Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
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Desrespeitar a humanidade é impedir-lhe a sua ideia de liberdade
Allin Braund
Substituir a antiga opressão por outras opressões mais contemporâneas em nome de imperativas e perversas mudanças?
Criar formas de vigilância e censura mais agressivas usando o poder das máscaras com que se disfarçam?
Adubar o nascimento e o crescimento de quem gosta de ser mandado e não arrisca pensar sozinho?
Manter a ordem na não transformação e no não progresso do ser como se todos fossemos um enclave?
Mas não somos nós um palimpsesto vivo em que se entrecruzam diferentes processos históricos?
Mas não somos nós uma maioria na tentativa constante de um processo de emancipação?
Mas não somos nós nesse processo sempre dissidente,os que bem compreendemos o quanto desrespeitar a humanidade é impedir-lhe a sua ideia de liberdade, a sua experiência da existência singular?
Mas não somos nós natureza, cultura, extensão, nascimento, possibilidade, desabrochamento, condição de não cativo, ideal?
Não basta modernizar as linguagens dos lugares-comuns
Aqui chegados, cremos que há que partilhar o quanto nos temos mostrado alheios ou distraídos do errado na sociedade contemporânea, sem que a nossa responsabilidade e empenho para uma genuína melhoria do bem-estar do Homem se tenha feito notar.
Precisamos, seguramente, de criar alternativas ao que no mundo tem condenado as gentes a aceitar que o bem-estar é para poucos.
Em rigor, já assistimos a horrores numa escala desconhecida, e que bem nos tem alertado à urgência de uma mudança significativa, à qual ainda não nos apresentámos com vigor e em conjunto.
De registar, que a nossa surpresa face a um “novo” império de crueldade mascarada de falsa beatitude, de apelativas e sedutoras inverdades, repousa e muito, na ausência da nossa força apostada nas melhorias dirigidas a quem sentia e sente, que nós já abandonámos o reflexo de dor humana.
Por óbvio que o “novo” poder escuro, inquisitivo, manipulativo, germinador de medos, nunca foi alheio às nossas falhas como berço do seu regresso.
Continua este poder que é medo dos medos, a aprofundar uma descrença palpável do homem em si mesmo, um mistério sobre a sua ignorância que muito convém adubar, colonizando famintamente toda a vida quotidiana a fim de que se instale um domínio mecânico.
Não tem este poder, uma ideia que construa uma verdadeira visão alternativa para aquilo que a vida deveria ser em humanidade.
Questionemos, pois, o que poderemos fazer agora para mitigar a ausência de empatia, o que poderemos fazer que nos faça merecer a honra do belo que o homem é capaz de gerar, do belo que já provamos que o homem é capaz de multiplicar, sobretudo quando vai para além das estatísticas dos mínimos indispensáveis.
O imperativo de nos melhorarmos quotidianamente é o que segura todas as experiências que possam gerar vida digna; todas as situações em que o presente não descure o entender o passado, e que aprenda, o quanto para findar a agonia não basta modernizar as linguagens dos lugares-comuns
A Editorial Trotta publicou Jürgen Habermas, Una Biografia, da autoria de Stefan Müller-Doohm, obra dada à estampa em Berlim em 2014, na qual encontramos o percurso intelectual e cívico de quem é indiscutivelmente uma das consciências morais da Europa contemporânea. E neste momento de tantas incertezas, em que os egoísmos e a cegueira do curto prazo tendem a prevalecer, é importante recordarmos alguém que representa a necessidade de reflexão e do espírito da Ilustração, não numa lógica fechada e positivista, mas numa perspetiva aberta à diversidade e capaz de ligar as ideias e os acontecimentos, a razão e os sentimentos.
O tema da democracia está na ordem do dia. Há nuvens negras no horizonte e temos de estar despertos para os perigos que espreitam. Nada há de mais sério. E se hoje há urgência na prevenção e na ação, para que a saúde pública não contrarie a democracia e possa estar associada à retoma na economia e na sociedade, é importante falar do “patriotismo constitucional” e da “democracia deliberativa”, de que trata Habermas, não apenas nas democracias nacionais, mas também na vida supranacional, em especial europeia. Num momento em que há sinais preocupantes, em que a dúvida se confunde com a descrença, e em que o desalento alimenta a desistência, importa não esquecer o que nos diz o filósofo: “A verdade não existe no singular”, pelo que a legitimidade democrática deve ligar-se à mediação das instituições e ao envolvimento dos cidadãos. No debate europeu, infelizmente, há sinais de recusa de uma elementar solidariedade que contrarie a fragmentação e a lógica do salve-se quem puder. E Habermas lembra as origens da União Europeia, como construção de paz e desenvolvimento, capaz de integrar as diferenças, sem esquecer a memória histórica, não numa perspetiva de culpa (se lembrarmos o Holocausto), mas sim de responsabilidade. E a tarefa do intelectual tem de ser a de melhorar o lamentável nível do discurso das confrontações, evitando a todo o custo o cinismo. Um filósofo intelectual é contemporâneo dos nossos contemporâneos – e daí a sua necessária inserção numa ética de responsabilidade. É esse o papel que Habermas assume, com todas as limitações e virtualidades – lembrando tantas vezes aos seus alunos: “Nunca te compares com um génio, mas trata sempre de criticar a obra de um génio”.
Nesta perspetiva, ainda jovem, o filósofo ousou afrontar Heidegger, em 1953, num texto publicado no “Frankfurter Allgemeine Zeitung” com o título significativo “Pensando com Heidegger contra Heidegger”, menos pelo desprezo que o velho pensador tinha pela igualdade democrática, e mais pela recusa da autocrítica e pelo facto desse silêncio contaminar irremediavelmente a atitude filosófica. Afinal, a principal tarefa dos que se dedicam ao ofício de pensar é a de fazer luz sobre os crimes que se cometeram no passado e manter desperta a consciência sobre eles? Lembrar para que não voltem a acontecer, mas evitando o ressentimento e a vingança. Heidegger evitaria a polémica e responderia que a sua preocupação tinha a ver com a relação entre o homem e a técnica. Mas Habermas contraporia que a sua crítica não tinha a ver com o envolvimento político com o nacional-socialismo em 1933, mas com a teimosa negativa em reconhecer o seu erro a partir de 1945. No fundo, “a discussão sobre o comportamento político de Martin Heidegger não poderia nem deveria servir propósitos de difamação e desprezo sumários. Como nascidos depois, não podemos saber como nos teríamos comportado nessa situação de ditadura”.
Pouco depois, Habermas chamaria a atenção de Theodor W. Adorno com um texto publicado na revista “Merkur”, “A dialética da racionalização”, no qual analisava a alienação gerada tanto pelo trabalho numa cadeia de montagem, como no consumo sem limites. E premonitoriamente avisava: «da produção ao transporte, passando pela comunicação ou pelo ócio, a “cultura das máquinas” terminará por dominar as nossas vidas. Cada dia, estaremos mais longe da natureza e do resto dos seres humanos». Apesar da resistência de M. Horkheimer, pelo pendor pacifista de Habermas na altura, este ingressou, em 1956, no célebre Instituto de Investigação Social, centro da chamada Escola de Frankfurt, o dito Café Marx, que Lukács designava depreciativamente como “Grande Hotel Abismo”… Adorno admirava o pensador, e para sua mulher Gretel ele fazia lembrar Walter Benjamin, o grande amigo, que se suicidara em Port Bou, em 1940, perseguido pela Gestapo…
Ao longo de 650 páginas, a biografia acompanha um percurso extraordinário, em que, além de Adorno e Gadamer, encontramos os grandes dilemas do pós-guerra, num contexto de complexidade, diversidade e incerteza. E fica claro que a reflexão filosófica e o compromisso social são faces de uma mesma moeda – a necessidade da Ilustração… E é esse sentido de responsabilidade crítica que marcará a decisiva importância do pensador na atualidade – designadamente no tocante à defesa de uma Europa como fator de paz, de desenvolvimento e de diversidade cultural. Daí a necessidade de domesticar o capitalismo com a democracia garantida por um Estado de direito com “rosto social”, com superação do “pessimismo antropológico” que caracterizou a primeira fase da Escola de Frankfurt. Os conceitos de conhecimento, liberdade e progresso constituem valores de uma razão ilustrada, no contexto de uma “modernidade”, como “projeto inacabado”, por contraponto à “condição pós-moderna” de Jean-François Lyotard… Lembrando a democracia, recordo um outro livro, acabado de sair na Europa, Penser la Justice, constituído por entrevistas a Michael Walzer por Astrid von Busekist, (Albin Michel, 2020). Para o filósofo norte-americano, democracia e justiça têm de estar ligadas. Aos grandes sistemas, Walzer prefere as “pequenas teorias”, acreditando num Estado social, no qual as nações e as fronteiras sejam garantes da liberdade das pessoas. E, em seu abono, lembra o Profeta Amos, para quem não bastava condenar a injustiça e a idolatria, sendo necessário construir em concreto a sociedade mais humana. Tanto Michael Walzer como Jürgen Habermas insistem numa consciência crítica capaz de entender a sociedade em mudança, em conflito e em diálogo, num contexto plural. E nessa perspetiva de diversidade e complexidade se explica a anedota que corre nos meios da reflexão política e filosófica: um professor norte-americano aterra na Alemanha, toma um táxi e diz: “Leve-me à Escola de Frankfurt!”. E o taxista surpreendido responde: “A qual delas?”…
Karl Jaspers designou como “momento axial” o terceiro dos períodos em que dividiu a História do Mundo. Decorreu entre 800 a.C. e 200 a.C. e caracterizou-se pelo aparecimento de uma mesma linha de pensamento em três regiões do globo, China, Índia e Ocidente. Afinal, a atualidade é resultado desse momento que corresponde à valorização do espírito humano, envolvendo a paideia grega como aprendizagem e a humanitas romana como cultura, acrescendo o excecional contributo das escolas de pensamento da Ásia de que o budismo é uma síntese evidente. Jaspers fala de quatro momentos: o inicial quando o homem começou a falar, aprendeu a utilizar o fogo e inventou os primeiros utensílios; o segundo (5000 e 3000 a.C.) corresponde ao nascimento das grandes civilizações do Egito, Mesopotâmia, Índia e China; o terceiro é o “tempo axial” e o último refere-se ao final da Idade Média e ao nascimento da ciência moderna.
Lembro este entendimento a propósito de um “momento crucial” que podemos estar a viver. Há circunstâncias decisivas que podem ter consequências muito gravosas, sobretudo quando ocorridas em clima de ódio e de cegueira. Simbolicamente, a eleição presidencial americana de hoje representa uma escolha dilemática, que poderá ter maior ou menor influência, mas põe-nos perante uma decisão dramática, tal como aconteceu, pelas piores razões, com o famigerado “Brexit”, com os efeitos desastrosos conhecidos. Agora estamos perante uma estranha cumplicidade entre o Czar russo e um putativo mandatário norte-americano, num ambiente geral de irracionalidade e de violência, em que a obra clássica de Kant pode ser relida enquanto distopia rebatizada como reflexão sobre a hipótese da guerra perpétua. O Estado de direito e a democracia surgem apoucados pela destruição prática de um sistema ético de valores e do primado da lei, numa perigosa lógica de vazio e de cupidez desumana.
Onde está a Carta das Nações Unidas e a experiência trágica de duas grandes guerras com milhões de vítimas? É difícil manter o equilíbrio sem que se manifeste a critica fácil. E quando alguém se dispõe a acabar com conflitos ancestrais em vinte e quatro horas, lembramo-nos de tristes momentos históricos que levaram à perdição de muitos impérios. Afinal, a história repete-se invariavelmente como tragicomédia. Calígula regressa às nossas mentes. E ouvimos Anne Applemaum no seu recente “Autocracia, Inc.” (Bertrand, 2024): “as autocracias mais sofisticadas preparam as bases legais e propagandísticas antecipadamente (…) concebendo armadilhas para apanhar ativistas pró-democracia antes ainda de estes ganharem credibilidade ou popularidade”. Eis o que está em causa – a prevenção dos valores fundamentais do desenvolvimento e da dignidade humanos. A banalização do mal nasce onde menos se espera, de modo irrepetível e sempre na lógica de alimentar a ilusão sobre um mundo que se pretende dominado por quantos invocam o privilégio de uma verdade abstrata, mesmo usando o eufemismo da pós-verdade que é o sinónimo mais perfeito da mentira. Não se trata de invocar fantasmas, mas de cuidar da realidade, lembrando Karl Popper, que nos ensinou que nunca sabemos o suficiente para poder ser intolerantes. E o momento axial de Karl Jaspers ilustra esta exigência – de que a inteligência e a sabedoria nunca são demais.
Já no livro Francisco. Desafios à Igreja e ao Mundo escrevi longas páginas reflectindo sobre o tema, concretamente sobre as questões do “Transhumanismo e pós-humanismo”, onde também citava Raymond Kurzweil para quem não se trataria apenas de “transhumanismo”, melhorando o Homem, enxertando-lhe componentes electrónicas: “O fim último é ser capaz de descarregar uma consciência humana num material informático. A Humanidade acederá assim à imortalidade.”
Volto à questão do Homem, que se torna cada vez mais actual com os avanços da Inteligência Artificial (IA), cujos benefícios serão cada vez mais inegáveis, concretamente nos domínios da saúde, mas que vai pôr dilemas éticos, já que haverá perigos gigantescos, como preveniu o Papa Francisco na recente cimeira do G7 na Itália, apelando, por exemplo, à proibição da entrada em cenário de guerra de armas automáticas letais, sistemas que usam IA. No limite, a pergunta é: Iremos ser substituídos por máquinas? O que é o Homem?
O enigma parece ser não tanto o espírito, mas a matéria. Embora o espírito seja enigmático na sua relação com a matéria – como é que, estando na raiz o espírito, há matéria? --, parece menos compreensível como é que da matéria resulta o espírito, como é que a matéria se abre em espírito. O dualismo antropológico é cada vez mais inadmissível; mas como entender a emergência do espírito a partir da matéria?
Não têm faltado afirmações reducionistas do Homem. “O Homem não passa de um objecto material e tem apenas propriedades físicas” (D. M. Armstrong, 1968). “Toda a conduta humana terá um dia uma explicação mecânica” (D. Mackay, 1980). “As máquinas inteligentes tomarão pouco a pouco o controlo de tudo, acabando por apoderar-se do mundo da política... Pensar é simplesmente um processo físico-químico (L. Ruiz de Gopegui, 1983). “O espírito é uma máquina” (M. Minsky, 1987).
Hoje, com as novas técnicas da tomografia de emissão de positrões e da ressonância magnética nuclear funcional, consegue-se visualizar imagens das regiões do cérebro que entram em acção aquando das diferentes operações mentais. Assim, António Damásio escreveu que, embora avesso a previsões — aliás, com o tempo, parece-me cada vez mais prudente em relação à explicação científica da consciência —, lhe parece seguro poder afirmar que até 2050 a acumulação do saber sobre os fenómenos biológicos em conexão com a mente consciente fará com que “desapareçam as tradicionais separações de corpo e alma, cérebro e espírito.”
Talvez haja quem receie que, mediante a compreensão da sua estrutura material, algo tão precioso e digno como o espírito humano se degrade ou desapareça. Mas António Damásio previne que “a explicação das origens e do funcionamento do espírito não acabará com ele.” O nosso assombro estender-se-á até essas incríveis microestruturas do organismo e às suas funções que permitem o aparecimento do espírito e da autoconsciência – não se esqueça que o cérebro com os seus cem mil milhões de neurónios e um número incalculável de sinapses é a estrutura biológica mais complexa que conhecemos. O espírito sobreviverá à sua explicação biológico-neuronal, como a rosa continua a enfeitiçar-nos com o seu perfume, depois de analisada a sua estrutura molecular.
A questão da consciência continuará a fascinar-nos, apesar de todos os avanços da neurobiologia. A razão está em que o corpo e o cérebro são objectivamente acessíveis. A consciência, porém, é íntima e ineliminavelmente subjectiva: é sempre cada um, cada uma, a viver-se a si mesmo, a si mesma, subjectivamente, de modo único e intransferível, sendo dada, portanto, na experiência pessoal. Demos um exemplo, apesar de tudo, menos exigente: um neurocientista que tivesse todos os conhecimentos sobre os mecanismos com que o cérebro processa a impressão da cor azul, sem a sua vivência real consciente, não saberia o que é o azul. O problema permanecerá: como é que processos eléctricos e físico-químicos originam a experiência subjectiva. Há uma correlação entre o cérebro e a consciência, mas como é que a experiência de si na primeira pessoa surge de processos e factos da ordem da terceira pessoa?
Mediante as novas técnicas, percepcionamos a base neurobiológica do pensamento. Significa isso que temos desse modo acesso ao conteúdo do pensamento? Reflectindo sobre esta problemática, o número de Julho-Agosto de “Philosophie Magazine” pergunta: “Observamos no cérebro correntes eléctricas, fenómenos de activação, mas algum dia veremos nele o próprio pensamento?” Onde está a liberdade no cérebro? Onde estão a autoconsciência e o eu no cérebro?
Como sublinhou o célebre historiador Jean Delumeau, há realmente hoje correntes reducionistas, no sentido neuronal ou como se o Homem não passasse de um “mosaico de genes”. Mas não se esquece então que é o Homem que faz a ciência e lhe dá sentido? “Se o universo é o fruto do acaso, se o Homem não foi querido por um Ser que transcende a História, se a nossa liberdade é ilusória, nada tem sentido e, segundo a fórmula trágica de Léon-Paul Fargue, ‘a vida é o cabaret do nada’”. E continua: se, como pergunta Jean-François Lambert, o Homem é da mesma natureza que os outros seres, donde lhe vem o seu valor e dignidade? Onde se fundamentam os direitos humanos? Se se não é bom ou mau, “mas apenas bem ou mal programado”, ainda se poderá falar de liberdade e responsabilidade?
Anselmo Borges Padre e professor de Filosofia Escreve de acordo com a antiga ortografia Artigo publicado no DN | 10 de agosto de 2024
Pela primeira vez na História a humanidade é hoje compelida a sair da lógica da guerra e do depauperamento incondicionado do ambiente. Parece que pode começar uma inversão da tendência com a assunção da consciência de que desta maneira não se pode seguir por diante, sob pena de destruir a humanidade a provocar a desolação do planeta.
Se nas últimas décadas constatámos de uma forma crescente que se estão a dar grandes passos rumo à barbárie, parece emergir agora uma reação que ainda não é a «insurreição das consciências» invocada por Pierre Rabhi, mas é a reiteração, de novo, da necessidade urgente de humanização.
São significativos, a propósito, os títulos de alguns ensaios filosóficos e sociológicos que apelam à humanização da modernidade, da política, da sociedade…. Perante as crises globais que se abateram sobre nós, como a pandemia, as crises económicas, as guerras nas fronteiras da Europa e do Mediterrâneo (portanto junto á nossa casa e, na realidade, guerras que também nós estamos a combater ao fornecer armas aos beligerantes), como afirmar um humanismo que seja um objetivo almejado com convicção pelas várias humanidades que fazem parte de um tecido da vida, da comunidade global?
É por isso que a pergunta séria e urgente que devemos colocar-nos não é sobre Deus mas sobre o mundo humano: «O que é o humano?». Pergunta na verdade antiga, que significativamente reencontramos no início e no fim do Saltério hebraico: «O que é o Homem?».
Devemos refazer-nos estas perguntas sobretudo hoje, porque o humano está esmagado entre o inumano e o pós-humano.
Conhecemos bem o inumano como possibilidade de depredação e negação do próprio humano: quando o ser humano é reduzido a “res”, coisa, quanto é humilhado e reduzido ao nada, distorcido pelo ódio e pela violência dos massacres e dos genocídios, desconhecido nos migrantes que apenas invocam compaixão, o inumano reina e nega o rosto à pessoa, nega a sua vida.
E é sempre permanente a necessidade de discernir o desumano também na nossa vida quotidiana, nas relações pessoais entre familiares e conviventes, nas situações onde falta a palavra apropriada, o respeito que sabe reconhecer o outro, a mansidão que pode assegurar a paciência recíproca. Bernanos escrevia: «A barbárie aninha-se nas fronteiras das nações como nas casas mais humildes».
E todavia hoje o humano está também desconfiado do pós-humano, ou seja, esse novo estádio evolutivo da humanidade no qual o cruzamento entre biologia e tecnologia está cada mais omnipresente. Deveremos alimentar muita inquietação perante estas novas oportunidades que poderão chegar a negar o corpo para o substituir com estruturas artificiais munidas de elementos de inteligência humana. Ao “homo sapiens” sucederá a “macchina sapiens”? E não será este talvez um delírio de omnipotência que deseja ser capaz de transumanismo até chegar a negar a mortalidade?
Pessoalmente nutro uma tal confiança na humanidade que não acredito que seja possível essa deriva e continuo convicto de que mais uma vez o “homo sapiens” saberá responder de maneira vital à pergunta que só ele sabe colocar-se: o que é o Homem? Porque há na humanidade um selo que pode ser pisado e negado, mas que é indestrutível e jaz como indestrutível na sua profundidade: a fraternidade. Ela tem a força de emergir assim como a terra, depois da água, do fogo, do vento, deixa despontar a erva e retomar a vida.
A destruição do nosso planeta por um holocausto nuclear estará inscrita na História da Humanidade? Hiroshima e Nagasaki foram apenas um “erro” que não voltará a repetir-se? O Holocausto foi um simples “erro” irrepetível? A guerra, como realidade histórica que tem acompanhado o ser humano na sua trajetória terrena, é irredutivelmente eterna? A presença do Homem na Terra é só destruição?
É uma visão cruel da presença humana na Terra, que trouxe (e trará) destruição à natureza e aos humanos. Só que, olhando para a natureza, compreendemos que ela também é cruel, o que não legitima que defendamos que o mal humano é mais digerível quando o transformarmos num mal natural.
Não foi a presença humana, em si e só por si, que trouxe destruição à natureza e à espécie humana, por muitos exemplos que haja da sua crueldade. Apesar do seu quinhão de destruição, evitável, em parte, o saldo é e continua positivo, através de um enriquecimento substancial do mundo em que habitamos. A não se entender assim, é legítimo concluir que há quem seja portador de um pessimismo intrínseco que prefere um mundo desumano e com ódio à humanidade.
Tomando como referência a tese geral de que a presença humana na Terra é destrutiva, há quem a torne extensiva ao colonialismo (racismo e não só), que com a escravatura, por exemplo, destruiu a natureza do humano e da cultura nas comunidades locais colonizadas.
Trata-se, por um lado, de uma avaliação e generalização simplista, dado saber-se que quando os europeus chegaram o tráfico de escravos já era conhecido. É consensual que os africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses chegarem a África. Pode falar-se de uma questão de grandeza, uma vez que os europeus da época praticaram a escravatura (já existente) numa escala maior. O que também pode levar, por outro lado, a um incitamento ao ressentimento e à violência, começando por um certo ódio tribalizado que se pode universalizar, apesar de, à nascença, segundo Rousseau, sermos todos bons selvagens.
E é muito pouco consensual (no mínimo) a teoria crítica da raça, segundo a qual como só os brancos tinham poder, apenas os brancos poderiam ser racistas. Os negros, não, ou, se o fossem, eram-no apenas porque tinham “interiorizado a branquitude”, tida como contagiosa para desculpabilizar os que não comungavam as novas ideias e teorias raciais. E os da Ásia e das Américas?
Não se pretende “branquear” a colonização, escravatura e racismo, porque condenáveis na sua desumanidade, repugnância e ódio à humanidade. Mas é incompreensível só aceitar visões maximamente supremacistas, de vencedores ou vencidos, que muitas vezes apenas sobrevivem por ressabiamento e pelo odioso ao que é humano, não as contextualizando, escrutinando e confrontando nos seus prós e contras. É um discurso negativo, revanchista, vingativo, ressentido, megalómano, perigoso e vil. Há que não estimular ideologias de incitamento ao ódio, antes sim as de união e reconciliação. A lista de coisas boas é extensa e gratificante: avanços médicos, científicos, tecnológicos e as artes em geral de que o mundo beneficia. E que o nosso amor à humanidade sedimenta e amplia.
O ser humano nasceu imperfeito, é imperfeito e será sempre imperfeito. A democracia surgiu imperfeita, é imperfeita e será sempre imperfeita. A liberdade germinou imperfeita, é imperfeita e será sempre imperfeita. Pela sua própria natureza o ser humano é imperfeito, finito e limitado perante o infinito, dado o seu desconhecimento de valores e princípios intemporais e universais, numa vivência que se move entre o que é tido por real e o ideal, rumo a uma “perfeição” imperfeita e perfectível. Também fala de imperfeição a famosa frase de Churchill segundo a qual: “A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras já experimentadas ao longo da História”. Uma espécie de mal menor ou menos mau. Também a liberdade individual de cada um não pode ser usada para negar a liberdade dos outros, sendo uma miragem na sua maravilhosa imperfeição. Aspirar a um ser humano perfeito, num ser que é intrínseca e estruturalmente imperfeito, é um contrassenso. O mesmo quanto à liberdade e à democracia como ideais jamais alcançados e alcançáveis na sua plenitude. A ideia de uma crescente e permanente perfeição num mundo em que não somos a medida de todas as coisas, é um absurdo, embora todos lutemos por progressos manifestamente exequíveis e melhoráveis. Um futuro seguro e justo para todos não passa por objetivos e fins inconciliáveis com a natureza, pois a realidade é o que é e não o que gostaríamos que fosse.
149. INTERDEPENDÊNCIAS DAS VÁRIAS VERTENTES DO CONHECIMENTO
Sobressai a ideia de haver uma interação virtuosa de todas as vertentes do conhecimento, baseada num novo paradigma científico, que inclui tanto as ditas “ciências duras” (aplicadas ou exatas), como as chamadas “ciências puras” (ciências humanas e sociais), por oposição à ideia segundo a qual as artes, humanidades e ciências sociais são subsídio-dependentes, enviesadas de subjetividade e, em última análise, “inúteis”.
Contrariando uma versão restrita e simplista, que tem o cerne da “funcionalidade” e “utilidade” de todas as ciências no ganho económico imediato e a curto prazo no mercado, tem-se vindo a alargar a valorização da criatividade e da intuição no núcleo duro do pensamento científico, como elementos essenciais de inovação, em que, por exemplo, recentes progressos da neurociência demonstram que as circunvalações cerebrais ligadas à perceção auditiva não são estáveis, reconfigurando-se caso a caso pelos vários padrões que condicionam essa experiência, em que o hardware cerebral é, impreterivelmente, reformatado pelo software da experiência artística, havendo uma interdependência dinâmica da ciência e da cultura.
Retornando às neurociências e à distribuição dos processos cognitivos entre os dois hemisférios cerebrais, conclui-se que o pensamento linear, a sequenciação lógica, a formulação de modelos simétricos e a aquisição e gestão sistemáticas de informação estão no hemisfério esquerdo, enquanto a criatividade, a descoberta, a invenção, a surpresa e a associação instintiva se localizam no hemisfério direito, provando a interpenetração entre ambos os hemisférios e, concomitantemente, entre as ciências aplicadas e “duras” e as humanas e sociais, sendo erróneo maximizar as funções cerebrais do lado esquerdo face às do lado direito.
A própria lei da oferta e da procura e o valor de mercado de cada novo produto não depende apenas da sua estrita funcionalidade e utilidade, mas também de um conjunto de fatores relacionados com a criatividade, mais-valia e valor acrescentado gerados por várias dimensões contextuais e simbólicas, como a história, os costumes e a tradição renovados, a estética, a empatia, o design, o cromatismo, o jogo, a mensagem, o significado.
Nas sociedades mais desenvolvidas e inovadoras, é cada vez mais notório que não há ciências “duras” sem Ciências “puras”, havendo uma permanente interação entre ambas, não havendo indústrias culturais dinâmicas sem anterior experimentação estética de topo, patentes comerciais sem prévia investigação que as viabilize.
Muitos, se não mesmo a maioria, dos mais prestigiados protagonistas do mundo da ciência e da tecnologia caraterizam-se por terem tido, em paralelo com a sua atividade e saber estritamente científico, uma grande curiosidade, estima e dedicação pela criação artística e literária, pelas humanidades e artes em geral, incluindo o social, desde Leonardo de Vinci, Copérnico, Galileu, Kepler, Morse, Einstein (entre nós, por exemplo, Pedro Nunes e Damião de Góis, alargando e modificando o conhecimento, com o espírito e consequências científicas dos descobrimentos), tendo-se o pensamento criativo e crítico como transversal a toda a ciência e cultura.
“Um homem apenas médico, não é médico”, eis uma afirmação do médico, professor e investigador Abel Salazar, que sintetiza bem a interação das diversas facetas do conhecimento.
A crise humanitária que só em 2015 levou a que mais de um milhão de pessoas atravessassem o Mediterrâneo em parcas embarcações, permanece ativa por muitos meios, e com muitos milhares de seres a pagarem com a vida a tentativa de chegarem à Europa ou aos EUA.
São êxodos desesperadíssimos estes que também suportam os terríveis encargos que os traficantes de seres humanos cobram por mortes quase certas, ou por servidão torturada enquanto sobrevivida.
E são encargos que também correspondem a dinheiro, verbas dificílimas de obter nas terras de miséria absoluta que agora tentam abandonar, e quantas vezes, deixando por lá as suas amadas e para sempre condenadas famílias.
Os sobreviventes (quantos?) ajoelhados às fronteiras dos países da sua esperança, por ali ficam, em carne viva, de alma desolada, destruída, por não terem conseguido entrar lá onde a vida se faria antes que o sangue lhes secasse nas veias.
Todavia, raramente se os escuta no lamento da decisão tomada e inerente à tão temerária viagem para a Europa ou EUA.
Tudo é preferível ao que lhes era imposto nos países de origem. E o tudo, mesmo que a um preço cruel, é preferível do que ficarem onde estavam, ou tomarem a decisão de se dirigirem a outros países onde a liberdade e o respeito pelos direitos humanos não existem de todo.
Na verdade, diga-se, são hercúleas as desigualdades nos níveis de vida entre as várias regiões do mundo, implicando outras desigualdades fundamentais a nível dos direitos da educação, da alimentação, da saúde, das liberdades em geral, da esperança de vida com a mínima qualidade.
Contudo, registe-se que as persistências das guerras em todo o mundo, geram sempre disparidades tremendas, horrores inenarráveis, inverdades que tornam desconcertantes as explicações das razões das diferenças entre os países mais ricos e os mais pobres.
Na verdade, a decisão de arriscar a vida apenas por um espaço de tempo em que pelo menos a esperança seja vida, ganha algum avanço à desgraça: eis o espírito esperante.
Contudo, em países em vias de desenvolvimento, em que se tentou que o aumento do progresso tecnológico expandisse o crescimento económico, a desigualdade entre as nações persistiu de tal modo que, bem se pode considerar, uma ausência total da análise das causas intrínsecas da pobreza, sobretudo das que que criam barreiras que contribuem para um desenvolvimento profundamente desigual no nosso planeta.
De reter, nomeadamente os impactos assimétricos da globalização e da colonização nos últimos dois séculos.
De reter, nomeadamente o ritmo da própria industrialização em países desenvolvidos e em desenvolvimento que, aliás, agora também precipitou um aquecimento do planeta que ameaça a vida, questiona a ética e a sustentabilidade da jornada.
De reter, as dramáticas atrocidades de todos os totalitarismos que bloqueiam a evolução do espírito da espécie humana.
Mas, se todos sabemos que a riqueza se continua a distribuir de forma tremendamente desigual, e até por fatores históricos e geográficos, também todos sabemos que as lancinantes crises humanitárias estão repletas de pormenores terríficos não isentos da nossa responsabilidade, certo é que as mortes das gentes do esperante, nos mares-e-estradas-cemitérios, só se detém, se acaso se não ignorar as correntes poderosas e minadas que correm dissimuladas por baixo dos pés que nos transportam enquanto gente a esta humanidade.