Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

HOMEM: O ANIMAL FALANTE E POLÍTICO

  


Lá está Ludwig Wittgenstein: a linguagem não serve apenas para descrever a realidade, usamo-la também para pedir um favor, para agradecer, para amaldiçoar, para saudar, para rezar...


E é preciso atender ao contexto, à situação, ao uso. «Chove» pode dizer a constatação de um facto: está realmente a chover. Mas suponhamos que a mãe, pela manhã, quando o filho se prepara para ir para escola, lhe diz: «Chove», ele sabe ao mesmo tempo que deve levar o guarda-chuva. Se, numa família de agricultores, após uma seca prolongada, como agora, a mulher abre a janela e diz ao marido: «Chove», é o contentamento que é dito. Mas, se estavam na expectativa de um passeio agradável e diz: «Chove», é a desilusão.


A linguagem tem três funções principais: a expressiva, a apelativa e a representativa. Essas funções têm que ver com as relações estabelecidas entre o emissor, o receptor e os objectos: há alguém (emissor) que se dirige a alguém (receptor) para lhe comunicar algo, tornando presente a realidade.


Há também a função fática, que tem apenas a missão de manter o contacto: «sim, sim...», «pois...», «claro...». Quando alguém fala de mais, vai-se tentando dizer que ainda se está lá a ouvir. Sabe Deus!...


Noutro sentido, é essencial a dimensão pragmática da linguagem. Segundo alguns filósofos, deveria tender-se para uma linguagem artificial, lógico-unívoca, interessando apenas as dimensões sintáctica (a relação dos signos entre si) e semântica (relação dos signos com a realidade) da linguagem e o princípio verificacionista das asserções. Mas, deste modo, esquecia-se a dimensão pragmática: falando, produz-se um efeito. Pense-se, por exemplo, na promessa de casamento: «Prometo e juro amar-te e ser-te fiel por toda a nossa vida» produz o efeito que é o próprio casamento. Esta dimensão foi sublinhada na Bíblia: Deus criou pela palavra, palavra eficaz. “Faça-se a luz”, e a luz apareceu.


Com a linguagem, pode-se arrastar multidões, levá-las à revolução, acalmá-las, exaltá-las, virá-las num sentido ou noutro.


A palavra cura. Uma vez, apareceu-me um homem com imensos problemas e apenas me pediu que o ouvisse, sem interrupção. Falou mais de hora e meia e, no fim, agradeceu-me muito, pois não imaginava quanto o tinha ajudado, que nunca me esqueceria. Com algumas palavras, podemos abrir futuro a uma pessoa. Com algumas palavras, podemos destruí-la para sempre: «És um burro, nunca farás nada na vida!»


Pela palavra, abrimo-nos ao mundo e o mundo abre-se a nós. Falando, damos razão disto ou daquilo, argumentamos, comprometemo-nos, formamos comunidade. Sendo a razão humana linguisticizada, só nos podemos compreender a nós próprios em corpo, com outros e na história. O Homem, pelo facto de ser zôon lógon échon, animal que tem linguagem, é também zôon politikón, animal social, político, diferentemente do animal, que é gregário, e a razão disso é a palavra, como bem viu Aristóteles na Política: «A razão de o Homem ser um ser social, mais do que qualquer abelha e qualquer outro animal gregário, é clara. Só o Homem, entre os animais, possui a palavra.» E continua: «A voz é uma indicação da dor e do prazer; por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente, bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos face aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nestas funda a casa familiar e a cidade.» E é pelo diálogo (diá-lógon) que os conflitos se devem resolver.


A linguagem humana não se reduz à linguagem emotiva do prazer e do desprazer. É capaz de fazer juízos morais, de distinguir o bem e o mal, o justo e o injusto, partilhar e debater publicamente estas apreciações. Deste modo, como sintetizou Gabriel Amengual, «por esta dupla função, a linguagem funda a ética e funda eticamente a pólis».


Como faz falta voltar aos clássicos! Para acabar com a mentira e ir além da sofística...


Todos somos animais políticos e, consequentemente, responsáveis pela condução da pólis. Estou de acordo com o Papa Francisco, com a observação de que, embora ele se refira só aos cristãos, o aviso é para todos: "Envolver-se na política é uma obrigação para o cristão. Enquanto cristãos não podemos lavar as mãos como Pilatos. Temos de nos meter na política, porque a política é uma das formas mais altas da caridade, pois procura o bem comum. Os leigos cristãos devem trabalhar na política. A política está muito suja, mas eu pergunto: ‘Está suja porquê?’ Porque os cristãos não se meteram nela com espírito evangélico? É uma pergunta que eu faço. É fácil dizer que a culpa é dos outros... Mas eu o que é que faço? Isto é um dever! Trabalhar para o bem comum é um dever para um cristão."


Escrevi aqui muitas vezes que considero a política uma actividade nobre, das mais nobres. Quando isso acontece no quadro do trabalho para o bem comum, antepondo o interesse comum aos interesses próprios e dos partidos. Mas, sendo a política uma missão tão dura e exigente, quando observo a corrida tão interessada de tantos a cargos políticos, tenho de confessar, sinceramente, que não acredito que a maior parte o faça por amor à causa pública, ao serviço do bem comum. Que interesses, que vantagens, que cumplicidades, que incompetências, que privilégios, que compadrios, que subvenções, que benesses, que vaidades os movem?

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 26 de novembro de 2022

NIETZSCHE E DEUS


Quando lemos atentamente a obra de Friedrich Nietzsche e nos debruçamos com simpatia sobre a sua vida, não podemos deixar de ficar afectados pelo drama até à loucura que a questão de Deus constituiu para ele, filho de pastor protestante. Aquele que fora uma criança piedosa e estudara teologia havia de proclamar publicamente em 1882, através de um louco, em A Gaia Ciência, a morte de Deus: "Deus morreu! Deus está morto! E fomos nós que o matámos!" "Conta-se ainda - continua - que o louco entrou nesse mesmo dia em várias igrejas e aí cantou o seu requiem aeternam deo. Expulso dos templos, ripostou sempre apenas isto: 'Que são agora ainda estas igrejas senão os túmulos e os monumentos funerários de Deus?'.”


Mas, ao mesmo tempo, o júbilo perante o "acto mais grandioso da História", que foi a morte de Deus, é atravessado por estas perguntas terríveis: "Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?".


Pergunto: Não tem Nietzsche razão? Não é isto que se passa hoje: desorientação, falta de sentido, a consumação do niilismo?


Deus tinha de morrer, porque o Deus anunciado pelo cristianismo oficial era o inimigo da vida. No seu O Anticristo, Nietzsche condena o cristianismo como "a única grande maldição, a única máxima corrupção interior, o único grande instinto de vingança, (...), a única imortal mancha desonrosa da humanidade...". Porquê? Porque Deus foi "degradado a contradição da vida, em vez de ser a sua glorificação e sim eterno! Em Deus declara-se a hostilidade à vida, à natureza, à vontade de viver! (...) Em Deus diviniza-se o nada, canoniza-se a vontade do não-ser...!"


Isso, porém, aconteceu, porque Jesus, o "ditoso mensageiro" que "morreu como viveu, como ensinou", "para mostrar como se deve viver", foi, segundo Nietzsche, pervertido por São Paulo e pela Igreja. Como pode ler-se nos escritos póstumos, "a Igreja é exactamente aquilo contra o que Jesus pregou e contra o que ensinou os seus discípulos a lutar." "No fundo, houve apenas um cristão, e morreu na cruz. O 'Evangelho' morreu na cruz". O que se seguiu foi uma "má nova", uma "notícia infausta", um "Disangelho." No entanto, "o cristianismo autêntico, originário, será possível em todos os tempos..." Jesus tinha acabado com o próprio conceito de "culpa", tinha "negado todo o abismo entre Deus e o homem, ele vivia essa unidade de Deus e do homem como a sua 'boa nova'". Foi São Paulo que avançou com a doutrina absurda do Deus que entregou o Filho como vítima - "que paganismo horrendo!", exclama Nietzsche. "Paulo foi o maior dos apóstolos da vingança...", e os sacerdotes enquanto senhores dominaram as consciências escravizadas através da moral do ressentimento.


Mais uma vez, não tem Nietzsche razão? Como foi possível pregar um Deus que enviou o Filho para ser crucificado e assim pagar a dívida infinita da Humanidade e Deus poder reconciliar-se com ela? Não foi a mensagem de Jesus a melhor notícia que a Humanidade alguma vez ouviu e viu: Deus é bom, Ele é Pai/Mãe de todos e só quer a alegria, a realização plena de todos? Como foi possível fazer do Evangelho (notícia boa e felicitante) um Disangelho?


Afinal, que Deus foi esse que morreu? Não tinha mesmo de ser morto? É assim que Nietzsche vai passar a vida atenazado entre a vontade prometeica do superhomem sem Deus e a constante nostalgia do Deus desconhecido. Foi ao Deus desconhecido que o jovem Nietzsche dirigiu esta oração impressionante, comovente:


"Antes de prossseguir no meu caminho e lançar o meu olhar para a frente uma vez mais, elevo, só, as minhas mãos para ti, em direcção a ti. A ti, das profundezas do meu coração, tenho dedicado altares festivos para que, em cada momento, a tua voz me pudesse chamar. Sobre esses altares estão gravadas em fogo estas palavras: 'Ao Deus desconhecido'. Teu, sou eu, embora até ao presente me tenha associado aos sacrílegos. Teu, sou eu, não obstante os laços que me puxam para o abismo. Mesmo querendo fugir, sinto-me forçado a servir-te. Eu quero conhecer-te, desconhecido. Tu, que me penetras a alma e, qual turbilhão, invades a minha vida. Tu, o incompreensível, mas meu semelhante, quero-te conhecer, só a ti quero servir". O mesmo Nietzsche confessou a Ida, a mulher do seu grande amigo F. Overbeck: "Tu nunca abandones a ideia de Deus. De certeza, tu tem-la, sem te dares conta disso. Eu abandonei-a; quero criar algo de novo, e não posso nem quero voltar atrás. Acabarei por sucumbir a esta paixão que me esfalfa constantemente. Vou-me desmoronando, mas isso não me importa."


Concluo, com aquela diatribe dura e melancólica de Nietzsche contra os padres, prevenindo contra a infelicidade, que traz consigo sempre mais infelicidade. “Até entre eles há heróis. Muitos deles sofreram demasiado: por isso, querem fazer sofrer os outros.” Também deixou escrito: “Eu só acreditaria num Deus que soubesse dançar.” Jesus não dançou em Caná?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 de agosto de 2022

ESPERAR O INESPERADO

Edgar Morin.jpg

 

Edgar Morin, o pensador da complexidade, que fez 100 anos em Julho de 2021, continua a ser um dos filósofos e sociólogos mais atentos e merecedores de atenção. Acabou de publicar um novo livro, reflectindo sobre o mundo actual - Réveillons-nous (Despertemos). Sobre ele deu uma entrevista a Jules de Kiss, publicada em Março deste ano em “Franceinfo”.  As reflexões que se seguem acompanham a entrevista.

A primeira é um apelo à urgência de pensar séria e profundamente sobre o que está a contecer. Com Réveillons-nous, Edgar Morin não quer simplesmente fazer eco, doze anos depois, ao livro de Stéphane Hessel, Indignez-vous (Indignai-vos): “Hessel dizia: Indignai-vos. Ele dirigia-se a pessoas já despertas. Eu, eu tenho a impressão de que vivenciamos os acontecimentos um pouco como sonâmbulos. Aliás, o que eu vivi, na minha juventude, nos dez anos que precederam a Guerra. Eu peço que se tente ver e compreender o que se passa. Caso contrário, sofreremos os acontecimentos como, infelizmente, sofremos a última Guerra mundial.” (Pessoalmente, chamo permanentemente a atenção para a necessidade de pensar. Pensar vem do latim, pensare, que sgnifica pesar razões; daí vem também o penso sanitário, pois pensar cura.

Como vê esta nova guerra na Europa, com a invasão da Ucrânia? Certamente, há “uma surpresa, mas não total”. De facto, num artigo no Le Monde em 2014, por ocasião da crise ucraniana, concretamente na Crimeia, escreveu: “Atenção, é um foco de infecção com o risco de ter consequências desastrosas. Durante anos, fechou-se os olhos a esta infecção…” O problema agora é que há “um desequilíbrio”:  “estamos numa espécie de contradição, porque, por um lado, pensamos que a resistência ucraniana é justa — é uma guerra patriótica —, mas ao mesmo tempo pensamos que, se entrarmos no conflito, corremos o risco do que Dominique de Villepin chamava um ‘tsunami mundial’: passo a passo, chegar à explosão.” Não nos podemos enredar na lógica da guerra e “interveir militarmente. Por isso, sinto esta contradição que vivemos todos e que é preciso assumir”. “Por um lado, queremos apoiar um país que resiste e, por  outro, não podemos fazê-lo de modo integral, isto é, entrar na guerra. Estamos no meio: fornecemos armas e reabastecimento”.

Os seus três escritores russos preferidos são: Dostoiévski, Tolstói, Tchekhov. “Eles ajudam-no a compreender a guerra  hoje?” “Não, eles ajudam-me sobretudo porque transportam com eles um humanismo russo que, diferentemente do humanismo occidental, que é sobretudo abstracto, é concreto. Está cheio de compaixão  pelo sofrimento e a miséria humana. E o que estes autores me ensinaram  de modo profundo foi este humanismo da compaixão pelo sofrimento.” Aqui, pessoalemnte, pensei no meu íntimo: Nem Putin nem Kirill leram Dostoiévski, Tolstói, Tchekov, ou não entenderam… ou não querem entender.

E voltamos à necessidade urgente de pensar. Estamos mergulhados em crises gravíssimas, que podem colocar a Humanidade perante a possibilidade do seu fim. “Em todo o mundo há crise das democracias, uma crise do progresso. Acreditámos durante muito tempo que o progresso era certo, uma lei da História; ora, hoje percebemos que o futuro é cada vez mais incerto e inquietante. Há a crise do futuro, a angústia, as crises que aconteceram: a económica em 2008, depois a pandemia. As angústias que isso gera provocam um retraimento, um fechar-se sobre si mesmo.” E nota-se uma espécie de derrota dos intelectuais e políticos, que não conseguem fazer-se ouvir. Há uma questão que é “muito impotante hoje. Porque estamos num mundo de experts (peritos) e especialistas em que cada um vê apenas uma pequena parte dos problemas, isolados uns dos outros. Existe hoje de facto essa deficiência.”

De novo o jornalista: “Conversámos sobre a guerra na Ucrânia, tendo como pano de fundo a ameaça nuclear. Também dedica um dos quatro capítulos do seu livro ao aquecimento global. Mestas condições, é possível pensar o futruo com serenidade?” Resposta: “Não podemos ficar serenos perante perspectivas tão preocupantes. O que eu quereria mostrar, mesmo antes da guerra na Ucrânia, é que, desde Hiroshima, uma espada de Dâmacles paira sobre a cabeça de todos, e ela agravou-se com a crise ecológica, que mostra que realmente a bioesfera, o mundo vivo e as nossas sociedades estão ameaçados. Não é só o clima. O clima é um elemento dessa crise geral e a pandemia também contribuiu para o carácter global da crise. Penso que entrámos num novo período. Pela primeira vez na História, a Humanidade corre o risco  de aniquilação, talvez não total — haverá alguns sobreviventes —, mas uma espécie de ‘reinício’ a partir do zero em condições sanitárias sem dúvida terríveis. É esse perigo, que eu já tinha diagnosticado como potencial, que, de repente, se torna actual com esta história de guerra russa.”

Claro que “só podemos pensar o futuro, se estivermos conscientes do passado e do que se passa no presente. Não se pode pensar o futuro isolado. E hoje o futuro depende dessas grandes correntes que atravessam a Humanidade e que são ameaçadoras e regressivas. Portanto, eu penso que é urgente pensar o futuro. Porquê? Até agora pensava-se que o futuro era uma espécie de linha recta que ia continuar. Ora, é preciso imaginar os diferentes cenários. É preciso estar vigilante. É preciso esperar o inesperado   para saber navegar  na incerteza. Há toda uma série de reformas, o modo de pensar, de se comportar, que são hoje necessários.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 23 de abril de 2022

RELIGIÃO A MAIS? DEUS E DIGNIDADE

 

1. O filósofo Henri Bergson, na obra famosa As Duas Fontes da Moral e da Religião, mostrou a distinção entre dois tipos de religiosidade. A primeira - a religiosidade estática - tem a sua base na angústia da morte e no sentimento de abandono perante uma Natureza tantas vezes cruel, e, a partir do instinto de sobrevivência, procura protecção divina para a pequenez humana. A outra - a religiosidade dinâmica - assenta na intuição do Mistério Último experienciado como amor. Esta exprime a grandeza do ser humano e apoia-se na experiência de pessoas excepcionais - os místicos. Mas a mística autêntica e completa é acção, pois o místico verdadeiro, "através de Deus, por Deus, ama a Humanidade inteira com um amor divino".


Não há corte radical entre as duas formas, mas é necessário reconhecer que há vivências mais e menos perfeitas da religião e uma consciência de nível mais alto neste domínio. Quando o núcleo da religião é vivido no amor, não só termina a intolerância como se impõe a compreeensão entre as pessoas, independentemente da sua confissão religiosa. Foi assim que, por exemplo, no sufismo, corrente mística do islão, houve a visão clara de que, insistindo no aspecto amoroso da religião, se dava a aproximação com Jesus, sem necessidade de abandonar a profissão islâmica. Kamil Hussein escreveu: "Se sentes no profundo de ti mesmo / que isso que te incita ao bem é o teu amor por Deus / e o teu amor pelos homens que Deus ama; / se pensas que o mal consiste em afastar-se dos homens / porque Deus os ama, como te ama a ti, / e que perdes o teu amor a Deus se causas dano àqueles que Ele ama, / isto é, a todos os homens, / tu és discípulo de Jesus, seja qual for a religião que professes".


Há um tremendo equívoco na afirmação corrente "católico não praticante", referida só à prática dos rituais religiosos. De facto, como escreveu Nietzsche, "só uma vida como a dAquele que morreu na cruz é cristã". No Juízo Final, não se pergunta se se foi à Missa ou a Fátima, mas se se foi ao encontro dos mais necessitados: deste-me de comer, de beber, de vestir, foste ver-me ao hospital, na cadeia... Os primeiros cristãos tiveram de defender-se da acusação de ateísmo: de facto, não só recusaram o culto oficial romano como não tinham aqueles sinais que aparentemente fazem parte da essência da religião: templos, altares para o sacrifício... Mas amavam Deus e Jesus e o seu sinal distintivo era o amor: “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos. E celebravam com alegria o memorial que Jesus deixara na Última Ceia, a Eucaristia.


Na perspectiva cristã pode-se e deve-se perguntar: para quê o culto oficial, em ordem a aplacar a divindade e propiciar a sua benevolência, se Deus se revelou definitivamente como amor? Só quando for vivida adequadamente no “templo” do mundo a religião verdadeira da justiça e do amor, terá sentido pleno celebrar nos templos a alegria gozosa da vida e da fraternidade em Deus. Por isso, enquanto "a prática cristã" a que se referia Nietzsche for anémica, poder-se-á dizer com razão que no sentido corrente de ritos e cerimónias até há religião a mais.


2. Nestes tempos conturbados, é urgente insistir na questão da religião e da dignidade. De facto, tantos homens e mulheres e crianças que foram escravizados, humilhados, torturados, física e espiritualmente, com base na religião! Pense-se na Inquisição, na tragédia dos abusos de menores ... E ainda se degola gente da forma mais bárbara, argumentando com o Alcorão...


Houve, e há ainda, homens e mulheres para quem teria sido preferível nunca ter ouvido falar em Deus, melhor: não ter tido contacto com certas formas de religião. De facto, a religião foi muitas vezes para muitos causa de desgraça, de infelicidade, de tortura física e interior: pense-se nas guerras de base religiosa, na queima das bruxas, nos escrúpulos, nos traumas sexuais...


Mas, depois desta constatação, é preciso também proclamar bem alto: o Deus em nome do qual se humilhou, se torturou, se escravizou, não é Deus. É apenas um ídolo que os seres humanos criam para satisfazer as suas loucuras, afugentar os seus medos e legitimar a sua ânsia de dominação. Uma religião que conduz à menoridade mental, que escraviza, que faz andar de rastos, das duas uma: ou é uma religião falsa ou os crentes interpretam-na mal. A razão é simples: Deus tem de ser, repito constantemente, pelo menos, melhor do que nós. Ora, um ser humano sadio não pode querer a menoridade de ninguém, não pode tolerar a humilhação, a injustiça, a escravatura, a indignidade...


Por isso, é preferível não acreditar em Deus a acreditar num Deus que humilha o Homem, o escraviza, o torna menor... Se o crente, pelo facto de o ser, não se sente mais humano, mais livre, mais digno, com uma obrigação acrescentada de lutar por mais dignidade, por mais liberdade, por mais fraternidade, por mais alegria, só tem uma coisa a fazer: deixar de acreditar.


Nisto, os ateus, não os ateus vulgares, mas os que sabem o que isso quer dizer, vêem por vezes mais claro que os próprios crentes. Ernst Bloch, por exemplo, viu bem, quando, aliás na linha de Hegel, escreveu que na religião autêntica se exprime a infinita dignidade de ser Homem. Foi ele também que disse que até ele se inclinaria perante um cardeal ou bispo que dissesse e praticasse aquela palavra de Jesus, referente ao Juízo Final: “Aquilo que fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos foi a mim que o fizestes”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 de novembro de 2021

DE AMOR PALPITA O CORAÇÃO NO MUNDO…

Minha Princesa de mim:


Manhã linda, de claro sol e azul celeste! Quedei-me à janela, esquecido de mim, na ronda das andorinhas... Trouxeram-me à lembrança o nosso Alberto, em domingo de graça e paz, cantando, no terraço aberto sobre o jardim, um fado de Coimbra:


     Porque os meus olhos se apartam
     dos teus, não lhes queiras mal:
     as andorinhas que partem
     voltam ao mesmo beiral!
     E hei-de voltar um dia,
     eu sou como as andorinhas,
     se as tuas saudades forem
     bater à porta das minhas!


Este lirismo tão português tem, para um nórdico como eu, algo essencialmente religioso, como uma conversão, movimento perpétuo. A saudade, como a vida, é um regresso, rota astral da fidelidade.  O coração dos homens pode ser infinito, talvez por isso Deus o escolha para habitação. Estive a reler, durante a noite, passos de Das Wesen des Christentums de Ludwig von Feuerbach. E ao pensarsentir, nesta manhã serena, forte e clara, o íntimo movimento do mundo (e repetindo, como canta Alfredo à Traviata: vissi d´ignoto amor, di quell´amor ch´è palpito dell´universo intero...), ocorreu-me esse trecho tão profundo de A Essência do Cristianismo: «A essência secreta da religião é a identidade da essência divina e da essência humana - mas a forma da religião, ou a sua essência manifesta e consciente é a diferença. Deus é a essência humana, mas é sabido como uma essência diferente. O amor é o que revela o fundamento, a essência oculta da religião, mas a fé o que constitui a sua forma consciente. O amor identifica o homem com Deus, Deus com o homem e, por isso, o homem com o homem; a fé separa Deus do homem e, por isso, o homem do homem; Deus não é senão o místico conceito genérico da Humanidade, por isso a separação entre Deus e o homem é a separação entre o homem e o homem, a dissolução do vínculo comunitário. Pela fé, a religião entra em contradição com a eticidade, com a razão, com o sentido simples e humano da verdade; mas, pelo amor, ela volta a opor-se a esta contradição. A fé isola Deus, faz dele um ser particular diferente, o amor universaliza, faz de Deus um ser comum, cujo amor coincide com o amor pelo homem...   ...O amor tem Deus em si, a fé fora de si...». Assim encontro, num pensador germânico que também disse que o mesmo amor é ateu por negar um Deus que seja propriedade particular e oposto ao homem, um eco poderoso de S. Paulo, quando este afirma que, das três virtudes teologais só o amor é eterno. (Aliás, essas virtudes, para Feuerbach são só duas: a fé e o amor, posto que a esperança é a fé que se refere ao futuro. A fé e o amor opõem-se, segundo ele, até nos seus sinais exteriores: os sacramentos do batismo, que vincula a um Deus particular, e o da eucaristia, ceia ou comunhão, que é a partilha do pão, do amor). Fosse Ludwig Ritter von Feuerbach ateu (e Engels o apregoou e dele assim se serviu), encontro nele, repito, uma poderosa e profunda intuição da nossa religião a Deus. Apenas direi que a minha fé habita essa contemplação do amor presente no infinito mistério do mundo. Dou-te uma mão cheia de estrelas que as andorinhas trouxeram. De onde?

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

N.B. Desta vez, não traduzi do alemão passos da carta do marquês de Sarolea. As citações de Feuerbach estão traduzidas pela Prof. Doutora Adriana Veríssimo Serrão em A Essência do Cristianismo, na edição da Fundação Gulbenkian.

 

Obs: Reposição de texto publicado em 20.06.2014 neste blogue.  

UM MUNDO DE CONTRADIÇÕES


Juntamente com Espinosa, terá sido Hegel que levou mais longe o racionalismo: "o que é racional é real e o que é real é racional", escreveu. Mas Ernst Bloch objectou que o processo do mundo não pode desenrolar-se a partir do logos puro. Na raiz do mundo tem de estar um intensivo da ordem do querer. Bloch, como também Nietzsche e Freud, foi beber a Schopenhauer. Este foi um filósofo que sublinhou do modo mais intenso que, na sua ultimidade, a realidade não é racional, pois há uma força que tem o predomínio sobre os planos e juízos da razão: a vontade.


Aí está um dos motivos fundamentais por que, na tentativa da explicação dos fenómenos humanos, a nível individual e social, temos sempre a sensação de que há uma falha no encadeamento das razões. É que no ser humano há o lógico e a pulsão, o cálculo e a emoção, a razão e o impulso.


O próprio cérebro, que forma certamente um todo holístico, tem três níveis. Paul MacLean fala dos três cérebros integrados num, mas também em conflito: o paleocéfalo, reptiliano; o mesocéfalo, o cérebro da afectividade; o córtex com o neo-córtex em conexão com as capacidades lógicas. A luz racional é afinal apenas uma ponta num imenso oceano inconsciente, impulsivo e também tenebroso.


Por isso, não só não conseguimos uma harmonia permanente como é necessário estar de sobreaviso contra a ameaça de descalabros e catástrofes mortais. A nível individual, familiar, colectivo... Também não se pode esquecer que a política, local, nacional, regional, internacional, é conduzida por seres humanos que vivem estas tensões...


Por outro lado, porque o ser humano não é redutível à lógica computacional, é capaz de criações artísticas divinas, do amor gratuito, do luxo generoso, da música — a música, “arte ‘pura’ por excelêcnia”, “a mais ‘mística’, a mais ‘espiritual’ das artes é talvez simplesmente a mais corporal”, como escreveu Pierre Bourdieu, e que não é preciso compreender para se ficar emocionado e extasiado.


O ser humano é pela sua própria constituição um ser paradoxal, em tensão. Ele é essa mistura enigmática de finito e infinito, de impulso e razão, e  o impulso pode transtornar a razão e dominá-la.    


Assim, também não há sociedades completamente harmónicas, pois inevitavelmente são atravessadas pelo conflito. As tensões, os conflitos e até as contradições variam, mas estão sempre presentes.


A título de exemplo, algumas tensões e conflitos na nossa sociedade.


Trata-se, por um lado, de uma sociedade altamente competitiva, que exige enorme preparação científica e técnica, educação esmerada, com trabalho aturado, permanente e competente, mas que, por outro, está impregnada de consumismo, propaga o hedonismo, valoriza em extremo o prazer. Esta tensão torna complexa a educação, não favorecendo de modo nenhum a harmonia pessoal. Tanto mais quanto, num tempo em que é preciso lutar duramente para arranjar um lugar ao sol, programas alarves de televisão e concursos rasteiros dão fama rápida e quantias fabulosas.


A nossa sociedade não quis ter filhos, e evidentemente estava no seu direito. Mas, agora, somos fatalmente confrontados com a inversão na pirâmide das idades, com todas as consequências daí advenientes, por exemplo, no domínio da segurança social. Por outro lado, teremos de importar mão-de-obra estrangeira, o que pode trazer benefícios sem conta; ao mesmo tempo será, porém, necessário estarmos preparados para conflitos que inevitavelmente surgirão. Pergunta-se: que politica tem sido feita a favor da família?


A medicina, felizmente, foi prolongando a esperança de vida das pessoas. Mas, por outro lado, que preparação existe para lidar com a velhice dos outros e com a velhice própria? Chega-se a este paradoxo: a mesma medicina que fez aumentar a média etária vai ser solicitada para ajudar na eutanásia, matar.


Nunca o indivíduo quis auto-afirmar-se com tanta força, mas ao mesmo tempo talvez nunca como hoje se tenha sentido que se vive num processo sem sujeito. Nunca a velocidade foi tão veloz, mas a partir de um certo limiar tomamos consciência de que se vai cada vez mais devagar: o desespero do trânsito nas cidades. Nunca houve tantos meios de comunicação, e tanta solidão!; e não há também a angústia do afogamento em tanta informação? Aí está mais de meio mundo a “dedar” e onde está o espírito crítico?   


Reclama-se os direitos individuais, mas esbateram-se as fronteiras entre o privado e o público, quase desapareceu a intimidade, e, a pretexto da segurança, rendemo-nos à vigilância do Big Brother, que não é só o da televisão, mas o de Orwell. Quando olhamos para a rapidez dos transportes, para tanta tecnologia comunicativa e outra que devia facilitar a vida, aparentemente devíamos nadar em tempo livre; de facto toda a gente desespera com a falta de tempo e nunca o stress terá sido tanto.


O conflito maior é o dos pobres, milhares de milhões. Quando nos países ricos se come de mais e se sofre de obesidade e se queima ou deita comida ao mar em ordem à manutenção dos preços, sabe-se que há hoje no mundo mais de 800 milhões de pessoas com fome.


Depois, é  a guerra, guerras espalhadas por todo o mundo.


Há três impulsos fundamentais com os quais é preciso aprender a viver, como disse Kant: o prazer, o ter e o poder. Afinal, a contradição é fundamentalmente sempre a mesma: tornarmo-nos escravos do prazer, do ter e do poder, esquecendo-nos do ser e de ser. Aí estão os Pandora Papers, etc.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 9 de outubro de 2021

REENCARNAÇÃO?

 

A doutrina da reencarnação é partilhada por mais de mil milhões de seres humanos. Basta pensar que ela é património das religiões de origem indiana: hinduísmo, budismo, etc. Embora se discuta a influência indiana sobre os primeiros pensadores gregos, é um facto que não só os órficos e Pitágoras mas também Platão e os neoplatónicos seguiram essa doutrina, bem como algumas seitas da Idade Média. Entre os seus sequazes contam-se inclusivamente grandes espíritos do classicismo e romantismo alemão. Segundo a investigação de Hans Küng, "poetas e filósofos como Kant, Lessing, Lichtenberg, Lavater, Herder, Goethe e Schopenhauer seguiram, pelo menos durante algum tempo, a doutrina da reencarnação". Embora reinterptretando-a, também o filósofo Ernst Bloch começou por defender a metempsicose. Hoje, tanto na Europa como na América, a reencarnação é a crença de enorme número de pessoas, nomeadamente entre os adeptos do espiritismo, teosofia e antroposofia. Quase um quinto dos europeus adultos, incluindo católicos, diz acreditar nela: 21%, segundo uma sondagem em vários países da Europa ocidental.


O que com a doutrina da reencarnação se quer explicar é essencialmente o mal, as desigualdades entre os seres humanos, o seu destino trágico e incompreeensível, responder, portanto, à problemática moral do mundo, à questão da justiça. Porque é que Mozart manifestava o seu génio já aos cinco anos, porque é que há a criança que nasce mongólica ou cega e outra é superdotada? Na doutrina da reencarnação, isso explica-se como consequência das acções das existências anteriores: um deve pagar pelas suas faltas e purificar-se, outro é beneficiado pelas suas obras boas. As acções produzem um resultado -- bom ou mau--, e há uma lei cósmica de causa-efeito e de retribuição quase automática e mecânica dos nossos actos -- o "karma", segundo o hinduísmo.


A presente situação é, pois, consequência de vidas anteriores. Deste modo, pretende-se solucionar o problema da teodiceia -- justificação de Deus --, pois explicar-se-ia o que parece totalmente injusto: que aos maus a vida corra bem e aos bons tantas vezes corra mal -- o mal dos bons é por causa de culpas anteriores e o bem dos maus por causa de boas acções. A reencarnação purifica de erros e crimes de vidas precedentes e é um apelo à responsabilidade moral. Por outro lado, vai-se fazendo um percurso para melhorar a existência, o que não é possível numa só vida.


A doutrina da reencarnação não é, porém, imune à crítica. Pergunta-se, por exemplo: se a actual situação do Homem é consequência da existência anterior, esta, por sua vez, não deve ser explicada por outra que a precedeu, e assim sucessivamente, num regresso sem fim de reencarnações, de tal modo que o mal que se queria explicar fica inexplicado? E de que serve o recurso a vidas anteriores, se tudo foi esquecido, ficando, portanto, destruída a identidade pessoal exigida para explicar a situação de felicidade ou miséria em que cada um se encontra? É certo que há pessoas que afirmam, em determinadas circunstâncias e perante factos concretos, o sentimento do já visto ou já vivido, e há até as experiências dos comatosos, incluindo a sensação de extracorporalidade, descritas na obra de grande sensação A vida depois da vida, do Dr. Moody. Mas é claro, quanto a estes, que, "se regressaram" à vida é porque na realidade não tinham morrido, e o outro tipo de experiências com pretensas lembranças de vidas anteriores encontra explicação ao nível da parapsicologia, da telepatia, da memória colectiva e do inconsciente. De qualquer modo, como escreve o teólogo Hans Küng, é preciso reconhecer que, neste domínio, não há, apesar dos inúmeros relatos, factos cientificamente estabelecidos e universalmente aceites.


Aliás, deve-se também perguntar: no ciclo das reencarnações, como é que se explicaria o crescimento da população mundial?


A fraqueza maior da doutrina da reencarnação provém do seu pressuposto teórico essencial: a concepção dualista do Homem, que seria um composto de alma e corpo. Na morte, sobrevive a alma, que pode reencarnar noutro corpo humano, num animal ou até num vegetal. Ora, é precisamente esta concepção dualista de Homem que é inaceitável. O corpo não é o túmulo da alma nem simples instrumento seu. Somos hoje cépticos frente à afirmação de uma alma pré-existente ao corpo ou de uma alma separada do corpo após a morte. Aliás, já Santo Tomás de Aquino vira que a alma separada não é a pessoa: “a minha alma não sou eu”. Como admitir o dualismo, se, quando pergunto porque é que eu sou eu, porque é que sou como sou, tenho de responder que o meu corpo faz parte da minha identidade? Nascido de outros pais, com outra herança genética, com outra educação, é evidente que não seria eu.


Há na reencarnação a ideia de que o Homem pelo seu esforço constantemente repetido em vidas sucessivas pode alcançar a plenitude da sua realização. Isso não dá conta da realidade humana.  O Homem permanecerá sempre finito, sem poder dar por si o salto para o Infinito.


É preciso reconhecer que a vida em plenitude, sem a qual a existência humana não encontra sentido adequado, só pode ser acolhida como dom gratuito de Deus. Na perspectiva cristã, o Homem realiza a sua salvação respondendo activamente à oferta graciosa que Deus lhe faz, bastando uma vida. "Em vez da lei cruel da causalidade do karma", na expressão de Hans Küng, o cristianismo anuncia "o Deus misericordioso e magnânimo", que ressuscita os mortos.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 31 JULHO 2021

LIBERDADE E DIGNIDADE HUMANA

 

1. A diferença entre o Homem e os outros animais não é meramente de grau, quantitativa. Ela é a qualitativa, essencial.


A razão dessa diferença está fundamentalmente no facto de o Homem não se encontrar na simples continuidade da vida no sentido biológico. Como escreveu o filósofo Max Scheler, o Homem é “o asceta da vida”, pois é capaz de dizer não aos impulsos instintivos. Por exemplo, ao contrário dos animais, o ser humano, mesmo com fome, perante um petisco, é capaz de renunciar, por razões de ascese, de generosidade para com um necessitado ou pura e simplesmente para provar a si mesmo que é senhor de si e das suas acções. Precisamente nesta sua capacidade vê o célebre biólogo Francisco J. Ayala “a base biológica da conduta moral da espécie humana, nota essencialmente específica dela.” Porque é capaz de renunciar, abster-se, deliberar, optar, o Homem é um animal livre e moral.


Os outros animais também comunicam, mas o Homem tem linguagem duplamente articulada. Aristóteles viu bem, ao definir o Homem como animal que tem logos (razão e linguagem), e, assim, como “animal político”. “Só o Homem, entre os animais, possui fala. A voz é uma indicação da dor e do prazer: por isso, têm-na também os outros animais. Pelo contrário, a palavra existe para manifestar o conveniente e o inconveniente bem como o justo e o injusto. E isto é o próprio dos humanos frente aos outros animais: possuir, de modo exclusivo, o sentido do bem e do mal, do justo e do injusto e das demais apreciações. A participação comunitária nesta funda a casa familiar e a pólis”, o Homem é “animal político”.


Quando lemos os clássicos como Aristóteles é que nos apercebemos como a política anda tão longe desta apreciação do bem e do mal, do justo e do injusto, do conveniente e do inconveniente, de tal modo é presa da fama ridícula, de interesses egoístas, do poder pelo poder, do dinheiro tantas vezes à custa da corrupção...


2. Mas seremos realmente livres? Se sempre se colocou esta pergunta, hoje, concretamente, quando as descobertas da genética e das neurociências mostram uma conexão entre os genes, o cérebro e os comportamentos, há a tentação da dúvida. Não estaremos, afinal, totalmente submetidos aos mecanismos da natureza e da sociedade?


É, no entanto, claro que sem liberdade não há dignidade. De facto, ser ser humano e ser livre identificam-se. Também para o cristianismo há um vínculo indisssolúvel entre o Homem e a liberdade: como escreveu São Paulo, onde está a liberdade aí está o Espírito de Cristo e onde está o Espírito de Cristo aí está a liberdade. A liberdade mostra-se numa experiência transcendental: por paradoxal que pareça, não seria sequer possível discutir a questão da liberdade, se tudo estivesse sujeito ao determinismo. A pessoa livre é aquela que faz a experiência de ser dona de si mesma e das suas acções segundo o dever-ser. Somos dados a nós mesmos e, assim, senhores de nós e do que fazemos.  A dignidade funda-se nesta autoposse: só porque me possuo a mim mesmo é que me posso dar a alguém, entregar-me a uma causa.


Ao contrário do animal, que vem ao mundo já feito e age no quadro de uma rede de instintos, o Homem vem ao mundo praticamente desarmado de instintos, tendo de fazer-se a si mesmo no mundo com os outros. Pode escolher entre esta e aquela possibilidade, até ppode escolher não escolher, mas também esta é uma escolha, com todas as consequências. O Homem é capaz de erguer-se a si mesmo acima do simplesmente agradável ou útil, do que dá prazer, e colocar-se no lugar do outro. É capaz de transcender os interesses particulares da natureza e enquanto ser racional dá a si mesmo a lei moral universal que é a lei da liberdade. O filósofo I. Kant formulou-a nestes termos: “Age segundo uma lei que queiras ao mesmo tempo que se transforme em lei universal de acção”, e: “Trata a humanidade tanto na tua pessoa como na pessoa de todos os outros sempre como fim nunca como simples meio”. Note-se que este “simples meio” é importante, pois também nos tratamos como meios, na medida em que nos servimos dos serviços de alguém e até lhe pagamos por isso; por exemplo, vamos ao restaurante e pagamos a quem nos serve, mas aquela pessoa continua pessoa, não redutível a empregado no restaurante; por isso, é fim e não simples meio, tem dignidade: as coisas têm um preço, a pessoa não é simples meio, é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade.


Sem capacidade moral e liberdade — a liberdade é a condição de possibilidade da moralidade e, consequentemente, da responsabilidade: cada um responde por si, pelos seus actos e pelo que faz de si. O que é que andamos a fazer no mundo? Resposta: fazendo o que fazemos, andamos a fazer-nos a nós próprios, e, no fim, o resultado será uma  obra de arte ou uma vergonha —, o Homem não seria digno de louvor nem estaria sujeito à censura, ao prémio ou ao castigo, e não haveria distinção entre o bem e o mal moral. Como escreveu o filósofo Luc Ferry, que já foi Ministro da Educação em França, “um materialismo consequente deveria limitar-se, sempre, a uma ‘etologia’, sem nunca falar de moral a não ser como ilusão mais ou menos necessária, fazendo parte do real, mas enganadora.” Embora sempre condicionado, só porque não é completametne subordinado nem guiado pela natureza é que o ser humano “pode cometer excessos, quer no mal (o ódio e a maldade), quer no bem (o amor e a generosidade)”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 JULHO 2021

O SENTIDO DA VIDA. (1) QUEM SOU?

 

A presente crise, gigantesca, deveria ser uma oportunidade para pôr de modo mais profundo a questão decisiva do sentido da vida.


Sentido tem a ver com viagem, direcção, meta. Nas estradas, encontramos placas em seta a indicar o caminho para alcançar um destino. Agora, até programamos o GPS que nos levará lá.


Qual é o sentido da vida e a sua meta? Num primeiro momento, a resposta parece clara: a vida é um milagre e o seu sentido é ela mesma. O sentido está nela, no viver plenamente, na criatividade do dar e receber, em plena e total inter-relação.


Mas em nós a vida torna-se consciente. O ser humano é autoconsciente, consciente de si mesmo e, por causa da neotenia — ao contrário dos outros animais, não vimos já feitos ao mundo, mas por fazer, sendo a nossa missão fazermo-nos a nós mesmos, uns com os outros —, a questão do sentido da vida torna-se uma questão pessoal, essencial e inevitável. Não é uma questão adjacente, que possa colocar-se ou não. Ela é constitutiva: ser ser humano é levar consigo esta questão: quem somos?, donde vimos?, para onde vamos?, que devemos fazer?, que sentido dar à existência?


Somos uns com os outros e frente aos outros, mas cada um de nós vive-se a si mesmo como presença de si a si mesmo como um eu único: eu sou eu e não outro. Coincidimos, portanto, connosco, mas, por outro lado, experienciamo-nos como ainda não plenamente idênticos: somos nós mesmos e somos chamados a ser nós mesmos; num apelo constante a fazermo-nos, estamos ainda a caminho de nos tornarmos nós mesmos. Lá está a tarefa paradoxal que nos pertence, segundo Píndaro: “Torna-te no que és.” Precisamente deste paradoxo de sermos e ainda não sermos adequada e plenamente surge a nossa inquietação radical e a pergunta que nos constitui: afinal, o que somos?, quem somos? Uma vez que estamos essencialmente voltados para o futuro, temos de dizer: eu venho de um passado e sou também resultado desse passado, vivo-me no presente, mas eu ainda não sou plenamente, eu ainda não sou o que serei. Cá está, portanto, a pergunta — e o ser humano é radicalmente perguntante, porque é perguntado —, a pergunta radical e ineliminável: então o que é que eu sou e quem sou? E esta pergunta não pode deixar de colocar a pergunta pelo sentido da vida, pois está em conexão com ela: só no processo do viver e do ir-me fazendo poderei ir sabendo quem sou. Mas fazer-me a caminho de quê? Qual é o sentido? Lá estão as inapagáveis perguntas de I. Kant: “Que posso saber? Que devo fazer? O que é que me é permitido esperar?”. E continua: se pudéssemos responder a estas três perguntas, encontraríamos resposta para a quarta, a decisiva: “O que é o Homem?” Afinal, o que somos e quem somos?


O animal, cuja vida é assegurada por instintos, não faz perguntas. O Homem, porque é autoconsciente, inacabado e livre, precisa de saber em que sentido deve orientar a sua  existência e quer saber quem é.


Entre todos os seres da Terra, só o Homem é livre — Kant sugeriu que a liberdade é o divino em nós — e, assim, moral e responsável, só ele tem capacidade de racionalidade abstracta, de autoposse, de opção, só ele se sabe sujeito de obrigações morais para lá dos instintos, só ele pode rir e sorrir, só ele é animal simbólico e simbolizante, só ele pode amar, saber e saber que sabe, só ele é capaz de autoconsciência, de linguagem duplamente articulada, de sentido do passado e do futuro, de promessas, de criação e contemplação da beleza, de descida à sua intimidade e subjectividade pessoal, só ele sabe que é mortal e gasta tempo com os mortos e rituais funerários e espera para lá da morte, só ele pergunta e fá-lo ilimitadamente, só ele cria instituições jurídicas, só ele tem de confrontar-se com a questão da transcendência e do Infinito... Precisamente este conjunto de notas mostra que o ser humano é qualitativa e essencialmente distinto dos outros animais, a diferença não é apenas de grau, mas essencial.


Impõe-se agora perguntar: para que tenha as capacidades que tem e faça tudo o que faz, qual é a sua constituição metafísica? Tem de haver um factor X que está na base de todas estas capacidades. Tradicionalmente, chamou-se-lhe alma. Dada a dificuldade, se não impossibilidade, de pensar hoje o dualismo corpo-alma, compreender o Homem para lá desse dualismo, sem cair no monismo idealista nem no reducionismo materialista mecanicista ou biologista, constitui tarefa ingente para a Filosofia. As investigações etológicas, bioquímicas, da genética, das neurociências constituem hoje talvez o maior desafio alguma vez lançado a uma concepção verdadeiramente humanista e espiritualista do Homem, por causa da tentação de reduzir o humano a uma explicação no quadro exclusivo do zoológico e bioquímico. De qualquer forma, ao Homem reflexivo impor-se-á sempre a subjectividade própria: por mais que objective de si, o sujeito humano deparará sempre com o inobjectivável, já que a condição de possibilidade de se conhecer objectivando-se é ele mesmo enquanto sujeito irredutível. Na reflexão, o Homem é o sujeito e o objecto do conhecimento: sujeito que se conhece como objecto, mas sem se reduzir a objecto. Enquanto sujeito transcenderá, portanto, continuamente a explicação das ciências objectivantes. Para aclarar um pouco a dificuldade do tema, costumo dizer: eu não posso ir à janela ver-me a passar na rua.


Quem sou eu? Não sou coisa. O Homem não é mero objecto. Aí está o enigma, o mistério e a dignidade de um eu a caminho.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 NOV 2020

A SABEDORIA DE VIVER. 2

 

Como prometido, dou continuidade à crónica da semana passada, com pensamentos, estórias, contos..., a partir das “Sabedorias do mundo”.

 

Atendendo à situação de confinamento em casa, resumo, numa segunda parte, dez conselhos do dominicano Frei Betto, que, durante a ditadura brasileira, esteve preso em celas de isolamento. Evidentemente, eles aplicam-se adaptando-os às diferentes situações.

 

I. A sabedoria de viver (continuação)

 

4. Paciência inteligente

 

4.1. “A paciência é um remédio universal para todos os males”. (Provérbio nigeriano).

 

4.2. “Um adolescente japonês foi ter com um mestre de artes marciais e perguntou-lhe quanto tempo seria necessário para aprender esta arte.

 

   — ‘Dez anos’, disse-lhe o mestre.

  — ‘Dez anos? É demais. Nunca terei força para esperar!’.

 — ‘Então, vinte anos’, disse-lhe o mestre.” (Conto japonês).

 

4.3. “Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora consagrava a sua vida a ensinar o budismo zen aos jovens. Apesar da sua idade, dizia-se em voz baixa que era ainda capaz de enfrentar qualquer adversário. Um dia chegou um guerreiro conhecido pela sua total falta de escrúpulos. Era célebre pela sua técnica de provocação: esperava que o seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência rara para aproveitar-se dos erros cometidos, contra-atacava com a rapidez do raio. Este jovem e impaciente guerreiro nunca tinha perdido um combate. Como conhecia a reputação do samurai, tinha vindo para vencê-lo e aumentar a sua glória. 

 

Todos os estudantes se opunham a esta ideia, mas o velho mestre aceitou o desafio. Reuniram-se todos numa praça da cidade e o jovem guerreiro começou a insultar o velho mestre. Atirou-lhe pedras, cuspiu-lhe na cara, gritou dizendo todas as ofensas conhecidas, incluindo ofensas contra os seus antepassados. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. Ao cair da noite, esgotado e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

 

Desapontados por verem o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os estudantes perguntaram: — ‘Como suportou esta indignidade? Porque é que não se serviu da espada, mesmo sabendo que ia perder o combate, em vez de exibir a sua cobardia diante de nós todos?’ — ‘Se alguém vos oferece um presente e vós não aceitais, a quem pertence o presente?’, perguntou o samurai. — ‘A quem tentou dá-lo‘, respondeu um dos discípulos. — ‘Isso vale também para a inveja, a raiva e os insultos’, disse o mestre. ‘Quando não são aceites, pertencem sempre a quem os leva no coração’.” (Conto japonês).

 

Aqui, eu lembrei-me do jogador brasileiro Dani Alves, do Barcelona, a quem, há alguns anos, em pleno jogo, quiseram humilhar, atirando bananas para o campo. E ele? Descascou uma banana e comeu-a. Ridicularizou os imbecis e triunfou com inteligência sobre quem, racista, queria humilhá-lo.

 

5. A morte

 

5.1. “Que fazes? – ‘Procuro um meio de não morrer.’ – ‘E dá resultado?’- ‘Para já, sim. Até agora deu’.” (Estória da cultura muçulmana).

 

5.2. “Uma bela manhã, o califa de uma grande cidade viu correr para ele num estado de grande agitação o seu primeiro vizir. Perguntou as razões desta inquietação e o vizir disse-lhe: — ‘Suplico-te, permite-me deixar a cidade hoje mesmo’ — ‘Porquê?’ — ‘Esta manhã, ao atravessar a praça para vir ao palácio, senti-me tocado no ombro. Voltei-me e vi a morte que me olhava fixamente’. — ‘A morte?’ — ‘Sim, a morte. Reconheci-a perfeitamente, toda vestida de preto com um lenço vermelho. Ela está cá e olhou para mim para meter-me medo. Ela anda à procura de mim, estou certo disso. Vou buscar o meu melhor cavalo e poderei chegar esta noite a Samarcanda’. - ‘Era realmente a morte?’ Tens a certeza disso?’ - ‘Absoluta. Vi-a como te estou a ver a ti. Tenho a certeza de que era ela. Deixa-me partir, peço-te.’ O califa que tinha afecto pelo seu vizir, deixou-o partir.

 

O homem voltou a casa, pôs a sela ao primeiro dos seus cavalos e atravessou a galope uma das portas da cidade, na direcção de Samarcanda. Um pouco mais tarde, o califa, atormentado por um pensamento secreto, decidiu disfarçar-se, como fazia por vezes, e sair do palácio. Sozinho, dirigiu-se à grande praça no meio do barulho do mercado, procurou a morte com os olhos e viu-a, reconheceu-a. O vizir não se tinha enganado. Era da morte que realmente se tratava, alta e magra, toda vestida de preto, o rosto meio dissimulado sob um lenço de algodão vermelho. Ela passava de um grupo a outro no mercado, sem que dessem por ela, batendo com o dedo no ombro de um homem que organizava a sua loja, tocando o braço de uma mulher carregada de menta, evitando uma criança que corria para ela.

 

O califa dirigiu-se na direcção da morte. Ela reconheceu-o imediatamente, apesar de disfarçado, e inclinou-se em sinal de respeito. — ‘Tenho uma pergunta a pôr-te’, disse-lhe o califa, com voz baixa. — ‘Estou a ouvir-te’. — ‘O meu primeiro vizir é um homem ainda jovem, cheio de saúde, eficaz e honesto. Porque é que esta manhã, quando vinha para o palácio, lhe tocaste e o apavoraste? Porque é que olhaste para ele com ar ameaçador?’

 

A morte pareceu levemente surpreendida e respondeu ao califa: — ‘Não queria apavorá-lo. Não olhei para ele com ar ameaçador. O que aconteceu simplesmente é que, quando por acaso esbarrámos um no outro no meio da multidão e o reconheci, não pude deixar de manifestar o meu espanto, que ele terá tomado como uma ameaça.’ — ‘Porquê esse espanto?’, perguntou o califa. — ‘Porque, respondeu a morte, não esperava vê-lo aqui. Tenho encontro com ele esta noite, em Samarcanda’.” (Versão de um dos contos mais famosos do mundo, a lembrar a morte inevitável; a morte, que é o impensável que obriga a pensar).

 

5.3. “Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar; apenas os atravessamos. O nosso objectivo é observar, aprender, crescer, amar. Depois, voltaremos a casa.” (Provérbio aborígene).

 

5.4 “Onde se encontra o lugar da luz, se aquele que dá a vida se esconde?” (Poema azteca).

 

5.5. “Quando nascestes, chorastes, mas o mundo rejubilou. Vivei a vossa vida de tal modo que, quando morrerdes, o mundo chore e vós rejubileis.” (Provérbio ameríndio).

 

5.6. “A morte não passa de um casamento com a eternidade.” (Provérbio iraniano).

 

II. Dez conselhos de Frei Betto para enfrentar o confinamento forçado pela pandemia

 

1. Mantenha o corpo e a cabeça juntos. Estar com o corpo em casa e a mente focada lá fora pode causar depressão.

 

2. Crie rotina. Imponha-se uma agenda de actividades. Exercícios físicos, leituras, limpezas, cozinhar, investigar na net...

 

3. Não fique todo o santo dia diante da televisão ou do computador. Diversifique as suas ocupações.

 

4. Use o telefone para ligar a parentes e amigos, não esqueça os mais vulneráveis e sós.

 

5. Dedique-se a um trabalho manual: reparar coisas, coser, cozinhar...

 

6. Entretenha-se com jogos. Se está com outras pessoas, estabeleça um momento do dia para jogar xadrez, damas, cartas...

 

7. Escreva um Diário sobre a quarentena. Colocar no papel ou no computador ideias, apreciações, sentimentos, é profundamente terapêutico.

 

8. Se houver crianças ou outros adultos em casa, partilhe com elas as tarefas domésticas.

 

9. Medite. Mesmo que não seja religioso, aprenda a meditar, pois isso limpa a mente, retém a imaginação, evita a ansiedade e alivia tensões.

 

10. Não se convença de que a pandemia acabará rapidamente ou durará x meses. Aja como se o período de reclusão fosse durar muito tempo. Na prisão, não há nada pior do que o advogado que garante ao cliente que recuperará a liberdade dentro de dois ou três meses.

 

III. Concelebrar “coronoviricamente”

 

Aqui, digo eu. Se o leitor ou a leitora são católicos e costumam seguir a Missa pela televisão ou outros meios, saibam que podem, em casa, celebrar a Eucaristia em sentido pleno e comungar. Como explico num texto publicado ontem no jornal SOL.

 

A fé, como diz a etimologia — fides, fiar-se de, confiar —, dá esperança, confiança. E a oração deve ser uma conversa com Deus, que é Pai-Mãe, falar com Ele como quem fala com um amigo íntimo, com o pai, com a mãe, expor-lhe dúvidas, medos, perplexidades, fazer-lhe perguntas... Jesus na Cruz (estamos na Semana Santa) também rezou perguntando a Deus, no horror da Cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuou a confiar: “Nas tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito”... 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 ABR 2020