Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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"Convenção de Faro – Um Novo Conceito de Património Cultural" é o tema do curso que esta semana se iniciará no CNC. Publicamos hoje a nota introdutória para o mesmo.
A Convenção Quadro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea foi assinada pelos Ministros da Cultura dos Estados-membros a 27 de outubro de 2005 e entrou em vigor em 1 de junho de 2011. Definido ao longo do tempo pela ação humana, o património cultural, longe de se submeter a uma visão estática e imutável, tem de ser considerado como um “conjunto de recursos herdados do passado”, testemunha e expressão de valores, crenças, saberes e tradições em contínua evolução e mudança. O tempo, a história e a sociedade estão em contacto permanente. Nada pode ser compreendido e valorizado sem esse diálogo extremamente rico. Usando a expressão de Rabelais, estamos sempre perante “pedras vivas”, já que as “pedras mortas” dão testemunho das primeiras. O património surge, nesta lógica, como um primeiro recurso de compromisso democrático em prol da dignidade da pessoa humana, da diversidade cultural e do desenvolvimento durável. E constitui um capital cultural resultante do engenho e do trabalho de mulheres e homens, tornando-se fator de desenvolvimento e incentivo à criatividade. Quando falamos de respeito mútuo entre culturas e das diversas expressões da criatividade e da tradição estamos a considerar o valor que a sociedade atribui ao seu património cultural e histórico ou à sua memória como fator fundamental para evitar e prevenir o “choque de civilizações”, mas, mais do que isso, para criar bases sólidas de entreajuda e de entendimento. Impõe-se, deste modo, o reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem no continente e uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações. E não esqueçamos o contributo do património cultural para a sociedade e o desenvolvimento humano, no sentido de incentivar o diálogo intercultural, o respeito mútuo e a paz, a melhoria da qualidade de vida e a adoção de critérios de uso durável dos recursos culturais do território. Daí a importância da “cooperação responsável” na sociedade contemporânea, através da ação conjugada dos poderes públicos, do mundo da economia e da solidariedade voluntária. Perante a exigência do reconhecimento mútuo do património inerente às diversas tradições culturais que coexistem e de uma responsabilidade moral partilhada na transmissão do património às futuras gerações, realizamos um exercício prático, onde, a propósito da herança cultural e da salvaguarda de marcos de memória, descobrimos a importância do diálogo entre valores e factos, entre ideais e interesses, entre autonomia e heteronomia. O certo é que os valores quando reconhecidos socialmente adquirem um carácter de permanência, tornam-se expressão da memória e do movimento, da tradição e da criação e aliam-se às constantes e invariáveis axiológicas numa relação complexa em que o património e a herança culturais se tornam fatores de liberdade, de responsabilidade, de emancipação, de respeito mútuo e de afirmação da dignidade humana. Uma obra de arte, uma catedral ou uma choupana tradicional, um conto popular, as danças e os cantares, a língua e os dialetos, as obras dos artesãos, a culinária ancestral – eis-nos perante expressões de valores que põem em contacto a História e a existência individual, a razão e a emoção, que constituem a matéria-prima de uma cultura de paz.
Há exemplos que nos são dados pela natureza e que constituem motivo sério de reflexão sobre as noções de património e de memória. As borboletas-monarca são alvo de atenções especiais dos cientistas, em virtude das misteriosas migrações que protagonizam de muitos milhares de quilómetros e há milhões de anos, no Atlântico e no Pacífico, especialmente nas Américas. Tendo uma vida curta, de 2 a 7 meses, esse tempo não permite a estas borboletas realizarem mais do que uma viagem em vida e num só sentido – demonstrando que a memória genética pode ser mais importante do que a aprendizagem. Um segundo exemplo tem a ver com as nossas observações do firmamento. Verificamos que muitos dos corpos celestes que ainda vislumbramos, há muito que estão extintos e no entanto ainda parecem ser nossos contemporâneos, em virtude da «lentidão» da velocidade da luz. Vemo-los, mas já não existem… O terceiro caso relaciona-se com os belos jacarandás que temos em Portugal e que têm uma fugaz floração, quase impercetível no outono europeu, uma vez que prevalece a lembrança genética da primavera brasileira. Afinal, as árvores têm memória. As três referências levam-nos a dar uma especial atenção às nossas responsabilidades ligadas ao tempo e ao que dele recebemos. No fundo, temos o dever de estar atentos ao valor dinâmico do que recebemos e do que legamos – seja memória genética, seja perceção virtual do passado, seja reminiscência histórica… Quando falamos de património cultural é de atualização criadora que cuidamos – pelo que não é apenas o passado que importa, mas sim uma responsabilidade presente que renova e atualiza a fidelidade à herança recebida. Quantas épocas diferentes, quantos estilos, quantas intervenções compõem o mosteiro dos Jerónimos? O mesmo se diga das grandes catedrais europeias, que foram sendo construídas em diversos momentos e em camadas arqueológicas e arquitetónicas múltiplas. Na catedral de Salamanca, entre os elementos decorativos foi acrescentada no século XX a representação de um pequeno astronauta, que não choca quem o descobre e que apenas demonstra que a História não se detém. Também no património imaterial, assistimos a atualizações, desde a gastronomia aos hábitos e costumes, não esquecendo a língua…
(in Guilherme d’Oliveira Martins, Património Cultural – Realidade Viva, ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos)
No primeiro centenário da morte de Camilo Pessanha, recordamos a publicação de “O Amor de Camilo Pessanha” (Elo, 2017) da autoria de António Osório, onde se dá conta de uma história notável sobre a relação entre o poeta da “Clepsydra” e a escritora Ana de Castro Osório.
Desenho de Mário Botas
À memória do meu amigo o Poeta António Osório
No centenário da morte de Camilo Pessanha, devo recordar as longas conversas que tive com António Osório, sobre uma notável história de amor entre a sua tia avó Ana de Castro Osório e o autor de Clepsydra. O episódio é pouco conhecido e tocante, exigindo uma leitura atenta do livro O Amor de Camilo Pessanha (Elo, 2017) do meu saudoso amigo. Depois de ter havido um desencontro de amores entre ambos, uma vez que Ana de Castro Osório estava comprometida para casar, anos mais tarde, em fins de 1915, reatou-se o convívio entre ela e Camilo Pessanha – que “jantava e seroava em nossa casa invariavelmente duas vezes por semana”, segundo o testemunho de João de Castro Osório. E é este que vai encarregar-se da recolha da poesia: «Comoveu-o ver que um rapaz de dezassete anos lhe pedia para repetir os seus versos de modo a poder escrevê-los, e que, ao fim da noite, lhe mostrava dois ou três dos seus Poemas para ele emendar qualquer erro de interpretação. Prometeu então Camilo Pessanha escrever em cada noite dos nossos serões de família um ou dois dos seus Poemas, até juntar todas as suas obras poéticas». E assim Ana assumiu o encargo da publicação dos poemas que recolhera «e dos outros que deveria enviar e se esperaram durante quatro anos, sempre em vão». Ana de Castro Osório tomou a iniciativa de publicar, em 1920, nas Edições Lusitânia, a Clepsydra. E em entrevista a Fernanda de Castro no “Diário de Lisboa” dirá: «De há muito conheço Camilo Pessanha. É um verdadeiro poeta e um verdadeiro sonhador. Mas é também um tímido e um misantropo». Na última carta de Pessanha para Ana, a 3 de junho de 1921, o poeta agradece tudo o que foi feito pela sua obra: «Acredite que foi das mais doces comoções da minha vida e da minha surpresa, ao ver assim evocada e acarinhada diante dos meus olhos a minha pobre alma – há tantos anos morta». Através de seu sobrinho António é que Ana de Castro Osório reatou o contacto com Camilo Pessanha, numa ida deste ao Hotel Francfort no Rossio, em 1915. No testemunho de António, temos recordação dos grânulos de ópio, que tomava nas deambulações de Lisboa e de como o poeta recitava nas ruas da cidade… «Camilo Pessanha possuía a musicalidade dos seus versos, como em estado natural. Da sua poesia, era ela a música essencial e suplicada. Recitando, dir-se-ia que acordara de uma abstrata melancolia para ser ele o choro, a tristeza, a emotividade e a dor dos seus próprios versos». Mas foi o ópio a danação do poeta. Ele fala mesmo de “tormento dessa horrível angústia fisiológica”. «O demónio da deceção foi realmente o demónio da sua vida, e não apenas o dos seus sonhos em Macau, com Ana próximo de si, em vez da misteriosa Águia de Prata, que o enganava e do seu “desgraçado filho”». E António Osório afirmava-me ainda saudosamente que das histórias de amor contidas na Histórias Maravilhosas de Ana nenhuma é tão impressionante como esta.
Conhecemos a admiração de Fernando Pessoa pelo grande poeta e uma célebre carta para Camilo Pessanha: “Sou um dos diretores da revista trimestral de literatura ‘Orpheu’. Não sei se V. Exª conhece; é provável que a não conheça. Terá talvez lido casualmente alguma das referencias desagradáveis que a imprensa portuguesa nos tem feito. Se assim é, é possível que essa notícia o tenha impressionado mal a nosso respeito, se bem que eu faça a V. Exª a justiça de acreditar que pouco deve orientar-se, salvo em sentido contrário, pela opinião de meros jornalistas. Resta explicar o que é ‘Orpheu’. É uma revista, da qual saírem dois números; é a única revista literária a valer que tem aparecido em Portugal, desde a ‘Revista de Portugal’, que foi dirigida por Eça de Queirós. A nossa revista acolhe tudo quanto representa arte avançada; assim é que temos publicado poemas e prosas que vão do ultra-simbolismo até ao futurismo. (…) Os dois números não só se têm vendido, como se esgotaram, o primeiro deles no espaço inacreditável de três semanas.”
Para a compreensão exata da estatura cultural de Pessanha, recordo o que afirmou em junho de 1924 na Gruta de Camões, em Macau, numa oração inesquecível, que recordei no local há anos com Fernando Pinto do Amaral: «Tem-se debatido desde há anos a questão de se Camões residiu ou não em Macau, se esteve ou não preso no tronco da cidade, se aqui desempenhou ou pode ter desempenhado as apagadas funções de provedor dos defuntos e ausentes. (…). “É a Gruta de Camões, (contudo) com o seu cenário irremediavelmente mesquinho – mas suscetível, apesar disso, de correção em muitos dos seus defeitos –, esse lugar sobre todos prestigioso, dedicado ao culto de Camões, que é também o culto da Pátria. Culto e prestígio que não podem extinguir-se enquanto houver portugueses; e enquanto não se extinguirem, há de ser verdade intuitiva, superior a todas as investigações históricas, que o maior génio da raça lusitana sofreu, amou, meditou, em Macau, aqui tendo composto, em grande parte, o seu poema imortal, e que o local predileto aos devaneios do seu espírito solitário era essa colina, então erma, sobre o porto interior”. Ou seja, por muito que se discuta, a verdade é que Luís de Camões aí está e estará por direito próprio como verdadeiro símbolo de uma sensibilidade comum e de uma cultura viva. E a afirmação de Camilo Pessanha fica indelével na nossa memória.
“Embaixada a Calígula” é considerado na obra de Agustina Bessa-Luís um livro de viagens (que será reeditado em breve pela Relógio d’Água). Aparentemente é-o, mas é muito mais. A escrita de Agustina é muito atraente e permite-nos seguir com entusiasmo o que nos relata e aquilo para que pretende atrair-nos.
MUITO MAIS QUE UMA VIAGEM Trata-se da participação da escritora numa reunião que pretendia ser mais importante do que foi. Agustina é sempre surpreendente. E assim construiu um livro que é a um tempo o relato de uma viagem e o acompanhamento, quase romanesco, de uma embaixada encarregada de tentar convencer um Imperador romano a fim de assegurar os direitos do povo judeu de Alexandria. Tudo vem a propósito de um convite no âmbito do Congresso para a Liberdade da Cultura, criado em 1950 em Berlim, tendo como presidentes de honra Benedetto Croce, John Dewey, Karl Jaspers, Jacques Maritain e Bertrand Russell. Estava em causa, no ano em que Agustina foi a primeira portuguesa a participar (1959), o empenhamento do poeta Pierre Emmanuel em criar em Espanha uma Comissão que, dentro do espírito do Congresso, contribuísse para a democratização, o que obrigaria à ligação com intelectuais portugueses, para que a ação tivesse relevância ibérica. Daí o encontro organizado no castelo (com fantasmas e maldições) de Lourmarin, em Bouches-du-Rhône, de 8 a 12 de julho. O nome de Agustina fora sugerido por François Bondy, diretor da revista «Preuves», que tivera boas indicações a partir do tradutor alemão de «Os Incuráveis». Só mais tarde, graças a António Alçada Baptista e a João Bénard da Costa, a comissão portuguesa constituir-se-ia. Entretanto, a comissão espanhola seria envolvida em diversas vicissitudes políticas bem típicas da guerra fria e da oposição ao franquismo… E Agustina percebeu que algo não funcionava. Uma certa distância de Camilo José Cela foi sintoma que levaria ao desinteresse deste. Pedro Laín Entralgo presidia à delegação espanhola, José Maria Castellet era secretário e Julián Marías, José Luís Aranguren e Luís Cano participavam. Dionísio Ridruejo, que não esteve em Lourmarin, estaria no epicentro da ação política, e mais tarde Tierno Galván e José Luís Sampedro incorporar-se-iam…
COMPANHEIROS DE EXCEÇÃO Entre 30 de junho e 29 de julho desse ano de 59, o casal seguiu um percurso que saiu do Porto, no célebre Volkswagen, conduzido por Alberto Luís, passando por Ávila, Madrid, Toledo, Aranjuez, Barcelona, Narbonne, Aix-en-Provence, Lourmarin, Les Baux, Antibes, Monte-Carlo, Milão, Pádua, Veneza, Arezzo, Roma, Florença, Nice, Carcassone, Vitória e regresso à invicta… Em cada um destes pontos encontramos belos motivos para uma leitura apaixonante. E Calígula, o estranho imperador, que «não era outra coisa senão um homem vulgar», desses «que matam com naturalidade, no palco onde vocifera uma vezes o bom senso, outras vezes o sentimentalismo da divinização», simboliza no livro o pano de fundo ou a figuração da Europa e do Ocidente como destino. E «não se pode sonhar mais tremendo adversário e motivo mais urgente para uma Embaixada». É Fílon de Alexandria que acompanha os passos de Agustina - «admirável Fílon, feito companheiro de viagem e que deu sentido a muita obscura tristeza minha, a muitas agonias encobertas durante o tempo da verificação e de encontro com o Ocidente». Mas numa tão difícil embaixada vai haver outros companheiros decisivos, que ajudam ao espírito crítico: Montaigne, Stendhal, Dante, Savonarola, S. Francisco de Assis, artistas, reis, guerreiros. As paisagens, os monumentos, as obras de arte, as pessoas, as cidades, os costumes, nada passa indiferente nesta reflexão crítica, de uma deambulação espantosa (como diria Alberto Vaz da Silva) onde o essencial se mistura com a vida.
QUE EUROPA PENSAR? A referência de Agustina a Fílon e a Calígula é intencional. Ao sair de uma das sessões de Lourmarin diz: «A Europa revelava-se-nos duma maneira que se nos afigurava irreal, impalpável, algo abjeta na sua melancolia e na sua obstinada confissão; no grande sol de julho crepitava a terra, e as cigarras continuavam com o seu canto estrídulo e infatigável». E aqui está a chave da escolha do tema da Embaixada a Calígula. Quando a audiência foi concedida, após longa espera, percebeu-se que o Imperador apenas desejava ser adorado como deus. Ridicularizado, Fílon tem de retirar-se sem ser ouvido. Também Agustina percebeu que havia pouco interesse em ouvir «o excessivo sentimento do quotidiano com que são vistos os problemas do espírito», confessando que «o sentido da mediocridade rege tudo isto». De algum modo, Lourmarin não atingiu os seus objetivos e o que se lhe seguiu confirmou plenamente a intuição de Agustina. «Termina o Encontro (…) numa atmosfera desenfreada de exaustão e de tédio». Ironicamente, relativamente à Embaixada a Calígula, tudo acabou do modo contrário ao esperável quanto ao resultado prático: «É então que Calígula é assassinado à saída de um teatro. O Senado pretende proclamar a República, mas Agripa, que descobre o corpo de Caio e espalha o boato de que ele ainda respira, consegue demorar os acontecimentos; não contraria abertamente os cônsules, mas influencia no sentido de ser pedida a adesão de Cláudio aos princípios republicanos, o que é, de certo modo, colocar o Senado numa situação difícil. Quando Cláudio se resolve a aceitar o título de imperador, está ganha a causa dos judeus». E eis como a vida política de Fílon tem um final épico, quando poderia ter sido um rotundo fracasso. Há algo de semelhante em Lourmarin, Pierre Emmanuel é o primeiro a reconhecê-lo a Agustina: «Eu tive a alegria de a saudar entre nós e lamento que a aridez de alguns assuntos não lhe tenha permitido abordá-los com a elevação que desejaria e da qual a sua intervenção nos deu ideia. Compreendi desde as primeiras palavras que pronunciou no decurso do primeiro dia, quais as perspetivas que desejaria abrir, e que eram as boas». E pode dizer-se que «Embaixada a Calígula» é hoje um apelo para a compreensão das fragilidades europeias, não resolúveis com jogos formais. «Não temos de facto liberdade, a liberdade criamo-la» diz Julian Marias.
VIVER NUM TEMPO LIMPO… «Não me agrada regressar nem me agradou partir». Agustina surpreende-nos da primeira à última linha. Sentimos, com ela, a força das paisagens ou dos pormenores dos hábitos gastronómicos, mas sobretudo a compreensão das considerações de Dante ou de Stendhal, ou a pintura de Leonardo da Vinci e a galeria dos Ofícios em Florença. E quando passa a fronteira no regresso: «É de noite quando Portugal, com o vento dos seus planaltos e maninhos, nos oferece a visão duma pátria onde não circula vivalma sob o céu crivado de estrelas». E fica a pergunta fundamental sobre o balanço desta longa peregrinação: «Era ver os tesouros, admirar as cidades, conhecer as civilizações, o que nós desejávamos? Não, não era. Eu penso que não. Queria, em vez de vaguear pelas capitais embandeiradas, viver num tempo limpo e sem exasperação, em que eu pudesse ler os versos de Neruda sem me ocultar dos que têm o coração alvo demais: ou que eu pudesse entrar numa igreja sem que me chamem reacionária»…
Marguerite Duras morreu há trinta anos e deixou-nos uma obra multifacetada nos campos da literatura, do cinema e do teatro. Quando lembramos “L’Amant” ou “Hiroshima, Meu Amor”, apesar das diferenças no meio utilizado, temos de afirmar que há um fundo comum de humanidade e de sentido que são marcantes para hoje.
Marguerite Duras (1914-1996) morreu há trinta anos, mas a sua presença ainda se faz sentir hoje, não só pela participação que teve no “nouveau roman”, no cinema e no teatro, mas também pela sua vida atribulada e pela atitude corajosa com que pôde ser pioneira em muitos domínios. Nascida na Indochina francesa no início da primeira grande guerra não pôde deixar de ser influenciada pela experiência colonial. A infância e juventude são marcadas por essa presença. Há um percurso muito rico, marcado pela experiência familiar de um pai alto funcionário e de uma mãe professora. Esse período permitiu evoluir no seu pensamento desde uma mentalidade francesa até a um inconformismo crescente, ditado por um sentimento de defesa da justiça, da liberdade e da igualdade. “Hiroshima, Meu Amor”, de Alain Resnais continua a ser uma grande referência na obra de Duras. Também o filme “India Song” (1975) é uma marca da sensibilidade da autora. A sua escrita e reflexão, numa obra muito vasta e rica, traduzem-se num verdadeiro símbolo da evolução sentida desde a experiência asiática por alguém nascido na cidade de Saigão, que sentiu na pele o confronto com uma comunidade cultural antiga e distante.
Marguerite Donnadieu cedo se dedicou a uma atividade cultural intensa, antes do mais ligada a uma mentalidade francesa. Casada com o jovem jurista Robert Antelme em 1939, depara-se com a mobilização militar deste e pelo exercício de funções oficiais, durante a invasão alemã. Enquanto Marguerite desempenha funções ligadas ao controlo do papel para a edição, Robert tem funções ligadas à segurança. Dirá mais tarde, pela proximidade que tem com colaboracionistas: “Eram, de facto, colaboracionistas. Não teriam feito mal a uma mosca”… mas tratava-se de Brasillach e Drieu de la Rochelle… Em 1943, aventura-se na escrita de um romance com “Les Impudents” e adota pela primeira vez o nome Duras, localidade onde se encontra a morada familiar. É o tempo em que Robert Antelme se aproxima da resistência. “Não me empenhei. Levaram-me a isso. Não fomos heróis. A Resistência veio até mim”. Alista-se em 1944 no Rassemblement National des Prisioners de Guerre, onde está François Mitterand. Mas a Gestapo descobre o grupo e prende Robert Antelme em Fresnes, enviando-o para Buchenwald e depois Dachau. É um período muito difícil, cheio de ambiguidades. Duras procura junto da Gestapo a libertação de Robert, mas a diligência é mal compreendida. A irmã de Antelme, Maria Louise, morre na deportação. Então, Duras inscreve-se no Partido Comunista e publica um novo romance “La Vie Tranquille”. Robert Antelme é encontrado em estado muito grave em Dachau por Dyonis Mascolo e Georges Beauchamp, alertados por Mitterrand, mas consegue sobreviver. Em 1945 Marguerite e Robert criam as efémeras edições Cité Universelle, e publicam três obras “l’An Zero de l’Allemagne” de Edgar Morin, “Oeuvres” de Saint Just (por Mascolo) e “L’Espèce humaine” de Robert Antelme. A casa do casal torna-se centro de tertúlias intelectuais, onde estará Jorge Semprun. Contudo, divorciam-se em 1947 e Duras casa-se com Dionys Mascolo, de quem terá um filho, separando-se em 1956.
Críticas a Louis Aragon por parte de Marguerite levam ao levantamento de suspeitas sobre a fidelidade ao partido, o que a conduzirá à exclusão. A rutura formal com os comunistas, nos anos cinquenta, não impede que assuma causas comuns como o feminismo, a luta contra a guerra da Argélia e a despenalização do aborto. Então publica o romance de inspiração biográfica “Un Barrage contre le Pacifique”, que será adaptado ao cinema por René Clément. Em 1958, encena para o teatro “Des journés entières dans les arbres”, e em 1966 realiza com Paul Séban o seu primeiro filme “La Musica”. Em 1971 assina com Simone de Beauvoir, Delphine Seyrig e Jeanne Moreau o Manifesto das 343, reclamando a revogação da lei de 1920 interditando o aborto e a contraceção. Serge July, diretor do Libération, convida-a para colaborar no jornal em crónicas semanais durante um verão. A dependência do álcool leva-a a sucessivas curas de desintoxicação. Vive com o jovem Yann Andréa com quem assina “La Maladie de la Mort” e realiza em 1981 uma série de conferências sobre o filme “L’Homme Atantique” em Montreal (Canadá). Em 1983 dirige a encenação de “Savannah Bay” com Madeleine Renaud. Em 1984 escreve “L’Amant”, que obtém o Prémio Goncourt e um grande sucesso editorial. Em 1985 realiza uma série de entrevistas com François Mitterrand para o periódico “L’Autre Journal”, que começam na sua casa da rue de Saint Benoît, continuando no Eliseu. O projeto que visava publicar um livro não se concretiza, porém. Em 1995 publica “C’est tout”, uma espécie de testamento, um conjunto de textos recolhidos por Yann Andréa.
No dia 3 de março de 1996 às oito horas, na rue de S. Benoît, morre Marguerite Duras tendo os ofícios fúnebres tido lugar em Saint Germain des Prés e a sepultura no Cemitério de Montparnasse. É uma das escritoras de língua francesa de maior sucesso. “L’Amant” está traduzido em 35 países com mais de dois milhões de exemplares vendidos. Em 2002 “Savannah Bay” entrou no repertório da Commédie Française. O liceu francês internacional da cidade de Ho Chi Minh (antiga Saigão) tem o nome de Marguerite Duras e a Biblioteca de la Plêiade publicou quatro volumes da autora. Mulher apaixonada disse um dia: “No amor não há férias, nem nada que se pareça. O amor deve viver-se plenamente, com o seu aborrecimento e com tudo”. A sua vida foi a realização plena do amor como sentimento irrenunciável, num tempo de permanentes surpresas. Viveu o rápido século XX como um tempo vertiginoso.
«Camões Poeta, Herói n’Os Lusíadas» de Helena Carvalhão Buescu (Tinta da China, 2026) é uma obra estimulante que nos coloca perante a personagem multifacetada de Camões, encarada como interveniente da sua obra maior, símbolo da Cultura da língua portuguesa.
Como epígrafe, a autora cita Eduardo Lourenço, quando este afirma: “Camões conferiu-nos, coletivamente, uma existência epopeica e desta insolação sublime nunca mais nos curámos”. Não é por acaso que somos o único povo do mundo que escolheu como símbolo da sua identidade um poeta. Encontramos noutros casos heróis, guerreiros, símbolos míticos, mas não poetas, pessoas de carne e osso, com as suas angústias e dúvidas, com o seu talento, a sua sensibilidade e a sua vida. Helena Buescu parte de uma consideração de Keats, que nos fala, a propósito de grandes referências literárias, como Shakespeare, da noção de negative capability. Essa capacidade negativa corresponde à descrição de um mundo contraditório, capaz de referir a realidade nas suas várias dimensões, envolvendo a um tempo, a glorificação e o desconcerto do mundo. Para considerar a diversidade de sentimentos e atitudes, torna-se necessário assumir por parte de um poeta ou artista protagonismo no acontecimento que descreve ou que testemunha, de modo a que essa contradição seja plenamente sentida, a partir da perspetiva do próprio autor.
Como Virgílio fizera, Camões proclama no poema que subscreve a importância da própria fama, cabendo-lhe não só enaltecer o acontecimento que glorifica, mas também considerar-se a si próprio como participante desse momento único. O mesmo se passou com Ovídio nas Metamorfoses, onde o poeta foi o verdadeiro protagonista da obra, assumindo assim a imortalidade do feito e do artista. Camões coloca-se, por isso, ao lado do próprio Gama na chegada à Índia, participando num momento pioneiro da história da humanidade. O poeta toma-se assim a voz, enquanto poeta e não apenas como narrador de feitos, cabendo-lhe a tarefa de partilhar com o próprio herói, bem como com outras personagens marcantes, como o velho do Restelo e o Adamastor, a missão de assumir a voz criativa do poema.
Jorge de Sena afirma, por isso, que Faria e Sousa considera que o poeta se transforma nas personagens “que introduz, falando conforme a qualidade de cada um e das matérias”. E Helder Macedo confessa que Os Lusíadas é talvez “o poema épico onde o discurso personalizado do autor mais vivamente se faz sentir”. E as próprias personagens “são usadas como emissoras ou sujeitos dos discursos poéticos” de Camões. Deste modo se ilustra a capacidade negativa de Keats: “a poesia épica (mas também lírica), para se afirmar enquanto tal, precisa de manifestar a sua capacidade de celebrar o canto e de criticar o mal e o desconcerto, em simultâneo”. O caso do velho do Restelo tem uma importância especial. Ele surge como uma espécie de alter ego do poeta, ou também do bom Sá de Miranda, devendo associar-se ainda Diogo do Couto, amigo especial do poeta. Há a coerência de relato, que culmina na exortação a D. Sebastião, onde se apresenta o alerta relativamente ao risco dos fumos da Índia e à opção pela administração do império do Oriente, baseada em mercadores e missionários. Oh glória de mandar, oh vã cobiça… A espada e a pena associam-se. E, profundo conhecedor na técnica clássica das suas obras inspiradoras, Camões torna-se participante ativo.
“A complexidade invulgar que Camões incute, assim, à sua epopeia, combinando glorificação e crítica ou desconcerto, entre narração de feitos e representação do canto na própria matéria cantada, entre maravilhamento, observação e realidade, entre inspiração religiosa e inspiração mitológica, é reconhecível, sem grande dificuldade, em muitos passos do poema, e é apontada por vários críticos, quando se dedicam a Camões”. De facto, a glória não se afirma sem o desconcerto, porque o “saber de experiências feito” leva a considerar a vida como uma convergência de luzes e sombras. A perenidade de Os Lusíadas decorre, por isso, da capacidade do seu autor, pôr-nos perante a realidade existente. Glória e desconcerto não são realidades contrapostas. E temos alguns faróis éticos, como os Doze de Inglaterra, Nuno Álvares, ou a resistência de Inês de Castro. Do mesmo modo, ora encontramos uma “poesia de dissídio” (Rita Marnoto), ora descobrimos uma ordem da desordem”. Do que se trata em Os Lusíadas é de uma interrogação sobre a nossa própria existência, num momento crucial da nossa realidade histórica. Por isso, “concentram dentro de si o fulcro em que a história de Portugal é incorporada, interrogada, e profeticamente concebida. Na verdade, o texto camoniano é um dos momentos mais altos (se não o mais alto) da nossa memória histórica e simbólica, moldada em termos literários. Neste sentido, não pode deixar de ocupar um lugar especial na história e na literatura portuguesas”.
E Camões não é apenas uma voz passiva, é alguém que acrescenta o seu juízo aos acontecimentos, representando as vozes relevantes de uma autoanálise ou introspeção necessária. Eduardo Lourenço dirá: “Nenhuma barca europeia é mais carregada de passado do que a nossa. Talvez por ter sido a primeira a largar do cais europeu e a última a regressar. Há outras nações na Europa, pequenas ou grandes, com um passado tão longo e tão ou mais ‘glorioso’ que o nosso (…) Mas nenhuma dessas nações ou antes, culturas-nações, convive com o passado como a nossa. Simbolicamente, nenhum povo vive no passado, em particular naquele a que nós devemos o nosso perfil singular – como Portugal…”. Premonitoriamente, o poeta Camões intui esta mesma consciência, ao recusar ver apenas o lado glorioso sem assumir plenamente o desconcerto. A cada passo essa ambivalência aqui se encontra, e continuamos perante a memória da Nau da Índia, numa viagem que revivemos, de maneira diferente, do que acontece com Gonçalo M. Tavares, já não para uma Índia verdadeira, mas para um mítico lugar de venda de ilusões… Eis por que razão Camões nos acompanha como poeta e como testemunha dos acontecimentos heróicos.
José Régio (1901-1969) autor de “A Velha Casa” (5 volumes, INCM) e de vasta bibliografia poética, romanesca e ensaística merece hoje ser recordado quer como mentor do segundo modernismo português quer como pensador que o tempo tem revelado como atualíssimo.
Ao lermos o texto com que iniciou a publicação da revista presença (10 de março de 1927) podemos compreender que José Régio foi uma figura marcante no panorama cultural português: “é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não), certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente apresentados; como por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem originalidade própria”. Com o título significativo de “Literatura Viva”, o texto emblemático é esclarecedor, respondendo por antecipação a muitas das críticas e reparos que foram sendo feitos a Régio e ao papel que desempenhou. Passado tempo depois que nos deixou, ficou claro o que o próprio Fernando Pessoa reconheceria, em carta Alfredo Guisado, ao afirmar que a presença foi uma continuação de Orpheu e não uma reação a ele. Não se trata pois de uma demarcação, mas de uma reafirmação. O chamado segundo modernismo é assim um reconhecimento. Nemésio chamar-lhe-á “o lábaro de um novo rumo”. Não foi, pois, uma “travagem” ou uma tentativa de marcha-atrás, e é ilegítima a confusão que se estabeleceu a esse propósito. A presença pegou na bandeira e permitiu uma revisitação séria aos valores de 1915. Como afirmou David Mourão-Ferreira, uma releitura da revista torna “menos desculpáveis erros e preconceitos, equívocos e inexatidões que vêm sendo propalados…”. Longe de uma reação, temos o seu prolongamento e leitura esclarecida.
Ponhamos os pontos nos ii. José Régio e os outros fundadores da presença, Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca procuraram tornar clara a importância de Orpheu. Há mesmo, nesse domínio, um antes e um depois da criação em revista. Se hoje o Orpheu se tornou um acontecimento mundial, tal se deve ao alerta e ao valor acrescentado trazido pela geração da presença. Não se trata, porém, de uma mera divulgação, mas de um foco de luz, com a capacidade de refletir e de repensar o impulso de 1915. Não foi uma mera operação de divulgação que pôde ter dado origem a um verdadeiro movimento, constituído pelo melhor dos dois modernismos e não apenas de um só. E nesse ponto José Régio (e também seu irmão Júlio) e todos colaboradores da revista deram um contributo próprio que permitiu (com as suas idiossincrasias) tornar o modernismo português um movimento duradouro. A personalidade de Régio, no seu todo, merece uma referência especial. Na presença ele é, para além da sua criação multímoda, a alma. Por isso, citamos o texto “Literatura Viva”, como algo que não advoga uma admiração passiva, mas uma continuação ativa. A personalidade de Régio não se resume à sua dimensão pessoal, mas prolonga-se no seu pensamento e na sua atitude. Apesar de confessar não ter vocação política, não deixa, por exemplo, por mãos alheias um pensamento cívico, social e político, que não esconde uma orientação. No final dos anos 40, depois da Guerra, acredita, por isso, num sobressalto democrático e colabora na candidatura de Norton de Matos: “Sempre tenho procurado marcar a minha atitude, sim – mas sem excessos nem destrambelhos”. Mas a censura do regime não o poupa (“parece que a censura embirrou particularmente comigo”). Tem uma relação próxima com António Sérgio, cujos ideais democráticos partilha. Contudo, diz “devo ser corajoso e…prudente”, atento o ganha-pão de professor. Lendo-se A Velha Casa, percebemos como esta “meditação romanceada sobre a condição humana” coloca o autor entre os que defendiam a liberdade, a abertura de espírito e um são espírito republicano e democrático. António Sérgio dirá a Régio, e ambos concordam: “O fim da política, para mim, é criar uma sociedade mais bela, e onde seja possível a todos viver o máximo tempo em atitude estética, em atividade desinteressada. Em vez de proclamar que só é humano o artista que se interessa pela política, direi que só é humano o político que se interessa pela arte e que busca a realização de uma sociedade em que seja possível o máximo de arte”.
Desde as suas origens, Régio é uma referência de artista e criador, ciente de como a cultura liga a arte e a cidadania. Em carta a Carlos Queirós dirá: “Sim V. tem razão: eu, aqui, tenho o mar! Nas manhãs de sol procuro os sítios desertos da praia. E rolo-me, entre as ondas e a areia – como um objeto que o mar desse à costa… Volto ao mar à tarde, e leio até escurecer (…). O mar, os livros e eu – não tenho outra companhia”. Estava-se em 1928 e o escritor sonha em lançar-se numa iniciativa marcante, que será a presença. Mas há sempre a magia da Casa, referência fundamental ao longo da sua carreira literária. Sobre Lèlito, seu alter-ego, confessará: “O que lhe mostrava a experiência é que ninguém, senão ele, sabia na casa como ela tinha personalidade própria; como dessa personalidade compartilhavam todos os aposentos, tendo, embora, cada um o seu aspeto funcional; e como não só a personalidade da casa era insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam, mas antes acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos…” De facto, a alma de uma casa é uma essência que permite a compreensão da condição humana. Quando hoje recordamos José Régio, longe dos circunstancialismos em que viveu, fora das considerações sobre o sentido e o alcance dos seus atos, podemos avaliar em breves traços os elementos essenciais que definem o seu lugar na cultura portuguesa. Marcou de modo indiscutível o panorama da criação: afirmou-se como um escritor preocupado com a condição humana e com os caminhos para a interpretar e definir, a partir dos enigmas da existência, com as suas dúvidas e angústias e as das personagens que cria e encena; considerou a cultura como uma encruzilhada entre a herança e o património recebidos, sendo um colecionador e amante da arte criterioso e exigente; e ainda esteve no epicentro de uma revista e de um movimento cultural, o nosso segundo modernismo, em que a presença completou o Orpheu no sentido em que reconheceu a importância de Fernando Pessoa e dos seus, numa geração singularíssima, acrescentando um novo impulso que permitiu abrir caminho a novas tendências e gerações.
«O Fim dos Estados Unidos da América» de Gonçalo M. Tavares (Relógio d’Água) é uma epopeia satírica e distópica que evoca um tema estranhamente atual sobre uma desordem mundial ditada pela evolução dos acontecimentos, que nos lembra a queda de impérios.
Tudo começa com a enigmática entrada da peste nos Estados Unidos da América, e a verdade é que a feitura desta epopeia greco-americana coincidiu com a pandemia COVID-19. Os protagonistas correspondem a caracteres bem conhecidos do mundo contemporâneo. Ted Trash é um extremista de direita com traços semelhantes a Donald Trump, Left Wing é um extremista radical de esquerda, ambos são responsáveis pela génese de uma segunda guerra civil no País. O herói da epopeia é Bloom, que tem um fim tremendo, ditado pelo destino de Édipo, mas vai tentar até ao fim salvar a América, inspirado na imagem de uma bela mulher mexicana, La Rosa, que conheceu num estádio de futebol americano. “Bloom acorda de manhã exaltado, elétrico / com essa forma de fadiga estranha – a de não suportar mais o momento anterior.». Em crescendo, a peste aparece e propaga-se. Josh é o primeiro doente da terrível doença. A enfermidade difunde-se a um ritmo alucinante. Bloom e o seu amigo Creonte deparam-se com a catástrofe. «Burgueses, no fundo, classe média, de outro planeta (…) teriam sido espalhados pelos diversos estados deste país e, sem o saberem, teriam trazido vermes de outra estirpe capazes de atacar o corpo humano no momento em que este, absolutamente distraído, olha para o lado oposto». Esta é uma teorias difundidas, mas outras surgem e disseminam-se. A tese dos ratos e ratazanas também se torna verosímil.
Há muitas tentativas de explicação: Donde vem a peste? Como se transmite? Quem atinge? Como combatê-la? O certo é que a doença vai dissolvendo as bases do império. O petróleo, o ódio, o pânico e a luta de classes encarregam-se da destruição gradual e inexorável da sociedade. Entre Nova Iorque e a Califórnia, Bloom, com o seu amigo Creonte, procuram encontrar uma salvação para o país e a cura para a peste. Mas Ted Trash e Left Wing contribuem para agravar a situação. A galeria de personagens é muito extensa, e nela podemos perceber como se desenvolve o desastre. Empreendedores, gangsters, políticos oportunistas, padres, coveiros, membros de seitas e grupos religiosos, hippies, professores universitários, médicos, especialistas em alquimia e em algoritmos – todos se encontram e desencontram para combater o caos. Mas falham na tentativa de compreender e de resistir. Assistimos, assim, a uma progressão incontrolável não apenas da própria peste mas também das tentativas fracassadas para lhe fazer frente. O escritor, ao caracterizar esta situação, analisa a complexidade do género humano, sobretudo numa situação desesperada. «A importância do automóvel para a paisagem mental americana: a gasolina, o motor instalam o passageiro na maturidade. Assim, pois, um cidadão se torna adulto e autónomo, ao volante. A que velocidade, em quilómetros/hora, o cidadão se afasta dos pais? Eis uma pergunta existencial e contabilística». Porém, há ainda o avião.
Entre a mitologia grega, a banda desenhada, os super-heróis e o cinema, a sociedade norte-americana manifesta-se entre o drama, a tragédia e a comédia. Bloom e Creonte já não acreditam no ofício do cientista: “esta peste pode vir não do século XXI mas de tempos antigos; doença mitológica que estranhamente ganhou força no século da maquinaria infinita”. Subitamente na cidade e New Jersey os mortos falam sobre o clima em redor de uma mesa de pé-de-galo… O espírito de Edison, mistura-se com Al Capone II, com a Máfia de Nova Iorque e ainda com Andy Warhol ou com o KKK. Ninguém se entende. E o interesse desta epopeia está em que o absurdo vem sistematicamente à tona, percebendo-se que é o desconcerto do mundo que está presente como na vida e na história. Estamos perante a essência do diálogo entre a ciência e a arte, o pensamento e a falta de senso. Se numa página poderemos sorrir, noutra encontramos “corpos pendurados nos semáforos; uma seita radical que mata pobres e negros, com nós de marinheiro e guindastes, usados de noite e às escondidas das empresas…”. No ar político há um líbido de violência, a divisão entre ricos e pobres agrava-se. Os pobres são indicados como fonte da peste. Medicina e loucura associam-se. A peste diminui. O ritmo de destruição também. Mas agrava-se o risco da guerra civil. Lançam-se achas para a fogueira que se atiça. Todos os negros passam, a certa altura, a ser classificados, por mera precaução, como potenciais portadores de peste. Nenhum rico morre da enfermidade. Pobres e negros passam a ser perseguidos. O ódio é crescente. Até que a peste acaba, mas a genética separa em definitivo pobres e ricos, como duas espécies diferente, que não conseguem procriar entre si. É o apocalipse que se evidencia, genético e atómico. Bloom desiste de ser salvador. A guerra dividiu o país em dois. E a pior das metades não vence, não empata, não perde, ou mata ou é morta. A guerra genética é avassaladora. Bloom está cego. La Rosa está grávida. Uma cidade desapareceu em dois segundos. O presidente diz solene: Este país nunca mais terá um único presidente e uma única espécie humana… E a epopeia chega ao fim como negação plena…
«Liberdade Religiosa no Mundo – Relatório 2025» (Fundação AIS) constitui um documento de grande importância para o conhecimento da situação real da liberdade de consciência no mundo, num momento especialmente difícil nesse domínio.
Ao analisarmos o último relatório elaborado Fundação Ajuda à Igreja que Sofre (AIS), apresentado no Centro Nacional de Cultura, verificamos que no período analisado do início de 2023 até ao final de 2024 houve graves violações da liberdade religiosa em 62 dos 196 países analisados, sendo que em 24 deles as violações foram classificadas como “perseguição” e em 38 como “discriminação”, sendo que estes países correspondem a cerca de 64,7% da população global.
Além destes, há ainda 24 outros países classificados “sob observação”, devido a uma “onda de sinais de alerta que ameaçam a liberdade religiosa”. Entre elas conta-se o aumento da intolerância, bem como a erosão das proteções legais, o extremismo religioso e a crescente interferência estatal na vida religiosa. Isto significa que 750 milhões de pessoas correm neste momento o risco de discriminação religiosa. Durante o período abrangido, apenas duas nações, o Cazaquistão e o Sri Lanka, apresentaram melhorias em comparação com a edição anterior. Na origem da crescente repressão religiosa está o “autoritarismo” como o principal motor das violações. Em 19 dos 24 países na categoria de perseguição e em 33 dos 38 países com discriminação, os Governos aplicam “estratégias sistemáticas para controlar ou silenciar a vida religiosa”. Na China, Irão, Eritreia e Nicarágua as autoridades utilizam tecnologias de vigilância, censura digital, legislação restritiva e detenções arbitrárias, visando comunidades religiosas independentes. “O controlo da fé tornou-se uma ferramenta do poder político”, sendo a “burocratização da repressão religiosa” cada vez mais sofisticada. Há ainda a expansão do extremismo religioso, em particular em África e na Ásia, em 15 países destes continentes.
A violência jihadista aumenta, adapta-se e desestabiliza a uma escala sem precedentes. Na região do Sahel, em África, grupos como o autoproclamado Estado Islâmico da Província do Sahel têm provocado a morte de centenas de milhares de pessoas, a deslocação de milhões e a destruição de centenas de igrejas e de escolas cristãs. Situações semelhantes são encontradas na República Democrática do Congo e Moçambique, onde a procura de estabelecer um “califado” tem legitimado tais ações. No continente asiático é sobretudo o nacionalismo étnico-religioso que impulsiona a repressão das minorias. Na Índia e em Myanmar é evidente o clima de perseguição. A discriminação é denunciada na Palestina, em Israel, no Sri Lanka e no Nepal. Na Índia ocorre uma “perseguição híbrida”, legal e articulada com a violência das multidões. No caso da Nigéria, os ataques de militantes fulani radicalizados atingiram igrejas, aldeias e clérigos, desencadeando deslocações em massa. No Burquina Fasso, Níger, Mali e na guerra civil no Sudão, “comunidades religiosas inteiras foram desenraizadas, os seus locais de culto destruídos e o património religioso eliminado”. Dos conflitos armados na Ucrânia, Sudão, Myanmar, Gaza e Nagorno-Karabakh têm resultado em “deslocações em massa, encerramento de igrejas e ataques dirigidos a comunidades religiosas”. Do mesmo modo, o crime organizado tem tido “sistematicamente como alvo os líderes e as comunidades religiosas” em Estados enfraquecidos ou falhados e em zonas de conflito. É o que acontece na Nigéria, Haiti e México, onde o crime é um dos principais impulsionadores da perseguição ou discriminação. Verifica-se ainda o “aumento acentuado dos crimes de ódio antissemitas e antimuçulmanos”, sobretudo após o ataque do Hamas em Israel, a 7 de outubro de 2023, e a subsequente guerra em Gaza.
“Os incidentes antissemitas e antimuçulmanos aumentaram em toda a Europa, América do Norte e América Latina”. Em França, os atos antissemitas aumentaram 1.000%, enquanto os crimes de ódio contra muçulmanos aumentaram 29%; na Alemanha houve 4.369 crimes associados ao conflito religioso, face a apenas 61 registados em 2022. Foram atacadas sinagogas e mesquitas e o discurso de ódio proliferou online. Face a isto, “em muitos casos, as respostas governamentais revelaram-se inadequadas, alimentando o medo e a insegurança entre as comunidades religiosas”. Só em 2023, a França registou aproximadamente 1.000 incidentes anticristãos, enquanto a Grécia reportou mais de 600 casos de vandalismo em igrejas. No Canadá, 24 igrejas foram alvo de fogo posto entre 2021 e o início de 2024. Há ainda novas formas de “perseguição digital” na “era da inteligência artificial”. Os grupos extremistas exploram ferramentas digitais para incitar à violência e difundir propaganda negativa e exclusiva e as redes sociais são utilizadas como armas para silenciar as minorias, difundir o discurso de ódio e alimentar a polarização. Duplamente vulneráveis, mulheres e raparigas de minorias religiosas, algumas com apenas 10 anos de idade, sofrem abusos sistémicos. A IA e as ferramentas digitais estão a ser utilizadas para reprimir grupos religiosos. Na China e na Rússia, a “dissidência online” é controlada e punida, enquanto as plataformas religiosas são bloqueadas. Na Coreia do Norte, os relatos citados no documento indicam que as autoridades aplicam um sistema agressivo de vigilância.
Como fica claro neste Relatório “a liberdade religiosa não é um privilégio – é um direito humano fundamental”. “Da região de Cabo Delgado, em Moçambique, ao Burkina Fasso, as iniciativas inter-religiosas demonstraram que a liberdade religiosa pode servir de base para a unidade e salvaguardar a dignidade humana. A educação desempenha um papel fundamental neste processo, promovendo a coesão social, afirmando a igualdade de valor de todos os indivíduos e capacitando os grupos minoritários, tanto a nível cultural como económico”.
“Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar” (ed. António Ramos, 1980) é ainda hoje um dos testemunhos mais importantes sobre a vida do grande pintor, no momento em que assinalamos o centenário do seu nascimento.
O diálogo entre as duas personalidades demonstra bem a importância que o artista desempenha na cultura portuguesa contemporânea. Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, demonstrando desde muito cedo um excecional talento. A sua primeira exposição individual foi no Porto, em 1947, e nela apresentou apenas desenhos. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar resultou em quatro meses de prisão, bem como a apreensão de um dos seus quadros pela polícia e a ocultação dos frescos, que havia realizado no Cinema Batalha, no Porto. Em 1963 instalou-se em Paris, sendo bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966. Nunca abandonou, porém, definitivamente Paris, mantendo uma relação de vida e de trabalho entre a capital francesa e Lisboa até ao fim da vida, em maio de 2018, na cidade portuguesa.
Com uma obra notável que se prolongou por oito décadas, destaca-se a sua participação na II Bienal de São Paulo (1953), e salientansdo-se as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965), e a participação numa mostra dedicada à pintura de Ingres, Le Bain Turc, no Museu do Louvre (1971), assim como as mostras «L’Espace d’Eros» (Galerie de la 2, Bruxelas, 1978), «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1979), «Tigres» (Galerie de Bellechasse e Galeria 111, 1981 e 1982), «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» (Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1984, instituição que, em 1978, promovera a sua primeira exposição retrospetiva). Na Estação do Alto dos Moinhos, Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros correspondem a uma homenagem sentida do pintor aos quatro maiores poetas da língua portuguesa, pondo em paralelo a criatividade do pintor e a originalidade da palavra poética. Por outro lado, temos ainda outras importantes mostras, como: «Pomar – Autobiografia» (Sintra Museu de Arte Moderna, 2003), «Júlio Pomar: Cadeia da Relação» (Museu de Serralves, 2008) ou «Júlio Pomar. Atirar a Albarda ao Ar» (Galeria 111 e Árvore – Cooperativa de Atividades Artísticas, 2012).
Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar – desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas, assemblagens – inscrevendo na História da Arte obras tão importantes como O Almoço do Trolha (1946-50), Gadanheiro (1947), Varina Comendo Melancia (1949), Marcha (1946), Abriliberdade (1974), Navio Negreiro (2005-2012). A obra pública de Júlio Pomar inclui ainda os emblemáticos painéis cerâmicos da Avenida Infante Santo e do Campo Grande, a referida estação do metropolitano Alto dos Moinhos, em Lisboa, e outras intervenções artísticas realizadas em diversas cidades. Sente-se sempre, nos diferentes ciclos da sua obra, uma preocupação de se ligar à rua e aos cidadãos comuns, representando o pulsar concreto da vida humana.
Em 1990, o Ministério da Cultura francês convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que passou a constituir uma referência na representação daquela grande referência do pensamento europeu.
No ano seguinte, Pomar pintou o retrato oficial do Presidente Mário Soares, que hoje se encontra no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém: obra emblemática, irreverente e incontornável pela forma como desconstruiu o protocolo das representações oficiais, ligando-se à orientação moderna e iconoclasta que encontramos nas representações feitas por Columbano Bordalo Pinheiro de Teófilo Braga e Manuel Teixeira Gomes.
Com afirmou: “o esforço pode representar um prazer. A relação do dentro com o fora, o estar bem, o tirar prazer de, não é uma coisa que aconteça sozinha. É uma coisa que se procura e encontra, ou não. Esta é uma incomodidade de todos os dias, uma batalha”. Pode dizer-se que com esta afirmação, Pomar define-se. E nessa preocupação, o artista está de sobreaviso: “A realidade das pessoas é muitas vezes isso mesmo: determinarem-se a coisas para as quais não estão vocacionadas e que lhes liquida o gosto que podem ter em viver”. A atenção ao tempo e ao mundo exige, assim, a capacidade de resistência que permita entrar na batalha em plenitude. Por isso insistia ter feito durante a vida fundamentalmente o que lhe dava prazer.
Quando observamos o caminho seguido por Júlio Pomar ao longo da sua vida compreendemos, assim, uma recusa sistemática da facilidade. Desenhador exímio, talento de eleição, procurou sempre contrariar uma tendência natural, correndo o risco permanente de tentar a aventura das novas tendências, olhando com sentido crítico a realidade social e cultural que o cercava. Neste sentido, quando vemos “O Almoço do Trolha”, apercebemo-nos que há uma aguda compreensão das condições económicas e sociais e das injustiças. Tudo isso está implícito na obra e na sua mensagem. Há inconformismo, desassossego e consciência de que o artista não podia estar indiferente relativamente à ausência de liberdade. Nesse sentido, Pomar soube correr o risco de não se encerrar numa escola ou numa orientação. O neorrealismo e surrealismo encontravam-se, não como espaços dogmáticos, mas como apelos à inovação, às experiências libertadoras, ao poder ser iconoclasta. Nesse sentido, o pintor corre riscos, constrói e desconstrói, numa demanda persistente de uma linguagem própria e de um carácter marcante. “Varina Comendo Melancia” representa uma obra transição, com um misto de realidade e ironia, não menos crítico do que anteriormente, mas mais inesperado. Os autorretratos irónicos, o diálogo com a literatura, o retrato de Mário Soares – tudo isso representa a preocupação de recusa do esperável e a denúncia da acomodação ou da facilidade. Júlio Pomar pôde assim em toda a sua obra tornar-se ele-próprio, inserindo-se no seu tempo, com marca inconfundível.
Deve-se a Mia Couto a frase que encima esta crónica. Quando há a tentação de fazer das diferenças muros de separação, é tempo de ouvirmos a estória do “Embondeiro que sonhava pássaros”. Filipa Leal recordou-nos isto mesmo na sua maravilhosa “Pequena Biblioteca” na terça-feira da RTP-2. No limiar de um Novo Ano de 2026 é bom lembrarmos que “só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo”. Não que recusemos o mundo em si, mas para que não esqueçamos a sua imperfeição, e a necessidade de sermos melhores. E continuamos a ouvir o escritor moçambicano a confessar-nos que sabe como fala uma árvore, “parente da árvore, do bicho e do rio”. E nesta necessidade de ouvir está a força da personagem de Tiago, a “criança sonhadeira”, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. E essas fantasias não são uma fuga à vida, mas o entendimento de pessoas como nós e daquele homem que não tinha sequer um nome, mas a quem chamavam apenas “passarinheiro” e que vivia num tronco ressequido e sábio da árvore que representava o mundo da vida.
O narrador, ao ouvir e ao interpretar o que a natureza nos oferece, enquanto realidade inesgotável, ensina-nos, não na teoria, mas na prática, na experiência e no exemplo, apenas: “posso ser triste, mas não infeliz” ou “o pessimismo é algo que devemos combater”. No entanto, a cada passo assalta-nos o estranho medo do outro e há quem nos tente convencer de que o outro é um inimigo, e não a metade de nós mesmos, onde quer que ele se situe. E ouvimos o gesto agressivo: “quem autoriza aqueles pés descalços a sujarem o barco?”. No entanto, como poderemos cultivar a indiferença? E de novo Mia põe-nos alerta: “há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”. Não vale a pena desenvolver muitas teorias. Um simples conto permite-nos explicar quase tudo. “Cada homem é uma raça”, diz-nos afinal que somos todos iguais e todos diferentes. A palavra raça outrora dominadora, torna-se símbolo irrepetível de singular autonomia e de encontro, não de encerramento. Em lugar da tentação dos grupos fechados e dos privilégios, importa considerar que todos e cada um dos seres humanos são a base do respeito mútuo e da justiça. Lendo Luandino Vieira, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, Mia Couto favorece a atenção e o cuidado para com todos, na legitimidade e na universalidade do ser humano. Unimo-nos na ficção à vida inesgotável e à liberdade que permite encontrar na realidade e no sonho a essência da humanidade. E o Papa Francisco no diálogo com Javier Cercas, lembra no livro do ano, O Louco de Deus no Fim do Mundo (Porto Editora, 2025), em que o escritor acompanhou o Sumo Pontífice até à longínqua Mongólia, que são bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus, pondo a tónica na misericórdia e na dignidade universal de todos os seres humanos, independentemente de escolhas ou de privilégios.
Artífice incansável de Terra Sonâmbula, Mia Couto acompanha-nos neste juízo do ano, e permite-nos compreender, como disse um dia, que a verdadeira arma de construção maciça de que que dispomos é o ofício de pensar, que nos permite ir além do queixandar e da incapacidade de responder a quem de nós precisa… E assim poderemos falar e ouvir, uns com os outros, entendendo-nos.