Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

GOM _ A Vida dos Livros.jpg
   De 25 a 31 de dezembro de 2023

 

“A Bíblia Tinha Mesmo Razão?” de Francisco Martins, S.J., publicado por Temas e Debates, constitui um precioso e fundamental roteiro sobre os grandes marcos do Antigo Testamento.

 

a biblia tinha razao.png

 

A PRUDENTE INTERROGAÇÃO

As histórias de Israel e Israel na História levam-nos à investigação de um competente jesuíta que permite uma análise cuidada sobre a verosimilhança dos acontecimentos fundamentais do Antigo Testamento. Em 1955, o jornalista e ensaísta alemão Werner Keller escreveu uma obra que deu brado. Referimo-nos a “E a Bíblia tinha razão”, livro que se propunha mostrar que as descobertas arqueológicas disponíveis confirmavam a veracidade dos relatos bíblicos. O que muitos consideravam mito, lenda ou referência ilusória tinha acontecido de facto, e era possível prová-lo cientificamente. E assim a conquista de Canaã, relatada no livro de Josué, ou a fundação do reino de David, a quem sucederia Salomão, segundo os livros de Samuel e dos Reis, corresponderiam a acontecimentos cuja memória podíamos confirmar com provas históricas. O mesmo afirmava Keller relativamente ao dilúvio universal, relatado no Genesis, às dez pragas do Egipto, referidas no Livro do Êxodo, ou no surgimento do Maná do deserto… Importaria encontrar indícios naturais que pudessem confirmar a memória longínqua desses acontecimentos, como a ocorrência de uma grande inundação na foz do rio Eufrates ocorrida cerca de 4000 antes de Cristo, cujas marcas eram encontráveis, ou a decisão do Faraó de deixar partir o povo judeu, o que só poderia explicar-se sob o efeito de uma ameaça sem dúvida avassaladora. Já quanto ao Maná do deserto, Keller encontrou como explicação as secreções de um inseto-escama que se alimenta da seiva dos tamariscos… A partir desta obra, Francisco Martins S.J., professor de literatura bíblica na Universidade Pontifícia Gregoriana de Roma, apresenta-nos uma investigação que, segundo um método diferente, transformou a afirmação de Werner Keller numa pergunta, procurando investigar o que podemos saber sobre a história do povo judeu, que nos legou na Bíblia o relato do que o marcou e lhe deu uma identidade própria. Urge, assim, responder às perguntas que devem animar um estudo sério sobre o tema, desde as condições sociais que promoveram o surgimento da realidade coletiva, até à compreensão de como se afirmou a expressão política dessa identidade, nos séculos que correspondem ao período do Antigo Testamento. Trata-se, no fundo, de compreender melhor, corrigindo anacronismos e sem forçar os acontecimentos, qual a relação entre a Bíblia e a História. Foi esse o caminho seguido pelo investigador, e o certo é que os leitores são largamente beneficiários de tal método e da atitude crítica.

 

UMA ATITUDE CRÍTICA

Em vez de responder sim ou não à pergunta do título, o que empobreceria a nossa compreensão sobre o perfil e o horizonte da literatura bem como sobre a reconstrução histórica, deveria partir-se do texto bíblico para uma análise crítica das circunstâncias do mesmo. Podemos compreender, assim, a linha do tempo que ela acompanha. Daí explicar-se que Frei Bento Domingues, O.P. tenha afirmado ser este livro o melhor dos presentes de Natal. Seguindo um caminho cronológico, deparamo-nos com o período das origens, desde Abraão até à época dos Asmoneus; depois estão em causa os relatos patriarcais e as dúvidas sobre quais as razões para o caráter tardio das composições literárias sobre os patriarcas, com forte risco de anacronismo e mistérios por resolver. “Envoltas em ‘roupagem’ literária do primeiro milénio a. C., as histórias de Abraão, Isaac, Jacob-Israel e seus descendentes (Gn 12-50) e a épica libertação do Egipto (Ex 1-15) preservam muito provavelmente o ‘eco’ de figuras e eventos mais remotos, mas subtraem-nos os contornos históricos concretos em nome da reelaboração que as transformou em relato fundacional”. Por exemplo, no relato sobre o papel desempenhado por José junto de um Faraó, não encontramos confirmação na história das fontes egípcias. Após o Êxodo do Egipto, encontramos a emergência do monoteísmo, a importância de Yahvé – sendo que o seu culto exclusivo e a proclamação da unicidade divina resultaram de um longo processo histórico que não culminou senão depois do exílio. No caso do surgimento de Israel e da terra de Canaã, sentimos o contraste entre os livros de Josué e dos Juízes e a procura de um síntese harmoniosa. No caso da controvérsia sobre o início da monarquia (século X a. C.) e sobre as figuras de Saul, David e Salomão podemos, por isso, explorar os limites da reconstrução histórica, perante a dificuldade de emitir juízos seguros sobre esse tempo. Perante a “história normal” dos reinos de Israel e Judá, há condições para uma maior certeza histórica. E assim os escritores sagrados construiram narrativas nas quais os acontecimentos históricos são pretexto para mostrar a relevância teológica do que acontece na História.

 

A GÉNESE DO JUDAÍSMO

O Reino de Judá chegará ao fim dos seus dias pela captura da cidade de Jerusalém em 586 a. C. e pelo início do exílio em Babilónia. É o livro de Jeremias que nos dá o ambiente no interior da cidade sitiada e os sinais de resistência. Nabucodonosor ordena destruição da cidade. Mas ao sucesso segue-se a queda do império babilónico, a que sucede a conquista do rei Ciro da Pérsia, que muda a sorte dos exilados na Babilónia. O período persa permite o regresso do povo e a reconstrução do Templo de Jerusalém, a reedificação das muralhas de Jerusalém e o início da escrita da Bíblia ou proclamação da Torá – o Pentateuco, considerado como lei local. O nome “judeu” ganha, assim, dois significados – ou designa o indivíduo natural ou com uma ligação histórica ao reino de Judá ou à Judeia, ou corresponde a quem professa a religião judaica. Os séculos VI e V a. C. são o período charneira para o surgimento da Bíblia e assim se passa do Yahvismo (o povo escolhido por Deus) para o judaísmo, baseado no “código dos códigos” da cultura ocidental, sendo a Bíblia, motivada pelo trauma do exílio. E deste modo o “livro”, mais do que a “terra”, adquire o estatuto de pátria e de “religião”. E o período persa e o período helenístico, sob o domínio macedónio, abriram um novo horizonte que será, nos séculos seguintes, enriquecido pelo cristianismo…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 31 de julho a 6 de agosto de 2023


Ao falar de identidade nacional, José Mattoso lembrava a anedota que se contava do rei D. Luís quando, já bem adiantado no século XIX, perguntava do seu iate a uns pescadores com quem se cruzou se eram portugueses e a resposta foi bem clara: “Nós outros? Não, meu Senhor! Nós somos da Póvoa de Varzim”.

 


Com efeito, é sempre complexo o processo de definição do que designamos por identidade nacional. Ela é inseparável de uma perceção coletiva. Por isso a consciência histórica é fundamental, correspondendo à noção de apropriação do poder, tendo no caso de Portugal o Estado precedido a Nação, num processo lento e gradual. Esta anedota serve para se perceber que, longe de um entendimento fechado, estamos perante uma realidade complexa e aberta, que no caso português se traduz num curioso cadinho que, na diversidade, se uniformizou no território, na fronteira, na língua e numa construção convergente realizada de norte para sul e de sul para norte. “A História-escrita não será nunca reprodução da História-vivida” – disse-o José Mattoso (cf. A História Contemplativa – Ensaio, Temas e Debates, Círculo de Leitores, 2020). “A História-escrita não será nunca reprodução da História-vivida. Uma verifica os vestígios deixados pelo que aconteceu e relaciona-os entre si para representar o que já não existe. A outra é o conjunto dos próprios acontecimentos, que se sucedem no tempo e por isso podem ser recordados por quem os viveu, mas já não existem. Ao escrever a História construímos uma representação, ou seja, uma réplica do que aconteceu. Com efeito, os acontecimentos deram-se em momentos fortuitos, que não podemos representar porque a cada um deles segue-se outro momento”. A História-escrita não explica a reação dos poveiros. E para o historiador o encadeamento dos factos corresponde a operações mentais. Daí a necessidade de sínteses, de classificações, de agrupamentos racionais. Contudo, perante a complexidade temos dificuldade em distinguir o individual e o coletivo, o nacional e o internacional, os fatores sincrónicos e diacrónicos. Assim, a organização do tempo revela-se importante não apenas para distinguir a sucessão dos acontecimentos, mas também para permitir a comparação com o que ocorre noutros horizontes e que converge e diverge entre si. Como há um movimento permanente e simultâneo da sociedade humana, só podemos situar-nos na razão de ser das coisas a partir das referidas operações mentais.


ANÁLISE CERTEIRA E INOVADORA
José Mattoso fez uma análise certeira e inovadora, usando uma metáfora feliz: a História-escrita assemelha-se à maquette de um edifício que já não existe, mas que idealizamos e pode ser reconstruída. A História-vivida não tem lugar na realidade, desapareceu, mas pode ser representada pela História-escrita, como operação que procura ser verosímil. É algo que já não existe, uma vez que está a ser apenas objeto de uma projeção – e, sendo-o. Move-se, modifica-se sob o risco de permanente anacronismo, uma vez que a crítica é influenciada pelas mentalidades. Pode aproximar-se da objetividade, sem certezas, mas não está preservada da neutralidade. Lembremo-nos dos conceitos de identidade e de património cultural. José Mattoso teve o cuidado de encarar tais realidades como elementos complexos. “Quando o pensamento moderno se apropriou da História para reconstituir o passado, procurou rever as histórias nacionais para excluir as lendas e milagres, mitos, revelações e fantasias, descobrir causas e efeitos, e enfim impor a racionalidade e a lógica das narrativas anteriores”. Houve, assim, a tentação de reduzir tudo à racionalidade e à mentalidade ocidental. A diversidade, a recusa da superficialidade das análises, a exigência da compreensão do contexto – já que os factos dependem não só das decisões individuais ou coletivas, mas de fatores estruturais, antes desvalorizados. O tempo curto e o tempo longo têm de se articular – ensinou-o Braudel. E a memória recorda o que aconteceu, representando-o, ainda que de um modo fragmentado. No caso dos poveiros, temos a experiência da pesca e do conhecimento do mar no tempo longo e a vulnerabilidade das correntes e da meteorologia, bem como a maior ou menor presença do pescado no tempo curto, os economistas chamam-lhe estrutura e conjuntura. Mas como poderemos analisar a vida humana transcendendo o efémero? E Paul Ricoeur leva-nos para um caminho em que possamos usar uma mediação imperfeita ou incompleta entre o futuro, o passado e o presente. E se falamos de mediações e de instituições estamos no cerne da interrogação sobre como podemos colocar as pessoas como protagonistas da organização da sociedade e da realização do bem comum.


CHEGAR À CONTEMPLAÇÃO
Para José Mattoso, chegamos assim à contemplação, que é o único modo de entender a unicidade e a coerência do ser, compreendendo a diversidade e a complementaridade, a prevenção do conhecimento contra o erro e a ilusão, a consideração do método que valoriza o contexto e o conjunto, o reconhecimento do elo entre a unidade e a diversidade da condição humana, além  da aprendizagem de uma identidade planetária, da exigência da atenção ao inesperado e ao incerto como marcas do nosso tempo, da educação para a compreensão mútua entre as pessoas de pertenças e culturas diferentes e do desenvolvimento de uma ética do género humano de acordo com uma cidadania inclusiva – em que insiste Edgar Morin. “Ao captar a realidade pluridimensional do Homem no tempo, nasce nele o verbo silencioso forte de imagens, símbolos e alegorias que não o esgotam, mas indicam o sentido da vida humana sobre a terra, tudo o que se passa no tempo – os grandes impérios, o sofrimento dos excluídos, a renúncia aos bens terrenos, o amor e o desejo, o riso das crianças que brincam no campo, a exploração da terra, a composição de uma sinfonia musical – enfim tudo o que é real. Tudo tem sentido, tudo pode desencadear a exaltação de quem descobre esse mesmo sentido”. E eis-nos diante do paradoxo que é a existência humana, evidenciado no mistério revelado na fórmula de Pedro Calderón de la Barca de que “a vida é sonho”. A História-escrita e a História-vivida explicam uma exigência de compreensão da importância do tempo e da reflexão, da contemplação e do mistério…   José Mattoso, foi um profundo renovador da moderna historiografia em Portugal, sendo exemplar nos novos métodos e na revelação de muitos enigmas, renovando a investigação como um campo de complexidade e de compreensão, até para se entender a necessidade de uma melhor vivência democrática, bem como da defesa efetiva do património cultural e de uma relação europeia e global mais profícua.


Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

  

De 10 a 16 de julho de 2023


"A História Contemplativa" de José Mattoso (Temas e Debates, 2020) é ponto de partida para a invocação da Carta Apostólica do Papa Francisco “Sublimitas et Miseria Hominis” sobre 4 séculos do nascimento de Blaise Pascal.



A HISTÓRIA HUMANA… 
Começo por recordar a memória de José Mattoso (1933-2023), referência fundamental da moderna historiografia e da cultura portuguesa. Deixo uma breve citação, na qual recordo o seu espírito: “A minha visão da História humana, da História-vivida, é contemplativa. Sem dispensar nenhum dos recursos da investigação crítica, da heurística, da cronologia, da situação no espaço, da reconstituição dos factos, da perceção das ideias, da averiguação dos conjuntos humanos, do sentido dos mitos e dos rituais, procuro nela a trajetória temporal do Homem que creio ter sido feito à imagem e semelhança de Deus. Procuro a relação do Homem – de qualquer homem e de qualquer mulher – com o Filho do Homem (Mateus 8,20; Marcos 8,31). Do Filho do Homem que é igualmente Filho de Deus vivo (cf. João 6,51) Não esqueçamos que a atitude contemplativa é da ordem da visão. Requer um olhar atento, global, pacífico, não interventivo. Um olhar que capta as relações do pequeno com o grande, do singular com o plural, do diferente com o semelhante, do mesmo com o contrário. O olhar que coloca as coisas na sua ordem, que permite descobrir os géneros e as espécies, que classifica os conjuntos e que lhes atribui qualidades. Um olhar que reconhece o movimento e as mutações, sem que a diferença de tempo altere a identidade. Um olhar que compreende os percursos e os destinos da Humanidade, a atração e a repulsa, o amor e o ódio. (…) A visão contemplativa da História total faz da Arte, um dos caminhos que creio poderem conduzir ao Transcendente” (in “A História Contemplativa, Temas e Debates, 2020).


A RELIGIÃO E O MUNDO
O Papa Francisco, quando se assinalam quatro séculos do nascimento de Blaise Pascal (1623-1662), filósofo, matemático e homem de fé, põe-nos diante deste tema que tão bem foi tratado por José Mattoso, na linha dos ensinamentos e reflexões de Yves Congar, O.P., a quem devemos o diagnóstico sobre as razões da incredulidade dos dias de hoje – “a uma religião sem mundo, sucede um mundo sem religião”. Daí a preocupação de João XXIII sobre a compreensão dos sinais dos tempos e sobre a exigência de olharmos o mundo com olhos de ver. “Sublimitas et Miseria Hominis” é o título da Carta Apostólica e trata-se de um documento excecional, já que reflete sobre a experiência de um cientista cristão, que fez luz sobre a dignidade humana. É a vida vivida que está em causa “um olhar que compreende os percursos e os destinos da Humanidade”. «Desde criança e por toda a vida, (Pascal) procurou a verdade. Com a razão, esquadrinhou os sinais dela, especialmente nos campos da matemática, geometria, física e filosofia. Em idade ainda muito precoce, fez descobertas extraordinárias, alcançando fama considerável. Mas não ficou por aí. Num século de grandes progressos em muitos campos da ciência, acompanhados, porém, dum crescente espírito de ceticismo filosófico e religioso, (o cientista) mostrou-se um incansável investigador do verdadeiro: como tal, permaneceu sempre «inquieto», atraído por novos e mais amplos horizontes». A homenagem a alguém que se tornou célebre pelos sucessos científicos e técnicos e pelos trabalhos desenvolvidos na busca da verdade dos factos e das experiências, permite-nos pôr a tónica na modernidade e nas suas virtudes, dúvidas e perplexidades. «Se Blaise Pascal consegue tocar a todos, é sobretudo porque falou admiravelmente da condição humana. Mas seria errado ver nele apenas um especialista, embora genial, dos costumes humanos. O monumento formado pelos seus Pensamentos, de que alguns ditos isolados ficaram célebres, não se pode compreender realmente se se ignora que Jesus Cristo e a Sagrada Escritura constituem simultaneamente o centro e a chave do mesmo». A um tempo, Pascal adverte-nos contra a tentação de nos considerarmos como possuidores da verdade, mas também contra as falsas doutrinas e as superstições «que mantêm, a tantos de nós, longe da paz e alegria duradouras d’Aquele que deseja que escolhamos a vida e a felicidade, não a morte e a desventura». De facto, «sem a sapiência do discernimento, podemos facilmente transformar-nos em marionetas à mercê das tendências da ocasião».


UMA CANA PENSANTE
Tem razão o Papa Francisco, quando salienta que «para se compreender bem o discurso de Pascal sobre o cristianismo, é necessário estar atento à sua filosofia”. Daí a exigência do sentido crítico e do entendimento dos limites, já que o estoicismo leva ao orgulho e o ceticismo ao desespero. E a razão humana é uma maravilha da criação, que distingue o homem dentre todas as criaturas, porque «o homem não passa duma cana, a mais frágil da natureza, mas uma cana pensante». Blaise Pascal colocou o amor dos seus irmãos em primeiro lugar. Sentiu-se e reconheceu-se como membro do Povo de Deus, porque nada é mais perigoso do que um pensamento desencarnado: «Quem quer fazer o anjo, faz a besta». E há ideologias mortíferas, que mantêm os seus sequazes em redomas como se o ideal substituísse o real. Como leigo, saboreou a alegria do Evangelho, com que o Espírito quer fecundar e curar «todas as dimensões do homem» e reunir todos os homens à volta da mesa do Reino. Quando escreveu a Oração para pedir a Deus o bom uso das doenças (1659), Pascal era um homem pacificado, fora da controvérsia e da apologética. Estando à beira da morte, desejou morrer na companhia dos pobres, com a simplicidade duma criança. E depois de receber os Sacramentos, as últimas palavras foram: «Que Deus nunca me abandone». 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  

 

106. HISTÓRIA E GUERRA E PAZ EM TOLSTOI (II)


Seja por acaso, ou porque sim, a História, para Tolstoi, não responde à questão de saber porque aconteceu a guerra, havendo uma lei natural que determina a vida das pessoas, embora estas, incapazes de admitir este inevitável processo, procurem representá-la como uma sucessão de escolhas livres, atribuindo a responsabilidade ao que acontece aos “grandes homens”, aos heróis, que vê como meros cidadãos, pois só quando se escrever a História de todos os homens, só aí se encontrará a força que a move.


Em qualquer caso, concorde-se ou não com Tolstoi, guerra e paz são parte de quem somos como seres humanos. Não vale a pena fazer de conta que não somos assim. São como o mal e o bem, as trevas e a luz, o caos e a clareza, a desordem e a ordem. 


Há os instintos e impulsos que não controlamos conscientemente, há o falhanço humano, a evolução do nosso pensamento na direção errada, que fazem parte de nós, aos quais, para muitos, temos de estar ligados se quisermos ascender e conhecer aquilo que na realidade somos.             


Há quem diga que não nos podemos elevar, ascender, transcender, sem ter os pés na lama, sem haver guerra e paz, sem conhecer o bem e o mal, sem incorporar tudo o que somos e compreendê-lo, havendo sempre uma repetição da História.


Sem esquecer que os grandes homens lideram, manipulam e movimentam vontades, mesmo que estas sejam manifestações de irracionalidades absolutas que jamais se saciam, como o demonstra a guerra, como um falhanço brutal e monstruoso de todos nós.   


E tem havido sempre uma lei e ordem natural de reprodução temporal e espacial na História e na Guerra e Paz.       


Para quando o banimento da guerra e a permanência da paz?   


Como a árvore com as suas raízes na terra (o que somos) e as suas folhas no céu (que ansiamos e nos ultrapassa)? 


Perante este falhanço da Humanidade, de que vale rezar se as nossas vozes não chegam ao céu?   


As angústias, incompreensões e não respostas de Tolstoi, quanto à verdade histórica da guerra permanecem, como na sua obra monumental Guerra e Paz, cuja intemporalidade persiste, mesmo neste tempo de conflito bélico entre a Rússia e a Ucrânia, pois uma obra de arte vale sempre por si, independentemente da sua origem e das opções pessoais do seu autor.    

 

20.05.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


105. HISTÓRIA E GUERRA E PAZ EM TOLSTOI (I)


O interesse pela História e pela verdade histórica era crucial para Tolstoi. 


Só a História tinha a solução para o mistério de porque é que o que sucedia, sucedia como sucedia e não de outra maneira. Porque é que as coisas acontecem como acontecem e não de outro modo. 


Tendo a Filosofia da História como banal e superficial, desconfiando do abstrato, da metafísica, do impalpável e do sobrenatural, tinha a experiência, o concreto, o empírico, o observável, o verificável, todo o espírito de investigação empírica, como a chave para a verdade histórica.   


Só a História continha a verdade, quando baseada em acontecimentos concretos, na real experiência humana, em factos puros e duros reconhecíveis pelo intelecto normal, e não a História escrita pelos historiadores, que deseja ser algo que não é, não sendo uma ciência com conclusões exatas.


Mas ao reconhecer a natureza não científica da História, conclui ser inviável descobrir leis históricas autênticas e fiáveis que em conjugação de esforços com a observação empírica viabilizassem predizer o futuro (e a retrodicção do passado). O ser humano, usando os seus próprios recursos, é impotente para compreender e controlar o rumo dos acontecimentos, dada a existência de uma lei natural segundo a qual, e num grau não inferior ao da natureza, a vida dos seres humanos é determinada.     


Não sendo, de facto, livres, mas não podendo viver sem a convicção de que o somos, conclui que se permitirmos que a vida humana seja governada pela razão, a probabilidade de uma vida espontânea envolvendo a consciência do livre-arbítrio é destruída. Desta oposição entre a ilusão do livre-arbítrio a as leis deterministas que comandam o mundo, surge um caos sem sentido onde a desordem da nossa vida é refletida na guerra, no seu grau mais extremo. 


Questionando-se porque acontece a guerra, não encontra resposta, podendo ser tantas as causas que acabam por não ser nenhumas. Sucede por acaso ou porque sim, tendo como errada a ideia dos historiadores que têm este facto ou aquele evento como causa principal da guerra, defendendo que a História só dirá a verdade quando não se limite aos grandes homens, tidos como carneiros que o pastor engorda para o abate, pois a verdade sobre a condição humana está nos que têm a humildade de reconhecer a sua irrelevância e insignificância, sem vaidades nem ressentimentos. 


Na esteira de Schopenhauer, o ser humano sofre em demasia porque espera demasiado, é infeliz porque é eternamente insatisfeito, incessantemente ambicioso porque sobrevaloriza as suas capacidades de um modo fantasioso e, acima de tudo, tem o propósito insensato de querer observar e estabelecer uma ordem a partir da convicção desesperada de que deve existir uma ordem, mesmo que o caos em que vivemos o contrarie, como a guerra, densa e intensamente, o exemplifica.               

 

13.05.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  

 

104. O FALHANÇO DO “FIM DA HISTÓRIA”


Há a tendência para prognosticar o emergir de uma civilização universal, resultado da afirmação dos valores ocidentais, referência civilizacional cimeira para os outros povos.


Em 1989, com a queda do muro de Berlim e o fim da guerra fria, a ideia de universalização do ocidente ganhou nova projeção com a defesa da tese segundo a qual a democracia liberal seria a “forma final de governo humano” e, como tal, “o Fim da História”, da autoria de Francis Fukuyama (O Fim da História e o Último Homem, edições Gradiva). 


Argumenta, em seu favor: “Todos os países em fase de modernização económica se tornarão cada vez mais parecidos entre si: têm de conseguir a unidade nacional com base num estado centralizado, urbanizar, substituir as formas tradicionais de organização social, como a tribo, a seita e a família, por formas economicamente racionais, baseadas na funcionalidade e na eficiência, e promover a educação universal dos seus cidadãos. Este processo garante uma homogeneização cada vez maior de todas as sociedades humanas, quaisquer que sejam as suas origens históricas ou culturais”.            


O desenvolvimento científico e tecnológico, a interdependência comunicacional do sistema económico e consequências comunicacionais do sistema político, justificariam essa uniformização através da globalização.   


E esse anúncio da vitória da democracia liberal sobre as autocracias, ditaduras e totalitarismos, projetou-o e visualizou-o, de novo, Fukuyama, no início da invasão da Ucrânia, prevendo o colapso do regime russo, a derrota da Rússia, sem solução diplomática para a guerra. Em síntese: “A derrota russa tornará possível um novo nascimento da liberdade. O espírito de 1989 voltará a viver, graças a um bando de bravos ucranianos”


Se é verdade que a modernidade e a evolução tecnológica e científica se disseminaram globalmente, isso não significa que foram causa de uma civilização única ou de um modelo único de resposta institucional e política.


Escreve Arnold Toynbee: “A origem do erro foi o facto de a nossa civilização ocidental ter modernamente lançado rede do seu sistema económico a todo o mundo, e a esta unificação económica seguiu-se na mesma base e quase na mesma extensão uma unificação política”. E acrescenta: “nada mais fácil para o comércio do que exportar uma nova técnica ocidental. É infinitamente difícil para um poeta ou um santo do Oriente comunicar a sua própria chama espiritual a uma alma estranha do Ocidente”.   


Adianta Fernand Braudel: “A difusão da tecnologia, e mesmo de alguns valores ocidentais, nos países que não pertencem à nossa civilização, mais não é do que manifestação da ancestral permuta “inter-civilizacional”. Conclui: “O passado das civilizações, aliás, não é mais do que a história dos contínuos contributos mutuamente prestados, ao longo dos séculos, sem que por isso percam os seus particularismos, as suas originalidades”.      


A idealista, talentosa e polémica tese de Fukyama sobre o Fim da História falhou, até agora, mesmo sabendo-se que a Rússia também é, por direito próprio e geograficamente, parte da Europa, e maioritariamente e civilizacionalmente cristã. Prova-o a invasão à Ucrânia, sem derrocada à vista (até hoje) da autocracia/ditadura e emergência da democracia, bem como os populismos, ditaduras e totalitarismos que, pelo mundo fora, não veem na democracia liberal um amanhã que canta.

 

06.05.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  

 

103. GUERRA E PAZ E A REPETIÇÃO DA HISTÓRIA


O pacifismo, ao defender a paz como bem supremo, faz o seu percurso ideológico e político desenvolvendo-se, no seu sentido mais restrito, ao recusar o uso de meios violentos contra toda a criação ou a espécie humana (ecologistas), quer no mais amplo, ao incluir as doutrinas defensoras da conciliação internacional, na base de organizações   e de políticas como a SDN, a ONU, a DUDH, a Ostpolitik e o desanuviamento. 

Baseia-se numa antropologia tida essencialmente como otimista, onde predomina a paz, tendo como base filosófica a Paz Perpétua de Kant e a ideia de que o homem é naturalmente bom.     

É uma ideia culturalmente e espiritualmente revolucionária em termos civilizacionais, que não tem qualquer tipo de reflexo de uma ordem natural das coisas, o que é demonstrado pela repetição da História ao longo dos tempos, não justificando o otimismo excessivo do pacifismo.   

Com efeito, ao lado do aprofundamento da globalização, integração regional e aumento da cooperação, materialização e positivação do conceito de complementaridade de ação das organizações internacionais, reapareceram violentas e agressivas afirmações de nacionalismos e violações dos direitos humanos. Algumas das mais recentes nos Balcãs (ex-Jugoslávia), no Ruanda-Burundi e Síria. E, atualmente, com a invasão da Ucrânia, após duas guerras mundiais com epicentro europeu, contrariando quem tinha tal factualidade como uma regressão improvável.  

É a antropologia pessimista que tem por fundamento filosófico a teoria de Thomas Hobbes de que o Homem é mau, é um lobo para o Homem, defendida pelos belicistas, dada a inevitabilidade da guerra que acompanha, em permanência, o ser humano, adaptada pelos realistas para quem o Estado é o único ator internacional válido relacionando-se com os outros (Estados) movido pelo interesse nacional, maximizando o poder, se necessário o militar, através da guerra, sendo esta boa se for um meio para atingir os fins.   

Tem havido sempre uma repetição da História, quanto a guerra e paz. 

O desejável seria nunca haver repetição da guerra, havendo sempre paz.

Movimentos generalizados da opinião pública a favor da paz são louváveis, mas há obstáculos à sua realização, como o terrorismo, tensões religiosas, intolerâncias étnicas, xenofobia, racismo, supremacias imperialistas ou outras, fazendo esquecer os esforços da paz, sem excluir o poder como fim ilimitado, sustentado pelo puro domínio e ganância do poder pelo poder.    

É a guerra e paz e a repetição da História.   

O que não justifica que nos conformemos com a repetição da guerra, pois a paz é decorrência inelutável do progresso espiritual da Humanidade, árdua tarefa, que vem de há muito, não sendo, para muitos, uma mera utopia.               

 

29.04.22
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A VIDA DOS LIVROS

  

De 21 a 27 de março de 2022.


«O Testamento Político» (1749) de D. Luís da Cunha é um dos Documentos mais importantes da História Política Portuguesa.

  

COMO RESPONDER À SITUAÇÃO? 
Portugal, depois da Restauração de 1640, saiu enfraquecido, procurando responder às novas circunstâncias. E assim jogou com a liberdade dos mares e com a relação com a Inglaterra (em plena crise interna de índole constitucional, religiosa e política). Daí as tentativas para criar núcleos economicamente ativos nas zonas de influência, em especial no Brasil, sendo desse tempo a proposta do Padre António Vieira de recorrer aos cristãos-novos e judeus, de modo a refazer o império marítimo, contra a lógica do isolamento a que a Espanha nos quis condenar. Jorge Borges de Macedo refere então duas tendências em confronto na política externa portuguesa – uma atlântica, inclinada ao entendimento com a Inglaterra, e outra continental, orientada para uma ligação à França. E se o casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, procurou pôr fim ao isolamento português, segundo uma opção atlântica, que parecia ser a mais consistente, não podemos esquecer a ambiguidade do casamento de D. Afonso VI com a princesa francesa D. Maria Francisca Isabel de Sabóia. “Para Portugal, - refere ainda Borges de Macedo - as boas relações com as potências marítimas apresentavam-se como indispensáveis, uma vez que era por mar que se fazia o comércio externo; por aí saíam o vinho, o sal, as frutas, chegavam e partiam as produções coloniais, como sejam o açúcar, o tabaco e os couros”. A participação portuguesa na guerra da sucessão espanhola (1701-1714) foi bem ilustrativa dos cuidados estratégicos. Havia que acautelar o que restava da influência marítima, sobretudo na América do Sul e no Estado da Índia. E se houve mudança de campo por parte de D. Pedro II, primeiro ao lado de Luís XIV e da causa dos Bourbons, e, depois de uma aparente hesitação neutralista, na “Grande Aliança”, de Inglaterra, Holanda, Áustria e Estados alemães, a verdade é que a preocupação fundamental estava ligada à necessidade de preservar a relevância de Portugal como potência atlântica. O primeiro Tratado de Methuen (1703) celebrado com a Inglaterra inseriu-se nesta orientação e teve influência decisiva na evolução económica do século XVIII. No entanto, os lucros da comercialização pertenceriam aos grandes comerciantes franceses, ingleses e holandeses. O tratado de Utrecht (1712), no fim da guerra de sucessão, permitiu, contudo, reforçar a sua posição no Brasil – num momento em que se anunciava a riqueza e magnanimidade do ouro… 


A ALIANÇA BRITÂNICA

Enquanto a Grã-Bretanha se tornava paulatinamente a potência marítima hegemónica, Portugal vivia uma fase próspera, com meios de pagamento abundantes, graças ao ouro, e ao resultado das vendas do açúcar brasileiro, dos vinhos e das frutas, e gozava de prestígio internacional, designadamente junto da Santa Sé (com a atribuição do título de “Fidelíssimo” ao monarca português) reforçado pela participação na vitória sobre os turcos em Matapão (1717). Desde o século XVII, um conjunto de portugueses preocuparam-se com a necessidade de recuperar a posição no contexto internacional, não só evitando a subalternização relativamente a Espanha, mas também garantindo a defesa dos domínios ultramarinos e das frotas do Brasil. Estiveram neste caso diversas figuras relevantes, como: Manuel Severim de Faria, Duarte Ribeiro de Macedo, o Padre António Vieira, o 4º conde da Ericeira, Alexandre de Gusmão, José da Cunha Brochado, o Cardeal da Mota (D. João da Mota e Silva) ou António Ribeiro Sanches. É nestas águas que encontramos D. Luís da Cunha, autor do célebre Testamento Político. E quando encontramos referências aos estrangeirados, estamos perante uma corrente política que procurava assegurar ligação à chamada “Europa das Luzes”, que procurava seguir os países com maior desenvolvimento, pelo conhecimento científico. Está nesse caso o Dr. António Ribeiro Sanches, formado nas Universidades de Coimbra e Salamanca, de origem judaica, que D. Luís da Cunha conheceu num contacto que fez com a Universidade de Leide (Países Baixos), numa diligência para a aquisição de livros de Medicina e de Filosofia Moderna, destinados à Universidade de Coimbra (1730). No relatório que produziu, Sanches salientava, porém, que os lentes de Coimbra iriam ter certamente dificuldades em aceitar as novas ideias, por exemplo no tocante à Física de Newton ou à moderna medicina experimental, por demasiado dependentes do ensino escolástico. Ribeiro Sanches partiria pouco depois para S. Petersburgo (donde regressaria em 1747) a solicitação da czarina Catarina II. Continuou, porém, a reflexão sobre Portugal, o que, segundo o conselho dado a D. Luís da Cunha obrigaria a encontrar alguém com grande influência junto do Rei que pudesse contrariar as práticas censórias e inquisitoriais e mudar profundamente as mentalidades e os métodos vigentes. Sanches escreveu as “Cartas sobre a Educação da Mocidade” (1759), onde preconizou as urgentes medidas necessárias a ultrapassar os atrasos do país.


COMO ULTRAPASSAR ENTRAVES?
Importa referir ainda Luís António Verney, autor do “Verdadeiro Método de Estudar” (1746), leitor dos pensadores britânicos, como John Locke, que faz uma crítica ao ensino rígido, devendo proceder-se a uma nova orientação, baseada na inovação e na experiência, devendo a instrução elementar ser ministrada a ambos os sexos e a todas as classes, cabendo ao Erário fomentar e custear as despesas da educação. Refira-se ainda o caso de Francisco Xavier de Oliveira (Cavaleiro de Oliveira), autor da mais severa crítica aos métodos inquisitoriais, que considerava serem a razão do atraso português. Menos preocupado com uma perspetiva pedagógica e reformista, assume essencialmente a atitude de denúncia. Por isso, será condenado pelo Santo Ofício, tendo-se convertido ao protestantismo, escreveu vasta obra crítica entre a qual as Reflexões de Félix Vieira Corvina dos Arcos… Já Filinto Elísio foi um admirador dos franceses, com o cuidado de evitar excessos galicistas. Clérigo de formação, foi mestre de latim de D. Leonor de Almeida, a marquesa de Alorna (Alcipe). No exílio, com o seu amigo Félix Avelar Brotero, aplaudirá a Revolução Francesa, regressando no ano seguinte a Portugal. Por fim, o Padre José Agostinho de Macedo, conhecido como Padre Lagosta, também foi influenciado pelos ventos afrancesados, mas tornou-se conhecido por ser indisciplinado, pelas diatribes antiliberais e pela linguagem radical. Pertenceu com Bocage à Nova Arcádia, com Cruz e Silva e Reis Quita, onde teve por nome Elmiro Tagídeo… Celebrizou-se pela negativa e como defensor do retrocesso. E D. Luís da Cunha? Há quem ponha dúvidas. Contudo, foi indiscutivelmente o verdadeiro símbolo de inteligência fulgurante, num tempo de radical mudança.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ALMANAQUE PERPÉTUO

  

 

Abraão Zacuto (1450-1522), rabino, astrónomo, matemático e historiador, fez publicar em Leiria no início de 1496 o célebre “Almanaque Perpétuo”, que demonstra a qualidade excecional do homem de ciência – conselheiro de D. João II e de D. Manuel, num momento alto de cooperação de saberes de que as navegações portuguesas beneficiaram decisivamente. A ele se deve o aperfeiçoamento do Astrolábio e a opinião favorável que deu para a viagem à Índia. Mesmo assim foi uma das vítimas da expulsão do povo judeu, não lhe valendo a muita admiração que lhe votaram os reis de Portugal e o progresso científico que tornou possível. Zacuto é um exemplo do método do planeamento rigoroso que permitiu a definição das missões marítimas e os seus importantes resultados, longe de qualquer improviso ou cedência ao curto prazo.


Num ano com tantas incertezas vale a pena lembrarmos o exemplo do Almanaque, como repositório de informações e conhecimentos. Como disse o nosso Eça de Queiroz: “O tempo, essa impressão misteriosa a que chamamos tempo, é para o homem como uma planície sem forma, sem caminho, sem fim, sem luz, onde ele transita guiado pelo almanaque que segura na mão que o vai puxando e a cada passo murmurando: aqui está setembro!... além finda a semana” (…). Só com o almanaque sempre presente e sempre vigilante, pode existir regularidade na vida individual ou coletiva e sem ela… o que era seriedade seria apenas uma horda e o que era um cidadão seria apenas um trambolho”.  


E lembramos o “Verdadeiro Almanaque Borda d’Água – reportório útil a toda a gente para este ano de 2022, contendo todos os dados astronómicos e religiosos e muitas indicações úteis de interesse geral”. O que hoje se publica pela Minerva vem de 1929 e está na edição 93, mas teve como antepassado o da Barateira, com a mesma utilidade. Recordo-me do cuidado que meu Avô Mateus punha na consulta desse instrumento fundamental. Havia muitas anotações e pode dizer-se que o conhecimento da vida útil dependia dessa íntima ligação. Neste ano atípico com tantas incertezas, lembrei-me de Voltaire, do seu “Cândido” e da necessidade de sabermos cultivar o nosso jardim, só possível com a ajuda do Almanaque… Folheando o “Borda d’Água”, ficamos a saber muitas coisas, entre as quais que em janeiro se preparam as culturas de Inverno, como a da batata, ou que a poda é aconselhável no Quarto Minguante, apesar de a não devermos fazer nas figueiras, laranjeiras e macieiras, nas quais os grandes cortes são agora prejudiciais. Mas se pensarmos em enxertos, estes estão na altura certa no Crescente, do mesmo modo que a semeadura da fava, ervilha, alface e rabanete.


Se os hortelões são os destinatários de tão ajuizadas orientações, os jardineiros são aconselhados a plantar begónias, ervilhas de cheiro, gipsofilas, girassóis, lírios, paciências, sécias, zínias, goivos e miosótis. As indicações são as mais diversas à medida que percorremos os dias. E não falta a sabedoria popular: “Tudo perde quem perde o bom momento”; “Falar sem pensar, é atirar sem apontar”; “Antes escorregar o pé que a língua” ou “A inveja consome o invejoso como a ferrugem o ferro”… E não falta o “Juízo do Ano”, que nos é proposto pelo “Borda d’Água” e pela sabedoria omnipresente da sua cartola. São reflexões atinadas, infelizmente mais esquecidas que as referências às culturas de época ou às podas, enxertias, cortes e sementeiras… E quais os melhores ensinamentos, normalmente recorrentes?  A prevenção e o cuidado (que a pandemia aconselha), o aproveitamento do tempo, o não desperdício, o trabalho e a aprendizagem. E as longas séries matemáticas de Abraão Zacuto ensinam, no fundo, que não há resultados sem a audácia de ver longe.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A EUROPA À LUZ DE UMA HISTÓRIA RICA

    

 

Já no séc. V a.C., Heródoto comentava acerca da Europa, heroína mítica, nome de Oceânide ou Fenícia que Zeus, disfarçado de touro, raptara: "o mais curioso é que a Tiriana Europa era asiática de nascimento e nunca veio a esta terra a que os Gregos hoje chamam Europa". Geograficamente, aliás, a Europa é uma península da Ásia, um território multifacetado e caprichosamente desenhado, que se estende, a norte do Mediterrâneo, dos Urais ao Atlântico. Economicamente, albergou ou participou em várias economias-mundo, essas entidades a cavalo sobre diversos impérios, civilizações e culturas, mas consolidadas por uma auto-suficiência económica, que lhes é facultada pela hegemonia do comércio em que participam. O conceito surgiu com "La Méditerranée et le monde méditerranéen à l´époque de Phillipe II" de Fernand Braudel, em 1976. Quiçá já com vocação política, a noção de Europa aparece pela primeira vez num texto do monge britânico Bedo, o Venerável, por volta da vitória de Carlos Mardel sobre os sarracenos em Poitiers (em 732). E é essa travagem do avanço muçulmano que, na Europa Ocidental, confinando o Islão à Península Ibérica, dá um sentido político à Europa. Três décadas mais tarde, em 769, o espanhol Isidoro, o Jovem, narrando essa batalha, conta: "Saindo pela manhã de suas casas, os Europeus deparam com as tendas bem alinhadas dos Árabes". Será da consciência da cristandade europeia que nascerá uma Europa culturalmente identificável pelo seu enraizamento, apesar de todas as suas diversidades internas.

Mas politicamente, desde o "Pai da Europa", Carlos Magno, e, da tentação unificadora dos sacro-impérios que se lhe sucederam, ou da do poder temporal do Papa até aos nossos dias, a união europeia tem-se ficado pela utopia, causando tantas vezes, infelizmente, conflitos e guerras. A consciência da cristandade europeia e do seu território desenha-se, a partir da queda do Império Romano do Ocidente, nos quatro séculos seguintes. Já Estrabão observara que os Romanos "detêm quase toda a Europa, menos a parte que se situa além do Ister (Danúbio) e as margens do Oceano entre o Reno e o Tanaís (Don)". De facto, quase desconheciam a Escandinávia e as planícies bálticas, nunca conquistaram a Germânia, e só com Trajano, no princípio do séc. II, ocuparão a Dácia (Roménia), além Danúbio. Com as invasões bárbaras e a queda do Império do Ocidente, em 476, a cristandade vai acentuar a divisão entre oriental e ocidental, iniciada pela separação do Império Romano entre Bizâncio e Roma, em 395, até ao cisma de 1058. Mas, enquanto o Império e a cristandade orientais viriam a ser submetidos, com a tomada de Constantinopla em 1453 ao poder do Islão Otomano, ao cristianismo converter-se-ão os invasores e conquistadores do Império Romano do Ocidente, vindo assim a cristandade a ocupar, para além da que fora romana, a Europa toda, mais o norte de África. Este será islamizado, três séculos depois, pela expansão almóada e almorávida, que ocupará ainda a Península Ibérica, antes de ser definitivamente derrotada em 1452, em simultâneo com a queda de Constantinopla e o desaparecimento da entidade política da cristandade oriental. Pouco depois, a Reforma irá dividir a cristandade ocidental (excomunhão de Lutero e Dieta de Worms em 1521). Contudo, nem a fronteira religiosa -  que vem separar a Europa do Norte, protestante, da do Sul, católica - nem as guerras da religião - que também alimentaram os conflitos decorrentes da expansão de novas potências ultramarinas (Inglaterra e Holanda) por mares e terras que o Tratado de Tordesilhas partilhara entre os reinos católicos da Ibéria - foram suficientes para anular a consciência da Europa como cristandade. Como apontamento curioso, refiro que, ainda no sec. XVII, em regiões teutónicas, se encontravam clérigos que, ao serviço do povo cristão, celebravam missa para os católicos e o ofício luterano para os protestantes da sua área. Aliás, já travado o avanço otomano em Lepanto (1571), a Europa conhecerá a afirmação progressiva de nacionalidades e a constituição de estados nacionais que, com alianças várias apagando distinções religiosas, andarão em guerra uns contra os outros durante mais de quatro séculos. E também se lançará, com força, no prosseguimento da expansão ultramarina, em que as rivalidades europeias se traduzem na luta pelo domínio de rotas e centros comerciais, e do abastecimento em especiarias, matérias-primas, artefactos e metais preciosos, e mão de obra, que, mais tarde, levará à instalação de colónias e á formação de impérios coloniais. Durante séculos, os europeus viverão com guerras intestinas, mas a descoberta e o encontro com povos, civilizações e culturas diferentes despertarão uma consciência europeia como modo próprio de estar no mundo. E o esforço missionário levará a outras paragens valores cristãos que, mesmo aculturando-se, conservarão o seu cariz europeu ou "ocidental". Podemos dizer que a consciência de ser Europa se forma como a de ser cristandade, desde a comunhão na fé de bárbaros díspares e romanos à identidade definida pela oposição à ameaça islâmica, e até à perceção de si pela descoberta do denominador comum face às outras humanidades que a expansão ultramarina foi revelando.... Erasmo, padre católico e conselheiro de Carlos V para a aproximação entre católicos e protestantes, escrevia no seu "Querela Pacis": "A distância entre países separa os corpos, não as almas.

Antigamente, o Reno separava os Franceses da Alemanha, mas o Reno não pode separar o cristão do cristão. Os Pirinéus formam fronteira entre Gauleses e Espanhóis, mas esses mesmos montes não podem dividir a comunidade cristã. O mar separa os Ingleses dos Franceses, mas não pode romper os laços da sociedade de Cristo... Cristo é o conciliador de todas as coisas..." E é interessante dar uma olhadela ao que se escreveu na "idade das luzes": para Voltaire: "A Europa é uma espécie de grande república partilhada por vários Estados, uns monárquicos, outros mistos, estes aristocráticos, aqueles populares, mas todos correspondendo uns com os outros, todos tendo um mesmo fundo de religião, ainda que divididos por várias seitas"... Diderot e d’Alembert (no artigo "Europa" da Enciclopédia): "Pouco importa que a Europa seja a mais pequena das quatro partes do mundo pela extensão do seu território, posto que é a mais considerável de todas pelo seu comércio, pela sua navegação, pela fertilidade, as luzes e a indústria dos seu povos, pelo conhecimento das artes, das ciências, dos ofícios, e por aquilo que é mais importante, pelo Cristianismo, cuja moral benfazeja conduz à felicidade da sociedade"... Rousseau: "Todas as potências da Europa formam um sistema que as une pela mesma religião. Não se pode negar que é fundamentalmente ao Cristianismo que a Europa deve o tipo de sociedade que se perpetuou entre os seus membros"... O Iluminismo vai, aliás, buscar à tradição cristã europeia os valores que racionalizará e universalizará.

Os mesmos que a expansão europeia difundiu pelo mundo e hoje constituem o "corpus" ético e jurídico da sociedade internacional: a dignidade da pessoa humana, o valor universal do homem, filho de Deus, como medida de todas as coisas, a consciência individual, cuja liberdade apela à responsabilidade, a razão, da qual como diz S. Tomás de Aquino até a fé é serva, o trabalho como cooperação na criação do mundo, a distinção entre o religioso e o político (contrariamente às tradições judaica e islâmica), sem prejuízo do empenhamento cívico de cada um: dai a César o que é de César... Nem sempre a Igreja visível, "oficial", se conduziu de acordo com estes princípios. Mas eles permaneceram, apesar dos desvios e aberrações eclesiais ou clericais, como fundamentos da vocação divina e universal do Cristianismo e como estrela polar da consciência europeia.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 07.09.12 neste blogue.