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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

FRATELLI TUTTI. 3. UMA POLÍTICA SÃ

 

1. É evidente que é necessário defender o princípio essencial da liberdade, mas é igualmente necessário defender os outros dois princípios, o da igualdade e o da fraternidade. É a tríade que tem de estar sempre vinculada: liberdade, igualdade, fraternidade.


Se toda a pessoa tem dignidade inviolável e, portanto, o direito de viver com dignidade e desenvolver-se e realizar-se integralmente, impõe-se que o Estado não seja apenas o garante da liberdade, nomeadamente da liberdade de empresa e de mercado. Quem nasceu em boas condições económicas, quem recebeu uma boa educação, quem é bem alimentado, quem possui por natureza grandes capacidades..., esses “seguramente não precisarão de um Estado activo, e apenas pedirão liberdade. Mas, obviamente, não se aplica a mesma regra a uma pessoa com deficiência, a alguém que nasceu num lar extremamente pobre, a alguém que cresceu com uma educação de baixa qualidade e com reduzidas possibilidades para cuidar adequadamente das suas enfermidades. Se a sociedade se reger primariamente pelos critérios da liberdade de mercado e da eficiência, não há lugar para essas pessoas, e a fraternidade não passará de uma palavra romântica.”


2. Aí está, portanto, a necessidade de uma política sã e melhor. Quando hoje muitos têm uma má ideia da politica, e isso também por causa da corrupção, das mentiras, da ineficiência de muitos políticos, Francisco pergunta: “Mas poderá o mundo funcionar sem política?”, para insistir que não é possível “encontrar um caminho eficaz para a fraternidade universal e a paz social sem uma boa política”, e uma política transnacional, verdadeiramente global, para defesa do bem comum, salvaguarda da paz, preservação da natureza. Aliás, “hoje nenhum Estado nacional isolado é capaz de garantir o bem comum da própria população.” Exige-se pensar numa possível forma de autoridade mundial regulada pelo direito, que “deveria prever pelo menos a criação de organizações mundiais mais eficazes, dotadas de autoridade para assegurar o bem comum mundial, a erradicação da fome e da miséria e a justa defesa dos direitos humanos fundamentais”. Neste sentido, “é necessária uma reforma quer das Nações Unidas quer da arquitectura económica e financeira internacional, para que seja possível uma real concretização do conceito de família de nações.”


3. Neste quadro, Francisco apela ao exercício da grande caridade, “a caridade política”, que gera processos sociais de fraternidade e justiça para todos: “Convido uma vez mais a revalorizar a política, que é uma sublime vocação, é uma das formas mais preciosas de caridade, porque busca o bem comum.” O amor não se exprime só nas relações íntimas e de proximidade, “também nas macrorrelações como relacionamentos sociais, económicos e políticos”. O amor implica a amabilidade no trato, que leva alguém a dizer uma palavra de ânimo e também palavras como “com licença”, “desculpe”, “obrigado”; o amor está vivo na proximidade de “alguém que ajuda um idoso a atravessar um rio, e isto é caridade primorosa; mas o politico constrói-lhe uma ponte, e isto é também caridade. É caridade se alguém ajuda outra pessoa fornecendo-lhe comida, mas o político cria-lhe um emprego, exercendo uma forma sublime de caridade que enobrece a sua acção política.”


Para honrarem actividade tão nobre, os políticos não podem pensar só nas sondagens e numa mera busca de poder. Precisam de amor, coragem, lucidez, a favor de uma política da “globalização dos direitos humanos mais essenciais”, para uma humanidade justa, livre, num mundo onde todos possam viver em paz e realizar adequadamente a sua dignidade. Para isso, ajudará também que façam a si mesmos “estas perguntas, talvez dolorosas: Quanto amor coloquei no meu trabalho? Em que fiz progredir o povo? Que marcas deixei na vida da sociedade? Quanta paz social semeei? Que produzi no lugar que me foi confiado?”


4. Na impossibilidade de apresentar todos os domínios sobre os quais deve incidir esta actividade da “amizade social” universal, indico sumariamente alguns.


4.1. Francisco não se cansa de insistir na necessidade primeira de “assinar um pacto educativo global para fazer frente à virulenta pandemia do descarte”.


4.2. Não se assegura a dignidade das pessoas através de subsídios. “Ajudar os pobres com dinheiro deve ser sempre uma solução provisória para resolver uma urgência. O grande objectivo deveria ser sempre permitir-lhes uma vida digna através do trabalho”. Porque “não existe pior pobreza do que a que priva do trabalho e da dignidade do trabalho”. O verdadeiro caminho para a paz: terra, tecto e trabalho para todos.


4.3. Contra a lógica da guerra, impõe-se um “diálogo perseverante e corajoso”. “É muito difícil hoje defender critérios racionais, amadurecidos noutros tempos, para falar de uma possível ‘guerra justa’”. Com Paulo VI na ONU Francisco clama: “Nunca mais a guerra!”. E pede que com o dinheiro gasto em armas se crie um Fundo Mundial contra a fome, que é uma tragédia e uma vergonha. A pena de morte deve ser abolida em todo o mundo.


4.4. “O ideal seria evitar as migrações inúteis e, para isso, seria necessário criar nos países de origem a possibilidade efectiva de viver e realizar-se na dignidade.” Quando isso não é possível, é necessário avançar com os quatro verbos: “acolher, proteger, promover e integrar”.


4.5. É essencial o conceito de ecologia integral, para entender a conexão desta encíclica com a Laudato Sí. (Continua).

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 OUT 2020

FRATELLI TUTTI. 2. UMA OUTRA ECONOMIA

 

1. Ninguém é uma ilha. Só somos uns com os outros e precisamos de amor e de reconhecimento. Que importa a existência se ninguém nos reconhecer, se não valermos para alguém? Não é desse reconhecimento que todos andam à procura? Só o valer para alguém é que justifica a existência. E, quando se descobre que valemos para Deus, que Deus nos dá valor e nos reconhece, então a vida está salva, encontrando a plenitude de sentido.


Um dos pressupostos na nova encíclica— “Todos irmãos e irmãs” — é exactamente esta verdade fundamental: “Ninguém pode experienciar o valor de viver sem rostos concretos a amar. Aqui reside um segredo da verdadeira existência humana.” E daqui arranca a revolução de Francisco, a da dinâmica da fraternidade universal. Este é um ponto de partida, porque esta experiência, se autêntica, irradia e torna-se contagiante, num contágio bom de felicidade: começa-se por baixo, por um, pela família, e vai-se “pugnando pelo mais concreto e local, até ao último recanto da pátria e do mundo. Mas não o façamos sós, individualmente. Todos, retomando a parábola do bom samaritano, somos responsáveis pelo ferido que é o próprio povo e os povos todos da Terra.” Quem na vida foi meu próximo e de quem é que eu fui e sou próximo? Vai-se dando assim o encontro entre o concreto local e o universal, evitando tanto um localismo individualista fechado como um universalismo abstracto, homogeneizante e dominador. Realiza-se, pelo contrário, aquele ideal do poliedro, tão caro a Francisco: a unidade que floresce na variedade da riqueza de  perspectivas, do tesouro de cada cultura, um mundo com  “o seu colorido variado, a sua beleza e, em última análise, a sua humanidade”.


Outro pressuposto é a dignidade sagrada de cada ser humano. Aqui, vamos tocar a transcendência. Onde assenta a dignidade da pessoa, que é fim e não meio? Certamente, o ser humano é finito e mortal, mas tem algo de infinito nele. O quê? A pergunta ao Infinito pelo Infinito, se quisermos, a pergunta a Deus por Deus. Independentemente da resposta que se lhe dê, positiva ou negativa, todos os seres humanos são confrontados com esta pergunta, que revela neles o Infinito. Ora, o que é que há para lá do Infinito? Nada. Por isso, o ser humano é fim em si mesmo e não pode ser tratado como simples meio. As coisas são meios e, por isso, dirá Kant, têm um preço, o ser humano é fim e, por isso, não tem preço, tem dignidade. É livre, autopossui-se na liberdade e só é verdadeiramente no encontro com outras liberdades. Por isso, desde o início, a Bíblia diz que o ser humano foi criado à imagem de Deus, é imagem de Deus, e esta imagem está viva na liberdade e no reconhecimento de todo o ser humano como humano, digno.


A dignidade da pessoa humana é inviolável, e isso não por simples convenção ou convicção subjectiva, ela tem um fundamento real, de ser, transcendendo, portanto, as condições de nascimento ou as fronteiras...,  como escreve Francisco: a dignidade da pessoa “não se fundamenta nas circunstâncias, mas no valor do seu ser. Quando não se salvaguarda este princípio elementar, não há futuro nem para a fraternidade nem para a sobrevivência da Humanidade”.


2. O que fica dito e a consciência mais aguda que nos é dada pela pandemia de que “hoje ou nos salvamos todos ou não se salva ninguém — a pobreza, a decadência, os sofrimentos de um lugar da Terra são um silencioso caldo de cultura de problemas que acabarão por afectar todo o planeta” — obrigam à conversão a uma nova Economia, que não nega o lucro justo, mas que diz ‘Não’ “ao lucro a qualquer preço”, fazendo do Dinheiro um ídolo absoluto. A dignidade da pessoa humana, de todas as pessoas, exige, em ordem à sua realização, esta conversão urgente. “O mundo existe para todos, porque todos os seres humanos nascem nesta Terra com a mesma dignidade.”


Aqui, Francisco retoma João Paulo II: “Deus deu a Terra a todo o género humano para que ela sustente todos os seus habitantes, sem excluir nem privilegiar ninguém.” Por isso, arremete contra “o direito absoluto e intocável à propriedade privada”. “O direito à propriedade privada só pode ser considerado como um direito natural secundário e derivado do princípio do destino universal dos bens criados.” Ninguém pode ficar excluído. “O direito de alguns à liberdade de empresa e de mercado não pode estar acima dos direitos dos povos nem da dignidade dos pobres nem do respeito pelo meio ambiente.”


3. O Papa Francisco não é economista nem escreve como tal: anuncia o Evangelho e denuncia o ter de viver na indignidade.


De qualquer forma, neste domínio, ergue-se, inevitavelmente, uma questão de suma complexidade, que tem que ver com o conflito da eficiência e da equidade na Economia. Pessoalmente, quando tenho de falar sobre o tema, dou um exemplo: estão aqui 300 pessoas, partamos de zero, eu vou dar a cada uma 1000 euros; passado algum tempo, uns ainda têm 1000 euros, outros já têm 10 ou 20 mil e alguns terão dívidas. Sim, o liberalismo quer a liberdade, também de possível exploração,  mas já vivi num regime comunista e lá nem liberdade nem justiça, só fome para a quase totalidade da população. Como pôr a Economia a funcionar, salvaguardando a dignidade de todos?


Exige-se uma política sã. Em que sentido? Este será o tema da próxima crónica. Entretanto, sobre este magno problema, aconselho uma obra recente, Deus e o Mercado, com um diálogo provocador entre José César das Neves e o P. Vítor Melícias.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 17 OUT 2020

FRATELLI TUTTI. 1

 

1. “FRATELLI TUTTI” (irmãos todos) é o título da nova encíclica do Papa Francisco, abrindo horizontes novos para a Humanidade mergulhada numa profundíssima crise global. Cita Francisco de Assis escrevendo aos seus irmãos e irmãs para lhes propor uma forma de vida segundo o Evangelho, convidando-os a um amor que ultrapassa as barreiras da geografia e do espaço: feliz quem ama o outro, “o seu irmão que está longe ou que está perto”. Inspira-se, pois, em Francisco de Assis: não é acidental que, publicada com a data de 4 de Outubro, a tenha ido assinar na véspera sobre o seu túmulo, em Assis. Não é a única fonte de inspiração: estão também presentes outros líderes espirituais e políticos, como Charles de Foucauld, Martin Luther King, Desmond Tutu, Mahatma Gandhi...


O subtítulo da carta: “Sobre a fraternidade e a amizade social”, explicitado nestes termos: “Entrego esta encíclica social como humilde contribuição para a reflexão, a fim de que, perante as várias formas actuais de eliminar ou ignorar os outros, sejamos capazes de reagir com um novo sonho de fraternidade e amizade social que não se limite a palavras.” Embora partindo das suas convicções cristãs, quer dirigir-se a todas as pessoas de boa vontade, num diálogo sincero e plural, para a realização de um sonho comum de dignificação de todos. “Sonhemos como uma única Humanidade, como caminhantes da mesma carne humana, como filhos desta mesma Terra que nos alberga a todos, cada qual com a riqueza da sua fé ou das suas convicções, cada qual com a própria voz, mas todos irmãos.”


2. Começou a ser escrita antes da pandemia, mas esta parece ter agravado ainda mais a situação e há sombras negras que pairam no horizonte, obrigando a pensar e a exigir que se mude de rumo.


Exemplos de sombras e “tendências que dificultam o desenvolvimento da fraternidade universal”.


Não há um sonho comum mobilizador, “um projecto para todos”, o que se impõe é uma “cultura do descarte mundial”. A própria Europa avançava para variadas formas de integração, havia um anseio semelhante na América Latina e tentativas de pacificação e reaproximações noutras regiões. Mas “a História dá sinais de regressão”, reacendendo-se conflitos que se considerava superados, ressurgem nacionalismos “ressentidos e agressivos”. A ditadura do mercado quer impor um modelo cultural único e num mundo cada vez mais massificado perdemos a dimensão comunitária e encontramo-nos cada vez mais sós. O avanço da globalização favorece normalmente a identidade dos mais fortes e ameaça as identidades das regiões mais frágeis e pobres e, deste modo, “a política torna-se cada vez mais frágil perante os poderes económicos transnacionais.” Acentua-se a perda da memória, das raízes e do sentido da história, ficando em pé “apenas a necessidade de consumir sem limites” e um individualismo vazio. Aí estão “novas formas de colonização cultural”, sem pensamento crítico: “Que significado têm hoje palavras como democracia, liberdade, justiça, unidade? Foram manipuladas para utilizá-las como instrumento de domínio.” As redes sociais tomaram conta de muitos e a verdade esvai-se em fake news e no controlo das mentes, sem capacidade para pensar, tanto mais quanto se nega a outros “a capacidade de existir e pensar”, recorrendo-se “à estratégia de ridicularizá-los, insinuar suspeitas sobre eles e reprimi-los”. A sociedade acaba “reduzida à prepotência do mais forte” e “um projecto com grandes objectivos para o desenvolvimento de toda a Humanidade soa a um delírio.” Precisamos de nos construirmos como um “nós” que habita a casa comum de todos, mas isso “não interessa aos poderes económicos que necessitam de um ganho rápido”. Pairam no horizonte ameaças de novas guerras, e a Natureza dá sinais de alarme. Aumenta a riqueza, mas nascem novas pobrezas e morre-se de fome aos milhões. “Os direitos humanos não são iguais para todos”. O clamor de migrantes e refugiados é ensurdecedor. Cresce a  raiva das vítimas de racismo. As mulheres continuam a ver-se sem os seus direitos garantidos, e as condições de escravatura não acabaram. E continuam as guerras, os atentados, as perseguições, os muros..., e a solidão, os medos, as inseguranças. E “a terceira guerra mundial aos pedaços” é visível.


Será que aprendemos alguma coisa com esta crise dramática? É que não se pode ignorar que “o princípio ‘salve-se quem puder’ traduzir-se-á rapidamente no lema ‘todos contra todos’, e isso será pior que uma pandemia.”


3. Frente a este horizonte sombrio — excessivamente pessimista, dirão alguns —, a encíclica é um convite à esperança activa, com o samaritanismo. O exemplo é o bom Samaritano. Ele era um estrangeiro, mal visto pela ortodoxia, e também tinha os seus afazeres. Mas, à beira da estrada, jazia um desgraçado semi-morto, e ele parou, ajudou-o no que pôde, levou-o para a estalagem, pagou e que pagaria todas as despesas... Foi ele e não os dois religiosos (o sacerdote e o levita) o próximo daquele abandonado. “Vai e faz o mesmo.”


Para os cristãos, todos os seres humanos são irmãos e irmãs, porque há um Pai comum, Deus. Mas a fraternidade podemos ir bebê-la também, paradoxalmente, à mortalidade, como viu Herbert Marcuse, que não era crente. Já em vésperas de morrer, voltou-se para o amigo Jürgen Habermas: “Agora sei, Jürgen, em que é que se fundamentam os nossos juízos de valor mais elementares: na compaixão, no nosso sentimento pela dor dos outros. Somos mortais: logo, somos irmãos.” (Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 10 OUT 2020

CONVERSA COM HANS KÜNG. 2

 

Continuo a conversa com Hans Küng em 1979, incidindo sobre a esperança para lá da morte.

Para si, Jesus Cristo é o determinante na vida e na morte, o Filho de Deus. Pergunto-lhe: é Deus que nos salva ou é Cristo?

É o próprio Deus que nos salva através de Cristo. Não podemos de modo nenhum ver Cristo sem Deus. De contrário, não teria sentido para nós. Como também não podemos, enquanto cristãos, ver Deus sem Cristo. Caso contrário, Deus torna-se vago para nós.

Mas somos nós, os cristãos, que somos salvos através de Cristo ou são todos os homens? Isto é, mesmo aqueles que pertencem a outras religiões são salvos através de Cristo?

É claro que os homens que pertencem a outras religiões se podem salvar. E é evidente que só se podem salvar através do único Deus, pois há um só Deus. Em terceiro lugar, só se podem salvar através do Deus que nos foi revelado em Cristo, que, portanto, é o Deus da misericórdia, o Deus da graça, que Cristo nos revelou.

A ressurreição de Cristo é essencial no cristianismo...

Se Cristo não tivesse ressuscitado, a nossa fé seria vã, diz o apóstolo Paulo. E esta é também a minha convicção.

Mas é necessário não tomar à letra e como narrações históricas todas as representações que se referem à vida nova de Cristo. O importante e decisivo é concentrar-se no essencial da Boa Nova da Ressurreição. Ora, o que é o essencial da Boa Nova da Ressurreição? A Boa Nova da Páscoa significa isto: este Crucificado, que realmente morreu, não morreu para o nada, mas foi assumido na vida eterna de Deus. Ele vive com Deus seu Pai, através dEle e nEle. E isto significa para nós uma esperança.

Ele vive como pessoa?

Ele vive como pessoa, ele vive enquanto identicamente o mesmo que viveu na Terra. Caso contrário, não significaria nada para nós.

Ele vive como esperança para nós: nós também enquanto pessoas continuaremos a viver. Todos os que o seguirem com perseverança viverão também. Ele vive como desafio e estímulo para nós. Daí que o nosso dever seja fazer com que o seu caminho seja o nosso caminho, o seu modo de viver e morrer seja o nosso.

Hoje, para nós, o problema da imortalidade torna-se muito complicado, pois tínhamos o esquema dualista, que era talvez simplista, mas servia de ajuda. Ora, hoje todos esses esquemas estão ultrapassados. Portanto, sobre que é que podemos apoiar a ressurreição e a vida eterna?

Eu diria que cada pessoa, crente ou não, está perante uma alternativa. Mesmo o não crente perguntar-se-á: o que é que significa para mim a morte? Significa que todo o meu pensamento, toda a minha acção, todo o meu sofrimento, todo o meu amor, tudo aquilo que realizei, tudo aquilo por que me bati, tudo isso vai parar ao nada? Esta é uma alternativa.

Frente a esta alternativa só há uma outra: esta realidade que nós aqui captamos, tudo aquilo que nós podemos captar e manipular, tudo isso não é a Realidade última. Há a possibilidade — eu acentuo: a possibilidade — que o Homem, em vez de morrer para o nada, morra para a Realidade última, que é também a Realidade primeiríssima.

Quando perguntamos qual é o fundamento para isso, eu digo: confio que é assim. Eu confio, pois não se pode provar. Mas quem diz que morre para o nada, também não pode prová-lo. Esse tem uma desconfiança radical no Fundamento último e Sentido último da realidade. Eu, pelo contrário, tenho uma confiança radical no Fundamento e no Sentido último da realidade. Eu posso apenas afirmar que a desconfiança radical não apresenta qualquer racionalidade, que, em última análise, ela é não racional, pois, sem esta confiança radical, tudo se torna não racional e absurdo.

A minha solução, a minha resposta é, pois, uma confiança radical racional. A racionalidade mostra-se no próprio acto de confiar: com ele e nele, tudo se torna mais razoável, iluminado. Eu tenho todas as razões para ter esta confiança. De facto, tudo aquilo que há milhares de milhões de anos acontece na História e que talvez ainda continue por milhares de milhões de anos para o futuro, tudo isso não provém do nada nem vai para o nada. Provém de um Fundamento último, que é também Fim último, não só do cosmos, mas também da minha vida.

A este Fundamento último e Fim último do cosmos e da nossa existência chamamos Deus.

Do ponto de vista antropológico-metafísico, não pode demonstrar que haja em si qualquer coisa que exija a imortalidade...

Eu não posso demonstrar nem o nada nem Deus. Se pudesse demonstrar Deus, já não seria Deus. A fé é como o amor. O amor não se pode demonstrar. Se um homem disser à mulher: tu deves demonstrar que me amas, então o amor não é possível. No amor, é necessário colocar em primeiro lugar a confiança. Na fé, passa-se a mesma coisa: é necessário avançar com a confiança. Eu devo confiar-me e, na medida em que confio, vejo que se trata de uma resposta plena de sentido e que a vida tem sentido.

Havia filósofos que através de argumentos filosóficos afirmavam que há em nós qualquer coisa que ontologicamente é imortal. Não pode dizê-lo...

Eu não me preocupo muito com essas coisas, com a ideia platónica da imortalidade da alma. Creio que são representações de algum modo simplistas, e hoje, com o avanço das ciências biológicas, antropológicas, etc., já não nos é permitido separar tão facilmente alma e corpo.

Como é que se deve esclarecer o problema da vida eterna não nos compete a nós. Isso é mistério para nós, como o próprio Deus é mistério, que nem com a ontologia podemos tornar claro.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 SET 2020

CONVERSA COM HANS KÜNG. 1

 

Na sequência das crónicas sobre J. Ratzinger/Bento XVI, revisitei a conversa que tive em 1979, em Estugarda, com o célebre teólogo Hans Küng sobre o Deus de Jesus. Foi assim:

Continua fascinado por Cristo. Quero perguntar-lhe: o que pode, na sua opinião, significar hoje o cristianismo?

Dou-lhe uma resposta simples. Para mim, ser cristão tem ainda hoje sentido, pois, com o cristianismo, pode-se ser Homem num sentido mais profundo e radical.

Esta afirmação já não é suspeita, pois foi feita também — é com alegria que o digo — pelo novo Papa (João Paulo II). Escrevi um livro com o título Ser cristão. Ora, alguns criticaram-no, porque diziam que nele se falava demasiado do Homem. Mas hoje vê-se cada vez melhor que o cristianismo não é uma pura ideologia para si mesmo. A Igreja não tem a sua finalidade em si mesma. O cristianismo deve ajudar o Homem a ser Homem melhor e mais radicalmente.

Mais radicalmente em que sentido?

Creio que, mesmo neste tempo da secularização, é claro para o Homem que ele é mais do que aquilo que pode ver, calcular, manipular. O Homem tem em si mesmo dimensões que vão para lá da satisfação das exigências materiais primárias. Ele procura um sentido em qualquer parte. O Homem quer transcender-se a si mesmo, para além daquilo que tem, que sabe, que ama. Ele quer ir sempre mais além.

Esta dimensão do Homem está sempre presente. E mesmo pessoas que não estão de modo nenhum satisfeitas com a Igreja nem têm a ver com ela querem cada vez mais ouvir falar desta outra dimensão. Ora, esta dimensão é, se quiser, a dimensão de Deus em todas as coisas. É com isto que o cristianismo tem que ver. E é com isso que a Igreja e a teologia devem ter que ver.

Para si, Cristo revelou-nos o Homem, porque ele tinha uma relação íntima com Deus. É assim?

Não podemos separar Deus e o Homem. Todos sabemos, desde que em crianças aprendemos o Pai Nosso, que Jesus anunciou a vinda do Reino de Deus, anunciou a vontade de Deus: “Seja feita a Vossa vontade assim na Terra como no Céu”. Mas se nos perguntarmos o que é a vontade de Deus — e muitas pessoas de facto perguntam: o que é que isso significa para mim? —, recebemos a resposta clara, a partir das suas comparações e parábolas: a vontade de Deus é a realização e a felicidade do Homem. Deus quer a felicidade do Homem. É assim que a História é apresentada, desde a primeira página do Génesis até ao fim do Apocalipse. Deus quer sempre e só o bem do Homem, e o Homem deve também, se quiser fazer a vontade de Deus, colocar-se ao lado dos irmãos.

A mensagem central do cristianismo é esta: A vida do Homem apenas tem sentido se, por um lado, se orientar no sentido de Deus e se, por outro lado, se orientar no sentido do Homem, não egocentricamente, mas para os outros. Dito na linguagem tradicional: amar a Deus e amar o próximo.

Mas hoje as coisas complicam-se, porque, por um lado, o cristianismo deveria ser o absoluto, mas, por outro, o cristianismo enquanto absoluto estava de tal modo unido ao eurocentrismo que entrou em crise. E há também outros humanismos, religiões, etc.

O cristianismo representa para si o absoluto e em que sentido?

O absoluto do cristianismo foi muitas vezes entendido de modo falso, concretamente quando se entendeu como exclusividade, isto é, atribuiu-se exclusivamente ao cristianismo a verdade, os valores, as normas, a beleza, etc. Hoje devemos reconhecer que mesmo para os católicos, depois do Vaticano II, se tornou claro que também nas outras religiões há verdade, moral, oração, culto de Deus.

Devemos, por conseguinte, reclamar, não exclusividade, mas unicidade, carácter único. E quando se pergunta que unicidade, então deve-se dizer que o que é único no cristianismo é o próprio Cristo. Quando o vejo como figura concreta, tal como foi, então não pode ser comparado nem permutado com Buda, Maomé, nem com Marx ou Freud. Ele é único para nós, por causa do que ele quis, devido à causa por que se bateu, e definitivo, porque, sendo o Crucificado-Ressuscitado, ele é o enviado de Deus e a sua revelação, não exclusiva, mas definitiva.

É por isso que, face às outras religiões, ideologias e cosmovisões, devemos ser ao mesmo tempo tolerantes e críticos. Devemos estar de acordo com tudo o que nelas vai ao encontro de Cristo e estar atentos e até recusar tudo o que nelas contradiz Jesus Cristo.

Diz que Cristo é a revelação definitiva de Deus. Ele é realmente Deus?

Quando se diz que ele é realmente Deus, pode haver equívocos. Mesmo na teologia tradicional da Trindade, fez-se sempre distinção entre o Pai e o Filho. E, quando na Bíblia se fala de Deus (em grego ò Theós: o Deus pura e simplesmente), pensa-se sempre no Pai.

Cristo é, na Bíblia, designado como Filho de Deus. Filho de Deus é a expressão correcta para ele. E esta expressão deve hoje ser cada vez mais entendida a partir do Antigo Testamento. De facto, ele próprio era judeu, a mãe, os primeiros discípulos, os evangelistas e os primeiros que transmitiram a tradição eram judeus. O povo de Israel era designado como Filho de Deus, filho de Javé. O rei de Israel também.

Neste sentido, o próprio Jesus, enquanto Senhor Ressuscitado, é designado como Filho de Deus, isto é, como representante de Deus, Seu plenipotenciário, como aquele que foi investido em dignidade divina, como mediador (representante de Deus junto dos homens, representante dos homens junto de Deus, em sentido pleno e definitivo). Neste sentido, ele é “o Caminho, a Verdade e a Vida”. (continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 SET 2020

DESCONFINAR A IGREJA. 4

 

1. Também se aplica à Igreja, e compreende-se que de modo particular à Igreja, tantas são as expectativas em relação a ela: dá-se eco, sobretudo nos média, ao que é negativo, aos erros, crimes, escândalos... Quem pode negar tudo isso? Mas o que a Igreja fez e faz de positivo é mais: promoção das pessoas, combates pela sua dignificação, infindáveis iniciativas de caridade e cultura... Também agora, nesta calamidade pandémica. Quantos políticos portugueses, se quiserem ser honestos, terão de estar de acordo com as palavras do alcaide de Madrid, José Luis Martínez Almeida: “A acção da Igreja foi fundamental, como o é na vida quotidiana.”

 

Neste contexto, perdoe-se esta nota: quando a ecologia tem de ser um elemento essencial na viragem, o Vaticano dá o exemplo: instalou no edifício da Aula Paulo VI painéis solares, promove o uso de veículos eléctricos, eliminou o uso de pesticidas tóxicos nos jardins...

 

Mas a dívida maior para com a Igreja, apesar da e no meio da sua história de miséria, é que através dela o Evangelho foi sendo anunciado, e o Evangelho está na base da tomada de consciência da dignidade inviolável da pessoa e foi fermento que levou à proclamação dos Direitos Humanos.

 

2. A ameaça maior da Igreja é o poder e os conluios com os poderes. Uma demonstração simples deste perigo está em que, desgraçadamente, quando se fala da Igreja, no que se pensa é no Papa, nos cardeais, nos bispos, nos padres, nos monsenhores..., tudo aquilo em que nem Jesus nem os primeiros discípulos pensariam.

 

O núcleo do cristianismo é a mensagem de Jesus, o Evangelho: Deus é Pai-Mãe de todos e quer a alegria e a salvação de todos. A Igreja mundial é a comunidade de comunidades cristãs espalhadas pelo mundo e congregadas por essa mensagem, na fé, na esperança e praticando o amor, a justiça, a paz.  Evidentemente, é necessário um mínimo de organização, mas a pergunta é: essa organização tem de ser piramidal, hierárquica, machista, gerontocrática, centralizadora?

 

Francisco sabe que este é um combate decisivo para o futuro da Igreja. Ele é cristão, franciscano, mas é também jesuíta, não é anarquista, e sabe que alguma organização se impõe. Daí, o seu combate permanente, sem tréguas, contra o clericalismo, o carreirismo, a corte, que são “a peste da Igreja”, e o esforço para que se perceba que o poder só vale enquanto serviço, e a sua abertura a uma Igreja verdadeiramente sinodal, isto é, uma Igreja na qual todos caminham juntos, uns com os outros e todos com Jesus, ao serviço da Humanidade. O que ele peleja para que acabem os bispos-príncipes e para renovar a Cúria e o Banco do Vaticano! Sem desânimo, apesar de saber que, como disse num dos discursos à Cúria, “é mais difícil reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes.”

 

3. Na “nova normalidade”, a Igreja necessita, em primeiro lugar, de que todos os seus membros renovem o essencial: a fé. Neste sentido, significativamente, apareceu agora uma nova versão do “Directório para a catequese”, e a mensagem essencial é que o centro não está nas doutrinas, mas na pessoa de Jesus, e, por isso, o decisivo é que “cada pessoa descubra que vale a pena acreditar” e conheça o amor cristão. Isso impõe, certamente, estar atento também à utilização das novas tecnologias e ser uma presença evangelizadora no continente digital.

 

A linguagem tem de adaptar-se. Por exemplo, não se pode continuar a falar do pecado original, como se fazia, e é preciso perguntar: que significa hoje “ressurreição da carne”, “desceu aos infernos”, “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”? Não se pode ficar imóvel nos rituais, com gestos e sinais que já nada significam, o que implica que urge a adaptação da liturgia e de toda a linguagem da fé às diferentes culturas, com o que se chama Inculturação do Evangelho. E a simplicidade tem de ser lei: pense-se, por exemplo, naquele ritual do tira e põe do solidéu, o mesmo acontecendo com a mitra. Sobre esta, falou Santo António, num sermão do Advento (devo a citação a Sofia Nunes): “Cairão os unicórnios, os imperadores e reis deste mundo e os touros, os bispos mitrados, que têm na cabeça dois cornos como se fossem touros.”

 

A Igreja tem de continuar a fomentar o ecumenismo — felizmente, o Vaticano põe a questão de revogar a excomunhão a Lutero — e o diálogo inter-religioso.

 

Com que fundamentos justificar a imposição do celibato obrigatório ou a discriminação das mulheres? E não precisam de revisão os ministérios na Igreja?

 

Sobre a Igreja sinodal, que é o tema do próximo Sínodo em Outubro de 2022, o sociólogo J. Elzo tem uma figuração apelativa: “Uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, com diferentes nós em diferentes partes do mundo, inter-relacionados e todos religados a um nó central, que não centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano. Aí ou noutras partes do planeta, todos os anos se reuniria uma representação universal de bispos, padres, religiosas e religiosos, leigos (homens e mulheres), sob a presidência do Papa, para debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as decisões pertinentes”, também no que se refere aos problemas da Humanidade.

 

P.S. Como anunciou o Presidente turco, R. Erdogan, Santa Sofia, em Istambul, passa a mesquita. O Papa Francisco comentou: “O meu pensamento dirige-se para Istambul. Penso em Santa Sofia e sinto muita dor”. Ao acontecimento e à sua problemática dedicarei a próxima crónica.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 19 JUL 2020

DESCONFINAR A IGREJA. 3

 

1. A crise pandémica faz-nos tomar consciência de outras crises: crise económica, crise social, ecológica, crise moral... E, fala-se pouco dela, mas a crise mais profunda é a crise de Deus. Já Karl Rahner, um dos maiores teólogos do século XX, perguntava: O que aconteceria, se a simples palavra “Deus” deixasse de existir? E respondia: “A morte absoluta da palavra ‘Deus’, uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu.” Váklav Havel, o dramaturgo e político, pouco tempo antes de morrer, surpreendeu muitos ao declarar que “estamos a viver na primeira civilização global e também vivemos na primeira civilização ateia, numa civilização que perdeu a ligação com o infinito e a eternidade”, temendo, também por isso, que “caminhe para a catástrofe.”

 

Citando G. Gusdorf, G. Minois conclui a sua História do ateísmo “com um quadro implacável e lúcido” da Humanidade do ano 2000: “Vive no Grande Interregno dos valores, condenada a uma travessia do deserto axiológico de que ninguém pode prever o fim.” Já nos finais do século XX, houve a tomada de consciência de “ao eclipsar-se, Deus levou consigo o sentido do mundo”. Continua: o futuro é imprevisível, porque o ateísmo e a fé enquanto compreensão global do mundo andaram sempre juntos. A ideia de Deus era um modo de apreender o universo na sua totalidade e dar-lhe, de forma teísta ou ateia, um sentido. Assim, a divisão hoje não está tanto entre crentes e descrentes como entre “aqueles que afirmam a possibilidade de pensar globalmente o mundo, de modo divino ou ateu, e os que se limitam a uma visão fragmentária em que predomina o aqui e agora, o imediato localizado. Se esta segunda atitude prevalecer, isso significa que a Humanidade abdica da sua procura de sentido.”

 

2. Imersos ainda nesta imensa catástrofe da covid-19, precisamos de pensar num regresso lento à normalidade. Mas sem cair na ilusão de que, após este parêntesis pandémico, voltaremos ao ponto em que estávamos, para tudo continuar na mesma dinâmica. Isso significaria caminhar para catástrofes sem fim. Impõe-se mudar o paradigma, para uma “nova normalidade”. Também na Igreja. O Papa Francisco advertiu: Podemos continuar na mesma? Não. “Quando sairmos desta pandemia, não poderemos continuar a fazer o que fazíamos e como vínhamos a fazer. Não. Tudo será diferente.”

 

3. Pergunta-se: fazer o quê? Na presente situação, de que falei, a Igreja deve anunciar Deus. Porque ela ou vive a partir de Deus ou não é Igreja. Mas falar de que Deus? Evidentemente, falar do Deus de Jesus, o Deus Pai-Mãe, cuja causa é a causa dos seres humanos, cujo interesse não é a sua glória, mas a alegria, a realização, a felicidade de todos os homens e mulheres. Anunciar Deus, que é o sentido, sentido último da nossa existência, da Humanidade, da História. A Igreja tem de ser a multinacional do sentido, do Sentido último. De que é que os homens e as mulheres e as crianças, todos, ricos ou pobres, cultos ou ignorantes, precisamos? De alguém para quem valemos, de alguém que reconhece o nosso valor, de alguém que nos reconhece pura e simplesmente — sobre o reconhecimento e as lutas travadas por causa dele escreveu o filósofo Hegel páginas inesquecíveis em A Fenomenologia do Espírito; a revolução de Lutero teve também na base o reconhecimento: o que se chama a justificação não é senão o encontro do Deus que pela graça nos justifica, isto é, que nos reconhece. Valemos para ele. Este é o Evangelho, como diz o próprio étimo: notícia boa e felicitante, mesmo se, muitas vezes, como denunciou Nietzsche, a Igreja fez dele um Disangelho, uma notícia de desgraça.

 

4. Não há o perigo de Deus e a religião se tornarem “o ópio do povo”, como denunciou Karl Marx? Não. Porque, na compreensão autêntica do cristianismo, não é possível amar a Deus sem amar o próximo. Também aqui, há uma revolução: o amor ao próximo, a todos, é amor teológico. Não há ninguém, que saiba ler em profundidade, que não esbarre no escândalo do que se lê no Evangelho segundo São Mateus, capítulo 25, referente ao Juízo Final, isto é, ao juízo sobre a História. O que lá se lê é que Jesus, no exame final, não pergunta pelo culto a Deus, mas por aquilo que fizemos ou deixámos de fazer aos outros, e tudo perguntas por realidades bem materiais e mundanas: dar de comer, de beber, vestir os nus, visitar os doentes, os presos... O cristianismo põe como critério de salvação o que se faz pelo outro humano e, neste sentido, é uma fé para lá da confessionalidade religiosa. Assim, a Igreja tem de ser também a multinacional da proclamação do bem e da justiça e da sua prática. Como instituição global, a única, deve continuar a ser voz político-moral dos que não têm voz.

 

5. O Deus cristão é o Deus criador, e entregou-nos a Terra como a nossa casa comum, como “jardim” que deve ser cultivado e não explorado como se fosse tão-só um reservatório de energias ao dispor, sem limtes nem cuidado. Por causa da pandemia, em pouco tempo, a emissão de gases com efeito de estufa e a poluição diminuíram, o que mostra que a responsabilidade antropogénica nas alterações climáticas é inegável. Neste domínio, o Papa Francisco publicou uma encíclica histórica e revolucionária, a Laudato Sí. Dois conceitos, essenciais: a “ecologia integral” e que tudo está interligado. Outra missão da Igreja para o mundo: desenvolver uma ecoteologia. Porque o grito da natureza é o grito dos pobres e de todos.

 

6. Então, que nova organização para a Igreja? É o tema da próxima crónica.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 12 JUL 2020

DESCONFINAR A IGREJA. 2

 

1. Quem está interessado na Igreja, seja por razões de fé, religiosas, ou simplesmente históricas, é com certeza assaltado pela pergunta: o que se passa? De facto, os dados estão aí, clamorosos. Concretamente na Europa e em países como a França, a Espanha, os Países Baixos, a própria Irlanda, para não falar na República Checa, onde 80% dos habitantes se confessam ateus, a prática religiosa cai vertiginosamente, sobretudo entre os jovens, sendo dramática de ano para ano a diminuição do número de baptismos, de casamentos..., os seminários esvaziam-se, o clero envelhece...

 

O que se passa? Há razões exteriores à Igreja e outras de que ela própria é responsável. Vivemos numa sociedade que vive da imediatidade e do prazer, num consumismo devorador, que afastou do seu horizonte as perguntas essenciais, metafísico-religiosas, menosprezando a questão do sentido, do sentido último, esperando fundamentalmente respostas da tecnociência e das novas tecnologias. Mergulhados no mundo da imanência, a transcendência desaparece.

 

Mas as responsabilidades da própria Igreja não podem ser ignoradas. Como é patente a quem não queira fugir à verdade e à lucidez. A fé viva começa sempre com uma experiência de encontro. Jesus fez uma experiência avassaladora de Deus como Pai-Mãe, amor incondicional. A partir dela, anunciou o Reino de Deus, que é o reino da fraternidade, da alegria, da esperança, da liberdade, o reino das bem-aventuranças. Os camponeses pobres, todos os explorados, as mulheres oprimidas, os que lutavam pela vida contra a fome, a opressão, a doença, os pecadores públicos, os perdidos, escutaram a sua proclamação de libertação salvadora. Porque, lá no mais fundo, os seres humanos vivem da experiência negativa de contraste: há o que não pode ser, porque anula a vida, e o que deve ser, para que a vida ganhe sentido. Jesus anunciava o que deve ser: quem acreditava nele encontrava a salvação. Evidentemente, essa mensagem incomodou muitos que viviam de oprimir os outros, a começar pelos sacerdotes do Templo, que exploravam em nome da religião. Ameaçados pelo perigo que o Deus salvador de Jesus constituía, condenaram-no à morte, fazendo coligação com os interesses imperiais de Roma. E Jesus foi crucificado.

 

Aparentemente, era o fim. O enigma histórico do cristianismo é precisamente este: o que é que aconteceu para que os discípulos, que, desiludidos, se tinham dispersado, voltando aos seus ofícios, se reunissem outra vez e fossem anunciar, expondo a própria vida, pois morreram por isso? Reflectindo sobre tudo o que tinha acontecido, sobre a vida de Jesus e também a sua morte, o que o movia, o modo como se relacionava com Deus..., foram fazendo a experiência avassaladora de fé, de que aquele Jesus, o crucificado, está vivo em Deus para sempre, como esperança e promessa para todos: Deus não o deixou abandonado à morte. Ele é o Vivente.

 

Também Paulo fez essa mesma experiência e, de perseguidor, tornou-se Apóstolo. Fez milhares e milhares de quilómetros (vinte mil?), para levar o Evangelho a todos. E trabalhava para não ficar pesado a ninguém e para não pensarem que vivia disso.  Foi perseguido e morto. Mas a sua experiência marcou a História. O que vale um morto crucificado? Nada. Pelo contrário, pertence à lixeira do mundo. Então, se Deus não abandonou Jesus à morte, mas o ressuscitou, é porque está com ele e com a sua causa, a causa dos seres humanos, é ele que tem razão. Se Deus está com ele, o crucificado, ele vale e, se ele vale, todos valem. Por isso, “Já não há judeu nem grego, escravo ou livre, homem ou mulher, todos são um só em Cristo.” Já ninguém se lembra de que é aqui que fermenta a dignidade da pessoa humana e os direitos humanos? Esta foi a mensagem mais libertadora da História, para esta vida e para a eternidade. Agora, a existência ergue-se com sentido final, nesta proclamação de Jesus, como sublinhou o filósofo Ernst Bloch: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”. E: “Sois todos irmãos”. Pela primeira vez na História, quando um senhor se convertia, participava na Eucaristia, sentando-se na mesma mesa que o seu escravo. Para Deus, todos têm valor, valor infinito, de filhos e filhas.

 

Esta é a Igreja dos começos, quando os cristãos o eram verdadeiramente, a partir desta experiência. Comunidades cristãs fraternas.

 

Depois, lentamente, foi o que se sabe. A Igreja tornou-se uma instituição de poder, cada vez mais poderosa e centralizada, imperial. Lá está o famoso Dictatus Papae, de Gregório VII: “Só o Romano Pontífice é digno de usar insígnias imperiais”. Daí, seguiu-se a corte, o fausto, vestimentas de luxo, títulos e dignidades: Eminência, Excelência Reverendíssima, Monsenhor... Nas celebrações da Eucaristia, com os chamados pontificais, ninguém minimamente atento poderia já reconhecer a memória da Última Ceia. Numa Igreja que discrimina as mulheres, não é possível reconhecer Jesus, que as incluiu em igualdade e ternura. E não é Jesus que está na base de uma Igreja com duas classes: o clero que manda e os leigos que apenas obedecem.

 

2. O Papa Francisco vem chamando a atenção para o “desafio” de “compreender o que Deus nos está a dizer nesta pandemia”. “Porque pior do que esta crise é o drama de desaproveitá-la, enclausurando-nos dentro de nós próprios.” Urge a abertura a “uma Igreja em saída”, desconfinada de dogmas estéreis, clericalismos, tradições fossilizadas, ritualismos mortos, que não transmitem vida. Para isso, só há um caminho: cada cristão voltar a fazer uma experiência pessoal de encontro com Cristo e o seu Evangelho. Continua.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 JUL 2020

DESCONFINAR A IGREJA. 1

 

Chegam-me vozes a cantar esperança no novo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP), José Ornelas, bispo de Setúbal. Eu próprio disse a Natália Faria, do Público, quando imediatamente a seguir à eleição me perguntou se a sua escolha constituía garantia de rejuvenescimento: “Neste momento em que, no meu entender, a Conferência Episcopal precisa de um novo impulso, ele será capaz de assegurar o rejuvenescimento necessário. Trata-se de uma figura destacada do ponto de vista intelectual, e, por outro lado, dedicado aos outros e à sociedade. E tem uma gigantesca experiência internacional.” Tendo vivido em Roma como superior-geral dos padres dehonianos, presentes em 38 países, conhece o que se passa também no Vaticano e, sobretudo, vive o espírito do Papa Francisco. Anima-o o desprendimento pessoal e uma “Igreja em saída”, em desconfinamento, no sentido do abandono de estruturas de poder medieval, como insiste Francisco.

 

Quando se lê a sua primeira longa entrevista, ao jornal Público, as esperanças não são defraudadas. Pelo contrário. As suas declarações têm duas vertentes: uma ad intra, para dentro da própria Igreja; a outra ad extra, para fora, para a sociedade em geral, como voz político-moral.

 

Declarações ad intra.

 

Não tem dúvidas de que na Igreja é preciso “trabalhar melhor e em rede”, bem como passar de uma Igreja piramidal, hierarquizada, para uma Igreja comunional, circular. “Não tem dúvidas“ de que se impõe acabar com “os velhos clericalismos”.

 

A Igreja deve ser fiel à tradição, mas “isso não pode significar paralisia. Num mundo que evolui rápida e radicalmente, a Igreja tem de encontrar novos modos de se dirigir a este mundo e à sua realidade complexa e fecunda.” A Igreja vive num mundo diferente daquele a que estava habituada: vivemos num mundo plural, também do ponto de vista religioso; “a ideia de uma Igreja onde tudo estava formatado do mesmo jeito e com a mesma fé já não existe.” A Igreja já não ocupa o centro, “temos de ser uma Igreja que vai ao encontro das pessoas”, e o presidente da CEP reconhece que há hoje “uma receptividade nova e uma sede de sentido para a vida que grassa entre os jovens e é aí que penso que nos podemos encontrar.” A Igreja não pode ficar simplesmente à espera, tem de se pôr a caminho, “fazer-se próxima.”

 

Neste contexto, compreende-se a exigência de levar adiante o trabalho das comissões nas dioceses para acabar com a tragédia do abuso sexual de menores, admitindo mesmo que possa aumentar o número de denúncias. Como se entende que não tenha receio em declarar que “não veria mal a possibilidade de termos padres casados na nossa Igreja” e que não rejeite o debate à volta da possibilidade, mesmo que mais complicada, da ordenação de mulheres: “não a tiro de cima da mesa”. 

 

Aqui chegados, penso que não será exagerado pensar que o Bispo José Ornelas espera um clero com outra formação, também do ponto de vista intelectual, para este mundo novo que está aí. As homilias dos padres em geral falam de quê, para quem? Qual a responsabilidade da Faculdade de Teologia? Que futuro para os Seminários?

 

Ad extra. O país e o Estado podem esperar uma atitude leal, colaborante, mas que não exclui a crítica.

 

Na presente situação de calamidade económica e social, o Estado não pode fugir às suas responsabilidades de garantir o mínimo a que os cidadãos têm direito. Não se quer voltar à ideia de “uma economia planificada e estatizada”, portanto, o Estado “não tem de fazer tudo. Pelo contrário, se o Estado quiser fazer tudo, vai sair caro a todos e, além disso e o que é pior, não conta com a criatividade e a iniciativa da sociedade.” Mas tem de dar às instituições “capacidade de sobreviver e de actuar. E, neste momento, há muitas instituições que estão em perigo de entrar em colapso.” Refere nomeadamente as IPSS, muitas das quais são geridas por entidades ligadas à Igreja e que “estão no limite da sustentabilidade”, “o que se recebe do Estado e das famílias fica aquém do custo, e não queremos prestar um serviço de segunda classe”, para não se cavar mais fundo o abismo entre quem tem e quem não tem.

 

Ergue-se contra a discriminação e o racismo e exclusão, prevenindo: “O que queremos é uma sociedade justa e digna e que não precisa de enveredar por caminhos de violência para se reconstruir.”

 

Na presente situação pandémica, é claro que se impõe salvar vidas e a saúde, sendo, pois, necessário tomar as medidas adequadas para controlar a pandemia. Mas não deixa de prevenir contra os perigos da deriva para “totalitarismos”: “se isso é feito no sentido de manipular pessoas, deixa de ter sentido.”

 

Pensando na crise já presente e que se vai agravar, económica e social, avisa para a urgência da solidariedade global, a começar pela União Europeia, e profetiza: “Ou há um rejuvenescimento do projecto europeu ou este caminhará para o seu fim.”

 

A eutanásia não podia ser esquecida. “Não gostaria que a vida fosse referendável, mas se for essa a última praia... Mas sinto-me desconfortável com a ideia de apresentar a alguém um cardápio com as possibilidades de acabar com a vida.” Evidentemente, é contra a eutanásia — eu  acrescento que a ideia de referendo recolheu mais de 95.000 assinaturas. Mas o que se impõe discutir é “qual o modelo de sociedade que queremos e como é que nessa sociedade se garantem valores de humanização para que as pessoas consigam terminar a sua vida de forma pacífica, sentindo-a a completar-se e não simplesmente abandonadas.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 27 JUN 2020

A TORRE DE BABEL E O PENTECOSTES

 

Celebra-se hoje, na liturgia católica, a festa do Pentecostes, o acontecimento inaugural da Igreja cristã, que irradia luz fulgurante também para os tempos que estamos a viver, tempos de penúria e de noite, penúria no sentido do verso famoso de Hölderlin: “Wozu Dichter in dürftiger Zeit?” (Para quê poetas em tempo de penúria, indigência mais funda e abrangente do que a meramente económica?).

 

O Pentecostes apenas alcança a sua compreensão adequada em contraposição com Babel, o acontecimento mítico tão conhecido, descrito no livro do Génesis. É um mito, mas o mito transporta consigo uma verdade fundamental, “dá que pensar”, como escreveu o grande filósofo do século XX, Paul Ricoeur.

 

Diz a Bíblia que Javé, ao ver a maldade grande dos homens sobre a Terra, maldade que não deixava de crescer, se arrependeu de ter criado o Homem e se sentiu magoado no seu coração. Por isso, mandou o dilúvio, mas Deus renovou a sua aliança com Noé e com a criação inteira, aliança figurada ainda hoje, ainda que de forma ingénua, no arco-íris, unindo o Céu e a Terra. Mas um dia, continua a narrativa do Génesis, os homens disseram: construamos uma cidade e uma Torre cujo ápice penetre nos céus. A Bíblia vê neste projecto uma iniciativa de arrogância e orgulho insensatos, aquela hybris — desmesura — que os gregos também condenavam, porque arrasta consigo a maldição e a catástrofe. No meio da arrogância e da desmesura, os seres humanos, em vez de se compreenderem e unirem, guerreiam-se e matam-se na barbárie. Aí está o sentido bíblico da confusão das línguas.

 

Babel e a sua Torre é um mito de uma actualidade dramática. Note-se que em capítulos anteriores à narrativa da Torre de Babel o livro do Génesis fala do plano de Deus que quer que a Humanidade cresça e se multiplique em “povos que se dispersaram por países e línguas, por famílias e nações”. Assim, o que está em causa neste mito não é de modo nenhum a dispersão pela Terra nem a variedade das línguas, que constitui uma riqueza. O mito põe a nu e denuncia o imperialismo dominador de uns sobre os outros, na incapacidade do descentramento (desconfinamento, diríamos em linguagem actual) de si para colocar-se no lugar do outro e, no respeito pela alteridade insuprimível, entrar em diálogo mutuamente enriquecedor. O mito é uma advertência eloquente contra o desígnio de dominação.

 

Precisamente em contraponto, noutro livro da Bíblia, Actos dos Apóstolos, narra-se a descida do Espírito Santo, no dia do Pentecostes, que hoje se celebra. “De repente, ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa. Viram então aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.” Ao ouvir o ruído, a multidão acorreu e todos ficaram estupefactos, “pois cada um os ouvia falar na sua própria língua”. Atónitos e maravilhados diziam: “Esses que estão a falar não são todos galileus? Que se passa então, para que cada um de nós os ouça falar na nossa língua materna? Partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, da Judeia e da Capadócia, do Ponto e da Ásia, da Frígia e da Panfília, do Egipto e das regiões da Líbia cirenaica, colonos de Roma, judeus e prosélitos, cretenses e árabes ouvimo-los anunciar, nas nossas línguas, as maravilhas de Deus!”

 

No dia de Pentecostes, que deve ser todos os dias, na sua intenção mais profunda — e cada vez mais tomamos consciência disso —, quando se percebeu que o que tem de unir os seres humanos é a justiça, o amor, a solidariedade, a fraternidade, o respeito pela igualdade na diferença e pela diferença na igualdade, os seres humanos, todos, voltaram a encontrar-se e entenderam-se... No Pentecostes, restabelece-se a unidade desfeita com a Torre de Babel. Trata-se, porém, da unidade na diferença e da diferença na unidade. O amor do Pentecostes une diferenças, sem uniformizar. E abre horizontes novos de esperança à Humanidade solidária.

 

Na actual situação do mundo globalizado e terrivelmente ameaçado, em que a globalização tem sido sobretudo tecnológica e económico-financeira no quadro do neoliberalismo, é urgência maior pensar numa governança global (não digo um governo mundial, mas uma governança global), para que o império da força da lei ponha limites ao império da lei da força do mais forte — na presente situação de crise global, vários pólos do planeta se perfilam já com intenções de domínio imperial global, a pandemia acabou por agudizar a tensão e a rivalidade entre a China e os Estados Unidos — e, neste contexto, pensar no diálogo multicultural e inter-religioso, em ordem à paz, à justiça, a uma atitude nova de respeito e cuidado da natureza, a nossa casa comum, a uma vida menos centrada no consumo imoderado, no ter, e mais no ser, nesse milagre que é ser, existir e conviver.

 

Dada a presente crise global, dramática, não se pode pensar em voltar à normalidade como se se tratasse apenas de, após um interregno, voltar à continuação da situação em que a deixámos. Não. Penso que já se percebeu que se impõe um novo macroparadigma de desenvolvimento e também nas relações entre os povos, incluindo a sua relação com a natureza — felizmente, a União Europeia está no bom caminho. Assim, sejamos crentes ou não, é claro que isso implica uma conversão, um espírito novo, que só pode ser o Espírito Santo, espírito de verdade, de liberdade, de igualdade, de fraternidade.

 

São Paulo escreveu na Carta aos Gálatas: “Foi para a liberdade que Cristo nos libertou. Permanecei, pois, firmes, e não vos sujeiteis outra vez ao jugo da escravidão. Foi para a liberdade que fostes chamados.” Esta liberdade está fundada na filiação divina: “Deus enviou aos nossos corações o Espírito do seu Filho, que clama: ‘Abbá! – Pai!’ Deste modo já não és escravo, mas filho; e, se és filho, és também herdeiro, por graça de Deus.” “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher”. Agora, todos são livres. Assenta aqui a igualdade radical de todos os seres humanos – homens e mulheres. E o Espírito da liberdade é o Espírito do amor. Jesus disse aos discípulos: “Já não vos chamo servos, mas amigos.” E a razão é que não há amizade sem confidência e ele confiou-lhes o segredo mais íntimo de Deus: “Deus é amor incondicional”.

 

A Humanidade precisa de um novo Pentecostes, com a chegada do Espírito Santo, com os seus dons. Entre os dons do Espírito – eu fui ao catecismo à procura dos dons e dos frutos do Espírito Santo e também dos pecados contra o Espírito — encontram-se os dons da sabedoria, do entendimento e da ciência: o sábio tem o conhecimento profundo de Deus e julga todas as coisas na sua luz – também na Igreja, é necessário fazer mais apelo à sabedoria e à inteligência.

 

Quem vive no Espírito Santo, que é o Espírito do nosso espírito, recebeu também o dom do conselho: a luz do alto e do mais íntimo para as grandes decisões; o dom da fortaleza: a firmeza no caminho do bem; o dom da piedade: a ternura na relação com Deus e com os irmãos; o dom do temor de Deus: não é medo nem inquietação, mas princípio da sabedoria e sentido da responsabilidade.

 

O Espírito Santo e os seus dons produzem frutos. São Paulo escreveu: “Este é o fruto do Espírito: amor, alegria, paz, paciência, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, auto-domínio. Contra tais coisas não há lei. Se vivemos no Espírito, sigamos também o Espírito. Não nos tornemos vaidosos, a provocar-nos uns aos outros, a ser invejosos uns dos outros. Se porventura alguém for apanhado nalguma falta, corrigi essa pessoa com espírito de mansidão; e tu olha para ti próprio, não estejas também tu a ser tentado. Carregai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo”.

 

O fruto mais excelente do Espírito é o amor unido à benignidade, à bondade, à fidelidade e à mansidão — “na tarde da vida seremos julgados pelo amor”, escreveu São João da Cruz. Com o amor vem a alegria – vejo hoje demasiada tristeza. A paz é a tranquilidade na ordem: há paz quando há justiça e tudo vai bem dentro de nós, com os outros, com Deus e a criação. A paz interior dá força à paciência, que não é resignação. O autodomínio mantém a pessoa íntegra para si e na sua entrega aos outros.

 

Afinal, de que Espírito somos? Uma forma eficaz de responder é responder a outra pergunta, talvez mais concreta: cometemos pecados contra o Espírito Santo? Entre esses pecados — pecar é coisificar a pessoa —, contam-se: “ter inveja das mercês que Deus faz a outrem”, “contradizer a verdade conhecida como tal”, “obstinação no pecado”, “desesperação de salvação”. Temo o perigo da escravização própria e alheia — escravização pelo ter, pelo hedonismo, pelo espectáculo (não era na sociedade-espectáculo que estávamos a viver?) —, perigo do afundamento no lamaçal da mentira, contradizendo a verdade conhecida como tal, da inveja, da obstinação no pecado e, em tempos de niilismo, da vertigem da desesperação.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 31 MAI 2020