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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de dezembro de 2019

 

Passam cinquenta anos sobre a morte de José Régio (1901-1969), autor multifacetado, que escreveu “A Velha Casa” (1945-1966), que considerou ser como a sua mais importante obra de ficção e “uma meditação sobre a vida humana, sobre a condição humana”.

 

 

MARGENS DO MONDEGO
“Uma coisa sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saiu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto”. É o próprio José Régio quem o confessa, num dos seus últimos escritos, Confissão de Um Homem Religioso (1971), esta sua ligação muito especial a Coimbra. É verdade que as raízes de Régio estão em Vila da Conde e aí sentimos a força das bases telúricas, éticas e literárias. Mas o núcleo das amizades do poeta e romancista, encontramo-lo na cidade do Mondego, em Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, Edmundo de Bettencourt, Miguel Torga, Vitorino Nemésio ou Afonso Duarte… Aí começará a publicar (Poemas de Deus e do Diabo, 1925) e a ter contacto com a literatura como realidade viva, ligada necessariamente ao quotidiano e à cidadania. E no primeiro livro de poemas surge logo a associação a seu irmão Júlio (Saul Dias), desenhador e pintor que é uma extraordinária referência do segundo modernismo, com vincada influência de Chagall. Depois, nas andanças docentes, Régio fixará em Portalegre o seu lugar de vida, em alternância com Vila do Conde. Para o biógrafo e intérprete fiel de Régio, Eugénio Lisboa: “o mais importante da sua biografia decorreu, como é o caso de tantos de nós, dentro de si próprio. As suas tempestades foram sobretudo interiores e são essas que irrigam, com vigor o tecido da sua obra” (José Régio ou a Confissão Relutante, Rolim, 1988). A consideração de Eduardo Lourenço sobre o carácter da obra de Régio e sobre a natureza da presença levará, no entanto, a uma estranha acumulação de equívocos, que só uma leitura mais atenta de “Presença ou a contrarrevolução do modernismo” (“Comércio do Porto”, 14.6.60) poderá esclarecer. O próprio Eduardo Lourenço preocupou-se em clarificar o que tinha dito, acrescentando a uma nova versão do texto o qualificativo “português” ao modernismo e um ponto de interrogação no final, procurando afastar qualquer entendimento político ou literal nessa ideia. Deste modo, Eugénio Lisboa, na comparação entre os dois modernismos, o de Orpheu e o da presença, afirma mesmo: “o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” (Ibidem.). Um e o outro completam-se e diferenciam-se. E até se percebe que Nemésio tenha preferido, em dado momento, criar um outro órgão de ideias - a Revista de Portugal (1937) talvez menos contaminada com a proximidade dos modernismos… A razão parece hoje irónica, mas foi invocada.

 

É VIVO O ORIGINAL
“Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística. A primeira condição de uma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos, superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo, o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade, calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto destes temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidade não passarão de um truque literário” (presença, nº 1, 1927). Eis o programa de Régio, que prefere, na sua batalha pela “Literatura Viva”, afirmar: “à personalidade do artista-criador nada proíbe a presença senão que se falseie; nada impõe senão que se revele” (“O Primeiro de Janeiro”, 25.10.44). No entanto, se desconfiava das originalidades “demasiado exibicionistas”, acusava de conformismo a falta de originalidade e a falta de sinceridade. Numa palavra, o certo é que a presença tornou-se o verdadeiro arauto que exprimiu quão relevante e visível foi a geração de Orpheu.

 

O SEGUNDO MODERNISMO
Todavia, o segundo modernismo era, essencialmente, um momento de reflexão e consolidação – e é essa distinção que Eduardo Lourenço quis fazer, de modo metafórico. Aliás, o próprio Régio assume esta ambiguidade, quando põe a dialogar, em A Velha Casa, Lelito com seu irmão João, e este diz: “Tornas falsas muitas coisas que são em si verdadeiras e sinceras”. E se o tema político merece toda a atenção tal deve-se à independência da revista e dos seus animadores, acima de toda a suspeita, e sob muitas desconfianças. Não houve, de facto, conciliação com o regime nascido em 1926 – vejam-se, por exemplo, a publicação do texto fortemente crítico de Raul Leal, aquando da homenagem coimbrã a António Correia de Oliveira (1930); a identificação de Régio relativamente à posição política de António Sérgio; e a tomada de posição de Guilherme Castilho, José Marmelo e Silva e João Campos, quando a presença fechou as portas (1940), dando ênfase à fidelidade da revista aos valores do espírito que estavam a ser destruídos pelos senhores da guerra. O modernismo não era, assim, uma receita, mas uma atitude: “qualquer mestre de hoje só é modernista na medida em que, sem ter de negar seja qual for das descobertas vitais do passado, se encaminha para novas descobertas e antevê novos mundos… que podem não ser mais do que a imprevista sondagem dos mundos já conhecidos” (presença, nº 23, dezembro de 1929). Régio foi sempre um escritor verdadeiramente livre, e encontramos nele: a compreensão da renovação da cultura portuguesa no século XX, com a geração de Orpheu, mas também com Teixeira de Pascoaes e o melhor da Renascença Portuguesa; ou com a consideração do modernismo não como uma escola ou um grupo, mas como uma atitude orientada para a compreensão dos novos mundos; na interrogação aberta e inconformista da transcendência – na linha de Dostoievski, Tolstoi, Proust, Claudel e Gide. Régio não é apenas poeta – é sobretudo dramaturgo, ensaísta e romancista, e nesses domínios encontramos alguma da melhor expressão da sua criatividade. David Mourão-Ferreira dirá: “Penetrante, arguto, tão apto por vezes para a síntese impressionista como para a análise psicológico-literária…”. A 22 de dezembro de 1969, em Vila do Conde, deixou-nos José Maria dos Reis Pereira, depois de uma vida de pedagogo, de escritor, de dramaturgo, de romancista, de novelista, de poeta, de contista, de ensaísta, de cronista, de memorialista. Foi há cinquenta anos. A sua obra multifacetada permite-nos compreender a existência humana através da literatura e da arte. E hoje voltamos a ler: “Era a hora do estudo da tarde, e Lelito pensava. As Catilinárias abertas na carteira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis na mão – pareciam demonstrar que Lelito prepareva a sua lição de latim. Mas Lelito não pensava nas Catilinárias. Na realidade nem pensava…”       

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

A VIDA DOS LIVROS

De 25 de novembro a 1 de dezembro de 2019

 

O número 202 da revista “Colóquio-Letras” (Gulbenkian, 2019) é deliciosamente ilustrado pelo Herbário de Lourdes Castro e começa por um texto inesquecível de Agustina.


UM MONÓLOGO A DOIS
“Correspondências” é o prato forte do último número da revista “Colóquio – Letras” (202, setembro – dezembro de 2019). Num tempo em que a correspondência está a sofrer uma profunda mudança, pela emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, do correio eletrónico, da internet e da digitalização, é essencial lembrar o significado da comunicação escrita. Como afirma Marcello Duarte Mathias: “a correspondência é um monólogo a dois; o diário uma correspondência a várias vozes. Ambos apresentam, contudo, um traço comum: são formas disfarçadas de autobiografia, porquanto a procura que lhes subjaz obedece a uma idêntica demanda de identidade – uma mesma realidade focada de ângulos diferentes. Ou, dito de outro modo, singularidade de testemunhos que equivalem a uma semelhante aventura de espírito”. Veja-se, aliás, a lista de exemplos dados por Miguel Real relativamente ao uso da correspondência na cultura portuguesa: Pero Vaz de Caminha na descoberta do Brasil apresenta uma “carta civilizacional”; Afonso de Albuquerque e António Lobo Antunes, cartas de guerra, em momentos e com motivações muito diferentes; Wenceslau de Morais, cartas sobre a saudade; Frei António das Chagas e o Padre António Vieira, cartas espirituais; Mariana Alcoforado e Eça de Queiroz, cartas de amor; Luís António Verney, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, missivas sobre o atraso português. Os exemplos ilustram a natureza e a importância da correspondência. Por muito que oiçamos queixas sobre o vazio criado pela ausência da correspondência tradicional, a verdade é que teremos de encontrar novas formas de registar esses diálogos, indispensáveis para melhor nos compreendermos. É verdade que há riscos fortes. Marcello D. Mathias diz mesmo: “com o desaparecimento das cartas desaparece de igual modo um estilo de vida, a par de espólios e arquivos que lhes dizem respeito – é toda uma prática civilizacional que se perderá. A título definitivo”. Temos, de facto, de ter isso em consideração, mas certamente, encontraremos novos modos de fixar a necessária comunicação, que corresponde a um verdadeira demanda de identidade.

 

O MUNDO DIGITAL
Leia-se, aliás, o texto, de grande interesse atual, de Manuel Portela intitulado “correio @ eletrónico: escrever cartas na rede”. De facto, o correio eletrónico sofre com a aceleração do tempo e com a compressão do espaço, de acordo com a lógica das culturas de rede. A distância espacial e temporal correspondente à tradicional carta de papel teve uma completa alteração de escala. A comunicação passou a ser instantânea, com consequências na linguagem, no cuidado e na clareza das mensagens, o que obriga a uma alteração radical no método e na análise. Daí que tenhamos de lidar no futuro com uma escrita e uma linguagem adaptada ao correio eletrónico. Por outro lado, “a necessidade de conexão permanente interfere com a capacidade introspetiva - limitando a conversa que os indivíduos mantêm consigo mesmos e a consequente reflexividade - e, simultaneamente, diminui a capacidade de imaginar o lugar dos outros, já que estes se fazem presentes mais como representações gráficas na interface sob controlo do utilizador do que como seres independentes dessa figuração simbólica”. Vários exemplos são apresentados pelo autor, o que contribui para se compreender não só as potencialidades mas também as limitações deste meio, que indiscutivelmente ganhará importância no futuro, terá os seus cultores e até possuirá uma nova qualidade literária. Os temas do tempo e da reflexão são cruciais quando falamos desta questão. Evidentemente que os progressos trazem mudanças profundas, como se nota em dois textos sob o efeito do tempo na comunicação epistolar, de Fernando Cabral Martins sobre os modernistas e de António Cândido Franco relativo à epistolografia negra do surrealismo. E se dúvidas houvesse, temos a publicação das cartas de Mário Cesariny e M.S. Lourenço. De facto, como “correspondências” que são, há uma grande variação consoante as diferentes gerações. E as cartas imaginárias apresentadas, da autoria de António Mega Ferreira, Rita Taborda Duarte, Nuno Júdice, Julieta Monginho, Alexandra Lucas Coelho e Afonso Reis Cabral ilustram muito bem modos muito diferentes de comunicar. É verdade que os tempos das grandes epístolas passaram, mas a necessária reflexão precisa de existir e terá, por certo, de se ir adaptando às novas tecnologias e mentalidades.

 

RUBEN E TORGA
E vejamos o estimulante diálogo entre Ruben A. e Miguel Torga. Antes do mais, é inesperado, mas muito atraente, considerando a riqueza cultural das duas personalidades. Cinco cartões, quatro postais, um telegrama e 34 cartas foi o que Torga enviou. E são a prova provada de uma admiração correspondida. E fica-nos na memória a afirmação de Torga, sempre exigente, sobre “A Torre da Barbela”: “confesso-lhe que ainda não consegui sair da confusão de tanto sonambulismo. O que já sei de ciência certa é que agradaram deveras os inúmeros achados expressivos que enxameiam o livro. Parei vezes sem conto no caminho, boquiaberto com a graça e a originalidade de certas maneiras de dizer. Que rica imaginação verbal a sua!”. E quanto a “O Mundo à Minha Procura”: “Você tem nele páginas admiráveis, de mão de mestre…”. E Ruben A., com um critério sempre exigente, diz ser Torga “o último grande escritor da tradição clássica da língua portuguesa. A sua contribuição criadora encerra na mais sublime forma expressões definitivas de clareza, profundidade e de valor humano”… E se este diálogo intenso e afetuoso se lê com grande agrado, perante um Miguel Torga próximo e afável (como eu próprio conheci), fica-nos a ilustração plena da força das “correspondências”. E neste ano dos centenários de Sophia e de Jorge de Sena, temos presente o filme de Rita Azevedo Gomes, no qual emerge um diálogo que confirma as considerações de Marcello D. Mathias. Este número da revista é deliciosamente ilustrado pelo Herbário de Lourdes Castro e começa por um texto inesquecível de Agustina. E assim a “Colóquio - Letras” confirma uma história de prestígio. Nasceu com a designação de “Colóquio, Revista de Artes e Letras”, por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, em janeiro de 1959, sob a direção de Reynaldo dos Santos e Hernâni Cidade e a direção gráfica de Bernardo Marques. José-Augusto França e Jacinto do Prado Coelho associaram-se à direção da revista em fevereiro de 1970. Então, autonomizaram-se a “Colóquio – Letras”, que começou a sua publicação em 1971, sob a direção de Hernâni Cidade (1971-1975) e de Jacinto do Prado Coelho (1971-84), e a “Colóquio – Artes”, também nascida em 1971 e dirigida por José-Augusto França, coadjuvado por Carlos Pontes Leça, que se publicou até dezembro de 1996. A “Colóquio – Letras” foi depois dirigida por David Mourão-Ferreira (1984-96), Joana Morais Varela (1996-2008) e agora por Nuno Júdice, desde 2009. E diga-se, o tempo das revistas de qualidade é o futuro.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

EDGAR MORIN

 

Guilherme d'Oliveira Martins fez o elogio de Edgar Morin na sua presença no Instituto Piaget em Almada no passado dia 15 de novembro. Reproduzimos texto publicado pelo CNC em 2011. 

 

A VIDA DOS LIVROS
De 19 a 25 de dezembro de 2011.

Stéphane Hessel e Edgar Morin acabam de publicar «Le Chemin de l’Espérance» (Fayard, 2011), onde nos apresentam um alerta para os dias de hoje. A política, a economia, a sociedade e a cultura precisam de uma tomada de consciência cidadã no sentido da liberdade, da justiça, da igualdade, da solidariedade e da responsabilidade. Fala-se muito de indignação, e essa foi a palavra usada por Hessel, no entanto os dois autores, nonagenários mas de uma lucidez exemplar, propõem-nos uma nova esperança, assente na vontade emancipadora e da recusa da indiferença. O mesmo tem feito Eduardo Lourenço, agora justamente galardoado com o Prémio Pessoa!

 

FALAR COM EDGAR MORIN
Foi há dias, em Paris, nas novas instalações da Fundação Calouste Gulbenkian, em La Tour Maubourg. Conversámos sobre o futuro da Europa. O convidado era Edgar Morin, e partilhei o diálogo com José Mariano Gago. Edgar Morin é um velho amigo de Portugal e recorda o momento, no início dos anos sessenta, em que, com Jean-Marie Domenach e nas proximidades do Congresso para a Liberdade da Cultura, de Pierre Emmanuel, começou a ter um contacto fraterno, que nunca mais seria interrompido, com António Alçada Baptista e o grupo de «O Tempo e o Modo». Depois das desconfianças dos anos quarenta e cinquenta relativamente a uma Europa de tecnocratas com conotações americanas, vieram novas circunstâncias. A Europa tornou-se oportunidade de aprofundar a democracia. A evolução a leste originou muitas perplexidades e dúvidas, a sul do velho continente havia uma opinião pública que se abria e se preparava para a democracia, depois, o choque petrolífero produziu uma nova consciência ecológica e obrigou a mudar de ideias e estratégias. Com Roselyne Chenu, braço direito de Pierre Emmanuel, presente no auditório de Paris, o pensador recordou esses encontros distantes, envolvendo oposicionistas ibéricos, tão diferentes como José Bergamín, Gil Robles, Dionísio Ridruejo ou Ruíz-Gimenez. Os jovens João Bénard da Costa e Helena Vaz da Silva tornaram-se facilmente referências de inovação e inconformismo e são lembrados com saudade. José Vidal-Beneyto vem à baila, como entusiasta de um projeto europeu, capaz de incorporar a história antiga do Mediterrâneo e a evolução moderna, desde às guerras civis às novas exigências da ciência, da educação e da cultura. É a memória de grandes amigos comuns que há pouco nos deixaram, mas cuja lição está bem presente. E como será possível falar hoje de Europa sem lembrar esses contactos, de diálogo e de afeto, de uma geração para quem estavam ainda bem vivos os efeitos dramáticos da Guerra e a exigência da construção da paz e da democracia, através da liberdade de homens e mulheres de cultura?

 

CRISE SEM ILUSÕES
Hoje, a crise europeia é profunda e não admite ilusões. Morin não pode deixar de exprimir o seu pessimismo. Mas considera que não há saída pacífica e justa sem o aprofundamento dos elos europeus. A crise financeira que vivemos deve-se ao facto de a civilização do poder se ter sobreposto a uma civilização do diálogo. A ilusão, o imediatismo, o consumo exacerbado, o produtivismo, a indiferença ética, tudo isso contribuiu para chegarmos onde estamos. Em lugar de uma cultura de criação, impôs-se a especulação, a lógica de casino e a busca de ganhos sem sustentabilidade – enquanto outros poupavam nós gastávamos. A noção de um progresso sem interrupção nem limites gerou o fanatismo do mercado e a incompreensão sobre o facto de a humanidade ter de lidar com a consciência dos limites. Afinal, como o escritor diz na sua obra «La Voie. Pour l’Avenir de l’Humanité» (Fayard, 2011), celebrizada por Stéphane Hessel, há que compreender que existem elementos contraditórios que têm de ser articulados e tidos em consideração hoje: a mundialização e a desmundialização; o crescimento e o decrescimento; o desenvolvimento e o envolvimento; a conservação e a transformação. Edgar Morin fala-nos, por isso, de metamorfose como um processo complexo abrangendo a política, a sociedade, a economia e a cultura, em que vários fatores se influenciam, obrigando à compreensão da diversidade. Morin propõe, assim, a ideia de metamorfose, improvável mas possível, como alternativa à desintegração provável. A natureza está cheia de exemplos de metamorfoses – por exemplo, a lagarta encerra-se na crisálida, num processo de autoreconstrução. A noção de metamorfose é, deste modo, mais rica que a de revolução, uma vez que preserva a radicalidade transformadora, ligando-a à conservação da vida e à herança das culturas. Sendo impossível travar a tendência que conduz aos desastres, devemos pensar que as grandes transformações começam com uma inovação, uma nova mensagem marginal, modesta, tantas vezes invisível… Se a mundialização está na ordem do dia, não podemos esquecer que o local e o tribal existem como elementos, a um tempo, de coesão e de fragmentação, de proximidade e de distância. O crescimento económico torna-se insuficiente e perigoso, uma vez que desvaloriza a proteção dos recursos disponíveis e a sua renovação. O desenvolvimento humano tem de ser integrado e capaz de ligar a coesão, a confiança, o capital social e a solidariedade. Conservação e transformação vivem ligadas uma à outra, o que obriga à criatividade e ao «conhecimento do conhecimento», como impulsionadores da compreensão.

 

O PROVÁVEL E O IMPROVÁVEL
O escritor considera que a catástrofe pode estar no horizonte, mas acredita em que é possível inverter o curso dos acontecimentos. E recorda dois exemplos marcantes de tempos muito diferentes. A resistência vitoriosa por duas vezes da pequena cidade de Atenas perante o poder formidável dos persas, cinco séculos antes da nossa era, foi altamente improvável, mas permitiu o nascimento da democracia e da filosofia. Do mesmo modo, foram tão inesperados como improváveis o atraso e o congelamento da ofensiva alemã em Moscovo no Outono de 1941 e depois a contraofensiva vitoriosa de Jukov em 5 de Dezembro, seguida no dia 8 pelo ataque a Pearl Harbour que fez entrar os Estados Unidos na Guerra. A História reserva-nos inúmeros exemplos que nos permitem alimentar esperanças, desde que haja capacidade de autocrítica e mobilização de vontades, em torno de objetivos inteligentes e justos. Terêncio é chamado – temos de entender que nada do que é humano nos pode ser estranho. E quando alguém pergunta o que é a identidade europeia, Edgar Morin recorda a sua ideia de uma «comunidade de destino», capaz de congregar a consciência das diferenças e a importância do outro. Prefiro usar a expressão comunidade plural (e democrática) de destinos e valores. E se falo de «comunidade», dou-lhe o sentido de pessoa em comum (gesamtperson, de que falava Landsberg). A cultura é o que diferencia e a civilização é o que difunde a criatividade humana. A identidade corresponde, assim, à exigência de um caminho comum e partilhado. Impõe-se perceber que, na expressão de Denis de Rougemont ou de Daniel Bell, o Estado atual é grande e pequeno demais para responder aos problemas contemporâneos. Quando surge, por fim, a pergunta sobre o que caracteriza uma ética europeia, na linha de Montaigne, E. Morin responde que o universalismo e a capacidade autocrítica são as características europeias fundamentais. Precisamos, no fundo, de uma Europa criativa e imperfeita, aberta ao mundo, universalista e cultora da crítica, capaz de incorporar um caminho que possa favorecer a ideia fecunda de metamorfose!

 

Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de novembro de 2019

 

A obra de Mário Cláudio é multifacetada e rica. Eis por que os cinquenta anos de vida literária merecem especial atenção. Desde a poesia de “Ciclo de Cypris” (1969), encontramos uma criteriosa escolha de temas e uma permanente interrogação sobre vida, sentimentos, pessoas, artistas, escritores, poetas – certos de que o autor vai sempre descobrindo novos fatores para a compreensão do género humano.  


ESCREVER E TRANSFORMAR-SE
Tenho uma especial estima pessoal por Mário Cláudio, como o próprio bem sabe. Sou um seu leitor fiel, de há muito, e não esqueço a sua hospitalidade, em outubro de 2010, em Paredes de Coura, com Manuel Villaverde Cabral e Maria João Avillez, quando também pudemos falar dos edifícios desenhados por Joaquim Pedro Oliveira Martins, graças à influência do Conselheiro Miguel Dantas, sogro de Bernardino Machado. E, falando do Centro Mário Cláudio, não esqueço a longa evocação que fizemos dos nomes da literatura galaico portuguesa cuja memória encontramos dos dois lados da fronteira do Rio Minho: Aquilino Ribeiro, com a Casa Grande de Romarigães, Tomaz de Figueiredo, com a casa de Arcos de Valdevez; e do outro lado da fronteira, Camilo José Cela, Rosalía de Castro, Ramón del Valle-Inclan, Emília Pardo Bazán. Poderá, pois, compreender-se que a minha admiração por Mário Cláudio tenha raízes fundas… “Escrever é transformar-se continuamente. Não só escrever. A vida é uma constante transformação. Digamos que a escrita é mais o espelho dessa mutação em que nós estamos inseridos e que nos acompanha ao longo de toda a vida, e é um espelho onde se reflete uma imagem que, inclusivamente, não pode ser proveitosa, porque nos dá conta da dinâmica dessa evolução e nos permite corrigir determinados caminhos, aqui ou além, e enveredar por aquilo que nos parecer mais adequado, também de vez em quando” (JN, 19.7.17). Isso é evidente, quer quando o romancista descobre uma personagem histórica, quer quando se debruça sobre si mesmo, criando figuras imaginárias, que beneficiam da sua própria experiência. Lembramo-nos de Tiago Veiga e compreendemos como muitos leitores ficaram perplexos, com uma tão grande soma de elementos reais. Se Tiago Veiga não existiu, poderia ter existido; e se existiu é composto de vários elementos concretos, que encontramos nos meios literários e em figuras que resultam de vários elementos que se associam de modo verosímil, numa recriação notável da realidade humana.

 

AUTOBIOGRAFISMO…
Se lermos “Astronomia” (2015) é, no entanto, a perspetiva claramente autobiográfica que prevalece, no sentido propriamente dito. Mas também deparamos com as verdadeiras biografias romanceadas de personalidades marcantes reveladoras não apenas de figuras reais, mas também de uma descrição rigorosa dos ambientes e da vida quotidiana – como nos casos de “Amadeo” (1984), “Guilhermina” (1986) e “Rosa” (1988). Como prosador dotado, Mário Cláudio faz da literatura um modo de compreensão da vida e da sociedade. Daí partir nestes três casos de perspetivas diferentes da criação artística – desde o modernismo erudito de Amadeo de Souza Cardoso à uma dotadíssima expressão popular de Rosa Ramalho, passando pelo talento único que tinha Guilhermina Suggia. E a aura da genial intérprete fica enriquecida com a prosa de Mário Cláudio. E sentimos que estamos a participar numa ação parcialmente verídica e imaginosa, que sentimos como possível. “Camilo Broca” (2006) é a invocação da genialidade de Camilo Castelo Branco através do meio em que viveu desde a sua infância. Mais do que a história é também uma subtil homenagem ao universo de Agustina, com que Mário Cláudio tanto se compara e que admira (com cuidosas distâncias), em estreita relação com o romancista de “Estrelas Propícias”. Quando lemos “Triunfo do Amor Português” (2004), prefaciado por Agustina, vemos como a culpa assume papel fundamental no intenso fundo lírico desta cultura aberta ao Atlântico, com a presença de Pedro e Inês, Leonor Teles e Andeiro, Camões e a Infanta D. Maria, Mariana Alcoforado e o Conde de Chamilly, D. João V e Madre Paula, Tomás António Gonzaga e Marília de Dirceu, a Severa e o Conde de Marialva, Camilo e Ana Plácido, D. Pedro V e D. Estefânia, António Nobre e Alberto Oliveira… E assim a imaginação do romancista resulta da capacidade de associar elementos aparentemente contraditórios que procuram fazer sentido, como no caso de “Memórias Secretas” (2018), no qual recorre à “banda desenhada” e reinventa personagens – Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente aproximam-se de nós e descobrimos relações inesperadas. E falando, por fim, do “Tríptico da Salvação” (2019), em que intervêm figuras históricas, como Lutero e Lucas Cranach, não é tanto o romance histórico que interessa, mas a consideração das personagens envolvidas. Lutero é o homem inconformista, a um tempo conservador e reformista, que interessa ao romancista, até porque entra em choque simultaneamente com o Imperador e o Papa. Por outro lado, a admiração de Lutero por um grande pintor como Cranach, leva-o a evoluir na reflexão sobre o sentido da representação de imagens contra o entendimento inicial.

 

ESCRITOR E PEDAGOGO
A propósito de “Astronomia”, Mário Cláudio afirmou: “Quando digo que sou escritor incluo nisso todas as dimensões de atividades da minha vida. A docência é a continuidade da minha atividade de escrita. É como se estivesse a escrever a vida com outras pessoas ou a escrever na alma delas e elas na minha alma. Aprende-se muito através da docência. Aquilo que se recebe é talvez mais do que aquilo que se dá. Não era um professor facilitante, era bastante exigente, muito austero. Havia pessoas que se davam bem, outras não. Sempre validei as pessoas que trabalhavam mais. Não há que fugir a isso. E isso às vezes cria atritos. Mas devo dizer que olhando retrospetivamente, nos encontros com ex-alunos, tenho consciência que ficou uma réstia de amizade e afeto com todos eles”. É muito importante esta afirmação, de quem faz da sua escrita um caminho permanente de aprendizagem, vista como uma permanente troca de experiências. Longe da ideia do “magíster dixit”, o escritor, como o educador e o romancista têm de ganhar autoridade no modo como exercem o seu magistério – e o escritor que assim se apresenta refere a exigência como algo de natural e necessário, e o certo é que literariamente encontramos a mesma preocupação, bem evidente numa escrita rigorosa e atraente… Nesse ponto, apesar de admirar a figura e a obra e Agustina, põe as distâncias que o levaram naturalmente a trilhar caminhos diversos, nalguns pontos convergentes mas menos filosofantes, que um dia testemunhei, quando pudemos, de algum modo, partilhar um extraordinário convívio, com a própria Agustina, num memorável jantar portuense.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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  De 11 a 17 de novembro de 2019

 

O Seminário Internacional “Oliveira Martins e o seu tempo (1845-1894)”, coordenado pelos Professores Hipólito de la Torre, Angeles Lario e Paula Borges teve lugar em Madrid a 24 e 25 de outubro, na Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED).

 

Oliveira Martins _ Historia da Civilização Ibér


BIBLIOTECA DAS CIÊNCIAS SOCIAIS
Quando Oliveira Martins iniciou, em 1879, a Biblioteca das Ciências Sociais, projeto a um tempo de reflexão histórica e de sentido pedagógico, começou, significativamente por publicar História da Civilização Ibérica, antes da História de Portugal, para marcar com clareza a necessidade de integrar a realidade portuguesa no contexto geográfico e político da Península Ibérica. A Biblioteca pretendia "preencher uma lacuna" e "uma necessidade das mais graves" - a de "generalizar entre as classes médias portuguesas uma ordem de conhecimentos que sem ofensa dos nossos brios se pode dizer ignorarem". Tratava-se de usar termos inteiramente novos e atrativos, sem concessão às "insonsas biografias de reis, de tratados de ontologia bolorenta, de fardos de retórica piegas, de lendas milagreiras e histórias que já são sagradas apenas para os imbecis". Na História da Civilização Ibérica, o autor sustenta que Portugal e Espanha fazem parte de um mesmo corpo, animado por um espírito comum. Na prática, prossegue-se, por caminhos próprios, a reflexão de Antero de Quental na segunda conferência do Casino - sobre as causas da decadência dos povos peninsulares. O individualismo, o jesuitismo e as conquistas seriam as razões de decaimento, que conviria recordar, para que no futuro não se repetissem os erros. A Península Ibérica deveria, assim, agir como um todo, afinando as suas complementaridades no contexto europeu. E a "sociedade portuguesa" constituía uma "molécula" do organismo social "ibérico, peninsular ou espanhol". Contra a tentação hegemónica, o que o escritor defende é que a história peninsular permita compreender que os dois povos precisam um do outro. Aliás, no texto incompleto, publicado postumamente, sobre o Príncipe Perfeito, ao tratar da batalha de Toro, com D. Afonso V pretendente ao trono de Castela, o historiador enfatiza as qualidades de D. João II, que participa brilhantemente na batalha em que seu pai é vencido. Está em causa um pensamento de complementaridade estratégica com o que virá a ser o reinado dos Reis Católicos. Só uma Península coordenada poderia ser cabeça eficaz de um império universal.

 

QUE CIVILIZAÇÃO IBÉRICA?
No Seminário Internacional “Oliveira Martins e o seu tempo (1845-1894)”, coordenado pelos Professores Hipólito de la Torre, Angeles Lario e Paula Borges, que teve lugar em Madrid a 24 e 25 de outubro, na Universidade Nacional de Educação à Distância (UNED), houve um importante debate sobre a obra do historiador português no contexto da Geração de 1870. Sérgio Campos Matos interrogou-se sobre o significado do conceito de “civilização ibérica” e desenvolveu-o não apenas em termos comparados, mas também sobre o seu significado para a compreensão da realidade peninsular. E o certo é que há uma crítica clara relativamente à obra clássica de Henry Thomas Buckle, History of Civilization in England (1857-1865), em especial quanto à “lenda negra” sobre a civilização peninsular. “Negar redondamente a hombridade peninsular, não surpreende num inglês incapaz de a compreender”. Demarcando-se da ideia de que os povos peninsulares corresponderiam ao paradigma do atraso, Oliveira Martins faz uma análise certeira, abrindo o caminho para a necessidade de aprofundar a capacidade de emancipação de corrente do carácter ibérico – e neste ponto associa o sentido crítico à exigência de uma vontade de liberdade e progresso, prosseguindo a célebre conferência de Antero de Quental. Leia-se, assim, o texto de Oliveira Martins na “Revista Ocidental”, “Os Povos Peninsulares e a Civilização moderna” (1875) que constitui o esboço da obra que abre a Biblioteca das Ciências Sociais. Em traços gerais, há uma clara recusa das simplificações do anacronismo e do patriotismo, na linha de Alexandre Herculano ou de Eça, bem como o enaltecimento do sentimento de independências (hombridade), que se prolonga numa perspetiva universalista (que Jaime Cortesão desenvolverá). Emílio Castelar (1832-1899), Juan Valera (1824-1905), Menendez Pelayo (1856-1912), Angel Ganivet (1865-1898) (mesmo sem citar) e Miguel de Unamuno (1864-1936) revelam a leitura de Oliveira Martins – numa perspetiva de compreender a dualidade política, pressupondo um patriotismo ideal ibérico ou hispânico e um patriotismo real das nações peninsulares. E assim a persistência do historiador português é a de uma aliança prioritária ibérica e não de uma união uniformizadora. Assim, temos como subjacente à História da Civilização Ibérica (HCI) não a ideia de nação étnica, como queria Teófilo Braga, mas de uma nação moral, centrada na vontade, na linha de Alexandre Herculano ou de Antero. Não por acaso, o primeiro livro de Oliveira Martins é Febo Moniz (1867), obra crítica do iberismo político uniformizador, de Sinibaldo de Mas (1809-1868). O conceito integrador, mais rico, assente na consciência moral e no carácter dos povos ibéricos leva-nos ao conceito de civilização ibérica e ao seu sentido crítico e positivo: “A deplorável confusão que se faz da história e da política, levando para a primeira as preocupações da segunda; vendo um tirano em toda a parte onde se encontra um rei, um salteador sempre que se encontra um nobre, um charlatão sempre que se topa com um padre: essa deplorável paixão confunde, baralha tudo e torna impossível a compreensão das coisas” (HCI, I,3). Assim se põe a causa a “tese” de Buckle – afirmando um carácter peninsular baseado em atos voluntários e livres, não explicáveis por simplificações. A civilização ibérica tem uma história e uma evolução – e Oliveira Martins pensa criticamente, mas não aceita um qualquer fatalismo de atraso ou de medo. “Em vez de condenar, expliquemos” (Ibidem).

 

IMPORTÂNCIA DA HISTÓRIA POLÍTICA
Se na compreensão da noção complexa de “civilização ibérica”, designadamente na sua projeção extraeuropeia, temos de entender o autor na sua preocupação de integrar a diversidade e a complexidade, o mesmo devemos fazer quando ao organicismo e ao “cesarismo”. Não devem ser feitas projeções lineares ou tentativas de criar uma história presuntiva – procurando projetar depois da morte de um autor o que teria feito ou pensado se ainda vivesse noutro tempo. Urge compreender e explicar – afirma o historiador. Leia-se, por isso, com atenção a perspetiva orgânica de “As Eleições” (1878), num momento em o autor procurou pensar em coerência com o socialismo que preconizava, do mesmo modo que o “cesarismo” tem de ser visto no âmbito de um pensamento crítico complexo. Não são os textos circunstanciais que explicam essa perspetiva, mas sim a História da República Romana (1885), escrita a pensar na tentativa de salvamento da República, através de uma solução provisória e dúbia, entre a imitação da realeza e o simulacro republicano. E sobre as virtudes do pensamento crítico, Antero fala do ceticismo – “em que tudo tem de se dissolver provisoriamente”. Não devemos, porém, cometer anacronismo na consideração do pensamento político. Como aconteceu, no célebre diálogo com Alexandre Herculano, o velho mestre insiste em que é liberal mas não democrata. E o jovem responde que não pode haver liberdade sem igualdade, nem igualdade sem liberdade. Não falamos, no entanto, da democracia na aceção atual, e recordamos a experiência nas minas de Santa Eufémia em Espanha, lembrada por Eloy Fernandez Clemente, onde descobrimos a relação humana com os operários, a preocupação com as suas condições sociais e económicas e com a educação dos seus filhos. E é aí que se nota, nas diferenças, uma evidente coerência.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de novembro de 2019

 

"Antologia Poética" de Jorge de Sena (Guimarães, 2010), com organização de Jorge Fazenda Lourenço, quando se celebra o primeiro centenário do nascimento do poeta (1919-1978), permite começar a entender o carácter poliédrico da obra de um autor complexo, difícil, seguro, fecundo e tantas vezes inesperado, para quem a liberdade é a chave da capacidade criadora.

 

CENTENÁRIOS CONVERGENTES
Quatro dias apenas de diferença entre as datas de nascimento de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen é uma feliz coincidência que une dois nomes maiores da cultura portuguesas, que na vida tiveram uma relação muito próxima, bem expressa numa correspondência notável, que Rita Azevedo Gomes transpôs para a tela, numa obra tocante, na qual as duas personalidades se completam naturalmente. Não é possível compreender essa correspondência sem a presença de Francisco de Sousa Tavares, em quem todos reconheciam a coragem, a audácia e a capacidade de compreender como poucos a força das raízes culturais portuguesas. A correspondência segue o período do exílio voluntário de Jorge de Sena, depois de 1959, quando, aproveitando um congresso na Bahia, partiu para ensinar Literatura Portuguesa, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos. Antes tinha-se estabelecido uma ligação muito forte, com a presença quase quotidiana de Sena na Travessa das Mónicas, tudo culminando no episódio algo quixotesco do golpe dito da Sé, em que Sousa Tavares usou a farda gasta de miliciano e pediu a sua mulher, Sophia, que pusesse os filhos em segurança, fora de casa, na noite aprazada para a tentativa revolucionária, de 11 para 12 de março de 1959. Estavam envolvidos Manuel Serra, João Perestrelo de Vasconcelos, à altura clérigo na Sé, Fernando Oneto, o Capitão Almeida Santos, João Varela Gomes e muitos outros – além de Jorge de Sena e de António Alçada Baptista. E lembramos Sophia em “Carta(s) a Jorge de Sena”, na hora em que ele nos deixou: “… Há muito estravas longe / Mas vinham cartas poemas notícias / E pensávamos que sempre voltarias / Enquanto amigos teus aqui te esperassem - / E assim às vezes chegavas da terra estrangeira / Não como filho pródigo mas como irmão prudente / E ríamos e falávamos em redor da mesa / E tiniam talheres loiças e vidros / Com se tudo na chegada se alegrasse / Trazias contigo um certo ar de capitão das tempestades / - Grandioso vencedor e tão amargo vencido…”

 

UM DISCURSO NOTÁVEL
Se lermos um dos últimos textos de Jorge de Sena, dito na cerimónia do dia 10 de junho de 1977 podemos compreender a extraordinária dimensão cultural e cívica do poeta e ensaísta, com um sentido crítico e inovador apuradíssimo, invocando a figura de Camões, que tanto admirava. Jorge de Sena revisita o épico, dando-lhe a importância que merece, muito para além das simplificações que constituíam o modo mais fácil de o invocar, símbolo primeiro da nossa cultura. Diga-se ainda para mais que, além do seu camonismo, Sena foi pioneiro na descoberta intelectual e literária de Fernando Pessoa, num tempo em que se estava longe do reconhecimento que mais tarde veio. Coube, de facto, a Jorge de Sena o início do projeto essencial que foi a publicação do “Livro Desassossego”, em cujos prolegómenos o poeta de “Fidelidade” esteve envolvido. António M. Feijó refere, aliás, as extraordinárias intuições interpretativas de Sena que abriram novas e fecundas perspetivas. Mas, voltando a Camões, para Sena, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Ao invocar a figura ímpar do épico, Jorge de Sena deixou, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».

 

O HOMEM UNIVERSAL POR EXCELÊNCIA
Para Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento (que há pouco nos deixou) insistia em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia 10 de junho a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno – entusiasmado, na sua experiência norte-americana, com a importância do conhecimento, da educação e da ciência. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos, no dizer de Jorge Fazenda Lourenço, que “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E chegamos ao final do discurso da Guarda – onde se remata com o apelo para Camões (por que não para Sena?): «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 28 de outubro a 3 de novembro de 2019

 

«D. Afonso Henriques» de Diogo Freitas do Amaral (Bertrand, 2000) constitui exemplo pedagógico de defesa do património cultural como realidade viva.

 

 

UM HOMEM DE CAUSAS
A última vez que estivemos juntos foi há algumas semanas, a trabalhar, em casa de uma amiga comum, a Professora Maria da Glória Garcia. Apesar de frágil fisicamente, continuava a ser o mesmo, extremamente metódico e rigoroso, afável e disponível, sem perder o fio condutor do bom método. Tratava-se de reorganizar o grupo dos amigos do Mosteiro dos Jerónimos, nascido da preocupação de não considerar o Ano Europeu do Património Cultural como um momento passageiro e sem consequência. Quando, há dias qualifiquei, sentidamente, Diogo Freitas do Amaral como um homem de causas, estava a pensar em vários dos momentos da sua vida, alguns em que nos encontrámos e convergimos. Para o jovem professor que encontrei na Faculdade de Direito em 1970, foi essa uma das marcas do seu carácter que me atraiu. Mais do que o formalismo do ato administrativo, importava, essencialmente, ver a Administração Pública como realidade viva, ao serviço dos cidadãos e da realização do bem comum. E quando, nesse tempo, estudávamos realidades novas, como o ordenamento do território, era a aproximação aos cidadãos que estava em causa. E quando líamos Alexandre Herculano a reclamar a governança do país pelo país e a ligar a liberdade cívica à melhor organização dos povos e ao reconhecimento do valor matricial do municipalismo, descobríamos, naturalmente, a importância do reformismo. Estávamos num tempo em que a ideia de reforma não podia deixar de entrar na ordem do dia.

 

O CULTO DA HISTÓRIA
Se falo de Herculano é, também, para dizer que encontrei sempre em Diogo Freitas do Amaral a paixão da história, da história política e da história das ideias. Os temas culturais entusiasmavam-no. Nota-se essa inclinação em obras como: “D. Afonso Henriques – Uma Biografia” (2000), “D. Afonso III, o Bolonhês, um Grande Homem de Estado” (2015) e “Da Lusitânia a Portugal. Dois Mil Anos de História” (2017). Tivemos oportunidade de falar sobre esses temas, e a leitura dessas obras significa, antes do mais, repercussão de uma prática anglo-saxónica evidenciada em muitos grandes intelectuais e políticos (como Roy Jenkins) que leva à reflexão e à escrita, muitas vezes biográfica, de modo a enriquecer o debate de ideias. As três obras referidas enquadram-se nessa boa tradição. Mas outras houve que deixou, designadamente para melhor compreensão dos diversos temas jurídicos e políticos que estudou. É a reflexão política que está presente – ligando a visão crítica dos acontecimentos históricos e sobre a evolução de Portugal. O caso de D. Afonso III é evidente. De facto, o pai de D. Dinis é quem cria condições para a constituição pioneira de um Estado pós-medieval, com unidade política, administrativa, económica e cultural. Vindo do centro da Europa, o Bolonhês, o grande homem de Estado, conseguiu construir no ocidente peninsular uma realidade moderna, que abrirá horizontes para os fulgurantes séculos XIV e XV. Esse sentido reformador entusiasmou o nosso autor, que escreveu a obra histórica a pensar no Portugal de hoje, a partir da Europa, e na necessidade de planear o futuro com horizontes abertos e largos. O mesmo se diga da biografia de D. Afonso Henriques, onde é a rigorosa análise política que prevalece, com destaque para a compreensão da importância de consolidar a frente marítima – que até aos nossos dias se tem revelado essencial. Aqui esteve a divergência política (longe explicações psicanalíticas) com a mãe, D. Teresa, que estava apegada à manutenção de influência no reino asturo-leonês e na Galiza… O que esteve em causa, como o autor confirma, seguindo a melhor doutrina, foi a amplitude significativa da revolta dos barões portucalenses, bem como “a impressão causada pelas qualidades combatentes e de liderança demonstradas pelo jovem príncipe português”. Uma leitura atenta das obras referidas confirma plenamente como o cidadão culto e estudioso, ciente da importância da História política, contribui com sentido pedagógico e capacidade crítica para a reflexão, de que tanto está carenciada uma sociedade que se deseja esclarecida e madura – em lugar dos tempos de imediatismo e de superficialidade. A História política tem de ser valorizada, não apenas na dimensão historiográfica, mas também no campo das ideias. Essa era uma convicção clara que sempre encontrei no estudioso.

 

UM PEDAGOGO ATIVO
Já referi a anglofilia de Diogo Freitas do Amaral, que levava, nestes últimos tempos, à amargura pelo que via na evolução dos acontecimentos ligados ao “Brexit”, no qual ninguém se entende, contrariando um proverbial “british common sense”, que tanto admirava. Para além de ser um cultor exemplar do “Direito Administrativo”, na senda de Marcelo Caetano, com novas perspetivas científicas e pedagógicas abertas, tornou-se um exemplar pedagogo da “História das Ideias Políticas”, sobre que também muito falámos. Na ”História do Pensamento Político Ocidental”, de Thomas Morus a Montesquieu, até Burke e Tocqueville, chegando nos nossos dias a Karl Popper, Raymond Aron, Isaiah Berlin ou Jacques Maritain o que o preocupa é a compreensão da democracia como realidade dinâmica, em permanente transformação, num sentido reformista, com instituições mediadoras, capazes de garantir a representação e a participação dos cidadãos. Leia-se, aliás, o “Manual de Introdução à Política” (2014), onde as ameaças sobre democracia estão evidenciadas, com uma preocupação especial com a verdade e a justiça. E não esquecemos que foi por proposta do CDS que a Constituição da República refere expressamente no seu articulado a Declaração Universal dos Direitos Humanos, como garantia de um Estado de Direito e de direitos. As três revoluções, inglesa, americana e francesa, tinham de ser vistas pelo autor articuladas entre si, no contexto do pluralismo e da separação e interdependência de poderes. E o “New Deal” de Franklin D. Roosevelt permitiu às economias mistas modernas dar resposta às incapacidades do mercado e às incapacidades da intervenção do Estado. As encíclicas de João Paulo II, Bento XVI e do Papa Francisco sobre a idolatria do mercado, sobre a “economia que mata” e sobre os desafios ligados ao meio ambiente mereceram, assim, especial atenção ao cidadão preocupado com a emergência de democracias ditas iliberais, que considerava chocantes contradições nos termos. Como homem de causas, como homem de cultura, empenhou-se ativamente pela cultura da paz, pela defesa e salvaguarda dos direitos fundamentais e, para referir um dos seus últimos combates empenhou-se em considerar a defesa do património cultural como um dever fundamental de uma sociedade mais humana e respeitadora da sua memória. Deixar ao abandono a herança e a memória das gerações que nos antecederam é destruir o carácter e a identidade, como realidade abertas, não do passado, mas do presente e do futuro. O património material e imaterial, a natureza e as paisagens, o mundo digital e a criação contemporânea exigem a nossa responsabilidade. Diogo Freitas do Amaral ensinou-nos a não baixar os braços.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 21 a 27 de outubro de 2019

 

«António Barroso e o Vaticano» de Carlos A. Moreira Azevedo (Edições Alethêia, 2019) revela em 400 cartas inéditas uma das raras figuras da nossa história religiosa que catalisa a densidade das características da sua época, permitindo no percurso biográfico (1854-1918) reunir os grandes debates de um tempo significativo. Situamo-nos, realmente, no cerne da ação missionária nos territórios coloniais portugueses, na mudança de regime da Monarquia para a República e na intensificação da vida pastoral das dioceses.

 

AS MISSÕES ULTRAMARINAS
A história do Real Colégio das Missões Ultramarinas leva-nos a compreender um longo percurso da missionação católica e do Padroado Português, iniciado no século XV, a partir da primeira diocese global no Funchal, que durou até ao século XX, em virtude da evolução histórica, do fim da jurisdição eclesiástica de Macau e sobretudo do Concílio Vaticano II. Com o Seminário de Cernache, devem lembrar-se os Seminários de Rachol (Goa) e de S. José (Macau). A instituição de Cernache do Bonjardim foi criada em 1791 na regência do Príncipe D. João, que viria a ser D. João VI, tendo tido como colégio uma vida difícil em razão da implantação do regime liberal e da República. Pode dizer-se que a figura de D. António Barroso marca decisivamente a abertura de horizontes novos no campo da missionação. Natural de Remelhe (Barcelos), onde nasceu em 1854, foi bispo prelado de Moçambique, bispo de S. Tomé de Meliapor (na costa Este da Índia, atual cidade de Chennai) – onde está viva a memória das primeiras comunidades cristãs da Índia, muito antes da chegada dos portugueses, sob a invocação do apóstolo S. Tomé. António Barroso vai estudar para o Seminário de Braga e dali é transferido em 1873 para o Real Colégio das Missões Ultramarinas. Foi missionário em Angola e Moçambique – sendo célebre o seu relatório sobre o Padroado de Portugal em África. É relevante a presença em Angola e no Congo, entre 1880 e 1888, e depois, como se disse, enquanto Prelado de Moçambique (1892-1895) e como ativo evangelizador em S. Tomé de Meliapor. Ainda se lhe deve a renovação do Colégio da Missões, sendo precursor da Sociedade Portuguesa das Missões Católicas Ultramarinas, atualmente designada como Sociedade Missionária da Boa Nova, hoje dirigida pelo Padre Adelino Ascenso.

 

MODELO DE MISSIONÁRIOS
D. António Ferreira Gomes não hesitou em designar António Barroso como “modelo de missionários”. Foi assim “continuador dos que acenderam no Oriente a luz do Evangelho e lançaram as sementes de uma civilização universalista”. E não esquecemos o que disse o Padre Américo: “Duro, tenaz, rebelde. Uma só cara. Não torceu nem quebrou. Só ele. Porém, a sua grande loucura está no amor dos pobres”. E é significativo o que disse Raul Brandão: “o Bispo é uma grande figura de bondade. Dá tudo o que tem”. Desde 1899, é assim Bispo do Porto e logo se afirma pelas suas excecionais qualidades humanas. Com a proclamação da República, os momentos iniciais são muito difíceis. Quando em 1911 é dada a conhecer a Pastoral do Episcopado Português em que se afirma o desacordo com alguma legislação da República anima-se a luta anticlerical. Os governadores civis proíbem a leitura desse documento. O próprio Bispo do Porto é detido e levado sob custódia a Lisboa, conhecendo o exílio em Remelhe, de onde regressa em 1914. A história tem algo que se lhe diga, uma vez que não se vê em D. António Barroso qualquer promoção da guerra, mas uma atitude crítica sem deixar a perspetiva positiva. A evolução da República vai determinar a afirmação clara do exemplo de D. António Barroso, para além da circunstância política. Depressa houve quem compreendesse, como Raul Brandão, que o prelado tinha por si a autoridade moral do espírito evangélico.

 

UM NOVO MOMENTO
Pode dizer-se que o Bispo do Porto D. António Barroso antecipou o novo tempo. A assistência religiosa durante a Guerra de 1914-18, a abertura do Presidente António José de Almeida à pacificação, a beatificação de Nuno Álvares Pereira, a orientação de Bento XV no sentido do «ralliement» (ou seja, o fim da oposição dos católicos à forma republicana do governo), a autonomia da Igreja relativamente ao Estado – tudo contribuiu para a atenuação da questão religiosa. Com a lei da separação de 1911, previu-se a reforma do Colégio das Missões Ultramarinas. Em 1913 foram criadas as missões laicas em África e Timor. De 1920 a 1926 foram enviadas dez missões laicas para Angola e quatro para Moçambique, sem os resultados pretendidos. D. António Barroso, falecido em 1918, constitui um exemplo de defesa do espírito das missões na perspetiva que viria a ser consagrada pelo Papa Bento XV na Carta Apostólica «Maximum illud», cujo centenário passa este ano como recorda o Papa Francisco. «A vida divina não é um produto para vender – não fazemos proselitismo – mas uma riqueza para dar. E o exemplo de D. António Barroso permite compreender o sentido e a atualidade, ontem como hoje, da Carta de Bento XV: «Sê homem de Deus que anuncia Deus. Eu sou sempre uma missão, tu és sempre uma missão. Quem ama põe-se em movimento». E assim, o destino universal da salvação oferecido por Deus em Jesus Cristo levou o Papa Bento XV a exigir a superação de todo o fechamento nacionalista e etnocêntrico, de toda a mistura do anúncio do Evangelho com os interesses económicos e militares das potências coloniais. Assim o Papa lembrava que a universalidade divina da missão da Igreja exigia o abandono duma pertença exclusivista à própria pátria, à própria etnia… No caso de D. António Barroso, D. Carlos Azevedo afirma mesmo que “era uma personalidade que sabia distinguir o amor à pátria do nacionalismo. (…) Ele não era nacionalista, porque um cristão não pode ser nacionalista, mas tinha amor à pátria e ele demonstrou que podemos ter um grande amor à pátria, mas querer que a pátria esteja ao serviço da humanidade toda e não apenas de nós próprios como está muito na onda, por exemplo, dos nossos dias.” Assim, dá-nos o exemplo, no sentido de que ninguém fique fechado sobre si mesmo. Trata-se de conhecer a História e de fazer dela experiência de aperfeiçoamento – compreendendo que o diálogo é conhecimento mútuo, é razão e fé, é abertura de espírito à dignidade humana e ao amor.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 14 a 20 de outubro de 2019

 

Acaba de ser publicado o romance “A Outra Margem do Mar” de António Lobo Antunes (D. Quixote, 2019) que nos fala de um incidente ocorrido em Angola antes da guerra colonial, quando grandes plantações de algodão começaram a ser incendiadas, prenunciando a que viria a acontecer depois…

 

QUARENTA ANOS…
O programa das celebrações dos quarenta anos de vida literária de António Lobo Antunes na Fundação Calouste Gulbenkian, em colaboração com o grupo Leya, permitiu aprofundar o conhecimento da obra de um grande escritor e refletir sobre a riqueza da produção literária e artística de um autor, recentemente recebido na Biblioteca Pléiade, célebre coleção francesa que reúne os maiores autores da humanidade, só excecionalmente reservada aos vivos. Desde o momento em que, no ano de 1979, foram publicados os dois primeiros romances, Memória de Elefante e Os Cus de Judas assistimos a um percurso consistente, no qual o que importa é a história de gente de carne e osso que encontramos na vida a cada passo. E recordamos o momento em que nos foi dado ler pela primeira vez o novo autor: “O Hospital em que trabalhava era o mesmo a que muitas vezes na infância acompanhara o pai: antigo convento de relógio de junta de freguesia na fachada, pátio de plátanos oxidados, doentes de uniforme vagabundeando ao acaso tontos de calmantes, o sorriso gordo do porteiro a arrebitar os beiços para cima como se fosse voar, de tempos a tempos, metamorfoseado em cobrador, aquela Júpiter de sucessivas faces surgia-lhe à esquina da enfermaria de pasta de plástico no sovaco a estender um papelucho imperativo e suplicante: A quotazinha da sociedade, senhor doutor”… De que nos fala António Lobo Antunes? De nós e dos outros. E nesse ano de 1979 era Portugal que evoluía, que se adaptava às novas circunstâncias. E era isso que interessava ao escritor, não numa perspetiva global ou metafísica, mas a partir dos fragmentos da vida protagonizados por pessoas concretas, inesperadas, diferentes, capazes de nos acompanhar nos caminhos e nos momentos mais difíceis e intrincados. Não faço aqui um enquadramento geral, mas recordo o trabalho editorial incessante de Maria da Piedade Ferreira na construção do diálogo pertinente de um escritor difícil, mas necessário, com os seus leitores. E neste encontro multifacetado e polifónico, importa a agradecer ao autor por tudo o que nos tem dado e por certo continuará a dar – em memória, criatividade, talento e extraordinário domínio da palavra e da narrativa. E é devido ainda um agradecimento a todos quantos têm contribuído para a análise e melhor compreensão de uma obra rica de cerca de meia centena de livros, recebidos sempre com uma significativa e justa expectativa. Com ironia, António Lobo Antunes diz que não devia fazer eletrocardiogramas, mas sim escalas de Richter porque (diz-nos) “me parece que em lugar de coração tenho um sismógrafo cuja agulha assinala o menor estremeço interior ou exterior com uma amplitude imensa: basta-me viver para a agulha não parar, e que cordilheiras de tinta os meus dias…”.

 

O CORAÇÃO DO CORAÇÃO…
O colóquio internacional fez-se sob a invocação: “Apenas me preocupa atingir o coração do coração e iluminar tudo”. É este o desafio perante o qual nos temos de haver. É o encontro dos outros com que a cada passo nos deparamos. E lembro dois grandes amigos de António, Ernesto Melo Antunes de José Cardoso Pires, que em memória e espírito nos acompanharam, demonstrando como as razões do coração, que encontramos ao longo desta obra, constituem uma matéria-prima inesgotável. E o certo é que se aplica a ela o que o escritor disse sobre Eduardo Lourenço. “sob a inevitável complexidade artesanal da sua arquitetura, tudo atravessado por um humor subterrâneo, uma discreta ironia sulfúrica e uma espécie de inocência sábia, (…) de criança antiga, dona de um dedinho certeiro”. Sim, António também se preocupa com “uma máquina de entender o mundo, através do homem, infinitamente simples”. O coração do coração e o antecipar dos olhos nos olhos, e o tentar começar a ver distintamente estão presentes. E essa consciência das diferenças, da multiplicidade, das tensões, dos dramas, dos encontros e desencontros está no cerne da marca deste grande escritor – e é por isso que com António Lobo Antunes podemos compreender melhor quem somos no caminho de um lento entendimento. “O que seria de mim (diz o escritor) se não escrevesse, povoado pelos meus cães negros? Agora, e até começar o livro, não cessam de rondar-me: sinto-lhes a respiração, o cheiro, a baba. Sinto-os roçarem-me. Vejo-lhes as órbitas amarelas, os dentes…”. Mas eis que é a vida que irrompe. E ficam os livros: “em certo sentido, é terrível que a criação dure mais que o criador: Flaubert enfurecia-se que a Bovary continuasse viva e ele não. É curioso: agora é ela, a quem Flaubert deu vida, que lhe dá a vida a ele. É essa a grandeza da Arte: o Verbo torna-se Carne, que por sua vez torna a ser Verbo. Pode desejar-se atividade mais nobre?” O mundo e a vida não param. Os grandes romances, como a grande poesia, exigem que se releiam no maravilhamento da descoberta – “a todo o passo damos com pormenores que nos haviam passado despercebidos, em cada página nos emocionamos”. E isto vale para o leitor e para o escritor, já que a descoberta é necessariamente biunívoca. Há uma troca permanente entre a escrita e a leitura. Tudo é excecional. Se falamos de ler, falamos de reescrever, de refletir, de pensar. É da vida que se trata. Por isso, a leitura é o melhor modo de realizar a liberdade. E que marca extraordinária essa na coerência do escritor. Em cada linha António no-lo diz com persistência. Não se trata de fechamento, mas de partilhar uma experiência própria e intransmissível.

 

A ORIGINALIDADE DO ESCRITOR
Bernard-Henri Lévy leu com especial cuidado a obra de António Lobo Antunes e encontrou nela a reinvenção do tempo, o diálogo interior e a polifonia (capaz de não esquecer cada som e cada interpretação), como pontos essenciais da originalidade do escritor. O tempo, o mundo e o mal; a consideração da guerra como bomba atómica moral; mas também o domínio da escrita e da comunicação: a música, a pontuação e a perceção da doença – eis os elementos que colocam o escritor na galáxia dos maiores, dos inovadores, daqueles que revelam capacidade de ir ao encontro da voz do leitor… Ah! E temos a presença sub-reptícia, permanente, dessa estranha aventura que aprendemos a ler em “Peregrinação” e nas mil peripécias e personagens em que Fernão Mendes foi protagonista plural – “e com muita Avé-Maria e muito pelouro nos fomos a eles e em menos de um Credo os matámos a todos”… Que é a escrita senão essa capacidade de exprimir de forma inusitada o inesperado devir, permitindo ver melhor a realidade, como na subversão do tempo em “As Naus” (1988)? Sim, somos nós e os outros que António Lobo Antunes traz em observação cuidadosa, atenta e complexa. Regressado da guerra, sabia de feridos, de tiros e explosões, de minas, de prisioneiros, de crianças mortas, mas ainda tinha sido poupado ao conhecimento do inferno. E assim pôde entender o género humano, a coragem e a tibieza, o fundo bom e as baixezas… No fundo, acredita nas pessoas, por ter tido a possibilidade de conhecer o inominável… Aqui tudo começa e tudo continua. E, afinal, António, “basta um sorriso para ressuscitar o universo”…  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 7 a 13 de outubro de 2019

 

«Os Sonetos – Uma Antologia» de Manuel Alegre (D. Quixote, 2019) é uma reunião de poemas que permite uma visão global sobre a obra do poeta.

 

 

A PROCURA DAS RAÍZES
Se há poeta português para quem as raízes culturais são fundamentais, é Manuel Alegre. “Haverá sempre em mim o rio Águeda / Meu ritmo é seu fluir e seu buscar / Quem sabe se outro longe ou se Pasárgada / Haverá sempre um rio para o mar”. As raízes não podem ser esquecidas, e há um amor especial que o poeta nunca esquece, que é o da língua-pátria e da pátria-língua. Sempre um patriotismo prospetivo, como quis António Sérgio, sempre as lições no presente de uma longa história. E Águeda é um símbolo bom, a lembrar a “soberania do povo” e um especial culto ancestral da liberdade (e não esqueço outro amigo dessas paragens, Manuel José Homem de Melo, cuja memória está bem presente). Quando sobre Alfarrobeira e o Infante D. Pedro se lê: “Com D. Pedro outra vez saber ser contra. / Na hora amarga e vil e traiçoeira / ousar ainda a honra e a nobreza / sair em armas e lavar a afronta / com D. Pedro de novo em Alfarrobeira…” – não é um episódio passado que se rememora, é um apelo presente e ético que se proclama. Do mesmo modo, em “amor de fixação”, de “Coisa Amar” (1976), a lembrança de Duarte Pacheco Pereira é a da experiência madre das cousas, que se projeta nos dias de hoje: “naus a voltar no meu gostar de ti; / levai-me ao velho pinho do meu lar / eu vi o longe e nele me perdi”. No fundo, importa tirar lições para o futuro… “Vai-se a vida e cantar é um destino…”  

 

FORMA LÍRICA POR EXCELÊNCIA
Maria Helena da Rocha Pereira escreveu sobre “Sonetos do Obscuro Quê” (1993): “há muito que ele espreitava entre os poemas de Manuel Alegre: a forma lírica por excelência, o soneto”. A afirmação tem de ser lembrada, no momento em que é publicada a Antologia de “Sonetos” (D. Quixote, 2019), que nos permite recordar alguns dos mais belos momentos da criação do poeta. “Desata-se-me o verso no primeiro / no segundo de vento vai vestido / no terceiro de mar e marinheiro / no quarto está perdido está perdido”… A grande professora, que tanta saudade nos deixa, lembrava a sombra de Dante “entre outros nomes tutelares da poesia ocidental” e o “stil nuovo”, que inspirou o nosso Sá de Miranda, fez questão de lembrar a ligação entre amor e reflexão – e uma melodia própria, a exigir “um domínio da forma e dos sons que poucos possuem; e bem assim a concentração num conceito final, que surge como uma conclusão natural, ou então como uma farpa aguda, a apontar noutra direção. Ora, todas estas capacidades estavam presentes há muito na arte deste poeta”. Nada melhor do que estas palavras para elogiar o poeta, na sua originalidade, do domínio da palavra, no ritmo e no estilo, mas sobretudo na expressão originalíssima, que caracteriza um poeta de exceção. O grande poeta é quem é capaz de ligar o rigor à originalidade, tornando-se inconfundível. “De novo a via clara a via obscura / ligar a doce rima e a rima dura / da Provença e Toscana a luz e a rosa”.

 

LEMBRAR A POESIA
O poeta Manuel Alegre vai ser a figura homenageada este ano no festival literário “Escritaria”, que vai decorrer de 21 a 27 de outubro, em Penafiel, como sabemos, o festival “é o único que se dedica a homenagear um escritor vivo de língua portuguesa”, com a cidade a transformar-se, “por uns dias, na sua própria cidade”. É uma justa homenagem a um dos autores mais importantes das culturas de língua portuguesa. De facto, Manuel Alegre tem, ao longo de uma obra, muito vasta e rica, seguido, com grande coerência a linhagem muito antiga da nossa língua, que tem as suas bases na poesia trovadoresca. Desde “Praça da Canção” (1965) e “O Canto e as Armas” (1967) que encontramos na escrita de Manuel Alegre ressonâncias de aventura e de liberdade, que o ligam de modo indelével a uma antiga poesia de resistência, que nos conduz aos maiores nomes das letras portuguesas, que usaram essencialmente a matéria-prima da liberdade. Por isso citou Afonso Lopes Vieira quando recebeu o Prémio Camões (2017): “Diria que não seriam dignos do épico os poetas portugueses que não passassem pelas prisões. Eu sinto-me herdeiro dessa tradição. Acredito na força mágica e libertadora da palavra poética”. E em “Resistência”, lembra: “Desinfeção: metáfora da Europa. / Resistir sem piedade e sem tardança. / ‘Terrífico é o momento que nos toca’. / Com René Char as sílabas de França”… Lembramos ainda o que omautor disse quando recebeu o Prémio D. Dinis, na Casa de Mateus (2008) – exprimindo o grande contentamento por receber uma distinção com o nome do nosso Rei-poeta: «As naus são sempre as doze naus da imaginação (o prémio referia-se ao livro “Doze Naus”). As de Ulisses. Mas também a da poesia portuguesa. Recordo Miguel Torga: "Todos os caminhos transversais de Portugal vão ter ao mar. Verificá-lo é avivar na consciência a nossa razão de ser. Nascemos para embarcar. Ou de imediato ou na lembrança ou na imaginação." E já o poeta Afonso Duarte (1884-1958) tinha dito: "Há só mar no meu país". É verdade que somos hoje um "país pequeno e pobre", com "muito passado e muita história e cada vez menos memória, país que por vezes já não sabe quem é quem, país de muito mar e pouca viagem". Mas somos também o país em que em português o vento vem do mar. País do Mar Absoluto. País em que, por vezes, "há um navio fantasma sem ninguém ao leme". País em que sobre o mar visível haverá sempre o invisível, o mar de dentro. E é nesse que todos nós continuaremos sempre a navegar». É significativa esta passagem, uma vez que estamos no cerne da identidade cultural, que Manuel Alegre tem cultivado, com abertura e independência. “Gramática de sal e maresia / na minha língua há um marulhar contínuo // Há nela o som do sul o tom da viagem. / O azul. O fogo-de-santelmo e a tromba / de água. E também sol. E também sombra”… Contra a ideia de identidade fechada e egoísta, contra um conceito burocrático de patriotismo ou de comunidade, o autor com agudo sentido crítico, rebela-se contra sermos um país com “cada vez menos memória”. Apenas se cultiva e aprofunda a memória, cuidando do sentido crítico, da independência, do apego à liberdade. E é isso que tem caracterizado a voz inquieta e sempre atenta de Manuel Alegre – seguindo os passos de Camões, Bernardim, Sá de Miranda, Bocage, Garrett e Herculano, Antero de Quental, Cesário, Camilo Pessanha, Pascoaes, Pessoa e Torga de Sophia. Como esquecer: “E o seu poema é quase como casa / e a casa é o outro espaço onde Sophia / reparte à sua mesa o pão e os versos”? O conjunto dos sonetos dá voz ao poeta que não esquece que a cultura e a língua portuguesas resultam de uma rica encruzilhada de influências, que se enriquecem no diálogo e na recetividade de novos elementos e fatores. Daí a necessidade de atenção crítica e de capacidade para responder aos desafios do inesperado e do incerto: “Eu sou o renitente o inconformado / Por isso me deitaram mau-olhado / e por isso persisto e canto e falo” – assim diz o décimo soneto do português errante; depois de ter afirmado: “Eu sou o solitário o estrangeirado / o que tem uma pátria que já foi / e a que não é. Eu sou o exilado / de um país que não há e que me dói”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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