Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Günter Grass

 

Deitando mão de uma escrita dinâmica que expõe a poesia, a prosa, a ilustração, Grass em Sobre a Finitude – tradução de João Bouza da Costa e chancela da D. Quixote, livro editado postumamente - surpreende em concisos sentidos que enfrentam e desafiam a velhice num possível novo, exposto em cartas de amor, dramas ciumentos, sátiras sociais, monólogos, exprimidos em felicidades amadurecidas e tristes, astutas e sensatas.

 

Falecido em 2015 recebeu o Nobel da Literatura em 1999. Escritor, poeta, dramaturgo e pintor, logo em 1959 lhe surge a notoriedade internacional com O Tambor de Lata, recordando-nos também do livro A Passo de Caranguejo que nas suas palavras constituía um “saltar para trás para ir para a frente” face à necessidade de se referirem vários eventos que nos levem a interpretar a história para uma melhor vivência com o futuro de uma realidade.

 

Mas Grass em Sobre a Finitude, não deixa de se fazer claro ao leitor quando afirma que será sempre alguém que se observa e porque não com uma ironia romântica dotada do necessário humor, nomeadamente quando

 

O que durante o dia, assim que o cansaço me vence, tendo a interpretar, com sardónico desprezo ou compreensiva ironia, como a consequência de uma fuga senil à cama, é no fundo, uma dádiva da velhice, pois assim que, por volta das três ou quatro horas – enquanto lá fora, parafraseando Quirinus Kuhlmann, «o escuro escurece» -, o sono me evita e o constante mudar de posição a vigília acentua, a fuga para aquela cela cujos livros amparam (…)

 

E Quando se soltam os ciúmes

(…) vê-se uma mão tentada

a abrir as cartas da outra,

exigem-se às dúzias juras,

sofre a alma nevralgias,

deita o ódio a mão

a objetos pontiagudos,

estilhaçam-se vidros, grita a aflição

e ameaçam gastar-se do amor as reservas –

conservadas frescas na cave –

colherada a colherada, até ao fim.

 

E também assim se imortaliza lápis, papel e memória, calmias e o que restará da finitude?

Eis. 

 

Teresa Bracinha Vieira

GÜNTER GRASS

gunter.jpg

Dos desafios não teve medo, vestiu o seu universo cumprindo na saliência dos penhascos a palavra que poucos diriam. No pós-guerra alemão nunca se cansou de satirizar a motivação que levou à reconstrução dos países beligerantes na terra que se houvera feito palco de sangue de irrecuperáveis vidas. Não sei explicar de outro modo, mas julgo que G. Grass se habituou a zonas ermas. Este Nobel da Literatura em 1999, não partiu esta segunda-feira sem que escrevesse um poema à Grécia actual recordando que fora ela que “concebera” a Europa.  O poema, intitulado, em português “A Vergonha da Europa” foi escrito em 2012. Carlos Leite deu-lhe esta tradução:

À beira do caos porque fora da razão dos mercados,
Tu estás longe da terra que te serviu de berço.

O que buscou a Tua alma e encontrou
rejeita-lo Tu agora, vale menos do que sucata.

Nua como o devedor no pelourinho sofre aquela terra
a quem dizer que devias era para Ti tão natural como falar.

À pobreza condenada a terra da sofisticação
e do requinte que adornam os museus: espólio que está à Tua cura.

Os que com a força das armas arrasaram o país de ilhas
abençoado levavam com a farda Hölderlin na mochila.

País a custo tolerado cujos coronéis
toleraste outrora na Tua Aliança.

Terra sem direitos a quem o poder
do dogma aperta o cinto mais e mais.

Trajada de negro, Antígona desafia-te e no país inteiro
o povo cujo hóspede foste veste-se de luto.

 

M. Teresa Bracinha Vieira

Abril 2015