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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 14 a 20 de outubro de 2019

 

Acaba de ser publicado o romance “A Outra Margem do Mar” de António Lobo Antunes (D. Quixote, 2019) que nos fala de um incidente ocorrido em Angola antes da guerra colonial, quando grandes plantações de algodão começaram a ser incendiadas, prenunciando a que viria a acontecer depois…

 

QUARENTA ANOS…
O programa das celebrações dos quarenta anos de vida literária de António Lobo Antunes na Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com o grupo Leya, permitiu aprofundar o conhecimento da obra de um grande escritor e refletir sobre a riqueza da produção literária e artística de um autor, recentemente recebido na Biblioteca Pléiade, célebre coleção francesa que reúne os maiores autores da humanidade, só excecionalmente reservada aos vivos. Desde o momento em que, no ano de 1979, foram publicados os dois primeiros romances, Memória de Elefante e Os Cus de Judas assistimos a um percurso consistente, no qual o que importa é a história de gente de carne e osso que encontramos na vida a cada passo. E recordamos o momento em que nos foi dado ler pela primeira vez o novo autor: “O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar, de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquela Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante: A quotazinha da sociedade, senhor doutor”… De que nos fala António Lobo Antunes? De nós e dos outros. E nesse ano de 1979 era Portugal que evoluía, que se adaptava às novas circunstâncias. E era isso que interessava ao escritor, não numa perspetiva global ou metafísica, mas a partir dos fragmentos da vida protagonizados por pessoas concretas, inesperadas, diferentes, capazes de nos acompanhar nos caminhos e nos momentos mais difíceis e intrincados. Não faço aqui um enquadramento geral, mas recordo o trabalho editorial incessante de Maria da Piedade Ferreira na construção do diálogo pertinente de um escritor difícil, mas necessário, com os seus leitores. E neste encontro multifacetado e polifónico, importa a agradecer ao autor por tudo o que nos tem dado e por certo continuará a dar – em memória, criatividade, talento e extraordinário domínio da palavra e da narrativa. E é devido ainda um agradecimento a todos quantos têm contribuído para a análise e melhor compreensão de uma obra rica de cerca de meia centena de livros, recebidos sempre com uma significativa e justa expectativa. Com ironia, António Lobo Antunes diz que não devia fazer eletrocardiogramas, mas sim escalas de Richter porque (diz-nos) “me parece que em lugar de coração tenho um sismógrafo cuja agulha assinala o menor estremeço interior ou exterior com uma amplitude imensa: basta-me viver para a agulha não parar, e que cordilheiras de tinta os meus dias…”.

 

O CORAÇÃO DO CORAÇÃO…
O colóquio internacional fez-se sob a invocação: “Apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo”. É este o desafio perante o qual nos temos de haver. É o encontro dos outros com que a cada passo nos deparamos. E lembro dois grandes amigos de António, Ernesto Melo Antunes de José Cardoso Pires, que em memória e espírito nos acompanharam, demonstrando como as razões do coração, que encontramos ao longo desta obra, constituem uma matéria-prima inesgotável. E o certo é que se aplica a ela o que o escritor disse sobre Eduardo Lourenço. “sob a inevitável complexidade artesanal da sua arquitetura, tudo atravessado por um humor subterrâneo, uma discreta ironia sulfúrica e uma espécie de inocência sábia, (…) de criança antiga, dona de um dedinho certeiro”. Sim, António também se preocupa com “uma máquina de entender o mundo, através do homem, infinitamente simples”. O coração do coração e o antecipar dos olhos nos olhos, e o tentar começar a ver distintamente estão presentes. E essa consciência das diferenças, da multiplicidade, das tensões, dos dramas, dos encontros e desencontros está no cerne da marca deste grande escritor – e é por isso que com António Lobo Antunes podemos compreender melhor quem somos no caminho de um lento entendimento. “O que seria de mim (diz o escritor) se não escrevesse, povoado pelos meus cães negros? Agora, e até começar o livro, não cessam de rondar-me: sinto-lhes a respiração, o cheiro, a baba. Sinto-os roçarem-me. Vejo-lhes as órbitas amarelas, os dentes…”. Mas eis que é a vida que irrompe. E ficam os livros: “em certo sentido, é terrível que a criação dure mais que o criador: Flaubert enfurecia-se que a Bovary continuasse viva e ele não. É curioso: agora é ela, a quem Flaubert deu vida, que lhe dá a vida a ele. É essa a grandeza da Arte: o Verbo torna-se Carne, que por sua vez torna a ser Verbo. Pode desejar-se atividade mais nobre?” O mundo e a vida não param. Os grandes romances, como a grande poesia, exigem que se releiam no maravilhamento da descoberta – “a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos”. E isto vale para o leitor e para o escritor, já que a descoberta é necessariamente biunívoca. Há uma troca permanente entre a escrita e a leitura. Tudo é excecional. Se falamos de ler, falamos de reescrever, de refletir, de pensar. É da vida que se trata. Por isso, a leitura é o melhor modo de realizar a liberdade. E que marca extraordinária essa na coerência do escritor. Em cada linha António no-lo diz com persistência. Não se trata de fechamento, mas de partilhar uma experiência própria e intransmissível.

 

A ORIGINALIDADE DO ESCRITOR
Bernard-Henri Lévy leu com especial cuidado a obra de António Lobo Antunes e encontrou nela a reinvenção do tempo, o diálogo interior e a polifonia (capaz de não esquecer cada som e cada interpretação), como pontos essenciais da originalidade do escritor. O tempo, o mundo e o mal; a consideração da guerra como bomba atómica moral; mas também o domínio da escrita e da comunicação: a música, a pontuação e a perceção da doença – eis os elementos que colocam o escritor na galáxia dos maiores, dos inovadores, daqueles que revelam capacidade de ir ao encontro da voz do leitor… Ah! E temos a presença sub-reptícia, permanente, dessa estranha aventura que aprendemos a ler em “Peregrinação” e nas mil peripécias e personagens em que Fernão Mendes foi protagonista plural – “e com muita Avé-Maria e muito pelouro nos fomos a eles e em menos de um Credo os matámos a todos”… Que é a escrita senão essa capacidade de exprimir de forma inusitada o inesperado devir, permitindo ver melhor a realidade, como na subversão do tempo em “As Naus” (1988)? Sim, somos nós e os outros que António Lobo Antunes traz em observação cuidadosa, atenta e complexa. Regressado da guerra, sabia de feridos, de tiros e explosões, de minas, de prisioneiros, de crianças mortas, mas ainda tinha sido poupado ao conhecimento do inferno. E assim pôde entender o género humano, a coragem e a tibieza, o fundo bom e as baixezas… No fundo, acredita nas pessoas, por ter tido a possibilidade de conhecer o inominável… Aqui tudo começa e tudo continua. E, afinal, António, “basta um sorriso para ressuscitar o universo”…  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 7 a 13 de outubro de 2019

 

«Os Sonetos – Uma Antologia» de Manuel Alegre (D. Quixote, 2019) é uma reunião de poemas que permite uma visão global sobre a obra do poeta.

 

 

A PROCURA DAS RAÍZES
Se há poeta português para quem as raízes culturais são fundamentais, é Manuel Alegre. “Haverá sempre em mim o rio Águeda / Meu ritmo é seu fluir e seu buscar / Quem sabe se outro longe ou se Pasárgada / Haverá sempre um rio para o mar”. As raízes não podem ser esquecidas, e há um amor especial que o poeta nunca esquece, que é o da língua-pátria e da pátria-língua. Sempre um patriotismo prospetivo, como quis António Sérgio, sempre as lições no presente de uma longa história. E Águeda é um símbolo bom, a lembrar a “soberania do povo” e um especial culto ancestral da liberdade (e não esqueço outro amigo dessas paragens, Manuel José Homem de Melo, cuja memória está bem presente). Quando sobre Alfarrobeira e o Infante D. Pedro se lê: “Com D. Pedro outra vez saber ser contra. / Na hora amarga e vil e traiçoeira / ousar ainda a honra e a nobreza / sair em armas e lavar a afronta / com D. Pedro de novo em Alfarrobeira…” – não é um episódio passado que se rememora, é um apelo presente e ético que se proclama. Do mesmo modo, em “amor de fixação”, de “Coisa Amar” (1976), a lembrança de Duarte Pacheco Pereira é a da experiência madre das cousas, que se projeta nos dias de hoje: “naus a voltar no meu gostar de ti; / levai-me ao velho pinho do meu lar / eu vi o longe e nele me perdi”. No fundo, importa tirar lições para o futuro… “Vai-se a vida e cantar é um destino…”  

 

FORMA LÍRICA POR EXCELÊNCIA
Maria Helena da Rocha Pereira escreveu sobre “Sonetos do Obscuro Quê” (1993): “há muito que ele espreitava entre os poemas de Manuel Alegre: a forma lírica por excelência, o soneto”. A afirmação tem de ser lembrada, no momento em que é publicada a Antologia de “Sonetos” (D. Quixote, 2019), que nos permite recordar alguns dos mais belos momentos da criação do poeta. “Desata-se-me o verso no primeiro / no segundo de vento vai vestido / no terceiro de mar e marinheiro / no quarto está perdido está perdido”… A grande professora, que tanta saudade nos deixa, lembrava a sombra de Dante “entre outros nomes tutelares da poesia ocidental” e o “stil nuovo”, que inspirou o nosso Sá de Miranda, fez questão de lembrar a ligação entre amor e reflexão – e uma melodia própria, a exigir “um domínio da forma e dos sons que poucos possuem; e bem assim a concentração num conceito final, que surge como uma conclusão natural, ou então como uma farpa aguda, a apontar noutra direção. Ora, todas estas capacidades estavam presentes há muito na arte deste poeta”. Nada melhor do que estas palavras para elogiar o poeta, na sua originalidade, do domínio da palavra, no ritmo e no estilo, mas sobretudo na expressão originalíssima, que caracteriza um poeta de exceção. O grande poeta é quem é capaz de ligar o rigor à originalidade, tornando-se inconfundível. “De novo a via clara a via obscura / ligar a doce rima e a rima dura / da Provença e Toscana a luz e a rosa”.

 

LEMBRAR A POESIA
O poeta Manuel Alegre vai ser a figura homenageada este ano no festival literário “Escritaria”, que vai decorrer de 21 a 27 de outubro, em Penafiel, como sabemos, o festival “é o único que se dedica a homenagear um escritor vivo de língua portuguesa”, com a cidade a transformar-se, “por uns dias, na sua própria cidade”. É uma justa homenagem a um dos autores mais importantes das culturas de língua portuguesa. De facto, Manuel Alegre tem, ao longo de uma obra, muito vasta e rica, seguido, com grande coerência a linhagem muito antiga da nossa língua, que tem as suas bases na poesia trovadoresca. Desde “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967) que encontramos na escrita de Manuel Alegre ressonâncias de aventura e de liberdade, que o ligam de modo indelével a uma antiga poesia de resistência, que nos conduz aos maiores nomes das letras portuguesas, que usaram essencialmente a matéria-prima da liberdade. Por isso citou Afonso Lopes Vieira quando recebeu o Prémio Camões (2017): “Diria que não seriam dignos do épico os poetas portugueses que não passassem pelas prisões. Eu sinto-me herdeiro dessa tradição. Acredito na força mágica e libertadora da palavra poética”. E em “Resistência”, lembra: “Desinfeção: metáfora da Europa. / Resistir sem piedade e sem tardança. / ‘Terrífico é o momento que nos toca’. / Com René Char as sílabas de França”… Lembramos ainda o que omautor disse quando recebeu o Prémio D. Dinis, na Casa de Mateus (2008) – exprimindo o grande contentamento por receber uma distinção com o nome do nosso Rei-poeta: «As naus são sempre as doze naus da imaginação (o prémio referia-se ao livro “Doze Naus”). As de Ulisses. Mas também a da poesia portuguesa. Recordo Miguel Torga: "Todos os caminhos transversais de Portugal vão ter ao mar. Verificá-lo é avivar na consciência a nossa razão de ser. Nascemos para embarcar. Ou de imediato ou na lembrança ou na imaginação." E já o poeta Afonso Duarte (1884-1958) tinha dito: "Há só mar no meu país". É verdade que somos hoje um "país pequeno e pobre", com "muito passado e muita história e cada vez menos memória, país que por vezes já não sabe quem é quem, país de muito mar e pouca viagem". Mas somos também o país em que em português o vento vem do mar. País do Mar Absoluto. País em que, por vezes, "há um navio fantasma sem ninguém ao leme". País em que sobre o mar visível haverá sempre o invisível, o mar de dentro. E é nesse que todos nós continuaremos sempre a navegar». É significativa esta passagem, uma vez que estamos no cerne da identidade cultural, que Manuel Alegre tem cultivado, com abertura e independência. “Gramática de sal e maresia / na minha língua há um marulhar contínuo // Há nela o som do sul o tom da viagem. / O azul. O fogo-de-santelmo e a tromba / de água. E também sol. E também sombra”… Contra a ideia de identidade fechada e egoísta, contra um conceito burocrático de patriotismo ou de comunidade, o autor com agudo sentido crítico, rebela-se contra sermos um país com “cada vez menos memória”. Apenas se cultiva e aprofunda a memória, cuidando do sentido crítico, da independência, do apego à liberdade. E é isso que tem caracterizado a voz inquieta e sempre atenta de Manuel Alegre – seguindo os passos de Camões, Bernardim, Sá de Miranda, Bocage, Garrett e Herculano, Antero de Quental, Cesário, Camilo Pessanha, Pascoaes, Pessoa e Torga de Sophia. Como esquecer: “E o seu poema é quase como casa / e a casa é o outro espaço onde Sophia / reparte à sua mesa o pão e os versos”? O conjunto dos sonetos dá voz ao poeta que não esquece que a cultura e a língua portuguesas resultam de uma rica encruzilhada de influências, que se enriquecem no diálogo e na recetividade de novos elementos e fatores. Daí a necessidade de atenção crítica e de capacidade para responder aos desafios do inesperado e do incerto: “Eu sou o renitente o inconformado / Por isso me deitaram mau-olhado / e por isso persisto e canto e falo” – assim diz o décimo soneto do português errante; depois de ter afirmado: “Eu sou o solitário o estrangeirado / o que tem uma pátria que já foi / e a que não é. Eu sou o exilado / de um país que não há e que me dói”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 30 de setembro a 6 de outubro de 2019

 

André Gonçalves Pereira (1936-2019) foi um mestre de Direito Internacional Público e um humanista que há pouco nos deixou e que recordamos.

 

ADVOGADO E PROFESSOR
André Gonçalves Pereira foi um dos Advogados mais brilhantes que conheci, foi um Professor, pedagogicamente irrepreensível, de horizontes abertos e profundo conhecedor da evolução científica nos domínios que estudou e em que ensinou, em especial o Direito Internacional Público, situando-se entre os melhores além-fronteiras. Foi um humanista cultíssimo, para quem a cultura não era um mero luxo, mas um modo de tornar a vida um fator de dignidade e de felicidade. No domínio cultural foi um exemplo de exigência, de qualidade e de critério. Era um verdadeiro “conhecedor das Artes” e toda a sua vida e formação permitiram-lhe aprofundar essas extraordinárias qualidades de requinte e de bom gosto – com compreensão exata da evolução dos tempos, da inovação criadora, da diversidade e da complexidade. A Casa Redonda da Quinta do Lago, em que viveu, ligava o bom gosto, a arte, a singularidade e a criação de condições especiais para a hospitalidade, o convívio e o bem-estar. Eis por que é indispensável recordar o cultor exigente das humanidades e da sensibilidade. Desde muito cedo, designadamente no Liceu Pedro Nunes, afirmou as suas qualidades de inteligência, as capacidades de trabalho e o brilhantismo na apresentação e no desenvolvimento dos temas e questões que abordava, com originalidade e um fino sentido de humor. Quando iniciou o curso de Direito depressa revelou essas qualidades, que lhe permitiram destacar-se junto dos professores e entre os colegas. Desde cedo, o Professor Marcelo Caetano, reconheceu as grandes qualidades do jovem, que viriam a manifestar-se em estudos tornados clássicos e de leitura obrigatória, pela sua excecional qualidade, como “Erro e Ilegalidade no Ato Administrativo”, de 1962, que apesar da distância do tempo e das profundas alterações da ordem jurídica, se revela um caso modelar para a apresentação e desenvolvimento de um tema complexo, mas indispensável.

 

A EXPERIÊNCIA NAS NAÇÕES UNIDAS
Fui seu aluno, e tive oportunidade, pela vida fora, contar com a sua estima pessoal e o seu conselho. Não esqueço a expressão da sua genuína amizade quando iniciei funções na Fundação Calouste Gulbenkian, instituição que tanto lhe deveu. De facto, foi alguém que sempre se entregou de alma e coração às funções que lhe foram confiadas ao longo da vida. A sua experiência das Nações Unidas, nos anos sessenta, na Comissão Jurídica, permitiu-lhe conhecer melhor a sociedade norte-americana e o clima estratégico mundial. Em toda a sua carreira profissional não só se afirmou ao melhor nível, mas também soube formar pessoas, dar bons exemplos e abrir novos caminhos e perspetivas. Filho do Professor Armando Gonçalves Pereira, advogado, que viria a ser diretor do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras e de sua mulher Viviane Delaunay, descendia pelo lado paterno de uma antiga e ilustre família de Goa, sendo sobrinho-neto de Luís Cunha Gonçalves, ilustre civilista e pelo lado materno de uma antiga família aristocrática francesa. Os pais foram dois apoios fundamentais na formação dos dois irmão Jorge e André, o que permitiu a ambos beneficiarem de um ambiente culto e de excelentes condições para desenvolverem as suas qualidades pessoais, intelectuais e profissionais. Lembro a ligação da família às Edições Ática, na Rua Alexandre Herculano, editora de Fernando Pessoa e de Mário de Sá-Carneiro e que tomou a designação da antiga casa fundada por Luís de Montalvor no Chiado. Aí viu André Gonçalves Pereira publicado o seu “Curso de Direito Internacional Público” (depois desenvolvido mercê da parceria académica com Fausto de Quadros). Para André Gonçalves Pereira não havia domínios reservados ou estranhos. Era um leitor entusiasta e sistemático. Os grandes autores e as grandes obras, na literatura ou na pintura, eram-lhe familiares. A música era uma das suas paixões. Os novos caminhos da ciência eram por si seguidos com atenção e curiosidade. Mas a História era, de há muito, um campo de exceção. Conhecia a geoestratégia, a partir da compreensão profunda das raízes históricas. O Médio Oriente era uma realidade difícil que conhecia profundamente, como ficou evidente quando exerceu funções na Fundação Gulbenkian. Mas se a economia do petróleo não tinha segredos, nas diversas fases da sua evolução, o certo é que conhecia como poucos o caleidoscópio dos povos da região, desde o crescente fértil e do Mediterrâneo Oriental, até ao subcontinente indiano e às origens indo-europeias das nossas línguas e culturas. Discutia em pormenor as causas e consequências das guerras pérsicas e do Peloponeso, até às opões de Aníbal nas guerras púnicas – mas também as circunstâncias que rodearam a complexa negociação do Tratado de Tordesilhas ou o erro de cálculo de Magalhães sobre a situação das ilhas Molucas… Era um viajante apaixonado, para quem a História só podia ser entendida através de um bom conhecimento da Geografia. Viajou em todos os continentes em procura de exotismo, de lugares míticos e de referências civilizacionais (Kilimanjaro, Taj Maal, fiordes noruegueses). Preparava meticulosamente essas expedições que tinham, a um tempo, finalidades lúdicas e pedagógicas. A vida possuía afinal o prazer do convívio e do conhecimento, do usufruto da beleza, da descoberta e da aventura.

 

UNIVERSALISMO E PRIMADO DOS DIREITOS HUMANOS
Acreditando no universalismo da dignidade humana, no primado do Direito e na legitimidade democrática tinha o ceticismo próprio da inteligência fulgurante, que era capaz de ver a um tempo as vantagens e os inconvenientes de qualquer solução. Era um europeísta moderado e realista, consciente de que, como ensinou, as instituições europeias deviam considerar a representação e a participação dos cidadãos. Nesse sentido, desconfiava do voluntarismo e da burocracia, mas sabia que as condições para a paz e a segurança precisariam de uma legitimidade supranacional, que completasse as legitimidades nacionais. No dualismo de Henry Kissinger apresentado em “Diplomacia”, estava, assim, mais próximo de Theodore Roosevelt do que de Woodrow Wilson sobre o conceito de balança do poder… O seu sentido de humor era desarmante, mas era a clara demonstração de uma inteligência superior e de uma independência a toda a prova. Um dia disse: “Não sei se esta mania da independência é boa ou má. Nunca escolhi. E não tenciono fazer as contas: como não vou a tempo de corrigir, já não vale a pena”. Hoje podemos dizer que a sua atitude venceu, e deixa uma memória extraordinária de coerência e de exemplo. Por outro lado, não podemos esquecer a sua generosidade e um forte sentido de solidariedade humana, a partir da valorização da importância da Educação. Temos presente a Escolinha do André, no Xai Xai, na província de Gaza, em Moçambique, onde as Irmãs de Santa Catarina de Sena recebem crianças desde o pré-escolar à 5ª classe. Os seus discípulos não esquecem as suas qualidades – e sabem que o melhor modo de preservar a exigência é a ligação efetiva entre a justiça e o senso comum.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 23 a 29 de setembro de 2019

 

Quinhentos anos depois do início da viagem de Fernão de Magalhães, é tempo de tirar as lições certas, o que é possível com a leitura de “O Drama de Magalhães e a Volta ao Mundo Sem Querer” de Luís Filipe F.R. Thomaz (Gradiva, 2019).

 

 

UMA VIAGEM INESPERADA
Fernão de Magalhães é o mais conhecido e celebrado navegador da história universal – di-lo o autor da obra que referimos com inteira razão… Importa. Porém, tornar clara a razão dessa distinção. A frota de cinco navios, comandada pelo português Fernão de Magalhães, partiu de Sanlúcar de Barrameda, a 19 de setembro de 1519, e tinha como objetivo chegar às Ilhas de Maluco através do grande Oceano Pacífico. O extraordinário mérito de Fernão de Magalhães não foi, porém, segundo o Professor Luís Filipe Thomaz, a organização de uma viagem de circum-navegação do Globo, nem o ter provado a esfericidade da Terra, já conhecida desde Pitágoras (no século VI antes de Cristo), mas sim a fantástica travessia do Pacífico, por ninguém antes realizada ou sequer tentada. Se Vasco da Gama na descoberta do caminho marítimo para a Índia apenas navegou parcamente em costa ou território desconhecido – entre o Rio do Infante, de onde Bartolomeu Dias retornara depois de dobrar o Cabo da Boa Esperança e o Cabo das Correntes, perto de Inhambane, termo das navegações árabes e persas no Índico –, Magalhães apenas podia conhecer até ao rio da Prata na Argentina, percorrendo a partir daí um larguíssimo mar desconhecido, até atingir na Ásia, o arquipélago de S. Lázaro, a que Ruy Lopez de Villalobos chamou Filipinas, em 1542, em honra do Príncipe Filipe, filho de Carlos V, o nosso Filipe I. Magalhães usou a experiência e um método racional para navegar no Oceano desconhecido. Partindo do princípio que o regime de ventos deveria ser semelhante ao do Atlântico, rumou para norte, aproveitando os ventos alísios de sueste e a corrente de Humboldt, infletindo depois para oeste, até ao Equador, que passou a 13 de fevereiro de 1521, aproveitando a corrente equatorial para chegar em três meses às Filipinas, na proximidade das Molucas. Contudo, no dizer do historiador: se não tivesse morrido em combate com os nativos de Mactan (27.4.1521), Magalhães deveria ter regressado ao continente americano, pois estava impedido de fazer navegação na zona de influência de Portugal, segundo o Tratado de Tordesilhas. Aliás, a nau capitânia, Trinidad, sob o comando de Gonzalo Gomez de Espinosa, tentou atingir o Panamá, sem sucesso, sendo obrigada a regressar a Maluco e a render-se aos portugueses de Ternate, que depois de quatro anos de cativeiro libertaram e devolveram à Europa, a ferros…

 

O FEITO DA NAU «VITÓRIA»
Foi a nau Victória (com 60 homens e um carga de cravinho), comandada por João Sebastião de Elcano, a única a completar a volta ao Mundo, seguindo uma rota desconhecida e muito perigosa em zona de influência portuguesa. Começaram por Timor, que só viria a tornar-se protetorado português em 1642, donde se dirigiram diretamente ao cabo da Boa Esperança pelo mar do sul, evitando Moçambique, numa proeza de grande perigo, que durou nove semanas, dobrando o Cabo das Agulhas, ponto mais meridional de África, a 15 de maio de 1522, entrando no Atlântico Sul. Em 9 de julho, chegam a Santiago, arquipélago de Cabo Verde, para se refrescarem, apresentando-se como perdidos à volta das Antilhas e omitindo donde vinham. Não puderam, assim, adquirir alimentos, mas venderam cravinho, o que causou naturais suspeitas… Por isso, uma dúzia de homens que tinham ido a terra foram presos, sendo libertados poucas semanas mais tarde. Finalmente, a 6 de setembro de 1522, aportaram a Sanlúcar de Barrameda, ao fim de dois anos, onze meses e dezassete dias de atribulada viagem. Além do erro de um dia, que muito admirou Elcano em Cabo Verde, resultante de as navegações terem sido feitas de este para oeste, ao contrário do que aconteceu com Phileas Fogg, que viajou em sentido contrário e ganhou um dia. Pedro Mártir de Angléria, humanista da corte de Castela, esclareceria o problema, uma vez que fazendo o navio uma navegação para ocidente atrasar-se-ia a cada 15 graus de longitude uma hora em relação ao tempo solar no ponto de partida… O outro problema tinha a ver com a ideia de Fernão de Magalhães de que as Molucas ficariam no hemisférico de Castela, o que não correspondia à realidade por um pequeno erro de cálculo. O pomo da discórdia foi, de facto, o das ilhas de Maluco, onde os mercadores javaneses e portugueses fizeram desenvolver as plantações de cravo, cravinho, cravo-girofo, cravo-da-índia e cravo-de-cabecinha, além da noz-moscada… Os portugueses foram muito bem recebidos em Ternate e Tidore (outrora, como nos nossos dias, veja-se o nosso “Na Senda da Fernão Mendes”).

 

O HEMISFÉRIO PORTUGUÊS
De facto, as Molucas estavam no hemisfério português. E tudo leva a crer (como confirma João de Barros) que Francisco Serrão terá exagerado em carta ao seu amigo sobre a distância de Malaca às Molucas. E diz o Luís Filipe Thomaz: “é importante notar que, após a sua travessia do Pacífico, (Magalhães) aterrou a 16 de março de 1521, na ilha filipina de Samar, sita a c. 125 graus. E por conseguinte, dois graus a oeste da posição real das ilhas de Maluco, nove e meio da que no seu memorial a el-rei D. Carlos lhes atribuíra. Bom marinheiro como era, é provável que se tenha de imediato apercebido do erro. Se assim foi, deve ter-se sentido frustrado, senão perdido: traíra el-rei de Portugal para provar que as Molucas pertenciam de direito ao reino comarcão; restava-lhe agora o dilema: ou dar a mão à palmatória, traindo el-rei de Castela, ou obstinar-se no erro e trair assim a sua própria consciência”. Aqui poderemos especular. A angústia e o amor-próprio inibiram-no de rumar ao objetivo da expedição. E deambulou pelas Filipinas, até encontrar a morte em resultado de uma inútil escaramuça tribal. “E assim feneceu tragicamente a vida de um homem que foi quiçá o mais ousado navegante da história da Humanidade”. Deve-se a António Pigafetta (1492-1531), que acompanhou a viagem toda, o relato da viagem à volta do mundo: «Relazione del Primo Viaggio Intorno Al Mondo», composta em italiano e publicada Paris (1525). Contudo, uma publicação integral do relato só seria feita em fins do século XVIII, tendo-se perdido o documento original. Entretanto, foi através de uma narrativa anterior, de autoria de Maximianus Transylvanus de 1523, que os europeus tiveram informações da primeira circum-navegação da Terra. Na qualidade de Secretário do Imperador Carlos V, Transylvanus recebeu instruções para entrevistar os sobreviventes da expedição de Magalhães quando a nau Victória retornou à Espanha. Em suma, a gesta de Fernão de Magalhães assume uma importância fundamental, menos pela circum-navegação (corajosamente terminada por Elcano, mas não planeada) e mais pelo facto de os dois Estados Ibéricos terem criado as condições para a percursora descoberta global da Terra.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 16 a 22 de setembro de 2019

 

“Brincar diante de Deus, Arte e Liturgia” é um encontro inesperado de Maria Helena Vieira da Silva, Henri Matisse e Lourdes Castro na Fundação Árpad Szenes – Vieira da Silva.

 

SÍMBOLOS, ELEMENTOS, REFERÊNCIAS
Apresentam-se nesta exposição obras de Matisse de 1949 a 1951, que correspondem ao desenho dos paramentos para a Capela de Nossa Senhora do Rosário, em Vence. Os símbolos, os elementos, as referências são-nos mostrados através uma imaginosa técnica do recorte e por um jogo de cores que corresponde aos tempos litúrgicos e ao calendário de celebrações. Os contributos de Maria Helena Vieira da Silva referem-se aos estudos para os belos vitrais da Igreja de Santiago de Reims (1966), bem como aos painéis para a sacristia da capela da Embaixada de França no Palácio de Santos, em Lisboa (1981) e à série “Luta com um Anjo” (1992), onde é evidente o fecundo diálogo entre talento e espiritualidade. E Maria Helena explica-o: “Às vezes, pelo caminho da arte, experimento súbitas, mas fugazes iluminações e então sinto por momentos uma confiança total, que está além da razão. Algumas pessoas entendidas que estudaram essas questões dizem-me que a mística explica tudo. Então é preciso dizer que não sou suficientemente mística. E continuo a acreditar que só a morte me dará a explicação que não consigo encontrar”. Lourdes Castro corresponde ao convite que lhe foi feito para a Capela Árvore da Vida do Seminário Conciliar de Braga, desenhando quatro paramentos, em elementos naturais, algodão, linho, seda e lã, ligados às quatro estações do ano, com belos peitorais ornamentados com lâminas de ágata em cores diferentes conforme os diversos momentos litúrgicos… A mostra significa um encontro inesperadamente fecundo – e a sua referência neste texto tem a ver com Lourdes Castro, que representa um elo que articula de um modo muito intenso as obras apresentadas – que, valendo por si, ganham um sentido especial neste diálogo. E a ideia de “brincar diante de Deus” tem a ver com a essência da palavra brincar, de origem latina, do verbo “vincire”, que significa seduzir, encantar, donde provem “vinculum”, que significa ligação, e também está na origem da palavra “brinco”, símbolo de fecho e de sedução. Brincar é sinônimo de divertir-se e este divertimento liga-se à essência da cultura e da arte, e à busca da alegria genuína do “riso de Deus”. Romano Guardini afirma, por isso, que «viver liturgicamente, é (...) tornar-se uma obra de arte viva diante de Deus. É cumprir a palavra do Mestre e “fazer-se criança”». Afinal, «não é trabalho, é jogo. Brincar diante de Deus. Não criar, mas ser cada qual uma obra de arte, eis a essência íntima da liturgia».

 

UM AGREGADO DE MIL COISAS…
E a “Luta com um Anjo” de Maria Helena Vieira da Silva permite recordar o “Anjo de Berlim” de Lourdes Castro, que se encontra na Capela do Rato, em Lisboa, graças à iniciativa de José Tolentino Mendonça. Tudo nasceu num Natal de neve em Berlim e numa ideia partilhada com Manuel Zimbro – sobre a qual escreveu Almeida Faria. O anjo foi colocado numa janela e foi iluminado. E tornou-se uma sombra viva em diálogo com as outras luzes da cidade. Em entrevista recente, Lourdes Castro disse: “Pergunto sempre: ‘O que somos nós senão um agregado de mil coisas?’ Não há ‘eu’, somos tudo à la fois. Às vezes pergunto: ‘Mas foste tu que escolheste o sítio para nascer? Foste tu que escolheste o pai e a mãe?’ Não, a gente tem o pai e a mãe que tem. Nasci aqui, mas não fui eu que escolhi nascer aqui. Nasci. O que somos senão um agregadozinho no meio disto tudo? Somos tudo e somos nada. E isso é fundamental para a gente não estar agarrada a nada. As pessoas pensam que são qualquer coisa. Mas depois vão para a escola e aprendem. E depois há um tio e uma tia, há a paisagem que também entra em nós. E o que vai entrando também é conforme o que já temos dentro. É assim que a gente se vai formando. E somos isto que está aqui, mas não somos nada de especial. Somos um agregado de causas e efeitos. Vamo-nos construindo” (Expresso, 31.8.2019). A cultura, a arte, a vida são, com efeito, sempre construções. E ao ler esta passagem, lembrei-me, naturalmente de José Escada (que se encontrou com Lourdes Castro no projeto “KWY” e que foi partilhando essa ideia). Segundo José-Augusto França, Escada “escrevia o desenho” e tinha uma especial maturidade entre os seus colegas do grupo parisiense (René Bertholo, Christo, João Vieira, Costa Pinheiro, Jan Voss, Gonçalo Duarte), uma “delicada solução de uma pintura pessoal numa espécie de ‘simulação caligráfica’”. E quanto às composições feitas de pequenos elementos, disse um dia «ter-se inspirado no último verso de um soneto de Camilo Pessanha “conchinhas, pedrinhas, bocadinhos de osso”». Depois, voltou ao figurativo – paisagens, cabrinhas, cães. Os seus amigos reconheceram uma espécie de regresso à descoberta da contemplação. E assim, depois de uma certa turbulência, transmite-nos serenidade e paz… E António Alçada Baptista escreveu: «Não sei se, na minha geração, alguém sofreu com tanta violência o embate entre a lucidez e a clarividência perante o grande projeto que foi prometido ao homem e a mediocridade dos pesos interiores intransponíveis e mais dos bloqueios das circunstâncias que eles semearam à nossa própria volta»… Se associo Lourdes Castro e José Escada (que, no início, fizeram juntos uma exposição no Centro Nacional de Cultura) é porque, nas suas diferenças fundamentais, há pontos de encontro, não só pessoais, mas de espírito e de procura da transcendência da arte. 

 

GRANDE HERBÁRIO DE SOMBRAS
A paisagem natural da Madeira, que rodeou Lourdes Castro sempre, é uma paixão que a acompanha. Veja-se a série “O grande herbário de sombras” (1972) e percebemos que há uma permanente procura das formas essenciais e da projeção da natureza e das pessoas na memória perene. É fantástico percorrer as obras que estão na Fundação Gulbenkian e tudo o que tem exposto. Agora mesmo, o último número da “Colóquio Letras” apresenta-nos belos desenhos de Lourdes Castro. Não se trata de referências estáticas, há sempre a ideia fascinante de um teatro de sombras – e, assim, regressamos à essência da palavra brincar, como sinónimo de criação. Serão sempre sombras à volta de um centro. Ao plexiglas recortado, sucederam as sombras bordadas em lençóis – na extrema leveza das sombras que se fixam, mas que estão sempre a mudar. O grande herbário nasceu de um desconsolo grande perante a mostra no Louvre do herbário de Rousseau. E lembrando-se da vitalidade natural da Madeira começou a fazer um herbário digno desse nome – mangueiras, bananeiras, cana-de-açúcar, magnólias…E vêm à baila os lemas de vida de Lourdes Castro: “Grava para sempre a alegria na fachada de tua casa” (“Cloue à jamais la joie au front de ta demeure”, como encontrou em Paris na rue des Saints-Pères). E há tempos em que se torna necessário dizer: “Caminha como o teu coração te leva”… E assim se pode entender como “A arte e a casa e o jardim e mais isto e mais aquilo, é tudo respirar. É respirar à sua maneira. Não é o caminho, porque isso depois, o caminho… Como é que a gente respira?”  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de setembro de 2019

 

Acaba de ser publicado “Antero, Portugal como Tragédia”, volume VII das Obras Completas de Eduardo Lourenço (Fundação Calouste Gulbenkian, 2019) com prefácio, organização e notas de Ana Maria Almeida Martins. Trata-se de uma obra fundamental, na qual é o grande ensaísta que se apresenta na lógica sequência do grande Mestre que foi Antero de Quental.

 


GRANDE INTÉRPRETE DE PORTUGAL
Falar de Eduardo Lourenço é invocar o grande intérprete de Portugal. E se é um português que fala, o certo é que a sua reflexão abre horizontes, recusando uma visão fechada ou retrospetiva da nossa identidade, abrindo-lhe novas dimensões, não providenciais ou mitológicas, mas capazes de integrar o imaginário crítico num diálogo diacrónico e sincrónico de diversos tempos e culturas. Para o ensaísta, Antero de Quental é a maior referência intelectual portuguesa e o primeiro português que teve uma consciência trágica do destino humano. E assim Antero marcou o começo da nossa modernidade, sendo o seu verdadeiro fundador. As Conferências Democráticas, as Causas da Decadência, mas também o pensamento filosófico são marcos decisivos que se projetam na modernização e na abertura da cultura portuguesa e das culturas de língua portuguesa. Mas Eduardo Lourenço chama-nos a atenção para que não devemos esquecer quantos ainda se opõem a Antero e ao que ele continua a significar: “a visão unanimista da Geração de Setenta que tem nele o seu ícone cultural esconde mal os conflitos e antagonismos, as rivalidades, surdas ou clamadas, que com matéria viva o atravessaram”. E pode dizer-se que este alerta é válido para Antero e para Eduardo Lourenço, uma vez que uma leitura atenta do ensaísmo do autor de “O Labirinto da Saudade” está muito longe de simplificações, quiçá providencialistas, que quer Antero quer Lourenço sempre recusaram. O autor de «Portugal como Destino» é uma personalidade multifacetada que se singulariza pela coerência entre um pensamento independente e uma permanente atenção à sociedade portuguesa, à sua cultura, numa perspetiva ampla, avultando a reflexão sobre uma Europa aberta ao mundo e nunca fechada numa qualquer fortaleza encerrada no egoísmo e no preconceito. Em lugar de alimentar uma ilusão sobre qualquer lusofonia paternalista ou uniformizadora, o ensaísta alerta-nos para a exigência de entendermos a modernidade como um ponto de encontro entre a racionalidade ou o idealismo e a emotividade dramática e poética.

 

A PROCURA DAS RAÍZES
É a imagem e a miragem da lusofonia que têm de ser encaradas a partir da «chama plural» que leva a entender que língua alguma é invenção do povo que a fala, já que é a fala que o inventa. Sob a influência inequívoca de Antero de Quental, como reconheceu em «Poesia e Metafísica», o pensador exprime a sua grande admiração pelo facto de o voluntarismo do autor dos «Sonetos» não abdicar «da referência ética, no sentido mais radical, e esta, por sua vez, só encontra o seu fundamento na referência metafísica e o seu cumprimento como ideal último naquela aspiração que ele designou de “santidade”. Que no final da sua vida a tenha concebido mais sob a forma budista que cristã nada retira à exigência que nela se encarna. A esse título, Antero é o único intelectual comprometido com a ação que não transigiu com o comum espírito do seu tempo. No entanto, «os homens de alta exigência ética e mística – e Antero foi um deles – são sempre um pouco arcaicos» - como salienta, com aguda lucidez, num tempo demasiado carregado de leituras fechadas e definitivas. E se falamos da importância de uma geração que só por ironia pode ser qualificada de vencida, tão grande foi a sua influência, como só acontece para situações absolutamente excecionais, temos ainda de voltar ao facto de ter sido Eduardo Lourenço a ver no «universo» de «Orpheu» o que vai muito para além da circunstância em que se afirmou.

 

O QUE TÍNHAMOS A PROVAR, PROVÁMOS
Mas o ensaísta de «Labirinto da Saudade» é perentório: «Não temos nada que provar. O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Não somos melhores ou piores, somos nós mesmos. Portugal é uma série de milagres. Herculano chamou-lhe vontade. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma batalha cultural, sempre. «A Europa define-se na sua relação com o que não é Europa. Só sabemos o que é Europa quando estamos fora da Europa. Na Europa temos uma experiência normal. É como a experiência de quem está em casa. Há até uma pluralidade de casas que, mais ou menos, têm afinidades entre elas. Isso é a Europa». Mas há ameaças e perigos, e até a indiferença e a acomodação. Falta a normalização connosco próprios. Perante tantos sinais de incerteza persiste uma miragem europeia. Contudo, a Europa fechada definha. Importa tirar lições, procurando caminhos que permitam encontrar a defesa de um pequeno e eficaz núcleo de interesses e valores comuns. Premonitoriamente, em nome da geração nova foi Antero de Quental quem definiu o programa positivo, que nunca poderá ser confundido com qualquer lógica de “vencidismo”. Se dúvidas houvesse, aqui está o corolário lógico da análise das causas da decadência. Só o sentido crítico permitirá retomar um caminho positivo de transformação e de progresso. Para muitos, depois da dureza do discurso, fica a surpresa pela determinação conclusiva. E pode dizer-se que o ensaísmo de Eduardo Lourenço assenta nesta extraordinária visão – que mais atrás se encontra em Garrett e Herculano e que se traduz na vivência dos fatores democráticos na formação de Portugal que o melhor ensaísmo do século XX desenvolveu. É a fidelidade de Antero à memória, é a compreensão da força das raízes, é a exigência da radicalidade crítica da modernidade que aqui se sente: «Meus senhores: há 1800 anos apresentava o mundo romano um singular espetáculo. Uma sociedade gasta, que se aluía (…) ao lado dela, no meio dela, uma sociedade nova, embrionária, só rica de ideias, aspirações e justos sentimentos, sofrendo, padecendo, mas crescendo por entre os padecimentos. A ideia desse mundo novo impõe-se gradualmente ao mundo velho, converte-o, transforma-o: chega um dia em que o elimina, e a Humanidade conta mais uma grande civilização. Chamou-se a isto o Cristianismo. Pois bem, meus senhores: o Cristianismo foi a Revolução do mundo antigo: a Revolução não é mais do que o Cristianismo do mundo moderno».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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  De 2 a 8 de setembro de 2019

 

“Poesia 61” (Faro, 1961) não foi um cânone ou uma orientação, mas um encontro, em que houve uma procura de radicalidade por diversos caminhos.

 

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FARO, 1952
Há um poema de Gastão Cruz a que gosto sempre de regressar, uma vez que me recorda o Algarve que sempre conheci, de minha mãe e de meus avós, e de tantos amigos, muitos que já partiram. O título, “Faro, 1952”, tem a marca do ano em que nasci, mas lembra-me recordações de que ouvi falar ou que presenciei, ao longo dos tempos. Há um ano, quando homenageámos em Querença Gastão Cruz no FLIQ, essas palavras soaram com especial intensidade e brilho: “O café, do outro lado a livraria / essa a meta / da tarde / quando esfria a pele / sem que / frio fique o dia, / as linguagens regressam às cúpulas / de folhas / e os treze noturnos ainda nos esperam…”. Quantas lembranças? Quando percorro aquelas ruas de Faro, não só recordo a “Gente Singular” de Manuel Teixeira Gomes, mas também, há muitos, muitos anos, o meu avô a lembrar que ali encontrava, nos dias finais da sua vida, o poeta Cândido Guerreiro. E por isso este poema ainda ganha para mim maior sentido, já que é essa mesma memória que aqui se recorda. “… Percorremos a rua / até onde entra nela a aragem da ria / e o café dum lado, do / outro a livraria, / à porta o chapéu largo e a barba / branca / dum poeta do passado”… Assim se ilustra bem a afirmação de Gastão Cruz sobre ser “poeta do real”, singularíssimo, na boa companhia de outros poetas como Sophia, Sena, Ruy Belo, Fiama Hasse Pais Brandão, Armando Silva Carvalho, Fernando Assis Pacheco, Luiza Neto Jorge… De facto, cada um imprime na realidade que nos cerca uma marca especial de crítica e de confronto. E assim podemos entender a importância de Luiza Neto Jorge disse ao “Diário de Lisboa”, em maio de 1961: “Parece-me que entre nós o surrealismo ainda terá razão de ser – como total destruição de cânones bafientos, como reação a um ambiente social rígido”. Sim, há rutura com um certo “discursivismo”, como afirmou Gastão. E se há prenúncios relativamente a essa atitude, temos de referir os casos de António Ramos Rosa, espécie de padrinho do grupo de 1961, em Faro, com “O tempo concreto” e “O boi da paciência” (em “O Grito Claro”) e do “Poema podendo servir de posfácio” de Mário Cesariny, que encerra “O discurso sobre a reabilitação do real quotidiano”…

 

UM ANO ESPECIAL
1961 é um ano especial. Os acontecimentos nacionais sofrem uma aceleração em virtude da guerra de África. Nada será como dantes. É verdade que 1958 anunciou esse movimento uniformemente acelerado no sentido da criação da democracia – a candidatura de Humberto Delgado, sob o impulso de António Sérgio, a tomada de posição do Bispo do Porto, e o seu afastamento do país, mas também a publicação de “Mar Novo” de Sophia, como grito de alerta, perante a injusta e absurda desclassificação do projeto de João Andresen, Júlio Resende e Barata Feyo vencedor do concurso para homenagear o Infante D. Henrique em Sagres. E muitos ainda esquecem esse episódio fundamental. Lembro-me de ter sugerido a alguém que relesse o livro de Sophia de 1958, à luz desse impulso de uma genuína revolta. E tive a confirmação de que foi com surpresa que o meu interlocutor se apercebeu disso mesmo… Reuniram-se então os fatores que tornavam inexorável a liberdade. E era Sagres, e era o Algarve, e era a consciência da democracia que estava em causa. E era essa paisagem algarvia, sobretudo dominada pelo mar, que revelava a personalidade fantástica que domina o filme de João César Monteiro “Sophia de Mello Breyner Andresen” (1969). Frederico Lourenço tem razão quando afirma que é no Algarve que se inicia a Grécia de Sophia. Quando lemos “A Morte Percutiva” de Gastão Cruz, ou quando encontramos Fiama, Luísa Neto Jorge, Mara Teresa Horta e Casimiro de Brito, nos textos de 1961, compreendemos um movimento comum, marcado pela energia resultante “do embate entre o corpo que aspira à sua plenitude e um país cercado, onde todos os movimentos são vigiados ou proibidos”. Percebe-se bem uma visão pessimista, a consciência de uma doença de repressão e de guerra, ligada a uma circunstância pessoal de luto. Contudo, subjacente a esse embate, a esperança tornava-se uma coisa física, como “força dos corpos e do desejo”. E Gastão Cruz em “A Doença” precisa: “A este sítio há de o amor / ainda amor chegar / agora vamos ambos / pelos campos à espera duma dor de que viver”... Eis por que razão o curso do tempo foi revelando nessa atitude não uma escolástica, mas o reconhecimento da coexistência de caminhos múltiplos. “Uma revolta de palavras, apelando a um novo discurso” (na expressão de Luísa Neto Jorge).

 

A LUZ AMADURECE AS PEDRAS E OS FIGOS
Por estes dias, deambulei com o estio, a música das cigarras e as palavras de Gastão (“Os Poemas”, Assírio e Alvim, 2009): “A luz amadurece as / pedras e os figos nos lados dos caminhos / adoça as alfarrobas fende a casca / cinzenta das / amêndoas e desprende-as / varejamos / as que ficam presas de leve / aos ramos; / no armazém da casa amontoadas / descascar as / amêndoas o verão”. Mas também lembro o ritmo antigo, junto de quem conheci e amei: “Na horta atrás da casa laranjeiras / figueiras e uma / romãzeira junto à nora / Às vezes vagarosa a mula com antolhos / rodava toda a tarde / fazendo os alcatruzes despejar / incessantemente água”. É quase perturbador como tudo se assemelha. Estou a ver tudo como se fosse agora. Este Mediterrâneo banhado pelo Atlântico leva-nos muito longe, aos fenícios e cartagineses, aos gregos e romanos, aos misteriosos povos da língua do Sudoeste. E vêm à lembrança Manuel Viegas Guerreiro, com a sua especial atenção, às tradições e costumes, à memória imaterial, mas também Miguel Torga, sentado em Albufeira, num círculo de amigos, com o doutor Serra, a comentar a política, a gozar o fim da tarde e o luminoso pôr-do-Sol. Ainda há dias o recordei com sua filha Clara, e reluziram-lhe os olhos com essas recordações. E lembro Sophia e Ruy Belo no poema  de Gastão em “Repercussão” (2004) na Esplanada do Campo Pequeno (“Não achas que a esplanada é uma pequena pátria a que fomos fiéis?”): “o autor entrara e a presença / dele tinha tornado mais longa a hesitação / entre o sentido e o som ou suprimira-a? / É pouco fotográfica a memória / sonora e uma noite em casa de Sophia / (Que fica dos teus passos dados e perdidos?) / mais do que cada frase, cada pausa / do voo do tempo fizera a suspensão / seria primavera novamente / era talvez em tempo de tormenta / janeiro de 70 mês de febre / um dia só que na memória sobra / (o resto vem do Ruy Belo / Ruy Belo é o poeta vivo que me interessa mais / e é talvez hoje o tempo de tormenta”… Quantas memórias são suscitadas por este regresso às ruas de Faro e ao rincão algarvio, povoados por velhos amigos? Como disse ainda Gastão Cruz; “Palavras não existem / fora da nossa voz as / palavras não assistem / palavras somos nós”(A Doença, 1963).

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 26 de agosto a 1 de setembro de 2019

 

Victória Ocampo (1890-1979) fundou em Buenos Aires a revista “Sur” (1931-1971), referência fundamental de uma cultura humanista no mundo ibero-americano, centrada no diálogo entre diferentes identidades e numa perspetiva democrática baseada nas sociedades abertas e na salvaguarda da emancipação humana centrada na liberdade e no respeito dos direitos fundamentais.

 

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LUGAR DE CULTURA

Villa Ocampo está localizada na calle Elortondo 1837, en Beccar, na zona de Santo Isídro, em Buenos Aires. Foi construída em 1891 num terreno de dez hectares junto do Rio de la Plata. O terreno pertencia a Francisca de Ocampo, tía de Manuel Ocampo, pai de Victória, conhecida como tia Pancha, que cedeu a propriedade para a construção do que hoje é a Villa Ocampo. O projeto corresponde a uma típica villa italiana, onde toda la família passaria os seus verões de novembro a março… Francisca Ocampo deixou estabelecido que, por sua morte, deveria ser sua sobrinha Victória a herdar a propriedade, devendo partilhá-la com suas irmãs. Victória Ocampo disse no primeiro volume da sua autobiografia, El Archipiélago: «Tudo começou antes do meu nascimento em 1890. O meu Pai foi o arquiteto da casa e desenhou o parque, grande para esse tempo. A casa e o parque encontram-se nas “barrancas” de Santo Isidro, cerca de Punta Chica, a 20 quilómetros da capital. Hoje, já fazem parte da Grande Buenos Aires. A propriedade pertencia a uma das minhas tias avós, Francisca Ocampo de Ocampo, e só no verão a família ia para lá. A família compunha-se das minhas tias avós, com quem vivemos sempre, os meus pais, as minhas irmãs (cinco) à medida que iam chegando ao mundo e, no princípio, o meu bisavô. Morreu com muita idade. Eu diria que a história da quinta começa com ele, ainda que tenha tido pouco tempo para desfrutá-la. Este bisavô era grande amigo de Sarmiento (Presidente da Argentina, 1868-74) e administrava os seus escassos bens. Sarmiento não se ocupava deles e o meu bisavô obstinava-se em endireitar as suas finanças caseiras. Depois de herdar a Villa, Victória Ocampo usou-a como residência de Verão durante onze anos, até que se mudou definitivamente para lá, deixando a casa inspirada em Le Corbusier encomendada ao arquiteto Bustillos. A Villa Ocampo é rica na presença de grandes memórias da cultura do mundo. Rabindranath Tagore (1861-1941) esteve em Santo Isidro dois meses. Foram semanas muito agitadas, em que vinha muita gente ver o sábio e poeta, sendo necessário protegê-lo para impedir que fosse importunado nos seus quase oitenta anos. Depois, partiu num navio italiano e Victória Ocampo nunca esqueceu a importância do místico e poeta. Depois, foi a vez do pintor uruguaio Pedro Figari (1861-1938) e de Gabriela Mistral (1889-1957), prémio Nobel da Literatura de 1945, que foi cônsul do Chile em Lisboa entre 1935 e 1937. Na Villa Ocampo viveram ainda Albert Camus e Graham Greene (este, por três vezes), Roger Callois, A.W. Lawrence (irmão do célebre Lawrence da Arábia), Etiemble, Waldo Frank, Maria de Maeztu. Frederico Onis, além de Igor Stravinski, Alfonso Reyes, Denis de Rougemont, St. John Perse (Aléxis Léger), Christopher Isherwood ou a modelo Peregrina Pastorino (Péle) – a que se refere Bioy Casares em “A Invenção de Morel”… E a lista de visitantes é igualmente impressionante: Le Corbusier, Gropius, Ortega y Gasset, Pablo Neruda, Drieu de la Rochelle, Jacques Maritain, a cantora Jane Bathori, André Malraux e Indira Gandhi.  

 

A REVISTA “SUR”

Falando da revista “Sur”, o primeiro número foi publicado em 1931 e integrou um conselho internacional, de que faziam parte Ernest Ansermet, Drieu La Rochelle, Leo Ferrero, Waldo Frank, Pedro Henriquez Ureña, Alfonso Reyes, Jules Supervielle e José Ortega y Gasset; além de um conselho de redação composto por Jorge Luís Borges, Eduardo J. Bullrich, Oliverio Girondo, Alfredo González, Eduardo Mallea, Maria Rosa Oliver e Guillermo La Torre. Para Victória Ocampo, a revista era “dos que vieram para a América, dos que pensam na América e dos que são da América. Dos que têm a vontade de compreender-nos e que tanto nos ajudam a compreendermo-nos melhor”. Desde os inícios, a revista “Sur” teve muitos colaboradores argentinos e estrangeiros, além dos citados: Adolfo Bioy Casares, José Bianco, Walter Gropius, Octávio Paz, Ramón Gomez de la Serna, Ernesto Sábato, Federico Garcia Lorca, Gabriel Garcia Marquez, Gabriela Mistral, Silvina Ocampo, ou Pablo Neruda… Entre os secretários da redação, estiveram Raimundo Lida, Ernesto Sabato, Maria Luísa Bombal, Nicolás Barrios Lynch e Enrique Pezzoni… Foi o pensamento e a mundividência de Victória que deram originalidade à revista, como referência mundial. Se a revista deixou de se publicar com periodicidade em 1971 por decisão da sua diretora, foram sendo publicados até 1992 números temáticos. E a aritmética é a seguinte, de 1931 a 1966 editaram-se 305 números e nos seguintes vinte seis anos 67 números –antologias, temas e autores. “Sur” foi um espaço de reflexão e debate, tantas vezes de polémica, sobre a sociedade argentina e sobre a evolução do mundo. Apesar da amizade com Drieu, Victória foi severa opositora dos totalitarismos, tendo sido apoiante da resistência europeia, designadamente francesa, e tendo participado nos julgamentos de Nuremberga. A proximidade com Jorge Luís Borges e Bioy Casares, seu cunhado (casado com Silvina), correspondeu a uma projeção universal e a uma independência de espírito que não passaram despercebidos. A fortuna pessoal de Victória e de suas irmãs e o apoio constante a intelectuais, pensadores e artistas contribuiu para uma marca especial de modernidade, numa Argentina dividida entre o populismo peronista, que Ocampo recusou, e um pensamento democrático e pluralista de que a revista foi porta-voz, contra ventos e marés. Mais do que a revista, importa ainda referir a Editora, que publicou obras de Federico Garcia Lorca, Eduardo Mallea, Juan Carlos Onetti, Alfonso Reyes, Horácio Quiroga, Adolfo Bioy Casares, Aldous Huxley, Carl Gustav Jung, Virgínia Woolf, Vladimir Nabokov, Jean-Paul Sartre e Albert Camus. A queda de Peron em 1955 foi saudada pela revista, recordando-se que o símbolo de “Sur”, uma seta orientada de norte para sul, apontava uma modernidade vinda da Europa e do hemisfério norte e recriada pela força inovadora do Sul. A polémica entre as revistas “Sur” e “Contorno” (de Ismael Viñas), correspondeu a uma crítica do peronismo e do marxismo pelo grupo de “Sur”. A revolução cubana, contra a qual Ocampo levantou a sua voz, perturbou a vida da revista nos anos sessenta, com o afastamento de José Bianco. O sentido inovador e polémico de Victória Ocampo determinou significativas perdas financeiras, mas um corajoso combate político pela liberdade. A Villa Ocampo, onde viveu a mulher de cultura, é hoje um centro da UNESCO.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 19 a 25 de agosto de 2019

 

«Abécédaire de Raymond Aron» (Éditions de l’Observatoire, 2019) acaba de ser publicado por Dominique Schnapper e Fabrice Gardel. Trata-se de pequeno volume em forma de Dicionário que faz uma seleção de fragmentos importantes da obra do autor francês.

 

 

TEMPOS OBSCUROS
Na apresentação do livro, é recordada uma carta de Romain Gary (1914-1980), três dias antes de se suicidar, onde faz uma apreciação justa e atual sobre a importância de Aron no pensamento democrático europeu: “Caro Raymond Aron, o seu espírito sublinha tão bem estes tempos obscuros, que somos levados por vezes a crer, quando o lemos, na possibilidade de uma saída e da existência de um caminho. Raros são os casos em que um pensamento encontra um carácter”. Nos dias de hoje a apreciação ganha evidente sentido – numa Europa descrente de valores, onde a violência, o ódio, o medo do outro parecem vencer, torna-se necessário pensar caminhos novos que impeçam o desastre. O insulto substitui o diálogo democrático. Em vez de tempo e de reflexão preferem-se mensagens de poucas palavras e suposto efeito imediato. E no entanto a democracia obriga à ponderação da liberdade individual, à consideração do pluralismo e da diversidade, à complexidade e à aceitação da imperfeição humana e da exigência de tirar lições dos erros. Daí a importância de Montesquieu e de Tocqueville, que não apresentam soluções fechadas e definitivas e apelam constantemente à ponderação das diversas legitimidades. Que são as redes sociais hoje senão circuitos fechados, que não criam compromissos de abertura? Daí a obsessão de Aron pelo gosto da verdade, pela detestação das notícias falsas (fake news) e das meias verdades, e pelo apego às instituições democráticas (o pior dos regimes à exceção de todos os outros). Recentemente, entre nós, Carlos Gaspar em Raymond Aron e a Guerra Fria (Alêtheia, 2018) e Álvaro Vasconcelos em 25 de Abril no Futuro da Democracia (Estratégias Criativas, 2019) deram-nos retratos impressivos de Raymond Aron e da sua reflexão, demonstrando como o tempo deu razão ao pensador, a ponto de hoje merecer especial atenção o modo como analisou a construção da democracia e a defesa dos direitos humanos, num contexto de equilíbrio de forças e de influências, de institucionalização de uma cidadania ativa e de criação de mediações eficientes no sentido de uma cultura de paz.

 

RESPEITAR AS INSTITUIÇÕES
Dominique Schnapper é filha de Raymond Aron e recorda, nos dias de hoje, como a democracia representativa mantém atualidade, contra todas as formas que se traduzem numa verdadeira contradição nos termos, a que se chama “democracia iliberal”. É preciso, de facto, dizer com todas as letras que essa realidade não é senão um regime autoritário. “Ser democrata é respeitar as instituições democráticas. E a crise que se manifesta sob formas diversas em alguns países europeus reflete o questionamento da legitimidade do voto e das instituições” (El Pais, 21.7.19). Mas não se pense que a “democracia representativa” é uma realidade fechada – é, sim, um modo aberto de organização política, que tem de ser completado com mediação, com melhor participação, com legitimidade de exercício, com partilha de responsabilidades e com subsidiariedade. Uma democracia abstrata e absoluta não pode existir, pelo contrário quando procura afirmar-se destrói a democracia concreta, como temos visto. Veja-se o caso dos referendos: “os referendos contínuos fazem com que os países complexos se tornem totalmente ingovernáveis. Significa que num momento de emoção toma-se uma decisão”. E o que acontece? Ela é imponderada, imediatista e esquece os fatores essenciais. E Dominique Schnapper lembra o exemplo do “Brexit”. O referendo dividiu a sociedade britânica a meio, e esse impasse não oferece soluções, capazes de salvaguardar o interesse geral. E note-se que, feito o mal inicial, não há possibilidades de encontrar uma solução que não continue a manter a sociedade dividida e fragmentada. É uma ilusão pensar-se que o povo, como abstração, governa – quem governa são os cidadãos organizados. Se a representação não é respeitada entramos no caos. Se, por absurdo, criássemos um sistema de decisão eletrónica imediata e instantânea, criaríamos uma monumental máquina de condicionamento, ou seja, a tirania do número, centrada no condicionamento pavloviano. As decisões fundamentais exigem ponderação, tempo, reflexão. Daí a importância das legitimidades do voto e do exercício. A sociedade complexa obriga à partilha de responsabilidades e de soberanias.

 

DEMOCRACIA CONTRA O CAOS
“Temo que em nome da democracia se instaure um caos, e um caos sempre acaba com governos autoritários ou totalitários” – diz-nos ainda D. Schnapper. Não significa isto que não devamos ter a ambição de aperfeiçoar o sistema. Chantal Mouffe fala de um novo populismo. Leia-se com atenção o que nos diz. É preciso evitar todas as armadilhas que a ausência de “checks and balances” pode conter. É preciso dar resposta aos cidadãos, recusando, no entanto, o tudo, para todos, ao mesmo tempo e já, que significa o caos acima referido. A chave está na criação de mediações eficazes, quando o Estado se tornou grande e pequeno de mais. O Estado-nação está vivo e não pode ser ignorado, mas nem tudo depende dele. Voltando ao caso britânico, veja-se que os efeitos do “Brexit” podem pôr fim ao Reino Unido – e isso será sempre mau para todos. E o mundo de “polaridades difusas” não pode funcionar segundo o método do “salve-se quem puder”. A ordem internacional definida em 1945 deveu-se à grande tragédia suscitada pelos erros de Versalhes em 1919. E o certo é que, por falta de memória, estamos a regressar à lógica da humilhação e do medo das diferenças que libertou todos os fantasmas dos anos trinta… Tragicamente, “a ideia de que todo o mundo aceitará a democracia, que é uma questão de tempo e que não há outra ideia que se lhe oponha acabou. Os chineses contrapõem outra ideia, Orbán tem outra”… Raymond Aron no seu Essai sur les libertés (1965), onde se encontram as conferências proferidas em Berkeley, pôs a tónica na síntese necessária de duas formas de liberdade: o domínio da autonomia deixado aos indivíduos e os meios que o Estado dá aos mais frágeis económica e socialmente, a fim de que possam exercer os direitos que lhes são reconhecidos. “E as democracias modernas não ignoram nem a liberdade de escolha, nem a liberdade-capacidade, uma assegurada pela limitação do Estado, a outra pelas leis sociais. Nos seus melhores momentos, as sociedades ocidentais parecem concretizar esse compromisso exemplar”. Percebemos que é esta síntese que alguns põem em causa e que não pode ser esquecida. As duas formas de liberdade são incindíveis – o que nos obriga a concordar com a liberdade igual e a igualdade livre, contra o igualitarismo, e a compreender que o pensamento político é versátil, mas nunca deve esquecer o primado da dignidade humana…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de agosto de 2019

 

“Muitas e muito estranhas que viu e ouviu” (Biblioteca Nacional de Portugal, 2016) de João José Alves Dias é o guia da exposição sobre o primeiro século de edições da “Peregrinação de Fernão Mendes Pinto”.


UM SUCESSO EXCECIONAL
Falamos de um caso excecional de sucesso internacional de um livro português. Trata-se da “Peregrinação”. Pode afirmar-se que a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos perante uma narrativa moderna e uma verdadeira personagem romanesca, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, mas que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – mercador, missionário, soldado, corsário, marinheiro, diplomata... O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos bem a evidência da riqueza e complexidade do relato. "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Ao ler a obra, houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. João Alves Dias apresentou numa mostra memorável na Biblioteca Nacional de Portugal em 2016 que deve ser recordada.


UMA GRANDE CURIOSIDADE
A “Peregrinação” conheceu logo após a publicação um assinalável êxito. Se o poema “Os Lusíadas” (1572) de Luís de Camões foi traduzido para castelhano (1580), latim (1622), inglês (1655) e italiano (1658), a obra de Fernão Mendes Pinto (1614) foi-o para castelhano (1620), francês (1625), holandês (1652), inglês (1653) e alemão (1671), em edições que conheceram diferentes impressões e edições, tendo algumas delas apresentadas pela primeira vez na mostra da Biblioteca. É fácil de verificar a grande curiosidade gerada pelo livro, mas também o extraordinário interesse suscitado pela vivacidade do enredo e pelo modo atraente como é tratado. Na primeira edição portuguesa, registe-se que o autor é identificado diversamente nas duas dedicatórias ao rei Filipe II, como “nobre e criado dos reis” na primeira impressão, e como “homem de vivo engenho e feliz memória”, na segunda. Também numa é dado como natural de Almada e na outra de Montemor-o-Velho. Na segunda edição (1678), registe-se o comentário do grande bibliógrafo Inocêncio Francisco da Silva: “edição incomparavelmente de mérito menor que a primeira, pois não só lhe tiraram a dedicatória, mas alteraram a ortografia, e o texto, cortando palavras, mudando frases e desfigurando consideravelmente a obra. Anote-se que decorre um ano entre as primeiras licenças, a impressão e a taxa final, de novembro a novembro de 1677 e 1678. A terceira edição (1711) integrará o curioso discurso sobre a conquista do reino de Pegu e eleição de capitão Salvador Ribeiro de Sousa como seu rei no ano de 1600, publicado inicialmente em castelhano em 1617. Encontramos nas diferentes edições um conjunto muito rico de curiosidades que merecem uma atenção muito especial – a começar na edição castelhana da “História Oriental de las Peregrinaciones de Fernan Mendez Pinto português…” (1620). Trata-se da tradução do cónego Francisco Herrera Maldonado, um dos grandes defensores do escritor português, tendo sido um dos exemplares expostos na Biblioteca Nacional de uma edição dedicada a Manuel Severim de Faria. A segunda edição castelhana do mesmo ano é dedicada a D. Duarte de Bragança, marquês de Flechilla e Malágon. A primeira edição em língua francesa (1628) é significativamente dedicada ao Cardeal Richelieu e traduzida por Bernard Figuier (Bernardo Figueira?), Gentil-homme Portugais e apresenta a tradução da já nossa conhecida Apologia feita pelo cónego Herrera Maldonado da obra de Fernão Mendes Pinto. Não será por acaso a dedicatória a Richelieu. O poderoso governante e prelado será, como bem sabemos, doze anos depois um defensor ativo da causa da Restauração portuguesa… A tradução holandesa de 1652 é da autoria de Jan Hendrik Glazemaker, feita em Amesterdão. Houve grandes cortes de texto nessa versão, em especial nas partes onde se aludia a Companhia de Jesus, devendo o autor ter tido como base a versão francesa. Tem sete gravuras com temas alusivos à presença europeia no oriente. A primeira edição em língua alemã também foi impressa em Amesterdão (1671), tem onze gravuras, seis das quais são cópias ou adaptações da edição holandesa, sendo qua algumas foram aguareladas. A primeira edição em língua inglesa (1653) é da autoria de Henry Cogan e dedicada a William Wentworth, 2nd Earl of Strafford, publica a Apologia do cónego Herrera Maldonado e suprime algumas partes relacionada com os jesuítas e S. Francisco Xavier. Saliente-se, porém, que em 1625 fora publicado em língua inglesa numa miscelânea de viagens um resumo da obra sob o título “Obseruations of China, Tartaria and other Easterne parts of the World, taken out of Fernam Mendez Pinto his Peregrination”.


A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Ao compararmos a riqueza das diferentes edições da “Peregrinação” nos primeiros cem anos depois da sua publicação, fica-nos a demonstração evidente da importância do livro escrito e impresso. É a memória viva que se transmite, e no caso de Fernão Mendes Pinto (e até de António Faria, que Aquilino Ribeiro considerou ser um outro lado do autor) podemos perceber como o testemunho direto completa o relato formal dos cronistas oficiais. A riqueza dos textos de Diogo do Couto, por exemplo, apenas pode ser inteiramente apreendida e compreendida se tivermos presente a extraordinária riqueza, a imaginação, o trágico e o picaresco explanados brilhantemente pelo mestre do Pragal.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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