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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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    De 12 a 18 de abril de 2021

 

A publicação da obra Penser la Justice – Entretiens de Michael Walzer e Astrid von Besenkist (Albin Michel, 2020) permite-nos pensar nas consequências sociais da pandemia que nos atinge.

 

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E AGORA? 

A pandemia, as suas consequências e a recuperação obrigam a uma reflexão séria sobre a democracia e um novo contrato social. E se na crise sanitária foram os Estados e os governos a marcar a diferença na proteção dos cidadãos, torna-se indispensável maior responsabilidade social para garantir mais coesão e menos desigualdades. A crise financeira de 2008 somou-se à crise da saúde pública – e o resultado esteve na fragmentação da sociedade, na emergência dos egoísmos nacionais e na fragilização das democracias, por falta de instituições mediadoras e pela emergência das lógicas de curto prazo… A publicação da obra Penser la Justice – Entretiens de Michael Walzer e Astrid von Besenkist (Albin Michel, 2020) constitui um importante contributo para a reflexão necessária sobre estes temas. Walzer ensinou Filosofia Política em Harvard e Princeton e é um dos mais importantes pensadores contemporâneos e a sua interlocutora é professora em Sciences-Po (Paris) e chefe de redação da revista “Raisons Politiques”. Como sabemos, o autor de As Esferas da Justiça (Presença, 2003) há muito que insiste na ideia de que mais importante do que escrever uma “Teoria da Justiça” é pensar a justiça distributiva em função do contexto económico, social e político. E é essa questão que ocupa, em parte significativa, este diálogo, fundamental para o momento que atravessamos.

Ao contrário das teorias contratualistas clássicas, Michael Walzer não tem uma abordagem da justiça como realidade hipotética. Antes, prefere pensar nas condições de um consenso verdadeiro e concreto – e nisso demarca-se do “consenso de sobreposição” de Rawls. Por outro lado, não podemos contentar-nos com meras doutrinas morais. Daí a importância do pluralismo, não confundível com relativismo. Tudo depende do significado que os cidadãos atribuem aos bens que recebem. A justiça distributiva varia com a natureza dos bens distribuídos, com as esferas nas quais se verifica essa partilha e com o tempo e o contexto cultural com que nos deparamos. Os bens possuem uma significação diferente consoante a respetiva inserção económica e social. E é esta insistência na “diferença” que constitui a marca própria do pensamento de Walzer. De facto, não podemos apreciar o que é devido a uns e a outros enquanto não soubermos como as pessoas se ligam entre si através do que produzem e distribuem. A singularidade dos sujeitos económicos e o funcionamento das sociedades não se referem apenas às coisas que se fabricam, mas aos diferentes significados que lhes atribuímos, numa objetivação progressiva e plural (na segurança, no bem-estar, no dinheiro, na organização, na educação, nos tempos livres, no poder político, no reconhecimento etc.). E é neste entendimento que o pensador prefere os passos lentos do reformismo (mercê do diálogo e do gradualismo), em lugar dos movimentos rápidos e revolucionários – que rapidamente se tornam reversíveis, já que não podemos fazer tábua rasa dos valores vividos socialmente.

 

UM NOVO CONTRATO SOCIAL

Um novo contrato social obriga, assim, a uma economia centrada na ideia de serviço público de qualidade, num contexto democrático, caracterizado pelo desenvolvimento humano baseado em crescimento limpo, mobilidade segura, envelhecimento ativo com saúde e no melhor aproveitamento da inteligência artificial como instrumento ao serviço da dignidade humana. Urge, deste modo, distinguir valor e preço – porque o que tem mais valor não tem preço, pressupondo o desenvolvimento a noção qualitativa de criação de valor, porque a sociedade não pode basear-se num crescimento ilimitado. O cidadão contribuinte não pode apenas ser consumidor, tem de participar, de estar informado e de contribuir para que Estado e sociedade se tornem fatores de inovação. Daí a necessidade de haver mediadores credíveis, legítimos e respeitados. Se o Estado não deve ser produtor, a sociedade não pode ser apenas consumidora. A legitimidade democrática obriga a considerar a participação, a representação, a transparência e a partilha solidária dos cidadãos. Tem de haver complementaridade entre o contributo das pessoas e a qualidade do serviço público que auferem. Os sistemas fiscais e a justiça distributiva pressupõem: a tributação adequada aos rendimentos, aos compromissos e às prioridades correspondentes ao bem comum; a criação de um valor solidário, correspondente a serviços públicos de qualidade, devidamente avaliados, próximos das pessoas, em especial na saúde, educação e cobertura de riscos sociais; bem como o respeito da regra de ouro das finanças públicas e da equidade intergeracional – a dívida pública só é legítima se realizar investimentos reprodutivos, a sustentabilidade social e ecológica deve salvaguardar o futuro do planeta e das novas gerações. Como tem afirmado Mariana Mazzucato, precisamos de instituições que moldem os mercados e os tornem fatores inovadores de uma economia humana, não acomodada nem dominada pela cegueira burocrática (Cf. O Valor de Tudo. Fazer e Tirar na Economia Global, Temas e Debates, 2018)

 

MAIS CIDADANIA

Eis porque um novo contrato social, que valorize a participação dos cidadãos e a responsabilidade solidária, tem de se basear na diferenciação positiva e na complexidade, adotando políticas ativas centradas na valorização do "capital humano". A aprendizagem é a chave do desenvolvimento, pois só ela permite compreender criticamente os limites, e assegurar que a informação se torne conhecimento, e que o conhecimento se torne sabedoria. A pandemia, permitiu-nos verificar que desvalorizámos elementos essenciais. Importa tirar consequências – precisamos de um planeamento participado e responsável, que nos permita viver de acordo com os meios de que podemos dispor. O desperdício afeta a sustentabilidade e a justiça. Liberdade e ignorância são contraditórios – informação e conhecimento exigem aprendizagem e justiça. A pandemia ampliou a automação que ameaça trabalhadores de serviços pessoais pouco qualificados, pelo que se exige melhor educação e qualificação, preparando as pessoas para as mudanças do mercado. Eis por que importa pensar num contrato social, assente na ligação entre liberdade e responsabilidade, autonomia e solidariedade, Estado e sociedade civil, criando verdadeiras parcerias capazes de defender o bem comum e o interesse público e não apenas o maior ganho. Importa, no fundo, que haja catalisadores, públicos, sociais e privados (como na “Nova Fronteira” de J. F. Kennedy), centrados na inovação social, na aprendizagem e no equilíbrio ambiental – designadamente nos três domínios fundamentais da quarta revolução industrial: a energia, a saúde, a digitalização. Eis porque precisamos de agir em vários tabuleiros, considerando a diferença e a complexidade, o que obriga à definição de missões, de objetivos e calendários, à interdisciplinaridade, à coordenação supranacional e à articulação de setores, em suma, à consideração da experiência e à recusa de lógicas simplificadoras…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

 

A VIDA DOS LIVROS

De 5 a 11 de abril de 2021

 

“Sylvie e Bruno”, de Lewis Carroll, publicado em 1889-93, (trad. portuguesa, Relógio d’Água, 2003) foi o último e o menos conhecido dos livros do autor de “Alice no País das Maravilhas”, mas talvez o mais fascinante…

LITERATURA E ECONOMIA
A história tem todos os ingredientes conhecidos de Carroll e é protagonizado por duas crianças e pelas suas inesperadas reflexões. O autor explica no prefácio o que o anima nesta obra. “Uma vez que percebamos qual é o verdadeiro objetivo na vida — que não é prazer, nem conhecimento, nem sequer a fama(…) — mas que é o desenvolvimento do caráter, a subida a um mais elevado, mais nobre, mais puro estandarte, a construção do homem perfeito — e então, enquanto sentirmos que isso continua, e vai (confiamos) para sempre continuar, a morte não tem para nós nenhum terror; não é uma sombra, mas uma luz; não é um fim, mas um começo!”. Recordamos a obra, a propósito da relação entre Literatura e Economia invocada no último ensaio de Lord Maynard Keynes no livro, já por nós referido, “Ensaios em Persuasão” (Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018) – “Possibilidades Económicas para os nossos netos”… Lorde Keynes, o maior economista do século XX e um dos grandes génios de sempre, refletiu sobre a literatura e a economia no referido ensaio sobre o futuro, no qual chama à colação Lewis Carroll, lembrando o negócio que a Rainha Branca fez com Alice sobre uma compota, mas também o estranho entendimento de um Professor e de um Alfaiate relatado em “Sylvie e Bruno”… E se falamos dessa relação, devemos começar (antes de tudo) por ler o Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, de 1669, do nosso Padre António Vieira para percebermos a importância do fenómeno económico, no que às letras escritas diz respeito. Afinal, a economia tem a ver com a “regra da casa” e com o modo como as necessidades humanas são satisfeitas. Eis por que estamos na essência da literatura. E cite-se a passagem de Vieira, em que num subtil jogo de palavras relaciona a adequação entre a utilidade dos bens e as responsabilidades de cada qual. “Quem fez o que devia devia o que fez e ninguém espera paga de pagar o que deve. Se servi, se pelejei, se trabalhei, se venci, fiz o que me devia a mim mesmo; e quem se desempenha de tamanhas dívidas não há de esperar outra paga”. Entre a obrigação e o direito, entre o dever e a paga, entre o serviço e a responsabilidade, temos a essência do que hoje designamos como sustentabilidade – que é a palavra tecnocrática para exprimir o que é natura, enquanto equilíbrio entre a necessidade e o custo.


PROCURA DE EQUILÍBRIO
A economia é exatamente a procura desse equilíbrio – que, mais do que a riqueza, obriga à criação de valor. E como o que tem mais valor é o que não tem preço, estamos na essência das Humanidades, da comunicação entre as pessoas e das Artes como elementos criadores por excelência. Por isso, o Padre Vieira diz-nos que “quem fez o que devia devia o que fez” – do mesmo modo que “ninguém espera paga de pagar o que deve” O barroco jogo de palavras vem exprimir uma ordem simples do que é a capacidade criadora. Pagar o que cada um deve, fazer o que cada um pode, é no fundo, representar a vida como uma relação permanente de cada um com o outro e de todos nas relações que estabelecem entre si. Voltando a Keynes, este lembrava que Alice não gostava da compota que a Rainha lhe queria dar. Mas esta descobriu o estratagema para que a compota fosse recebida, apenas como um valor futuro. De facto, o pensamento económico comporta sempre consideração sobre o futuro. “O homem ‘determinado’, dizia Maynard, está sempre a tentar garantir uma imortalidade falsa e ilusória para os seus atos, empurrando o seu interesse por eles para a frente no tempo”. Eis a chave da narrativa: ligar o tempo presente e o passado ao futuro – como faz Xerazade nas “Mil e Uma Noites”. O que importa para Xerazade é conseguir mais uma noite de vida, estendendo as possibilidades da existência para além do imediato. E estamos aí na essência da narrativa e da literatura. Que é a literatura senão a criação de valor pela compreensão do tempo e da vida. O “homo economicus” de Keynes, que ele considera ‘determinado’ – “não gosta do seu gato, mas dos filhos do seu gato; bem, na verdade, nem dos filhos do seu gato, mas apenas dos filhos dos filhos do seu gato, e assim sucessivamente para todo o sempre até ao fim do reino dos gatos”… E regressando a Lewis Carroll. Para a Rainha “compota não é compota, a não ser que se trate de um caso de compota amanhã: nunca compota hoje”. Como Alice não gosta de compota, a Rainha oferece dois dinheiros por semana e compota dia sim, dia não. Portanto, falamos de compota amanhã ou de compota ontem, mas nunca de compota hoje. E como hoje não é nem ontem nem amanhã, nem sim, nem não, hoje é sempre hoje – nunca há compota hoje. E assim se cria a ficção. Do mesmo modo, como o paradoxo de Zenão, no romance “Sylvie e Bruno”, o alfaiate nunca vai receber a dívida do professor porque o montante da dívida vai sempre duplicar em cada ano – até morrer. E ele vai esperar, porque vale sempre a pena esperar mais um ano para obter o dobro do dinheiro. A lógica, a economia e a literatura digladiam-se e têm sempre um amanhã, como Xerazade e o professor ardentemente desejam, iludindo o alfaiate e o Sultão…


QUE OPORTUNIDADE?
Isabel I de Inglaterra talvez não se tenha apercebido de tudo quando investiu na expedição de Francis Drake da “Corça Dourada”, mas tomou a decisão certa. De facto, cada libra que Drake trouxe para casa em 1580, transformou-se hoje em 100 mil libras, pelo poder dos juros compostos. Mas será que o futuro repetirá o passado? O tempo nunca se repete – e a ilusão do alfaiate, se é a fonte da literatura, vai deparar-se com mil fatores complexos e aleatórios. “O ritmo a que poderemos alcançar (…) o destino da felicidade económica será definido (diz Keynes) por quatro elementos: a nossa capacidade de controlar a população, a nossa resolução de evitar guerras e conflitos internos, a nossa disponibilidade para confiar à ciência a orientação das questões que são do domínio da ciência, e a taxa de acumulação fixada pela margem entre a produção e o consumo. Destes quatro elementos, o último cuidará facilmente de si mesmo, se os três primeiros forem cumpridos”. E eis aqui a chave de todos os mistérios. É que apenas a imaginação e a literatura, por um lado, a inteligência e a capacidade de sermos prudentes a encarar o futuro, por outro, poderão permitir que um destino de felicidade não se torne uma realidade vã…   

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 29 de março a 4 de abril de 2021

 

«Sinais de Fogo» de Jorge de Sena (Livros do Brasil, 2017) é na obra do autor uma referência fundamental.

 

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A MEMÓRIA DOS ANOS TRINTA

Os anos de 1930 em Portugal foram literariamente marcados pela confluência entre o psicologismo e a incerteza social, num momento em que, ao contrário do que acontecera nas vésperas da Primeira Guerra, havia consciência de que algo de trágico se preparava. Em Sinais de Fogo, publicado postumamente em 1979, Jorge de Sena, com essa consciência, faz a análise de um tempo perturbador. O panorama geral é o de uma guerra próxima, que se indicia no seio da sociedade, e deixa as pessoas inseguras. Era uma sensação estranha e, ainda que pudesse não nos tocar diretamente enquanto país, teria sempre efeitos. E o romance, que procura retratar esse tempo, regista uma lembrança autobiográfica. O realismo cruza-se com o sonho, e o desenho geral da narrativa não esquece a tónica surrealista. Sinais de Fogo é concebido como o início de um ciclo não cumprido, que se intitularia como Monte Cativo, e que decorreria entre 1936 a 1959. Tudo começa na Figueira da Foz, subitamente cheia de espanhóis, com uma guerra civil em curso do lado de lá da fronteira, a perturbar já a tranquilidade da província.

 

A GUERRA TÃO PRÓXIMA

O ambiente político da guerra e de um regime policial recém-implantado constitui a base da ação – num romance de formação marcado pelo acordar dos sentimentos mais íntimos de um adolescente... E o protagonista interroga-se: “Era eu diferente dos outros? Estivera, desde sempre, destinado a sê-lo? Ou um conjunto de circunstâncias excessivamente extravagantes me transformara o suficiente para isso? Mas, se as circunstâncias haviam podido ter um tal resultado, não seria porque já eu estava destinado à diferença (que poderia dar-se ou não dar-se) de um conjunto delas agir sobre mim? Eu não queria ser diferente dos outros em nada, e não me sentia diferente. Pelo contrário, o que eu descobrira, ou descobria, é que todos são diferentes, desde que a hora ou o momento surjam”… A poesia, os sentimentos íntimos, a consciência política, tudo emerge num torvelinho de acontecimentos. E é um poeta que vai nascendo… “Poeta, para mim, como para a minha família, e para os meus amigos, era uma pessoa algo caricata, segregada da normalidade da vida, e que se instalava na personalidade romântica de falar por conta própria ou dos outros, como se o que ele dissesse fosse da mais alta e especial transcendência, não o sendo realmente para ninguém a não ser em ocasiões muito especiais”. Como diz Jorge Fazenda Lourenço: “Sinais de Fogo seria uma longa meditação sobre o caminho que vai do instante de se ‘ter nascido poeta’ (por Graça) ao momento de ‘reconhecer-se poeta’ (por Obra)” (“Relâmpago”, nº 21, outubro de 2007). E esse percurso, neste romance de formação, acompanha o drama violento da Guerra de Espanha e descreve a evolução difícil do desenvolvimento espiritual, do desabrochamento sentimental, da aprendizagem humana e social. A instabilidade externa pontua a agitação íntima numa metamorfose, que antecipa e justifica a profunda alteração das circunstâncias do mundo. Daí a preocupação de Jorge de Sena, como romancista, distanciado no tempo, em misturar propositadamente a realidade e o sonho, o conjunto e a singularidade… E assistimos assim à sucessão de uma guerra e de um armistício entre Jorge, o protagonista, e as suas memórias, quando o país e o mundo mudam intensamente. E os anos trinta anunciam com nitidez esse contraste entre a ilusória placidez interna de um Portugal ameaçado, mas incrédulo, e a proximidade de uma grande tragédia que, como sabemos, vai ser global, sem se conhecer se seríamos também envolvidos no drama anunciado. De qualquer modo, avista-se no horizonte o negrume da morte… O certo é que “a imprevisibilidade não era senão o sinal de que o maior horror da responsabilidade estava em não poder haver responsabilidade alguma”. E, ao cair do pano, com a ameaça irónica de uma intentona sem sucesso, vislumbramos a estranha contradição entre o medo e a angústia das tragédias imprevisíveis. E é a própria responsabilidade que se desvanece, perante a negação da liberdade. “Não era que as pessoas fossem coniventes de uma revolução falhada (…). Algumas, por certo leriam o jornal com o mesmo ansiado prazer de a ordem e a disciplina serem mantidas, que houvera na voz de minha mãe. E, todavia, essas mesmas sentiam-se sós e incomunicáveis, por terem aceitado que a ordem e a disciplina fossem uma coisa exterior a elas, defendida por outros, em nome de um governo que tomara sobre si o defini-las e se atribuía a omnisciência mesmo de revoluções que chegavam a sair e causavam mortos e feridos…”.

 

REFERÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

Este é o tempo em que a revista “Presença” (1927), órgão do nosso segundo modernismo, valoriza a narrativa de aventura individual e das questões não redutíveis aos conflitos sociais. É a “Literatura Viva” que está em causa. Casais Monteiro teoriza sobre o Romance Contemporâneo. Elói – ou Romance numa Cabeça, de João Gaspar Simões (1932) e O Jogo da Cabra-Cega de José Régio (1934) ilustram essa preocupação. Régio assume um tema confessional, no qual estão ligados os conflitos interiores entre o humano e o divino, o bem e o mal, a carne e o espírito. Pedro Serra descobre a pós-adolescência, com um alter-ego, Jaime Franco, como contraponto diabólico de si. Diferentemente, a novela O Barão de Branquinho da Fonseca (1942) baseia-se numa complexa invenção mítica de uma personalidade dominadora que leva o narrador para surreais caminhos mágicos. É o tema da singularidade pessoal que ocupa os caminhos do novo Romance. Note-se, aliás, que alguém distante do presencismo, como José Rodrigues Miguéis, publica em 1932 Páscoa Feliz, sob a influência de Dostoievsky e Raul Brandão, em registo psicológico: “a verdade é que psicologia a mais, angústia a menos, o Renato desta novela é apenas o subproduto de uma fauna provinciana que em Lisboa desagua, se dissolve e perece”, na expressão do autor. E a dimensão psicológica social termina em pura esquizofrenia. Por outro lado, José Marmelo e Silva em Sedução (1937) aborda o tema complexo da adolescência e da libertação moral de um modo reconhecidamente acutilante e original com apreciável capacidade analítica e sentido romanesco, mais tarde confirmado em Adolescente Agrilhoado (1948).

1934 é ainda para Miguel Torga, que se afastara do grupo da “Presença” com Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca em 1930, o ano emblemático do surgimento do nome literário, que invoca a vocação ibérica de Cervantes e Unamuno e a urze dos montes transmontanos. Isto ocorreu com a novela A Terceira Voz, onde o escritor procura mostrar a força do espírito inconformista, da independência de espírito, da resistência, do antes quebrar que torcer, do sacrifício propiciatório de reacender o fogo pátrio… Se é certo que não foi esta a obra que pôde consagrar, depressa a força que lhe estava subjacente projetou-se nas páginas de A Criação do Mundo e no Diário, que vieram a consagrar o escritor como referência fundamental – consciência crítica, cidadão capaz de ligar duravelmente a salvaguarda da singularidade e a capacidade de compreender a força emancipadora da sociedade. Será diferente a década seguinte, mas a tomada de consciência de uma singularidade que se torna ponto de encontro entre o reconhecimento da criatividade individual e a necessidade libertadora do espírito crítico marca decisivamente a caminhada que Jorge de Sena descobre em Sinais de Fogo, no sentido da presença do eu no mundo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de março de 2021

 

“A Mocidade de Herculano” é a dissertação de doutoramento de Vitorino Nemésio (1934). Mas é muito mais do que isso: é o romance de uma figura cultural única e marcante – e aí encontramos não só a paixão poética, mas também a mestria romanesca, que prenuncia o genial “Mau Tempo no Canal”.

 

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Na década emblemática de 1930, devemos chamar à colação Vitorino Nemésio de um modo talvez inesperado, mas depressa compreensível. Refiro-me à dissertação de doutoramento “A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio”, defendida em 1934, que constitui muito mais do que um documento académico, já que é uma obra-prima da ensaística portuguesa. E se falo desta referência é porque não é despicienda a escolha do tema e o seu tratamento. Pode dizer-se que é o romancista e o poeta que aqui se anunciam, o que nem sempre foi bem entendido no claustro académico. Bem assinala David Mourão-Ferreira “o rigor da minudência erudita e a certeira intuição de quem sabe sondar, a um século de distância, toda a complexidade de um grande destino que se vai construindo”. Herculano surge como uma grande personagem, como um defensor da liberdade, num caminho de dúvidas e incertezas, mas um verdadeiro símbolo de um pensamento que estava em perigo quando o investigador o escolheu. Sente-se no jovem Nemésio uma especial identificação, subtil é certo, mas evidente – sobretudo por contraponto a um tempo em que o panorama político se apresentava como adverso relativamente à defesa e preservação dos valores queridos pelo historiador. Quando lemos “A Mocidade de Herculano” sentimos que o rigor historiográfico permite a construção de um quadro narrativo de uma grande riqueza, em que a singularidade se junta à necessidade de compreensão do contexto social e político – que será de grande utilidade para a riqueza da obra romanesca do autor. “Tenho pensado e vivido tanto com Herculano, que agora sou assim uma espécie de seu neto póstumo. Neto, não!, que o meu avô mais velho nasceu em 1841 (…) e Herculano é de 1810. E, mesmo para o meu bisavô, talvez fosse velho de mais. Como seria meu bisavô? Sei ou julgo saber como foi Herculano: não sei de meu bisavô senão por vagas memórias”. E o escritor lembra, ao menos, que em 1832, quando Herculano desembarcou na Terceira, o historiador e seu bisavô respiraram o mesmo ar, qualquer que fosse a distância a que tivessem estado. Estamos perante um verdadeiro romance, mas é o “abalo do poeta” que está na raiz do biógrafo. Perante a massa enorme de elementos sobre a emigração portuguesa existente no Museu Britânico, Nemésio restringe-se ao exílio de Herculano, “não sem investigar manu diurna et nocturna (como diziam nossos mestres), em três anos de full time, todo o âmbito da operosidade e da espiritualidade do escolhido. Interessava-me o homem inteiro (…) sempre e em tudo indistintamente filósofo, poeta – homo sum, nihil humanum a me alienum…”. A leitura dos dois volumes é apaixonante, porque neles deparamos com o feliz encontro de uma irrepreensível análise histórica e literária, que enriquece um percurso acidentado de carácter pessoal, com uma magnífica ilustração do contexto cultural europeu e nacional. Sentimos a presença desde a comum mediania à emergência de uma perceção elevada das mais relevantes personagens do tempo. “Emigrei da idade de vinte anos em consequência da infeliz tentativa da revolução do 4º Regimento de Infantaria, tentativa conduzida com tanto valor pelos meus honrados amigos o capitão Albino Francisco de Figueiredo e tenente-coronel Bravo…”.  E assim Herculano foi cúmplice de um “agente incógnito” e teve de fugir para a fragata “Melpotmène” e depois para bordo de um paquete inglês que o levou ao litoral da Mancha. E por muito que Inocêncio (o dicionarista) se afadigasse em referir as origens miguelistas de Herculano, a verdade é que encontramos o percurso natural de um português num tempo de contradições, cuja coerência determinada é feita de um percurso sempre sério e refletido…

 

AINDA O SIGNO DA LIBERDADE

Se a liberdade é o pano de fundo na prova académica de Nemésio no tempo em que o horizonte se enchia de nuvens totalitárias, na década seguinte Mau Tempo no Canal é a obra-prima, escrita nos anos de início da Guerra, a partir de 1939, na qual encontramos também o elogio da liberdade, na personalidade de Margarida Clark Dulmo, num tom original a superação dos limites do psicologismo “presencista”, bem como da lógica social neorrealista. É algo de próprio e de original, que podemos aproximar do rigor da “Mocidade de Herculano” de uma extraordinária dimensão poética. Trata-se de uma narrativa que concilia o genuino sabor local e uma reflexão universalista, relaciona a singularidade e o destino, o mistério e o presságio, o sonho e a tragédia. David Mourão-Ferreira classificará, com justiça, a obra romanesca como «a mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária». Margarida e João Garcia protagonizam, de início, um namoro contrariado pelas relações tensas entre as famílias de ambos, no contexto da sociedade açoriana plena de ressentimentos, medos, angústias, contradições, uma família de raízes aristocráticas, mas em situação difícil, e a ambição de um novo-riquismo desejoso de legitimação. E a grande metáfora é a da melancolia das ilhas e do mar oceano, da distância, mas também da liberdade e da esperança, da incerteza e da dúvida sentidas, em especial, entre o Faial e o Pico, entre o anfiteatro da cidade da Horta e o majestoso Pico, referência mítica do tempo que permanece inexorável, belo e ameaçador. Fica lembrada a carta de Antero a Oliveira Martins: “Aqui nos Açores, há um provérbio que reza: ‘S. Miguel, burgueses ricos; Terceira, fidalgos pobres; Faial, contrabandistas espertos’. Com efeito, a Terceira é uma terra essencialmente portuguesa e peninsular: fidalguia, pobreza, toiros, insouciance sóbria e filosófica, entusiasmo, bizarria e parlapatice: numa palavra os defeitos e as qualidades correspondentes do idealismo peninsular, que V. tão bem conhece e não menos bem descreveu já”… Margarida é a figura marcante do romance, forte e sensível, inteligente e arguta, livre e determinada, uma personalidade que não nos pode deixar indiferentes, porque compreende como ninguém a terrível teia em que está envolvida, entre sonhos e augúrios. Como é insondável o destino. Mas, no final, sente-se cega…"cega como a serpente do anel que nenhum ventre de peixe levaria a mesa humana e que àquela hora jazia, como a cucumária dos abismos, no mais secreto do mar"… E entre a força destas duas obras maiores da cultura portuguesa, lembramos o que Nemésio considera ser a sua existência. “Toda a vida estudei de tudo e o mais que podia para o que desse e viesse. Não me preparava dia a dia para amanhã e depois ou racionando, como a formiga, do verão propício ao Inverno rigoroso. Mas talvez não fosse apenas leviano, como a cigarra, pois tive de dançar no Inverno e cantei sempre”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

UM TEXTO DE GUILHERME D’OLIVEIRA MARTINS SOBRE UMA CASA DE ESCRITORES

 

Cito hoje um texto de Guilherme d’Oliveira Martins publicado muito recentemente no Diário de Notícias (16/03/2021) sob o título “O soviete dos Caetanos” e que evoca precisamente (e cito) a então “Calçada dos Caetanos (hoje Rua João Pereira da Rosa) no Bairro Alto, entre o Conservatório e a Rua do Século, a antiga Rua Formosa. Aí moraram Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, António Ferro e Fernanda de Castro. E estes chamavam-lhe “o soviete dos Caetanos” e tudo se partilhava desde o sal e o pão até ao teatro, a poesia e a arte” assim mesmo!...


O texto descreve com detalhes o historial da família, designadamente os tios-bisavós Vitória e Joaquim Pedro, além de mais familiares. É desde logo de assinalar que foi Ramalho Ortigão quem orientou em 1888 a casa para Oliveira Martins.


E mais:
Independentemente dessas ligações familiares/residenciais, ou na sequência deles, importa referir, citando as evocações do texto, que António Ferro instalou no prédio um centro social-cultural com um pequeno teatro.


E no prédio viveram ainda, diz-nos o texto, Ofélia e Bernardo Marques, Fred Kradolfer, José Gomes Ferreira e sua mulher (na época) Ingrid.


O texto de Guilherme d’Oliveira Martins que aqui cito, traz transcrições diversas de memoriais da casa e/ou da sua sucessiva utilização por famílias que se destacaram já na época e hoje marcam a cultura do nosso tempo. Algumas transcrições que a seguir fazemos mostram-no bem. Assim, Oliveira Martins transcreve Fernanda de Castro numa longa citação do livro “Ao Fim da Memória” editado pela Verbo em 1986. Citamos designadamente:


“Não tínhamos cheta, ninguém tinha um tostão. Fazia-se café e chá, o Leitão de Barros trazia coisas de casa, eu comprava seis bolos de arroz que cortava em fatias e servia em pratas da Índia. Era deslumbrante! As reuniões literárias, as leituras de peças e de poemas, eram um encanto”.


E mais acrescenta Guilherme d’Oliveira Martins:
“Ninguém pensava em dinheiro, havia então essa superioridade de espírito, os valores dominantes eram os da honradez, os de não nos aproveitarmos das coisas públicas”.


E ainda mais acrescenta que num encontro casual com António Quadros, ele se queixou do estado em que se encontrava a casa onde ainda vivia a sua mãe Fernanda de Castro. A seguir cruza-se com Rui Godinho, Vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Oliveira Martins narrou-lhe a conversa: e desse encontro acabou por resultar a recuperação da casa que aliás tinha já na altura lápides evocativas de Ramalho Ortigão, do Oliveira Martins e de António Ferro.


E daí veio a recuperação do prédio. “Pouco tempo depois, o prédio foi devidamente posto em condições, sendo, com inteira justiça, o que tem maior número de invocações na cidade”.


E, tal como afirma ainda Guilherme d’Oliveira Martins, agora “falta apenas colocar a Iápide de lembrança de António Quadros”...!

 

DUARTE IVO CRUZ

A VIDA DOS LIVROS

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   De 15 a 21 de março de 2021

 

“Toda a Terra” de Ruy Belo (Moraes, 1976) revela-nos a força criadora do poeta, num momento importante do seu percurso criador.

 

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FIDELIDADE À VIDA

Num ensaio célebre sobre Manuel Bandeira, publicado em “O Tempo e o Modo” (nºs 62-63, 1968), lido na Sociedade Nacional de Belas-Artes, numa homenagem ao poeta brasileiro, por sugestão de Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo afirmou que o autor de Vou-me Embora pra Pasárgada tinha “noções muito precisas acerca da poesia e do público”. Por isso defendia “a necessidade de uma fidelidade à vida tal como ela é”, fazendo-o “pelo recurso à enumeração e pela rigorosa passagem do singular ao universal, o que deve bastar para assegurar a um texto (…) uma temperatura poética que o tempo dificilmente fará arrefecer. E o poeta bem sabia a importância do manejo e combinação das palavras encantatórias criadoras de poesia. Ao lermos esse ensaio e o outro que publicou na revista “Rumo” em 1966 compreendemos qual a ideia de Ruy Belo sobre “como um poeta se faz”. E a propósito de Manuel Bandeira e do seu carácter precursor, o poeta de Toda a Terra coloca-nos no ensaio o caminho que preconiza para que, como poeta, possa exprimir a paixão pelas palavras. Ao rever há dias o filme “Ruy Belo, Era Uma Vez”, de Nuno Costa Santos, na RTP-Memória, reencontrei a lúcida análise de António Feijó sobre a importância fundamental do contributo de Ruy Belo na poesia portuguesa do século XX, pela originalidade, inteligência e profundidade de um testemunho, que abriu inúmeras pistas para as novas gerações e para a literatura da língua plural que o português é. E, com emoção, ouvimos, mais uma vez, a lembrança de Teresa Belo, de saudosa memória, cuja generosa persistência permitiu reforçar a tomada de consciência da singularidade excecional do poeta. Se refiro os ensaios sobre Manuel Bandeira, dados à estampa em Na Senda da Poesia (1969), é para deixar claro que essa reflexão de Ruy Belo faz luz sobre o seu próprio percurso e sobre a preocupação que tinha relativamente à relação entre as palavras e a vida. Daí a invocação do poema “Os Sapos” de 1918, que constitui um exemplo significativo, verdadeiramente um pequeno manifesto, sobre a necessidade de os poetas não se deixarem prender pela moda do tempo: “Enfunando os papos / Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra. // em ronco que aterra, / Berra o sapo-boi: / - Meu Pai foi à guerra! / - Não foi! – Foi! – Não foi!” // O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: Meu Cancioneiro / É bem martelado. // Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos // O meu verso é bom / Frumento sem joio. / Faço rimas com consoantes de apoio…”.  Afinal, o sapo-tanoeiro, representante do parnasianismo, sacrifica a poesia às artes poéticas, reduzindo a forma a fôrmas. Mas, longe da grita, na beira do rio, o sapo-cururu (ou seja, o próprio Manuel Bandeira) soluça, transido de frio, afastado da tentação do sapo-tanoeiro. É assim que Bandeira chega à Semana de Arte Moderna de 1922, com uma vivacidade e uma força inovadora, que claramente define em “Itinerário de Pasárgada”: “em literatura a poesia está nas palavras, se faz com as palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido seja por força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”. E Ruy Belo lembra “Evocação do Recife”: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha pela boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada”.

 

UM SÍTIO DE SILÊNCIO

Contra as fôrmas da moda parnasiana, Manuel Bandeira, atento à língua certa do povo e “industriado no convívio de Camões”, transforma defeitos em recursos e alcança “um ritmo lento, sincopado, que é de apreciar”. Eis como entendia ser importante ligar a palavra a todos quantos a usam, de modo a compreendê-la como realidade viva, sempre em mutação, para ser fiel intérprete de uma real capacidade de se fazer entender, de comunicar e de compreender os valores enraizados na vida. “Quero uma mesa e pão sobre essa mesa / na toalha de linho nódoas de vinho / quero só isso nem isso quero” – dirá o poeta em Toda a Terra. E ainda o ouviremos: “A minha vida é hoje um sítio de silêncio / a própria dor se estreme é dor emudecida / que não me traga cá notícias nenhum núncio / porque o silêncio é sinónimo da vida”… Trilhando caminho diferente de Manuel Bandeira, Ruy Belo é, no entanto, fiel ao espírito aberto e livre daquele, e procura fôlego, como fazia nos dias em que ia mar adentro em Vila do Conde perante as ondas bravias. “A mim morto no mar entre algas e corais / que notícias me dais aí da superfície / dessa única terra onde vivi / e foi minha ambição morrer pra nunca mais? / Ainda cheira a esteva por aí?”.

 

NÃO HÁ BEM MAIS HUMANO QUE A PALAVRA

Compreender a vida, obriga a usar as palavras certas para a dizer e interpretar – eis o que está em causa. Como o autor de Boca Bilingue afirmou numa entrevista em 1962 ao “Diário Ilustrado”: “A poesia não constitui um fenómeno isolado no contexto cultural. Poesia é fundamentalmente linguagem, e a língua, sendo em si mesma um facto de cultura, permite a fixação e a transmissão de toda a cultura. A poesia enquadra-se na arte e distingue-se das outras artes quanto ao ‘meio’ (o termo aqui, embora, claramente insuficiente, é aplicado na sua aceção vulgar) de expressão”. E é esta circunstância que a autonomiza e distingue. De facto, o poeta compreende, melhor que ninguém, que cada palavra é um infinito, “que exerce o sortilégio que o poder mágico lhe permite”. Eis o que Ruy Belo procurou no seu rápido caminho. “Não há bem mais humano do que a palavra, de tal maneira que ela até compromete na inteligência do homem toda ou quase toda a sua existência. Ela ajuda a criar, e participa da história do homem. Daí que pô-la em jogo seja movimentar o universo”. E se, para Ruy Belo, a palavra é humana, naturalmente se torna social, comprometida, responsável. Ela abre diversas relações com outras palavras e sobretudo com pessoas. Vista a esta luz, a poesia é o lugar “onde convivem umas com as outras as palavras”. E é isto que sentimos ao ler os poemas longos do autor. Teresa Belo recordava, por isso, os exercícios intermináveis que dedicava aos encontros e desencontros de palavras. Afinal, se “O Guardador de Rebanhos” veio de um só jacto; Régio confessava: “Há quanto, há quanto já que os versos me não vinham”… Foi na leitura de Homero que se educaram todos os atenienses, mas Platão preconizava a expulsão dos poetas da cidade pelo perigo que representavam. Hölderlin, se reconhecia a inocência da palavra, considerava-a o mais perigoso dos bens. “A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento”…  

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 8 a 14 de março de 2021

 

Eduardo Lourenço dirigiu a revista “Finisterra” durante mais de trinta anos e considerou esse título como uma metáfora, valendo a pena relembrar esse testemunho, no contexto de uma vida plena de reflexões sobre a importância política da ligação entre pensamento e ação.

 

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UM ETERNO RECOMEÇO

Quando apresentou a revista “Finisterra”, no Inverno emblemático de 1989, Eduardo Lourenço afirmou: “Finisterra: um sítio onde a História nos colocou como Europeus do Sul, prometidos a um futuro nem de nós mesmos suspeitado, lugar de margem, de isolamento, de sonho e de vertigem. Apesar das aparências, num mundo onde tudo é já centro e circunferência, este lugar que é ainda nosso, que nos fala antes que nós mesmos falemos como portugueses, é um lugar propício à consideração nua da nossa situação histórica, nacional, europeia, nos finais do século que conheceu mais metamorfoses que aquelas que nos precederam. Em todo o “fim” está inscrito o aspeto de um “começo”. Ou de um eterno recomeço». Eduardo Lourenço tem procurado compreender Portugal, em especial nos anos que precederam e se sucederam à revolução democrática, num momento decisivo em que a liberdade chegou com o fim do império. Contudo, escreveu não para recuperar o país, que não perdeu, mas para o «pensar» com a mesma paixão e sangue-frio intelectual com que pensava quando «teve a felicidade melancólica de viver nele como prisioneiro de alma». E pode dizer-se que suscitou de forma pioneira as questões fundamentais de uma identidade que se interrogava, no regresso ao cais de partida, quando havia que pensar a longa viagem, que passou a suscitar a exigência de “um eterno recomeço”. No final dos anos setenta, em «O Labirinto da Saudade», publicado para a revista «Raiz e Utopia», depois de concluir que a imagem ideal de nós mesmos era desadequada da realidade, disse ser chegada «a hora de fugir para dentro de casa, de nos barricarmos dentro dela, de construir com constância o país habitável de todos, sem esperar de um eterno lá-fora ou lá-longe a solução que, como no apólogo célebre, está enterrada no nosso exíguo quintal».

 

CONVERSÃO CULTURAL, OLHAR CRÍTICO

De facto, «não estamos sós no mundo, nunca o estivemos». A conversão cultural necessária teria de passar por um olhar crítico sobre o que somos e o que fazemos. É esse olhar crítico que nos conduz naturalmente aos fatores democráticos e ao humanismo universalista de que falava Jaime Cortesão. E assim podemos ler a uma luz nova “A Viagem a Portugal” de José Saramago, numa continuidade ibérica, tão bem entendida na memória de Miguel de Unamuno em Salamanca. Daí a importância do magistério de Eduardo Lourenço como um cultor natural dos Estudos Ibéricos, ou não fosse ele natural da raia beirã, onde se pode compreender bem a simbiose entre o ficar e o partir e a fronteira como lugar de encontro e diferença. Deste modo, percebemos bem como nos tornámos Todo o Mundo e Ninguém, do mesmo modo, aliás, como todo o Ocidente. E com o tempo, num movimento uniformemente acelerado, Portugal, a Europa e o mundo obrigaram-nos a repensar o destino como vontade, seguindo a lição da Conferência de Antero no Casino Lisbonense sobre as Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. E se falo da célebre geração de 70 é porque Eduardo Lourenço tem no seu código genético de pensador a marca fundamental de uma síntese fantástica que liga o grito dos jovens de Coimbra às Conferências Democráticas do Casino Lisbonense e ainda ao impulso futurista do Orpheu. E assim o cultor por excelência do ensaio na segunda metade do século passado procurou ligar a razão e o mito, o idealismo e o sentimento trágico da vida. E, hoje, acordados à força pelas crises (financeira e pandémica) percebemos que os impulsos que clamam «Indignai-vos!» foram profundamente sentidos pelo pensador. Eduardo Lourenço empunhou, assim, o estandarte europeu, com especial empenho, mas sem demasiadas ilusões: «A cada um sua utopia. Utopia por utopia, como europeu desiludido mas não suicida, prefiro ainda a de uma Europa apostada em existir segundo o voto dos que há meio século a sonhavam, não como uma continuidade óbvia de um passado “europeu” sem identidade, mas como uma aposta numa Europa, empírica e voluntariosamente construída pelas “várias europas” que são cada uma das suas nações».

 

COMPROMISSO E AÇÃO

Não é uma pseudo-América de segunda ordem que visamos ou que está em causa, mas uma saída que exige compromisso e ação. Daí a necessidade de pensar Portugal como vontade e como comunidade plural de destinos e valores, capaz de pôr em diálogo os mitos e a razão, procurando afastar a maldição do atraso. É esse o “eterno recomeço” que Eduardo Lourenço viu na metáfora de Finisterra. O enigma português não pode ser respondido ou encontrado através de qualquer simplificação – ora idealista, ora sentimentalista, ora materialista. Por isso, só a heterodoxia lourenciano permitiria fazer entender o nosso cadinho identitário, indo ao encontro da miscigenação, ligando as ideias e a emoção, e percebendo que a alternância cíclica do otimismo e do pessimismo, entre sermos os melhores ou os piores, nos obriga a assumir o mundo da vida, não como bipolaridade mas como desafio realista. Por isso, na Expo-98, falou de «maravilhosa imperfeição», ligando-a à complexidade e à diversidade. A obra do ensaísta procurou, por isso, pôr-se no outro lado das coisas, assumindo individualmente a missão, que aprendeu em Montaigne, de partir do eu, do incómodo eu, para o diverso outro. Foi, assim, heterodoxo lúcido em busca de mais luz (como Goethe), para poder perceber as diferenças, as particularidades e a universalidade do ser.

Não por acaso, Eduardo Lourenço é um cultor de paradoxos, ciente de que a cultura se enriquece pela capacidade de ver o mundo do avesso ou de fora e de olhar para além das aparências. «É a vida mesma que nos biografa – por isso é a nossa vida – e, escrevendo-se em nós, nos autobiografa sem que a ninguém, salvo essa vertiginosa musa, possamos imputar tão extraordinária façanha». Com o dom de usar as palavras para melhor as adequar ao mundo da vida, o ensaísta não esconde que a essência do género que cultiva, tem a ver com a confissão na primeira pessoa do singular. «Nisso quem está a menos, somos nós, e a vida tão excessivamente a mais que só a conhecemos por nossa nos intervalos em que a temos como se de outro fosse. Só os outros nos tiram retratos e só a coleção aleatória destas vistas ocasionais dos outros sobre nós ocasionalmente arquivadas, se isso valesse a pena, para termos mais tarde e acabada a vida que não nos tem, seria então um “autorretrato”». Em tempos, não por acaso, um grafólogo identificou na escrita do ensaísta «uma excessiva necessidade de outros», e o próprio, paradoxalmente, comparou-se a Judas, que precisava desesperadamente de Jesus Cristo… Voltando ao primeiro editorial de Eduardo Lourenço na revista “Finisterra”: “O futuro, (…) o próximo da cultura, sob todas as suas formas, é o de integrar essa nova condição de finisterreanos, e através dele o de relativizar, em função dessa nova exigência que já começou, todas as urgências, mesmo as mais imperativas, do que continuamos a pensar e a ler como aventura histórica inscrita e circunscrita no espaço natural, física e simbolicamente instável do planeta sublime que já comtemplamos do exterior.(…). Talvez pelo hábito de viver a nossa situação solitária de habitantes de Finisterra e a sua estranheza e mistério como naturais, nós estejamos mais aptos do que outros para vestir, compreender e nos reajustar a esta vertiginosa revolução do imaginário terrestre que tem lugar a nossos olhos”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 1 a 7 de março de 2021

 

«O Método Montessori» de Agostinho da Silva (Inquérito, 1939) é um pequeno livro indispensável, que serve de mote para uma análise sobre a situação atual do panorama educativo português.

 

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OLHOS NOS OLHOS

Nada é tão importante como a educação e a formação. Mas nada é mais difícil, uma vez que as medidas são muito exigentes, abrangendo a sociedade toda, apesar de haver a tentação para considerar que todos sabem do tema. Daí a facilidade nas simplificações, tantas vezes dominadas pela memória desfocada que muitos têm sobre o que foi para si a escola. Há tantas vezes uma lembrança ora nostálgica ora negativa, que leva a pensar que há receitas e soluções mágicas, na ilusão de que seria possível imaginar os estudantes como pequenos robôs humanos, aptos a fazer o que se idealizou para eles. Lembramo-nos de Locke afirmar que não há duas crianças que possam ser educadas por métodos semelhantes, concluindo que só uma educação aprimorada e exigente pode fazer distinguir positivamente as pessoas. E recordamos o que Maria Montessori disse sobre o papel do professor e do educador: “é, antes de tudo aquele que observa; a sua atitude fundamental e o gosto íntimo têm de ser a atitude e o gosto do sábio que passa horas observando, pacientemente, silenciosamente, com exatidão e calma, o fenómeno que se trata de estudar; ao professor que tinha por missão falar substituímos o professor que sabe calar-se; ao professor que se elevava substituímos o professor que se eleva; ao professor que tinha como virtudes o orgulho e a cólera substituímos o professor que tem como virtudes a humildade e a placidez”.

 

NÃO À INDIFERENÇA

Não se pense, porém, em indiferença ou passividade, mas em autoridade firme e serena, para dar espaço à liberdade e à responsabilidade. E essa observação atenta, esse cuidado são os modos necessários para tornar a aprendizagem fator essencial de desenvolvimento. Luísa e António Sérgio falavam, por isso, na República escolar de jovens cidadãos ativos, centrada na autonomia, na “educação social”, no exemplo, na singularidade e na cooperação e não em discursos morais abstratos e ilusórios… Neste tempo de pandemia, muito se discutiu o papel da escola. E muito se sentiu o peso dos equívocos e das ilusões. O problema é complexo e da maior importância: Estamos a falar de escolaridade obrigatória de 12 anos, de uma população escolar que abrange a sociedade toda, de exigências diversas e necessárias de ensino e formação, de uma obrigação de desenvolvimento incompatível com interrupções ou facilidades e da necessidade de garantir para as gerações em idade escolar uma aprendizagem de qualidade capaz de permitir a defesa do bem comum e um desenvolvimento sustentável no futuro. Contudo, vivemos um dilema, que se torna dramático, em especial para os níveis básicos da educação. Se dispomos de meios digitais de comunicação, a verdade é que a sua utilização tem efeitos assimétricos nos diferentes níveis de ensino. Na educação pré-escolar e no ensino básico, o ensino a distância, só por si, além de agravar as desigualdades, não tem resultados satisfatórios. Basta lembrarmo-nos do que citámos de Locke e Maria Montessori, mas poderíamos ir até aos gregos e romanos, para perceber que a presença na escola é essencial no desenvolvimento da criança.

A educação faz-se olhos nos olhos. Não é possível literacia, numeracia e educação social a distância. É indispensável a relação direta do educador com o educando. E aqui está o caráter dramático do dilema. Como vimos nas últimas semanas, só o confinamento obrigatório pôde reduzir, de facto, a transmissão da Covid-19. Mas houve, em dada altura, que fechar as escolas, para que a eficácia aumentasse. A decisão foi dilacerante e foi certo que assim se fizesse, mas importa ter em consideração os prejuízos tremendos, sobretudo para as crianças mais novas e para as famílias com menores recursos, o que vai obrigar a ter de se compensar essa providência excecional. E a situação é paradoxal. Segundo o que conhecemos da doença, pelo menos nas estirpes mais comuns, a frequência da escola é bastante segura – o que acontece é que estando a sociedade toda em movimento, é fora da escola que a transmissibilidade aumenta. Lembre-se que esta faz-se sobretudo dos adultos para as crianças e não na situação inversa ou entre crianças. Daí a necessidade de encontrar soluções que permitam ensino presencial na educação pré-escolar e no ensino básico básico com cuidados redobrados relativamente aos riscos de transmissibilidade entre adultos… Não haverá soluções ideais, mas é indispensável definir uma estratégia equilibrada entre a solução presencial e a utilização dos meios digitais e de comunicação. E aqui os ensinos secundário e superior apresentam condições favoráveis e de maior flexibilidade para o ensino a distância.

 

QUE MELHOR APRENDIZAGEM?

Mas falemos de uma situação concreta que nos aumenta as responsabilidades. Um dos indicadores fundamentais para se apurar a qualidade do esforço feito entre nós no sentido da melhoria da aprendizagem é a taxa de abandono escolar precoce. É um problema antigo que apenas pode ser tratado com medidas de fundo e de longo prazo. Segundo o INE, atingimos o melhor valor de sempre: 8,9%, sobretudo devido à persistência dos programas de apoio a escolas em territórios desfavorecidos. A intervenção em escolas TEIP foi decisiva. De facto, o objetivo de educação de qualidade para todos, definido pela UNESCO, obriga a intervir simultaneamente na criação de condições de exigência e de qualidade e nas situações em que haja risco de exclusão. E é este equilíbrio que suscita as maiores dificuldades, sobretudo quando uma situação de emergência, como a que atravessamos, ameaça dramaticamente o que já conseguimos com um esforço excecional. Se nas avaliações internacionais de qualidade temos progredido (graças à avaliação e ao trabalho realizado), esse esforço tem de ser completado pelo combate sem tréguas à exclusão. E a diferenciação positiva, tratando de modo distinto o que é diferente, é a chave para que haja justiça distributiva e combate às desigualdades. A coesão social só se alcança e consolida se começarmos por valorizar as pessoas pela educação e se tivermos um sistema fiscal capaz de garantir uma tributação justa da riqueza, capaz de mobilizar recursos para a prestação de serviços públicos de qualidade. Mas não basta as boas intenções. É necessário que na educação, na cultura e na ciência, nas escolas e nas instituições de serviço público haja compromissos com resultados e estímulos eficazes para o efeito – como a deteção oportuna das situações críticas, o acréscimo de horas letivas para superar dificuldades e atrasos, e o apoio de professores aos alunos em situação de risco.

 

O ABANDONO ESCOLAR

As políticas educativas ou são de longo prazo, com acompanhamento sério, com rigorosa e permanente avaliação de resultados de acordo com os objetivos propostos, ou não podem funcionar. Só há uma cidadania inclusiva, se agirmos nos campos da qualidade, da relevância e da equidade. Políticas educativas e sociais não se confundem, completam-se. Na educação pré-escolar ou nos TEIP, como na avaliação, o que houve, em Portugal, foi uma política de longo prazo definida desde os anos noventa e posta em prática graças ao planeamento, à concretização das medidas e ao acompanhamento e afinação dos resultados. Com efeito, qualquer política educativa (como na ciência ou na saúde) só pode apresentar resultados positivos consolidados uma vez transcorrido o prazo de uma geração, ou seja, nunca menos de vinte anos. E, naturalmente, o tempo pôde ir reforçando as medidas iniciais – designadamente através de mecanismos de deteção precoce dos casos de risco (assiduidade, comportamento, resultados escolares) e mercê do envolvimento das comunidades. Só assim os empregadores começam a ter consciência de que é melhor terem profissionais com mais e melhores formações, completas e relevantes, em vez de mão-de-obra mais barata, sem formação adequada ou incompleta. E nesse ponto o aperfeiçoamento e o alargamento do ensino profissional são essenciais. Portugal tem assim pela primeira vez um valor de abandono escolar precoce inferior à média da União Europeia, de 10,2% - apesar de haver disparidade ente as raparigas com 5,1% e os rapazes com 12,6%. Isto, enquanto a taxa de escolaridade no ensino superior ficou em 39,6% perto do objetivo europeu definido de 40%, o que também constitui um avanço significativo. Conclusão? Não podemos atrasar-nos. Importa prosseguir na concretização de objetivos audaciosos. Há motivos sérios de preocupação perante o dilema pandémico. Impõe-se que a economia e a sociedade estejam aptas a responder à estabilização da situação de saúde pública e ao prosseguimento dos avanços necessários da educação, na formação, na ciência e na cultura. Tudo se relaciona.        

 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de fevereiro de 2021

 

Luís Sepúlveda (1948-2020) deixou-nos inesperadamente há um ano. Era um amigo de Portugal e a sua obra mantém-se atual, plena de humor e de sentido quase profético, como na “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (Porto Editora, 2008).

 

historia de uma gaivota e de um gato que a ensinou

 

UMA MEMÓRIA VIVA

Ainda a pandemia do Covid-19 dava os seus primeiros passos e, regresssado das “Correntes d’Escritas”, Luís Sepúlveda foi das primeiras vítimas desta terrível peste que assolou o mundo e da qual ainda não nos libertámos. Com uma obra plena de vitalidade, aprendemos com o escritor multifacetado a importância da memória – memória de acontecimentos, memória de pessoas, que  transmitia intensamente. Mas a sua personalidade irrequieta fazia questão de lembrar a tragédia ocorrida no Chile em setembro de 1973. Enquanto pensávamos que esse país parecia ser a exceção numa longa lista de pronunciamentos militares em que a América do Sul era pródiga – eis que o Chile se tornou, com a queda de Allende, mais uma triste confirmação de que a liberdade e a democracia nunca estão adquiridas. E Luís Sepúlveda era o exemplo de alguém que representava o entusiasmo dessa juventude chilena que acreditou na vitalidade inovadora de uma democracia social audaciosa. O certo é que nesse ano de 73 muitos sentimo-nos derrotados com a vitória de Pinochet. E nos olhos de Luís Sepúlveda percebíamos a expressão de uma esperança então derrotada, mas o ânimo de quem acreditava generosamente na força da liberdade, do pluralismo e da capacidade de fazer renascer a democracia no Chile, depois de lições dramáticas que foram sendo aprendidas.

 

UMA VIDA CHEIA

Nascido em 1948, teve uma vida cheia – como jornalista, militante político, romancista, realizador de cinema e argumentista. Logo em 1970 venceu o Prémio Casa das Américas pelo seu primeiro livro, “Crónicas de Pedro Nadie”, e uma bolsa de estudo na Universidade Lomonosov de Moscovo, onde apenas ficaria cinco meses. Foi membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, mas partiu para o exílio com a chegada da ditadura militar. Viajou pelo Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, numa missão de estudo da UNESCO. É essa experiência que inspirará o seu romance “Um Velho que Lia Romances de Amor” (1989) – um verdadeiro hino de amor à floresta amazónica, que se tornou uma das obras-primas da literatura latino-americana, em que o humor se liga ao tratamento muito sério de um tema candente. Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, e depois da vitória da revolução, trabalhou como repórter. Em 1982 partiu para Hamburgo, atraído pela literatura alemã, militando no movimento ecologista, percorrendo os mares do mundo com a Greenpeace, entre 1983 e 1988. Em 1997, instalou-se em Gijón, em Espanha, na companhia da mulher, a poetisa Carmen Yáñez, tendo fundado e dirigido o Salão do Livro Ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livreiros latino-americanos e europeus. Cultor da amizade, o escritor disse em “Jantar com Poetas Mortos”: “os amigos não morrem, simplesmente morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre ossos”. A força de memória está ainda na expressão de uma personagem desse livro – “enquanto falarmos deles e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem”. O método do escritor era o da deambulação e a partir dela contava histórias ouvidas a pessoas que foi conhecendo. O ofício de escritor era, assim, captar pequenos detalhes da existência, para que os afetos permanecessem. E considerava-se um cidadão-fronteira, entendendo essa linha não como um lugar de separação, mas como um modo de unir, um ponto de contacto, de diálogo e de novos conhecimentos. No fundo, entendia que assim poderia compreender melhor a natureza, na militância ativa dos últimos anos da sua vida na causa ecológica e na defesa da natureza. A “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (2008) é ilustração viva dessa militância ecológica. Zorbas é um gato grande, preto e gordo, a quem uma gaivota moribunda apanhada por uma maré negra de petróleo deixa dois compromissos: guardar o ovo que acabara de pôr e criar uma pequena gaivota, bem como ensiná-la a voar. Tudo com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabe-tudo, Barlavento e Colonello, numa tarefa dificílima para um bando de gatos habituados à vida dura do porto de Hamburgo… E aqui se sentem as forças da liberdade e da generosidade – num combate de todos em defesa da natureza para que outras gaivotas não fossem mais vítimas de desastres semelhantes.

 

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO

Amigo de Portugal, Luís Sepúlveda recebeu em 2016 o Prémio Eduardo Lourenço – pela intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica – e sentiu-se especialmente orgulhoso com essa distinção. Em “A Lâmpada de Aladino” (2008), um conjunto de contos marcados pela imaginação e pela procura de personagens inesquecíveis, deu-nos o retrato de Valdemar do Alentejo, um português impagável: “um personagem absolutamente real (diz o escritor). E convém explicar que se trata de um verdadeiro pirata. Não confundir com corsários, flibusteiros ou bucaneiros. Os verdadeiros piratas que eram homens livres no mar, foram muito poucos. Na verdade, só houve piratas em três lugares, No mar do Norte, por onde andou um pirata chamado Klaus Störtebeker, que assaltava navios da Liga Hanseática e distribuía o saque pelos pobres à laia de Robin Hood, nas costas africanas, sob forma de uma república pirata berbere, com um código de conduta ético rigorosíssimo, e depois no Estreito de Magalhães, onde existiram duas confrarias de piratas. Uma dirigida por dois holandeses, desertores da marinha dos Países Baixos, o Van der Meer. E outra que tinha como capitão o Alentejano. Apesar de distantes no espaço e no tempo todos tinham, a mesma bandeira vermelha e negra, como a dos anarquistas. Uma curiosa coincidência. Isto, e uma ideia elementar de justiça – devolver aos mais fracos o que lhe tinha sido tirado pelos mais fortes… Entusiasmado com essa ideia, Luís Sepúlveda preparava um novo romance baseado nas memórias e nos mitos cultivados em torno da sua recordação. Alguém que existiu realmente e que talvez tenha sido executado nas Ilhas Molucas, paraíso das especiarias. Luís Sepúlveda era uma presença assídua entre nós, tendo participado em quase todas as 21 edições do Festival Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim, a última das quais entre 18 e 23 de fevereiro de 2020. A sua lembrança está, pois, bem presente entre nós. Ao lermos os seus livros, plenos de humor e de uma séria ponderação das questões fundamentais que nos assaltam, é como se ele estivesse sempre a regressar, com a sua generosa força da liberdade…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 15 a 21 de fevereiro de 2021

 

«A Língua Portuguesa como Ativo Global» (Imprensa Nacional, 2020, com o apoio de Camões – Instituto da Cooperação e da Língua), da autoria de Luís Reto (coordenação), Nuno Crespo, Rita Espanha, José Esperança e Fábio Valentim é uma obra da maior utilidade para a compreensão da importância atual da língua portuguesa no mundo.

 

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LÍNGUA COMO VALOR GLOBAL

“A importância estratégica da língua portuguesa para Portugal e para os restantes países da CPLP está longe de ser plenamente assumida nas políticas públicas do nosso país e também dos restantes Estados que integram a nossa comunidade linguística. Das cerca de 7000 línguas faladas no nosso planeta raras são aquelas que integram o grupo de línguas que podemos considerar globais, como é o caso do português”. O tema é de uma significativa relevância nos dias que correm e a publicação na coleção “Essencial” da Imprensa Nacional de A Língua Portuguesa como Ativo Global (2020, com o apoio de Camões – Instituto da Cooperação e da Língua), da autoria de Luís Reto (coordenação), Nuno Crespo, Rita Espanha, José Esperança e Fábio Valentim constitui uma oportunidade para que o cidadão comum se possa aperceber das implicações de um tema com uma projeção presente e futura iniludível. Por um lado, a obra procede a uma análise geral das questões históricas, estratégicas e económicas da língua e, por outro, apresenta os resultados de um estudo comparado de 110 línguas, com atenção à língua portuguesa, na comparação relativa a critérios de número de falantes, impacto global e potencial. Trata-se de um trabalho em progresso, da maior relevância, que continuará a ser aprofundado, quer pela recolha de mais indicadores, que pela análise mais detalhada dos dados recolhidos. Finalmente, trata da presença da língua portuguesa no mundo, com dados atualizados da rede instituições do Camões, da rede Brasil Cultural e do IILP – Instituto Internacional de Língua Portuguesa, contendo dados qualitativos sobre perceções dos estudantes de português do Camões, recolhidos ao longo dos últimos anos. Não podemos entender o capital humano, enquanto fator de coesão, de identidade, de equidade e de eficiência sem falarmos das competências linguísticas, que correspondem a três requisitos fundamentais: a incorporação na pessoa, a partir da integração familiar e comunitária; a produtividade no mercado de trabalho e o consumo; e o investimento em tempo e dinheiro para quem precisa de adquirir conhecimento que não possui para a sua atividade, em especial para os imigrantes. O tema da mobilidade está na ordem do dia nas sociedades modernas, obrigando para os trabalhos qualificados um domínio correto da língua de trabalho, indispensável para que haja comunicabilidade, eficácia, qualidade e, em última análise, boa avaliação e reconhecimento. A globalização reforçou o papel das línguas de comunicação internacional e facilitou a sua expansão e aprendizagem. E no domínio da língua a qualidade é transversal, abrangendo, no multilinguismo, o bom domínio da língua materna e a capacidade de aprender mais do que uma língua estrangeira, para uma melhor compreensão da realidade e da vida. Mas há ainda o grande problema das barreiras linguísticas na ciência, para o qual não há soluções. Se os falantes do inglês pensam que toda a informação importante está disponível em inglês, a verdade é que assim não é – o que exige para o progresso do saber a capacidade de comunicar com experiências e tradições diferentes.

 

A ORDENAÇÃO DAS LÍNGUAS GLOBAIS

Quando se trata de procurar uma ordenação das línguas globais não estamos perante uma tarefa fácil pela variedade de critérios e dimensões a considerar e por falta de bases de dados com informação comparável para 100 línguas. Todavia, há algumas conclusões que podem ser referidas. Considerando a ordenação por falantes e por impacto global, encontramos um primeiro grupo de línguas fortes no número de falantes, na economia e na influência global – o mandarim, o inglês, o espanhol e o árabe – a que podemos acrescentar ainda o francês, apesar do reduzido número de falantes de primeira língua. Há ainda um segundo grupo de línguas de natureza mais local, mas com um número grande de falantes: o hindi, o punjabi e o bengalês. Noutros casos, a importância económica sobreleva o número de falantes – como o russo, o japonês e o alemão. A situação da língua portuguesa corresponde a uma posição atípica: está presente em todas as ordenações, em 6º ou 7º lugar, com debilidades na economia e nos falantes e com pontos fortes nos falantes maternos, nos recursos naturais e na presença global.

 

A DIVERSIDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA

Do que se trata neste pequeno livro, claro e acessível, com diversas pistas para aprofundar uma questão crucial para as culturas da língua portuguesa, é de compreender como evoluímos na formação, apogeu, declínio e renascimento da língua portuguesa. De facto, estamos perante um caso pouco comum – de uma língua nascida fora do território de Portugal, sujeita a muitas vicissitudes e contrariedades, mas que se pôde impor entre as dez línguas mundiais mais importantes, qualquer que seja o critério que usemos na seriação dos idiomas globais. Se pensarmos na evolução da vizinha Espanha, com uma população quase sete vezes a portuguesa no século XVI, ninguém poderia prever os números a que chegaram os falantes da nossa língua no mundo. Mas há fragilidades a apontar: como o reduzido peso económico de uma parte importante dos membros da CPLP, com Angola e Moçambique abaixo do seu potencial; um certo marcar passo no desenvolvimento do Brasil; e os efeitos das últimas crises na economia portuguesa. Assim o “valor de mercado” da língua tem sofrido uma certa estagnação, com consequência na atratividade no comércio internacional e na falta de investimento de larga escala, quer interna quer externamente, no tocante à formação, aos materiais didáticos e aos vocabulários técnicos, além das necessidades na produção e divulgação de conhecimento científico, bem como das exigências no domínio das indústrias culturais criativas. Importa, por isso, compreender a importância do alargamento do número falantes de português como segunda língua e a necessidade de recursos a investir na qualidade da comunicação nas diferentes culturas da língua portuguesa. Contudo, as forças podem superar as fraquezas, desde que haja cooperação reforçada de qualidade. O conjunto dos países da CPLP detém um potencial significativo de recursos naturais face às populações – considerando plataformas marítimas, riqueza agrícola, reservas de água doce e recursos energéticos, capazes de preencher os requisitos de um Novo Contrato Ecológico. A articulação entre o Brasil e Portugal, nem sempre fácil, revela-se indispensável em benefício de todos e sem tentações hegemónicas ou de prevalência. Uma língua que detém a 6ª ou a 7ª posição mundial em falantes maternos e que duplicará o número atual até ao fim do século tem de investir com ambição, não cuidando apenas da língua como referência das diásporas, língua de herança ou de cultura. Torna-se necessária uma efetiva articulação estratégica no conjunto da CPLP, cooperação internacional realista e sem complexos e uma melhor compreensão das vantagens competitivas da comunicabilidade, no contexto do multilinguismo – eis o que tem de ser considerado num mundo que precisa cada vez mais de ligar as especificidades e as complementaridades, com entendimento da diversidade e da complexidade.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença