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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  
De 15 a 21 de julho de 2024


Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões (Contraponto, 2024) da autoria de Isabel Rio Novo permite-nos compreender o carácter rico e multifacetado da vida do maior poeta da língua portuguesa.


EXCECIONAL FORMAÇÃO
António José Saraiva teve razão ao afirmar que a grande prova da excecional formação de Camões em Coimbra se encontra na sua obra, que ostenta notáveis extensão, profundidade e solidez de conhecimentos. Os primeiros biógrafos e comentadores foram unânimes em reconhecê-lo e quase quinhentos anos de exegeses sobre a obra camoniana permitem que lhes demos razão. De facto, Luís de Camões conhecia bem os textos bíblicos do mesmo modo que os autores latinos e gregos – Virgílio, Horácio, Cícero, Plínio, o Antigo, ou Ovídio. E aí encontrou o paradigma do poeta desterrado, que ilustraria o seu percurso biográfico, marcado por partidas, viagens e ausências. Por exemplo, em Os Lusíadas, o poeta serve-se, com segurança, de todos os epítetos atribuídos à deusa Vénus e, querendo comparar os portugueses modernos aos heróis da Antiguidade, encontra termos clássicos que demonstram a superioridade dos seus conterrâneos. Por cada varão português encontra um semelhante clássico, colhido entre os heróis gregos, romanos e de outros povos celebrados pelos historiadores antigos. De facto, Camões possuía um saber erudito, que abarcava vários domínios do conhecimento, da geografia à botânica, da cosmologia à astronomia, adquirido através não só de leituras diretas de clássicos, mas também das vulgatas disponíveis. A qualidade do seu estilo e o domínio rigoroso da sintaxe, o emprego adequado do vocabulário, decorrem de longas e profícuas leituras, e da convivência desde tenra idade com o latim, que era suposto ser usado no diálogo dentro das portas da escola. Camões conhecia ainda as crónicas históricas portuguesas, sendo amigo do grande cronista Diogo do Couto, tendo ainda o conhecimento de escritores modernos, italianos, castelhanos e portugueses, como Dante e Petrarca, Pietro Bembo, Garcilaso de la Vega, Ariosto, Tasso, André de Resende e Bernardim Ribeiro. Eis por que razão a discussão sobre se Camões fez ou não estudos superiores se torna irrelevante para a fruição da sua obra.


HONESTO ESTUDO COM EXPERIÊNCIA MISTURADO
Fortuna, Caso, Tempo e Sorte – Biografia de Luís Vaz de Camões (Contraponto, 2024) da autoria de Isabel Rio Novo permite-nos compreender o carácter rico e multifacetado do maior poeta da língua portuguesa. E o certo é que, apesar da voracidade com que procurava aceder aos livros, a principal biblioteca do épico deverá ter sido a sua memória extraordinária, assente em aturadas leituras – que o levará a dizer “Nem me falta na vida honesto estudo, / Com longa experiência misturado, / Nem engenho que aqui vereis presente…” (Os Lusíadas, Canto X, 154). E como a autora refere, mercê de um trabalho sério e exaustivo, além da quantidade impressionante de referências eruditas e da extraordinária memória, Camões também guardava lendas populares, provérbios, adágios e rifões. E assim vemo-lo influenciado pela tradição lírica galaico-portuguesa e pela poesia provençal, que deixaram marcas em muitas composições escritas na medida velha, isto é, em versos de cinco e sete sílabas, quer nas cantigas de amigo, em que fala a dona, quer nas cantigas de amor em que o poeta toma a palavra em nome do amor cortês. No conhecido vilancete, a partir do mote, “Descalça vai para a fonte / Leonor pela verdura”, encontramos as pastorelas medievais, que ficcionam o diálogo entre o cavaleiro e a camponesa, junto de uma fonte, ainda que nas redondilhas camonianas a rapariga “formosa e não segura” se limite a ser contemplada… No vilancete “Deus te salve, Vasco amigo”, Camões combina a feição bucólica da poesia rural com a retórica petrarquista, substância da medida nova, apresentando o pastor que se sentia fora de si, porque tinha na amada “a alma e a vida”. Contudo Camões surge-nos como um homem da sua época, que pensava e vivia com os valores e preconceitos dos seus contemporâneos, na ciência e nas limitações.


Da criteriosa investigação de Isabel Rio Novo, encontramos detalhes que nos apresentam a personagem com toda a sua riqueza, literato e destemido, reflexivo e aventuroso. Atente-se ao livro de matrículas da Casa da Índia, se bem que o biógrafo Manuel Correia julgue que o poeta teria nascido em 1517, Faria e Sousa descobre o registo de 1550 relativo a uma viagem que não chegou a realizar-se em que se apresenta Luís de Camões, filho de Simão Vaz e Ana de Sá, moradores em Lisboa na Mouraria, escudeiro de 25 anos, barbirruivo, que trazia por fiador seu pai, devendo partir na nave de S. Pedro dos Burgaleses. Ora, se em 1550 Camões tinha 25 anos só poderia ter nascido em 1524 ou 1525, como hoje se julga… Embarcaria, noutra ocasião, para o Oriente como homem de armas, precisando de combater, pois só assim receberia o soldo, podendo acumular certidões de serviço com que poderia, mais tarde, requerer um provimento. Por isso, apesar de o poeta não apresentar provas de mais expedições militares após a guerra ao rei da Pimenta e o embarque na armada do Norte, o certo é que deverá ter participado em várias expedições militares, como pressupõem os biógrafos seiscentistas, que o colocam “servindo a pátria, no verão, com as armas em o mar; no inverno, com a pena em terra”. Para Manuel Correia, Camões foi muito tempo soldado na Índia, dizendo as pessoas de crédito que o conheceram que foi homem de espírito e que em todas as ocasiões de guerra em que se achou deu boa conta de si.


ERROS MEUS, MÁ FORTUNA
Quando fala de “Erros meus, má fortuna, amor ardente”, a verdade é que todos esses fatores se conjugaram para o perder. Os erros e a má fortuna sobejaram, mas o amor fora o suficiente. Os exemplos das heroínas abundam, mas escondidas, porventura para proteger as identidades verdadeiras, nos anagramas Aónia para Joana; Belisa ou Sibela para Isabel; Natércia para Catarina; Nise para Inês. Porém, os vários nomes femininos que se encontram na lírica, além das encomendas, muitos são convencionais, tirados da Bíblia, dos autores clássicos ou dos cancioneiros: Dinamene, Elisa, Amarílis, Silvana, Sílvia… E encontramos uma procura rigorosa, em lugar da tradição mítica ou de fantasiosa integração de lacunas. Reúne-se, assim, um conjunto de elementos dos melhores analistas, procurando Isabel Rio Novo encontrar não respostas definitivas e fechadas, mas hipóteses de trabalho sérias, coerentes e verosímeis. Não se trata, pois, de dispor de um Camões completo e perfeito, mas de reunir informações que permitem, em busca da verdade, irmo-nos aproximando da vera efígie, na certeza de que nunca a atingiremos plenamente, por incapacidade nossa e falta de evidências suficientes. Contudo, devemos a Camões “o justo peso das sílabas, o justo espaço do silêncio, a articulação justa”, na expressão de Sophia de Mello Breyner ou “o canto de fúlgida beleza formal, rítmica e melódica, e de espantosa densidade semântica em que se exprime, como nunca na poesia portuguesa, e só voltaria a acontecer algumas vezes na poesia do século XX, a grandeza e a miséria da condição humana”, como disse Vítor Aguiar e Silva. E a 5 de fevereiro de 1585, um alvará concederia à mãe do poeta (Ana de Sá e Macedo) quinze mil réis anuais de tença, havendo respeito aos serviços do pai Simão Vaz e aos de seu filho Luís de Camões, cavaleiro da casa de Filipe I, ficando a dúvida sobre se o poeta, mais tendo vivido, poderia ter evitado a angústia dos últimos dias…     


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

O ENTUSIASMO DE ADÉLIA PRADO

  


Acaba de ser atribuído o Prémio Camões, neste ano emblemático de 2024, a Adélia Prado, poeta brasileira, natural de Minas Gerais, como Carlos Drummond de Andrade e João Guimarães Rosa, formada em filosofia, professora, mãe de família, como uma obra notável.  E, com inteira justiça, Adélia também receberá por estes dias o Prémio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras. Na Antologia Tudo o que existe louvará, prefaciada por José Tolentino Mendonça e Miguel Cabedo e Vasconcelos (Assírio e Alvim, 2016), diz-se, sintomaticamente: «O religioso sem corpo é triste, incompreensível e anímico, porque é com o corpo que se ama a Deus. O corpo é que nos abre, como janela, para a transcendência: Deus só é experimentável a partir do corpo e na relação com o corpo». Ouvimo-la, com entusiasmo: «Tudo o que existe louvará. /Quem tocar vai louvar, /quem cantar vai louvar, /o que pegar a ponta de sua saia /e fizer uma pirueta, vai louvar. /Os meninos, os cachorros, / os gatos desesquivados, / os ressuscitados, /o que sob o céu mover e andar». Aqui se demonstra plenamente o que um dia disse a nossa Leonor Xavier: “Em verso e prosa, Adélia descobriu a mistura entre as pequenas tarefas de casa, as pessoas que a rodeiam, as coisas e os bichos, o sentir e o pensar, o silêncio da dúvida, a presença de Deus imediata e consciente, na inteireza da sua história de mulher”. Para Drummond: “Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo”. Quem a conhece considera-a desconcertante, plena de ironia, ousada, iconoclasta, seríssima no entendimento das coisas essenciais. Nela o comum e o banal encontram-se, a cada passo, com o transcendente. Como disse Pedro Mexia, «os seus textos, que evocam com frequência um meio provinciano e pobre, têm (…) algumas afinidades com o Sul profundo da ficção de Flannery O’Connor, mas enquanto a americana era violenta e sofrida, a brasileira é vitalista e sensual. Poeta de Deus e do corpo, Adélia é também poeta do corpo divinizado e do Deus encarnado». 


Esta atitude aberta e generosa permite-me lembrar que nestes últimos dias celebrámos em Lisboa o 12º “Disquiet” com escritores e intelectuais norte-americanos, promovido pela editora independente Dzanc Books e o Centro Nacional de Cultura, em memória do poeta Alberto Lacerda. Disquiet, evoca o “Desassossego” de Bernardo Soares / Fernando Pessoa. Se associo o novo Prémio Camões a este encontro é porque a abertura de espírito de Adélia Prado tem tudo a ver com esta iniciativa. Jeff Parker e Scott Laughlin, com Teresa Tamen, são a alma do projeto e fazem do diálogo entre literaturas uma festa do espírito. E este ano Katherine Vaz, habitual presença no certame, lançou o romance Linha do Sal, passado na Madeira na década de 1840, sobre a separação e o encontro de duas famílias imigrantes nos Estados Unidos, entre atribulações religiosas, mas em que se sente a “alegre melancolia que é a fonte de calor da alma portuguesa”. 


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  
De 8 a 14 de julho de 2024


A publicação de “Camões Uma Antologia” de Frederico Lourenço (Quetzal, 2024) constitui um acontecimento importante na celebração dos 500 anos do nascimento de Luís de Camões, aproximando o grande poeta do grande público e de todos os estudiosos.


Uma Antologia reunindo as passagens mais importantes de Os Lusíadas e da poesia lírica camoniana, envolvendo sonetos, canções, éclogas e demais obras significativas é uma necessidade quando celebramos o quinto centenário do mais importante poeta da língua portuguesa. Daí a importância da obra de Frederico Lourenço Camões Uma Antologia (Quetzal. 2024), que pretende responder à pergunta feita por muitos: Por onde começar a ler Camões de modo a poder apreender o significado e o lugar de uma obra fundamental, também para a cultura contemporânea? E ninguém melhor que um classicista para nos ajudar nessa diligência. Daí a importância da matriz latina na poesia de Camões, único na afirmação de um idioma falado em todos os continentes, o primeiro do hemisfério sul, com capacidade de atração multifacetada que ultrapassa em muito a dimensão textual. E importa lembrar que a origem do português está na herança dos trovadores, que um rei poeta tornou língua oficial e que a maturidade do idioma comum foi atingida por um poeta genial, que se tornou símbolo da pátria, não apenas ao cantar as glórias do passado, mas assumindo a erudição e a expressão popular enquanto marcas de uma cultura e contributos de civilização.


O CONTACTO COM A DOCTRINA
Virgílio e Horácio estão bem presentes na poesia camoniana e “o que impressiona acima de tudo na poesia de Camões é a profundidade da sua cultura e das suas leituras: daquilo a que os romanos chamariam a sua doctrina”. E Frederico Lourenço insiste em que “se há poeta doctus na história da literatura que possa ser posto ao lado de Virgílio e de Horácio, esse é Camões”. E se não há prova documental da frequência do poeta da Universidade, o certo é que parece evidente o contacto com o ambiente académico através de seu tio D. Bento de Camões, cancelário da Universidade e prior dos frades de Santa Cruz de Coimbra. Além disso, Camões pode ter seguido lições do humanista André de Resende, a quem se deve a criação do neologismo Lusíadas, típico da preocupação neoclássica de encontrar raízes antigas contemporâneas da civilização romana. A verdade é que o épico teve acesso a bibliotecas, ligando intensamente a leitura e a memória. E nas Rimas revela-se um profundo conhecedor de Petrarca e dos seus seguidores em Itália e Espanha. E Os Lusíadas, desde as primeiras palavras, revelam um conhecimento profundo da Eneida e dos principais clássicos latinos. Do mesmo passo, as redondilhas das Rimas pressupõem um conhecimento seguro do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende e a dramaturgia do Autos de Filodemo, dos Anfitriões e d’El-Rei Seleuco evidencia o conhecimento certo dos modelos italianos e ibéricos. E se não encontramos em Camões nem Beatriz, nem Laura, como fixações individualizadas, há as raízes trovadorescas das cantigas de amor e de amigo, na medida velha, enriquecidas com a medida nova, trazida por Sá de Miranda. Mas, seguindo a boa lição de Jorge de Sena, a melhor atitude na leitura camoniana é a recusa da tentação biografista, apesar das “puras verdades já por mim passadas”. E quando lemos “Transforma-se o amador na cousa amada / por virtude do muito imaginar” é a inspiração de Petrarca que se nota – “l’amante nell’amato si transforme”… Há, pois, a relevância da poesia como processo criativo próprio, com reminiscências pessoais, quer para proteção da intimidade, quer como afirmação pública do valor próprio. E se há afirmação autobiográfica, ela não se encontra escondida, mas está claramente afirmada em Os Lusíadas, no Canto décimo: “Nem me falta na vida honesto estudo / Com longa experiência misturado” (154).


LIDAR COM UMA OBRA-PRIMA
O genial poeta encontra-se, porém, envolto em mistério no caso mais evidente da publicação da sua obra-prima. De facto, não estamos perante uma figura ignorada ou subalterna. Camões não foi um poeta maldito. O período em que morreu, esse sim, foi de angústias e tensões. A publicação do célebre poema obteve um parecer favorável da Inquisição, o que pode surpreender, em contraste com as desconfianças depois encontradas, designadamente no comentário de Faria e Sousa, em 1640. Mas o rei Filipe I de Portugal não escondeu admiração (quiçá política) por quem sabia ser um símbolo de Portugal, em respeito com as decisões de 1581 das Cortes de Tomar… Mas é a história de um pelicano que nos fixa as atenções. Subsistem cerca de 50 exemplares da edição de 1572, iguais em quatro erros, com algumas particularidades, devidas à complexa organização dos vários cadernos que os constituem, avultando a posição do pelicano no frontispício e a diferença na expressão “E entre gente remota edificaram” e “Entre gente remota edificaram”. Deve-se hoje a K. David Jackson, Vítor Aguiar e Silva e Rita Marnoto a demonstração de que a realidade da edição de 1572 é muito mais complexa do que as simplificações que se foram repetindo. E merece atenção o exemplar que se encontra em Austin, na Universidade do Texas, com anotações do padre católico, um indiano convertido, que testemunhou a morte de Camões e que anotou no referido exemplar que o poeta faleceu no hospital sem um manto para se cobrir… Mas, como ler nos dias de hoje a obra de Camões? Ninguém duvida (…) que o seu mundo era profundamente diferente do nosso. Contudo, Os Lusíadas à semelhança da Eneida contém a semente do seu próprio contraditório. Como não encontrar em Virgílio e em Camões nas entrelinhas das obras outras vozes, distantes da lógica imperial, capazes de reconhecer uma lógica emancipadora, decorrente do significado humano da literatura? De facto, também Camões quis que ouvíssemos outra voz, além da triunfalista. “Quis que soasse no seu poema uma voz a transmitir a consciência pesarosa da limitação humana”. E aí está o Velho do Restelo, como voz crítica, com o saber de experiências feito, pondo-nos de sobreaviso para a glória de mandar e a vã cobiça. Daí o alerta do canto nono: “E ponde na cobiça um freio duro / e na ambição também, que indignamente / Tomais mil vezes, e no torpe e escuro / Vício da tirania infame”…      


Guilherme d'Oliveira Martins
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ESCRITOS DE INGLATERRA

  


Kenneth Maxwell, autor de Pombal: Paradoxo do Iluminismo, defendeu a necessidade de publicação dos escritos completos pombalinos, para se compreender melhor e detalhadamente o âmbito e as consequências do consulado de Sebastião José de Carvalho e Melo na história de Portugal da Europa e do mundo. É por isso importante podermos contar com a publicação pela Imprensa da Universidade de Coimbra da Obra Pombalina, dirigida por José Eduardo Franco, Pedro Calafate e Viriato Soromenho-Marques. Os Escritos de Inglaterra (1738-1739) são o I volume, com coordenação de Ana Leal de Faria. Como se sabe, antes de ser chamado a funções de governo no reinado de D. José o futuro Marquês de Pombal exerceu atividade diplomática como enviado extraordinário de D. João V em Londres (1738-1743) e em Viena (1745-1749). São momentos cruciais para a experiência do futuro governante, nos quais podemos vislumbrar algumas razões para o enigmático paradoxo. Pouco antes de partir para Londres o futuro Marquês recebera a herança de seu tio Paulo Carvalho e Ataíde, arcipreste da Patriarcal, que lhe deixou, entre outros bens, o morgadio em que se integraria a Quinta de Oeiras, de onde proveio fortuna e o título de conde de Oeiras, concedido por D. José em 1759. O futuro governante não tinha diplomas universitários, mas tinha frequentado, por influência do avô, a Academia dos Ilustrados, onde pontuaram os marqueses de Alegrete e de Valença e o 4º conde da Ericeira, erudito cuja obra foi essencial na tentativa de modernização económica do reino. Este convívio terá por certo pesado na eleição de Sebastião José para membro da Academia Real da História Portuguesa em 1733, servindo de base para uma fulgurante carreira. Sendo certo que não desenvolveu ação académica relevante até ser nomeado para Londres, a verdade é que se destacou pela atenção aos acontecimentos do mundo e pelas qualidades literárias.


Quando Carvalho e Melo chega a Londres, Jorge II, da dinastia de Hanôver, reinava há dez anos, com predominância parlamentar whig, na linha da Gloriosa Revolução de 1688. A Inglaterra tinha a hegemonia marítima e era arbitro na Europa, enquanto D. João V, graças ao ouro brasileiro, praticava uma política de neutralidade, interpretada pelas potências europeias como de cedência aos britânicos, insuficiente, porém, no Estado da Índia perante a ofensiva marata na província do Norte. A Companhia Inglesa das Índias Orientais surpreende Sebastião José pela influência na governação, e Portugal em resultado disso via-se prejudicado, sem que houvesse reciprocidade, como diz a António Guedes Pereira, Secretário de Estado dos Negócios da Marinha e Ultramar. Ao longo destas cartas, onde encontramos o protetor D. Luís da Cunha, sente-se a tomada de consciência da desvantagem portuguesa e da necessidade de uma política mais autónoma, capaz de superar o atraso e de encontrar novos instrumentos de ação. No fundo, era o futuro que se preparava.   


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 1 a 7 de julho de 2024


Fernando Henrique Cardoso foi há 30 anos o autor do Plano Real, no Brasil, que constitui um exemplo notável de reforma político-económica, que merece celebração.


“A política não é a arte do possível. É a arte de tornar possível o necessário”. Quando Fernando Henrique Cardoso o afirmou tinha especial autoridade para o fazer por provas dadas no moderno reformismo. O Plano Real foi um exemplo extraordinário, que completa no dia 1 de julho, 30 anos. E é ponto consensual entre os economistas que a nova moeda criada em 1994 correspondeu a uma estratégia de sucesso para conter a hiperinflação e estabilizar a economia, tendo desempenhado um papel fundamental na criação de um ambiente de previsibilidade e de confiança, abrindo campo a medidas de justiça social.


Em 1993 vivia-se no Brasil uma conjuntura de dificuldade extrema em que os rendimentos do cidadão comum eram afetados por uma inflação galopante (5 mil % ano) e por uma perturbadora incerteza económica, com a multiplicação de movimentos grevistas e uma forte penalização dos trabalhadores mais pobres, mercê de uma espiral inflacionista incontrolável. Protegiam-se melhor os bancos, os grandes investidores, as empresas capazes de impor seus preços e o próprio Estado, com as suas receitas dependentes do índice de preços, contando com a inflação para ajustar o valor real das despesas. Aumentavam, porém, a pobreza e as desigualdades pelo descontrolo monetário. Fernando Henrique Cardoso conta que nesse contexto recebeu, em Nova Iorque, uma chamada telefónica do presidente Itamar Franco a perguntar-lhe se aceitaria trocar o Ministério das Relações Exteriores, cuja função então exercia, pelo espinhoso Ministério da Fazenda. Era maio de 1993 e a instabilidade determinava que, se aceitasse, seria o quarto ministro da pasta em apenas sete meses de governo. Perante o convite, respondeu que à partida não concordava com o afastamento do então Ministro da Fazenda, Eliseu Rezende, mas que não poderia responder, uma vez que não tinha condições para avaliar a situação. O Presidente Itamar foi lacónico e apenas disse que conversaria com o ministro e que voltariam a falar. Mais tarde, enviou um recado segundo o qual já não precisaria de falar. Fernando Henrique foi para o hotel convencido de que o assunto ficara resolvido. Contudo, na manhã seguinte, foi despertado por uma chamada de sua mulher, Ruth, muito preocupada e surpreendida, por ter ouvido no noticiário que ele tinha sido já designado para sobraçar a tão espinhosa pasta da Fazenda. Regressou ao Brasil com o chefe de gabinete, embaixador Sinésio Sampaio Góes, a quem disse que precisaria dele no novo ministério. E começou logo a pensar no discurso de posse do dia seguinte, lembrando o mantra repetido pelo seu amigo José Serra de que o Brasil tinha três problemas persistente: inflação, inflação e inflação. Mas como poderia um sociólogo como ele solucionar algo que ninguém tinha conseguido resolver?


UMA REFORMA EXEMPLAR
Uma coisa era certa, haveria que convocar uma boa equipa de economistas e cuidar da conceção de um plano audacioso, mas determinado. Para tanto, tinha carta branca do Presidente. Nomeou Clovis Carvalho como Secretário-Geral do Ministério e o jovem Gustavo Franco para a secretaria de Política Económica, que seria chefiada por Winston Fritsch, contando ainda como a assessoria de Edgar Bacha. A primeira ideia foi a de lançar um programa tradicional de redução de despesas. Depressa concluiu, porém, que tal seria insuficiente, havia que ser mais ambicioso. E nasceu a ideia, sugerida por Edgar Bacha, de tomar como índice de correção monetária as Obrigações do Tesouro Nacional. Partiu-se, assim, da conceção inovadora de unidade de uma conta de natureza escritural, a URV (Unidade Real de Valor), inspirada no importante estudo teórico de André Lara Resende e Pérsio Arida, escrito dez anos antes. E, em boa hora, com concordância do Presidente, incluiu ambos na equipa de coordenação. André Lara Resende substituiria Pedro Malan na chefia da negociação da dívida externa, que por sua vez seria Governador do Banco Central numa remodelação que o Presidente entendeu dever fazer. Constituiu-se, assim, a equipa do novo Plano Real, sob a coordenação de Clovis Carvalho. E Fernando Henrique fez questão de ir acompanhando, com todo o cuidado, os complexos trabalhos desenvolvidos. Quando a proposta era mais complexa dizia aos seus colaboradores: “esclareçam melhor, porque eu terei de explicar tudo ao país”. E foi o que aconteceu. Das decisões tomadas, duas deveriam ser destacadas. Antes do mais, haveria que preparar a opinião pública sobre tudo o que iria ser feito, para não haver surpresas. Por outro lado, o plano deveria ser solidamente estruturado nos planos constitucional e jurídico. Eduardo Jorge e Gustavo Franco dedicaram-se com o apoio dos melhores juristas ao desenvolvimento à concretização do Plano. Sabia-se bem das dificuldades sentidas em experiências anteriores e em tentativas noutros países, pelo que haveria que salvaguardar o melhor possível a proteção prática do programa de ação, que teria de ser acompanhado por mecanismos de segurança capazes de impedir a especulação e as hipóteses de fraude, lembrando o velho “plano de metas” de Juscelino Kubitschek.


UMA REALIZAÇÃO DE PRAZO LARGO
O Plano teria três fases:  Período de equilíbrio das contas públicas, com redução de despesas e aumento de receitas, para os anos de 1993 e 1994; a criação da URV para preservar o poder de compra da massa salarial, evitando medidas de choque como confisco de poupança e quebra de contratos; e lançamento do padrão monetário denominado Real, que chega aos dias atuais. Fernando Henrique confessaria: “Dediquei-me a explicar o Plano (tarefa que foi continuada com sucesso por Rubens Ricupero). Falei com cada bancada partidária no Congresso, com os principais líderes sindicais, inclusive os da CUT, com os ministros e, especialmente, com a Nação”. Com efeito, mudar o rumo de uma economia não era apenas uma tarefa técnica. Só a inteligência política do futuro Presidente do Brasil permitiu que houvesse resultados positivos. Houve que convencer os mercados, os agentes sociais e sobretudo o cidadão comum. E a comunicação social constituiu-se num fator decisivo de mobilização.


Só poderia haver estabilização monetária se todos entendessem que era uma questão de sobrevivência. Estava-se no domínio decisivo do moderno reformismo social. Mais ainda, havia que fazer compreender que a Unidade Real de Valor (URV) não era “um truque”, mas uma ponte sólida para uma nova moeda estável. E voltamos a ouvir o principal artífice do Plano: “Um programa econômico da magnitude do Real é um processo, leva tempo. Requeria a renegociação da dívida externa, como fizemos antes de lançar a nova moeda, bem como a privatização de muitos bancos públicos, especialmente os estaduais, a negociação da dívida pública de estados e municípios e muitas outras medidas que viriam a ser tomadas ao longo dos dois mandatos que se sucederiam na Presidência do Brasil, culminando com a Lei de Responsabilidade Fiscal. Foram necessários tempo, persistência e coragem. Só assim se ganha o que é fundamental: a credibilidade”. Desde 1994, fez-se um longo caminho. Houve, naturalmente nuvens e incertezas no horizonte, mas ficou uma lição fundamental – um homem de cidadania e de cultura como Fernando Henrique Cardoso foi um exemplo forte sobre a ligação necessária entre reformismo e democracia. O Plano Real realizou-se a pensar na cidadania e na justiça, ficará na História política como a demonstração de que o tempo e a reflexão, o conhecimento e a sabedoria têm de caminhar juntos com método, antevisão, respeito mútuo, transparência, pluralismo e rigorosa avaliação dos resultados obtidos. Eis a arte de tornar possível o necessário.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

LIÇÕES DA HISTÓRIA

  


“Foram os economistas que ensinaram os historiadores a observarem as conjunturas longas e curtas, a analisar os mecanismos económicos e a valorizar os estudos estatísticos”. Quem o lembra é a historiadora Miriam Halpern Pereira, na antologia agora publicada pela Fundação Gulbenkian com o título O Século do Liberalismo, lembrando Pierre Vilar, para referir a importância que no seu percurso pessoal teve a relação entre a História e a Economia. Contudo, acrescenta que: “cabe aos economistas compreenderem que os movimentos observados não têm apenas causas ou consequências económicas”. Estamos perante a necessidade de um verdadeiro diálogo, capaz de permitir um melhor conhecimento da realidade humana, bastante complexa, exigindo sempre a consideração de múltiplos fatores. E a História ensina-nos a encarar a realidade como algo que apenas pode ser compreendido se soubermos ligar os interesses materiais e os valores éticos sem a tentação de procurar soluções providenciais que não dependam da vontade dos cidadãos, da limitação do poder e da legitimidade democrática.


Para a historiadora, os séculos XIX e XX apenas podem ser compreendidos através de uma evolução dinâmica, em que a política, a economia, a sociedade, as finanças e a inserção europeia e internacional se articulam intimamente. Daí a necessidade de uma análise circunstanciada e rigorosa das grandes mudanças políticas e sociais desde 1820 até ao Ato Adicional à Carta Constitucional de 1852. Se é verdade que as mudanças do Marquês de Pombal prenunciaram a metamorfose política que ocorreu no século XIX sob a invocação da liberdade política e económica, o certo é que as razões de ordem interna e externa, entre a resistência da sociedade tradicional e o desenvolvimento urbano, condicionaram a evolução do Portugal oitocentista. Liberais influentes como Almeida Garrett e Alexandre Herculano viram-no com a preocupação comum de modernizar o país, pondo-o ao ritmo da Europa. Era uma sociedade nova que nascia depois da Revolução de 1820 e as guerras civis do cabralismo. Não por acaso, a autora coloca as suas reflexões sob a invocação do espírito constitucional, que consagra o primado da lei, a cidadania livre, plural e responsável, a limitação do poder em lugar da condição subordinada dos súbditos. Se dúvidas houvesse, bastaria lermos a evolução do pensamento político de Alexandre Herculano para compreendermos como se chegou ao compromisso, que reforçou a legitimidade original da Carta Constitucional de 1826, tornando-a em 1852 uma Constituição legitimada por um verdadeiro processo constituinte.


“Sem a economia, a história torna-se historizante, e sem a história a economia fica mais pobre nas suas explicações”. A afirmação da autora perpassa em toda esta obra fundamental. Estamos perante uma investigadora de excecional qualidade, que soube aliar a análise rigorosa dos acontecimentos complexos com uma perspetiva crítica, centrada no diálogo e na reflexão. A perspetiva económica completa-se com a compreensão psicológica e sociológica – com um particular cuidado na dimensão pedagógica, para que o método histórico possa abrir horizontes no entendimento do desenvolvimento humano. No nosso caso, a evolução tem de ser analisada nos seus progressos e inércias. A lentidão das reformas liberais que se arrastaram depois do reformismo audacioso de Mouzinho da Silveira, teve efeitos negativos. Os impasses do final do século XIX nas finanças públicas tiveram incidência na situação económica, aumentando a necessidade de empréstimos para os melhoramentos materiais, que elevaram o custo do crédito, cerceando o impacto da modernização dos instrumentos de crédito e da eficácia dos investimentos, que a Geração de 70 criticou – e por isso Portugal tornou-se um dos países menos desenvolvidos da Europa no dealbar do século XX. Eis por que, contra o atraso e o fatalismo, precisamos da vontade e dos compromissos sociais para uma cidadania inclusiva e justa.


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  
De 24 a 30 de junho de 2024


Publicamos hoje, quando iniciamos o “Disquiet”, uma carta imaginária a Eugénio de Andrade, invocando a sua obra. 


Meu Caro Eugénio de Andrade


Começo por lembrar o que um dia o meu amigo (permita-me que o trate deste modo) disse sobre Camões, e que constitui referência fundamental para compreendermos como a língua se faz através da vida dos seus melhores cultores. E se falo de vida, refiro-me ao testemunho de quem faz da literatura a essência da comunicação e do ofício.


«Foi Camões que deu à nossa língua este aprumo de vime branco, este juvenil ressoar de abelhas, esta graça súbita e felina, esta modulação de vagas sucessivas e altas, este mal corrosivo da melancolia”. Não poderia haver melhor apreciação, ligando o maior poeta da nossa língua à própria existência da língua como a mais intensa e pura expressão da nossa cultura.


O aprumo do vime branco representa o equilíbrio no uso das palavras, no que podemos considerar como a maturidade da língua na poesia, desde as origens dos trovadores, da decisão do rei poeta de tornar a língua vulgar em idioma oficial para legistas e tabeliães, até à lírica e à épica em “Os Lusíadas”. O juvenil ressoar das abelhas significa ouvir os passos de Leonor pela verdura, formosa e não segura. A graça súbita e felina vem do picaresco. A modulação de vagas sucessivas e altas põe-nos diante do Adamastor, mas também do juízo critico do saber de quem estava na praia, todo de experiências feito e do alerta contra a glória de mandar e a vã cobiça. Enquanto o mal corrosivo da saudade e da melancolia, do desejo e da lembrança desenvolve a tensão entre o drama e o sentimento, o passado e o futuro…


Por isso mesmo, estimado Eugénio de Andrade, pela sua sensibilidade e pela sua escrita, pôde tornar, por exemplo, a cidade do Porto, onde viveu, vindo da Beira Serra, ainda mais heroica, dramática e sentimental. Bem haja. Por um momento, percebemos, como a transparência se liga ao granito, à saudade e ao humor melancólico. «A transparência é aqui nostalgia: até a luz terá a cor do granito. Mas o granito é às vezes de oiro velho, e outras azulado, como o luar escasso que nesta noite de outono escorre dos telhados. Quando o sol, mesmo arrefecido, incide nos vidros, as mil e uma claraboias e trapeiras e mirantes da cidade enchem o crepúsculo de brilhos – o Porto parece então pintado por Vieira da Silva: é mais imaginário que real».


E, mesmo sem querer, ouvimo-lo como poeta na mais pura expressão da sua palavra: «É urgente o amor. / É urgente um barco no mar. / É urgente destruir certas palavras, / ódio, solidão e crueldade, / alguns lamentos, / muitas espadas. /É urgente inventar alegria, / multiplicar os beijos, as searas, / é urgente descobrir rosas e rios / e manhãs claras. / Cai o silêncio nos ombros e a luz / impura, até doer. /É urgente o amor, é urgente permanecer».


As palavras marcam, deste modo, a ligação íntima entre pessoas e pessoas, entre pessoas e lugares, e na sua obra, Eugénio, isso se sente com especial intensidade.


E não nos cansamos de o ouvir, dirigindo-se à palavra poética: «1. Sê tu a palavra, / branca rosa brava. / 2. Só o desejo é matinal. / 3. Poupar o coração / é permitir à morte / coroar-se de alegria. /4. Morre de ter ousado / na água amar o fogo. /5. Beber-te a sede e partir / - eu sou de tão longe. / 6. Da chama à espada / o caminho é solitário. / 7. Que me quereis, / se me não dais / o que é tão meu?». E como não recordar o modo como tem procurado o essencial: «Colhe / todo o oiro do dia / na haste mais alta / da melancolia»?


E tenho bem presente o que sempre nos disse: «É contra a ausência do homem no homem que a palavra do poeta se insurge, é contra esta amputação no corpo vivo da vida que o poeta se rebela». E o nosso Eduardo Lourenço com a lucidez poética que bem conhecemos disse, melhor que todos: “Talvez a essência e o milagre dessa singular transparência, que tornaram a poesia de Eugénio de Andrade ao mesmo tempo a mais refinada e a mais popular do nosso tempo português, se cifre toda no facto de ser, na medida em que isso é possível, uma poesia sem sujeito. Poesia sem sujeito como o pode ser a do nosso contacto, impossivelmente inocente, com as realidades primordiais que nos inventam no ato em que as olhamos e nos devolvem sem mediação à nossa esquecida mas sempre presente condição celeste, a luz do sol, o fluir dos rios, o passar do vento, o ritmo das estações, a visão das árvores, o apelo dos frutos. Como se um Alberto Caeiro, realmente novo Adão antes da culpa (da consciência) se tratasse, foi quase irresistível inscrever o poeta de As Mãos e os Frutos na arcádia do paganismo poético moderno”. E o ensaísta reforça esta intuição. “Toda a poesia é ‘palavra no tempo’ sem dúvida, mas a do autor de Ostinato Rigore, de tão colada ao tempo, de tão íntima do instante e sua fulguração, mais parece, sem ser intemporal, uma como que sensível suspensão do tempo”.


Lembramo-nos da sua estreia de 1939 com “Narciso”, ainda como José Fontinhas, e de “Adolescente”, ou do encontro com António Botto, e sobretudo da publicação de As Mãos e os Frutos, com o auspicioso reconhecimento de Jorge de Sena e de Vitorino Nemésio. José Saramago resumiu com felicidade o lirismo dessa poesia, que se singulariza por uma permanente referência ao corpo, a que chega através de um depurado caminho de aperfeiçoamento da palavra. Ficam na memória As Palavras interditas (1951); Ostinato rigore (1964); Escrita da terra e outros epitáfios (1974); Limiar dos pássaros (1976); Memória doutro rio (1978); Matéria Solar (1980); Ofício de Paciência (1994); O Sal da Língua (1995); ou Os Sulcos da Sede. Cada uma destas palavras constitui exemplo de uma maturidade poética conquistada num permanente exercício digno de uma oficina de artesão… O mesmo se diga na prosa: em Rosto precário (1979) ou À sombra da memória (1993). E em 2001, veio, com inteira justiça, o Prémio Camões, graças a uma obra segura e consistente, como de primeira grandeza na poesia portuguesa do século XX.


Em carta de junho de 1949 (leio a “Correspondência - 1949-1978 entre Jorge de Sena e Eugénio de Andrade”), Jorge de Sena foi muito claro a propósito de As Mãos e os Frutos: “Não sei se alguma vez lhe disse da estima que a sua poesia me merece, pela categoria autêntica, tão diferente do que a nossa desvairada geração tem produzido (…). Lembro-me que, em tempos, o acusaram de desumanidade. Não encontro, todavia, senão uma pagã humanidade; e mais vale uma humanidade assim, que só se importa com o que liricamente toca, do que fingir sentimentalidades oportunas”. Estou de acordo e julgo que ao longo do tempo tem-no demonstrado. O curso do tempo confirmou e afinou essas qualidades e a coerência.


E devemos recordar Montaigne: “l’essentiel est dit: deux êtres singuliers se rencontrent et comprennent en un éclair, que leur vie ne sera plus jamais comme avant». E o Eugénio fala dos Amigos com especial cuidado: «Os amigos amei /despido de ternura/ fatigada;/uns iam, outros vinham, /a nenhum perguntava /porque partia, /porque ficava; /era pouco o que tinha, / pouco o que dava, / mas também só queria / partilhar / a sede de Alegria / - por mais amarga». É La Boétie que vem à lembrança, já que não existiria na nossa memória sem o testemunho admirável do amigo Montaigne: “parce que c’était lui, parce que c´était moi!”.


E devo dizer, caro Eugénio, que a sua humanidade se exprime bem no diálogo com Dario Gonçalves, ao mesmo tempo, causa e consequência de muitos de seus versos. Passou a ser, de facto, uma espécie de afinador de palavras e fonte de inspiração. O piano poético em que o intérprete toca torna-se naturalmente mais legível.


Leia-se o postal de outubro de 1987 sobre uma viagem do Porto até Ribatua. Aí se nota a proximidade e a cumplicidade de uma partilha quase perfeita de sentimentos e de sensações. “Querido Amigo. Retomo a tradição dos postais em viagem. Saímos do Porto atrasados, comemos bogas fritas, já perto do Pinhão, e mal chegamos a casa, por volta das quatro, o Laureano acendeu o lume e aqui me tem à lareira a escrever-lhe. Só para lhe dizer que tem de ter cuidado consigo, que tem que alterar o seu ritmo de vida, essas correrias tiram-lhe anos de vida e eu quero que V. dure muitos anos, porque a sua amizade me é preciosa, além do livro sobre o Porto».


E voltamos ao mal corrosivo da saudade e da melancolia, ao desejo e da lembrança que desenvolve a tensão entre o drama e o sentimento, o passado e o futuro… E interrogo-me sobre as “Espadas da Melancolia”. Aqui está o corpo e pergunto-lhe se não é a essência da sua humanidade que aqui se encontra, como Jorge de Sena reconheceu.


“Um corpo / para estender a náufragos – o teu corpo. / Um rasto de cadelas aluadas, / um charco de maçãs apodrecidas / ou longas cabeleiras apagadas // Não dizias palavras, ou só dizias / aquelas onde o rosto se escondia. // Palavras onde o sangue não abria / a corola de fogo à madrugada. // O azul não canta, a água morre / na mais secreta boca do teu corpo. // Aqui não brilha a terra, a luz é fria, / aqui o horizonte não respira. // Não havia vento: só medo e cobardia”.


É esta a realidade humana, contraditória, duvidosa, mas próxima. Sem ilusão, importa entender que o lirismo nos obriga a ouvir a história trágico-marítima, e que esta também reclama o picaresco. Não acha, caro Eugénio de Andrade, que todos temos em nós um pouco do aventureiro Fernão Mendes Pinto? E a sua paixão pela língua que nos une e o seu amor camoniano obrigam-nos a ligar tudo isto, compreendendo que, como disse ainda o nosso querido Eduardo Lourenço – “Eugénio de Andrade, nascido já para cá de Pessoa, reinventou o canto dessa aparência (com que só em sonhos Pessoa comunicava) tornou-se puro olhar, escuta atenta do milagre do mundo, fez do universo seu espelho, aceitando-lhe o brilho da superfície e a sua sombra. É o poeta do mistério em pleno dia: ‘Claridade sem repouso, ó claridade, / aguda nos juncos, nas pedras rasa.”


Caro Eugénio, não é fácil descortinar a realidade humana na sua integralidade. Para os mais distraídos até parece que a humanidade está ausente quando deseja torná-la evidência. Mas basta ler atentamente e ouvir as palavras realmente ditas para não ter dúvidas. “Ama / como o rio sobe os últimos degraus / ao encontro do seu leito”.


Por isso, chamei para junto de nós Eduardo Lourenço, com a preocupação de ir além das aparências. Ele tinha toda a razão. Ao interrogar o mistério da realidade, o Eugénio tornou puro o olhar, como escuta atenta do milagre do mundo. “Estou de passagem: / amo o efémero”. E tenho de lhe agradecer, como leitor fiel, essa sua capacidade única. E por isso não esqueço: “Assim eu quero o poema: / fremente de luz, áspero de terra / rumoroso de águas e de vento”. Desse modo deve ser.


Eis por que lhe fico eternamente grato, evocando a busca do que está para além da superfície do tempo: “De palavra em palavra / a noite sobe / aos ramos mais altos // e canta o êxtase do dia”.


Aceite, assim, um abraço do admirador que o não esquece


Guilherme d'Oliveira Martins
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VIDA EM PEDAÇOS REPARTIDA

  


Compreender Camões é lê-lo no que tem a ver connosco. E Jorge de Sena disse no Dia de Portugal de 1977, que importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». O poeta de Perseguição deixava, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua, que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo». No fundo, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. E, como Sena disse ao seu amigo Ruy Cinatti, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte”. Ora, quanto a Camões, o essencial é isto: «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E não esqueçamos que Portugal é, como Camões, a vida pelo mundo em pedaços repartida».


E já Camilo Pessanha em 1924, há exatamente um século, neste mesmo mês de junho dissera: “Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pôde ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. A polémica há de decerto renascer mais animada algum dia; e provável é que o problema venha a decidir-se finalmente pela negativa. É a sorte de todas as tradições consagradas…”. Mas o genial poeta solucionava o mistério do modo mais poético: “Há, é certo, lendas e lendas, tradições e tradições: umas sublimes, outras grotescas. Estas são efémeras, aquelas eternas. Basta como exemplo da indestrutibilidade destas últimas o da lenda heroica da Grécia”. Também aqui, mais importante que tudo, nessa simbólica Gruta de Camões, importaria não ficar pelo pormenor biográfico, mas sim considerar o culto mesmo do Poeta, que simboliza a Pátria, como nenhum outro povo designou, num sentido aberto e universal, e as suas palavras são imortais. Mais do que discutir se esteve nesse local sagrado, o certo é que está!


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  
De 17 a 23 de junho de 2024


Ao ler a reedição de Sophia de Mello Breyner Andresen – Biografia de Isabel Nery (D. Quixote), quando celebramos os 500 anos do nascimento de Camões e os 50 anos da Revolução de Abril de 1974 devo salientar como na referência à autora de Mar Novo encontramos, em ligação estreita, a recordação do épico e a evocação perene da liberdade.



ESTA É A MADRUGADA QUE EU ESPERAVA
Se lembramos como Camões tem sido ao longo da nossa história símbolo da liberdade, desde antes de 1640 ou no período final do século XIX, no centenário de 1880, temos de ter presente como Sophia simbolizou a voz corajosa de “vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” e a proclamação inolvidável - “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial inteiro e limpo / Em que emergimos da noite e do silêncio / E vivos habitamos a substância do tempo”. Estão assim evidenciados os ecos da essência poética das nossas raízes, desde os trovadores até às mais recentes gerações, passando pela maturidade da língua na poesia de Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett ou Antero… “Sophia afirmou em várias entrevistas que foi feliz enquanto aluna do colégio, mas o que mais a marcou foram as aprendizagens recebidas dos avós – e das criadas.  Sólida terá sido a experiência que a levou a memorizar a Nau Catrineta”.  “Lá vem a Nau Catrineta / Que tem muito que contar / Ouvi agora, senhores, / Uma história de pasmar…”. “A transmissão oral dos versos, mesmo antes de saber ler, levaria Sophia a afirmar ter crescido a acreditar que a poesia tinha existência própria, depois de um primeiro contacto com as palavras de Antero de Quental e de Camões que o avô Tomás de Mello Breyner lhe ensinava. E que a pequena Sophia não compreendia ainda, mas reconhecia”. E o avô não lhe poupava elogios: “Admirável na maneira como recita”. “Um assombro”. E acrescentava: “Quando há dias estive no Porto via-a decorar um soneto de Antero de Quental depois de ouvir apenas três vezes. Que encanto de pequena!”. “Com apenas 10 anos, Sophia passeava-se com uma edição dos Lusíadas na algibeira e já fazia furor perante as visitas que ficavam de boca aberta quando a ouviam recitar”. Mais do que o natural orgulho do avô, que conhecera a geração excecional do próprio Antero e que se formara na valorização das raízes do Romanceiro de Garrett, a verdade é que sentimos desde cedo em Sophia a importância da vivência poética, cujo ritmo sentia intimamente, a ponto de afirmar que os três pontos cruciais numa escola deveriam ser: poesia, música e a consciência do corpo, pela ginástica e pela dansa, palavra que escrevia sempre com um s, para que não se perdesse o sentido do movimento. As artes constituíam, assim, o começo de qualquer aprendizagem. “todo o mundo é poético quando visto em verdade. Todas as coisas são maravilhosas quando as compreendemos. E a poesia limita-se afinal a iluminar a verdade, a beleza secreta que há em tudo aquilo que existe” – como afirmava Francisco Sousa Tavares, ao considerar Sophia como alguém “que se adivinha, adivinhando o mundo, para além das aparências e atinge o ritmo secreto, verdadeiro e universal da vida”…


DEPURADA PERSONALIDADE DE POETA
Convergindo com a sabedoria inconformista do Padre Manuel Antunes, mestre da cultura clássica, Sophia encontra nele o elogio da unidade, da concentração e da intensidade de uma “poesia intemporal que revela uma forte e depurada personalidade de poeta”. E a própria esclarece: “A poesia não me pede propriamente uma especialização pois a sua arte é a arte do ser. Também não é tempo ou trabalho o que a poesia me pede. Nem me pede uma ciência, nem uma estética, nem uma teoria. Pede-me apenas a inteireza do meu ser, uma consciência mais funda do que a minha inteligência, uma fidelidade mais pura do que aquela que eu posso controlar. Pede-me uma intransigência sem lacuna (…). Pede-me que viva atenta como uma antena, pede-me que viva sempre, que nunca durma, que nunca me esqueça. Pede-me uma obstinação sem tréguas, densa, compacta” (Arte Poética II). De facto, há um evidente contacto entre o crítico da Brotéria e a artista: “A palavra é dada ao homem para traduzir, interpretar, dizer a realidade que está aí, na sua imediatez, bruta e elementar, diversa e una”. É a busca da coerência da vida que está em causa, tal como encontramos nos Contos Exemplares, quer na figura de Mónica, que em nome do sucesso não renuncia à poesia, ao amor e à santidade; quer em “O Jantar do Bispo” onde o padre (Varzim) diz: “Da nossa própria fome podemos dizer que é um problema material e prático. A fome dos outros é um problema moral”. A atenção e o cuidado eram marcas da coerência de Sophia, bem sentida na casa da Travessa das Mónicas.


UMA BUSCA APAIXONADA
“Nuno Júdice recorda a busca por livros que não faziam parte do programa. Nos intervalos, no Liceu Camões, em Lisboa cambiavam-se conquistas literárias. Ora Guterres chegava dizendo, orgulhoso, que tinha acabado de comprar um exemplar de Sophia, Geografia, ora Cintra trazia o Livro Sexto de presente a Nuno Júdice, aniversariante no mesmo dia do amigo encenador. Procurávamos tudo o que fosse contra a ditadura. Livro Sexto que é importantíssimo, tem muitos textos com forte componente política. Sophia marcou toda aquela geração”. O Centro Nacional de Cultura, depois do encerramento da Sociedade Portuguesa de Escritores, aquando da atribuição do prémio a Luandino Vieira, tornou-se um lugar de desassossego e de jovens poetas que seguiam o exemplo de Sophia e Francisco de Sousa Tavares. E ele mesmo tem a ideia de pedir a sua mulher que assuma a presidência do Centro, uma vez que havia que mobilizar uma nova geração de poetas e escritores, perante a afronta do regime contra a liberdade de criação e a cultura. E havia ainda que cuidar clandestinamente do apoio aos presos políticos, e Sophia era a melhor pessoa para poder assumir-se como necessário polo agregador. É um tempo decisivo que vai preparar a democracia que se anunciava. Numa dedicatória dirá exemplarmente: “Para o Francisco, que me ensinou a coragem, e a alegria do combate desigual”. E como ensinaram os teólogos do Concílio Vaticano II: “Gostar da Terra é gostar da obra de Deus”. E Eduardo Lourenço verifica que a mitologia grega lhe serviu de inscrição para os seus próprios santos, ao culto da beleza e do natural. “Porque é a ética que concilia a imanência e o presente (o instante e a eternidade), as nossas ações compõem o futuro depois da morte. Se não formos capazes de criar o paraíso no dia a dia ele nunca será encontrado”. A cada passo “a paixão helénica” enche o pensamento poético centrado no ser. Já falámos da centralidade da arte na educação, da ética no bem comum, da atenção e do cuidado, do exemplo e da experiência, e sentimo-lo intensamente quando fomos à Escola que tem o seu nome em Carnaxide, tendo Sophia pedido a professores e alunos que representassem de cor A Menina do Mar. E, ao ouvi-los, emocionada, compreendeu quanta esperança há na arte de educar, como modo de fazer da palavra a expressão do ser.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A EMERGÊNCIA CONSTITUCIONAL

  


A derrota de Napoleão na batalha de Trafalgar levou o Imperador francês a abandonar o plano de invasão da Grã-Bretanha e a conceber como alternativa o Bloqueio Continental, visando asfixiar economicamente o inimigo, tão dependente do comércio marítimo. Em novembro de 1806, chegado a Berlim, Bonaparte proclamou o fecho de todos portos do velho continente aos navios britânicos. E em Tilsit, deu conta ao Imperador russo do seu objetivo de depor as casas reais da Península Ibérica, resistentes ao bloqueio. Conhecemos a História, as breves hesitações do governo de Lisboa, a sobrevivência do Reino, a posição britânica, o bombardeamento de Copenhaga, em setembro de 1807, para que a frota dinamarquesa não caísse em poder da aliança franco-russa e a decisão portuguesa de partir.


Estamos no coração da obra de António Alves-Caetano A Emergência do Liberalismo em Portugal no Ocaso do Antigo Regime (1796-1822), que merece uma leitura atenta, uma vez que aí se desenham o destino trágico de Napoleão, a reconfiguração da Europa oitocentista e futuro de Portugal com a independência do Brasil e o nascimento do constitucionalismo liberal. Há dúvidas e contradições, mas a convenção secreta anglo-portuguesa de 22 de outubro de 1807 operou um golpe de teatro, ou seja, a retirada da Corte portuguesa para o Brasil. É verdade que houve uma espera, mas tudo se passou de modo que a chegada de Junot tenha ocorrido felizmente a destempo, quando os navios importantes, militares e mercantes, já tinham partido rumo ao Atlântico Sul. É certo que as ordens deixadas pelo Príncipe D. João eram para que os invasores fossem acolhidos com benignidade, como Domingos António de Sequeira interpretou à letra, mas a verdade é que a águia imperial, que chegava muito fragilizada, sem o saber estava ferida de morte. Abria-se o caminho da independência do Brasil e terminava o pacto colonial, com todas as consequências económicas e políticas.


É assim importante o estudo sobre a forma como o bloqueio de Napoleão afetou o movimento de entradas e saídas dos navios mercantes no porto de Lisboa, demonstrando os efeitos negativos não só da abertura dos portos do Brasil à Inglaterra, mas também os condicionalismos impostos pela guerra europeia na quebra das produções agrícolas e industriais do Reino. Porém, as importações inglesas e americanas invadiam-nos, ainda que muitas fossem destinadas ao consumo das tropas britânicas. E deve recordar-se o outro importante estudo do autor sobre “Os Socorros Pecuniários britânicos destinados ao Exército Português”, muito esclarecedor sobre o tema. Contudo, mesmo depois da vitória definitiva sobre os franceses (1811), a Marinha portuguesa, outrora dominante, veio a perder influência, também por ausência das reformas necessárias. Já a foz do Douro continuou com um movimento significativo relacionado essencialmente com o trato do vinho do Porto.


O livro de António Alves-Caetano contém uma análise rigorosa dos momentos fundamentais da Guerra Peninsular, desde a chegada de Junot até à revolução de 1820, com o despontar do movimento liberal, apresentando a conjugação da resistência nacional contra o invasor com a formação de uma consciência de soberania constitucional. O livro apresenta ainda a análise das ingerências britânicas em Macau na era napoleónica, do papel desempenhado por Miguel de Arriaga como Ouvidor em Macau ou da vitória naval na batalha do Boca do Tigre (1809-10), esclarecendo o autor o papel do Conde de Farrobo no apoio decisivo à causa liberal de D. Pedro, contra injustas difamações. E assinale-se a justíssima referência a D. Rodrigo de Sousa Coutinho, figura central na organização das Finanças Públicas portuguesas, aquando da fundação do Ministério da Fazenda. No fundo, a emergência constitucional significava a busca da liberdade pátria e a resposta aos ingentes desafios perante as profundas mudanças europeias.


GOM