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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 17 a 23 de junho de 2019

 

 

«As Terras do Risco» de Agustina Bessa-Luís (Guimarães Editores, 1994) serviu de base ao filme «O Convento» de Manoel de Oliveira (1995). É um caso curioso em que duas obras se completam e se antagonizam – dando origem talvez à mais notória crise entre dois autores que tão ligados se encontram em substância. Mas, como costumava dizer Oliveira – “Agustina fez o seu livro e eu fiz o meu filme”.

 

 

UM MISTERIOSO CONVENTO
Começamos pela sinopse oficial da obra de Agustina: «O romance decorre na Arrábida, onde há muitos séculos o homem conhece a confrontação com a sua própria obscuridade, dando-lhe às vezes o nome de Deus, outras de rei ou de poderes telúricos, terramotos e tempestades. É um romance que Goethe teria aberto, recomendando-o a Eckermann, mas sem o ler... É um livro elegante, insensível a tudo quanto é a ênfase do mistério, tornando-o tanto quanto possível trivial como a dedução dum criminologista». A trama do filme desenrola-se no misterioso convento, isolado na serra da Arrábida. Michel Padovic, investigador americano (John Malkovich) está apaixonado pela busca de uma pista histórica inédita e procura indícios de que William Shakespeare era um Judeu espanhol, descendente de gente expulsa da Península Ibérica pelos Reis Católicos e por D. Manuel, que teriam partido para Florença e daí para Inglaterra. Acompanhado pela mulher, Helène (Catherine Deneuve), trabalha na Arrábida, vindo a envolver-se com os restantes inquilinos do convento. Mas com que nos deparamos? Com a releitura do mito universal de "Fausto" – começado em Shakespeare, mas baseado em Goethe. A história é, no fundo, a de alguém que vende a alma ao demónio em troca do conhecimento. E Manoel de Oliveira trabalha o mito, demonstrando que Fausto existe em qualquer tempo. Assim, pode encarnar em Michel, que chega ao Convento, onde espera encontrar elementos que comprovem as suas teorias. Mas é por Hélène que se interessa o guardião do local, a figura algo sinistra de Baltar (Luís Miguel Cintra), que vive com Piedade (Leonor Silveira). Temos então vários tempos sobrepostos: o presente, a Idade Média (origem do convento) e a Antiguidade clássica, já que Hélène se transfigura em Helena de Troia.

 

DESENCONTRO E MISTÉRIO
João Bénard da Costa ficou muito ligado a este filme. Conhecia a serra como a palma das suas mãos. Manoel de Oliveira pediu-lhe por isso ajuda para fazer um levantamento dos lugares e das histórias da Arrábida, acabando a convidá-lo para participar no filme. “Numa das cenas, eu devia contar (disse João) à Catherine Deneuve a história do Convento Velho, que eu contei tantas vezes a tanta gente ao longo da minha vida. Lembro-me perfeitamente de ter pensado, naquele momento, que sentia estar a viver um sonho. Um ano antes, naquele mesmo sítio onde vou tantas vezes, até poderia ter imaginado esta cena, rido com ela e pensado que ela era um sonho. Mas não. Estava ali, com a Catherine Deneuve, a contar uma história da Arrábida”. E esse momento mágico ligava-se, no fundo, ao mistério de todo o filme e do próprio livro. "A verdade é que tenho vivido coisas que nunca pensei viver, que parecem fazer parte da dimensão do sonho, da dimensão do cinema. Nesse sentido, sou um homem privilegiado". De facto, todo o carácter mágico que rodeia “O Convento” estava bem patente nos vários planos apresentados. Havia uma história ficcional e duas presenças que se misturavam, a de Shakespeare e a de Goethe, a do teatro e a da literatura, ligando-as um mito que tanto entusiasmava Manoel de Oliveira e Agustina. Aqui entra o drama real. Agustina, por sugestão do seu amigo começa a escrever “Pedra de Toque”, sobre um dos lugares mais misteriosos e mágicos de Portugal. A escritora pensa em Depardieu e Deneuve, segundo a ideia do próprio Oliveira. No entanto, Agustina demorou-se na escrita, pelo menos mais do que o realizador necessitaria. Então este falou a Agustina para que ela resumisse o enredo. Assim foi, e Oliveira tirou-se de seus cuidados e elaborou um guião próprio, dando início ao processo de concretização do filme. E apresentou o filme como “inspirado na ideia original de Agustina Bessa-Luís”. Resultado? Agustina não gostou. Recusou-se a ver o filme e qualificou o episódio como “desencontro total” e “colaboração falhada”. “O Manoel de Oliveira teve sempre toda a liberdade, liberdade de que ele abusou”…

 

UMA ZANGA PASSAGEIRA
A zanga foi séria, mas o certo é que o tempo aplainaria esse acidentado episódio. Agustina seguira uma via algo diferente da de Oliveira. Teria preferido seguir a obsessão do investigador tão concentrado no seu estudo, correndo o risco de se confundir com ele. Pelo contrário o cineasta optara por enfatizar a história dos ciúmes entre duas mulheres. E, como bem sabemos, Agustina sempre repetiu que “o Manoel de Oliveira filma filmes de amor, e o amor não entra nos meus romances”. A verdade é que não podia ser durável a zanga, por várias razões – de facto o que houve com “Pedra de Toque”, que depois se tornou “Terras do Risco”, por maior fidelidade à Arrábida, que passou à tela como “O Convento”, foi um mero equívoco, gerado pela pressa de Oliveira e pela falta de um real acerto de ideias quanto ao projeto. No entanto, entre Agustina e Manoel há muito que havia preocupações e ideias comuns ou próximas. Quando vemos o filme, percebemos que poderia ter sido ela a principal responsável pelas ideias, com mais ou menos peso dos ciúmes e dos desencontros. Talvez tenha existido no cineasta um excesso de confiança no exercício de seguir o que a autora teria feito. Mas o certo é que podemos ler “Terras do Risco” e analisar em paralelo o filme. A complementaridade lá está, numa distância muito menor do que a que encontramos em tantas transposições de romances para a tela… Passada a tempestade, no ano seguinte Oliveira voltou a lançar a Agustina o desafio para escrever sobre mulheres e homens, num cenário em que dois casais, um mais novo e outro mais velho, se encontram nos Açores. E assim o filme “Party” (1996) vai marcar uma rápida reconciliação – sendo curiosa a forma como Agustina vai aos Açores para conhecer pessoalmente Michel Piccoli e Irene Papas, que contracenam com Rogério Samora e Leonor Silveira. Surpreendida, a escritora depara-se com a filmagem de uma garden party em plena tempestade – com chuva, neblina e vento forte… E o certo é que Agustina concluiria que a nova colaboração cinematográfica foi interessante. Manoel de Oliveira fez a distinção entre os diálogos de Agustina Bessa-Luís e o argumento do próprio cineasta. E a vida seguiu em frente, entre os dois amigos – fundamentais na história da cultura portuguesa hoje. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de junho de 2019

 

 

A atribuição a José Mattoso do Prémio Árvore da Vida - Padre Manuel Antunes constitui um justo reconhecimento de uma carreira exemplar de historiador, ensaísta, pedagogo e pensador a quem muito deve a cultura portuguesa.

 

 

IDENTIDADE NACIONAL
A propósito da identidade nacional, pode dizer-se que o contributo dado por José Mattoso corresponde à consideração da diferença como fator de distinção e de complementaridade – e não como elemento de autossuficiência ou de suposta superioridade. “A identidade nacional, tal como existe hoje, resulta de um processo histórico que passou por diversas fases até atingir a expressão que hoje conhecemos”. Daí que as simplificações se revelem erróneas, sobretudo quando procuram ligar a identidade a elementos naturais, fazendo coincidir a nação com um modelo fechado ou completo de organização política e social. Se no caso português há especificidades, devem elas ser analisadas, em nome da complexidade e do conhecimento dos factos históricos. É verdade que, como muitos autores têm reconhecido, a coincidência entre Estado e Nação, como encontramos no caso português, exige a compreensão de que a encruzilhada de influências do “melting pot” demonstra a importância do intercâmbio de contributos, dados e recebidos, que permitem enriquecer a identidade como realidade aberta e dinâmica, como acontece com o património cultural, que não é uma reminiscência do passado, mas expressão da própria vida. As identidades são tanto mais ricas e fecundas quanto maior disponibilidade houver para a respetiva renovação e valorização. Os últimos anos, o fim do império, a perda das colónias, o retorno, a abertura democrática, a opção europeia permitiram compreender que “a História passou (…) a poder narrar um passado real, com ganhos e perdas, com avanços e recuos, fidelidades e traições, sucessos ou insucessos, unanimidades e contradições; e apesar de tudo como um passado constitutivo da coesão nacional, pelo simples facto de ser um passado comum e de resultar de uma experiência vivida em conjunto ou tornada memória coletiva” (A Identidade Nacional, Fundação Mário Soares – Gradiva, 1998, p. 104). Num tempo em que surgem nuvens negras no horizonte a propósito do fechamento das identidades, da emergência dos nacionalismos e de tentações absolutistas ou relativistas, a leitura da obra de um historiador como José Mattoso constitui motivo de tomada de consciência da responsabilidade cívica e da mediação das instituições como pedra de toque da democracia.

 

ENTRE O CONVENTO E A ACADEMIA
Nascido em 1933, José Mattoso dedicou a sua vida à docência universitária e ao estudo da história das ordens religiosas e das sociedades europeias dos séculos X a XIII. A Identificação de Um País (1985) é uma obra fundamental da historiografia do século XX, que deve ser colocada junto da melhor literatura moderna, desde Alexandre Herculano. A Nobreza Medieval Portuguesa (1982), O Reino dos Mortos na Idade Média (1996), Os Poderes Invisíveis (2001), ou D. Afonso Henriques (2006) constituem corolário lógico de uma investigação persistente, inteligente e rigorosa que nos permite compreender a uma nova luz as raízes da História portuguesa e da nossa cultura. De salientar ainda a direção de obras coletivas, como História de Portugal, Circulo de Leitores (1993-94), História da Vida Privada em Portugal (2010-11) e Património de Origem Portuguesa no Mundo, Fundação C. Gulbenkian (2010). Saliente-se que este último trabalho constitui base de uma plataforma dinâmica, em permanente atualização, que vive animada pelo espírito de abertura e de reconhecimento da importância de uma leitura dinâmica e crítica do Património Cultural, não como realidade do passado, mas como fator de enriquecimento mútuo e de criação de valor. Em 1987 recebeu o Prémio Pessoa e foi ainda diretor da Torre do Tombo (1996-98). Entre 2000 e 2005, colaborou na recuperação dos Arquivos de Timor-Leste, em colaboração com a Fundação Mário Soares. A sucinta referência destes elementos biobibliográficos tem de ser lida em ligação com a riquíssima reflexão espiritual e científica, que revela uma personalidade fascinante, sem cujo conhecimento não podemos compreender uma cultura viva, na qual encontramos a herança e a memória, bem como um entendimento do património cultural – material e imaterial, natural e paisagístico, técnico e digital, em articulação estreita com a contemporaneidade. É esta ligação entre património cultural e criação contemporânea, entre cultura e inovação que nos permite colocar o magistério de José Mattoso na linha da frente da mais rica reflexão da UNESCO e no Conselho da Europa.

 

LABIRINTOS DA SABEDORIA
Numa notável reunião de textos de 2012, Levantar o Céu – Os Labirintos da Sabedoria (Temas e Debates), lembrando a sua vida espiritual, José Mattoso reflete sobre Sabedoria e Razão e Sabedoria e Fé. A sabedoria obriga-nos a ir além das aparências e no entanto “parece-nos estar a caminho do abismo. O homem adquiriu meios técnicos de agir sobre a Natureza, mas não parece capaz de restaurar os equilíbrios que ela cria. São equilíbrios que condicionam a sobrevivência da Humanidade. O contraste entre o excesso de poder de uns poucos e o excesso de miséria da maioria é posto em evidência por todos os meios de comunicação. Estes informam-nos todos os dias e a toda a hora acerca do aquecimento global e dos seus efeitos sobre o mundo biológico, do aumento incontornável do lixo radioativo e dos materiais não recicláveis, da impossibilidade de verificar a nocividade das culturas transgénicas, da ocultação de produtos nocivos na industria alimentar e farmacêutica, da ausência de controlo da industria militar e da venda de armas, da escassez da água e da energia. Informam-nos, enfim, acerca de fragilidade do mundo em que vivemos (pp. 9-10). “Levantar o céu” é o nome que os mestres do chi kung (uma variante do tai chi) dão a um dos seus exercícios, que consiste em levantar os braços em arco com as palmas das mãos apontadas uma para a outra viradas para cima, isto é para o “Céu”. Yiang (céu) contrapõe-se a Yin (terra) na cultura chinesa. Trata-se, no fundo, de reconhecer a importância da componente espiritual da existência. Eduardo Lourenço refere a importância de tentar “desvendar ou antecipar o que nos espera, o nosso destino” – ou seja, “da consciência de que essas coisas em que se crê, em que mais do que se crê, se investe a totalidade da vida, constituem a substância das coisas esperadas…”. A crise financeira de 2008 correspondeu a uma crise de valores e obrigou a entender a esperança que brota da própria crise. “A pobreza, a redução de custos, a limitação do consumo, a contenção dos desperdícios, a aceitação da austeridade têm as suas vantagens. Tornam o homem menos dependente das instituições, da opinião pública, dos vendedores de ilusões” (p.36). Para José Mattoso “é bom acreditar que merece a pena ‘levantar o Céu’ e lembrarmo-nos de que não estamos sozinhos. Felizmente há muitas mulheres e homens neste mundo a tentar unir esforços para manter o contacto entre o Céu e a Terra. É esse o caminho que a sabedoria ensina a percorrer para encontrar a saída do labirinto em que a vida nos coloca”…       

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 3 e 9 de junho de 2019

 

 

«Dicionário do Livro – Da Escrita ao Livro Eletrónico» de Maria da Graça Pericão e de Maria Isabel Faria (Almedina, 2008) constitui um repositório muito completo, de consulta indispensável, que permite uma boa compreensão das perspetivas passadas, presentes e futuras sobre o livro e a leitura.

 

Dicionário do Livro – Da Escrita ao Livro Eletr

 

UMA FUNÇÃO INSUBSTITUÍVEL
O tema do futuro do livro tem sido muito glosado e nem sempre com o uso de bons argumentos. Há muitas vezes simplificações que esquecem o essencial. Em primeiro lugar, o livro e a leitura são peças fundamentais na aprendizagem – e o certo é que não há desenvolvimento humano sem leitura e aprendizagem. Questão diferente é a de nos perguntarmos sobre o futuro do livro impresso. Nesse ponto, importa fazer distinções e compreender a diversidade de problemas. O livro impresso coexistirá com outros suportes de leitura. Ler no “kindle”, no “tablet” ou num livro de bolso, num livro de capa dura ou em qualquer suporte digital terá a ver com a comodidade de cada um. O livro continuará, no entanto, a ter uma função insubstituível. Aliás, é preciso dizer-se que, em virtude do aumento da escolarização, há mais livros e mais leitores, mas é essencial que haja uma boa formação na leitura. Faz parte da educação cívica ler bem, saber comunicar e apreender na leitura a diversidade cultural e a complexidade. A cultura como criação e a boa aprendizagem exigem boa leitura. Por exemplo, no caso das Enciclopédias e das obras de referência deixa de fazer sentido termos os livros encadernados nas nossas estantes – desatualizam-se rapidamente, as casas não têm espaço e o suporte digital permite uma consulta mais fácil. Quanto aos jornais diários em papel, têm os dias contados. Tornar-se-ão dispensáveis porque a internet permite uma comunicação mais fácil a todo o momento, com custos económicos mais acessíveis. Pelo contrário, as revistas ou alguns semanários com textos mais longos, ensaios de qualidade e com uma apresentação gráfica apetecível vão ter mais importância – seja em papel, seja no digital.

 

 

MELHOR INFORMAÇÃO E CONHECIMENTO
Ler mais e melhor tem a ver com a transformação da informação em conhecimento e do conhecimento em sabedoria, para nos lembrarmos do célebre poema de T. S. Eliot. Não podemos esquecer, contudo, o difícil tema das livrarias, onde seja possível encontrar os livros que desejamos ou de que precisamos. Num depoimento sobre a experiência da livraria “Ler Devagar”, tive oportunidade de dizer: «Temos a presença e o calor, muito próprio dos livros, temos as estantes a chamarem-nos, e temos a extraordinária possibilidade de ir pegando nos livros, provando-os, folheando-os. Desde de que me conheço, sinto um prazer especial em deambular entre estantes e livros. E nas longas viagens que tenho feito, a lembrança está ligada a livros, a bibliotecas e livrarias. Tudo começa por planear ou preparar uma viagem, reunindo livros – mais do que roteiros: diários, itinerários, narrativas… Depois há uma escolha criteriosa para levarmos connosco alguns livros, pequenos, maneirinhos, para não serem empecilho, que nos irão libertar do tédio. E num pequeno caderno temos de fazer uma lista das livrarias a visitar… Uma viagem que valha realmente a pena tem de ter como um dos destinos da peregrinação um mundo de livros. Infelizmente, as livrarias a sério são cada vez mais raras. E se uso a expressão “a sério” é porque é preciso contarmos com o livreiro e com a possibilidade de podermos deambular entre os livros, não apenas com o que acaba de sair, posto a eito, como se estivéssemos numa loja de conveniência. E a dificuldade que há hoje para encontrar a livraria onde haja escolha e onde se sinta alma é um sério motivo de desalento. Eis por que razão «Ler Devagar» é um exemplo. Há alma, há diversidade, há clássicos e modernos, há surpresas, há possibilidade de fazer uma viagem entre os livros e pelos livros…». Lembro este depoimento, uma vez que o livro e a leitura precisam de espaços de encontro e de procura, que ocupem o lugar ancestral das velhas tertúlias. E não posso esquecer o papel fundamental das Bibliotecas Escolares – como centros de recursos e pontos de encontro e de diálogo interdisciplinar e cívico. Aliás, insistindo na formação cívica, há melhor aprendizagem com melhor leitura e melhor comunicação – já que a democracia precisa de reflexão e de tempo. A rapidez e a simplificação suscitam as notícias falsas, bem como o populismo e a demagogia. É preciso combater a tirania do imediato e da ausência de reflexão e de mediação. Daí a importância da leitura. Um mundo complexo não pode confundir as pessoas com números ou lidar com os cidadãos como se fossem seres manipuláveis. O livre arbítrio depende da autonomia individual e do sentido de responsabilidades. Só o tempo permite a ponderação e a prevenção da demagogia. As instituições precisam, para funcionar bem, de se instituir em forças mediadoras. A qualidade da democracia depende da representação e participação dos cidadãos, da existência de corpos intermédios atuantes e legítimos e de uma limitação justa e legítima do poder. Num mundo complexo é preciso que a simplificação não ponha em causa a justiça nas decisões. Não se esqueça que muitas instituições antigas e prestigiadas por esse mundo fora exigem que as decisões importantes sejam tomadas depois de os responsáveis terem pelo menos uma noite de reflexão. Dormir sobre os assuntos é garantir a ponderação, que é o contrário de pedir votos instantâneos e sem limites. Numa palavra, o livro e a leitura são peças essenciais numa sociedade civilizada, capaz de combater a tirania e a ignorância – e de dar prioridade ao tempo e à reflexão. 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 27 de maio a 2 de junho de 2019

 

 

Acaba de ser publicado entre nós o livro Santos e Pecadores – Ensaios Escolhidos (Livros do Brasil), com seleção e prefácio de Pedro Mexia e tradução de Miguel Freitas da Costa.

 

 

UM AUTOR INESGOTÁVEL
Quando em 1991 Graham Greene morreu, escrevi um pequeno obituário para o JL, no qual salientava a grande importância futura da obra multifacetada do escritor. O tempo encarregou-se de confirmar essa relevância, que superou todas as limitações circunstancias dos acontecimentos e do tempo em que ocorreram. Hoje não falo do romancista, mas do cronista e do seu testemunho. Os ensaios e as crónicas provêm de Collected Essays (1969), The Probable Graham Greene (1973), Yours etc. – Letters to the Press (1989), Reflections (1990) e The Graham Greene Film Reader (1993). A obra resulta de uma escolha muito cuidada e oportuna, através da qual Pedro Mexia nos põe em contacto com a riquíssima personalidade de um escritor tantas vezes incompreendido, sobretudo a partir de algumas falsas simplificações. Devo, aliás, nesta circunstância, saudar especialmente o facto justíssimo de Pedro Mexia ter sido galardoado, pela obra Lá Fora, (Tinta da China), com o grande prémio de crónica e dispersos literários da Associação Portuguesa de Escritores, com o apoio do Município de Loulé. E se o faço tal deve-se ao facto de o organizador e prefaciador deste volume, demonstrar com este livro de novo a importância da crónica e da atenção ao diálogo literário que se estabelece entre os escritores e os seus leitores. E não posso esquecer, na minha adolescência, que Graham Greene se tornou um dos meus autores preferidos, não apenas pela leitura apaixonante das suas obras e pelo acompanhamento da sua vida, mas também pela leitura de autores que sobre ele falaram, como João Bigotte Chorão, que aqui saudosamente recordo, e o Padre Manuel Antunes. E o prefácio de Pedro Mexia levou-me naturalmente à lembrança dessa minha paixão juvenil.

 

UM “ETHOS” DE PARADOXOS
Os tempos em que esteve nos serviços secretos, no MI6, e em que passou por Portugal nessa qualidade, afinaram nele o que o prefaciador designa como “um ethos de dissimulação e sinuosidade do qual nunca se libertou”. É, no entanto, mais do que isso, mas a verdade é que o culto dos paradoxos está ligado à essência do seu modo de ser. Isto apenas pode ser estranho para quem não entenda a raiz apostólica da “fé” abraçada em determinado momento da vida do romancista. Não por acaso, quando pediu o ingresso na Igreja Católica, o nome que adotou como catecúmeno foi o de Tomé, o do apóstolo que duvidou, e que apenas acreditou quando pôde colocar o dedo na ferida aberta pela lança no corpo de Jesus. Em toda a vida Graham Greene recordou este facto e a coerência desta atitude. Sendo muito diferente de Mauriac, Bernanos, Bloy, Chesterton e Waugh – o que o romancista “elogia nesses escritores não é a faceta apologética, mas a forma como utilizam, cada um a seu modo, a ‘dimensão adicional’ que a fé católica lhes oferece”. Assim se entende que diga: “Não aprecio muito a ‘literatura empenhada’, na medida em que divide o mundo em bem e mal. Não tenho desprezo por ela, mas é-me alheia. Não acredito que um escritor possa influenciar a política. Devemos deixar a política aos políticos”. Lembro-me bem das resistências de muitos relativamente às obras de Greene, por se pensar que os paradoxos que cultivava pudessem ter a ver com opções políticas extremas. Assim não era, porém. Se tinha bem presente o exemplo de S. Tomé, não esquecia as negações de Pedro ou os imprudentes encontros de Cristo com a samaritana ou com a mulher adúltera – que não podiam deixar de se relacionar com exemplo do clérigo alcoolizado de O Poder e a Glória. Por isso, sempre se incomodou quando o designavam como “escritor católico”. Por isso, tornou claro que “nunca escreveria um livro para chamar a atenção das pessoas para uma convicção política ou religiosa”. Por isso afirmou não ser possível criar um Homem Novo. O “mais que podemos desejar é uma mudança de condições que torne os pobres menos pobres e os ricos menos ricos. Sou por mais humanidade, não por um novo conceito de humanidade”. Quem leu com atenção o que escreveu, facilmente percebe que lhe interessaram sobretudo as pessoas – até porque desconfiava dos idealismos românticos. Não foi amigo de Fidel, mas considerava-o como uma fascinante mistura de idealismo e força retórica. Na guerra de Espanha era contra Franco, mas não podia aceitar o que aconteceu do lado republicano. E afirma: “a política romântica é perigosa e tende a ser desumana. Preferiria viver sob o senhor Gladstone”. A atração emocional pelo catolicismo sentiu-a no México, perante uma Igreja proscrita com os seus crentes perseguidos. “Vi os índios descerem das montanhas e entrarem nas igrejas, onde tentavam recordar os velhos ritos”. Além do culto do paradoxo, é a recusa do tédio que o levou a escrever, do mesmo modo que as injustiças lhe trouxeram os temas. “As injustiças de que me apercebo não me encolerizam; melhoram os meus poderes de observação. A distância é um dos requisitos da boa literatura”. E isto leva Graham Greene a ser um dos grandes cultores da boa literatura. Assim, mais do que o ethos da sinuosidade, o que encontramos no autor de O Nó do Problema é a busca dos caminhos insondáveis e difíceis em que a humanidade se manifesta. Daí uma inesperada proximidade com Chesterton, quando este reformula “o pensamento original com a frescura, a simplicidade e o entusiasmo de uma descoberta”. Qual a chave de Ortodoxia senão um labirinto de opções heterodoxas? Como entender o clube dos homens irados, como Bloy e Bernanos, senão através de uma tradição que remonta a Dante “que amava bem porque odiava”? E como não ligar Pascal e Mauriac no sentido da prioridade dada às ações humanas, imperfeitas e contraditórias?

 

A MAGIA DO CINEMA
A título de exemplo leiam-se os textos sobre cinema – aí encontramos muito mais do que uma apreciação meramente técnica, deparamo-nos com a inovação (do cinema mudo ao sonoro, do preto e branco à cor) e com a apreciação relativamente aos diferentes temas e autores, sempre partindo de pessoas. E é delicioso o diálogo a propósito do filme O Terceiro Homem (1949) entre Graham Greene, Carol Reed e o produtor de E Tudo o Vento Levou David Selznick… Apesar de muitas dúvidas e bizarras sugestões, prevaleceu felizmente a ideia original, que se traduziu num extraordinário sucesso de um dos mais belos filmes do pós-guerra. Como afirma Pedro Mexia: “impregnado de teologia, impressionado com a Igreja dos humilhados e ofendidos, solidário com os católicos perseguidos (O Poder e a Glória, 1940), apoiante do Concílio Vaticano II e da Teologia da Libertação, Greene sempre se mostrou hostil a tudo o que lhe parecesse conservadorismo ou impiedade”. Mas a espessura humana do escritor é muito mais rica do que as simplificações ideológicas. E o tempo tem revelado que para si o mais importante era a compreensão do género humano.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 20 a 26 de maio de 2019

 

 

«Thomaz de Mello Breyner – Relatos de uma Época, do final da Monarquia ao Estado Novo» de Margarida de Magalhães Ramalho (Imprensa Nacional, 2018) é uma biografia elaborada com grande rigor cronológico e histórico, que permite compreender não só a vida do biografado e mas também a sua época.

 

 

UMA BIOGRAFIA EXEMPLAR
A obra que agora nos chega só foi possível porque o biografado teve o cuidado de registar em cadernos e em agendas aquilo a que foi assistindo, bem como as pessoas com que se cruzava e se relacionava. Os primeiros cadernos respeitam ao período de 1880 a 1895, desde a frequência académica aos passeios, passando pelo namoro com Sophia Burnay, pela morte do pai ou pelo casamento do Príncipe Real. Teria sido o seu amigo conde de Sabugosa, um dos Vencidos da Vida, que o incentivou à prática memorialista – e quando este morreu (em 1924) teria feito uma promessa a si mesmo de que publicaria as suas “Memórias”, deixando o primeiro volume pronto (1930) e um segundo praticamente terminado. Infelizmente, porém, não chegaria a cumprir o seu desiderato, para além da infância e juventude, deixando, contudo materiais que foram preciosos para a elaboração desta obra. E quem aqui encontramos? Para Reinaldo dos Santos, “um príncipe do espírito” e para José Tomás Sousa Martins, insigne mestre de Medicina, “o melhor dos rapazes. Possui a nobre faculdade de admirar sinceramente (…) no sentir tem a mais absoluta indiferença pelo pedantismo triunfante, a mais rija indignação só lhe vem diante do egoísmo burguês”. Os onze capítulos do livro acompanham a personagem. Nascido em 2 de setembro de 1866, Thomaz de Mello Breyner vai acompanhar a transição do século e dos regimes. Os primeiros capítulos são mais curtos, mas com o andamento do tempo a informação coligida foi aumentando. Filho do comandante do regimento de Caçadores 5, então aquartelado no Castelo de S. Jorge, aí nasce, num lugar privilegiado. E dirá que foi um “menino estragado”, pelos mimos que recebeu de seus pais – aproveitando bem a possibilidade de ver tudo o que se passava à sua volta… Apenas com quatro anos, testemunha as movimentações da Saldanhada (1870) e a partir dos seis anos, sendo seu pai ajudante de campo do rei D. Luís. Passa a ser convidado para as festas dos príncipes, nas quais sofre troças e dissabores por ser uma criança apenas remediada de uma família sem meios de fortuna. Tem, no entanto, o apoio da rainha D. Maria Pia, que lhe permite superar situações difíceis. Os acontecimentos e as vicissitudes são múltiplos, mas o certo é que esse contacto revelar-se-á muito importante na formação do futuro médico, que inicialmente pretendeu seguir a carreira na Marinha… Conhece Herculano e Bulhão Pato e sabe tirar lições de um tempo que está longe das facilidades, mas que lhe dá um riquíssimo convívio humano… Conhece escritores, artistas, publicistas – até Ramalho e Eça. Começando com dificuldades no aproveitamento escolar, consegue superá-las com sucesso. Deixando o desígnio da carreira militar, aponta para a Medicina, dando-nos conta pormenorizada dos sucessos e infortúnios, merecendo especial referência a relação académica com os Professores José Tomás Sousa Martins e Miguel Bombarda. E lembro na memória familiar a boa lembrança que meu bisavô tinha do Conde Mafra. Meu bisavô era professor da Escola Médica e vizinho em S. João dos Bem-casados de Mello Breyner – admirando o jovem clínico.

 

NA CIDADE DE PARIS E NÃO SÓ…
Partindo para Paris, para aprofundar os estudos da Medicina, afirma: “Tenho visto com satisfação que a Escola de Lisboa não é nada tão má e que os portugueses aqui podem fazer boa figura, quer pela fala, quer pelos conhecimentos que têm, de resto não admira porque os nossos programas são os mesmos e os livros também, o meio é que é mais acanhado”. O ambiente de Paris é cheio de surpresas, desde a tentativa de uns quantos penduras à espera que Thomaz lhes emprestasse dinheiro até a uma chamada para acorrer a um ataque histérico de uma senhora em casa de um conde russo… Apesar de tudo, com alívio, Thomaz regressa a Lisboa, é nomeado Médico da Real Câmara e prepara cuidadosamente o casamento com Sophia Burnay, filha do célebre banqueiro. Passo a passo, encontramos o período difícil em que a monarquia constitucional está profundamente fragilizada, e em que o rei D. Carlos se deixa envolver nos erros dos partidos dinásticos, divididos entre a pura intriga (“discussões e bulhas dos monárquicos”) e a incapacidade de mobilizar o país. A humilhação do Mapa-Cor-de-Rosa deixou marcas profundas, o suicídio de Mouzinho de Albuquerque, quaisquer que fossem as suas razões torna-se um sinal de desalento nacional. Este é, contudo, um tempo de muito trabalho profissional para Thomaz de Mello Breyner, aliando a consulta médica, a prevenção, a preocupação com as injustiças sociais, bem patentes na vida das meretrizes e no alargamento das doenças venéreas. As relações entre os Reis tornam-se cada vez mais distantes e inconciliáveis. E o médico descobre, com preocupação, sinais perigosos de doença em D. Carlos, um nível de diabetes elevadíssimo não augura nada de bom… O monarca vai trata-se nas Termas de Pedras Salgadas, e há um movimento regional que parece de grande apoio popular o Rei… T. Mello Breyner confessará que se deixou enganar por essa onda, que não podia iludir o facto de Lisboa ser cada vez mais republicana.

 

CONTINUAM AS DIFICULDADES…
“Continuam as trapalhadas políticas. Não sei como isto vai acabar. Em geral, sou otimista, mas desta vez vejo tudo um bocado negro”. Estava-se em finais de 1907. O conde de Mafra apoia a política de João Franco, mas verifica que tudo se encaminha para um beco sem saída para o Rei e para o regime. Um colaborador no hospital diz-lhe, na véspera do Regicídio de fevereiro de 1908, “que uma grande desgraça se prepara”. E o terrível dia chega em que o Rei e o Príncipe herdeiro são mortos. Eduardo VII exclama: “A revolução triunfou, não é verdade?”. E Raul Brandão diz que quem passaria a governar seria “sua majestade o medo”… Mello Breyner não se conforma, acusa os cúmplices palacianos e conclui destroçado: “Dorme em paz doce príncipe ao lado de teu querido pai que te amava tanto e que tu adoravas. Mais doloroso seria para ti veres-te obrigado por uma política idiota a pisar constantemente a memória de teu santo pai. Dorme em paz querido anjo”. Sente-se no memorialista uma grande amargura e descrença absoluta na solução política encontrada depois do Regicídio. Em 20 de abril encontra António José de Almeida no comboio de Coimbra que se desfaz em argumentos contra o envolvimento republicano na morte do Rei, mas o Conde de Mafra não acredita.... Os pormenores da vida quotidiana somam-se à intensa atividade profissional, a I República, depois de implantada, é vista com desconfiança, a vida familiar conhece amenidades e sobressaltos, alegrias e desgostos… O inesperado contacto com os modernistas, como Almada Negreiros, dá um tom de futuro. E numa passagem muito breve, lemos: a minha neta Xixa ficou «distinta no seu exame elementar. Aquela pequena é extraordinária. Quando há dias estive no Porto vi-a decorar um soneto de Antero de Quental depois de o ouvir apenas 3 vezes. Que encanto de pequena»… E de quem nos fala? De Sophia de Mello Breyner Andresen, a mais célebre das suas netas…   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de maio de 2019

 

Realiza-se nos próximos dias 16 e 17 de maio na Fundação Calouste Gulbenkian o II Congresso Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

 

UM EXEMPLO DE CIDADANIA
O centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen é especial, muito para além de mera comemoração. O exemplo de cidadania, de talento, de ligação natural entre a ética e estética é fundamental. De facto, estamos perante uma personalidade extraordinária que é lembrada como referência única, como um exemplo que fica, que persiste. Era a “pura liberdade” que lhe importava – e, por isso, temos de lembrar o “espaço de liberdade” que animou com Francisco de Sousa Tavares e foi lugar de debate e de acolhimento de jovens intelectuais e artistas, que tomaram como referência a sua presença, a sua palavra e o seu gesto. “No Centro Nacional de Cultura (CNC) fiz de tudo” – dizia Sophia de Mello Breyner… E nesse tudo, estiveram os cargos estatutários, mas sobretudo tudo o que decorria de uma solidariedade saudável e comprometida. “Discuti, li versos, fiz limpezas quando faltava a mulher-a-dias, organizei festas de Carnaval com rissóis e bebidas, mascarei-me, dancei e – coisa que mais do que detesto – fiz conferências. Não havia dinheiro para nada e era tudo improvisado e cada um fazia o que podia, o que sabia ou o que era preciso. Era um tempo de fervor e de dedicação gratuita. A amizade era concreta. E acima de tudo discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”…

Pode dizer-se que Sophia e Francisco foram, num tempo decisivo, almas de um clube de ideias que soube persistir e fazer da liberdade a sua marca indelével, perante todas as dificuldades. E quando vemos as imagens a preto e branco da saída dos presos políticos de Caxias, pouco depois da revolução, é com muita emoção que presenciamos o entusiasmo e a alegria de Sophia, o zelo profissional e cívico de Francisco, acompanhados de seu filho Miguel, ao lado de Jorge Sampaio, José Manuel Galvão Teles, Francisco Salgado Zenha ou João Bénard da Costa… E Nuno Teotónio Pereira com tantos outros a sair da prisão e a manifestar uma enorme esperança no novo tempo que se iniciava. Ele que animara no CNC tantas reuniões clandestinas que pugnavam pela liberdade, pelo direito à informação e pela autodeterminação dos povos. Naquele momento em que os portões se abriram estava viva a imagem do encontro entre os que tinham lutado pela liberdade, não apenas com palavras vagas, mas com gestos concretos de coragem e determinação. Os que saíam e os que os acolhiam tinham uma causa comum – a liberdade, a democracia e os direitos humanos. Para quem conhece a história do CNC sabe que aqueles abraços, aquela genuína manifestação de solidariedade correspondiam a um trabalho generoso e persistente, conseguido através de um percurso longo e difícil, que Sophia lembrava: “Às vezes a Pide aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico. Em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido; ‘poker faced’”.

 

RESISTÊNCIA COMO MODO DE AÇÃO
Não por acaso, contamos com muitos dos seus escritos e poemas como referências essenciais da resistência: levantou a sua voz em defesa do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes; mas também contra a injustiça da desclassificação do monumento para Sagres “Mar Novo”, de João Andresen, Barata Feyo e Júlio Resende, que assinalaria a memória das Navegações portuguesas: na vigília do Dia Mundial da Paz de 1969 na igreja de S. Domingos disse com firmeza: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” – e com que genuína emoção: ouvimos o poema, dedicado a Francisco: “Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão / Porque os outros têm medo mas tu não”. Cada palavra desse poema é uma marca firme contra a indiferença e a pusilanimidade, é uma lição cívica e ética. E daí a autoridade plena com que Sophia pôde dizer em Abril: “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. E quando ouvimos as suas palavras na Constituinte sobre a liberdade da cultura, vemos que se mantêm sem ruga nem mácula.

 

UMA INICIATIVA ABERTA
Deste modo, o CNC correspondeu ao apelo de Maria Andresen (do mesmo modo que acolheu o espólio, hoje na Biblioteca Nacional de Portugal) para apoiar a afirmação do legado cultural que Sophia deixou. Não poderia ser de outro modo. Muito mais do que um momento, do que se trata é de dizer que Sophia deve ser lembrada nas diversas facetas em que se singularizou – tendo a sua obra de ser considerada na globalidade, não esquecendo quantos inspirou. Assim, as iniciativas a realizar ou realizadas são múltiplas. E há uma preocupação da apoiar a liberdade e a criatividade. A consulta do sítio centenáriodesophia.com permite compreender a diversidade de temas e de participações, devendo perceber-se que não é exaustivo, já que não pode esquecer-se a multiplicidade de outras iniciativas, que correspondem à adesão espontânea de muitos admiradores da autora de Livro Sexto. Os colóquios de Lisboa na Gulbenkian, do Porto, de Lagos, de Roma, do Rio de Janeiro (sobre Sena e Sophia), de Macau, da Casa Pessoa e da Fundação de Mateus correspondem à reflexão multifacetada sobre a apaixonante obra da autora. O Conto Musical “A Menina do Mar”, do LU.CA Teatro Luís de Camões, com direção musical de Martim Sousa Tavares, traz-nos o famoso conto de Sophia transformado em voz e música e feito espetáculo sobre a amizade entre as coisas da terra e as coisas do mar. O livro Almadilha – Ensaios sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, de Frederico Bertolazzi; a mostra “Olhares Mútuos: Maria Helena Vieira da Silva e Sophia” na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva; o espetáculo “Na Substância do Tempo” – eco da poesia de Sophia no mundo visível da dança de Vasco Wellenkamp e da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo; a Exposição Itinerante “Lugares de Sophia” com fotografias de António Jorge Silva, Duarte Belo e Pedro Tropa; ou o Concerto de 6 de novembro, no Teatro Nacional de S. Carlos com o “Orfeu e Eurídice” de Cristoph W. Gluck são exemplos de um ano pleno de iniciativas, em que há sobretudo uma preocupação de homenagear com a maior dignidade e diversidade alguém a que a cultura portuguesa tanto deve. Afinal, nunca esquecerei o dia em que na atribuição do seu nome à Escola Básica Sophia de Mello Breyner, de Carnaxide, pediu expressamente que os alunos representassem de cor “A Menina do Mar” e, numa tarde fantástica, com centenas de pessoas a aclamá-la, emocionou-se ao ver aqueles meninos e meninas das mais diversas origens geográficas, cumprirem à letra o seu pedido e serem extraordinários atores, sem falhas nem hesitações… E todos entendemos o que significa dizer: “a minha terra é o mar”, como definição da nossa cultura.    

 

 
Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 6 a 12 de maio de 2019

 

"Filosofia da Saudade", com seleção e organização de Afonso Botelho (1919-1998) e António Braz Teixeira (INCM, 1986), constitui um repositório sistemático sobre a reflexão sobre a saudade na história da cultura portuguesa.

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O CENTENÁRIO DE AFONSO BOTELHO

A propósito do centenário do nascimento de Afonso Botelho, o Centro Nacional de Cultura realizou um jornal falado, no qual tivemos a conferência de António Braz Teixeira sobre o pensamento do homenageado. Com um pensamento ancorado no cristianismo, o pensador encontra na reflexão sobre a saudade e na sua distinção relativamente ao saudosismo um modo especial de olhar as ideias e o mundo. E no Rei Eloquente encontra um ponto de partida que marcará o seu modo de ver e de pensar. «É no Leal Conselheiro que encontramos uma definição (de saudade) acompanhada e esclarecida por análise caracteristicamente filosófica. A novidade do conceito reside nas seguintes conclusões: a saudade é um sentimento (e não um estado psíquico inferior, como o nojo, o prazer, a dor ou o aborrecimento); não está vinculada necessariamente ao desejo; resulta da ausência de seres que se amam ou de estados que se estimam; a melhor saudade (tanto por razão de ordem religiosa, como pela sobrevalorização sentimental do presente) é a que nos atualiza, pondo-nos de acordo com o tempo e dando-nos portanto prazer» (Cf. texto antologiado na obra citada e publicado na “Revista Portuguesa de Filosofia, tomo XVI, 1960). Esta definição para o autor corresponde ao que se pode designar como “humanismo esperançoso”, o qual, apesar dos dramas e dificuldades (evidentes, por exemplo, na morte trágica do Infante Santo), parte de uma solitária saudade medieval para chegar à “reminiscência forçosa” de D. Francisco Manuel. Sem entrarmos na indagação sobre um eventual platonismo nesta evolução, o certo é que compreendemos que o pensador vê a saudade como um movimento – e daí o interesse que tem o diálogo entre Teixeira de Pascoaes e Leonardo Coimbra, que se torna revelador do que está em causa no tratamento substantivo do tema.

 

SAUDADE COMO SENTIMENTO

A saudade é um sentimento ou, quando muito, a consciência refletida desse sentimento – que deve ser demarcado do saudosismo, como movimento de raiz poético-filosófica e de expressão cultural. Assim, a saudade vai situar-se entre uma ânsia da Pátria Celestial e uma lembrança da Pátria Terrenal. É este confronto que obriga a entender a diferença relevante entre duas perspetivas. E esses dois lados do problema, encontramo-los em Leonardo e Pascoaes, apesar da complementaridade. “Os dois pensadores estão separados porque têm intuições religiosas diversas. Com Leonardo catoliciza-se ou celestianiza-se aquele pensamento que o Saudosismo levará em Cristianismo, mais longo, mais terrenal, ou mais regressivo (conforme se entender). Lembremos que o universo para Leonardo é criado pelo homem num processo dialógico que o faz chegar a Deus pelo fraterno amor de tudo, e não algo criado de uma vez por todas pela vontade divina. Em última análise, Deus é, assim, a luz que ilumina a ação criadora do homem. Deus é o Amor que une, e cada consciência é a unidade elementar que pelo amor se move, atraído pela «grande Unidade». Por isso, a compreensão é a Unidade e compreender é Amar. Leonardo transforma em ascensional o pensamento quando intui religiosamente; Pascoaes, ao contrário, obedece aos dois movimentos, um ascensional (o mítico em Maranus) outro descensional (que é precisamente o religioso do Regresso ao Paraíso)». No fundo, a Pátria de Pascoaes, segundo Afonso Botelho, lembra-se no homem, “mesmo quando a presença de Deus nele se faz sentir, até porque a divina presença desde que o foi dessa Pátria, já nela não pode ser esquecida”. Na fecundidade deste diálogo, Afonso Botelho centra-se na perfetibilidade do sentimento saudoso, ou seja, um movimento permanente de reconhecimento da imperfeição e de impulso necessário ´para a superação da mesma – isto é, “a garantia de que o sentir só se completa no existir, por mais elevada e infinita que seja a saudade ou a sua órbita”. Como movimento, a Saudade apenas “se completa restituindo ao homem o sentimento da própria graça que o elevou ao centro da redenção”. E assim parte de Leonardo, orientando-se para a humanidade de Pascoaes. É o ponto em que encontramos o “Homo Viator”, que tanto interessou Gabriel Marcel, na valorização da existência humana. E oiçamos Afonso Botelho: “Se o que domina a ontologia existencial é a definição do ser do tempo, creio que esta só poderá reencontrar-se na ontologia da saudade, que é a do tempo sem ser – ontologia negativa ou transcendida que determina a eliminação do tempo, precisamente porque em verdade o completa».

 

O ETERNO E O TRANSITÓRIO

Neste ponto, é necessário lembrar a expressão do próprio Pascoaes: “O existir cria a ilusão do tempo. O que passou e o que há de vir eis a matéria, o corpo da saudade. O eterno compõe-se de coisas transitórias”. Mas, Afonso Botelho lembra que, vulgarmente ou mesmo culturalmente, pensa-se que “o Saudosismo é o mais acabado dos passadismos”. Mas assim não é. De facto, na saudade-saudade o passado vale tanto como o futuro – “pois um e outro nela se acordam ou se eliminam, o que é o mesmo”. Lemos as saudades do futuro do Padre António Vieira e compreendemos isto mesmo. Pascoaes diria, poetando, “A folha que tombava / Era a alma que subia” e Fernando Pessoa interpretaria: “A queda da folha é materialmente a subida da alma”. Na prática, o diálogo Pascoaes / Leonardo não encerra a compreensão destes dois fenómenos? Leonardo põe a tónica na alma que sobe, enquanto Pascoaes interroga a folha que tomba… E que é a Renascença Portuguesa senão a procura constante destes dois movimentos paradoxais, equivalentes ao “poder convergente da Saudade, que se opõe a qualquer interferência do tempo exterior ou heterogéneo”… É esse paradoxo que o pensador invoca, quando a “ontologia aberta do Existencialismo pode começar a fechar-se, a tornar-se positiva”. Mas no Leal Conselheiro, Afonso Botelho ao paradoxo junta um sinal de coerência na comparação entre a posição do cavaleiro e a atitude do homem na vida: “Tal geito como este dandar dereito na besta me parece que devyamos teer em os mais de nossos feitos para seermos no mundo boos cavalgadores e nos termos fortes no cair”… 

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 29 de abril a 5 de maio de 2019

 

 

«Jornal do Observador» de Vitorino Nemésio (reedição, INCM, 1999) reúne um conjunto de crónicas escritas na antiga revista “Observador”, dirigida por Artur Anselmo. Sobre muitos temas, aí se sente a ambiência do mestre da cultura portuguesa, aqui recordado.

 

IDENTIDADES E DIFERENÇAS
De que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata apenas de seguir os acontecimentos, mas de compreender a lógica sincrónica e a perspetiva diacrónica. Não basta um sobrevoo da cultura geral, que mais não significa do que um contacto vazio e superficial com a criação e a arte, esquecido do que avança e progride e do que estagna. Assim, no ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires tem recordado a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: “E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?” (Cf. “Luz e Sombras no Século XIX em Portugal” de António M. Machado Pires, INCM, 2007). A cultura pressupõe diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e o que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada pelo próprio Nemésio – “Varanda de Pilatos”. Quando voltamos a ouvir as charlas televisivas de Nemésio, verificamos que estas corriam entre a intuição e a inteligência, entre a erudição e a capacidade de perceber o “mundo da vida”. O erudito e o professor falavam ao sabor da memória, usando as palavras, com um fio-condutor, um fito, um meio de prova, um vai-e-vem entre a memória e o acontecimento, a análise e a ironia. Afinal, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva. Lembre-se o picaresco e o dramático no caleidoscópio de Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que a ligação da Literatura, da Arte ou da Ciência são pontos de observação de eleição para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a mera ostentação de um saber ou de uma técnica. Assim, não compreenderemos, por exemplo, o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça de Queiroz (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério), Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus (a lírica popular) ou Antero (a reflexão culta).

 

VITORINO NEMÉSIO E MACHADO PIRES
Nemésio e Machado Pires tinham, de facto, razão quando falavam de duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas devem de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do português e do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par, como na análise de António José Saraiva, articulam-se com a construção de um imaginário. A experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), com os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna, a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos, donde vimos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma mera sucessão de factos ou acontecimentos. Temos de perscrutar tendências, de suscitar criticamente diversas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa. Urge contrariar as simplificações, que se tornam caricaturais, não permitindo compreender uma realidade que é multifacetada e correspondente a um complexo melting-pot. Ligue-se, pois, a vontade ao fundo céltico, confronte-se a fixação e o transporte, contraponha-se o erudito ao castiço, compreenda-se as diferenças e as complementaridades entre Camões, a custódia de Belém e o galo de Barcelos. De facto, nossa cultura tanto é o “Auto da Lusitânia”, de Todo o Mundo e Ninguém, como o “Pranto de Maria Parda”, para só nos atermos a Mestre Gil. Estamos, como somos, nos dois registos tao diferentes.

 

CULTURA COMO CONVERGÊNCIA
Tem ainda razão Machado Pires quando diz que a «Cultura não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro. A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. E eis o paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino”. O pessimismo contrasta com o compromisso cívico. E assim, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, a Geração que se evidenciara em 1870 não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado do fatalismo: “vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social” não se perde e “define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. O autor refere-se a Oliveira Martins. Mas não podemos esquecer ainda “A Ilustre Casa de Ramires”, como alerta para um tempo novo. Ao contrário de considerações superficiais sobre um suposto “vencidismo”, A. M. Machado Pires (como, aliás, Eduardo Lourenço) demonstra o carácter complexo do pensamento de 1870, a atitude crítica e a reconfiguração dos mitos, orientadas num sentido emancipador, centrada na coerência fundamental, baseada nas preocupações ligadas à justiça e à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da Europa e do que hoje designamos como desenvolvimento...

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 22 a 28 de abril de 2019

 

 

«Notre-Dame de Paris», de Victor Hugo, de 1831-32, foi escrito como um grito de alerta contra a degradação do monumento e o risco da sua destruição. A obra deve ser revisitada quando há dias presenciámos o trágico incêndio.

 

 

SUBLIME E MAJESTOSA
Se a Catedral de Notre-Dame era sublime e majestosa, o jovem Victor Hugo (1802-1885) não podia deixar de se indignar, ao lado do Abbé Gregoire, contra o vandalismo, “perante a degradação e as mutilações de todo o tipo que os homens e a passagem do tempo infligiram a este venerável monumento”. A publicação do romance constituiu o detonador de uma grande campanha, que culminaria em julho de 1845, com a aprovação de uma importante decisão no sentido do restauro e conservação da catedral, cuja concretização se deveu ao arquiteto Eugène Viollet-Le Duc (1814-1879). Victor Hugo escreveu o seu romance quando ainda não tinha trinta anos e foi inspirado por Walter Scott e pelas referências do romantismo. A história concebida pelo romancista situa-se na cidade de Paris, no ano de 1482, e é protagonizada pela própria Catedral e por um enredo centrado em Esmeralda, jovem cigana que dançava na praça fronteira à Catedral de Notre-Dame, no arcediago Claudio Frollo, que se deixa atrair pela beleza da bailarina e em Quasimodo, um homem disforme que vivia na catedral, onde fora abandonado em criança. O arcediago pede a Quasimodo que rapte a jovem, mas Esmeralda é salva por um grupo de soldados, comandado pelo capitão Phoebus de Châteaupers, por quem se deixa envolver amorosamente. Apesar de comprometido com Fleur de Lis, Phoebus fica seduzido pela cigana e marca um encontro para um local recôndito. Claudio Frollo surpreende-os, porém, nesse encontro e mata o capitão, apunhalando-o. Num sórdido processo de chantagem, Esmeralda é acusada de assassinato, mas recusa entregar-se a Frollo, ainda que essa fosse a única forma de escapar à pena capital. No momento terrível da execução, no átrio da catedral, aparece Quasimodo, que também ama a bailarina cigana, tomando-a nos braços e levando-a para dentro do templo, onde estaria protegida, segundo as leis da cidade. Quasimodo passa a noite a cuidar de Esmeralda. Contudo um grupo de amigos de Esmeralda vem libertá-la, forçando a entrada da Catedral. Quasimodo defende sozinho a igreja, com o que dispõe: pedras, barras de ferro, madeira e chumbo derretido. Mas Frollo aproveita-se do tumulto para fugir com Esmeralda, que resiste. Furioso com esta recusa, o arcediago entrega a jovem a uma velha considerada louca, que vivia no "buraco dos ratos". Ao invés de lhe fazer mal, a velha reconhece em Esmeralda a sua própria filha e a poupa-a. Mas esta não consegue desfrutar de uma paz muito longa. Os guardas da cidade encontram-na e encaminham-na novamente para o lugar da execução, na praça da catedral. Do alto da Notre Dame, Quasimodo e Claudio Frollo assistem à execução. Quasimodo, louco de desespero, atira o clérigo do alto da torre e desaparece para sempre. Muito tempo depois, ao ser aberto o ossário de Montfaucon, local onde Esmeralda foi sepultada, foram encontrados dois esqueletos abraçados; um deles, com uma visível deformação...

 

DEFENDER O PATRIMÓNIO CULTURAL
Haveria que preservar o património medieval e daí a escolha da Notre-Dame, sobretudo porque nesse tempo a Catedral estava ameaçada pelo vandalismo e pelos projetos de renovação da cidade. O grande sucesso do livro permitirá lançar a celebridade do seu jovem autor e suscitar a tomada de consciência para a necessidade absoluta do restauro desse património cultural de valor incalculável. Se lermos a literatura desse tempo, fácil é de verificar como Victor Hugo se tornou o grande defensor da Catedral, como coração da cidade de Paris. Michelet disse mesmo que, desejando falar da Notre-Dame, tinha de reconhecer que Victor Hugo definiu uma “marca de leão” para o monumento, a ponto de ninguém mais poder tocar-lhe, já que construiu ao lado da velha catedral uma verdadeira catedral de poesia, “tão firme como os fundamentos da outra, tão alta como as suas torres”. Também Nerval escreveu no incerto ano de 1830: “A Notre-Dame é bem antiga, mas vê-la-emos talvez enterrar Paris, a cidade que a viu nascer”. E imagina as pessoas daqui a mil anos a virem contemplar o monumento, relendo a obra de Hugo. Théophile Gautier (em 1838) em “La Comédie de la Mort” invoca a glória desse lugar que « permite alargar a alma ». E Paul Claudel, em “Ma Conversion” (1913), considera, porém, que Hugo de certo modo tira espiritualidade à Catedral – fazendo dela cenário de um romance cheio de paixões mundanas. Foi na Catedral de Notre-Dame, em lugar que perfeitamente se conhece, que ocorreu a célebre conversão religiosa do poeta, em 25 de dezembro de 1886, com 18 anos, tocado por uma “revelação inefável”. Também Charles Péguy, no célebre poema sobre a Esperança, tão justamente invocado por João Bénard da Costa, enumera os santos padroeiros de Paris esculpidos nos portais da Catedral. Não devendo esquecer-se ainda Louis Aragon, em “Paris 42” e em “Aurélien”, que identifica a Notre-Dame, ela mesma, como “catedral de poesia”.

 

UMA HISTÓRIA CONTRA A INDIFERENÇA
Mas a história da Notre-Dame está cheia de vicissitudes – que começam antes do século XII, quando foi decidido edificá-la, uma vez que está construída num campo com profundas raízes histórico-religiosas, gaulesas, romanas, merovíngias. Sem cuidar duma existência medieval muito rica, lembremo-nos apenas da história recente. Em 1793, em plena Revolução Francesa, vinte oito estátuas representando os reis de Judá, que ornavam a fachada, foram decapitadas. Ainda na Revolução, a Catedral foi fugazmente consagrada como Templo da Razão durante a Convenção, voltando a ter uso religioso no Consulado, após a assinatura em 1801 da Concordata com o Papa Pio VII. Como se vê no célebre quadro de Jacques Louis David, aí tem lugar a sagração de Napoleão como Imperador dos franceses. Mas, sendo um tempo de incertezas, o muito jovem Victor-Hugo em 1825 dirá: “há duas coisas num edifício, o seu uso e a sua beleza: o seu uso pertence ao proprietário; a sua beleza a todos, a vós, a mim, a nós”. E é a partir daqui que empreende uma guerra contra os “demolidores”, que se preparavam para sacrificar essa joia insubstituível. E é neste ponto que Victor-Hugo, à maneira romântica, transforma a Catedral em personagem, tornando-a verdadeiro exemplo de um património comum dos franceses. Com o tempo, viria a ser reconhecida como Património da Humanidade, pela UNESCO – sendo naturalmente Património comum europeu, de acordo com os objetivos da Convenção de Faro do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na Sociedade Contemporânea. E o exemplo da Notre-Dame é pioneiro. Na sequência da campanha do jovem Hugo, referência maior do romantismo europeu, Prosper Merimée (1803-1870) é nomeado Inspetor-Geral dos Monumentos Históricos e o arquiteto Eugène Viollet-le-Duc dirige as obras de restauro e reconstrução da Notre-Dame a partir de 1843, durante a monarquia de julho. As orientações do arquiteto não são isentas de crítica, mas assentam num pensamento baseado na necessidade de valorizar o Património Cultural (que entre nós é partilhado por Gerrett e Herculano). Aumenta o número de gárgulas, com exuberância decorativa, nasce o pináculo de madeira coberta de chumbo, que agora ficou destruído – e define-se um novo cânon para a salvaguarda do património. Mas a relação política da França para com a Catedral vai ser ambígua. É certo que a valorização da Notre-Dame se insere no ambicioso plano urbanístico de Haussmann. Napoleão III casa-se na Catedral em 1853 com Eugénia de Montijo, mas a III República vai ignorar o monumento, que apesar de tudo admira, mas de que desconfia ao mesmo tempo. Mesmo a sociedade laica respeita, contudo, o lugar de memória – que lembra as raízes mais profundas e ricas da identidade nacional. O general Charles De Gaulle na célebre jornada de 26 de agosto de 1944, na libertação de Paris, fez celebrar uma cerimónia religiosa na Notre-Dame, na condição de não ser presidida pelo então Cardeal Arcebispo de Paris, Emmanuel Suhard, dadas as suas simpatias colaboracionistas. De Gaulle e Mitterrand terão as suas exéquias na Catedral de Notre-Dame, o que constitui uma exceção. No caso de François Mitterrand, só as cerimónias oficiais aí tiveram lugar, distinguindo as esferas pública e privada. E Françoise Giroud disse: “houve qualquer coisa de extraordinário no facto de o único discurso pronunciado ao longo desses dias de luto ter sido a homília do Cardeal Lustiger, como se a República não tivesse outros meios para honrar os seus grandes mortos senão o de os confiar à Igreja”. Porque decerto pesou o lugar de memória… Notre-Dame está, assim, bem presente na memória de todos – a sua reconstrução constitui um dever de fidelidade à História e à Cultura…  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de abril de 2019

 

A leitura da última obra de António Carlos Cortez, Voltar a Ler – Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios) (Gradiva, 2019), permite-nos tomar contacto com um conjunto polifacetado de textos, com uma sólida complementaridade e uma coerência que merecem ser elogiadas.

 


A IMPORTÂNCIA DA LEITURA E DA LITERATURA
Alguém que já se afirmou como poeta, surge neste livro, essencialmente, como crítico, como pedagogo e como cidadão preocupado com a vida cultural. Tive o grande gosto de participar na apresentação pública do livro, com o autor, Lídia Jorge e Isabel Soares, e pudemos partilhar em análises sucintas o sentido crítico e pedagógico que António Carlos Cortez empresta aos textos que agora reúne, produzidos em colóquios, jornais e revistas, e que, em boa hora, vêm a lume num tomo que é mais do que uma reunião de participações avulsas, já que nos revela não só uma panóplia de diversos autores relevantes do nosso panorama literário, mas também uma análise crítica sobre o reconhecimento da importância da leitura e da literatura no tempo atual. Dir-se-ia, assim, que o “voltar a ler” tem um triplo significado: como releitura de textos publicados pelo autor ao longo do tempo; como apelo à reflexão e ao tempo da crítica, num momento tão dado à superficialidade e ao imediatismo; e como uma séria invetiva contra a mediocridade e contra o esquecimento e a indiferença relativamente ao livro e à leitura. Começando por falar-nos da urgência da literatura, António Carlos Cortez divide o livro em três partes: sobre os ensaístas, sobre voltar a ler (a propósito de poetas portugueses modernos e contemporâneos) e sobre educação e cultura. Estamos perante um rol muito rico, em que os ensaístas e os poetas nos levam a compreender o que António Ramos Rosa nos ensina; “a significação de um poema especificamente moderno depende tanto dele como de nós e que é precisamente desta colaboração profunda entre criador e leitor que uma significação pode surgir e atualizar-se”. E quando se fala do poema, podemos facilmente chegar ao ensaio, que participa da mesma força criadora e do mesmo sentido crítico relativamente à urgência da literatura. De facto, “um crítico literário ‘tem de ser um homem total, um homem de convicções e de princípios, e com conhecimento e experiência de vida’, diz-nos T.S. Eliot (…) e é por se falar de literatura e, transversalmente, de Humanismo ou de valor das Humanidades, que estes textos podem ser lidos como partilha dessas convicções e princípios, propondo ao leitor uma espécie de pacto ou de aperto de mão que define a própria relação entre quem lê e aquele que é lido”.

 

TEMAS E AUTORES
Texto a texto, encontramos referências de memória e de vida, num permanente apelo aos textos e aos seus ritmos: Antero de Quental, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mário Dionísio, Sophia de Mello Breyner, David Mourão-Ferreira, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade… Mas chegamos ainda a Fernando Echevarría, Fernando Guimarães, Ruy Belo, Herberto Helder, João Rui de Sousa, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Armando Silva Carvalho, Manuel António Pina. E ainda encontramos naturalmente, como numa encruzilhada luminosa da República das Letras: Camões, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Cleonice Berardinelli, Manuel Gusmão, Fernando Cabral Martins, Richard Zenith ou Paula Morão… E sente-se a cada passo a lição de Jacinto do Prado Coelho ou de Jorge de Sena, expressa por Fernando J.B. Martinho: “um dado acontecimento literário na diacronia da nossa historicidade tem sempre de ser compreendido à luz de um quadro mais vivo de marcos e referências”. O poeta e o ensaísta não estão sós, o mundo e a vida alimentam-nos, o que permite entender a pergunta bem presente na torre de Montaigne: Que sais-je? Uma pergunta, mais do que respostas - é esse quadro vivo que o autor procura desvendar, não a partir de elucubrações fantasiosas, mas sim segundo uma compreensão rigorosa dos textos. Que é a crítica senão o respeito escrupuloso pelo dito e pelo escrito? Afinal, qual é a melhor pedagogia das humanidades senão o apelo à leitura direta dos originais sem a falsificação dos intermediários ou dos resumistas… E chegamos à necessária pedagogia. Vítor Manuel de Aguiar e Silva ensina-nos que “é o texto poético que deve concentrar a relação ensino-aprendizagem nas aulas de língua materna, dando às crianças e jovens a memória histórica que lhes falta”. Não é preciso dizer muito mais, sendo que, no entanto, aqui está dito o que é mais difícil na função motivadora do mestre em humanidades. Não se trata de fechar a literatura sobre si mesma ou sobre simplificações, mas de abrir horizontes para vários saberes – entendendo o que Eliot dizia sobre o conhecimento perdido na informação, e a sabedoria perdida no conhecimento. Sophia insistia que não podemos distinguir as redondilhas de um alexandrino se não entendermos o movimento e o número, a arte e a ciência. Eduardo Lourenço, fio de Ariadne vigilante, afirma-nos por isso que “a poesia é a realidade enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus”. E não se trata de um jogo de palavras, mas da compreensão exata de que só a visão crítica dos mitos nos permite perceber a relação entre vida e destino. E o poético “é o inefável que procura concretizar-se pela ação artística, espelho da História”. Daí a tentativa de Lourenço para construir “a dialética mítica da poesia moderna portuguesa”, subjacente à psicanálise do destino português. E assim a “Mensagem” de Pessoa passou a ter de ser lida de outro modo, como um Espelho mágico decifrador de estranhos enigmas…

 

LER E VOLTAR A LER
E eis-nos chegados a Antero de Quental, supremo interrogador dos nossos enigmas. Pode dizer-se que em Voltar a Ler a referência central pode ser esta carta do genial poeta a Jaime Magalhães de Lima: “A natureza tinha-me talhado para romântico descabelado, pessimista, satânico, que sei eu? Mas tinha-me dado, ao mesmo tempo, por singular contradição, razão e sentimento moral para muito mais e melhor. Daí o conflito, a guerra civil, a luta interior. Essa luta foi a minha vida, e é o que explica a aparente singularidade (que reconheço ser grande) e a esterilidade dela. O que venceu em mim foi a razão e o sentimento moral; mas a imaginação e a paixão, embora vencidas, não se submeteram. Ora não é essa a razão, mas a imaginação e a paixão que fazem o poeta (…) os últimos vinte sonetos do meu livrinho são uma coisa nova, a nota cristalina duma poesia nova, de verdadeira poesia (ouso dizê-lo) do futuro”. O percurso biográfico, o caminho do poeta confirma como a literatura é chave da arte de aprender. De facto, a poesia concilia palavra e pensamento, sendo para Antero (com a sua tragédia) “a possibilidade de viver” uma “partícula de pó das estrelas num paraíso perdido que só a Poesia, suprema arte pode tornar real”… Eis por que razão António Carlos Cortez tem razão no apelo fundamental que faz: “Discutindo-se o lugar do livro na escola, raramente se diz o que muitos sabem: a única estratégia de combate contra a ‘nova ignorância’ (no fundo velha, se virmos bem…) passa por trazer de novo o livro para a Escola e a Universidade…”   

 


Guilherme d'Oliveira Martins
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