, de mão dada com a Lídia, o “It’s a Wonderful Life” do Capra.”

 

“Nem Portugal é o Jimmy Stewart, nem a Senhora Merkel tem a bonomia do anjo Clarence,” riu-se o desbocado Campos.

 

Pessoa interrompeu-o: “Bem dito, engenheiro. Onde anda o português que, com a universalidade das Descobertas, salvou a Europa de ser só mediterrânica? Voltou o português à antiga – bom católico, toureiro, estúpido como uma porta de cofre-forte.”

 

Campos insiste: “Como não está cá o Mestre Caeiro para se zangar comigo e já que o Dr. Reis gosta de filmes, diria que nos falta um optimismo fordiano.”

 

Logo Pessoa: “O Álvaro confunde optimismo com o que em Ford é só pura crença e europeia. Porque Ford era artisticamente europeu e universal. O cinema dele era uma poesia ajudada: reflecte nos filmes o que a alma não tem.”

 

Reis interrompe-os: “Pois a Portugal até o direito a ser europeu escapa. Somos só serventuários da França e lacaios da Alemanha.”

 

O engenheiro abana a cabeça: “Quando fazemos uma revolução é para implantar uma coisa igual à que já estava. Veja o Passos Coelho, parecia tão liberal e indisciplinador? Mas acabou por cair na disciplina por uma fatalidade ancestral.”

 

Pessoa dá um salto na cadeira: “Álvaro, não está a sugerir que os portugueses se ponham a ver “O Couraçado de Potemkin” ou o “Ivan o Terrível?”

 

Álvaro ofende-se: “Todo o artista que dá à sua arte um fim extra-artístico é um infame. Encontre-me antes, no cinema, um criador de anarquias.”

 

Reis afasta o cálice de absinto: “Um Syberberg, um Herzog? Cuidado com o cinema alemão. Olhem a Merkel: uma asceta. Como é perigoso o asceta que se casa com o poder e se amanceba com a vontade de domínio.”

 

Pessoa concorda: “A Alemanha é na paz o que sempre foi na guerra: uma organização cruel. O sacro império romano é o que cada Alemanha ocultamente quer ser.”

 

Campos volta à carga:”Prefiro o cinema que seja uma mentira artística, o americano. Intruja? Mas um país sem grandes intrujões é um país perdido. Quem não intruja não come. A grande civilização é a superior organização da artificialidade, isto é, da intrujice.”

 

Levantam-se, exuberantes, e saem sem pagar a conta.

 

Manuel S. Fonseca

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

17. FERNANDO PESSOA

 

Fernando Pessoa aceita o providencialismo como fundo espiritual do povo português, atestando-o, por exemplo, em A Mensagem”, tida como símbolo de uma verdade providencial explicitamente assumida como destino sagrado de Portugal.   

 

Assim o parece ter pensado, entre outros, Agostinho da Silva, ao escrever:

 

“Mas eu suponho que Fernando Pessoa pensa que Portugal não teve apenas um papel histórico num certo século, para mostrar ao mundo o que era o mundo, que foi o que Portugal fez, mas que precisa continuar essa obra e passar agora a outro descobrimento muito mais importante, que é o descobrimento da natureza humana e da sua realização plena. Que Portugal apenas descobriu ao mundo o mundo material, descobriu os outros continentes, mas que precisa agora que as pessoas descubram, não apenas o mundo que têm fora de si, mas o mundo que dentro de si têm” (entrevista a Antónia de Sousa, publicada no diário de Notícias de 06/12/94). 

 

Conjuga de um modo muito atual nacionalismo, universalismo e europeísmo. A conciliação de opostos faz-se por assimilação e absorção, sendo essa capacidade, a de ser tudo, que define a verdadeira essência de Ser Português.   

 

Quanto mais formos tudo, mais europeus e universais seremos.

 

Escreve, a propósito:  


“O futuro de Portugal … é sermos tudo. Quem, quer que seja português, pode viver a estreiteza de uma só personalidade, de uma só nação, de uma só fé? Que português verdadeiro, pode, por exemplo, viver a estreiteza estéril do catolicismo, quando fora dele há que viver todos os protestantismos, todos os credos orientais, todos os paganismos mortos e vivos, fundindo-os portuguesmente no Paganismo Superior? Não queiramos que fora de nós fique um único Deus! Absorvamos os deuses todos! Conquistámos já o Mar: resta que conquistemos o Céu, ficando a Terra para os Outros, os eternamente Outros, os Outros de nascença, os europeus que não são europeus porque não são portugueses. Ser tudo, de todas as maneiras, porque a verdade não pode estar em faltar ainda alguma coisa! Criemos assim o Paganismo Superior, o Politeísmo Supremo! Na eterna mentira de todos os deuses, só os deuses todos são verdade” (Revista Portuguesa, nºs 23-24, 13/10/23).

 

“Tudo está em tudo”, tida como uma fascinante e fundamental teoria do século XXI, em que impera a ciência da complexidade, face à qual o local é global e o global é local, eis o que um dos vultos da nossa história (e universal) defendia. 

 

Eis um Pessoa heterodoxo em relação a todas as crenças e teorias estéticas.

 

Apesar do futuro de Portugal se centrar, uma vez mais, à semelhança de Pascoaes e Agostinho da Silva, no seu passado.    

 

07.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VIII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em oitava de Páscoa, na cultura em que respiramos, interrogamos e debatemos, até a incréus acontece - se acaso convivem de perto com pessoas já idosas que sofram degeneração implacável das suas faculdades de concentração e de memória, sobretudo no imediato ou a curto prazo - refletir mais sentidamente nesse mistério da nossa vida e morte, a que Milan Kundera chamaria, apesar de poder pesar-nos, a insustentável leveza do ser. Na verdade, lembrados da nossa infância ou já confortados pelo espetáculo oferecido por netos e bisnetos, sempre recordamos primeiros passos e, desde logo, a extraordinária e gratificante aventura da curiosidade humana como motor de procura. Meninos, até à nossa custa vamos aprendendo a descobrir o mundo, as pessoas, a comunicação. E alegram-se-nos os corações com tal e tanta empresa milhentas vezes repetida, mas em cada uma delas sempre animada pelo impulso de uma ressurreição interior em dialética com a progressiva descoberta do mundo...

 

   Por isso a princípio nos inquieta e entristece a cena de quem já não entende porque não percebe nem sabe distinguir, nem mais nada consegue guardar por que já não se fixa nem sabe registar. Eis uma experiência de vida e convívio que será desanimadora e dolorosa, mas que em período pascal também poderá ser embarque para nova viagem. Pois que nessa idade em que o descobrimento vai dando lugar ao encobrimento, e o discorrer ao confundir, também tudo parece cobrir-se de noite, daquela noite que tantas vezes evoco nos versos de Álvaro de Campos, como sabes. E, neste final de tarde de Pascoela, vejo bem, e com incontida ternura, esta figura de mulher cujo olhar se vai enchendo da penumbra que cresce lá fora e vem entrando pela janela vasta, aberta sobre os campos e que, ajoelhada num sofá macio, ela perdidamente contempla... Não deverá lembrar-se - para os ir recitando - dos versos do Poeta que, todavia, talvez dissessem aquilo que ela simultaneamente vai vendo, perdendo e profundamente sentindo:

     

      Vem, vagamente,
      vem, levemente,
      vem sozinha, solene, com as mãos caídas
      ao teu lado, vem
      e traz os montes longínquos para o pé das árvores próximas,
      funde num campo teu todos os campos que vejo,
      faze da montanha um bloco só do teu corpo,
      apaga-lhe todas as diferenças que de longe vejo,
      todas as estradas que a sobem,
      todas as várias árvores que a fazem verde-escuro ao longe,
      todas as casas brancas e com fumo entre as árvores,
      e deixa só uma luz e outra luz e mais outra,
      na distância imprecisa e vagamente perturbadora,
      na distância subitamente impossível de percorrer.

 

   A alma ali ajoelhada talvez já não saiba, nem sequer pensa nessa oculta vontade de soluçar que, todavia, sente a tentar trepar-lhe pelo íntimo de si. Terá agora, pensossinto eu, outra sageza, talvez porque a alma é grande e a vida é pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar...

 

   Assim me imagino a genufletir a seu lado, rezando, diante da noite que sobre nós vai caindo, com as palavras suplicantes do Poeta:

 

      Vem, Noite silenciosa e extática,
      vem envolver na noite manto branco
      o meu coração...
      Serenamente, como uma brisa na tarde leve,
      tranquilamente, como um gesto materno afagando,
      com as estrelas luzindo nas tuas mãos
      e a lua máscara misteriosa sobre a tua face.
      Todos os sons soam de outra maneira
      quando tu vens.
      Quando tu entras baixam todas as vozes,
      ninguém te vê entrar,
      ninguém sabe quando entraste,
      senão de repente, vendo que tudo se recolhe,
      que tudo perde as arestas e as cores,
      e que no alto céu ainda claramente azul
      já crescente nítido, ou círculo branco, ou mera luz nova que vem,

 

      a lua começa a ser real.

 

   Esta ode do Pessoa Álvaro de Campos, muitas vezes a leio e recito como oração à morte in hora mortis. Aliás, até posso substituir, em quase todos os versos, a palavra noite por morte. Ambas têm cinco letras, três delas idênticas e na mesma posição. Mas, no último verso, lembro-me da lumen vitae, e digo a vida começa a ser real. Aí, afinal, escrevo a morada da minha, da nossa, esperança. Porque somos inquietos por natureza, muitas vezes insatisfeitos só por precipitação, há em nós essa propensão ao descontentamento: resmungamos, ou disparatamos, ou desesperamos, vamo-nos pondo a jeito de nos ocultarmos esse pisca-pisca interior que nos avisa de que a paragem é um convite à paciência. A partir de certa idade, quiçá mais difícil connosco do que para com os outros... Ao ponto de até nos esquecermos de que a substância da nossa esperança é, precisamente, a nossa vida, esta sendo um facto evidente. Nem será necessário recorrermos ao que poderia chamar-se, por contraposição à intuição metafisica, a conclusão biológica do António Damásio quando nos fala na perseverança celular do ser vivo. Em momentos difíceis, recordo muitas vezes a primeira quadra de um fado de Coimbra que, há seis décadas atrás, ouvi em serenata frente à Sé Velha de Coimbra ao Fernando Machado Soares:

 

      A vida é negra, tão negra,
      como a noite nos pinhais!
      Mas é nas noites mais negras
      que as estrelas brilham mais!

 

   Até qualquer passado romantismo nos pode ensinar que tudo é graça... Tal como o Livro do Apocalipse de S. João nos diz: Mas ele pousou a mão direita sobre mim e disse-me: «Não temas. Eu sou o Primeiro e o Último, o que vive. Estive morto, mas eis-me vivo»... Pelos tempos que correm, talvez nos fizesse bem voltar ao treino da contemplação dos mistérios.

 

Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

ÁLVARO DE CAMPOS DIANTE DE UMA TABACARIA…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 25

 

Um dia em Paris, António Tabucchi comprou e leu a tradução francesa de Pierre Hourcade da “Tabacaria” de Álvaro de Campos e foi amor à primeira vista. Então converteu-se a Portugal. Melhor – converteu-se às culturas da língua portuguesa. E a sombra de Pessoa alargou-se… Claro que Maria José teve um papel fundamental, mas a verdade é que, a partir de então, gerou-se um decisivo coup-de-foudre cultural. Hoje, Fernando Pessoa e os heterónimos, com o ortónimo e os semi-ortónimos tornou-se uma referência que ultrapassa fronteiras. O desassossego invadiu o mundo. Profeticamente, ouvimo-lo dizer: “Deve estar para muito breve (…) o aparecimento do poeta supremo da nossa raça, e, ousando tirar a verdadeira conclusão que se nos impõe, pelos argumentos que o leitor já viu, o poeta supremo da Europa de todos os tempos”… Sentimos uma sensação estranha. Se Pascoaes falava dos poetas lusíadas, Pessoa fala apenas de poetas… Pessoa é cosmopolita e vai ao encontro de Shakespeare e de Walt Whitman. E Álvaro de Campos define-se “excelentemente como sendo um Walt Whitman com um poeta grego lá dentro”. Ah! Aí temos a mediação de Alberto Caeiro… As mesmas letras, em ambos, tão diferentes e complementares - A – C… E Almada Negreiros retratou Fernando Pessoa. Fê-lo, aliás, duas vezes em dois lados do espelho. E sobre a mesa está um ícone: o Número 2 de “Orpheu”. Muito se tem dito sobre o movimento que tornou o século XXI uma circunstância que pôs as culturas da língua portuguesa na ordem do dia. Mais do que moda, falamos de capacidade de entender o tempo novo, feito de diferenças, de dúvidas, de perplexidades. Fernando Pessoa e os seus são a ilustração mesma de património vivo de ideias e de diferenças… Oiçamos, de novo, pausadamente este encontro com o Esteves sem metafísica numa Tabacaria que simboliza tudo…

 

«Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro. Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Génio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho génios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicómios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora génios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chuva, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistámos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordámos e ele é opaco,
Levantámo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folhas de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, sem rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.

(Tu, que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -,
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

Vivi, estudei, amei, e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente.

Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-te como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

Mas o dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olhou-o com o desconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, e eu deixarei versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, e os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?),
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.
(O dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono da Tabacaria sorriu».

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

A arte como consciência afirmativa de vida.

 

‘There is no wealth but life. Life, including all its powers of love, of joy, and of admiration. That country is the richest which nourishes the greatest number of noble and happy human beings; that man is richest who, having perfected the functions of his own life to the utmost, has also the widest helpful influence, both personal, and by means of his possessions, over the lives of others.’, John Ruskin

 

A arte é, sem dúvida, uma atividade primeiramente humana – é inexplicável, imperfeita, incompleta, contraditória e paradoxal. O princípio da arte não se prende à recompensa que poderá trazer nem à utilidade que poderá responder. Não é uma mensagem moral, nem filosófica e nem deseja impôr uma nova ordem. A arte é uma necessidade natural / essencial, é uma consciência afirmativa de vida, que toma a forma da matéria na qual é criada.

 

‘When conscience is absent (conscience exists only in a few individuals), then ignorance becomes active and dictates the rules of life.’, Cecil Collins

 

Cecil Collins, no ensaio ‘The Vision of the Fool’, associa a figura do Tolo (Fool) ao Artista, ao Poeta e ao Santo. Para Collins, o Tolo é um Salvador, é símbolo de vida. É o representante máximo da integridade afirmativa da vida. O Tolo é a poética imaginação da vida, é tão inexplicável como a essência da vida o é. Esta vida poética, está presente em todo o ser humano desde o nascimento e desenvolve-se durante a infância mas acaba por desaparecer por imposição da mecanização abstracta da sociedade contemporânea e por exigência do homem inerte que adere a toda e qualquer ordem massificada.

 

‘O perfeito é desumano, porque o humano é imperfeito.’, Fernando Pessoa In ‘Livro do Desassogo’

 

‘The highest reward for a man’s toil is not what he gets for it but what he becomes by it.’, John Ruskin

 

Collins afirma também que o Tolo é toda a criança da vida e não uma virtude abstracta. É a pureza de consciência capaz de uma sabedoria que refunda a ordem das coisas – é uma sabedoria separada de tudo o que diz respeito a ambição, poder, vaidade, hiperactividade e acumulação vã de conhecimento. O Tolo está interessado na vida e sobretudo em estar vivo. É uma atenção constante sobre a identidade e a individualidade humana. Não é o produto de uma realização meramente intelectual mas sim uma criação da cultura do coração, que consegue restaurar no homem a sua inocência original mas consciente. O Tolo é simultaneamente sabedoria e eterna inocência, alegria e sofrimento, magia e tristeza, beleza e estranheza.

 

'Knowledge has two extremes which meet; one is the pure natural ignorance of every man at birth, the other is the extreme reached by great minds who run through the whole range of human knowledge, only to find that they know nothing and come back to the same ignorance from which they set out, but it is a wise ignorance which knows itself.', Blaise Pascal In 'Human Happiness' 

Ana Ruepp

A VIDA DOS LIVROS

  

De 12 a 18 de setembro de 2016.

«As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal» de Miguel Moreira e Catarina Verdier (Parceria António Maria Pereira, 2016) é uma experiência literária inédita, que recorre a Fernando Pessoa como personagem surpreendente e multifacetada de Banda Desenhada.


UMA FIGURA COMPEXA E INESPERADA
A tarefa a que os autores se devotaram de acompanhar os passos de uma figura tão complexa como Fernando Pessoa merece ser alvo de atenção, uma vez que ao longo de cerca de 170 páginas, recheadas de textos e de imagens, imbuídos de um especial cuidado no tocante ao tratamento gráfico, podemos encontrar não apenas a riqueza da obra criadora do poeta e escritor, mas também uma artificiosa e inteligente forma de inserir a multiplicidade dos heterónimos numa dinâmica, muito própria da BD, de aventura, numa narrativa plena de movimento e de ritmos diferentes, muito atraentes para qualquer leitor. O autor dos desenhos e do argumento é Miguel Moreira, notando-se originalidade e maturidade no tratamento de uma arte muito exigente, sobretudo (como é o caso) quando nos encontramos perante um tema difícil, muito tratado por consagrados especialistas – o que obrigou o autor a dedicar-se longamente a um trabalho árduo, de que, no essencial, se sai muito bem. Catarina Verdier foi a colorista do álbum e o seu trabalho é notável, ficando demonstrado que o autor teve a inteligência de conceder à cor uma especial função para tornar a mancha mais atrativa, favorecendo nitidamente a leitura e o acompanhamento da história. E se há pranchas em que se nota uma certa sobrecarga de texto, compreende-se a opção do autor, uma vez que, de certo modo, faz sentir o leitor que o desenvolvimento torna-se necessário para a compreensão do enredo e da narrativa. Se dúvidas houvesse, basta vermos o brilhantismo revelado em outras pranchas onde não há palavras, mas sim apenas o gesto e o movimento. É por isso que se pode dizer que há um evidente equilíbrio entre o desenho e a palavra, com caráter adequado à natureza do tema e da personalidade considerada. Acrescente-se que há uma muito grande preocupação pedagógica na identificação dos diversos intervenientes, de modo a que se saiba exatamente quem é quem e se compreenda a importância da relação deles com Fernando Pessoa. A presença de uma perturbadora figura da morte, que vai tendo diversas aparições no decurso da história, permite a compreensão do sentido trágico da vida do poeta, dos seus amigos, dos seus heterónimos e de quantos povoam a existência da extraordinária geração de «Orpheu». Não se pense, porém, que o curso dos acontecimentos é acompanhado de modo simplificador. As relações entre Pessoa e os elementos do grupo modernista são difíceis – e Miguel Moreira tem o cuidado de as ir tratando sem simplificações, o que torna esta leitura como um precioso auxiliar para um melhor conhecimento de Fernando Pessoa e do seu universo. A expressão «escritor universal» transporta-nos, aliás, para essa perspetiva de quem pretende pela diversidade abarcar o mundo e a humanidade. Naturalmente que uma obra de Banda Desenhada não dispensa que o leitor recorra a informação complementar. No entanto, a base que se encontra nesta obra é muito interessante e útil, pondo-a em paralelo com outros exercícios levados a cabo pelas melhores experiências nos domínios biográfico e científico.

 

VÁRIOS LIVROS, PERSONALIDADE MULTIPLICADA
Os autores confessam que nesta obra há vários livros no mesmo livro. Entende-se que assim seja pela multiplicação de personalidades que encontramos, mas também em virtude da importância da relação da aventura plural com Mário de Sá Carneiro. Nesse caso, temos quarenta páginas de um relato especial, em que os dois poetas são protagonistas-maiores de um verdadeiro romance em diálogo, em que a vida e a ficção se misturam… Por outro lado, Bernardo Soares, o semi-heterónimo, também tem um tratamento especial, que nos permite compreender a importância do «Livro do Desassossego» - obra tardiamente revelada, mas indispensável para a consagração de Fernando Pessoa como referência de uma época, de uma geração e de uma cultura aberta. Há, assim, uma revelação mútua da riqueza criadora de Fernando Pessoa e de Bernardo Soares, em ligação com a diversidade, nada pacífica, de Alberto Caeiro, Álvaro de Campos ou Ricardo Reis… E sobre a tensão existente entre as várias componentes desse complexo universo, temos o episódio inesquecível de Pessoa a escapar a uma valente sova, entre os cestos da Praça da Figueira… Catarina Verdier explica, entretanto, que a cor assume «tonalidades e jogos» que correspondem a fases diferentes – mudando também «de forma subtil em função do local em que as coisas acontecem». Como tem sido reconhecido por quantos se pronunciaram sobre esta obra singular, Fernando Pessoa surge, desde a infância, como alguém que é recriado nesta obra pela revelação de uma obra onde se manifesta uma poderosa vida de reflexão e de permanente procura de novas formas de ver, de conhecer e de compreender… E se poderíamos antecipar a resistência dos especialistas pessoanos relativamente a uma obra como esta, encontramos uma excelente recepção, dado o rigor do trabalho apresentado e considerando o cuidado extremo dos autores em não contaminarem ou contrariarem o estado da arte no domínio da investigação pessoana. Joaquim Pizarro não escondeu uma impressão muito positiva relativamente à obra, de indiscutível qualidade, salientando que estamos diante de um meio importante de revelação da importância de Pessoa na cultura portuguesa. Os autores de «As Aventuras de Fernando Pessoa, Escritor Universal» conseguem no trabalho realizado: (a) utilizar a Banda Desenhada como um meio muito importante de apresentação e divulgação de temas, problemas e personalidades marcantes da cultura; (b) ligar uma narrativa de caráter histórico a uma representação gráfica de qualidade como grande valor pedagógico; (c) sensibilizar o público em geral, mas também os estudiosos, para uma figura marcante da modernidade europeia; (d) demonstrar que é possível garantir um tratamento rigoroso e de grande qualidade a propósito de um tema aliciante mas complexo, já que a heteronomia de Pessoa se soma à grande riqueza da geração modernista de «Orpheu» que o livro trata de um modo bastante atento e amplo.   

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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