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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FRANCISCO NA TAILÂNDIA: O DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO

 

Era um sonho desde os tempos da juventude: ser missionário no Japão. A vida não o permitiu, mas Francisco acabou por realizar em parte, na semana passada, esse sonho, ao visitar durante sete dias (19-26) a Tailândia e o Japão. A partir da Ásia, Francisco deixou mensagens decisivas para o mundo, acentuando, na Tailândia, a importância fundamental do diálogo inter-religioso, e, no Japão, condenando como crime imoral não só a guerra nuclear mas também a simples posse de armamento atómico.

 

Hoje, incidirei na mensagem a partir da Tailândia. O próprio Francisco, após o seu regresso a Roma, na passada Quarta-Feira, na audiência geral, resumiu a sua estada na Tailândia. “Na Tailândia, prestei homenagem à rica tradição espiritual e cultural do povo thai, o povo do belo sorriso. As pessoas estão sempre a sorrir. Animei o impulso pela harmonia entre as diversas componentes da nação, para que o desenvolvimento económico possa beneficiar a todos e se curem as feridas da exploração, especialmente de mulheres, de meninas e meninos, expostos à prostituição e ao tráfico. A religião budista é parte integrante da história e da vida deste povo, por isso fui visitar o Patriarca Supremo dos budistas, prosseguindo o caminho da estima recíproca, começada pelos meus predecessores, para que cresçam no mundo a compaixão e a fraternidade. Neste sentido, foi muito significativo o encontro ecuménico e inter-religioso, celebrado na maior Universidade do país.”

 

Há muitos anos que o famoso teólogo Hans Küng não se cansa de proclamar que “não haverá paz entre as nações sem paz entre as religiões” e não haverá paz entre as religiões sem conhecimento e reconhecimento mútuo e, consequentemente, diálogo.

 

Como não podia deixar de ser, Francisco fez do diálogo inter-religioso uma das marcas essenciais do seu pontificado, e isso ficou bem claro também nesta visita à Tailândia. Enquanto no sul do país um grave e sangrento conflito confronta separatistas muçulmanos e forças governamentais, insistiu na necessidade do diálogo inter-religioso como “serviço a favor da harmonia social na construção de sociedades justas, compassivas e inclusivas.”

 

Logo no primeiro dia da sua visita oficial, num acontecimento histórico, encontrou-se no templo budista Wat Ratchabophit com o Patriarca Supremo Somdet Phra Maha Munivong, chefe do budismo oficial tailandês, começando por lembrar que o encontro se inscrevia “dentro do caminho de reconhecimento mútuo” iniciado pelos predecessores, e convidando a “aumentar não só o respeito mas também a amizade entre as nossas comunidades”, cinquenta anos depois da primeira visita de um patriarca budista a Paulo VI, tendo João Paulo II visitado também aquele templo. “Pequenos passos que ajudam a testemunhar, não só nas nossas comunidades mas também no nosso mundo tão inclinado a gerar e propagar divisões e exclusões, que a cultura do encontro é possível”. Referiu os fundamentos do budismo, que fazem parte indelével da identidade dos tailandeses, com “o seu modo de reverenciar a vida e os seus anciãos, prosseguir um estilo de vida sóbrio baseado na contemplação, no desapego, no trabalho duro e na disciplina”, permitindo definir a Tailândia como “o povo do sorriso”. “Possibilidades como estas lembram-nos como é importante que as religiões se manifestem cada vez mais como faróis de esperança, promotoras e garantes de fraternidade”, agradecendo ao povo tailandês que “desde a chegada do cristianismo à Tailândia, há uns quatro séculos e meio, os católicos, embora sendo um grupo minoritário, tenham desfrutado da liberdade na prática religiosa e durante muitos anos vivido em harmonia com os seus irmãos e irmãs budistas”. Os responsáveis religiosos, lembrou, devem oferecer ao mundo “uma palavra de esperança capaz de alimentar e apoiar os que são sempre os mais afectados pelas divisões”. Pelo seu lado, reiterou o seu “compromisso pessoal e o de toda a Igreja a favor do fortalecimento do diálogo aberto e respeitoso ao serviço da paz e do bem-estar deste povo”. Assim, “poderemos estimular entre os fiéis das nossas religiões a elaboração de novas iniciativas de caridade, capazes de gerar e multiplicar projectos concretos no caminho da fraternidade, especialmente para os mais pobres e na relação com a nossa tão maltratada casa comum”, para contribuir para “a construção de uma cultura da compaixão, da fraternidade e do encontro tanto aqui como noutras partes do mundo.”

 

O Papa Francisco deu um exemplo concreto, visitando o hospital Saint-Louis, fundado em 1898 por um bispo francês, que o confiou às Irmãs de São Paulo de Chartres, e que testemunha, explicou, “o precioso serviço que a Igreja oferece ao povo tailandês”. Aí, deixou palavras de inexcedível empatia e humanidade. “Todos vós, membros desta comunidade terapêutica, sois discípulos missionários quando, olhando para um doente, aprendeis a chamá-lo pelo seu nome. Estai abertos ao imprevisível”. “Realizais uma das maiores obras de misericórdia, uma vez que o vosso compromisso vai muito para lá de um simples e louvável exercício de medicina. Deveis ir para lá, abertos ao imprevisível”. Deveis “receber e abraçar a vida conforme chega à urgência do hospital para ser atendida com piedade especial, que nasce do respeito e amor à dignidade de todos os seres humanos”. “Os vossos esforços e o trabalho das muitas instituições que representais são o testemunho vivo do cuidado e da atenção que estamos chamados a mostrar a todas as pessoas, especialmente aos idosos, aos jovens e aos mais vulneráveis”. “Todos sabemos que a doença traz sempre consigo grandes interrogações. A nossa primeira reacção pode ser a de nos rebelarmos e até viver momentos de desconcerto e desolação. É o grito de dor, e é bom que assim seja: o próprio Jesus sofreu isso e fê-lo”.

 

No termo da sua visita e antes de partir para o Japão, Francisco, evocando os desafios do país e do mundo perante responsáveis de diferentes religiões (budistas, hindus, muçulmanos, sikhs) e confissões cristãs, voltou a apelar à cooperação inter-religiosa. “Os rápidos progressos, prometendo aparentemente um mundo melhor, coexistem com a persistência trágica de conflitos: migrações, expatriações, fomes e guerras, sem contar a degradação e a destruição da nossa casa comum. Todas estas situações colocam-nos em alerta e lembram-nos que nenhuma região nem nenhuma parte da nossa família humana pode considerar-se ou construir-se como uma entidade estranha ou imunizada em relação aos outros”, impondo-se, portanto, a salvaguarda contra “a lógica do fechar-se em si mesmo” e a defesa da “lógica do encontro e do diálogo na reciprocidade”. Em ordem à “solução dos conflitos”, à “compreensão entre as pessoas” e à “salvaguarda da criação”, “as religiões, sem por isso renunciarem às suas características essenciais e às suas diferenças próprias, têm um enorme contributo a dar e a oferecer”. O Papa apelou aos responsáveis religiosos que “construam fundamentos sólidos, ancorados no respeito e no reconhecimento da dignidade das pessoas, na promoção de um humanismo integral capaz de reconhecer e de reclamar a defesa da nossa casa comum”.

 

Neste seu discurso, pronunciado na Universidade Chulalongkorn, do nome de um rei de Sião, primeiro chefe de Estado não cristão recebido, segundo o diário La Croix, no Vaticano em 1897, Francisco insistiu ainda na necessidade de “aceitar a exigência de defender a dignidade humana” e “respeitar o direito
à liberdade religiosa”. Numa Tailândia budista, onde os idosos são muito considerados, Francisco manifestou também a sua satisfação por ver “preservadas as raízes necessárias para que o vosso povo não desvaneça por detrás de slogans que acabam por esvaziar e hipotecar a alma das novas gerações. Continuai a fazer com que os mais  jovens descubram a bagagem cultural da sociedade em que vivem. Ajudai os jovens a descobrir a riqueza viva do passado e ir em busca das suas raízes, com vista ao seu crescimento e às escolhas que são chamados a fazer.”

 

Neste contexto de diálogo inter-religioso, Francisco insistiu na sua mensagem constante: “O missionário não é um mercenário da fé nem um gerador de prosélitos. A evangelização não consiste em somar o número de membros nem aparecer como poderosos, mas em abrir portas para viver e partilhar o abraço, misericordioso e que cura, de Deus Pai, que nos faz família.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 DEZ 2019

PROFUNDÍSSIMA E REVERENDÍSSIMA REFORMA

 

1. Participaram dois cardeais, duas dezenas de bispos, muitos fiéis, entre os quais o Presidente da República, na Sé de Braga completamente cheia. Foi no passado dia 10 deste mês de Novembro, na canonização de Frei Bartolomeu dos Mártires, antigo arcebispo de Braga. Marcelo Rebelo de Sousa disse o essencial: “Foi um bispo reformador, pobre e amigo dos pobres, pastor, intelectual e, dos pontos de vista teológico e sociológico, um homem muito à frente do seu tempo.”

 

Nesse mesmo dia, o Papa Francisco, na recitação do Angelus, disse dele que foi “um grande evangelizador e pastor do seu povo”. Pessoalmente, não duvido de que, se vivesse hoje, Frei Bartolomeu dos Mártires seria um apoiante firme de Francisco e das suas reformas, de que foi aliás precursor. Se vivesse hoje, aplaudiria, com todo o coração e inteligência, Francisco, pois foi com um Papa como ele que terá sonhado. Não se pode esquecer que, no encerramento do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI ofereceu a cada um dos bispos uma das suas obras, o célebre Estímulo dos Pastores. Na sua essência, uma canonização só pode ter por finalidade apresentar um modelo de vida a seguir, e não há dúvida de que Frei Bartolomeu dos Mártires é um exemplo vivo de pastor para todos os pastores. Ele foi, pela sua vida e pela sua palavra, com desassombro e frontalidade, uma das figuras mais eminentes para a reforma de uma Igreja que, no século XVI, atravessava uma profundíssima crise. Não pregou só pela palavra, pregava pelo exemplo. Quando confrades dominicanos e outros o tentavam demover dos rigores que a si próprio se impunha, respondia: “Permanecerei contumaz numa única coisa: conservar-me-ei afastadíssimo de todo o fausto e esplendor da casa e da família. Hei-de manter como bispo a mesma humildade e cuidado do meu corpo, na mesa e coisas semelhantes, que observei como frade. Nenhuma força me desviará deste propósito.”

 

2. Nasceu em Lisboa, na freguesia dos Mártires, onde os pais, pessoas piedosas e abastadas, viviam, em 1514. Tornou-se dominicano e, convidado a assumir a arquidiocese de Braga, por três vezes disse não à rainha, reafirmando que renunciara às honrarias do mundo. Foi por obediência ao Provincial da Ordem que acabou por aceitar tornar-se arcebispo de Braga.

 

O poder não o deslumbrou. O seu biógrafo, Frei Luís de Sousa, conta que numa das suas visitas pastorais durante o Inverno — não se deve esquecer que, na altura, o território da Arquidiocese de Braga abrangia o que hoje são quatro Dioceses: Braga, Viana, Vila Real e Bragança — deparou com um miúdo que guardava o rebanho. “Ofereceu-se-lhe à vista, não longe do caminho, posto sobre um penedo alto e descoberto, ao vento e à chuva, um menino pobre e bem mal reparado de roupa, que vigiava umas ovelhinhas que, ao longe, andavam pastando. Notou o arcebispo a estância, o tempo, a idade, o vestido, a paciência do pobrezinho e viu juntamente que, ao pé do penedo, se abria uma lapa que podia ser bastante abrigo para o tempo. Movido de piedade, parou, chamou-o e disse-lhe que descesse abaixo, para a lapa, e fugisse da chuva, pois não tinha roupa bastante para esperar. — Isso não, respondeu o pastorinho, que em deixando de estar alerta e com olho aberto, vem o lobo e leva-me a ovelha, ou vem a raposa e mata-me o cordeiro.”

 

No caminho, comentou como este miúdo era exemplo para ele: “Este esfarrapadinho ensina Frei Bartolomeu a ser arcebispo. Este me avisa que não deixe de acudir e visitar as minhas ovelhas, por mais tempestades que fulmine o Céu. Que, se este, com tão pouco remédio para as passar, todavia não foge delas, respeitando o mandato do seu pai mais do que o seu descanso, que razão poderei eu dar se, por medo de adoecer ou padecer um pouco de frio, desamparar as ovelhas, cujo cuidado e vigia Cristo me confiou quando me fez pastor delas?”

 

A divisa que adoptou e sempre o norteou como bispo foi: “Ardere et Lucere” (Arder e Iluminar). E foi-lhe fiel, preocupando-se continuamente não só com as necessidades espirituais do seu rebanho mas também com as necessidades materiais, chegando a vestir e alimentar 400 pobres, distribuindo alimentos às famílias carenciadas e cuidando dos doentes.

 

3. Ficou famosa a sua presença na terceira e última fase do Concílio de Trento. E, aqui, sirvo-me da comunicação do académico Aires do Nascimento na Academia das Ciências de Lisboa.

 

Saiu de Braga em 1561, tendo percorrido 2200 km de Braga a Trento, durante 49 dias. A fama da sua participação no Concílio provém do seu exemplo de humildade, do seu saber teológico e do combate corajoso a favor das reformas que se impunha operar na Igreja. A trave mestra do seu pensamento era a instauração de “poder pastoral” por parte dos bispos, a partir da transformação do homem interior, despojado de honrarias e de bens materiais, “capaz de repartir as riquezas do corpo e da alma”. Não eram precisos mais dogmas: o que se impunha com urgência era a reforma eclesiástica, programada segundo “padrões de piedade e de mudança de costumes”. A caminho de Trento, foi-se apercebendo do descalabro em que mergulhara a cristandade, constatou que a crise da sua Diocese não era caso único, convencendo-se, por isso, cada vez mais, da urgência da reforma: com humildade, sentiu que — palavras dele — “está o mundo de maneira, cá, que convinha que andássemos todos descalços e com cilícios”.

 

Até o Papa quis ouvi-lo em privado, ainda que poucos tenham seguido os seus conselhos. Mas não hesitou em verberar a vaidade, o fausto e a ostentação dos eclesiásticos. Denunciou de modo veemente a Cúria Romana que, escreve Aires do Nascimento, “se burocratizou e se valia de expedientes para assegurar dinheiro que se tornara necessário para manter serviços inúteis”. Perante clivagens e críticas, não esmoreceu em zelo e apelava para o direito divino que opunha às tradições romanas: “Invocando autoridades consagradas, aos bispos que não cumpriam as suas obrigações pastorais, nomeadamente o dever de residência e de visitação, não hesitava em compará-los a meretrizes, por apenas se interessarem com usufruir de benefícios materiais.” Sobre as reformas urgentes e se os cardeais também precisavam delas, respondeu: “Vossas Senhorias ilustríssimas são as fontes de onde todos bebemos e por isso impõe-se uma profundíssima e reverendíssima reforma”.

 

Ainda sobre os cardeais escreveu: “Não se elejam senão aqueles que se destaquem pela excelência de vida e doutrina. Entre o seu número, escolham-se alguns maximamente idóneos que com o Papa governem a Igreja.” Quando lhe mostravam “os faustosos palácios e jardins que permitiriam convívio regalado, respondia que melhor fora preocupar-se com os pobres e que, mais que resguardar-se em edifícios sumptuosos, importava visitar e cuidar dos desamparados e acolhê-los nas dependências vazias.”

 

4. Pediu a renúncia, invocando 22 anos de serviço intenso, e o rei acedeu. No dia em que recebeu a autorização do Papa, regressou ao convento, para viver numa cela como se fosse o último dos frades. O povo chorou a sua partida, mas para ele era uma alegria: “Perdoai-me se me aparto de vós com alegria, porque é só porque sempre me achei indigno de ocupar a cadeira. Não me levam amores novos nem vos deixo para servir outro ou amar outra mais do que a vós, senão porque desejo que venha outro que supra os meus defeitos, emende as minhas faltas.”

 

Morreu em Viana do Castelo em 1590, tendo sido a formação do clero outra das suas preocupações fundamentais. Aires do Nascimento sintetiza: “Procurava viver na ascese de quem vivia do interior, mas sabia sobretudo inteirar-se dos mais necessitados (de corpo e de espírito), sem lhes regatear acolhimento... Dera ele testemunho de vida pelas demonstrações de humildade, de desprendimento pessoal e de piedade sincera para com Deus e de devoção para com os homens.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 NOV 2019

O B. I. DOS CRISTÃOS

 

1. No início do século XX, A. Loisy fez uma afirmação que é decisiva para a compreensão dos problemas dramáticos por que passa a Igreja: “Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, mas o que veio foi a Igreja”. Realmente, não se pode dizer que Jesus fundou a Igreja. Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador.

 

Jesus anunciou o Reino de Deus. E o que é o Reino de Deus? O próprio Jesus, na sua pessoa, na sua palavra, na sua vida, na sua morte e ressurreição. Ele é o Vivente em Deus para sempre. O que é que anunciou? Que Deus é Abbá, querido Pai, e também podemos e devemos dizer que é Mãe, Mãe querida. Como Pai e Mãe, Deus quer o bem, a alegria, a felicidade, a realização plena de todos os seus filhos e filhas e nem na morte os abandona: na morte, não se cai no nada, entra-se na plenitude da Vida. Foi essa fé que moveu Jesus, realizando, por palavras e obras, o Reino de Deus, o Reino da fraternidade, da paz, da solidariedade e da verdadeira liberdade, para todos, a começar pelos mais frágeis, abandonados, pobres, aflitos, marginalizados, desprezados, desvalorizados... Para Deus, todos valem infinitamente.

 

Muitos acreditaram em Jesus, cada vez mais homens e mulheres, através dos primeiros discípulos,  foram acreditando nEle e, através dEle, em Deus, no Deus de Jesus. E foram surgindo comunidades cristãs fraternas no mundo inteiro, realizando o Reino de Deus. Nelas, o amor era a lei suprema: “vede como se amam”, diziam os pagãos.

 

Evidentemente, com o tempo, foi-se impondo a necessidade de uma organização mínima para essas comunidades, a que chamaram Igrejas, e, depois, para  a Igreja toda, espalhada pelo mundo. Aí, foi-se instalando o perigo maior: a Igreja como organização foi sucumbindo, concretamente a partir de Constantino, à tentação de tornar-se uma instituição de poder cada vez mais poderosa, dominadora, centralizada, imperial. Contrariando a vontade de Jesus que tinha dito: “sois todos irmãos”, “quem quiser ser o maior torne-se servidor de todos”, seguindo o meu exemplo: “não vim para ser servido mas para servir”, a Igreja afirmou-se como hierarquia, com duas classes: clérigos e leigos, os que mandam e os que obedecem. A situação agravou-se com a reforma gregoriana e a romanização, como se lê no famoso Dictatus Papae, do Papa Gregório VII (século XI): “A Igreja romana foi fundada só por Jesus Cristo. Por isso, só o Romano Pontífice é digno de ser chamado universal. Só ele é digno de usar insígnias imperiais; ele é o único homem cujos pés todos os príncipes beijam.” Com esta concepção imperial surgiu também a corte, o fausto, as vestimentas de luxo (ainda hoje os cardeais são chamados os purpurados) e dignidades e títulos que Jesus não reconheceria: Eminência, Excelência Reverendíssima, Monsenhor, etc. E as celebrações da Eucaristia, que deveriam ser celebrações de família e em família, foram em parte substituídas por Pontificais, nos quais há muito dos rituais das cortes dos reis... O clericalismo e o carreirismo avançaram em crescendo e foi-se impondo um hierarcocentrismo, já que, como escreveu o Papa Pio X, fora da hierarquia, dos clérigos, o resto dos fiéis tem como única missão “aceitar ser governado e obedecer”.

 

2. O Concílio Vaticano II foi um dos acontecimentos mais importantes (para De Gaulle, o mais importante) do século XX, ao recentrar a Igreja em Jesus e no Evangelho. Mas essa Primavera foi curta, já que rapidamente veio o Inverno.

 

Para retomar a Primavera, chegou o Papa Francisco, um Papa cristão e um líder político-moral global, um dos mais influentes e mais amados, se não o mais amado. Não se esqueceu dos pobres; anuncia  e faz caminhos a favor da justiça, da fraternidade e da paz, dos “três T”: tecto, terra, trabalho; combate o capitalismo desenfreado e desregulado, o ídolo que mata; é simples, humano, dá risadas, beija, consola, vai ao encontro dos desafortunados e entrega-lhes a esperança; insiste no diálogo ecuménico e inter-religioso; não condenou teólogos nem tolheu a liberdade de pensar a fé; não tem medo nem sequer da morte, porque tem fé e sabe que é amado por Deus... Anuncia por palavras e obras o Reino de Deus, a Boa Nova de Jesus, e quer que a Igreja — a Igreja são todos os baptizados — faça o mesmo. Por isso, declara que a corte, o clericalismo e o carreirismo são “a peste” do papado e da Igreja. Uma reforma funda da Cúria está a caminho, o mesmo acontecendo com o Banco do Vaticano.

 

Nuclear para a sua revolução são a descentralização e o caminho sinodal (caminhar juntos e em conjunto) da Igreja local e universal. Aí está o Sínodo para a Amazónia, um mini-Vaticano II,  que abre hoje em Roma e estará  activo até 27 deste mês. Dada a sua importância decisiva, pois será marca determinante deste pontificado, dedicar-lhe-ei a crónica do próximo Domingo.

 

É natural que Francisco tenha adversários, opositores e mesmo inimigos, dentro e fora da Igreja, que o acusam até de heresia. Forçam as acusações para que ele se demita. Mas ele não tem medo e não resigna. E também não há razões para temer um cisma. Como disse recentemente numa entrevista o cardeal alemão Walter Kasper, teólogo eminente, grande amigo e defensor de Francisco — “Eu estou encantado com este Papa. Penso que ele é o Papa preciso para este momento da história do mundo” —, “os que agitam o espantalho do cisma são pequenos grupos que estão abertamente contra o Papa, mas é preciso saber e ter em conta que são poucos, muito poucos, embora façam muito ruído”. Acrescentou: “O Papa continua a ter muitíssima força. Tem um dinamismo interior que o empurra para seguir adiante e não tem medo das críticas que circulam contra ele, inclusivamente dentro do mundo católico. Segue o seu caminho e está muito bem, mesmo fisicamente, para um homem de 82 anos. E a prova está em que continua a trabalhar incansavelmente.” E não há o perigo de voltar atrás?, perguntou o jornalista José Manuel Vidal. Resposta: “Penso que no próximo conclave não se pode eleger um Papa contrário. As pessoas não aceitariam. Não é possível a marcha atrás, não é possível. As pessoas não aceitariam isso, porque querem um Papa normal, humano e não um Papa imperial.”  

 

Neste contexto, deve-se sublinhar a importância da criação, ontem, de novos cardeais, incluindo o português José Tolentino Calaça de Mendonça. Com essa criação, Francisco assegura a sua sucessão. De facto, a partir de ontem, a maioria dos cardeais eleitores foram nomeados por ele próprio: há agora 128,  67 criados por ele, 42 por Bento XVI e 19 por João Paulo II. Só que é decisivo, digo eu, que não se deixem levar por lóbis (o Papa também não gosta de lóbis) e sigam o bilhete de identidade dos cristãos, descrito por Francisco na igreja de Rakovski, Bulgária, num diálogo com crianças que tinham acabado de receber a Primeira Comunhão. Disse então: “o nosso documento de identidade” é este: “Deus é nosso Pai, Jesus é nosso Irmão, a Igreja é nossa família, nós somos irmãos, a nossa lei é o amor. E o nosso apelido é cristãos:”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 OUT 2019

DEUS SEM MUNDO, MUNDO SEM DEUS

 

1. Segundo um estudo da Universidade de St. Mary de Londres (2014-2016), em 12 países europeus, a maioria dos jovens entre os 16 e os 29 anos admitem que não são crentes e que nunca ou quase nunca vão à igreja ou rezam. A República Checa é o país menos religioso da Europa: 91% dos jovens confessam não ter qualquer filiação religiosa. Seguem-se a Estónia, a Suécia, os Países Baixos, onde essa percentagem dos sem religião fica entre os 70% e os 80%. Também noutros países se nota a queda rápida da religião: na França, são 64% a admitir não serem crentes, na Espanha, 55% declaram que não confessam qualquer religião. Frente a estes dados, o responsável pelo estudo, Stephen Bullivant, afirmou que “a religião está moribunda” na Europa.

 

Na Alemanha e em Portugal, a percentagem de não crentes desce para 45% e 42%, respectivamente. Entre os países mais religiosos, estão a Polónia, onde só 17% se confessam não crentes, seguindo-se a Lituânia com 25%.

 

Também a prática religiosa está em crise. Só na Polónia, Portugal e Irlanda mais de 10% dos inquiridos admitiram que iam à Missa pelo menos uma vez por semana. Mas no Reino Unido, França, Bélgica e Espanha, entre 56% e 60% disseram que nunca iam à igreja e entre 63% e 66% que nunca rezam. Logicamente, na República Checa, 70% afirmam nunca ter ido a uma celebração religiosa e 80% nunca rezam.

 

2. Onde se encontram as razões para esta situação que caminha para uma Europa pós-cristã? As explicações são múltiplas. Mas chamo a atenção para a observação que o grande teólogo Yves Congar, primeiro condenado e, mais tarde, feito cardeal, teve já em 1935: “A uma religião sem mundo sucedeu um mundo sem religião.”

 

Outro grande teólogo, Philippe Roqueplo, demonstrou essa ausência do mundo na reflexão teológica e, consequentemente, na vivência da vida cristã. Fê-la no famoso e monumental Dictionnaire de Théologie Catholique, elaborado entre 1903 e 1950, em 22 volumes. Ele constatou que nesse Dicionário, que deveria abarcar “todas as questões que interessam ao teólogo”, havia ausências de temas fundamentais para a existência humana. Assim, quando se procura Amizade, o termo não consta; Arte: um longo artigo sobre a arte cristã; Beleza: nada; Ciência: um longo artigo sobre ciência sagrada, ciência de Deus, ciência dos anjos e das almas separadas, ciência de Cristo, mas sobre a ciência como a entendemos, nada; Economia: nada; Emprego: nada; Família: nada; História: nada; Leigo e laicado: nada; Mal: vinte colunas; Mulher: nada; Pessoa: remete para hipóstase; Poder: um artigo com cento e três colunas sobre o poder do Papa na ordem temporal; Política: nada; Profano: nada; Profissão: um artigo sobre profissão de fé; Técnica: nada; Trabalho: nada; Vida: um artigo sobre a vida eterna...

 

3. Não há dúvida: Deus tem a ver com o sentido último e a salvação. Como escreveu L. Wittgenstein, um dos maiores filósofos do século XX, “crer num Deus quer dizer compreender a questão do sentido da vida, ver que os factos do mundo não são, portanto, tudo. Crer em Deus quer dizer que a vida tem um sentido.” Foi neste contexto que Nietzsche, sete anos antes de enlouquecer, escreveu a Ida, a mulher do amigo F. Overbeck, pedindo-lhe que não abandonasse a ideia de Deus: “Eu abandonei-a, não posso nem quero voltar atrás, desmorono-me continuamente, mas isso não me importa.” Numa longa entrevista concedida ao jornal Le Monde, em 2017, Edgar Morin, constatando que a Humanidade se sente perdida, afirmou: “O mito da Europa é débil. O mito da globalização feliz está em zero. O mito da euforia do transhumanismo só está presente entre os tecnocratas. Encontramo-nos num vazio histórico cheio de incertezas e de angústias. Só um projecto de via salvífica poderia ressuscitar uma esperança que não seja ilusão.”

 

4. A pergunta é: onde e como encontrar essa via de salvação? Todos, incluindo a Igreja, e a Igreja de modo especial, são convocados para encontrar a resposta a esta pergunta decisiva.

 

Sobre a marginalização da Igreja, concretamente na Europa, escrevia recentemente o teólogo José M. Castillo: “A sociedade ‘descristianiza-se’ a uma velocidade e até a níveis que impressionam quem, pela idade e pelas recordações de família, tem a sensação de estar a viver numa sociedade que, há umas décadas, não podia imaginar”. Mas, afinal, porquê?, qual a razão? Não está a Igreja a ser marginalizada, porque ela própria vive à margem? Castillo acrescenta: “Uma Igreja, que vive à margem da sociedade, é uma Igreja que se não relaciona com a ‘realidade’, mas que se relaciona com a ‘representação da realidade’, que a própria Igreja elabora para si, segundo os seus interesses e conveniência. Se a Igreja se situou na “margem” da vida e da sociedade, pretendemos, a partir de fora da sociedade, influenciá-la?” “Se a Igreja não pôde assinar e fazer sua a Declaração dos Direitos Humanos, com que autoridade e com que credibilidade pode falar de amor à humanidade?”

 

5. Pensando nas relações entre Deus e o mundo, o mundo e Deus, o aquém e o Além, se se não quiser mentir a si próprio nem aos outros, é inevitável virem à ideia estas palavras célebres de Immanuel Kant: “A praxis deve ser tal que não se possa pensar que não existe um Além.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 16 JUN 2019

"MOTU PROPRIO" ANTI-ABUSOS

 

1. Muitas vezes me tenho referido aqui, e não só aqui, à tragédia da pedofilia na Igreja. Foram milhares de menores e adultos vulneráveis que foram abusados. Mesmo sabendo que o número de pedófilos é muito superior na família e noutras instituições, a gravidade da situação na Igreja é mais dramática. Por várias razões: as pessoas confiavam na Igreja quase sem condições, o que significa que houve uma traição a essa confiança, e o clero e os religiosos têm responsabilidades especiais. O mais execrável: abusou-se e, a seguir, ameaçou-se as crianças para que mantivessem silêncio, pois, de outro modo, cometiam pecado e até poderiam ir para o inferno. Isto é monstruoso, o cume da perversão. E houve bispos, superiores maiores, cardeais, que encobriram, pois preferiram salvaguardar a instituição Igreja, quando a sua obrigação é proteger as pessoas, mais ainda quando as vítimas são crianças. O Papa Francisco chamou a esta situação “abusos sexuais, de poder e de consciência”. Também diz, com razão, que a base é o “clericalismo”, julgar-se numa situação de superioridade sagrada e, por isso, intocável. Neste abismo, onde é que está a superioridade do exemplo, a única que é legítimo reclamar?

 

 Felizmente, há hoje um alerta da opinião pública e, por isso, Francisco, em vez de condenar ou atribuir outras intenções aos meios de comunicação social, agradece, pois foi o meio para que também a Igreja acordasse do seu sono sacrílego.

 

E, aí, Francisco tomou uma iniciativa inédita e histórica, convocando uma Cimeira para o Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado. Foi uma Cimeira com 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, bispos representando as Igrejas católicas orientais, alguns membros da Cúria, representantes dos superiores e das superioras gerais de ordens e congregações religiosas, alguns peritos e leigos.

 

O Papa queria, em primeiro lugar, que se tomasse consciência da situação e do sofrimento incomensurável causado, que fica para a vida. E que se tomasse medidas concretas, de tal modo que se pudesse constatar um antes e um depois desta Cimeira verdadeiramente global e representativa da Igreja universal e nos seus vários níveis. Os três dias estiveram sob o lema tríplice: “responsabilidade”, “prestação de contas”, “transparência”. O Papa quer — não se trata de mero desejo — implantar “tolerância zero”.

 

2. Para implantar essa “tolerância zero” e pôr fim a esta catástrofe na Igreja, foi publicado, no passado dia 9 de Maio, o Motu Proprio (Decreto de iniciativa papal), que entra em vigor no dia 1 de Junho. Nesta Carta Apostólica, com o título “Vos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo), o Papa Francisco decreta medidas concretas contra a pedofilia na Igreja.

 

Estas normas contra os abusadores e os encobridores impõem-se, porque, escreve Francisco, “o delito de abuso sexual ofende Nosso Senhor, causa danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e prejudica a comunidade dos fiéis.”

 

Os clérigos e religiosos ficam obrigados (não se trata de mera obrigação moral, mas legal) a denunciar os abusos aos superiores, bem como a informá-los sobre as omissões e encobrimentos na sua gestão. Todas as Dioceses do mundo têm a obrigação de criar no prazo de um ano um ou mais sistemas estáveis e de fácil acesso ao público, para que, com facilidade, todos possam apresentar informações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos e o seu encobrimento. O documento ratifica a obrigação de colaborar com a justiça civil dos países. Aliás, “estas normas aplicam-se sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada lugar por leis do Estado, em particular as relativas a eventuais obrigações de informar as autoridades civis competentes”. Para lá do assédio e da violência contra menores (menos de 18 anos) e adultos vulneráveis, o texto inclui a violência sexual e o assédio que provêm do abuso de autoridade, bem como a posse de pornografia infantil e qualquer caso de violência contra as religiosas por parte de clérigos e ainda os casos de assédio a seminaristas ou noviços maiores de idade. Impõe a protecção dos denunciantes e das vítimas: quem denuncia abusos não pode ser objecto de represálias ou discriminação por ter informado; as vítimas e suas famílias serão tratadas com dignidade e respeito e devem receber a devida e adequada assistência espiritual, médica e psicológica; é preciso atender também ao problema das vítimas que no passado foram reduzidas ao silêncio. Estas normas aplicam-se à Igreja universal. Solicita-se vivamente a colaboração dos leigos, que podem ter capacidades e competências que os clérigos não dominam. Evidentemente, reafirma-se o princípio da presunção de inocência da pessoa acusada e o segredo da confissão deve manter-se como inviolável. Como escreve o Papa, “para que estes casos, em todas as suas formas, nunca mais aconteçam, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por acções concretas que envolvam todos os membros da Igreja.”

 

3. Na apresentação do documento esteve também Charles Scicluna, Arcebispo de Malta e Secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé, considerado o homem forte do Papa na temática anti-abusos. São suas estas declarações na altura: “Ninguém com responsabilidade na Igreja está acima da lei. Agora temos uma lei universal que determina as etapas fundamentais para a investigação de um membro eclesiástico, Bispo ou Superior Maior, religioso ou religiosa. Acabou a imunidade.”

 

Já depois da publicação do Motu Proprio, rebentou na Polónia mais um escândalo: um documentário sobre abusos sexuais do clero polaco, com o título “Não digas a ninguém”, abalou a sociedade. A película sobre casos de menores abusados sexualmente por religiosos católicos provocou uma onda de reacções na Polónia, com mais de três milhões de visitas na internet nas primeiras horas que se seguiram à sua publicação. Entre as vítimas está também o testemunho de um homem que foi abusado aos 12 anos pelo sacerdote que foi confessor do ex-presidente polaco e líder histórico do Solidariedade, Lech Walesa.

 

Estou convicto de que agora se está no caminho certo para acabar com esta chaga terrível na Igreja. Espera-se que, limpa, a Igreja possa ficar mais livre para dar o seu contributo imprescindível no sentido de ajudar a limpar da mesma chaga tantas outras instituições, com a instituição familiar à cabeça, que no mundo infernalizam a vida de inocentes.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 19 MAI 2019

PAPA FRANCISCO, HERÉTICO?

 

1. Numa longa Carta Aberta de 20 páginas, publicada no LifeSiteNews, em tempo de Páscoa, mais concretamente, no dia 30 de Abril passado, um grupo de académicos, teólogos e padres católicos, dirige-se ao colégio dos bispos da Igreja Católica, invocando duas razões: acusar o Papa Francisco do “delito canónico de heresia” e requerer que os bispos façam o que é preciso para que ele renuncie publicamente a essas heresias ou se lhe aplique o estabelecido canonicamente, incluindo a remoção do cargo papal. E os bispos têm o dever de agir, porque “a acumulação de danos causados pelas palavras e actos do Papa Francisco ao longo de anos foi causa de uma das piores crises da História da Igreja Católica.”

 

2. Quais são essas heresias, por palavras e actos?

 

Em síntese, Francisco é acusado de aceitar que católicos divorciados e recasados civilmente possam ser admitidos, em certas circunstâncias, à comunhão; acusado de não se opor de forma mais contundente ao aborto; acusado de, no diálogo ecuménico com os luteranos, manifestar acordo com Lutero em alguns pontos; acusado de acolher os LGBT; acusado de afirmar que a diversidade de religiões não só é permitida por Deus, mas querida; acusado de ter dado cobertura e mesmo ter promovido personalidades que também dão cobertura a estas heresias, aceitam a moralidade de actos homossexuais e/ou praticaram ou encobriram abusos sexuais de menores...

 

Como exemplo de quem, em vez de ser condenado, foi promovido, aparece o arcebispo José Tolentino de Mendonça. Com estas palavras: “Em 2013, Mendonça louvou a teologia da Irmã Teresa Forcades, que defende a moralidade de actos homossexuais e declara que o aborto é um direito e que afirmou que ‘Jesus de Nazaré não codificou nem estabeleceu regras’. Francisco fê-lo arcebispo e chefe dos Arquivos Secretos do Vaticano. E também o escolheu para pregar o retiro quaresmal a ele e à Cúria em 2018.”

 

Outro exemplo: O cardeal Maradiaga, para lá de outras heresias, afirmou que “dentro do Povo de Deus, não há uma classificação dual dos cristãos — laicado e clero, essencialmente diferentes — e que, para se falar correctamente, não se deveria falar de clero e laicado, mas de comunidade e ministérios (serviços).”

 

3. Embora não seja possível aprofundar os problemas convenientemente, examinemos as “heresias”, que de modo nenhum o são, ao contrário do que pretendem esta e outras minorias no seio da Igreja, aguerridas contra o Papa Francisco. Pela ordem acima enunciada.

 

3.1. Quanto aos recasados. Francisco não abre as portas indiscriminadamente a todos. Diz que há casos e casos e cada caso deve ser examinado na sua concreção, com aconselhamento de um padre, com discernimento e atenção à consciência. Os cristãos não podem ser tratados infantilmente, como menores. Aliás, em 1972, o próprio professor Joseph Ratzinger, mais tarde Bento XVI, escreveu: O casamento é indissolúvel. Mas quando “um primeiro casamento se rompeu há já algum tempo” e de modo irreparável, e quando “um segundo enlace se vem manifestando como uma realidade moral e está presidido pela fé, especialmente no que concerne à educação dos filhos (de tal modo que a destruição deste segundo casamento acabaria por destroçar uma realidade moral e provocaria danos morais irreparáveis), neste caso — mediante uma via extrajudicial —, contando com o parecer do pároco e dos membros da comunidade, dever-se-ia consentir a aproximação da comunhão aos que assim vivem.” Penso que se deverá acrescentar uma outra condição: se se esclareceram as obrigações do primeiro casamento.

 

Porventura é heresia apelar para a gradualidade da verdade nestes casos? Quem estudou hermenêutica sabe que, evidentemente, na lógica, na matemática, nas ciências empírico-matemáticas, não há gradualidade, porque há o critério da verificabilidade experimental, e, por isso, não há uma ciência para homens, outra para mulheres, uma para budistas, outra para católicos ou ateus... Mas, na verdade pastoral, há essa gradualidade, pois é necessário atender a cada pessoa, às suas circunstâncias, à sua situação, à sua história...

 

Sim, Francisco disse que “muitos casais que coabitam têm a graça do matrimónio”. Ele apela para a importância do tempo e dos processos... Eu próprio tenho realizado o casamento de jovens casais que já coabitavam e que, num processo de maturação, concluíram que queriam realizar o seu casamento na Igreja. A realidade humana é histórica, processual...

 

3.2. Alguém de boa fé pode negar que Francisco se tem oposto permanente e veementemente ao aborto? Simplesmente, é necessário atender às pessoas e aos seus dramas. E a Igreja deve acolher e não excluir nem oprimir quem já sofre demais. Por isso, Francisco concedeu a todos os padres o que antes estava reservado aos bispos: na confissão, o poder de absolver também esse pecado.

 

3.3. Quanto a Francisco e Lutero. Claro que não é heresia afirmar que “as intenções de Martinho Lutero não estavam erradas. Era um reformador. Talvez alguns métodos não tenham sido correctos... E hoje luteranos e católicos, protestantes, todos nós concordamos com a doutrina da justificação. Neste ponto, que é muito importante, não errou”.


Quem anda minimamente atento sabe que o acordo oficial quanto à questão da justificação vem de antes do pontificado de Francisco. Realmente não é Deus que tem sempre a iniciativa? As nossas boas obras não são por graça de Deus? E quem pode negar que devemos estar gratos pelos “dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”? É sabido que Lutero não queria entrar em ruptura com a Igreja. Foi Roma que não entendeu nem quis superar a corrupção em que vivia. Os autores da Carta querem continuar a vender indulgências?

 

3.4. Francisco é acusado de receber homossexuais e dizer que quem os “descarta” não tem espírito cristão. É evidente que os homossexuais não podem ser discriminados. Hoje, é sabido que 8% da população tem orientação homossexual. Há quem os acuse de deboche, disto e daquilo. Pergunto: e entre os heterossexuais só há santos? O que o Papa não quer e eu também não é o lóbi gay nem outros lóbis...

 

Quanto aos transexuais, seja-me permitido apresentar um caso concreto. Fui procurado por uma pessoa nessa situação. Fiquei bem ciente de quanto se pode sofrer... e da complexidade que esta situação deverá implicar — biológica, psicológica, social e cultural —, exigindo um enorme rigor e seriedade na sua compreensão.

 

É urgente que também na Igreja se avance no conhecimento da ciência, da biologia, etc.

 

Aproveito para deixar uma palavra sobre uma questão hoje muito acesa e sobre a qual me pronuncio criticamente e Francisco também. Estou a falar da “ideologia do género”. Sim, conheço e aprovo a distinção entre sexo e género, no contexto dos chamados “gender studies” e do seu contributo. Oponho-me é à ideologia do género, quando se pretende que a identidade sexual é pura construção social; não é verdade, o biológico também intervém; assim, hoje, pela imagiologia cerebral, até sabemos que a configuração do cérebro masculino e feminino é diferente, com todas as consequências.

 

Francisco também se pronunciou sobre o tema, na obra Politique et société, resultado de doze encontros com Dominique Wolton, intelectual francês, laico, director de investigação no CNRS (Centro Nacional da Investigação Científica), especialista em comunicação. Nestes termos, Wolton: “A ideologia do género não é o mesmo problema. É um desvio sociológico. Consiste em dizer que os sexos são indiferenciados, e que é unicamente a sociedade que distribui o papel masculino ou o papel feminino. Terrível este determinismo. Não há nem natureza, nem cultura, nem destino, nem liberdade, resta apenas a determinação social. E, se és contra estes determinismos, chamam-te reaccionário. Dizem-te que adoptas as posições da Igreja. A deriva ideológica fez-se em vinte anos”. Francisco: “Isto é uma confusão crítica, neste momento. Disse-o um dia publicamente na Praça de São Pedro, ao falar sobre o casamento: ‘Há ideias novas e eu pergunto-me se estas novas ideias, como a ideologia do género, não assentam em última análise no medo das diferenças”. Wolton: “Uma negação das múltiplas formas da alteridade e da diferença?” Francisco: “Disse-o em forma de pergunta. E encorajo os investigadores a debruçarem-se sobre o assunto”. Wolton: “A ideologia do género é o risco de uma negação da diferença. Ora, a diferença não é só social. É muito mais complicado. Trata-se de uma forma de determinismo ao contrário: ao dizer-se que não há homens, que não há mulheres, que tudo depende da sociedade, na realidade cria-se uma forma de determinismo social”. Francisco: “Não quereria que se confundisse a minha posição sobre a atitude para com as pessoas homossexuais com a questão da teoria do género”.

 

Neste domínio, quero referir também a grande polémica por causa de acções sobre igualdade de género em escolas. Aqui, estou com Henrique Monteiro, quando escreve que é necessário distinguir: “Se as acções são apenas contra a discriminação de qualquer género e orientação, tudo bem. Mas, se acaso são para propagar a ideologia de género, que diz que nascemos sem ele e que o sexo biológico reprime a essência do nosso ser etc.... e tal... é caso para prudencialmente acabar com tal programa. Nem provas científicas nem razões substanciais existem. Apenas uma teimosia ideológica desnecessária.”

 

3.5. Francisco é acusado por ter assinado, juntamente com o Grande Imã da Mesquita Al-Azhar, em Abu Dhabi, o “Documento sobre a Fraternidade Humana”. Acusam-no concretamente por causa desta afirmação: “A liberdade é um direito de cada pessoa: cada indivíduo goza da liberdade de crença, pensamento, expressão e acção. O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e língua são queridos por Deus na sua Sabedoria.”

 

O que é que os autores da Carta querem? Que não haja liberdade religiosa? Querem o uniformismo? Não será a unidade na variedade a riqueza da vida, também no domínio religioso? Estou convicto de que Deus se revelou de modo definitivo e inultrapassável em Jesus. No entanto, o Jesus que disse: “Eu e o Pai somos um” também disse: “O Pai é maior do que eu.” O que é que isto quer dizer? Evidentemente, as religiões não são todas iguais, mas elas todas, na medida em que não sejam contra o Humanum, pelo contrário, o promovam, são caminhos para Deus, que está para lá de todas elas. Não se pode esquecer que as religiões não existem para elas mesmas, pois estão ao serviço de Deus e da Humanidade. E o Papa esforça-se no combate a favor da paz, concretamente com o islão moderado, a favor do diálogo inter-religioso. Sem afastar nem postergar a identidade cristã, evidentemente.

 

3.6. Quanto aos abusos sexuais, os críticos deviam ter vergonha. Houve porventura alguém que tenha feito mais do que o Papa Francisco para que se ponha termo a esse escândalo execrável na Igreja? Acaba, aliás, de publicar o Motu Proprio (Decreto papal) “Vos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo) que, na sequência da Cimeira de Fevereiro passado em Roma sobre a pedofilia na Igreja, ratifica com normas concretas para a Igreja universal a luta contra os abusos de menores e os seus encobridores. Será o tema da minha próxima crónica aqui.

 

3.7. Criticam o Papa também por causa do que disse o cardeal Maradiaga: que, na realidade, é melhor falar de comunidade e ministérios na Igreja do que de clero e laicado. Os críticos ainda não viram que enquanto baptizados, na Igreja, há uma real igualdade na dignidade, pois o padre, o bispo e o próprio Papa não são mais do que o leigo, todos são igualmente cristãos, embora com ministérios, serviços diferentes. Não há diferença essencial, ontológica, entre eles.

 

Julgo, sinceramente, que tudo se joga essencialmente logo no endereço da Carta, dirigida aos bispos nestes termos: Your Eminence, Your Beatitude, Your Excelence, ignorando que Jesus não se fez tratar por Sua Eminência Reverendíssima, Sua Excelência Reverendíssima... Jesus disse: “Eu não vim para ser servido, mas para servir” e: “Sois todos irmãos”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 12 MAI 2019

A IGREJA É UMA CANOA, NÃO É UM MUSEU

 

No Sínodo de Outubro passado, em Roma, um jovem proveniente das ilhas Samoa, disse que a Igreja é “uma canoa, na qual os velhos ajudam a manter a direcção, interpretando a posição das estrelas, e os jovens remam com força, imaginando aquilo que os espera mais além.”

 

Na recente  “Exortação Apostólica Pós-Sinodal Cristo Vive aos jovens e a todo o Povo de Deus”, inspirada nas reflexões e diálogos do Sínodo, incluindo opiniões de jovens de todo o mundo, crentes e não crentes, o Papa Francisco retoma a imagem da canoa, para acrescentar: “Não nos deixemos levar nem pelos jovens que pensam que os adultos são um passado que já não conta, que já caducou, nem pelos adultos que julgam saber sempre como é que os jovens se devem comportar. É preferível que todos subamos para a mesma canoa e que entre todos procuremos um mundo melhor, sob o impulso sempre novo do Espírito Santo.”

 

A pastoral só pode ser sinodal, isto é, caminhando juntos, dado que a Igreja somos todos e cada um deve contribuir com os seus carismas e a sua situação. “Ao mundo nunca aproveitou nem aproveitará a ruptura entre gerações.” Só com os contributos intergeracionais se poderá construir um mundo novo e uma Igreja aberta. Lá diz o ditado: “Se o jovem soubesse e o velho pudesse, não haveria coisa que não se fizesse”.

 

O Papa apela aos jovens para que não esqueçam as raízes: “É fácil ‘sumir-se no ar’ quando não há onde agarrar-se, onde apoiar-se.” Não devem seguir quem lhes peça que desprezem ou ignorem a História. Quem faz isso “precisa que estejais vazios, desenraizados, desconfiados de tudo, para que só confieis nas suas promessas e vos submetais aos seus planos. Assim funcionam as ideologias de diversas cores.” E previne-os contra outro perigo: a adoração da juventude e do corpo. “Os manipuladores utilizam outro recurso: uma adoração da juventude, como se tudo o que não seja jovem se convertesse numa coisa detestável e caduca. O corpo jovem torna-se o símbolo deste novo culto, e, então, tudo o que tiver que ver com esse corpo é idolatrado e desejado sem limites, e o que não for jovem é olhado com desprezo. Queridos jovens, não aceiteis que usem a vossa juventude para fomentar uma vida superficial, que confunde a beleza com a aparência. Há formosura para lá da aparência ou da estética da moda, em cada homem e em cada mulher que vivem com amor a sua vocação pessoal.”

 

Por outro lado, Francisco desafia a hierarquia, bispos e padres, para que dêem protagonismo às novas gerações. A pastoral juvenil precisa de adquirir outra flexibilidade e de convocar os jovens para eventos, para acontecimentos que de vez em quando lhes ofereçam um lugar onde não só recebam formação, mas que também lhes permitam partilhar a vida, celebrar, cantar, escutar testemunhos e experimentar o encontro comunitário com Deus.” Para se renovar, a Igreja precisa de estar atenta aos jovens, aos seus anseios, aos seus traumas, aos seus problemas, às suas dúvidas, aos seus erros, à sua história, à sua busca de identidade, às suas experiências de pecado e todas as suas dificuldades.

 

Não se pode esquecer que, “para muitos jovens, Deus, a religião e a Igreja são palavras vazias, no entanto, eles são sensíveis à figura de Jesus, quando esta é apresentada de modo atraente e eficaz.” O Sínodo reconheceu que “um número consistente de jovens não pede nada à Igreja porque não a consideram significativa para a sua existência. Alguns, inclusive, pedem expressamente que os deixem em paz, visto que sentem a presença da Igreja incómoda e até irritante.” Isto implica que a Igreja tem de reconhecer humildemente que muitas coisas têm de mudar e, para isso, “também precisa de ter em conta a visão e também as críticas dos jovens.” Eles “reclamam uma Igreja que escute mais, que não passe a vida a condenar o mundo. Não querem ver uma Igreja calada e tímida nem tão-pouco que esteja sempre em guerra por dois ou três temas que são para ela uma obsessão.”

 

A Igreja não pode pôr-se na defensiva, porque “uma Igreja na defensiva, que perde a humildade, que deixa de escutar, que não permite que a ponham em questão, perde a juventude e converte-se num museu.” E Francisco dá o exemplo da relação da Igreja com as mulheres: ela precisa de prestar atenção às “legítimas reivindicações das mulheres que pedem mais justiça e igualdade. Pode recordar a História e reconhecer uma longa trama de autoritarismo por parte dos homens, de sujeição, de diversas formas de escravidão, de abuso e de violência machistas. Nesta linha, o Sínodo quis renovar o compromisso da Igreja contra todo o tipo de discriminação e violência sexual. É essa a reacção de uma Igreja que se mantém jovem e que se deixa colocar em questão e impulsionar pela sensibilidade dos jovens.”

 

O Papa não se cansa de clamar: Jovens, “vós sois o agora de Deus. Não podemos dizer apenas que os jovens são o futuro do mundo. São o presente, estão a enriquecê-lo com o seu contributo.” Deus é “o autor da juventude e actua em cada jovem. A juventude é um tempo abençoado para o jovem e uma bênção para a Igreja e para o mundo. E uma alegria, um cântico de esperança e uma bem-aventurança.” Apreciar a juventude implica vê-la como um tempo valioso em si mesmo e não como mera etapa de passagem para a idade adulta. De qualquer modo, “neste período da vida, os jovens são chamados a projectar-se para a frente sem cortarem as suas raízes, a construir autonomia, mas não na solidão.” Neste sentido, o Papa adverte-os contra as ofertas desumanizantes: “São muitos os jovens ideologizados, utilizados e aproveitados como carne para canhão ou como força de choque para destruir, amedrontar ou ridicularizar outros. E o pior é que muitos se convertem em seres individualistas, inimigos e desconfiados de todos, que assim se tornam presa fácil de ofertas desumanas e  planos destrutivos elaborados por grupos políticos e por poderes económicos.” Daí, o apelo: “Não deixes que te roubem a esperança e a alegria, que te narcotizem para utilizar-te como escravo dos seus interesses. Atreve-te a ser mais, porque o teu ser é mais importante do que qualquer outra coisa. Não te serve ter ou aparecer. Podes chegar a ser aquilo que Deus, teu Criador, sabe que tu és. Assim não serás fotocópia. Serás plenamente tu próprio.”

 

Francisco reconhece as dificuldades dos jovens no mundo actual: “Ainda mais numerosos são os jovens que padecem formas de  marginalização e exclusão social por razões religiosas, étnicas ou económicas. Recordamos a difícil situação de adolescentes e jovens que engravidam e a praga do aborto, bem como a difusão do HIV, as várias formas de dependência (drogas, jogos de azar, pornografia, etc.) e a situação das crianças e jovens da rua, que não têm casa, nem família, nem recursos económicos.” Perante estas situações, convida cada um a interrogar-se: “Eu tenho aprendido a chorar?” Porque não podemos ser “uma Igreja que não chora frente a estes dramas dos seus filhos.”

 

 Consciente de que “a moral sexual costuma ser, muitas vezes, causa de incompreensão e afastamento da Igreja, visto que é percebida como um espaço de julgamento e de condenação”, o Papa não podia deixar de reflectir sobre a problemática do corpo e da sexualidade, que têm “uma importância fundamental para a vida dos jovens e no caminho de crescimento da sua identidade.” Chama a atenção para que, “num mundo que enfatiza em excesso a sexualidade, é difícil manter uma boa relação com o próprio corpo e viver serenamente as relações afectivas.” “Ao mesmo tempo, os jovens exprimem um desejo explícito de se confrontarem sobre as questões relativas à diferença entre identidade masculina e feminina, à reciprocidade entre homens e mulheres e à homossexualidade.” O Papa convida a superar “tabus” sobre o sexo e a sexualidade, que apresenta como “um dom de Deus”, com o propósito de “amar-se e gerar vida.”  E, neste contexto, reflectindo sobre os avanços das ciências e das NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas), lembra as novas interrogações antropológicas e éticas  que se levantam e como facilmente se pode ser instrumentalizado por quem detém o poder tecnológico.

 

Outro desafio é o da digitalização. “A Web e as redes sociais criaram um modo novo de comunicação e de vinculação, e são uma praça na qual os jovens passam muito tempo e facilmente se encontram, embora o acesso não seja igual para todos, de modo particular em certas regiões do mundo.” O Papa não pode deixar de reconhecer as vantagens da digitalização, mas não deixa de advertir que se trata de uma realidade atravessada por ingentes interesses económicos e por limitações e carências, como, por exemplo, o perigo da perda de sentido crítico. “Não é saudável confundir a comunicação com o mero contacto virtual. Com efeito, o ambiente digital também é um território de solidão, manipulação, exploração e violência, até ao extremo da dark Web.” A imersão  no mundo virtual pode tornar-se “uma espécie de migração digital, isto é, um afastamento da família, dos valores culturais e religiosos, que leva muita gente a um mundo de solidão e de autoinvenção, até ao ponto de experimentarem uma falta de raízes, mesmo permanecendo fisicamente no mesmo lugar.” Trata-se de um novo desafio: “interagir com um mundo real e virtual, em que os jovens penetram sozinhos, como num continente global desconhecido. Os jovens de hoje são os primeiros a fazer esta síntese entre a pessoa, o próprio de cada cultura e o global. Isso requer que consigam passar do contacto virtual a uma boa e sã comunicação.”

 

No capítulo  quarto, o Papa expõe “três grandes verdades”, que todos permanentemente precisamos de escutar. A primeira: “Deus ama-te. Independentemente do que te aconteça na vida, não duvides disso, és sempre infinitamente amado.” A segunda: “Cristo entregou-se, por amor, até ao fim para salvar-te.” A terceira: “Mataram-no, mas Ele venceu. Ele está vivo. O mal não tem a última palavra.”  “Cristo vive” é o título da Exortação.

 

Os dois últimos capítulos, oitavo e nono, são dedicados à vocação e ao discernimento. “Somos chamados pelo Senhor a participar na sua obra criadora, prestando o nosso contributo para o bem comum a partir das capacidades que recebemos.” Na procura da sua vocação, os jovens não deverão pensar apenas no dinheiro. E lembra o livro bíblico de Ben Sira: “Não há pior do que aquele que é avaro para si mesmo.”

 

Conclui, com um desejo: “Queridos jovens, ficarei feliz vendo-vos correr mais rápido do que os lentos e temerosos. A Igreja precisa do vosso entusiasmo, das vossas intuições, da vossa fé. Fazeis-nos falta. E, quando chegardes aonde nós ainda não chegámos, tende paciência para  esperar por nós.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 28 ABR 2019

REVOLUÇÃO COPERNICANA NA IGREJA

 

1. Foi uma verdadeira revolução copernicana. Com Copérnico, ficámos a saber que não é o Sol que gira à volta da Terra, é a Terra que gira à volta do Sol. Com a Cimeira no Vaticano, de 21 a 24 de Fevereiro passado, para se tomar consciência da monstruosidade da pedofilia na Igreja e pôr-lhe termo, convocada, num gesto inédito, corajoso e histórico, que se impunha, do Papa Francisco, ficámos a saber que, de agora em diante, o centro não continuará a ser ocupado pela Igreja enquanto instituição, mas pelas vítimas, que serão defendidas com toda a seriedade.

 

No encerramento, perante os 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, membros da Cúria, superiores e superioras gerais de ordens e congregações religiosas, peritos e alguns leigos,  Francisco, num discurso histórico, muito bem elaborado e com dados arrepiantes sobre o abuso físico e psicológico de menores e adultos vulneráveis não só dentro da Igreja mas transversalmente na  sociedade global, incluindo as famílias e outras instituições (nesta abrangência, as vítimas são muitos milhões), comprometeu-se a que a Igreja “não se cansará de fazer tudo o que é necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido abusos de tipo sexual” e que nunca “tentará encobrir ou subestimar nenhum caso”.

 

Perante o horror da pedofilia, afirmou que ela lhe fazia lembrar “a prática religiosa cruel, difundida no passado em algumas culturas, de oferecer seres humanos (muitas vezes crianças) como sacrifício às divindades nos ritos pagãos”. Perante a “monstruosidade da pedofilia” na Igreja, assegurou: “Quero reafirmar com clareza: se na Igreja se descobrir nem que seja um único caso (que representa em si mesmo uma monstruosidade), esse caso será enfrentado com a máxima seriedade”. Prova inequívoca disso foi, ainda antes da Cimeira, a redução ao estado laical do ex-cardeal norte-americano Theodore McCarrick, e, depois, no passado dia 26, a sanção imposta ao cardeal australiano George Pell, a terceira figura do topo da Igreja, ex-superministro das finanças do Vaticano, condenado por abuso sexual de menores: enquanto decorre o recurso nos tribunais, está suspenso e impedido de  contactar, seja de que modo for, com menores.

 

2. No discurso de encerramento, Francisco deixou oito directivas para o futuro, de que deixo aí uma síntese:

 

2.1. A protecção dos menores. “O objectivo principal de qualquer medida é proteger os menores e impedir que sejam vítimas de qualquer abuso psicológico e físico”. Assim, é preciso mudar a mentalidade, para “combater a atitude defensivo-reactiva de salvaguardar a instituição, dando prioridade às vítimas dos abusos em todos os sentidos”. Ouvir o Mestre Jesus: “Ai de quem escandalizar um destes pequenos. Mais lhe valeria que lhe atassem a mó de um moinho ao pescoço e o lançassem ao fundo do mar.”

 

2.2. Seriedade impecável. “Desejo reiterar agora que a Igreja não se cansará de fazer tudo o que for necessário para levar à justiça seja quem for que tenha cometido estes crimes. A Igreja nunca tentará encobrir ou subestimar nenhum caso.”

 

2.3. Uma verdadeira purificação. Os pastores (bispos, padres...) devem empenhar-se renovadamente no seu compromisso de santidade, “cuja configuração com Cristo Bom Pastor é um direito do Povo de Deus”. A Igreja perguntar-se-á “como proteger os menores, como evitar essas desgraças, como tratar e reintegrar as vítimas, como fortalecer a formação nos seminários. Procurar-se-á transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar este flagelo não só do corpo da Igreja mas também da sociedade.”

 

2.4. A formação do clero. “A exigência da selecção e da formação dos candidatos ao sacerdócio, com critérios não só negativos, preocupados principalmente com excluir as pessoas problemáticas, mas também positivos, para oferecer um caminho de formação equilibrado aos candidatos idóneos, orientado para a santidade e no qual se contemple a virtude da castidade.”

 

Note-se que, em propostas anteriores, Francisco já tinha exigido “avaliação psicológica dos candidatos através de peritos credenciados”.

 

2.5. Reforçar e verificar as directrizes das Conferências Episcopais. Isto, para que se perceba que há “a exigência da unidade dos bispos na aplicação de parâmetros que tenham valor de normas e não só de orientação”. Explicitando: as normas são para aplicar universalmente em toda a Igreja, sem os subterfúgios da sua aplicação segundo as culturas.

 

2.6. Acompanhar as pessoas abusadas. “O mal que viveram deixa nelas feridas indeléveis que se manifestam em rancor e tendência para a autodestruição. Portanto, a Igreja tem o dever de oferecer-lhes todo o apoio necessário, valendo-se de peritos nesta matéria. Escutar, deixai-me dizer ‘perder tempo’ a escutar.”

 

2.7. O mundo digital. “A protecção dos menores deve ter em conta as novas formas de abuso sexual”, através das novas tecnologias. “É preciso animar os países e as autoridades a aplicar todas as medidas necessárias para limitar os sítios da internet que ameaçam a dignidade da pessoa humana, do homem, da mulher e, de modo particular, dos menores: o delito não goza do direito à liberdade”. E lembra novas normas “sobre os delitos mais graves” aprovadas pelo Papa Bento XVI em 2010, onde foram acrescentados como novos casos de delitos “a aquisição, a retenção ou divulgação” realizada por um clérigo, “em qualquer forma e com qualquer tipo de meio, de imagens pornográficas de menores”.

 

2.8. O turismo sexual. “A conduta, o olhar, a atitude dos discípulos e dos servidores de Jesus há-de saber reconhecer a imagem de Deus em cada criatura humana, a começar pelos mais inocentes”. “As autoridades governamentais devem dar prioridade e agir com urgência para combater o tráfico e a exploração económica dos menores.”

 

3. Houve analistas e vítimas que protestaram, clamando que, afinal, segundo a expressão corrente, a montanha pariu um rato.

 

Embora os compreenda, não têm razão. Esquecem que se trata de directivas. As normas, a dar-lhes conteúdo, com opções e acções concretas e eficazes, virão em breve. De facto, tem de haver um “antes” e um “depois” desta Cimeira. Caso contrário, isto é, se, como se comprometeu o Papa Francisco, “não voltar a ser absolutamente credível e digna de confiança”, a Igreja caminhará, concretamente no Ocidente, para a sua autodestruição.

 

P.S.: Foi a sepultar, no passado dia 23, Frei Bernardo Domingues. Pude ver, no funeral, várias centenas de pessoas e muitas lágrimas sentidas. Afinal, também há padres que se dedicam generosamente aos outros, apoiando muitas vidas e iluminando caminhos.

 

Por mim, gostava de deixar um testemunho pessoal. Se não estou enganado, foi em 1972. Eu era um jovem professor no ISET (Instituto Superior de Estudos Teológicos), Porto, de que ele era o Director. Também regia uma cadeira de “Humanismo ateu e humanismo cristão”. E houve um Bispo que me foi acusar de herético... Frei Bernardo disse-lhe: “Senhor Bispo, primeiro mande-nos por escrito as heresias dele. Depois, vamos analisar se são heresias ou não. Só então podemos tirar as consequências”. O Bispo não escreveu.

 

Fica  aqui a minha sentida homenagem a um homem bom e intelectualmente honesto e livre.

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado o no DN  | 3 MAR 2019

A IGREJA E O SEXO

 

Na sua obsessão pelo sexo, a Igreja não pode reclamar-se de Jesus. De facto, segundo os Evangelhos, Jesus raramente falou de sexo e, quando o fez, foi provocado por perguntas que lhe fizeram. E, aí, apelou para o amor, a fidelidade no casal e a igualdade do homem e da mulher. Apaixonado pela felicidade das pessoas, participou em festas de casamento e até fez com que aparecesse o vinho que faltava: 600 litros! Ele próprio celibatário, não impôs o celibato: São Pedro, por exemplo, era casado, e o celibato obrigatório para os padres na Igreja do Ocidente só começou a impor-se no século XI, com o Papa Gregório VII.

 

O que envenenou a relação da Igreja com a sexualidade foi, essencialmente, a influência perniciosa da gnose, que, contra o cristianismo autêntico, desprezava a matéria e o corpo. Depois, Santo Agostinho, a partir de uma experiência pessoal negativa da sexualidade e de uma exegese errada – ele seguiu a tradução latina de um passo célebre da Carta de São Paulo aos Romanos, capítulo 5, versículo 12: Adão, “no qual” todos pecaram, quando o original grego diz “porque” todos pecaram --, formulou, como solução para o problema do mal, a doutrina do pecado original. E a questão é que esse pecado foi entendido não como o primeiro de todos os pecados – todos os seres  humanos são pecadores -, mas como um pecado herdado de Adão e transmitido por geração, portanto, no acto sexual.  Finalmente, com a reforma gregoriana, foi-se erguendo a tríplice coluna sobre que assenta, segundo Hans Küng, o paradigma católico-romano: papismo (poder centrado no Papa), celibatismo (celibato obrigatório por lei para os padres), marianismo (devoção a Nossa Senhora como compensação).

 

Como se determinou que tudo o que se refere ao sexo é por princípio matéria grave e como, por outro lado, não há ninguém que não tenha pelo menos pensamentos relacionados com o sexo e só o sacerdote ou o bispo podem perdoar os pecados, a confissão acabou por tornar-se não um espaço de reconciliação e paz, mas tantas vezes de opressão, e raramente uma instituição acabou por deter tanto poder sobre as consciências, criando infindos complexos e fardos de culpabilização. Quando se lê os manuais dos confessores e todos aqueles interrogatórios inquisitoriais, quase reduzidos ao campo sexual, percebe-se que muitos tenham começado a abandonar a Igreja por causa da confissão, que consideravam ofensiva dos direitos humanos.

 

No universo sexual, que, como escreve Miguel Oliveira da Silva, continua a ser “um imenso, incómodo e multifacetado mistério”, vale tudo? É claro que não, reconhecendo o catedrático de Ética Médica na Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa que “a sociedade ocidental vive um profundo e grave vazio ético em matéria de sexualidade, que a múltipla oferta de uma sexualidade por vezes devassada sem pudor na praça pública e passível de excessos não consegue minimamente preencher – ao contrário”. Chegou-se à degradação boçal da prostituição nos e dos média, digo eu. Uma sexualidade degradada e desumanizante, na busca exclusiva do prazer venéreo e utilizando o outro como simples meio!

 

De qualquer forma, a Igreja precisa de reconciliar-se com o mundo e a ciência, o corpo e a sexualidade. Mas enquanto se mantiver a lei do celibato obrigatório não estará todo o discurso eclesiástico sobre o tema debaixo do fogo da suspeita? O Cardeal Carlo Martini, exegeta bíblico eminente e antigo arcebispo de Milão, interrogou precisamente esta lei do celibato obrigatório e, depois de considerar os estragos da encíclica Humanae Vitae e que “a solidão da decisão” por parte do Papa Paulo VI, depois de ter retirado a discussão do tema aos padres conciliares, não foi certamente “um pressuposto favorável” para tratar a questão da sexualidade e da família, reconheceu que os anos de distância da sua publicação “nos poderiam permitir um novo olhar”. “É um sinal de grandeza e auto-consciência alguém confessar os seus erros e visão limitada.” Assim, Martini pensava que um novo Papa “talvez não retire a encíclica, mas pode escrever uma nova e ir mais longe. É legítimo o  desejo de que o Magistério diga algo de positivo sobre o tema da sexualidade.” Muitos esperam uma palavra de orientação sobre o corpo, o casamento e a família. “Procuramos um caminho para, de modo fiável, falar sobre o casamento, o controlo da natalidade, a procriação medicamente assistida, a contracepção.”

 

Sobre estes e outros temas é o que tem procurado fazer o Papa Francisco. Leia-se, por exemplo, a exortação Amoris Laetitia, “A Alegria do Amor”, precisamente sobre uma nova visão da família e da sexualidade, que, para ser verdadeiramente humana, tem de envolver o biológico, o afectivo, a ternura, o amor, o espiritual.

 

E chamo a atenção para a elegância com que tratou o tema num diálogo recente com um grupo de jovens da Diocese de Grenoble. Duas jovens interrogaram-no precisamente sobre a sexualidade, perguntando concretamente se o facto de pertencerem à primeira geração que ousa falar abertamente destes temas não explica as incompreensões e o silêncio embaraçado dos mais velhos. Francisco respondeu: “A sexualidade, o sexo, é um presente de Deus. Não é de modo nenhum um tabu. É um dom de Deus, um presente que o Senhor nos dá. Tem dois objectivos: amar-se e gerar vida. É uma paixão, e um amor apaixonado. O verdadeiro amor é apaixonado. O amor entre um homem e uma mulher, quando é apaixonado, leva-te a dar a vida para sempre e a dá-la com o corpo e a alma”, declarou o Papa com força.

 

“Quando Deus criou o homem e a mulher, a Bíblia diz que os dois são a imagem e a semelhança de Deus. Os dois, não apenas Adão ou só Eva, mas os dois em conjunto”, insistiu. “E Jesus vai mais além e diz: o homem e também a mulher deixarão o seu pai e a sua mãe e unir-se-ão e serão... uma só pessoa?... uma só identidade?... Uma só fé no casamento?... Uma só carne! Esta é a grandeza da sexualidade. E é assim que se deve falar da sexualidade. E deve-se viver a sexualidade assim, nesta dimensão do amor entre homem e mulher por toda a vida. É verdade que as nossas fraquezas, as nossas quedas espirituais, nos levam a usar a sexualidade fora deste caminho tão belo do amor entre o homem e a mulher. Mas são quedas, como todos os pecados. A mentira, a cólera são pecados capitais, mas isso não é a sexualidade do amor: é a sexualidade coisificada, desligada do amor e utilizada para o divertimento”, explicou.

 

Francisco sublinhou ainda o paradoxo que consiste no facto de a mais bela dimensão da criação divina ser também “a mais atacada pela mundanidade, pelo espírito do mal”. A pornografia, por exemplo, depende de uma “indústria da sexualidade desligada do amor”. “É uma degeneração em relação ao nível em que Deus a colocou, e faz-se muito dinheiro com este comércio. Mas a sexualidade é grande: cultivai a vossa dimensão sexual, a vossa identidade sexual. Cultivai-a bem. E preparai-a para o amor, para inseri-la neste amor que vos acompanhará durante toda a vida”.

 

Por outro lado, mesmo se o Documento final do recente Sínodo dos bispos sobre os jovens e com os jovens ficou aquém das expectativas, no “Instrumentum laboris”, texto de preparação e de base para o debate, reconhecia-se que “muitos jovens católicos não seguem as indicações da moral sexual da Igreja”, e que há “temas controversos” como os anticonceptivos, a homossexualidade, o aborto, o casamento ou a questão de género. O texto, apresentado pelo cardeal Baldisseri, aceitava que é preciso debater “abertamente e sem preconceitos”  esses e outros temas, do desemprego às novas tecnologias, passando pelos desafios das migrações, o trabalho precário, as drogas, o papel da mulher. Entretanto, nesse Sínodo, houve vozes como a do bispo auxiliar de Lyon, Emmanuel Gobilliard, que abriu a porta do Sínodo aos LGBT: “Quem sou eu para excluí-los?” Francisco disse sempre que o problema não é a homossexualidade, mas “o lóbi gay”, como outros lóbis. Mais recentemente, o cardeal Reinhard Marx, arcebispo de Munique e Presidente da Conferência Episcopal Alemã, reclamou uma revisão do celibato obrigatório: “Estou convencido de que o grande impulso de renovação do Vaticano II não está a avançar nem a ser entendido na sua profundidade.”

 

Entretanto, a Igreja carrega com essa chaga que é a pedofilia por parte do clero. O Papa Francisco está disposto a usar mão firme nesse combate. No discurso natalício à Cúria, depois de ter reafirmado que mesmo um só caso de abuso seria “uma monstruosidade por si mesmo”, declarou: “Aos que abusam dos menores quero dizer-lhes: convertei-vos e entregai-vos à justiça humana, e preparai-vos para a justiça divina”. Agradeceu aos jornalistas “que procuraram desmascarar estes lobos e dar voz às vítimas”. A Igreja levará à justiça “seja quem for” que tenha cometido abusos. E convocou os Presidentes das Conferências Episcopais do mundo inteiro para uma reunião anti-abusos, que enfrente esta chaga dolorosíssima. Como disse o director editorial do Dicastério (Ministério) para a Comunicação do Vaticano, Andrea Tornelli: “O objectivo é que todos tenham absolutamente claro o que se deve fazer (e não fazer) frente aos abusos”. Trata-se de “transformar os erros cometidos em oportunidades para erradicar” a praga dos abusos “não só do corpo da Igreja, mas também da sociedade”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no Observador | 12 JAN 2019

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

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   Minha Princesa de mim:

 

   A questão do celibato voluntário tem sido obnubilada pela obsessão com a obrigatoriedade do celibato eclesiástico. Esta padece, pela sua própria natureza obcecante, de falta de racionalidade nas aproximações opostas, ou contrárias, de que é objeto: há quem defenda o princípio brandindo pretensas fundamentações bíblicas, teológicas, históricas ou, simplesmente, pragmáticas (maior liberdade e independência na dedicação ao ministério religioso), como há os que se insurgem contra a imposição de um mandamento contra natura e as fatais consequências (pedofilia, etc.) de tal aberração.

 

   Já várias vezes te escrevi, Princesa de mim, que não considero pertinentes os argumentos de uns, nem me parece que a pretensa indignação de outros assente em aceitáveis razões erga omnes. Isto é: não encontro justificação plausível para o carácter coercivo do celibato de quem exerça ou pretenda exercer um ministério eclesial, como tampouco creio que o abuso de menores, o desvio de mulheres casadas, ou a frequentação de bordéis sejam o resultado necessário e exclusivo de falta de alívio conjugal. Por um lado, sei de um número crescente de pastores casados -  e de pastoras! - cuja generosa devoção ao serviço das suas igrejas é admirável, tal como, por outro lado, infelizmente sei de pessoas casadas que violam menores, e, sendo quer homo quer hétero sexuais, se viciam em "aventuras" extraconjugais ou se comprazem em encontros remunerados e em "partouses"...

 

   É precisamente porque somos livres que somos responsáveis, isto é, que necessariamente devemos responder pelos motivos e consequências dos nossos atos. Não é por alguém ter nascido homossexual que será incontrolavelmente pederasta ou esteticamente narciso; nem por ser hétero galifão que deverá imparavelmente "iniciar" meninas ou "consolar" senhoras mal desposadas por outrem. Antigo conselho do bom senso comum continua a recordar: "Haja juízo!"

 

   Ou, como prefiro dizer, evocando a definição agostiniano-tomista de prudência: procuremos sempre o amor sagaz. Este deverá inspirar a revisão de conceitos obsessivos e decorrentes modos normativos que a Igreja Católica ainda hoje mantém relativamente à sexualidade. Pretender que "abstinência sexual é exigida pela lei de Cristo" não só revela fraco convívio com a mensagem evangélica, como desconhecimento do plano bíblico do Criador, além de poder indiciar temores insanos das próprias e naturalíssimas pulsões sexuais. Dito isto, repito o que tantas vezes te confidenciei: acredito que haja vocações para a castidade como estado de vida, tais sendo, todavia, aspirações a uma forma muito própria de maior liberdade interior, cuja realização, na tradição cristã, se inicia com os primeiros cenobitas. E volto a recordar-te que, em todos os apelos de Jesus registados nos evangelhos, a quem quiser segui-lo totalmente, não surge qualquer referência ao celibato ou à abstinência sexual, mas sempre se refere o abandono dos bens materiais e terrenos, a pobreza, esta, sim, evidentemente constitutiva de liberdade interior. Para evitar repisar discursos meus, inscritos em cartas anteriores  -  e, sobretudo, para te trazer uma excelente análise desta questão do celibato feita pelo filósofo ateu e homossexual francês Michel Foucault (1926-1984), cujo conhecimento dos escritos patrísticos cristãos surpreende pela vastidão e profundidade  -  traduzo seguidamente alguns trechos do capítulo Virginité et Connaissance de Soi, do 4º volume, postumamente editado este ano apenas, com o título Les aveux de la chair, da sua obra Histoire de la Sexualité (Bibliothèque des Histoires, Gallimard, Paris, 2018). Trata-se de um longo comentário dos capítulos que João Cassiano (século IV), nas suas Instituições e nas Conferências dedica às questões da pureza na existência monástica. No mundo hodierno que é o nosso, todo esse discurso poderá soar estranho. Todavia, refletindo, talvez nele encontremos um ar cheio de frescura, bem diferente do ambiente sórdido com que, bem-pensantes, moralmente corretos ou libertinos envolvem qualquer debate sobre assuntos de sexo. Haja arejo!

 

   Cassiano raramente emprega a palavra virgindade. Surge duas vezes nas "Conferências" e, em ambos os casos, em oposição ao casamento. A propósito de Elias e Jeremias que «não querendo servir-se do casamento, preferiram perseverar na virgindade». E a respeito das virgens loucas e das virgens prudentes, umas e outras ditas virgens por não terem esposo, mas as primeiras apenas praticando a virgindade do corpo. É o termo castidade - castitas - que em Cassiano cobre a maioria das questões ou dos temas que Gregório de Nissa, Basílio de Ancira, Crisóstomo ou, de um modo geral os Padres gregos referiam à prática da virgindade e às regras interiores a esse estado.

 

   Tal como os seus predecessores haviam procedido quanto à virgindade, Cassiano diferencia a continência da castidade. Nas "Instituições", assenta essa distinção no uso tradicional das palavras gregas e, simultaneamente, marca a hierarquia de valores entre os dois termos: «Não negamos que, nas comunidades, também se encontram homens continentes, e reconhecemos que tal pode facilmente acontecer. Na verdade, trata-se de duas coisas diferentes ser continente - isto é "enkratés" - e ser casto, passando assim a esse estado de integridade ou de incorrupção a que chamamos "hagnos", virtude que só é concedida àqueles que permanecem virgens na sua carne e no seu espírito, como foram Jeremias e Daniel.» Entre as duas noções há a diferença do negativo para o positivo. De um lado, abstenção exterior de sexo; do outro, um movimento interior do coração. «A incorrupção da carne reside menos na privação de mulher do que na integridade do coração que guarda sem corrupção a sua santidade por temor a Deus ou amor da castidade»...

 

   ... Para se chegar à castidade, diz Cassiano num texto notável, «deve cada qual inflamar-se com o mesmo desejo e o mesmo amor que encontramos no avarento devorado pela cupidez, no ambicioso que labora a sede de honrarias, no homem arrebatado pela violência intolerável da sua paixão por uma beldade feminina, quando, no ardor de excessiva impaciência, querem saciar o seu desejo.»

 

   Apesar de bastantes pontos em comum com os grandes teóricos da virgindade no século IV, a distinção que Cassiano estabelece entre continência e castidade revela, de facto, uma paisagem muito diferente, dominada pelas noções de pureza de coração e combate espiritual que ganham sentido na especificidade da vida monástica, em que se inspira.

 

   Vocação singular de um projeto especial de vida, aliás de origem oriental, como testemunham hinduístas e budistas, ou também, no judaísmo do tempo de Jesus, a comunidade de Qumran. Ainda que se diferenciem entre eles por outros fatores próprios a cada um dos universos ascéticos ou religiosos. A designação "monaquismo", como a de "monge", deriva do grego "monachos", que indica quem escolhe a solidão, ou a separação do "mundo" para se consagrar à oração e exercícios espirituais e ascéticos que o aproximem do imaterial, do invisível, do Nirvana, de Deus. No ocidente europeu, os monges surgem na 2ª metade do século IV, vindo, entre outros, no sul de França, Jean Cassien (360-430), ou João Cassiano, a instigar, na Provença, em Leiris e Marselha, a formação de comunidades ascéticas e a escrever textos muito influentes sobre a espiritualidade cristã: as Instituições Cenobíticas e as Conferências. Nestas duas obras se encontram tratados os temas que, de acordo com Nicole Lemaître, professora na Sorbonne e no Institut Catholique de Paris, constituirão, durante séculos, os arquétipos fundamentais do monaquismo: forma perfeita da vida cristã, na senda de Cristo, pelo qual o monge a tudo renuncia. Num mundo onde as perseguições violentas se tinham tornado raras [o cristianismo já era religião do Império Romano] a vida monástica será o substituto do martírio sangrento dos primeiros séculos, na medida em que implicava mortificação do corpo e da consciência, luta contra os demónios e suas tentações, perseverança até à vitória final.

 

   Já a instituição do chamado sacerdócio católico, tal como hoje a conhecemos, é bem mais tardia, remonta ao século XII, com a fixação do direito canónico que faz do padre - e volto a citar Nicole Lemaître - aquele que recebeu o sacramento da ordem, pelo qual lhe foi remetido, por Deus e pela Igreja, o poder de batizar, abençoar, celebrar, e absolver os pecados. Doravante, e por muito tempo, esse estatuto permitiu-lhe dispor de privilégios, em especial o do foro eclesiástico que o protegia das justiças seculares. O padre torna-se celibatário, e modelo do cristão, a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanhará a sua excecionalidade... na promoção eclesial de uma sociedade perfeita.

 

   Foi-se então buscar à exceção que sempre fora a vocação monástica um elemento normativo da condição de servidor do ministério eclesial. Ora, no primeiro milénio, as coisas eram bem diferentes: na origem da Igreja, o enquadramento das comunidades era assegurado por diversos ministros, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos (Mateus, 10, 42) exercia um autêntico apostolado, não era, de modo algum, um separado, uma exceção. Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça (Atos, 14,23). São eles que vigiam cada Igreja e têm por missão velar pelo rebanho de Deus (Atos, 20, 28; I Pedro, 5, 4). Passadas as primeiras gerações, estabelece-se uma hierarquia a três níveis: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros assistidos por diáconos. Não é necessário percorrer todas as etapas [isto é: não há carreiras eclesiásticas] - São Cipriano tornou-se bispo sem ter sido padre nem diácono. Na verdade, o ministério põe-os a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, como sucessores dos Apóstolos, qualifica-os para serem intendentes de Deus. Recebem a imposição das mãos, mas prosseguem a sua vida normal, casam-se e exercem uma profissão.

 

    Estarás lembrada, Princesa de mim, de que, em carta talvez já distante, eu te falava de conselhos de São Paulo, no sentido de serem os ministros escolhidos de preferência entre bons pais de família, pois estes já deram provas de saber guiar um "rebanho". Revogar a obrigatoriedade do celibato eclesiástico parece-me ser questão do foro do bom senso, tal como a ordenação de mulheres deve ser encarada no contexto cultural das nossas sociedades hodiernas. Além de que já passou o tempo em que, cautelarmente, se escolhiam entre eunucos os bons servidores. Sem prejuízo de continuar a haver quem possa escolher um caminho que o próprio Jesus Cristo enunciou, avisando logo que seria radical e que poucos compreenderiam agora o que é ser eunuco por amor de Deus. Todavia quem responde a uma vocação à vida monástica ou religiosa, não o fará por contemptatio mundi, mas porque tal separação o leva, no seu próprio sacrifício pessoal, à misteriosa presença de Deus. Enquanto que os ministros do culto, da palavra, dos sacramentos, homens ou mulheres, são servidores escolhidos entre aqueles que permanecem vivendo no mundo humano.

 

   Referindo-se a São Cipriano (século III), que acima te recordo, frei Yves Congar escreve: Para o cristianismo antigo, a realidade primeira é a ecclesia. Ora, esta palavra, diferentemente da palavra "Igreja" tal como hoje a usamos, significa a comunidade cristã, a assembleia ou unidade dos cristãos. São Cipriano diz: a Igreja é o povo unido ao seu pontífice e o rebanho que permanece junto ao seu pastor. Por aí deveis compreender que o bispo está na Igreja e a Igreja no bispo.

 

   É essa ecclesia toda inteira que exerce a maternidade espiritual, pela sua caridade, pela sua unidade, pela sua oração, pela sua penitência; é ela mesmo que é o autêntico e adequado sujeito das ações santas e santificantes. E eis que encontramos esta mesma compreensão da ecclesia nos textos litúrgicos, expressão da Tradição: a ecclesia é assembleia de irmãos realizada por um ato do Senhor e pela sua presença entre eles. A liturgia antiga não conhece um eu separado do nós comunitário: o celebrante, isto é, o presidente da assembleia e chefe da comunidade, fala ali em nome de todos e a todos estando unido. [Cf. Yves Congar, o.p., L´Église e Pour une Église Servante et Pauvre, Les Éditions du Cerf, Paris, 1963].

 

   Deixo-te aqui, Princesa de mim, estas reflexões sobre a Igreja para que, meditando-as, possamos juntar mais uma achega circunstancial ao debate, tantas vezes descontextualizado, acerca da pedofilia e celibato eclesiástico, etc., etc. ... Até arrisco um olhar diferente: tal como não parece provado (longe disso!) que a Igreja Católica tenha, no seu seio, o exclusivo ou sequer a maioria dos casos de abuso de menores, também não creio que se possa estabelecer uma relação direta de causa a efeito entre celibato e violência sexual. Na verdade, nas notícias ou revelações de abusos que têm vindo a lume, o pecado ou responsabilidade da instituição eclesial descobre-se e encontra-se sobretudo no seu encobrimento e na recusa ou reticência de entrega às autoridades judiciais competentes (falando claramente, sem rodeios e sem prejuízo das medidas canónicas, isto é, do foro eclesiástico, que também devam ser tomadas), autoridades essas legitimamente constituídas pelo poder civil dos Estados de direito em que vivemos. Que as "hierarquias" religiosas metam bem nas suas cabeças que qualquer crime deve ser denunciado e entregue ao processo inalienável e sem exceções dos tribunais dependentes do poder judicial do Estado.

 

   Por outro lado, já será tempo de nós, católicos, revermos alguns dos preconceitos que guardamos quanto à função clerical ou, mesmo, à natureza da própria instituição. Os trechos de testemunhos e reflexões que te deixei acima podem ajudar-nos a perguntar se, abreviando, o padre é mesmo uma exceção consagrada, e se, até por isso, deverá ser assexuado e renunciar a constituir uma família, tal como o podem fazer magistrados, médicos, professores, militares, missionários leigos... E já agora, não poderão ser mulheres, como tantas há nessoutras profissões e missões pelo bem comum?

 

   Creio que é no 2º volume da sua Histoire de la sexualité (L´ Usage des Plaisirs) que Michel Foucault escreve estas seguintes linhas que eu próprio, que sempre quis ser filósofo, repito pensando que filósofos, afinal, com alguma curiosidade e esforço, todos podemos ser:

   Mas, aliás, o que é a filosofia - quero dizer a atividade filosófica - se não o trabalho crítico do pensamento sobre si mesmo? E se, afinal, não consistirá, em vez de legitimação do que já sabemos, no empreendimento de saber como e até onde poderemos pensar de outro modo?

 

  Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira