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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

 

De 12 a 18 de março de 2018.

 

A Sinfonia nº 2 de Gustav Mahler, que o autor designou como “Ressurreição”, constitui uma obra-prima da história da música de todos os tempos.

 

 

MOTIVO DE MEDITAÇÃO
Neste tempo de Quaresma, ouvir a Sinfonia nº 2 de Mahler (1860-1911), à qual o autor daria o título de “Ressurreição”, constitui motivo de intensa meditação (Coro e Orquestra Gulbenkian, Maestro David Afkhan). Estamos no centro do Mistério Cristão e o grande compositor fez questão de pôr nesta sua obra o essencial do caminho que o levaria à conversão (1897). Sendo certo que a estreia é de 1895 em Berlim, a verdade é que a versão final é de 1903 – abrangendo o resultado da evolução pessoal. De facto, a ideia nasceu quando Gustav Mahler ainda estava a escrever a primeira sinfonia, no final dos anos oitenta, sentindo necessidade de dar uma identidade própria aos temas que agora se encontram, numa das obras-primas da música de sempre. Pode dizer-se, aliás, que esta segunda sinfonia acompanha o caminho espiritual do seu autor, verificando-se que no início se nota angústia e sofrimento, que vão evoluindo gradualmente no sentido de uma espiritualidade libertadora. Eduardo Lourenço dirá: “Mahler começa a grande oração da nossa Ausência que é ao mesmo tempo a de uma Busca como esta que desenrola os seus desertos e as suas reversíveis imagens neste mar de música em alma sem orla imaginável” (Tempo da Música, Música do Tempo, Gradiva, 2012, p. 54). E este dilema desenvolve-se numa procura determinante. Na parte final, a soprano diz-nos: “Ah, crê: não nasceste em vão / Não foi em vão que viveste, sofreste”. Ao que coro e contralto respondem: “O que foi criado tem de perecer! / O que pereceu ressuscitará! / Para de tremer! / Prepara-te para viver!”. E assim o compositor antecipa o momento final, em que, depois das naturais dúvidas, inerentes à própria natureza da fé, o coro proclama triunfalmente: “Com asas, que para mim ganhei, / Desaparecerei! / Morrerei para poder viver!”. Aqui estamos no momento crucial do próprio percurso individual do autor, que se implica diretamente na consideração da obra como uma ilustração do percurso existencial. “Ressuscitarás, sim, ressuscitarás, / Meu coração, num instante! / Aquilo por que lutaste / A Deus te levará!”.

 

DA DÚVIDA À ESPERANÇA
O começo da Sinfonia nº 2, segundo o próprio Mahler tem a ver com a meditação exasperada sobre a condição mortal da humanidade. Eis por que encontramos pontos de contacto com a terceira sinfonia de Beethoven (“Eroica”) – uma marcha fúnebre contrasta com a perspetiva lírica. Com um extremo cuidado técnico, graças a um complexo e hábil recurso a dissonâncias harmónicas, encontramos a coexistência do sofrimento e da esperança… Depois, temos uma inocente e nostálgica visão do passado individual do herói – e a alegria vai contrastando com a ideia de morte. Um ambiente campestre e idílico evolui no sentido de uma visão incerta e perplexa sobre a vida De que valerá algo que está condenado a desaparecer e é estéril? E G. Mahler recorre a material relacionado com a canção do “Sermão de Santo António aos Peixes” (1893) – para salientar como o santo, perante a indiferença e a incapacidade de as pessoas ouvirem o que quer que fosse, se dispõe a falar aos peixes (“O bom Deus enviar-me-á uma pequena luz”…). Lembramo-nos deste tema, bastamente glosado pelo Padre António Vieira. E assim chegamos ao quarto andamento, em que o compositor insiste no desejo de libertação dos dramas humanos em direção à transcendência. À complexidade anterior sucede uma maior simplicidade (enquanto clareza na expressão) que, no entanto, é produzida por uma orquestração muito cuidada, apenas possível graças à grande capacidade inovadora de se autor. Dir-se-ia que estamos perante uma autêntica depuração espiritual, em que o sofrimento e a angústia iniciais dão lugar a uma paz de espírito, que não deixa de conter no seu íntimo toda a diversidade de um sentimento pleno de tensões contraditórias. É por isso que a Sinfonia nº 2 de Mahler tem hoje tanto sucesso (que no início não foi claro) – de facto, há na mesma obra não apenas a presença da personalidade complexa e riquíssima em termos espirituais de Mahler, mas também a capacidade revelada por um artista genial, capaz de usar uma panóplia inesgotável de meios artísticos ao serviço de uma forte emancipação humana. E assim no final da sinfonia temos a recapitulação do caminho percorrido: o ambiente fúnebre do começo, o tema “Dies Irae”, que corresponde à consciência da pequenez e da imperfeição, a que sucede a marcha orquestral que ilustra a procissão para o “Juízo Final”, até que soa a última trombeta do Apocalipse. E assim dá-se início à cantata sinfónica final, já aqui referenciada – com o poema “Ressurreição” de Friedrich G. Klopstock (1724-1803), grande poeta anunciador do romantismo – num extraordinário crescendo que representa a afirmação do autêntico júbilo, assumido como força vital pelo compositor, num momento crucial da sua vida atribulada, em nome de uma esperança forte e renovadora.     

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Por muitos anos - nem me lembro  quantos! - íntima-impulsivamente me punha a ouvir as Canções às crianças mortas, os cinco Kindertotenlieder do Gustav Mahler. Friedrich Rückert (1788-1866), poeta romântico alemão, terá escrito 428 poemas de saudade e dor - pensossinto que bem sofridos - em 1836, quando lhe morreram dois filhos. A sua publicação foi póstuma... Hoje em dia, ninguém sabe quem Rückert foi, e dos seus poemas resta a lembrança das canções em que se converteram, sobretudo os que Mahler pôs em música: cinco Kindertotenlieder e mais cinco outras canções. Mas o compositor não tinha ainda filhos mortos, nem casado estava, quando compôs essas canções às crianças mortas. Há quem pretenda que seria pela morte de seu irmão Ernst, eu antes creio que terá sido por um forte pensarsentir o íntimo dos poemas de Rückert. O que ora te digo, Princesa de mim, é autenticamente muito subjetivo, tem muito a ver com o tal impulso que tantas vezes me levou a pôr a tocar discos de, primeiro, 78, e, mais tarde, 33 rotações...para escutar os Kindertotenlieder! De há uns anos para cá, limitado aos CD´s, alterno entre a versão Bruno Walter/Kathleen Ferrier (1952) e a de Leonard Bernstein/Thomas Hampson (1986), entre dois grandes maestros e uma contralto contra um barítono. Comovo-me sempre, são certamente tocantes os intérpretes, é fortemente cardíaca a música... E, todavia, quando encontrei - nem sei como, nem exatamente quando nem onde - a poesia de Rückert, traduzi um kindertotenlied que nenhum Mahler musicou. Teria 15 ou 16 anos? E porque o fiz então, e guardei essa tradução em letra de adolescente quase a deixar de ser romântico? Não sei. Sei só que a reencontrei agora, perdida na papelada que vou arrumando ou rasgando, em vésperas de retiro definitivo para o campo...

   Antes de a transcrever, quero todavia dizer-te que a reli a uma luz diferente, tal como diferentemente me soou o coração dos kindertotenlieder, que hoje novamente escutei. Talvez por ontem ter recebido de um velho amigo, que eu não via há 50 anos, era ele ainda 1º tenente da marinha de guerra e fuzileiro naval - quando, hoje, é padre e frade dominicano - um crucifixo trabalhado por monjas dominicanas contemplativas, em que o Cristo não está de braços esticados e pregados, mas é salvador e abraça um filho pródigo à sua frente ajoelhado. Eis quando, na morte, momento certo ou visão perseguidora, a vida vence. Olho essa cruz de misericórdia, pousada na palma da minha mão e recito, com coração novo, as quadras de Rückert que traduzi (há sessenta anos?):

 

Du bist ein Shatten am Tage                               

Und in der Nacht ein Licht;                                  

Du lebst in meiner Klage
Und stirbst in Herzen nicht.

 Wo ich mein Zelt aufschlage,                               

Da wohnst du bei mir dicht;                                 

Du bist mein Schaten am Tage  
Und in der Nacht mein licht.

            

Wo ich auch nach dir frage,                                                             

Find dich vor dir Bericht,                                      

Du lebst in meiner Klage                                       

Und stirbst im Herzen nicht.                                 


Du bist ein Schatten am Tage   
Und in der Nacht ein Licht;                                  

Du lebst in meiner Klage 
Und stibst im Herzen nicht.    

 

Sombra és de dia

e luz na escuridão;

vives na minha agonia

não me morres no coração.

 

Onde for minha a moradia,

aí me habitas o coração:

és minha sombra de dia

minha luz na escuridão.

 

Quando de ti inquiria,                                

tinha esta revelação:

vives na minha agonia

não me morres no coração.

 

És uma sombra de dia

uma luz na escuridão;

vives na minha agonia

não me morres no coração.

         

 

          

   Se a saudade é presença na ausência, se - como tão lindamente cantava Maria Teresa de Noronha - a saudade é como a luz / que o sol já morto deixou: / é presença, embora cruz, / na alma de quem ficou! /, é autenticamente saudoso este poema do alemão Rückert. E, neste crucifixo que descansa na palma da minha mão, em que o Cristo é um pai que se abraça a um filho pródigo, cujo rosto se esconde no peito paterno, vejo e sinto uma imensa saudade, a nossa peregrina saudade de Deus. Não o vemos, muitos de nós nem acreditam que Ele seja possível.  Ele é, no nosso dia, uma sombra, adivinhamos apenas o seu rosto nos rostos humanos, à nossa volta. Assim Ele se fez carne e habitou entre nós. E sentimo-lo na nossa noite, é - ou talvez seja - a luz que brilha no escuro coração da nossa saudade.

   Sempre penseissenti o cristianismo como vivência minha, nossa, da humanidade de Deus: a paixão de Cristo é o sofrimento de todos nós, ensina-nos que nunca estamos sós, que é de todos a mesma dor de cada um, e a comunhão na esperança que nos ilumina. Somos todos oferta, por Cristo, com Cristo, em Cristo. As mães e os pais que perderam filhos sentiram, como ninguém mais, o peso do absurdo, essa força da gravidade que nos abate por terra e nos quer isolar e fechar. Só o sopro da graça poderá levantá-los do chão. Quiçá como nesse lied, em que o poema de Friedrich Rückert começa assim: Oft denk´ich, sie sind nur ausgegangen!, "Muitas vezes penso que eles apenas saíram!" Dele fez Gustav Mahler o quarto dos seus cinco Kindertotenlieder, cuja melodia tão bem canta uma misteriosa desilusão da dor, esse amanhecer da consolação, o conforto da comunhão dos santos. Traduzo-o agora, prosaicamente: os sentimentos espontâneos são, afinal, muito íntimos, dispensam grandiloquências...

 

             Muitas vezes penso que eles apenas saíram!

             Em breve voltarão para casa!

             Está um belo dia, não te inquietes,

             eles foram só dar um grande passeio...

 

             Pois é, eles apenas saíram,

             e vão voltar para casa agora.

             Não te inquietes, está lindo o dia!

             Eles só foram passear até às colinas.

 

             Eles apenas saíram à nossa frente,

             já não quererão voltar para casa!

             Vamos ter com eles lá acima, à luz do sol!

             Está um dia lindo no alto das colinas!

 

   E como que a pedir, Ele também, perdão, o Pai se debruça e acolhe, em humano abraço, o regresso dos filhos pródigos.

 

Camilo Maria                      

 

Camilo Martins de Oliveira