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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

DESCONFINAR A IGREJA. 2

 

1. Quem está interessado na Igreja, seja por razões de fé, religiosas, ou simplesmente históricas, é com certeza assaltado pela pergunta: o que se passa? De facto, os dados estão aí, clamorosos. Concretamente na Europa e em países como a França, a Espanha, os Países Baixos, a própria Irlanda, para não falar na República Checa, onde 80% dos habitantes se confessam ateus, a prática religiosa cai vertiginosamente, sobretudo entre os jovens, sendo dramática de ano para ano a diminuição do número de baptismos, de casamentos..., os seminários esvaziam-se, o clero envelhece...

 

O que se passa? Há razões exteriores à Igreja e outras de que ela própria é responsável. Vivemos numa sociedade que vive da imediatidade e do prazer, num consumismo devorador, que afastou do seu horizonte as perguntas essenciais, metafísico-religiosas, menosprezando a questão do sentido, do sentido último, esperando fundamentalmente respostas da tecnociência e das novas tecnologias. Mergulhados no mundo da imanência, a transcendência desaparece.

 

Mas as responsabilidades da própria Igreja não podem ser ignoradas. Como é patente a quem não queira fugir à verdade e à lucidez. A fé viva começa sempre com uma experiência de encontro. Jesus fez uma experiência avassaladora de Deus como Pai-Mãe, amor incondicional. A partir dela, anunciou o Reino de Deus, que é o reino da fraternidade, da alegria, da esperança, da liberdade, o reino das bem-aventuranças. Os camponeses pobres, todos os explorados, as mulheres oprimidas, os que lutavam pela vida contra a fome, a opressão, a doença, os pecadores públicos, os perdidos, escutaram a sua proclamação de libertação salvadora. Porque, lá no mais fundo, os seres humanos vivem da experiência negativa de contraste: há o que não pode ser, porque anula a vida, e o que deve ser, para que a vida ganhe sentido. Jesus anunciava o que deve ser: quem acreditava nele encontrava a salvação. Evidentemente, essa mensagem incomodou muitos que viviam de oprimir os outros, a começar pelos sacerdotes do Templo, que exploravam em nome da religião. Ameaçados pelo perigo que o Deus salvador de Jesus constituía, condenaram-no à morte, fazendo coligação com os interesses imperiais de Roma. E Jesus foi crucificado.

 

Aparentemente, era o fim. O enigma histórico do cristianismo é precisamente este: o que é que aconteceu para que os discípulos, que, desiludidos, se tinham dispersado, voltando aos seus ofícios, se reunissem outra vez e fossem anunciar, expondo a própria vida, pois morreram por isso? Reflectindo sobre tudo o que tinha acontecido, sobre a vida de Jesus e também a sua morte, o que o movia, o modo como se relacionava com Deus..., foram fazendo a experiência avassaladora de fé, de que aquele Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre, como esperança e promessa para todos: Deus não o deixou abandonado à morte. Ele é o Vivente.

 

Também Paulo fez essa mesma experiência e, de perseguidor, tornou-se Apóstolo. Fez milhares e milhares de quilómetros (vinte mil?), para levar o Evangelho a todos. E trabalhava para não ficar pesado a ninguém e para não pensarem que vivia disso.  Foi perseguido e morto. Mas a sua experiência marcou a História. O que vale um morto crucificado? Nada. Pelo contrário, pertence à lixeira do mundo. Então, se Deus não abandonou Jesus à morte, mas o ressuscitou, é porque está com ele e com a sua causa, a causa dos seres humanos, é ele que tem razão. Se Deus está com ele, o crucificado, ele vale e, se ele vale, todos valem. Por isso, “Já não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, todos são um só em Cristo.” Já ninguém se lembra de que é aqui que fermenta a dignidade da pessoa humana e os direitos humanos? Esta foi a mensagem mais libertadora da História, para esta vida e para a eternidade. Agora, a existência ergue-se com sentido final, nesta proclamação de Jesus, como sublinhou o filósofo Ernst Bloch: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. E: “Sois todos irmãos”. Pela primeira vez na História, quando um senhor se convertia, participava na Eucaristia, sentando-se na mesma mesa que o seu escravo. Para Deus, todos têm valor, valor infinito, de filhos e filhas.

 

Esta é a Igreja dos começos, quando os cristãos o eram verdadeiramente, a partir desta experiência. Comunidades cristãs fraternas.

 

Depois, lentamente, foi o que se sabe. A Igreja tornou-se uma instituição de poder, cada vez mais poderosa e centralizada, imperial. Lá está o famoso Dictatus Papae, de Gregório VII: “Só o Romano Pontífice é digno de usar insígnias imperiais”. Daí, seguiu-se a corte, o fausto, vestimentas de luxo, títulos e dignidades: Eminência, Excelência Reverendíssima, Monsenhor... Nas celebrações da Eucaristia, com os chamados pontificais, ninguém minimamente atento poderia já reconhecer a memória da Última Ceia. Numa Igreja que discrimina as mulheres, não é possível reconhecer Jesus, que as incluiu em igualdade e ternura. E não é Jesus que está na base de uma Igreja com duas classes: o clero que manda e os leigos que apenas obedecem.

 

2. O Papa Francisco vem chamando a atenção para o “desafio” de “compreender o que Deus nos está a dizer nesta pandemia”. “Porque pior do que esta crise é o drama de desaproveitá-la, enclausurando-nos dentro de nós próprios.” Urge a abertura a “uma Igreja em saída”, desconfinada de dogmas estéreis, clericalismos, tradições fossilizadas, ritualismos mortos, que não transmitem vida. Para isso, só há um caminho: cada cristão voltar a fazer uma experiência pessoal de encontro com Cristo e o seu Evangelho. Continua.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 JUL 2020

DESCONFINAR A IGREJA. 1

 

Chegam-me vozes a cantar esperança no novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, bispo de Setúbal. Eu próprio disse a Natália Faria, do Público, quando imediatamente a seguir à eleição me perguntou se a sua escolha constituía garantia de rejuvenescimento: “Neste momento em que, no meu entender, a Conferência Episcopal precisa de um novo impulso, ele será capaz de assegurar o rejuvenescimento necessário. Trata-se de uma figura destacada do ponto de vista intelectual, e, por outro lado, dedicado aos outros e à sociedade. E tem uma gigantesca experiência internacional.” Tendo vivido em Roma como superior-geral dos padres dehonianos, presentes em 38 países, conhece o que se passa também no Vaticano e, sobretudo, vive o espírito do Papa Francisco. Anima-o o desprendimento pessoal e uma “Igreja em saída”, em desconfinamento, no sentido do abandono de estruturas de poder medieval, como insiste Francisco.

 

Quando se lê a sua primeira longa entrevista, ao jornal Público, as esperanças não são defraudadas. Pelo contrário. As suas declarações têm duas vertentes: uma ad intra, para dentro da própria Igreja; a outra ad extra, para fora, para a sociedade em geral, como voz político-moral.

 

Declarações ad intra.

 

Não tem dúvidas de que na Igreja é preciso “trabalhar melhor e em rede”, bem como passar de uma Igreja piramidal, hierarquizada, para uma Igreja comunional, circular. “Não tem dúvidas“ de que se impõe acabar com “os velhos clericalismos”.

 

A Igreja deve ser fiel à tradição, mas “isso não pode significar paralisia. Num mundo que evolui rápida e radicalmente, a Igreja tem de encontrar novos modos de se dirigir a este mundo e à sua realidade complexa e fecunda.” A Igreja vive num mundo diferente daquele a que estava habituada: vivemos num mundo plural, também do ponto de vista religioso; “a ideia de uma Igreja onde tudo estava formatado do mesmo jeito e com a mesma fé já não existe.” A Igreja já não ocupa o centro, “temos de ser uma Igreja que vai ao encontro das pessoas”, e o presidente da CEP reconhece que há hoje “uma receptividade nova e uma sede de sentido para a vida que grassa entre os jovens e é aí que penso que nos podemos encontrar.” A Igreja não pode ficar simplesmente à espera, tem de se pôr a caminho, “fazer-se próxima.”

 

Neste contexto, compreende-se a exigência de levar adiante o trabalho das comissões nas dioceses para acabar com a tragédia do abuso sexual de menores, admitindo mesmo que possa aumentar o número de denúncias. Como se entende que não tenha receio em declarar que “não veria mal a possibilidade de termos padres casados na nossa Igreja” e que não rejeite o debate à volta da possibilidade, mesmo que mais complicada, da ordenação de mulheres: “não a tiro de cima da mesa”. 

 

Aqui chegados, penso que não será exagerado pensar que o Bispo José Ornelas espera um clero com outra formação, também do ponto de vista intelectual, para este mundo novo que está aí. As homilias dos padres em geral falam de quê, para quem? Qual a responsabilidade da Faculdade de Teologia? Que futuro para os Seminários?

 

Ad extra. O país e o Estado podem esperar uma atitude leal, colaborante, mas que não exclui a crítica.

 

Na presente situação de calamidade económica e social, o Estado não pode fugir às suas responsabilidades de garantir o mínimo a que os cidadãos têm direito. Não se quer voltar à ideia de “uma economia planificada e estatizada”, portanto, o Estado “não tem de fazer tudo. Pelo contrário, se o Estado quiser fazer tudo, vai sair caro a todos e, além disso e o que é pior, não conta com a criatividade e a iniciativa da sociedade.” Mas tem de dar às instituições “capacidade de sobreviver e de actuar. E, neste momento, há muitas instituições que estão em perigo de entrar em colapso.” Refere nomeadamente as IPSS, muitas das quais são geridas por entidades ligadas à Igreja e que “estão no limite da sustentabilidade”, “o que se recebe do Estado e das famílias fica aquém do custo, e não queremos prestar um serviço de segunda classe”, para não se cavar mais fundo o abismo entre quem tem e quem não tem.

 

Ergue-se contra a discriminação e o racismo e exclusão, prevenindo: “O que queremos é uma sociedade justa e digna e que não precisa de enveredar por caminhos de violência para se reconstruir.”

 

Na presente situação pandémica, é claro que se impõe salvar vidas e a saúde, sendo, pois, necessário tomar as medidas adequadas para controlar a pandemia. Mas não deixa de prevenir contra os perigos da deriva para “totalitarismos”: “se isso é feito no sentido de manipular pessoas, deixa de ter sentido.”

 

Pensando na crise já presente e que se vai agravar, económica e social, avisa para a urgência da solidariedade global, a começar pela União Europeia, e profetiza: “Ou há um rejuvenescimento do projecto europeu ou este caminhará para o seu fim.”

 

A eutanásia não podia ser esquecida. “Não gostaria que a vida fosse referendável, mas se for essa a última praia... Mas sinto-me desconfortável com a ideia de apresentar a alguém um cardápio com as possibilidades de acabar com a vida.” Evidentemente, é contra a eutanásia — eu  acrescento que a ideia de referendo recolheu mais de 95.000 assinaturas. Mas o que se impõe discutir é “qual o modelo de sociedade que queremos e como é que nessa sociedade se garantem valores de humanização para que as pessoas consigam terminar a sua vida de forma pacífica, sentindo-a a completar-se e não simplesmente abandonadas.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 JUN 2020

A MULHER NA IGREJA

Christ_and_the_Samaritan_-_Luca_Giordano_-_Castel_

 

1. Neste Dia Internacional da Mulher, retomo o que já aqui escrevi em 2011: “As mulheres têm motivo para estar zangadas com a Igreja, que as discrimina. Jesus, porém, não só não as discriminou como foi um autêntico revolucionário na sua dignificação, até ao escândalo.”

   Veja-se a estranheza dos discípulos ao encontrar Jesus com a samaritana, que tinha tudo contra ela: mulher, estrangeira, herética, com o sexto marido, mas foi a ela que se revelou como o Messias. Condenou a desigualdade de tratamento de homens e mulheres quanto ao divórcio. Fez-se acompanhar — coisa inédita na época — por discípulos e discípulas. Acabou com o tabu da impureza ritual. Estabeleceu relações de verdadeira amizade com algumas. Maria Madalena constitui um caso especial nessa amizade: ela acompanhou-o desde o início até à morte e foi ela que primeiro intuiu e fez a experiência avassaladora de fé de que o Jesus crucificado não foi entregue à morte para sempre, pois é o Vivente em Deus, como esperança e desafio para todos os que crêem nele, a ponto de Santo Agostinho, apesar da sua misoginia, a declarar “Apóstola dos Apóstolos”, precisamente por causa do seu papel fundamental na convocação dos outros discípulos para a fé na Ressurreição — na morte, não caímos no nada, pois entramos na plenitude da vida em Deus, Deus de vivos e não de mortos. Aliás, já São Paulo, na Carta aos Romanos, pede que saúdem Júnia, “Apóstola exímia”.

 

2. No seu mais recente escrito, o teólogo José M. Castillo vem lembrar a mesma coisa. Quando se lê os Evangelhos, o que constatamos é que Jesus teve conflitos e confrontos com vários grupos, desde as mais altas autoridades religiosas até aos discípulos que o acompanhavam: a Pedro, por exemplo, chegou a chamar-lhe Satanás. Mas há um dado que “chama  poderosamente a atenção: as mulheres são o único grupo com o qual Jesus não teve problema algum, inclusivamente naquele caso da mulher cananeia que suplicava a cura da sua filha doente; parece que Jesus lhe deu uma má resposta, mas o carinho daquela mãe foi tão intenso que até fez Jesus dizer: ‘Mulher, como é grande a tua fé!’. E a filha ficou curada.”

   Castillo insiste que Jesus esteve sempre do lado das mulheres, mesmo quando eram adúlteras ou prostitutas. Jesus deixou que uma mulher o perfumasse com perfume caro, ou lhe beijasse os pés com lágrimas e lhos enxugasse com os cabelos. E foram as mulheres que se mantiveram sempre fiéis no caminho do Calvário e depois da morte, diante da Cruz. E foram as primeiras testemunhas do Ressuscitado, do Jesus vivo em Deus para sempre.

   E, atravessando a história da Igreja, lança a pergunta: “Como é possível o que está a acontecer? Se há tantos bispos que vivem em palácios, usam vestimentas que já ninguém usa, têm privilégios que ninguém mais tem, julgam ter poderes que Deus lhes deu a eles e a mais ninguém, não é lógico e inevitável que na Igreja esteja a acontecer o que todos vemos?” E conclui: “Como é possível que as mulheres continuem nesta Igreja que as marginaliza, as exclui, as anula em tantas coisas...? Porque é que hão-de continuar numa Igreja que, apoiada em séculos, nega e resiste a que celebrem Missa ou que possam ser esposas de padres? Se Jesus não proibiu nada disso, porque é que havemos de ser nós a proibir e, para cúmulo, ficando com a consciência do dever cumprido? O que é mais importante: agradar a uns tantos cardeais ou servir toda a gente?

 

3. A Igreja continua a ser um dos maiores esteios da sociedade patriarcal. Até inconscientemente, com a doutrina tradicional, embora esta não encontre apoio no Evangelho.

   Dou três exemplos.

   Eva, que estaria,  segundo a doutrina tradicional, a partir de uma leitura literal da Bíblia, na base do pecado original, criou a imagem da mulher tentadora, associada ao pecado.

    Quando João Paulo I se referiu a Deus como Mãe foi um escândalo tal que não faltaram os protestos, clamando que Deus é Pai e não Mãe. Para esta visão, contribuiu também o desconhecimento da biologia. De facto, o óvulo feminino só foi descoberto em 1827. Por isso, na geração, a mulher era passiva e não activa. Neste quadro, nunca se poderia rezar o Credo, começando assim: “Creio em um só Deus, Mãe toda-poderosa, criadora dos céus e da terra...” nem rezar o “Pai Nosso”, dizendo “Mãe Nossa”. Mas, em relação a esta concepção, é preciso tomar consciência de que Deus está para lá da determinação sexual e, por isso, tanto nos podemos dirigir a Ele como Pai ou como Mãe.

    Também se diz que Deus encarnou no homem Jesus. Sim, esta afirmação é clara para a fé cristã, desde que não se ignore que, no Evangelho de São João, se lê que o Logos, que é Deus, se fez carne, no sentido de humanidade frágil. De facto, a palavra utilizada no original grego é “sárx”, que significa  precisamente a humanidade enquanto frágil, e não  “anér, andrós”, que se refere ao homem masculino (daí, andrologia e androcentrismo). Deus manifestou-se, revelou-se a todo o ser humano, na humanidade frágil do homem Jesus.

   Neste contexto, pergunta-se: a mulher não poderá presidir à Eucaristia? Já há anos, o então cardeal-patriarca de Lisboa, José Policarpo, que sabia Teologia, fez uma declaração que teve muito eco nos média, inclusive estrangeiros: “Teologicamente não há nenhum obstáculo fundamental” à ordenação de mulheres. A recusa baseia-se apenas na tradição. É evidente que, perante esta afirmação, os protestos choveram e o meu amigo cardeal José Policarpo, por pressão do Vaticano, teve de recuar, dando esclarecimentos. Mas, evidentemente, era ele que tinha razão.

   Para contrapor, invoca-se que na Última Ceia não houve mulheres. Ora, esta afirmação é contestada por grandes exegetas. De qualquer modo, onde é que está que Jesus ordenou alguém “in sacris” naquela noite? Mais: o famoso biblista, talvez o maior exegeta do século XX, Herbert Haag, da Universidade de Tubinga, com quem tive o privilégio de privar, ironizou: como eram só judeus os presentes, então a Igreja devia ordenar só homens judeus!... Sobretudo: é sabido que as primeiras comunidades cristãs — não havia igrejas nem capelas nem basílicas ou catedrais — se reuniam na casa de cristãos mais abastados, pois sempre teriam uma casa mais ampla, e quem presidia era o dono ou a dona da casa. Então, se já foi possível mulheres presidirem à Eucaristia...

   A questão da mulher na Igreja tem, pois, de ser revista. Para não ferir o que Jesus disse: “Sois todos irmãos e iguais” nem este princípio fundamental do Concílio Vaticano II: “Toda a forma de discriminação nos direitos fundamentais da pessoa por razão do sexo deve ser vencida e eliminada, por ser contrária ao plano divino.”

    Afinal, a linguagem que nos leva a dizer: “a Igreja discrimina as mulheres” revela bem onde reside o nervo do problema. Que Igreja é que discrimina? Quem é a Igreja? Evidentemente, ao dizer que a Igreja discrimina as mulheres, estamos a referir-nos à Igreja hierárquica: Papa, cardeais, bispos, padres, cónegos, monsenhores — com duas classes: clero e leigos —, quando o que Jesus queria era a Igreja como comunidade de comunidades, que obriga a dizer: “a Igreja somos nós”, a comunidade dos baptizados, homens e mulheres, uma comunidade de iguais, com carismas e ministérios vários ao serviço de todos, entre eles, o da presidência da Eucaristia, exercido por homens ou mulheres.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 MAR 2020

FRANCISCO NO JAPÃO: É "IMORAL" O USO E A POSSE DE ARMAS NUCLEARES

 

Francisco realizou o seu sonho de jovem: ser missionário no Japão. Foi de lá que, na semana passada, enviou para o mundo mensagens essenciais para o futuro da Humanidade.

 

1. Entre essas mensagens, clamou por uma “ecologia integral”, atendendo, portanto, também à ecologia humana, que exige solidariedade; deixou claro que é necessário combater “o fosso crescente entre ricos e pobres”; “a dignidade humana deve estar no centro de toda a actividade social, económica e política, sendo necessário fomentar a solidariedade inter-geracional”; “sabemos que, em última análise, a civilização de cada nação e povo não se mede pelo seu poder económico mas pela atenção que dedica aos necessitados bem como pela capacidade de tornar-se fecundos e promotores da vida”; clamou contra “o eu isolado”, contra o bullying e os excessos do consumismo compulsivo, pedindo concretamente aos bispos que ajudem os jovens contra o bullying e os suicídios, já que em cada ano no Japão 30.000 pessoas, na sua maioria jovens, acabam com a vida; advertiu contra o carreirismo, a competição excessiva na busca do lucro e da eficiência, o êxito a qualquer preço: “a liberdade pode ver-se asfixiada e debilitada quando ficamos encerrados no círculo vicioso da ansiedade e da competitividade ou quando concentramos toda a nossa atenção e as melhores energias na procura sufocante e frenética de produtividade e consumismo como único critério para medir e validar as nossas opções e definir quem somos e quanto valemos”; apelou ao sentido do maravilhamento e da admiração frente “à imagem das cerejeiras em flor”; embora a Igreja Católica seja minoritária (menos de 0,5% da população, sendo a maioria dessa minoria constituída por trabalhadores estrangeiros), “isso não deve tirar força ao vosso compromisso com uma evangelização cuja palavra mais forte e clara é a de um testemunho humilde, quotidiano e de diálogo com outras tradições religiosas”; “o anúncio do Evangelho da Vida impele-nos e exige, como comunidade, que nos convertamos num hospital de campanha, preparado para curar feridas e oferecer sempre um caminho de reconciliação e perdão”; na Universidade Sophia de Tóquio, dos jesuítas, renovou as suas críticas ao “paradigma tecnocrático” ao mesmo tempo que pediu que “os grandes avanços tecnológicos de hoje possam colocar-se ao serviço de uma educação mais humana, justa e ecologicamente responsável.”

 

2. Há muitos anos, encontrei-me em Paris, na sua casa, com o célebre filósofo Jean Guitton, e foi ali que eu percebi até ao mais fundo como, com o nuclear e as primeiras bombas atómicas lançadas sobre duas cidades do Japão, a Humanidade agora sabia o que é o apocalipse no sentido da possibilidade do fim do mundo.

 

Foi com este propósito primeiro de pedir e exigir o desarmamento nuclear total, quando  o mundo se confronta com 9. 000 armas nucleares prontas para serem disparadas, que Francisco pisou pela segunda vez território nipónico (a primeira aconteceu quando era Provincial dos jesuítas na Argentina). Nas duas cidades, reiterou a exigência de que “nunca mais, na História da Humanidade, volte a acontecer a destruição gerada pelas bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki.” Para isso, tem de haver uma tomada de consciência crescente de co-responsabilidade entre as nações. É preciso “recordar, caminhar juntos, proteger”. Em Hiroshima, onde o relógio ainda marca as 8.15, a hora em que pela primeira vez caiu uma bomba atómica, que matou num instante 80.000 pessoas, foi claro: “O uso da energia atómica com fins de guerra é imoral. Seremos julgados por isto. As novas gerações levantar-se-ão como juízes da nossa derrota, se falarmos da paz, mas não a realizarmos com as nossas acções entre os povos da Terra.” Dirigindo-se indirectamente aos nove países que detêm armamento atómico (Estados Unidos, Rússia, França, Inglaterra, Israel, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte), foi contundente, indo além da condenação do seu uso: “A posse e fabricação de armas atómicas é imoral”, “um crime contra o futuro”. Em Nagasaki, afirmou que a paz e a estabilidade internacional  são incompatíveis com a tentativa de construir sobre o medo e o terror da mútua destruição ou sobre a ameaça da aniquilação total, adiantando que o dinheiro usado para armas nucleares teria excelente destino, se gasto em erradicar a pobreza. E chamou as fortunas gastas ou ganhas para fabricar, modernizar e vender armas cada vez mas destruidoras enquanto “milhões de crianças e famílias vivem em condições infra-humanas”, um “atentado contínuo que brada aos céus”.

 

Já de regresso a Roma, na habitual conferência de imprensa, voltou insistentemente ao tema, reiterando o dito no Japão, mas acrescentando que é doutrina que fará parte do Catecismo: “O uso de armas nucleares é imoral: isto deve ser incluído no Catecismo da Igreja Católica. E não só o uso, também a sua posse. Porque penso na loucura de um governante, na loucura de alguém que pode destruir a Humanidade. Pensemos no dito de Einstein: ‘a Quarta Guerra Mundial far-se-á com paus e pedras’.” Apelou a uma nova ordem mundial, na qual desapareça o “direito de veto” das cinco grandes potências (Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China) do Conselho de Segurança das Nações Unidas: “Talvez as Nações Unidas devessem dar um passo adiante, renunciando no Conselho de Segurança ao direito de veto de algumas nações. Não sou um técnico nisto, mas seria bom que todos tivessem o mesmo direito”, lutando juntos contra o armamento.

 

E o direito à legítima defesa, quando um país é atacado por outro? “A paz hoje é muito débil, mas não se deve desanimar. A hipótese da legítima defesa permanece sempre, inclusivamente na Teologia moral deve ser contemplada, mas como último recurso. Acentuo: último recurso com as armas, a legítima defesa deve fazer-se com a diplomacia, com as mediações. Sublinho: último recurso. Estamos a avançar num progresso ético que a mim, ao questionar todas estas coisas, me dá muita alegria.  Isto é belo: que a Humanidade também continue a progredir no e com o bem, não só com o mal.”

 

Interrogado sobre a pena de morte, ainda vigente no Japão, respondeu: “Há quinze dias fiz um discurso à conferência de Direito Penal internacional e falei seriamente sobre o tema. A pena de morte não pode existir, não é moral. Inclusive quanto à prisão perpétua devemos pensar como o condenado perpétuo se pode reinserir, dentro ou fora. Dir-me-á: mas há condenados por um problema de loucura, doença, incorrigibilidade genética... Nessas circunstâncias, é preciso procurar o modo de terem actividades que os façam sentir pessoas. Em muitas partes do mundo, as cadeias estão superlotadas, são depósitos de carne humana, de tal modo que, em vez de crescer com saúde, muitas vezes os condenados corrompem-se.”

 

Falando em corrupção, reconheceu que também existe no Vaticano, mas garantiu que os corruptos serão levados a julgamento. Agora, “o sistema de controlo do Vaticano funciona bem.”

 

3. Nessa conferência de imprensa, reafirmou que “gostaria de ir a Pequim, eu amo a China”.

 

Depois destas palavras, o governo chinês destacou o “gesto de boa vontade” de Francisco: a China “aprecia o gesto de boa vontade mostrado pelo Papa Francisco e está a aberta a intercâmbios com o Vaticano”, referiu o porta-voz da Chancelaria chinesa, citado pela versão em inglês do diário oficial Global Times.

 

Houve quem, por exemplo, o sítio Religión Digital, visse nesta declaração a possibilidade de uma futura visita do Papa a Pequim. É de notar que, ao sobrevoar o espaço aéreo da China e de Taiwan, Francisco utilizou termos diferentes: enviou saudações à “nação” da China, mas saudações ao “povo” de Taiwan e referiu-se a Hong Kong como “território”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 DEZ 2019

FRANCISCO NA TAILÂNDIA: O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

 

Era um sonho desde os tempos da juventude: ser missionário no Japão. A vida não o permitiu, mas Francisco acabou por realizar em parte, na semana passada, esse sonho, ao visitar durante sete dias (19-26) a Tailândia e o Japão. A partir da Ásia, Francisco deixou mensagens decisivas para o mundo, acentuando, na Tailândia, a importância fundamental do diálogo inter-religioso, e, no Japão, condenando como crime imoral não só a guerra nuclear mas também a simples posse de armamento atómico.

 

Hoje, incidirei na mensagem a partir da Tailândia. O próprio Francisco, após o seu regresso a Roma, na passada Quarta-Feira, na audiência geral, resumiu a sua estada na Tailândia. “Na Tailândia, prestei homenagem à rica tradição espiritual e cultural do povo thai, o povo do belo sorriso. As pessoas estão sempre a sorrir. Animei o impulso pela harmonia entre as diversas componentes da nação, para que o desenvolvimento económico possa beneficiar a todos e se curem as feridas da exploração, especialmente de mulheres, de meninas e meninos, expostos à prostituição e ao tráfico. A religião budista é parte integrante da história e da vida deste povo, por isso fui visitar o Patriarca Supremo dos budistas, prosseguindo o caminho da estima recíproca, começada pelos meus predecessores, para que cresçam no mundo a compaixão e a fraternidade. Neste sentido, foi muito significativo o encontro ecuménico e inter-religioso, celebrado na maior Universidade do país.”

 

Há muitos anos que o famoso teólogo Hans Küng não se cansa de proclamar que “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões” e não haverá paz entre as religiões sem conhecimento e reconhecimento mútuo e, consequentemente, diálogo.

 

Como não podia deixar de ser, Francisco fez do diálogo inter-religioso uma das marcas essenciais do seu pontificado, e isso ficou bem claro também nesta visita à Tailândia. Enquanto no sul do país um grave e sangrento conflito confronta separatistas muçulmanos e forças governamentais, insistiu na necessidade do diálogo inter-religioso como “serviço a favor da harmonia social na construção de sociedades justas, compassivas e inclusivas.”

 

Logo no primeiro dia da sua visita oficial, num acontecimento histórico, encontrou-se no templo budista Wat Ratchabophit com o Patriarca Supremo Somdet Phra Maha Munivong, chefe do budismo oficial tailandês, começando por lembrar que o encontro se inscrevia “dentro do caminho de reconhecimento mútuo” iniciado pelos predecessores, e convidando a “aumentar não só o respeito mas também a amizade entre as nossas comunidades”, cinquenta anos depois da primeira visita de um patriarca budista a Paulo VI, tendo João Paulo II visitado também aquele templo. “Pequenos passos que ajudam a testemunhar, não só nas nossas comunidades mas também no nosso mundo tão inclinado a gerar e propagar divisões e exclusões, que a cultura do encontro é possível”. Referiu os fundamentos do budismo, que fazem parte indelével da identidade dos tailandeses, com “o seu modo de reverenciar a vida e os seus anciãos, prosseguir um estilo de vida sóbrio baseado na contemplação, no desapego, no trabalho duro e na disciplina”, permitindo definir a Tailândia como “o povo do sorriso”. “Possibilidades como estas lembram-nos como é importante que as religiões se manifestem cada vez mais como faróis de esperança, promotoras e garantes de fraternidade”, agradecendo ao povo tailandês que “desde a chegada do cristianismo à Tailândia, há uns quatro séculos e meio, os católicos, embora sendo um grupo minoritário, tenham desfrutado da liberdade na prática religiosa e durante muitos anos vivido em harmonia com os seus irmãos e irmãs budistas”. Os responsáveis religiosos, lembrou, devem oferecer ao mundo “uma palavra de esperança capaz de alimentar e apoiar os que são sempre os mais afectados pelas divisões”. Pelo seu lado, reiterou o seu “compromisso pessoal e o de toda a Igreja a favor do fortalecimento do diálogo aberto e respeitoso ao serviço da paz e do bem-estar deste povo”. Assim, “poderemos estimular entre os fiéis das nossas religiões a elaboração de novas iniciativas de caridade, capazes de gerar e multiplicar projectos concretos no caminho da fraternidade, especialmente para os mais pobres e na relação com a nossa tão maltratada casa comum”, para contribuir para “a construção de uma cultura da compaixão, da fraternidade e do encontro tanto aqui como noutras partes do mundo.”

 

O Papa Francisco deu um exemplo concreto, visitando o hospital Saint-Louis, fundado em 1898 por um bispo francês, que o confiou às Irmãs de São Paulo de Chartres, e que testemunha, explicou, “o precioso serviço que a Igreja oferece ao povo tailandês”. Aí, deixou palavras de inexcedível empatia e humanidade. “Todos vós, membros desta comunidade terapêutica, sois discípulos missionários quando, olhando para um doente, aprendeis a chamá-lo pelo seu nome. Estai abertos ao imprevisível”. “Realizais uma das maiores obras de misericórdia, uma vez que o vosso compromisso vai muito para lá de um simples e louvável exercício de medicina. Deveis ir para lá, abertos ao imprevisível”. Deveis “receber e abraçar a vida conforme chega à urgência do hospital para ser atendida com piedade especial, que nasce do respeito e amor à dignidade de todos os seres humanos”. “Os vossos esforços e o trabalho das muitas instituições que representais são o testemunho vivo do cuidado e da atenção que estamos chamados a mostrar a todas as pessoas, especialmente aos idosos, aos jovens e aos mais vulneráveis”. “Todos sabemos que a doença traz sempre consigo grandes interrogações. A nossa primeira reacção pode ser a de nos rebelarmos e até viver momentos de desconcerto e desolação. É o grito de dor, e é bom que assim seja: o próprio Jesus sofreu isso e fê-lo”.

 

No termo da sua visita e antes de partir para o Japão, Francisco, evocando os desafios do país e do mundo perante responsáveis de diferentes religiões (budistas, hindus, muçulmanos, sikhs) e confissões cristãs, voltou a apelar à cooperação inter-religiosa. “Os rápidos progressos, prometendo aparentemente um mundo melhor, coexistem com a persistência trágica de conflitos: migrações, expatriações, fomes e guerras, sem contar a degradação e a destruição da nossa casa comum. Todas estas situações colocam-nos em alerta e lembram-nos que nenhuma região nem nenhuma parte da nossa família humana pode considerar-se ou construir-se como uma entidade estranha ou imunizada em relação aos outros”, impondo-se, portanto, a salvaguarda contra “a lógica do fechar-se em si mesmo” e a defesa da “lógica do encontro e do diálogo na reciprocidade”. Em ordem à “solução dos conflitos”, à “compreensão entre as pessoas” e à “salvaguarda da criação”, “as religiões, sem por isso renunciarem às suas características essenciais e às suas diferenças próprias, têm um enorme contributo a dar e a oferecer”. O Papa apelou aos responsáveis religiosos que “construam fundamentos sólidos, ancorados no respeito e no reconhecimento da dignidade das pessoas, na promoção de um humanismo integral capaz de reconhecer e de reclamar a defesa da nossa casa comum”.

 

Neste seu discurso, pronunciado na Universidade Chulalongkorn, do nome de um rei de Sião, primeiro chefe de Estado não cristão recebido, segundo o diário La Croix, no Vaticano em 1897, Francisco insistiu ainda na necessidade de “aceitar a exigência de defender a dignidade humana” e “respeitar o direito
à liberdade religiosa”. Numa Tailândia budista, onde os idosos são muito considerados, Francisco manifestou também a sua satisfação por ver “preservadas as raízes necessárias para que o vosso povo não desvaneça por detrás de slogans que acabam por esvaziar e hipotecar a alma das novas gerações. Continuai a fazer com que os mais  jovens descubram a bagagem cultural da sociedade em que vivem. Ajudai os jovens a descobrir a riqueza viva do passado e ir em busca das suas raízes, com vista ao seu crescimento e às escolhas que são chamados a fazer.”

 

Neste contexto de diálogo inter-religioso, Francisco insistiu na sua mensagem constante: “O missionário não é um mercenário da fé nem um gerador de prosélitos. A evangelização não consiste em somar o número de membros nem aparecer como poderosos, mas em abrir portas para viver e partilhar o abraço, misericordioso e que cura, de Deus Pai, que nos faz família.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 DEZ 2019

PROFUNDÍSSIMA E REVERENDÍSSIMA REFORMA

 

1. Participaram dois cardeais, duas dezenas de bispos, muitos fiéis, entre os quais o Presidente da República, na Sé de Braga completamente cheia. Foi no passado dia 10 deste mês de Novembro, na canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires, antigo arcebispo de Braga. Marcelo Rebelo de Sousa disse o essencial: “Foi um bispo reformador, pobre e amigo dos pobres, pastor, intelectual e, dos pontos de vista teológico e sociológico, um homem muito à frente do seu tempo.”

 

Nesse mesmo dia, o Papa Francisco, na recitação do Angelus, disse dele que foi “um grande evangelizador e pastor do seu povo”. Pessoalmente, não duvido de que, se vivesse hoje, Frei Bartolomeu dos Mártires seria um apoiante firme de Francisco e das suas reformas, de que foi aliás precursor. Se vivesse hoje, aplaudiria, com todo o coração e inteligência, Francisco, pois foi com um Papa como ele que terá sonhado. Não se pode esquecer que, no encerramento do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI ofereceu a cada um dos bispos uma das suas obras, o célebre Estímulo dos Pastores. Na sua essência, uma canonização só pode ter por finalidade apresentar um modelo de vida a seguir, e não há dúvida de que Frei Bartolomeu dos Mártires é um exemplo vivo de pastor para todos os pastores. Ele foi, pela sua vida e pela sua palavra, com desassombro e frontalidade, uma das figuras mais eminentes para a reforma de uma Igreja que, no século XVI, atravessava uma profundíssima crise. Não pregou só pela palavra, pregava pelo exemplo. Quando confrades dominicanos e outros o tentavam demover dos rigores que a si próprio se impunha, respondia: “Permanecerei contumaz numa única coisa: conservar-me-ei afastadíssimo de todo o fausto e esplendor da casa e da família. Hei-de manter como bispo a mesma humildade e cuidado do meu corpo, na mesa e coisas semelhantes, que observei como frade. Nenhuma força me desviará deste propósito.”

 

2. Nasceu em Lisboa, na freguesia dos Mártires, onde os pais, pessoas piedosas e abastadas, viviam, em 1514. Tornou-se dominicano e, convidado a assumir a arquidiocese de Braga, por três vezes disse não à rainha, reafirmando que renunciara às honrarias do mundo. Foi por obediência ao Provincial da Ordem que acabou por aceitar tornar-se arcebispo de Braga.

 

O poder não o deslumbrou. O seu biógrafo, Frei Luís de Sousa, conta que numa das suas visitas pastorais durante o Inverno — não se deve esquecer que, na altura, o território da Arquidiocese de Braga abrangia o que hoje são quatro Dioceses: Braga, Viana, Vila Real e Bragança — deparou com um miúdo que guardava o rebanho. “Ofereceu-se-lhe à vista, não longe do caminho, posto sobre um penedo alto e descoberto, ao vento e à chuva, um menino pobre e bem mal reparado de roupa, que vigiava umas ovelhinhas que, ao longe, andavam pastando. Notou o arcebispo a estância, o tempo, a idade, o vestido, a paciência do pobrezinho e viu juntamente que, ao pé do penedo, se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo. Movido de piedade, parou, chamou-o e disse-lhe que descesse abaixo, para a lapa, e fugisse da chuva, pois não tinha roupa bastante para esperar. — Isso não, respondeu o pastorinho, que em deixando de estar alerta e com olho aberto, vem o lobo e leva-me a ovelha, ou vem a raposa e mata-me o cordeiro.”

 

No caminho, comentou como este miúdo era exemplo para ele: “Este esfarrapadinho ensina Frei Bartolomeu a ser arcebispo. Este me avisa que não deixe de acudir e visitar as minhas ovelhas, por mais tempestades que fulmine o Céu. Que, se este, com tão pouco remédio para as passar, todavia não foge delas, respeitando o mandato do seu pai mais do que o seu descanso, que razão poderei eu dar se, por medo de adoecer ou padecer um pouco de frio, desamparar as ovelhas, cujo cuidado e vigia Cristo me confiou quando me fez pastor delas?”

 

A divisa que adoptou e sempre o norteou como bispo foi: “Ardere et Lucere” (Arder e Iluminar). E foi-lhe fiel, preocupando-se continuamente não só com as necessidades espirituais do seu rebanho mas também com as necessidades materiais, chegando a vestir e alimentar 400 pobres, distribuindo alimentos às famílias carenciadas e cuidando dos doentes.

 

3. Ficou famosa a sua presença na terceira e última fase do Concílio de Trento. E, aqui, sirvo-me da comunicação do académico Aires do Nascimento na Academia das Ciências de Lisboa.

 

Saiu de Braga em 1561, tendo percorrido 2200 km de Braga a Trento, durante 49 dias. A fama da sua participação no Concílio provém do seu exemplo de humildade, do seu saber teológico e do combate corajoso a favor das reformas que se impunha operar na Igreja. A trave mestra do seu pensamento era a instauração de “poder pastoral” por parte dos bispos, a partir da transformação do homem interior, despojado de honrarias e de bens materiais, “capaz de repartir as riquezas do corpo e da alma”. Não eram precisos mais dogmas: o que se impunha com urgência era a reforma eclesiástica, programada segundo “padrões de piedade e de mudança de costumes”. A caminho de Trento, foi-se apercebendo do descalabro em que mergulhara a cristandade, constatou que a crise da sua Diocese não era caso único, convencendo-se, por isso, cada vez mais, da urgência da reforma: com humildade, sentiu que — palavras dele — “está o mundo de maneira, cá, que convinha que andássemos todos descalços e com cilícios”.

 

Até o Papa quis ouvi-lo em privado, ainda que poucos tenham seguido os seus conselhos. Mas não hesitou em verberar a vaidade, o fausto e a ostentação dos eclesiásticos. Denunciou de modo veemente a Cúria Romana que, escreve Aires do Nascimento, “se burocratizou e se valia de expedientes para assegurar dinheiro que se tornara necessário para manter serviços inúteis”. Perante clivagens e críticas, não esmoreceu em zelo e apelava para o direito divino que opunha às tradições romanas: “Invocando autoridades consagradas, aos bispos que não cumpriam as suas obrigações pastorais, nomeadamente o dever de residência e de visitação, não hesitava em compará-los a meretrizes, por apenas se interessarem com usufruir de benefícios materiais.” Sobre as reformas urgentes e se os cardeais também precisavam delas, respondeu: “Vossas Senhorias ilustríssimas são as fontes de onde todos bebemos e por isso impõe-se uma profundíssima e reverendíssima reforma”.

 

Ainda sobre os cardeais escreveu: “Não se elejam senão aqueles que se destaquem pela excelência de vida e doutrina. Entre o seu número, escolham-se alguns maximamente idóneos que com o Papa governem a Igreja.” Quando lhe mostravam “os faustosos palácios e jardins que permitiriam convívio regalado, respondia que melhor fora preocupar-se com os pobres e que, mais que resguardar-se em edifícios sumptuosos, importava visitar e cuidar dos desamparados e acolhê-los nas dependências vazias.”

 

4. Pediu a renúncia, invocando 22 anos de serviço intenso, e o rei acedeu. No dia em que recebeu a autorização do Papa, regressou ao convento, para viver numa cela como se fosse o último dos frades. O povo chorou a sua partida, mas para ele era uma alegria: “Perdoai-me se me aparto de vós com alegria, porque é só porque sempre me achei indigno de ocupar a cadeira. Não me levam amores novos nem vos deixo para servir outro ou amar outra mais do que a vós, senão porque desejo que venha outro que supra os meus defeitos, emende as minhas faltas.”

 

Morreu em Viana do Castelo em 1590, tendo sido a formação do clero outra das suas preocupações fundamentais. Aires do Nascimento sintetiza: “Procurava viver na ascese de quem vivia do interior, mas sabia sobretudo inteirar-se dos mais necessitados (de corpo e de espírito), sem lhes regatear acolhimento... Dera ele testemunho de vida pelas demonstrações de humildade, de desprendimento pessoal e de piedade sincera para com Deus e de devoção para com os homens.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 NOV 2019

O B. I. DOS CRISTÃOS

 

1. No início do século XX, A. Loisy fez uma afirmação que é decisiva para a compreensão dos problemas dramáticos por que passa a Igreja: “Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, mas o que veio foi a Igreja”. Realmente, não se pode dizer que Jesus fundou a Igreja. Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador.

 

Jesus anunciou o Reino de Deus. E o que é o Reino de Deus? O próprio Jesus, na sua pessoa, na sua palavra, na sua vida, na sua morte e ressurreição. Ele é o Vivente em Deus para sempre. O que é que anunciou? Que Deus é Abbá, querido Pai, e também podemos e devemos dizer que é Mãe, Mãe querida. Como Pai e Mãe, Deus quer o bem, a alegria, a felicidade, a realização plena de todos os seus filhos e filhas e nem na morte os abandona: na morte, não se cai no nada, entra-se na plenitude da Vida. Foi essa fé que moveu Jesus, realizando, por palavras e obras, o Reino de Deus, o Reino da fraternidade, da paz, da solidariedade e da verdadeira liberdade, para todos, a começar pelos mais frágeis, abandonados, pobres, aflitos, marginalizados, desprezados, desvalorizados... Para Deus, todos valem infinitamente.

 

Muitos acreditaram em Jesus, cada vez mais homens e mulheres, através dos primeiros discípulos,  foram acreditando nEle e, através dEle, em Deus, no Deus de Jesus. E foram surgindo comunidades cristãs fraternas no mundo inteiro, realizando o Reino de Deus. Nelas, o amor era a lei suprema: “vede como se amam”, diziam os pagãos.

 

Evidentemente, com o tempo, foi-se impondo a necessidade de uma organização mínima para essas comunidades, a que chamaram Igrejas, e, depois, para  a Igreja toda, espalhada pelo mundo. Aí, foi-se instalando o perigo maior: a Igreja como organização foi sucumbindo, concretamente a partir de Constantino, à tentação de tornar-se uma instituição de poder cada vez mais poderosa, dominadora, centralizada, imperial. Contrariando a vontade de Jesus que tinha dito: “sois todos irmãos”, “quem quiser ser o maior torne-se servidor de todos”, seguindo o meu exemplo: “não vim para ser servido mas para servir”, a Igreja afirmou-se como hierarquia, com duas classes: clérigos e leigos, os que mandam e os que obedecem. A situação agravou-se com a reforma gregoriana e a romanização, como se lê no famoso Dictatus Papae, do Papa Gregório VII (século XI): “A Igreja romana foi fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés todos os príncipes beijam.” Com esta concepção imperial surgiu também a corte, o fausto, as vestimentas de luxo (ainda hoje os cardeais são chamados os purpurados) e dignidades e títulos que Jesus não reconheceria: Eminência, Excelência Reverendíssima, Monsenhor, etc. E as celebrações da Eucaristia, que deveriam ser celebrações de família e em família, foram em parte substituídas por Pontificais, nos quais há muito dos rituais das cortes dos reis... O clericalismo e o carreirismo avançaram em crescendo e foi-se impondo um hierarcocentrismo, já que, como escreveu o Papa Pio X, fora da hierarquia, dos clérigos, o resto dos fiéis tem como única missão “aceitar ser governado e obedecer”.

 

2. O Concílio Vaticano II foi um dos acontecimentos mais importantes (para De Gaulle, o mais importante) do século XX, ao recentrar a Igreja em Jesus e no Evangelho. Mas essa Primavera foi curta, já que rapidamente veio o Inverno.

 

Para retomar a Primavera, chegou o Papa Francisco, um Papa cristão e um líder político-moral global, um dos mais influentes e mais amados, se não o mais amado. Não se esqueceu dos pobres; anuncia  e faz caminhos a favor da justiça, da fraternidade e da paz, dos “três T”: tecto, terra, trabalho; combate o capitalismo desenfreado e desregulado, o ídolo que mata; é simples, humano, dá risadas, beija, consola, vai ao encontro dos desafortunados e entrega-lhes a esperança; insiste no diálogo ecuménico e inter-religioso; não condenou teólogos nem tolheu a liberdade de pensar a fé; não tem medo nem sequer da morte, porque tem fé e sabe que é amado por Deus... Anuncia por palavras e obras o Reino de Deus, a Boa Nova de Jesus, e quer que a Igreja — a Igreja são todos os baptizados — faça o mesmo. Por isso, declara que a corte, o clericalismo e o carreirismo são “a peste” do papado e da Igreja. Uma reforma funda da Cúria está a caminho, o mesmo acontecendo com o Banco do Vaticano.

 

Nuclear para a sua revolução são a descentralização e o caminho sinodal (caminhar juntos e em conjunto) da Igreja local e universal. Aí está o Sínodo para a Amazónia, um mini-Vaticano II,  que abre hoje em Roma e estará  activo até 27 deste mês. Dada a sua importância decisiva, pois será marca determinante deste pontificado, dedicar-lhe-ei a crónica do próximo Domingo.

 

É natural que Francisco tenha adversários, opositores e mesmo inimigos, dentro e fora da Igreja, que o acusam até de heresia. Forçam as acusações para que ele se demita. Mas ele não tem medo e não resigna. E também não há razões para temer um cisma. Como disse recentemente numa entrevista o cardeal alemão Walter Kasper, teólogo eminente, grande amigo e defensor de Francisco — “Eu estou encantado com este Papa. Penso que ele é o Papa preciso para este momento da história do mundo” —, “os que agitam o espantalho do cisma são pequenos grupos que estão abertamente contra o Papa, mas é preciso saber e ter em conta que são poucos, muito poucos, embora façam muito ruído”. Acrescentou: “O Papa continua a ter muitíssima força. Tem um dinamismo interior que o empurra para seguir adiante e não tem medo das críticas que circulam contra ele, inclusivamente dentro do mundo católico. Segue o seu caminho e está muito bem, mesmo fisicamente, para um homem de 82 anos. E a prova está em que continua a trabalhar incansavelmente.” E não há o perigo de voltar atrás?, perguntou o jornalista José Manuel Vidal. Resposta: “Penso que no próximo conclave não se pode eleger um Papa contrário. As pessoas não aceitariam. Não é possível a marcha atrás, não é possível. As pessoas não aceitariam isso, porque querem um Papa normal, humano e não um Papa imperial.”  

 

Neste contexto, deve-se sublinhar a importância da criação, ontem, de novos cardeais, incluindo o português José Tolentino Calaça de Mendonça. Com essa criação, Francisco assegura a sua sucessão. De facto, a partir de ontem, a maioria dos cardeais eleitores foram nomeados por ele próprio: há agora 128,  67 criados por ele, 42 por Bento XVI e 19 por João Paulo II. Só que é decisivo, digo eu, que não se deixem levar por lóbis (o Papa também não gosta de lóbis) e sigam o bilhete de identidade dos cristãos, descrito por Francisco na igreja de Rakovski, Bulgária, num diálogo com crianças que tinham acabado de receber a Primeira Comunhão. Disse então: “o nosso documento de identidade” é este: “Deus é nosso Pai, Jesus é nosso Irmão, a Igreja é nossa família, nós somos irmãos, a nossa lei é o amor. E o nosso apelido é cristãos:”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 OUT 2019

DEUS SEM MUNDO, MUNDO SEM DEUS

 

1. Segundo um estudo da Universidade de St. Mary de Londres (2014-2016), em 12 países europeus, a maioria dos jovens entre os 16 e os 29 anos admitem que não são crentes e que nunca ou quase nunca vão à igreja ou rezam. A República Checa é o país menos religioso da Europa: 91% dos jovens confessam não ter qualquer filiação religiosa. Seguem-se a Estónia, a Suécia, os Países Baixos, onde essa percentagem dos sem religião fica entre os 70% e os 80%. Também noutros países se nota a queda rápida da religião: na França, são 64% a admitir não serem crentes, na Espanha, 55% declaram que não confessam qualquer religião. Frente a estes dados, o responsável pelo estudo, Stephen Bullivant, afirmou que “a religião está moribunda” na Europa.

 

Na Alemanha e em Portugal, a percentagem de não crentes desce para 45% e 42%, respectivamente. Entre os países mais religiosos, estão a Polónia, onde só 17% se confessam não crentes, seguindo-se a Lituânia com 25%.

 

Também a prática religiosa está em crise. Só na Polónia, Portugal e Irlanda mais de 10% dos inquiridos admitiram que iam à Missa pelo menos uma vez por semana. Mas no Reino Unido, França, Bélgica e Espanha, entre 56% e 60% disseram que nunca iam à igreja e entre 63% e 66% que nunca rezam. Logicamente, na República Checa, 70% afirmam nunca ter ido a uma celebração religiosa e 80% nunca rezam.

 

2. Onde se encontram as razões para esta situação que caminha para uma Europa pós-cristã? As explicações são múltiplas. Mas chamo a atenção para a observação que o grande teólogo Yves Congar, primeiro condenado e, mais tarde, feito cardeal, teve já em 1935: “A uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião.”

 

Outro grande teólogo, Philippe Roqueplo, demonstrou essa ausência do mundo na reflexão teológica e, consequentemente, na vivência da vida cristã. Fê-la no famoso e monumental Dictionnaire de Théologie Catholique, elaborado entre 1903 e 1950, em 22 volumes. Ele constatou que nesse Dicionário, que deveria abarcar “todas as questões que interessam ao teólogo”, havia ausências de temas fundamentais para a existência humana. Assim, quando se procura Amizade, o termo não consta; Arte: um longo artigo sobre a arte cristã; Beleza: nada; Ciência: um longo artigo sobre ciência sagrada, ciência de Deus, ciência dos anjos e das almas separadas, ciência de Cristo, mas sobre a ciência como a entendemos, nada; Economia: nada; Emprego: nada; Família: nada; História: nada; Leigo e laicado: nada; Mal: vinte colunas; Mulher: nada; Pessoa: remete para hipóstase; Poder: um artigo com cento e três colunas sobre o poder do Papa na ordem temporal; Política: nada; Profano: nada; Profissão: um artigo sobre profissão de fé; Técnica: nada; Trabalho: nada; Vida: um artigo sobre a vida eterna...

 

3. Não há dúvida: Deus tem a ver com o sentido último e a salvação. Como escreveu L. Wittgenstein, um dos maiores filósofos do século XX, “crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus quer dizer que a vida tem um sentido.” Foi neste contexto que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer, escreveu a Ida, a mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não abandonasse a ideia de Deus: “Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa.” Numa longa entrevista concedida ao jornal Le Monde, em 2017, Edgar Morin, constatando que a Humanidade se sente perdida, afirmou: “O mito da Europa é débil. O mito da globalização feliz está em zero. O mito da euforia do transhumanismo só está presente entre os tecnocratas. Encontramo-nos num vazio histórico cheio de incertezas e de angústias. Só um projecto de via salvífica poderia ressuscitar uma esperança que não seja ilusão.”

 

4. A pergunta é: onde e como encontrar essa via de salvação? Todos, incluindo a Igreja, e a Igreja de modo especial, são convocados para encontrar a resposta a esta pergunta decisiva.

 

Sobre a marginalização da Igreja, concretamente na Europa, escrevia recentemente o teólogo José M. Castillo: “A sociedade ‘descristianiza-se’ a uma velocidade e até a níveis que impressionam quem, pela idade e pelas recordações de família, tem a sensação de estar a viver numa sociedade que, há umas décadas, não podia imaginar”. Mas, afinal, porquê?, qual a razão? Não está a Igreja a ser marginalizada, porque ela própria vive à margem? Castillo acrescenta: “Uma Igreja, que vive à margem da sociedade, é uma Igreja que se não relaciona com a ‘realidade’, mas que se relaciona com a ‘representação da realidade’, que a própria Igreja elabora para si, segundo os seus interesses e conveniência. Se a Igreja se situou na “margem” da vida e da sociedade, pretendemos, a partir de fora da sociedade, influenciá-la?” “Se a Igreja não pôde assinar e fazer sua a Declaração dos Direitos Humanos, com que autoridade e com que credibilidade pode falar de amor à humanidade?”

 

5. Pensando nas relações entre Deus e o mundo, o mundo e Deus, o aquém e o Além, se se não quiser mentir a si próprio nem aos outros, é inevitável virem à ideia estas palavras célebres de Immanuel Kant: “A praxis deve ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 JUN 2019

"MOTU PROPRIO" ANTI-ABUSOS

 

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação “abusos sexuais, de poder e de consciência”. Também diz, com razão, que a base é o “clericalismo”, julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

 

 Felizmente, há hoje um alerta da opinião pública e, por isso, Francisco, em vez de condenar ou atribuir outras intenções aos meios de comunicação social, agradece, pois foi o meio para que também a Igreja acordasse do seu sono sacrílego.

 

E, aí, Francisco tomou uma iniciativa inédita e histórica, convocando uma Cimeira para o Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado. Foi uma Cimeira com 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, bispos representando as Igrejas católicas orientais, alguns membros da Cúria, representantes dos superiores e das superioras gerais de ordens e congregações religiosas, alguns peritos e leigos.

 

O Papa queria, em primeiro lugar, que se tomasse consciência da situação e do sofrimento incomensurável causado, que fica para a vida. E que se tomasse medidas concretas, de tal modo que se pudesse constatar um antes e um depois desta Cimeira verdadeiramente global e representativa da Igreja universal e nos seus vários níveis. Os três dias estiveram sob o lema tríplice: “responsabilidade”, “prestação de contas”, “transparência”. O Papa quer — não se trata de mero desejo — implantar “tolerância zero”.

 

2. Para implantar essa “tolerância zero” e pôr fim a esta catástrofe na Igreja, foi publicado, no passado dia 9 de Maio, o Motu Proprio (Decreto de iniciativa papal), que entra em vigor no dia 1 de Junho. Nesta Carta Apostólica, com o título “Vos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo), o Papa Francisco decreta medidas concretas contra a pedofilia na Igreja.

 

Estas normas contra os abusadores e os encobridores impõem-se, porque, escreve Francisco, “o delito de abuso sexual ofende Nosso Senhor, causa danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e prejudica a comunidade dos fiéis.”

 

Os clérigos e religiosos ficam obrigados (não se trata de mera obrigação moral, mas legal) a denunciar os abusos aos superiores, bem como a informá-los sobre as omissões e encobrimentos na sua gestão. Todas as Dioceses do mundo têm a obrigação de criar no prazo de um ano um ou mais sistemas estáveis e de fácil acesso ao público, para que, com facilidade, todos possam apresentar informações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos e o seu encobrimento. O documento ratifica a obrigação de colaborar com a justiça civil dos países. Aliás, “estas normas aplicam-se sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada lugar por leis do Estado, em particular as relativas a eventuais obrigações de informar as autoridades civis competentes”. Para lá do assédio e da violência contra menores (menos de 18 anos) e adultos vulneráveis, o texto inclui a violência sexual e o assédio que provêm do abuso de autoridade, bem como a posse de pornografia infantil e qualquer caso de violência contra as religiosas por parte de clérigos e ainda os casos de assédio a seminaristas ou noviços maiores de idade. Impõe a protecção dos denunciantes e das vítimas: quem denuncia abusos não pode ser objecto de represálias ou discriminação por ter informado; as vítimas e suas famílias serão tratadas com dignidade e respeito e devem receber a devida e adequada assistência espiritual, médica e psicológica; é preciso atender também ao problema das vítimas que no passado foram reduzidas ao silêncio. Estas normas aplicam-se à Igreja universal. Solicita-se vivamente a colaboração dos leigos, que podem ter capacidades e competências que os clérigos não dominam. Evidentemente, reafirma-se o princípio da presunção de inocência da pessoa acusada e o segredo da confissão deve manter-se como inviolável. Como escreve o Papa, “para que estes casos, em todas as suas formas, nunca mais aconteçam, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por acções concretas que envolvam todos os membros da Igreja.”

 

3. Na apresentação do documento esteve também Charles Scicluna, Arcebispo de Malta e Secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, considerado o homem forte do Papa na temática anti-abusos. São suas estas declarações na altura: “Ninguém com responsabilidade na Igreja está acima da lei. Agora temos uma lei universal que determina as etapas fundamentais para a investigação de um membro eclesiástico, Bispo ou Superior Maior, religioso ou religiosa. Acabou a imunidade.”

 

Já depois da publicação do Motu Proprio, rebentou na Polónia mais um escândalo: um documentário sobre abusos sexuais do clero polaco, com o título “Não digas a ninguém”, abalou a sociedade. A película sobre casos de menores abusados sexualmente por religiosos católicos provocou uma onda de reacções na Polónia, com mais de três milhões de visitas na internet nas primeiras horas que se seguiram à sua publicação. Entre as vítimas está também o testemunho de um homem que foi abusado aos 12 anos pelo sacerdote que foi confessor do ex-presidente polaco e líder histórico do Solidariedade, Lech Walesa.

 

Estou convicto de que agora se está no caminho certo para acabar com esta chaga terrível na Igreja. Espera-se que, limpa, a Igreja possa ficar mais livre para dar o seu contributo imprescindível no sentido de ajudar a limpar da mesma chaga tantas outras instituições, com a instituição familiar à cabeça, que no mundo infernalizam a vida de inocentes.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 19 MAI 2019

PAPA FRANCISCO, HERÉTICO?

 

1. Numa longa Carta Aberta de 20 páginas, publicada no LifeSiteNews, em tempo de Páscoa, mais concretamente, no dia 30 de Abril passado, um grupo de académicos, teólogos e padres católicos, dirige-se ao colégio dos bispos da Igreja Católica, invocando duas razões: acusar o Papa Francisco do “delito canónico de heresia” e requerer que os bispos façam o que é preciso para que ele renuncie publicamente a essas heresias ou se lhe aplique o estabelecido canonicamente, incluindo a remoção do cargo papal. E os bispos têm o dever de agir, porque “a acumulação de danos causados pelas palavras e actos do Papa Francisco ao longo de anos foi causa de uma das piores crises da História da Igreja Católica.”

 

2. Quais são essas heresias, por palavras e actos?

 

Em síntese, Francisco é acusado de aceitar que católicos divorciados e recasados civilmente possam ser admitidos, em certas circunstâncias, à comunhão; acusado de não se opor de forma mais contundente ao aborto; acusado de, no diálogo ecuménico com os luteranos, manifestar acordo com Lutero em alguns pontos; acusado de acolher os LGBT; acusado de afirmar que a diversidade de religiões não só é permitida por Deus, mas querida; acusado de ter dado cobertura e mesmo ter promovido personalidades que também dão cobertura a estas heresias, aceitam a moralidade de actos homossexuais e/ou praticaram ou encobriram abusos sexuais de menores...

 

Como exemplo de quem, em vez de ser condenado, foi promovido, aparece o arcebispo José Tolentino de Mendonça. Com estas palavras: “Em 2013, Mendonça louvou a teologia da Irmã Teresa Forcades, que defende a moralidade de actos homossexuais e declara que o aborto é um direito e que afirmou que ‘Jesus de Nazaré não codificou nem estabeleceu regras’. Francisco fê-lo arcebispo e chefe dos Arquivos Secretos do Vaticano. E também o escolheu para pregar o retiro quaresmal a ele e à Cúria em 2018.”

 

Outro exemplo: O cardeal Maradiaga, para lá de outras heresias, afirmou que “dentro do Povo de Deus, não há uma classificação dual dos cristãos — laicado e clero, essencialmente diferentes — e que, para se falar correctamente, não se deveria falar de clero e laicado, mas de comunidade e ministérios (serviços).”

 

3. Embora não seja possível aprofundar os problemas convenientemente, examinemos as “heresias”, que de modo nenhum o são, ao contrário do que pretendem esta e outras minorias no seio da Igreja, aguerridas contra o Papa Francisco. Pela ordem acima enunciada.

 

3.1. Quanto aos recasados. Francisco não abre as portas indiscriminadamente a todos. Diz que há casos e casos e cada caso deve ser examinado na sua concreção, com aconselhamento de um padre, com discernimento e atenção à consciência. Os cristãos não podem ser tratados infantilmente, como menores. Aliás, em 1972, o próprio professor Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, escreveu: O casamento é indissolúvel. Mas quando “um primeiro casamento se rompeu há já algum tempo” e de modo irreparável, e quando “um segundo enlace se vem manifestando como uma realidade moral e está presidido pela fé, especialmente no que concerne à educação dos filhos (de tal modo que a destruição deste segundo casamento acabaria por destroçar uma realidade moral e provocaria danos morais irreparáveis), neste caso — mediante uma via extrajudicial —, contando com o parecer do pároco e dos membros da comunidade, dever-se-ia consentir a aproximação da comunhão aos que assim vivem.” Penso que se deverá acrescentar uma outra condição: se se esclareceram as obrigações do primeiro casamento.

 

Porventura é heresia apelar para a gradualidade da verdade nestes casos? Quem estudou hermenêutica sabe que, evidentemente, na lógica, na matemática, nas ciências empírico-matemáticas, não há gradualidade, porque há o critério da verificabilidade experimental, e, por isso, não há uma ciência para homens, outra para mulheres, uma para budistas, outra para católicos ou ateus... Mas, na verdade pastoral, há essa gradualidade, pois é necessário atender a cada pessoa, às suas circunstâncias, à sua situação, à sua história...

 

Sim, Francisco disse que “muitos casais que coabitam têm a graça do matrimónio”. Ele apela para a importância do tempo e dos processos... Eu próprio tenho realizado o casamento de jovens casais que já coabitavam e que, num processo de maturação, concluíram que queriam realizar o seu casamento na Igreja. A realidade humana é histórica, processual...

 

3.2. Alguém de boa fé pode negar que Francisco se tem oposto permanente e veementemente ao aborto? Simplesmente, é necessário atender às pessoas e aos seus dramas. E a Igreja deve acolher e não excluir nem oprimir quem já sofre demais. Por isso, Francisco concedeu a todos os padres o que antes estava reservado aos bispos: na confissão, o poder de absolver também esse pecado.

 

3.3. Quanto a Francisco e Lutero. Claro que não é heresia afirmar que “as intenções de Martinho Lutero não estavam erradas. Era um reformador. Talvez alguns métodos não tenham sido correctos... E hoje luteranos e católicos, protestantes, todos nós concordamos com a doutrina da justificação. Neste ponto, que é muito importante, não errou”.


Quem anda minimamente atento sabe que o acordo oficial quanto à questão da justificação vem de antes do pontificado de Francisco. Realmente não é Deus que tem sempre a iniciativa? As nossas boas obras não são por graça de Deus? E quem pode negar que devemos estar gratos pelos “dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”? É sabido que Lutero não queria entrar em ruptura com a Igreja. Foi Roma que não entendeu nem quis superar a corrupção em que vivia. Os autores da Carta querem continuar a vender indulgências?

 

3.4. Francisco é acusado de receber homossexuais e dizer que quem os “descarta” não tem espírito cristão. É evidente que os homossexuais não podem ser discriminados. Hoje, é sabido que 8% da população tem orientação homossexual. Há quem os acuse de deboche, disto e daquilo. Pergunto: e entre os heterossexuais só há santos? O que o Papa não quer e eu também não é o lóbi gay nem outros lóbis...

 

Quanto aos transexuais, seja-me permitido apresentar um caso concreto. Fui procurado por uma pessoa nessa situação. Fiquei bem ciente de quanto se pode sofrer... e da complexidade que esta situação deverá implicar — biológica, psicológica, social e cultural —, exigindo um enorme rigor e seriedade na sua compreensão.

 

É urgente que também na Igreja se avance no conhecimento da ciência, da biologia, etc.

 

Aproveito para deixar uma palavra sobre uma questão hoje muito acesa e sobre a qual me pronuncio criticamente e Francisco também. Estou a falar da “ideologia do género”. Sim, conheço e aprovo a distinção entre sexo e género, no contexto dos chamados “gender studies” e do seu contributo. Oponho-me é à ideologia do género, quando se pretende que a identidade sexual é pura construção social; não é verdade, o biológico também intervém; assim, hoje, pela imagiologia cerebral, até sabemos que a configuração do cérebro masculino e feminino é diferente, com todas as consequências.

 

Francisco também se pronunciou sobre o tema, na obra Politique et société, resultado de doze encontros com Dominique Wolton, intelectual francês, laico, director de investigação no CNRS (Centro Nacional da Investigação Científica), especialista em comunicação. Nestes termos, Wolton: “A ideologia do género não é o mesmo problema. É um desvio sociológico. Consiste em dizer que os sexos são indiferenciados, e que é unicamente a sociedade que distribui o papel masculino ou o papel feminino. Terrível este determinismo. Não há nem natureza, nem cultura, nem destino, nem liberdade, resta apenas a determinação social. E, se és contra estes determinismos, chamam-te reaccionário. Dizem-te que adoptas as posições da Igreja. A deriva ideológica fez-se em vinte anos”. Francisco: “Isto é uma confusão crítica, neste momento. Disse-o um dia publicamente na Praça de São Pedro, ao falar sobre o casamento: ‘Há ideias novas e eu pergunto-me se estas novas ideias, como a ideologia do género, não assentam em última análise no medo das diferenças”. Wolton: “Uma negação das múltiplas formas da alteridade e da diferença?” Francisco: “Disse-o em forma de pergunta. E encorajo os investigadores a debruçarem-se sobre o assunto”. Wolton: “A ideologia do género é o risco de uma negação da diferença. Ora, a diferença não é só social. É muito mais complicado. Trata-se de uma forma de determinismo ao contrário: ao dizer-se que não há homens, que não há mulheres, que tudo depende da sociedade, na realidade cria-se uma forma de determinismo social”. Francisco: “Não quereria que se confundisse a minha posição sobre a atitude para com as pessoas homossexuais com a questão da teoria do género”.

 

Neste domínio, quero referir também a grande polémica por causa de acções sobre igualdade de género em escolas. Aqui, estou com Henrique Monteiro, quando escreve que é necessário distinguir: “Se as acções são apenas contra a discriminação de qualquer género e orientação, tudo bem. Mas, se acaso são para propagar a ideologia de género, que diz que nascemos sem ele e que o sexo biológico reprime a essência do nosso ser etc.... e tal... é caso para prudencialmente acabar com tal programa. Nem provas científicas nem razões substanciais existem. Apenas uma teimosia ideológica desnecessária.”

 

3.5. Francisco é acusado por ter assinado, juntamente com o Grande Imã da Mesquita Al-Azhar, em Abu Dhabi, o “Documento sobre a Fraternidade Humana”. Acusam-no concretamente por causa desta afirmação: “A liberdade é um direito de cada pessoa: cada indivíduo goza da liberdade de crença, pensamento, expressão e acção. O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e língua são queridos por Deus na sua Sabedoria.”

 

O que é que os autores da Carta querem? Que não haja liberdade religiosa? Querem o uniformismo? Não será a unidade na variedade a riqueza da vida, também no domínio religioso? Estou convicto de que Deus se revelou de modo definitivo e inultrapassável em Jesus. No entanto, o Jesus que disse: “Eu e o Pai somos um” também disse: “O Pai é maior do que eu.” O que é que isto quer dizer? Evidentemente, as religiões não são todas iguais, mas elas todas, na medida em que não sejam contra o Humanum, pelo contrário, o promovam, são caminhos para Deus, que está para lá de todas elas. Não se pode esquecer que as religiões não existem para elas mesmas, pois estão ao serviço de Deus e da Humanidade. E o Papa esforça-se no combate a favor da paz, concretamente com o islão moderado, a favor do diálogo inter-religioso. Sem afastar nem postergar a identidade cristã, evidentemente.

 

3.6. Quanto aos abusos sexuais, os críticos deviam ter vergonha. Houve porventura alguém que tenha feito mais do que o Papa Francisco para que se ponha termo a esse escândalo execrável na Igreja? Acaba, aliás, de publicar o Motu Proprio (Decreto papal) “Vos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo) que, na sequência da Cimeira de Fevereiro passado em Roma sobre a pedofilia na Igreja, ratifica com normas concretas para a Igreja universal a luta contra os abusos de menores e os seus encobridores. Será o tema da minha próxima crónica aqui.

 

3.7. Criticam o Papa também por causa do que disse o cardeal Maradiaga: que, na realidade, é melhor falar de comunidade e ministérios na Igreja do que de clero e laicado. Os críticos ainda não viram que enquanto baptizados, na Igreja, há uma real igualdade na dignidade, pois o padre, o bispo e o próprio Papa não são mais do que o leigo, todos são igualmente cristãos, embora com ministérios, serviços diferentes. Não há diferença essencial, ontológica, entre eles.

 

Julgo, sinceramente, que tudo se joga essencialmente logo no endereço da Carta, dirigida aos bispos nestes termos: Your Eminence, Your Beatitude, Your Excelence, ignorando que Jesus não se fez tratar por Sua Eminência Reverendíssima, Sua Excelência Reverendíssima... Jesus disse: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” e: “Sois todos irmãos”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 12 MAI 2019