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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 25 a 31 de maio de 2020

 

“A Torre da Barbela” (1964) de Ruben A. (Livros do Brasil, 2020) é uma obra-prima de imaginação, de mestria romanesca e de excelente domínio da língua.

 

 

 

UM NOVO SISTEMA SENTIMENTAL
“Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental, e no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra”. Ruben A., cujos cem anos do nascimento agora celebramos, teve a extraordinária lucidez de escrever as suas extraordinárias memórias no momento que permitiu que usufruíssemos delas como um dos melhores exemplos da nossa literatura memorialística. O Mundo à Minha Procura (1964-68) é uma obra extraordinária, na qual encontramos uma grande personagem, multifacetada, complexa, em que o fino humor se liga ao retrato fiel do tempo, de uma geração e de uma cultura, vistas por alguém que tinha a atenção desperta para o mundo e era conhecedor como poucos, desde as raízes à atualidade, da Arte de ser português. E não esqueço, graças à amizade antiga e sólida do Nicolau, seu filho, os momentos que tenho passado no convívio da memória fascinante de Ruben. Não se entende, por exemplo, a nossa cultura sem a leitura da Barbela. E o certo é que esses momentos não têm sido apenas os da leitura e releitura de uma obra fantástica, mas também os de visita aos lugares marcados pelo percurso de vida de alguém que muito bem conhecia Portugal – desde Entre Douro e Minho, do Porto, do Campo Alegre, até ao Alentejo, passando em Lisboa pela Praça do Príncipe Real, onde veio ao mundo, e pelo Monte Olivete… As excursões e passeios mirabolantes com programas surrealistas foram marca sua… Os percursos de Orlando Ribeiro e Torga apaixonavam-no. No entanto, estes tempos, estranhos de confinamento, adiaram (apenas adiaram) o encontro que tínhamos marcado para a Fundação Gulbenkian, com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cuidadosamente preparado com Miguel Tamen e António Feijó e pelo Nicolau, naturalmente. Não poderemos, contudo, deixar de fazer dessa celebração a justa invocação de quem tanto merece que tertuliemos longamente sobre um espírito tão versátil e rico, cujas pistas que nos deixou têm de ser seguidas e aprofundadas.

 

DO CONVÍVIO À EXTROVERSÃO
“Era um homem que se ocultava no convívio e na extroversão” – disse António Quadros, quando falou dele depois da morte inesperada e absurda. “Tinha uma imparável fúria criadora. Não sabia estar parado… quase existia heteronimicamente, como o Pessoa. Havia o Ruben historiador, escrevendo livros sérios, … Havia o Ruben public-relations, literato da Embaixada do Brasil… Havia o Ruben-minhoto, apaixonado por Carreço, Afife e pela Ribeira Lima. Havia o Ruben-colecionador de cacos-velhos e frequentador de Antiquários. Havia o Ruben surrealista e louco, escrevendo livros como as Páginas”. Era isso e muito mais…E Alexandre O’Neill disse, melhor que alguém: “Ao coro de rãs, respondeu Ruben A., com algumas arreliantes dissonâncias, enfim, com o que nele era vivo pressentimento de que uma obra se faz a contrapeso do gosto mediano…” De facto, muitos não compreenderão o que escreve e o sentido da procura. Em Inglaterra no King’s College, Charles Boxer elogia-o pelas capacidades pedagógicas, pelo trabalho realizado e por ser “a vida e a alma do Departamento”. Ruben demonstra conhecimento e entusiasmo, ao falar de Fernão Lopes, de D. Pedro V, da Geração de Setenta e de Fernando Pessoa ou ao encenar o Mar de Miguel Torga. Mas, na escrita, procura novos caminhos, seguindo os passos de Garrett, que nas “Viagens” escreveu como falava, dando à língua o tom vivo do que realmente se comunica. Não lhe interessava copiar “coisas arcaicas do passado numa língua que já ninguém fala”… Mas há quem não entenda, a começar pelo próprio Salazar, que considera intoleráveis as liberdades de Páginas II (1950)O triste episódio é bem conhecido e nada abona para quem o suscitou. João Gaspar Simões ou António Quadros, ao contrário, entenderam bem que era Ruben que estava na razão…

 

LIVRO INSUPERÁVEL
O romancista continua a seguir a via original de uma criatividade inconformista. Sobre Caranguejo (1954) dirá Eduardo Lourenço: “não foi nada senão bicho insólito, entrando às arrecuas e aos pinos na policiada praia lusitana que o reenviou de novo para o mar resplandecente de onde tivera a insolência de querer sair para contemplar o Sol e as estrelas”. E Maria Lúcia Lepecki não tinha dúvidas em considerar o romance como o maior… A Torre da Barbela (1964) é, no entanto, insuperável na obra do autor. E se ele amou tanto Portugal, a verdade é que, por isso mesmo, não deixou de fazer a severa crítica das limitações, invejas, mediocridades, provincianismos, como forma de as podermos superar. Jacinto do Prado Coelho fala de uma “cura de inverosimilhança”, de um retrato do aforro às tradições, da ronceirice, da tacanhez e de ridículas prosápias… E Liberto Cruz tem razão quando alerta para não se confundir o significado com o significante: o leitor “precisa sobretudo de deter-se na seriedade deste romance, atentar na ironia que o envolve, no humor que o reveste, no tom doloroso de dezenas de páginas, na amargura de tantos episódios que provocam gargalhadas salutares, na frescura sadia, na alegria de viver, que exala a cada momento” (Ruben A. – Uma Biografia, Estampa, 2012). Como salientou António Tabucchi é essencial reconhecer a vertente picaresca na cultura portuguesa, além do lírico e do trágico… Bocage, Beckford, Afonso Henriques e D. João V pontuam um enredo pleno de estranhas personagens que são muito mais do que figurantes à volta dos amores entre o Cavaleiro e Madeleine. Só, porém, alguém profundamente conhecedor de Portugal poderia escrever um romance assim, onde os anacronismos são tratados com o cuidado de darem o tom onírico, numa fusão entre tradição e modernidade, num caleidoscópio sempre variado, como assinalou José Blanc de Portugal. E é o homem crente da modernidade, que se apaixona desde cedo pela figura de D. Pedro V. Não, não é o romântico que Ruben Andresen Leitão descobre nas suas deambulações históricas, logo no final de 40. “É este Rei o primeiro homem moderno no nosso País; é ele que nos seus escritos proclama insistentemente o que a geração de 70 vai tentar realizar. É, se me perdoam a expressão, o primeiro grito histórico no século XIX, depois daqueles anos desmantelados de liberalismo duvidoso. A História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura conceção de atuação vivida” (D. Pedro V – Um Homem e um Rei, 1950). É significativa a epígrafe que Ruben tira do pensamento do malogrado rei: “Escrevemos para um povo dormente a quem convém despertar; para cegos (dos da pior espécie que são os que não querem ver) a quem cumpre restituir a luz; para obstinados cuja relutância devemos vencer”… Eis o programa de vida, em que o escritor sempre acreditou. Mas Ruben A. era uma personagem. Eduardo Lourenço contou que, na véspera de defender a tese em Coimbra, convidou-o a ir ao Astória, onde o encontrou “fazendo a sua toilette como Luís XVI” – deixando a ideia de uma espécie de encarnação de Fradique Mendes. “Foi divertidíssimo. Não sei se se inventará uma personagem de romance tão singular como foi Ruben A.”… E Sophia escreveu: “Carta a Ruben A. / Que tenhas morrido é ainda notícia / Desencontrada e longínqua e não a entendo bem / Quando – pela última vez – bateste à porta de casa e te sentaste à mesa / Trazias contigo como sempre alvoroço e início / Tudo se passou em planos e projetos / E ninguém poderia pensar em despedida…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de maio de 2020

“Monsignor Quixote” (1982) de Graham Greene (tradução portuguesa, Europa-América, 1984) é o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar. Trata-se de um diálogo vivo e divertido sobre temas muito sérios e complexos que um grande romancista trata de um modo inteligente e atual.


UMA RECRIAÇÃO PARA OS DIAS DE HOJE
Estamos perante uma recriação, nos dias de hoje, da obra de Cervantes, que é uma chamada à atualidade, como a do século dezassete, de uma crítica jocosa e séria à sociedade e ao confronto eterno entre valores e realidades. «E tudo se passou assim. O Padre Quixote tinha encomendado o seu almoço solitário à governanta e pôs-se ao caminho para ir buscar vinho a uma cooperativa local, a oito quilómetros de El Toboso, na estrada de Valência. Era um dia de calor imóvel, no qual o ar trepidava sobre os campos secos. Com o seu Seat 500, comprado barato havia oito anos, sem ar condicionado, o Padre cismava com tristeza sobre o momento em que iria ter de mudar de carro. O homem vive sete vezes mais do que um cão: com tais contas, o automóvel não tinha entrado ainda na idade madura, mas o Padre tinha reparado que os seus paroquianos consideravam já o seu Seat quase senil. E chamavam-lhe a atenção: ‘Nunca fiando, Abade Quixote!’ e só ele podia responder: ‘Percorremos maus dias, e eu peço ao Senhor que esta viatura me possa sobreviver’. Com tantas orações sem serem ouvidas, alimentava uma certa esperança de que este pedido pudesse funcionar como um pedacito de cera na ‘Orelha Eterna’»… O Seat era a sua Rocinante, e havia uma espécie de afeto que Quixote alimentava no seu íntimo. E indo nestes pensamentos não reparou logo num Mercedes parado na estrada. Mas, olhando bem, deu nota de que se tratava de alguém que tinha cabeção, era um clérigo, e mais do que isso tinha vestes de um Monsenhor… Naturalmente, indagou o que era. Tratava-se de um Bispo, vindo de Roma, com uma pronúncia inconfundível, que se identificou como de Motopo, um título in partibus infidelium. O contacto foi fácil e a hospitalidade extraordinária, com vinho, queijo, carne e a boa cozinha de Teresa, a governanta do Padre Quixote. O encontro foi, assim, de grande simpatia e de tal modo a ajuda foi benfazeja, ainda que bem simples, graças a um jerrican para repor o nível de combustível, que o Bispo romano partiu satisfeito para Madrid, o seu destino. E aqui nasceu o motivo romanesco. Para grande surpresa do Bispo da diocese, o Padre recebeu do Vaticano a nomeação para Monsenhor, em reconhecimento das qualidades reveladas, mas, ao contrário do que seria esperável, o bispo considerou incómoda a distinção para quem era um modesto pároco de aldeia, a que o prelado não reconhecia especiais qualidades, pelo que se tornou incómoda a sua presença na paróquia, o que levou Quixote a aproveitar o ensejo para viajar com seu amigo Sancho, um comunista, que inesperadamente perdera as eleições para Alcalde de El Toboso. Neste ponto, com as devidas distâncias, tudo se assemelha ao encontro de D. Camilo e Peppone de Giovanni Guareschi.

 

VIAGEM PARA ENTENDER A ESPANHA
Nessa viagem de encontros inesperados e de desencontros, o que se debate é a Espanha marcada pela Guerra Civil e pelo franquismo, que espreita ainda onde menos se espera. E o Padre Quixote, ao que parece, descendente do herói mítico de Cervantes, compreende em sentido crítico a fé e a razão, não como ilusão, mas como uma exigência de compreensão. O materialismo de Sancho choca com o espírito de Quixote, mas na realização da justiça há a preocupação do Padre se pôr na pele do Alcalde, para surpresa deste, mostrando que não há dogmatismo que possa vencer o amor e o cuidado com os outros. Por isso, Quixote afirma que “o raciocínio lógico leva-nos tantas vezes a situações absurdas”… Há que ponderar os dilemas que nos são colocados pela coexistência de valores que não podem sobrepor-se ao primado das pessoas concretas, de carne e osso. Em determinado momento, Sancho insinua que a fé e a ilusão se tocam. Mas Monsenhor Quixote não deixa passar em claro esse ponto: “Pensa que o meu Deus não é senão uma ilusão, como os moinhos de vento. Mas Ele existe, sou eu que o digo. Não me limito acreditar. Posso tocá-lO”. A polémica, porém, não é apenas com Sancho, que se demarca da solução eurocomunista e de Santiago Carrillo, preferindo Álvaro Cunhal, há também um sério confronto entre o novo Monsenhor e o seu Bispo, quando este põe dúvidas sobre a liberdade e as suas virtudes por esta ser perigosa, o que leva Quixote a responder: «Foi Ele (Jesus Cristo) quem nos deu a liberdade, não foi? Por isso mesmo O crucificaram».

 

UMA ÚLTIMA AVENTURA
No final do romance, Graham Greene revisita o célebre episódio de Cervantes com Dulcineia e transpõe-no para uma cena em que um grupo de fanáticos profana a imagem da Virgem Maria cobrindo-a de dinheiro, o que obriga Monsenhor Quixote a intervir, a ser atacado e a sair severamente molestado, além de ver destruído o seu querido automóvel. Acolhe-se com o seu amigo no Mosteiro trapense onde, fraco e doente, é acometido de um delírio sonâmbulo, levantando-se de noite para ir até à Igreja onde celebra uma antiga missa tridentina, imaginando que tem nas suas mãos o pão e o vinho eucarísticos, que administra num derradeiro gesto em comunhão ao antigo Alcalde, caindo depois morto nos seus braços… O romancista escreveu “Monsenhor Quixote” depois de uma viagem de reconhecimento em vésperas da chegada da Espanha às Comunidades Europeias, que fez como seu amigo Padre Leopoldo Durán. O diálogo entre Quixote e Sancho significa a compreensão de um encontro necessário entre as duas Espanhas, e Greene não esconde a sua admiração por míticos como S. João da Cruz e uma especial identificação com Miguel de Unamuno, e o seu “Sentimento Trágico da Vida”. Humor e tragédia são encontrados neste percurso em que D. Quixote é relido à luz dos nossos dias. Como Leopoldo Durán testemunha, Greene era de uma disciplina notável – lia sete a dez narrativas num mês e diariamente escrevia a partir das 8 horas pelo menos trezentas palavras. E não foi só uma viagem, mas 15 verões passados na Península. Durán pagava a gasolina, algumas refeições e as pernoitas em conventos e mosteiros e Greene assegurava os jantares e os hotéis. Interessava ao romancista ver como ficava a Espanha depois do fim do franquismo. Logo em julho de 1976 visita Salamanca, Galiza e a costa cantábrica até San Sebastian, Burgos e Segóvia… No ano seguinte parte de Salamanca, Ávila e Leão e segue até Portugal, com paragens no Porto, Lisboa e Sintra… E depois retorna a Madrid, onde no Prado se torna um admirador devoto de Goya. E depois visitou sistematicamente La Mancha, depois do circuito amplo Andaluzia, Levante, Catalunha e Pirenéus… Eis como Monsenhor Quixote deve ser lido como uma reflexão e um balanço de um escritor do seu tempo. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de maio de 2020

 

O “Novo Atlas da Língua Portuguesa”, de Luís Reto, Fernando Luís Machado e José Paulo Esperança (INCM, ISCT, Camões, 2018) é uma obra de consulta e estudo obrigatórios para quem queira conhecer a realidade da língua portuguesa, como terceira língua europeia mais falada no mundo e primeira língua do hemisfério sul.

 

 

UM DIA DE AFIRMAÇÃO
Quando, no dia 25 de novembro de 2019, a Conferência Geral da UNESCO decidiu adotar o 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, esse reconhecimento significou uma extraordinária responsabilidade partilhada por todos os que no mundo usam a mesma língua como meio de comunicar, de pensar, de criar, de exprimir sentimentos, de cultivar as artes, de partilhar conhecimentos, de refletir ou de inovar. A língua é essencial para a afirmação das identidades, mas também para enriquecer pelo diálogo as culturas e civilizações. É verdade que, segundo alguns, os povos primitivos criaram diferentes línguas para poderem preservar os seus segredos, mas também é verdade que as diferentes línguas foram sofrendo um longo processo de intercâmbio e de enriquecimento mútuo, recebendo vocábulos, ideias, construções de outros que fortaleceram a comunicação entre os povos e a partilha de valores comuns.
Como afirma Fernando Venâncio em Assim Nasceu uma Língua – Sobre as Origens do Português o nosso idioma projetou-se em todos os continentes. E segundo Ivo de Castro: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”. Quando falamos da língua portuguesa, consideramos uma longa história, a partir do galaico-português, referimos uma língua antiga, que cedo alcançou uma assinalável maturidade, certamente em virtude do Rei D. Dinis tê-la tornado cedo língua dos tabeliães em lugar do latim – o que favoreceu a afirmação do idioma como modo de comunicar do povo e dos letrados. Foi na Galiza que tudo começou, desenvolvendo-se a língua a partir das influências que os portugueses imprimiram, multiplicaram e também sofreram. Mas o nosso idioma e o espanhol tiveram géneses diferentes e separadas, como se vê no banimento das consoantes, no desenvolvimento do ditongo ão e na redução das sibilantes. De facto, o português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro, sem prejuízo de um encontro do português e do espanhol por volta de 1400, no momento do “ofuscante esplendor” da cultura vizinha. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como a dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista…

 

LÍNGUA DE VÁRIAS CULTURAS
Eis por que temos falado de uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas, o que dá razão a Ivo de Castro quanto à complexa evolução de um idioma partilhado num mundo global. Falamos de várias culturas, pela natureza própria da diversidade política, como língua de unidade nacional, como língua segunda, ou como língua integradora num complexo mosaico étnico e geográfico – tudo isto encontramos, ora em África, ora no Brasil. E quando referimos várias línguas, reportamo-nos ao desenvolvimento dos crioulos, de raiz portuguesa, com uma vida própria, designadamente pela diversidade arquipelágica. De facto, sem idealizações ou simplificações, e muito menos paternalismos, a partir de exemplos concretos, trata-se, no fundo, de uma língua que deve ser vista como uma realidade em movimento. Como disse Rui Knopli a língua tenderá a ser um denominador comum de vários espaços africanos, asiáticos, brasileiros, europeus, numa espécie de “pátria coincidente”. E para o compreender, basta lermos a literatura da língua portuguesa contemporânea – Mia Couto, Germano Almeida, Pepetela, Rubem Fonseca, Ondjaki, Jaimilia Pereira de Almeida, António Lobo Antunes, Lídia Jorge…

 

«PÁTRIA COINCIDENTE»
Numa fórmula feliz, António Sampaio da Nóvoa, representante permanente de Portugal junto da UNESCO, fala-nos da “criação de um movimento que vá muito para além do dia 5 de maio, que simbolicamente é apenas a data, o lugar onde inscrevemos a nossa vontade de uma promoção internacional da Língua Portuguesa” e propõe uma estratégia a seguir, sintetizada em EC ao cubo, que integra Ensino, Cultura, Conhecimento e Comunicação. E a esta proposta, temos de ligar o especial empenhamento do Embaixador português, em dois importantes projetos no seio da UNESCO, as reflexões sobre o futuro do ensino e a exigência de uma ciência aberta e da partilha de dados e de conhecimento. São linhas de ação cruciais que certamente empenharão a Conferência Geral da organização de 2021 e constituirão a demonstração de que a língua portuguesa pode ser um dos catalisadores nas áreas de ação da UNESCO. E a afirmação de Sampaio da Nóvoa de que a UNESCO deve centrar-se na situação de África é essencial e tem de ser ouvida na organização e na cena internacional. Importa assegurar um diálogo efetivo entre as áreas universitárias e científicas, capaz de mobilizar e enriquecer a cooperação entre os Países de Língua Portuguesa, mas também de favorecer um diálogo global, designadamente com as outras áreas linguísticas, compreendendo que o multilinguismo é cada vez mais importante e que é nessa perspetiva que teremos de trabalhar no conhecimento e na investigação científica. A língua inglesa é indubitavelmente fundamental nos vocabulários científicos, mas temos de assegurar o diálogo interlinguístico, designadamente no âmbito das ciências sociais, nas quais a diversidade da comunicação tem de ser compreendida, sob pena de desvirtuarmos o conhecimento. Como insistia Vasco Graça Moura, nenhum de nós quer uma língua única, totalitária. Tem de se abrir espaço para a diversidade linguística, estabelecendo pontes entre os vários idiomas e as várias culturas. Veja-se a importância crescente das línguas asiáticas (mandarim ou hindi) e atente-se ao grande interesse das Universidades da R. P. da China na aprendizagem da língua portuguesa, exatamente num contexto de multilinguismo. E não podemos esquecer que as chamadas Humanidades irão ganhar uma configuração cada vez mais fortemente relacionada com todas as disciplinas científicas. Como investigar as literaturas e as artes sem considerar a diversidade de culturas e idiomas? Vergílio Ferreira dizia, por isso, que não se pode pensar fora das possibilidades da língua em que se pensa. Infelizmente, há quem julgue que a avaliação académica deve ser uniformizada e redutora, o que é contrário da compreensão da diversidade. E não se pense que a tendência futura é para a existência de uma única língua franca. De facto, a lógica unificadora do Esperanto desvaneceu-se com o tempo. E nós, falantes da língua portuguesa, sabemos bem do que falamos, porque tivemos no Índico e na Ásia uma língua franca, de mercadores e missionários, o “papiar cristão”… Num mundo globalizado, não falamos da língua portuguesa como uma realidade fechada, mas de uma realidade aberta e em movimento, e aí está a sua riqueza e as suas virtualidades.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de maio de 2020

 

“D. Manuel Vieira Pinto Arcebispo de Nampula – Cristianismo: Política e Mística”, de Anselmo Borges (Edições Asa, 1992) é uma obra que espelha a ação de uma das maiores figuras da Igreja portuguesa contemporânea, com uma extraordinária coerência entre a palavra, o espírito e a ação.

 

 

CUIDAR DE UM MUNDO MELHOR
Muitos de nós começámos a ouvir falar do Padre Vieira Pinto a propósito dos encontros do Movimento por um Mundo Melhor (MMM) e da sua capacidade de mobilizar os cristãos portugueses, desejosos de verem horizontes abertos. Era o espírito do Concílio que estava a germinar e o carisma do Padre Manuel era capaz de tornar os sinais dos tempos marcas efetivas de mudança… Nascido em Amarante em 1923 foi ordenado presbítero no Porto em 1949, tendo sido assistente da Ação Católica, diretor espiritual do Seminário Diocesano no Porto, além de ter desempenhado funções nas paróquias de Campanhã e Cedofeita. Envolvido no MMM, visita Roma em 1960 e na sequência do Concílio Vaticano II, participa com o Padre Vítor Feytor Pinto num conjunto de ações no sentido da renovação da Igreja. A renovação da vida cristã, a leitura dos sinais dos tempos, o lançamento de estratégias que favorecessem a mudança e a conversão, bem como a promoção da justiça social, a paz e a reconciliação entre os povos e nações constituíram prioridades defendidas pelo Padre Riccardo Lombardi, S.J., fundador em 1952 do Movimento. A teologia do Concílio constituiu um corolário lógico desse espírito e um exigente desafio em que o então jovem sacerdote se envolveu com muito entusiasmo e com uma especial preocupação teológica e pastoral. E assim impulsionou em Portugal esse movimento e essa motivação. E muitos recordam a sua grande capacidade mobilizadora no sentido de uma Evangelização renovada e aprofundada, na linha da “Gaudium et Spes” e da “Lumen Gentium” – em iniciativas que ficaram na memória de todos no Pavilhão dos Desportos em Lisboa e no Palácio de Cristal no Porto. O Povo de Deus não era uma abstração, era um apelo concreto, para tornar o mundo melhor, com mais atenção e cuidado, mais justiça e paz. Em abril de 1967, o Papa Paulo VI nomeou-o Bispo da nova Diocese de Nampula, tendo recebido a ordenação episcopal no dia 29 de junho desse ano, festividade de S. Pedro.

 

UMA NOVA MISSÃO
Ao chegar à sua nova diocese faz questão de assumir uma atitude aberta, de acordo com o espírito conciliar. E assim, para escândalo de alguns, logo no aeroporto, beija uma criança africana, antes das autoridades civis e militares, como sinal de paz e da universal dignidade humana. Mas as dificuldades começam logo. Pouco depois de chegar, corresponde a um pedido dos comandos militares e do Movimento Nacional Feminino para presidir a uma celebração em memória dos militares portugueses mortos em combate. Aceita, afirmando, porém, que também devia lembrar todos os mortos, uma vez que a Igreja não tem inimigos. “Esta minha observação causou uma certa surpresa (disse D. Manuel). E a surpresa tornou-se escândalo quando, na homília, afirmei, entre outras coisas, que a guerra era um mal e uma fonte de males e que a paz jamais viria das armas”. Racismo e guerra, bem como a denúncia da violência, iriam constituir pontos marcantes da missão do Bispo. Para D. Manuel Vieira Pinto, “a discriminação racial, a falta de respeito pelo homem negro, a ausência total de convivência entre brancos e negros, a falta de diálogo do bispo com os seus cristãos, em maioria negros, eram pecados que saltavam imediatamente à vista. Mas as tensões políticas eram claras, e levaram a um ponto de rutura quando foi publicada a carta pastoral “Repensar a Guerra”, em janeiro de 1974, onde se dizia que o conflito em Moçambique era uma guerra não desejada. E então perguntava pelas causas, falando de mentiras e violência e do legítimo direito à autodeterminação. A guerra surgira da “tomada de consciência dos povos ontem dominados por sistemas coloniais, hoje em busca progressiva de uma justa e efetiva emancipação”. Importaria assim dar mais atenção à ação política do que à força das armas, pelo “reconhecimento da dignidade do homem e do povo de Moçambique e das iniciativas que (dessem) conteúdo e expressão real aos direitos inerentes a uma justa e progressiva autodeterminação”. Cerca de um mês depois, o Bispo e os Missionários Combonianos, que trabalhavam na diocese, publicaram uma carta, sob o título “O Imperativo de Consciência”, onde se defendia a autonomização e das estruturas missionárias. Em consequência, a 10 de abril, quinze dias apenas antes da revolução democrática em Portugal, D. Manuel é expulso da diocese e quatro dias depois, o governo força-o a sair de Moçambique e a regressar a Lisboa. No entanto, no mesmo mês de abril inicia-se o processo de descolonização e D. Manuel regressa a Moçambique em janeiro de 1975.

 

UM NOVO TEMPO…
Mas o Bispo não baixa os braços no seu combate pastoral pela liberdade, pela justiça e pela emancipação dos moçambicanos. O desenvolvimento é, afinal, o outro nome da paz, que disse S. Paulo VI. Iniciava-se um novo capítulo no seu múnus. Samora Machel respeita o Bispo, até pelo papel desempenhado na luta contra o racismo e o colonialismo e na defesa da autodeterminação. Mas, quando D. Manuel se encontra com o Presidente, do país recém-chegado à independência, levanta questões polémicas, como a dos campos de reeducação criados pela FRELIMO, onde não se estavam a respeitar os direitos elementares dos cidadãos. Em encontros e cartas, D. Manuel suscita questões ligadas a novos atentados à dignidade humana, à falta de liberdade individual e de liberdade religiosa, às prisões arbitrárias, aos erros e violência do sistema. E a partir de 1980, as conversas do Bispo com Samora Machel incidem essencialmente sobre o tema da guerra civil e a ameaça ditatorial do regime. Em janeiro de 1984, dez anos depois da sua expulsão, D. Manuel assina uma nova carta pastoral intitulada “A Coragem da Paz”, onde pede ao Governo e à Renamo que “se empenhem com coragem e decisão, com espírito de serviço e bem integral do povo e da nação, na construção da paz, hoje e aqui”. E já no final da vida, era “o próprio Presidente Machel que lhe falava da violência e da desumanidade do sistema”. Em maio de 1984, o prelado solicita, em nome do povo, ao seu Presidente o gesto de negociações com a Renamo. “Não, não me peça uma coisa dessas”. E o Bispo insistiu. “O Presidente olhou-me, deixando transparecer a luta que lhe ia no espírito e perguntou-me: ‘com quem vou falar?’. Respondi: ‘Eu não sei, presidente. Não sou político nem tenho meios políticos que me permitam saber quem são os responsáveis’”. Então ajudou ao caminho da paz e da reconciliação e discretamente apoiou as negociações que levariam ao Acordo Geral de Paz de 1992. Houve um outro dia em que Samora Machel fez a pergunta que tem sido tão propalada: “Por que é que você, que é bispo, quando vem falar comigo nunca me fala de Deus e da religião, mas do povo, da defesa dos seus direitos e da sua dignidade?” E o homem da Igreja respondeu: “Porque um deus que precisasse da minha defesa seria um deus que não é Deus. Deus não precisa que o defendam. O homem sim”. Em 1998, D. Manuel Vieira Pinto pediu ao Papa a resignação por ter chegado ao limite de idade, mantendo-se ainda à frente dos destinos da arquidiocese até novembro de 1980, sucedendo-lhe D. Tomé Makhweliha. Mário Soares tinha-o condecorado com a Ordem da Liberdade… D. Manuel deixou-nos há poucos dias. O seu exemplo perdurará para sempre! 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

 

De 27 de abril a 3 de maio de 2020

 

Acaba de ser publicada em Espanha, pela Editorial Trotta, Jürgen Habermas, Una Biografia, da autoria de Stefan Müller-Doohm, obra dada à estampa em Berlim em 2014, na qual encontramos o percurso intelectual e cívico de quem é indiscutivelmente uma das consciências morais da Europa contemporânea.

 

 

IMPORTÂNCIA DA LEITURA
Em tempos de confinamento, a leitura é sem dúvida o melhor remédio, desde que temperada por algum sol e por contacto com os amigos através dos meios técnicos que o progresso permite. Os livros e a música são preciosos companheiros, que permitem abrirmos outras janelas, para além das reais, que nos levam a usufruir a luz irregular que tem caracterizado a meteorologia nestes dias. Mas vou ao que hoje me traz. E neste momento de tantas incertezas, em que os egoísmos e a cegueira do curto prazo tendem a prevalecer, é importante recordarmos alguém que representa a necessidade de reflexão e do espírito da Ilustração, não numa lógica fechada e positivista, mas numa perspetiva aberta à diversidade e capaz de ligar as ideias e os acontecimentos, a razão e os sentimentos. “Babelia”, o suplemento literário de “El Pais”, reservou a sua capa a Jürgen Habermas, que nos seus noventa anos se mantém ativo, de um modo persistente, na compreensão da importância do tempo, da decisão e da reflexão na vida democrática. O tema da democracia está na ordem do dia. Há nuvens negras no horizonte e temos de estar despertos para os perigos que espreitam. Nada há de mais sério. E se hoje há urgência na prevenção e na ação, para que a saúde pública não contrarie a democracia e possa estar associada à retoma na economia e na sociedade, é importante falar do “patriotismo constitucional” e da “democracia deliberativa”, de que trata Habermas, não apenas nas democracias nacionais, mas também na vida supranacional, em especial europeia. Num momento em que há sinais preocupantes, em que a dúvida se confunde com a descrença, e em que o desalento alimenta a desistência, importa não esquecer o que nos diz o filósofo: “A verdade não existe no singular”, pelo que a legitimidade democrática deve ligar-se à mediação das instituições e ao envolvimento dos cidadãos.

 

NO DEBATE EUROPEU…
No debate europeu, infelizmente, há sinais de recusa de uma elementar solidariedade que contrarie a fragmentação e a lógica do salve-se quem puder. E Habermas lembra as origens da União Europeia, como construção de paz e desenvolvimento, capaz de integrar as diferenças, sem esquecer a memória histórica, não numa perspetiva de culpa (se lembrarmos o Holocausto), mas sim de responsabilidade. E a tarefa do intelectual tem de ser a de melhorar o lamentável nível do discurso das confrontações, evitando a todo o custo o cinismo. Um filósofo intelectual é contemporâneo dos nossos contemporâneos – e daí a sua necessária inserção numa ética de responsabilidade. É esse o papel que Habermas assume, com todas as limitações e virtualidades – lembrando tantas vezes aos seus alunos: “Nunca te compares com um génio, mas trata sempre de criticar a obra de um génio”. Nesta perspetiva, ainda jovem, o filósofo ousou afrontar Heidegger, em 1953, num texto publicado no “Frankfurter Allgemeine Zeitung” com o título significativo “Pensando com Heidegger contra Heidegger”, menos pelo desprezo que o velho pensador tinha pela igualdade democrática, e mais pela recusa da autocrítica e pelo facto desse silêncio contaminar irremediavelmente a atitude filosófica. Afinal, a principal tarefa dos que se dedicam ao ofício de pensar é a de fazer luz sobre os crimes que se cometeram no passado e manter desperta a consciência sobre eles? Lembrar para que não voltem a acontecer, mas evitando o ressentimento e a vingança. Heidegger evitaria a polémica e responderia que a sua preocupação tinha a ver com a relação entre o homem e a técnica. Mas Habermas contraporia que a sua crítica não tinha a ver com o envolvimento político com o nacional-socialismo em 1933, mas com a teimosa negativa em reconhecer o seu erro a partir de 1945. No fundo, “a discussão sobre o comportamento político de Martin Heidegger não poderia nem deveria servir propósitos de difamação e desprezo sumários. Como nascidos depois, não podemos saber como nos teríamos comportado nessa situação de ditadura”.

 

O ENCONTRO COM ADORNO
Pouco depois, Habermas chamaria a atenção de Theodor W. Adorno com um texto publicado na revista “Merkur” “A dialética da racionalização”, no qual analisava a alienação gerada tanto pelo trabalho numa cadeia de montagem, como no consumo sem limites. E premonitoriamente avisava: «da produção ao transporte, passando pela comunicação ou pelo ócio, a “cultura das máquinas” terminará por dominar as nossas vidas. Cada dia, estaremos mais longe da natureza e do resto dos seres humanos». Apesar da resistência de M. Horkheimer, pelo pendor pacifista de Habermas na altura, este ingressou, em 1956, no célebre Instituto de Investigação Social, centro da chamada Escola de Frankfurt, o dito Café Marx, que Lukács designava depreciativamente como “Grande Hotel Abismo”… Adorno admirava o pensador, e para sua mulher Gretel ele fazia lembrar Walter Benjamin, o grande amigo, que se suicidara em Port Bou, em 1940, perseguido pela Gestapo… Ao longo de 650 páginas, a biografia acompanha um percurso extraordinário, em que, além de Adorno e Gadamer, encontramos os grandes dilemas do pós-guerra, num contexto de complexidade, diversidade e incerteza. E fica claro que a reflexão filosófica e o compromisso social são faces de uma mesma moeda – a necessidade da Ilustração… E é esse sentido de responsabilidade crítica que marcará a decisiva importância do pensador na atualidade – designadamente no tocante à defesa de uma Europa como fator de paz, de desenvolvimento e de diversidade cultural. Daí a necessidade de domesticar o capitalismo com a democracia garantida por um Estado de direito com “rosto social”, com superação do “pessimismo antropológico” que caracterizou a primeira fase da Escola de Frankfurt. Os conceitos de conhecimento, liberdade e progresso constituem valores de uma razão ilustrada, no contexto de uma “modernidade”, como “projeto inacabado”, por contraponto à “condição pós-moderna” de Jean-François Lyotard… Lembrando ainda a democracia quando há sinais da sua fragilidade em tempos de peste, recordo outro livro, Penser la Justice, constituído por entrevistas a Michael Walzer por Astrid von Busekist, (Albin Michel, 2020). Para o filósofo norte-americano, democracia e justiça têm de estar ligadas. Aos grandes sistemas, Walzer prefere as “pequenas teorias”, acreditando num Estado social, no qual as nações e as fronteiras sejam garantes da liberdade das pessoas. E, em seu abono, lembra o Profeta Amos, para quem não bastava condenar a injustiça e a idolatria, sendo necessário construir em concreto a sociedade mais humana. Tanto Walzer como Habermas insistem numa consciência crítica capaz de entender a sociedade em mudança, em conflito e em diálogo, num contexto plural. E nessa perspetiva se explica a anedota que corre nos meios intelectuais: um professor norte-americano aterra na Alemanha, toma um táxi e diz: “Leve-me à Escola de Frankfurt!”. E o taxista surpreendido responde: “A qual delas?”… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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COMO VOLTAR À TONA DE ÁGUA…

 

A retoma da economia depois da pandemia do covid-19 vai demorar. E vai ocorrer gradualmente, consoante as atividades económicas e os países. A prevenção contra a pandemia vai ter de continuar, até porque vai haver grandes assimetrias na superação da doença. A livre circulação das pessoas será afetada e o tema fundamental vai ser o do combate ao desemprego e o da criação de valor. Começando pelas lições de 2008, importa recusar a ilusão monetária e financeira. O endividamento e o mero aumento da circulação monetária não criam riqueza. Temos de lembrar a regra de ouro das Finanças Públicas – só pode haver dívida pública para financiar despesa de investimento reprodutiva. Não basta lançar dinheiro sobre os problemas. E se aumentam as desigualdades, importa garantir a justiça distributiva – horizontal, com salários e impostos justos que garantam uma partilha de riqueza e a criação de valor; e a vertical, pela equidade intergeracional, reduzindo o endividamento.

 

Depois da crise, a prioridade terá de estar nas políticas de emprego, orientadas para a satisfação das necessidades fundamentais, o combate ao desperdício, a promoção de poupanças virtuosas e a melhoria da qualidade de vida, para que o desenvolvimento se oriente para as pessoas. Mas o tema do emprego obriga a repensar o tempo de trabalho. A situação atual de confinamento e de teletrabalho, e a política gradual de retoma, ensinam-nos que os horários de trabalho presencial terão de ser repensados. O grave problema demográfico dos países ricos obriga a criar políticas de conciliação familiar com horários flexíveis. As licenças de paternidade para marido e mulher e os horários flexíveis para os pais tem permitido melhorar as taxas de natalidade nos países nórdicos, sem esquecer o cuidado dos mais velhos.

 

Terão de ser considerados, assim, “bancos de tempo” com flexibilidade, em vez de uma lógica de horários rígidos. Isto, para conciliar as necessidades, a disponibilidade individual e o melhor aproveitamento das capacidades disponíveis. Os “bancos do tempo” permitirão acorrer a uma multiplicidade de tarefas sociais que têm de ser asseguradas por todos. Não devemos esquecer que a inovação vai obrigar à ligação das políticas do Estado, do mercado e das iniciativas privada, social e pública não estatal. Por iniciativa pública não estatal entendemos a das instituições sociais, culturais, académicas e científicas de utilidade pública ou natureza cooperativa. As políticas públicas têm de ser consideradas como catalisadores económicos e sociais. A inovação científica obriga a que a lógica do lucro não impeça a difusão do conhecimento. A criação de valor dependerá da articulação do Estado e da sociedade. A lógica Silicon Valley tem de ser completada com planeamento estratégico global e com redes coordenadas de informação e conhecimento.

 

Mas não haverá inovação sem aprendizagem. Daí uma atenção necessária à educação e à formação ao longo da vida. Uma parte dos “bancos do tempo” tem de ser ocupada com formação contínua relevante, afinada individualmente. Por outro lado, o ensino profissional terá de articular os níveis secundário e superior, com atenção à cooperação entre Universidades e Politécnicos. Não deve haver becos sem saída, nem canais rígidos e não comunicáveis entre si. Prosseguimento de estudos, vida ativa, mobilidade e cooperação internacional (Erasmus) têm de se articular.

 

Numa palavra, a prioridade é a promoção de valor e de um desenvolvimento justo e sustentável. O “doce comércio” de Montesquieu tem de se completar pela subsidiariedade. Urge tornar a informação conhecimento, e o conhecimento sabedoria. Para contrariar os egoísmos, temos de favorecer a solidariedade e o cuidado. Com instituições mediadoras, participadas e representativas, atentas a uma justiça complexa e equitativa, que favoreça a coesão e a sustentabilidade, é a democracia das pessoas, pelas pessoas e para as pessoas que está em causa. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
in Jornal Expresso | 18 de abril de 2020

A VIDA DOS LIVROS

De 20 a 26 de abril de 2020

 

Poucos dias antes de nos deixar, Maria de Sousa (1939-2020) escreveu o poema “Carta de Amor numa Pandemia Vírica”, que aqui reproduzimos integralmente na invocação de uma cientista que amava as artes, a poesia, a literatura, a filosofia, a música e a cultura.

 

 

A CIÊNCIA E A CULTURA DE MÃOS DADAS
Maria de Sousa foi uma médica, bióloga e mulher de cultura e de ciência de exceção, que nos deixou vítima do terrível vírus que nos assola. Lembramo-nos do seu livro “Meu Dito, Meu Escrito” (Gradiva, 2014), onde se encontra a força e a alegria da sua personalidade única. Era Professora Emérita da Universidade do Porto e fez um brilhante percurso internacional no Reino Unido (onde foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian) e nos Estados Unidos. Encontrei sempre em Maria de Sousa, que conheci em 1985, o genuíno entusiasmo de quem procura em cada momento o modo de chegar à dignidade humana pela vida, pelas ideias, pelo entendimento da complexidade, pela compreensão de que a descoberta corresponde ao sentido crítico e ao permanente inconformismo. Daí dar tanta importância ao desassossego, que nos leva ao exemplo, à aprendizagem e à experiência. Em 1966 tornou-se notada ao publicar no “Journal of Experimental Medicine” e na “Nature” dois artigos relatando descobertas fundamentais em imunologia na sequência de estudos realizados nos laboratórios do “Experimental Biology do Imperial Cancer Research Fund” em Mill Hill (Londres). Numa notável entrevista a Anabela Mota Ribeiro, explicou, com uma grande simplicidade, o que fez nesse tempo: «Creio que todos saberão que temos linfócitos a circular. O que muitos não saberão é que os linfócitos não são uma população homogénea, com a mesma pátria. Uns nasceram no timo e saíram para a circulação no período a seguir à nascença, outros fora do timo, na medula óssea. Essa distinção não era clara em 1964. Ainda se pensava que talvez viessem todos do timo. O meu trabalho consistiu na observação de lâminas de cortes de órgãos linfáticos periféricos de ratinhos que tinham tido o timo removido no período neonatal. As minhas observações demonstravam que esses animais timectomizados à nascença ainda tinham linfócitos. E mais, os espaços vazios de linfócitos eram distintos dos espaços onde havia linfócitos, o que significava que as células pareciam saber para onde ir. Isso foi posteriormente demonstrado como uma técnica importante, a autoradiografia, que permitia seguir células marcadas. As do timo iam para o território a que chamámos área dependente do timo (tda) e que hoje é conhecida por Área T. E achei esse fenómeno de as células saberem para onde vão tão importante que lhe dei (em 1971) um nome: Ecotaxis».

 

REGRESSADA A PORTUGAL
Quando regressou a Portugal, desempenhou um papel fundamental na Universidade do Porto, no Instituto Abel Salazar, mas também, ao lado de José Mariano Gago no lançamento da política científica nacional. Como afirmou Manuel Valsassina Heitor: «Foi com a Maria de Sousa, com Fernando Lopes da Silva, que aprendemos a ser sujeitos em Portugal a avaliação científica independente, quando José Mariano Gago era presidente da JNICT no final dos anos 1980. Inicialmente testada para as ciências da vida sob a liderança da Maria, esta prática que hoje nos parece tão óbvia, só viria a ser alargada a todas as outras áreas científicas há 25 anos, com a criação do Ministério da Ciência e Tecnologia». Não por acaso, Maria de Sousa citava muitas vezes o grande Garcia de Orta: «O que sabemos é a mais pequena parte do que ignoramos». E entendamos que se trata de um verdadeiro programa de vida e de conhecimento. Só essa atitude nos permite compreender como o espírito científico é uma busca permanente, de insatisfação, de persistência, de tentativa e erro, de regresso constante ao que podemos saber mais. Quando morreu o nosso comum amigo José Mariano, a Maria de Sousa, grande leitora e amante de poesia e de arte, escreveu: «Há os que passam e os que ficam / Há os que ficam onde os seus restos mortais ficarem ou cinzas forem dispersas / Há os que ficam nos que lhes são mais próximos: amores, filhos, mãe, amigos, mulher, etc. / Há os que ficam em muitos outros desconhecidos / Há em geral espaços em que todos ficamos mortos / Mas no tempo, na transformação do tempo / Só um ou outro raro e belíssimos no fazer e no fazer-se / Ficará. / Como este assim / Que será sempre encontrado no tempo todo / Na história da ciência na Europa / E neste nosso país / Transformando o nosso tempo/ Transformando-nos pelo seu Fazer / No Seu Fazer-se». E podemos dizer que nestas belíssimas palavras, encontramos facilmente também a sua autora, uma vez que, de facto, entendeu “o tempo todo”, compreendendo que nos transformamos pelo que fez no sentido do que fazemos.

 

SABIA MUITO E EXPLICAVA BEM
Francisco Pinto Balsemão recordou, aliás, no “Expresso”, as extraordinárias qualidades de quem “sabia e sabia muito e explicava bem” e sobretudo que não havia domínio da cultura que lhe fosse estranho. Sou testemunha pessoal disso mesmo. E se era uma pessoa de esperança, era-o de fino humor, mas sobretudo de querer e de esperança, como fica bem evidente no último poema que escreveu:

«Carta de amor numa pandemia vírica.

Gaitas-de-fole tocadas na Escócia / Tenores cantam das varandas em Itália / Os mortos não os ouvirão / E os vivos querem chorar os seus mortos em silêncio / Quem pretendem animar? / As crianças? / Mas as crianças também estão a morrer / Na minha circunstância / Posso morrer / Perguntando-me se vos irei ver de novo / Mas antes de morrer / Quero que saibam / O quanto gosto de vós / O quanto me preocupo convosco / O quanto recordo os momentos partilhados e queridos/ Momentos então / Eternidades agora / Poesia / Riso / O sol-pôr / no mar / A pena que a gaivota levou à nossa mesa / Pequeno-almoço / Botões de punho de oiro / A magnólia / O hospital / Meias pijamas e outras coisas acauteladas / Tudo momentos então / Eternidades agora / Porque posso morrer e vós tereis de viver / Na vossa vida a esperança da minha duração.

3 de abril de 2020».

Onze dias depois, apenas, deixou-nos, recordando a plena vitalidade e o apego à vida que se comunica em permanência. E assim a sua memória está bem viva, como exemplo e como apelo a que a educação e a ciência de mãos dadas possam criar vias de esperança, sobretudo neste momento de incerteza e perplexidade. Como disse Sófocles: “Inúmeras são no mundo as maravilhas, mas nenhuma que ao homem se compare. É o ser dos recursos infindáveis”.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 13 a 19 de abril de 2020

 

Marcel Proust escreveu um pequeno ensaio intitulado Sobre a Leitura, (trad. José Augusto Mourão, Vega, 1991) que merece ser lido com atenção, nestes dias de confinamento.

 

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LIVROS PREFERIDOS

“Talvez não haja dias da nossa infância mais plenamente vividos que aqueles que julgamos deixar sem os viver, aqueles que passámos com um livro preferido”. Foi Marcel Proust quem o disse no seu pequeno ensaio que serviu de prefácio à tradução que fez de Sésame et ses Lys, de John Ruskin, sob o título “Journées de Lecture” Não por acaso, foi Ruskin quem considerou a leitura como o grão de sésamo, pão para o espírito e remédio contra a ignorância dos povos, tesouro escondido da arte de educar. Não falamos, porém, de algo abstrato, mas de uma realidade que tem a ver com a essência das artes e que corresponde ao facto de as gerações comunicarem entre si pela cultura ao longo dos séculos. Umberto Eco dizia, por isso, que a diferença entre quem lê e quem não lê, está em que uns viverão no máximo algumas décadas, enquanto os que leem podem “viver” o correspondente a cinco mil anos, que é a idade da civilização. E que é ler? Não apenas o ato de nos isolarmos num mágico encontro, mas o de podermos usufruir do prazer da transmissão sempre renovada no tempo da palavra. Sabemos que foram os “aedos” da antiguidade que transmitiram aos povos oralmente os grandes poemas… Mas não precisamos de ir tão longe. Basta lembrarmo-nos dos contos tradicionais que ouvimos na nossa infância da boca dos mais velhos. Não esqueço as diversas versões desses relatos que ouvi a uma das minhas avós – a ponto de pedirmos este ou aquele desenlace, de acordo com o que antes tínhamos ouvido. Tenho nos meus ouvidos a voz de minha Mãe a recriar as fábulas tradicionais… E recordo a leitura compassada do dia-a-dia de um ano escolar descrito por Edmundo de Amicis, em “Il Cuore” (“Coração”), obra realizada para ajudar as escolas na unificação italiana. Nunca esquecerei “O pequeno escrevente florentino” e as palavras desse extraordinário relato de solidariedade filial: “Era um gracioso florentino de doze anos, negro de cabelos e alvo de rosto; filho mais velho de um empregado dos caminhos-de-ferro que, tendo muita família e pequeno ordenado, vivia com dificuldades. O pai estimava-o muito, e era bom e indulgente com ele em tudo, menos no que se referia à escola. (…) E por muito que o rapaz estudasse, o pai exortava-o sempre a estudar mais”… No entanto, Júlio, assim se chamava ele, ajudava, às escondidas, o pai a adiantar o trabalho noturno de escrever os endereços em cintas para uma editorial. Mas a falta de sono começou a afetar o aproveitamento do jovem estudante. E o pai não percebeu que se tratava do resultado da generosidade do filho… O relato era seguido com atenção. Aquele como os outros. A cada palavra correspondia uma imagem impressiva – de afeto e angústia.

 

LEITURA EM VOZ ALTA

A leitura em voz alta, com as palavras claras e bem compassadas envolvia ainda a recordação de poemas inesquecíveis ou de passagens de Sermões do Padre António Vieira. Posso dizer que o prazer da leitura começou pela audição desses textos ou pela sua memorização. De Camões, havia uma pequena edição do centenário de 1880, que permitia ler e ouvir a bela expressão de um português tão belo e tão próximo… “Alma minha gentil que te partiste”; “Aquela triste e leda madrugada”; “Sete anos de pastor Jacob servia”; “Perdigão perdeu a pena / Não há mal que lhe não venha”; “Erros meus, má fortuna, amor ardente”… E havia ainda o “Romanceiro” de Garrett e a “Nau Catrineta”, num relato de tentação e ventura – “Lá vem a Nau Catrineta / Que tem muito que contar! / Ouvide, agora, senhores, / Uma história de pasmar”… E Antero de Quental tinha um lugar especial no culto da memória familiar (“Num sonho todo feito de incerteza / De noturna e indizível ansiedade”…) – para não falar de João de Deus, Cesário, Camilo Pessanha ou Fernando Pessoa… Felizmente, ao chegar ao Liceu de Pedro Nunes, encontrei em Maria de Lourdes Lapas de Gusmão, uma cultora fantástica da leitura em voz alta. E com que prazer chegávamos à segunda-feira, para ouvirmos e lermos a “Odisseia”, mergulhando na mitologia grega e na viagem iniciática de Ulisses. A leitura em voz alta permitia podermos lidar naturalmente com a sintaxe, o Dicionário e os segredos da etimologia. Era a edição de João de Barros, da Sá da Costa, contada às crianças e lembradas ao povo. E continuámos com a “Eneida” e seguimos para “As Minas de Salomão” na companhia inconfundível de Alão de Quartelmar, devidamente reformulado por Eça de Queiroz.

 

LEITORES COMPULSIVOS E NÃO TANTO…

Voltando ao ensaio de Proust, o prazer da leitura em voz alta e a aprendizagem de cor de textos referenciais, leva ao gosto de ler no exercício pessoalíssimo de recato e de silêncio, como um “prazer divino”, tantas vezes inoportunamente suspenso pelo “jogo para o qual um amigo vinha buscar-nos na passagem mais interessante, a abelha ou o raio de sol incomodativos que nos obrigava a levantar os olhos da página ou a mudar de lugar, a merenda que nos tinham obrigado a levar e que deixávamos ao lado sobre o banco, sem lhe tocar, enquanto por cima da nossa cabeça, o sol diminuía de força no céu azul, o jantar por causa do qual tinha sido preciso voltar para casa e durante o qual não pensávamos senão em ir lá para cima para terminar logo a seguir, o capítulo interrompido…”. Quantos de nós não sentimos isto mesmo. E quanto a leitores compulsivos, é superior às suas forças poder resistir a esse prazer incontido. Dir-se-á que hoje cada vez menos se lê. Não é assim. Há motivos de preocupação, mas não devemos simplificar. Há excelentes leitores, ao lado dos renitentes. Essa é a experiência corrente. Conto os exemplos mais diversos, a começar nos leitores compulsivos, para quem se aplica o que nos diz Marcel Proust, e os pouco motivados. O meu conselho é sempre de que a leitura do puro prazer não pode confundir-se com sacrifício. Do que falamos é da leitura que nos dá gosto e que permite entender melhor o mundo e a vida… Ler é um sinal de atenção e de cuidado. A leitura atenta permite tomar contacto com a cultura e as artes e ter informação sobre a realidade que nos cerca – desde a comunidade em que vivemos às bulas dos medicamentos. Temos de ser exigentes. Tanto se salvam vidas com a leitura motivadora de um poema como com a leitura de boa informação médica ou cívica. Não há, porém, receitas para criar leitores. Criam-se bons leitores pelo bom uso da língua e de uma comunicação clara, compreensível, correta e atraente. E se falamos de boa leitura, não esquecemos o teatro e o canto. Temos de conhecer os clássicos, para que o verbo e o vocabulário sejam rigorosos, mas simples. A leitura e as artes estão intimamente ligadas. A desvalorização da retórica e da oratória e o desconhecimento dos melhores cultores da língua são sinais de pobreza cultural. Por isso, é importante cultivar a leitura em voz alta e a aprendizagem de cor de belos textos ou poemas. Precisamos de saber colocar a voz e de prevenir e não cometer erros gramaticais. Não se trata de formar gramáticos, mas de assegurar uma boa cidadania, para que sejamos compreendidos por todos.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 6 a 12 de abril de 2020

 

“Dicionário de Lugares Imaginários” de Alberto Manguel e de Gianni Guadalupi, com tradução de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos (Tinta da China, 2013) é, como o nome indica, um livro de referência, onde a imaginação impera. Mais do que o simples repositório de elementos conhecidos, trata-se de uma fecunda e apetecível recriação.

 


UM EXERCÍCIO ROMANESCO
Verdadeiramente, estamos perante um autêntico exercício romanesco que se estende no tempo, mas que procura centra-se em diversos espaços. Trata-se, assim de um poderoso exercício de imaginação que parte da informação dada pelas fontes originais. Tudo começou quando Gianni Guadalupi (1943-2007), um “viajante sedentário”, teve a ideia de escrever um guia turístico para Selene, a cidade dos vampiros, do romance do francês Paul Féval (1816-1887), sobre as cautelas a ter quanto aos vampiros, onde se podia comer e dormir ou não se devia estar de modo algum. Guadalupi traduziu para italiano autores como Kipling, Borges, Allende e Benedetti, editando diversos livros e antologias dedicados a viagens, reais e imaginárias. Estudou temas diversos, como os jesuítas na China, os viajantes setecentistas na Pérsia e no Oriente, os portugueses na Índia ou a descoberta da América e os pioneiros aeronáuticos italianos. Publicado originalmente em 1980, o Dicionário de que falamos foi aumentado em 1987 e 1999 e integra não só lugares previsíveis do mundo literário como Ruritânia, Shangri-La, Xanadu, Atlântida, Oz, o País da Maravilhas de Lewis Carroll, Utopia, Nárnia, os países de Gulliver, a ilha de Crusoé, mas também as criações de Tolkien, Dylan Thomas, Edgar Rice Borroughs, Conan Doyle ou de Cervantes e Rabelais… Se é verdade que o ponto de partida foi o encontro com a literatura conhecida, a-pouco-e-pouco o universo foi-se alargando, para lugares que um viajante pudesse querer visitar, deixando de lado os céus, os infernos e o futuro, e incluindo apenas o nosso planeta. Excluíram-se lugares como Balbec de Proust, Wessex de Hardy, Yoknapatawpha de Faulkner e Barchester de Trollope por verdadeiramente serem disfarces de lugares reais. E, a partir daqui, houve uma escolha em que o imaginário e a verosimilhança se foram articulando e afinando. E houve que ilustrar o livro, com rigor e sobriedade, e assim foram escolhidos Graham Greenfield e Eric Beddows, e James Cook para os mapas.

 

UMA ANTIGA NECESSIDADE
“É muito antiga a necessidade de inventar países e depois dizer como o autor os encontrou”. Assim aconteceu com a “Epopeia de Gilgamesh”, que é uma crónica da viagem de um rei ao Reino dos Mortos ou com a “Odisseia”, em que Ulisses viaja entre Troia e Ítaca…De facto, nos primórdios, as ilhas imaginárias foram gregas: a ilha dos Ciclopes, o reino de Circe, a sociedade da Atlântida. Os árabes também imaginaram ilhas. “As Mil e Uma Noites” têm ilhas mágicas que vogam nos mares, transformam-se em baleias ou voam nos céus. No entanto, a verdadeira geografia imaginária das ilhas surge com Thomas Morus em “Utopia”, que propositadamente é batizada como não tendo lugar algum, donde vem um português, Rafael Hitlodeu. Tendo arquitetado a obra com Erasmo de Roterdão, Morus ganhará muitos seguidores, como Campanella, Bacon, Rabelais, Voltaire, Fourier, Montesquieu, Huxley, H. G, Wells – segundo o método ideal didático – positivo e negativo – baseado numa alegoria, que se contrapõe às sociedades reais vividas por cada um. A ilha de Crusoé é real, mas o autor concede liberdade a Robinson, para dar ênfase à importância da singularidade. Já Jonathan Swift faz Gulliver viajar ao encontro de sociedades que são autênticos “espelhos deformadores” do nosso próprio mundo: em Lilliput tudo é pequeno e ridículo, em Brodingnag tudo é enorme, o que leva o rei desse lugar distante a comparar os homens a pequenos vermes desprezíveis. A ilha de Laputa, que voa nos céus, e Lagado levam Swift a denunciar projetos científicos ilusórios, enquanto em Glubbdubdrib, ilha de feiticeiros e de mágicos, as mentiras dos historiadores são postas a nu, enquanto, na ilha dos Houyhnhms, os brutais yahoos são cavalos que no fundo se assemelham a nós. E no esteio do crítico severo e implacável que Swift foi, encontraremos autores modernos como Bioy Casares, Italo Calvino, Haruki Murakami, Garcia Marquez e Umberto Eco.

 

UM DICIONÁRIO ESPECIAL
As 1200 entradas deste Dicionário permitem viajarmos no inesgotável mundo da imaginação. E podemos encontrar das mais antigas referências deste repositório logo na Atlântida, “vasto continente-ilha submerso sob as águas do Atlântico por volta de 9560 a. C.” e referenciado desde Platão até Conan Doyle. E não podemos deixar de associar aos Açores e à Macaronésia… Mas lembramos ainda a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, com Calemplui, a ilha ao largo da costa da China, na foz de um dos grandes rios, rodeada por uma muralha de 26 palmos de altura, construída com lajes tão perfeitas que a parede parece feita de uma só peça. E ciclo bretão? Camelot, capital do reino de Logres no sul de Inglaterra, é a corte do rei Artur, não podendo esquecer-se Avalon e mediatamente o célebre Amadis de Gaula. E continuando com referências próximas e conhecidas, José Saramago traz-nos a Ilha dos Cegos. Misteriosamente, Nedim Gürsel leva-nos ao Cemitério dos Livros Não Publicados, estranho armazém de obras impossíveis, daí devendo partir-se para o Reino da Imaginação, lugar sempre verdejante, governado por uma imperatriz bondosa, secundada pela embaixadora princesa da História e pela controversa Madame Moda. E, em contraponto, Jorge Luís Borges lembra a estranha Cidade dos Imortais, em tempos habitada por Homero e onde Joseph Cartaphillus, antigo comerciante de Esmirna, deve ter encontrado um antídoto eficaz contra o estigma, pois morreu a bordo do «Zeus» em outubro de 1929 e foi enterrado na Ilha de Ios. Já Ishmaelia é o país em que Evelyn Waugh celebrizou por engano um pobre jornalista. Tolkien põe-nos na Terra Média, onde encontramos a raiz da História na música de Eru ou Iluvatár, origem de toda a criação e o mais poderoso dos seres. Eru possui a Chama Imperecível que animou os Ainur, os Sagrados, a primeira das suas criações… E Umberto Eco inventa a Ilha da Véspera “porque os visitantes são incapazes de fixar um ponto no espaço a partir do qual se possa medir o tempo, o que torna impossível inscrever a Ilha no presente…” E num movimento sempre tão intenso, não poderemos deixar de lembrar, como corolário de tudo, Xavier de Maistre na sua viagem à volta do quarto de 1794, talvez o mais criativo de todos os lugares imaginários… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 30 de março a 5 de abril de 2020

 

A história do “Jornal do Fundão” no mundo da cultura e da comunicação, graças à vontade de António Paulouro, merece uma referência especial, sobretudo no momento em que sai a lume a edição fac-similada do suplemento “& etc…” – magazine de Artes, Letras e do Espetáculo, que teve como artífice e animador Vítor Silva Tavares (Jornal do Fundão – Canto Redondo).

 

 

 UMA HISTÓRIA INESQUECÍVEL
De 1967 a 1971, com 26 números publicados, teve lugar a publicação de páginas memoráveis, cuja recordação merece a nossa homenagem. E é preciso recordar, antes de tudo, que, pouco antes dessa iniciativa, o “Jornal do Fundão” fora punido pela Censura com a suspensão de 6 longos meses, em virtude da publicação de um texto de Alexandre Pinheiro Torres sobre o Prémio atribuído em 1965 pela Sociedade Portuguesa de Escritores, entretanto extinta, a Luandino Vieira, preso no Tarrafal, pelo seu romance Luuanda. Em 1967, estava-se, assim, no final do consulado de Salazar, e na ressaca dessa severa punição, que envolveu a submissão de textos, fotografias e publicidade do jornal aos serviços de censura de Lisboa. Sob o impulso de José Cardoso Pires, o entusiasmo de António Paulouro e a concretização de Vítor Silva Tavares, o nascimento deste suplemento cultural situou-se no domínio do necessário improvável. E o jornalista costumava recordar a “trepidante adesão do Paulouro”, que “mais parecia uma criança toda virada à travessura do que um circunspecto adulto que somava ser o diretor de um jornal respeitável, sem dúvida o mais vertical e atuante de toda a imprensa dita ‘regional’, para apoucar”. Os riscos eram óbvios, mas o sabor do desafio valeria tudo. Com a inteligência necessária, a aventura começou com os necessários cuidados, não “com neorrealistas suspeitos”, mas com o venerável Professor Hernâni Cidade (“com muita honra”) no número 1, a falar de Raul Brandão. Assim, “não começou logo em velocidade de cruzeiro. Começa só aí ao quarto ou quinto número. Dentro daquela tática do Cardoso Pires que era: ao quarto ou ao quinto…, até para a censura não poder começar a cortar indistintamente porque já podia constituir algum escândalo. Tinha de se aguentar em crescendo, não mostrar logo o jogo”. Afinal, a independência era o que estava em causa – numa corrente que envolvia a contracultura, abrangendo, com saudável pluralismo, as diferenças democráticas. Mais tarde, segundo o próprio testemunho de Silva Tavares viriam os inevitáveis cortes, em que a censura obrigava a recompor tudo, mas com artificiosa colocação pela equipa de marcas subtis nos lugares do texto em falta. E a imagem de umas tesouras dava muito jeito… Nuno Júdice fala de um “duplo inconformismo”: “o primeiro em relação à Ditadura, embora outras revistas e suplementos literários também o fizessem, dentro das limitações censórias da época. O & etc… caracterizava-se por olhar também para fora do nosso universo e trazer o que de mais inovador e vanguardista se fazia nesse final da década de 1960; - o segundo, em relação a um certo conformismo estético da chamada cultura de oposição que decorria da submissão a uma linguagem condicionada pelos chavões ideológicos de uma esquerda ortodoxa que não permitia expressões de rutura, e quando elas surgiam eram marginalizadas”… Assim, “& etc…” ganhou uma marca que corresponde ao espírito do tempo, mas também ao anúncio de novos tempos. Ao folhearmos a publicação, sentimos que a evolução veio a confirmar os valores em que a equipa apostou.

 

ANTÓNIO PAULOURO E VÍTOR SILVA TAVARES
Depois desse encontro histórico com António Paulouro, Vítor Silva Tavares passou a ser passageiro regular da automotora da Covilhã, entre “gentes, cestos, galinhas, hortaliças”, tantas vezes sob a invernia dura da Cova da Beira, sendo acolhido a desoras na redação do jornal por umas vitualhas deixadas pelo diretor, um bife e um ovo a cavalo, pão e talvez meia garrafa de vinho, para aquecer a alma fatigada do jornalista… Até um dia em que os talheres foram esquecidos para drama e angústia do denodado artífice da escrita. Como Emanuel Cameira recordou na sessão da Fundação Calouste Gulbenkian (que outro local poderia adequar-se a este marco cultural?), pode falar-se de uma “revolução estética”: “Encontra-se aqui enquadramento favorável para explicar, por exemplo, a revolução do romance, protagonizada por José Cardoso Pires, tentando ir além do neorrealismo, mas depois também por gente mais distanciada como Almeida Faria, Nuno Bragança, Maria Velho da Costa (mais distanciada do neorrealismo como opção estética, mas não de uma resistência política, evidenciada de outras formas – recordo o caso de Carlos de Oliveira, exemplo de um neorrealismo não panfletário, realizado pela erosão da escrita)”. Silva Tavares vinha do círculo da editora Ulisseia e com ele vieram Rocha de Sousa, na área das artes visuais, Liberto Cruz na literatura, Romeu Correia no teatro, além de Virgílio Martinho e Luiz Pacheco. Júlio Moreira, um dos nomes mais presentes no suplemento, fala-nos da ideia de “fazer a revolução dentro”, de “poder transmitir às pessoas determinados pontos de vista culturais que correspondiam, de facto, a uma cultura do nosso tempo”. Havia, de facto, uma renovação em curso, nos meios culturais e artísticos. A democracia preparava-se, até pelo contacto com o que vinha de além-fronteiras, e isto já desde as revistas “Almanaque” (1959) e “O Tempo e o Modo” (1963).

 

UMA GRANDE DIVERSIDADE
A diversidade era significativa. As polémicas não se evitavam. E os horizontes apresentados eram bem diversos: José Régio, Maria Teresa Horta, José-Augusto França, José Blanc de Portugal, José Sesinando Palla e Carmo, Herberto Helder, António Ramos Rosa, Pedro Oom, Alexandre O’Neill, Ana Hatherly, E. M. de Melo e Castro, Ruben A… Os jovens Eduardo Prado Coelho (sobre o estruturalismo), Jorge Silva Melo (em depoimento breve) e José Pacheco Pereira (sobre literatura de viagem) estão presentes. Vasco Granja traz a Banda Desenhada e o cinema de animação. Nelson de Matos recorda o trabalho a que a pequena equipa era chamada: “recolhíamos as colaborações de várias áreas e de vários colaboradores e organizávamos o número de modo que tivesse algum interesse sem que os textos se relacionassem necessariamente uns com os outros”. Daí a vivacidade que o leitor inevitavelmente sentia… Era a lógica inconformista em vários sentidos. Assim, no poema de Ruy Belo “Nada consta”, fica dito: “quando as coisas se erguem contra o homem / se eriçam agressivas contra ele / nem ao poeta basta o parapeito das palavras”… O certo é que a vida de “& etc…” foi atribulada. Os 26 números foram publicados ao longo de 4 anos, verificando-se uma interrupção longa no último ano. Depois, a sigla teve uma vida própria, a partir de 1973 com uma revista com o mesmo título, mas sem reticências, que publicou 25 números, e Vítor Silva Tavares fez uma editora a que dedicou o resto da vida… Mas a história regista um magazine inesquecível, em luta corpo a corpo com a censura, num tempo em que os jornais se faziam a chumbo e em que era necessário muitas vezes reinventar quase tudo…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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