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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 25 de novembro a 1 de dezembro de 2019

 

O número 202 da revista “Colóquio-Letras” (Gulbenkian, 2019) é deliciosamente ilustrado pelo Herbário de Lourdes Castro e começa por um texto inesquecível de Agustina.


UM MONÓLOGO A DOIS
“Correspondências” é o prato forte do último número da revista “Colóquio – Letras” (202, setembro – dezembro de 2019). Num tempo em que a correspondência está a sofrer uma profunda mudança, pela emergência das novas tecnologias de informação e comunicação, do correio eletrónico, da internet e da digitalização, é essencial lembrar o significado da comunicação escrita. Como afirma Marcello Duarte Mathias: “a correspondência é um monólogo a dois; o diário uma correspondência a várias vozes. Ambos apresentam, contudo, um traço comum: são formas disfarçadas de autobiografia, porquanto a procura que lhes subjaz obedece a uma idêntica demanda de identidade – uma mesma realidade focada de ângulos diferentes. Ou, dito de outro modo, singularidade de testemunhos que equivalem a uma semelhante aventura de espírito”. Veja-se, aliás, a lista de exemplos dados por Miguel Real relativamente ao uso da correspondência na cultura portuguesa: Pero Vaz de Caminha na descoberta do Brasil apresenta uma “carta civilizacional”; Afonso de Albuquerque e António Lobo Antunes, cartas de guerra, em momentos e com motivações muito diferentes; Wenceslau de Morais, cartas sobre a saudade; Frei António das Chagas e o Padre António Vieira, cartas espirituais; Mariana Alcoforado e Eça de Queiroz, cartas de amor; Luís António Verney, Maria Isabel Barreno, Maria Teresa Horta e Maria Velho da Costa, missivas sobre o atraso português. Os exemplos ilustram a natureza e a importância da correspondência. Por muito que oiçamos queixas sobre o vazio criado pela ausência da correspondência tradicional, a verdade é que teremos de encontrar novas formas de registar esses diálogos, indispensáveis para melhor nos compreendermos. É verdade que há riscos fortes. Marcello D. Mathias diz mesmo: “com o desaparecimento das cartas desaparece de igual modo um estilo de vida, a par de espólios e arquivos que lhes dizem respeito – é toda uma prática civilizacional que se perderá. A título definitivo”. Temos, de facto, de ter isso em consideração, mas certamente, encontraremos novos modos de fixar a necessária comunicação, que corresponde a um verdadeira demanda de identidade.

 

O MUNDO DIGITAL
Leia-se, aliás, o texto, de grande interesse atual, de Manuel Portela intitulado “correio @ eletrónico: escrever cartas na rede”. De facto, o correio eletrónico sofre com a aceleração do tempo e com a compressão do espaço, de acordo com a lógica das culturas de rede. A distância espacial e temporal correspondente à tradicional carta de papel teve uma completa alteração de escala. A comunicação passou a ser instantânea, com consequências na linguagem, no cuidado e na clareza das mensagens, o que obriga a uma alteração radical no método e na análise. Daí que tenhamos de lidar no futuro com uma escrita e uma linguagem adaptada ao correio eletrónico. Por outro lado, “a necessidade de conexão permanente interfere com a capacidade introspetiva - limitando a conversa que os indivíduos mantêm consigo mesmos e a consequente reflexividade - e, simultaneamente, diminui a capacidade de imaginar o lugar dos outros, já que estes se fazem presentes mais como representações gráficas na interface sob controlo do utilizador do que como seres independentes dessa figuração simbólica”. Vários exemplos são apresentados pelo autor, o que contribui para se compreender não só as potencialidades mas também as limitações deste meio, que indiscutivelmente ganhará importância no futuro, terá os seus cultores e até possuirá uma nova qualidade literária. Os temas do tempo e da reflexão são cruciais quando falamos desta questão. Evidentemente que os progressos trazem mudanças profundas, como se nota em dois textos sob o efeito do tempo na comunicação epistolar, de Fernando Cabral Martins sobre os modernistas e de António Cândido Franco relativo à epistolografia negra do surrealismo. E se dúvidas houvesse, temos a publicação das cartas de Mário Cesariny e M.S. Lourenço. De facto, como “correspondências” que são, há uma grande variação consoante as diferentes gerações. E as cartas imaginárias apresentadas, da autoria de António Mega Ferreira, Rita Taborda Duarte, Nuno Júdice, Julieta Monginho, Alexandra Lucas Coelho e Afonso Reis Cabral ilustram muito bem modos muito diferentes de comunicar. É verdade que os tempos das grandes epístolas passaram, mas a necessária reflexão precisa de existir e terá, por certo, de se ir adaptando às novas tecnologias e mentalidades.

 

RUBEN E TORGA
E vejamos o estimulante diálogo entre Ruben A. e Miguel Torga. Antes do mais, é inesperado, mas muito atraente, considerando a riqueza cultural das duas personalidades. Cinco cartões, quatro postais, um telegrama e 34 cartas foi o que Torga enviou. E são a prova provada de uma admiração correspondida. E fica-nos na memória a afirmação de Torga, sempre exigente, sobre “A Torre da Barbela”: “confesso-lhe que ainda não consegui sair da confusão de tanto sonambulismo. O que já sei de ciência certa é que agradaram deveras os inúmeros achados expressivos que enxameiam o livro. Parei vezes sem conto no caminho, boquiaberto com a graça e a originalidade de certas maneiras de dizer. Que rica imaginação verbal a sua!”. E quanto a “O Mundo à Minha Procura”: “Você tem nele páginas admiráveis, de mão de mestre…”. E Ruben A., com um critério sempre exigente, diz ser Torga “o último grande escritor da tradição clássica da língua portuguesa. A sua contribuição criadora encerra na mais sublime forma expressões definitivas de clareza, profundidade e de valor humano”… E se este diálogo intenso e afetuoso se lê com grande agrado, perante um Miguel Torga próximo e afável (como eu próprio conheci), fica-nos a ilustração plena da força das “correspondências”. E neste ano dos centenários de Sophia e de Jorge de Sena, temos presente o filme de Rita Azevedo Gomes, no qual emerge um diálogo que confirma as considerações de Marcello D. Mathias. Este número da revista é deliciosamente ilustrado pelo Herbário de Lourdes Castro e começa por um texto inesquecível de Agustina. E assim a “Colóquio - Letras” confirma uma história de prestígio. Nasceu com a designação de “Colóquio, Revista de Artes e Letras”, por iniciativa da Fundação Calouste Gulbenkian, em janeiro de 1959, sob a direção de Reynaldo dos Santos e Hernâni Cidade e a direção gráfica de Bernardo Marques. José-Augusto França e Jacinto do Prado Coelho associaram-se à direção da revista em fevereiro de 1970. Então, autonomizaram-se a “Colóquio – Letras”, que começou a sua publicação em 1971, sob a direção de Hernâni Cidade (1971-1975) e de Jacinto do Prado Coelho (1971-84), e a “Colóquio – Artes”, também nascida em 1971 e dirigida por José-Augusto França, coadjuvado por Carlos Pontes Leça, que se publicou até dezembro de 1996. A “Colóquio – Letras” foi depois dirigida por David Mourão-Ferreira (1984-96), Joana Morais Varela (1996-2008) e agora por Nuno Júdice, desde 2009. E diga-se, o tempo das revistas de qualidade é o futuro.   

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 20 a 26 de agosto de 2018

 

Joaquim Sapinho foi convidado para revisitar as reservas do Museu Gulbenkian para dar a sua leitura da coleção.

 

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PERANTE A INTERROGAÇÃO DO TEMPO

Perante o relógio de bolso, desenhado por René Lalique, que Calouste Gulbenkian usava quando morreu, na sua caixa original, tomamos consciência do escrúpulo do colecionador em muito mais do que uma galeria de curiosidades. É o génio de um homem multifacetado e apaixonado pelo mundo e pela humanidade que encontramos – e aquele relógio é símbolo do tempo, o grande mistério da vida humana. Joaquim Sapinho é um cineasta de créditos firmados. A sua paixão pelos museus e pelas coleções levou-o a ser convidado para uma leitura pessoal sobre as reservas de um Museu especial e sobre o fabuloso percurso de Calouste Sarkis Gulbenkian, ao longo de uma vida, que lhe permitiu reunir uma das mais importantes coleções de arte do mundo. E o certo é que essa coleção constituiu para Sapinho desde muito cedo uma referência – “era o museu da minha infância, um modelo de museu para a minha vida inteira”. E assim imaginou uma intervenção que partiu de um mergulho nas suas memórias antigas, sentindo-se de novo criança ao entrar nas reservas da coleção, como se regressasse à leitura de “Tintin e os Charutos do Faraó”. E assim encontrou notícias incríveis de outros espaços com ramificações infinitas, colocando-se na pele do colecionador apaixonado. Partindo das moedas de ouro gregas, revela-nos como Calouste Gulbenkian mandou fazer uma caixa e depois encomendou à casa Louis Vuitton um estojo para transportar esse precioso tesouro. E é a ideia de viagem que o homem da imagem quis apresentar como paradigma do Museu. Mas não há apenas a viagem física, há igualmente a viagem no tempo e no espaço. “Eu parado com uma obra, viajo. Ao olhar para as moedas, imagino Gulbenkian a brincar com elas e a dar a mão a alguém na Grécia Antiga ou em Siracusa”. Os cadernos, as listas, as contas, os pequenos objetos, tudo identifica uma personalidade de exceção – capaz de aliar a formação científica e técnica, o sentido do negócio e a sensibilidade artística. Quando se fala de Património Cultural, aí está a capacidade de compreender um nexo de continuidade, em que cada nova geração vai acrescentar valor ao que recebeu, em conhecimento e em cuidado. E lembramo-nos de Mortimer, de E. P. Jacobs, no Cronoscafo, a máquina de “Armadilha Diabólica”, que permitia viajar no tempo, como em H. G. Wells, apesar de alguns pequenos e perturbadores enganos de percurso e de época. Joaquim Sapinho usou de um grande rigor nessa viagem no tempo – começando com as imagens captadas pela Pathé Filmes em 1928 na inauguração da capela de S. Sarkis em Londres, que Gulbenkian mandou construir em memória de seus pais. Só compreendemos o tempo através da memória.

 

COMO O TÚMULO DE UM FARAÓ

“As reservas deste museu são como o túmulo de um faraó – cheias de tesouros, mas também de objetos pessoais que nos ajudam a compreender como viveu, que mundo era o seu, em que é que acreditava” – esclarece o curador (Público, 20.7.18). Ao depararmos com a imagem do século XVIII que representa Eneias a fugir de Tróia, depois da vitória dos gregos, apercebemo-nos de que o herói transporta com ele Anquises, que carrega os deuses do lar em pequenas esculturas. Joaquim Sapinho dá um especial sentido a esta presença. Não é só a essência da noção de património que está em causa, o serviço (múnus) relativamente aos nossos pais (patres), mas também a experiência de cada um, ora para Gulbenkian na capela de Londres, ora para o próprio cineasta na lembrança pessoal do seu próprio pai (com quem começou, aliás, a nossa amizade). Gulbenkian é como Eneias e os deuses que Anquises transporta representam a extraordinária coleção que está em Portugal, ao serviço do mundo. De facto o Museu em Lisboa foi uma opção do próprio fundador para que o usufruto da magnífica coleção não passasse despercebida, integrada em qualquer outro grande museu. E o que agora se mostra é uma excecional câmara de maravilhas – que constitui um convite à viagem, desde a Anatólia, como Eneias, até à criação de um lugar de chegada, que pudesse ser um apelo contante à partida, pelo conhecimento e pela compreensão das diferenças. Lisboa não é um acaso, é um lugar de partidas para o mundo e a cidade simétrica de Bizâncio. Gulbenkian sentiu isso e Azeredo Perdigão soube interpretá-lo muito bem. Quem não compreender isso perde o essencial. As peças são múltiplas e fascinantes: a lista do que se encontrava na secretária do quarto da avenue d’Iéna, 51 toca-nos. E há tudo o mais: as fotografias do avô e do pai, os passaportes e vistos diplomáticos (um em especial ilustra o desencontro com o Reino Unido), a placa da Chancelaria da Legação Imperial do Irão, um pequeno pássaro embalsamado, um tapete de oração otomano, moedas de Constantinopla, o precioso fragmento de um livro de horas do século XV (uma nota muito especial de espiritualidade), desenhos de Fragonard, panejamentos que pertenceram a Maria Antonieta… Veja-se, aliás, a carta que Gulbenkian envia a John Walker, conservador da National Gallery de Washington. Estamos perante a cabal demonstração de que o atual Museu realiza o desígnio do colecionador, encarando as obras da sua coleção como “filhas”, que não deveriam perder a sua identidade e companhia, não se misturando num grande museu ou não ficando separadas entre si e do público. O fundador deseja que o seu Museu seja vivo, tenha pessoas e seja um fator de encontro de civilizações e cultura.

 

SÓ O MELHOR!

O exercício agora feito por Joaquim Sapinho completa um longo caminho de estudos e investigações. Como não tinha sido feito antes, vai-se ao encontro de Calouste Sarkis Gulbenkian não apenas como genial homem de negócios ou como colecionar ímpar, mas como representante de um diálogo entre culturas e espiritualidades que na cidade de Lisboa sentiu de outro modo a magia de Istambul. Recordo bem, como Orhan Pamuk me disse maravilhado na Biblioteca de Arte da Gulbenkian que tinha visto aí originais sobre a cidade do Bósforo que antes não vira no seu esplendor. A cada passo, sentimos a tentativa de construir a casa ideal. Mas a perfeição é impossível. Calouste diz à mulher: “Prometi-te um palácio, não te prometi a felicidade”… Eis o que sentimos neste exercício de espanto. Procuramos o homem insatisfeito, mas nunca desistente. Por isso, vamos descobrindo a outra face do génio, que deseja legar à posteridade a demonstração de que uma sociedade melhor é possível. Se dizia aos seus colaboradores que só queria o melhor (“Only the best!), fazia-o projetando um futuro em que a felicidade pudesse ser conquistada com passos persistentes. Daí os quatro cavalos que constituem o símbolo da Fundação Gulbenkian: Arte, Educação, Ciência e Beneficência. Trata-se de um nómada muito especial. Quando parte de Constantinopla para o mundo não esquece que a viagem é um modo de encontrar os outros e de se encontrar a si próprio. Joaquim Sapinho compreendeu-o bem, exigindo que prossigamos na capacidade de perceber melhor a importância do homem e da instituição que criou e de um sentido aberto e cosmopolita apaixonante…   

 

 

 Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

 

De 21 a 27 de maio de 2018

 

«Pós-Pop – Fora do Lugar Comum», mostra a ter lugar na Fundação Calouste Gulbenkian, representa, com significativa originalidade, uma visão abrangente da Arte Pop crítica, em Portugal e em Inglaterra, nos anos 1965 e 1975.

 

A REFERÊNCIA DE LONDRES
Partimos da experiência de criadores portugueses que foram ao encontro dos meios artísticos britânicos, num tempo em que, fundamentalmente graças às bolsas apoiadas pela Fundação Calouste Gulbenkian, há uma salutar abertura de horizontes num sentido da inovação. Do que se trata é de cultivar uma divergência bem-humorada em relação ao lugar-comum proposto pela Arte Pop. Numa palavra, trata-se da crítica da crítica. Joga-se com a linguagem popular para desconstruir uma imagem que não sendo uniforme dá lugar a leituras contraditórias – longe de um paradigma. A obra de Teresa Magalhães, em finais dos anos sessenta, praticamente inédita até hoje, usa uma imaginação que nos desvia do previsível, no tocante à linguagem gráfica e artística. Mas se esta é bastante livre e fora de uma disciplina visível, a obra de Ruy Leitão é mais sistemática e ditada pela exigência académica, caldeada pela imaginação crítica, que lhe concede uma inconfundível originalidade. Aluno dileto de Patrick Caulfield, Ruy Leitão, filho de Menez, falecido prematuramente aos 27 anos, demarca-se claramente da perspetiva mais comum da Pop-Art. Há uma preocupação interventiva – em que a crítica surge como denúncia daquilo que na revista “O Tempo e o Modo”, de António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, se designou como “desordem estabelecida”. Perante a expressão propositadamente paradoxal identificadora de um regime que não reconhecia as liberdades, haveria que tornar outra desordem manifestação da consciência crítica. Afinal, dir-se-ia ser necessária uma certa “desordem desestabelecida”. É verdade, como afirmou Eduardo Batarda, que as artes plásticas não eram tão diretamente atacadas pela censura como o pensamento e a escrita, no entanto havia que fazer a denúncia crítica de um tempo dominado por uma certa claustrofobia. E os artistas portugueses que saem e vão até Inglaterra reagem relativamente a uma certa situação anacrónica que se vive em Portugal. E é esse encontro que nos revela nesta Exposição artistas ingleses como: Bernard Cohen, Tom Philips, Jeremy Moon e Allen Jones. Dos portugueses, temos, além de Teresa Magalhães e Ruy Leitão, Eduardo Batarda, Menez, Nikias Skapinakis, Sérgio Pombo, Fátima Vaz (surpreendente revelação…), João Cutileiro e José de Guimarães.

 

O CASO DE CLARA MENÉRES
Mas permitam o destaque especial para Clara Menéres (1943-2018), há pouco falecida, quando a exposição já estava aberta. A sua obra “Jaz Morto e Arrefece o Menino de Sua Mãe”, uma escultura em gesso realizada em 1973 de um soldado morto, constitui um alerta sobre o tempo de incertezas, de segredo e de censura vivido quando foi realizado. É um ícone que não pode passar despercebido em toda a exposição. Surpreende, é certo. Mas só surpreende, de facto, quem perdeu a memória desses anos e do que eles representaram para a juventude de então. Clara Menéres não tinha 25 anos e a imagem torna-se um verdadeiro manifesto. Se há o livro de Spínola “Portugal e o Futuro” a pedir uma solução política para a guerra, com as consequências conhecidas, esta obra constitui uma marca indiscutível de uma denúncia necessária, inesquecível. Do mesmo modo o “Relicário” iconoclasta serve de símbolo propositadamente chocante sobre a lembrança da existência de censura – numa sociedade vigiada. E a apresentação desta obra, tal como está feita, representa uma inteligente solução para demonstrar que o proibido e a censura constituem sempre riscos em qualquer momento histórico. Dir-se-ia que esta obra nos transporta ao profundo choque causado por Eça de Queiroz com a sua “Relíquia”. A presença de Clara Menéres singulariza-se pela sua originalidade e por um percurso de uma paradoxal coerência – e de uma exigente atitude de denúncia. Como afirmou José Tolentino Mendonça: “A arte escandalosa de Clara Menéres insistia num diálogo em contracorrente com a história, procurando intervir mais sobre o espaço vivo das convicções e dos desejos do que em encontrar para si um lugar entre a monumentária oficial” (…) Diz Adília Lopes: ‘O iconoclasta / reconstrói o ícone’. Acho que exatamente isso que acontece (…) Clara Menéres não era nem um espírito conformista, nem uma personalidade cómoda e isso são coisas que lhe temos de agradecer” (Expresso, 19.5.2018).

 

UM PERCURSO MUITO RICO
Continuando a percorrer a magnífica exposição, encontramos em “caixas negras” estrategicamente colocadas a lembrança dos tempos que passam quando os artistas criam as peças apresentadas: E devemos ainda lembrar outros nomes: António Palolo, John Furnival, Manuel Baptista, Joaquim Bravo, Ana Vieira, Lourdes de Castro, René Bértholo, Ana Hatherly, Hein Semke, Cruz-Filipe, António Sena, Fernando Calhau, Sá Nogueira ou José Rodrigues… A exposição merece uma atenção especial e ficará na memória do público como uma riquíssima reflexão sobre um diálogo cosmopolita que tem Portugal em fundo. Se nos lembramos de Nikias Skapinakis em “Delacroix no 25 de Abril em Atenas” reportamo-nos a uma invocação sentida e inteligente do nosso Maio de 1968 – que foi a “revolução dos cravos” e que iniciou uma nova vaga das democracias. Na Gulbenkian estão duzentas e quinze obras, das quais vinte inéditas. Como Teresa Magalhães afirma, a propósito de uma obra emblemática sobre a viagem num Mini até Torremolinos, aquilo era a realidade. Não foi inventado. É o quotidiano, usado como motivo para combater o tédio. Aquela viagem significou ir para fora, ver outro lado das coisas. Eis a verdadeira metáfora que está subjacente a esta exposição – era preciso ver o outro lado das coisas, era isso que significava superar o que era vulgar, mesmo que, para desconstruir, fosse necessário partir do que os outros faziam… A curadoria de Ana Vasconcelos e Patrícia Rosas é de uma grande competência técnica, artística, e histórica. Pegando num tema que exigia criatividade e imaginação, capacidade de relacionamento e elevado sento crítico – é-nos apresentada uma mostra que nos leva até aos anos sessenta e setenta, numa perspetiva de conjunto, compreendendo a complexidade social e histórica, e lembrando os cinquenta anos do Maio de 1968, para além do lugar comum…    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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