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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

Nas próximas semanas Ana Ruepp publicará diversas ilustrações subordinadas a um tema ou uma citação.
Hoje, temos Hermann Broch.


“...por cima de todo o sonho que o homem sonha, flutua uma claridade do cósmico…”, Hermann Broch.

 


Essa necessidade de transcendência e de liberdade foi a grande marca de Hermann Broch, um dos grandes intelectuais europeus do século XX. Escritor austríaco de etnia judaica, nasceu a 1 de novembro de 1886, em Viena. Filho de um industrial têxtil, recebeu os fundamentos de uma educação técnica, tendo servido durante a Primeira Grande Guerra na Cruz Vermelha austríaca. Pelos cafés de Viena tomou contacto com figuras da intelectualidade austríaca, como Robert Musil, Franz Blei e a jornalista Ea von Allesch. Broch romperia com Milena Jesenská, que começou uma relação com o escritor Franz Kafka, para se juntar a Ea, mais velha onze anos. Em 1909 tornou-se crítico do Moderne Welt, sobretudo graças aos contactos de Ea, que o encorajou nos seus esforços literários. Ao cabo de muitos anos de trabalho na empresa da família, decidiu, aos quarenta anos de idade, dedicar-se por completo à escrita. Divorciou-se e ingressou na Universidade de Viena como estudante de Matemática, Filosofia e Psicologia, de 1926 a 1930. Em 1927 havia resolvido vender a fábrica. Aos quarenta e cinco anos de idade publicou o seu primeiro romance em formato de trilogia, “Os Sonâmbulos” (1931-32), que tratava da desintegração dos valores culturais na Alemanha de 1880 a 1920. No mesmo dia da anexação da Áustria à Alemanha pelas tropas alemãs, Broch foi detido para interrogatório. Auxiliado por James Joyce e outros escritores amigos, conseguiu uma autorização para emigrar da Áustria. Mudou-se primeiro para Londres, depois para a Escócia e, finalmente, para os Estados Unidos da América, onde se fixou em Princeton. Por falta de títulos académicos, foi-lhe negada uma posição nas universidades de Princeton e de Yale. Recebeu, no entanto, bolsas de várias fundações. A partir de 1940 envolveu-se na ajuda humanitária a refugiados, pelo que muito dos fundos que recebeu foram distribuídos por outros refugiados de guerra europeus. Em 1945 concluiu, nos Estados Unidos, “A Morte de Virgílio”, obra constituída por quatro partes - a água, a terra, o ar e o fogo - que é considerada um dos grandes monumentos da literatura do exílio. Passou os últimos anos da sua vida próximo da Universidade de Yale. Tornou-se, em 1949, docente do Saybrook College. Faleceu na véspera de uma viagem planeada à Europa, vítima de um ataque cardíaco, a 30 de maio de 1951.

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"A MORTE DE VIRGÍLIO", HERMANN BROCH (XV)

 

Hermann Broch (1886-1951) nasceu em Viena, no momento que ele próprio definiu de um “Apocalipse alegre”, no seio de uma família judaica de industriais do setor têxtil. A sua formação foi orientada no sentido de assumir responsabilidades nos negócios da família em Teesdorf na manufatura têxtil, fiação e tecelagem, mas nunca escondeu a sua inclinação literária e até filosófica. Relacionou-se com a intelectualidade vienense do seu tempo, em especial com Robert Musil, Rainer Maria Rilke ou Elias Canetti. Em 1927 vendeu a fábrica têxtil e decidiu estudar matemática, psicologia e filosofia na Universidade de Viena. A sua carreira literária iniciou-se, assim, aos quarenta anos, tendo publicado «Os Sonâmbulos», em três volumes, onde se analisam três momentos da história contemporânea, caracterizados pelo “vazio de valores” e pela existência humana dividida entre a o sonho e a realidade. As três datas são: 1888 e a dissolução romântica do mundo antigo; 1905 e a confusão anárquica que prenuncia a guerra; e 1918 quando o niilismo se torna presente e ativo. «Os Sonâmbulos» de Broch procuram, a todo o momento, libertar-se da ética do passado, protagonizando situações contraditórias de racionalidade e irracionalidade. E assim caminham para o abismo. Com o Anschluss (1938), depois de ter escrito sobre Hofmannsthal (num ensaio que retomará em 1948) e quando já está a escrever «A Morte de Virgílio» é preso, mas um movimento de amigos, entre os quais James Joyce, consegue a sua libertação e a partida para o Reino Unido e depois para os Estados Unidos, graças ao visto obtido por Albert Einstein e Thomas Mann. Além da escrita, empenha-se intensamente no apoio aos refugiados alemães e franceses em fuga à barbárie nazi. «A Morte de Virgílio» é uma obra fundamental, que o autor não qualifica como romance, mas como um poema sinfónico, com o que Hannah Arendt concorda. Cada uma das quatro secções tem um elemento central - a água, o fogo, a terra e o éter – e há um ritmo musical assumido - andante, adagio, maestoso. E a morte do poeta é analisada através da repetição, que procura compreender o absurdo. O quadro da obra corresponde às últimas dezoito horas da vida de Virgílio. Na «Chegada», o poeta de “Eneida” toma consciência da dispersão da sua vida e da insatisfação que sente. E inicia-se um pensamento em ritmo febril, pleno de contradições e paradoxos, contrastes e dúvidas. Na «Descida», as memórias ganham unidade, dando-se o poeta conta, com trágico espanto, de que a sua vida e a sua obra, se foram fazendo no esquecimento de uma parte importante da existência. As memórias mais antigas correspondem a uma realidade heterogénea, depois vem uma visão lírica interior, surpreendentemente noturna. A terceira parte, «A Expectativa», recapitula as discussões de Virgílio com os amigos – e no «Regresso a Casa», todos estes elementos conflituais se resolvem numa visão sublime e unitária, no momento em que Virgílio deixa o mundo dos vivos. Como afirma Maria João Cantinho: «Há uma nobreza incomparável na sua teoria sobre a liberdade e no modo como define a responsabilidade humana». Eis como a literatura deveria considerar a prevalência da atenção e do cuidado relativamente ao outro. Nesse ponto encontramos paralelo em Jaspers e em Lévinas. Hermann Broch morreu em 1951 em New Haven, Conneticut – e é indiscutivelmente um dos grandes autores do século XX.

 

Agostinho de Morais