Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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Esta é a notícia trágica: nos últimos cinco anos suicidaram-se na Índia pelo menos 13 padres católicos — em média, um a cada seis meses; nos primeiros cinco meses deste ano de 2025, já se suicidaram dois... Evidentemente, a situação é alarmante e obriga a Igreja na Índia, e não só, a uma reflexão profundíssima.
Não vou entrar directamente no tema. Mas, aproveitando este acontecimento trágico e o facto de estarmos ainda no início de um novo pontificado, deixo aí três momentos de reflexão inevitável, que não pode de modo nenhum continuar a ser adiada, tanto mais quanto, mesmo entre nós, o número de padres está em queda vertiginosa, aumentando sem cessar o número de paróquias sem padre.
Em termos simples.
1. A Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Que é que isto quer dizer? É necessário acabar com a lei do celibato obrigatório para os padres. Aliás, essa lei é relativamente recente e, mesmo hoje, há padres na Igreja católica normalmente com família — é o caso na Igreja oriental ou de convertidos da Igreja anglicana. Concretizando, pergunta-se: porque é que, dentro de determinados critérios, não hão-de voltar ao ministério padres que tiveram de abandonar levados pelo amor e constituindo família?
2. Jesus não discriminou as mulheres. Assim, a Igreja também não pode discriminá-las também no que se refere aos ministérios. Isso é contra a vontade de Jesus e contra os direitos humanos. Herbert Haag, talvez o maior exegeta do século XX, a quem devo o favor de ser um querido amigo, insistiu constantemente — veja-se o seu livro “A Igreja Católica ainda tem futuro?” — que nos primeiros séculos houve mulheres que presidiram à Eucaristia; então, porque é que o que foi possível no princípio não há-de ser possível hoje?
3. Pode escandalizar, mas é um facto: Jesus foi leigo, não pertencia à classe sacerdotal. Aliás, nesta linha, o Novo Testamento evitou a palavra hiereus (sacerdote). Só mais tarde (século III) é que a Eucaristia, que era um banquete festivo dos cristãos no qual se fazia memória da Última Ceia e dos muitos banquetes de e com Jesus, foi interpretada como sacrifício ritual, dando origem, consequentemente, aos sacerdotes, seguindo-se daí que a Igreja ficou dividida em duas classes: o clero (ai o clericalismo!) e os leigos.
4. A Igreja vai continuar a precisar de ministérios para as diversas funções e serviços? É claro que sim.
Neste contexto, quero chamar a atenção para que Bento XVI, quando era apenas professor Joseph Ratzinger, falou em dois tipos de padres: uns que continuariam na sua vida normal, na sua família, nas suas profissões, mas que as comunidades escolheriam, depois de provas dadas, para presidir à comunidade, orientá-la...; outros que, optando livremente pelo celibato, escolheriam dedicar a sua vida integralmente à Igreja, estando entre as suas tarefas a coordenação e formação dos outros padres...
5. Neste contexto de temas e problemas, é inevitável e imprescindível rever toda a questão da formação nos Seminários, com uma vivência que corre o risco de fugir à realidade como ela é, com a ausência do universo feminino e de todas as exigências até económicas da vida actual e formando jovens para uma vida que vai ser tantas vezes de exigência e solidão insuportável numa sociedade que hoje já não é sequer sociologicamente cristã. Os padres devem cuidar; e quem cuida deles?...
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Sábado, 16 de Agosto de 2025
A crónica da semana passada terminava com a pergunta: Por que é que o acesso das mulheres ao ministério sacerdotal não teve sequer possibilidade de ser colocado no Documento Final do Sínodo sobre a sinodalidade, aprovado pelo Papa Francisco em Outubro de 2024? E prometia tentar na crónica de hoje explicar como esta é questão decisiva na Igreja.
A discriminação das mulheres pela Igreja oficial constitui um escândalo e um pecado. De facto, é contra os direitos humanos e a vontade de Jesus. Tentarei desfazer equívocos para ir ao essencial.
1. O próprio Papa Francisco tem impedido colocar a questão, argumentando que “o sacerdócio é reservado aos varões, como sinal de Cristo Esposo que se entrega na Eucaristia”.
Como responder? Sim, Jesus é a visibilização de Deus, mistério indizível, em humanidade. O Evangelho segundo São João escreve que o Verbo (o Logos, Palavra) se fez carne (em grego, sarx), humanidade frágil. Sim, Jesus é homem, mas, como faz notar Marta Zubía, o que o Evangelho quer dizer é que o Verbo se humanizou, não que se varonizou, que “se fez homem (anthropos, homo) e não que se fez varão (aner, vir). Deus não se humanizou na sexualidade de Jesus, mas na sua pessoa, na sua humanidade. Esta redução, agravada pelo uso exclusivo de linguagem e imagens masculinas, leva a considerar a masculinidade, pelo menos na prática, como uma característica essencial do próprio Deus.”
2. Neste sentido, há quem argumente também que na Última Ceia só havia homens, os Apóstolos - afirmação muito discutível - e que só a eles foi entregue o governo da Igreja. O teólogo Herbert Haag, talvez o maior exegeta do século XX, respondeu que então, uma vez que todos eram judeus, só se poderia ordenar judeus!...
3. Jesus trouxe por palavras e obras a melhor notícia que a Humanidade teve: Deus é bom, Pai/Mãe e todos os homens e mulheres são seus filhos e, portanto, irmãos. Isso era intolerável para os interesses do Templo e do Império, que se coligaram para o assassinar. Portanto, Jesus não foi vítima de Deus, mas dos homens. Que Deus seria esse que teria precisado da morte do Filho para aplacar a sua ira? Note-se que Joseph Ratzinger, quando era só professor, escreveu que recusava acreditar que Deus se tornou “misericordioso” só depois de ver satisfeita a sua “vingança”. Opondo-se à teologia da “satisfação” que situava a cruz “no interior de um mecanismo de direito lesado e restabelecido”, rejeitou a noção de um Deus “cuja justiça inexorável teria exigido um sacrifício humano, o sacrifício do seu próprio Filho. Esta imagem, apesar de tão espalhada, não deixa de ser falsa”.
4. Foi também Herbert Haag que mostrou que as primeiras comunidades cristãs celebravam a Eucaristia, um banquete festivo, recordando a memória de Jesus, o que Ele disse e fez, a sua morte e ressurreição, e aprofundando o seu compromisso na realização do Reino de Deus... Quem presidia era um cristão ou uma cristã com uma casa melhor para se juntarem. Foi com a interpretação da Eucaristia como sacrifício que surgiram os sacerdotes, com uma ordenação sacra, o que levou, contra a vontade de Jesus que disse: “sois todos irmãos”, à divisão em duas classes: clero e leigos...
5. Como mostro no meu mais recente livro - O Mundo e a Igreja. Que Futuro? -, a Igreja sempre teve carismas, funções, ministérios..., mas nem Jesus, nem os Apóstolos ordenaram sacerdotes. Ela precisa de uma profundíssima reforma, e a não-discriminação das mulheres é essencial.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 24 de janeiro de 2025
O meu querido amigo Herbert Haag, talvez o maior exegeta católico do século XX, morreu fez este ano 20 anos: “partiu” no dia 23 de Agosto de 2001. Era realmente um dos maiores especialistas em ciências bíblicas, até porque dominava, para lá do latim e do grego, o hebraico, o aramaico, o ugarítico, o árabe...
O mistério da morte é que se parte sem deixar endereço. Ele acreditou, e eu com ele, que na morte não cairia no nada; pelo contrário, entraria em plenitude no mistério da infinita misericórdia de Deus, o Deus bom e amável, que Jesus anunciou por palavras e obras. Mas como é ninguém sabe. A morte é o mistério pura e semplesmente. O Absoluto tem duas faces: precisamente a morte e Deus.
Ficou a obra (Liberdade aos cristãos e A Igreja católica ainda tem futuro? estão traduzidos em português), a amizade, a saudade. Saudade, essa palavra que só a língua portuguesa tem e que, se tiver a sua raiz no latim salutem dare, donde vem também saudar, exprime o desejo de que, esteja onde estiver, esteja bem. Se a ligação for com solitate, então exprime a tristeza de quem está só porque o amigo já não está e faz-nos falta.
Quando nos encontrávamos, íamos almoçar. E Herbert Haag, professor emérito da Universidade de Tubinga, encomendava sempre um vinho francês ou italiano excelente. E a conversa desdobrava-se para longe e na profundidade. Recordo todos esses diálogos iluminantes para mim. Aí fica algo do muito que lhe ouvi: "De certeza que Jesus não queria que um homem só governasse do ponto de vista religioso mais de mil milhões de pessoas. De certeza que também não queria que as mulheres fossem discriminadas. Jesus queria uma Igreja de discípulas e discípulos, uma Igreja fraterna e não uma Igreja com duas classes: clero e leigos." "Contra a vontade de Jesus, embora os leigos representem mais de 99% da Igreja e o clero menos de 1%, é o clero que tem tudo a dizer." "Durante trezentos anos aquilo que alegadamente só um sacerdote ordenado pode fazer, concretamente presidir à Eucaristia, foi feito por leigos, nomeadamente pelo dono ou a dona da casa onde os cristãos se reuniam para celebrar a Ceia do Senhor. Assim, porque é que o que então foi possível não há-de sê-lo também hoje?" "A lei do celibato imposto aos padres como obrigatório é contra a vontade de Jesus e tem provocado numerosos escândalos sexuais." "Hoje sabemos que o Homem apareceu por evolução. Portanto, também não houve nenhum pecado original que seria apagado pelo baptismo." "O bem e o mal pertencem à constituição desta criação. O mal moral vem do coração humano, e é preciso combater o mal com o bem." "Segundo a Bíblia, não se pode afirmar a existência do diabo. Já é tempo de acabar com os exorcismos, que são uma relíquia da Idade Média." "No 'Cântico dos Cânticos' bíblico exalta-se o amor sexual de dois não casados." "O que está no Novo Testamento é que nos confessemos uns aos outros." "Se a sexualidade é um direito humano, então, quando um ser humano só pode viver a sua sexualidade de maneira homossexual, isso deverá ser-lhe permitido." "A presença de Jesus na Eucaristia não pode ser concebida de modo coisista. Não se legitima, pois, a adoração ao Santíssimo." "O problema na Igreja é que o padre tem medo do bispo, o bispo tem medo do papa, o papa tem medo da verdade." "A imagem de Deus no homem é a liberdade". "O Reino de Deus é já aqui." Sobre a divindade de Jesus dizia: "Jesus não é o Deus (hò Theós). Em Jesus está Deus. Deus identifica-se de modo especial com Jesus." Sobre a relação corpo e espírito, ouvi-o dizer: "Na evolução, o corpo humano desenvolve-se até ser possível ter possibilidades espirituais."
Um amigo pediu-me para lhe perguntar se acreditava na vida eterna. Ele respondeu-me: "Diga a esse amigo que sim. Na morte não cairei no nada, pois acredito que serei acolhido pessoalmente no mistério de Deus. Qual é o modo como isso acontecerá não sei. Ninguém sabe."
Como dou notícia no meu mais recente livro, O Mundo e a Igreja. Que Futuro?, um dos meus encontros com ele foi numa Sexta-Feira Santa em sua casa, em Lucerna. Conversámos longamente sobre Jesus, a Sua história, os Seus desígnios, a Sua missão, o Seu Evangelho, a Sua morte e ressurreição, a Sua Igreja. Até foi nesse encontro que ele me pediu para ir buscar o Evangelho segundo São João em grego e ler aquele passo: “Àqueles e àquelas a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados”, e reparei então que Jesus não disse isso aos Apóstolos, mas aos discípulos (oì mathetai). Conversámos enquanto partilhávamos uma refeição ao anoitecer, uma refeição com pão, queijo e bom vinho. Já noite dentro, à saída para o hotel, perguntei-lhe em afirmação: “Professor, foi uma Eucaristia.” E ele, serenamente: “Claro que foi.”
Perto de morrer — contou-me o teólogo Hans Küng, que faleceu neste ano de 2021, como aqui referi em várias crónicas —, mandou chamar precisamente o seu amigo Küng — tinham sido colegas na Universidade de Tubinga —, confessou-se, comungou e rezaram a ladainha da boa morte.
Em Janeiro do ano 2000, o seu bispo, o bispo de Basileia, retirou-lhe a confiança. Mas no testamento ficou escrito: "Morro como filho da Igreja Católica, à qual me liga uma dívida de gratidão sem limites, mas na qual também tive muito sofrimento."
Se mais alguma vez for a Lucerna na Suiça, já não irei bater à porta do número 26 da Haldenstrasse. O meu amigo teólogo Herbert Haag já lá não mora. Mas creio firmemente que havemos de reencontrar-nos.
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 18 de dezembro de 2021