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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICA DA CULTURA

Cristiano Ronaldo içou-se do chão de quando era criança; rodou nos invisíveis degraus do esforço d’alma; prendeu-se no ar, e, intacto de natureza, opôs-se ao que no mundo é simulacro. 

 

  

 

De mão no peito o agradecimento minucioso a cada um, a cada vida.

O gesto, o gesto de que o limite é para se ultrapassar.

 

  

 

Ronaldo, o vulto voante de uma magia que poucos merecem, demanda-nos na sua vida o nosso próprio desejo de pulsar pelo céu. Expõe sentires em choros e felicidades de inocência rara.

 

Cristiano Ronaldo o menino empurrado para os dias dos socalcos de todas as solidões.

Ronaldo o homem-menino que hoje segura o seu filho à expansão das manhãs.

 

 

O menino-homem da bola de ouro a erguer ao mundo o sentido do choro.

 


Ronaldo, um fundo de convicção que aponta caminhos, muitos deles entre o ser-eu e o estar-ali irredutível.

O colossal jogador de futebol português, conhece-se e devolve-se a nós, na simplicidade de algo a decifrar, como se não transportasse também um Portugal e suas pedras, em ordenada linguagem aplanada pela força do mérito, do trabalho, do sonho, e da indecifrável magia de pertencer a um lugar que poucos conhecem.

Obrigada

 

Teresa Bracinha Vieira

GLOBALIZAÇÃO E NACIONALISMO NO FUTEBOL

 

Sendo o futebol um desporto globalizado, o seu mercado internacionalizou-se, o que levou a que os melhores treinadores e jogadores nacionais, de vários países, como José Mourinho e Cristiano Ronaldo, entre nós, fossem contratados por clubes estrangeiros mais ricos. Constitui um fenómeno crescentemente global, que uma percentagem significativa ou maioritária de jogadores de uma seleção nacional de futebol sejam jogadores estrangeiros, naturalizados nacionais, ou jogadores nacionais que jogam em clubes estrangeiros. O que não impede os adeptos nativos de sentirem como nacionais as vitórias da seleção nacional. Mesmo quando para esse sucesso desportivo é reconhecidamente decisivo o desempenho de jogadores não brancos, nomeadamente na Europa. Igualando ricos e pobres, etnias e raças, num unanimismo emocional e coletivo desejável e desejado, o futebol igualiza em imagens idílicas de celebrações triunfalistas, rumo a uma globalização pacífica e ausente de conflito, ansiada e opinada por muitos.

 

Só que, analisando melhor, o fenómeno da globalização, tão patente e potente na economia e finanças, não aparenta ter penetrado no futebol, onde se indicia, cada vez mais, uma ligação nacionalista e clubística. Seja como disputa entre nações, como competição de autoafirmação nacional, como altar ou salvação da pátria, a que os próprios políticos e governantes prestam honras e vassalagem, o mundo futebolístico, com o seu ícone da bola salvífica, não resiste à ideia de divergência e diversidade, o que pode ser exemplificado com o campeonato europeu de futebol.

 

Integravam tal competição, em 2016, 24 seleções nacionais. Entre elas a de Portugal, que foi campeão europeu. Há 28 anos eram oito, passando para 16, em 2012.

 

Na União das Associações de Futebol Europeu (UEFA), há seleções que não correspondem a países, tendo como exemplo mais antigo o Reino Unido, com quatro equipas: Inglaterra, País De Gales, Escócia e Irlanda do Norte, a que se juntou, muito mais tarde, Gibraltar. Com o colapso da União Soviética, além da Rússia, há mais dez países associados: Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorússia, Ucrânia, Moldávia, incluindo os euroasiáticos Azerbaijão, Geórgia, Arménia e o asiático Cazaquistão. A divisão da Checoslováquia originou dois países: República Checa e Eslováquia. A da Jugoslávia, seis: Eslovénia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedónia. Sem esquecer a Turquia, minoritariamente europeia, bem como o asiático Israel. Além das seleções de Andorra, San Marino, Liechtenstein, Malta, Chipre, Ilhas Faroé e, recentemente admitido, o Kosovo. Estando pendente a candidatura da Catalunha.  E por que não, no futuro, o País Basco, a Flandres, a Valónia e a Lombardia?

 

Esta diversidade e pluralidade de seleções, com tendência a aumentar, com a exibição  de bandeiras e exposição de outros símbolos nacionais, galvaniza sentimentos clubísticos e nacionais, mesmo que cada vez mais as seleções integrem jogadores de várias origens. Mas se a naturalização de jogadores é determinante para que possam ser parte de uma seleção, conclui-se que a nacionalidade e nacionalismo no futebol globalizado, ultrapassam e desatualizam as fronteiras territoriais e o princípio da territorialidade inerente aos Estados e sua soberania. Ao mesmo tempo, autonomizam, autodeterminam e dão visibilidade democrática a povos e nações que rompem a unicidade e peculiaridades da globalização.    

 

17.01.2016

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

Rainha Isabel II

 

     Minha Princesa de mim:
 

   Fins de semana compridos, feriados sucessivos, o que seja disso tudo pouco ou nada me mexe na vida. Quanto muito, poderá tal benesse pôr-me à janela da prateleira em que estou posto... E a olhar para fora. A TV também ajuda, não vejo muito, mas nestes dias, sei lá porquê, gosto de percorrer o panorama que me oferece: o início do campeonato europeu de futebol, os noventa anos de Isabel II, as comemorações do dia de Camões e das Comunidades Portuguesas. E dou por bem empregue o tempo que lhes dei. Tenho visto equipas francesas, suíças, albanesas, com jogadores de várias origens e raças em cada uma, emigrantes regressados às pátrias ou, fora delas, mantendo o seu ganha-pão, mas regressando sempre ao carinho da pátria inicial, a de seus pais. Como também emigrados que imigraram mesmo, em primeira, segunda ou terceira geração, na pátria nova, que é agora sua, e que servem amam e festejam. É bonito! É, para mim, cristão de confissão convictamente católica, ou universal, uma imensa consolação: sempre penseissenti que é isso mesmo o cristianismo, essencialmente a comunhão de todos na alegria da vida. Pois só nessa convivência poderemos dizer o nome de Manuel, "Deus connosco"!

 

   Quando me chegam ecos de reações xenófobas, ou ditas nacionalistas, desvalorizando seleções nacionais por estas terem gentes de outras raças e credos, rio-me da ignorância de quem não sabe como, afinal, todos somos filhos de Quem, e em todos nós muitos genes se misturam. E fico um pouco triste ao ver como a grande, essencial, mensagem da Boa Nova, pode ser esquecida na Europa que a Cristandade fez: nenhuma nação é grega ou romana, gentia ou judia, ou seja o que for que fizer diferença, pois Deus, nosso Senhor, manda sol e chuva para cima de todos. Uma nação, ou uma igreja, não é uma seita, é um projeto de união fraterna. E até quase me zango, magoado por esse mal querer ao estrangeiro, com a cegueira tal que não entende que até nas grandes guerras dos europeus, e em terras de Europa, tantos soldados vindos das colónias de África e outros continentes se sacrificaram por pátrias que, só por isso, se tornaram, com pleno direito, as pátrias deles... E não as poderiam representar numa seleção de futebol, a que, aliás, acedem por serem melhores do que outros?

 

   Tudo isto me ocorre também, ao ver, com o gosto familiar que sempre tive por essas "cerimónias", as celebrações militares dos 90 anos de Sua Majestade a Rainha Isabel II. Nos magníficos alinhamentos de tropas britânicas, também se contavam africanos e asiáticos, mais do que súbditos, eles mesmos cidadãos livres da monarquia. Por direito e mérito próprio, numa sociedade e num sistema que, graças a Deus, tanto mais se honra quanto mais souber reconhecer como iguais aqueles que participam no seu projeto de nação cristã, não só pelas raízes, mas hoje, sobretudo, pela universalidade do abrigo que a todas as raças e religiões oferece. A vocação do cristianismo é o fim do nacionalismo religioso, é a alegria livre do convívio reconhecido dos filhos de Deus. Que todos somos.

  

   No mesmo espírito em que o meu pensarsentir tem vivido estes dias, comovo-me, com alegria grata, ao ver representantes do nosso Estado Português festejarem e homenagearem emigrantes, indo até ao sítio de uma "bidonville", ou bairro de lata, onde a coragem, que venceu a miséria, os acolheu, porque já a traziam da madre pátria. Bravos! Tal como, ao longo de todos estes anos - em que chorei a morte de militares portugueses, irmãos meus e africanos, com quem partilhei 25 meses de trabalhos, dia a dia, na Guiné - me tenho enchido de silencioso orgulho e indizível mágoa, ao assistir a uma celebração religiosa islamo-cristã, por todos eles, os mortos, e nós com eles, nesse dia do coração comum, o de Camões universal - que foi, também, não esqueças, o namorado de Dinamene - e das comunidades portuguesas. Nem a nossa saudade, nem tampouco a soberba declamada por outros, poderão curar esta ferida marcada e rasgada pelo destino de tantos africanos, nossos irmãos de armas e de coração, que um processo de descolonização, alimentado de ilusões ou demissões, perdendo a razão humana do seu sentido, abandonou a outros ódios e co-condenou à morte... Como vês, Princesa, há dias em que, no meu pensarsentir, o coração manda muito... Não porque seja alheio a razões que a minha razão, afinal, reconhece, mas porque também vai tendo, ao longo desta vida em que sempre o senti bater, comoções fortes, que não escondo nem consigo esconder, essas todas que amizades profundíssimas ciosamente guardam nos subterrâneos da minha alma...

   

   Estou velho, bem sei. Limitadíssimo. Por isso pouco saio e pouco apareço e digo. Mas muito sinto, sem talvez saber se penso. Digo pensossinto, porque sempre assim fui lidando comigo. Guardo, na memória da cabeça, os sentimentos do coração. E tento voltar a passa-los pelo crivo da razão. Quiçá assim vá conseguindo entender-me na dialética de mim com a minha circunstância: serei um conservador que procura ser justo? E será que o que conservo é, de alfa a ómega, o sopro - que eu possa sentir - do Espírito que criou e renova a face da terra? Na fraternidade universal me sinto mais português, mais cristão, mais feliz. Muitas vezes - a muitos títulos e de muitas maneiras - te tenho escrito que vou sempre aprendendo a amar a imperfeição, pois nela necessariamente nos descobrimos e podemos amar. O amor é a capacidade de passarmos além das nossas limitações.

 

   Assim, fiquei feliz ao ouvir o Papa Francisco, no seu sermão deste domingo, dizer: O mundo não será melhor se se compuser apenas de pessoas aparentemente "perfeitas" (para não dizer "maquilhadas"), mas sim, quando crescem a solidariedade, a mútua aceitação, e o respeito entre os seres humanos. Como são verdadeiras as palavras do Apóstolo: o que é fraco no mundo é que Deus escolheu para confundir o que é forte... Palavras respigadas do versículo 27 do capítulo I da primeira carta de São Paulo aos Coríntios, onde também lemos: Mas o que é louco no mundo é que Deus escolheu para confundir os sábios... E já no versículo 25 explicara: Porquanto o que é loucura de Deus é mais sábio do que os homens, e o que é fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. Pensossinto, Princesa de mim, que a loucura e a fraqueza de Deus têm um nome comum: Amor. E ocorre-me agora uma carta antiga, que te escrevi acerca da Turandot do Puccini, do desenlace comovente e feliz do dilema existencial que preenche aquela ópera: a princesa Turandot, ao perceber que Calaf a ama com mais loucura do que do próprio orgulho dela - e ao ponto de lhe revelar, com risco de vida, o seu nome - grita à multidão ansiosa que o nome de Calaf é AMOR!

Cai o pano e termino esta carta.
 

     Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira