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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   Nunca entendi bem como funciona esta minha teimosia em procurar salvar-me de sentidos pensamentos que me afligem, partindo em busca das respetivas raízes, ou do solo em que medram. Como se o antídoto de qualquer mal fosse ir ao seu encontro, ao fundo do seu porquê. Mas tampouco é vício masoquista, quem como tu me conhece bem sabe que je suis plutôt bon vivant ou, como tantas vezes me disse, rindo muito, a nossa tia Bertha Eugenia: Camilo, tu es un jouisseur! Vejo-a agora, quase trinta anos depois, a vir comigo a uns five o´clock tea, no Plaza, em Manhattan, ao som de violinos que ressuscitavam música vienense que lhe encantara a mocidade. Viera visitar-nos, ao nosso posto estadunidense, airosa e contente, elegante e esperta, flor de oitenta e dois anos, viajando, viúva sozinha, desde Bruxelas. Viria a morrer dez anos mais tarde, aos noventa e dois, em Gerardsbergen, onde ainda a visitei muitas vezes, quando fazia escala em Bruxelas em viagens do Japão a Portugal. Apesar do ou por causa do seu fervoroso catolicismo, aquela Senhora tinha, como sua irmã mais velha, minha Mãe, uma alegria contagiosa e um otimismo que inspirava confiança... era de boa companhia.


   Voltando às minhas interrogações, aquela citação final da Hannah Arendt na minha carta anterior (Sempre acreditei que somos o que vivemos) foi-me soprada pela leitura de um livro que te recomendo: Trois femmes dans de sombres temps (Edith Stein, Hannah Arendt, Simone Weil), três filósofas judias, duas alemãs e uma francesa de origem alsaciana, meditadas por outra filósofa (francesa), Sylvie Courtine-Denamy, na Bibliothèque de l´Évolution de l´Humanité (Albin Michel, Paris, 1997). Logo no prólogo, a autora, além da citada frase da carta de Arendt a Mary McCarthy, lembra-nos que a designação "os tempos sombrios" (1933-1943) se deve a Bertold Brecht, num poema onde, dirigindo-se «aos que nascerão depois de nós», lhes implorava indulgência para com esta geração que não tinha sabido «preparar o terreno para um mundo de amizade». Têm-me surgido, como fantasmas, tentações de referência, de factos e acontecimentos hodiernos, a situações de tensão, afrontamentos e reviravoltas, daqueles tempos, nesses anos em que a confusão dos espíritos foi levando a melhor sobre o amor do próximo... Desde a Guerra de Espanha, em que até padres católicos se odiaram uns aos outros, até à França de Vichy que, vencida pelo invasor nazi, se defendia dizendo "Hitler plutôt que le Front Populaire!", ou do pacto germano-soviético à conferência de Yalta... Traduzo um trecho de Les Grands Cimetières sous la lune, de Georges Bernanos:

 

   Parece-vos natural que Deus não tenha abençoado a sageza do mundo, a tal que confere honras, fortuna, riquezas. Esqueceis que, no decurso dos séculos, os homens consideraram a conquista desses bens, fosse pela força, pela injustiça ou pela manha, como legítima, sendo a posse assim obtida um favor do Altíssimo. A maioria dos grandes reis de Israel, a começar por Salomão, tinham do poder uma ideia comparável à que presentemente tem o Dr. Rosenberg. Será, aliás, precisamente por isso que os povos totalitários eliminarão fatalmente os seus judeus, já que cada um deles acredita que é eleito, e não há, no mundo, lugar para dois povos eleitos. Um facto, um simples facto, deveria abrir-vos os olhos: o sacrifício do fraco, do inocente, por muito tempo foi tido como o mais agradável a Deus. Por toda a parte, em qualquer idade, por milhares de séculos, a ideia de oração, de graça, de purificação, de perdão, esteve ligada à imagem repugnante de animais degolados por padres fumegando sangue lustral...

 

   [O Dr. Alfredo Rosenberg (1893-1946), autor de O Mito do século XX, foi um dos principais teorizadores do nazismo, ficando ainda famoso por ter organizado, durante a 2ª Grande Guerra, o saque de museus, bibliotecas e coleções privadas nos países ocupados. Mas talvez tenha escrito a sua mais negra folha de serviços enquanto Ministro dos Territórios de Leste, em 1941, ordenando execuções e deportações em massa, com o fito de germanizar a Ucrânia. Aprisionado em 1945, foi julgado em Nuremberga e executado em 1946.] 

 

   Seguindo o fio duma meada que, desde há algum tempo, trago na cabeça (terei começado pelo conceito de Tianxiá, e talvez lá regresse), retomo reflexões de Trois femmes dans de sombres temps, em que a autora vai analisando pensamentos de Hannah Arendt : Do carácter decididamente planetário e sem precedentes dos acontecimentos contemporâneos, Étienne Gilson [que foi meu professor], no seu Les Métamorphoses de la Cité de Dieu [Lovaina, 1952], conclui pelo necessário estabelecimento duma «sociedade universal», o que pressupõe a adesão de todas as nações a um princípio que a todas transcenderia. Não estaremos, assim, pergunta Hannah Arendt, a condenar-nos à alternativa do domínio global do totalitarismo ou à sociedade universal promovida pelo cristianismo? Em ambos os casos se ameaça a liberdade política, que só é possível no exercício de uma pluralidade de «princípios de vida e de pensamento» [Cahiers de Philosophie]. Não estaremos confrontados com a hipótese que ela encara em O que é a política? para demonstrar a perda irreparável de mundo que uma guerra total determinaria : «Se tivesse de acontecer que, na sequência de uma enorme catástrofe, só um povo sobrevivesse no mundo, e se tivesse de acontecer que todos os seus membros percebessem e compreendessem o mundo a partir duma única perspetiva, vivendo em consenso pleno, o mundo, no sentido histórico-político, caminharia para a sua perda, e esses homens privados de mundo, e que seriam os únicos sobreviventes sobre a terra , não teriam mais afinidades connosco do que essas tribos privadas de mundo e de relações que a humanidade europeia encontrou quando descobriu novos continentes, e que foram reconquistadas pelo mundo dos homens ou exterminadas sem que se desse conta de que pertenciam igualmente à humanidade».

 

   Certo é que, em tempo de invasiva globalização (pensei esta expressão e dou-me bem com ela), ninguém escapa à interrogação do destino do mundo, caminho de todos e de cada um, e acerca de se isso poderá ter governo e como. Esse epifenómeno da egocultura americana, vulgarmente chamada "american dream", que dá pelo nome de Donald Trump, poderá julgar que a grandeza dos EUA, como potência superior, quiçá hegemónica, será a chave do fado e da ordem mundial. Mas, não só a confusão das gentes que compõem o seu eleitorado, e cujo único denominador comum é uma pungente debilidade das respetivas visões do mundo, é incapaz de ultrapassar critérios sectários desfasados do tempo hodierno, como tampouco saberá produzir um discurso compreensível, racional e sentidamente aceitável pelos restantes cidadãos estadunidenses e outras muitas e variegadas gentes. E não será assim tão só em resultado de pouca instrução e fraca cultura do espírito, nem apenas pela exposição quotidiana de mentes sem educação do espírito crítico às ilusões mediáticas de notícias ou anúncios falsos, sejam esses de motivação política, publicitária ou outra. Pois também a falta de mais propostas livres e promotoras de consciência humanista é fruto do "quero, posso e mando" dos grandes interesses político-económicos, da omnipresença quase omnipotente do seu "marketing" nas orientações dos comportamentos dos indivíduos. Mesmo aqueles que se tomam por independentes, modernos, informados e cultos, são certamente enformados nas suas opções de dietas, passeios, leituras e lazeres, para já não entrarmos por questões políticas e outras de fora da sua vida estritamente privada. Basta falar com qualquer quarentão ou cinquentão (a média idade nas sociedades de "afluência"), para encontrar gente bem convencida de si e suas artes, mas que, afinal, tal como logo recorre à informação imediatamente disponível no computador ou no iphone, também não tem tempo nem esforço para refletir e exercitar espírito crítico. Menos ainda para sequer entender a força humanizante da contemplação. Seja de que lado estiverem quanto ao aquecimento global, às fontes de energia ou à alimentação sadia. Uns e outros vão beber às respetivas fontes, ou seja, ali onde se acham intelectualmente corretos. Eça de Queiroz dizia que a cultura, em Portugal, se importava de França, pelo paquete. No mercado contemporâneo, além do pronto a vestir e do take away, compra-se, na tv ou na net, o pronto a pensar, a opinar, a ter razão, a nos orientarmos pelo melhor, desde a ideia política ao passeio de domingo... mas o individualista sentimento de si é tão marcante que cada qual vê o mundo e os outros a girar à sua volta - por vezes quase como automobilista a identificar-se com a potência do seu carro - e se perde íntima comunhão com o mistério ontológico de tudo, essa oração essencial, tal como, infelizmente, se vai fugindo dessoutra força centrípeta que é a solidariedade humana.  

 

   Voltando atrás, Princesa de mim, reencontro essa ideia de povo eleito ou, mais simples e assustadoramente (evocando o conceito "arendtiano" de banalidade do mal), esse sentimento de superioridade atribuível à raça, à religião, à linhagem, à instrução, etc... Quem assim se reclama de direitos especiais, incluindo o de governar os outros, até se esquece dessa profecia de Pablo Neruda (cito de cor, a ideia está certa, a fórmula, creio, próxima) de que "podemos ser livres nas escolhas, mas seremos sempre escravos das consequências delas"... Mas, pergunto, não estaremos nós a enveredar, cada vez mais, pela senda da liberdade condicionada? [ou, desde já, da robotização?]

 

   Aliás, esse dito do Neruda (que, mais do que comunista, foi poeta), também qualquer filósofo o poderá relembrar ao debater a crise atual da democracia nas sociedades em regime liberal-capitalista. Na verdade, a justíssima opção da livre concorrência como garantia da igualdade das oportunidades, da melhoria da qualidade dos bens e dos serviços, da distribuição da riqueza criada por critérios de justiça e mérito, acabou por ser geradora da sua própria Némesis : o esquecimento ou laxismo da responsabilidade política de devidamente assegurar as condições necessárias a uma economia humanista (quem se lembra ainda do movimento Économie et Humanisme do padre Lebret, dominicano francês, que em Portugal só teve algum acolhimento pela geração hoje conhecida como "os vencidos do catolicismo", na roda da Moraes Editores do António Alçada Baptista?). Para resguardarmos a nossa humanidade, não será necessário aprendermos a limitar os excessos de acumulação, anonimização e intervenção política e social do capital (designadamente nos meios de informação) , tal como a submeter a promoção e publicidade das ofertas de bens, serviços e lucros financeiros a critérios de transparência e de responsabilização ativa, célere e rigorosíssima dos infratores? Infelizmente, desembocamos em praças onde inconfidências e desastres podem trazer a público enganos magoados e fados mais tristes de famílias espoliadas pela ganância de "empresários" e "financeiros", estes mesmos continuando a safar-se. Mais e pior: sem pejo, por aí continuam a acenar com ilusões.   

 

   Quanto ao concerto das nações, nesta etapa da globalização, também vai espreitando, em busca da recuperação do sonho russo (tzarista e soviético) de ser primeiro entre os seus pares, Vladimir Putin. Aposta, como o colega Trump, no reforço de um poderio financeiro assente em empreendimentos só viáveis pela acumulação de capital, pela concentração de poucos comandantes dos demais agentes económicos. E, externamente, vai fazendo apostas... Muitas vezes me mói o toutiço a questão de como Hannah Arendt tão bem percebeu a essência totalitária partilhada pelo nazismo e pelo estalinismo - que tanto escândalo bem pensante provocou - sem que outros tivessem depois entendido como, mutatis mutandis, o sonho capitalista americano e o economicismo estatal soviético, no campo do exercício político, respondiam à mesma  vontade de poder... hoje tão aproveitada pela nova velha China que, não só mas também, por via de um prosseguido vanguardismo tecnológico, se vai aproximando da meta de maior potência económica e financeira. É assim compreensível a reserva de muitos analistas políticos e filósofos relativamente à reactualização do conceito de Tianxiá: harmonia de todos os que estão debaixo do mesmo Céu, ou - além disso, mas também, parafraseando Orwell e evocando a antiga designação de Celeste Império - sendo uns mais celestes do que os outros?

 

   Pois, na verdade, tal como o sonho americano desenhou o direito universal ao enriquecimento dos indivíduos, também a dado passo acordou para a necessidade (como fator e como fatalidade) de assegurar externamente as condições políticas e militares da sua prepotência económica. Os poderosos regimes ditos comunistas, inversamente, concluíram que um possível proeminente lugar no mundo não poderia ser-lhes garantido apenas por forças armadas, repressão de povos, controlo das vidas, desde a natalidade até ao usufruto de bens e ao livre exercício do pensarsentir. Pareceu-lhes, assim, imprescindível a criação de músculo económico e financeiro e a procura de novos modos de imposição do poder estatal, incluindo as formas mais subtis, por via, privilegiadamente, da informática... estaremos todos destinados a ser robôs? 

 

   Se releres passadas cartas minhas, Princesa, perceberás porque me comoveu profundamente a notícia de recentes reencontros de membros sulistas e nortenhos de famílias coreanas, e me valeu o recolhimento de umas horas a da morte do israelita Uri Avnery, num hospital de Telavive, aos 94 anos. Quando só contava 10 de vida, refugiara-se na Palestina sob administração britânica, acompanhando seus pais, escapando à perseguição nazi. Era então alemão, chamava-se Helmut Ostermann, e aos 15 já era membro do movimento sionista Irgun, que mais tarde abandonaria, para se tornar num defensor intransigente da paz, do reconhecimento de dois estados palestinos (um dos quais judeu). Até hoje, lutou sempre contra a ocupação ilegítima de territórios por Israel e, pouco antes de morrer, ainda se pronunciava contra a lei que quer impor o conceito de Israel como pátria histórica do povo judeu.

 

   E, neste último domingo de agosto, é de coração sentido que dizemos a Deus a John McCain, herói de guerra, ferido e feito prisioneiro no Vietnam, político humanista, defensor da dignidade humana, que não se cansava de lembrar que, apesar das torturas sofridas, a guerra lhe tinha ensinado a amar e procurar a paz... Serão pois bem sinceras as condolências do seu guarda de cárcere vietnamita, ao dizer hoje como chora a sua morte.

 

   A dedicação de tanta outra gente a causas e serviços de solidariedade humana, a causas de justiça e de paz, de proteção e exaltação da natureza e da vida, de recuperação de doentes, de superação de desvantagens físicas ou mentais, de reinserção social e consciencialização da sua própria dignidade humana de presos e marginalizados, é o espelho maior em que a nossa humanidade se deveria rever... Então, porque será que, a toda a hora e momento, nos envolvem em notícias torpes, acusações e ataques ad hominem, ou ilusões de luxo e de luxúria?

 

   Talvez se ganhe mais esperança em comungar no batimento incessante do coração de gente sempre viva. Sobretudo se, nos sinais dos tempos, além de maus agouros, soubermos encontrar, e amar mais, sinais das promessas de Deus.

 

   Camilo Maria

   

Camilo Martins de Oliveira

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXII - GLOBALIZAÇÃO E PODER LINGUÍSTICO

 

Os avanços técnico-científicos permitiram uma globalização de vizinhança do mundo que nos rodeia. 

 

Em alinhamento com a globalização económica, é promovido o uso do idioma dominante nas empresas multinacionais que controlam a produção, operando em vários países, através da língua da casa mãe. Como no atual quadro económico há uma elevada probabilidade de essa sede ser num país anglófono, a língua da empresa é a dos países onde está a criatividade, a inovação e o dinheiro. É a língua do poder, de comunicação global e internacional por excelência.   

 

Essa hegemonia, nos tempos atuais, cabe à língua inglesa, tida como impositiva em termos económicos, políticos e culturais. Para os seus opositores tem como maior ameaça a sua caraterística “glotofágica”, ou seja, a sua capacidade para, ao mesmo tempo que se substitui às outras, provocar o seu enfraquecimento ou desaparecimento. Comparam-na a uma “erva daninha” que impede o desenvolvimento das outras, modificando de forma dramática o equilíbrio ecológico no que às línguas diz respeito.

 

Esse perigo aumenta quando o inglês encontra terreno particularmente favorável e permissivo para a sua implantação, em especial em países mais permeáveis, com uma fraca imagem de autoestima e de si próprios em termos económicos, políticos e culturais, onde o que é estrangeiro é que bom, sinal de desenvolvimento e prestígio. Onde se prima pela ausência de legislação que obrigue ao uso do idioma materno na etiquetagem e instruções dos bens importados, ou até, havendo legislação, esta não é aplicada, cumprida ou fiscalizada, não passando de meras exigências politicamente corretas.

 

Cimentou-se, simultaneamente, nas gerações mais jovens, a conceção de uma relação de sinonímia entre o que é moderno e vanguardista e a língua inglesa. 

 

Com reflexos no nosso país e idioma.

 

Exemplificando, tempos houve, entre nós, em que havia um maior gosto cinéfilo no uso da língua portuguesa.

 

Por exemplo, em 1977, aquando do início da saga da “Guerra das Estrelas”, de George Lukas. Hoje, em 2017, o último filme foi anunciado como “Star Wars”. Com a ausência de tradução, para português, de títulos de filmes e séries televisas como: “Mad Men”, “The Walking Dead”, “Newsroom”, “The Good Wife”, “Breacking Bad”, “The House of Cards”, “The Knick” e “True Detective”.

 

Esta omissão, pura e simples, da língua portuguesa, gradualmente extensiva a vários níveis, fere o nosso idioma como língua materna, comum, oficial, costumeira, de exportação e constitucionalmente consagrada, discriminando-a, pela negativa, no seu próprio berço e território materno.

 

Compreende-se e são aceitáveis nomes, expressões e frases em inglês, como língua global e veicular contemporânea mais internacionalizada, mas é incompreensível, inaceitável e inconstitucional que o nosso idioma, na nossa própria casa, seja simplesmente omitido, quando deve e deveria constar, obrigatoriamente, e em primeiro lugar, por óbvias razões e do mais elementar bom senso.

 

Mesmo que se tenha por objetivo, por exemplo, o reconhecimento a nível internacional de uma instituição de natureza científica, devido à certificação e prestígio internacional que o inglês aufere, tal omissão é injustificada, sendo certo que se não somos nós, portugueses e lusófonos, a defender a nossa língua, por certo, e por maioria de razão, não serão os outros a fazê-lo. Nada impede, justificando-se, que em conjunto com o nosso idioma, coexistam outros, mas nunca omitindo a nossa língua como língua materna e oficial, por costume e legalmente consagrada.

 

27.03.2018

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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     Minha Princesa de mim:

 

Alertas-me para um prolongado silêncio meu, como se as minhas cartas falassem e eu te faltasse com a minha conversa fiel. Esqueces que, neste voluntário retiro, além dos milhares de livros que vou arrumando ou dispondo - em benefício, espero, de quem os possa apreciar - cozinho os petiscos quotidianos... Primum manducare, deinde philosophare, diriam os antigos, e eu, pobrecito, nem à filosofia chego, só procuro tratar de mim... Também recolho, escolho e dou abrigo mais seguro a muitos documentos da vida passada da nossa família, e da minha própria, não tanto por gosto de colecionar memórias, como pela serenidade de uma comunhão intemporal. E é bem verdade que o intemporal talvez nos tire muito tempo...

 

Dou comigo, muitas vezes, a entrelaçar lembranças e descobertas várias, tantas delas insuspeitas de qualquer relação entre si...ou comigo! No fundo, talvez dê por mim a dizer, com o Alberto Caeiro, que a espantosa realidade das coisas / é a minha descoberta de todos os dias. Aliás, dei novamente com estes versos hoje mesmo, evocados por José Mattoso no seu prefácio, de 13 de abril de 1985, à Identificação de um País, que começa assim: Este livro nasce de uma insatisfação: a de não encontrar na historiografia portuguesa atual respostas para muitas interrogações que a moderna ciência histórica não pode deixar de colocar. Tentei dar as minhas e coordená-las num conjunto que constituísse uma visão global da História de Portugal durante os seus dois primeiros séculos. A minha curiosidade orientou-se especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar [...] o que mais me atrai no passado medieval é a mentalidade: como é que os homens viam o mundo e se organizavam para tentarem dominar a realidade, nessa época tão diferente da nossa?

 

Tu também sabes, Princesa, como eu sempre pensossinto a constante mudança das coisas: a vida, o mundo, tudo é movimento, e quando olho para pessoas ou para povos, pela perspetiva do que chamamos História, melhor me apercebo de quão dinâmica, afinal, dialética mesmo, é a ideia ortegana de sermos e sermos a nossa circunstância. Assim, o conceito hegeliano de que die Weltgeschichte ist das Weltgericht deve ser só tomado no sentido de que os efeitos apurados dos factos produzidos são os únicos juízes destes, a História não podendo ser tribunal como se se pudesse julgar o passado por critérios presentes e retroativos... E sabemos quanto atos, factos e seus efeitos vão padecendo de mui diversas interpretações.

 

A História, como um dia disse João Ameal, é a nossa vida antes de nós, sim, mas tal não tem de tornar esta necessariamente gloriosa, nem vergonhosa: as lições da História não são gabanços nem pedidos de desculpa, podem, quando muito, e devem ser ensinamentos da escola da vida.

 

Qualquer povo tem uma história passada - a dos seus seniores - mas, essa mesma, não são os hodiernos que a fazem, é, tão simplesmente, um da sein que herdaram. É dele, de dantes, mas está aí, já feita. E dou aqui, mentalmente, o salto até uma resposta, há pouco lida, de Onésimo Almeida à revista LER, que lhe perguntava se, afinal, o carácter nacional não existe: Não, e deveríamos acabar com conceitos desse género. Não é possível, para qualquer povo, generalizar seja o que for. Nem nunca, em nenhuma época, toda a gente pensa e age da mesma forma, nem nunca, através dos tempos, uma nação se comporta da mesma maneira. Quer dizer que não se pode generalizar, nem diacrónica nem sincronicamente.

 

Ocorreu-me então algo que vou pensandossentindo acerca do modo como eu mesmo e muitos dos meus amigos fomos cultivados no ambiente de "uma certa História do Grande Portugal", algo que tanto me foi remoendo pelo convívio que tive, durante a minha longa estadia no Japão, com versões claramente míticas - para um estrangeiro que eu era - da História nipónica, sobretudo das origens do povo e da estirpe divina da linhagem imperial.

 

Não te esqueças de que até Wenceslau de Moraes escreveu um Dai Nippon (Grande Japão)... Como sabes, já amiúde falei sobre isso. Mas nunca me "psicanalisei" disciplinadamente no tocante ao meu entranhado sentimento de português enquanto filho de uma nação gloriosa, única, diferente de todas as outras. Pensossinto "Portugal", e vibro! Mas a leitura de obras hodiernas, de historiadores estrangeiros e portugueses, dos tais cuja curiosidade - repetindo o dito de José Mattoso acima citado - se orienta especialmente para os homens concretos, a sua maneira de viver e de pensar, ao ponto de os levar a procurar e consultar outras fontes - até agora esquecidas ou ignoradas, quer por razões políticas ou ideológicas, quer por tradicional desconhecimento de estranhas línguas e culturas - para acharem novas perspetivas e, acima de todas elas, uma visão mais global, muda-me o sentir da História, das nossas vidas antes de nós, com as suas circunstâncias. Não já só "nós", os Portugueses, como pioneiros e condutores, mas todo um vasto mundo, povoado por outros, com que sucessivos lusos foram interagindo.

 

Dias atrás, falava com alguns amigos sobre um livro que há já uns anos me encantou, ao ponto, aliás, de dele ter adquirido vários exemplares para oferecer - incluindo alguns na sua bela edição francesa - a conhecidos, amigos e, - vieillesse oblige - aos inescapáveis netos. Trata-se de A Aventura das Plantas, do Prof. Eng.º Mendes Ferrão, famoso catedrático do Instituto Superior de Agronomia de Lisboa, reconhecido internacionalmente. Tive o grande gosto de o conhecer em 2004/5, quando recorri à sua sapiência para melhor me informar sobre a globalização das plantas que surgiu com a aventura da descoberta de caminhos marítimos entre todos os continentes, tema que decidira abordar em exposições e sessões públicas a realizar no pavilhão de Portugal na Exposição Universal de Aichi (Japão), de que eu era Comissário Geral. Um dos meus convivas referiu então um artigo recente de Guilherme d´Oliveira Martins que diz: "As Surpresas da Flora no Tempo dos Descobrimentos" de Alfredo Margarido (Elo, 1994) constitui uma excelente oportunidade para compreendermos como os portugueses fizeram mudar os hábitos do mundo, alimentares e outros, mercê das viagens para outros continentes.
Os "negritos" são meus - já perceberás porquê. Antes, todavia, deixa-me dizer-te que, com muito gosto lusíada contei a aventura das plantas aos meus netos, por ela ser um dos mais antigos e persistentes sinais do que afinal a globalização é ou pode ser na vida quotidiana e comezinha das pessoas. Mas quantas vezes lembramos, ou quantos de nós sabem, que não se cultivavam nem comiam batatas, feijões ou tomates na Europa, antes das grandes viagens?

 

História fascinante, tetra secular, elucidativa, divertida, consoladora de humanidade... Quem mudava, então, as plantações de legumes e frutos no mundo de todos, era essa mancha de gente de muitas paragens, muito ou pouco ou nada sábia, a mor das vezes sem mais pertença do que qualquer obediência consciente ou instintivamente devida, que andava embarcada. E não eram só portugueses...

 

Já a razão dos meus "negritos" tem a mesma raiz dos que mostro de seguida, por mim postos num anúncio da Fundação e Museu do Oriente: Os Portugueses na Ásia na Segunda Metade do Século XVII  -  curso administrado por João Paulo Oliveira e Costa  -  dá a conhecer o panorama político, económico e sociocultural da Ásia sob a influência portuguesa.

 

No mesmo ou em dia próximo daquele em que recebi esta notícia, lera eu no Público uma entrevista a Eduardo Lourenço, em que este, a dado passo, afirmava: Portugal não é uma ilha, mas vive como se fosse. Talvez por uma determinação de quase autodefesa. O que me admira mais não é a preocupação constante que temos em saber qual é a figura que fazemos no mundo enquanto portugueses. Todos os países terão à sua maneira essa preocupação. É o excesso dessa paixão. É preciso que não estejamos a viver um Ronaldo coletivo, um "nós somos o melhor do mundo"... E, mais adiante: Fomos os primeiros que largámos da Europa para ir para um sítio mítico, só conhecido através de novelas, como as de Marco Polo. De repente, deslocamo-nos do ocidente europeu e demos a volta a África - demos..., deram eles, os navegadores, porque eu não tenho um pé marítimo propriamente dito - para chegar à Índia. E foi como chegar a outro mundo, descobrir outro planeta, e durante dois séculos a nossa capital era mais fora de nós do que dentro de nós. E sempre nos habituámos a que essa imagem que adquirimos num lá fora hípermítico fosse tão universal que ninguém podia não saber que nós lá tínhamos chegado... Há aqui, nesta análise de um nonagenário, muita cândida lucidez. Que, quanto a mim, me levou sobretudo à intuição de que as mitomanias nos podem conduzir a algo que eu definiria como "narcisismo nacional"...

 

          Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

 

 

GLOBALIZAÇÃO E NACIONALISMO NO FUTEBOL

 

Sendo o futebol um desporto globalizado, o seu mercado internacionalizou-se, o que levou a que os melhores treinadores e jogadores nacionais, de vários países, como José Mourinho e Cristiano Ronaldo, entre nós, fossem contratados por clubes estrangeiros mais ricos. Constitui um fenómeno crescentemente global, que uma percentagem significativa ou maioritária de jogadores de uma seleção nacional de futebol sejam jogadores estrangeiros, naturalizados nacionais, ou jogadores nacionais que jogam em clubes estrangeiros. O que não impede os adeptos nativos de sentirem como nacionais as vitórias da seleção nacional. Mesmo quando para esse sucesso desportivo é reconhecidamente decisivo o desempenho de jogadores não brancos, nomeadamente na Europa. Igualando ricos e pobres, etnias e raças, num unanimismo emocional e coletivo desejável e desejado, o futebol igualiza em imagens idílicas de celebrações triunfalistas, rumo a uma globalização pacífica e ausente de conflito, ansiada e opinada por muitos.

 

Só que, analisando melhor, o fenómeno da globalização, tão patente e potente na economia e finanças, não aparenta ter penetrado no futebol, onde se indicia, cada vez mais, uma ligação nacionalista e clubística. Seja como disputa entre nações, como competição de autoafirmação nacional, como altar ou salvação da pátria, a que os próprios políticos e governantes prestam honras e vassalagem, o mundo futebolístico, com o seu ícone da bola salvífica, não resiste à ideia de divergência e diversidade, o que pode ser exemplificado com o campeonato europeu de futebol.

 

Integravam tal competição, em 2016, 24 seleções nacionais. Entre elas a de Portugal, que foi campeão europeu. Há 28 anos eram oito, passando para 16, em 2012.

 

Na União das Associações de Futebol Europeu (UEFA), há seleções que não correspondem a países, tendo como exemplo mais antigo o Reino Unido, com quatro equipas: Inglaterra, País De Gales, Escócia e Irlanda do Norte, a que se juntou, muito mais tarde, Gibraltar. Com o colapso da União Soviética, além da Rússia, há mais dez países associados: Estónia, Letónia, Lituânia, Bielorússia, Ucrânia, Moldávia, incluindo os euroasiáticos Azerbaijão, Geórgia, Arménia e o asiático Cazaquistão. A divisão da Checoslováquia originou dois países: República Checa e Eslováquia. A da Jugoslávia, seis: Eslovénia, Croácia, Sérvia, Bósnia-Herzegovina, Montenegro e Macedónia. Sem esquecer a Turquia, minoritariamente europeia, bem como o asiático Israel. Além das seleções de Andorra, San Marino, Liechtenstein, Malta, Chipre, Ilhas Faroé e, recentemente admitido, o Kosovo. Estando pendente a candidatura da Catalunha.  E por que não, no futuro, o País Basco, a Flandres, a Valónia e a Lombardia?

 

Esta diversidade e pluralidade de seleções, com tendência a aumentar, com a exibição  de bandeiras e exposição de outros símbolos nacionais, galvaniza sentimentos clubísticos e nacionais, mesmo que cada vez mais as seleções integrem jogadores de várias origens. Mas se a naturalização de jogadores é determinante para que possam ser parte de uma seleção, conclui-se que a nacionalidade e nacionalismo no futebol globalizado, ultrapassam e desatualizam as fronteiras territoriais e o princípio da territorialidade inerente aos Estados e sua soberania. Ao mesmo tempo, autonomizam, autodeterminam e dão visibilidade democrática a povos e nações que rompem a unicidade e peculiaridades da globalização.    

 

17.01.2016

Joaquim Miguel De Morgado Patrício

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Não conheço Vanda Cabrito, apenas li, num jornal português, que é aluna da Universidade Europeia e que declarou: Senti que o mundo perdeu as suas barreiras e os estrangeiros deixaram de ser estrangeiros e passaram a ser vizinhos. Achei bem dito, e confesso que, pelos tempos que correm, me soube bem ouvir uma jovem afirmá-lo. Sabes como penso que o nosso mundo já terá chegado a um ponto de globalização irreversível, que só nos conduzirá a melhor situação se formos capazes de entender os modos de convivência necessários à paz e ao progresso aberto a todos. Caso contrário, corremos o risco de barbaramente em conjunto cairmos num barranco de cegos.

 

   Vivemos já assustados por vendavais de morte, que nos vão varrendo, desde a Promenade des Anglais, em Nice, às águas do Mediterrâneo e a tantas cidades da Síria e do Iraque. E não só. Há guerra, terrorismo e outros atentados - mais ou menos generalizados, tantas vezes promovidos ou consentidos, até em nome da "higiene" ou por simples preferências egoístas - há um surto de xenofobia que, em certos casos, como nos das potências emergentes, ou saudosas de soberbas antigas, que nada auguram de tranquilizador para um mundo em que todos já somos omnipresentes e ubíquos.

 

   Vem isto a talho de fouce por ter reencontrado hoje - logo depois de ter lido a frase de Vanda Cabrito - uma referência ao "meu" Stefan Zweig. Passo a contar-te. Le Monde des Livres, suplemento semanal, saiu hoje com uma edição especial intitulada Lectures pour temps troublés, que assim justifica:

 

   «Le Monde» solicitou a escritores, artistas e homens de ciência que lhe dissessem que autores os ajudam a «aguentarem-se» num período tantas vezes percebido como sendo difícil de compreender e que é ameaçador. De acordo com eles, que livros poderiam dar um sentido àquilo por que passamos, transmitir-nos força, esperança ou alegria?

 

   Uma das respostas é de Roland Gori, psicanalista e escritor, autor, entre outros livros, de De quoi la psycanalyse est-elle le nom? e de L´Individu ingouvernable. Com Stefan Chedri, fundou o movimento Appel des appels, «coletivo nacional para resistir à destruição voluntária e sistemática de tudo o que tece os laços sociais»... E fala-nos de Stefan Zweig, tão cruelmente lúcido. Recenseia um livro que o autor austríaco publicou em 1936 (repara bem na data), cujo título, na versão francesa de Alzir Hella, é Conscience contre violence. Começo por te traduzir o primeiro parágrafo da resenha de Roland Gori:

   No momento em que, no claro-escuro das crises, renascem os monstros dos fanatismos cruéis, dos nacionalismos cínicos, dos recuos identitários friorentos, é preciso reler Zweig! Todo Zweig, o escritor das paixões, o Europeu das Luzes, o cidadão do mundo, o judeu apátrida, o apaixonado pela diversidade brasileira, única "terra de aventura", num mundo caótico que por tempo demasiado alinhou a classificação dos povos pelo seu poderio industrial, financeiro e militar. É preciso reler o seu elogio de um Brasil, um tanto ou quanto imaginário, transformado em modelo de comunidade humana em que a cultura nasce da mistura de raças, da fusão dos particularismos religiosos, étnicos e históricos. É preciso reler Zweig, os seus apelos aos Europeus, a sua «luta pela fraternidade espiritual», a única que poderá «curar» o Velho Continente da «doença mortal» dos nacionalismos nascidos da deslocação dos mundos submetidos aos imperialismos mercantis, à fragmentação dos povos hipnotizados por ideologias fanáticas.

 

   Fala depois do livro, cujo título francês (Conscience contre Violence) traduz parcialmente a segunda parte do título original alemão: Castellio gegen Calvin, oder, Ein Gewissen gegen die Gewalt  ("uma consciência contra a violência"). A edição inglesa lê The Right to Heresy - Castellio against Calvin. A portuguesa, da Livraria Civilização, apenas Castélio contra Calvino. Deixo-tos todos, porque todos juntos dizem do que o livro trata: da oposição de um saboiano, Sebastio Castellio (1515-1563), humanista amigo de Erasmo, e que também o foi de Calvino (ambos tinham sido discípulos de Cordier) com quem rompeu, precisamente em razão de pretender, contra o ditador da reforma protestante em Genebra, que a heresia é também um direito, e não é lícito matar um hereje: Queimar um homem não se chama "defender uma doutrina", mas "cometer um homicídio". Contra a violência de João Calvino e Guilherme Farel (padre revolucionário e terrorista) - que, como escreveu Voltaire mais tarde, perpetraram o primeiro assassínio religioso da Reforma - e perante a execução de Michel Servet, além de muitas outras perseguições ideológicas e religiosas, Castellio não se calou. Por isso Zweig lhe chama soldado desconhecido da grande guerra de libertação do género humano.

 

   Eis o que todos nós deveríamos ser. Hoje também, mas num mundo que já não é o de Castellio nem Erasmo, nem sequer o de Stefan Zweig. Este enquadrava, e bem, a figura independente e tolerante do católico Erasmo na Europa dividida pelos movimentos da Reforma e da Contra Reforma - um homem que escreveu em latim, língua comum da cristandade europeia ocidental - como aquele que foi, de facto, de todos os escritores e autores ocidentais, o primeiro europeu consciente, o primeiro "combatente pacifista", o defensor mais eloquente do ideal humanitário, social e espiritual […] Erasmo via na intolerância o mal hereditário da nossa sociedade. Tinha a convicção de que seria possível pôr fim aos conflitos que dividem os homens e os povos, sem violência, por mútuas concessões, porque eles dependem todos do domínio humano; estava persuadido de que quase todas as questões poderiam regular-se por via transacional, se os condutores e excitadores não viessem constantemente deitar azeite ao lume [...] Pôr harmoniosamente de acordo os contrastes do espírito humano - tais foram a missão e o sentido da vida de Erasmo. Possuía, para empregar a expressão de Goethe, que se parecia com ele na igual aversão aos extremos, "uma natureza comunicativa" [in Erasmo de Roterdão, de Zweig, na versão portuguesa de Alice Ogando, Livraria Civilização, Porto, 1950].

 

   Como já algures te disse, Princesa de mim, no seu comovente Die Welt von Gestern - Erinnerungen eines Europäers, mais do que brevemente nomear Erasmo, Zweig quer nele incarnar-se, agora num tempo de entre duas grandes guerras, em que ele mesmo se sente já "um vencido da vida", tal como o humanista de Roterdão, parte inteira de uma elite europeia que, afinal, nada pode fazer. Logo no prefácio desse livro de saudades do mundo de antes de 1914 e de angústias face ao que os anos 30 entretanto tinham trazido, a carregar o horizonte, escreve, a abrir: Nunca atribuí tanta importância à minha pessoa que me sentisse inclinado a contar aos outros a história da minha vida. Muito mais teve de acontecer, infinitamente muito mais do que aquilo que geralmente cabe a uma geração - ocorrências, catástrofes, provações - até eu ganhar coragem de iniciar um livro que tem como personagem principal, ou melhor, como tema central, o meu próprio eu.

 

   Adiante, noutros passos, vai confessando:

   A minha atitude natural em todas as situações de perigo foi sempre a de evitá-las e não foi só nessa ocasião que tive de aceitar como justa a acusação de ser indeciso, tão frequentemente feita também, noutro século, ao meu venerado mestre Erasmo de Roterdão...  

...Nas minhas novelas é sempre quem sucumbe ao destino que me fascina; nas biografias, é a figura de quem tem razão, não no espaço real do êxito, mas única e exclusivamente num sentido moral: Erasmo e não Lutero, Maria Stuart e não Isabel, Castellio e não Calvino [...] eu andava a ler as provas do meu livro sobre Erasmo, onde tentava apresentar um retrato espiritual do humanista que, tendo embora compreendido mais claramente o absurdo do seu tempo do que os profissionais que querem mudar o mundo, por uma fatalidade trágica, não fora capaz de, com todo o seu bom senso, lhe barrar o caminho. Quando tivesse concluído essa apresentação encapotada da minha própria pessoa... [tradução de Gabriela Fragoso, em O Mundo de Ontem - recordações de um europeu, Assírio e Alvim, Lisboa, 2005].

 

   Falo-te destes exemplos de outros tempos e circunstâncias, Princesa, lembrado sobretudo das barbaridades cometidas durante e depois das guerras de Espanha e 2ª Mundial. E de muitas outras. Mas quero sobretudo chamar-te a atenção para o esforço doloroso da consciência moral: refletirmos é pensarmos sobre o real e o possível, decidirmos é pensarsentir e escolher entre desviar caminho ou agir como o samaritano.

 

   Em próxima carta voltarei, com a ajuda de pensadores nossos contemporâneos, ao tema da expressão, tão acertada e profética, da Vanda Cabrito: já não são estrangeiros, são nossos vizinhos. Mas, nesta ainda, deixo-te um pequeno texto de Véronique Nahoum-Grappe, antropóloga francesa, filha do célebre Edgar Morin (judeu sefardita, cujo nome de nascença era Edgar Nahoum) discípula de Emmanuel Le Roy Ladurie, celebrado professor de História, e da antropóloga Françoise Héritier, que sucedeu a Claude Lévy-Strauss no Collège de France, onde hoje também já é professora emérita:

 

   Quando circunscrevemos o tema dos refugiados à crise atual, tornando-o em sintoma de doença, esquecemos que a história humana é feita de tais migrações. Os Estados Unidos são um país de imigração fundado sobre o massacre de populações indígenas. A Europa invadiu todos os continentes, cuja demografia e economia mudou com o trato industrial das populações africanas. Como podemos nós hoje dizer aos migrantes que atravessam mares e fronteiras para escapar a condições de vida insustentáveis: "voltem para casa"? Distinguir a boa migração política da má migração económica não faz sentido. Migrar, a partir de países como a Síria, é antes do mais salvar a pele. Os franceses mais hostis aos refugiados fugiriam do mesmo modo, se estivessem na miséria e debaixo de bombas. O medo e a luta pela sobrevivência são forças poderosas, que põem os humanos em pé de igualdade.

 

    Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira