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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   A filosofia, etimologicamente significando amor ou amizade da sabedoria ou, se quiseres, a persistência na busca do entendimento, vai tendo, ao longo dos percursos humanos na cultura do espírito, duas faces unas e distintas: por um lado, a sabedoria é o conhecimento, por outro será o juízo prudente. Assim, é savoir e é sagesse, mesmo em português poderemos falar em sabedoria e sageza, esta palavra tendo há muito sido autorizada pelo cronista medievo Fernão Lopes. Como conhecimento, o que inquirimos e aprendemos é sempre filosofia, mas esta finalmente se constrói refletindo sobre aquela aquisição. Aí, já se vai tornando juízo, cuja prudência avalia, sistematiza e nos dispõe. E a partir daí lá se vai formando, pela cultura do espírito, algo que intimamente sempre nos acompanha, e a que muitas vezes também chamamos filosofia: a nossa weltanschaung ou visão do mundo, o nosso modo de olhar os seres e as suas relações.

 

   Os iluminados europeus do século XVII/XVIII, os filósofos das Luzes, descobriram o pensamento em modo chinês pelos relatos que lhes iam chegando da missão jesuíta em Pequim, e assim se tornou Confúcio um deles, penso eu, Princesa, que por sobretudo se tratar de uma reflexão moral à margem dos ditames de qualquer igreja ou religião. Ainda hoje, por aí, se fala de Confúcio como sage. Curiosamente, como muito bem entendeu Anne Cheng no seu Les tribulations de la "philosophie chinoise" en Chine, (in La pensée en Chine aujourd´hui, Folio Essais, Gallimard, Paris, 2007), o novo género de «histórias da filosofia» que proliferam na Alemanha e em França na orla do século XIX tende, pelo contrário, a delimitar o território da filosofia como propriamente europeu, rejeitando para um lá fora não filosófico tudo o que não releve da herança grega e cristã, em nome de uma nova definição da filosofia caracterizada como ciência e não já como reflexão moral.

 

   Antes de retomar uma extensa e esclarecedora citação da filha de François Cheng (do qual já muito te falei noutras cartas), deixa-me, Princesa de mim, recordar-te passos das minhas memórias do Japão, que há muito tempo já também te referi. A autorreclusão do Império do Sol Nascente, durante os 250 anos do shogunato Tokugawa termina oficialmente em 1867, sob a pressão americana do comodoro Perry, e afirma-se pela restauração do poder imperial efetivo conhecida pela designação do próprio imperador: Meiji. A partir daí, o Japão torna-se no pioneiro da modernização ocidentalizada do Extremo Oriente, muito voluntarista, procurando importar tudo o que de melhor se produzia na Europa e nos EUA, desde o direito à organização política, administrativa, e militar, do armamento aos caminhos de ferro e equipamentos públicos, da filosofia a todas as formas da atividade científica, literária e artística, incluindo, é claro, o ensino universitário. Naturalmente, a primeira tradução do conceito filosofia em caracteres chineses surge em japonês: tetsu gaku, que posso traduzir, literalmente, por estudo (gaku) da sabedoria. Deve-se a um intelectual importante da era Meiji, Nishi Amane, introdutor do positivismo de Comte na escola japonesa, que pela primeira vez o usa em 1874. De acordo com Anne Cheng, só 23 anos mais tarde, a palavra será usada na China, escrita com os mesmos kanji, ou caracteres sínicos, mas pronunciando-se zhexue, num relatório sobre o Japão publicado em 1897 por Huang Zungxian, em que se decreve a organização da universidade imperial de Tokyo, fundada em 1877, no espírito Meiji, e composta de três grandes faculdades: direito, física e literatura, desta dependendo um departamento de «filosofia». Volto então àquela citação de Anne Cheng:

 

   É à ideia hegeliana de que «não há filosofia chinesa» (entretanto ainda vivaz no "establishment" filosófico europeu, designadamente em França) que a modernidade chinesa procurou responder. Entre as Guerras do Ópio dos anos 1860 e a Revolução Cultural dos anos 1960, decorreu um século pautado por acontecimentos mais ou menos traumatizantes : 1895 (grande derrota das tropas imperiais face ao Japão); 1898 (os «Cem Dias», em que se tentou a primeira reforma das instituições imperiais, que resultou em lamentável fiasco); 1911 (descalabro definitivo da dinastia manchu e, com ela, do regime imperial que durara dois milénios, seguida da instauração da República em 1912); 1919 (movimento iconoclasta de 4 de Maio); 1949 (instauração da República Popular da China, após mais de uma década de conflitos armados: guerra de resistência à ocupação japonesa, guerra civil entre nacionalistas e comunistas). Nas nossas referências a esse «século das revoluções», que também poderíamos chamar século das tentativas de modernidade, devemos ter presente um feixe de fatores que vão desde a influência das ideias ocidentais aos esforços de mobilização de recursos tradicionais, à mutação do letrado tradicional em intelectual moderno, à instalação de novas estruturas educacionais, tais como universidades de modelo ocidental, sem esquecer o papel da mediação japonesa. Seremos pois levados a insistir no papel complexo desempenhado, durante este período, pelo Japão, simultaneamente modelo e repulsa para a China, percebido quer como potência colonizadora a exemplo do Ocidente, quer como aliado contra este.

 

   As raízes chinesas (e, aliás, sino-coreanas) da escrita, do budismo e de muitos aspetos da cultura e tecnologia nipónicas, além da própria configuração política da instituição imperial japonesa foram abordadas no meu Fomos em Busca do Japão (VERBO/BABEL, Lisboa, 2016) e outros escritos, designadamente publicados no blogue do CNC. Em finais do século XIX, e tempos seguintes, verificam-se movimentos de influência em sentido inverso, ainda que penalizados pela amargura e ofensa impostas pela agressão nipónica à China, o Império do Meio, (de que até Le Lotus Bleu, aventura do Tintin, traça um retrato arguto e sentido) e a colonização da Coreia pelo Japão, na primeira metade do século XX. Três povos com muitas parecenças e algumas afinidades e pertencentes a três famílias linguísticas distintas, ainda que todos três se sirvam todavia, total, quase ou parcialmente (o coreano apenas para nomes, visto dispor de escrita própria desde o século XVI, o japonês acrescentando dois silabários fonéticos derivados) de caracteres chineses. Quanto à expressão tetsu gaku, criada no Japão com caracteres sínicos e, nestes sendo depois incorporada na língua chinesa, deixa-me acrescentar outra curiosidade: foi na universidade de Tokyo que se começou a ensinar «filosofia chinesa» e, pela primeira vez, em 1900, se depara com o título Shina Tetsugaku Shi, utilizado pelo professor Endo Ryukichi. Traduz-se por Nova Filosofia da China, mas a surpresa está na substituição de Chuoku (País do Meio), na leitura japonesa dos dois carateres chineses, pela fonética Shina, em dois caracteres silábicos nipónicos. Afinal, talvez lhes parecesse que, com a modernização Meiji, o "centro" do mundo passasse mais para leste, onde nasce o sol... para o Império do Sol Nascente... Nihon ou Nippon significando a raíz, a origem do sol.

 

   Porque a filosofia é cultura - quiçá a cultura do espírito por excelência - ela só pode exercer-se em circunstância e na história. Assim, passa de interrogação a busca, de procura, e reflexão, a explicação, que mais não é do que um olhar proposto. Mas este, como qualquer visão do mundo, comunica-se e enraíza-se, alarga-se como árvore que cresce e se abre em ramos, a cuja sombra se abrigarão muitas gerações. A sua história é distiladora de essências a que chamamos valores ou princípios. A universalidade destes não tem dono, antes é, por definição, de todos: só pela entrega e comunicação se fixa, como raíz fasciculada, que vai beber, buscar e dar vida até onde puder. O valor do universalismo cristão, por exemplo, que afirma a igual dignidade de todos os seres humanos, pode ter sido esquecido - e muitas vezes o foi e é -  no seio de comunidades ditas cristãs, até por impulsos sectários de distinção entre bons e maus. Mas pode, por essa tal cultura (subterrânea também) do solo que a todos nos sustenta, florescer em comunidades heterogéneas. Dou-te, Princesa de mim, uma ilustração que hoje traduzo de The Economist, notícia e comentário que não inventei, cinquenta anos depois do célebre discurso - conhecido por Rios de Sangue - proferido por Enoch Powell para uma plateia de militantes e eleitores tories no Midland Hotel, em Birmingham, "profetizando" o advento de conflitos sangrentos entre brancos e gente de cor se continuasse a permitir-se imigração no Reino Unido:

 

   Atualmente, metade dos habitantes não brancos do RU vivem nas três maiores cidades do país: Londres, Birmingham e Manchester. A segunda incarna o que os universitários apelidam de "superdiversidade". Outrora, as minorias étnicas tinham tendência a fechar-se em grupos. Hoje, a mistura de populações de diversas origens étnicas é sem precedentes. Nenhuma circunscrição de Birmingham conta menos de 32 etnias, segundo Jenny Phillimore, da Universidade de Birmingham. O distrito recordista é o de Handsworth, cujos 31.000 residentes procedem de 170 países diferentes: ali, diz a investigadora, "todos têm um lugar".

 

   Esta demografia retrata-se na vida política da região. A antiga circunscrição de Enoch Powell, Wolverhampton South West, foi representada, até 2015, por Paul Uppal, um sikh (conservador), sendo hoje o mesmo assento parlamentar ocupado por Eleanor Smith, uma deputada trabalhista cuja mãe deixara Barbados para vir para o RU em 1954, a fim de trabalhar para o National Health Service. Esta mulher política lembra-se do desapontamento de sua mãe ao ouvir o discurso de Enoch Powell, que apelava ao repatriamento voluntário - linha oficial do partido conservador naquela altura. Fora encorajada a vir para o RU quando este país precisava de mão de obra e, agora, intimavam-na a voltar para casa..."

 

   Em carta próxima, Princesa de mim, voltarei à filosofia chinesa, como reflexão moral e política. Sempre vamos aprendendo uns com os outros... Falar-te-ei do conceito milenário de tianxia, ou seja, de tudo o que está sob o céu...

 

Camilo Maria     


Camilo Martins de Oliveira

GIORGIO AGAMBEM

 

Giorgio Agambem ex-aluno de Heidegger e responsável pelas obras completas surgidas em Itália de Walter Benjamin é Filósofo italiano que se debruça da estética à política trabalhando os conceitos de estado de exceção, essa terra de ninguém entre o direito público e o facto político (…) entre a ordem jurídica e a vida (…) entre o direito e o vivente, a fim de que possamos chegar ao que significa agir politicamente, e o conceito de homo sacer ou «homem sagrado» figura singular do Direito Romano arcaico que nos remete à condição de quem, cometendo delitos contra a divindade, colocava em risco o entendimento afetivo entre a coletividade e os deuses e, em última análise, cometia um crime contra o Estado, merecendo a vingança dos deuses, a expulsão do acesso a direitos e a sua vida passava a ser «sagrada» negativamente por expulsão total do meio onde vivia, podendo caber-lhe a morte fora de qualquer ritual religioso.

 

Neste imenso projeto de conceitos que Agambem não descuida de pesquisar desde os anos noventa, encontramos muitos termos em similitude utilizados por Hannah Arendt e até Slavoi Zizeck aplicados à história recente. Referindo-se a este último conceito de existência sagrada, Zizeck aproxima-o da imagem do avião que distribui, em teatro de guerra, alimentos para uma população que fora atacada por um bombardeiro, considerando que a existir um homo sacer neste caso, a morte era decidida pela divindade, sendo apenas concretizada por outro homem, e, nunca este seria acusado de homicídio pois a decisão vinha da divindade. O quanto e o como se impõe à humanidade a inercia do paradigma da ação humana face ao que se insiste afinal chamar de politica legitimada.

 

Giorgio Agambem formou-se em Direito com uma tese sobre o pensamento político de Simone Weil. Dirigiu o Collège international de philosophie em Paris e entre outras atividades lecionou Estética e Filosofia no Instituto Universitário de Arquitetura de Veneza. As suas pesquisas concentram-se nas relações entre a literatura, a poesia, a filosofia, e a política. Também docente em universidades americanas, antes de se decidir a não entrar mais nos EUA por oposição à política de segurança de Bush, Agambem recebe o Prix Européen de l’Essai Charles Veillon.

 

No seu livro Nudez que entre nós saiu pela chancela da Relógio d’Água encontramos reunidos um conjunto de pequenos ensaios a retermos neste seu universo tão próprio com o pensamento sempre em incursão na tal espécie de terra de ninguém.

 

Dele tentaremos dar a nossa opinião também pelos caminhos da biopolítica e da filologia.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

 

De 20 a 26 de fevereiro de 2017.

 

«O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz» é uma excelente edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros.

 

UM NOVO CONCEITO DE SABER
Fernando Gil tinha grande admiração pela filosofia e pela personalidade de Leibniz. E falava com entusiasmo desse autêntico inventor do conceito moderno de conhecimento e de enciclopédia. Do cálculo infinitesimal à monadologia, passando pela política, pela história e pelo direito, o pensador alemão, quase esquecido no momento da sua morte, pôde abrir pistas novas, que a ciência e o pensamento contemporâneos desenvolveram. Para Fernando Gil, o importante é considerar que se trata de um “filósofo de princípios”, sobretudo preocupado com o trabalho da fundamentação. E é essa perspetiva que permite garantir a perenidade da sua obra e dos desafios que nos lança. Lembrei-me desta genuína admiração ao ler O Labirinto da Harmonia – Estudos sobre Leibniz, uma edição da Biblioteca Nacional de Portugal e do Centro de História d’Aquém e d’Além Mar (CHAM), coordenada por Adelino Cardoso e Bruno Barreiros. Conhecedor da minha predileção pelo filósofo alemão, Adelino Cardoso teve a amabilidade de me enviar o precioso voluminho. Diversos ensaios constituem-no. O fiel ofertante fala-nos do autoquestionamento da modernidade. Marta Mendonça trata das edições da obra. François Duchesneau refere o cientista e o filósofo da ciência. Michel Serfati interroga-se sobre o genial matemático. Wenchao Li fala-nos do projeto de troca de conhecimentos entre a Ásia e a Europa, com especial referência à China. E aqui podemos compreender alguns dos pressupostos que levaram à querela sobre os ritos e à incompreensão relativamente à atitude dos jesuítas no relacionamento com o Império do Meio – e nesse ponto os portugueses são especialmente lembrados. António Braz Teixeira reporta-se, por fim, à recepção do pensamento português relativamente à obra de Leibniz. No conjunto dos temas, o filósofo aparece-nos na riqueza multifacetada da sua obra – sendo impressionante a pertinência e a atualidade deste que é um dos autores mais surpreendentes e ricos da história do pensamento. Gottfried Wilhelm Leibniz (1646-1716), cujo centenário da morte ocorreu há pouco, é “um dos mais influentes instauradores da modernidade (para Adelino Cardoso) e aquele em que algumas linhas orientadoras da racionalidade moderna são submetidas a forte crítica, abrindo novas possibilidades na construção da modernidade”. Muitos dos seus contemporâneos não compreenderam, porém, a sua força inovadora – e daí que tenha prevalecido uma certa leitura caricatural, de que o paradigma é o Dr. Pangloss no Cândido de Voltaire. No entanto, a modernidade veio a demonstrar que a figura não se adequava ao suposto modelo. Mesmo em Portugal, Leibniz começou por ser visto com desconfiança e depois, progressivamente, tornou-se precursor de um pensamento crítico de crescente influência. Leia-se Martinho de Mendonça de Pina e Proença (1693-1743), o primeiro autor a referir-se ao pensador alemão entre nós. A sua apreciação é animada pelo espírito do tempo, referindo depreciativamente à monadologia. Também Verney pôs reticências ao filósofo. E só o oratoriano Teodoro de Almeida (1722-1804) procedeu a uma análise detida e informada sobre a obra de Leibniz. Em Recreação Filosófica falou do princípio da razão suficiente e da teoria da harmonia pré-estabelecida – referindo-se, contudo, a esta última como “um sistema muito engenhoso, mas não verdadeiro”.

 

UMA OBRA FUNDAMENTAL
Importa ter presente que, ao longo da obra, fica nítido como a harmonia para Leibniz significa “a diversidade compensada pela identidade”. Não estamos diante de uma identidade homogénea, mas de uma realidade que se desdobra infinitamente. “Sob o fundo de uma harmonia invisível (dizem os coordenadores), o que se apresenta ao olhar de uma inteligência finita é um labirinto imenso com uma infinidade de entradas, quantas as formas diversas que compõem a tessitura do nosso mundo”. E assim a “razão suficiente” leva-nos ao limite da cadeia de razões, já que não se trata de encontrar a razão da harmonia, mas de chegar à complexidade das motivações e dos caminhos. Nesta compreensão, será Silvestre Pinheiro Ferreira (1769-1846) o primeiro português a tratar a obra de Leibniz de um modo aprofundado – falando de um sistema pluralista de substâncias. Assim, sustentava que para compreender como uma substância atua sobre outra bastaria saber quais as mudanças de cada uma e a respetiva prevalência. Também Amorim Viana (1822-1901), Cunha Seixas (1836-1895) e Antero de Quental (1842-1891) puseram Leibniz em lugar de relevância na sua reflexão. Amorim Viana partiu da harmonia pré-estabelecida, mas não contrapunha os conceitos de fé e razão, considerando a razão ao lado do sentimento moral e dos mistérios, entendidos estes como verdades que excedem a capacidade de entendimento, sem o contrariarem ou a ele se oporem. Cunha Seixas afirmava-se panteísta e concordava com Silvestre e Viana na consideração de que o bem seria a suprema realidade e o mal corresponderia a uma negação. Já Antero de Quental declarava a Jaime Batalha Reis ser a sua filosofia “uma fusão do hegelianismo com a monadologia de Leibniz” (1885), dizendo a Wilhelm Stork que “a monadologia de Leibniz, convenientemente reformada, presta-se perfeitamente à interpretação do mundo, ao mesmo tempo naturalista e espiritualista”. E acrescentava: “o espírito é que é o tipo da realidade; a natureza não é mais do que uma longínqua imitação, um vago arremedo, um símbolo obscuro e imperfeito do espírito” (1887). Assim, a monadologia anteriana era de feição pluralista, distinguindo três regiões no mundo real – matéria, vida e espírito – ordenadas hierarquicamente, tendo cada uma por base a anterior.

 

LEIBNIZ E NÓS
E foi o “espírito” que ocupou essencialmente Antero, enquanto força consciente, energia simples, autónoma e espontânea – como modo de explicar “todo o sistema de forças em que consiste a natureza, bem como o sentido da evolução, como ascensão dos seres à liberdade, como criação de uma ordem racional, como desdobramento incessante energia moral, uma ação contínua da vontade impulsionada pelo ideal, a realização final do bem”. Pode dizer-se que Antero de Quental foi, entre nós, dos que melhor compreenderam as virtualidades do pensamento de Leibniz, aplicando-o numa perspetiva dinâmica à evolução das sociedades humanas. Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno e Basílio Teles sofreram também, mas diversamente, a influência leibniziana. Enquanto o poeta de Os Simples conciliava o criacionismo com a plenitude divina, o mesmo não se passava com os outros dois, para quem não era possível conciliar a ideia de Deus com a dramática realidade do mal. Leonardo Coimbra foi, porém, o nosso pensador que mais intensamente refletiu sobre a lição de Leibniz. O que caracterizava a monadologia era o acréscimo da vida moral e a tradução da liberdade em amor – ou seja, quando uma alma se excede, crescendo em liberdade, adquire maior capacidade de harmonia e beleza. Em suma, o “labirinto imenso” de Leibniz não nos pode ser indiferente.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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JOSÉ LUIS ARANGUREN

El terror engendra terror, presto siempre a convertirse en contraterrorista terror: inacabable dialéctica de la violencia.

 

Aqui nestas páginas já várias vezes mencionei o enormíssimo orgulho em ter sido discípula de Aranguren. Tive o privilégio de escolher a obra deste grande Tratadista aquando de um grupo de conferências nas quais pude trabalhar algumas ideias deste Mestre inigualável.

 

Falar de Aranguren é referir um dos filósofos e ensaístas espanhóis mais importantes do séc. XX. Professor de ética na Universidade Complutense de Madrid, descobrimos com ele um olhar único sobre a importância dos intelectuais nas atuais sociedades mecânicas e consequentemente, desumanizadas e sem qualquer esforço de solidário humanismo. As suas reflexões éticas, políticas e religiosas constituem uma água para a fonte de todas as nossas manhãs. Tal qual para mim o Professor Doutor José Luís Aranguren.

 

Revisitei este domingo um dos meus apontamentos das suas aulas:

A chamada experiência da vida pretende ser sempre um saber, mas um saber que tem em conta o significado e o sentido da vida, ou seja da moral na sua mais ampla aceção. Um saber que deve estar necessariamente ligado à prudência e à sabedoria e que parece afastar-se da ciência e da técnica. Mas, estes últimos são definidores de uma época como a que vivemos, orientada para uma racionalização progressiva e em último limite, clarificadoras e organizadoras dos comportamentos e das ralações sociais.

 

Depois da leitura destas anotações, relicto que a palavra prudência de há muito a esta parte que surge equivoca, como se não tivesse em conta a pretensão sugestiva da sabedoria, como se surgisse em contraste com a vontade pragmática do mundo científico dos dias de hoje. Ora, julgamos que ela pertence a um estado de cultura que sabe questionar o quanto o saber cientifico e técnico, pode não ser o bastante para a ordenação da vida em geral. Em nossa opinião esta palavra “prudência” é uma palavra a ser conquistada pelo conceito filosófico, tal a responsabilidade da sua transmissão a fim de que saibamos ao que nos devemos ater e que defina uma função clara na vida do homem. Nomeadamente uma função que ajude a esclarecer a razão da violência gratuita que se vive.

 

Procurarei continuar este tema no trabalho Crónica Da Cultura. Contudo, aqui e de novo, o alerta à mente brilhante de Aranguren e a necessidade de não descuidar a leitura dos seus livros.

 

Teresa Bracinha Vieira

Eis um regresso. Eis um fio de um quase indizível projeto.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

LUC FERRY

 

Viver sem medos é talvez o princípio da precaução para que possamos proteger o desconhecido por razões desconhecidas.

 

Quando li A Nova Ordem Ecológica do filósofo Luc Ferry julguei ter entendido que Ferry propunha uma realização diferente a todos nós, mas não contida num ideal, antes uma realização numa espécie de domicílio ainda por dizer, mas sugerido já por essas páginas com impacto na vida concreta.

 

Passou Ferry a fazer parte das minhas aulas desde então.

 

Depois com o livro Aprender a Viver (agraciado com o Aujourd’hui 2006) julguei entrar numa proposta instalada mais perto de cada ser, na sua própria vida quotidiana, diria. Vi neste livro o desafio claro do ser humano a uma convicção do quanto a Filosofia harmoniza as diferentes forças da vida ao mesmo tempo que leva o homem a refletir sobre a sua finalidade.

 

Levei aos alunos até onde fui capaz uma história das ideias do fim e do não-fim com um impacto na vida concreta.

 

Disse-lhes e digo-lhes o quanto, um dia, a minha docência no seu clarificar, me tinha sido nata no não confundir profundidade com obscuridade, e o quanto, mal ousamos e desde logo em nós se inicia a revolução. A Filosofia.

 

No caminho das palavras de Luc Ferry temos medo de tudo: dos aquecimentos globais, do sexo, da velhice, dos organismos geneticamente modificados, da mundialização, diria, enfim, de tudo o que compõe o mundo ocidental no que respeita à proliferação dos medos.

 

Por aqui melhor entendi o quanto Platão, Epicuro, Montaigne, Nietzsche e a cada ano, Kundera é relido por Luc.

 

A Filosofia, sabe-se, não deve encorajar o medo, mas ajudar-nos a ultrapassá-lo e a vivermos o nosso presente, acima de tudo impedindo outros tempos de minarem as interpretações de sossegos ou desvarios, mas ainda assim, eles e as suas circunstâncias, poderem ter a liberdade de se exporem e nunca a serem ultrapassados por outros tempos que lhes pertencem nas afinidades e não nos núcleos.

 

Viver sem medos depois desta leitura da Revolução do Amor de Luc Ferry em pleno sec. XXI é, em muito, ensinar o homem a viver bem, a viver com a mão das escolas gregas da Antiguidade: é o amor a dar sentido.

 

Afinal podemos morrer por aqueles que amamos.

 

Afinal teremos nascido para uma nova espiritualidade que já mudou o nosso olhar sobre o mundo e nós sem nos darmos conta?

 

Poderemos dizer que as pátrias mudaram os motivos e os locais no nosso coração?

 

Hoje, século XXI, qual o sentido da vida? Residirá no conforto, no sucesso, em qual? No do prestígio ou no do silêncio? No que olha ou no que nos olha?

 

Luc Ferry, pensador francês, defende um Humanismo Secular, através do qual, bem-estar é realização pessoal. Viver, constitui um harmonizar das diferentes forças da vida e perceber?, bom, perceber é toda uma capacidade criativa. É toda uma obra de vida rara, um inovar do que desejaríamos vivenciar.

 

Coloca Luc Ferry neste seu trabalho, A Revolução do Amor, ao serviço de uma espiritualidade laica, ao serviço de um reaprender a viver renovando-se os discípulos e soltando-se as escolas gregas.

 

Toda esta leitura a sinto também num alertar para o quanto o tédio de consumir não é um medo, enquanto a catástrofe vender melhor do que as boas-novas.

 

O espírito crítico desenvolve-se nas democracias e nas sociedades humanistas, mas acreditando que nenhum perigo existe no questionar: esse lapso interpretativo, um espaço de enorme tragédia para uma só vida. Digo.

 

A imprensa desliza e não desdiz o que com deficiente expressão não restaura, pois que a geometria onde habita, é a dos condenados da terra colonizados e infelizes no formidável paradoxo que estamos longe de resolver: refiro-me ao recolhimento na diferença, na revolução, no amor, mundos de que afinal são prisioneiros e fiéis guardas os arautos das liberdades expressivas.

 

Afinal só os inversos são verdadeiros se ressingularizarmos os modos de vida, se os rediferenciarmos contra todas as uinidimensionalidades do mundo moderno. 

 

De outros jeitos já encontrei no livro de Ferry, A Nova Ordem Ecológica, uma siderante passagem da revolução à contra-revolução, quando o objetivo não era então, chegar a um consenso acerca dos problemas em análise, mas pelo contrário, provocar o aprofundamento das posições particulares dissonantes.

Ponta e mola nesta Revolução do Amor é um elaborar a Odisseia de Homero quando toda a história recomeça no caos e o sentido da viagem é o da harmonia da vida e seu sentido.

 

A guerra, a guerra não é local de ordem cósmica, não é sequer a paz um caminho para chegar a uma imortalidade, já que viver feliz é algo que supera a desassossegada imortalidade.

 

Recordo Heidegger na sua desconstrução da metafísica e sinto Luc a seu lado a soletrar uma energia limpa, tão sugestivamente limpa que nunca aconteça pois Tristão ou Don Juan em todos os verões se relacionarão no sentir de Ferry, como uns apaixonados da razão por conta do compromisso.

 

Ferry é defensor do Humanismo Secular, contrapõe à religião, o uso de uma razão crítica, que leve aos homens uma paz na intrigante violência da morte, ou da felicidade ou do amor incondicional nas condições de cada ser.

 

Afinal A Revolução do Amor é também um alerta: nenhuma vida humana é boa se não aceitarmos a morte.

 

O sábio aceita-a para assim vencer o medo. E todos poderemos na luz de Luc reconciliar a ordem cósmica com o universo harmonioso que nos rodeia num fragmento, muito fragmento de eternidade, e ainda assim numa estética de vida que no seu alfa e ómega a não procure.

 

Afinal o ponto de partida e a finalidade última poderá ser o conhecimento do amor, se a nossa vida for uma pergunta, algo que tenha a medida de uma interrogação que aos olhos de Schopenhauer seja apropriada para vencer medos, seguir caminhos pouco frequentados, reconhecer as limitações profundas da autocritica, e que o sentido absoluto da absurdidade da vida seja um lugar de onde se parta.

 

Afinal e talvez o perigo resida naqueles que se contentam com as tiradas vagas e fáceis, do género, a vida não tem sentido e só nos resta a arte, e afinal são tão terrivelmente curtos os que a reconhecem com a modéstia de conseguir que até os estóicos lhes sorriem.

 

Os conhecidos momentos de champanhe duram um certo período, mas nunca ninguém saltará de alegria pela partida de um amado, o que gera também um medo, mas não é um medo da felicidade, no limite, dizê-lo é uma indecência.

 

Será antes uma insuportável fórmula que nos é companheira por excesso, ou não será a prova do quanto o amor dá o sentido como diz Luc, não às nossas existências, mas nas nossas existências.

 

De fato não é a perseguição cega das realidades conhecidas por interesses que poderão salvar o mundo, mas a lógica da fraternidade e da entreajuda, do prazer de dar mais do que receber. Estou convencido de que os Europeus começam a compreendê-lo e a converter-se a isso, muito lentamente sem dúvida, mas de forma bem irreversível.

 

Estas as palavras de Luc Ferry no seu livro de que tanto, mas tanto gostei, A Revolução do Amor – Para uma espiritualidade laica.

 

Estas mesmas palavras, as faço minhas, num contributo ao cessar da indiferença. Numa formidável salva de palmas a quem do pensar faz palácio onde habita.

 

21 de setembro, mais um dia de vindimas em Portugal no ano 2011. Rougemont não se recordou. Contudo Albertine não escapa ao Douro sedutor.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

 

De 8 a 14 de agosto de 2016.

 

A terminar as «Tendências Gerais da Filosofia da Segunda metade do Século XIX» (1890), Antero de Quental diz-nos que “a síntese do pensamento moderno, preparada pelos filósofos, tem de ser a obra coletiva da humanidade culta”. É um texto fundamental da história da cultura portuguesa.

 

  


O ESPÍRITO DA HUMANIDADE
Nesse sentido, salientava Antero, não se pode confundir com “um grande e perfeito sistema, uma impecável civilização dialética; mas será mais e melhor do que isso, um alto ideal comum, um princípio universal de inspiração, falando todas as potências da alma humana, e cada uma na sua língua, acessível e fácil ao coração dos simples, como profundo à penetração das altas inteligências, e tão rico de luzes para a ciência como de estímulos para a consciência”. Tratar-se-ia do espírito da humanidade, nas suas diferenças e complementaridades, que se realiza nas instituições, nos costumes e na vida moral. De facto, a importância de Antero na história da cultura portuguesa liga-se a esta procura universalista – que deve ser vista na encruzilhada entre a herança romântica e a proposta simbolista. O poeta, em carta de 1867 a António de Azevedo Castelo Branco, afirmava que “a rêverie da saudade é para a alma que se deixa envolver nela como a hera para os muros que veste e abraça. A princípio é um adorno, uma gala. Mas as raízes vão entrando dia a dia por entre as pedras mais ligadas, abrindo-as, descolando-as. Quando se lhe acode não é mais já do que uma ruína – uma ruína encoberta e protegida por uma ilusão”. Nuno Júdice, num ensaio de grande interesse, que aqui se glosa, publicado na revista “Colóquio-Letras” (número 185, janeiro de 2014) recorda que nesta consideração estamos perante o conflito anteriano entre razão e delírio. A um tempo, sentimos a atração e a demarcação relativamente à influência romântica de um Garrett. E, em carta a José da Cunha Sampaio, de 1868, temos a recordação de influências antigas: “Byron, o batizador da nossa geração, pôs-nos ao lado dois padrinhos da sua mão, o Desejo e a Paixão; mas Proudhon, o batista da geração futura, dá-lhe outros padrinhos mais seguros, Abstinência e Vontade”.

 


LIGAR POESIA E FILOSOFIA
Do que se trata é de ligar Poesia e Filosofia e, neste particular, Antero de Quental vai desenvolver a sua capacidade criadora entre misticismo e lucidez racional, entre imaginação e razão. Como dirá a João Lobo de Moura: “o essencial, hoje, na Península, não é fazer ciência concreta e fria, para quem ignora os elementos das coisas: é introduzir no espírito público o sentimento moderno e a mesma noção de espírito científico e filosófico” (novembro de 1873). Nuno Júdice salienta, aliás, que, nas primeiras cartas de Antero, há maior nitidez na distinção entre racionalismo filosófico e delírio poético. Mas o tempo foi atenuando essa diferença. Numa carta a Joaquim de Araújo, o poeta elogia os brasileiros que não se limitam em poesia a ser literatos, mas preferem ser verdadeiros apaixonados “arrastados por um fluxo íntimo de sentimentos”. Afinal, há neles “uma sinceridade de inspiração, uma verdade e frescura, uma graça natural de expressão que me encantam” (3.11.1880). Os valores da sinceridade e da paixão caracterizam os “verdadeiros poetas”. E ainda no mesmo ano encontramos a confissão a Oliveira Martins de um certo regresso às origens: “É incrível a desarmonia que há entre a minha razão e o meu sentimento, este, por mais que faça, nunca chega a afinar pelo tom grave e claro daquela. Que fazer? É evidente que a poesia sai do sentimento e não da razão. Aceitemo-nos pois tais como nos fez a natureza. Não se pode exigir ao pinheiro que dê laranjas. Os poetas são como as mulheres: há de se tomar tais e quais, como os defeitos e as qualidades que na sua fatal natureza são inseparáveis”. Mas é na filosofia e pelas ideias que a maturidade criadora se afirma. Daí que Antero se confesse atraído pela Filosofia e pelo seu estudo cada vez mais absorvente. Deste modo, a publicação dos “Sonetos”, graças ao labor do seu dileto amigo Oliveira Martins, corresponde ao fecho de um ciclo de vida – “um documento psicológico”, como as “memórias de uma consciência” (como dirá a Tommaso Cannizzaro, em 24.6-1886). E o poeta confidencia ainda a Carolina Michaelis: “Parece que o estado de inquietação e de luta é que me incendiava e avigorava a imaginação, de sorte que, cessando aquele estado, esfriou ela rapidamente e toda a sua violência se escoou num suspiro. Esse suspiro são os últimos 15 ou 20 sonetos do livro; sem eles, creio que nunca teria publicado aquela coleção”. Aqui está (refere acertadamente N. Júdice) a cabal demonstração de que o poeta seguiu de perto a feitura da reunião dos “Sonetos”, designadamente a ordenação dos poemas, que foi, ao longo do tempo, motivo de polémicas várias…

 


«SONETOS» COMO ESTRUTURA NARRATIVA
Nuno Júdice fala, por isso, de uma estrutura narrativa do volume dos “Sonetos”, com acompanhamento das diversas fases da vida de Antero de Quental, desde o satanismo inicial, de influência romântica e baudelairiana até ao misticismo final – sendo o poema “Na Mão de Deus” uma espécie de intencional fecho de abóboda, que culmina um percurso que a organização procura seguir. Desde o prefácio à ordenação sente-se, assim, uma preocupação de fidelidade ao fraternal amigo por parte de Oliveira Martins. Antero fala mesmo a Wilhelm Storck de “notação de um diário íntimo e sem mais preocupações do que a exatidão das notas de um diário” – que acompanha “as fases sucessivas da minha vida intelectual e sentimental”. No fundo, o poeta sabe que, para si, mais do que as grandes explicações da ciência, “um profundo mistério continua a envolver o universo que ela acaba de explicar: o mistério das ideias, que é o mistério do que na consciência está para além da sensibilidade, região obscura onde assentam essas explicações”. E é nas “Tendências Gerais”, por onde começámos, texto fundamental, que essa chave se encontra – sentindo o poeta necessidade de pedir ao filósofo o completamento da explicitação do que o sentimento revela talvez melhor do que qualquer outra expressão. Dir-se-á, assim que “Sonetos” e “Tendências” correspondem a duas faces de uma mesma moeda que Antero de Quental quis que ficasse evidente no seu legado intelectual e espiritual para os vindouros. O sentimento e a razão completam-se e são reveladores da capacidade criadora da humanidade e da busca de um princípio universal, “falando todas as potências da alma humana (…) acessível e fácil ao coração dos simples, como profundo à penetração das altas inteligências, e tão rico de luzes para a ciência como de estímulos para a consciência”. O lugar de Antero de Quental na cultura portuguesa é singular e significativo. O poeta afirma a diversidade, impossível de simplificação, assente na coexistência de elementos paradoxais e complementares – misticismo e lucidez racional, imaginação e razão, lirismo e tragédia, poesia e filosofia. E Antero viveu dramaticamente essa coexistência…

 


Guilherme d'Oliveira Martins

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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Jean-Luc Nancy


     Minha Princesa de mim:
 

    Jean-Luc Nancy disse, falando de filosofia e Iluminismo: la raison ne suffit plus, afirmando que, depois do século XVIII, o das Luzes, o pensamento se terá virado essencialmente para o além, para o que está por detrás do existente, ou no fundo deste, e que a razão suficiente não encara. A começar pela morte, que é o grande impensado das Luzes: desde Espinoza, que as inicia, a Kant, que as encerra, a morte está totalmente ausente. Um dos pontos mais desnorteantes do racionalismo é, sem dúvida, ter pendurado a questão da morte. Tal não me parece, a mim, paradoxal. Pelo contrário, creio que é natural sentirmos a insuficiência da nossa razão perante a morte. Claro que não estou a falar da determinação clínica ou médico-legal do não funcionamento irreparável de um organismo, mas da morte como mistério, isto é, enquanto certeza interrogadora. Em si mesma, agora sim, um paradoxo. As Luzes, que para Kant eram a chegada do homem à maioridade, quiseram, como diz Nancy, circunscrever o mundo. E acrescenta: Penso que é preciso infinitizá-lo. Para este pensador da pós-modernidade, impõe-se desencerrar a clausura entre razão e não-razão. E faz, para tal, duas sugestões. Uma reconhece que a religião menos supersticiosa, a menos dogmática possível, pode permitir a alguns aceitar o que nos escapa, projetando confiança, uma redenção que nos salve do nada, do absurdo. A outra via, mais exigente, é a que chamo pensamento da adoração. Estou cada vez mais fascinado pela revolução do pensamento operada pelo cristianismo, que soube, no mundo romano, trazer uma consolação, um sentido, a homens que as religiões antigas já não conseguiam sossegar. Mas também penso, para citar Marcel Gauchet, que o cristianismo é "a religião de saída da religião", que traz nele uma dinâmica de secularização, de negação do mito. Entramos aqui, Princesa, num campo interior que, pelo próprio mistério da sua natureza, se revela, mas não se explica: uma visão da vida e da morte que surge de um encontro amoroso, que não é uma afirmação de princípios, mas, singelamente, uma experiência íntima do ser como alegria infinita. O filósofo de Estrasburgo, que muito deve a Heidegger e a Derrida, não tem a fé cristã, mas pensassente o gesto de Jesus Cristo, diz ele, esse gesto, esse modo de estar no mundo, que eu chamo adoração, isso que o cristianismo nos deixa, depois de apagados todos os seus aspetos religiosos e teológicos. De modo algum emprego esse termo no seu sentido religioso, mas na sua dimensão amorosa; é a adoração que dirigimos a alguma coisa, a alguém, à existência. Não se trata, nem de esperar um êxito, um sentido deste mundo, nem de esperar que outro mundo, depois da morte, nos traga finalmente respostas. Adorar é estar neste mundo, mas segundo um certo espírito, é aprender a aceitar a infinidade do sentido. Podes crer, Princesa de mim, que a minha fé se encontra profundamente com tal intuição da razão de outros. Àquilo a que chamam dinâmica de secularização, eu chamo energia da incarnação, essa presença de Deus no mundo e na vida dos homens, desse Deus que, em Jesus Cristo, abdicou da sua transcendência e se fez nosso igual sofredor, e no Espírito de Pentecostes todos os dias se nos revela e acompanha. Aceitar a infinidade do sentido é encontrar, no íntimo de nós, esse sopro do Espírito que nos diz que a nossa vida é maior do que nós, sobretudo quando a sentimos, na alma, seu paradoxo, como Álvaro de Campos, noite soleníssima e cheia / de uma oculta vontade de soluçar, / talvez porque a alma é grande e a vida pequena, / e todos os gestos não saem do nosso corpo, / e só alcançamos onde o nosso braço chega, / e só vemos até onde chega o nosso olhar... Sabes bem, Princesa, já te lo disse muitas vezes, como penso e quanto sinto que o grande milagre é esta intimidade de Deus connosco. Por isso não sou devoto de aparições e milagres, e posso ser até avesso a histórias dessas, quando me parecem insistentemente forçadas e pouco respeitadoras da razão humana. Sendo, todavia, leitor assíduo da Legenda Aurea de frei Tiago Voragino, delicio-me com essas maravilhas do imaginário medievo, cheio de ternura respeito a ingenuidade clara desses contos de fé. Nunca abdicarei do espanto.


     Camilo Maria


Camilo Martins de Oliveira

 

“Cadernos de Filosofia Extravagante”

O primeiro número dos Cadernos de Filosofia Extravagante intitula-se Universalidades e será lançado em Sesimbra, na Biblioteca Municipal, no próximo dia 21 de Março, sábado, pelas 15 horas.

A apresentação estará a cargo de três colaboradores dos Cadernos: Luís Paixão, Isabel Xavier e Rodrigo Sobral Cunha. No dia seguinte, domingo, haverá nova sessão de apresentação, desta vez em Lisboa, na Galeria Matos Ferreira. Terá início às 18 horas, e contará com a participação de António Telmo, Pedro Martins e Renato Epifânio. (...)

Mais informação aqui

PADRE ANTÓNIO VIEIRA

Padre António Vieira relembrado na Universidade Católica Portuguesa
6 de Fevereiro, às 17 Horas, Campus da Foz

  • Apresentação do livro "O Padre António Vieira e o Mundo de Língua Portuguesa"
  • Conferência “Vieira e a Língua Portuguesa”, pelo Professor Aníbal Pinto Castro

 

Religioso, orador e escritor, o Padre António Vieira foi uma das personalidades mais marcantes do século XVII. No próximo dia 6 de Fevereiro, pelas 17 horas, Campus Foz, dia em que se encerram as comemorações dos 400 anos do seu nascimento (Ano Vieirino), a Universidade Católica Portuguesa, através do Centro Regional do Porto, promove a apresentação do livro “O Padre António Vieira e o Mundo de Língua Portuguesa”, seguida de uma conferência subordinada ao tema “Vieira e a Língua Portuguesa”, pelo Professor Aníbal Pinto Castro.

A obra “O Padre António Vieira e o Mundo de Língua Portuguesa”, coordenada pelos Professores Aníbal Pinto Castro e Artur Teodoro de Matos, conta com textos de João Adolfo Hansen (Universidade de São Paulo-Brasil), Isabel Almeida (Universidade de Lisboa), Pedro Cardim (Universidade Nova de Lisboa), Mário Garcia S.J. (Universidade Católica Portuguesa), Manuel Cândido Pimentel (Universidade Católica Portuguesa) e dos dois coordenadores. A obra foi editada conjuntamente pela EPAL – Empresa Pública das Águas Livres e pelo Centro de Estudos dos Povos e Culturas de Expressão Portuguesa da Universidade Católica Portuguesa.