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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A SABEDORIA DE VIVER. 2

 

Como prometido, dou continuidade à crónica da semana passada, com pensamentos, estórias, contos..., a partir das “Sabedorias do mundo”.

 

Atendendo à situação de confinamento em casa, resumo, numa segunda parte, dez conselhos do dominicano Frei Betto, que, durante a ditadura brasileira, esteve preso em celas de isolamento. Evidentemente, eles aplicam-se adaptando-os às diferentes situações.

 

I. A sabedoria de viver (continuação)

 

4. Paciência inteligente

 

4.1. “A paciência é um remédio universal para todos os males”. (Provérbio nigeriano).

 

4.2. “Um adolescente japonês foi ter com um mestre de artes marciais e perguntou-lhe quanto tempo seria necessário para aprender esta arte.

 

   — ‘Dez anos’, disse-lhe o mestre.

  — ‘Dez anos? É demais. Nunca terei força para esperar!’.

 — ‘Então, vinte anos’, disse-lhe o mestre.” (Conto japonês).

 

4.3. “Perto de Tóquio vivia um grande samurai, já idoso, que agora consagrava a sua vida a ensinar o budismo zen aos jovens. Apesar da sua idade, dizia-se em voz baixa que era ainda capaz de enfrentar qualquer adversário. Um dia chegou um guerreiro conhecido pela sua total falta de escrúpulos. Era célebre pela sua técnica de provocação: esperava que o seu adversário fizesse o primeiro movimento e, dotado de uma inteligência rara para aproveitar-se dos erros cometidos, contra-atacava com a rapidez do raio. Este jovem e impaciente guerreiro nunca tinha perdido um combate. Como conhecia a reputação do samurai, tinha vindo para vencê-lo e aumentar a sua glória. 

 

Todos os estudantes se opunham a esta ideia, mas o velho mestre aceitou o desafio. Reuniram-se todos numa praça da cidade e o jovem guerreiro começou a insultar o velho mestre. Atirou-lhe pedras, cuspiu-lhe na cara, gritou dizendo todas as ofensas conhecidas, incluindo ofensas contra os seus antepassados. Durante horas fez tudo para provocá-lo, mas o velho permaneceu impassível. Ao cair da noite, esgotado e humilhado, o impetuoso guerreiro retirou-se.

 

Desapontados por verem o mestre aceitar tantos insultos e provocações, os estudantes perguntaram: — ‘Como suportou esta indignidade? Porque é que não se serviu da espada, mesmo sabendo que ia perder o combate, em vez de exibir a sua cobardia diante de nós todos?’ — ‘Se alguém vos oferece um presente e vós não aceitais, a quem pertence o presente?’, perguntou o samurai. — ‘A quem tentou dá-lo‘, respondeu um dos discípulos. — ‘Isso vale também para a inveja, a raiva e os insultos’, disse o mestre. ‘Quando não são aceites, pertencem sempre a quem os leva no coração’.” (Conto japonês).

 

Aqui, eu lembrei-me do jogador brasileiro Dani Alves, do Barcelona, a quem, há alguns anos, em pleno jogo, quiseram humilhar, atirando bananas para o campo. E ele? Descascou uma banana e comeu-a. Ridicularizou os imbecis e triunfou com inteligência sobre quem, racista, queria humilhá-lo.

 

5. A morte

 

5.1. “Que fazes? – ‘Procuro um meio de não morrer.’ – ‘E dá resultado?’- ‘Para já, sim. Até agora deu’.” (Estória da cultura muçulmana).

 

5.2. “Uma bela manhã, o califa de uma grande cidade viu correr para ele num estado de grande agitação o seu primeiro vizir. Perguntou as razões desta inquietação e o vizir disse-lhe: — ‘Suplico-te, permite-me deixar a cidade hoje mesmo’ — ‘Porquê?’ — ‘Esta manhã, ao atravessar a praça para vir ao palácio, senti-me tocado no ombro. Voltei-me e vi a morte que me olhava fixamente’. — ‘A morte?’ — ‘Sim, a morte. Reconheci-a perfeitamente, toda vestida de preto com um lenço vermelho. Ela está cá e olhou para mim para meter-me medo. Ela anda à procura de mim, estou certo disso. Vou buscar o meu melhor cavalo e poderei chegar esta noite a Samarcanda’. - ‘Era realmente a morte?’ Tens a certeza disso?’ - ‘Absoluta. Vi-a como te estou a ver a ti. Tenho a certeza de que era ela. Deixa-me partir, peço-te.’ O califa que tinha afecto pelo seu vizir, deixou-o partir.

 

O homem voltou a casa, pôs a sela ao primeiro dos seus cavalos e atravessou a galope uma das portas da cidade, na direcção de Samarcanda. Um pouco mais tarde, o califa, atormentado por um pensamento secreto, decidiu disfarçar-se, como fazia por vezes, e sair do palácio. Sozinho, dirigiu-se à grande praça no meio do barulho do mercado, procurou a morte com os olhos e viu-a, reconheceu-a. O vizir não se tinha enganado. Era da morte que realmente se tratava, alta e magra, toda vestida de preto, o rosto meio dissimulado sob um lenço de algodão vermelho. Ela passava de um grupo a outro no mercado, sem que dessem por ela, batendo com o dedo no ombro de um homem que organizava a sua loja, tocando o braço de uma mulher carregada de menta, evitando uma criança que corria para ela.

 

O califa dirigiu-se na direcção da morte. Ela reconheceu-o imediatamente, apesar de disfarçado, e inclinou-se em sinal de respeito. — ‘Tenho uma pergunta a pôr-te’, disse-lhe o califa, com voz baixa. — ‘Estou a ouvir-te’. — ‘O meu primeiro vizir é um homem ainda jovem, cheio de saúde, eficaz e honesto. Porque é que esta manhã, quando vinha para o palácio, lhe tocaste e o apavoraste? Porque é que olhaste para ele com ar ameaçador?’

 

A morte pareceu levemente surpreendida e respondeu ao califa: — ‘Não queria apavorá-lo. Não olhei para ele com ar ameaçador. O que aconteceu simplesmente é que, quando por acaso esbarrámos um no outro no meio da multidão e o reconheci, não pude deixar de manifestar o meu espanto, que ele terá tomado como uma ameaça.’ — ‘Porquê esse espanto?’, perguntou o califa. — ‘Porque, respondeu a morte, não esperava vê-lo aqui. Tenho encontro com ele esta noite, em Samarcanda’.” (Versão de um dos contos mais famosos do mundo, a lembrar a morte inevitável; a morte, que é o impensável que obriga a pensar).

 

5.3. “Somos todos visitantes deste tempo, deste lugar; apenas os atravessamos. O nosso objectivo é observar, aprender, crescer, amar. Depois, voltaremos a casa.” (Provérbio aborígene).

 

5.4 “Onde se encontra o lugar da luz, se aquele que dá a vida se esconde?” (Poema azteca).

 

5.5. “Quando nascestes, chorastes, mas o mundo rejubilou. Vivei a vossa vida de tal modo que, quando morrerdes, o mundo chore e vós rejubileis.” (Provérbio ameríndio).

 

5.6. “A morte não passa de um casamento com a eternidade.” (Provérbio iraniano).

 

II. Dez conselhos de Frei Betto para enfrentar o confinamento forçado pela pandemia

 

1. Mantenha o corpo e a cabeça juntos. Estar com o corpo em casa e a mente focada lá fora pode causar depressão.

 

2. Crie rotina. Imponha-se uma agenda de actividades. Exercícios físicos, leituras, limpezas, cozinhar, investigar na net...

 

3. Não fique todo o santo dia diante da televisão ou do computador. Diversifique as suas ocupações.

 

4. Use o telefone para ligar a parentes e amigos, não esqueça os mais vulneráveis e sós.

 

5. Dedique-se a um trabalho manual: reparar coisas, coser, cozinhar...

 

6. Entretenha-se com jogos. Se está com outras pessoas, estabeleça um momento do dia para jogar xadrez, damas, cartas...

 

7. Escreva um Diário sobre a quarentena. Colocar no papel ou no computador ideias, apreciações, sentimentos, é profundamente terapêutico.

 

8. Se houver crianças ou outros adultos em casa, partilhe com elas as tarefas domésticas.

 

9. Medite. Mesmo que não seja religioso, aprenda a meditar, pois isso limpa a mente, retém a imaginação, evita a ansiedade e alivia tensões.

 

10. Não se convença de que a pandemia acabará rapidamente ou durará x meses. Aja como se o período de reclusão fosse durar muito tempo. Na prisão, não há nada pior do que o advogado que garante ao cliente que recuperará a liberdade dentro de dois ou três meses.

 

III. Concelebrar “coronoviricamente”

 

Aqui, digo eu. Se o leitor ou a leitora são católicos e costumam seguir a Missa pela televisão ou outros meios, saibam que podem, em casa, celebrar a Eucaristia em sentido pleno e comungar. Como explico num texto publicado ontem no jornal SOL.

 

A fé, como diz a etimologia — fides, fiar-se de, confiar —, dá esperança, confiança. E a oração deve ser uma conversa com Deus, que é Pai-Mãe, falar com Ele como quem fala com um amigo íntimo, com o pai, com a mãe, expor-lhe dúvidas, medos, perplexidades, fazer-lhe perguntas... Jesus na Cruz (estamos na Semana Santa) também rezou perguntando a Deus, no horror da Cruz: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, mas continuou a confiar: “Nas tuas mãos, Pai, entrego o meu espírito”... 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 ABR 2020

A SABEDORIA DE VIVER. 1

 

O mais recente número de “Philosophie Magazine”. Hors-Série: “Sagesses du monde”, Inverno-Primavera 2020, passa em revista as “sabedorias do mundo” e refere concretamente a Índia, a China, o Japão, as Américas e África. Dele retirei alguns provérbios, contos, estórias, paradoxos..., que levam a pensar. Aliás, grandes pensadores europeus, como, por exemplo, A. Schopenhauer e M. Heidegger, foram beber a essas sabedorias, sobretudo sabedorias orientais, inspiração para a sua filosofia.

 

Nestes tempos dramáticos e sombrios, que vêm interrogar sociedades do imediatismo consumista e alarve, da corrupção pérfida e invasiva, da banalidade imperante, do prazer e do ter que de tudo se querem apoderar corrosivamente, é bom, aproveitando uma Quaresma forçada ou auto-imposta, parar e ouvir, no silêncio, a voz da sabedoria e do sentido. É esse o propósito simples do que aí fica, em antologia que organizei.

 

1. A sabedoria

 

1.1. “Um dia, um homem veio ver um sábio e perguntou-lhe: — ‘Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?’. O sábio não respondeu. Tendo repetido várias vezes a pergunta sem resultado, o homem retirou-se.

 

Mas regressou no dia seguinte e fez a mesma pergunta: — ‘Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?’ Não recebeu resposta.

 

Veio de novo no terceiro dia: — ‘Mestre, que devo fazer para adquirir a sabedoria?’ Por fim, o sábio dirigiu-se a um lago e, entrando na água, pediu ao homem que o seguisse. Chegado a uma profundidade suficiente, agarrou-o pelos ombros e manteve-o debaixo da água, apesar dos esforços que ele fazia para se libertar. Ao cabo de uns instantes, o sábio largou-o e, quando o homem voltou, com grande dificuldade, a respirar, o sábio perguntou-lhe: — ‘Diz-me, quando estavas metido dentro da água, qual era o teu maior desejo? Sem hesitação, o jovem respondeu: — Ar! Ar! Precisava de ar’. — ‘Não terias preferido a riqueza, os prazeres, o poder? Não pensaste em nenhuma destas coisas?’ — ‘Não, Mestre, eu precisava era de ar e só pensava nisso’. — ‘Pois bem, continuou o sábio, para adquirir a sabedoria, é preciso desejá-la tão intensamente como há pouco desejaste ar. É preciso lutar por ela, excluindo toda e qualquer outra ambição na vida. Ela deve ser a única aspiração, noite e dia. Se procurares a sabedoria com esse fervor, encontrá-la-ás um dia.’” (Conto filosófico).

 

1.2. “O silêncio é a sabedoria de todas as sabedorias; olha, vê e cala-te.” (Provérbio marroquino).

 

1.3. “Havia em Bagdad um louco que não dizia nada nem ouvia nada. Perguntaram-lhe: — ‘Pobre louco, porque é que não dizes nunca uma palavra?’ O louco: — ‘A quem quereis que me dirija? Não vejo aqui ninguém que possa responder-me’.” (Conto árabe).   

 

1.4. “Não há caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho.” (Lao-tsé).

 

1.5. “O nosso grande sonho, diz um astrofísico a um papua, é encontrar vida no planeta Marte’. —Porquê?’, perguntou o papua. ‘Quer isso dizer que a vossa vida é um fracasso?’”. (Estória papua).

 

1.6. “Aquele que é senhor de si mesmo é maior do que aquele que é o senhor do mundo.” (Buda).

 

1.7. “Começa-se a envelhecer, quando se deixa de aprender.” (Provérbio japonês).

 

2. Eu e o outro

 

2.1. “O homem é os outros homens”. (Provérbio banto).

 

2.2. “Para se amar, é preciso conhecer-se. Se não conhecemos, não amamos.” (Provérbio indonésio).

 

2 . 3. “Aquele que guarda a amplidão do coração aberto é como o céu. Nada o ofende. Aquele que procura prejudicar prejudica-se a si mesmo, permanece só com o eco dos seus insultos.” (Texto búdico).

 

2.4. “As faltas dos outros são fáceis de ver. As nossas dificilmente as vemos.” (Buda).

 

2.5. “Em vez de dar um peixe a um homem com fome, ensina-o a pescar.” (Lao-tsé).

 

3. Ter e ser

 

3.1. “Não ter nada a perder é ser bem rico.” (Provérbio chinês).

 

3.2. “Quem tem muito dinheiro é sem dúvida feliz. Quem possui muita cevada é sem dúvida feliz. Mas quem não possui nada pode dormir.” (Canto sumério).

 

3.3. “Mesmo se tens pouco para comer, partilha com alguém mais pobre do que tu.” (Provérbio sudanês).

 

3.4. “O que dás é teu para sempre, o que guardas está para sempre perdido.” (Provérbio sufi).

 

3.5. “Um rei do Oriente acabava de receber como presente um manto soberbo feito com fios de ouro e de prata, enviado pelo imperador da China.

 

O rei vestiu o manto e pediu a Nasreddin: — ‘Quanto achas que eu valho?’ Nasreddin examinou longamente a personagem e o seu manto, depois acabou por dizer: — ‘Tu vales 500 moedas de ouro’. — Tu não estás a pensar. O manto sozinho vale 500 moedas de ouro’. — ‘Eu sei, contei precisamente o preço do manto’.” (Estória da cultura muçulmana).

 

3.6. Num certo país, havia um homem muito rico e outro muito pobre.

 

“O homem muito rico subiu com o filho ao cimo de uma colina, mostrou-lhe a paisagem à volta e disse: — ‘Olha. Um dia, tudo isto será teu’.

 

O homem muito pobre subiu também ao cimo da mesma colina com o filho, mostrou-lhe a paisagem  à volta e disse: ‘Olha! Que beleza!’.” (Conto oriental).

(Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 MAR 2020

GEORGE STEINER (1929-2020)

 

O desaparecimento de George Steiner é uma perda irreparável para a cultura europeia.
Recordamo-lo neste texto. 

 

STEINER: LINGUAGEM E SILÊNCIO 
Por Guilherme d’Oliveira Martins 

 

«Linguagem e Silêncio – Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o inumano» de George Steiner (Gradiva, 2014) é uma interrogação atualíssima sobre as humanidades e a comunicação nos dias de hoje. O que são hoje as Humanidades? Será que compreendemos plenamente o papel atual das chamadas humanidades quando o progresso científico e tecnológico segue caminhos inesperados e imprevisíveis? Basta lermos os grandes humanistas ao longo da história para percebermos que não podemos fechar-nos dentro de fronteiras rígidas, como se nos devêssemos ater apenas ao formalismo de algumas categorias tradicionais. Quando Dostoievski, em «O Idiota», põe na boca de Hipólito a pergunta ao Príncipe Michkine se haverá uma beleza que salve o mundo, não há uma resposta, apenas silêncio. É desse silêncio que Steiner, na prática, se ocupa – uma vez que não podemos descurar a emoção, a arte, a criatividade, a graça, a emoção e o espírito, mas temos de ligar-lhes o cuidado e a atenção. E se é verdade que há muito barulho à nossa volta, o certo é que temos de saber ver e ouvir, de modo que a indiferença e a idolatria não ocupem o espaço do sentido e da dignidade do ser. Eis por que razão devemos valorizar o silêncio, que permita ouvirmo-nos uns aos outros, e distinguir o que tem valor. Steiner costuma lembrar que por trás da casa de Goethe há um campo de concentração e que grandes atrocidades foram cometidas por quem dizia amar a arte. Eis por que não basta invocar as humanidades, é fundamental torna-las humanas. «Toda a minha vida (diz Steiner) me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. (…) Passo o dia todo com os meus alunos a ler o «King Lear» e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção – e ficção é a palavra-chave – pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção». De que falamos quando tratamos da literatura? Em bom rigor é da própria vida. O mesmo se diga das diversas artes – quando ouvimos Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven ou Mahler somos transportados para um domínio que supera a nossa natureza, mas que não pode fazer-nos esquecer que somos imperfeitos. Lembrando-nos de Dante e da sua viagem com Virgílio, percebemos que a vida tem inúmeras cambiantes, contraditórias, enigmáticas, sempre difíceis. Não é o facto de podermos usufruir do que há de mais sublime que muda a nossa natureza. E não é essa limitação que nos pode fazer negar a importância da dimensão artística – para compreendermos a relação entre a razão e a emoção e para entendermos que nunca sabemos o suficiente para ser intolerantes. 

 

A cultura é um talento cheio de ambiguidades, e se Tolstoi não foi capaz de nos libertar da imperfeição, pelo menos, foi quem nos abriu os olhos para a força emancipadora das diferenças e das convergências… Caldéron de la Barca disse-nos que a «vida é sonho», mas não nos apresentou uma fuga à realidade, sim uma procura da realidade humana, do mesmo modo que Platão nos fala da alegoria da caverna… Perante os gigantes devemos ficar calados – mas temos de preservar a liberdade e o sentido crítico. Assim, George Steiner procura assegurar que não haja uma humanização da mentira. E chega, desse modo, à cultura científica, não numa lógica positivista ou naturalista, mas como a procura da capacidade criadora – que faz com que se encontrem o artista e o investigador científico, o novelista e quem descobre um novo tratamento para uma doença até então incurável… E o pensador diz-nos que a cultura científica tende a não conhecer a hipocrisia e a não fazer bluff. Quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Nas ciências sociais talvez seja mais fácil fazer batota… É certo que as coisas não são tão simples assim. Mas do que se trata é de nos aproximarmos de Humanidades que se tornem humanas e humanizadoras… Mais poderosas que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. E este funciona através da linguagem. Como poderemos proteger-nos? Por vezes vivemos como se a memória fosse retrospetiva. Tratar-se-ia de considerar o mundo como um grande museu. Uma das razões para o otimismo de Steiner tem a ver com o facto de a ciência se ocupar do futuro. Mas não basta ver o mundo através desses contrastes. O Admirável Mundo Novo de Huxley reserva-nos muitas perplexidades e desenha um futuro inquietante. 

 

As Humanidades têm, assim, de colocar as pessoas no centro da vida e do mundo – sem a tentação de repetir o que recebemos nem de considerar o novo como um absoluto. Mas surge a pergunta perturbadora: sobreviveremos como civilização? O pensador não está certo de qual a resposta. O nacionalismo é um poderoso veneno do nosso tempo. O chauvinismo torna o outro e o diferente como inimigos. Despreza as pessoas com nacionalidade diferente. A absolutização da identidade torna-se um fator de fechamento. Uma civilização autista tende a decair e a desaparecer por incapacidade de responder aos novos desafios, limitando-se a repetir tiques exteriores. O que nos caracteriza e nos distingue uns dos outros deve ser considerado como elemento de enriquecimento mútuo – não como de separação, de indiferença ou de ignorância. Os fundamentalismos e os protecionismos têm a mesma raiz. Hoje o tema dos refugiados não pode, pois, ser visto de modo simplista, como se correspondesse apenas a uma ordem de razões. Impõe-se articular a compreensão do outro, considerar a mobilidade das populações nos dias de hoje como algo de natural e tantas vezes necessário – bem como a cooperação para o desenvolvimento realizada nos países de origem… Os que se limitam a pensar na questão da segurança, bem como os que se atêm exclusivamente ao acolhimento de refugiados como tema humanitário estão equivocados – uma vez que há que equacionar a complexidade de temas, entendendo-se não só a resposta ao agravamento das desigualdades e à ocorrência dos fenómenos de exclusão, mas também a motivação social e humana e a emancipação cultural. A diversidade linguística e a comparação das diferentes literaturas colocam-nos no cerne da cultura como criação – e George Steiner permite-nos compreender a complexidade de fatores humanos que devemos considerar. E porventura estaremos hoje a atravessar um período muito semelhante ao que ocorreu no Renascimento. Daí a multiplicidade de pistas abertas e a necessidade de um diálogo entre saberes. O livro é ainda hoje uma referência para o pensador, mas ele próprio compreende que a criatividade e a resposta humana aos diferentes desafios vão depender de diferentes caminhos, a que a humanidade tenderá a responder de um modo múltiplo…    

 

A PESSOA E A DINÂMICA RELIGIOSA. 1

   

O que é a religião? O que deve entender-se por pessoa religiosa? Onde se fundamenta a religião? Qual é o dinamismo que está na base das religiões? Porque há religião/religiões?

 

Toda a religião tem a ver com a ética e também com a estética. Hegel viu bem, quando afirmou que a arte, a religião e a filosofia estão referidas ao Absoluto. A pergunta é, como escreveu o filósofo J. Gómez Caffarena, se a ética, a estética e a filosofia acabarão por absorver a religião, como já insinuava Goethe: “quem tem arte (e moral e filosofia) tem religião; quem a não tem que tenha religião”.

 

Segundo Lucrécio, “o medo criou os deuses”. Desde então, isso tem sido repetido, acrescentando a ignorância e a impotência, de tal modo que, com o avanço da ciência e da técnica, a religião acabaria por ser superada e desaparecer. Será, porém, verdade que na génese da religião estão o medo, a ignorância e a impotência? Ninguém poderá negá-lo. A questão é saber se esses são os únicos e decisivos factores e de que modo actuam. De facto, não é a limitação enquanto tal que está na base da religião, mas a consciência da limitação. Na consciência da finitude, que tem a sua máxima expressão na consciência da mortalidade, o homem transcende o limite e articula um mundo simbólico de esperança de sentido último e salvação. Como disse Hegel, a verdade do finito encontra-se no Infinito, e Kant viu bem, ao referir a religião à esperança de um sentido final. Segundo ele, o interesse da filosofia pode reduzir-se às seguintes perguntas: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia”. Assim, é possível que a ciência e a técnica obscureçam a força do apelo religioso. Mas, permanecendo a finitude e a sua consciência, há-de erguer-se sempre a pergunta pelo Fundamento e Sentido últimos.

 

Como disse E. Ciorán, “tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião”. Na mesma linha, afirma L. Rougier: “A Igreja pode declinar. O sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam Transcendência, subsistirá.” O que, do ponto de vista biológico, une a Humanidade é a interfecundidade. Do ponto de vista espiritual, o que a une é a pergunta radical pela totalidade e o seu sentido.

 

O Homem é o animal que pergunta pelo seu ser e pelo ser. A razão humana não cria a partir do nada. Na base do ser humano, há uma “passividade originária”, como repetia o meu saudoso mestre Miguel Baptista Pereira: quando damos por nós, já lá estamos, ninguém foi consultado nem decidiu vir a este mundo e ser quem é; depois, um dia, a morte chega e leva-nos. A razão humana constrói, portanto, a partir do dado e, feito todo o seu percurso, sabe que acende a sua luz na noite do Mistério. Se pergunta, é porque ela própria é perguntada pela realidade, que é ambígua. Precisamente na sua ambiguidade, provocando, por isso, espanto positivo e negativo, a realidade e a existência convocam para a pergunta radical: o que é o Ser?, o que é o Homem? Quando, no processo evolutivo, se deu a passagem do animal ao homem, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo Sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta pelo Sentido último. A dinâmica religiosa deriva da experiência de contingência radical e da esperança num sentido final. A mesma experiência tem um duplo pólo: a radical problematicidade do mundo e da existência e a referência em esperança a uma resposta de sentido último, plenitude, felicidade, orientação, identidade, salvação. Este domínio da busca de sentido aparece de modo tão central na vida humana que a História da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões. Neste contexto, não é ousado afirmar que todo o ser humano é religioso, na medida em que é confrontado com a pergunta pela Ultimidade. Só poderíamos falar de irreligiosidade, no caso de alguém se contentar com a imediatidade empírica, recusando todo e qualquer movimento de transcendimento, o que não é possível, pois isso é contraditório.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JAN 2020

EDGAR MORIN

 

Guilherme d'Oliveira Martins fez o elogio de Edgar Morin na sua presença no Instituto Piaget em Almada no passado dia 15 de novembro. Reproduzimos texto publicado pelo CNC em 2011. 

 

A VIDA DOS LIVROS
De 19 a 25 de dezembro de 2011.

Stéphane Hessel e Edgar Morin acabam de publicar «Le Chemin de l’Espérance» (Fayard, 2011), onde nos apresentam um alerta para os dias de hoje. A política, a economia, a sociedade e a cultura precisam de uma tomada de consciência cidadã no sentido da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade e da responsabilidade. Fala-se muito de indignação, e essa foi a palavra usada por Hessel, no entanto os dois autores, nonagenários mas de uma lucidez exemplar, propõem-nos uma nova esperança, assente na vontade emancipadora e da recusa da indiferença. O mesmo tem feito Eduardo Lourenço, agora justamente galardoado com o Prémio Pessoa!

 

FALAR COM EDGAR MORIN
Foi há dias, em Paris, nas novas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, em La Tour Maubourg. Conversámos sobre o futuro da Europa. O convidado era Edgar Morin, e partilhei o diálogo com José Mariano Gago. Edgar Morin é um velho amigo de Portugal e recorda o momento, no início dos anos sessenta, em que, com Jean-Marie Domenach e nas proximidades do Congresso para a Liberdade da Cultura, de Pierre Emmanuel, começou a ter um contacto fraterno, que nunca mais seria interrompido, com António Alçada Baptista e o grupo de «O Tempo e o Modo». Depois das desconfianças dos anos quarenta e cinquenta relativamente a uma Europa de tecnocratas com conotações americanas, vieram novas circunstâncias. A Europa tornou-se oportunidade de aprofundar a democracia. A evolução a leste originou muitas perplexidades e dúvidas, a sul do velho continente havia uma opinião pública que se abria e se preparava para a democracia, depois, o choque petrolífero produziu uma nova consciência ecológica e obrigou a mudar de ideias e estratégias. Com Roselyne Chenu, braço direito de Pierre Emmanuel, presente no auditório de Paris, o pensador recordou esses encontros distantes, envolvendo oposicionistas ibéricos, tão diferentes como José Bergamín, Gil Robles, Dionísio Ridruejo ou Ruíz-Gimenez. Os jovens João Bénard da Costa e Helena Vaz da Silva tornaram-se facilmente referências de inovação e inconformismo e são lembrados com saudade. José Vidal-Beneyto vem à baila, como entusiasta de um projeto europeu, capaz de incorporar a história antiga do Mediterrâneo e a evolução moderna, desde às guerras civis às novas exigências da ciência, da educação e da cultura. É a memória de grandes amigos comuns que há pouco nos deixaram, mas cuja lição está bem presente. E como será possível falar hoje de Europa sem lembrar esses contactos, de diálogo e de afeto, de uma geração para quem estavam ainda bem vivos os efeitos dramáticos da Guerra e a exigência da construção da paz e da democracia, através da liberdade de homens e mulheres de cultura?

 

CRISE SEM ILUSÕES
Hoje, a crise europeia é profunda e não admite ilusões. Morin não pode deixar de exprimir o seu pessimismo. Mas considera que não há saída pacífica e justa sem o aprofundamento dos elos europeus. A crise financeira que vivemos deve-se ao facto de a civilização do poder se ter sobreposto a uma civilização do diálogo. A ilusão, o imediatismo, o consumo exacerbado, o produtivismo, a indiferença ética, tudo isso contribuiu para chegarmos onde estamos. Em lugar de uma cultura de criação, impôs-se a especulação, a lógica de casino e a busca de ganhos sem sustentabilidade – enquanto outros poupavam nós gastávamos. A noção de um progresso sem interrupção nem limites gerou o fanatismo do mercado e a incompreensão sobre o facto de a humanidade ter de lidar com a consciência dos limites. Afinal, como o escritor diz na sua obra «La Voie. Pour l’Avenir de l’Humanité» (Fayard, 2011), celebrizada por Stéphane Hessel, há que compreender que existem elementos contraditórios que têm de ser articulados e tidos em consideração hoje: a mundialização e a desmundialização; o crescimento e o decrescimento; o desenvolvimento e o envolvimento; a conservação e a transformação. Edgar Morin fala-nos, por isso, de metamorfose como um processo complexo abrangendo a política, a sociedade, a economia e a cultura, em que vários fatores se influenciam, obrigando à compreensão da diversidade. Morin propõe, assim, a ideia de metamorfose, improvável mas possível, como alternativa à desintegração provável. A natureza está cheia de exemplos de metamorfoses – por exemplo, a lagarta encerra-se na crisálida, num processo de autoreconstrução. A noção de metamorfose é, deste modo, mais rica que a de revolução, uma vez que preserva a radicalidade transformadora, ligando-a à conservação da vida e à herança das culturas. Sendo impossível travar a tendência que conduz aos desastres, devemos pensar que as grandes transformações começam com uma inovação, uma nova mensagem marginal, modesta, tantas vezes invisível… Se a mundialização está na ordem do dia, não podemos esquecer que o local e o tribal existem como elementos, a um tempo, de coesão e de fragmentação, de proximidade e de distância. O crescimento económico torna-se insuficiente e perigoso, uma vez que desvaloriza a proteção dos recursos disponíveis e a sua renovação. O desenvolvimento humano tem de ser integrado e capaz de ligar a coesão, a confiança, o capital social e a solidariedade. Conservação e transformação vivem ligadas uma à outra, o que obriga à criatividade e ao «conhecimento do conhecimento», como impulsionadores da compreensão.

 

O PROVÁVEL E O IMPROVÁVEL
O escritor considera que a catástrofe pode estar no horizonte, mas acredita em que é possível inverter o curso dos acontecimentos. E recorda dois exemplos marcantes de tempos muito diferentes. A resistência vitoriosa por duas vezes da pequena cidade de Atenas perante o poder formidável dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável, mas permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Do mesmo modo, foram tão inesperados como improváveis o atraso e o congelamento da ofensiva alemã em Moscovo no Outono de 1941 e depois a contraofensiva vitoriosa de Jukov em 5 de Dezembro, seguida no dia 8 pelo ataque a Pearl Harbour que fez entrar os Estados Unidos na Guerra. A História reserva-nos inúmeros exemplos que nos permitem alimentar esperanças, desde que haja capacidade de autocrítica e mobilização de vontades, em torno de objetivos inteligentes e justos. Terêncio é chamado – temos de entender que nada do que é humano nos pode ser estranho. E quando alguém pergunta o que é a identidade europeia, Edgar Morin recorda a sua ideia de uma «comunidade de destino», capaz de congregar a consciência das diferenças e a importância do outro. Prefiro usar a expressão comunidade plural (e democrática) de destinos e valores. E se falo de «comunidade», dou-lhe o sentido de pessoa em comum (gesamtperson, de que falava Landsberg). A cultura é o que diferencia e a civilização é o que difunde a criatividade humana. A identidade corresponde, assim, à exigência de um caminho comum e partilhado. Impõe-se perceber que, na expressão de Denis de Rougemont ou de Daniel Bell, o Estado atual é grande e pequeno demais para responder aos problemas contemporâneos. Quando surge, por fim, a pergunta sobre o que caracteriza uma ética europeia, na linha de Montaigne, E. Morin responde que o universalismo e a capacidade autocrítica são as características europeias fundamentais. Precisamos, no fundo, de uma Europa criativa e imperfeita, aberta ao mundo, universalista e cultora da crítica, capaz de incorporar um caminho que possa favorecer a ideia fecunda de metamorfose!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

PROCURAR LONGE O QUE ESTÁ PERTO

 

1. Três estórias.

 

1.1. O grande filósofo Martin Buber, no seu livro Der Weg des Menschen (O caminho do Homem), retomou a estória de Eisik filho de Yékel, de Cracóvia.

 

Apesar da sua miséria, nunca deixou de confiar em Deus. Num sonho, foi-lhe ordenado que fosse a Praga “para procurar um tesouro debaixo da ponte que leva ao palácio real”. Quando o sonho se repetiu pela terceira vez, Eisik pôs-se a caminho de Praga, a pé. Mas não podia escavar no lugar indicado, porque a ponte era vigiada dia e noite pelas sentinelas. Voltava todas as manhãs, andando para trás e para a frente o dia todo. Por fim, o capitão da guarda, intrigado, aproximou-se amavelmente para se informar do que se passava, o que quereria Eisik: “tinha perdido alguma coisa ou estava à espera de alguém?” Aí, Eisik, dada a cordialidade do capitão, contou-lhe o seu sonho, e o capitão estoirou às gargalhadas: “E é para satisfazer um sonho que vieste de tão longe, gastando as solas no caminho? Ah! Ah! Meu velho, se fôssemos em sonhos, também eu deveria pôr-me a caminho por causa de um sonho que tive e ir a Cracóvia a casa de um judeu, um tal Eisik filho de Yékel, para procurar um tesouro debaixo do forno! Já viste? Nessa cidade, na qual metade dos judeus se chama Eisik e a outra Yékel, estou mesmo a ver-me a entrar, umas atrás das outras, nas casas todas!”

 

O capitão continuava a rir. Eisik inclinou-se numa saudação, voltou à sua casa em Cracóvia e desenterrou o tesouro que há tanto tempo o aguardava!

 

1.2. Também se conta que uma vez um peixinho muito jovem foi ter com outro peixinho, também jovem, para perguntar-lhe: “Onde é o oceano?”. Ele respondeu-lhe: “Também já fiz a mim mesmo a pergunta, mas não sei responder.” Foi então perguntar a um peixe mais velho, que soberanamente se movia no oceano: “Onde é o oceano? Ninguém me sabe responder.” E o mais velho: “Então tu nasceste no oceano, andas no oceano, vives no oceano e perguntas onde é o oceano?!”

 

1.3. A terceira estória é uma velha lenda hindu, retomada pelo teólogo Jean Vernette.

 

Houve um tempo em que todos os homens eram deuses, mas, tendo abusado da sua divindade, o senhor dos deuses, Brama, decidiu retirar-lhes o poder divino. O problema foi encontrar um lugar onde escondê-lo, de tal modo que fosse impossível o Homem reencontrá-lo. Os deuses menores foram convocados e aconselharam a meter a divindade do Homem na terra. Mas Brama respondeu que o Homem havia de escavar e encontrá-la. Então, lancemos a divindade ao mais profundo dos oceanos, replicaram os deuses. Mas Brama disse: “Não, pois, mais cedo ou mais tarde, o Homem há-de explorar os oceanos até às profundezas, encontrá-la-á e voltará com ela para a terra.” Os deuses menores não encontravam solução, concluindo: “Não sabemos onde escondê-la, já que não parece existir nem na terra nem no mar lugar que o Homem não possa um dia alcançar.” Então, Brama disse: “Eis o que faremos da divindade do Homem: vamos escondê-la no mais profundo dele mesmo, pois será o único lugar onde ele nem sequer pensará em procurar...”

 

E, desde então, como ensina o breve apólogo do Vedanta, o Homem deu a volta à terra, explorou, subiu, mergulhou e escavou... à procura — longe, muito longe dele —, à procura de algo que se encontra nele, no mais íntimo dele...

 

2. Agora, já não é uma estória, mas história. Cito o discurso célebre de São Paulo no Areópago. Em Atenas: “De pé, no meio do Areópago, Paulo disse então: ‘Atenienses, vejo que sois, em tudo, os mais religiosos dos homens. Percorrendo a vossa cidade e examinando os vossos monumentos sagrados, até encontrei um altar com esta inscrição: ‘Ao Deus desconhecido.’ Pois bem! Aquele que venerais sem o conhecer é esse que eu vos anuncio. O Deus que criou o mundo e tudo quanto nele se encontra. Ele, que é o Senhor do Céu e da Terra, não habita em santuários construídos pela mão do Homem nem é servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, Ele, que a todos dá a vida. Que os homens procurem a Deus e se esforcem por encontrá-lo, mesmo tacteando, embora não se encontre longe de cada um de nós. É nEle, realmente, que vivemos, nos movemos e existimos, como também o disseram alguns dos vossos poetas: ‘Pois nós somos também da sua estirpe’.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 20 OUT 2019

A VIDA DOS LIVROS

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   De 6 a 12 de maio de 2019

 

"Filosofia da Saudade", com seleção e organização de Afonso Botelho (1919-1998) e António Braz Teixeira (INCM, 1986), constitui um repositório sistemático sobre a reflexão sobre a saudade na história da cultura portuguesa.

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O CENTENÁRIO DE AFONSO BOTELHO

A propósito do centenário do nascimento de Afonso Botelho, o Centro Nacional de Cultura realizou um jornal falado, no qual tivemos a conferência de António Braz Teixeira sobre o pensamento do homenageado. Com um pensamento ancorado no cristianismo, o pensador encontra na reflexão sobre a saudade e na sua distinção relativamente ao saudosismo um modo especial de olhar as ideias e o mundo. E no Rei Eloquente encontra um ponto de partida que marcará o seu modo de ver e de pensar. «É no Leal Conselheiro que encontramos uma definição (de saudade) acompanhada e esclarecida por análise caracteristicamente filosófica. A novidade do conceito reside nas seguintes conclusões: a saudade é um sentimento (e não um estado psíquico inferior, como o nojo, o prazer, a dor ou o aborrecimento); não está vinculada necessariamente ao desejo; resulta da ausência de seres que se amam ou de estados que se estimam; a melhor saudade (tanto por razão de ordem religiosa, como pela sobrevalorização sentimental do presente) é a que nos atualiza, pondo-nos de acordo com o tempo e dando-nos portanto prazer» (Cf. texto antologiado na obra citada e publicado na “Revista Portuguesa de Filosofia, tomo XVI, 1960). Esta definição para o autor corresponde ao que se pode designar como “humanismo esperançoso”, o qual, apesar dos dramas e dificuldades (evidentes, por exemplo, na morte trágica do Infante Santo), parte de uma solitária saudade medieval para chegar à “reminiscência forçosa” de D. Francisco Manuel. Sem entrarmos na indagação sobre um eventual platonismo nesta evolução, o certo é que compreendemos que o pensador vê a saudade como um movimento – e daí o interesse que tem o diálogo entre Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, que se torna revelador do que está em causa no tratamento substantivo do tema.

 

SAUDADE COMO SENTIMENTO

A saudade é um sentimento ou, quando muito, a consciência refletida desse sentimento – que deve ser demarcado do saudosismo, como movimento de raiz poético-filosófica e de expressão cultural. Assim, a saudade vai situar-se entre uma ânsia da Pátria Celestial e uma lembrança da Pátria Terrenal. É este confronto que obriga a entender a diferença relevante entre duas perspetivas. E esses dois lados do problema, encontramo-los em Leonardo e Pascoaes, apesar da complementaridade. “Os dois pensadores estão separados porque têm intuições religiosas diversas. Com Leonardo catoliciza-se ou celestianiza-se aquele pensamento que o Saudosismo levará em Cristianismo, mais longo, mais terrenal, ou mais regressivo (conforme se entender). Lembremos que o universo para Leonardo é criado pelo homem num processo dialógico que o faz chegar a Deus pelo fraterno amor de tudo, e não algo criado de uma vez por todas pela vontade divina. Em última análise, Deus é, assim, a luz que ilumina a ação criadora do homem. Deus é o Amor que une, e cada consciência é a unidade elementar que pelo amor se move, atraído pela «grande Unidade». Por isso, a compreensão é a Unidade e compreender é Amar. Leonardo transforma em ascensional o pensamento quando intui religiosamente; Pascoaes, ao contrário, obedece aos dois movimentos, um ascensional (o mítico em Maranus) outro descensional (que é precisamente o religioso do Regresso ao Paraíso)». No fundo, a Pátria de Pascoaes, segundo Afonso Botelho, lembra-se no homem, “mesmo quando a presença de Deus nele se faz sentir, até porque a divina presença desde que o foi dessa Pátria, já nela não pode ser esquecida”. Na fecundidade deste diálogo, Afonso Botelho centra-se na perfetibilidade do sentimento saudoso, ou seja, um movimento permanente de reconhecimento da imperfeição e de impulso necessário ´para a superação da mesma – isto é, “a garantia de que o sentir só se completa no existir, por mais elevada e infinita que seja a saudade ou a sua órbita”. Como movimento, a Saudade apenas “se completa restituindo ao homem o sentimento da própria graça que o elevou ao centro da redenção”. E assim parte de Leonardo, orientando-se para a humanidade de Pascoaes. É o ponto em que encontramos o “Homo Viator”, que tanto interessou Gabriel Marcel, na valorização da existência humana. E oiçamos Afonso Botelho: “Se o que domina a ontologia existencial é a definição do ser do tempo, creio que esta só poderá reencontrar-se na ontologia da saudade, que é a do tempo sem ser – ontologia negativa ou transcendida que determina a eliminação do tempo, precisamente porque em verdade o completa».

 

O ETERNO E O TRANSITÓRIO

Neste ponto, é necessário lembrar a expressão do próprio Pascoaes: “O existir cria a ilusão do tempo. O que passou e o que há de vir eis a matéria, o corpo da saudade. O eterno compõe-se de coisas transitórias”. Mas, Afonso Botelho lembra que, vulgarmente ou mesmo culturalmente, pensa-se que “o Saudosismo é o mais acabado dos passadismos”. Mas assim não é. De facto, na saudade-saudade o passado vale tanto como o futuro – “pois um e outro nela se acordam ou se eliminam, o que é o mesmo”. Lemos as saudades do futuro do Padre António Vieira e compreendemos isto mesmo. Pascoaes diria, poetando, “A folha que tombava / Era a alma que subia” e Fernando Pessoa interpretaria: “A queda da folha é materialmente a subida da alma”. Na prática, o diálogo Pascoaes / Leonardo não encerra a compreensão destes dois fenómenos? Leonardo põe a tónica na alma que sobe, enquanto Pascoaes interroga a folha que tomba… E que é a Renascença Portuguesa senão a procura constante destes dois movimentos paradoxais, equivalentes ao “poder convergente da Saudade, que se opõe a qualquer interferência do tempo exterior ou heterogéneo”… É esse paradoxo que o pensador invoca, quando a “ontologia aberta do Existencialismo pode começar a fechar-se, a tornar-se positiva”. Mas no Leal Conselheiro, Afonso Botelho ao paradoxo junta um sinal de coerência na comparação entre a posição do cavaleiro e a atitude do homem na vida: “Tal geito como este dandar dereito na besta me parece que devyamos teer em os mais de nossos feitos para seermos no mundo boos cavalgadores e nos termos fortes no cair”… 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença
 
 

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - IV

 

Minha Princesa de mim:

 

    Embora já há muito tivesse vindo a reunir a obra completa de Marcel Proust, pelas edições de La Pléiade, no princípio deste século, numa escala de Paris - a caminho de Tokyo - adquiri no aeroporto Charles De Gaulle uma maneirinha edição, pela Mille et Une Nuits, desse livrito principiante do autor de À la Recherche du Temps Perdu, publicado em 1896, mais de dez anos antes de ele ter começado a tal "busca" por que é universalmente conhecido. Falo-te de Les Plaisirs et les Jours. Custou-me poucos trocos, cabe-me na palma da mão, foi livro cómodo de ler no avião. Mas incómodo para o seu autor, que foi literalmente gozado pelos seus comparsas de tertúlia no Chat-Bourbon, ateliê de Jacques Bizet na ilha de Saint-Louis, no centro parisiense do rio Sena: o livro foi posto à venda por treze francos e meio daquele tempo, preço exorbitante para a primeira obra de um autor então ainda desconhecido. Donde resultou que, em vinte e dois anos, o seu editor apenas conseguiu vender 329 dos 1500 exemplares impressos... Contada a efeméride, vamos à prosa.

 

   Um dos contos ou novelas que o compõem dá pelo título de La Confession d´une Jeune Fille e tem, em epígrafe, uma citação da piedosa Imitação de Jesus Cristo de Tomás de Kêmpis: Os desejos dos sentidos arrastam-nos para cá e para lá, mas, passada a hora, que tiramos deles? remorsos de consciência e dissipação do espírito. Saímos em alegria e, muitas vezes, regressamos em tristeza, e os prazeres da noite entristecem a manhã. Assim, a alegria dos sentidos começa por ser lisonjeira mas, no final, magoa e mata (Livro I, capítulo XVIII). Mas o conto tem quatro partes, todas também encabeçadas por uma citação, exceto a segunda. As outras três trazem, em epígrafe, pela ordem respetiva (1ª, 3ª, 4ª) versos de Henri de Regnier e, por duas vezes, Charles Baudelaire. Não traduzo já, transcrevo:

 

     I.- Parmi l´oubli qu´on cherche aux fausses allégresses,

         Revient virginal, à travers les ivresses,

         Le doux parfum mélancolique du lilas.

 

  III.-  Et le vent furibond de la concupiscence

         Fait claquer votre chair ainsi qu´un vieux drapeau.

 

 IV.- À quiconque a perdu ce qui ne se retrouve

        Jamais... jamais!

 

      A história contada pela Confession d´une Jeune Fille é isso mesmo: a confissão de uma jovem de vinte anos que falhou uma tentativa de suicídio. Traduzo o início da novela: Finalmente, está próxima a libertação. Fui certamente desajeitada, disparei mal, por pouco nem acertava em mim. Teria certamente sido melhor morrer logo à primeira, mas também não conseguiram extrair a bala, e começaram os acidentes cardíacos. Já não durarei muito, mas terei ainda oito dias! Oito dias, durante os quais mais não poderei fazer do que esforçar-me por reconstruir o terrível encadeamento. Se não estivesse tão fraca, se tivesse vontade bastante para me levantar, para partir, quereria ir morrer aos Olvidos, no parque em que passei todos os meus verões até aos quinze anos. Nenhum lugar está tão cheio de minha mãe, tanto a sua presença, e mais ainda a sua ausência, o impregnaram da sua pessoa. Para quem ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais vivaz, a mais indestrutível, a mais fiel de todas as presenças? 

 

   Eis, nesta última frase traduzida do francês, uma definição bem lusitana da saudade... O nome da casa grande e seu parque, local eleito das férias grandes da menina e moça que, ali mesmo, todos os anos pelo Verão, se despedia e aguardava sua mãe é a palavra chave de todo o conto: Les Oublis, os olvidos, o que se esqueceu. Esquecimento de que falo no meu Éloge de la Jouissance, ao abordá-lo enquanto artifício: l´artifice de l´oubli. Sim, porque esse tal esquecimento não é falta nem perda de memória, antes será, como na saudade, uma transfiguração dela... Os versos de Henri de Regnier, cuja citação por Proust reporto acima, dizem o mesmo (traduzo): Entre o olvido procurado para falsas alegrias, / Volta sempre, mais virginal através das embriaguezes, / O suave perfume melancólico do lilás... [Só aqui entre nós, Princesa de mim, estes versos talvez digam algo sobre o íntimo sentir do poeta que, com Madame de Regnier (Marie Heredia de solteira), sua mulher, não terá consumado o casamento, aliás para grande surpresa do primeiro amante e pretendente desta, Pierre Louÿs, que a encontrou intacta no dia do primeiro adultério...]

 

   Não te escrevo esta carta para te contar o conto, não quero roubar-te o gosto de o leres no texto francês tão sensível de Marcel Proust. Mas devo avisar-te de que a história me parece inverosímil ou, melhor, intencionalmente artificial. Afinal, tudo bem lido, concluo que se trata duma parábola do texto da Imitação de Cristo em epígrafe. Um conto moral, portanto. Ensinando que a embriaguez dos sentidos, o prazer carnal, tentador, em aparência gratificante, afinal se revela mortificador e letal. E Charles Baudelaire, o vate de Les Fleurs du Mal, parece corroborar o piedoso Tomás de Kêmpis, quando canta: E o vento furibundo da concupiscência / Faz estalar a vossa carne como bandeira velha... Ou, referindo-se talvez à virgindade ou inocência perdida, dedica a Seja quem for que tenha perdido aquilo que / Jamais...jamais se recupera!

 

   Reparo também numa ambiguidade, talvez insidiosa: a confissão da jovem enche o livro todo, do princípio ao fim, digamos ainda que é apocalíptica. Mas também inclui (para confusão de alguns leitores?) outra confissão, esta apenas a um padre que a absolve e aconselha a não fazer o que provavelmente devia: reconciliar-se ex ante, para que assim fosse, como em qualquer conversão, ab initio, com o noivo prometido, melhor dizendo, com a própria promessa dela. [E ao teu ouvido atento murmuro: o Se bem me lembro do grande Nemésio era, mais do que divertimento erudito, uma lição de vida. E a nossa vida consciente começa pela memória, nossa e do outro. Tal como uma coisa são os "pecados que só ofendem a Deus" -  assim como tantas vezes se ensina - e os que são também ofensa aos nossos próximos. O que já se diz menos é que todos são pecados igualmente, e Deus lá sabe porque poderá perdoá-los, mas a ofensa ao próximo não pode ser descartável num confessionário, exige diretamente o pedido de reconciliação e a reparação possível. Já a ofensa a Deus só, cada qual tratará dela, sua, como a sentir na sua própria consciência].

 

    Tenho para mim, há muitas décadas já, que o esquecimento talvez pouco perca, mas certamente nada recupera. Quando, em estado de boa saúde mental, esquecemos algo, esse tal pouca ou nenhuma importância terá para nós, nem marcas deixa. Mas tudo aquilo que, pela positiva, como pela negativa, valorizarmos não se esquece: a nossa memória é ciosa e zelosa de tudo o que, de um ou doutro modo, vai constituindo a circunstância da nossa própria consciência. O esquecimento, em condições de saúde mental, é sempre um artifício enganador. Ou uma auto-mentira caridosa: esquecemos para mais facilmente perdoarmos, a nós ou seja a quem for. Donde também depreendo que esse olvido é tão somente o apagar de um remorso ou dum ressentimento, para podermos aceder ao perdão de nós e dos outros. Só em paz o perdão é possível, já que ele mesmo é o triunfo da paz. Nem sempre entendemos essa lição de Jesus Cristo, que não nos manda ir confessar em segredo, mas nos envia à reconciliação com quem tenhamos por faltoso connosco ou nos possa sentir em falta para com ele.

 

   Assim, é interessante ler-se a seguinte análise de Marcel Proust, escrita neste conto que publicou com 25 anos. A jovem pecadora foi confessar-se, em vésperas do seu acordado casamento com um pretendente recomendado por sua mãe, um rapaz que, pela sua extrema inteligência, doçura e energia, poderia ter sobre ela felicíssima influência:

 

   Tive então coragem de dizer todos os meus pecados ao meu confessor. Perguntei-lhe se devia a mesma confissão ao meu noivo. Teve a caridade de me dissuadir, mas levou-me a jurar que nunca mais voltaria a cair nos mesmos erros, e deu-me a absolvição. As flores tardias que a alegria fez desabrochar no meu coração, que eu julgava para sempre estéril, deram frutos. A graça de Deus, a graça da mocidade, - quando vemos tantas chagas sararem sem mais do que a vitalidade dessa idade - tinham-me curado...

 

   A ilusão durou até à hora de um jantar de festa em que um dos seus passados sedutores voltou a cobrar-lhe os encantos... Mas já te disse que não te contarei o drama todo. Vou tão somente concentrar-me nesse relato de uma vitória pirrónica duma "consciência religiosa curada pela confissão": Teve a caridade de me dissuadir [isto é, o confessor convenceu a penitente ou confessada a não fazer aquilo que se propunha e seria, a meus olhos, a atitude mais pertinente], mas levou-me a jurar que nunca mais voltaria a cair nos mesmos erros, e deu-me a absolvição. Enganou-se, fez mal, e é claro que não tinha qualquer competência nem autoridade para dar tal conselho. Ao reler hoje este conto de Proust, pensei, uma vez mais, em partilhar contigo essa interrogação que frequentemente temos feito: num tempo em que a Igreja Católica é assombrada por casos tão tristes, não deveria aprender e ensinar a distinguir entre crime e pecado, esquecimento e perdão, tal como compreender que a responsabilidade de cada consciência é própria dela e não pode ser alienável pela prática de sacramentos ministrados em nome da misericórdia de Deus? 

 

   Com arrepiante incontinência, sectores pretensamente ortodoxos do catolicismo continuam a destilar conceitos apoiados em inseguras exegeses de textos bíblicos (quando não, muito simplesmente, em extrapolações abusivas) e em bases teológicas mais do que discutíveis. Assim se fundamenta e propaga a virtude corrente do sacramento de reconciliação, ou confissão auricular, esquecendo-se de que essa prática apenas se foi impondo depois de um milénio de cristianismo, e de que, além de tardia, a prerrogativa exclusiva do "poder" de perdoar os pecados atribuída ao clero ordenado tem muito a ver com a afirmação de uma ordem policial e judiciária de cariz clerical, ainda que inspirada na ordem romana (que a Igreja foi adotando, a partir do século IV, com a própria "ascensão" do cristianismo a religião do Império Romano), sobretudo a seguir à queda deste, pela necessidade de estabelecer ordem num mundo dividido e desorganizado. Aliás, a prática confessional desse tipo, originalmente, terá vindo das igrejas orientais, em que monges, considerados homens santos, mas não ordenados "ouviam em confissão". Tal prática passou para a cristandade europeia latina ou ocidental através de monges irlandeses, acabando mais tarde por ser atributo do clero ordenado. Eis, de certo modo, uma privatização que pouco tem a ver com a correção fraterna que, entre si, os primeiros cristãos praticavam como ato de reconciliação mútua, designadamente na celebração da eucaristia: antes de colocares a tua oferta no altar, reconcilia-te com teu irmão. A confissão cristã não é aliviar escrúpulos ao ouvido de um padre, com vista a uma absolvição em troca de declarações de arrependimento e cumprimento de arbitrária penitência; é, isso sim, pedirmos e concedermo-nos mutuamente perdão pelas faltas cometidas contra os nossos irmãos e comunidades. Deus apenas perdoa, não se ofende: se Deus fosse suscetível de se ofender, não seria Deus. Mas perdoa a quem perdoa o seu próximo, como se dissesse: vai em paz, são-te perdoados os pecados por muito teres amado. Amamos quando perdoamos e somos perdoados. Mas lembremo-nos de que não há ofensa possível de esquecimento pelo seu autor, ou sofredor, sem ter sido claramente reconhecida e, tanto quanto possível, reparada. E não há poder eclesial que de tal nos possa livrar.

 

   Os sistemas judiciais civis, esses, são de outra ordem. Existem para formalizar o reconhecimento dos direitos a todos igualmente atribuíveis e assegurar o respetivo respeito e a prática das obrigações inerentes, sob pena de sanções definidas e previstas na lei em casos de infração. A instituição de uma justiça civil e criminal obedece à necessidade de garantir ordem social e proteção igualitária de todos, sem exceção. Fundamenta-se num pacto cívico positivo, não se imiscui nas relações de consciência seja de quem e com quem for, não pode nem deve consentir que qualquer pessoa, autor, cúmplice ou encobridor dum crime ou simples violação da lei, possa furtar-se aos procedimentos e sanções objetivamente previstos por essa mesma lei. Sob a qual, é bom lembrar, todos nós, cidadãos livres e iguais, vivemos.

 

   O Evangelho, boa nova da misericórdia, não é um código penal, não vem proclamar juízos nem castigos. Vem chamar à conversão, à alegria da reconciliação. Portanto tampouco confere, seja a quem for, poderes de amnistia de crimes cometidos ou faltas puníveis pelas leis comuns, nem autoriza a que se furtem aos processos penais democraticamente consentidos os seus presumíveis autores.

 

   Assim, por muito que pese a certas mentalidades reconhecê-lo, a justiça da Igreja não tem de ser nem mais, nem tanto nem menos severa, do que a civil. A justiça da Igreja não tem de julgar nada, pode quanto muito impor e sancionar comportamentos objetivos aos membros do seu "aparelho", como acontece em qualquer organização humana, com vista ao seu funcionamento. Também não lhe compete gerir consciências pessoais, e muito menos julga-las. À justiça da Igreja cabe-lhe apenas saber que só Deus é juiz, e anunciar aos povos que Ele é juiz sagaz e misericordioso. E, a todos nós cabe saber que a resposta à infinita misericórdia de Deus apenas pode ser dada pela verdade e justiça com que tratarmos os nossos irmãos.

 

   Para terminar esta minha rapsódia numa nota malandrinha e divertida, dou-te um exemplo de exagero duma escolástica canónica que, na obsessão de se imiscuir em tudo e regular até pormenores da vida quotidiana, acaba sendo ridícula. Traduzo-te um trecho do livro A Bite-Sized History of France (Gastronomic Tales of Revolution, War, and Enlightement) dum casal franco-americano, que ultimamente me tem feito rir algumas insónias. Os autores, marido e mulher, são Stéphane Hénaut e Jéni Mitchell, o editor sendo The New Press (New York, London, 2018):

 

   The Catholic Church was left rather perplexed about what to do about this new food. Padres e freiras contavam-se entre os primeiros e maiores admiradores do chocolate...   ... Mas pensava-se que o chocolate incendiava paixões, o que parecia inapropriado par servidores de Cristo. Havia também uma disputa de décadas sobre se se poderia beber chocolate em dias de jejum. Por último, a Igreja reconheceu a futilidade de tentar banir produto tão popular e avançou com o velho princípio do liquidum non frangit jejunum (o líquido não quebra o jejum). E como, naquele tempo, o chocolate apenas era tomado como bebida na Europa, podia ser engolido sem ofender a Deus.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   «O não-sei-quê é para o intelectualismo um tema inesgotável de inquietude e perplexidade: cultiva em nós essa espécie de desconforto intelectual e de má consciência, esse mal-estar nascido da incompletude que Platão designava por aporia e que, à sua maneira, é bem um mal de amor, uma nostalgia erótica, uma insuficiência amorosa. Esse «desejo de coisas inexistentes», pelo qual Gabriel Fauré caracteriza a divina frase do adagio do seu segundo quarteto, não será ele também o segredo do não-sei-quê e do encanto quase doloroso que ele por vezes segrega?

 

   Este trecho da apresentação, pelo próprio autor, do livro La manière et l´occasion, primeiro volume da obra Le Je-ne-sais-quoi et le Presque-rien, publicada pelas Éditions du Seuil (Paris,1980), diz-me pessoalmente muito, não só sobre o espírito que animou toda a escrita do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (judeu de origem russa), como sobre a inspiração que ela foi para mim, desde 1957, quando descobri esta obra, então editada pelas PUF (Presses Universitaires de France) num só volume. A edição presente (1980) alarga-se por três volumes, correspondendo o primeiro e o terceiro a textos da primeira edição (1957), ainda que profundamente revistos, e sendo o segundo um texto totalmente inédito. Os títulos dos outros dois volumes da trilogia atual são La Méconnaissance, le Malentendu La Volonté de Vouloir.

 

   Lembro-te ainda, Princesa de mim, dessa coincidência no gosto pela música de Gabriel Fauré, sobretudo a de câmara, de que Jankélévitch recorda o adagio do segundo quarteto, mas também, no meu caso, pelo amor à sua missa de requiem, de que te falei em carta quase recente. Se releres algumas das minhas cartas, verás bem como a noção de imperfeição (como algo inacabado, incompleto) é recorrente no meu discorrer, é sempre a perspetiva por que olho para a nossa própria condição humana, sem nunca pretender adivinhar-lhe o tempo e o modo de adventícia perfeição, mas amando-a sem cessar, na esperança do não-sei-quê, apesar de sermos um quase-nada. Eis o meu "mal de amor, nostalgia erótica, insuficiência amorosa, desejo de coisas inexistentes"... E é nessa contemplação do não-sei-quê pelo eu-quase-nada, que todos os dias renasço feito fé, a fé cuja substância é o tudo do algo que há de vir. Não sei quanto da "minha filosofia" foi influenciado ou será coincidente com o pensamento filosófico de Jankélévitch, mas neste encontro uma inspiração que me anima a pensar, quiçá em busca daquele algures no inacabado que dá título à coletânea de conversas de Vladimir com Beatrice Berlowitz:

 

Quelque part dans l´inachevé (Gallimard, Paris, 1978). O inacabado, para mim, disse-te eu, abre-se sobre o algo que há de vir. Mas antes, por seu lado, o filósofo francês escreveu:

 

   É verdade que esse algo é a unidade da natureza primitiva, a qual é coisa assinalável e, em suma, dizível: mas o facto de ser objeto de uma reminiscência pré-natal e dum voto meta-empírico maiores do que qualquer desejo sensível obriga Aristófanes a expô-lo metafisicamente e a dar-lhe um carácter tão inexplicável quanto inesgotável. Sem esse misterioso e sobrenatural Allo ti, a aporia de amor descrita em Fedra seria, ela também, uma evasiva? Tendo enumerado à maneira de Aristóteles as características da beleza poética, o jesuíta Rapin escreve: «Ainda há na poesia certas coisas inefáveis que não podemos explicar. Tais coisas são como que os mistérios dela.»

 

...   ...Esse «ainda» poético, tal como o algo erótico do discurso de Aristófanes, é uma alusão ao infinito e uma abertura ao indizível; esse "resíduo" de mistério é a única coisa que vale a pena, a única que importaria conhecer e que, como se propositadamente, permanece irreconhecível. O segredo, tal como diríamos da morte, está decididamente bem guardado, a ignorância humana foi decididamente bem combinada! Muitos nomes puderam ter sido dados a esse inominado inominável, muitas definições propostas para esse «algo outro» que não é precisamente como os outros porque em geral não é nenhuma coisa, nem coisa alguma.

 

   Tenho feito, vezes sem conta, uma experiência sensível, uma contemplação sensorial, de tal mistério secreto - se assim, Princesa de mim, lhe quiseres chamar. Atalhando, dir-te-ei que o monumento português que mais amorosamente visito é aquele céu aberto pelo inacabamento das capelas imperfeitas, no Convento de Nossa Senhora da Vitória, na Batalha. É magnífica aquela estrutura de humana arquitetura, edificada para se fechar no topo e todavia incompleta, tão comovente testemunha, já meio milenar, da nossa imperfeição, por esforçada que esta seja... Como seria a nossa humanidade se todos nós aprendêssemos a reconhecer e amar com gratidão e alegria fraterna esta nossa imperfeita condição? Não te falo de resignação mas, antes e só, de consciência da nossa realidade presente, que também aspira à ascensão pelo espaço aberto da nossa liberdade. O nosso ser humano, imperfeito sim, mas em aberto, porque livre, não o vejo, não o pensossinto como vítima castigada de um pecado original, nem tampouco, nihilisticamente, como acaso sem porvir, destituído de qualquer sentido. Cada um de nós sabe que morrerá, mas não sabe quando. Nem sequer sabe o que é verdadeiramente a morte, para além do biologicamente verificável e juridicamente determinável. E, como discorre Jankélévitch num texto esclarecidamente intitulado Mors certa, hora incerta, tal ignorância cronológica basta para tornar lacunar o nosso conhecimento do que a morte realmente é:

 

   O conhecimento cronológico, dizíamos nós, implica, a fortiori, o conhecimento «ontológico». Ou, se tal linguagem me for permitida, é a «quandoïdade» que implica a «quodidade», e não inversamente! [Ou seja: só se sabe quando, quando se sabe o quê].

 

   E não será por tal razão que a data da nossa própria morte nos é sempre subtraída? Mors certa, hora incerta! Platão conta como Zeus, tendo retirado aos homens o dom da imortalidade, mas desejando todavia tornar-lhes mais suportável o castigo, decidiu que eles morreriam mas não teriam a presciência do dia nem da hora: foi-lhes assim poupado o suplício contranatura do condenado à morte. O homem sabe que morrerá, mas não sabe quando; e quem não sabe quando nem sequer sabe o quê, apenas sabe o facto na intensidade e urgência dramática; não sente a angústia crescer; ou, melhor, só «sabe que», mas por ciência geral e, de certo modo, silogística. Tudo se passa como se o destino nos subtraísse a data da morte para nos desviar do aprofundamento da sua natureza. 

 

   A partir duma certa idade, mais ditada pela condição própria do que propriamente pela nossa contagem cronológica, a morte surge-nos - mais do que como certeza preanunciada mas sem rosto nem data conhecida - como uma lembrança, uma antecipada recordação de nós, que entretanto já nos habituamos a evocar os nossos próximos que vão partindo. E só sabemos que o-não-sei-quê que nos espera em quando ignorado terá nesse momento uma resposta nossa, não instantânea mas longamente conservada no percurso desta vida que deixamos. Será um sim sincero e só nosso, tão inato como aquele que, ao nascermos, o nosso primeiro choro disse à vida. Porque, tal como ao princípio queríamos ver e depois querer, também agora ousaremos aquilo para que não sabíamos estar tão bem preparados. Talvez por não nos termos reconhecido nesse quase-nada (le Presque rien). Para ilustração do que te escrevo, Princesa de mim, vou buscar uma imagem de Vladimir Jankélévitch, escrita num contexto muito diferente, pela ocasião e pelo propósito, do deste final de carta minha:

 

   O pássaro não é um doutor em ciências que possa explicar aos seus confrades o segredo do voo. Enquanto vamos discutindo sobre o seu caso, a andorinha, sem mais explicações, levanta voo perante os espantados doutores... E, assim também, não há vontade sábia que possa explicar à Academia o mecanismo da decisão: mas em menos tempo do que o necessário para dizer o monossílabo Fiat, o pássaro Vontade já cumpriu o perigoso salto, o passo aventureiro, o voo heroico do querer; a vontade, deixando o firme apoio do ser, já se lançou no vácuo. 

 

   Há momentos em que, estranha e entranhadamente, sentimos confiança, afinal, no tudo desconhecido da nossa condição.

 

Camilo Maria

      
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira