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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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GEORGE STEINER: ETERNAMENTE!

 

Desde o passado dia 4 do corrente, nós, órfãos para sempre.

O silêncio total neste tempo de luto face ao pensar plantado por Steiner é o tudo existir que tenho para lhe agradecer: e bem sei que não basta!        

 

Tal é a razão das afinidades, que teremos frequentemente ensejo de observar, entre as fenomenologias da arte e as da abordagem ocidental da morte. Ao contrário do que pretende o cliché, o irmão da morte talvez não seja o sono, mas a arte, em particular a música. Ao mesmo tempo que exprime na sua essência a vitalidade, a força da vida e o prodígio da criação, a obra de arte é acompanhada por uma dupla sombra: a da sua possível ou preferível inexistência, e a do seu desaparecimento.

(…) Kafka a Milena: «Ninguém canta mais puramente que aqueles que estão no mais fundo do inferno; é o seu canto que tomamos pelo dos anjos». Deverá ser esse o único cantar?

De múltiplas maneiras emblemáticas da nossa condição moral, política e psicológica, neste momento da história, «o caos regressa». Mas estava também presente no momento da criação.

De George Steiner in GRAMÁTICAS DA CRIAÇÃO.

 

Teresa Bracinha Vieira

GEORGE STEINER (1929-2020)

 

O desaparecimento de George Steiner é uma perda irreparável para a cultura europeia.
Recordamo-lo neste texto. 

 

STEINER: LINGUAGEM E SILÊNCIO 
Por Guilherme d’Oliveira Martins 

 

«Linguagem e Silêncio – Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o inumano» de George Steiner (Gradiva, 2014) é uma interrogação atualíssima sobre as humanidades e a comunicação nos dias de hoje. O que são hoje as Humanidades? Será que compreendemos plenamente o papel atual das chamadas humanidades quando o progresso científico e tecnológico segue caminhos inesperados e imprevisíveis? Basta lermos os grandes humanistas ao longo da história para percebermos que não podemos fechar-nos dentro de fronteiras rígidas, como se nos devêssemos ater apenas ao formalismo de algumas categorias tradicionais. Quando Dostoievski, em «O Idiota», põe na boca de Hipólito a pergunta ao Príncipe Michkine se haverá uma beleza que salve o mundo, não há uma resposta, apenas silêncio. É desse silêncio que Steiner, na prática, se ocupa – uma vez que não podemos descurar a emoção, a arte, a criatividade, a graça, a emoção e o espírito, mas temos de ligar-lhes o cuidado e a atenção. E se é verdade que há muito barulho à nossa volta, o certo é que temos de saber ver e ouvir, de modo que a indiferença e a idolatria não ocupem o espaço do sentido e da dignidade do ser. Eis por que razão devemos valorizar o silêncio, que permita ouvirmo-nos uns aos outros, e distinguir o que tem valor. Steiner costuma lembrar que por trás da casa de Goethe há um campo de concentração e que grandes atrocidades foram cometidas por quem dizia amar a arte. Eis por que não basta invocar as humanidades, é fundamental torna-las humanas. «Toda a minha vida (diz Steiner) me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. (…) Passo o dia todo com os meus alunos a ler o «King Lear» e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Alguém grita por ajuda e eu não ouço. Sempre me intrigou até que ponto a ficção – e ficção é a palavra-chave – pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção». De que falamos quando tratamos da literatura? Em bom rigor é da própria vida. O mesmo se diga das diversas artes – quando ouvimos Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven ou Mahler somos transportados para um domínio que supera a nossa natureza, mas que não pode fazer-nos esquecer que somos imperfeitos. Lembrando-nos de Dante e da sua viagem com Virgílio, percebemos que a vida tem inúmeras cambiantes, contraditórias, enigmáticas, sempre difíceis. Não é o facto de podermos usufruir do que há de mais sublime que muda a nossa natureza. E não é essa limitação que nos pode fazer negar a importância da dimensão artística – para compreendermos a relação entre a razão e a emoção e para entendermos que nunca sabemos o suficiente para ser intolerantes. 

 

A cultura é um talento cheio de ambiguidades, e se Tolstoi não foi capaz de nos libertar da imperfeição, pelo menos, foi quem nos abriu os olhos para a força emancipadora das diferenças e das convergências… Caldéron de la Barca disse-nos que a «vida é sonho», mas não nos apresentou uma fuga à realidade, sim uma procura da realidade humana, do mesmo modo que Platão nos fala da alegoria da caverna… Perante os gigantes devemos ficar calados – mas temos de preservar a liberdade e o sentido crítico. Assim, George Steiner procura assegurar que não haja uma humanização da mentira. E chega, desse modo, à cultura científica, não numa lógica positivista ou naturalista, mas como a procura da capacidade criadora – que faz com que se encontrem o artista e o investigador científico, o novelista e quem descobre um novo tratamento para uma doença até então incurável… E o pensador diz-nos que a cultura científica tende a não conhecer a hipocrisia e a não fazer bluff. Quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Nas ciências sociais talvez seja mais fácil fazer batota… É certo que as coisas não são tão simples assim. Mas do que se trata é de nos aproximarmos de Humanidades que se tornem humanas e humanizadoras… Mais poderosas que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. E este funciona através da linguagem. Como poderemos proteger-nos? Por vezes vivemos como se a memória fosse retrospetiva. Tratar-se-ia de considerar o mundo como um grande museu. Uma das razões para o otimismo de Steiner tem a ver com o facto de a ciência se ocupar do futuro. Mas não basta ver o mundo através desses contrastes. O Admirável Mundo Novo de Huxley reserva-nos muitas perplexidades e desenha um futuro inquietante. 

 

As Humanidades têm, assim, de colocar as pessoas no centro da vida e do mundo – sem a tentação de repetir o que recebemos nem de considerar o novo como um absoluto. Mas surge a pergunta perturbadora: sobreviveremos como civilização? O pensador não está certo de qual a resposta. O nacionalismo é um poderoso veneno do nosso tempo. O chauvinismo torna o outro e o diferente como inimigos. Despreza as pessoas com nacionalidade diferente. A absolutização da identidade torna-se um fator de fechamento. Uma civilização autista tende a decair e a desaparecer por incapacidade de responder aos novos desafios, limitando-se a repetir tiques exteriores. O que nos caracteriza e nos distingue uns dos outros deve ser considerado como elemento de enriquecimento mútuo – não como de separação, de indiferença ou de ignorância. Os fundamentalismos e os protecionismos têm a mesma raiz. Hoje o tema dos refugiados não pode, pois, ser visto de modo simplista, como se correspondesse apenas a uma ordem de razões. Impõe-se articular a compreensão do outro, considerar a mobilidade das populações nos dias de hoje como algo de natural e tantas vezes necessário – bem como a cooperação para o desenvolvimento realizada nos países de origem… Os que se limitam a pensar na questão da segurança, bem como os que se atêm exclusivamente ao acolhimento de refugiados como tema humanitário estão equivocados – uma vez que há que equacionar a complexidade de temas, entendendo-se não só a resposta ao agravamento das desigualdades e à ocorrência dos fenómenos de exclusão, mas também a motivação social e humana e a emancipação cultural. A diversidade linguística e a comparação das diferentes literaturas colocam-nos no cerne da cultura como criação – e George Steiner permite-nos compreender a complexidade de fatores humanos que devemos considerar. E porventura estaremos hoje a atravessar um período muito semelhante ao que ocorreu no Renascimento. Daí a multiplicidade de pistas abertas e a necessidade de um diálogo entre saberes. O livro é ainda hoje uma referência para o pensador, mas ele próprio compreende que a criatividade e a resposta humana aos diferentes desafios vão depender de diferentes caminhos, a que a humanidade tenderá a responder de um modo múltiplo…    

 

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de novembro de 2018.

 

Os seis ensaios que constituem a obra «As Artes do Sentido» de George Steiner (Relógio d’Água, 2017) põem-nos perante o tema do confronto e da ligação ente Humanidades e as Ciências, o que constitui questão crucial quando se fala da noção ampla de património cultural que comemoramos este ano de 2018.

 

 

MAIS DO QUE UM ACERVO DO PASSADO
O Ano Europeu do Património Cultural não celebra apenas um acervo europeu, uma identidade europeia ou um passado exclusivo. Falar de Património Cultural é falar de uma noção comum, universal, capaz de unir a humanidade e de criar condições para uma verdadeira cultura de paz, que a UNESCO tem proclamado. Estamos no centro do culto saudável das Humanidades. Este Ano Europeu situa-se na linha do que defende a Convenção de Faro, sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (2005). Não se está a tratar de uma identidade europeia, fechada sobre si mesma, sucedâneo de identidades nacionais. O undamental é a referência ao Património Cultural, como realidade dinâmica e humanista. Recorde-se o que diz a Convenção de Faro: «O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo» (artigo 2º, alínea a). E não esquecemos entre os objetivos deste instrumento do Conselho da Europa: “a preservação do património cultural e a sua utilização sustentável”, tendo por objetivo “o desenvolvimento humano e a qualidade de vida” (artigo 1º, alínea c), bem como a adoção das “medidas necessárias à aplicação do disposto na presente Convenção, no que se refere ao papel do património cultural na edificação de uma sociedade pacífica e democrática, bem como no processo de desenvolvimento sustentável e de promoção da diversidade cultural” (alínea d). É a prioridade à Cultura que está em causa, compreendendo-se esta ligada à Educação e à Ciência. Falamos do mundo da vida, das raízes, das aspirações, das atitudes e dos valores – do que recebemos e do que legamos. Eis por que razão quando Palmira foi destruída parcialmente na guerra da Síria, quando o diretor do centro arqueológico foi assassinado, ou quando qualquer parcela da humanidade e da sua cultura são atingidos é do património cultural no seu todo que está em causa. Não são os produtos do passado que devem ser repetidos – importa, sim, que o passado constitua uma base para compreender melhor o presente e para lançar as bases do futuro. E não esquecemos a lição de John Dewey quando falava da educação e da escola como realidades que pressupunham um “processo vivo”, um enriquecimento permanente pela experiência, uma sociedade aberta à inovação e à diversidade, uma democracia cooperativa. Neste sentido o cuidado do património cultural tem de ter um lugar especial na educação e na escola, na informação e na troca de saberes.

 

IDENTIDADE E PATRIMÓNIO
Longe da tentação de ver o património cultural como uma marca exclusiva ou própria de uma comunidade só, temos de estar conscientes de que as identidades e o património cultural só se enriquecem abrindo-se à diferença e à alteridade. Só assim poderemos enriquecer o que é próprio, dando-lhe dimensão humanista e universalista, em lugar da tentação uniformizadora e indiferente ou de simplificações folclóricas e de uma cultura de bricabraque. Nesse sentido, neste Ano Europeu, propus logo de início, e foi aceite, o reconhecimento da necessidade de dar às escolas, às comunidades educativas e às famílias um papel especial – de modo a lançar sementes para o futuro e como exigência de não deixar o património cultural ao abandono, compreendendo-se simultaneamente que um monumento e uma tradição que estão próximos, têm de fazer lembrar as referências culturais e patrimoniais que estão mais distantes. Por isso, os concursos que lançámos nas escolas tiveram sempre presente a escolha de um elemento próximo e de um outro exemplo europeu – de modo a entender que há uma dimensão de abertura à diversidade que não pode estar ausente, e que torna mais valiosa e aberta a nossa identidade, como fator de troca, de respeito e de enriquecimento mútuo. O património cultural tem múltiplas componentes: monumentos, museus, edifícios históricos, arquivos, referências artísticas e arqueológicas – o património material -, tradições, costumes, línguas e dialetos, romanceiros, artesanato, música e danças, relações interculturais – o património imaterial -, mas ainda o património natural, o meio ambiente, as paisagens, o património digital, e a criação contemporânea… esta enumeração abre inúmeras pistas que nos obrigam a uma especial atenção relativamente à criatividade humana.

 

ENTENDER A COMPLEXIDADE
Como tem ensinado Edgar Morin, importa compreender que a complexidade tem de ser entendida como chave do saber. Impõe-se que a informação de que dispomos se transforme em conhecimento e que o conhecimento se torne sabedoria. E que é a evolução das sociedades humanas senão uma sucessão de metamorfoses como as ciências naturais nos ensinam? Não é possível entender a importância das Humanidades sem ligar as culturas literária e científica, as artes e a matemática (como no-lo ensinou Almada Negreiros) – Sophia de Mello Breyner alertou-nos, deste modo, para que ler uma pauta de música ou distinguir um alexandrino ou uma redondilha obrigava a cuidar da numeracia. E se nos preocupamos com a relação com a natureza, temos de considerar a Ecologia, os recursos naturais em risco, as emissões poluidoras, o aquecimento global, do mesmo modo que os códigos genéticos, a ética suscitada pelo progresso científico e tecnológico como exigentes desafios para a Humanidade. E, se se fala da 4ª revolução industrial, temos de lembrar não apenas a microinformática ou as tecnologias de informação, mas também as novas fontes de energia e os progressos no domínio da saúde, como a imunologia e a evolução celular… O património cultural envolve, assim, um mundo fascinante, mas incerto e complexo. A cultura não é um luxo nem uma realidade supérflua, não é o último capítulo de um programa político, nem a cereja no cimo de um bolo – é uma prioridade absoluta e um tema transversal, que envolve a aprendizagem como fator decisivo do desenvolvimento humano, que reclama o espírito científico. A razão e os sentimentos estão intimamente associados, como nos ensina António Damásio, numa tradição antiga que encontramos desde os pré-socráticos até Montaigne ou Leibniz e à modernidade. A arte e a ciência reclamam o espírito criador e a necessidade de compreender como são incindíveis a continuidade e a inovação. A crise financeira que ainda sofremos desvalorizou a capacidade criadora e limitou-se à ilusão das economias de casino. A valorização do património cultural abre veredas atentas á dignidade humana. É a democracia que está em causa. Precisamos de instituições mediadoras nas quais os cidadãos estejam e se sintam representados, e em que participem. O património cultural liga-nos às gerações que nos antecederam e tornam-nos responsáveis pelo valor que formos capazes de criar, melhorando o que legarmos a quem nos vai suceder…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

16. STEINER, A CIÊNCIA E AS HUMANIDADES

 

 

“Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam”.

 

“As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas “ciências sociais” fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada”.

 

“E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio”.

 

“Quando ouço os cientistas, sinto alegria. Estão a passar um bom bocado” (excertos da entrevista de Steiner ao semanário Expresso, de 03.06.17).

 

Ao elogiar a ciência e vaticinar a queda e ambiguidade das humanidades, George Steiner (GS) tem uma visão idealizada e exaltante da ciência, contrária ao pessimismo que tem pelas humanidades.   

 

Sendo um pensador, crítico literário, escritor, filósofo e um dos expoentes máximos da grande cultura europeia, é um homem especialista das humanidades.

 

Porquê, então, este desencanto com as humanidades? 

 

Uma das razões é não terem evitado barbáries e crimes contra a humanidade como o holocausto, o antissemitismo estar de novo a aumentar por toda a parte, com os judeus em perigo iminente, num fenómeno sem fim à vista, não se tendo aprendido absolutamente nada com a História.

 

De origem judia, sente-se perplexo pela sua sobrevivência, “é um milagre ter sobrevivido”, o que significa ter ao longo da vida a obrigação ética de não esquecer os que não sobreviveram. 

 

Idealiza, em alternativa, como refúgio, compensação e redenção, uma ciência idealista e verdadeira, desconhecedora da falsidade, do fingimento, da simulação e manipulação linguística das mentiras do totalitarismo linguístico. 

 

Que ciência é esta? Ela existe? Existe uma ciência verdadeira que não conhece a hipocrisia, nem faz bluff?

 

É um dado adquirido que na ciência também há mentira, dissimulação, falsidade, erros e hipocrisia. 

 

E há a interpretação, propaganda e manipulação dos resultados, consoante é feita por A, B, X ou Y.       

 

Que dizer da bomba atómica e da inovação nuclear, a propósito de um lado negro, ou reino das trevas, das ciências, que desumanizam, e não humanizam? 

 

O génio e talento de alguém na ciência não o torna uma boa pessoa.

 

O génio e talento de alguém nas artes e humanidades em geral não o torna uma boa pessoa.     

 

O ser-se um guru da ciência ou das humanidades não faz, quem quer que seja, uma boa pessoa.   

 

Nem as humanidades, nem a arte, nem a ciência é a pessoa. Estão acima do autor. Libertam-se da pessoa, do criador.   

 

Steiner, depois de dizer, perplexo:   

 

“Há um momento muito importante nos diálogos de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3.º ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus”.   

 

Dá a resposta, questionando-se: “O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados”

 

Uma obra cultural ou científica vale por si, independentemente das opções políticas, científicas, filosóficas, religiosas ou sociais do seu autor. 

 

A ciência e as humanidades não são invenção recente, sempre existiram, no seu melhor e pior, em curiosidade e interligação autónoma e recíproca, havendo que saber distinguir entre a obra em si ou ao serviço de qualquer coisa, entre a obra “pura” e a pessoa ou a vontade do seu criador.

 

De maior desencanto seria viver num mundo em que não houvesse lugar para as questões colocadas pelas ciências sociais e humanidades em geral, e tão só, ou quase em exclusivo, para a descoberta e progresso científico que GS tem como ciência verdadeira, que também peca por défice, numa idealização excessiva e sacralizada, a nosso ver.        

 

18.09.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

 

De 5 a 11 de junho de 2017

 

«Linguagem e Silêncio – Ensaios sobre a Literatura, a Linguagem e o inumano» de George Steiner (Gradiva, 2014) é uma interrogação atualíssima sobre as humanidades e a comunicação nos dias de hoje.

 

 

QUE HUMANIDADES?
O que são hoje as Humanidades? Será que compreendemos plenamente o papel atual das chamadas humanidades quando o progresso científico e tecnológico segue caminhos inesperados e imprevisíveis? Basta lermos os grandes humanistas ao longo da história para percebermos que não podemos fechar-nos dentro de fronteiras rígidas, como se nos devêssemos ater apenas ao formalismo de algumas categorias tradicionais. Quando Dostoievski, em «O Idiota», põe na boca de Hipólito a pergunta ao Príncipe Michkine se haverá uma beleza que salve o mundo, não há uma resposta, apenas silêncio. É desse silêncio que Steiner, na prática, se ocupa – uma vez que não podemos descurar a emoção, a arte, a criatividade, a graça, a emoção e o espírito, mas temos de ligar-lhes o cuidado e a atenção. E se é verdade que há muito barulho à nossa volta, o certo é que temos de saber ver e ouvir, de modo que a indiferença e a idolatria não ocupem o espaço do sentido e da dignidade do ser. Eis por que razão devemos valorizar o silêncio, que permita ouvirmo-nos uns aos outros, e distinguir o que tem valor. Steiner costuma lembrar que por trás da casa de Goethe há um campo de concentração e que grandes atrocidades foram cometidas por quem dizia amar a arte. Eis por que não basta invocar as humanidades, é fundamental torna-las humanas. «Toda a minha vida (diz Steiner) me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam. (…) Passo o dia todo com os meus alunos a ler o «King Lear» e, ao voltar para casa, estou tão possuído interiormente por esse texto que não ouço os gritos de alguém na rua. Algyuém grita por ajuda e eu não ouçio. Sempre me intrigou até que ponto a ficção – e ficção é a palavra-chave – pode ser mais poderosa do que a realidade. Passei a vida a ensinar as pessoas a ler e a amar o que leem. Mas questiono-me a mim próprio sobre o perigo imenso de nos identificarmos com a ficção». De que falamos quando tratamos da literatura? Em bom rigor é da própria vida. O mesmo se diga das diversas artes – quando ouvimos Vivaldi, Bach, Mozart, Beethoven ou Mahler somos transportados para um domínio que supera a nossa natureza, mas que não pode fazer-nos esquecer que somos imperfeitos. Lembrando-nos de Dante e da sua viagem com Virgílio, percebemos que a vida tem inúmeras cambiantes, contraditórias, enigmáticas, sempre difíceis. Não é o facto de podermos usufruir do que há de mais sublime que muda a nossa natureza. E não é essa limitação que nos pode fazer negar a importância da dimensão artística – para compreendermos a relação entre a razão e a emoção e para entendermos que nunca sabemos o suficiente para ser intolerantes.

 

UMA CULTURA DE EMANCIPAÇÃO
A cultura é um talento cheio de ambiguidades, e se Tolstoi não foi capaz de nos libertar da imperfeição, pelo menos, foi quem nos abriu os olhos para a força emancipadora das diferenças e das convergências… Caldéron de la Barca disse-nos que a «vida é sonho», mas não nos apresentou uma fuga à realidade, sim uma procura da realidade humana, do mesmo modo que Platão nos fala da alegoria da caverna… Perante os gigantes devemos ficar calados – mas temos de preservar a liberdade e o sentido crítico. Assim, George Steiner procura assegurar que não haja uma humanização da mentira. E chega, desse modo, à cultura científica, não numa lógica positivista ou naturalista, mas como a procura da capacidade criadora – que faz com que se encontrem o artista e o investigador científico, o novelista e quem descobre um novo tratamento para uma doença até então incurável… E o pensador diz-nos que a cultura científica tende a não conhecer a hipocrisia e a não fazer bluff. Quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Nas ciências sociais talvez seja mais fácil fazer batota… É certo que as coisas não são tão simples assim. Mas do que se trata é de nos aproximarmos de Humanidades que se tornem humanas e humanizadoras… Mais poderosas que qualquer exército são as mentiras do totalitarismo. E este funciona através da linguagem. Como poderemos proteger-nos? Por vezes vivemos como se a memória fosse retrospetiva. Tratar-se-ia de considerar o mundo como um grande museu. Uma das razões para o otimismo de Steiner tem a ver com o facto de a ciência se ocupar do futuro. Mas não basta ver o mundo através desses contrastes. O Admirável Mundo Novo de Huxley reserva-nos muitas perplexidades e desenha um futuro inquietante.

 

COLOCAR AS PESSOAS NO CENTRO DA REFLEXÃO
As Humanidades têm, assim, de colocar as pessoas no centro da vida e do mundo – sem a tentação de repetir o que recebemos nem de considerar o novo como um absoluto.  Mas surge a pergunta perturbadora: sobreviveremos como civilização? O pensador não está certo de qual a resposta. O nacionalismo é um poderoso veneno do nosso tempo. O chauvinismo torna o outro e o diferente como inimigos. Despreza as pessoas com nacionalidade diferente. A absolutização da identidade torna-se um fator de fechamento. Uma civilização autista tende a decair e a desaparecer por incapacidade de responder aos novos desafios, limitando-se a repetir tiques exteriores. O que nos caracteriza e nos distingue uns dos outros deve ser considerado como elemento de enriquecimento mútuo – não como de separação, de indiferença ou de ignorância. Os fundamentalismos e os protecionismos têm a mesma raiz. Hoje o tema dos refugiados não pode, pois, ser visto de modo simplista, como se correspondesse apenas a uma ordem de razões. Impõe-se articular a compreensão do outro, considerar a mobilidade das populações nos dias de hoje como algo de natural e tantas vezes necessário – bem como a cooperação para o desenvolvimento realizada nos países de origem… Os que se limitam a pensar na questão da segurança, bem como os que se atêm exclusivamente ao acolhimento de refugiados como tema humanitário estão equivocados – uma vez que há que equacionar a complexidade de temas, entendendo-se não só a resposta ao agravamento das desigualdades e à ocorrência dos fenómenos de exclusão, mas também a motivação social e humana e a emancipação cultural. A diversidade linguística e a comparação das diferentes literaturas colocam-nos no cerne da cultura como criação – e George Steiner permite-nos compreender a complexidade de fatores humanos que devemos considerar. E porventura estaremos hoje a atravessar um período muito semelhante ao que ocorreu no Renascimento. Daí a multiplicidade de pistas abertas e a necessidade de um diálogo entre saberes. O livro é ainda hoje uma referência para o pensador, mas ele próprio compreende que a criatividade e a resposta humana aos diferentes desafios vão depender de diferentes caminhos, a que a humanidade tenderá a responder de um modo múltiplo… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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