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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Jürgen Habermas © EPA/Jerry Lampen/Lusa


Perante o horror, 
inevitável a pergunta: Onde está Deus?  


Actualmente, porque, com a televisão e outros meios, temos acesso às imagens, talvez seja sobretudo perante os horrores das guerras que se pode ficar estarrecido perante o silêncio de Deus. São bombardeamentos que não deixam pedra sobre pedra, que matam indiscriminadamente homens, mulheres, crianças, e ficamos esmagados sobretudo pela dor, o clamor, as lágrimas, a desorientação das crianças inocentes. Onde está Deus?

Joseph Ratzinger, chamado aos 17 anos para o serviço militar do Reich, foi desertor e prisioneiro dos americanos. Já Papa Bento XVI, como já aqui escrevi,  esteve em Auschwitz e fez um discurso dramático e deveras emocionante: "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na História, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atónito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: Porque te calaste? Porque quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque se calou?”

Perante o horror do mundo e todos os mortos e todas as vítimas — ah!, as vítimas inocentes — e o aparente silêncio de Deus, percebemos a tentação do ateísmo. E até poderá tratar-se de um ateísmo moral, um ateísmo ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus, que é preciso recusar por causa da moral: um mundo com tanta dor, tantas injustiças, tanto sofrimento de inocentes, tanto cinismo brutal do poder, como pode ser criação de um Deus bom? Mas a quem recusa Deus assalta-o outra pergunta: se Deus não existe, donde vem o bem e a nossa revolta, desde a raiz de nós, contra o mal e a morte, clamando por justiça e salvação para as vítimas inocentes? Porque, sem Deus, afundamo-nos no nada e anula-se, em última análise, a própria diferença entre bem e mal. Por isso, segundo Jürgen Habermas, para mim o maior filósofo vivo, agnóstico, o que mais nos inquieta é “a irreversibilidade dos sofrimentos do passado — a injustiça contra as pessoas inocentes vítimas de maus tratos, aviltamento e assassinato — sem que o poder humano possa repará-los”, acrescentando: “A esperança perdida da ressurreição” sente-se como um grande vazio.”

Há uma pergunta decisiva (para Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt, a que Habermas também está ligado, é mesmo “a pergunta fundamental da Filosofia”): o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? As vítimas inocentes clamam, e um grito sem fim, ensurdecedor, percorre a História. Há uma dívida incontável para com essas vítimas. Quem a pagará?

Max Horkheimer e Theodor Adorno, principais representantes da Escola Crítica, com quem Bento XVI entrou em diálogo na sua encíclica sobre a esperança, “Salvos em Esperança”, viveram filosoficamente a inconsolável “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível a edificação de uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz. A razão é simples: ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e então seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por essas vítimas, e então não era humana, porque não solidária.

Adorno e Horkheimer exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”. Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, “o anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra.”

Esta esperança tem de traduzir-se numa práxis solidária tal que, como disse de modo incisivo Kant, “a práxis tem de ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.” Nesta práxis, está implicado o pensamento do Absoluto, como exigência moral e como anelo de que o finito e o mundo da injustiça não sejam a ultimidade e o definitivo. Também neste sentido, Adorno escreveu que “o pensamento que não se decapita desemboca na Transcendência”. Neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”. A pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da história dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela justiça universal.

No seu diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, Bento XVI reconheceu que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o ser humano está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavras” convence da necessidade da ressurreição dor mortos e da vida eterna.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado 22 de Novembro 2025

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Gaza © EPA/Mohammed Saber, 2025/Lusa


A “modernidade líquida” 
e os Dez Mandamentos  


Penso que ninguém pensante duvida que nos encontramos num tempo convulso de crises e guerras — actualmente, mais de 50 conflitos armados em curso —, num tempo obscuro e decisivo, imprevisível, da História. A crise é dramática, para não dizer trágica, de contornos não bem definidos, global. Ela é, evidentemente, ecológica, tecnológica — pense-se na IA, com todas a suas vantagens, é claro, mas também com os seus imensos perigos —, financeira, económica, política, social, religiosa, moral, de valores. Sim, decisivamente, de valores.  De valores vinculantes. A própria democracia está em crise.

Zygmunt Bauman, um dos maiores sociólogos e pensadores do nosso tempo, caracterizou a situação como “modernidade líquida”. Os laços, íntimos e sociais, são frágeis. Há o receio de compromissos a longo termo. Tudo deve ficar em aberto, para não fechar possibilidades.

Baumann dava o exemplo do amor e da sua vivência contraditória, dolorosa. Por um lado, num mundo incerto e instável, “tem-se mais necessidade do que nunca de um parceiro leal e dedicado, mas, por outro, fica-se aterrado com a ideia de compromisso (para já não falar de compromisso incondicional) com este tipo de lealdade e dedicação.” Há o receio de perder a liberdade e oportunidades. “E se o parceiro/a fosse o/a primeiro/a a decidir que está farto/a, de modo que a minha entrega acabasse no caixote do lixo? Isto leva então a tentar realizar o impossível: ter uma relação segura, mas permanecendo livre, para poder acabar com ela a cada instante. Melhor: viver um amor verdadeiro, profundo, durável, mas revogável a pedido... Tenho o sentimento de que muitas das tragédias pessoais derivam desta contradição insolúvel”.

No fundo, é a recusa do sacrifício. De facto, querer salvar o amor do turbilhão da ‘vida líquida’ é inevitavelmente custoso, como é custosa e difícil a vida moral. Entregar-se a outro ser humano no amor traz felicidade real e duradoura, mas “não se pode recusar o sacrifício de si e esperar ao mesmo tempo viver o ‘amor verdadeiro’ com que sonhamos”.

Na nossa sociedade, tende-se a substituir a noção de ‘estrutura’ pela de ‘rede’.  É que, “ao contrário das ‘estruturas’ de outrora, cuja razão de ser era vincular com laços difíceis de desfazer, as redes servem tanto para ligar como para desligar”. Por isso, Baumann contrapunha ‘liquidez’ e ‘solidez’ das instituições. Afinal, “instituições sólidas, no sentido de duráveis e previsíveis, constrangem, mas ao mesmo tempo tornam possível a acção dos agentes”.

Pessoalmente, mais do que a imoralidade preocupa-me a amoralidade. Porque, quando tudo vale, nada vale, pois tudo é igual. Uma sociedade sem convicções e valores comuns partilhados não tem futuro, porque lhe falta horizonte e sentido. Por isso, fonte maior de mal-estar hoje está na falta de critérios de valor e de orientação.

Neste contexto, a revista alemã STERN publicou há alguns anos um dossier subordinado à pergunta: “Os Dez Mandamentos estão ultrapassados?” Significativamente, políticos como o então Ministro Federal das Finanças, W. Schäuble, realizadores  como Wim Wenders, filósofos como Peter Sloterdijk, declararam que eles continuam vivos e actuais. De facto, quem negará actualidade a preceitos como: “Não farás imagens de Deus, mas respeitarás a dignidade de todos os seres humanos, sua imagem”, “Não matarás”, “Não cometerás adultério”, “Amarás os filhos e respeitarás os pais”, “Não roubarás”, “Não viverás à custa dos outros”,  “Serás justo com todos“, “Protegerás a natureza”, “Assumirás as tuas responsabilidades”?

Referindo-se-lhes como um compêndio da sabedoria humana, acumulada ao longo de séculos, o grande escritor Thomas Mann disse que eles são “manifestação fundamental e rocha da decência humana”, “o ABC da conduta humana”.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 4 de Outubro de 2025

A VIDA DOS LIVROS

  
    De  11 a 17 de agosto de 2025


“Diário da Ucrânia – Ali está o Taras Shevchenko com um Tiro na Cabeça” de Ana França (Tinta da China, 2023) é um relato impressionante e apaixonante do início da invasão russa, que infelizmente continua. Como terminará?

 


Conhecemos a Ucrânia e a sua história. Nesta “Vida dos Livros” recordámos a biografia de Taras Shevchenko (1814-1861), símbolo da Ucrânia Independente, poeta, pintor, desenhador, artista e humanista – fundador da Literatura moderna ucraniana. Esse texto data de 2019, na sequência da Revolução da Dignidade, que teve início nas violentas manifestações de protesto conhecidas como Euromaidan contra o Presidente Viktor Yanukovych, que deram lugar à deposição deste.  Este diário permite-nos revisitar a saga deste povo, cuja independência resulta de acontecimentos marcantes que devem ser lembrados. Raquel Vaz-Pinto no Prefácio dá-nos as razões para lembrarmos os acontecimentos recentes e para concluir que a narrativa oficial russa de Putin é errónea e baseia-se na tentativa de adulteração da História. Ana França relatou para o Expresso a invasão da Ucrânia de 2022. Nos primeiros contactos que tive com a Ucrânia não encontrei uma tão evidente consciência nacional como agora. Havia os russófilos e os europeístas, consoante sobretudo estivessem na zona oriental ou na zona do centro-oeste. Mas a invasão russa de 2022 teve uma consequência mobilizadora, pois os ucranianos viram o seu lar invadido e a sua liberdade e autonomia postas em causa.  


Com uma longa história, Kiev ou Kyiv, capital da Ucrânia, é uma das cidades mais antigas e com maior riqueza histórica da Europa Oriental, tendo passado por diversas fases de notoriedade e de decadência. Ucrânia significa, por isso, fronteira. A urbe foi fundada pelo menos no século V da nossa era, como um entreposto comercial, tendo ganho progressivamente importância, a ponto de se tornar o centro da civilização eslava oriental, até passar a ser a capital política e cultural entre os séculos X e XII. Importa lembrar que a Igreja Ortodoxa Russa se afirmou com especial intensidade no século IX em Kiev, lugar onde, segundo a tradição, Santo André teria profetizado a criação de uma grande e influente cidade cristã. A idade de ouro ucraniana correspondeu, assim, aos anos 800 a 1100. Tratou-se do reinado de Vladimir, o Grande, que levou o Estado eslavo no sentido do cristianismo bizantino. Daí que o nascimento da Terceira Roma tenha tido as suas raízes em Kiev, ainda que, com a queda de Constantinopla (1453), Moscovo se tenha afirmado como sucessora de Roma, em virtude de Kiev estar numa fase de subalternização. De facto, Kiev foi completamente destruída pelos mongóis em 1240, tendo então perdido grande parte de sua influência. Tornou-se então uma capital de província de relevância limitada na periferia dos territórios controlados por vizinhos mais poderosos: o Grão-Ducado da Lituânia, a Polónia e a Rússia. Em meados do século XVII o quase Estado cossaco em Zaporíjia foi formado por habitantes do Dniepre e por rutenos fugidos do domínio polaco. E assim os cossacos tornaram-se uma força opositora útil contra os turcos otomanos e os tártaros da Crimeia. Nas partilhas da Polónia do final do século XVIII, entre a Prússia, Áustria e Rússia, o território ucraniano foi dividido entre o Imperio Austríaco (a província da Galícia) e o Império Russo (parte oriental).  Entre 1853 e 1856 teve lugar a Guerra da Crimeia que envolveu o Império Russo contra a aliança composta pelo Império Otomano, França, Reino Unido e Reino da Sardenha. Finda a guerra o Czar Alexandre II reconheceu-se derrotado, aceitando um conjunto de limitações estratégicas no Mar Negro, que viria a recuperar.


A cidade apenas voltou a prosperar com os primeiros sinais da revolução industrial russa no final do século XIX. Após o período turbulento que se seguiu à Revolução Russa de 1917, Kiev passou a ser uma cidade importante da República da Soviética da Ucrânia e, a partir de 1934, sua capital. Durante a Segunda Grande Guerra, Kiev voltou a sofrer danos pesados, mas recuperou no pós-guerra, continuando a ser a terceira maior cidade da Federação Russa. Em 1932-33 teve lugar a grande fome de Holodomor, com cerca de 10 milhões de ucranianos mortos, como penalização imposta pelo regime soviético contra a resistência popular. Em 24 de outubro de 1945, a Ucrânia foi aceite como membro das Nações Unidas com a Belarus, conseguindo assim o então bloco soviético três votos formais. Com o colapso da União Soviética e a independência real da Ucrânia em 1991, Kiev manteve-se como capital do país, recuperando importância. No território ucraniano tinha tido lugar o trágico acidente nuclear de Chernobil em abril de 1986 com um número incerto de vítimas. Em 2004 teria lugar a Revolução Laranja de orientação democrática que trouxe ao poder Viktor Yushchenko e Yulia Tymoshenko. O confronto com a Rússia a propósito da escassez do fornecimento de gás em 2006, abriria nova crise que culminaria com a eleição do pró-russo Viktor Yanukovych como Presidente (2010). Face à recusa deste em assumir uma orientação favorável a uma aproximação à União Europeia, abriu-se uma forte contestação popular, é o Euromaidan (novembro de 2013) que culminaria com a destituição de Yanukovych pelo parlamento, após os tumultos sangrentos. Em março de 2014, a Rússia anexa a Crimeia. Em maio foi eleito Petro Poroshenko, que viria a assinar os acordos de Minsk (2014-15) que marcaram o fim temporário da Guerra em Donbas contra as forças separatistas pró-russas em Donetsk e Luhansk. Poroshenko não foi reeleito em 2019, perante a vitória esmagadora de Volodymir Zelensky.


Apesar de diversas tentativas ucranianas no sentido de evitar o agravamento do conflito, Putin anunciou a 24 de fevereiro de 2022 uma operação militar especial no Donbas. Misseis russos atingiram vários alvos militares na Ucrânia e Zelensky declarou a lei marcial. “Sabíamos que a Rússia podia tentar atacar e conquistar mais território, mas estamos perante uma tentativa de anexação, pura e dura”. Há assim uma operação de conquista, que passa por derrubar o poder legítimo em Kiev. O Presidente Zelensky sobrevive a três tentativas de assassinato: duas perpetradas pelo Grupo Wagner e uma pelo Kadyrovtsy. Putin esperava uma ação rápida com rendição do governo ucraniano e mesmo os serviços secretos norte-americanos previam uma ação relâmpago de 96 horas… Pelo contrário, Zelensky resiste. “Porque realmente há  momentos que mudam um povo inteiro, que oferecem uma luz comum a todos, e para nós esse momento chegou, ninguém sai da linha” – diz um dos ucranianos retratado no livro. Aqui encontramos uma guerra relatada a quente. Cada um dos locais da cidade torna-se quimérico. O Mosteiro das Cúpulas Douradas de S. Miguel lembra mil anos de vida e em dezembro de 2013 Ivan Sydor coordenou o bater dos pêndulos da uma às cinco da manhã sem parar. Desde a invasão dos mongóis que os sinos não dobravam durante tanto tempo. Quase 800 anos depois, 130 pessoas morreram, incluindo polícias, nestas mesmas ruas. “Não há outra capital no mundo onde se tenha morrido pelo desejo de pertencer à União Europeia, que me lembre”. Algures Ana França pode dizer: “Ali está o Taras Shevchenko com um tiro na cabeça. Pode ter sido fogo cruzado, até fogo amigo, mas o busto de Taras Shevchenko, um poeta tão importante que até se mudou o nome de uma rua nova-iorquina, em 1978, no bairro dos ucranianos, em sua honra, tem um tiro do lado esquerdo da testa, de quem olha de frente para a estátua, na Praça Central de Borodyanka”… Este livro é um antídoto indispensável ao “lodaçal de propaganda” que por aí anda… 


Guilherme d'Oliveira Martins

MALES QUE VÊM POR BEM

bruxelas.jpg 
    Grand Place, Bruxelas © Celuici_creative commons


Há males que vêm por bem, como diz o povo. O regresso dos fantasmas do protecionismo americano tem precedentes, lembramo-nos da História, cada vez mais esquecida. E temos de recordar, no sentido inverso, Franklin Delano Roosevelt, que em aliança com Winston Churchill, foi o primeiro responsável por um momento decisivo de afirmação da influência americana no mundo. Quando hoje se fala de regressar a um passado glorioso que outra lembrança poderá haver senão a dessa “Pax Americana”? Por isso, a tentativa de destruição dessa herança constitui uma contradição nos termos e um jogo perigoso, de efeitos imprevisíveis. Infelizmente, lê-se muito pouco, mesmo nas mais altas instâncias, e esse desconhecimento não tem apenas a ver com a dimensão histórica, mas também com o reconhecimento científico e cultural da América, como País de acolhimento. Lorde Keynes com as suas análises argutas da realidade económica foi o grande inspirador do “New Deal”. Hoje, pelo contrário, parece prevalecer o método das impressões gerais, que dificilmente pode funcionar. Pode contentar momentaneamente um eleitorado sedento de pão e circo, mas no largo prazo está condenado ao fracasso. Eis o ponto em que nos encontramos. A Europa está confrontada com responsabilidades, que não se traduzem apenas no mercado das armas, mas exigem a adoção de uma nova dissuasão num mundo de polaridades difusas, com recurso ao método das cooperações reforçadas, garantindo que possam avançar os Estados que quiserem e estiverem melhor preparados.

O guarda-chuva protetor americano e a iniciativa Marshall foram importantes na reconstrução do mundo destruído por duas guerras mundiais. Todos beneficiámos. Mas hoje os tempos são outros, importando não voltar aos erros que conduziram ao desastre de há um século. Lembramo-nos da afirmação de Jean Monnet: “sempre pensei que a Europa far-se-ia nas crises e que se construirá pela soma das soluções que encontrarmos para essas crises”. Este é um desses momentos cruciais, sendo necessário mobilizar capacidades para chegar onde se concentram as ameaças, ou seja, a leste, desde a atitude assumida pelo governo russo até à retirada norte-americana. Daí que tenha razão Fareed Zakaria quando diz que “a Europa deve reforçar os seus elos, pôr em prática uma política de defesa e externa mais unificada, fazer crescer as despesas em matéria de segurança. Todos o sabem. Contudo, a única questão que fica por saber é se há vontade política”. E os dirigentes europeus ainda procuram uma receita que lhes permita convencer os seus eleitores de que esse é o caminho da sobrevivência. No entanto, a conjuntura é extremamente difícil. Mudam as circunstâncias e, ao contrário da prática dos últimos cinquenta anos, o sistema internacional passou a ser dominado pelos instintos de um Presidente norte-americano, que não tem uma estratégia, mas segue a tendência dos poderes de facto, que se desenvolvem fora dos quadros do Direito Internacional. Surpreendentemente, Vladimir Putin, que avançou para a invasão da Ucrânia em 2022, no pressuposto errado de uma deposição do governo de Kyiv rápida e imediata, inebriado pelas operações da Chechénia, da Georgia e da Crimeia, passou agora a contar com a cumplicidade de Trump… O impasse reveste-se da maior gravidade. A paz torna-se necessária e a Europa está sob a exigência da recusa da irrelevância. Se houver uma resposta consistente e durável talvez os males venham por bem…     


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


178. VÍTIMAS “INDIGNAS” E “DIGNAS”


Há pessoas que têm opiniões cruéis sobre as vítimas de países cujas políticas ou líderes não aprovam, distinguindo entre vítimas “dignas” e “indignas”.       


As “indignas” são as que “estavam a pedir isso”. Ou que “estavam a jeito”. 


É inaceitável que alguém não tenha empatia e haja ausência de solidariedade, por exemplo, pelas vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, dos atos de terrorismo e crimes de guerra cometidos na Ucrânia e Médio Oriente, pelo atentado extremista contra civis, em Moscovo, em 22 de março de 2024.   


Aquando do ataque de Nova Iorque, com milhares de mortos, houve quem fosse a favor, aceitando a vingança muçulmana, pois os Estados Unidos “estavam a pedi-lo”, o que foi tido como uma resposta a guerras de um intruso poder dominante em várias zonas do globo, agora atacado no seu solo.


Também há quem pense que os assassinatos de civis em Bucha, Mariupol e outras regiões da Ucrânia, são um mal menor ou “vítimas indignas” de um conflito entre a Ucrânia e a Federação Russa, em que não há agressor nem invasão, ou se desculpa quem agrediu, porque outros também agrediram.


De igual modo não há equidistância quando não se expressa a mesma dor ou preocupação perante vítimas civis israelitas, cristãs, árabes, palestinianas, ou quaisquer outras, assassinadas em igualdade de circunstâncias, apenas para nos vingarmos, por razões meramente ideológicas ou preconceitos, do antiamericanismo, do alegado imperialismo americano, da russofobia, do falado imperialismo russo (ou outro), por antissemitismo e sionismo em relação aos judeus, por indiferença ou ódio pelos mais fracos. Ou mesmo por simples simpatia, por convicção ou não, de que os mais pobres ou oprimidos (eternos bons selvagens?) têm sempre razão sendo, nessa perspetiva, mais “dignos”.


Há que saber distinguir os momentos em que se impõe exprimir condoimento, consternação, humanidade, misericórdia e solidariedade para com todas as vítimas, iguais na sua dignidade, dos momentos em que é necessário contextualizar para tentar explicar.


Há ocasiões em que é insensível atribuir a morte desumana daquelas pessoas à mera política externa dos Estados Unidos, da Rússia, da Ucrânia, de Israel, dos países árabes, ou a quem quer que seja, no seu sentido mais lato e abstrato, e não aos seus autores e perpetradores, sob pena de agravarmos a mágoa e o ressentimento, desculpabilizarmos o terrorismo e fazermos a apologia, mesmo que inconscientemente, da existência de vítimas “indignas” e “dignas”.     


Tem que haver lugar para a neutralidade quando se justifica, não podendo haver vítimas “dignas” e “indignas”, dado que não pode haver precedentes morais para o horror, a violência pela violência e porque os outros fizeram igual ou pior. 


07.06.24
Joaquim M. M. Patrício

DOIS ESTADOS. E JERUSALÉM?

  


Segundo as Nações Unidas neste ano de 2024 há — imagine-se! — 64 conflitos armados no mundo É o horror pura e simplesmente.


A opinião pública estará sobretudo voltada para os conflitos na Ucrânia e em Gaza. Deixo aí, com repetições, uma breve reflexão concentrada no confronto entre palestinianos e judeus, pois está a ser  objecto da atenção pública, também por causa das intervenções recentes do Papa Francisco em Verona e do bispo José Ornelas em Fátima. Sem esquecer, evidentemente, que o ataque terrorista do Hamas no passado  dia 7 de Outubro é pura e simplesmente inqualificável. Não há realmente palavras para aquele horror monstruoso.


No passado dia 13 de Maio, no final da Missa que encerrou a peregrinação internacional, o bispo José Ornelas pediu “paz para a Ucrânia, naquela cruel guerra que já dura há tanto tempo. Paz para a Terra de Jesus, a Palestina, onde mais de 35 mil pessoas já perderam a vida e a maioria, escândalo dos escândalos, são crianças”; e disse também: “o pior de tudo, o que não se pode permitir, é proibir que chegue a ajuda alimentar necessária para mais de um milhão de pessoas que estão a morrer de fome. Daqui, da Cova da Iria, apelo, apelamos para a paz. É inconcebível para um coração humano que isto esteja a acontecer no mundo.”


No passado dia 18, em Verona, Francisco participou num acontecimento verdadeiramente profético, a anunciar que é possível o milagre da paz.  Subiram ao palco e disseram: “Papa Francisco, sou Maoz Inon, sou de Israel e os meus pais foram assassinados no dia 7 de Outubro pelo Hamas; Papa Francisco, chamo-me Aziz Sarah, sou palestiniano e o meu irmão foi morto pelo exército israelita. Somos empresários e acreditamos que a paz é a coisa maior que podemos conseguir”, e apelaram à paz.  As dezenas de milhares de pessoas que enchiam o anfiteatro romano  de Verona ficaram suspensas num suspiro emocionado, a ansiar pela paz. A multidão aplaudiu de pé. O Papa agradeceu: “Tiveram a coragem de se abraçar, um testemunho não só de paz mas também de um projecto de futuro.” Abraçaram-se os três, no meio de aplausos e de lágrimas dos presentes.


Francisco tem sido incansável no apelo à paz, nomeadamente na Palestina, com a posição que sempre tem mantido, aliás na linha da diplomacia tradicional do Vaticano quanto aos dois Estados e ao estatuto  especial de Jerusalém, cidade santa para judeus, cristão e muçulmanos.


Neste espírito, relembro, por exemplo, uma Carta de Francisco ao Grande Imã de Al-Azhar, no Egipto, Amehd el-Tayeb: “A Santa Sé não deixará de recordar com urgência a necessidade de que se reate o diálogo entre israelitas e palestinianos em ordem a uma solução negociada, encaminhada para a coexistência pacífica de dois Estados dentro das fronteiras entre eles acordadas e reconhecidas internacionalmente, no pleno respeito pela natureza peculiar de Jerusalém, cujo significado está para lá de qualquer consideração sobre questões territoriais. Só um estatuto especial, também garantido internacionalmente, poderá preservar a sua identidade, a vocação única de lugar de paz a que apelam os Lugares Santos e o seu valor universal, permitindo um futuro de reconciliação e esperança para toda a região. Esta é a única aspiração de quem se professa autenticamente crente e não se cansa de implorar com a oração um futuro de fraternidade para todos.”


A quem se admire com este pedido de um “estatuto especial garantido internacionalmente” para Jerusalém, em ordem a preservar a paz, aconselho que relembre o acordo das Nações Unidas sobre esta temática, e a quem quiser aprofundar a questão, a leitura de duas obras monumentais do teólogo Hans Küng: O Judaísmo, O Islão.


Como é sabido e repito, em 29 de Novembro de 1947, por maioria sólida e com o beneplácito dos Estados Unidos e da antiga União Soviética, as Nações Unidas aprovaram a divisão da Palestina em dois Estados: um Estado árabe e um Estado judaico, com fronteiras claras, a união económica entre os dois e a internacionalização de Jerusalém sob administração das Nações Unidas. Note-se que, apesar de a população árabe ser quase o dobro, os judeus, que então possuíam 10% do território, ficariam com 55% da Palestina.


O mundo árabe rejeitou a divisão e são conhecidas as guerras sucessivamente travadas. Mas, à distância, mesmo admitindo a injustiça da partilha e as suas consequências — é preciso pensar na fuga e na expulsão dos palestinianos —, considera-se que a recusa árabe foi “um erro fatal” (Hans Küng). Aliás, isso é reconhecido hoje também pelos palestinianos, pois acabaram por perder a criação de um Estado próprio soberano pelo qual lutam.


Como se tornou claro, a guerra não gera a paz, que só pode chegar mediante o diálogo, a diplomacia, cedências mútuas, com dois pressupostos fundamentais: o reconhecimento pelos Estados árabes e pelos palestinianos do Estado de Israel e o reconhecimento por parte de Israel de um Estado palestiniano viável, independente, soberano. E Jerusalém?


Como já aqui escrevi, na continuação de Küng, o conflito do Médio Oriente é sobretudo político. Mas não haverá paz enquanto os membros das três religiões monoteístas, que se reclamam de Abraão, se não tornarem activos, impedindo o fanatismo religioso. Com base nos seus livros sagrados — Bíblia hebraica, Novo Testamento, Alcorão —, judeus, cristãos e muçulmanos devem reconhecer-se mutuamente e lutar pela paz. Esta é a mensagem de Roma para Jerusalém.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 25 de maio de 2024

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


173. A DESTRUIÇÃO DA PAZ E A NATURALIZAÇÃO DA GUERRA


A mera ameaça ou a intenção de usar armas nucleares é imoral, dado ser ilícito o simples intuito de fazer mal? A dialética da guerra e da paz, idealizada para conflitos armados convencionais, pode ser aplicável à nova realidade da era nuclear? Abolindo, limitando ou reduzindo as armas nucleares, estaremos a abolir, limitar ou reduzir a guerra ou a escolher outro modo de morrer? Ou a “docilizar” a guerra com o fim de a usar como como instrumento da política?


A guerra ou uma paz qualquer nunca foram a melhor solução para resolver os conflitos, dado só interessar uma paz verdadeira, capaz de justificar uma guerra justa. 


No mundo de hoje a guerra coexiste com o armamento nuclear. Desta inevitabilidade e da coexistência entre o pacifismo impressionável e utópico, por um lado, e o belicismo total e monstruoso, por outro, pode resultar uma série de hediondas consequências. Para as evitar poderia abolir-se a guerra, proibir-se ou destruir as armas nucleares, confiar no lado bom da natureza humana e organizar o mundo ao seu jeito. Porque inviáveis estas soluções, surgiu a teoria da dissuasão. 


Esta doutrina desanuviou, por algum tempo, tentou travar a corrida aos armamentos e falhou, não podendo ser tida como uma solução final, tendo aumentado o ritmo e a intensidade, com nove potências nucleares e outras à espera de oportunidade.


Como sabemos, já houve o lançamento de bombas atómicas. Hiroshima e Nagasaki não são páginas brilhantes da história da humanidade. São atos que nos envergonham e introduziram uma nova escala e dimensão dos conflitos humanos.


Elisabeth Anscombe (filósofa), sustentou que uma pessoa é responsável pelas consequências intencionais e não intencionais do seu ato quando previsíveis e evitáveis, pelo que, segundo ela, a autorização para o lançamento das bombas foi moralmente criminosa, censurando e condenando o presidente americano Harry Truman. 


Sucede que a maioria dos conflitos tem como origem um conflito de interesses, o que aumenta, no mundo real, o risco de um novo conflito nuclear de consequências mais suicidas, em que não haverá vencedores nem vencidos, sendo um genocídio (na melhor das hipóteses) ou o fim do mundo/humanidade (na pior previsão).   


O conflito bélico, uma vez iniciado, não é tido, para os realistas, como um ato falhado, em que a força da razão e do diálogo foi substituída pela razão da força, dado isto ser doutrina de pacifistas e de filósofos bem-pensantes, colocando-se contra a realidade da vida em sociedade.     


Para uns, a única esperança é o pacifismo, para outros, o equilíbrio das armas,  sobressaindo o dever de sobrevivência das espécies, incluindo a humana, havendo que esforçar-nos, na nossa imperfeição, por controlar ou influenciar a definição dos fins e meios para alcançar um rumo exequível entre a utopia e a realidade, sem esquecer que “a bomba atómica mudou tudo, exceto a natureza do homem” (Albert Einstein).


03.05.24
Joaquim M. M. Patrício

POEMA

AS CRIANÇAS DE GAZA
NO CENTRO DA PARTE MÍNIMA UM DEUS-BICICLETA
 


Que significado, que significado forma o mundo?

Que mensagem para além da aberração?

As asas malignas obcecadas pela não misericórdia

uivam

num voo negro

até ao fosso onde caberemos todos para uma outra sequência irreconhecível.

*

Só um deus-bicicleta

é desejo único das crianças de Gaza,

perfeita relação que conhecem entre tudo e tudo.

*

O redemoinho de escombros esconde ainda o corpo do menino que estrebuchava sob as pedras e sob o peso das terras lamacentas enquanto gritava esperançado:

«Tira isto da cabeça que eu saio sozinho. Tenho o mealheiro ao meu lado. Tenho 300 shekels para comprar uma bicicleta»

Às dores de o puxarem, chorava e ria este menino.

*

E pergunta-se:

que figura tem uma flor numa maca?

*


E quanto sentido exímio o dormir de uma criança.

*

E reza o rebanho dos pequeninos à náusea da sabedoria dos grandes:



Que venha ter connosco o regresso de meu pai. Que ele sabe o caminho e sabe que provavelmente nos perdemos. E ela, a nossa mãe, embora não nos diga nada há vários dias, está aqui. Conheço-a eu muito bem e ela a mim, tenho os meus irmãos todos comigo.

Não podes ajudar-me a encontrar alguém?

A figura não responde.

*

Bicicleta é o nome do amor que salva.

Bicicleta é um anjo de asas brancas.

Um deus-bicicleta é a única e enorme possibilidade.


Teresa Bracinha Vieira

PERANTE O HORROR, O SILÊNCIO DE DEUS

  


Actualmente, porque, com a televisão, temos acesso às imagens, talvez seja sobretudo perante os horrores das guerras que se pode ficar estarrecido perante o silêncio de Deus. São bombardeamentos que não deixam pedra sobre pedra, que matam indiscriminadamente homens, mulheres, crianças, e ficamos esmagados sobretudo pela dor, o clamor, as lágrimas, a desorientação das crianças inocentes. Onde está Deus?


Joseph Ratzinger, chamado aos 17 anos para o serviço militar do Reich, foi desertor e prisioneiro dos americanos. Já Papa Bento XVI, como já aqui escrevi,  esteve em Auschwitz e fez um discurso dramático e deveras emocionante: "Tomar a palavra neste lugar de horror, de crimes contra Deus e contra o ser humano sem precedentes na História, é quase impossível, e é particularmente difícil e deprimente para um cristão, para um Papa que procede da Alemanha. Num lugar como este faltam as palavras; no fundo, só há espaço para um atónito silêncio, um silêncio que é um grito interior para Deus: Porque te calaste? Porque quiseste tolerar tudo isto? Onde estava Deus nesses dias? Porque se calou?”


Perante o horror do mundo e todos os mortos e todas as vítimas — ah!, as vítimas inocentes —  e o aparente silêncio de Deus, percebemos a tentação do ateísmo. E até poderá tratar-se de um ateísmo moral, um ateísmo ad majorem Dei gloriam, para a maior glória de Deus, como se, perante o horror, a justificação de Deus fosse não existir. É-se ateu por causa de Deus, que é preciso recusar por causa da moral: um mundo com tanta dor, tantas injustiças, tanto sofrimento de inocentes, tanto cinismo brutal do poder, como pode ser criação de um Deus bom? Mas a quem recusa Deus assalta-o outra pergunta: se Deus não existe, donde vem o bem e a nossa revolta, desde a raiz de nós, contra o mal e a morte, clamando por justiça e salvação para as vítimas inocentes? Porque, sem Deus, afundamo-nos no nada e anula-se, em última análise, a própria diferença entre bem e mal. Por isso, segundo Jürgen Habermas, para mim o maior filósofo vivo, agnóstico, o que mais nos inquieta é “a irreversibilidade dos sofrimentos do passado — a injustiça contra as pessoas inocentes vítimas de maus tratos, aviltamento e assassinato — sem que o poder humano possa repará-los”, acrescentando:  “A esperança perdida da ressurreição” sente-se como um grande vazio.”


Há uma pergunta decisiva — para Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt, a que Habermas também está ligado, é mesmo “a pergunta fundamental de Filosofia” —: o que podem esperar as incontáveis vítimas inocentes da História? Quem lhes fará justiça? As vítimas inocentes clamam, e um grito sem fim, ensurdecedor, percorre a História. Há uma dívida incontável para com essas vítimas. Quem a pagará?


Max Horkheimer e Theodor Adorno, principais representantes da Escola Crítica, com quem Bento XVI entrou em diálogo na sua encíclica sobre a esperança, “Salvos em Esperança”, viveram filosoficamente a inconsolável “tristeza metafísica” da impossibilidade de fazer justiça às vítimas da História. De facto, mesmo supondo, no quadro do marxismo e da ideia do progresso moderno, que algum dia fosse possível a edificação de uma sociedade finalmente justa, transparente e reconciliada, ela não poderia ser feliz. A razão é simples: ou essa sociedade se lembrava de todas as vítimas do passado, que não participam dela, e então seria atravessada pela infelicidade, ou não se interessava por essas vítimas, e então não era humana, porque não solidária.


Adorno e Horkeimer exprimiram uma filosofia em tenaz: por um lado, não podiam acreditar num Deus justo e bom; por outro, há uma verdade da religião, apesar de todas as suas traições  no conluio com o poder e os vencedores: a religião “no bom sentido” é, segundo Horkheimer “o anelo inesgotável, sustentado contra a realidade fáctica, de que esta mude, que acabe o desterro e chegue a justiça”. Não se trata de um desejo egoísta, mas da esperança contrafáctica de que a realidade dominante da injustiça não tenha a última palavra. Daí, “o anelo do totalmente Outro”, o “anelo da justiça universal cumprida”, “a esperança de que a injustiça que atravessa a História não permaneça, não tenha a última palavra.”


Esta esperança tem de traduzir-se numa práxis solidária tal que, como disse de modo incisivo Kant, “a práxis tem de ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.” Nesta práxis, está implicado o pensamento do Absoluto, como exigência moral e como anelo de que o finito e o mundo da injustiça não sejam a ultimidade e o definitivo. Também neste sentido, Adorno escreveu que “o pensamento que não se decapita desemboca na Transcendência”. Neste domínio, a única filosofia legítima seria “o intento de contemplar todas as coisas como aparecem à luz da redenção”. A pergunta pela esperança truncada das vítimas, que acusam o mundo da história dos vencedores, obriga a pensar para lá dos limites da imanência, colocando a pergunta pelo Absoluto enquanto pergunta pela justiça universal.


No seu diálogo com a Escola Crítica de Frankfurt, Bento XVI reconheceu que a necessidade individual da realização plena e da imortalidade do amor já é “um motivo importante para crer que o ser humano está feito para a eternidade”, “mas só o reconhecimento de que a injustiça da História não pode de modo nenhum ter a última palavras” convence da necessidade da ressurreição dor mortos e da vida eterna. 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 de novembro de 2023

A VIDA DOS LIVROS

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  De 24 a 30 de abril de 2023

 

As notícias da guerra da Ucrânia sobre o património cultural
são motivo de grande preocupação.

 

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EFEITOS DEVASTADORES DA GUERRA

Cerca de 250 monumentos já foram ou completamente destruídos ou danificados desde o início da guerra, a 24 de fevereiro de 2022. Segundo a UNESCO, verificaram-se graves danos nos locais de valor cultural do país, correspondendo os prejuízos a estragos irreparáveis. A diretora-geral Audrey Azoulay, estima que serão necessários 6,3 mil milhões de euros para recuperar os valores culturais materiais afetados na Ucrânia se se considerarem os níveis de qualidade próximos dos que existiam antes do início do conflito. Nesse sentido, a diretora-geral manifestou disponibilidade da organização para ajudar as autoridades ucranianas a elaborar um plano de reconstrução nacional para o património cultural do Estado soberano que é a Ucrânia. Deve ficar claro que os objetivos essenciais da UNESCO se relacionam com a Cultura da Paz, que constitui um fator fundamental para a salvaguarda da Carta das Nações Unidas e das finalidades originais da organização, que permitam realizar progressos efetivos nos domínios da educação, da ciência, da cultura e da livre circulação de ideias. Trata-se de contribuir para o desenvolvimento económico e social das nações e para a realização de uma cultura centrada na dignidade humana, em especial nos países e regiões em dificuldades, lembrando em especial desde as situações extremas de guerra às da pobreza, fome e destruição. Se lembrarmos a fórmula do preâmbulo do Ato Constitutivo da UNESCO, temos em vista o objetivo da “prosperidade comum da humanidade”. A construção, a prevenção e a manutenção da paz, bem como a proteção dos direitos humanos, têm, assim, uma essencial componente cultural, que não pode ser menosprezada. Por isso, segundo os fundadores da UNESCO, a manutenção da paz deveria ser uma obrigação superior a todas as outras, à qual se deveria subordinar toda a sua ação. Daí a importância fundamental da cooperação internacional, da compreensão mútua entre as nações, da solidariedade humana, da educação orientada para a liberdade, a igualdade e a justiça, bem como da ciência centrada no saber e na experiência, no saber fazer e da cultura assente no respeito dos outros e das diferenças, no exemplo e no cuidado.

 

A UNESCO E A GUERRA

A Ucrânia conta atualmente com sete bens culturais e um natural, declarados como Património da Humanidade pela UNESCO. Todos estão diretamente ameaçados, devendo referir-se, como temos lembrado, a Catedral de Santa Sofia de Kiev, o conjunto de edificações monásticas e o Mosteiro de Petchersk, símbolos da Nova Constantinopla, de um valor cultural e espiritual incalculável (inscrito em 1990); bem como o conjunto e a malha urbana medieval do Centro Histórico de Lviv, além das construções barrocas da cidade (inscrito em 1998 e 2008); dezasseis Tserkvas de madeira na região dos Cárpatos, em territórios da Polónia e Ucrânia, templos da igreja ortodoxa tradicional (inscritos em 2013); o Arco Geodésico do astrónomo Friedrich Georg Wilhelm Struve (realizado entre 1816 e 1855), abrangendo dez países, desde o Báltico ao Mar Negro (inscrito em 2005); a Residência dos Metropolitas da Bucóvina e da Dalmácia em Tchernivtsi, junto da Roménia e da Moldávia, do arquiteto checo Josef Hlavka, reflexo da política de tolerância religiosa do Império Austro-húngaro (inscrito em 2011); a Cidade Antiga de Quersoneso na Crimeia, que corresponde aos restos da cidade fundada pelos gregos dóricos no século V a.C. no norte do Mar Negro, importante centro vinícola animado pelos povos grego, romano e bizantino com referências até ao século XV (inscrito em 2013), além do Centro Histórico de Odessa (inscrito com caráter de urgência em 2023); e, no domínio natural, as Florestas Primárias de faias dos Cárpatos, abrangendo 12 países (inscrito em 2007). No caso de Odessa, foi seguido um procedimento excecional, que permitiu a integração em janeiro de 2023 na lista da UNESCO, tendo a diretora geral afirmado: “Odessa, cidade livre, cidade-mundo, porto lendário que marcou o cinema, a literatura, as artes, passa a estar colocado sob a proteção reforçada da comunidade internacional”. Perante a situação de guerra, esta inscrição corresponde à determinação da UNESCO no sentido de garantir que a cidade, afetada por muitos distúrbios mundiais, seja preservada de novas destruições. Paralelamente ao processo de inscrição, a UNESCO pôs em prática medidas de urgência visando assegurar a reparação dos danos infligidos no Museu de Belas-Artes de Odessa e no Museu de Arte Moderna. A organização forneceu os equipamentos necessários para inventariação de cerca de mil obras e da coleção documental dos Arquivos de Estado de Odessa, além de material de proteção para as obras ao ar livre. Estas medidas fazem parte de uma ação global da UNESCO na Ucrânia que já mobilizou 18 milhões de dólares em favor da educação, cultura, ciência e comunicação. Recorde-se que a Ucrânia é membro do Conselho da Europa e é signatária da Convenção-Quadro sobre o valor do Património Cultural para a sociedade contemporânea, assinada em Faro em 2005, entrada em vigor em junho de 2011. A Ucrânia assinou a Convenção em outubro de 2007, tendo sido a mesma ratificada em janeiro de 2014 e entrado em vigor em maio de 2014.

 

PATRIMÓNIO EM PERIGO

Considerando o património em perigo ou parcialmente afetado, refira-se o Centro Histórico de Chernigov, perto de Kiev e a Catedral da Transfiguração do século XI. Há a lamentar a destruição confirmada e irreversível do museu de Ivankiv, a noroeste de Kiev, com 25 obras da Maria Prymachenko (1908-1997), artista popular ucraniana, admirada por Pablo Picasso. Algumas obras deste acervo foram salvas por um cidadão local, com risco da própria vida. Representantes da UNESCO e autoridades ucranianas decidiram colocar Escudos Azuis nos bens ameaçados na zona do conflito, segundo a Convenção para a Proteção dos Bens Culturais em Caso de Conflito Armado, assinada na Haia (1954). O Comité Internacional do Escudo Azul (Blue Shield ou Bouclier Bleu) foi fundado em 1996 pelo ICOM, ICOMOS, Conselho Internacional dos Arquivos e Federação Internacional dos Bibliotecários, com o fim de assegurar a proteção do património cultural ameaçado por guerras e catástrofes naturais. Invocar a situação dramática em que nos encontramos na Europa, num momento de guerra, de total incerteza, que podemos designar, como faz o Papa Francisco, como uma terceira guerra mundial em pedaços, significa pôr sobre a mesa os valores éticos que chamem a cultura, a arte e a humanidade à ordem do dia enquanto memória e património cultural como realidades vivas. Há demasiada indiferença, muito egoísmo e esquecimento. Precisamos de estabelecer comunicações entre os seres humanos, uma circulação de culturas e a possibilidade de imaginar, ou seja, de ver longe e largo, em nome da paz.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença