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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de novembro de 2018.

 

Os seis ensaios que constituem a obra «As Artes do Sentido» de George Steiner (Relógio d’Água, 2017) põem-nos perante o tema do confronto e da ligação ente Humanidades e as Ciências, o que constitui questão crucial quando se fala da noção ampla de património cultural que comemoramos este ano de 2018.

 

 

MAIS DO QUE UM ACERVO DO PASSADO
O Ano Europeu do Património Cultural não celebra apenas um acervo europeu, uma identidade europeia ou um passado exclusivo. Falar de Património Cultural é falar de uma noção comum, universal, capaz de unir a humanidade e de criar condições para uma verdadeira cultura de paz, que a UNESCO tem proclamado. Estamos no centro do culto saudável das Humanidades. Este Ano Europeu situa-se na linha do que defende a Convenção de Faro, sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea (2005). Não se está a tratar de uma identidade europeia, fechada sobre si mesma, sucedâneo de identidades nacionais. O undamental é a referência ao Património Cultural, como realidade dinâmica e humanista. Recorde-se o que diz a Convenção de Faro: «O património cultural constitui um conjunto de recursos herdados do passado que as pessoas identificam, independentemente do regime de propriedade dos bens, como um reflexo e expressão dos seus valores, crenças, saberes e tradições em permanente evolução inclui todos os aspetos do meio ambiente resultantes da interação entre as pessoas e os lugares através do tempo» (artigo 2º, alínea a). E não esquecemos entre os objetivos deste instrumento do Conselho da Europa: “a preservação do património cultural e a sua utilização sustentável”, tendo por objetivo “o desenvolvimento humano e a qualidade de vida” (artigo 1º, alínea c), bem como a adoção das “medidas necessárias à aplicação do disposto na presente Convenção, no que se refere ao papel do património cultural na edificação de uma sociedade pacífica e democrática, bem como no processo de desenvolvimento sustentável e de promoção da diversidade cultural” (alínea d). É a prioridade à Cultura que está em causa, compreendendo-se esta ligada à Educação e à Ciência. Falamos do mundo da vida, das raízes, das aspirações, das atitudes e dos valores – do que recebemos e do que legamos. Eis por que razão quando Palmira foi destruída parcialmente na guerra da Síria, quando o diretor do centro arqueológico foi assassinado, ou quando qualquer parcela da humanidade e da sua cultura são atingidos é do património cultural no seu todo que está em causa. Não são os produtos do passado que devem ser repetidos – importa, sim, que o passado constitua uma base para compreender melhor o presente e para lançar as bases do futuro. E não esquecemos a lição de John Dewey quando falava da educação e da escola como realidades que pressupunham um “processo vivo”, um enriquecimento permanente pela experiência, uma sociedade aberta à inovação e à diversidade, uma democracia cooperativa. Neste sentido o cuidado do património cultural tem de ter um lugar especial na educação e na escola, na informação e na troca de saberes.

 

IDENTIDADE E PATRIMÓNIO
Longe da tentação de ver o património cultural como uma marca exclusiva ou própria de uma comunidade só, temos de estar conscientes de que as identidades e o património cultural só se enriquecem abrindo-se à diferença e à alteridade. Só assim poderemos enriquecer o que é próprio, dando-lhe dimensão humanista e universalista, em lugar da tentação uniformizadora e indiferente ou de simplificações folclóricas e de uma cultura de bricabraque. Nesse sentido, neste Ano Europeu, propus logo de início, e foi aceite, o reconhecimento da necessidade de dar às escolas, às comunidades educativas e às famílias um papel especial – de modo a lançar sementes para o futuro e como exigência de não deixar o património cultural ao abandono, compreendendo-se simultaneamente que um monumento e uma tradição que estão próximos, têm de fazer lembrar as referências culturais e patrimoniais que estão mais distantes. Por isso, os concursos que lançámos nas escolas tiveram sempre presente a escolha de um elemento próximo e de um outro exemplo europeu – de modo a entender que há uma dimensão de abertura à diversidade que não pode estar ausente, e que torna mais valiosa e aberta a nossa identidade, como fator de troca, de respeito e de enriquecimento mútuo. O património cultural tem múltiplas componentes: monumentos, museus, edifícios históricos, arquivos, referências artísticas e arqueológicas – o património material -, tradições, costumes, línguas e dialetos, romanceiros, artesanato, música e danças, relações interculturais – o património imaterial -, mas ainda o património natural, o meio ambiente, as paisagens, o património digital, e a criação contemporânea… esta enumeração abre inúmeras pistas que nos obrigam a uma especial atenção relativamente à criatividade humana.

 

ENTENDER A COMPLEXIDADE
Como tem ensinado Edgar Morin, importa compreender que a complexidade tem de ser entendida como chave do saber. Impõe-se que a informação de que dispomos se transforme em conhecimento e que o conhecimento se torne sabedoria. E que é a evolução das sociedades humanas senão uma sucessão de metamorfoses como as ciências naturais nos ensinam? Não é possível entender a importância das Humanidades sem ligar as culturas literária e científica, as artes e a matemática (como no-lo ensinou Almada Negreiros) – Sophia de Mello Breyner alertou-nos, deste modo, para que ler uma pauta de música ou distinguir um alexandrino ou uma redondilha obrigava a cuidar da numeracia. E se nos preocupamos com a relação com a natureza, temos de considerar a Ecologia, os recursos naturais em risco, as emissões poluidoras, o aquecimento global, do mesmo modo que os códigos genéticos, a ética suscitada pelo progresso científico e tecnológico como exigentes desafios para a Humanidade. E, se se fala da 4ª revolução industrial, temos de lembrar não apenas a microinformática ou as tecnologias de informação, mas também as novas fontes de energia e os progressos no domínio da saúde, como a imunologia e a evolução celular… O património cultural envolve, assim, um mundo fascinante, mas incerto e complexo. A cultura não é um luxo nem uma realidade supérflua, não é o último capítulo de um programa político, nem a cereja no cimo de um bolo – é uma prioridade absoluta e um tema transversal, que envolve a aprendizagem como fator decisivo do desenvolvimento humano, que reclama o espírito científico. A razão e os sentimentos estão intimamente associados, como nos ensina António Damásio, numa tradição antiga que encontramos desde os pré-socráticos até Montaigne ou Leibniz e à modernidade. A arte e a ciência reclamam o espírito criador e a necessidade de compreender como são incindíveis a continuidade e a inovação. A crise financeira que ainda sofremos desvalorizou a capacidade criadora e limitou-se à ilusão das economias de casino. A valorização do património cultural abre veredas atentas á dignidade humana. É a democracia que está em causa. Precisamos de instituições mediadoras nas quais os cidadãos estejam e se sintam representados, e em que participem. O património cultural liga-nos às gerações que nos antecederam e tornam-nos responsáveis pelo valor que formos capazes de criar, melhorando o que legarmos a quem nos vai suceder…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 5 a 11 de novembro de 2018.

 

«Portugal, a Europa e a Globalização» do Padre Manuel Antunes, com organização e introdução de José Eduardo Franco (Bertrand, 2018) constitui uma reunião de textos fundamentais que assinaram o centenário do autor.

 

 

EM NOME DA LIBERDADE DA CULTURA
João Bénard da Costa lembrava como o Padre Manuel Antunes acompanhou o grupo de católicos inconformistas da geração de “O Tempo e o Modo”, tendo visto na sua atitude “um sinal de Deus e de caminhos futuros ou de caminhos do futuro”. O jesuíta foi ainda um dos membros da comissão portuguesa do Congresso para a Liberdade da Cultura, que tanta importância teve na preparação da democracia portuguesa, estando “em combates muito difíceis nos anos 60 e 70, antes dessa Revolução que ele analisou, como mais ninguém, nesse livrinho sublime a que chamou Repensar Portugal””… Também Luís Lindley Cintra disse, de modo muito claro: “Leiam Repensar Portugal… é um livro importantíssimo, quase diria é único pela reflexão e pelo espírito que o anima”. O texto «Que Projeto-Esperança para Portugal?» integrou essa luminosa obra, que lida à distância, ganha uma renovada atualidade e pertinência. E, segundo o autor, era a democracia que estava em causa, era a sua concretização que deveria ser objeto de reflexão e ação: “a democracia é preciso merecê-la. Não pode constituir dádiva generosa de um dia trazida nas espingardas não disparadas e nos cravos não manchados de sangue do Movimento das Forças Armadas. A democracia é necessário traduzi-la, pelo esforço de todos – mas sobretudo daqueles a quem assiste maior responsabilidade política, social, económica e cultural – a democracia é necessário traduzi-la nos factos e nas instituições que objetivem e encarnem a verdade, a justiça, a fraternidade e a liberdade de uma comunidade verdadeiramente humana”. A atualidade desta reflexão do Padre Manuel Antunes põe-nos perante o tema atualíssimo da democracia – quando espreitam, um pouco por toda a parte, as tentações imediatistas e populistas, sob a falsa invocação do mero formalismo do voto. A legitimidade do voto é fundamental, mas tem de ser completada pela mediação permanente nas instituições democráticas. Os cidadãos tem ser representados e de participar, tem de se sentir legitimados. Não podia o nosso autor antecipar o mundo das redes sociais, ou das notícias falsas – mas conhecia muito bem os instrumentos subtilmente perigosos dos “reflexos condicionados” ou das “lavagens ao cérebro”. O “Grande Irmão” de George Orwell aparece onde menos se espera, “O Admirável Mundo Novo” de Aldous Huxley esconde as maiores perversidades anti-humanas. «Que Projeto-Esperança para Portugal?» constitui um conjunto de alertas que se projetam no nosso tempo – e que permitem encontrar respostas atuais, sem diabolizar os meios novos de que dispomos. O que importa é não confundir meios e fins – de modo a colocar a dignidade humana no centro da vida democrática.

 

JUSTIÇA, SOLIDARIEDADE E LIBERDADE
Uma “revolução moral” preocupava o pedagogo da democracia. A justiça, a solidariedade, a liberdade, a honestidade devem orientar a vida das instituições: de modo realista, “renovando as instituições existentes – e não apenas mudando-lhes os nomes – e criando outras que se imponham”. Partindo do país real e dos seus dualismos e limitações, há sempre que encontrar alternativas – compreendendo a democracia como “um conceito axiológico e dinâmico, isto é, de ordem moral mas sujeito às vicissitudes das situações concretas em que é preciso venha a encarnar e a objetivar-se em leis, regulamentos e costumes em determinado espaço-tempo; que é um conceito de gradual ascensão histórica, sujeito, por conseguinte, ao acontecedoiro dos «dois passos para diante e um para trás»; que é um conceito que se define, na prática soberana, pela participação, cada vez mais larga e profunda, cada vez mais extensa e intensa, cada vez mais consciente e estruturada, nos bens e nos serviços, nos direitos e nos deveres, nas prestações e nas obrigações de todos para com a comunidade e da comunidade para com todos; que é um conceito operativo de um sistema que vive em função do meio em que historicamente se implanta…”. A liberdade política, a justiça social e a gestão da prosperidade geral têm de se ligar, numa lógica humanizadora. Nesse sentido, o Padre M. Antunes definia uma agenda, que pressupunha não encarar o Estado como novo Leviatã, produtor, planificador, omnipresente e invasor da esfera privada, pelo que se tornaria imperativo: desburocratizar, desideologizar, desclentelizar e descentralizar. Interiorizar a democracia obrigaria, assim, a assegurar a democracia do Estado e a democracia da sociedade civil. E ao Estado competiria revelar-se como consciência crítica da Nação, “na sua realidade de ser coletivo e histórico”. Não pode haver democracia sem haver consciência cívica, sem haver instituições representativas e mediadoras – só desse modo poderemos precaver-nos perante os perigos de manipulações e de condicionamentos ilegítimos. Num tempo em que a complexidade é a marca indelével do progresso humano, não podemos cair na tentação de resumir tudo a opções simplificadoras ou a caricaturas da realidade. Veja-se o que acontece quando a via referendária se sobrepõe à ponderação rigorosa das consequências de decisões difíceis – que não podem ficar prisioneiras da tirania do número, da indiferença ou da demagogia… É preciso tempo e reflexão. Numa palavra, a instituição a fortalecer neste projeto-esperança é a própria democracia – “condição necessária, embora não suficiente. De facto não é qualquer carta constitucional ‘outorgada’ e muito menos ainda ditatorial ou violentamente imposta que nos fará ‘escolher’ o caminho realmente nosso”. Não pode haver expressão mais atual. Daí a demarcação em relação a uma qualquer tutela. As Forças Armadas, por exemplo, deveriam ter o papel o mais discreto possível e o mais técnico possível. E a democracia política deveria ser completada pela democracia social – devendo unir-se liberdade e justiça, ou pelo menos uma maior liberdade e uma maior justiça.

 

A DIMENSÃO CULTURAL
E a dimensão cultural? “Sem crítica, a cultura instala-se no uniforme sem inspiração, no escolasticismo sem vontade de essencial, no dogmatismo sem nervo de verdade, e, por isso mesmo, em constante apelo à força do ‘braço secular’. Sem crítica, a querela instala-se por toda a parte: na rua e no palácio, na academia e na caserna, na cidade e no campo, durante a vida e post mortem”. E se a instituição a fortalecer é a democracia, o ideal a realizar é o bem comum. E lendo este texto, e alargando-o a uma dimensão mais vasta do que o âmbito nacional, estamos perante um documento crucial para os dias que correm. O Padre Manuel Antunes compreendia muito bem o género humano e a vida das sociedades – e daí a pertinência e intemporalidade deste texto. E em que consiste o bem comum? “Na existência de estruturas e instituições que em determinada fase histórica sirvam ao uso, à dignidade e à dignificação da comunidade; na vontade de solidariedade que une todos os membros dessa comunidade, de forma a que todos participem, na devida proporção, desse objetivo fundamental”. A encíclica “Pacem in Terris” de João XXIII e a constituição “Gaudium et Spes” do Concílio Vaticano II são claras nesse sentido. Importará cortar o passo à alternância entre anarquia e tirania – “uma comunidade pode ser feliz sem viver propriamente numa abundância material de lés-a-lés”. Em suma, num tempo em que tanto se fala de austeridade, importa insistir na noção de sobriedade, que previne o desperdício e a corrupção, a injustiça e a exclusão, a desigualdade e a fragmentação social – com ensinava o Padre Lebret, cuja obra o Padre M. Antunes bem conhecia e que tanto influenciou a encíclica “Populorum Progressio” do Papa Paulo VI. À democracia e ao bem comum, haverá ainda de juntar um destino a cumprir – a universalidade. Que sentido teria a eminente dignidade humana se não fosse um valor universal? E lembramos o nosso humanismo universalista que nos leva a Santo António de Lisboa ou a Pedro Julião, o Papa João XXI – e lembra a relação incindível entre diversidade e unidade, entre diferença e identidade. “Cada homem é uma exceção” – dizia Kierkegaard – também cada povo! E não fugimos à regra. A maior necessidade sentida neste “repensar de Portugal”, neste “projeto-esperança” é assim uma renascença – ou seja, “vontade de retomar um certo fio de outros dados e dados que outros quebraram”. E é de cultura que devemos falar, de abertura de horizontes, de Europa e de mundo da língua portuguesa. “Um país na verdade culto e com cerca de um milénio de história vivida atrás de si – e que história -, só demitindo-se por completo e por completo desistindo de existir como um animal esgotado que se deita para morrer é que deixará de contar no concerto dos povos. Antes não».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 29 de outubro a 4 de novembro de 2018.

 

Passam no dia 3 de novembro cem anos sobre o nascimento do Padre Manuel Antunes (1918-1985) na Sertã.

 

 

UM MESTRE INIGUALÁVEL
Os alunos e os discípulos do Padre Manuel Antunes lembram-se bem do auditório da Faculdade de Letras de Lisboa, completamente cheio, plenamente disponível para o ouvir, como paradigma da sabedoria pura. E isso era admirável, numa escola em que o seu exemplo era uma exceção (graças ao convite de Vitorino Nemésio). A figura frágil do professor contrastava com a segurança no desfiar dos conhecimentos, dos tempos, das épocas, dos autores e das suas obras… Maria de Lourdes Belchior lembrou “este homem de muitos saberes e rigorosos dizeres, que muito viu porque pensou e muito sentiu porque muito sofreu”. A cultura clássica era sobretudo oportunidade para tomar contacto com a essência do conhecimento. A propósito de T. S. Eliot, referia-se a um humanismo nascido “do seio da vida e da cultura dos tempos modernos em crise”, por contraponto à degenerescência em arrivismo e mera expressão quantitativa. E era essa interrogação sobre as raízes e sobre a essência dos problemas que atraía aquela multidão de ouvintes interessados. E assim se entendia como uma atitude humanista pressupunha a compreensão da memória do tempo e uma tomada de consciência da complexidade. E essa memória obrigava a ligar a tradição, enquanto transmissão e herança, com a contemporaneidade que se preocupa com as bases de um futuro de justiça e verdade. Em lugar de uma tradição repetitiva e esclerosada e de uma tradição objeto da curiosidade erudita, tornar-se-ia essencial encarar a tradição como atualização do outrora no agora, “que é diálogo dos vivos com os grandes mortos vivos, que é prolongamento da sua experiencia e que é consciência do seu saber”. Daí a paixão pelos clássicos (“os grandes mortos vivos”), que para Eliot implicaria o culto da maturidade, de uma língua, de uma civilização, de um espírito, implicando, além da perfeição do estilo comum, “a história e a consciência da história, de uma história mais ampla que a simples ‘história paroquial’, na expressão de Toynbee”. E assim o mestre jesuíta recordava os belíssimos versos do poeta anglo-americano, em “Four Quartets”: “O tempo passado e o tempo futuro, / Aquilo que poderia ter sido e aquilo que foi / Tendem para um único fim, que está sempre presente”. Afinal, “ser consciente é não estar no tempo”. Como? O professor fazia compreendê-lo, procurando não se deixar iludir pelo curtíssimo prazo. E assim se entende o apego do Padre M. Antunes à História e ao espírito, que Henri de Lubac, o celebrado teólogo, encontrava na grande mensagem de Orígenes.

 

ABRIR CAMINHOS NOVOS
Werner Jaeger, autor de Paideia, era referencial. Longe de qualquer repetição, o que o Padre Manuel Antunes fazia era abrir caminhos para a leitura dos clássicos, não apenas os antigos, mas os de todas as épocas, aqueles que se foram singularizando na maturidade do saber, do exemplo, da experiência e da aprendizagem. Não esquecemos o que nos disse sobre o estar especialmente grato ao grande clássico tedesco: “por, através dos seus livros, lhe ter indicado um fio de Ariana no vasto labirinto da cultura grega – a areté como ideal de perfeição humana -, por lhe ter feito ver um Aristóteles mais real e menos abstrato, por lhe ter apontado a direção das fontes do neoplatonismo e por, mais recentemente, o ter orientado no sentido do humanismo cristão dos primeiros séculos…”. E quando tantos estudantes se quotizavam para partilhar e usufruir a leitura de obras que ultrapassavam as suas posses ou quando procuravam o Padre Manuel Antunes na casa da Rua Maestro António Taborda, rodeado de livros de uma biblioteca preciosa, mas nunca distanciado do mundo e da vida, como se ela fosse uma muralha, o que encontravam era abertura, disponibilidade e conhecimento, que lhes permitia melhor descobrir a humanidade. A cultura viva como tradição e diálogo, como especialização e interdisciplinaridade era a marca que distinguia o seu magistério. De facto, importa cuidar do conhecimento e do método. Muito conhecimento se perde na informação e muita sabedoria se perde no conhecimento, na expressão de T. S. Eliot. Sem tradição haveria o risco de infantilismo e do primarismo. Sem diálogo haveria a tentação da sofística labiríntica e obsessiva, do “hermetismo sem janelas, no mutismo sem possibilidades de comunicação”. Sem especialização cair-se-ia nas “generalidades inócuas e nas afirmações sem fundamento”. Sem interdisciplinaridade haveria o risco de as árvores impedirem a visão da floresta.

 

SEMPRE PEDAGOGO
Como pedagogo que sempre foi – na cátedra universitária ou nas páginas da revista “Brotéria”, com dezenas de pseudónimos – o Padre Manuel Antunes admirava o modo de cultivar o pensamento e a crítica pelos educadores. Admirou, por isso, António Sérgio “um pedagogo que se propôs ensinar a pensar em voz alta, a olhar para os problemas e as coisas com idealidade e lisura, com olhos despreconcebidos e com amor à verdade, que era a sua versão do espinosiano amor intelectualis Dei, por ele com tanto gosto e tanta frequência citado”. D. Luísa Sérgio, mulher do ensaísta, foi o elo que os ligou. Da Travessa do Moinho de Vento à porta da Rua da Lapa, onde o Padre Manuel Antunes celebrava, gerou-se uma amizade. “Entre ele, o ‘agnóstico’ e o sacerdote católico havia muito naturalmente, divergência. Mas a relação foi sempre irénica, nunca polémica: franca, nunca reservada; respeitadora, nunca impositiva”… O jesuíta admirava a “nobre e lucidíssima figura”, até porque “era o contrário do erudito que se afunda em fichas e morre em citações tanto quanto se situava nos antípodas do isolamento ebúrneo”. E quais os seus amores? O amor das ideias, “na sua pureza diáfana e intemporal” e “o amor dessas pedras vivas do edifício social, que são os homens em carne e osso”… Assim, animava-o uma “consciência vigilante, de sentinela nas fronteiras do espírito”… “Por isso, já quase no crepúsculo da vida (revela o jesuíta), vi-o exultar de alegria e júbilo quando João XXIII publicou a Pacem in Terris. Era uma linguagem que ele compreendia e era um conteúdo que ele aceitava”… Sophia de Mello Breyner disse melhor que ninguém: “Havia uma coisa extraordinária no padre Antunes: uma grande ligação entre a cultura e a vida. Eu penso que isso lhe era dado, em grande parte, pelo facto de ser padre. Ele nunca se revelou um homem escolar. Qualquer homem com o grau de erudição e inteligência, a capacidade intelectual que ele tinha, corria sempre o perigo de esterilizar humanamente num pensamento abstrato e muito teórico”. E João Bénard da Costa lembra como o sacerdote acompanhou o grupo de católicos inconformistas (António Alçada Baptista e os amigos) nos tempos do “Pacto”, tendo visto na sua atitude “um sinal de Deus e de caminhos futuros ou de caminhos do futuro, tendo ainda sido um dos membros da comissão portuguesa do Congresso para a Liberdade da Cultura, estando “em combates muito difíceis nos anos 60 e 70, antes dessa Revolução que ele analisou, como mais ninguém, nesse livrinho sublime a que chamou Repensar Portugal””…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de outubro de 2018

 

«Os Factores Democráticos na Formação de Portugal» de Jaime Cortesão (Livros Horizonte, 1964), com Prefácio de Vitorino Magalhães Godinho é um clássico da literatura portuguesa do século XX.

 

 

PENSAR NAS RAÍZES DE PORTUGAL
É da origem de Portugal e do seu desenvolvimento que trata, falando das raízes do que designamos como liberdade e como patriotismo. Quem somos? De onde vimos? Para onde vamos? A democracia é um conceito moderno com bases antigas. E é de um patriotismo prospetivo que aqui se trata! Leia-se, assim, este livro com olhos de futuro. Manuel Braga da Cruz no Relatório de Investigação sobre Nacionalismo e Patriotismo na sociedade portuguesa atual publicado em 1988 pelo Instituto de Defesa Nacional, afirma que «Portugal parece ter saído do processo de descolonização sem particulares problemas de identidade nacional, e parece ter entrado no processo de europeização e de regionalização com uma consistente adesão à soberania nacional e com uma equilibrada e solidária consciência cívica e nacional. Não só a representação da identidade, a vontade de soberania e a consciência cívica dos portugueses não estão em crise, como surpreendem os elevados índices de adesão que suscitam e pelo equilíbrio que manifestam quando analisados comparativamente. O que revela porventura algum ‘paroquialismo’ e um estado pouco ‘cosmopolita’ do desenvolvimento social e político, mas indica, também, e sobretudo, que são profundas e antigas as raízes e as razões do nacionalismo e do patriotismo português». Partimos daqui para a consideração dos fatores de coesão social, que normalmente são apontados como característicos da realidade portuguesa, articulando-os com as limitações existentes no tocante à vida das instituições da sociedade civil e à respetiva mediação, capaz de favorecer a mobilização cívica em torno da participação cívica, da representação e da responsabilidade cidadã. E aqui há fatores contraditórios a considerar – que relacionam os aspetos positivos referenciados e as fragilidades patentes na participação eleitoral até à inexistência de uma forte mobilização de instituições da sociedade civil. Assim, continuando a citar o coordenador do estudo: “quanto à temática da soberania nacional, os fatores de adesão e de distanciamento parecem não ser tão uniformes nem unidirecionais”. A regionalização (entretanto suspensa por um referendo não vinculativo) e a europeização não deixam, contudo, de levantar receios relativamente à ideia de soberania nacional. E aí os níveis de instrução e de integração social apresentavam influências antagónicas na perceção de riscos de integridade e de meios de defesa nacional. Com efeito, a sociedade portuguesa apresenta, desde muito cedo, elementos caracterizadores de configuração complexa que nem sempre são bem compreendidos.

 

ENTRE O ATLÂNTICO E O MEDITERRÂNEO
De que falamos? De uma homogeneidade identitária e linguística e da persistência de uma independência politica, caracterizada pela preeminência do Estado perante a Nação, pela força agregadora da costa marítima (por contraponto à continentalidade de Espanha, sobretudo depois de 1492), pela complementaridade entre o Atlântico e o Mediterrâneo, pela simultaneidade da construção da nacionalidade através de dois movimentos: um de Norte para Sul, característico da reconquista cristã, e outro de Sul para Norte, mercê da consolidação da influência moçárabe e moura (na expressão tradicional), o que fica bem patente na precoce consolidação do português como língua nacional e na confluência entre os falares do norte e do sul, sem a emergência de dialetos (já que o mirandês é uma língua, que resulta da influência do asturo-leonês. A decisão de D. Dinis ao adotar o português como língua oficial e dos tabeliães e ao criar o Estudo Geral revelar-se-á decisiva para a consolidação tão cedo do português como fator de unidade nacional – o que se soma às migrações internas devidas a uma distribuição irregular da população ao longo do território. Conhecemos o entendimento de Alexandre Herculano, segundo o qual a nação possuiria uma índole democrática (usando a expressão de Cortesão, que é algo anacrónica para o Mestre de “Eurico”), a qual proviria da organização municipal que durante a Idade Média se estendeu, favorecida pelas concessões dos monarcas, a todo o território nacional. No entanto, o historiador nunca terminaria esse estudo, faltando a demonstração das origens do nosso poder local no município romano e das continuidades nos impérios visigótico e árabe. Isto, enquanto diversas pistas eram seguidas e associadas à pergunta sobre as origens municipalistas, descentralizadas de Portugal.

 

AS CLASSES POPULARES E A NAÇÃO
Afinal, para Jaime Cortesão “o acesso das classes populares à administração local e pública e a sua ingerência na política da nação não representam herança ou doação, mas sim conquista revolucionária. Ao lado do carácter universalista que marca a Nação desde as origens, vamos encontrar na base das suas liberdades públicas e da própria independência nacional, a vivificá-las, a renovação das condições de trabalho e um espírito de autonomia em luta e oposição permanente contra o estrangeiro”. Esta ideia de conquista deve-se a uma evolução da economia e do funcionamento da sociedade, que obriga a assumir responsabilidades pelos novos agentes económicos, mercadores e mesteirais. Há o nascimento de uma aliança, na qual o reino de Portugal se baseia, entre o poder real e os municípios, numa lógica de reconhecimento da liberdade, que coexiste com o centralismo político do monarca. E S. Tomás de Aquino proclama que o atributo essencial da soberania “é o poder de fazer as leis, e este pertence a toda a multidão ou àquele que a representa. Num bom governo é necessário que todos tomem a sua parte”… Ora, com uma adequação da população ao território, como a organização do governo, com a definição dos poderes locais e com o surgimento das bases do Estado moderno são lançadas as bases do que Cortesão designa como “caboucos da democracia em Portugal”. Estamos perante os prolegómenos de uma legitimidade nova – e esses fundamentos não descem às profundidades da administração romana. As tendências universalistas foram desenvolvidas durante a Idade Média e eclodiram e triunfaram, em Portugal, durante a revolução que levou ao trono o Mestre de Avis, determinando a formação social predominante, a missão histórica e o carácter ideal da Nação. E é este humanismo universalista de raiz franciscana, também próximo de Joaquim de Flora, que Cortesão considera entre as razões do sucesso da independência portuguesa, das instituições, da mediação e do respeito pelas diferenças. E assim pode superar as profecias do Bandarra – proclamando, como o fará o Padre António Vieira, que o “Desejado” não é um morto e que o futuro português não é puro sonho. O “Desejado” era um vivo e existia, era D. João IV e as saudades do futuro exigiam a reconstrução audaciosa do País… E sem idealizações abstratas o que Cortesão faz, num caminho crítico, é dizer que estão no código genético de Portugal a exigência da liberdade e de uma articulação de esforços no sentido de um projeto de futuro, seriamente planeado e não sujeito ao improviso.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de outubro de 2018.

 


O início da publicação de Escritos sobre Cinema de João Bénard da Costa (Cinemateca, 2018) constitui um momento especial na vida cultural portuguesa.

 


UM MARAVILHOSO DICIONÁRIO
O autor é um dos melhores escritores portugueses contemporâneos, não apenas pela forma, mas pela substância, numa abordagem dos diversos temas a que se dedicou, com grande densidade cultural e uma fantástica riqueza temática, e a obra constitui um importante acervo de textos em que o cinema se constitui em maravilhoso pretexto para uma reflexão sobre a cultura e a arte. Organizados por ordem alfabética, sob a forma de dicionário, estes “Escritos” estão estruturados em dois tomos – o primeiro (de que saiu o volume inicial) dedicado aos realizadores e às suas obras e o segundo a atores, produtores, técnicos e temas específicos. Se é verdade que podemos dispor de várias enciclopédias sobre cinema, o certo é que neste caso estamos perante algo mais, reflexões que ultrapassam em muito o mero interesse informativo. Leia-se o circunstanciado prefácio de José Manuel Costa e compreenda-se a importância e o alcance da obra a que a Cinemateca deitou ombros. O que se está a reunir são todos os escritos feitos para a Cinemateca Portuguesa, quer como folhas de sala quer como ensaios desenvolvidos – devendo lembrar-se que há um trabalho prévio que também está presente e que corresponde ao tempo em que o autor desenvolveu na Fundação Calouste Gulbenkian uma ação pioneira no tocante ao diálogo cultural em torno do cinema. Deste modo, podemos dizer que, a propósito dos filmes, encontramos uma apologia das Humanidades, na sua riqueza aberta, multifacetada e fecunda. E assim deparamo-nos com o criterioso professor de filosofia, o animador do jornal “Encontro” da JUC, o entusiasta do Centro Cultural de Cinema (CCC), uma das almas da Morais, com António Alçada Baptista, e da revista “O Tempo e o Modo”.

 

«PICKPOCKET» DE BRESSON
Olhemos a apreciação de Pickpocket de Robert Bresson. “Deste filme, tanto se pode falar em termos de ‘tratado moral’ (…) como em termos estritamente ‘materiais’, na medida em que se pode sustentar igualmente que é um filme sobre mãos, olhares, sem outra ‘metafísica’ que não essa (…). Este é um filme que joga com os seus próprios vazios, ou melhor dito, em que esses vazios podem ser pressentidos como o essencial, apenas porque o essencial se esgota na pura materialidade”. A tensão entre a irracionalidade da lei e a força irracional de um destino, entre a polícia e o prevaricador, marca este filme de 1959, que o nosso crítico considera como a metáfora do próprio cinema. “Nunca talvez como nesta obra, Bresson tenha ido mais longe na defesa da sua ideia, de que o ‘cinematógrafo é a arte de não mostrar nada’. E a afirmação só pode parecer paradoxal a quem não tenha sido capaz de ver o que é esse nada que o Pickpocket  mostra”. E aqui está a demonstração do que fascinava João Bénard da Costa no cinema: a capacidade de nada mostrar para fixar a atenção do espectador no essencial. Para o cinéfilo o que importava era considerar o cinema como ponto de encontro de diversas artes – com uma especial atenção aos modos de representar a própria vida e de a fazer compreender melhor. E assim o cinema era o campo natural para o filósofo, para o pedagogo, para o ensaísta – de modo a encontrar um campo de eleição para a compreensão criadora.

 

UMA LISTA FANTÁSTICA
É impossível, nos limites de uma crónica como esta irmos ao encontro de tudo o que importa neste extraordinário manancial em que tudo de essencial da vida e da arte se pode encontrar. Daí apenas podermos dar algumas breves pinceladas, numa obra que promete dar-nos pano para muitas mangas. Neste primeiro volume do primeiro tomo, encontramos apenas entradas até à letra C, mas podemos já usufruir de notas e preciosos índices – que nos permitem ligar o útil e o agradável, a informação rigorosa sobre os autores e as suas obras, ordenadas pela data de realização, e o deleite que nos é prodigalizado pela ligação entre o pensamento, as ideias e as diversas artes. Numa lista feita aleatoriamente ao folhear o belo volume, com duas fitas marcadoras, uma para o texto outra para as notas, encontramos: Woody Allen, Lima Barreto, Ingmar Bergman, Busby Berkeley, Bernardo Bertolucci, Robert Bresson, Jorge Brun do Canto, Luís Buñuel, Frank Capra, Claude Chabrol, Charlie Chaplin, Chianca de Garcia, René Clair, Jean Cocteau, Francis F. Coppola, Pedro Costa, Cottinelli Telmo até Michael Crichton. Em cada texto (porque as folhas de sala têm uma função pedagógica e de diálogo com o público) encontramos sempre a confluência de horizontes diferentes que se completam (literatura, música, ópera, teatro, pintura, arquitetura…). A propósito de “Una Mujer sin Amor” de L. Buñuel, sempre com a preocupação de ir ao encontro da literatura, João dá a palavra a Agustina Bessa-Luís, escritora que tanto admirava. E põe-na em discurso direto. Diz Agustina: “o que retive deste filme enfadonho foi justamente a importância de evitar o mistério das pessoas, usando o sentimento”. E quando tudo termina, apenas há as fotografias do marido e do amante, já mortos, em cima da lareira, e Rosário a fazer tricô, placidamente. “Tudo está em ordem: os sentimentos ocupam o lugar do precipício, onde possivelmente nada existe senão vácuo”. Sempre a ideia e a metáfora em torno do nada e do tudo que se filma e representa. E sobre “Ensayo de un Crimen” (1955), ainda do realizador espanhol, lembra-se que “a ideia do desejo prevalece sobre a sua satisfação, os fantasmas ocultos sobre qualquer representação do real”. E Fernando Pessoa vem à baila: “O desejo é que é o essencial / o sexo é só um acidente”.

 

UM ENCONTRO DE MUITAS ARTES
A cada passo nestes “Escritos”, há um encontro de representações, de artes, de linguagens, de sentimentos. “Sempre que o cinema compreendeu que o objetivo era o mesmo (que o teatro e a ópera) com variações de grau e de olhar e expressamente sublinhou a unidade da ordem da ficção e da ordem da representação, a magia do teatro e do cinema pôde aparecer na sua mais misteriosa luz”. E temos de lembrar Bergman em A Flauta Mágica (1975), mas também Ophuls, Syberberg, Schroeter, Rivette ou Manoel de Oliveira. E eis que emerge o paradoxo – “A única interrogação sobre a verdade é a que passa por meios forçosamente mentirosos”… Que é a representação senão a ponte entre a ficção e a existência, entre a ilusão e a realidade? E André Bazin (autor especialmente lido por João Bénard) diz misteriosamente sobre “Le Journal d’un Curé de Campagne” de Bresson, baseado no clássico de Bernanos: “Poder-se á dizer que Journal é um filme mudo com legendas faladas. A palavra nunca se insere na imagem como uma componente realista: mesmo quando é pronunciada pelos personagens (ou seja, quando não é off) tem sempre o tom de um recitativo de ópera”. Do que se trata é de representar o drama, de modo a podermo-nos integrar nele, para que ele nos toque. E Bresson insiste especialmente nesse ponto. João Bénard citou um dia José Tolentino Mendonça quando este dizia com Claudel que a Bíblia era um “atlas iconográfico”, um “estaleiro de símbolos” e um “imenso dicionário”. Esse é o paradigma que está presente nesta visita à memória do cinema, que ele tanto amava, como a Arrábida e Sintra, como todas as artes, por representar a vida…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

De 8 a 14 de outubro de 2018.

 


«Loulé – 630 Anos de Poder Local»
(edição da Câmara Municipal de Loulé, 2014) constitui um repositório valioso, envolvendo uma exposição e os textos apresentados a esse propósito – onde se documenta um acervo precioso onde avultam as Atas de Vereação mais antigas do País.

 


UMA HISTÓRIA PLENA

Esse conjunto de elementos e reflexões de prestigiados autores (como Joaquim Romero Magalhães, Maria Helena Cruz Coelho, Maria de Fátima Botão, Eduardo Vera-Cruz Pinto e António Ramos Preto) serve de base às notas que apresentamos, no momento em que teve lugar um frutuoso périplo nos municípios de Faro e Loulé. No âmbito do ciclo “Viagem na Minha Terra”, a escolha incidiu sobre dois municípios fundamentais para a compreensão do Algarve. O périplo iniciou-se em Faro, “Vila Adentro”, em ameno convívio ao almoço, para recordarmos as origens da cidade e as suas vicissitudes - as origens fenícias, a criação e a afirmação de Ossónoba, as intensas trocas comerciais e culturais, a ocupação romana, a presença dos visigodos e de Bizâncio, bem evidente nas muralhas, recentemente consolidadas, a cultura árabe, numa cidade que se designaria como Santa Maria do Ocidente e depois como Santa Maria de Harum. Esta referência à família árabe de Beni Harum é que dará origem à designação moderna de Faro. Damião de Góis foi dos primeiros em falar de Faro, como hoje dizemos. A reconquista cristã foi controversa, até que o rei de Castela, no Tratado de Badajoz (1267), reconheceu a legitimidade do nosso D. Afonso III. O seu sogro Afonso X considerava-se como protetor da taifa de Niebla, onde o Al Gharb do Al-Andalus se integrou, mas o rei Sábio viria a ceder, considerando ser D. Dinis, futuro rei de Portugal, seu neto e de seu sangue. Uma curiosidade: diz a tradição que aqui nasceu D. Brites de Almeida, a célebre padeira de Aljubarrota…

 

O PRIMEIRO LIVRO IMPRESSO
A comunidade judaica de Faro foi ativa e interveniente, tendo sido aqui impresso e publicado em hebraico o primeiro livro português com caracteres móveis de Gutemberg – o “Pentateuco” (1487). Faro foi elevada a cidade em 1540 e em 1577 D. Sebastião tornou-a sede episcopal, com o primeiro Bispo D. Afonso Castelo Branco (1577). Cidade do litoral, num oceano infestado de piratas e corsários, Faro foi saqueada pelos ingleses em 1596, já no reinado de Filipe I, tendo o precioso arquivo da Sé sido roubado ou destruído e levado para a Universidade de Oxford, onde se encontra na Biblioteca Bodleiana. Avulta nele a documentação riquíssima de D. Jerónimo Osório, Bispo de Silves, intelectual marcante do século XVI. Num breve périplo dentro das muralhas, na cidade antiga, pudemos lembrar os dois terramotos que destruíram a cidade em 1722 e 1755 e a figura marcante, cuja estátua se encontra diante da Catedral, do Bispo D. Francisco Gomes Avelar, falecido em 1816, que assumiu a tarefa de reedificar a cidade destruída. A ele se deve a construção do Arco da Vila, do Hospital da Misericórdia e o acabamento do Seminário. Em frente da Torre da Sé recordamos uma das poucas edificações que resistiu aos diversos terramotos. A Catedral é um monumento da Renascença quinhentista com três naves de quatro tramos divididas por colunas dóricas e tetos de madeira, alberga o célebre relicário de talha do século XVIII, com o santo lenho, graças ao empenho do Bispo D. António Pereira da Silva. E não esquecemos a alusão ao órgão barroco do Coro Alto, com chinoiseries, do reinado de D. João V. O que foi a Judiaria deu lugar ao Convento de Nossa Senhora da Assunção, fundado pela rainha D. Leonor… A cidade desenvolveu-se como capital do Algarve, que perdeu a designação de Reino em 1910, mas nunca teve órgãos soberanos. Em nome da memória, não esquecemos Cândido Guerreiro, António Ramos Rosa, Gastão Cruz, a “Poesia 61”, Teresa Rita Lopes, e lembramos passagens marcantes na obra de Manuel Teixeira Gomes, em especial em “Gente Singular”. O estranho calor de uma tarde do feriado de Outubro não nos deixa parar durante muito tempo em cada um dos lugares nesta capital, que sucedeu a Silves, quando o rio Arade deixou de ser navegável e o eixo de gravidade algarvio passou para Sotavento. Damos um salto até Milreu, para recordarmos a presença romana, lembrando a extraordinária riqueza cultural da região, onde Estácio da Veiga deu, no século XIX um impulso decisivo para o desenvolvimento da Arqueologia, abrindo pistas, ainda por explorar plenamente.

 

INFLUÊNCIAS MÚLTIPLAS
Na encruzilhada de influências, desde o mar do Norte até ao Mediterrâneo, facilmente percebemos o património cultural como realidade viva. O turismo cultural tem, de facto, no Algarve potencialidades que não podem ser esquecidas. E que nos revelam as ruínas de Milreu? O exemplo de uma villa romana rustica ligada à intensa atividade económica do Algarve – desde as pescas à agricultura – que culmina num edifício de luxo que ainda hoje nos surpreende: entrada com peristilo, termas, pátio central, jardim, tanque, triclinium com abside, lagares de azeite e vinho, casa rural, edifício religioso… A visita ao centro arqueológico, com a Drª Alexandra Gonçalves, Diretora Regional da Cultura, foi ilustrativa do progresso económico alcançado, das riquezas adquiridas e do esmero artístico alcançado. Por isso, fizemos questão de ler o poema de Jorge de Sena alusivo à cabecinha romana encontrada em Milreu, que se encontra no Museu Nacional de Arqueologia. E, ao fim do dia, no Hotel EVA de Faro, quando nos encontrámos com o Presidente da Câmara de Faro Dr. Joaquim Bacalhau, pudemos invocar um diálogo tão rico entre os vários tempos vividos pela capital algarvia…

 

PEREGRINAÇÃO LOULETANA
Na manhã de sábado iniciamos a peregrinação na Praça da República de Loulé, no Café Calcinha, depois de lembrarmos que estamos no maior concelho do Algarve, composto pelas três zonas tradicionais – litoral, barrocal e serra. Aqui invocamos o poeta António Aleixo, representado pela estátua da autoria do Mestre Lagoa Henriques. O Presidente da Câmara Dr. Vítor Aleixo e a Drª Dália Paulo dão-nos as boas-vindas. E a Drª Luísa Martins, na tradição do Professor Manuel Viegas Guerreiro, invoca o ambiente deste histórico Café (1929), que é o exemplo da memória viva, do património imaterial – e que se chamou Central, Carioca e Louletano. Lembramos nas tertúlias do Calcinha o Doutor Bernardo Lopes, o nosso João Semana, com lugar certo neste ponto de encontro, que celebrizou os folhados de doce de ovos, que são imperdíveis. Falamos do Dr. Frutuoso da Silva, ilustre jurista, que também tinha aqui lugar certo… Seguimos para a maravilhosa Igreja da Senhora da Conceição das Portas da Vila, mandada erigir aquando da Restauração da Independência (1640) – com altar precioso de talha dourada, cobertura de azulejos de grande qualidade artística representando cenas da vida da Virgem e referências aos resultados das investigações arqueológicas sobre as muralhas e as portas da Vila. E segue-se a entrada na autêntica gruta das Mil Maravilhas – com a Drª Isabel Luzia. Fazemos o percurso arqueológico e histórico deste território riquíssimo e deparamo-nos com o célebre “Metoposaurus Algarviensis”, com 227 milhões de anos, antepassado dos dinossauros, e exemplo único descoberto na Rocha da Pena (em Salir). É natural a emoção posta na alusão a esta descoberta que abre perspetivas científicas, que a UNESCO segue com atenção. O sentido pedagógico ressalta neste núcleo onde seguimos do Paleolítico até ao Neolítico, reconhecendo a importância da presença megalítica do Ameixial com as Antas da Pedra do Alagar e de Beringel. Anuncia-se o desenvolvimento de um centro interpretativo onde a Ciência e a Cultura se encontram naturalmente e continuarão a aprofundar essa relação.

 

MILHARES DE VISITANTES
É reconfortante ver milhares de pessoas pedestres, motards, cicloturistas…), visitando os monumentos, frequentando o mercadinho, sentindo o património cultural como presente. E é o momento de chegarmos aos Banhos Islâmicos, projeto de Loulé, como não encontramos outro em Portugal. O edifício «Hammam» -, no coração da cidade constitui um fator essencial para o melhor conhecimento do período anterior à reconquista cristã, sabendo-se da importância para a cultura muçulmana do ritual da limpeza, corporal e espiritual. De facto, mesmo depois da reconquista e do foral concedido por D. Afonso III as práticas tradicionais mantiveram-se, sendo reservada para o rei a posse dos banhos públicos. Atente-se, aliás, na sala quente, na sala temperada e na pequena parte da sala fria, ou nas chaminés… E antecipamos a possibilidade de usufruir a memória. Antecipamos o que será no futuro próximo um verdadeiro exemplo de como se deve cuidar da memória histórica, arqueológica e patrimonial… E sentimos o projeto “Loulé Criativo”, com os caldeireiros, os oleiros e a oficina da empreita de palma, para culminarmos nos ateliês do Convento do Espírito Santo do “Loulé Design Lab”. Património material e imaterial e criação contemporânea – como a Convenção de Faro nos ensina. Almoçamos na Quinta do Moinho, junto da Mãe Soberana, vemos o Centro Cultural de Almancil e a fulgurante igreja de S. Lourenço com os azulejos de Policarpo de Oliveira Bernardes e da sua oficina – e vamos até ao Paço do Concelho para debater os “Itinerários Culturais e o desenvolvimento local”, com o Arquiteto Fernando Pessoa – que propõe como símbolo para o património natural e paisagem: a pega azul ou charneco, que o Algarve apenas partilha com o Japão… Urgia ilustrar a força mobilizadora do património cultural. E merecemos um delicioso jantar no Monte da Eira, como um simpático javali suculento e macio… E no domingo de manhã, como não poderia deixar de ser, foi Alte de Cândido Guerreiro que recebeu principescamente a nossa missão – para dizer que o património cultural tem a dimensão humana, tradição e entusiasmo.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de outubro de 2018.

 

Sob os auspícios da UNESCO, Hélio Jaguaribe, há poucos dias falecido, coordenou um notável quadro panorâmico intitulado “Um Estudo Crítico da História” (Paz e Terra, 2001), publicado em dois volumes. A obra é fundamental e o seu autor dos mais lúcidos pensadores contemporâneos.

 

 

FASCINANTE PERSONALIDADE
A personalidade de Hélio Jaguaribe (1923-2018) foi das mais fascinantes que conheci. Encontrei-o primeiro em S. Paulo graças a Álvaro de Vasconcelos e Celso Lafer. O seu entusiasmo era contagiante. Era um apaixonado de Portugal. Conhecia como ninguém a nossa história e admirava profundamente todos quantos contribuíram para a unificação do Brasil. Em serões intermináveis recordava a obra de Pombal e de D. João VI. E costumava contar como se salvou em 1972 a palmeira plantada pelo Príncipe Regente no Jardim Botânico do Rio. Fulminada por um raio, a Palma Mater, Palmeira real, pôde ser substituída pela Palma Filia, que perpetua a memória das raízes. E, no fundo, foi o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves que consumou a independência brasileira em 1815, antes da proclamação do Ipiranga de 1822… Quando falava, transmitia a agudeza da sua inteligência, mas sobretudo uma enorme capacidade de entender a história e a economia como realidades vivas. Com fortes raízes luso-brasileiras, filho de um general brasileiro, distinto cartógrafo, e de uma portuguesa originária de uma família do vinho do Porto, frequentou em Portugal a formação básica e foi Diplomado em Direito pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro (1946). Em 1953, depois de exercer o jornalismo, esteve entre os fundadores do Ibesp – Instituto Brasileiro de Economia, Sociologia e Política, que dirigiu. Aí se publicou a importante revista “Cadernos do Nosso Tempo”. Até aos anos sessenta esteve ligado à gestão de empresas familiares. Foi administrador da Companhia de Ferro e Aço de Vitória, até 1964. Hélio pôde, assim, ligar a reflexão política e social a um rigoroso conhecimento da realidade económica. O Ibesp evoluiria, no mandato do Presidente Café Filho, para o Iseb – Instituto Superior de Estudos Brasileiros, do qual Jaguaribe se afastaria mais tarde por discordar da orientação organizativa, depois de ter sido fortemente incompreendido pela sua crítica ao risco do isolamento em “O Nacionalismo na Atualidade Brasileira” (1958), onde considerava que o protecionismo atrasaria drasticamente o desenvolvimento do país. O golpe militar de 1964, que derrubou o governo de João Goulart, levaria Jaguaribe para um exílio voluntário, nos Estados Unidos, onde ensinou nas Universidades de Harvard, Stanford e MIT, até 1969. Então regressou ao Brasil, já com um grande prestígio intelectual, como diretor do Conjunto Universitário Cândido Mendes e depois no Instituto de Estudos Políticos e Sociais.

 

O FUTURO DO BRASIL
A sua reflexão sobre o futuro do Brasil revelou-se premonitória e essencial na preparação da democratização do país e das fundamentais reformas económicas de Fernando Henrique Cardoso. Durante a Presidência de José Sarney coordenou o projeto Brasil 2000, cujos resultados foram publicados em 1986 na obra “Brasil –Para um Novo Pacto Social”, dando lugar, dois anos depois, a um novo volume intitulado significativamente “Brasil – Reforma ou Caos”. Em 1988 é um dos fundadores do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), ao lado de Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso, Franco Montoro e José Serra. No governo de Fernando Collor aceitou exercer as funções de Secretário da Ciência e Tecnologia, enquanto Celso Lafer era Ministro de Estado e das Relações Exteriores. Em 2005 foi eleito para a cadeira nº 11 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo a Celso Furtado. Em reconhecimento do seu contributo científico recebeu os Doutoramentos Honoris Causa pelas Universidades de Mainz (1983), Paraíba (1992) e Buenos Aires (2001). Para Hélio Jaguaribe, a “estrutura profundamente dualista da sociedade brasileira”, relacionada com o passado remoto da escravidão e próximo das tecnologias intensivas de capital, conduziu a moderna sociedade industrial à incapacidade para absorver as grandes massas sociais. Se, desde meados da década de 40 à década de 60, foi possível administrar o país como uma democracia de classe média, as crescentes pressões sociais anunciadas no segundo governo de Getúlio Vargas e agravadas no tempo de Goulart, levaram as classes médias a defender a intervenção militar, que interrompeu o processo democrático. Entretanto, com um novo impulso da industrialização, o país converteu-se na oitava potência industrial do ocidente. Mas industrialização, a urbanização, a generalização do acesso aos meios de comunicação tornaram a partir de fins da década de 70, inviável a permanência da ditadura militar, do mesmo modo que a restauração de uma democracia de classe média. O país exigiu uma democracia social capaz de integrar as massas. Sob a extraordinária direção de Tancredo Neves, foi possível fazer implodir o regime militar, com a ajuda dos mecanismos que montara para se manter. E assim o PMDB converteu-se num amplo conglomerado de tendências diversificadas. E a aliança com setores dissidentes do situacionismo permitiu a Tancredo Neves as condições para a vitória, através do Colégio Eleitoral. A morte de Tancredo, na véspera de tomar posse trouxe para a chefia do Estado o vice-presidente José Sarney, antigo presidente do partido situacionista o que não permitiu, nem ao PMDB nem ao presidente assumir a linha programática definida, apesar da retórica. Mas a situação esgotou-se. Com a aprovação da Nova Constituição, a criação do Partido da Social Democracia Brasileira – PSDB, o Brasil tornou-se de todos os países da América Latina aquele em que, segundo Hélio Jaguaribe, melhor garantiu a exigência de um projeto social-democrata, com um acelerado desenvolvimento econômico, apoiado por uma economia de mercado dinâmica e por uma acelerada mudança social, capaz de promover a incorporação das grandes massas em condições superiores de qualidade de vida, de capacitação e de participação.

 

ESTUDO FUNDAMENTAL
Entre 1994 e 1999, sob os auspícios da UNESCO, Hélio Jaguaribe coordenou um notável estudo panorâmico intitulado “Um Estudo Crítico da História”, publicado em dois volumes, onde o sociólogo, o economista e o historiador se encontram na análise da evolução complexa e incerta do desenvolvimento humano. Aí se apontam duas saídas para a globalização: uma teria a ver com um modelo de integração aberta, de que o Mercosul seria exemplo, e outra teria a ver com as novas possibilidades de inovação científica e tecnológica mercê de “join-ventures inteligentes” de que as regiões emergentes poderiam ser beneficiárias. Infelizmente, a evolução não tem confirmado essa tendência, o que não significa que se tenha perdido a pertinência das análises. As ideologias vivem um compasso de espera, que ninguém sabe quanto vai durar, as guerras religiosas voltaram na Europa nos Balcãs ou na Chechénia e continuam no Médio Oriente, com incidência especial na Palestina, sem esquecer o ataque às torres gémeas de Nova Iorque ou o terrorismo do Daesh. Hélio Jaguaribe manteve-se sempre atento às transformações e às ideias. Nada para si poderia ser aceite sem crítica e debate. Cultivava a ideia de um desenvolvimento orientado e não necessariamente espontâneo. O mercado era um dos elementos, mas não poderia esquecer o método do planeamento bismarckiano… Ah, que saudades desses serões onde a história fluía como a vida – com belo queijo da serra e sempre com um cálice sagrado de Porto.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 24 a 30 de setembro de 2018

 

«Sua Excelência, de Corpo Presente» (D. Quixote, 2018) de Pepetela é o retrato implacável de um país imaginário, situado em África, visto por um alto dignitário que inesperadamente morre…

 

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COMPREENDER A CULTURA ANGOLANA

Não podemos compreender a cultura angolana contemporânea sem lermos a obra muito rica e multifacetada de Pepetela, Prémio Camões de 1997. Pode dizer-se mesmo que, ao longo do tempo, Artur Carlos Maurício Pestana dos Santos, nascido em 1941, em Benguela, tem procurado refletir de modo dinâmico sobre a evolução da história de Angola – olhando-a não nos seus paradoxos e dificuldades, mas na compreensão das suas potencialidades. Desde “Mayombe” (1980) até “Se o Passado Não Tivesse Asas” (2016) encontramos uma caminhada complexa e interessante, na qual a cada passo encontramos novos problemas e novos desafios. E agora, com “Sua Excelência, de Corpo Presente” talvez se feche um ciclo na análise da evolução da sociedade angolana. Para o romancista trata-se de compreender que há ciclos na vida dos povos, dos quais depende o progresso, o desenvolvimento e a emancipação. Veja-se, por exemplo, em “A Geração da Utopia” como a independência angolana gerou acontecimentos e sentimentos contraditórios que culminaram em mil dramas. Numa análise de diversos momentos-chave, passamos de um entusiasmo épico a uma progressiva instalação, que torna os interesses imediatos, a burocracia, o dinheiro e o favor mais importantes que os valores éticos. Olhando a vida de Pepetela, compreendemos que há uma evolução pessoal em que o sentido crítico e o talento se vão aperfeiçoando. Tendo passado, na sua formação em Portugal, como estudante da Casa dos Estudantes do Império, do Instituto Superior Técnico para a Faculdade de Letras – e contando com a rica experiência anterior em Benguela e no Lubango – cedo Pepetela ligou uma preocupação humanista e a consciência da emancipação social e política, que obrigava a criação de um novo Estado independente e desenvolvido. Como salienta em “As Aventuras de Ngunga”, haveria que ligar as raízes e as tradições do povo angolano ao espírito emancipador e revolucionário. A partir da necessidade de revisitação da história, Pepetela refletiu profundamente sobre a tensão entre a continuidade e a mudança. Pode dizer-se que essa é uma preocupação contínua – que articula a consciência política, o sentido crítico, a compreensão do tempo e da sua evolução e a consciência de um mundo melhor. Tendo sido Vice-Ministro da Educação do Governo de Agostinho Neto (1975-1982), foi chamado à responsabilidade de encontrar, num sector-chave, as medidas indispensáveis nos domínios didático e pedagógico, da coesão social e da dignidade humana, para preparar os jovens angolanos para uma fase decisiva da sua história coletiva. Só a aprendizagem, a experiência e o exemplo podem permitir uma emancipação eticamente fundamentada.

 

ENTRE METÁFORAS E DESAFIOS

Em “Yaka”, romance histórico sobre a colonização de Benguela, o romancista usou a metáfora de uma escultura de madeira, símbolo guerreiro, para articular a consciência das raízes identitárias e do novo espírito da nacionalidade. Pepetela compreende bem o tema da legitimidade numa sociedade que se pretende mais justa – as raízes fortalecem-se graças à capacidade de responder com instrumentos do presente aos desafios que se reeditam. Pensando nas origens da sua própria família, Pepetela procurou investigar a evolução histórica, designadamente em “A Gloriosa Família”, cujo tema nos leva ao século XVII. O que está em causa, porém, é compreender melhor Angola de hoje. A dimensão épica de “Mayombe” evolui para uma perspetiva crítica de “A Geração da Utopia” (1992), onde a história é confrontada com a dura tomada de consciência das divisões e contradições de uma sociedade atravessada pela exploração colonial, pela libertação, pela guerra civil e por um compasso de espera que obriga à reflexão crítica. A emergência da corrupção e da burocracia obriga a uma séria atitude de questionamento. Com Jaime Bunda, o detetive contraditório e vacilante, que é obrigado a entrar no bas-fond, o escritor visa o método satírico, que reforça o sentido agudo da crítica. Ao tratar temas muito sérios, Pepetela fá-lo reforçando os traços caricaturais da sociedade que melhor revelam os elementos dramáticos de um tempo, que em lugar de cumprir os melhores desejos esperançosos dos idealistas da libertação deixa-se arrastar pelas piores tentações do poder, que corrompe e atrai os corrompidos. Por outro lado, o realismo mágico começa a emergir na sua obra, com sentido imagético que não esquece a tradição africana e o culto da compreensão dos mitos – marcado de algum modo pela desilusão. E o tema policial associa-se à crítica do contexto internacional e às ameaças de dependência. O mundo dominado pelas superpotências, os interesses dos grandes blocos económicos, a cegueira relativamente às desigualdades e às injustiças, eis o que encontramos como pano de fundo da procura de descobrir os sintomas de uma doença política, económica e social…

 

QUE UTOPIA?

Oiçamos afinal, o escritor num momento chave de “A Geração da Utopia”: “Isso de utopia é verdade. Costumo pensar que a nossa geração se devia chamar geração da utopia. (…) Pensávamos que íamos construir uma sociedade justa, sem diferenças, sem privilégios, sem perseguições, uma comunidade de interesses e pensamentos, o Paraíso dos cristãos, em suma. A um momento dado, mesmo que muito breve nalguns casos, fomos puros, desinteressados, só pensando no povo e lutando por ele. E depois, tudo se adulterou, tudo apodreceu, muito antes de se chegar ao poder. Quando as pessoas se aperceberam que mais cedo ou mais tarde era inevitável chegarem ao poder, cada um começou a preparar as bases de lançamento para esse poder, a defender posições particulares, egoístas. A utopia morreu. E hoje cheira mal, como qualquer corpo em putrefação. Dela só resta um discurso vazio”. A lucidez do crítico está perante nós. E lendo com atenção, poderemos entender por que razão o sentido crítico de «Sua Excelência, de Corpo Presente» corresponde a uma exigência talvez paradoxal – a de não abandonar o sentido crítico, a de compreender as razões da sociedade imperfeita e a de prosseguir um caminho de emancipação individual mercê de um desenvolvimento comum. Para Pepetela: “Será muito cedo para lançar foguetes, mas não se poderá negar haver uma ‘brisa nova’ soprando nas nossas faces. Que as flores tenham oportunidade de desabrochar e que não percamos (nós continente, nós país) o comboio da modernidade e do progresso, que parece estar ao alcance da mão, é o meu desejo”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de setembro de 2018

 

Retábulo das Matérias - 1956-2013” (INCM, 2018) de Pedro Tamen, na coleção Plural, permite a revisitação da obra de um grande poeta, compreendendo a importância e o significado de um percurso ricamente singular.

 

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ARTE DA MEMÓRIA

 

Teria sido Simónides de Cós (séc. V, a. C.) o primeiro cultor da Arte da Memória. Ele disse ser preferível a arte de esquecer que a de lembrar. E hoje quando se fala tanto da memória informática na parafernália dos computadores, é bom voltar a esse entendimento, segundo o qual a sabedoria se faz sempre de lembrança e de esquecimento, para que não se confunda com ressentimento e favoreça a experiência e a aprendizagem. Por isso, ao sair do campo de concentração Joseph Rovan disse que esqueceria a cara dos carcereiros, mas lembraria sempre que importava combater a barbárie, pelo respeito e não pela vingança, pela dignidade e não pela violência. Memória Indescritível de Pedro Tamen (2000) ilustra bem esse cuidado especial com a memória, e essa relação paradoxal entre viver e reviver. A epígrafe de Sá de Miranda é significativa dessa contradição fecunda, que alimenta a existência. “Alma, que fica por fazer desde hoje / na vida mais, se a vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge / já quanto a vista alcança, a não alcança”. E o poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. De facto, não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre, por isso, indescritível: “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. Daí a invocação de Sá de Miranda, que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória é também essa perplexidade que se manifesta, entre o alcançar e não alcançar o que a alma diz.

 

 

LUCIDEZ CRÍTICA

 

Com uma lucidez crítica premonitória, e ainda numa fase precoce da produção poética do autor, António Ramos Rosa afirmou: “Vejo na poesia de Pedro Tamen uma das mais sérias tentativas para dar à atividade poética aquele sentido do sagrado, sem o qual não se pode atingir a verdadeira dimensão interior. Violentamente dramático, quase sempre, este poeta restabelece a circulação entre o humano e o elementar infundindo à linguagem poética uma energia e expressividade que superam a mera agressividade do bizarro, tantas vezes esterilmente ofensiva em alguns poetas surrealistas” (in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro, 1968). E o certo é que o tempo veio a confirmar este carácter sagrado e dramático – e um modo especial de lidar com as palavras, sem esquecer a ironia, a dúvida, a incerteza e a compreensão da realidade através do seu avesso. É verdade que o tempo trouxe muitas mudanças, mas Ramos Rosa não se enganou na linha fundamental revelada já nessa altura pelo poeta. Estamos perante um percurso coerente e seguro, de quem sempre aliou a ação e a reflexão: “Formado em direito e solidão, / às escuras te busco enquanto a chuva brilha. / É verdade que olhas, é verdade que dizes. / Que todos temos medo e água pura” (como disse em Escrito de Memória, 1973).

 

 

PRESENÇA DA PALAVRA

 

Na relação com as palavras, importa lembrar que, além de poeta seguro e talentoso, com indiscutíveis provas dadas, Pedro Tamen é um tradutor excecional, com larguíssima experiência com notáveis resultados. Além das traduções de final de sessenta, sob o pseudónimo M. Rodrigues Martins, temos um rol notável, desde Tomás Kêmpis (com Isabel Bénard da Costa) até Gustave Flaubert, Marcel Proust, Georges Perec, Pascal Quignard, Javier Marias ou Michel Houellebecq. Homem de cultura, Pedro Tamen tem um percurso ligado ao que António Alçada Baptista designou como a “Aventura da Moraes”. Vindo da revista “Anteu – cadernos de cultura” (1954), passaria pelo jornal “Encontro” da JUC, onde seria chefe de redação (1955-1957), dirigiu o Centro Cultural de Cinema (CCC) e publicou o primeiro livro Poema para todos os dias (1956). Terminado o curso de Direito, é incorporado no Exército uma primeira vez (1957), mas o ano de 1958 vai significar uma mudança – que se prende aos sobressaltos causados pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, pelo memorando do Bispo do Porto a Salazar, que levaria o prelado ao exílio, e ao início do pontificado de João XXIII. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação política e religiosa. Pedro Tamen entrou como seu sócio, aos quais se juntou uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva, E lança o Círculo da Poesia, com o inesquecível símbolo solar de José Escada, onde publica O Sangue, a Água e o Vinho. Anima as coleções Circulo do Humanismo Cristão e “O Tempo e o Modo” (que dará título à revista em 1963). Segundo António Alçada, havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formula o programa – simples e claro: “a ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo”. A Morais afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista concretiza-se em 29 de janeiro de 1963 – António Alçada Baptista era o proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, além da participação ativa de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Não era, porém, uma revista de católicos. Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista “Esprit” um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços, havia outros católicos de um setor mais técnico, como Adérito Sedas Nunes e Alfredo de Sousa, mas havia também jovens estudantes da greve de 1962, como Jorge Sampaio, Jorge Santos, Manuel de Lucena e José Medeiros Ferreira, e havia ainda oposicionistas clássicos como Mário Soares e Francisco Salgado Zenha… Sobre a abertura aos não católicos, João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé Maria para que o espírito nos iluminasse”. E a votação fez-se – cinco votos a favor, dois contra e a abertura foi decidida!

 

Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo. Os critérios que usou desde o “Círculo da Poesia” até à Gulbenkian, demonstram bem como pôde rodear-se dos melhores, num momento rico da nossa criação cultural. O seu talento foi um natural complemento da qualidade de escolha. Usando a expressão de Ruy Belo sobre a geração dos “vencidos do catolicismo”, a verdade é que estes, como os ancestrais de 1870, não foram vencidos no largo prazo, sendo símbolos vivos do que podemos designar como a “paixão crítica”. Quando foi inventada a expressão “vencidos da vida”, havia um misto de ironia e de revolta. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, foi o sentido crítico que venceu nas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” com a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de setembro de 2018

 

O códice número 477 da Biblioteca Nacional de Portugal, intitulado “Crónica de El Rei Dom Sebastião, Décimo Sexto Rei dos de Portugal na qual se contém, por maior, os sucessos do seu Reinado e vida”, da autoria de Miguel Pereira (1584), constitui o mais antigo relato sobre a vida e reinado de D. Sebastião que chegou até nós.

 

 

UM TEXTO IMPORTANTE
Até ao momento contávamos, além de obras esparsas, como a Crónica de Bernardo da Cruz (1586), podendo ainda referir-se o controverso texto de Girolamo Franchi Cosnestaggio (1585) e a brevíssima relação da Batalha de Alcácer-Quibir de Goes Loureiro (1595). Recorde-se que a Crónica de Frei Bernardo da Cruz, frade menor e capelão-mor da armada de D. Sebastião, que não há certeza de presenciado a batalha, foi publicada pela primeira vez por Alexandre Herculano em 1837. O manuscrito que serve de base à publicação da presente obra é de 1795, sendo uma cópia de outra anterior, que se diz ter sido “tirada fielmente do original”, sendo segundo testemunho do copista, a que Barbosa Machado encontrou ou viu na Biblioteca do Duque de Lafões. A Crónica, como é fácil de ver, corresponde a um roteiro que deveria ter sido escrito para ulterior desenvolvimento, dado o teor parco dos textos. O seu interesse assenta, contudo, no facto de haver uma indicação suficientemente precisa do conteúdo essencial. É certo que faltam pormenores, mas deparamos com a base fundamental que nos permite compreender o curso dos acontecimentos. Não nos fazem falta as considerações pessoais que se adivinham. O texto cobre 59 capítulos curtos, onde se referem os elementos mais significativos da vida do Rei Desejado. Os primeiros 14 capítulos referem-se à regência de D. Catarina, viúva de D. João III, com as vicissitudes conhecidas, e à do Cardeal D. Henrique. Fala-se depois do cerco de Mazagão e do seu levantamento, da chegada ao trono do jovem monarca, de diversas medidas de governo adotadas, designadamente no tocante à desvalorização da moeda (abatimento às valia dos patacões), à evolução legislativa e judiciária, à grande peste (1569), às intervenções militares em África (como em Monomotapa), ao cerco de Goa e Chaul, à exploração das Minas de Achém em Angola, à ida do rei a Ceuta e Tânger, à crise económica e às fomes em Entre-Douro-e-Minho e Beira, até ao embarque do Rei para Alcácer-Quibir. Fica claro que Filipe II de Espanha, tio do Rei, tentou por diversos meios demover D. Sebastião da empresa de África, pedindo mesmo ao Duque de Alba, D. Fernando Álvarez de Toledo y Pimentel, que enviasse um parecer circunstanciado sobre os perigos da guerra. Afinal, apesar da vitória dos cristãos na Batalha de Lepanto sobre os turcos, a conjuntura apresentava-se largamente desfavorável relativamente a uma intervenção em Marrocos, como veio a acontecer. O Rei persiste no intento, procurando mobilizar a fina-flor da nobreza – que, em grande maioria, sente no íntimo que se trará de uma aventura perigosa. Prevalece a ideia da pouca ponderação do monarca. A posição do Cardeal D. Henrique não oferece dúvidas, sendo claramente contrária ao projeto.

 

A PARTIDA PARA ÁFRICA
Até que finalmente na manhã do dia de S. João de 1578 ocorre a partida, com perto de mil velas em que entravam Galés e Galeões, Naus, Caravelas e “outras embarcações de toda a sorte, vela e remo”. Se a racionalidade vê com reserva a empresa, o aventureirismo excede-se em número e dimensão, o que também não facilitou a criação de condições favoráveis. Estava-se no verão, as condições atmosféricas eram desfavoráveis, pelo extremo calor, que reduzia drasticamente a eficácia das tropas mobilizadas. Na descrição rápida de que dispomos, depressa percebemos que tudo se encaminha para um desastre. Após 4 ou 5 horas de combate intenso, verifica-se a completa derrota dos exércitos de D. Sebastião e do seu aliado Abu Addallah Mohammed II Saadi (Mulei Mohammed) com quase 9 mil mortos e 16 mil prisioneiros, nos quais se inclui grande parte da nobreza portuguesa. A batalha ficaria conhecida como “dos três Reis”, todos mortos. D. Sebastião, ao finar-se, abriu de imediato uma grave questão dinástica. A morte deu-se em combate, tendo o seu corpo sido reconhecido por um grupo de nobres portugueses. Abu Abdallah Moahmmed II morreria afogado no rio Mocazim (Mekhazen) e, em sinal trágico, o vencedor da contenda Abdal-Malik I Saadi (Mulei Moluco), tio do aliado de D. Sebastião, também se finaria durante a batalha, uma vez que a sua saúde já era muito precária, tendo mesmo sido obrigado ao esforço de aparecer montado no seu cavalo antes da batalha, numa demonstração inútil de autoridade. Esta morte abriria caminho ao reinado de Amade Almançor Saadi (1578-1603). Precocemente desaparecido aos 24 anos, D. Sebastião é descrito como homem de estatura média, “alvo, loiro e, em boa maneira afigurado, dobrado em carnes e de grandes forças”. Sem grande pormenor e originalidade, a figura do rei é enaltecida pela elegância - “airoso a pé e muito a cavalo, principalmente à gineta, tomava lança com tanto ar, e seguro na sela, que obrigava a quem o via folgar de o imitar”. Trabalhador, determinado, “atrevido mais do que convinha a Rei”. Como caçador era, no entanto, imbatível, e ninguém ousava concorrer com ele. Nos amores, nada se lhe conhece. “Foi tão casto e honesto, que nunca lhe sentiram juntar-se com mulher, nem se inclinar à Damas do Paço no modo que nos Príncipes se permite e lhes é dado”…

 

MAUS AUGÚRIOS
Mas, ao autor não escapa o mau agoiro que rodeia a preparação da batalha. Dir-se-ia que tudo apontava para o desastre. E que sinais foram esses? A passagem de um cometa, o fogo ateado nas tercenas da pólvora, os sinais proféticos aparecidos em Trancoso, um ano antes, com a representação de gente de guerra, tal como se referia o livro dos Macabeus. Se tudo isto não fosse já suficientemente perturbador, ainda havia referência ao texto de S. Lucas sobre os desenganos da guerra, texto da liturgia diária da Missa celebrada perante o Rei. Ainda por cima, o Alferes-Mor encarregado de trazer o estandarte, embicou com ele de modo que “foi causa da bandeira se inclinar de má feição”, ainda que não caísse. Tudo eram sinais perturbadores que culminariam no facto da Galé onde estava El-Rei, apesar do mar quieto, ter sido abalroada por outra embarcação, tendo-lhe quebrado o esporão. Maus agouros acumularam-se. É certo que o autor procura evitar essas considerações pagãs, mas a verdade que não passam despercebidas, como maus augúrios, devendo-se haver “por admoestações e avisos certos”.  

 

O SIGNIFICADO DO MITO…
O sebastianismo, analisado criticamente, tem sido considerado uma «prova póstuma da nacionalidade». Contudo, fácil é de entender que o sebastianismo não é de compreensão fácil. Pode ser visto como um «avatar delirante», mas mais do que isso é o símbolo de uma história complexa que alterna momentos gloriosos e decadentes, em que a fatalidade e a vontade se entrecruzam e se alimentam mutuamente. Qual a relação entre o messianismo judaico e a ideia nacional de um império futuro? Eduardo Lourenço liga o mito cultural de Alcácer Quibir a uma «estrutura de ausência», vista como corolário do tempo em que substancialmente perdemos a independência, ainda que juridicamente tal nunca se tenha consumado verdadeiramente. E é assim que Portugal aparece como «ausente de si mesmo e esperando-se nessa ausência». Interrogando-se sobre os mitos portugueses, Eduardo Lourenço demarca-se das leituras negativistas e fatalistas, uma vez que considera, com Oliveira Martins, que a «estrutura de ausência» não pode confundir-se com a incapacidade de espera. E o certo é que o autor de “Portugal Contemporâneo” sempre se dispôs a crer em uma «Vida Nova», capaz de fazer regressar a pátria a um caminho de vontade e prosperidade. Ao contrário do que se exigiria, o sebastianismo, como mito, é uma prova póstuma da nacionalidade, mas também sonho ou vaga esperança messiânica – e neste ponto o ensaísta contemporâneo chega a Fernando Pessoa. E o poeta pensa no mito cultural como impulso libertador. No pensamento de Eduardo Lourenço estamos perante um «mito», mas não uma esperança de índole transcendente ou religiosa. É o «herói simbólico» que se apresenta – na tradição do ciclo bretão, do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda. E o tema do herói merece atenção. Por contraponto a D. Sebastião, há Nun’Álvares, os Filhos de D. João I e o Príncipe Perfeito. Contra o fatalismo, surge a vontade de Herculano temperada pela índole coletiva. Teixeira de Pascoaes ligou o sebastianismo à saudade lusíada (lembrança e desejo, de Duarte Nunes do Leão) e Costa Lobo procurou ancorar nas razões históricas as repercussões do cativeiro – desde as Cortes de Tomar a Dezembro de 1640. Lembramo-nos do Quinto Império de Vieira ou de Pessoa e é de um Império espiritual e cultural que se trata. Entrando de pleno no mundo dos mitos, Eduardo Lourenço chega ao século XX e longe de qualquer tentação ilusória, diz-nos, com clareza, que «o Portugal – D. Sebastião de Pessoa é todo-o-mundo-e-ninguém com ele Pessoa – D. Sebastião é ninguém-e-todo-o-mundo, um e outro, a “eterna criança que há de vir”, aquele que morre como particularidade nacional ou pessoal, para ser tudo em todos, exemplo de um mundo e de uma personalidade sem limites nem fim». Para o Padre António Vieira o que estaria em causa era um império sobrenatural, capaz de superar os «fumos da Índia» e as fragilidades que tinham conduzido a Alcácer Quibir. «Assim o que começou como um sonho de um Império redivivo termina com Pessoa em Império de sonho». E, deste modo, a propósito do «Desejado», Lourenço regressa à sua leitura histórica fundamental – da natureza imperfeita de Portugal como cais de partida e de chegada, do regresso ao infante D. Pedro das Sete Partidas, da compreensão da Europa como lugar de ambição mais amplo do que as suas fronteiras e de um universalismo heterogéneo de uma lusofonia de grandes diferenças e complementaridades, que obriga a entender os mitos e essa ligação extraordinária de reminiscências vicentinas de Todo o Mundo e Ninguém, metáfora de um império que se fez mundo fora na reunião de condições inesperadas e impossíveis, e de que o mais adequado símbolo é o herói picaresco por excelência da nossa literatura, Fernão Mendes Pinto.

 

Guilherme d'Oliveira Martins