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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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BABEL, PENTECOSTES E UMA ÉTICA GLOBAL

  

 

1. Fazemo-nos e construímo-nos uns aos outros; desfazemo-nos e destruímo-nos uns aos outros. Lá está o mito da Torre de Babel, um mito que transporta uma verdade fundamental e dá que pensar, como escreveu o filósofo Paul Ricoeur. Um dia - está escrito no Génesis - os homens disseram: Construamos uma cidade e uma Torre cujo ápice penetre nos céus. A Bíblia vê neste projecto uma iniciativa de arrogância e orgulho insensatos, aquela hybris - desmesura -, que os gregos também condenavam, porque arrastava consigo a maldição e a catástrofe. No meio da arrogância e da desmesura, os seres humanos, em vez de se compreenderem, guerreiam-se e matam-se na barbárie.


A tragédia repete-se constantemente. Quando, por exemplo, um ditador brutal, ignorando o Direito Internacional e as Nações Unidas, invade um país independente com uma guerra de terror, aí está uma Babel, num mundo perigoso, com horrores e catástrofes à vista.


Em toda a sua História, talvez nunca a Humanidade tenha estado numa crise tão grave como aquela que já se vive e se aproxima. Quando se pensa na “globalização da rapina”, segundo a expressão do antigo chanceler alemão Helmut Schmidt, e na globalização das armas de destruição massiva -- quem vai impedir armas nucleares e outras à venda por aí? -, é preciso tomar consciência da ameaça de convulsões em cadeia e inclusivamente da morte global. A revolução a caminho é a dos pobres e humilhados, que nada têm a perder.


2. O que se contrapõe, segundo a Bíblia, à Torre de Babel e à sua ameaça, é o Pentecostes, que a Igreja celebra. Nesse dia, lê-se também na Bíblia, no livro dos Actos dos Apóstolos, quando se percebeu que o que tem de unir os seres humanos é a justiça, o amor, a solidariedade, a fraternidade, o respeito pela igualdade na diferença e pela diferença na igualdade, todos - partos, medos e elamitas, habitantes da Mesopotâmea, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e da Líbia, romanos, cretenses, árabes, homens de todas as nações que há debaixo do céu -- voltaram a encontrar-se e entenderam-se...


3. Afundados no meio desta crise inquietante, as religiões têm um papel decisivo a desempenhar e foi com essa consciência que em Setembro de 1993 teve lugar em Chicago o Parlamento das Religiões do Mundo, com a presença de uns 6500 participantes e onde 150 pessoas qualificadas, representando as diferentes religiões e movimentos de tipo religioso do mundo assinaram o Manifesto ou a Declaração Princípios de uma ética mundial.


O texto fora essencialmente preparado por Hans Küng, o famoso teólogo de Tubinga, que nos deixou recentemente. De que se trata? Como escreveu Küng, não se trata  de uma duplicação da Declaração dos Direitos Humanos, nem de uma declaração política, nem de uma prédica casuística, nem de um tratado filosófico, nem de uma idealização religiosa ou da busca de uma religião universal unitária. Trata-se de um consenso de base, mínimo, referente a valores vinculantes, a critérios e normas inamovíveis e a atitudes morais fundamentais. Supõe-se que estes mínimos éticos, que assentam na constatação de uma convergência já existente nas tradições religiosas, podem ser assumidos por todos os seres humanos, independentemente da sua relação com a religião.


Neste consenso mínimo de base, a exigência fundamental é: todo o ser humano deve ser tratado humanamente. Porquê? Todo o ser humano, sem distinção de sexo, idade, raça, classe, cor, língua, religião, ideias políticas, condição social, possui uma dignidade inviolável e inalienável.


Por outro lado, para agir de forma verdadeiramente humana, vale, antes de mais, a regra de ouro: Não faças aos outros o que não queres que te façam a ti (formulada positivamente: Faz aos outros o que queres que te façam a ti). "Esta deveria ser a norma incondicionada, absoluta, para todas as esferas da vida, para a família e as comunidades, para raças, nações e religiões." Esta regra de ouro concretiza-se em quatro directrizes ou orientações antiquíssimas e inalteráveis: comprometimento com uma cultura da não-violência e do respeito pela vida (não matarás: respeita toda a vida); comprometimento com uma cultura da solidariedade e com uma ordem económica justa (não roubarás: age com justiça); comprometimento com uma cultura da tolerância e uma vida vivida com veracidade (não mentirás: fala e age com verdade); comprometimento com uma cultura da igualdade de direitos e com uma irmandade entre homem e mulher (não prostituirás nem te prostituirás: respeitai-vos e amai-vos mutuamente). No espírito de uma declaração de ética mundial, não se deu entrada a questões morais discutidas em todas as religiões e nações, como a contracepção, o aborto, a eutanásia.


Trata-se de uma Declaração assinada por "pessoas religiosas", que têm a convicção de que "o mundo empírico dado não é a realidade e a verdade última, suprema", que, portanto, fundamentam o seu viver numa Realidade Última e dela extraem, em atitude de confiança, na oração e na meditação, na palavra e no silêncio, a sua força espiritual e a sua esperança. Na presente crise de valores, "estamos convencidos de que são precisamente as religiões que, apesar de todos os abusos e frequentes fracassos históricos, podem assumir a responsabilidade de que as esperanças, objectivos, ideais e critérios de que a Humanidade precisa para a convivência na paz sejam mantidos, fundamentados e vividos".

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 de junho de 2022

HISTÓRIAS MUÇULMANAS SOBRE JESUS E O ESSENCIAL

 

1. No Evangelho, Jesus faz apelo ao essencial: “De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma”, a sua vida, o essencial? Por isso, o amor a Deus e a avareza são inconciliáveis. Não se pode servir a Deus e à riqueza.


Jesus não é gnóstico (portanto, não é contra a matéria e os bens deste mundo), Jesus não é a favor da preguiça (pelo contrário, manda utilizar os talentos recebidos).


Jesus não combateu os ricos pelo facto de eles porem os talentos a render e criarem riqueza, recebendo o justo lucro. Aquilo a que Jesus se opôs de modo frontal e duro foi à avareza. E fê-lo, por dois motivos fundamentais. O primeiro refere-se à fraternidade e à generosidade. O rico, que o é de coração (neste sentido, até o pobre de bens materiais pode ser rico), o rico, que o é no seu íntimo, não é generoso nem fraterno. Por isso, banqueteia-se, enquanto ao lado o pobre geme e morre: lembremo-nos da terrível história contada por Jesus sobre o rico que se banqueteia enquanto o pobre Lázaro jaz para ali abandonado. Com a pandemia, segundo o último relatório da Oxfam, os 10 mais ricos do mundo duplicaram a sua fortuna e as desigualdades contribuem para a morte de pelo menos uma pessoa a cada 4 segundos... Face a esta situação explosiva, impõe-se tomar consciência de que é urgente acabar com este fosso entre ricos e pobres. Se o não fizermos por humanidade, façamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, este abismo intolerável pode incendiar o mundo, a ponto de o nosso bem-estar poder vir a transformar-se num inferno...


O outro motivo para Jesus açoitar o espírito de avareza, insaciável, diz respeito à diferença entre coisa e pessoa. A dignidade de ser Homem tem a sua raiz no facto de o ser humano ser pessoa. Como escreveu Tomás de Aquino, “a pessoa é o que é perfeitíssimo em toda a natureza”, e o que caracteriza e constitui a pessoa no seu núcleo é a liberdade. Ora, o avaro vive de tal modo agarrado às coisas que, a um dado momento, já não conhece a distinção essencial entre coisa e pessoa. De tal modo é escravo das coisas, do ter, que corrompe e deixa-se corromper; se for preciso, mata, corrompe, compra gente, escraviza, faz a guerra... Já não é livre, pois a liberdade e a pobreza de coração são irmãs gémeas. Ao corromper e deixar-se corromper, estando até disposto a vender e a comprar pessoas ou a matá-las, pela exploração ou pela guerra, degrada-se, isto é, abandona a dignidade infinita de ser pessoa para tornar-se coisa entre as coisas.


No seu aviso, Jesus é frontal: "Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e a Dinheiro” — deve-se escrever com maiúscula, pois Jesus referia-se a Mamôn, uma deusa. Não se pode server a Deus, Pai/Mãe que quer a dignidade e a realização de todos, e a Mamôn.


2. Neste contexto, chamo a atenção para duas belas histórias, que vêm do islão, precisamente sobre este tema.


O amor e o respeito por Jesus são uma presença constante na literatura muçulmana. Tarif Khalidi, director do Centro de Estudos Islâmicos e membro do conselho directivo do King's College (Cambridge), reuniu em livro -- Jesus Muçulmano - as chamadas "máximas e histórias de Jesus", onde se encontram várias alusões aos Evangelhos. Uma delas diz assim, em síntese: 


Um homem juntou-se a Jesus, dizendo: "Quero ser teu companheiro." Seguiram viagem e, quando chegaram à margem de um rio, sentaram-se para comer. Levavam três pães. Comeram dois e sobrou um. Jesus foi ao rio beber água. Como, no regresso, não encontrou o terceiro pão, perguntou ao homem: "Quem tirou o pão?" Ele respondeu: "Não sei."


Continuaram viagem, e, no caminho, Jesus realizou dois milagres. Voltou-se das duas vezes para o companheiro, dizendo: "Em nome d'Aquele que te mostrou este milagre, pergunto-te: quem tirou o pão?" "Não sei", tornou a responder o homem.


Chegaram depois ao deserto e sentaram-se no chão. Jesus fez um montinho de terra e areia e disse-lhe: "Com a permissão de Deus, transforma-te em ouro", e assim aconteceu. Então, Jesus dividiu o ouro em três partes e disse: "Um terço para ti, um terço para mim e um terço para quem tirou o pão". Aí, o companheiro disse: "Fui eu que tirei o pão!" Jesus disse: "O ouro é todo teu."


Jesus continuou sozinho o seu caminho. Entretanto, chegaram dois salteadores que queriam roubar o ouro ao antigo companheiro. Este, porém, disse: "Vamos dividi-lo entre os três e um de vós vai à cidade comprar comida". Um deles foi à cidade e pensou: "Porque hei-de dividir o ouro com estes dois? Vou antes envenenar a comida e ficar com o ouro para mim!" E comprou comida, que envenenou.


Por sua vez, os que tinham ficado disseram: "Porque havemos de dar-lhe um terço do ouro? Em vez disso vamos é matá-lo quando regressar e dividimos o ouro entre os dois."


Quando o terceiro voltou, mataram-no. Depois, comeram a comida e também morreram. O ouro ficou no deserto com os três homens mortos ao lado.


Aconteceu que Jesus passou por ali e ao ver aquela miséria disse aos discípulos: "Assim é o mundo. Tende cuidado."


De outra vez, Jesus passou por uma caveira apodrecida. Ordenou-lhe que falasse. E ela disse: "Espírito de Deus, o meu nome é Balwan ibn Hafs, rei do Iémen. Vivi mil anos, gerei mil filhos, desflorei mil virgens, destrocei mil exércitos, matei mil tiranos e conquistei mil cidades. Que quem ouve a minha história não se deixe tentar pelo mundo, pois tudo isso foi como o sonho de um homem adormecido." Jesus chorou.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de fevereiro de 2022

HERBERT HAAG: 20 ANOS DEPOIS

 

O meu querido amigo Herbert Haag, talvez o maior exegeta católico do século XX, morreu fez este ano 20 anos: “partiu” no dia 23 de Agosto de 2001. Era realmente um dos maiores especialistas em ciências bíblicas, até porque dominava, para lá do latim e do grego, o hebraico, o aramaico, o ugarítico, o árabe...


O mistério da morte é que se parte sem deixar endereço. Ele acreditou, e eu com ele, que na morte não cairia no nada; pelo contrário, entraria em plenitude no mistério da infinita misericórdia de Deus, o Deus bom e amável, que Jesus anunciou por palavras e obras. Mas como é ninguém sabe. A morte é o mistério pura e semplesmente. O Absoluto tem duas faces: precisamente a morte e Deus.


Ficou a obra (Liberdade aos cristãos e A Igreja católica ainda tem futuro? estão traduzidos em português), a amizade, a saudade. Saudade, essa palavra que só a língua portuguesa tem e que, se tiver a sua raiz no latim salutem dare, donde vem também saudar, exprime o desejo de que, esteja onde estiver, esteja bem. Se a  ligação for com solitate, então exprime a tristeza de quem está só porque o amigo já não está e faz-nos falta.


Quando nos encontrávamos, íamos almoçar. E Herbert Haag, professor emérito da Universidade de Tubinga, encomendava sempre um vinho francês ou italiano excelente. E a conversa desdobrava-se para longe e na profundidade. Recordo todos esses diálogos iluminantes para mim. Aí fica algo do muito que lhe ouvi: "De certeza que Jesus não queria que um homem só governasse do ponto de vista religioso mais de mil milhões de pessoas. De certeza que também não queria que as mulheres fossem discriminadas. Jesus queria uma Igreja de discípulas e discípulos, uma Igreja fraterna e não uma Igreja com duas classes: clero e leigos." "Contra a vontade de Jesus, embora os leigos representem mais de 99% da Igreja e o clero menos de 1%, é o clero que tem tudo a dizer." "Durante trezentos anos aquilo que alegadamente só um sacerdote ordenado pode fazer, concretamente presidir à Eucaristia, foi feito por leigos, nomeadamente pelo dono ou a dona da casa onde os cristãos se reuniam para celebrar a Ceia do Senhor. Assim, porque é que o que então foi possível não há-de sê-lo também hoje?" "A lei do celibato imposto aos padres como obrigatório é contra a vontade de Jesus e tem provocado numerosos escândalos sexuais." "Hoje sabemos que o Homem apareceu por evolução. Portanto, também não houve nenhum pecado original que seria apagado pelo baptismo." "O bem e o mal pertencem à constituição desta criação. O mal moral vem do coração humano, e é preciso combater o mal com o bem." "Segundo a Bíblia, não se pode afirmar a existência do diabo. Já é tempo de acabar com os exorcismos, que são uma relíquia da Idade Média." "No 'Cântico dos Cânticos'  bíblico exalta-se o amor sexual de dois não casados." "O que está no Novo Testamento é que nos confessemos uns aos outros." "Se a sexualidade é um direito humano, então, quando um ser humano só pode viver a sua sexualidade de maneira homossexual, isso deverá ser-lhe permitido." "A presença de Jesus na Eucaristia não pode ser concebida de modo coisista. Não se legitima, pois, a adoração ao Santíssimo." "O problema na Igreja é que o padre tem medo do bispo, o bispo tem medo do papa, o papa tem medo da verdade." "A imagem de Deus no homem é a liberdade". "O Reino de Deus é já aqui." Sobre a divindade de Jesus dizia: "Jesus não é o Deus (hò Theós). Em Jesus está Deus. Deus identifica-se de modo especial com Jesus." Sobre a relação corpo e espírito, ouvi-o dizer: "Na evolução, o corpo humano desenvolve-se até ser possível ter possibilidades espirituais."


Um amigo pediu-me para lhe perguntar se acreditava na vida eterna. Ele respondeu-me: "Diga a esse amigo que sim. Na morte não cairei no nada, pois acredito que serei acolhido pessoalmente no mistério de Deus. Qual é o modo como isso acontecerá não sei. Ninguém sabe."


Como dou notícia no meu mais recente livro, O Mundo e a Igreja. Que Futuro?, um dos meus encontros com ele foi numa Sexta-Feira Santa em sua casa, em Lucerna. Conversámos longamente sobre Jesus, a Sua história, os Seus desígnios, a Sua missão, o Seu Evangelho, a Sua morte e ressurreição, a Sua Igreja. Até foi nesse encontro que ele me pediu para ir buscar o Evangelho segundo São João em grego e ler aquele passo: “Àqueles e àquelas a quem perdoardes os pecados ser-lhes-ão perdoados”, e reparei então que Jesus não disse isso aos Apóstolos, mas aos discípulos (oì mathetai). Conversámos enquanto partilhávamos uma refeição ao anoitecer, uma refeição com pão, queijo e bom vinho. Já noite dentro, à saída para o hotel, perguntei-lhe em afirmação: “Professor, foi uma Eucaristia.” E ele, serenamente: “Claro que foi.”


Perto de morrer — contou-me o teólogo Hans Küng, que faleceu neste ano de 2021, como aqui referi em várias crónicas —, mandou chamar precisamente o seu amigo Küng — tinham sido colegas na Universidade  de Tubinga —, confessou-se, comungou e rezaram a ladainha da boa morte.


Em Janeiro do ano 2000, o seu bispo, o bispo de Basileia, retirou-lhe a confiança. Mas no testamento ficou escrito: "Morro como filho da Igreja Católica, à qual me liga uma dívida de gratidão sem limites, mas na qual também tive muito sofrimento."


Se mais alguma vez for a Lucerna na Suiça, já não irei bater à porta do número 26 da Haldenstrasse. O meu amigo teólogo Herbert Haag já lá não mora. Mas creio firmemente que havemos de reencontrar-nos. 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 18 de dezembro de 2021

O ENIGMA DO TEMPO E A ETERNIDADE NO INSTANTE

 

1. Uma característica essencial do ser humano é que conjugamos os verbos no passado, no presente e no futuro.


Há quem julgue que a salvação está no passado. Há sempre os saudosistas do passado: antigamente é que era bom. É a saudade do Paraíso perdido. Também há aqueles que não querem preocupar-se nem com o passado nem com o futuro. O que há é o presente, o aqui e agora, o agora a que se segue outro agora: a salvação consiste no amor e fruição do presente. Depois, há os sonhadores e os ascetas. Fogem do agora, para refugiar-se no amanhã. Nunca estão no presente, pois a sua morada é só o futuro...


Ora, pensando bem, se, por um lado, não podemos instalar-nos no passado, por outro, ninguém pode abandonar o passado, como se fosse sempre e só o ultrapassado. De facto, quando damos por nós, já lá estamos, o que significa que vimos de um passado que nem sequer dominamos. E temos de aprender com o passado, para, a partir dele, nos decidirmos no presente.


Depois, também não é possível a simples instalação no presente, já que só podemos viver no presente projectando-nos constantemente no futuro. O Homem está voltado para o futuro, pois é constitutivamente esperante. Vivemos voltados para o futuro, porque somos projecto: agimos e somos, antecipando sempre. Sem esta antecipação, não poderíamos agir humanamente. Mas, por outro lado, não se pode esquecer que realmente a esperança também significa que, se desejamos, é porque não temos, e isso implica que não se é feliz. E, depois, quando temos, há sempre o temor de perder o que temos, o que nos coloca em permanente inquietação... Viver humanamente não pode, portanto, significar viver exclusivamente do futuro e para o futuro, pois viver unicamente da esperança é nunca viver, já que verdadeiramente só se vive no presente. Viver unicamente da esperança seria adiar constantemente a vida, no sentido do viver. Aliás, colocar permanentemente o presente ao serviço do futuro, vê-lo exclusivamente em função do futuro, é abrir as portas ao perigo da tirania: quantos homens e mulheres não foram de facto vítimas do sonho de "amanhãs que cantam"?!...


É isso: querer viver exclusivamente do presente e para o presente não é humano, pois isso significaria viver na imediatidade animal, sem horizonte de futuro e transcendência. Mas, por outro lado, quem quisesse viver exclusivamente do futuro e para o futuro nunca poderia afastar a dúvida de estar apenas a lidar com as suas ilusões. A arte de viver humanamente consiste em, a partir do passado, viver com tal intensidade e dignidade o presente que se torna legítimo esperar a vida plena futura...


2. Ah!, o tempo! Se soubéssemos o que é o tempo... Já Santo Agostinho, um dos pensadores que mais profundamente reflectiram sobre o mistério do tempo, se queixava: Se ninguém me perguntar, eu sei o que é o tempo; mas se alguém me perguntar e eu tiver de responder, eu não sei o que é o tempo. De facto, o passado já passou, já não existe; o futuro ainda não chegou, ainda não existe; e o presente, quando queremos agarrá-lo, já lá não está.


Mas sabemos que o tempo corre vertiginosamente. Sabemos que envelhecemos. Este é o tempo mensurável dos relógios, o tempo de Cronos, que, segundo o mito, devora os seus próprios filhos.


Por outro lado, o tempo não é completamente homogéneo. Há o tempo novo, o tempo qualitativo, aquele instante em que a eternidade irrompe no tempo. Esse é o tempo da liberdade, da criação, o tempo do amor, da beleza. Aí, trata-se daquele instante em que se frui realmente a eternidade e que tem a ver, por exemplo, com a exaltação exultante do final de uma sinfonia, na suspensão do tempo. É desse instante que se diz no Fausto, de Goethe: “Pára, és tão belo!”


A todo o homem e mulher já alguma vez, por exemplo, perante um pôr-do-sol à beira-mar, na dilatação do horizonte no cume da montanha, no acto amoroso, no abismo encantante, sereno e misterioso do olhar de uma criança, aconteceu, de repente, uma experiência desse instante pleno. Trata-se de algo que o Homem não pode provocar, mas de uma visita daquilo que o preenche. É uma presença imediata do que chega e se revela de repente como plenitude. É apenas um instante no tempo, e, no entanto, só através desse instante é que o tempo tem sentido. Mostra-se o que nos realiza plenamente e que vale por si mesmo. Aí quereríamos ficar para sempre. A própria angústia da morte fica suprimida, e até se poderia morrer, pois essa é a experiência da não-morte.


É a um desses instantes que se refere também Tolstói em Guerra e Paz. Ferido de morte, o príncipe André caiu de costas. "Por cima da sua cabeça, nada mais havia além do céu, um céu muito alto, não claro, mas imensamente alto, onde erravam tranquilamente pequeninas nuvens cinzentas. ‘Que calma, que paz, que majestade! Como é que eu nunca tinha visto isto, este céu profundo e infinito, sem limites? E que feliz me sinto de o ver finalmente'."


É preciso dar-se tempo para alguma experiência desse instante que nos redime do tempo que nos devora: o tempo de exaltar-se com esse céu imensamente alto e sereno, sem limites; extasiar-se com o perfume de uma rosa que é sem porquê e que nem sequer repara se olham para ela, como disse Angelus Silesius; deixar-se visitar pelo infinito do olhar de alguém; ouvir o indizível, que só na poesia e na música tenta dizer-se; marcar visita com o Infinito, através da oração... O que é rezar senão visitar e ser visitado por Deus, o Infinito?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 de dezembro de 2021

O MUNDO E A IGREJA. QUE FUTURO?

 

1. Julgo que nunca a Humanidade enfrentou tantas e tão graves ameaças como hoje. Só exemplos: as alterações climáticas; guerras dispersas; a guerra nuclear; as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências) na sua ambiguidade, pois há novas possibilidades, mas também perigos: frente às possibilidades do trans-humanismo e do pós-humanismo, é preciso reflectir sobre o que verdadeiramente queremos; as batalhas digitais; o controlo digital pelos Estados; bebés transgénicos; experiências com híbridos; migrações incontroláveis; as lutas tecno-económico-políticas pela supremacia global; as drogas; a injustiça estrutural global; o atropelo dos direitos humanos...


A questão é que estes problemas tão complexos são globais e a politica é nacional, quando muito regional, com Governos que governam para o curto prazo, para ganhar eleições, mas estes problemas são globais e exigem soluções a longo prazo. Não precisamos, portanto, de erguer uma Governança Global? Não digo, evidentemente, Governo mundial, mas Governança Global, já que os problemas enunciados e outros só com decisões ético-jurídico-políticas globais poderão encontrar solução.


Neste contexto, é preciso contar com o apoio da Igreja. A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente global: presente em todo o mundo  e em todos os estratos sociais. É, pois, fundamental poder contar com o seu contributo decisivo enquanto voz politico-moral global. Evidentemente, por si mesma e também em ligação com as outras Igrejas cristãs e em diálogo com as grandes religiões mundiais. A pergunta é: que revolução é preciso operar na Igreja para ela poder desempenhar esta missão imprescindível?


É neste horizonte que se situa o meu mais recente livro, 479 páginas, com o título O Mundo e a Igreja. Que futuro?. Acaba de ser distribuído pelas livrarias.


2. Tem quatro partes.


2.1. Depois da Introdução a elencar as crises actuais — crise sanitária, crise ambiental, crise económica e social, crse migratória, crise política, crise das relações humanas, crise educativa, crise religiosa —, a primeira parte intitula-se: Tempo para pensar. Invadidos pelo achismo, a sida espiritual, a ganância do ter e do poder pelo poder, precisamos de parar para pensar. Isso: pensar, de pensare, pesar razões, ir ao mais fundo, para encontrar a sabedoria de viver e ser feliz, reflectir sobre as feridas e ameaças à Humanidade, sobre as finalidades humanas, as razões da esperança...


2.2. Segunda parte: O sofrimento, a morte e Deus. Parte-se de um conceito holístico de saúde e reflecte-se sobre os dados científicos que mostram como a prática religiosa influencia positivamente a saúde. Perante a morte, ergue-se a interrogação essencial, que está na base das artes, das filosofias, das religiões: o que é o Homem? Frente à morte, impõe-se, clara, a distinção entre bem e mal, entre o que verdadeiraemnte vale e tudo o resto. Ah, e a pergunta de Tolstói em A morte de Ivan Ilitch: “Onde estarei quando já não existir?” Qual é o Sentido último da existência? Há razões para acreditar que na morte não encontraremos o nada mas a plenitude da vida em Deus?


2.3. Terceira parte: Francisco, um cristão reformador. Como escreveu P. Seewald, seu biógrafo, Joseph Ratzinger, “o primeiro Papa do terceiro milénio” com o nome de Bento XVI, era, “do ponto de vista formal, o Papa mais poderoso de todos os tempos. Nunca a Igreja Católica estivera tão espalhada pelo mundo.” Mas os problemas eram gigantescos e os lobos não largavam a vinha do Senhor. No dia 11 de Feveiro de 2013, Bento XVI declarou a renúncia ao pontificado. O sucessor, Francisco, foi eleito no dia 13 de Março seguinte, e rapidamente conquistou o mundo. ‘Franciscano’ e jesuíta, é um líder político-moral global, hoje talvez o mais amado e influente. Simples, ele é um cristão. O que o move é o Evangelho de Jesus, a favor da dignidade de todos, da fraternidade e da paz, no quadro de uma “ecologia integral”. Enfrenta sem hesitar os escândalos na Igreja, da tragédia da pedofilia do clero à imensa corrupção no Vaticano. Quer uma Igreja à maneira de Jesus, que a todos acolhe, aberta ao diálogo ecuménico e inter-religioso. O protocolo manda dirigir-se-lhe como “Sua Santidade”, mas, na verdade, ele é “Sua Fraternidade”.


2. 4. A quarta parte quer enfrentar precisamente a urgência do caminho de uma revolução na Igreja: Uma Igreja outra. Urge a abertura a “uma Igreja em saída”, desconfinada de dogmas estéreis, clericalismos, tradições fossilizadas, ritualismos mortos, que não transmitem vida. Para isso, só há um caminho: que cada cristão volte a fazer uma experiência pessoal de encontro com a pessoa de Jesus Cristo e o seu Evangelho, notícia boa e felicitante, e não Disangelho, notícia má e de desgraça, como denunciou Nietzsche. Claro que alguma organização é necessária, mas não a que está em vigor, que leva à criação de duas classes na Igreja. Qual é a revolução que falta? A partir do facto de que Jesus não ordenou sacerdotes, que consequências tirar?


Estou grato ao Arquitecto E. Souto Moura pela capa, que apresenta de modo tão apelativo o livro à visibilidade pública. Os primeiros leitores foram Maria de Belém Roseira e Paulo Rangel, e devo-lhes o privilégio de uma leitura atenta e generosa, seguida de um Prefácio e um Posfácio, respectivamente, iluminantes, tão enriquecedores, com ideias fortes, originais e até inesperadas.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 6 de novembro de 2021

O CRISTO PENSADOR

 

Karl Rahner, talvez o maior teólogo católico do século XX, deixou escapar um dia, numa aula, uma daquelas observações que nunca mais se esquecem: na Igreja católica, é obrigatório confessar os pecados graves e mortais, mas ele não estava a ver que algum bispo ou padre ou superior religioso, ministro ou professor católico se tenha alguma vez confessado do pecado grave e, frequentemente, mortal, da ignorância culpada, da incompetência fatal, da inteligência irresponsavelmente menorizada.


Em geral, nas igrejas, faz-se pouco apelo à razão, à reflexão crítica, à pergunta. Como se a fé não tivesse de conviver com a inteligência, com a dúvida e com a pergunta. Os cristãos – mas isso acontece em todas as religiões – parece que ficam tolhidos na sua capacidade de perguntar. No entanto, Jesus morreu a rezar esta pergunta infinita que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”, e o filósofo Martin Heidegger, um dos maiores  do século XX, escreveu que “a pergunta é a piedade do pensamento”.


Na catequese e nas pregações da Igreja, parte-se, desgraçadamente,  de um Cristo definido dogmaticamente e concebido à maneira de um robô, que chegou a este mundo já pré-programado e que não fez senão cumprir esse programa. Por isso, não precisou de pensar, não teve hesitações, não passou por tentações, não teve de decidir ele mesmo o que devia fazer para realizar a vontade de Deus, a quem chamava com ternura Abbá, querido Papá.


Na Igreja, valoriza-se a obediência, referindo constantemente aquele passo de São Paulo: “Cristo obedeceu até à morte e morte de cruz”. Mas quase nunca se explica o que é a obediência de Cristo, ocultando que, para obedecer a Deus e ao que Deus quer – dignidade, futuro, fraternidade, liberdade para todos --, teve de desobedecer aos opressores, nomeadamente a uma religião que, em vez de libertar, oprimia.


Tanto entre os crentes como entre os ateus e os sem religião, não faltam os que julgam saber, com saber certo, sem qualquer dúvida nem hesitação, o que Deus é, em que consiste a vontade divina para cada pessoa, qual é o sentido da História e do mundo. Entronizados no poder, definem dogmas, estabelecem normas e mandam com soberania inquestionável.


Os seres humanos são, por natureza, frágeis, carentes e, por isso, é quase inevitável que, entre a liberdade e a segurança, a maioria não hesite em escolher a segurança, como já aqui expliquei, referindo o diálogo entre o Grande Inquisidor e Cristo em Os Irmãos Karamázov, de Dostoiévski. O Grande Inquisidor disse a Cristo num calabouço do Santo Ofício, onde O tinha mandado prender: que O queima na fogueira como o pior dos hereges, e a razão é que a liberdade de fé tinha sido para Ele a coisa mais preciosa. Não foi Ele que disse tantas vezes: “Quero tornar-vos livres?” Cristo não percebeu que “o Homem não tem preocupação mais torturante do que encontrar alguém em quem possa delegar o mais depressa possível a dádiva da sua liberdade.”


“Em vez de Te apoderares da liberdade das pessoas, acrescentaste ainda mais à sua liberdade!”, diz-lhe o Inquisidor. Por isso, os hierarcas eclesiásticos corrigiram a façanha de Cristo, baseando-a em milagre e autoridade. Agora, todos sabem em que hão-de acreditar e o que devem fazer, sem terem de perguntar porquê nem de escolher. “E as pessoas ficaram contentes por serem de novo guiadas como um rebanho e por ter sido tirada dos seus corações a dádiva terrível que tanto sofrimento lhes causava.” Daí, a ordem do velho cardeal inquisidor: “Cristo, vai-te embora e não voltes mais... não voltes... nunca, nunca!”


Perguntar vem do latim percontari, que, por sua vez, terá na sua base contus, vara comprida. Então, perguntar, etimologicamente, quer dizer examinar o fundo de um rio ou de um tanque com um bastão e, portanto, sondar o interior da pessoa e da realidade.


Só o Homem pensa e pergunta. Lá está “O pensador” de Rodin. Um animal com a mão encostada à face ou a face entre as mãos, a cabeça inclinada e absorto, é um homem que pensa: tenta ver o seu interior e o mais fundo de tudo. Nenhum outro animal pensa nem se examina nem examina as consequências dos seus actos nem pergunta. O Homem pergunta, e a sua pergunta não tem limites. E é assim que, nesse seu perguntar, pode surgir a questão da transcendência e de Deus. Como escreveu Theodor Adorno, da Escola Crítica de Frankfurt, “o pensamento que se não decapita desemboca na transcendência”.


Por tudo isto, é uma surpresa boa encontrar em Vilnius algo típico da Lituânia, talvez porque é um povo que sofreu demasiado: umas pequenas estátuas de Cristo a pensar -- o Cristo pensador. Estive uma vez em Vinius e a recordação que trouxe e que se encontra presente na minha mesinha de cabeceira é uma dessas pequenas estátuas.


Pensar vem do latim pensare, com o significado de ponderar, examinar, pesar argumentos e razões. Pensar pode ter também o significado de aplicar o curativo, os remédios necessários. E é assim que, em português, pesar também quer dizer solidariedade com a tristeza de alguém que sofre.


Neste contexto, quero prevenir que me parece que se pensa pouco, mas que, se todos os dias se dedicasse um pouco mais de tempo a pensar, muitos desastres pessoais e familiares teriam sido evitados. Também seriam evitados a nível colectivo, se os políticos se dedicassem a pensar verdadeiramente no bem comum e não ficassem confinados no mero pensar astucioso para ganhar eleições.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 7 AGOSTO 2021

ABUSOS DE MENORES NO CÓDIGO DE DIREITO CANÓNICO

 

1. O Evangelho é duríssimo. Nele, diz-se: “Deixai vir a mim as criancinhas”, mas também se diz: “Ai de quem escandalizar uma criança! Era melhor atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e lançá-lo ao mar”. O que tem acontecido na Igreja quanto aos abusos de menores é pura e simplesmente execrável.


Em 2019, Francisco tomou uma iniciativa histórica, convocando uma Cimeira para o Vaticano, com 190 participantes, entre os quais 114 Presidentes das Conferências Episcopais de todo o mundo, bispos representando as Igrejas católicas orientais, alguns membros da Cúria, representantes dos superiores e das superioras gerais de ordens e congregações religiosas, alguns peritos e leigos. Os três dias estiveram sob o lema: “responsabilidade”, “prestação de contas”, “transparência”. O Papa quer — não se trata de mero desejo — implantar “tolerância zero”.


2. Para implantar essa “tolerância zero” e pôr fim a esta catástrofe na Igreja, publicou o Motu ProprioVos estis lux mundi” (Vós sois a luz do mundo), decretando medidas concretas contra a pedofilia na Igreja.


Estas normas contra os abusadores e os encobridores impõem-se, porque, escreveu Francisco, “o delito de abuso sexual ofende Nosso Senhor, causa danos físicos, psicológicos e espirituais às vítimas e prejudica a comunidade dos fiéis.”


Os clérigos e religiosos ficaram obrigados (não se trata de mera obrigação moral, mas legal) a denunciar os abusos aos superiores, bem como a informá-los sobre as omissões e encobrimentos na sua gestão. Todas as Dioceses do mundo têm a obrigação de criar no prazo de um ano ou mais sistemas estáveis e de fácil acesso ao público, para que, com facilidade, todos possam apresentar informações sobre abusos sexuais cometidos por clérigos e religiosos e o seu encobrimento. O documento ratifica a obrigação de colaborar com a justiça civil dos países. Aliás, “estas normas aplicam-se sem prejuízo dos direitos e obrigações estabelecidos em cada lugar por leis do Estado, em particular as relativas a eventuais obrigações de informar as autoridades civis competentes”. Para lá do assédio e da violência contra menores (menos de 18 anos) e adultos vulneráveis, o texto inclui a violência sexual e o assédio que provêm do abuso de autoridade, bem como a posse de pornografia infantil e qualquer caso de violência contra as religiosas por parte de clérigos e ainda os casos de assédio a seminaristas ou noviços maiores de idade. Impõe a protecção dos denunciantes e das vítimas: quem denuncia abusos não pode ser objecto de represálias ou discriminação por ter informado; as vítimas e suas famílias serão tratadas com dignidade e respeito e devem receber a devida e adequada assistência espiritual, médica e psicológica; é preciso atender também ao problema das vítimas que no passado foram reduzidas ao silêncio. Estas normas aplicam-se à Igreja universal. Solicita-se vivamente a colaboração dos leigos, que podem ter capacidades e competências que os clérigos não dominam. Evidentemente, reafirma-se o princípio da presunção de inocência da pessoa acusada e o segredo da confissão deve manter-se como inviolável. Como escreve o Papa, “para que estes casos, em todas as suas formas, nunca mais aconteçam, é necessária uma conversão contínua e profunda dos corações, atestada por acções concretas que envolvam todos os membros da Igreja.”


3. Francisco acaba de ir mais longe ao incorporar no Código de Direito Canónico a legislação contra os abusos sexuais de menores e adultos vulneráveis (“pessoas que habitualmente têm um uso imperfeito da razão”), agravando-a. No Código anterior, estes delitos apareciam no capítulo “Delitos contra as obrigações especiais dos clérigos”. Agora, passam para o capítulo “Delitos contra a vida, a dignidade e a liberdade da pessoa”. E trata-se de delitos cometidos não só por clérigos mas também por membros de institutos de vida consagrada e outros fiéis, nomeadamente leigos que ocupem determinadas funções na Igreja.


Há o endurecimento das penas, dilata-se o tempo da prescrição. O novo cânone 1398 dispõe que “seja punido com a privação do ofício e com outras penas justas, sem excluir, se o caso o requerer, a expulsão do estado clerical”, o clérigo  que “comete um delito contra o sexto mandamento do Decálogo com um menor ou com pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão ou a que o direito reconhece igual tutela.”


É igualmente punido quem “recrutar ou induzir um menor ou uma pessoa que habitualmente tem um uso imperfeito da razão para que se exponha pornograficamente ou para particpar em exibições pornográficas, tanto verdadeiras como simuladas” ou quem “imoralmnete adquire, conserva, exibe ou divulga, por qualquer forma ou através de qualquer instrumento, imagens pornográficas de menores ou de pessoas que habitualmente têm um uso imperfeito da razão.”


As alterações no Direito Penal da Igreja também prevêem novos delitos no domínio económico e financeiro. Assim, “penaliza-se os abusos de autoridade, a corrupção, tanto do corrupto como do corruptor, a má gestão do património eclesiástico”. Francisco ataca “o diabo que entra pelos bolsos”,  impondo “transparência” no domínio da gestão do património da Igreja.


4. Francisco refere a necessidade da prevenção. Quanto aos abusos de menores, penso que ela deve implicar também o fim do celibato obrigatório para os padres e o acesso das mulheres a todos os cargos da Igreja, sem discriminação.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 JUNHO 2021

KÜNG E A FÉ


1.
Hans Küng, um dos maiores teólogos católicos e um pensador de influência mundial, deixou-nos. Fica a sua teologia com os novos horizontes que abriu no sentido de uma esperança que formulou assim na sua última lição na Universidade de Tubinga, em 1996: "Spero unitatem ecclesiarum, espero a unidade das Igrejas. Spero pacem religionum, espero a paz entre as religiões. Spero communitatem nationum, espero uma verdadeira comunidade das nações." Fica também como inspiração a sua reflexão epistemológica, introduzindo na Teologia "a teoria de mudança de paradigmas", a partir da obra famosa de Thomas Kuhn: The Structure of Scientific Revolutions, sobre o desenvolvimento da ciência (lembro a definição de paradigma de Kuhn: "Uma constelação total de crenças, valores, técnicas, etc., partilhada por uma determinada comunidade"). Também na Teologia há paradigmas: o paradigma paleocristão apocalíptico, o helenístico da Igreja antiga, o católico-romano medieval, o protestante reformado, o iluminista moderno, estando presentemente a esboçar-se um novo paradigma, o paradigma de uma "teologia ecuménica crítica", com duas constantes ou pólos, em "correlação critica" - a primeira constante, pólo ou horizonte é "o nosso mundo presente de experiência em toda a sua ambilvalência, contingência e mutabilidade"; a segunda constante, pólo ou norma essencial é "a tradição judeo-cristã, que, em última análise, se funda na mensagem cristã, no Evangelho de Jesus Cristo" -, e duas orientações: ad intra, isto é, ecuménica, no sentido do ecumenismo intracristão, e ad extra, enquanto dirigida para as religiões do mundo e para toda a Terra habitada.


2.
Küng era um cristão convicto, e também me confessou, da última vez que nos vimos - foi em Barcelona em 2004, por ocasião do encontro do Parlamento das Religiões do Mundo -, a alegria com que ia celebrar os seus 50 anos de padre.


A sua teologia era uma exigência da fé, porque a fé tem de dar razões, o que ficou claro logo na sua tese de doutoramento sobre A Justificação. O que se entende, em termos simples, por justificação? Se se pensar bem, andamos todos a tentar justificar a nossa vida, a nossa existência. É que não nos basta existir, precisamos que outros, concretamente pessoas significativas, nos reconheçam. Há uma luta pelo reconhecimento, como tão bem mostrou Hegel na sua Fenomenologia do Espírito. Tanto individual como colectivamente. Temos necessidade vital de que reconheçam o nosso valor, que valemos. Foi isso que Lutero descobriu ao ler na Carta de São Paulo aos Romanos: "o Homem justifica-se pela fé", isto é, podemos e devemos entregar-nos confiadamente a Deus, porque valemos para Ele, Ele reconhece o nosso valor, e, assim, confiando n'Ele, estamos salvos. Lembro-me de ter tentado explicar isto numa palestra em Maputo, e soube depois que um moçambicano negro tinha feito mais de dez quilómetros a pé para ir dizer a uma irmã: "Está aí um padre de Lisboa que esteve a explicar que valemos para Deus, Deus reconhece-nos, tu tens valor para Deus, já pensaste? Precisava de vir dizer-te isto: tu vales para Deus, Ele dá-te valor."


Küng ouviu muitas vezes a pergunta: "Com toda a sinceridade, em que crê pessoalmente?" Para responder a este desafio deu uma série de lições, a cada uma das quais assistiram cerca de mil pessoas, de que resultou um livro: Aquilo em que Creio. "Escrevo para pessoas que se encontram em processo de busca." Para crentes e não crentes..., "também para todos aqueles que vivem a sua fé e, além disso, querem dar razão dela. Para aqueles que, longe de limitar-se a crer desejam "saber" e esperam, portanto, uma interpretação da fé que esteja fundada filosófica, teológica, exegética e historicamente e tenha consequências práticas". "A fé cega levou e leva muitas pessoas e povos inteiros à perdição." Estava a referir-se aos fundamentalismos. E também não é fé verdadeira a que se contenta com o cumprimento de rituais religiosos.


De modo geral, quando falamos de fé, pensamos apenas na fé religiosa, esquecendo que a nossa vida toda está baseada na fé - fé vem de fides, de cum+fides provém confiança. Quanto nos metemos à estrada, confiamos que não venha um carro contra nós... Cremos num futuro melhor (crer vem de credere, donde procede o crer religioso e o crer até nos bancos: eles concedem (concediam...) crédito... Retire-se a fé, a confiança, o crer e o crédito na vida e... tudo se desmorona... O bebé vem ao mundo e entrega-se, numa confiança radical, à mãe, ao pai... Se a confiança de base (basic trust) for frustrada, a vida pode tornar-se-lhe um inferno.


Com o tempo, vai perguntando se há razões para confiar... E chegamos às perguntas decisivas: porque há algo e não nada? Que sentido tem a minha vida, Sentido último? O que será feito de mim? Fica a alternativa: o nada ou a plenitude, o absurdo ou o Sentido final em Deus. O crente não pode demonstrar Deus, mas o não crente também não pode demonstrar o nada; e ele tem razões melhores do que o crente? Küng acreditava em Deus e na vida eterna. Confiava, com razões, que, na morte, não ia para o nada mas para "o Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência a que chamamos Deus", disse-me. O mundo e a existência são ambíguos. É no próprio acto de confiar radicalmente em Deus que se mostra que é um acto racional: com ele, num mundo ambivalente, de bem e de mal, de sentido e de absurdo, tudo se ilumina e ganha sentido, Sentido último.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JUNHO 2021

HANS KÜNG E FRANCISCO

 

1. Faz amanhã dois meses que, como aqui dei a devida notícia, morreu Hans Küng, o teólogo católico mais conhecido dos últimos decénios e um pensador de influência mundial.


Küng tinha imensa esperança no Papa Francisco, que lhe escreveu duas vezes, inclusivamente a dizer que a infalibilidade pontifícia era questão a estudar,  e lhe enviou uma bênção antes da morte. Lamentavelmente, talvez para não ferir Bento XVI, não o reabilitou de modo oficial. De qualquer forma, julgo que é inegável a influência do seu pensamento na primavera da Igreja prosseguida por Francisco, não só por causa das suas investigações sobre o cristianismo primitivo mas também do seu contributo incalculável para o encontro da fé com o mundo moderno e pós-moderno e um ethos (nova atitude ética) global.   


2. Por isso, vale a pena voltar concretamente ao seu livro A Igreja ainda tem salvação? (1997), no qual confessa que foi por imperativo de consciência que o escreveu. “Preferiria não ter escrito este livro. Não é agradável dirigir à Igreja, que foi e é a minha, uma publicação tão crítica”, mas, “na presente situação, o silêncio seria irresponsável”. De que sofre a Igreja? A Igreja católica, a maior, a mais poderosa, a mais internacional Igreja, essa grande comunidade de fé, está “realmente doente”, “mortalmente doente”, “sofre do sistema romano de poder”, que se acaracteriza pelo monopólioo da verdade, pelo juridicismo e clericalismo, pelo medo do sexo e da mulher, pela violência espiritual.


Que propôs Küng não só como teólogo eminente, mas também como cristão profunamente convicto, que nunca abandonou a Igreja que considerava a sua? É preciso voltar a Jesus Cristo, ao que ele foi, é, quis e quer. De facto, em síntese, a Igreja é a comunidade dos que crêem em Cristo: “A comunidade dos que se entregaram a Jesus Cristo e à sua causa e a testemunham com energia como esperança para o mundo. A Igreja torna-se crível, se disser a mensagem cristã não em primeiro lugar aos outros, mas a si mesma e, portanto, não pregar apenas, mas cumprir as exigências de Jesus. Toda a sua credibilidade depende da fidelidade a Jesus Cristo.” Como procederia Jesus nas actuais situações, quando pensamos no modo como agiu? Seria contra o preservativo, os anticonceptivos, excluiria as mulheres, obrigaria ao celibato, proibiria a comunhão aos recasados? Que diria sobre as relações sexuais antes do casamento? Como procedria em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso?


A Igreja não pode entender-se como um aparelho de poder ou uma empresa religiosa, mas como povo de Deus e comunidade do Espírito nos diferentes lugares do mundo. O papado não tem que desaparecer, mas o Papa não pode ser visto como “um autocrata espiritual”, antes como o bispo que tem o primado pastoral, vinculado colegialmente aos outros bispos e, acrescentaria eu, a representantes das congregações religiosas e de todo o Povo de Deus, homens e mulheres.


A Igreja, ao mesmo tempo que tem de fortalecer as suas funções nucleares — oferecer aos homens e às mulheres de hoje a mensagemm cristã, de modo compreensível, sem arcaísmos nem dogmatismos escolásticos, e celebrar os sacramentos —, deve assumir as suas responsabilidades sociais, apresentando, sem partidarismos, à sociedade opções fundamentais, orientações para um futuro melhor.


Não se trata de acabar com a Cúria Romana, mas de reformá-la segundo o Evangelho. Essa reforma implica humildade evangélica (renúncia a títulos como: Monsignori, Excelências, Reverências, Eminências...), simplicidade evangélica, fraternidade evangélica, liberdade evangélica. E é necessário mais pessoal profissional, acabando com o favoritismo. De facto, esta Igreja é altamente hierarquizada e ao mesmo tempo caótica. Quem manda no Vaticano? “Conselheiros independentes haverá poucos.”


Mais: precisa-se de transparência nas finanças da Igreja; deve-se acabar com a Inquisição, não bastando reformulá-la, e eliminar todas as formas de repressão; não é suficiente melhorar o Direito eclesiástico, que precisa de uma reforma de fundo; deve-se permitir o casamento dos padres e dos bispos, abrir às mulheres todos os cargos da Igreja, incluir a participação do clero e dos leigos na eleição dos bispos; não se pode continuar a negar a Eucaristia a católicos e protestantes; é preciso promover a compreensão ecuménica e o trabalho conjunto.


3. Não é legítima a pergunta: Passados quase 25 anos, não é algo de semelhante a este projecto que move o Papa Francisco?


A sua medida mais recente e a mais importante neste sentido tem a ver com a sinodalidade da Igreja (caminhar em conjunto), tema do próximo Sínodo em Roma, adiado para 2023, também para criar uma dinâmica que permita que “sejam ouvidos todos os baptizados”, concretizando um desiderato já presente na Evangelii Gaudium que recomenda aos bispos “ouvir a todos e não apenas alguns sempre prontos a lisonjeá-los”.


Assim, o processo começará pelas bases: com uma primeira etapa, diocesana, e a nível dos países, até Abril de 2022, para que todos sejam ouvidos, elaborando-se então uma primeira síntese. As questões suscitadas serão depois reflectidas ao nível continental, no quadro de organismos continentais dos bispos, que, por sua vez, aoresentarão a sua síntese, sendo a partir daí que se elaborará o documento que servirá de instrumento  de trabalho para o Sínodo. Nele, pela primeira vez, votará também uma mulher.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 JUNHO 2021

TUDO E TODOS INTERLIGADOS. 2

 

4. Continuando a reflexão sobre a interligação de tudo e de todos, perguntamos: E para onde vamos? Sobretudo: Para onde queremos ir? Que futuro?


Face ao futuro, é essencial pensar. E voltamos à escola, que vem do grego scholê, que significa ócio, não o ócio da preguiça, mas tempo livre para homens e mulheres livres pensarem e governarem a pólis, (daí vem política):  a Cidade, isto é, a Casa comum da Humanidade. Hoje o que mais falta é precisamente este ócio. Ora, sem ele, tudo se torna negócio (do latim nec-otium). A própria política tornou-se sobretudo negócio(s). Assim, sob o império da técnica e do(s) negócio(s), não se pensa, calcula-se: o filósofo M. Heidegger chamou a atenção para isso: a técnica não pensa, calcula, o mesmo valendo para os negócios.


5. Olhando para o futuro, o que nos vincula é a esperança. Mas, mais uma vez, não há esperança autêntica sem pensamento. Quando olhamos para o futuro, encontramos evidentemente, motivos para imensa satisfação — voltando à pandemia, não temos de agradecer à ciência, pois, para dar um exemplo, nunca se tinha conseguido tão rapidamente uma vacina, e foi por causa das novas tecnologias que pudemos continuar, apesar de tudo, com mais ligação nos diversos niveis e facetas da vida? —, mas é preciso tomar consciência também das ameaças e dos perigos, que são gigantescos e globais. Há problemas de tremenda complexidade, já presentes e que se agravarão. Apenas exemplos: a guerra nuclear; a ecologia e as alterações climáticas; guerras digitais; as NBIC (nanotecnologias, biotecnologias, inteligência artificial, ciências cognitivas, neurociências) na sua ambiguidade, pois há novas possibilidades mas também perigos: frente às possibilidades do transhumanismo e do pós-humanismo, é preciso reflectir sobre o que verdadeiramente queremos; úteros artificiais e seus problemas; bebés transgénicos, experiências com híbridos; questões relacionadas com o inverno da natalidade, nomeadamente na Europa (em Portugal, será uma catástrofe), os mercados globais, a injustiça estrutrutural global, as migrações forçadas e anárquicas, as lutas tecno-económico-políticas pela supremacia global, o trabalho, as drogas, a paz, os direitos humanos… Vivemos num mundo global, estes problemas são globais e a questão é que a política é nacional, quando muito regional, com Governos que governam a curto prazo para ganhar eleições, mas estes problemas são globais e exigem uma solução a longo prazo… Não precisamos, portanto, de erguer uma Governança global? Não digo Governo mundial, mas Governança global, já que os problemas enunciados só com decisões ético-jurídico-políticas globais poderão encontrar solução.


Neste contexto, é necessário contar com o apoio da Igreja. A Igreja Católica é a única instituição verdadeiramente mundial, presente em todo o mundo e em todos os estratos sociais. Com a renovação em curso, segundo o Evangelho de Jesus, que implica também uma reforma radical da Cúria, e com uma orgânica nova de governo, a sinodal, pode-se e deve-se pensar e contar com o seu contributo decisivo enquanto voz político-moral tanto localmente como ao nível regional e global. Evidentemente, por si mesma e também em ligação com as outras Igrejas cristãs e com as diferentes religiões mundiais, com as quais continuará a empenhar-se num diálogo vivo e lúcido, segundo as exigências que o diálogo autêntico exige e que não pode ser unidireccional.  


E qual é o Sentido último de todos e de tudo? Problema maior hoje: há hoje uma espécie de cansaço vital. Porque não há Sentido ultimo. Daí, nem é no desespero que se vive, mas na inesperança. Só com Deus enquanto o “Futuro Absoluto”, na expressão célbre do teólogo Karl Ranher, talvez o maior teólogo católico do século XX, se pode erguer um futuro autenticamente humano, com Sentido final, pois Deus é o Futuro de todos os  passados, o Futuro de todos os presentes, o Futuro de todos os futuros.


6. No fim, voltamos ao princípio, por outras palavras, é imprescindível voltar a cada um, a cada uma, começar por si próprio, por si própria. E aí está a relação de cada um, de cada uma consigo mesmo, consigo mesma. A Humanidade é constituída por pessoas, em ligação com tudo e com todos, mas únicas.


Cada um precisa de ter uma relação boa consigo, portanto, com o seu passado. Afinal, o presente já foi, no passado, um sonho de futuro(s): é sempre no presente que vivemos, mas relacionados com o passado. Olhando para o passado, talvez não fiquemos satisfeitos, pois houve erros, disparates, sei lá!, e então é preciso é reconciliar-se com ele para que não continue a envenenar-nos — nisto, o crente sabe que deve contar com Deus: Ele entende e perdoa. No presente, é preciso pensar no futuro, já que o presente é inevitavelmente voltado para as possibilidades futuras: que futuro projectamos, que queremos para o futuro, sabendo concretamente que, pensando nele, inevitavelmente deparamos com a morte? Colocando-me na perspeciva do fim — também a história individual só a partir do fim se pode ler toda —, que quero, no fim, ter feito de mim, em ligação com os outros? De tal modo que possa esperar, sem ilusões, que a morte não tem a última palavra. Como disse I. Kant de forma lapidar: “A praxis tem de ser tal que não se possa pensar que não existe um Além”.


P.S.: Uma arreliadora gralha no texto da semana passada fez aparecer o Big Bang há 3.700 milhões de anos em vez de há 13.700 milhões de anos. Peço desculpa.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 29 MAIO 2021