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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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KÜNG E A FÉ


1.
Hans Küng, um dos maiores teólogos católicos e um pensador de influência mundial, deixou-nos. Fica a sua teologia com os novos horizontes que abriu no sentido de uma esperança que formulou assim na sua última lição na Universidade de Tubinga, em 1996: "Spero unitatem ecclesiarum, espero a unidade das Igrejas. Spero pacem religionum, espero a paz entre as religiões. Spero communitatem nationum, espero uma verdadeira comunidade das nações." Fica também como inspiração a sua reflexão epistemológica, introduzindo na Teologia "a teoria de mudança de paradigmas", a partir da obra famosa de Thomas Kuhn: The Structure of Scientific Revolutions, sobre o desenvolvimento da ciência (lembro a definição de paradigma de Kuhn: "Uma constelação total de crenças, valores, técnicas, etc., partilhada por uma determinada comunidade"). Também na Teologia há paradigmas: o paradigma paleocristão apocalíptico, o helenístico da Igreja antiga, o católico-romano medieval, o protestante reformado, o iluminista moderno, estando presentemente a esboçar-se um novo paradigma, o paradigma de uma "teologia ecuménica crítica", com duas constantes ou pólos, em "correlação critica" - a primeira constante, pólo ou horizonte é "o nosso mundo presente de experiência em toda a sua ambilvalência, contingência e mutabilidade"; a segunda constante, pólo ou norma essencial é "a tradição judeo-cristã, que, em última análise, se funda na mensagem cristã, no Evangelho de Jesus Cristo" -, e duas orientações: ad intra, isto é, ecuménica, no sentido do ecumenismo intracristão, e ad extra, enquanto dirigida para as religiões do mundo e para toda a Terra habitada.


2.
Küng era um cristão convicto, e também me confessou, da última vez que nos vimos - foi em Barcelona em 2004, por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo -, a alegria com que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


A sua teologia era uma exigência da fé, porque a fé tem de dar razões, o que ficou claro logo na sua tese de doutoramento sobre A Justificação. O que se entende, em termos simples, por justificação? Se se pensar bem, andamos todos a tentar justificar a nossa vida, a nossa existência. É que não nos basta existir, precisamos que outros, concretamente pessoas significativas, nos reconheçam. Há uma luta pelo reconhecimento, como tão bem mostrou Hegel na sua Fenomenologia do Espírito. Tanto individual como colectivamente. Temos necessidade vital de que reconheçam o nosso valor, que valemos. Foi isso que Lutero descobriu ao ler na Carta de São Paulo aos Romanos: "o Homem justifica-se pela fé", isto é, podemos e devemos entregar-nos confiadamente a Deus, porque valemos para Ele, Ele reconhece o nosso valor, e, assim, confiando n'Ele, estamos salvos. Lembro-me de ter tentado explicar isto numa palestra em Maputo, e soube depois que um moçambicano negro tinha feito mais de dez quilómetros a pé para ir dizer a uma irmã: "Está aí um padre de Lisboa que esteve a explicar que valemos para Deus, Deus reconhece-nos, tu tens valor para Deus, já pensaste? Precisava de vir dizer-te isto: tu vales para Deus, Ele dá-te valor."


Küng ouviu muitas vezes a pergunta: "Com toda a sinceridade, em que crê pessoalmente?" Para responder a este desafio deu uma série de lições, a cada uma das quais assistiram cerca de mil pessoas, de que resultou um livro: Aquilo em que Creio. "Escrevo para pessoas que se encontram em processo de busca." Para crentes e não crentes..., "também para todos aqueles que vivem a sua fé e, além disso, querem dar razão dela. Para aqueles que, longe de limitar-se a crer desejam "saber" e esperam, portanto, uma interpretação da fé que esteja fundada filosófica, teológica, exegética e historicamente e tenha consequências práticas". "A fé cega levou e leva muitas pessoas e povos inteiros à perdição." Estava a referir-se aos fundamentalismos. E também não é fé verdadeira a que se contenta com o cumprimento de rituais religiosos.


De modo geral, quando falamos de fé, pensamos apenas na fé religiosa, esquecendo que a nossa vida toda está baseada na fé - fé vem de fides, de cum+fides provém confiança. Quanto nos metemos à estrada, confiamos que não venha um carro contra nós... Cremos num futuro melhor (crer vem de credere, donde procede o crer religioso e o crer até nos bancos: eles concedem (concediam...) crédito... Retire-se a fé, a confiança, o crer e o crédito na vida e... tudo se desmorona... O bebé vem ao mundo e entrega-se, numa confiança radical, à mãe, ao pai... Se a confiança de base (basic trust) for frustrada, a vida pode tornar-se-lhe um inferno.


Com o tempo, vai perguntando se há razões para confiar... E chegamos às perguntas decisivas: porque há algo e não nada? Que sentido tem a minha vida, Sentido último? O que será feito de mim? Fica a alternativa: o nada ou a plenitude, o absurdo ou o Sentido final em Deus. O crente não pode demonstrar Deus, mas o não crente também não pode demonstrar o nada; e ele tem razões melhores do que o crente? Küng acreditava em Deus e na vida eterna. Confiava, com razões, que, na morte, não ia para o nada mas para "o Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus", disse-me. O mundo e a existência são ambíguos. É no próprio acto de confiar radicalmente em Deus que se mostra que é um acto racional: com ele, num mundo ambivalente, de bem e de mal, de sentido e de absurdo, tudo se ilumina e ganha sentido, Sentido último.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JUNHO 2021

HANS KÜNG E FRANCISCO

 

1. Faz amanhã dois meses que, como aqui dei a devida notícia, morreu Hans Küng, o teólogo católico mais conhecido dos últimos decénios e um pensador de influência mundial.


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que lhe escreveu duas vezes, inclusivamente a dizer que a infalibilidade pontifícia era questão a estudar,  e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial. De qualquer forma, julgo que é inegável a influência do seu pensamento na primavera da Igreja prosseguida por Francisco, não só por causa das suas investigações sobre o cristianismo primitivo mas também do seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos (nova atitude ética) global.   


2. Por isso, vale a pena voltar concretamente ao seu livro A Igreja ainda tem salvação? (1997), no qual confessa que foi por imperativo de consciência que o escreveu. “Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica”, mas, “na presente situação, o silêncio seria irresponsável”. De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está “realmente doente”, “mortalmente doente”, “sofre do sistema romano de poder”, que se acaracteriza pelo monopólioo da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual.


Que propôs Küng não só como teólogo eminente, mas também como cristão profunamente convicto, que nunca abandonou a Igreja que considerava a sua? É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que crêem em Cristo: “A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo.” Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procedria em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?


A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares do mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como “um autocrata espiritual”, antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente aos outros bispos e, acrescentaria eu, a representantes das congregações religiosas e de todo o Povo de Deus, homens e mulheres.


A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares — oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagemm cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos —, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.


Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? “Conselheiros independentes haverá poucos.”


Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformulá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de fundo; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a negar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho conjunto.


3. Não é legítima a pergunta: Passados quase 25 anos, não é algo de semelhante a este projecto que move o Papa Francisco?


A sua medida mais recente e a mais importante neste sentido tem a ver com a sinodalidade da Igreja (caminhar em conjunto), tema do próximo Sínodo em Roma, adiado para 2023, também para criar uma dinâmica que permita que “sejam ouvidos todos os baptizados”, concretizando um desiderato já presente na Evangelii Gaudium que recomenda aos bispos “ouvir a todos e não apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-los”.


Assim, o processo começará pelas bases: com uma primeira etapa, diocesana, e a nível dos países, até Abril de 2022, para que todos sejam ouvidos, elaborando-se então uma primeira síntese. As questões suscitadas serão depois reflectidas ao nível continental, no quadro de organismos continentais dos bispos, que, por sua vez, aoresentarão a sua síntese, sendo a partir daí que se elaborará o documento que servirá de instrumento  de trabalho para o Sínodo. Nele, pela primeira vez, votará também uma mulher.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 JUNHO 2021

A VIDA DOS LIVROS

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   De 26 de abril a 2 de maio de 2021

 

Hans Küng, há pouco desaparecido, deixou-nos a obra fundamental “Religiões do Mundo - Em busca dos pontos comuns”, publicado entre nós na editorial Multinova (2005). Lembramos a colaboração ativa do teólogo na revista “Concilium” portuguesa, animada por Helena Vaz da Silva, e o facto de ter estado entre nós numa iniciativa da nossa saudosa presidente.

 

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HOMEM DE TODAS AS ESTAÇÕES

O teólogo católico Hans Küng (1928-2021) morreu a 6 de abril em Tubinga e deixou uma herança intelectual, filosófica e teológica de grande valor. Pode dizer-se que as suas reflexões e a sua obra constituem elementos perenes, para além do horizonte do nosso tempo e do catolicismo. O futuro se encarregará, por certo, em especial no domínio da cultura da paz e do diálogo inter-religioso, de demonstrar como a cultura moderna se enriquece graças à compreensão de que a razão e o sentimento, a ciência e a espiritualidade se completam permitindo que a humanidade se aperfeiçoe e se emancipe, assumindo os limites do conhecimento e a necessidade de fazer do diálogo entre civilizações uma verdadeira troca de experiências, devendo cada qual ser capaz de se colocar no lugar do outro. Só com essa capacidade será possível criar uma verdadeira consciência comum, que impeça a violência ou a intolerância por motivos religiosos ou culturais. Longe de entender o mundo das religiões como imóvel, silencioso e estático, incoerente e contraditório, importa partir de uma informação séria e bem comprovada, de uma orientação que possa servir de ajuda para enfrentar a complexidade e a multiplicidade das religiões e de uma motivação que estimule uma atitude nova frente à religião e às religiões – de forma a reconhecer a dimensão universal do respeito mútuo e da dignidade humana. Daí a exigência de paz entre os homens, num momento em que há a tentação para o fechamento e a intolerância, centrados em novos dogmatismos. E assim o teólogo afirmou: “Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões; não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões; não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais; o nosso planeta não irá sobreviver se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro”. E não se julgue que é fácil levar este entendimento à prática.

 

CATOLICIDADE CRÍTICA

Na sequência do Concílio Vaticano II, o teólogo desempenhou um papel de grande importância, persistindo numa “catolicidade crítica”, exercida a partir de dentro da Igreja – uma vez que só uma voz que persista no espírito dos apóstolos pode contrariar eficazmente a deserção dos lugares de culto, a secularização crescente da sociedade, a rarefação de candidatos a funções religiosas e a revelação de abusos dos clérigos. Daí invocar na sua obra os exemplos de Erasmo, de Tomás Morus ou de Monsenhor Romero – e a partir deles assumir a ideia de liberdade teológica, exercida com rigor. E foi essa fundamentação sólida do pensamento que lhe permitiu ser respeitado, mesmo pelos seus críticos – que, aliás, sempre afirmou respeitar e considerar. Por outro lado, contra um certo “restauracionismo” ou recuo em relação aos avanços conciliares, defendeu um cristianismo fiel a uma ideia de serviço, mais próximo da Bíblia e de Jesus e menos subordinado à organização em pirâmide da Igreja. Como suíço, Hans Küng procurou articular catolicismo e democracia, dando ao “povo de Deus” um sentido de liberdade e responsabilidade – invocando nas suas “Memórias” (2006-2010) o exemplo do educador Franz Xavier Kauffmann, que encontrou quando tinha 12 anos, e que foi um apelo irreversível no sentido da vivência e do exemplo das bem-aventuranças. Assim, a democracia e a colegialidade, foram para o teólogo elementos fundamentais e de uma grande pertinência. Por isso, distinguiu, como corolário lógico do seu pensamento, fidelidade à vontade de Deus, Jesus, e obediência ou submissão total às regras, devendo a fidelidade prevalecer relativamente à obediência. Estudioso sistemático da “nova teologia francesa” de Teilhard de Chardin, Henri de Lubac e Yves Congar, o padre, ordenado em 1954, desenvolveu, de forma pioneira, a noção aberta e moderna de ecumenismo – dialogando ainda com Rudolf Bultmann e Karl Barth, a partir da compreensão de um Jesus histórico, da vivência do Seu exemplo e de um compromisso necessário em nome da dignidade humana. Foi, assim, muito relevante a criação do Instituto de Investigações Ecuménicas em Tubinga (1960-1996) e os passos corajosos que deu no sentido de mobilizar vontades num esforço de verdadeira compreensão mútua.

 

A FORÇA DA GRAÇA DIVINA

Em lugar de uma atitude conformista, indiferente ou pessimista, Hans Küng centra-se na capacidade criadora e na força da Graça divina, livre e corajosa, à imagem dos Atos dos Apóstolos. Como espírito atento ao mundo e aos sinais dos tempos, salientou a importância das artes e da arquitetura contemporânea. Os novos caminhos artísticos permitiriam uma vivência religiosa mais autêntica e uma melhor inserção na cultura contemporânea. Não escondeu, assim, de modo persistente, a enorme esperança depositada no Concílio Vaticano II, a partir da audácia de João XXIII, invocando ainda as ideias lançadas nos anos sessenta, designadamente na “Nova Fronteira” de John Kennedy. Estudou os cinco paradigmas da História da Igreja: o original judaico-cristão, o helenístico, o romano-católico medieval, o da Reforma e o da modernidade – afirmando a recusa de uma atitude retrospetiva ou medieval no pensamento religioso. Depois de 1965, foi, assim, um dos animadores da revista internacional “Concilium”, com grande repercussão internacional, lançada em língua portuguesa por António Alçada Baptista e Helena Vaz da Silva. Hans Küng realizou, aliás, duas conferências em Portugal em 5 e 7 de abril de 1967, ambas muito concorridas, a primeira na Igreja de Santa Isabel, com a assistência de cerca de mil pessoas e ainda no Colégio do Rosário do Porto, com cerca de quinhentas. O tema foi “A liberdade dentro da Igreja”, a merecer um grande interesse de cristãos e não cristãos, havendo até uma nota da PIDE sobre a iniciativa. Infelizmente, a revista não durou muito, pela censura e pelas condicionantes políticas e económicas.

O pensador suíço-alemão, apesar de lhe ter sido retirado o mandato canónico para ensinar em Tubinga, nunca foi impedido de exercer o seu múnus sacerdotal – tendo-se dedicado nos últimos anos ao projeto “Ética planetária – Paz mundial pela paz entre as religiões”. Nessa causa foi inspirado por Lorde Menuhin, que lançara a ideia de diálogo universal na série televisiva “The Music of Man”. A partir daí, o teólogo suíço avançou para as religiões. “Yehudi Menuhin precisava apenas de pegar no seu violino ou na sua batuta para, mesmo a ignorantes ou a ouvidos talvez pouco musicais, abrir o coração para o fascinante mundo da música. Mas como seria possível abrir os ouvidos e os corações para o mundo igualmente misterioso e diferente da religião?”. Hans Küng levou a iniciativa adiante e desse conjunto de programas resultou o livro  “Religiões do Mundo – Em busca dos pontos comuns”, publicado entre nós na editorial Multinova (2005), pelo meu saudoso amigo Manuel Bidarra de Almeida. Ao longo destas páginas, encontramos alguém que procurou sempre fazer do “misterioso e imenso mundo das religiões” uma oportunidade para a descoberta partilhada da importância da liberdade religiosa e da liberdade de consciência como fatores essenciais para que a causa da paz se torne pedra angular das democracias.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

EPITÁFIO: PROFESSOR HANS KÜNG

 

1. Morreu em paz na sua casa de Tubinga no passado dia 6 o teólogo católico mais conhecido nas últimas décadas. Escreveu o próprio epitáfio: PROFESSOR HANS KÜNG. Professor vem do latim: profiteri, que também significa entregar uma mensagem. O problema de muitos professores é que não têm mensagem nenhuma para entregar; Küng tinha e passou a sua vida a passar essa mensagem, mensagem maior para a Humanidade: o Evangelho em confronto com o mundo moderno e o mundo moderno em confronto com a fé. Ainda teve a alegria de ver a suas obras completas publicadas: 24 volumes. Sobre a fé, a Igreja, Deus, as religiões, a arte, a psicanálise, o ecumenismo, o diálogo inter-religioso, a ética... Era um trabalhador incansável, com profundíssimo conhecimento da Teologia, Filosofia, História, Ciência... e com o dom, raro, de transmitir em linguagem acessível o que o rigor académico exige.


2. Foi o mais jovem teólogo convidado por João XXIII como perito do Concílio Vaticano II, integrando uma plêiade de teólogos alemães, incluindo Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI.


Küng era um cristão convicto, fascinado por Jesus. Disse-me numa longa conversa: “Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical. Hoje vê-se cada vez mais claramente que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.” Quem é o cristão? Aquele, aquela para quem Jesus é “o determiannte na vida e na morte”.


Porque o centro só pode ser Jesus Cristo, era crítico do sistema eclesiástico romano centralizado, com “Monsignori, Excelências Reverendíssimas, Eminências”... O Vaticano II queria a descentralização e o retorno ao Evangelho, impondo reformas, abrindo à liberdade religiosa, aos direitos humanos, à ciência, à igualdade das mulheres, ao fim do “celibatismo”... Com o Papa João Paulo II, entrava-se lentamente num “inverno da Igreja”, na expressão de outro teólogo, talvez o maior do século XX, Karl Rahner ... A primeira vítima foi Hans Küng a quem em 1979 a Congregação para a Doutrina da Fé retirou a “missio canonica”, isto é, embora continuando padre, já não podia ensinar como teólogo católico. A razão próxima era o livro Infalível? Uma pergunta, no qual punha em questão a infalibilidade papal. Propunha que a infalibilidade fosse substituída pela indefectibilidade da Igreja, no sentido de que a Igreja nunca deixará cair o essencial da fé cristã. Permita-se-me uma nota pessoal. Bento XVI já era o Papa e uma jornalista perguntou-me sobre o que é que eu pensava da infalibilidade; respondi: “Pergunte ao professor Joseph Ratzinger se ele acredita que Bento XVI é infalível”. Foi pouco antes do Natal, estava na Alemanha e pude vê-lo triste na televisão, com estas palavras, que cito de cor: Dedica-se a gente com todo o empenho à Igreja e a recompensa é esta! Mais tarde, o seu colega e amigo, o suíço Herbert Haag, o maior exegeta do século XX, disse-me que ele passou então por uma depressão de seis meses. Küng manteve-se na Igreja e como padre. Aliás, na última vez que nos encontrámos —foi em Barcelona — confessou-me que era com alegria que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


O que se passa é que, se a Teologia quer manter o seu estatuto académico, tem de ser crítica, não podendo renunciar à libertas academica (liberade de ensinar). Dado o estatuto da Teologia na Universidade alemã, foi-lhe entregue a Cátedra de Teologia Ecuménica. Deste modo, abriram-se ainda mais os horizontes. Já na tese de doutoramento sobre  A Justificação,  tinha mostrado não haver razão para a separação entre católicos e protestantes quanto a este ponto central, como depois veio a reconhecer o próprio Vaticano. Deus justifica-nos: nós valemos para Ele. Era necessário continuar o processo de unificação das Igrejas cristãs. Difundiu o conhecimento das religiões mundiais e aprofundou as condições de possibilidade do urgente e exigente diálogo inter-religioso, também em ordem à paz. Não se cansou de sublinhar: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do planeta sem um ethos global” ­— ethos com o sentido de uma nova atitude ética. Neste contexto, é o principal redactor da famosa Declaração  “Princípios para uma ética mundial”, assinada no Parlamento das Religiões em Chicago em 1993, centrada na dignidade da pessoa, e que está na base do Instituto de Ética Global, com incidência na política e na economia. Tornou-se então um pensador mundialmente reconhecido. Dirigiu-se à Assembleia das Nações Unidas e aos estudantes da Universidade de Pequim...


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que incentiva uma primavera na Igreja e lhe escreveu duas vezes, também por causa da infalibidade, questão a estudar, e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial.


3. Para Küng, a fé assenta numa confiança radical racional em Deus, que se revelou em Jesus. Acreditava na vida eterna. Confiou, com razões, que, na morte, não ia para o nada, mas para “o Fundamento Útimo e Fim Último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus”, disse-me também.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 ABR 2021

CONVERSA COM HANS KÜNG. 2

 

Continuo a conversa com Hans Küng em 1979, incidindo sobre a esperança para lá da morte.

Para si, Jesus Cristo é o determinante na vida e na morte, o Filho de Deus. Pergunto-lhe: é Deus que nos salva ou é Cristo?

É o próprio Deus que nos salva através de Cristo. Não podemos de modo nenhum ver Cristo sem Deus. De contrário, não teria sentido para nós. Como também não podemos, enquanto cristãos, ver Deus sem Cristo. Caso contrário, Deus torna-se vago para nós.

Mas somos nós, os cristãos, que somos salvos através de Cristo ou são todos os homens? Isto é, mesmo aqueles que pertencem a outras religiões são salvos através de Cristo?

É claro que os homens que pertencem a outras religiões se podem salvar. E é evidente que só se podem salvar através do único Deus, pois há um só Deus. Em terceiro lugar, só se podem salvar através do Deus que nos foi revelado em Cristo, que, portanto, é o Deus da misericórdia, o Deus da graça, que Cristo nos revelou.

A ressurreição de Cristo é essencial no cristianismo...

Se Cristo não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã, diz o apóstolo Paulo. E esta é também a minha convicção.

Mas é necessário não tomar à letra e como narrações históricas todas as representações que se referem à vida nova de Cristo. O importante e decisivo é concentrar-se no essencial da Boa Nova da Ressurreição. Ora, o que é o essencial da Boa Nova da Ressurreição? A Boa Nova da Páscoa significa isto: este Crucificado, que realmente morreu, não morreu para o nada, mas foi assumido na vida eterna de Deus. Ele vive com Deus seu Pai, através dEle e nEle. E isto significa para nós uma esperança.

Ele vive como pessoa?

Ele vive como pessoa, ele vive enquanto identicamente o mesmo que viveu na Terra. Caso contrário, não significaria nada para nós.

Ele vive como esperança para nós: nós também enquanto pessoas continuaremos a viver. Todos os que o seguirem com perseverança viverão também. Ele vive como desafio e estímulo para nós. Daí que o nosso dever seja fazer com que o seu caminho seja o nosso caminho, o seu modo de viver e morrer seja o nosso.

Hoje, para nós, o problema da imortalidade torna-se muito complicado, pois tínhamos o esquema dualista, que era talvez simplista, mas servia de ajuda. Ora, hoje todos esses esquemas estão ultrapassados. Portanto, sobre que é que podemos apoiar a ressurreição e a vida eterna?

Eu diria que cada pessoa, crente ou não, está perante uma alternativa. Mesmo o não crente perguntar-se-á: o que é que significa para mim a morte? Significa que todo o meu pensamento, toda a minha acção, todo o meu sofrimento, todo o meu amor, tudo aquilo que realizei, tudo aquilo por que me bati, tudo isso vai parar ao nada? Esta é uma alternativa.

Frente a esta alternativa só há uma outra: esta realidade que nós aqui captamos, tudo aquilo que nós podemos captar e manipular, tudo isso não é a Realidade última. Há a possibilidade — eu acentuo: a possibilidade — que o Homem, em vez de morrer para o nada, morra para a Realidade última, que é também a Realidade primeiríssima.

Quando perguntamos qual é o fundamento para isso, eu digo: confio que é assim. Eu confio, pois não se pode provar. Mas quem diz que morre para o nada, também não pode prová-lo. Esse tem uma desconfiança radical no Fundamento último e Sentido último da realidade. Eu, pelo contrário, tenho uma confiança radical no Fundamento e no Sentido último da realidade. Eu posso apenas afirmar que a desconfiança radical não apresenta qualquer racionalidade, que, em última análise, ela é não racional, pois, sem esta confiança radical, tudo se torna não racional e absurdo.

A minha solução, a minha resposta é, pois, uma confiança radical racional. A racionalidade mostra-se no próprio acto de confiar: com ele e nele, tudo se torna mais razoável, iluminado. Eu tenho todas as razões para ter esta confiança. De facto, tudo aquilo que há milhares de milhões de anos acontece na História e que talvez ainda continue por milhares de milhões de anos para o futuro, tudo isso não provém do nada nem vai para o nada. Provém de um Fundamento último, que é também Fim último, não só do cosmos, mas também da minha vida.

A este Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência chamamos Deus.

Do ponto de vista antropológico-metafísico, não pode demonstrar que haja em si qualquer coisa que exija a imortalidade...

Eu não posso demonstrar nem o nada nem Deus. Se pudesse demonstrar Deus, já não seria Deus. A fé é como o amor. O amor não se pode demonstrar. Se um homem disser à mulher: tu deves demonstrar que me amas, então o amor não é possível. No amor, é necessário colocar em primeiro lugar a confiança. Na fé, passa-se a mesma coisa: é necessário avançar com a confiança. Eu devo confiar-me e, na medida em que confio, vejo que se trata de uma resposta plena de sentido e que a vida tem sentido.

Havia filósofos que através de argumentos filosóficos afirmavam que há em nós qualquer coisa que ontologicamente é imortal. Não pode dizê-lo...

Eu não me preocupo muito com essas coisas, com a ideia platónica da imortalidade da alma. Creio que são representações de algum modo simplistas, e hoje, com o avanço das ciências biológicas, antropológicas, etc., já não nos é permitido separar tão facilmente alma e corpo.

Como é que se deve esclarecer o problema da vida eterna não nos compete a nós. Isso é mistério para nós, como o próprio Deus é mistério, que nem com a ontologia podemos tornar claro.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 SET 2020

CONVERSA COM HANS KÜNG. 1

 

Na sequência das crónicas sobre J. Ratzinger/Bento XVI, revisitei a conversa que tive em 1979, em Estugarda, com o célebre teólogo Hans Küng sobre o Deus de Jesus. Foi assim:

Continua fascinado por Cristo. Quero perguntar-lhe: o que pode, na sua opinião, significar hoje o cristianismo?

Dou-lhe uma resposta simples. Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical.

Esta afirmação já não é suspeita, pois foi feita também — é com alegria que o digo — pelo novo Papa (João Paulo II). Escrevi um livro com o título Ser cristão. Ora, alguns criticaram-no, porque diziam que nele se falava demasiado do Homem. Mas hoje vê-se cada vez melhor que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.

Mais radicalmente em que sentido?

Creio que, mesmo neste tempo da secularização, é claro para o Homem que ele é mais do que aquilo que pode ver, calcular, manipular. O Homem tem em si mesmo dimensões que vão para lá da satisfação das exigências materiais primárias. Ele procura um sentido em qualquer parte. O Homem quer transcender-se a si mesmo, para além daquilo que tem, que sabe, que ama. Ele quer ir sempre mais além.

Esta dimensão do Homem está sempre presente. E mesmo pessoas que não estão de modo nenhum satisfeitas com a Igreja nem têm a ver com ela querem cada vez mais ouvir falar desta outra dimensão. Ora, esta dimensão é, se quiser, a dimensão de Deus em todas as coisas. É com isto que o cristianismo tem que ver. E é com isso que a Igreja e a teologia devem ter que ver.

Para si, Cristo revelou-nos o Homem, porque ele tinha uma relação íntima com Deus. É assim?

Não podemos separar Deus e o Homem. Todos sabemos, desde que em crianças aprendemos o Pai Nosso, que Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, anunciou a vontade de Deus: “Seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no Céu”. Mas se nos perguntarmos o que é a vontade de Deus — e muitas pessoas de facto perguntam: o que é que isso significa para mim? —, recebemos a resposta clara, a partir das suas comparações e parábolas: a vontade de Deus é a realização e a felicidade do Homem. Deus quer a felicidade do Homem. É assim que a História é apresentada, desde a primeira página do Génesis até ao fim do Apocalipse. Deus quer sempre e só o bem do Homem, e o Homem deve também, se quiser fazer a vontade de Deus, colocar-se ao lado dos irmãos.

A mensagem central do cristianismo é esta: A vida do Homem apenas tem sentido se, por um lado, se orientar no sentido de Deus e se, por outro lado, se orientar no sentido do Homem, não egocentricamente, mas para os outros. Dito na linguagem tradicional: amar a Deus e amar o próximo.

Mas hoje as coisas complicam-se, porque, por um lado, o cristianismo deveria ser o absoluto, mas, por outro, o cristianismo enquanto absoluto estava de tal modo unido ao eurocentrismo que entrou em crise. E há também outros humanismos, religiões, etc.

O cristianismo representa para si o absoluto e em que sentido?

O absoluto do cristianismo foi muitas vezes entendido de modo falso, concretamente quando se entendeu como exclusividade, isto é, atribuiu-se exclusivamente ao cristianismo a verdade, os valores, as normas, a beleza, etc. Hoje devemos reconhecer que mesmo para os católicos, depois do Vaticano II, se tornou claro que também nas outras religiões há verdade, moral, oração, culto de Deus.

Devemos, por conseguinte, reclamar, não exclusividade, mas unicidade, carácter único. E quando se pergunta que unicidade, então deve-se dizer que o que é único no cristianismo é o próprio Cristo. Quando o vejo como figura concreta, tal como foi, então não pode ser comparado nem permutado com Buda, Maomé, nem com Marx ou Freud. Ele é único para nós, por causa do que ele quis, devido à causa por que se bateu, e definitivo, porque, sendo o Crucificado-Ressuscitado, ele é o enviado de Deus e a sua revelação, não exclusiva, mas definitiva.

É por isso que, face às outras religiões, ideologias e cosmovisões, devemos ser ao mesmo tempo tolerantes e críticos. Devemos estar de acordo com tudo o que nelas vai ao encontro de Cristo e estar atentos e até recusar tudo o que nelas contradiz Jesus Cristo.

Diz que Cristo é a revelação definitiva de Deus. Ele é realmente Deus?

Quando se diz que ele é realmente Deus, pode haver equívocos. Mesmo na teologia tradicional da Trindade, fez-se sempre distinção entre o Pai e o Filho. E, quando na Bíblia se fala de Deus (em grego ò Theós: o Deus pura e simplesmente), pensa-se sempre no Pai.

Cristo é, na Bíblia, designado como Filho de Deus. Filho de Deus é a expressão correcta para ele. E esta expressão deve hoje ser cada vez mais entendida a partir do Antigo Testamento. De facto, ele próprio era judeu, a mãe, os primeiros discípulos, os evangelistas e os primeiros que transmitiram a tradição eram judeus. O povo de Israel era designado como Filho de Deus, filho de Javé. O rei de Israel também.

Neste sentido, o próprio Jesus, enquanto Senhor Ressuscitado, é designado como Filho de Deus, isto é, como representante de Deus, Seu plenipotenciário, como aquele que foi investido em dignidade divina, como mediador (representante de Deus junto dos homens, representante dos homens junto de Deus, em sentido pleno e definitivo). Neste sentido, ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida”. (continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 SET 2020

BENTO XVI. UMA VIDA (4)

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1. Uma advertência. Tinha anunciado que faria três crónicas com a síntese da biografia do Papa Bento XVI, de Peter Seewald. No entanto, tratando-se de 1150 páginas, vejo-me forçado a mais duas.

2. Como ficou dito, Ratzinger ascendeu à Universidade de Tubinga em 1966. Os dois eminentes teólogos — ele e Hans Küng — entendiam-se bem. “No fundo, coincido com o colega Ratzinger”, diz Küng nas aulas. Do mesmo modo, Ratzinger: “Concordo com Küng.” Os dois tinham aliás um público igualmente grande: 400 ouvintes. (Aqui, uma nota interessante: na Alemanha, não se pergunta: “Que professores tiveste?”, mas: “Que professores ouviste?”).

Mas estava em marcha a tremenda revolução dos anos 60 (lembrar 1968), em várias frentes. Foi a revolução política, social, de costumes, sexual, e que atingiu, naturalmente, a Igreja. Diria mais tarde Ratzinger: Não se imaginaria que o Concílio, “em vez do esperado salto em frente, introduziria também um processo de decadência. Os Padres conciliares queriam adaptar a fé, mas apresentando-a em toda a sua força”, porém, em vez disso, surgiu a impressão de que “a reforma significava apenas deitar fora um peso morto, facilitar de tal modo que a reforma propriamente dita não consistia numa radicalização da fé, mas numa espécie de diluição da fé.”

Ratzinger foi ficando profundamente assustado com o que estava a acontecer, quando tudo parecia posto em causa, com movimentos extremistas, que criavam enormes tensões entre uma criatividade autêntica e a perda da identidade na Igreja. Havia padres que até se orgulhavam de retirar a cruz dos altares. No campus da Universidade, eram distribuídos panfletos a denunciar a cruz como símbolo de uma glorificação do sadomasoquismo. A teóloga católica G. Hasenhütl exigia uma “radical abertura ao mundo”, cujo ponto culminante só podia ser “uma Papisa negra, grávida”. Ratzinger podia observar “a destruição da Teologia, que, através da sua politização no sentido do messianismo marxista, estava a acontecer”. Evidentemente, os cristãos não podem ficar indiferentes perante a pobreza e a injustiça, mas o Evangelho não é favorável a uma instrumentalização da Igreja e da fé para fins políticos, observava. E constatava que o comunismo era responsável por 100 milhões de mortos e que não tinha havido um único governo comunista que não tivesse perseguido o cristianismo e as outras religiões. Face à revolução sexual, Paulo VI publicou a Humanae Vitae, proibindo a pílula e, perante a crise da Igreja, chegou a falar no “fumo de Satanás” que tinha entrado no templo de Deus.

Ratzinger já não aguentava. Em 1969, depois de Bona, de Münster, de Tubinga, segue para Regensburg/Ratisbona, que deveria ser, como disse, “decididamente a sua última peregrinação”. Ele, que ganhou o Concílio, não queria perder o pós-Concílio. Construiu uma casa, na Universidade tinha uma multidão de ouvintes, era internacionalmente convidado. Mas o facto é que em 1977 era nomeado arcebispo de Munique e, poucas semanas depois, feito cardeal pelo Papa Paulo VI. Seewald perguntou-lhe se este foi “o fim da sua felicidade pessoal e de todos os seus sonhos”, tendo ele melancolicamente respondido: “Sim.”

3. Ratzinger não saiu zangado de Tubinga, nem sequer com o colega Hans Küng: “Tinha com Küng uma relação muito positiva e despedi-me dele em paz.” Küng concordava: “Os três anos em Tubinga decorreram sem sombras para o nosso trabalho comum. Convivi com ele verdadeiramente muito bem.”

De qualquer modo, Ratzinger tomava uma nova orientação, que o correspondente do Die Welt, R. Lambrecht, em 1981, descreveu assim: “Ratzinger, outrora um pensador progressista, não mudou o seu carácter, mas corrigiu o seu rumo, quando viu que havia desenvolvimentos que poderiam levar à dissolução. Como arcebispo e cardeal não se tornou príncipe da Igreja. Toma a sua exigência no pensamento e na acção como um serviço.”

Foi neste contexto que Küng diria mais tarde: “Ratzinger rejeitou completamente aquele caos de 1968, e creio que foi esse o ponto decisivo da sua mudança rumo a uma orientação conservadora.” Aqui, o biógrafo recusa, caracterizando esta afirmação como uma “lenda”. Mais: para exaltar Ratzinger, tenta diminuir Küng, o que, no meu entender, não precisava nem devia fazer. Seja como for, em dezembro de 1979, Hans Küng é o primeiro grande teólogo a ser condenado, tendo-lhe sido retirada a “missio canonica”, isto é, já não podia ser considerado teólogo católico nem ensinar como tal. A causa próxima foi a publicação de Unfehlbar? (Infalível?), que punha em questão a infalibilidade do Papa. Ratzinger não contribuiu para a condenação pela Congregação da Doutrina da Fé, mas também não se lhe opôs. Comentou: Küng tem evidentemente o direito de manifestar a sua opinião livre, a Igreja por sua vez tem o direito de “não o considerar como intérprete da sua fé, e daí tirar as consequências”.

Küng deixa uma poderosa, consistente e vastíssima obra filosófico-teológica, para o aprofundamento da fé cristã e o diálogo ecuménico, inter-religioso e com as ciências e para um ethos (atitude ética) global. Já Papa, Ratzinger recebeu-o no Vaticano e, depois da resignação, escreveu-lhe, confessando: “A minha última e única tarefa é ajudar Francisco”.

Küng sempre se considerou católico. A última vez que o encontrei foi em Barcelona em 2004 por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo. E confessou-me a sua alegria por ir celebrar os seus 50 anos de padre.

(Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 AGO 2020

NÓS E OS OUTROS. A URGÊNCIA E A DIFICULDADE DO DIÁLOGO

 

    Estamos a viver uma transformação prodigiosa do mundo. Há hoje várias revoluções em marcha. Uma revolução económica, com a globalização, que significa a concretização da ideia de McLuhan de que formamos uma “pequena aldeia” e a chegada ao palco da História de grandes países emergentes, como a China, a Índia... Outra é a revolução cibernética, que, como disse Jean-Claude Guillebaud, faz nascer um quase-planeta, um “sexto continente”. Nunca como hoje houve tanta informação e com a rapidez com que circula pelo mundo. Esta é a era da informática. A internet, o correio electrónico, os telemóveis, as televisões põem-nos em contacto constante e imediato com tudo o que acontece no mundo. Depois, com a facilidade dos transportes e no quadro das novas condições económicas, há a circulação permanente das pessoas de uns países para outros e também entre continentes. As NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, Big Data, ciências cognitivas, neurociências...), em interconexão,  transformam a nossa relação com a vida e a procriação e podem fazer bifurcar a Humanidade: a actual continuaria ao lado de outra a criar; por isso, se fala em transhumanismo e pós-humanismo. Também está aí a urgência da revolução ecológica, que, se a Humanidade quiser ter futuro, obriga a uma nova relação com a natureza. Como se não pode esquecer de modo nenhum o perigo do terrorismo global e de uma guerra atómica. Está aí, omnipresente, de múltiplos modos, o terror da violência...

 

    Perante todas estas revoluções e face aos problemas que agora são globais, como a droga ou o trabalho, os mercados, impõe-se, em primeiro lugar, pensar numa governança mundial. Depois, não se sabe de que modo o futuro será, como diz J.-Cl. Guillebaud, uma “modernidade mestiça”, mas, para evitar o “choque das civilizações”, impõe-se o diálogo intercultural e inter-religioso. De facto, como escreveu o teólogo José María Castillo, com todos estes factos, produziu-se “um fenómeno inteiramente novo na história da Humanidade: a mistura, a fusão ou o choque, a inevitável convivência de culturas, tradições, costumes, formas de pensar e de viver, de pessoas que vão de uns países para outros, de um extremo ao outro do mundo. E vão, não para fazer turismo, mas para tratar da vida, fugir das guerras, da fome e da morte. Mas, como é lógico, este reboliço de pessoas, de notícias, de ideias, de formas de viver fez com que – sem nos darmos conta muitas vezes do que realmente se passa – bastantes critérios, convicções, costumes e tradições que até há poucos anos tínhamos como seguros e intocáveis, hoje estejam abalados, tenham perdido segurança, se tenham esfumado, modificado ou, em todo o caso, perdido a firmeza e estabilidade que antes tinham para nós.”

 

   De qualquer modo, para o diálogo, impõe-se uma reflexão de base sobre as suas condições de possibilidade e as suas dificuldades. De facto, o diálogo é feito de encontros e desencontros. O encontro é fascinante, mas, veja-se, logo de entrada, como a própria palavra chama a atenção para a sua dificuldade: encontro mostra, nas várias línguas, um confronto, uma oposição. Assim: en-contro (lá está o contra, como em en-cuentro ou em rin-contro..., mesmo no alemão, Begegnung, está presente o contra, que se diz gegen).  

 

   A neotenia constata, no essencial, que o ser humano é um prematuro – para fazer o que faz, precisaria de permanecer no ventre materno mais um ano, mas isso não é possível; assim, nasce no termo de 9 meses, em vez de passados 20 –, tendo, portanto, de receber por cultura aquilo que a natureza lhe não deu. Frágil segundo a natureza e sem especialização, tem de criar uma espécie de segunda natureza ou habitat, precisamente a cultura. Como escreve o filósofo Robert Legros, “é na cultura ou no que a fenomenologia chama um mundo que a humanidade de Homo encontra a sua origem, e não na natureza. Quanto à origem da cultura, ela está por princípio votada a permanecer uma questão sem resposta”. Enquanto os outros animais nascem feitos, o Homem, nascendo por fazer, em aberto, tem de fazer-se a si mesmo e caracteriza-se por essa tarefa de fazer-se com outros numa história aberta, em processo.  Constata-se deste modo que nos fazemos uns aos outros genética e culturalmente. O ser humano é, pois, sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura em história. Assim, no processo de nos fazermos, o outro aparece inevitavelmente. O outro não é adjacente, mas constitutivo. Só sou eu, porque há tu, em reciprocidade. O outro pertence-me, pois é pela sua mediação que venho a mim e me identifico: a minha identidade passa pelo outro, num encontro mutuamente constituinte. A identidade não é estática, fixa, determinada de uma vez para sempre. E, em cada um de nós, há múltiplas possibilidades de ser: se eu tivesse tido outros encontros, se tivesse frequentado outras escolas..., certamente seria eu, mas de outro maneira, idem sed aliter. A nossa identidade é aberta, somos nós e somos muitos; se assim não fosse, como poderíamos entender os outros, compreender um romance, colocando-nos na pele de tantas personagens diferentes?...

 

   Claro que cada um, cada uma, é ele, ela, de modo único e intransferível – a experiência suma desse viver-se cada um como único e irrepetível dá-se frente à morte, na angústia do confronto com a possibilidade do nada e da aniquilação do eu: “ai que me roubam o meu eu!”, clamava M. Unamuno –, mas fazemo-nos uns aos outros, de tal modo que ser e ser em relação coincidem. Por isso, a identidade faz-se, desfaz-se, refaz-se e, em sociedades complexas e abertas, ela será cada vez mais compósita e planetária, com tudo o que isso significa de enriquecimento e ao mesmo tempo de complexidades e possíveis rupturas. O outro é vivido sempre como fascinante e ameaça. Porque o outro é outro como eu, outro eu, e, simultaneamente, um eu outro, outro que não eu. Daí, a ambiguidade do outro. O outro enquanto outro escapa-se-me, não é dominável.

 

    Nunca saberei como é viver-se como outro. Quando olhamos para outra pessoa, perguntamos: como é que ela se vive a si mesma, por dentro?, como é que ela me vê?, como é o mundo a partir daquele foco pessoal? Porque é simultaneamente, tanto do ponto de vista pessoal como grupal e societal, um outro eu e um eu outro – outros como nós e outros que não nós –, o outro atrai, ao mesmo tempo que surge como perigo possível. Há, pois, uma visão dupla do outro, que tanto pode ser idealizado – no amor, é divinizado –, como diabolizado. Atente-se na ligação entre hospitalidade e hostilidade, derivados do latim “hospite” e “hoste”, respectivamente. Cá está: o outro é hóspede, por exemplo, no hotel e no hospital. Mas, no hotel, pedem-nos a nossa identidade, porque podemos constituir uma ameaça, um perigo ou ir embora, sem pagar. Aliás, agora, também há o “hostel”, onde a dimensão hostil é mais visível pela sua sonoridade, e, por isso, nos pedem, repito, para prevenir, a identificação. E a fronteira, porta de entrada e de saída, em ligação com fronte – a nossa fronte somos nós voltados para os outros e ao mesmo tempo ela é limite e demarcação de nós –, anuncia o outro – outro país – e é espaço de acolhimento e também da independência.

 

    No quadro desta ambiguidade, entende-se como, por medo, ignorância, desígnios de domínio, se pode proceder à construção ideológica e representação social do outro essencialmente e, no limite, exclusivamente, como ameaça, bode expiatório, encarnação e inimigo a menosprezar, marginalizar, humilhar e, no limite, abater, eliminar. Num mundo global, cada vez mais multicultural e de pluralismo religioso, é urgência maior repensar a identidade e avançar no diálogo intercultural e inter-religioso, sempre no horizonte da unidade na diferença e da diferença na unidade.

   

    As revoluções em curso, que obrigam a repensar o futuro da Humanidade, são outras razões que aprofundam a necessidade e urgência do encontro e diálogo entre as culturas e religiões. O que desde há anos Hans Küng vem sublinhando – a necessidade do diálogo inter-religioso para ser possível a paz no mundo – é cada vez mais urgente. Entende-se mais claramente do que nunca que a obra do célebre teólogo, autor principal da “Declaração de uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993, se oriente pelo lema: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso globo sem um ethos global, um ethos mundial”.

 

    Falo nas religiões, mas o problema estende-se às várias dimensões do Humanum, precisamente porque o ser humano é, constitutivamente cultural, resultado de uma herança genética e de uma cultura em história, é bom repetir. Por isso, a integração noutra cultura é tudo menos fácil. Porquê? Quem não reflectiu suficientemente é por vezes levado a pensar que a cultura é como um vestido, algo exterior que a pessoa facilmente troca, mudando de cultura como muda de vestido. Não é assim, de modo nenhum. Porquê? Sendo sempre o resultado de uma herança genética e de uma cultura, a cultura define-nos, faz parte da nossa identidade e, por isso, como se constata pela História, mesmo recente, não falta quem esteja disposto a bater-se, até pelas armas, pela sua cultura, que faz parte constituinte da sua identidade.

 

    Felizmente, a nossa identidade é aberta, em história e, por isso, também podemos ver no diálogo inter-cultural e inter-religioso um factor determinante de enriquecimento mútuo.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 2 JUN 2019