Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Quem quiser compreender o Brasil na sua complexa diversidade tem oportunidade de o procurar na Exposição que tem lugar na Fundação Gulbenkian, com curadoria de José Miguel Wisnik, secundado por Milena Brito e Guilherme Wisnik, contando com a bela cenografia de Daniela Thomas e Maristella Pinheiro. Fui ao país da minha avó brasileira. E ouvi Darcy Ribeiro a dizer que o Brasil é “inventar o humano, criando um novo género de gentes, diferentes de quantas haja”, mas também Agustina Bessa-Luís a pontuar que “a tristeza e a alegria fazem parte do dia-a-dia brasileiro. Fazem parte da sua liberdade e da sua coragem. Temos de aprender com o Brasil”. Chico Buarque lembra que traz nas suas veias o sangue do açoitado e do açoitador. E Valter Hugo Mãe lembra que “estar disponível para todos os sentidos e todos os caminhos é algo que está no radical brasileiro”. Com emoção, somos transportados à semana de Arte Moderna de 1922, e à reinvenção brasileira moderna de Mário de Andrade.
Reportando-nos aos clássicos intérpretes da formação brasileira – Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior - dir-nos-emos em três países diferentes quase incompatíveis: “num deles, somos um exemplo da mais perfeita integração em terras tropicais” (conforme a primeira frase de Casa Grande e Senzala); no outro, somos “desterrados em nossa terra” (conforme o primeiro parágrafo de Raízes do Brasil); no terceiro, somos nem desterrados nem integrados, um detalhe malformado e atrasado da mundialização do capital que rege o “sentimento da colonização” (conforme o primeiro capítulo de Formação do Brasil contemporâneo). E assim o adjetivo complexo ganha pleno sentido. O que é “declarar de saída que se trata de algo que está fora do alcance de explicações prontas e que escapa a qualquer pretensão totalizante ou esgotante. E o que temos é um conjunto de biomas, de etnias, de culturas, de lógicas, de línguas (quase três centenas), de religiões, e um complexo de processos económicos e de classes sociais, marcadas pela desigualdade. Isto, além do complexo de inferioridade e de superioridade – “síndromes que brasileiros e portugueses costumamos frequentar” (como lembra José Miguel Wisnik). No fundo, importa desencobrir o encobrimento dos brasis numa espécie de desencobrimento mútuo de portugueses e brasileiros. Trata-se de “uma sociedade desigual, que desafia, não obstante isso, a pensar suas formas singulares e diversas de sociabilidade e de criação cultural. Um convite à experiência de brasis, sujeita necessariamente às funções, aos atritos, ao riso, beirando por vezes a admiração, o espanto, o fascínio e o horror”.
Eliane Brum escreve a Carta de Desfundação do Brasil, dirigida aos descendentes dos súbditos do Rei D. Manuel I e põe-nos a responsabilidade atual e futura perante a floresta, criada por todos que nela vivem durante 50 milhões de anos, e que em meio século se aproximou do ponto de não retorno. E em nome do tempo longo, Glicéria Tupinambá trouxe a vestimenta de penas de aves brasileiras, ao lado do manto indígena originário. É uma imersão total no Brasil brasileiro, onde se eterniza Portugal, no impensado de Eduardo Lourenço. E lembro essa fantástica realidade quando fomos a casa de Dona Canô no Recôncavo Baiano, em Santo Amaro da Purificação, e hoje recordamos em Maria Betânia – “Gosto de cantar e escolher minhas palavras para esse Brasil. Não posso viver sem isso!”
André Malraux inaugurou em 1965 o Centro Cultural Português de Paris na antiga residência de Calouste Gulbenkian. Desse acontecimento damos aqui conta.
Quando a 3 de maio de 1965 André Malraux, ministro de Estado francês encarregado das questões culturais, ao lado de José de Azeredo Perdigão, presidente da Fundação Calouste Gulbenkian, inaugurou o Centro Cultural Português, na avenue d’Iéna em Paris ocorreu um facto muito mais importante do que à primeira vista poderia parecer. Havia nuvens negras a toldar as relações de Portugal com o mundo, em virtude da questão colonial, tendo o próprio General De Gaulle resolvido em França a questão da Argélia, ao abrir o caminho da descolonização. No entanto, sem qualquer cedência aos princípios, Malraux, em diálogo com o Embaixador Marcello Mathias, com a autorização para a vinda para Lisboa de peças fundamentais para o Museu Gulbenkian e com o reconhecimento da importância da nova instituição, contribuiu decisivamente para a abertura de horizontes com vista à democratização portuguesa. De facto, a hoje Delegação da Fundação Gulbenkian em Paris foi uma guarda avançada na função de concretizar a liberdade cultural entre nós. Malraux compreendeu-o. E pode dizer-se que a inteligência dos intervenientes na definição do modus vivendi em Paris permitiu, de forma voluntária, uma presença da Fundação, com criação da Casa dos Estudantes portugueses André de Gouveia na Cidade Universitária e com uma intervenção relevante no mundo da língua portuguesa, da qual faz parte a importante Biblioteca. E assim a Fundação Gulbenkian, em 1965, instalou na antiga residência de Calouste Gulbenkian em Paris a estrutura de apoio aos estudos portugueses nas universidades francesas, associada ao ensino da língua, a concertos, recitais e conferências. Numa palavra, tratava-se de criar uma instituição que serviu para dar protagonismo e fazer conhecer em França os valores da cultura portuguesa com repercussões nas ciências, letras e artes, na escala universitária e nos níveis mais elevados do conhecimento.
O Centro começou a funcionar em 1967-68, sendo o seu primeiro diretor Joaquim Veríssimo Serrão (1967-1972), a quem sucedeu José Vitorino de Pina Martins (1972-1982). Léon Bourdon e Marcel Bataillon aconselhavam o novo centro. E a Biblioteca foi sobretudo organizada por António Coimbra Martins, com o apoio de Almeida Langhans, com a preocupação de abranger as diversas culturas da língua portuguesa, em que o Brasil ocupava lugar relevante. Orlando Ribeiro foi um dos primeiros conferencista convidados, e iniciaram-se as publicações, com Solange Parvaux, Albert Silbert e Armand Guibert. Foi um tempo de iniciativas sobretudo académicas, O Centro sofreu as naturais repercussões dos acontecimentos parisienses de Maio de 1968, mas na institucionalização da democracia, a atividade do Centro evidenciou-se pela qualidade das ações levadas a cabo e pela respetiva importância. No centenário da morte de Damião de Góis, em 1974, destacaram-se as iniciativas realizadas, designadamente a conferência de Marcel Bataillon e de outros lusitanistas. Os Arquivos publicaram um debate muito rico sobre a identidade do autor da tragédia A Castro entre Adrien Roig, Paul Teyssier e Roger Bismut. Os temas históricos prevaleciam então. Em 1984, publicou-se o estudo contemporâneo sobre Herberto Helder. Contudo, Eduardo Lourenço definiu exemplarmente o lugar da instituição, na história cultural. “Quando nasceu a Fundação, a imagem da cultura tinha ainda um estatuto que a assimilava ao sagrado e, se não era um domínio reservado, era ao menos um privilégio ao qual só as elites poderiam ter acesso ou onde tinham assento natural. Segundo a sua génese, a Fundação contribuiu para aperfeiçoar e sublimar este estatuto de exceção do cultural na vida social portuguesa, antes de se tornar instrumento da metamorfose”. O exercício da liberdade tornava-se possível. Nesse sentido, o final dos anos setenta conheceram não apenas debates sobre a atualidade cultural, mas também sobre os novos desafios europeus.
O Centro Cultural português evoluiu deste modo desde a erudição lusitanista até ao diálogo da Europa das culturas. A mudança operou-se nas direções de José-Augusto França (1983-1989), de Maria de Lourdes Belchior (1989-1997) e de António Coimbra Martins (1997-1998), ainda sob a supervisão de José Blanco, o Administrador do Serviço Internacional. José-Augusto França considera deverem abrir-se perspetivas novas: “o Brasil e os países africanos de língua oficial ou veicular portuguesa devem ser parceiros privilegiados na consumação de tarefas que envolvam o diálogo entre culturas”. Só assim seria possível chegar às gerações mais jovens. Haveria que mudar de paradigma e que considerar a natureza internacional da Fundação. Daí a importância da cooperação com outras instituições e o estudo de novos temas – “A Arte portuguesa no século XIX” numa exposição no Petit Palais, o colóquio “Literaturas Africanas de Língua Portuguesa” (1984). Maria de Lourdes Belchior segue a mesma linha e promove um grande colóquio internacional de homenagem a Marcel Bataillon, além do apoio a traduções da literatura portuguesa. O panorama cultural transformava-se e nascia a designada como Delegação em França, compreendendo um novo conjunto de missões, que não punham em causa o seu papel estratégico, já não ligado exclusivamente à língua portuguesa, mas cada vez mais às culturas da língua portuguesa num mundo global. Além dos portugueses e luso-descendentes, tratava-se de dar resposta ao número crescente de estudiosos das literaturas e das realidades do mundo global da língua portuguesa.
João Pedro Garcia, João Caraça, Nuno Vassallo e Silva e Miguel Magalhães delinearam, assim, uma ação de âmbito internacional que atribuía à Delegação da Fundação Gulbenkian um papel estratégico, que reforçou a vocação internacional da instituição. A consolidação da Biblioteca como um serviço de grande valia para os lusitanistas, a realização de Exposição dedicada a Amadeu de Souza-Cardoso no Grand Palais, a cooperação com o Centro Pompidou ou o apoio ao o Festival de Avignon, a título de exemplo, constituem marcas que pretendem alargar a intervenção da instituição no nundo contemporâneo. Em Paris, a Fundação vai, assim, gradualmente conquistando e reforçando um lugar com base em experiência adquirida, adaptando-se à novas circunstâncias. Não se trata de repetir o que anteriormente foi feito, mas de partir de um valor indiscutível para o alargar, mercê da cooperação e das suas virtualidades. Quando hoje lemos a correspondência entre Saint-John Perse e Calouste Gulbenkian, podemos entender como a cultura pode contribuir para a melhor compreensão do mundo...
A Exposição “Arte Britânica – Ponto de Fuga” a decorrer na Fundação Gulbenkian no âmbito do Centro de Arte Moderna (CAM) constitui um acontecimento, não apenas pela qualidade das obras expostas, mas também pelo sinal que dão, de um diálogo vivo no domínio da cultura e das artes com artistas de origens diversas que se encontraram no pós-guerra, que lançaram caminhos novos e muito fecundos, após os momentos dramáticos de angústia e destruição da “Blitz”. No caso português, a abertura de horizontes foi fundamental, num clima fechado, graças às bolsas de estudo e aos incentivos atribuídos pela Fundação Gulbenkian a alguns jovens que puderam ver as suas carreiras enriquecidas, mas sobretudo que puderam frequentar as melhores escolas e trabalhar com os melhores artistas do seu tempo.
O investimento na cultura é verdadeiramente reprodutivo quando se traduz na mobilidade internacional, no intercâmbio e na partilha de experiências. Isto aplica-se aos diversos domínios do conhecimento, envolvendo a educação, a ciência e a cultura e a Fundação Gulbenkian compreendeu-o desde sempre e por isso constituiu-se numa candeia que soube sempre ir à frente. No caso desta mostra, possível graças ao conhecimento e à sensibilidade de Ana Vasconcelos, Rita Lougares e Sarah Mac Dougall, e à encenação de Mariano Pissarra, podemos encontrar vários motivos de ponderação. Antes do mais, o encontro de dois conjuntos de grande qualidade que se completam – o do CAM e o da coleção Berardo; por outro lado, uma apreciável diversidade de perspetivas que permitem entender várias correntes relevantes da arte contemporânea. Atendo-nos aos casos de Paula Rego, Menez e Bartolomeu Cid dos Santos, nas suas diferenças, fácil é de perceber uma influência biunívoca entre o contributo pessoal de cada um e o resultado do mergulho num meio aberto e cosmopolita, que ganha claramente com a originalidade do seu contributo. E refiram-se ainda os casos de Eduardo Batarda, Fernando Calhau, Graça Pereira Coutinho, João Penalva e Rui Sanches. Perante obras como “Renaissance Head” de David Hockney ou “Oedipus and the Sphinx after Ingres” de Francis Bacon, a título de exemplo, compreendemos como a cultura segue caminhos múltiplos, alimentando-se desde os temas clássicos às tendências populares. O mesmo se diga da presença de Bridget Riley, Antony Gormley, Rachel Whiteread, Frank Auerbach, ou David Bomberg.
Num tempo difícil como o atual, somos assaltados pelos fantasmas perturbadores da intolerância, do fanatismo e da idolatria, sendo importante que possamos evocar os bons exemplos de inconformismo e de audácia criadora, como fatores de emancipação. No percurso da exposição da Gulbenkian, sentimos a força de um apelo à criação e à aprendizagem. De facto, é muito importante continuar a assumir o objetivo de abrir horizontes e de fazer da cooperação cultural um fator decisivo de desenvolvimento humano, fiel aos objetivos centrados na educação, na arte, na ciência e na filantropia. A Arte e a Cultura constituem com a Ciência e a Educação insubstituíveis catalisadores de progresso, de respeito mútuo e de reconhecimento da liberdade e da cidadania baseadas na dignidade humana. Numa conjuntura de anti-cultura, de censura e de circuitos fechados, como a de hoje, como correr os riscos necessários para abrir horizontes?
Gonçalo Ribeiro Telles disse um dia que desejaria que Portugal no futuro fosse uma espécie de Gulbenkian. Lembrámo-lo na inauguração da extensão do Jardim do Parque de Santa Gertrudes e do novo Centro de Arte Moderna (CAM).
Numa das últimas conversas que tive com Gonçalo Ribeiro Telles, encontrei-o satisfeito com a extensão do Parque da Gulbenkian até ao limite natural da Rua Marquês de Fronteira e com o projeto de Kengo Kuma e Vladimir Djurovic para o Centro de Arte Moderna. As objeções antigas tinham desaparecido, uma vez que o edifício renovado passaria a ligar a natureza e a construção, deixando de haver um muro cego, privilegiando-se a leveza e a transparência, salvaguardando-se a qualidade da paisagem. O Centro de Arte Moderna (CAM) da Fundação Calouste Gulbenkian que reúne a mais significativa coleção de arte moderna e contemporânea portuguesa, em diálogo com o panorama internacional, reabre ao público depois de quatro anos de profunda remodelação. O CAM, da autoria original de Leslie Martin, inaugurado em 1983, graças à iniciativa do Doutor Azeredo Perdigão, foi agora completamente redesenhado pelo arquiteto japonês Kengo Kuma, em colaboração com o arquiteto paisagista Vladimir Djurovic num projeto que visou estabelecer uma mais efetiva ligação entre a natureza envolvente e o edifício, que está imerso na paisagem, em sintonia com a ideia original de Gonçalo Ribeiro Telles e de António Viana Barreto. E o simbolismo da cobertura do engawa, o telhado do novo edifício da CAM, permite a ligação entre a imagem das placas de cerâmica branca inspiradas nos azulejos portugueses e o desenho das grandes embarcações que se aventuraram nos mares.
Abrangendo múltiplas iniciativas, a reabertura do CAM, inicia-se com Leonor Antunes, numa investigação e apresentação de obras e percursos de artistas mulheres, agora revelados à luz do dia, como elementos determinantes no movimento moderno, numa história antes marcada pelas desigualdades. O ponto de partida de Leonor Antunes é um diálogo rico e inesperado com Ana Hatherly, centrado no contraste entre as linhas do negro da tinta da china e o fundo branco num entrançado em que a aparência caligráfica representa a destreza e a fluidez, numa lógica de sobreposição, capaz de contrariar a “desigualdade constante” que o tempo foi aceitando por inércia e que a liberdade artística procura contrariar – abrindo espaço e tempo para quem antes ficava na penumbra… “Da desigualdade constante dos dias de Leonor” procura, assim, um sinal de coerência no sentido da igualdade e da superação de uma história de subalternidade e de exclusão, relativamente às artistas-mulheres. O CAM, ao reabrir as suas portas, dá um sinal emancipador sobre a importância da mulher, fiel ao espírito de Madalena Azeredo Perdigão e ao ar fresco do ACARTE de boa memória, com o lema “Vamos correr ricos”. E Ana Hatherly vai às raízes e representa variações a partir do vilancete de Camões “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura / vai formosa e não segura”. Um tema emancipador, vindo de tempos remotos, que abre campo à modernidade. Com uma rara capacidade de pôr em ação o confronto integrador de espaços, volumes e intervenções, Leonor Antunes articula e reconstrói diferentes experiências e tempos históricos, numa circularidade fecunda que realça a transparência do novo CAM, entre Arte e Natureza, numa rica hospitalidade para acolher um mundo múltiplo e diverso, disponível para encontrar os novos e os de sempre e capaz de entender a moderna contemporaneidade.
UMA LINHA DE MARÉ «Linha de Maré» é uma mostra que parte de 25 de Abril de 1974 para chegar aos nossos dias, com curadoria de Ana Vasconcelos, Helena de Freitas e Leonor Nazaré refletindo sobre as mudanças em curso, sobretudo relacionadas com o planeta, questionando a relação do homem com o mundo natural. São obras de pintura, desenho, vídeo, fotografia e escultura não antes mostradas, com Mónica de Miranda, Filipa César, Graça Pereira Coutinho, Kiluanji Kea Henda, Rui Chafes e Paulo Nosolino. Gabriel Abrantes assina uma instalação vídeo, Bardo Loop, encomenda original do CAM para a circunstância, que corresponde a uma reflexão muito séria e tocante sobre a dignidade humana.
Em «O Calígrafo Ocidental», Fernando Lemos surge como o autor surpreendente e inesquecível, com uma obra muito rica e multifacetada que se exprime de um modo especial através de um diálogo peculiar com o Japão, que os portugueses foram os primeiros europeus a encetar, e que aqui se reinventa. Trata-se do testemunho vivo sobre o período passado pelo artista no Japão no ano de 1963, para estudar a caligrafia e a arte japonesas durante seis meses, graças à bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, que lhe permitiu um “encantamento” com que “encheu os olhos e a alma”. E costumava dizer: “Quanto mais desejo, mais invento o que vejo”. Eis o que pode dizer-se sobre o que significa a extraordinária originalidade do artista. E Fernando Lemos permite-nos compreender que a procura de uma sombra é sempre busca da eternidade, como ensinam os calígrafos japoneses, ajudados por uma sabedoria milenar, na qual o artista português procurou as raízes essenciais da dignidade humana. Afinal, “Letra é um desenho mudo que começa numa ponta e acaba noutra, produzindo sempre que caminha um som diferente”. É o que encontramos na fantástica exposição do CAM, concretizada por Rosely Nkagawa e Leonor Nazaré e enriquecida pela profunda reflexão de Ryuta Imafuku.
O CANTO DOS CRISTÃOS ESCONDIDOS A Sala de Som recebe The Voice of Inconstant Savage, com uma instalação sonora de Yasuhiro Morinaga que sobrepõe uma oração inspirada no relato de um missionário português do século XVI, um canto dos cristãos escondidos, além de referências tradicionais de Nagasaki, da Amazónia e do canto gregoriano ocidental. Ainda no âmbito da Temporada de Arte Contemporânea Japonesa, o artista Go Watanabe apresenta uma intervenção, em que a sensibilidade criativa procura o encontro das diferenças. Já Didier Faustino concebeu uma sala de vídeo itinerante, H-Box, apresentada no Centro Pompidou em 2007, numa encomenda da Fundação Hermès, que agora permite a apresentação de 12 vídeos, com curadoria de Benjamin Weil.
Contíguo à Galeria da Coleção encontra-se o acervo do CAM que terá parte das suas reservas acessíveis ao público, numa iniciativa original, que permite alargar a capacidade para mostrar a coleção. Pretende-se assim garantir que não haja um lado esquecido de uma coleção tão rica, dando aos visitantes a possibilidade de se reencontrarem com obras referenciais de várias décadas da ação da Fundação Gulbenkian na promoção da formação e do desenvolvimento da criação artística entre nós e no contexto internacional.