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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CRÓNICAS PLURICULTURAIS


170. DO AMOR E ÓDIO À HUMANIDADE


A destruição do nosso planeta por um holocausto nuclear estará inscrita na História da Humanidade? Hiroshima e Nagasaki foram apenas um “erro” que não voltará a repetir-se? O Holocausto foi um simples “erro” irrepetível? A guerra, como realidade histórica que tem acompanhado o ser humano na sua trajetória terrena, é irredutivelmente eterna? A presença do Homem na Terra é só destruição?     


É uma visão cruel da presença humana na Terra, que trouxe (e trará) destruição à natureza e aos humanos. Só que, olhando para a natureza, compreendemos que ela também é cruel, o que não legitima que defendamos que o mal humano é mais digerível quando o transformarmos num mal natural.     


Não foi a presença humana, em si e só por si, que trouxe destruição à natureza e à espécie humana, por muitos exemplos que haja da sua crueldade. Apesar do seu quinhão de destruição, evitável, em parte, o saldo é e continua positivo, através de um enriquecimento substancial do mundo em que habitamos. A não se entender assim, é legítimo concluir que há quem seja portador de um pessimismo intrínseco que prefere um mundo desumano e com ódio à humanidade. 


Tomando como referência a tese geral de que a presença humana na Terra é destrutiva, há quem a torne extensiva ao colonialismo (racismo e não só), que com a escravatura, por exemplo, destruiu a natureza do humano e da cultura nas comunidades locais colonizadas.


Trata-se, por um lado, de uma avaliação e generalização simplista, dado saber-se que quando os europeus chegaram o tráfico de escravos já era conhecido. É consensual que os africanos já se escravizavam entre si antes dos portugueses chegarem a África. Pode falar-se de uma questão de grandeza, uma vez que os europeus da época praticaram a escravatura (já existente) numa escala maior. O que também pode levar, por outro lado, a um incitamento ao ressentimento e à violência, começando por um certo ódio tribalizado que se pode universalizar, apesar de, à nascença, segundo Rousseau, sermos todos bons selvagens.   


E é muito pouco consensual (no mínimo) a teoria crítica da raça, segundo a qual como só os brancos tinham poder, apenas os brancos poderiam ser racistas. Os negros, não, ou, se o fossem, eram-no apenas porque tinham “interiorizado a branquitude”, tida como contagiosa para desculpabilizar os que não comungavam as novas ideias e teorias raciais. E os da Ásia e das Américas?   


Não se pretende “branquear” a colonização, escravatura e racismo, porque condenáveis na sua desumanidade, repugnância e ódio à humanidade. Mas é incompreensível só aceitar visões maximamente supremacistas, de vencedores ou vencidos, que muitas vezes apenas sobrevivem por ressabiamento e pelo odioso ao que é humano, não as contextualizando, escrutinando e confrontando nos seus prós e contras. É um discurso negativo, revanchista, vingativo, ressentido, megalómano, perigoso e vil. Há que não estimular ideologias de incitamento ao ódio, antes sim as de união e reconciliação. A lista de coisas boas é extensa e gratificante: avanços médicos, científicos, tecnológicos e as artes em geral de que o mundo beneficia. E que o nosso amor à humanidade sedimenta e amplia.


12.04.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

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168. INTRÍNSECA E ESTRUTURALMENTE IMPERFEITOS

O ser humano nasceu imperfeito, é imperfeito e será sempre imperfeito.
A democracia surgiu imperfeita, é imperfeita e será sempre imperfeita.
A liberdade germinou imperfeita, é imperfeita e será sempre imperfeita.
Pela sua própria natureza o ser humano é imperfeito, finito e limitado perante o infinito, dado o seu desconhecimento de valores e princípios intemporais e universais, numa vivência que se move entre o que é tido por real e o ideal, rumo a uma “perfeição” imperfeita e perfectível.
Também fala de imperfeição a famosa frase de Churchill segundo a qual: “A democracia é a pior forma de governo, à exceção de todas as outras já experimentadas ao longo da História”. Uma espécie de mal menor ou menos mau.
Também a liberdade individual de cada um não pode ser usada para negar a liberdade dos outros, sendo uma miragem na sua maravilhosa imperfeição.
Aspirar a um ser humano perfeito, num ser que é intrínseca e estruturalmente imperfeito, é um contrassenso. O mesmo quanto à liberdade e à democracia como ideais jamais alcançados e alcançáveis na sua plenitude.
A ideia de uma crescente e permanente perfeição num mundo em que não somos a medida de todas as coisas, é um absurdo, embora todos lutemos por progressos manifestamente exequíveis e melhoráveis.
Um futuro seguro e justo para todos não passa por objetivos e fins inconciliáveis com a natureza, pois a realidade é o que é e não o que gostaríamos que fosse.

 

29.03.24
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


149. INTERDEPENDÊNCIAS DAS VÁRIAS VERTENTES DO CONHECIMENTO


Sobressai a ideia de haver uma interação virtuosa de todas as vertentes do conhecimento, baseada num novo paradigma científico, que inclui tanto as ditas “ciências duras” (aplicadas ou exatas), como as chamadas “ciências puras” (ciências humanas e sociais), por oposição à ideia segundo a qual as artes, humanidades e ciências sociais são subsídio-dependentes, enviesadas de subjetividade e, em última análise, “inúteis”.    

Contrariando uma versão restrita e simplista, que tem o cerne da “funcionalidade” e “utilidade” de todas as ciências no ganho económico imediato e a curto prazo no mercado, tem-se vindo a alargar a valorização da criatividade e da intuição no núcleo duro do pensamento científico, como elementos essenciais de inovação, em que, por exemplo, recentes progressos da neurociência demonstram que as circunvalações cerebrais ligadas à perceção auditiva não são estáveis, reconfigurando-se caso a caso pelos vários padrões que condicionam essa experiência, em que o hardware cerebral é, impreterivelmente, reformatado pelo software da experiência artística, havendo uma interdependência dinâmica da ciência e da cultura.

Retornando às neurociências e à distribuição dos processos cognitivos entre os dois hemisférios cerebrais, conclui-se que o pensamento linear, a sequenciação lógica, a formulação de modelos simétricos e a aquisição e gestão sistemáticas de informação estão no hemisfério esquerdo, enquanto a criatividade, a descoberta, a invenção, a surpresa e a associação instintiva se localizam no hemisfério direito, provando a interpenetração entre ambos os hemisférios e, concomitantemente, entre as ciências aplicadas e “duras” e as humanas e sociais, sendo erróneo maximizar as funções cerebrais do lado esquerdo face às do lado direito.

A própria lei da oferta e da procura e o valor de mercado de cada novo produto não depende apenas da sua estrita funcionalidade e utilidade, mas também de um conjunto de fatores relacionados com a criatividade, mais-valia e valor acrescentado gerados por várias dimensões contextuais e simbólicas, como a história, os costumes e a tradição renovados, a estética, a empatia, o design, o cromatismo, o jogo, a mensagem, o significado.  

Nas sociedades mais desenvolvidas e inovadoras, é cada vez mais notório que não há ciências “duras” sem Ciências “puras”, havendo uma permanente interação entre ambas, não havendo indústrias culturais dinâmicas sem anterior experimentação estética de topo, patentes comerciais sem prévia investigação que as viabilize. 

Muitos, se não mesmo a maioria, dos mais prestigiados protagonistas do mundo da ciência e da tecnologia caraterizam-se por terem tido, em paralelo com a sua atividade e saber estritamente científico, uma grande curiosidade, estima e dedicação pela criação artística e literária, pelas humanidades e artes em geral, incluindo o social, desde Leonardo de Vinci, Copérnico, Galileu, Kepler, Morse, Einstein (entre nós, por exemplo, Pedro Nunes e Damião de Góis, alargando e modificando o conhecimento, com o espírito e consequências científicas dos descobrimentos), tendo-se o pensamento criativo e crítico como transversal a toda a ciência e cultura.

“Um homem apenas médico, não é médico”, eis uma afirmação do médico, professor e investigador Abel Salazar, que sintetiza bem a interação das diversas facetas do conhecimento.


08.09.23
Joaquim M. M. Patrício

CRÓNICA DA CULTURA

OS PÉS QUE TRANSPORTAM GENTE À HUMANIDADE

  

 

A crise humanitária que só em 2015 levou a que mais de um milhão de pessoas atravessassem o Mediterrâneo em parcas embarcações, permanece ativa por muitos meios, e com muitos milhares de seres a pagarem com a vida a tentativa de chegarem à Europa ou aos EUA.

São êxodos desesperadíssimos estes que também suportam os terríveis encargos que os traficantes de seres humanos cobram por mortes quase certas, ou por servidão torturada enquanto sobrevivida.

E são encargos que também correspondem a dinheiro, verbas dificílimas de obter nas terras de miséria absoluta que agora tentam abandonar, e quantas vezes, deixando por lá as suas amadas e para sempre condenadas famílias.

Os sobreviventes (quantos?) ajoelhados às fronteiras dos países da sua esperança, por ali ficam, em carne viva, de alma desolada, destruída, por não terem conseguido entrar lá onde a vida se faria antes que o sangue lhes secasse nas veias.

Todavia, raramente se os escuta no lamento da decisão tomada e inerente à tão temerária viagem para a Europa ou EUA.

Tudo é preferível ao que lhes era imposto nos países de origem. E o tudo, mesmo que a um preço cruel, é preferível do que ficarem onde estavam, ou tomarem a decisão de se dirigirem a outros países onde a liberdade e o respeito pelos direitos humanos não existem de todo.

Na verdade, diga-se, são hercúleas as desigualdades nos níveis de vida entre as várias regiões do mundo, implicando outras desigualdades fundamentais a nível dos direitos da educação, da alimentação, da saúde, das liberdades em geral, da esperança de vida com a mínima qualidade.

Contudo, registe-se que as persistências das guerras em todo o mundo, geram sempre disparidades tremendas, horrores inenarráveis, inverdades que tornam desconcertantes as explicações das razões das diferenças entre os países mais ricos e os mais pobres.

Na verdade, a decisão de arriscar a vida apenas por um espaço de tempo em que pelo menos a esperança seja vida, ganha algum avanço à desgraça: eis o espírito esperante.

Contudo, em países em vias de desenvolvimento, em que se tentou que o aumento do progresso tecnológico expandisse o crescimento económico, a desigualdade entre as nações persistiu de tal modo que, bem se pode considerar, uma ausência total da análise das causas intrínsecas da pobreza, sobretudo das que que criam barreiras que contribuem para um desenvolvimento profundamente desigual no nosso planeta.

De reter, nomeadamente os impactos assimétricos da globalização e da colonização nos últimos dois séculos.

De reter, nomeadamente o ritmo da própria industrialização em países desenvolvidos e em desenvolvimento que, aliás, agora também precipitou um aquecimento do planeta que ameaça a vida, questiona a ética e a sustentabilidade da jornada.

De reter, as dramáticas atrocidades de todos os totalitarismos que bloqueiam a evolução do espírito da espécie humana.

Mas, se todos sabemos que a riqueza se continua a distribuir de forma tremendamente desigual, e até por fatores históricos e geográficos, também todos sabemos que as lancinantes crises humanitárias estão repletas de pormenores terríficos não isentos da nossa responsabilidade, certo é que as mortes das gentes do esperante, nos mares-e-estradas-cemitérios, só se detém, se acaso se não ignorar as correntes poderosas e minadas que correm dissimuladas por baixo dos pés que nos transportam enquanto gente a esta humanidade.


Teresa Bracinha Vieira

PENSAR SOBRE A ACTUALIDADE

  


Pensar é essencial e talvez seja o que mais falta. Pensar vem do latim pensare, que significa pesar razões, mas é de pensare que vem também o penso sanitário, pois pensar cura. Ficam aí alguns temas da actualidade para pensar e agir.


1. Segundo as Nações Unidas, pela primeira vez na história somos 8.000.000.000. Impressiona o ritmo de crescimento da população no mundo. Os Homo sapiens sapiens, e, como acrescento sempre, ao mesmo tempo demens demens, uma espécie muito recente, poderia, segundo José Arregi, somar, há uns 12.000 anos, antes da revolução neolítica, à volta de 1 milhão; há 2.000 anos, no tempo de Jesus, eram uns 200 milhões; no ano 1800, ascendiam a uns 1.000 milhões; mas, passados 100 anos, chegavam quase a 2.000 milhões; e no ano 2000 éramos 6.000 milhões, para, vinte anos depois, sermos 8.000 milhões.


Esta situação obriga evidentemente a pensar. Estão aí problemas gigantescos e é urgente reflectir sobre as questões que se colocam, desde a alimentação para todos e a ecologia, ao futuro da humanidade, e isso implica pensar concretamente numa governança global… 


Por outro lado, habituados aos grandes números, não podemos de modo nenhum esquecer o que parece absolutamente banal, mas que é decisivo: 8.000.000.000 resuta da soma de 1+1+1+1+1+1+1+1…, um mais um, mais um, mais uma, mais uma, mais uma, mais um…, e cada um e cada uma é ele, ela, de modo único, irrepetível, com os seus sonhos, as suas aspiraçãoes, os seus dramas, os seus êxitos, a sua intimidade, os seus amigos e admiradores, os seus adversários e inimigos, os seus amores, os seus filhos, as  as suas tragédias, a sua solidão mortal, as suas interrogações sem resposta, as suas doenças, as suas angústias diante do fim…


Quando me surgem na televisão aquelas imagens terríficas de pessoas massacradas naquela hedionda guerra da Ucrânia, penso: esta era uma criança que tinha nome e família e um futuro à espera; este era um idoso que ainda esperava; esta era uma mãe que deixou filhos na orfandade; este era um pai que transportava mundos com ele…


No Catar, onde há pena de morte e a violação dos direitos humanos é constante, na construção dos estádios e outras infraestruturas terão morrido 6500 trabalhadores migrantes… Por trás deste número assustador, estão rostos, nomes, famílias, sonhos. A propósito, o que terá movido as três mais altas figuras do  Estado a quererem ir ao Mundial?


Temos de ter presente permanentemente a humanidade inteira, mas sabendo que, no final, o que há é sempre este, aquele, esta, aquela… Um a um. E o amor começa pelo mais próximo/próxima…


2. O censo 2021
. Henrique Monteiro foi cortante: Portugl: “Velho, Pobre, Doente. Não há resumo mais resumido do último censo.” É catastrófico: 182 velhos para 100 jovens; há mais de um milhão de pessoas a viver sozinhas; há mais divorciados do que viúvos; há urgências com longas horas à espera…


As perguntas acumulam-se. Por exemplo: que políticas existiram de apoio à família e à natalidade?


Há muito tempo que, quando faço um baptismo, vou avisando: se for possível, façam um seguro para este menino, para esta menina… Vamos precisar de trabalhadores migrantes, mas não podem ter uma vida escravizada. Têm de ser recebidos com dignidade, receber salários justos e com os devidos descontos… até para garantia da segurança social futura. Ah!, e uma economia fracassada…


3
. No ano 2000, a ONU designou o dia 25 de Novembro como Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher. António Guterres, pensando neste 25 de Novembro, clamou: “Levantemos a voz com firmeza para defender os direitos das mulheres.” De facto, desgraçadamente — socorro-me de Consuelo Vélez —, “a cada 11 minutos morre uma mulher ou uma menina às mãos do companheiro íntimo ou algum membro da sua família, ainda há 37 Estados nos quais não se julga os violadores se estiverem casados ou se casarem depois com a vítima e 49 Estados nos quais não existe legislação que proteja as mulheres da violência doméstica”. Note-se que em Portugal, neste ano, já vamos em 28 mulheres mortas.


A barbaridade da mutilação genital feminina continua. Mas a violência não é apenas física, ela abarca a violência sexual, psicológica, moral, educacional, casamento de menores… As religiões também têm culpas. Pergunta-se, por exemplo: para quando o fim da discriminação das mulheres na Igreja?


4
. A propósito de 25 de Novembro e a libertação das mulheres, deve vir à memória também o nosso 25 de Novembro de 1975. Foi com ele e os seus heróis que finalmente se assegurou em Portugal a democracia pluralista. Considerando o contexto da época, foi um acontecimento de importância mundial. Espero, exijo, que as celebrações do cinquentenário do 25 de Abril sejam do 25 de Abril e do 25 de Novembro.


5
. Tempo do Advento. No passado Domingo, começou o tempo do Advento. Advento vem do latim e significa vinda, chegada: chegada, vinda de Deus. É tempo de preparação para o Natal — gostaria de saber quantos portugueses, sobretudo entre os mais jovens, sabem que o Natal se refere ao nascimento de Jesus, acontecimeto decisivo para a Humanidade, pois foi através do cristianismo que se soube da dignidade inviolável da pessoa humana e dos seus direitos.


Em tempos em que se vive sedados com o hedonismo, a alienação, o consumismo voraz, a pós-verdade…, o Advento deveria ser uma oportunidade para parar e ir ao encontro do interior, do essencial, da busca do sentido da vida…

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 de dezembro de 2022

DEUS E OS VENCIDOS

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A razão iluminista tinha como desígnio a reconciliação e emancipação plena do Homem. Mas, de facto, sem esquecer evidentemente conquistas irrecusáveis, como, por exemplo, as Declarações dos direitos humanos nas suas várias gerações, deparamos com duas guerras mundiais e as suas muitas dezenas de milhões de mortos, o comunismo mundial e também os seus milhões e milhões de vítimas, deparamos com Auschwitz e o Goulag, o fosso cada vez mais fundo entre a riqueza e a miséria, a Natureza ferida, a desorientação e o vazio de sentido...

E, desgraçadamente, sabemos que o número das vítimas não cessará de aumentar, de tal modo que frequentemente a História nos aparece, como temia Walter Benjamin, à maneira de um montão de ruínas que não deixa de crescer. Mas, mesmo que fosse possível realizar no futuro uma sociedade totalmente emancipada e reconciliada, nem assim, desde que iluminada pela memória, a razão poderia dar-se por satisfeita, pois continuariam a ouvir-se os gritos das vítimas inocentes, cujos direitos estão pendentes, pois não prescrevem.

O teólogo Johann Baptist Metz não se cansou de repetir, com razão, que só conhecia uma categoria universal por excelência: a memoria passionis, isto é, a memória do sofrimento. Se a História não há-de ser pura e simplesmente a história dos vencedores, se a esperança tem de incluir a todos, quem dará razão aos vencidos?

A autoridade do sofrimento dos humilhados, dos destroçados, de todos aqueles e aquelas a quem foi negada qualquer possibilidade é ineliminável. Trata-se de uma autoridade que nada nem ninguém pode apagar, a não ser que o sofrimento não passe de uma função ou preço a pagar para o triunfo de uma totalidade impessoal. Mas precisamente o sofrimento, que é sempre o meu sofrimento, o teu sofrimento, como a morte é sempre a minha morte, a tua morte, é que nos individualiza, dando-nos a consciência de sermos únicos, de tal modo que nenhum ser humano pode ser dissolvido ou subsumido numa totalidade anónima, seja ela a espécie, a história, uma classe, o Estado, a evolução... O sofrimento revela o outro na sua alteridade, que nos interpela sem limites.

Assim, se as vítimas têm razão - a razão dos vencidos, como escreveu o filósofo Reyes Mate -, com direitos vigentes que devem ser reconhecidos, não se poderá deixar de colocar a questão de Deus, um Deus que as recorde uma a uma, pelo nome, chamando-as à  plenitude da Sua vida. "Essa é a pergunta da filosofia", dizia Max Horkheimer, da Escola Crítica de Frankfurt. Mas é claro que para essa pergunta só a fé e a teologia têm resposta. Ele próprio o reconheceu, ansiando pelo “totalmente Outro”.

Se a História do mundo tem uma orientação, ela só pode ser a liberdade. Ser Homem, ser livre e ser digno identificam-se. Com razão, I. Kant não se cansou de repetir que o respeito que devo aos outros ou que os outros podem exigir de mim é o reconhecimento de uma dignidade, isto é, de um valor que não tem preço. O que tem preço pode ser trocado: é meio. O Homem não tem preço, mas dignidade, porque é fim em si mesmo.

Quando nos interrogamos sobre o fundamento da dignidade do Homem, encontramo-lo no seu ser pessoa. Pela liberdade, a pessoa está aberta ao Infinito. Se se reflectir até à raiz, concluir-se-á que o fundamento último dos direitos humanos é nesse estar referido estrutural do Homem ao Infinito que reside: nessa relação constitutiva à questão do Infinito, à questão de Deus precisamente enquanto questão (independentemente da resposta, positiva ou negativa, que se lhe dê), o Homem aparece como fim e já não como simples meio.

O Homem é senhor de si, autopossui-se, e é capaz de entregar-se generosamente a si próprio a alguém e por alguém. A Humanidade faz a experiência de si como história de libertação para mais humanidade, portanto, para mais liberdade. O Homem indigna-se desde o mais profundo de si contra a indignidade, revolta-se contra toda a violação arbitrária e impune da justiça e do direito, e é capaz de dar a vida pela dignidade da humanidade em si próprio e nos outros seres humanos.

Houve muitos homens e mulheres que, ao longo da História, livremente, morreram por essa dignidade. Mas mesmo que tivesse havido apenas um a fazê-lo, seria inevitável perguntar: o que é isso que vale mais do que a vida física?

Precisamente aqui, nesta experiência-limite, deparamos com o intolerável: como é que pode ser moralmente admissível que quem é sumamente digno, pois se entrega até ao sacrifício de si pela dignidade, morra, desapareça e apodreça, vencido para sempre? Por isso, neste acto de suma dignidade, encontramos um dos lugares em que a questão de Deus enquanto questão é irrenunciável e irrecusável.

A experiência do Deus bíblico surge essencialmente da experiência do intolerável de as vítimas inocentes serem entregues para sempre à injustiça. O Deus bíblico é definitivamente um Deus moral: é o Deus que não esquece os vencidos.

Por isso, a História não é um continuum, onde a razão estaria permanentemente do lado dos vencedores. A História está aberta ao salto último da meta-história, à Palavra definitiva que só Deus pode pronunciar, Palavra que ressuscita os mortos e reconhece para sempre às vítimas os seus direitos. Sem esse reconhecimento definitivo da dignidade de todos, bem e mal, justiça e injustiça, honra e cinismo, verdade e mentira, dignidade e indignidade, tudo é igual, pois, como escreveu Bernhard Welte, tudo seria para nada, já que irá ser engolido pelo nada para sempre.

 

 Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 de fevereiro de 2022

O PAPA FRANCISCO EM TEMPO NATALÍCIO

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Apesar dos seus 85 anos, Francisco continua atento aos problemas da Humanidade e incansável na sua missão. Mostrou-o de modo exemplar neste tempo natalício. Ficam aí apontamentos, extractos de mensagens, chamadas de atenção...

 

1. Lembrou: "O nascimento de Jesus é um acontecimento universal que afecta todos homens." "Para chegar a Belém é preciso pôr-se a caminho, correr riscos, perguntar e até enganar-se." "Hoje, quereria levar a Belém os pobres e também aqueles que julgam não ter Deus, para que possam compreender que só n'Ele se realizam os nossos desejos e se chega a ser profundamente humano". "Os Magos representam também os ricos e os poderosos, mas só aqueles que não são escravos da posse, que não estão "possuídos" pelas coisas que julgam possuir."

 

2. Migrantes e refugiados. "A família de Nazaré experimentou na primeira pessoa a precariedade, o medo e a dor de ter de abandonar a sua terra natal.

"São José, tu que experimentaste o sofrimento dos que têm de fugir para salvar a vida dos seus entes mais queridos, protege todos os que fogem por causa da guerra, do ódio, da fome. A História está cheia de personalidades que, vivendo à mercê dos seus medos, procuram vencê-los exercendo o poder de modo despótico e realizando actos de violência desumanos."

 

3. Dia Mundial da Paz. "Se nos convertermos em artesãos da fraternidade, poderemos tecer os fios de um mundo lacerado por guerras e violências." "Não serve de nada ir-se abaixo e queixar-se, precisamos de arregaçar as mangas para construir a paz". Aqui, é essencial recordar que no Natal "Deus não veio com o poder de quem quer ser temido, mas com a fragilidade de quem pede para ser amado."

 

4. Natal é tempo de família. Assim, escreveu uma carta aos casais de todo o mundo. Alguns extractos: "Que estar juntos não seja uma penitência, mas um refúgio no meio das tempestades." "As famílias têm o desafio de estabelecer pontes entre as gerações para a transmissão dos valores que conformam a humanidade. É necessária uma nova criatividade para, frente aos desafios actuais, configurar os valores que nos constituem como povo nas nossas sociedades e na Igreja, Povo de Deus." "É importante que, juntos, mantenhais o olhar fixo em Jesus. Só assim encontrareis a paz, superareis os conflitos e encontrareis soluções para muitos dos vossos problemas. Estes não vão desaparecer, mas podereis vê-los a partir de outra perspectiva." "Que o cansaço não ganhe, que a força do amor vos anime para olhar mais para o outro - o cônjuge, os filhos - do que para o próprio cansaço." "Muitos viveram inclusivamente a ruptura do casamento que vinha sofrendo uma crise que não se soube ou não se pôde superar. Também a estas pessoas quero exprimir a minha proximidade e o meu afecto," "A ruptura de uma relação conjugal gera muito sofrimento devido ao afundamento de tantas expectativas; a falta de entendimento provoca discussões e feridas não fáceis de reparar. Também não é possível poupar os filhos ao sofrimento de ver que os pais já não estão juntos. Mesmo assim, não deixeis de procurar ajuda para que os conflitos possam de algum modo ser superados e não causem ainda mais dor a vós e aos filhos." "Se antes da pandemia era difícil para os noivos projectar um futuro, quando era complicado encontrar um trabalho estável, agora a situação de incerteza laboral aumenta ainda mais." "A família não pode prescindir dos avós. Eles são a memória viva da humanidade, e esta memória pode ajudar a construir um mundo mais humano, mais acolhedor."

No Dia da Sagrada Família, voltou ao tema. Para denunciar "a violência física e moral que quebra a harmonia e mata a família". Para pedir: "Passemos do 'eu' ao 'tu'. E, por favor, rezai todos os dias um pouco juntos, para pedir a Deus o dom da paz. E comprometamo-nos todos - pais, filhos, Igreja, sociedade civil - a apoiar, defender e proteger a família." "É perigoso quando, em vez de nos preocuparmos com os outros, nos centramos nas nossas próprias necessidades; quando, em vez de falar, nos isolamos com os nossos telefones móveis; quando nos acusamos uns aos outros, repetindo sempre as mesmas frases, querendo cada um ter razão e no fim há um silêncio frio." "Talvez não tenhamos nascido numa família excepcional e sem problemas, mas é a nossa história, são as nossas raízes: se as cortarmos, a vida seca." "Jesus é também filho de uma história familiar, inserido na rede de afectos familiares, nascendo e crescendo no abraço e com a preocupação dos seus." E "até na Sagrada Família nem tudo corre bem: há problemas inesperados, angústia, sofrimento." Contra o inverno demográfico: "Alguns perderam a vontade de ter filhos ou só querem um. Pensem nisto: é uma tragédia. É um problema demográfico: façamos todo o possível para vencer este inverno demográfico, que vai contra a nossa pátria e o nosso futuro."

Neste contexto, condenou com vigor a violência contra as mulheres: "Basta. Ferir uma mulher é ultrajar a Deus."

 

5. Não esqueceu a Cúria: "A humildade é requisito" para o governo da Igreja. "Se o Evangelho proclama a justiça, nós devemos ser os primeiros a procurar viver com transparência, sem favoritismos nem grupos de influência." E a Igreja somos todos. "Todos!não é uma palavra que possa ser mal interpretada. O clericalismo faz-nos pensar sempre num Deus que fala só a alguns enquanto os outros só têm de escutar e executar."

A missão de Francisco é continuar a pôr fim a esta situação.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 de janeiro de 2022

CRÓNICA DA CULTURA

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   Georgia O’Keeffe -“I often painted fragments of things because it seemed to make my statement as well as or better than the whole could.”

 

APROXIMAÇÃO

 

E se um dia bastasse o som de uma flauta para nos levar até ao modo de sermos humanidade?

Quem nos manteria fora da estação onde tão rotineiros e sazonais, apenas soubemos entregar terra vindimada aos esponsais?

Quem? No périplo? Quem? No tear recipiendário?

As bilhas sempre nos levaram à boca o sabor poroso da água – pura identidade -, mas fomos tapando os sóis com rolhas, impedindo que a claridade testemunhasse do que em nós não muda.

Contudo, o novo desafio surgiu do muro em jeito de linha solta e fina, e a nova humanidade, sagrou-se no instante exato em que despontou a abelha no seu próprio secreto.

Assim ouvi dizer

Que por tanto termos sido inspirados, gente do nosso sangue, debruou a nova direção das estradas.

Depois

De vizinho em vizinho sorrimos à conhecença do sonho não ser no mar, mas sim, o mar que veio sonhar em nós.

Quanta clemência!

Teresa Bracinha Vieira

CARTAS PARA A OUTRA MARGEM

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   Minha Princesa de Além:

 

   Caiu-me outra vez em cima aquele anúncio da RTP, empresa pública de televisão, a propagandear a possibilidade dos seus espectadores poderem ver os melhores programas em directo ou on demand... No nosso tempo, Princesa ainda de mim, dir-se-ia a pedido... Mais claramente, e em português. Mas "eles" é que são o serviço público...

   Tal possidónia advertência calhou no meio de entrevistas e comentários acerca dos recentes acontecimentos no Afeganistão. Para além dos muitos habituais erros de português dos "nossos" locutores(as) em directo ou "on demand" (de quem?), apenas se foram repetindo os cansados discursos ideológicos que teimosamente pretendem saber analisar e explicar as situações dramáticas em que se encontram milhões de vidas humanas, sobretudo porque as chamadas grandes potências persistem em perspectivar e realizar as suas políticas de acordo com critérios ordenados por considerações exclusivas do que entendem ser os seus imediatos interesses próprios. Tenho para comigo que a complexidade da presente questão islâmica, e, sobretudo, o crescente poder disruptor dos movimentos extremistas (quiçá mentecaptos) sobre a necessária convivialidade das comunidades e culturas que integram a nossa sociedade global, não podem ser enfrentadas por perspectivas imediatistas, quer na nossa reflexão, quer no labor da construção de pontes e entendimentos. Aliás, não esqueçamos que Portugal, por exemplo, não tem de seu qualquer centro capaz de estudos islâmicos, nem de línguas e culturas orientais (do médio ao extremo oriente)...

   Quando falo ou escrevo sobre Serge de Beaurecueil, dominicano francês, saído do Instituto Dominicano de Estudos Orientais do Cairo e professor de mística persa na universidade de Cabul, poucos portugueses sabem quem ele foi, menos ainda saberão falar sobre essa matéria ou acerca da poesia persa que teve no Afeganistão alguns dos seus melhores cultores. Foi aliás aí, na pátria da primeira religião monoteísta (a de Zoroastro) que, ao longo dos tempos, foram surgindo muitos - e dos maiores - místicos muçulmanos da Ásia ocidental. Não foi por acaso que um padre católico foi titular de uma cátedra de mística persa na universidade da capital afegã. Sem que houvesse sincretismo, a convivência de várias religiões foi-se desenvolvendo em espírito ecuménico.

   O professor Thomas Sizgorich, no seu Violence and  Belief in Late Antiquity - Militant Devotion in Christianity and Islam (Filadélfia, 2009) aponta bem como o Islão parece ter conhecido, desde os seus primórdios, a coexistência do combate bélico com uma luta ascética contra as fraquezas humanas. E Sizgorich relaciona o Islão nascente com antecedentes da antiguidade tardia, através da figura do monge cristão, voluntariamente violento por Deus e contra os seus próprios vícios. Philippe Buc, professor nas universidades de Viena (Áustria) e Stanford (EUA), no seu Holy War, Martyrdom and Terror - Christianity, Violence and the West (Filadélfia, University of Pennsylvania Press, 2015), explica: Maomé e aqueles que, com ele, contribuiram para criar a tradição viviam, de facto, numa ecumenecidade abraâmica, em que lado a lado estavam todos os géneros de monoteísmos, entre os quais várias seitas cristãs. Para estas, os monges desempenhavam o papel de figuras exemplares, portadoras de sentido, guardiãs da identidade e da pureza religiosa dos seus grupos, em razão da sua capacidade de sofrer o martírio e de reagir com força contra o que consideravam desvios dogmáticos. Assim surge, muito precocemente, um dispositivo análogo à combinação combate material/combate espiritual, característica das trajectórias ocidentais. O jihad dito «maior», equivalente da «militia spiritualis», todavia, só foi teorizado nos séculos  X-XI, sobretudo por sufis desejosos de proclamar a superioridade dos combates interiores contra os vícios. A direcção primeira da elaboração teológica muçulmana iria assim de uma revelação complexa a uma simplificação que daria prioridade à espada, enquanto que o jihad «maior», equivalente islâmico da guerra espiritual cristã apenas obteve um estatuto comparável (e, até, superior) ao do jihad material, já relativamente tarde. 

   Convém recordar aqui que a expansão islâmica inicial foi uma "guerra santa" de conquista, em que o proselitismo religioso sustentava políticas e guerras conduzidas pelos primeiros califas que, aliás, nas suas escolas corânicas (em que o ensino se fazia em árabe, a «língua de Alá») iam acrescentando, conforme os seus objectivos e estratégias, os hadith ou ditos do profeta, que hoje desempenham um papel fundamental na pregação da facção sunita do Islão. A prioridade da espada, por outro lado, também pode explicar o estatuto das mulheres nas comunidades mais radicais, designadamente nos reinos e emiratos da Arábia e Golfo Pérsico e nos movimentos extremistas como os talibã. E se considerarmos o martírio da morte em guerra santa numa perspectiva apocalíptica, melhor perceberemos porque são virgens que aguardam a chegada dos mártires à outra margem. Mas disso falaremos em próxima carta.

 

   Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

 

FÉRIAS: TEMPO FESTIVO

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1. O ser humano tem como uma das suas características ser laborans (trabalhador). Não apenas para ganhar a vida — uma expressão extraordinária, embora dura: a vida foi-nos dada e, depois, é preciso ganhá-la, e uma das coisas que me têm sido ensinadas pela experiência é que quem nada tem que fazer para ganhar a vida, trabalhando, porque tudo lhe é oferecido, nunca atinge uma adultidade madura —, mas também para se realizar autenticamente em humanidade. De facto, é transformando o mundo que a pessoa se transforma e faz. Isso é dito no étimo de duas palavras: a palavra trabalho vem do latim, tripalium, um instrumento de tortura (trabalhar não é duro?), mas também dizemos de alguém que realizou uma obra e que se vai publicar as obras de alguém (do latim, opera) — em inglês, trabalhar diz-se to work, e, em alemão, Werk é uma obra, sendo o seu étimo érgon, em grego. Ai de quem, à sua maneira, não realiza uma obra, a obra primeira que é a sua própria existência autêntica! Fazendo o que fazemos, o que é que andamos no mundo a fazer? A fazer-nos, e, no final, seria magnífico que o resultado fosse uma obra de arte.

Logo no princípio, Deus disse que o Homem tem de trabalhar. É próprio do Homem trabalhar, pois ele é constitutivamente relação com o mundo. Esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens em ordem à subsistência: o trabalho é também realização própria, social e histórica: construindo o mundo, a Humanidade ergue a sua história de fazer-se.

Jesus também trabalhou, e trabalhou no duro. Normalmente, diz-se que era caprinteiro, mas o grego — os Evangelhos foram escritos em grego — diz que era um téktôn (donde vem arquitecto), isto é, o que antigamente se chamava um “faz-tudo”: era capaz de ajudar a erguer uma casa e preparar instrumentos agrícolas. Foi nessa relação dura com o trabalho, e foi a trabalhar que passou a maior parte da sua vida, que percebeu melhor a vida e, por exemplo, as relações entre quem tem muito dinheiro e os outros... Estou convencido de que, se o clero tivesse mais experiência do trabalho duro, haveria outra compreensão da Igreja na sua missão no mundo... A vida é exaltante, mas também é dura, esmagadora por vezes. Isso diz-se nos rituais dos mortos, quando se reza: “Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso... Descansa em paz. Amén.” Tantas são as canseiras da vida!...

 

2. Mas Deus também estabeleceu um dia de descanso e Jesus, diz o Evangelho, também descansou. É necesssário sublinhar que a Bíblia faz questão de dizer que Deus deu o mandamento de um dia feriado semanal, santo, sem trabalho, para que o Homem fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar — e duro —, mas não é besta de carga. E aí está o Domingo ou o luxo de um feriado aqui e ali. Aí estão as férias.

E as palavras não são arbitrárias. A palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de "comemoração festiva", enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: Lunes, Martes, Lundi, Mardi, etc., o português ter seguido a designação eclesiástica: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira enquanto mercado esteja igualmente associada a feria deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias.

O importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Assim, em espanhol férias diz-se vacaciones e em francês vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, e isso quer dizer em dias santos. Os alemães, esses têm Ferien ou Urlaub. Ora, a raiz de Urlaub é Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.

Se pensarmos bem, as férias não têm como finalidade  serem apenas um intervalo no trabalho, para repor as forças em ordem a trabalhar outra vez e mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso apanhar sol na praia, no campo, na montanha, ler a grande literatura, ouvir música, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o sol a nascer e a pôr-se, e a exaltar-se com a lua enorme — cheia — ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade não se vê. É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma “rosa sem porquê”, como dizia Angelus Silesius, o inútil do ponto de vista da produção — "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner —, exaltar-se com o enigma de um rosto, o mistério do ser e de ser. É preciso ter tempo para a Família, para os amigos, para ouvir o Silêncio onde se acendem as palavras que iluminam. É preciso ter tempo para a beleza: não é a beleza que redime o mundo, como disse Dostoiévski? Tempo para o melhor: ouvir Deus, dialogar com o Infinito. Rezar.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 21 AGOSTO 2021