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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Há males que vêm por bem... Sem me atrever a ser tão assertivo, direi apenas - e creio que tanto basta - serem quaisquer obstáculos, impedimentos ou, mesmo, desgraças sempre também oportunidades de revisão e conversão, aberturas novas à humana vocação de recriação do mundo. A pandemia universal que nos tem vindo a percorrer e abraçar é de tal bom exemplo.

 

   Antes do mais, na medida em que nos vai desenvolvendo a própria consciência da nossa humanidade comum e nos impõe um pensarsentir como a solidariedade é, e deve ser, mais nossa do que a indiferença e a excecionalidade, seja esta, ou possa ser, ostracismo do outro e privilégio nosso. Finalmente, compreenderemos como todos estamos na mesma Arca de Noé e só juntos, organizados e cooperantes, nos safaremos. Até a globalização da chamada quarentena nos vai recordando como, no mundo de hoje, já nada é resolúvel pelo isolamento de navios fundeados ao largo dos nossos portos: não mais se trata de pôr uns de castigo, mas de solicitar a todos que se restrinjam ao cuidado da cautela comum.

 

   Por outro lado, também nos surgem surpresas, tais como esta de agências científicas especializadas e atentas terem agora verificado que a restrição geral de movimentos e viagens nos trazerem os benefícios já sensíveis de maior pureza do ar que respiramos e de limpeza da terrível poluição atmosférica. Como se o surto do covid 19 e as barreiras que se lhe opõem fossem vozes proféticas a estimular-nos a um maior carinho e cuidado com Mãe Terra, a casa que todos habitamos.

 

   Esperemos ainda que esta renascida consciência da nossa comum humanidade e sua circunstância possa melhorar as relações políticas e diplomáticas, sobretudo depois do descrédito que sobre si mesmos lançaram (p. ex. no Brasil, Venezuela e EUA) políticos narcísicos. Fique bem claro que só no transparente e generoso intercâmbio de suspeitas, hipóteses, previsões e progressos na investigação científica encontraremos as soluções possíveis e as partilharemos em ação de graças, na eucaristia da nossa humanidade.

 

   No silêncio desta minha moradia, no meio de campos férteis, mas tão calados no Inverno que termina, escuto agora todos os quartetos de Mozart dedicados a Haydn. São, na linha deste, uma busca da harmonia, a recusa do caos. E vou lendo o último romance da escritora franco-marroquina Leila Slimani: Le Pays des Autres (Paris, Gallimard, 2020). Lê-se no texto da respetiva apresentação (traduzo): Todas as personagens deste romance vivem «no país dos outros»: [Melhor diria: «na terra dos outros»]. quer colonos quer indígenas, sejam soldados, camponeses ou exilados. As mulheres, sobretudo, vivem no país dos homens e devem incessantemente lutar pela sua emancipação.

 

    Que este período de quarentena e retiro nos dê, Princesa de mim, vagar e ânimo para refletirmos no Advento da Terra de Todos.

 

 Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

TERRA JUSTA: CAUSAS E VALORES DA HUMANIDADE

 

Também fora de Lisboa ou do Porto, há iniciativas de relevância mundial, que merecem a atenção de todos, também como exemplo.

 

Hoje, quero felicitar, muito sinceramente, Fafe, na pessoa do seu ilustre Presidente, Raul Cunha. Porque Fafe já não é símbolo da “justiça de Fafe”. É símbolo da justiça, sim, mas da Terra Justa: Encontro internacional de Causas e Valores da Humanidade. Em Fafe, com inexcedível força e dignidade, celebra-se e combate-se pela cidadania universal, na liberdade, na justiça e na paz. Concretamente através dessa iniciativa anual, por onde têm passado grande figuras de renome, como António Guterres, o cardeal Maradiaga, Manuela Eanes, Eduardo Lourenço, Leonor Beleza, Artur Santos Silva... Ali têm sido homenageadas grandes instituições de cultura e solidariedade: a Fundação Calouste Gulbenkian; a Fundação António Champalimaud; o IAC (Instituto de Apoio à Criança); a Agenzia Habeshia, uma ONG fundamental para salvar vidas de refugiados; a UNICEF, uma agência das Nações Unidas, essencial na defesa dos direitos das crianças, tantas vezes espezinhados; Talitha Kum, a organização internacional que trabalha em rede contra o tráfico de pessoas...

 

Deixo aí algumas chaves de leitura deste prestigiado Encontro Internacional.

 

1. Terra Justa. Aí está uma utopia. Mas qual é a função da utopia? Ela tem duas funções principais: constatar o ainda não do que deve ser e, ao mesmo tempo, obrigar a lutar pela transformação do presente a caminho de um futuro com a realização desse dever-ser.

 

2. Porquê? Porque se trata do imperativo de Causas e Valores da Humanidade na Terra. E a Terra há só uma, uma só Terra: a Terra da Humanidade. Há 13.700 milhões de anos foi o Big Bang. A Terra terá uns 5.000 milhões de anos, a vida apareceu há uns 4.000 milhões de anos e, depois, a evolução continuou e há uns 150 mil anos aparecemos nós, o Homo sapiens sapiens — acrescento sempre: e demens demens (sapiente sapiente e demente demente). De qualquer modo, é em nós, seres humanos, autoconscientes, que este gigantesco processo da evolução sabe de si e toma consciência de si.

O ser humano será sempre objecto de espanto para si próprio. Talvez tenha sido Pascal quem de modo mais pertinente e lúcido “definiu” a condição humana, ao escrever que se situa algures entre “o nada e o infinito” (le néant et l’infini). Por isso, o ser humano é constitutivamente o ser da pergunta e, de pergunta em pergunta, pergunta ao Infinito pelo Infinito, isto é, de um modo ou outro, por Deus. É nesta sua condição que eu vejo o fundamento da dignidade humana. De facto, se o ser humano, finito, frágil, débil, mortal, pergunta ao Infinito pelo Infinito, é porque tem algo de infinito nele e, por isso, não é da ordem das coisas, porque é fim. Na verdade, o que é que há para lá do Infinito? A pessoa humana é fim e não meio. Como escreveu Kant, as coisas são meios para outra coisa e, assim, têm um preço; o ser humano é fim e não meio e, por isso, não tem preço, mas dignidade. Aí está, pois, a resposta para a pergunta: Porquê o combate pela Terra Justa? Porque é o combate pela dignidade de todas as pessoas.

 

3. Todos os seres humanos são dignos e a Terra é de todos. E aqui colocase para todos um dos problemas maiores: a questão da ecologia, do meio ambiente. E entra a política. Aristóteles definiu o ser humano como “animal político”. Porquê? Porque, ao contrário dos outros animais, que produzem sons, exprimindo prazer ou desprazer, o Homem tem linguagem duplamente articulada, pela qual debate o bom e o mau, o justo e o injusto, o digno e o indigno. Já se tornou claro que hoje, tomando consciência de que há uma só Terra e uma só Humanidade, sendo todos igualmente dignos, a política tem de ser global, tem de ter o horizonte de um mundo global. Só há, portanto, futuro com uma Governança Global.

 

4. O ser humano é como uma árvore: somos enraizados, temos um lugar de nascimento, uma história única, estamos situados, mas, ao mesmo tempo, estamos abertos, ilimitadamente abertos aos outros, a todos os outros, a possibilidades sem fim. Nesta abertura, mostra-se que somos constitutivamente em relação. Fazemo-nos uns com os outros. A nossa relação é local e global, nesse enraizamento de uma situação concreta e única e numa abertura sem fim.

 

5. Característica essencial do ser humano é a neotenia, isto é, nascemos prematuros, sendo esta a condição de possibilidade de sermos o que somos: humanos. Enquanto os outros animais já nascem feitos, o ser humano nasce por fazer. Então, qual é a sua missão e tarefa? Fazer-se a si mesmo. Fazendo o que fazemos, estamos sempre a fazer-nos a nós próprios, de tal modo que no fim pode resultar uma obra de arte ou, permita-se a expressão, uma porcaria. Como devemos fazer-nos? Uma vez que somos livres — auto-possuímonos e somos responsáveis —, devemos fazer-nos bem. Concretamente, fazermo-nos com a interligação da bondade e da razão. De facto, a bondade sozinha não abre horizontes e pode não abrir caminhos; a razão sozinha pode ser cruel. Da conexão da razão e da bondade resultará certamente uma Humanidade boa, justa, livre e a viver em paz.

 

6. Já não há Deus? Deus, ao contrário do que se pensa e diz, existe, o que se passa é que, como reflectiu o filósofo G. Agamben, tornou-se Dinheiro. E o ídolo Dinheiro é o valor que mede todos os outros valores, afirmando-se acima deles. Por isso, o Papa Francisco não se cansa de repetir, na linha do que disse Jesus, que não é possível servir a Deus, Pai-Mãe de todos os homens e mulheres, interessado no bem de todos, e servir o Dinheiro enquanto o novo único deus. A financeirização especulativa da economia “mata” e faz um número incontável de vítimas. A política tem, pois, de ser acompanhada da ética. E, mais uma vez, precisamos urgentemente de uma Governança Global (não digo um Governo Mundial). De facto, problema maior hoje é que os mercados são globais, mas a política é local, nacional, quando muito, regional. Como se pode regular assim os mercados?

 

7. Last but not least, é cada vez mais urgente o diálogo inter-religioso, como desde há anos não se cansa de sublinhar o célebre teólogo Hans Küng, autor principal da “Declaração para uma Ética Mundial”, aprovada pelo Parlamento Mundial das Religiões em Chicago, em 1993: “Não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões sem diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões sem critérios éticos globais. Não haverá sobrevivência do nosso planeta sem um ethos global, um ethos mundial.”

 

É claro: sem um novo ethos, isto é, sem uma nova atitude ética, concretamente, sem justiça social global, continuará a violência, a guerra, e não haverá paz.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 20 JAN 2019

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

18. A ARTE É DA HUMANIDADE

 

Se uma obra de arte vale por si e é um fim em si mesmo.
Se vale pela sua autenticidade, intemporalidade, originalidade e universalidade.
Se vale pela sua meritocracia e valor intrínseco.
Partilhando critérios de cultura pura, ausentes de consentimento e validação externa, em prejuízo de critérios de cultura para, funcionalizados por motivos partidários, políticos ou ideológicos.
Quer copiando ou imitando a vida, ultrapassando-a ou transcendendo-a.
Então a arte não é do centro, da direita ou da esquerda.
Não é, nem pode ser, propriedade da direita, da esquerda ou do centro.
Não é politicamente apropriável.
Não é um exclusivo de alguém.   
Nem monopólio de ninguém. 
É da humanidade.
Propriedade e património perene da humanidade. 
De toda a humanidade.     
Na unidade através da diversidade. 
Em que o acesso à sua fruição cultural e espiritual é um bem de todos.

 

13.11.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Discursos políticos - diversamente corretos consoante quem fala e quem ouve - vão cansando muita gente, sente-se que, na viragem presente da nossa vida social e internacional, faltam lideranças claras, vozes de sensatez e esperança, vozes de prudência, a tal virtude que eu tanto gosto de ver definida como amor sagaz. Tem fraternalmente chamado a atenção de todos nós para o nosso exemplo samaritano o papa Francisco. Com insistência cristã. O resto, ou quase tudo, é o que possa trazer votos ou pretenda deixar entender que há quem seja mais esperto e resoluto do que os outros.

 

   Achei graça, no tal suplemento de Le Monde intitulado Lectures pour temps troublés, à chamada de atenção da Lydie Salvayre - autora de Pas Pleurer, livro de que em tempos te falei por associação com a guerra de Espanha e Les Grands Cimetières Sous la Lune do Bernanos - para um ensaio do filósofo esloveno Slavoj Zizek, recentemente editado em francês, pela Fayard, em tradução da Christine Vivier, com o título La Nouvelle Lutte des Classes - Les vraies causes des réfugiés et du terrorisme. Zizek é, como o foi o francês Louis Althusser, um marxista praticante da chamada filosofia psicanalítica que, por exemplo, revendo e corrigindo Marx, estuda as ideologias como mecanismos que formam aquilo em que acreditamos e como nos comportamos. A ideologia será então um processo inconsciente, gerador de justificações e simbologias ou rituais sociais...

 

   Se recordarmos tal intuição, a leitura que Lydie Salvayre faz do livro do esloveno torna-se mais transparente: Todos os livros, ou quase, me parecem em atraso relativamente à obscena violência do mundo. Vão remando, no sulco dessas imagens que me impedem de dormir, ou tentando, com mais ou menos felicidade, distrair-me delas. Será porque, acrescentados ao terror que nos paralisa, vão ficando alguns tabus que nos impedem de o pensar? Slavoj Zizek, no seu novo ensaio, discute alguns desses tabus. Pois está cansado dos lamentos das almas rectas sobre o destino dos refugiados, já que tais rectas almas, seguras de que serão travadas, no seu impulso compassivo, pela revolta populista que se poderia seguir, assim vão balindo, no conforto dos seus salões, a sua simpatia pelos migrantes, num mundo cujo egoísmo denunciam, sem deixar de beneficiar das suas vantagens. Ele está igualmente cansado dos discursos populistas que, a seus olhos, mais não são do que o reverso dos discursos islamofascistas, discursos que pretendem ver, na presença dos migrantes, uma ameaça aos nossos modos de vida, quando o que, assegura ele, o que antes do mais os ameaça é, acima de tudo, o mercado mundial.

 

   Confesso, Princesa de mim, que, em linguagem certamente menos contundente, eu diria fundamentalmente o mesmo. Como bem compreendo, creio eu, que - assim diz Salvayre - Zizek esteja farto da interdição que pesa sobre qualquer crítica do islão, desse medo da esquerda liberal que estremece só de pensar que pode ser acusada de islamofobia... Mas, quando ela acrescenta que haveria urgência  em pensar no sombrio poderio das religiões, islão incluído, lembro uma carta que te escrevi, há poucas semanas, a respeito do Penser l´Islam do Michel Onfray. Pois me parece que as três religiões monoteístas, as tais do Livro, ao longo da sua história, foram apresentando Deus em Janus, isto é, com duas faces: a da misericórdia e a do castigo. E o que, nos tempos hodiernos, me surge como motivo de alegria e esperança é a insistência com que número crescente de líderes religiosos vem insistindo no valor inestimável da misericórdia como princípio fundador de qualquer relação.

 

   É, aliás, curioso observar como, na fundamentação do seu apelo ao ideal, quiçá utópico, de um combate universal - que juntasse as forças de migrantes e nossas - contra o neocolonialismo ocidental, o fundamentalismo islâmico, o antissemitismo e o sionismo agressivo, Zizek proponha que, escreve Salvayre, se repense, face à incompreensão recíproca que se possa levantar entre eles e nós, a noção de próximo. Qualquer próximo é acentuadamente ambíguo, declara Zizek citando Adam Kotsko, qualquer próximo é um intruso cujo comportamento incomoda, porque qualquer próximo nos confronta com a impenetrabilidade do seu desejo e do seu gozo. Então, em vez de nos perdermos em lamentações patéticas que nos dispensem de agir, em vez de querermos a todo o custo que esses refugiados se assemelhem a nós, deveremos, diz ele, ter a coragem de encarar uma «universalidade de estrangeiros», isto é, de indivíduos confrontados com a impenetrabilidade do seu desejo para com os outros e consigo mesmos.

 

   Falando como católico, com tristeza reconheço que a Igreja muitas vezes falhou na apresentação do rosto misericordioso de Deus. Pelo que acabo de te traduzir, Princesa, o próprio conceito de próximo parece ter sido posto do avesso: na verdade, se lermos com atenção a lição evangélica do samaritano - que, ao jeito de "dames patronnesses" (lembras-te da canção do Brel?), insistimos em chamar bom samaritano - veremos que, no fim do conto, a pergunta de Jesus é: «Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores?». O doutor da lei respondeu: «O que teve compaixão dele». Disse-lhe Jesus: «Então vai e faz o mesmo». Assim aprendemos que o nosso próximo não é um objeto da nossa pena. O próximo é aquele que primeiro se aproxima do outro e, porque se transforma o amador na coisa amada, é também essoutro, quando dele nos aproximamos.

 

   Observei, nesta resenha feita por Lydie Salvayre, outro passo que vai ao encontro do que pensossinto e já tantas vezes te disse, não porque seja psicanalista, mas por intuição do outro, se assim posso dizer. Ocorre-me tal ideia, sempre que me interrogo sobre o porquê de haver mais oferta de acolhimento em Portugal do que refugiados candidatos a ela, já que preferem ir para os países onde se anunciam economias mais prósperas. Limito-me, aqui, a traduzir-te o que li, sei bem que perceberás o que quero dizer: É preciso, diz Zizek, compreender o seguinte: os migrantes não fogem apenas da sua pátria desfeita pela guerra. Esses migrantes têm um sonho, uma utopia. Encontram-se nesse paradoxo da utopia que faz com que seja, precisamente, quando os homens têm falta de tudo, e poderíamos esperar que se contentassem com migalhas, que se põem a desejar tudo, a desejar a impossibilidade. E esse desejo do impossível, afirma Zizek, depois de Badiou e outros, é o desejo do Ocidente, é o desejo do capitalismo. Desejo que, se não for satisfeito, pode virar ódio mortífero, o islão fornecendo-lhe então apenas a forma que permita alicerça-lo.

 

   Arrisco agora, Princesa de mim, repetir uma pergunta que já tantas vezes fiz: não teremos nós de rever vários motores condicionantes da nossa presente cultura do sistema capitalista?
Será que o lucro - e o correspondente desenfreado gosto dele - é, humanamente, uma motivação benéfica, um princípio moral?
Pensa só em como a ganância, esse desejo quase animal do lucro próprio, promove o incitamento publicitário ao consumo e ao endividamento, agitando imagens tentadoras, prometendo a materialização de sonhos. Terás assim descoberto como foram surgindo e crescendo as circunstâncias propícias ao aparecimento de dívidas insustentáveis, crédito malparado, bancos em crise (incluindo grandes casas da mui rigorosa Germânia)...

Não contesto, Princesa, a conveniência de mercados livres, de iniciativas privadas e sua concorrência. Mas aflige-me o desgoverno atual da libertinagem financeira e os seus efeitos perversos, desde a iniquidade na distribuição da riqueza criada à imoralidade do princípio de que o lucro é a medida de todas as coisas.

 

   Camilo Maria

 

 

Camilo Martins de Oliveira

 

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

 

   Minha Princesa de mim:

 

   Não conheço Vanda Cabrito, apenas li, num jornal português, que é aluna da Universidade Europeia e que declarou: Senti que o mundo perdeu as suas barreiras e os estrangeiros deixaram de ser estrangeiros e passaram a ser vizinhos. Achei bem dito, e confesso que, pelos tempos que correm, me soube bem ouvir uma jovem afirmá-lo. Sabes como penso que o nosso mundo já terá chegado a um ponto de globalização irreversível, que só nos conduzirá a melhor situação se formos capazes de entender os modos de convivência necessários à paz e ao progresso aberto a todos. Caso contrário, corremos o risco de barbaramente em conjunto cairmos num barranco de cegos.

 

   Vivemos já assustados por vendavais de morte, que nos vão varrendo, desde a Promenade des Anglais, em Nice, às águas do Mediterrâneo e a tantas cidades da Síria e do Iraque. E não só. Há guerra, terrorismo e outros atentados - mais ou menos generalizados, tantas vezes promovidos ou consentidos, até em nome da "higiene" ou por simples preferências egoístas - há um surto de xenofobia que, em certos casos, como nos das potências emergentes, ou saudosas de soberbas antigas, que nada auguram de tranquilizador para um mundo em que todos já somos omnipresentes e ubíquos.

 

   Vem isto a talho de fouce por ter reencontrado hoje - logo depois de ter lido a frase de Vanda Cabrito - uma referência ao "meu" Stefan Zweig. Passo a contar-te. Le Monde des Livres, suplemento semanal, saiu hoje com uma edição especial intitulada Lectures pour temps troublés, que assim justifica:

 

   «Le Monde» solicitou a escritores, artistas e homens de ciência que lhe dissessem que autores os ajudam a «aguentarem-se» num período tantas vezes percebido como sendo difícil de compreender e que é ameaçador. De acordo com eles, que livros poderiam dar um sentido àquilo por que passamos, transmitir-nos força, esperança ou alegria?

 

   Uma das respostas é de Roland Gori, psicanalista e escritor, autor, entre outros livros, de De quoi la psycanalyse est-elle le nom? e de L´Individu ingouvernable. Com Stefan Chedri, fundou o movimento Appel des appels, «coletivo nacional para resistir à destruição voluntária e sistemática de tudo o que tece os laços sociais»... E fala-nos de Stefan Zweig, tão cruelmente lúcido. Recenseia um livro que o autor austríaco publicou em 1936 (repara bem na data), cujo título, na versão francesa de Alzir Hella, é Conscience contre violence. Começo por te traduzir o primeiro parágrafo da resenha de Roland Gori:

   No momento em que, no claro-escuro das crises, renascem os monstros dos fanatismos cruéis, dos nacionalismos cínicos, dos recuos identitários friorentos, é preciso reler Zweig! Todo Zweig, o escritor das paixões, o Europeu das Luzes, o cidadão do mundo, o judeu apátrida, o apaixonado pela diversidade brasileira, única "terra de aventura", num mundo caótico que por tempo demasiado alinhou a classificação dos povos pelo seu poderio industrial, financeiro e militar. É preciso reler o seu elogio de um Brasil, um tanto ou quanto imaginário, transformado em modelo de comunidade humana em que a cultura nasce da mistura de raças, da fusão dos particularismos religiosos, étnicos e históricos. É preciso reler Zweig, os seus apelos aos Europeus, a sua «luta pela fraternidade espiritual», a única que poderá «curar» o Velho Continente da «doença mortal» dos nacionalismos nascidos da deslocação dos mundos submetidos aos imperialismos mercantis, à fragmentação dos povos hipnotizados por ideologias fanáticas.

 

   Fala depois do livro, cujo título francês (Conscience contre Violence) traduz parcialmente a segunda parte do título original alemão: Castellio gegen Calvin, oder, Ein Gewissen gegen die Gewalt  ("uma consciência contra a violência"). A edição inglesa lê The Right to Heresy - Castellio against Calvin. A portuguesa, da Livraria Civilização, apenas Castélio contra Calvino. Deixo-tos todos, porque todos juntos dizem do que o livro trata: da oposição de um saboiano, Sebastio Castellio (1515-1563), humanista amigo de Erasmo, e que também o foi de Calvino (ambos tinham sido discípulos de Cordier) com quem rompeu, precisamente em razão de pretender, contra o ditador da reforma protestante em Genebra, que a heresia é também um direito, e não é lícito matar um hereje: Queimar um homem não se chama "defender uma doutrina", mas "cometer um homicídio". Contra a violência de João Calvino e Guilherme Farel (padre revolucionário e terrorista) - que, como escreveu Voltaire mais tarde, perpetraram o primeiro assassínio religioso da Reforma - e perante a execução de Michel Servet, além de muitas outras perseguições ideológicas e religiosas, Castellio não se calou. Por isso Zweig lhe chama soldado desconhecido da grande guerra de libertação do género humano.

 

   Eis o que todos nós deveríamos ser. Hoje também, mas num mundo que já não é o de Castellio nem Erasmo, nem sequer o de Stefan Zweig. Este enquadrava, e bem, a figura independente e tolerante do católico Erasmo na Europa dividida pelos movimentos da Reforma e da Contra Reforma - um homem que escreveu em latim, língua comum da cristandade europeia ocidental - como aquele que foi, de facto, de todos os escritores e autores ocidentais, o primeiro europeu consciente, o primeiro "combatente pacifista", o defensor mais eloquente do ideal humanitário, social e espiritual […] Erasmo via na intolerância o mal hereditário da nossa sociedade. Tinha a convicção de que seria possível pôr fim aos conflitos que dividem os homens e os povos, sem violência, por mútuas concessões, porque eles dependem todos do domínio humano; estava persuadido de que quase todas as questões poderiam regular-se por via transacional, se os condutores e excitadores não viessem constantemente deitar azeite ao lume [...] Pôr harmoniosamente de acordo os contrastes do espírito humano - tais foram a missão e o sentido da vida de Erasmo. Possuía, para empregar a expressão de Goethe, que se parecia com ele na igual aversão aos extremos, "uma natureza comunicativa" [in Erasmo de Roterdão, de Zweig, na versão portuguesa de Alice Ogando, Livraria Civilização, Porto, 1950].

 

   Como já algures te disse, Princesa de mim, no seu comovente Die Welt von Gestern - Erinnerungen eines Europäers, mais do que brevemente nomear Erasmo, Zweig quer nele incarnar-se, agora num tempo de entre duas grandes guerras, em que ele mesmo se sente já "um vencido da vida", tal como o humanista de Roterdão, parte inteira de uma elite europeia que, afinal, nada pode fazer. Logo no prefácio desse livro de saudades do mundo de antes de 1914 e de angústias face ao que os anos 30 entretanto tinham trazido, a carregar o horizonte, escreve, a abrir: Nunca atribuí tanta importância à minha pessoa que me sentisse inclinado a contar aos outros a história da minha vida. Muito mais teve de acontecer, infinitamente muito mais do que aquilo que geralmente cabe a uma geração - ocorrências, catástrofes, provações - até eu ganhar coragem de iniciar um livro que tem como personagem principal, ou melhor, como tema central, o meu próprio eu.

 

   Adiante, noutros passos, vai confessando:

   A minha atitude natural em todas as situações de perigo foi sempre a de evitá-las e não foi só nessa ocasião que tive de aceitar como justa a acusação de ser indeciso, tão frequentemente feita também, noutro século, ao meu venerado mestre Erasmo de Roterdão...  

...Nas minhas novelas é sempre quem sucumbe ao destino que me fascina; nas biografias, é a figura de quem tem razão, não no espaço real do êxito, mas única e exclusivamente num sentido moral: Erasmo e não Lutero, Maria Stuart e não Isabel, Castellio e não Calvino [...] eu andava a ler as provas do meu livro sobre Erasmo, onde tentava apresentar um retrato espiritual do humanista que, tendo embora compreendido mais claramente o absurdo do seu tempo do que os profissionais que querem mudar o mundo, por uma fatalidade trágica, não fora capaz de, com todo o seu bom senso, lhe barrar o caminho. Quando tivesse concluído essa apresentação encapotada da minha própria pessoa... [tradução de Gabriela Fragoso, em O Mundo de Ontem - recordações de um europeu, Assírio e Alvim, Lisboa, 2005].

 

   Falo-te destes exemplos de outros tempos e circunstâncias, Princesa, lembrado sobretudo das barbaridades cometidas durante e depois das guerras de Espanha e 2ª Mundial. E de muitas outras. Mas quero sobretudo chamar-te a atenção para o esforço doloroso da consciência moral: refletirmos é pensarmos sobre o real e o possível, decidirmos é pensarsentir e escolher entre desviar caminho ou agir como o samaritano.

 

   Em próxima carta voltarei, com a ajuda de pensadores nossos contemporâneos, ao tema da expressão, tão acertada e profética, da Vanda Cabrito: já não são estrangeiros, são nossos vizinhos. Mas, nesta ainda, deixo-te um pequeno texto de Véronique Nahoum-Grappe, antropóloga francesa, filha do célebre Edgar Morin (judeu sefardita, cujo nome de nascença era Edgar Nahoum) discípula de Emmanuel Le Roy Ladurie, celebrado professor de História, e da antropóloga Françoise Héritier, que sucedeu a Claude Lévy-Strauss no Collège de France, onde hoje também já é professora emérita:

 

   Quando circunscrevemos o tema dos refugiados à crise atual, tornando-o em sintoma de doença, esquecemos que a história humana é feita de tais migrações. Os Estados Unidos são um país de imigração fundado sobre o massacre de populações indígenas. A Europa invadiu todos os continentes, cuja demografia e economia mudou com o trato industrial das populações africanas. Como podemos nós hoje dizer aos migrantes que atravessam mares e fronteiras para escapar a condições de vida insustentáveis: "voltem para casa"? Distinguir a boa migração política da má migração económica não faz sentido. Migrar, a partir de países como a Síria, é antes do mais salvar a pele. Os franceses mais hostis aos refugiados fugiriam do mesmo modo, se estivessem na miséria e debaixo de bombas. O medo e a luta pela sobrevivência são forças poderosas, que põem os humanos em pé de igualdade.

 

    Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira