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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de abril de 2019

 

A leitura da última obra de António Carlos Cortez, Voltar a Ler – Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios) (Gradiva, 2019), permite-nos tomar contacto com um conjunto polifacetado de textos, com uma sólida complementaridade e uma coerência que merecem ser elogiadas.

 


A IMPORTÂNCIA DA LEITURA E DA LITERATURA
Alguém que já se afirmou como poeta, surge neste livro, essencialmente, como crítico, como pedagogo e como cidadão preocupado com a vida cultural. Tive o grande gosto de participar na apresentação pública do livro, com o autor, Lídia Jorge e Isabel Soares, e pudemos partilhar em análises sucintas o sentido crítico e pedagógico que António Carlos Cortez empresta aos textos que agora reúne, produzidos em colóquios, jornais e revistas, e que, em boa hora, vêm a lume num tomo que é mais do que uma reunião de participações avulsas, já que nos revela não só uma panóplia de diversos autores relevantes do nosso panorama literário, mas também uma análise crítica sobre o reconhecimento da importância da leitura e da literatura no tempo atual. Dir-se-ia, assim, que o “voltar a ler” tem um triplo significado: como releitura de textos publicados pelo autor ao longo do tempo; como apelo à reflexão e ao tempo da crítica, num momento tão dado à superficialidade e ao imediatismo; e como uma séria invetiva contra a mediocridade e contra o esquecimento e a indiferença relativamente ao livro e à leitura. Começando por falar-nos da urgência da literatura, António Carlos Cortez divide o livro em três partes: sobre os ensaístas, sobre voltar a ler (a propósito de poetas portugueses modernos e contemporâneos) e sobre educação e cultura. Estamos perante um rol muito rico, em que os ensaístas e os poetas nos levam a compreender o que António Ramos Rosa nos ensina; “a significação de um poema especificamente moderno depende tanto dele como de nós e que é precisamente desta colaboração profunda entre criador e leitor que uma significação pode surgir e atualizar-se”. E quando se fala do poema, podemos facilmente chegar ao ensaio, que participa da mesma força criadora e do mesmo sentido crítico relativamente à urgência da literatura. De facto, “um crítico literário ‘tem de ser um homem total, um homem de convicções e de princípios, e com conhecimento e experiência de vida’, diz-nos T.S. Eliot (…) e é por se falar de literatura e, transversalmente, de Humanismo ou de valor das Humanidades, que estes textos podem ser lidos como partilha dessas convicções e princípios, propondo ao leitor uma espécie de pacto ou de aperto de mão que define a própria relação entre quem lê e aquele que é lido”.

 

TEMAS E AUTORES
Texto a texto, encontramos referências de memória e de vida, num permanente apelo aos textos e aos seus ritmos: Antero de Quental, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mário Dionísio, Sophia de Mello Breyner, David Mourão-Ferreira, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade… Mas chegamos ainda a Fernando Echevarría, Fernando Guimarães, Ruy Belo, Herberto Helder, João Rui de Sousa, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Armando Silva Carvalho, Manuel António Pina. E ainda encontramos naturalmente, como numa encruzilhada luminosa da República das Letras: Camões, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Cleonice Berardinelli, Manuel Gusmão, Fernando Cabral Martins, Richard Zenith ou Paula Morão… E sente-se a cada passo a lição de Jacinto do Prado Coelho ou de Jorge de Sena, expressa por Fernando J.B. Martinho: “um dado acontecimento literário na diacronia da nossa historicidade tem sempre de ser compreendido à luz de um quadro mais vivo de marcos e referências”. O poeta e o ensaísta não estão sós, o mundo e a vida alimentam-nos, o que permite entender a pergunta bem presente na torre de Montaigne: Que sais-je? Uma pergunta, mais do que respostas - é esse quadro vivo que o autor procura desvendar, não a partir de elucubrações fantasiosas, mas sim segundo uma compreensão rigorosa dos textos. Que é a crítica senão o respeito escrupuloso pelo dito e pelo escrito? Afinal, qual é a melhor pedagogia das humanidades senão o apelo à leitura direta dos originais sem a falsificação dos intermediários ou dos resumistas… E chegamos à necessária pedagogia. Vítor Manuel de Aguiar e Silva ensina-nos que “é o texto poético que deve concentrar a relação ensino-aprendizagem nas aulas de língua materna, dando às crianças e jovens a memória histórica que lhes falta”. Não é preciso dizer muito mais, sendo que, no entanto, aqui está dito o que é mais difícil na função motivadora do mestre em humanidades. Não se trata de fechar a literatura sobre si mesma ou sobre simplificações, mas de abrir horizontes para vários saberes – entendendo o que Eliot dizia sobre o conhecimento perdido na informação, e a sabedoria perdida no conhecimento. Sophia insistia que não podemos distinguir as redondilhas de um alexandrino se não entendermos o movimento e o número, a arte e a ciência. Eduardo Lourenço, fio de Ariadne vigilante, afirma-nos por isso que “a poesia é a realidade enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus”. E não se trata de um jogo de palavras, mas da compreensão exata de que só a visão crítica dos mitos nos permite perceber a relação entre vida e destino. E o poético “é o inefável que procura concretizar-se pela ação artística, espelho da História”. Daí a tentativa de Lourenço para construir “a dialética mítica da poesia moderna portuguesa”, subjacente à psicanálise do destino português. E assim a “Mensagem” de Pessoa passou a ter de ser lida de outro modo, como um Espelho mágico decifrador de estranhos enigmas…

 

LER E VOLTAR A LER
E eis-nos chegados a Antero de Quental, supremo interrogador dos nossos enigmas. Pode dizer-se que em Voltar a Ler a referência central pode ser esta carta do genial poeta a Jaime Magalhães de Lima: “A natureza tinha-me talhado para romântico descabelado, pessimista, satânico, que sei eu? Mas tinha-me dado, ao mesmo tempo, por singular contradição, razão e sentimento moral para muito mais e melhor. Daí o conflito, a guerra civil, a luta interior. Essa luta foi a minha vida, e é o que explica a aparente singularidade (que reconheço ser grande) e a esterilidade dela. O que venceu em mim foi a razão e o sentimento moral; mas a imaginação e a paixão, embora vencidas, não se submeteram. Ora não é essa a razão, mas a imaginação e a paixão que fazem o poeta (…) os últimos vinte sonetos do meu livrinho são uma coisa nova, a nota cristalina duma poesia nova, de verdadeira poesia (ouso dizê-lo) do futuro”. O percurso biográfico, o caminho do poeta confirma como a literatura é chave da arte de aprender. De facto, a poesia concilia palavra e pensamento, sendo para Antero (com a sua tragédia) “a possibilidade de viver” uma “partícula de pó das estrelas num paraíso perdido que só a Poesia, suprema arte pode tornar real”… Eis por que razão António Carlos Cortez tem razão no apelo fundamental que faz: “Discutindo-se o lugar do livro na escola, raramente se diz o que muitos sabem: a única estratégia de combate contra a ‘nova ignorância’ (no fundo velha, se virmos bem…) passa por trazer de novo o livro para a Escola e a Universidade…”   

 


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de abril de 2019

 


«Há Laranjeiras em Atenas»
de Leonor Xavier (Temas e Debates, Circulo de Leitores, 2019) reúne um conjunto diversificado de textos, a um tempo divertidos e sérios, livro de memórias e de viagens, de anotações e comentários…

 

 

DELICIOSO PORMENOR
O gosto e a surpresa têm a ver com pequenos pormenores, mas absolutamente marcantes. “Ah, há laranjeiras nas ruas de Atenas. De tronco alto e copa redonda, a cor de laranja a animar-lhes os frutos, talvez secos por dentro e exuberantes por fora, e afirmar a vida, mais ainda em tempo de tantas outras e desvairadas vidas perdidas, na desgraça destes nossos tempos”. Onde está a surpresa? Qual a chave deste delicioso pormenor? “A cabeça da gente é movimentada, o corpo e a alma andam por ela, feitos um só. E generosa é a nossa língua portuguesa no jeito de dizer”. É que em grego, como em diversas línguas do Mediterrâneo oriental, laranja diz-se “portokali”, exatamente porque os portugueses foram os primeiros a trazer no século XVI as laranjas doces da longínqua China… Leonor Xavier surpreende-nos com este pequeno texto e com o título, para nos levar àquilo que recorda sobre David Mourão-Ferreira, criador da palavra “escreviver”, que vamos encontrando, a cada passo, neste pequeno livro, onde encontramos desde reflexões espirituais a deliciosas receitas culinárias. E Leonor diz-nos “pois eu assim me sinto, a saborear a invenção e o conceito, a relembrar o meu entusiasmo exclamado em face das laranjeiras de maio em Atenas que agora vejo transformadas em livro”. Na dimensão memorialista, encontro um amigo comum, que tanta saudade nos deixa. Falo de António Alçada Baptista de quem a autora diz: “no Brasil ele renascia, como se uma outra metade de si tivesse de descobrir. (…) Assim lhe conheci a leveza do espírito, a graça e o humor, a fluência, a habilidade na picardia, o sucesso com as mulheres. O entendimento de um mundo oposto aos rigores europeus da sua matriz intelectual. Dizia que a ida dos portugueses ao Brasil deveria ser gratuita e obrigatória”. E com que gosto, Leonor nos faz reencontrar velhos e bons amigos…

 

A PAISAGEM AO MEU LADO… 
Estamos perante um livro pleno de pessoas vivas, próximas, de carne e osso e espírito aberto… Teresa Belo – a sua alegria “era boa de sentir, contagiava o jeito que tinha no claro saber que fazia das complicações simplicidade”. E Ruy Belo, a caminho da Arrábida diz: “A paisagem está ao meu lado”. Em pano de fundo estão os versos ditos por David, as sequências gregas do padre Manuel Antunes e as “viagens de estudo e criatividade” com Lindley Cintra, a ler poemas de Sebastião da Gama ou trechos de Fernão Lopes, na “glória das palavras pronunciadas”. Ana Vicente “era a expressão de fé que conheci nos seus gestos, no seu recolhimento em modo de espiritualidade pura”. Jorge Salavisa ensinava que “o meu refúgio é a minha casa (…) As casas para mim têm de ser arrumadas, limpas…”. A amizade de Marci Dória era um sinal de serena devoção. Jorge Amado está presente com a sua filha Paloma numa história comovente. Outro amigo comum, Eduardo Prado Coelho, é recordado, e é sobre ele que uma das netas de Leonor invoca Malala: “houve uma altura em que as mulheres ativistas pediam aos homens para defender os seus direitos e lutar por elas. Agora fazemo-lo nós próprias”… A propósito de uma das pontes Lisboa-Porto do CNC, sobre Álvaro Siza Vieira, é lembrada com grande afeição a capacidade fantástica da Helena Vaz da Silva para fazer da cultura uma realidade viva. Carlos Drummond de Andrade resume o Rio de Janeiro: “amanhece como em qualquer lugar do mundo. Mas parece que as coisas se amaram durante a noite”. E Nélida Piñon lembra que “a morte é simplesmente deixar a sopa esfriar na mesa, cruzar a porta do jardim sem olhar para trás para dizer adeus a quem fica a tomar um caminho que não sabe por onde o leva e do qual nunca mais se retorna”. Ou João Cabral, na magistral “Morte e Vida Severina”, pergunta: “E foi morrida essa morte, irmãos das almas, essa morte foi morrida ou matada?”. E vem à memória Agostinho da Silva – “o Mestre não desistia de sonhar. Propunha e desejava espaços livres e convívio, debate, reflexão sobre as questões mais urgentes, para o entendimento dos caminhos da sociedade”… As memórias multiplicam-se. Quantos amigos, familiares, próximos e distantes… Nas agendas, porém, vamos aumentando o número dos que faltam, e a quem gostaríamos agora de falar, apenas para dizer que existimos. Mas Leonor Xavier não esquece ainda, a propósito de um livro inolvidável de Onjaki, os transparentes – “os outros, aqueles que em total anonimato se movem nas cidades. Os outros, que quase sempre são tratados como objetos, os fornecedores, os funcionários, as vendedoras das lojas, os que contam água e luz, os da máquina registadora, os carregadores de móveis, os que entram e saem do metro, os que esperam na paragem de autocarro…”.

 

MEMÓRIAS NECESSÁRIAS
Mas a obra multiplica-se em referências. Num exercício espiritual, Leonor lembra, ilustrando um tempo não muito distante: “a Igreja que conheci era austera, imponente, intolerante, radical, ausente presença da palavra de Jesus na prática dos dias. Os rituais eram demorados, as homilias longas, ameaçadoras e declamadas, os adereços aparatosos, os paramentos adornados de damascos, rendas, brocados”. E invoca-se, o espírito do Concílio Vaticano II que se foi afirmando, força da pura sabedoria expressa na abertura de espírito do padre Manuel Antunes, entre o génio grego e o génio romano, na manifestação do sentimento místico, da expressão da arte, da espiritualidade e do encontro ente fé e razão. E não se esquecem as lições de História do Cristianismo do padre Honorato Rosa. Chegada ao Brasil da autora, fervilham a teologia da libertação e a sua crítica, há tensão, crítica serena. E depois desse tempo, invoca-se Frei Bento Domingues, lembra-se o padre José Tolentino Mendonça, na missa de Hermínio Monteiro e a sua dedicatória na tese de doutoramento, sobre a mulher pecadora no Evangelho de Lucas – “A todos os que, um dia, choraram aos pés de Jesus”. E entre mil papelinhos a autora descobre esta frase do Papa Francisco: “o mal espelha-se onde faltam cristãos audazes”… De facto, como disse Cervantes, a estrada tem mais a ensinar-nos do que a estalagem. E esta ideia está subjacente ao livro, onde é evidente um diálogo intensíssimo entre a audácia do ser e a permanência do ficar. Daí a epígrafe de Agustina: “a grandeza do mundo não me tolhe, porque maior que tudo é a realidade de um coração que ama e sente”. E Jorge Martins lembra que uma obra de arte “é uma busca que pode ser mística ou artística”, é uma viagem, uma aventura de descoberta – e mesmo que saibamos onde queremos ir, às vezes não conseguimos chegar lá.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de abril de 2019

 

 

Em L’Invention de la Liberté (Skira, 1964) de Jean Strobinski (1920-2019) estamos perante uma obra-prima do pensamento europeu, onde acompanhamos um rico diálogo entre as ideias e a arte, de modo a compreendermos a afirmação do valor da liberdade.

 

 

 

A FORÇA DAS IDEIAS
O historiador das ideias, teórico da literatura, escritor e médico suíço Jean Straobinski, uma das grandes referências do nosso tempo, morreu no início de março, deixando uma obra singularíssima, centrada na procura de um humanismo para a contemporaneidade. Filho de médicos judeus de origem polaca, que se fixaram na Suíça em 1913, foi discípulo da escola experimental de Edouard Claparède (1873-1940), em cujos ensinamentos se inspirou Jean Piaget (1896-1980). Apesar de plenamente integrado na sociedade genebrina, Starobinski naturalizou-se suíço só em 1948, casando-se 1954 com a médica Jacqueline Sirman. Perante o receio de seus pais sobre o futuro de uma formação literária, obtém dois doutoramentos – que lhe permitem ser assistente da Faculdade de Letras da Universidade de Genebra e depois interno de clínica terapêutica no hospital cantonal. A Medicina e a Literatura vão completar-se na sua vida, em condições diferentes. É professor nos Estados Unidos, na Universidade Johns Hopkins (Baltimore, Maryland) e depois interno do Hospital Psiquiátrico de Cery (Lausanne). No final dos anos cinquenta, fixa-se na docência de História das Ideias, na Faculdade de Letras da Universidade de Genebra (1958-1985), prolongando a sua ação pedagógica no Collège de France (Paris) e depois na Escola Politécnica federal de Zurique. Estuda a vida e obra de Montaigne, Montesquieu, Rousseau, Diderot e Stendhal. Mas também o atrai o Kafka de A Colónia Penitenciária. Hölderlin, Rilke e Musil são motivos especiais de reflexão literária. Investiga, no domínio médico, a depressão e a melancolia – escrevendo Encre de la mélancolie (2012), onde procura o encontro entre literatura e melancolia, construindo o seu pensamento no jogo entre polos contrários: o mal e o remédio, a ação e a reação, a transparência e o obstáculo, a natureza e a técnica, a presença e a ausência (afirmando que “a melancolia é fundamentalmente a ausência”). Sobre Rousseau, preocupa-se com a tensão que nele encontra entre perseguição e melancolia, mas o ensaísta procura aprofundar as razões que levam a essa complementaridade. Albert Béguin e Marcel Raymond são seus mestres na crítica literária.

 

OBRA-PRIMA DO PENSAMENTO EUROPEU
No belo livro, intitulado L’Invention de la Liberté (Skira, 1964), obra-prima do pensamento europeu, afirma que “o homem esclarecido, reivindicando o direito de contradizer todas as autoridades, adquire um sentimento de oposição pelo qual sabe também tornar-se o seu próprio contraditor: às suas tentações, às suas fórmulas favoritas, o século traz a crítica, por vezes com a vontade resoluta de tentar a experiência do contrário”. Assim, enquanto René Descartes sustenta que a alma sempre pensa, a partir de ideias inatas, Locke afirma que a alma apenas tem ideias que resultam das suas sensações, não podendo haver pensamento se não for a partir dos materiais fornecidos pela experiência sensível. A alma só tem consciência de existir no instante em que sente. A reflexão segue sempre os traços deixados pelas sensações… É perante esta tomada de consciência, que encontramos o caminho que permitirá afirmar a liberdade. E esta exige um sistema social no qual a exigência de ordem seja compatível com a liberdade. Mas para que a contradição não exista, é fundamental que haja uma nova arte social. E a arte significa todo o método que tende a aperfeiçoar um dado natural de modo a introduzir mais ordem, mais acordo e mais utilidade. Assim a independência natural tem se tornar liberdade civil, conciliando a segurança individual e a autoridade do Estado e dando o legislador o exemplo da arte suprema.

 

EQUILÍBRIO ENTRE RAZÃO E SENTIMENTO
A razão esclarecida de Locke e Montesquieu garante, assim, uma composição de forças que permite equilibrar o poder do príncipe (que tende espontaneamente para a tirania) e os apetites dos particulares (que se entrelaçam de modo anárquico)… E se a Inglaterra, na sequência da Gloriosa Revolução de 1688 pôde assegurar a liberdade civil graças à separação de poderes, os Estados Unidos reuniram os colonos, através da capacidade que tiveram de respeitarem a tolerância e a moderação através do federalismo. Eis por que razão “a invenção da liberdade” deve ser vista a partir da evolução da arte do século XVIII, como a evolução da compreensão do sentido crítico, da liberdade individual e da complementaridade entre razão e sentimento. Submetido às suas sensações, detentor da razão e da sua vontade, o homem pôde inventar novas imagens e novos mitos para atestar a conquista exigente da liberdade. E assim a filosofia relaciona-se com a mitologia do prazer, a partir da jurisdição do sentimento, a inquietude dá importância à festa, ao divertimento, à sátira e ao espetáculo, a imitação da natureza obriga à articulação entre a vida, o sentido crítico e o conhecimento, bem como abre-se campo às nostalgias e às utopias, enquanto idílio impossível, melancolia das ruínas, sonhos da razão e prazer de ver. Leibniz define o ato estético como uma vontade confusa, graças à qual os espíritos são capazes de “produzir qualquer coisa que se assemelha as obras de Deus mas em pequeno”. Enquanto Diderot coloca-nos perante a contemplação do tempo: “As ideias que as ruínas despertam em mim são grandes. Tudo se menoriza, tudo perece, tudo passa. Só há o mundo que fica. Só o tempo dura. Como é velho este mundo!”. “A imagem idílica e ‘mística’ da idade média, elaborada em certos meios (desabrochando no Génio do Cristianismo de Chateaubriand) tende a transferir para o passado nacional e para a fé cristã os valores de plenitude que a tradição humanista tinha inscrito no quadro pagão”… E nesta nostalgia, a liberdade torna-se múltipla e dependente do querer. Mas “querer é prever, ver o que ainda não existe, através do que existe. Mas quando triunfa o estilo da vontade, as coisas tornam-se meios e deixam de ser amadas por elas mesmas” – como no quadro de Guardi sobre o efémero balão que é lançado... Mestre de um humanismo de horizontes largos, Starobinski aliou a antropologia, a teologia e a música, além da literatura e da medicina, interrogando tudo o que representa presença no mundo, daí a sua paixão por ver sempre mais longe e mais profundamente – até por considerar, partindo de Diderot, não ser “admissível considerar a pessoa humana como um meio: ela é um fim, na sua existência, na sua singularidade e na diferença reconhecida”. Daí a importância dos imperativos morais. A noção de próximo e a exigência de respeito pelos outros não são produtos da ciência, daí necessitarmos de encontrar limites para os respetivos abusos. A capacidade de compreender torna-se, deste modo, essencial: “o crítico é aquele que, conservando a fascinação que o texto lhe impõe, entende no entanto, preservar o direito de ver”. E que é o humanismo senão “a atenção prioritária dada à experiência humana na sua diversidade e nas suas contradições” ou “o desejo de encontrar sentido para o que acontece à nossa volta”.

 

 
Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 25 a 31 de março de 2019

 

 

«Retrotopia» de Zygmunt Bauman (Premier Parallèle, 2019) acaba de sair em Paris e constitui como que um testamento do grande pensador que lançou a noção de “sociedade líquida”, para significar o mundo contemporâneo instável, atomizado e imediatista…

 

 

ELOS FRÁGEIS E PASSAGEIROS
Ao assistirmos ao enfraquecimento dos elos sociais, da coesão social e da regulação, presenciamos uma guerra anónima de todos contra todos, na qual prevalece o medo, a desconfiança e a indiferença. Se fomos formados como indivíduos competitivos, na sociedade, na escola, no trabalho, partimos do pressuposto que podemos ser autossuficientes e somos levados, mais tarde ou mais cedo, a perceber a nossa impotência perante a complexidade dos desafios que nos são lançados. Estamos perante a hipervalorização da singularidade e a tentação de negarmos a relação com os outros e com a diferença. E Bauman, nesta obra derradeira, lembra que “o que ainda designamos como ‘progresso’, por inércia, evoca emoções que estão nos antípodas das que Kant, que inventou o conceito, considerava”. A maior parte das vezes, falar de progresso significa o medo de uma catástrofe iminente. E o pensador recorda o célebre texto de Walter Benjamin sobre o “Angelus Novus” de Paul Klee: “A face do Anjo da História está voltada para o passado. Onde nós percebíamos uma cadeia de eventos, ele vê uma catástrofe única que continua empilhando destroços e atirando-os para diante dos seus pés. O anjo gostaria de ficar, acordar os mortos, e tornar inteiro o que foi esmagado. Mas uma tempestade está soprando do paraíso; o anjo ficou preso em suas asas com tal violência que não pode mais fechá-las. Essa tempestade empurra-o irresistivelmente para o futuro, para o qual ele dá as costas, enquanto os escombros crescem, diante dele, rumo ao céu. A tempestade é o que chamamos progresso.” E pergunta-se: quantas ocupações e empregos irão desaparecer, como iremos sobreviver? Até que ponto os robôs não ocuparão os espaços da humanidade? Enquanto as utopias, como a de Thomas Morus, procuravam no futuro uma sociedade melhor, uma retrotopia busca o bem-estar individual centrado numa visão retrospetiva. E o certo é que as sociedades de hoje tendem a organizar-se, em primeiro lugar, contra o que as ameaça, designadamente os migrantes e os imigrados – para defender a sua política e a sua cultura local, como tem salientado Michael Walzer. E assim nasce a ideia perigosa de construir um pequeno Estado, limpo de todos os estrangeiros e todas as diferenças, baseado numa utopia às avessas, num passado de pureza, que nunca existiu, supostamente protegido de qualquer importuna proximidade de quem chega e é diferente. Estamos perante o efeito de uma desigualdade desregulada, que se agrava. Quem se sente ameaçado procura reforçar o seu conforto. E há um certo regresso ao tribalismo, que leva ao paradoxo dos muros que se elevam, enquanto as fronteiras tendem a desaparecer. A proteção e a compaixão, mais do que o ódio e a divisão, reportam-se aos mais próximos, enquanto os outros devem ficar à distância. A proteção social deveria assim ser reservada aos nossos, mais do que aos outros. No fundo, uma visão protecionista parece prevalecer - por exemplo, quem chega de fora não tem lugar, ocupa não-lugares.

 

UM LUGAR “SEM LUGAR”…
“O mundo que é o nosso não lhes reserva qualquer lugar, mas eles ocupam provisoriamente o coração dos nossos bairros”. Encontrar-se perante essas pessoas “sem-lugar” significa tomar contacto direto com realidades inesperadas, de efeitos secundários indesejáveis. Um lugar que era conhecido, torna-se inesperadamente desconhecido, e daí a tentação de fechar as fronteiras desse território antigo, para recuperar a situação anteriormente conhecida, ignorando que são as novas circunstâncias responsáveis pela situação agora vivida. Trata-se de procurar viver a ilusão de manter distante uma realidade que existe e que não podemos ignorar. Entretanto as desigualdades agravam-se. Na viragem para o atual século, o valor acrescentado gerado pelo crescimento económico reverteu basicamente para os mais ricos, enquanto a restante população viu a riqueza escapar-se-lhe – o que se agravou com a crise financeira de 2007-2008. Os números são esclarecedores e preocupantes: a metade da população mundial com menos rendimentos (3,5 mil milhões de pessoas) detém apenas 1% da riqueza mundial total, ou seja, exatamente o mesmo que é detido pelas 85 pessoas mais ricas do planeta… Z. Bauman fala-nos de dois tipos de injustiças sentidas pelas populações: as habituais, há muito consideradas e de algum modo aceites; e as novas, cuja proporção aumentou significativamente, as quais sendo porventura de injustiça inferior às outras, assumem um carácter mais chocante pela novidade, podendo dar lugar à revolta… De facto, na Idade Média não foram as injustiças mais chocantes, como o não pagamento de remuneração, que levaram à rebelião dos servos, mas o facto de os terra-tenentes terem exigido mais do que anteriormente. Assim, o momento presente, suscita preocupações e perplexidades que poderão gerar tensões sociais com consequências imprevisíveis.

 

COMO ENCARAR A REALIDADE PRESENTE?
O autor de “Retrotopia” refere, assim, uma consciência cosmopolítica, que abre as portas à união e à cooperação. Em vez da procura de um inimigo ou da divisão entre “nós e eles”, o desafio do nosso tempo consiste em conceber, pela primeira vez na história da humanidade uma ideia que não se apoie na lógica da separação. Nós habitantes humanos da terra vivemos uma situação perfeitamente clara, na qual somos obrigados a optar entre duas alternativas – a cooperação à escala planetária ou as valas comuns… Como a sociedade líquida, a retrotopia não representa, porém, solução para o futuro. Olhem-se os problemas mais graves com que nos debatemos: a defesa do primado da lei; os fenómenos migratórios; a qualidade da democracia; a cultura da paz; o combate ao aquecimento global; a proteção do meio ambiente; o desenvolvimento sustentável; a cooperação contra a pobreza; a equidade intergeracional; a ciber-segurança; a evolução do mundo digital e a preservação da diversidade cultural – eis o que se impõe, em lugar de planos rígidos ou soluções baseadas na inércia, uma estratégia baseada, em instituições que favoreçam a representação, a participação e a mediação centradas numa cidadania livre, responsável e ativa. Trata-se, no fundo, de fortalecer os elos da sociedade, a coesão social e a regulação, a sustentabilidade e a justiça, superando a guerra anónima de todos contra todos, privilegiando o respeito mútuo, a confiança e a responsabilidade. Mais que “indivíduos competitivos” precisamos de cidadãos ativos, na sociedade, na escola, no trabalho, não autossuficientes, mas solidários e cooperativos, capazes de ligar o mérito e a justiça, a atenção e o cuidado, a experiência e o exemplo, a aprendizagem, o conhecimento e a sabedoria, a clareza e a complexidade. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de março de 2019

 

Este ano, as “Correntes d’Escritas”, na Póvoa de Varzim, partiram de versos e frases de Sophia de Mello Breyner, nomeadamente, para três conversas, esta: “a cultura é cara. A incultura acaba por sair mais cara. E a demagogia custa sempre caríssimo”.

 

 

O VALOR INCOMENSURÁVEL DA CULTURA
O tema deu pano para mangas, e permitiu glosas diversas para o mesmo mote. Naturalmente, que havia que lembrar a primeira lição de economia, que muita gente esquece. De facto, o que tem mais valor é o que não tem preço. Isto significa que se queremos compreender as relações humanas e sociais, somos obrigados a entender a dificuldade das escolhas que somos obrigados a fazer. O mercantilismo cego tem levado a cairmos nas armadilhas do imediatismo e do curto prazo. Por isso, Sophia dizia, como se estivesse a ver o que a cada passo nos circunda, que a demagogia custa sempre caríssimo. Se é verdade que nem tudo o que reluz é ouro, o certo é que a corrida atrás do que é fácil e imediato só leva a exacerbar egoísmos e consumismos, numa corrida desenfreada para a destruição do que melhor recebemos por parte das gerações que nos antecederam. E regresso ao velho tema da exigência de não deixar ao abandono o património cultural em todas as suas vertentes.

 

DO QUE FALAMOS? 
De que cultura falamos? Da arte, onde tudo começa, já que a educação da criança se inicia pelos sentidos e pela admiração, curiosidade e espanto por tudo o que é belo, seguindo a maravilha dos números, que nos permitem unir e distinguir, e continuando na magia das letras e das palavras. Voltando à poeta de “Mar Novo”: “A Arte deve ser livre, porque o ato de criação é em si um ato de liberdade. Mas não é só a liberdade individual do artista que importa. Sabemos que quando a Arte não é livre, o povo também não é livre. Há sempre uma profunda e estrutural unidade da liberdade. Onde o artista começa a não ser livre o povo começa a ser colonizado e a justiça torna-se parcial, unidimensional e abstrata. Se o ataque à liberdade me preocupa tanto é porque a falta de liberdade cultural é um sintoma que significa sempre opressão de um povo inteiro”. Eis o que está em causa. A liberdade corresponde a uma dimensão pessoal e comunitária. Lembro-me bem de Sophia a invocar estas duas palavras, do mesmo modo que Francisco de Sousa Tavares demarcando-se dos entendimentos totalitários que partiam da lógica transpersonalista. Em tantos debates no Centro Nacional de Cultura essa questão tornou-se pedra de toque. Liberdade e diferença, igualdade e responsabilidade – eis o que obrigava a partirmos para uma democracia de pessoas, como nos ensinaram na sala histórica da António Maria Cardoso: Gabriel Marcel, José Bergamín, Schillebeeckx, Padre Manuel Antunes, Maria de Lourdes Belchior, Almada Negreiros, Fernando Amado, Gonçalo Ribeiro Telles… Todos por lá passaram, militantemente. E a liberdade era defendida na encruzilhada da raiz e da utopia – ou como queria Bergamin, na capa da sua revista “Cruz y Raya” como mais e menos. Só poderemos ser livres, se a justiça não for parcial, unidimensional e abstrata. Daí esses dois sinais gráficos da adição e da subtração. Que é a cultura senão essa capacidade de distinguir o que acrescenta e o que diminui. A vida é isso mesmo. E a criação cultural corresponde à aproximação das pessoas concretas – numa relação que tem de ser estabelecida olhos nos olhos… Os criadores são pessoas de carne e osso que partilham a sua capacidade de fazer da arte um valor para todos. Como ainda dizia Sophia: “Existe uma arte para todos à qual o povo deve ter acesso porque esse acesso lhe deve ser possibilitado através dos meios de comunicação social”. Os aedos cantaram nos palácios, os rapsodos nas praças públicas, e com Homero, a arte foi posta em comum – e por isso os gregos inventaram a democracia. E que é a Arte? Um dom pelo qual acrescentamos valor ao que a natureza nos faculta. Como diz Eduardo Lourenço, “o sentido real da cultura é a produção de coisas valiosas e de valores”. Quando pomos em diálogo os poetas, os escritores, os pintores, os escultores, os músicos, os artesãos, os atores, os dramaturgos, os cientistas – é o mundo e a natureza que pomos a falar.

 

A QUE PREÇO?
A cultura é cara? Sim, porque corresponde ao que tem mais valor. Àquilo que não cabe nos cânones do mercado. E falamos de uma noção ampla e rica, a cultura que não pode ser deixada ao abandono. Não é mercadoria, do mesmo modo que a educação e a ciência o não são. Por isso, estamos perante um investimento reprodutivo, transversal e abrangente. Os públicos da cultura formam-se nas escolas. A criatividade do artista e do cientista, do músico ou do artesão têm raízes comuns. Falamos das identidades como realidades dinâmicas, diversas e abertas. Falamos de fundamentos e raízes que temos de enriquecer permanentemente. Falamos de pessoas, de hábitos e costumes, de pedras vivas, mas também de monumentos, de vestígios arqueológicos, de pedras mortas, que têm significado para o nosso ser. E falamos do património genético e do digital, do genoma e da inteligência artificial, bem como da natureza e da paisagem, e igualmente da capacidade criadora de hoje e de sempre. É este o sentido comunitário que foi bandeira cívica de Sophia e de Gonçalo Ribeiro Telles, num combate sem tréguas contra a ilusão e a indiferença. Que são Humanidades? Nunca domínios fechados, mas diálogo vivo de saberes. Lembramo-nos do trivium e do quadrivium medievais. Lá está tudo o que importa, e sobretudo os horizontes abertos: a Gramática, a Lógica e a Retórica, e ainda a Aritmética, a Geometria, a Astronomia e a Música. E como não lembrar a fantástica figura de Leibniz? Não há melhor cultor das Humanidades. Foi filósofo, matemático, escritor, historiador, cientista, figura máxima de todas as artes liberais. Eis por que razão ao falar de cultura, não falamos de uma tribo fechada sobre si. Falamos de educação, de ciência, de comunicação, de artes. E ao falar de educação, referimos o fator essencial de desenvolvimento humano - que é a aprendizagem. Luísa Dacosta insistia na ideia de que a educação é sempre uma troca, desde tenra idade… E esta leva-nos ao exemplo e à experiência. Cultivar a pergunta e a capacidade de ver o que nos rodeia e saber responder – eis o essencial. O espírito científico significa cultivar a atenção, e saber ligar os saberes; ter a humildade suficiente para reconhecer que o valor do conhecimento obriga a saber acrescentar. E só compreendemos se soubermos comunicar, distinguindo o trigo do joio. Tornar a informação conhecimento e o conhecimento sabedoria. E assim temos de nos prevenir contra o erro, a manipulação e as notícias falsas, já que o sentido crítico, sendo indispensável, corresponde a entender os limites. A cultura como dom leva-nos a perceber que só vamos mais além se vencermos passo a passo. E a incultura representa um enorme desperdício.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de março de 2019

 

 

«Diário – 2000-2015» de João Bigotte Chorão (Imprensa Nacional, 2017) é um repositório de lembranças, de análises, de encontros, de ensaios sobre a literatura viva, num intimismo pedagógico, que nos leva a acompanhar o escritor agora desaparecido…

 

 

PERSONALIDADE FASCINANTE
Com a partida de João Bigotte Chorão, deixa-nos uma personalidade fascinante na vida cultural e literária portuguesa. Quem teve a felicidade de o conhecer, como eu próprio, sabe bem as suas extraordinárias qualidades. Com uma grande generosidade e uma capacidade única para compreender o essencial de uma obra literária ou de um pensamento, o ensaísta era de uma perspicácia crítica única e de uma verve muito rica, na linha de seus mestres Camilo, Araújo Correia ou Tomaz de Figueiredo. Conheci-o ao longo de várias décadas, sempre com a mesma coerência, sempre com o mesmo denodo no perscrutar do fundo dos estilos ou das personalidades, dos autores e dos protagonistas ou até dos meros figurantes. Quantas vezes, no seu feitio muito próprio e com o seu falar vincadamente beirão, nos puxava de lado, para nos segredar um pormenor picaresco ou revelar um breve segredo literário. Além do mais era um cultor perfeito da língua. No Círculo Eça de Queiroz falámos longamente, envolvendo outros amigos, como Fernando Guedes ou Fernando Garcia – e pudemos preparar e concretizar iniciativas de animação do Chiado, de que tanto gostava, com o Centro Nacional de Cultura. E para aqueles que se dividiam artificialmente entre as tribos de camilianistas e queirosianos – deixava-os sempre desarmados, uma vez que os dois autores do Olimpo da nossa literatura, para um fino conhecedor, não podiam excluir-se mutuamente na rica expressão dos seus livros. De facto Camilo e Eça são diferentes, inesgotáveis, mas indispensáveis de conhecer. A modéstia de Bigotte Chorão não lhe permitia, porém, cometer a imprudência de se reconhecer como imbatível, mas posso asseverar que era verdadeiramente imbatível no conhecimento rigoroso da nossa melhor literatura, sobretudo dos séculos XIX e primeira metade de XX. O certo é que as subtilezas, os detalhes eram-lhe familiares e nos casos de Camilo e Eça, ou de Francisco Costa ou Tomaz de Figueiredo sabia, como ninguém, distinguir a riqueza e a versatilidade. De facto, cada autor tem uma personalidade própria, uma escola inimitável, indefinível nos cânones tradicionais – e João Bigotte Chorão detetava-o como os melhores provadores de vinho fino, caracterizando castas, densidade, sabor, aroma, mas sobretudo a intensidade e a subtileza do verbo. Foi uma das peças importantes nos tempos heroicos da Verbo – e nunca esquecerei essa memória.   

 

VIDA VIVIDA DESDE AS RAÍZES
João Bigotte Chorão nasceu na Guarda em outubro de 1933 e deixou-nos em Lisboa, aos 85 anos de idade. Notabilizou-se como professor, crítico, diarista e ensaísta, sendo um dos grandes especialistas na obra de Camilo Castelo Branco. Foi diretor literário da Editorial Verbo, ao lado de Fernando Guedes (que também recordo com saudade), onde teve a seu cargo o departamento de Enciclopédias e Dicionários, no qual coordenou a publicação da Enciclopédia Verbo – Edição Século XXI (29 volumes, 1998-2003) e a Logos, Enciclopédia Luso-Brasileira de Filosofia. Licenciado em Direito pela Universidade de Coimbra, foi, como se disse, além de Camilo, um profundo conhecedor das obras de Almeida Garrett, Eça de Queirós, Carlos Malheiro Dias, Tomaz de Figueiredo ou João de Araújo Correia. Escreveu O Essencial Sobre Camilo e O Essencial Sobre Tomaz de Figueiredo, obras que publicou na Imprensa Nacional, respetivamente em 1996 e 2000. Ainda no âmbito do ensaio, introduziu várias obras da Imprensa Nacional, devendo mencionar-se os prefácios de Contos e Novelas, de João de Araújo Correia, de Nó Cego (nas «Obras Completas de Tomaz de Figueiredo») e de Contos e Novelas, de Domingos Monteiro. Bigotte Chorão começou por publicar os seus escritos em obras coletivas, ou em jornais e revistas, entre as quais a Tempo Presente, a Colóquio/Letras e a Távola Redonda. Do que publicou em livro destaque-se Vintila Horia ou Um Camponês do Danúbio, de 1978, O Escritor na Cidade, de 1986, João Araújo Correia, Um Clássico Contemporâneo, de 1986, Camilo, Esboço de Um Retratado, 1989, Páginas Camilianas e Outros Temas Oitocentistas, de 1990, e O Espírito da Letra, de 2005. Humanista cristão, cultivou o gosto pelas culturas italiana e francesa, dando particular atenção ao memorialismo, à epistolografia e ao diarismo — géneros dos quais foi mestre. Discípulo Noturno, de 1965, e Aventura Interior, de 1969 provam-no. «Escrevo e escreverei nem que seja para preservar a memória dos meus dias e vencer o vazio pela disciplina mental da escrita», disse. Já em 2001 publicou Diário Quase Completo, na Imprensa Nacional — obra com a qual viria a receber o Grande Prémio da Literatura Biográfica da APE. A Imprensa Nacional publicaria aquela que seria a sua derradeira obra: Diário 2000-2015, em fevereiro de 2018. Em Diário 2000-2015, na escrita intimista com que sempre nos habituou, João Bigotte Chorão leva-nos, no intervalo destas datas, em cerca de trezentas páginas, à descoberta do seu universo cultural e a tudo aquilo que o entusiasmava e comovia, deixando para a posteridade um precioso espólio de memórias que por sua própria vontade resistem e vão continuar a resistir ao esquecimento. João Bigotte Chorão era membro da Academia das Ciências de Lisboa e do Instituto Luso-Brasileiro de Filosofia, tendo sido Presidente do Círculo Eça de Queiroz. Era membro do conselho editorial da Imprensa Nacional e também do júri do Prémio IN/Vasco Graça Moura. Leitor criterioso, partilhou com os seus fiéis leitores muitas das suas apreciações e análises. Parafraseando um dos títulos que bastamente conhecia, podemos dizer que o seu exemplo é o de um “Amor de Salvação”. Elas constituirão um elemento fundamental na compreensão da literatura como realidade viva. O nosso agradecimento!

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 4 a 10 de março de 2019

 

O «Dicionário de História de Portugal» de Joel Serrão (Figueirinhas) constitui um precioso elemento de estudo sobre a historiografia portuguesa, numa perspetiva rigorosa e pedagógica, com grande qualidade científica e capacidade de abrir e alargar horizontes. É uma obra indispensável.

 

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PEDAGOGO EXEMPLAR

Joel Serrão (1919-2008) foi um pedagogo exemplar, que soube ao longo da vida fazer dos ofícios de pensador e de historiador uma permanente ação de cidadania. O seu labor científico foi sempre feito a pensar nos seus alunos, nos seus leitores e na necessidade de fazer da reflexão uma exigência permanente. Quando hoje nos lembramos da importância do “Dicionário de História de Portugal”, percebemos a determinação e a generosidade de quem se empenhou em preencher uma lacuna na nossa perspetiva cultural. Mas só alguém com uma extraordinária capacidade de ver largo e com uma férrea capacidade de trabalho pôde realizar uma empresa muito difícil, em que a marca de grande qualidade fica bem patente, não só em cada entrada, mas no conjunto realizado. Vê-se como o coordenador foi obrigado, com grande mestria, a preencher todos os espaços previstos e necessários. Mas igualmente descobrimos, em algumas remissões, o drama sentido nos atrasos de alguns colaboradores. Quem coordena obras coletivas sabe bem a angústia que sente, quando um texto falta no momento em que deve entrar na tipografia. Ora, tratando-se de um Dicionário saído em fascículos, esse drama surgia agravado pelos inexoráveis compromissos da Editora. Só o conhecimento, o trabalho, a persistência, o cumprimento determinado do compromisso assumido de um professor e de um intelectual de exceção puderam superar as angústias e os contratempos. Conheci-o bem, mas não tive o gosto de ser seu aluno. Posso dizer, porém, que fui desde muito cedo seu ávido leitor. Foi através dele que li sistematicamente os “seareiros” e, antes de todos, António Sérgio, seguindo-se Jaime Cortesão e Raul Proença. Recordo especialmente a minha saudosa professora Maria Lucília Estanco Louro, que nos fazia ler os grandes mestres da História política como modo de aprender a realizar uma verdadeira Escola de Cidadãos – do mesmo que nos levava às conferências dos grandes mestres, desde o pensamento às artes, numa imersão total em banhos lustrais de sabedoria e sensibilidade. Eram momentos de puro deleite, através dos quais compreendíamos como o diálogo entre filósofos da Escola de Atenas, retratados por Rafael, começava na capacidade de saber perguntar… E pouco antes de nos deixar, Maria Lucília foi ter comigo à Casa Fernando Pessoa para dizer que não podia ficar para uma conferência. E nesse momento pudemos lembrar esse tempo em que Joel Serrão nos ensinava pelos seus escritas a ler melhor o mundo e o tempo e em que ouvíamos as canções de 1789, como sinal de liberdade.

 

A PAIXÃO DA HISTORIOGRAFIA

No tempo em que nos aproximámos, o ensaísta e historiador mergulhava no âmago da gloriosa geração de 1870, e naturalmente foi Antero que nos fez encontrar pessoalmente, compreendendo no que viria a ser O Primeiro Fradique Mendes (Livros Horizonte, 1985), como as figuras dessa idade de ouro se complementaram na diferença e se projetaram no século seguinte. “Pouco ou nada se compreenderá das origens do escritor Eça de Queiroz se não tivermos em vista a conjugação de duas perspetivas: a primeira, é que ele foi um homem da geração, cujos valores e objetivos fundamentais haviam sido esboçados pelos juvenis escritos de Antero; e a segunda, é que esse facto, além de comprovado, lhe não tolheu a singular originalidade da sua procura, a partir de um magma cultural mais ou menos comum”. E sem sombra de anacronismo, é o próprio Joel Serrão que irá encontrar ecos dessa riqueza criadora no Livro do Desassossego de Bernardo Soares – ou seja, é a modernidade que se encontra a si própria nas suas diversas facetas. E Carlos Fradique Mendes vai ser, no percurso da sua afirmação, o ponto de encontro de um singular heterónimo coletivo, envolvendo Antero, Batalha Reis e Eça. E este último dirá: “Antero, mesmo troçando e amaldiçoando, era um ateniense: e à sua ironia convinha, mais que à de nenhum outro ironista, o nobre epíteto homérico de alada. Os seus ditos abriam através da sua geração grandes sulcos luminosos e puros”. Havia, pois, uma indicação de sentido de marcha orientada para o futuro. Contudo, do que se tratou inicialmente com Fradique, no dizer de Batalha Reis, foi um tremendo simulacro: “o nosso plano era considerável e terrível: tratava-se de criar uma filosofia cujos ideais fossem diametralmente opostos aos ideais geralmente aceites, deduzindo, com implacável e impassível lógica, todas as consequências sistemáticas dos pontos de partida, por monstruosas que elas parecessem. Dessa filosofia saía naturalmente uma poesia, toda uma literatura especial, que o Antero de Quental, o Eça de Queiroz e eu, nos propúnhamos construir a frio, aplicando os processos revelados pelas análises da Crítica moderna, desmontando e armando a emoção e o sentimento, como se fossem máquinas materiais conhecidas e reproduzíveis”. E esse satanismo mais não seria do que a procura de um gesto original, capaz de prenunciar novos caminhos críticos. Estaríamos perante o realismo em poesia, e a demarcação nítida do romantismo decaído.

 

FRADIQUE MENDES

E depois da revelação do poeta no seu espaço próprio, escrito a várias mãos, encontramos em 1870 Fradique Mendes, no capítulo XXX de O Mistério da Estrada de Sintra, da autoria partilhada de Eça e Ramalho Ortigão, saído em folhetins no “Diário de Notícias”: “sentado no sofá com um abandono asiático”, “verdadeiramente original e superior”, “um excêntrico, distinto”, de “caráter impecável”, “originalidade violenta, quase cruel”, “amigo de Baudelaire” – que “tocava admiravelmente violoncelo, era um notável jogador de wist, tinha viajado no Oriente, estivera na Meca e contava que fora corsário grego”… Dir-se-ia que a personagem vai ganhando vida, para além da poesia que tinha publicado. E assim Eça vai apoderar-se da figura. E o certo é que já não é o mero símbolo, algo marginal na obra de uma geração, que desejava deixar clara a sua identidade. Agora, já temos uma figura central, base de um verdadeiro romance epistolar – ao lado de Amaro, Basílio, Carlos da Maia, João da Ega, Jacinto, Zé Fernandes e Gonçalo Mendes da Maia. Em bom rigor, é uma personagem multifacetada, capaz de gerar fascinação e de se constituir em voz de um tempo singularíssimo. “A minha intimidade com Fradique Mendes começou em 1880, em Paris, pela Páscoa – justamente na semana em que ele regressara da África Austral. O meu conhecimento porém com esse homem admirável datava de Lisboa, do ano remoto de 1867. Foi no Verão desse ano, numa tarde, no Café Martinho, que encontrei num número já amarrotado da ‘Revolução de Setembro’, este nome de C. Fradique Mendes, em letras enormes, por baixo de versos que me maravilharam”… Os versos significavam uma definição nova, muito mais do que um estilo inolvidável. Este estava representado pela própria personagem, que se tornou símbolo de uma geração, de uma obra, de uma força crítica. Assim, Eça e toda a geração de 1870 superam o romantismo do elogio mútuo, mas atingem a sua plena consumação num naturalismo que não segue cânones de escola e se abre para o simbolismo, anunciando o modernismo do século XX, como necessidade a um tempo crítica e construtiva em relação à sociedade. Joel Serrão compreendeu-o plenamente na sua análise rigorosa e certeira de Fradique.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 25 de fevereiro a 3 de março de 2019

 

 

«Antologia» de Fernando Echevarría (Afrontamento, 2010) permite-nos tomar contacto com a obra de um dos grandes poetas portugueses contemporâneos – num momento em que é muito justamente homenageado na passagem do seu 90º aniversário (26.2.1929).

 

INTERROGAR O QUOTIDIANO
“O Vinho e o centeio abrem a mesa / àquele peso de fulgor sagrado / que nos reúne. Quase sacramenta / como a luz do concerto no trabalho / que aqui trazemos. E depomos tensa / para que nutra, com tua graça, o hábito de nos sentarmos a receber da terra / o que demos à terra. E partilhamos. / Que deste pão o nosso olhar se acenda. / E o vinho atine a só nos alegrarmos / para o esforço difícil da tarefa / dar fruto de justiça a todos quantos / tão apartados e famintos dela, / faltam ao peso e ao fulgor dos anos” (Geórgicas, 1998). Fernando Echevarría é um poeta em quem o talento e a capacidade de sedução se aliam naturalmente. E no poema com que iniciamos este texto, sentimos intensamente a ligação natural entre o quotidiano e o sagrado. E essa naturalidade encontramos ao longo de uma obra intensamente sentida, em que a natureza está à nossa beira perante a fantástica capacidade de renovar a vida a cada instante. E recebemos o eco nítido: “Talvez o sonho seja fundamento / de assim ligeiras serem as cidades. / Andarmos ruas ao nosso pensamento / as leva a abrir maior assiduidade / aos passos que pousamos no momento / de a transparência negar a antiguidade. / Por isso nelas somente passa o vento / se a sonhá-lo passarmos na cidade…” (Introdução à Filosofia, 1981). Misteriosamente, dir-se-ia que a realidade e o sonho se entrecruzam, já que a poesia é vista como a chave para todas as perguntas. O poeta é português com raízes em Espanha. Autor de obra traduzida nas principais línguas europeias, como francês, castelhano, inglês ou romeno, nasceu em Cabezón de la Sal (Santander, Espanha) em 26 de fevereiro de 1929, filho de pai português — que se exilara no país vizinho na sequência do fracasso da Monarquia do Norte — e de mãe espanhola, veio com dois anos morar para Grijó, Vila Nova de Gaia. Em 1940, entrou no Colégio Cristo Rei (Redentoristas), que frequentou até 1946, seguindo de novo para Espanha onde concluiu os estudos de Filosofia e Teologia, no seminário de Astorga, após ter feito o noviciado em Nava del Rey (Valladolid). Em 1956, ano em que publicou “Entre Dois Anjos”, terminou o serviço militar em Coimbra, regressando ao Porto para dar aulas ao ensino secundário, no Colégio de Gaia. Em 1961, emigrou para Paris, onde participou nos círculos oposicionistas portugueses. Aderiu ao Movimento de Ação Revolucionária (MAR), próximo do “grupo de Argel” e de Humberto Delgado. E através de Delgado, adere à Frente Patriótica de Libertação Nacional (FPLN), e vai para Argélia em 1963, é um dos fundadores da LUAR  (Liga de Unidade e Ação Revolucionária) com Emídio Guerreiro e Hermínio da Palma Inácio. José Augusto Seabra, com quem estará mais tarde na “Nova Renascença”, é um dos seus próximos contactos intelectuais e políticos. Três anos depois, volta para Paris, onde permanece exilado até 1974. Depois de 25 de Abril, recusou lugares políticos e continua a trabalhar até aos anos oitenta como professor de Francês no Centro de Orientação Social para Refugiados. Depois regressa a Portugal e fixa-se no Porto.

 

UMA OBRA POLIFACETADA
Escreve em português, e só ocasionalmente nas línguas castelhana e francesa, e colaborou em diversas revistas como “Graal”, “Colóquio/Letras”, “Limiar” e “Nova Renascença”. Com extensa obra poética, após Entre Dois Anjos, seguem-se em edições de autor e pequenas editoras, as obras Tréguas para o Amor (1958), Sobre as Horas (1963), Ritmo Real (1971), um livro de arte, com gravuras de Flor Campino, A Base e o Timbre (1974), Media Vita (1979), Introdução à Filosofia (1981) e Fenomenologia (1984). Após o regresso a Portugal, inicia uma relação editorial com as Edições Afrontamento, onde publica Figuras (1987), Poesia (1956–1979) (1989) — reedição dos livros compreendidos entre aquelas duas datas  —, Sobre os Mortos (1991), Poesia 1980-1984 (1994), Uso de Penumbra (1995), Geórgicas (1998), Poesia 1987-1991 (2000), Introdução à Poesia (2001), Epifanias (2006), Obra Inacabada (2006), Lugar de Estudo (2009), Antologia (2010), In Terra Viventium (2011), Categorias e Outras Paisagens (2013) e Obra Inacabada (2 volumes, 2016). E ouvimo-o: “às vezes a velhice reconhece / o júbilo crescente de irmos indo. / Os passos, graves, contam. Mas só esse / esplendor vagaroso de caminho / que eleva o corpo a condição celeste / onde estremece o espírito” (Lugar de Estudo, 2009). Fernando Echevarría recebeu inúmeros prémios, avultando: em 1982, Prémio de Poesia do Pen Club por Introdução à Filosofia; em 1987, o Prémio Inasset por Figuras; em 1991, o Grande Prémio de Poesia da APE por Sobre os Mortos; em 1998, o Prémio Luís Miguel Nava por Geórgicas; também pela mesma obra, o Prémio António Ramos Rosa, na sua primeira edição, em 1999, da Câmara Municipal de Faro; e ainda por Geórgicas, de novo o Prémio de Poesia do Pen Club em 1999; em 2002 o Prémio Teixeira de Pascoais; em 2005, pelo conjunto da sua obra, foi distinguido como o Prémio Árvore da Vida – Padre Manuel Antunes, instituído pelo Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura; em 2007, o Prémio Sophia de Mello Breyner Andresen por Obra Inacabada; ainda em 2007, o Prémio D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus, por Epifanias; em 2010, de novo o Grande Prémio de Poesia da APE por Lugar de Estudo; e em 2015, recebe o Prémio Casino da Póvoa, nas Correntes d’Escritas, por Categorias e Outras Paisagens.

 

UM POETA QUE PROCURA…
Que busca, afinal, o poeta? “As cidades longínquas são felizes. / Cantam ao sol implícito do mármore. / E, diáfanas, vogam. Sem raízes, / mas ao ritmo das fontes pelas árvores. / Ou, lavada brancura, ruboriza / ao poente dos bosques consagrados / a deuses forasteiros, em que a brisa / acorda, antiga, as harpas e os fados. / Harpas e fados que o fundo da cidade / de si exuma, quando se ilumina / a inteligência que, por ela, se há de / iluminar, leitura repentina. / Que o que é feliz é o longe da cidade / errar tão branco ao fundo da retina” (Introdução à Filosofia, 1981). E que é afinal a poesia? Invocando Maria de Lourdes Belchior, em “Magnificat”, o poeta faz a definição irrepreensível: “Mas sabemos que quanto nos fez falta / deixou ao espaço um esplendor feliz, / dilatado a fronteiras de país / onde a dor nem se dói. Porque só é alta…” (Uso de Penumbra, 1995).

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de fevereiro de 2019.

 

 

«Património de Origem Portuguesa no Mundo – Arquitetura e Urbanismo» sob direção de José Mattoso (F. C. Gulbenkian, 2010-2011) abrange três volumes e Índices e deu origem ao Portal HPIP – Património de Influência Portuguesa, que é um projeto único, indispensável para os estudiosos do tema, como agora se recorda.

 

 

UMA DESCOBERTA FUNDAMENTAL
A recente descoberta de uma capela quinhentista na Cidade Velha, na ilha de Santiago, em Cabo Verde, constitui uma nova demonstração (se tal não fosse já claro) da importância da inclusão da Ribeira Grande na lista do Património mundial da UNESCO, que tive o gosto de apoiar desde o início. Trata-se de um exemplo, entre outros, de como o conhecimento do património artístico e arqueológico merece especial atenção e cuidado. Neste momento, a comunidade científica acompanha os trabalhos que estão a ser realizados no local, no âmbito do projeto “Concha” e que permitirão devolver ao público um marco de grande valia no património cultural da humanidade. De facto, no final do presente ano, poderemos visitar o templo devidamente restaurado e próximo da sua versão original, em condições de segurança e qualidade. E devemos insistir na compreensão do Património Cultural, não como realidade do passado ou como marca de uma qualquer identidade, ainda que multiforme, mas como um exemplo de um valor comum, partilhado por diversas culturas e comunidades. E não devo esquecer a reflexão dinâmica desenvolvida na UNESCO e no Conselho da Europa (designadamente na Convenção de Faro sobre o valor do património cultural na sociedade contemporânea - 2005) numa perspetiva aberta e crítica, e não fechada e retrospetiva, a propósito do património e da cultura. As lições do recentemente terminado Ano Europeu do Património Cultural - 2018 apontam nesse sentido, com especial ênfase para a mobilização dos cidadãos para a defesa do património como realidade comum, como realidade inclusiva e não exclusiva.          

                                             

UM PROJETO NOTÁVEL
Serve esta referência para lembrar a importância do projeto “Património de Influência Portuguesa – HPIP”, lançado pela Fundação Gulbenkian em 2012, na sequência do inventário sistemático do património histórico de origem portuguesa, arquitetura e urbanismo, lançado por Emílio Rui Vilar, que deu origem a três volumes em papel e a um de índices, a que sucede o portal, sob a direção de José Mattoso (2007) - como uma base de informação disponível não só para a comunidade científica, mas também para os cidadãos do mundo. Trata-se de um instrumento de trabalho, para quem estuda ou deseja conhecer as repercussões na arte e na arquitetura da presença portuguesa no mundo. E assim constituiu-se “um objeto de estudo, um corpus, como conjunto significativo do contexto em que os seus diversos elementos foram criados, dos sinais que os caracterizam, na sua singularidade ou na sua categorização, das alterações que sofreram, enfim, dos aspetos que justificam o seu valor patrimonial”, urgindo não “confundir as épocas e as situações, e não projetar sobre o passado fenómenos da nossa época”. Falando da obra publicada em 2010 e 2011, temos na Ásia e Oceania o património do Estado da Índia e o que dependeu do Padroado Português do Oriente, ainda que fora do subcontinente indiano, a que se soma Macau e Timor - estão em causa essencialmente os séculos XVI e XVII, sem esquecer o prolongamento do Padroado e o prolongamento das reminiscências da influência portuguesa. Na América do Sul, temos o Brasil e a Colónia do Sacramento (Uruguai) com uma presença fundadora nas construções dos séculos XVII e XVIII, baseadas nos modelos metropolitanos e ligadas sucessivamente aos ciclos do açúcar, do ouro e dos diamantes, com sistemas administrativos análogos aos da metrópole, ainda marcados pela exploração de mão-de-obra escrava, pelas guerras com holandeses e franceses, pela presença da Corte no Rio de Janeiro, pelo Reino Unido e pela independência. Já em África, Mar Vermelho e Golfo Pérsico encontramos vestígios de entrepostos e fortalezas no litoral, criados para servirem a carreira da Índia e a captação da mão-de-obra escrava. A presença no interior é tardia, ocorrendo a partir do século XIX, com a ocupação militar dos vales dos rios e com a criação de estruturas para exploração de matérias-primas, à semelhança do que acontecia na colonização europeia.

 

UMA PERSISTENTE AÇÃO
Esta publicação vem na sequência de uma ação anterior apoiada pela Fundação Gulbenkian, de recuperação em edifícios e monumentos, entre as quais se contaram o Forte do Príncipe da Beira, em Rondónia (Brasil), a Casa de Nacarelo, na Colónia do Sacramento, a Fortaleza de Arzila (Marrocos), a catedral portuguesa de Safim (Marrocos), o Forte de São João Batista de Ajudá (Benim), o Forte de Jesus, em Mombaça (Quénia), o Forte de Quíloa (Tanzânia), as fortalezas de Ormuz e Qeshm (Irão), a Igreja do Rosário, em Daca (Bangladesh), a Feitoria Portuguesa de Ayutthaya (Tailândia) ou a Igreja de São Paulo, em Malaca (Malásia), para além de intervenções para preservar bens culturais valiosos em museus como os de Velha Goa e de Cochim, ou da inventariação e classificação de arquivos. Entendeu, porém, a Fundação dar prioridade à criação de um instrumento de informação traduzido na feitura de um portal público interativo assente numa base de dados georreferenciada. O portal teve como acervo inicial o conteúdo dos livros, mas logrou suscitar o contributo de quantos propuserem acrescentar ou corrigir conteúdos. Daí a importância do protocolo de colaboração entre a FCG e as Universidades de Coimbra, de Lisboa, de Évora e Nova de Lisboa – com o objetivo de estabelecer as condições de cooperação com vista à produção e transferência de propriedade e gestão do portal interativo. As Universidades de Coimbra e de Évora asseguraram até ao presente a coordenação do projeto, e o Conselho Executivo de gestão do HPIP decidiu assegurar a presença de um representante da FCG no Conselho Executivo, mantendo a propriedade e gestão do portal a cargo das Universidades. O projeto HPIP não tem equivalente, dada a sua natureza específica. Não se trata, porém, de fazer mais do que dar uma informação rigorosa e objetiva, não ditada por qualquer razão identitária ou unilateral. É a noção de salvaguarda de um património comum que está em causa. Daí a necessidade de uma informação objetiva, que, ela mesma, permita aos investigadores desenvolverem os seus estudos e tirarem as suas conclusões. A qualidade da historiografia depende do rigor da informação disponível, do mesmo modo que o património, a herança e a memória se devem constituir e consolidar a partir de inventários exaustivos e fundamentados, de estudos críticos respeitantes a fontes criteriosamente escolhidas, credíveis e de confiança. E relembrando o papel desempenhado pelos principais instrumentos internacionais, no âmbito das Nações Unidas, da UNESCO ou do Conselho da Europa, devemos considerar que o património cultural deve tornar-se um fator de paz e de cooperação internacional. O património cultural não é de uma região, de um país ou de uma cultura – é uma manifestação de criatividade e de valor – que deve estar ao serviço da humanidade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de fevereiro de 2019.

 

 

«Antologia Poética» de Natália Correia (D. Quixote, 2013) é um conjunto indispensável para compreendermos a escritora. A rica imaginação metafórica de Natália Correia (1923-1993) coloca-a num lugar especial na literatura portuguesa do século XX.

 

UMA VOZ REBELDE
Foi uma voz rebelde que construiu o seu percurso literário e cívico juntando o talento poético e a energia, orientados pelos valores da verdade e da justiça. A sua voz é singular e presente. Nunca se fechou numa torre de marfim. Trilhou sempre os caminhos da liberdade. A «Mátria» era, para si, a demonstração da força da mulher e do feminino, como marca de sensibilidade e de determinação. E sobre a missão da mulher era claríssima: «Acho que a missão da mulher é assombrar, espantar. Se a mulher não espanta... De resto, não é só a mulher, todos os seres humanos têm que deslumbrar os seus semelhantes para serem um acontecimento. Temos que ser um acontecimento uns para os outros. Então a pessoa tem que fazer o possível para deslumbrar o seu semelhante, para que a vida seja um motivo de deslumbramento. Se chama a isso sedução, cumpri aquilo que me era forçoso fazer. O meu primeiro contacto com as pessoas é de uma grande afabilidade. Quando as pessoas recusam essa afabilidade, então eu dou-lhes o que elas me pedem: irascibilidade. Volto-lhes as costas irascivelmente, mais nada. Se é isso mau génio, talvez seja» (Entrevista de 1983).

 

UMA MARCA DE ESPÍRITO E DE VONTADE
Conheci Natália, já não no período da sua aura mítica de sedução, mas no tempo da sua força, do seu entusiasmo, da fantástica capacidade de afrontar tudo e todos, em nome dos valores em que acreditava. Convidei-a muitas vezes para debates e reflexões e nunca se negava, desde que o combate valesse a pena. A cultura para a poeta e para a escritora significava, a um tempo, ter capacidade criadora, e poder comunicar a força íntima. Era uma açoriana de gema, que fazia das suas ilhas encantadas um sinal indómito de autonomia e força anímica. Acreditava, por isso, nas identidades abertas – e proclamava a açorianidade como uma marca indelével de espírito e de vontade. O culto do Espírito Santo sobre que a ouvi falar, em cumplicidade estreita com Agostinho da Silva ou Lima de Freitas, era um modo de afirmar a sua heterodoxia, salientando como essa forma de pensar era um modo de afirmar a vontade de ligar o primado das pessoas ao sonho de uma utopia onde não houvesse amos e súbditos, onde houvesse a partilha plena da riqueza e onde uma mulher pudesse ser coroada com a coroa do Espírito. Nesta linha, demarcava-se com clareza de qualquer fechamento provinciano ou de um qualquer protecionismo cultural. Dava-se muito mal com o egoísmo e com a hipocrisia. Tantas vezes usou a sua coragem para desafiar os poderes mais instalados e subservientes. No caso do amor de Snu Abecasis e Francisco Sá Carneiro, não dissimulou, desde o primeiro momento, a sua consideração positiva. O mesmo se diga de tantas outras atitudes poéticas, intelectuais, políticas e cívicas, mesmo contra as correntes dominantes. Nunca regateou esforços por uma boa causa em que acreditasse. E o seu tempo e a sua atitude foram percursores em muitos combates – entre os quais o direito inalienável à diferença.

 

VERVE E INTENSIDADE ÚNICAS
Dizia os poemas de Antero com uma verve e uma intensidade, como ninguém mais fazia. Compreendia Vitorino Nemésio, nas suas diversas facetas, ponto de encontro de desassossego e de inconformismo, como ninguém mais. Dialogava com Agostinho da Silva, de igual para igual, com o mesmo idealismo, mas sem esquecer a racionalidade. Recordava com saudade os tempos em que pôde usufruir da maiêutica de António Sérgio, em inesquecíveis tardes de sábado, com um chá gordo de ideias e de pensamento crítico. Eram épicos os serões no “Botequim”, onde tudo se debatia e de tudo se falava. David Mourão-Ferreira disse que ela foi a irmã que nunca teve. José-Augusto França considerou-a a “mais bonita mulher de Lisboa”. Mário Cesariny também se deslumbrava que a sua beleza que superava as melhores obras de Miguel Ângelo. Para Fernando Dacosta: “As causas, as pessoas do coração e do sonho, e da fé, tinham-na do seu lado; as causas, as pessoas da manipulação, do utilitarismo, da serventia, conheciam-lhe a cólera, o chiste, a indignação”. A sua indignação era inexorável e não podia deixar alguém indiferente…

 

O PODER DA METÁFORA
Um dia Natália, perante a acusação num tribunal plenário, propôs-se uma defesa intransigente e poética. O seu advogado pediu-lhe que não usasse o poema, uma vez que o mesmo lhe traria, por certo, dissabores, sendo, no mínimo, considerado ofensivo para o plenário. Hoje, lemo-lo como um verdadeiro manifesto pela liberdade. Sabemos que não foi dito, mas Natália tinha vontade e ânimo para o fazer. Ele representa, sobretudo nos dias de hoje, um alerta severo, contra as tentações que subalternizam a liberdade e que fazem regressar as formas mais subtis de condicionamento e de desenfreado populismo, que tendem a pôr a democracia entre parêntesis. A releitura do poema, publicado em “As Maçãs de Orestes” de 1970, fala por si e merece uma releitura permanente e atenta: «Senhores jurados sou um poeta / um multipétalo uivo um defeito / e ando com uma camisa de vento / ao contrário do esqueleto. / Sou um vestíbulo do impossível um lápis / de armazenado espanto e por fim / com a paciência dos versos / espero viver dentro de mim. / Sou em código o azul de todos / (curtido couro de cicatrizes) / uma avaria cantante / na maquineta dos felizes. / Senhores banqueiros sois a cidade / o vosso enfarte serei / não há cidade sem o parque / do sono que vos roubei. / Senhores professores que pusestes / a prémio minha rara edição / de raptar-me em crianças que salvo / do incêndio da vossa lição. / Senhores tiranos que do baralho / de em pó volverdes sois os reis / sou um poeta jogo-me aos dados / ganho as paisagens que não vereis. / Senhores heróis até aos dentes / puro exercício de ninguém / minha cobardia é esperar-vos / umas estrofes mais além. / Senhores três quatro cinco e sete / que medo vos pôs por ordem? /que pavor fechou o leque / da vossa diferença enquanto homem? / Senhores juízes que não molhais /a pena na tinta da natureza / não apedrejeis meu pássaro / sem que ele cante minha defesa. / Sou uma impudência a mesa posta / de um verso onde o possa escrever / ó subalimentados do sonho! /a poesia é para comer». Quando hoje voltamos ao poema, entendemos a dimensão singular de Natália Correia. E assim, podemos compreender não só a coragem de defender a liberdade criadora (que a levaria à condenação, com pena suspensa no caso da “Antologia de Poesia Erótica e Satírica”), mas também a determinação em não deixar por mãos alheias as causas cívicas em que genuinamente acreditava.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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