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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ELOGIO DO INÚTIL

                                                          

1. Vivemos num tempo com algumas características deletérias. Por exemplo, não penso que seja muito favorável assistirmos em restaurantes a famílias inteiras a dedar num smartfone: o pai, a mãe, os filhos..., que quase se esquecem de comer e sem palavra uns com os outros. É bom estar informado, mas neste dedar constante perde-se o contacto autêntico da e com a família, esse estar presente aos outros mais próximos. E, com o tsunami das informações, incluindo as fake news, fica-se sujeito ao engano, à confusão, e corre-se o risco de se estar a criar personalidades fragmentadas, alienadas, interiormente desestruturadas. E, ao contrário do que se pensa, dentro da conexão universal através das redes sociais, sofrendo uma imensa solidão.

 

A nossa sociedade é também avassalada pelo ruído e pela pressa. Toda a gente corre, sempre com  a vertigem da pressa — para onde?, poder-se-ia perguntar. Para longe de si. Quando é que alguém está autenticamente consigo, sem narcisismo, evidentemente? E o ruído atordoador? Quem é que ainda consegue ouvir o silêncio e aquilo que só no silêncio se pode ouvir? A voz da consciência, a orientação para o sentido da vida, Deus? Quem se lembra do dito famoso de Calderón de la Barca, que escreveu que “o idioma de Deus é o silêncio”?

 

Parece que esta situação vem de longe. O dramaturgo E. Ionesco, já em 1961, se lhe referiu numa conferência, com estas palavras: “Vejam como as pessoas correm atarefadas pelas ruas. Não olham para a direita nem para a esquerda, preocupadas, de olhos fixos no chão, como cães. Caminham a direito, mas sempre sem olhar em frente, pois seguem maquinalmente um percurso já bem conhecido. Em todas as grandes cidades do mundo, é assim que acontece. O homem moderno, universal, é o homem atarefado, que não tem tempo, que é escravo da necessidade, que não compreende que uma coisa possa não ser útil; que não compreende sequer que, na realidade, o útil pode ser um peso inútil, opressivo. Se não se compreende a utilidade do inútil e a inutilidade do útil, não se compreende a arte; e um país onde não se compreende a arte é um país de escravos ou de autómatos, um país de pessoas infelizes, de pessoas que não riem nem sorriem, um país sem espírito; onde não há humor, não há riso, há raiva e ódio.” No mesmo sentido, chamando a atenção para “as ameaças que pesam sobre uma humanidade que não tem tempo para reflectir”, Ítalo Calvino escreveu: “Essas pessoas atarefadas, ansiosas, que perseguem um objectivo que não é um objectivo humano ou que é apenas uma miragem, podem de repente, ao ouvir o som de uma qualquer trombeta ou o chamamento de algum louco ou demónio, deixar-se arrastar por um fanatismo populista.”

 

2. Chegámos, deste modo, cavando mais fundo, à raiz da desorientação deste nosso tempo. Ela encontra-se na mercantilização de tudo, em função do lucro, na subordinação à lógica dos mercados. Afinal, como observou agudamente o filósofo Giorgio Agamben, “Deus não morreu. Tornou-se Dinheiro”. E Jesus já tinha prevenido: “Não podeis servir a Deus e a Dinheiro” (com maiúscula, como se fosse um nome próprio, um deus, Mammôn, em aramaico, a língua materna de Jesus). Como escreveu Nuccio Ordine, com a lógica do lucro, grande parte da Humanidade perdeu o direito de ter direitos, multidões morrem de fome; “transformando os homens em mercadoria e em dinheiro, este perverso mecanismo económico gerou um monstro, sem pátria e sem piedade, que acabará por negar também às gerações futuras qualquer forma de esperança”.

 

A citação recebo-a emprestada de Nuccio Ordine no seu livro A Utilidade do Inútil, um manifesto a favor do “inútil”. De facto, com a mercantilização de tudo e quando só vale o útil, o que serve na lógica do lucro, o que é eficaz e produtivo, a razão técnica e calculadora, tem sentido perguntar: o que vale a poesia, a grande literatura, a música, o saber pelo saber, as Humanidades? É claro que neste universo utilitarista, “um martelo vale mais do que uma sinfonia, uma faca mais do que um poema, uma chave inglesa mais do que um quadro, porque é fácil perceber a eficácia de um utensílio e cada vez mais difícil compreender para que servem a música, a literatura, a arte.”

 

Com a financeirização especulativa da economia, só ficam as leis cínicas do mercado e a aparente omnipotência do dinheiro. E a própria política fica reduzida a negócio (s). Já Rousseau tinha observado no seu tempo: “Os antigos políticos falavam sem descanso de costumes e de virtudes; os nossos não falam senão de comércio e de dinheiro”, como se tudo o que não dá lucro fosse  supérfluo ou até perigoso. Mas, então, no quadro da lógica economicista do lucro, tem sentido perguntar: Porque é que nos queixamos da teia infindável da corrupção?

 

Martin Heidegger chamou vigorosamente a atenção para os perigos do monopólio da razão técnica, instrumental. Porque a técnica não pensa, apenas calcula. E aí temos nós a razão que apenas se interessa pelo que se mede e calcula, pela quantidade, ignorando a qualidade. Mas, então, quem somos e o que é que somos, na abertura constitutiva à Transcendência? Pensando apenas nas “finalidades técnicas” e no “para que serve?”, pergunta-se: onde está a beleza de um pôr do sol, para que serve a ternura de um beijo, o florir de um sorriso de criança, a honra, a dignidade, o pensamento crítico, a gratuidade, a filosofia, o estudo das Humanidades, o mistério do Ser e de se ser? Tudo isso é inútil? No entanto, como disse o biofísico e filósofo Pierre Lecomte du Noüy, “na escala dos seres, só o Homem executa actos inúteis”, acrescentando dois psicoterapeutas, Miguel Benasayag e Gérard Schmidt, que “a utilidade do inútil é a utilidade da vida, da criação, do amor.” No seu livro A Cerimónia do Chá (1906), o japonês Kakuzo Okakura intuiu que a passagem do bruto ao humano se deu com a descoberta do inútil: “O homem primitivo superou a sua condição de bruto ao oferecer a primeira grinalda à sua namorada. Elevando-se acima das necessidades naturais primitivas, tornou-se humano. Quando percebeu o uso que se podia fazer do inútil, o homem fez a sua entrada no reino da arte.” Kant apresentou o belo como o que agrada desinteressadamente; o belo tem  a sua finalidade em si mesmo, não é para outra coisa, é “uma finalidade sem fim”.

 

Frente à desertificação galopante do espírito, impõe-se voltar à aparente inutilidade do “inútil”, ao “fascinante esplendor do inútil”, na expressão de George Steiner, que tem a ver com os valores irrenunciáveis da cultura e da educação livre, da grande música, da arte, do estudo dos clássicos e da filosofia, da dignidade livre e da liberdade na dignidade, do pensar crítico.

 

Concluo, com Nuccio Ordine: “Se deixarmos morrer o gratuito, se renunciarmos à força geradora do inútil, se ouvirmos unicamente este canto das sereias que nos impele a procurar o lucro, só seremos capazes de produzir uma colectividade enferma e desmemoriada que, confusa, acabará por perder o sentido de si mesma e da vida.” E uma previsão que dá que pensar: cerca de um terço dos portugueses pode vir a ter perturbações de ansiedade. Um facto: está a aumentar o consumo de ansiolítcos, antidepressivos... Sem pôr em questão a imensa dívida para com a razão tecnocientífica, impõe-se interrogarmo-nos sobre se não acabámos por criar uma civilização contra nós.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 11 AGO 2019

 

O HOMEM: TRABALHADOR E FESTIVO

 

1. Andam enganados aqueles e aquelas que, no decurso do tempo, fizeram uma leitura literal do Génesis, o primeiro livro da Bíblia. Porque, concretamente nos primeiros três capítulos, não se trata de uma narrativa histórica, mas de um mito, uma estória. O filósofo Hegel, um dos cumes do pensamento, embora não fosse exegeta, viu mais, mais fundo e de modo mais penetrante do que muitos exegetas, quando leu essas primeiras páginas sobre a criação, Adão e Eva e o chamado “pecado original”.

 

No princípio, Deus fez a Terra e os céus.  E criou Adão e Eva, que viviam no Éden, o paraíso terreal. Não podiam comer da árvore que estava no meio do jardim, a árvore da ciência do bem e do mal. Comeram e foram expulsos do paraíso. O que aqui está, diz Hegel, é a passagem da animalidade à humanidade e à grandeza de ser ser humano, mas também ao seu carácter dramático e mesmo trágico. Souberam que estavam nus. Comeram da árvore da ciência do bem e do mal e ficaram a saber que são seres humanos, portanto, conscientes de si mesmos, conscientes de que são conscientes, com consciência reflexiva, que os outros animais não têm. Essa é a nudez humana, na solidão metafísica: cada um está só, é si  mesmo de modo único e intransferível.

 

Deus também tinha dito que, se comessem, morreriam. Comeram e souberam que o ser humano é mortal, o que o animal não sabe. Quando dizemos — cada um e cada uma — “eu”, cada uma e cada um di-lo de modo exclusivo e único e sabe que há-de morrer e angustia-se face à morte: “Ai, que me roubam o meu eu”, gritava Unamuno. Esta é a constituição do ser humano. E não é possível voltar atrás, porque a entrada do jardim do Éden, símbolo da inconsciência animal, é guardada por querubins com a espada flamejante.

 

E o Homem também tem de trabalhar, disse Deus. O trabalho é constitutivo do ser humano. É transformando o mundo, mundanizando-se, que o Homem vem a si como sujeito e se humaniza. No mundo, está de algum modo fora do mundo; na natureza, está fora e acima da natureza. Pelo trabalho realiza-se e projecta-se e toma consciência de que é social, pois é em comum que nos realizamos, contribuindo para a obra comum que é o bem comum, na síntese de presente, passado e futuro.

 

Uma das minhas reflexões diárias, quando tomo o pequeno-almoço: estou ali, só, e com tantos! Quem semeou o trigo ou o centeio e cozeu o pão que estou a comer? Quem colheu o café, quem o transportou de partes longínquas, quem o preparou? E assim sucessivamente. Por exemplo, ensinaram-me a ler e pude ler obras da grande filosofia e da grande literatura, que outros, autores de há pouco tempo ou de há séculos, ergueram!!! E quem produziu os livros e quem traduziu essas obras? E assim sucessivamente..., desde o carro que me transporta da casa onde vivo e que eu não construí à cidade onde se encontra a minha universidade, que eu também não construí, passando pela auto-estrada que existe pelo trabalhos de tantos que eu não sei quem são...  Estamos sempre unidos com tantos, com todos, pelo trabalho comum!

 

2. Mas o Homem não se define apenas pelo trabalho. Porque é igualmente um ser festivo. Até Deus se lembrou disso, também na Bíblia: que haveria um dia consagrado ao descanso e à festa: o Sábado, depois, o Domingo (o dia do Senhor e do encontro da família e da alegria).

 

O que fez Jesus durante a maior parte da sua vida? Trabalhou, e trabalhou no duro. Infelizmente, quase nunca se ouve falar disso nas homilias dos padres. Dizemos normalmente que Jesus foi, como o seu pai, José, carpinteiro: “Não é este o filho do carpinteiro?”, perguntaram os seus vizinhos de Nazaré, quando voltou à sua aldeia para anunciar a Boa Nova do Reino de Deus. Segundo os Evangelhos, escritos em grego, diz-se mais, pois escrevem que era tektôn, isto é, era o que se dizia antigamente: um “faz tudo”, que tanto era capaz de levantar uma casa como de preparar alfaias agrícolas. E pode ter trabalhado também na Decápole, sabendo, por isso, algo de grego e de latim, para lá da língua materna, o aramaico e o hebraico. Porque trabalhou, para ganhar a vida, ele sabia o valor e a importância do dinheiro, mas também o seu perigo, quando se faz dele o objectivo da vida e se explora: Jesus percebeu perfeitamente a relação que tão frequentemente se estabelece entre quem tem muito dinheiro e quer enriquecer a todo o preço, e os trabalhadores que são explorados. Por isso, pregou constantemente: “Não podeis servir a Deus, que é Pai e Mãe e cujo único interesse é o bem de todos os seus filhos e filhas, e a Dinheiro — não ao dinheiro, mas a Dinheiro, como se fosse um nome próprio, Dinheiro enquanto um deus ao qual se entrega vida e a quem se confia a existência e o seu sentido.

 

Mas Jesus também descansou, porque se deve ter sentido muitas vezes esgotado. Já durante a chamada  “vida pública”, dizem também os Evangelhos, era tanto o trabalho e o cansaço, pois as multidões não o largavam, que convocava por vezes os Apóstolos para um lugar ermo, tranquilo, onde pudessem descansar e conversar sobre o essencial. E  deslumbrou-se com a alegria da beleza: “Contemplai o esplendor dos lírios do campo e das searas!”. Alegrou-se em festas de casamento e dançou. E passava noites na montanha a rezar, na maior intimidade com Deus, a quem chamava querido Papá, querida Mamã. Exaltou-se com o milagre da vida.

 

Agora, estão aí as férias. E é preciso gozá-las com gáudio, de tal maneira que delas não se venha mais cansado do que quando se partiu para elas, que é o que tantas vezes acontece. É importante sublinhar, até do ponto de vista etimológico, o carácter festivo associado às férias e aos dias feriados. A palavra latina feria, no plural feriae, tem o sentido de “descanso, repouso, paz, dias de festa.” O mesmo se observa noutras línguas: vacances, vacaciones, em francês e espanhol, respectivamente, têm o seu étimo também no latim: vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, isto é, em dias santos. Os alemães têm duas palavras: Ferien e Urlaub, sendo o étimo da primeira feriae e a raiz da segunda, Urlaub, Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.

 

Portanto, as férias não podem ser de modo nenhum um mero interregno no trabalho para, depois, repondo as forças, se poder trabalhar ainda mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: retomar as alegrias simples e a experiência funda de que o ser humano é um ser festivo e fim em si mesmo. Então? Apanhar Sol na praia, no campo, na montanha, ler e escrever poesia, aventurar-se num grande romance da literatura, dançar, ouvir o silêncio e ouvir música, a grande música que nos remete para origens imemoriais, lá onde nunca estivemos, e para a transcendência toda, o lá onde verdadeiramente queremos estar, o indizível, lá onde verdadeiramente seremos nós. Reaprender a ver o Sol a nascer no oriente e a pôr-se no ocidente. E se for no oceano!... Contemplar e acolher o perfume de uma rosa, “que é sem porquê”, como observou o místico Angelus Silesius. Ter a alegria de estar com os amigos e a família, com o tempo todo, à volta de uma mesa. Dar-se conta do milagre do Ser e de se ser. Há maravilha que nos abale mais na raiz de nós do que esta? Antes de ser isto ou aquilo, professor ou médico ou operário, muito ou menos culto, mais baixo ou mais alto, com mais dinheiro ou menos dinheiro, eu sou. Eu.

 

P.S.: Não costumo responder às críticas que me fazem. Mas, aqui, estão ideias em causa. O Padre Gonçalo Portocarrero de Almada terminou o seu recente texto no Observador, “Obviamente demito-o”, com este parágrafo: “Enquanto em Portugal há ‘católicos’ que, como o P. Anselmo Borges e José Manuel Pureza, respectivamente negam o dogma da virgindade de Maria e promovem a eutanásia, do Papa Francisco chega, em boa hora, um sinal inequívoco de coerência doutrinal e de coragem pastoral.”

 

Como a formulação pode ser manhosa e, dada a pressa com que presentemente se vive e lê, se pode não atender ao “respectivamente” do texto, corro o risco de ser incluído na dupla condenação. Por isso, esclareço que, quanto à virgindade de Maria, continuo a sublinhar que a teologia não é um tratado de anatomia e, em ordem a mais esclarecimentos, remeto para o meu texto longo, também no Observador, “Narrativas evangélicas do Natal”. Quanto à minha posição sobre a eutanásia, remeto concretamente — peço desculpa pela publicidade —  para o meu próximo livro, a sair em Setembro: Conversas com Anselmo Borges. A Vida, as Religiões, Deus.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 4 AGO 2019

MARTA E MARIA, ECO E NARCISO

 

1. É um passo extraordinário do Evangelho segundo São Lucas.

 

Numa aldeia a caminho de Jerusalém, Betânia, Marta, a dona da casa, convidou Jesus, e, claro, querendo receber bem, como é próprio de uma dona de casa que convida um hóspede ilustre, afadigava-se a trabalhar. Entretanto, a sua irmã, Maria, sentada aos pés de Jesus, na posição própria do discípulo que escuta um rabi, um mestre, pôs-se a ouvir a palavra d’Ele. O trabalho era tanto que Marta veio ao encontro de Jesus e, compreensivelmente, quase em termos de repreensão, atirou-lhe: “Senhor, não te importas que a minha irmã me tenha deixado sozinha a servir? Diz-lhe que venha ajudar-me.” Jesus respondeu: “Marta, Marta, andas inquieta e agitada com muita coisa, quando uma só é necessária! Na verdade, Maria escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada.”

 

2. Ao longo dos tempos, sobre este texto sucederam-se os comentários. Que Marta representa a acção e Maria a contemplação. Mestre Eckardt, paradoxalmente, chamou a atenção para o facto de a verdadeira mística ser, afinal, Marta, no contexto do que se chamou “a mística de olhos abertos”, dirigida à acção a favor dos outros. A contemplação sem acção, sem compaixão, pode não passar de pura ilusão. De qualquer modo, é essencial sublinhar o que raramente ou mesmo nunca se diz: Jesus está a afirmar que as mulheres também podem e devem ser discípulas. Não é por acaso que Maria está precisamente na posição do discípulo: aos pés de Jesus, escutando a sua palavra. Contradizendo o que estava determinado, Jesus teve discípulos e discípulas; as mulheres não podem estar confinadas ao serviço da casa.

 

3. Numa leitura abrangente e essencial, o que o texto propugna é uma Igreja das duas irmãs e a vida de todos, de cada um e de cada uma, tem de ser a sínteses das duas irmãs. Também na política.

Concretizando.

 

3.1. Há hoje muitos que não querem trabalhar e vivem pura e simplesmente encostados ao Estado, aos outros, aos contribuintes. Não é só não procurarem trabalho, é mesmo recusar trabalhar ou ser descuidado no trabalho... Isso é bem conhecido. Ora, o ser humano tem como uma das suas características ser laborans (trabalhador). Não apenas para ganhar a sua vida — uma expressão extraordinária, embora dura: a vida foi-nos dada e, depois, é preciso ganhá-la, e uma das coisas que me têm sido ensinadas pela experiência é que quem nada tem que fazer para ganhar a vida, trabalhando, porque tudo lhe é oferecido, nunca atinge a adultidade —, mas também para se realizar autenticamente em humanidade. De facto, é transformando o mundo, que a pessoa se transforma e faz. Isso é dito no étimo de duas palavras: a palavra trabalho vem do latim, tripalium, que era um instrumento de tortura (trabalhar não é duro?), mas também dizemos de alguém que realizou uma obra e que se vai publicar as obras de alguém (do latim, opera) — em inglês, trabalhar diz-se to work, e em alemão Werk é uma obra, sendo o seu étimo érgon, em grego. Ai de quem, à sua maneira, não realiza uma obra, a obra primeira que é a sua própria existência autêntica!

 

3.2. Mas ninguém pode ficar absorvido, cansado e morto pelo activismo de Marta. Até Deus, no princípio, segundo o livro do Génesis, determinou um dia de descanso semanal, o Sábado, para que o Homem se lembrasse de que não é uma besta de carga. Todos precisamos de integrar na vida a atitude de Maria. Descansar, repousar, festejar, fazer férias (etimologicamente, férias são dias festivos). Ah! E tempo para a beleza, e para a família, tempo para os amigos, tempo para o silêncio, para o encontro consigo. Nestes tempos de dispersão, de corrida louca (para onde?), perigo maior é o do esquecimento de si e da alienação. Nestes tempos de extimidade, do fora extremo, tempos da perdição, precisamos do outro lado: cultivar a intimidade, dialogar na intimidade, lá no mais íntimo, com a Fonte de ser e do ser. Ah! E ouvir o silêncio, lá onde se acendem as palavras vivas e luminosas e o sentido do existir. É preciso constantemente pedir com Sophia de Mello Breyner: “Deixai-me com as coisas/Fundadas no silêncio.” Aí, meditar. Quem sabe da sabedoria das palavras? Meditação, moderação, medicina têm um étimo comum: o verbo latino mederi — a raiz é med: pensar, medir, julgar, tratar um doente —, que significa medir, cuidar de, tratar, medicar, curar... Tanto se busca fora e longe o que está dentro e tão perto!

 

3.3. Os políticos também precisam? Se precisam!... Como é possível a Assembleia da República ter deixado 170 diplomas para o seu último dia de votações?! Uma vergonha! Quando é que os políticos meditam e pensam em profundidade o que é preciso pensar, longe do ruído tagarela e vazio e dos holofotes que cegam e estonteiam?

 

4. Dei muito recentemente um pequeno curso sobre “Grandes Mitos da Humanidade”. Assim, um pouco à maneira de apêndice, deixo aí aquele que considero um dos mitos mais actuais e que diz o amor impossível: o mito de Eco e Narciso.

 

Narciso, enamorado da sua própria imagem reflectida na água, deixou de comer, de distrair-se com qualquer outra coisa, e ficou apenas uma flor, um narciso. A ninfa Eco, tagarela infindável, foi castigada pela deusa Hera, pois a sua tagarelice impedia-a de vigiar o seu divino esposo Zeus, que a traía: ficou muda, sem voz própria, repetindo apenas em eco as palavras alheias.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 28 JUL 2019

DECÁLOGO PARA OS NÚNCIOS

 

1. A Igreja tem dentro dela, inevitavelmente, uma tensão, que a conduz a um paradoxo. Esta tensão e este paradoxo foram descritos de modo penetrante, preciso e límpido pelo sociólogo Olivier Robineau, nestes termos: “A Igreja Católica é uma junção paradoxal de dois elementos opostos por natureza: uma convicção — o descentramento segundo o amor — e um chefe supremo dirigindo uma instituição hierárquica e centralizada segundo um direito unificador, o direito canónico. De um lado, a crença no invisível Deus-Amor; do outro, um aparelho político e jurídico à procura de visibilidade. O Deus do descentramento dos corações que caminha ao lado de uma máquina dogmática centralizadora. O discurso que enaltece uma alteridade gratuita coexiste com o controlo social das almas da civilização paroquial — de que a confissão é o arquétipo — colocado sob a autoridade do Papa. Numa palavra, a antropologia católica tenta associar os extremos: a graça abundante e o cálculo estratégico. Isso dá lugar tanto a São Francisco de Assis como a Torquemada.”

 

2. É com este paradoxo que o Papa Francisco tem de conviver, ao mesmo tempo que tem feito o seu melhor para dar o primado ao Evangelho, ao Deus-Amor, para que a Igreja enquanto instituição — e é inevitável um mínimo de organização institucional — não atraiçoe a Boa Nova de Jesus. Ele é cristão, no sentido mais profundo da palavra: discípulo de Jesus, e quer que todos na Igreja se tornem cristãos, a começar pela hierarquia.

 

Assim, tem denunciado as doenças da Cúria, avisa os bispos e cardeais para que não sejam príncipes, anuncia para breve uma nova Constituição para a Cúria, o governo central da Igreja. Também neste contexto, convocou recentemente para o Vaticano os Núncios do mundo inteiro. As nunciaturas, embaixadas da Santa Sé junto dos governos e das Igrejas locais, são uma herança histórica discutível, mas podem ter um papel decisivamente positivo no mundo para estabelecer pontes a favor da justiça, do desenvolvimento, da paz.

 

Nesse encontro, com a presença de núncios e delegados apostólicos em 193 países e organizações internacionais, o Papa Francisco, dirigindo-se-lhes directamente, avisou: “Estou contente por encontrar-vos de novo para ver convosco e examinarmos com olhos de pastores a vida da Igreja e reflectirmos sobre a vossa delicada e importante missão”. Acrescentou: “Pensei partilhar hoje convosco alguns preceitos simples e elementares; trata-se de uma espécie de ‘decálogo’, que, na realidade, é dirigido, através de vós, também aos vossos colaboradores e ainda a todos os bispos, sacerdotes e consagrados que encontrais em todas as partes do mundo.”

 

3. O que aí fica é uma breve síntese desse decálogo.

 

3.1. O núncio é um homem de Deus.

Ser um homem de Deus significa “seguir Deus em tudo e para tudo”. O homem de Deus “não engana nem defrauda o seu próximo”.

 

3.2. O núncio é um homem de Igreja.

“Sendo um Representante Pontifício, o núncio, não se representa a si mesmo, mas a Igreja e em particular o Sucessor de Pedro, o Papa.” Por isso, “é feio ver um núncio que procura o luxo, as vestimentas  e os objectos ‘de marca’ no meio de pessoas sem o necessário. É um contra-testemunho. A maior honra para um homem da Igreja é ser ‘servo de todos’.” “Ser um homem da Igreja significa defender com coragem a Igreja perante as forças do mal que permanentemente procuram desacreditá-la, difamá-la, caluniá-la.”

 

3.3. O núncio é um homem de zelo apostólico.

Ele é “o anunciador da Boa Nova e, sendo apóstolo do Evangelho, tem a tarefa de iluminar o mundo com a luz de Jesus ressuscitado, levando-o aos confins da Terra.” “Quem se encontra com ele deveria sentir-se interpelado de alguma maneira.” Não se pode esquecer de que “a indiferença é uma doença quase epidémica que se está a propagar em várias formas, não só entre os fiéis em geral, mas também entre os membros dos institutos religiosos.”

 

3.4. O núncio é um homem de reconciliação.

Parte importante do trabalho de todo o núncio é “ser homem de mediação, de comunhão, de diálogo e de reconciliação. O núncio deve procurar ser imparcial e objectivo, para que todas as partes encontrem nele o árbitro correcto que procura sinceramente defender e proteger só a justiça e a paz, sem se deixar influenciar negativamente. Se um núncio se fechasse na sua nunciatura e evitasse encontrar-se com as pessoas, atraiçoaria a sua missão e, em vez de ser factor de comunhão e reconciliação, converter-se-ia em obstáculo e impedimento. Não deve esquecer nunca que representa o rosto da catolicidade e a universalidade da Igreja nas Igrejas locais espalhadas por todo o mundo e perante os governos.”

 

3.5. O núncio é um homem do Papa.

Não se representa a si mesmo, mas o Sucessor de Pedro, o Papa, e “age em seu nome  perante a Igreja e os governos.” Aqui, Francisco, certamente pensando também no ex-núncio Viganò, concluiu: “Portanto, é irreconciliável ser um Representante pontifício e criticar o Papa por trás, ter blogues e unir-se, inclusivamente, a grupos que lhe são hostis, a ele, à Cúria e à Igreja de Roma.”

 

3.6. O núncio é um homem de iniciativa.

“É necessário ter e desenvolver a capacidade e a agilidade para promover e adoptar um comportamento adequado às necessidades do momento, sem cair nunca na rigidez mental, espiritual e humana ou na flexibilidade hipócrita e de camaleão. Não se trata de ser oportunista”, mas de saber passar do ideal à sua implementação concreta, “tendo em conta o bem comum e a lealdade ao mandato.”

 

3.7. O núncio é um homem de obediência.

Sim, de obediência, mas sabendo que “a obediência é inseparável da liberdade, porque só em liberdade podemos obedecer realmente, e só obedecendo ao Evangelho podemos entrar na plenitude da liberdade.”

 

3.8. O núncio é um homem de oração.

“O Senhor  é o bem que não defrauda, o único que não defrauda. E isto requer um desapego de si mesmo que só se pode conseguir com uma relação constante com Ele e a unificação da vida à volta de Jesus Cristo.”

 

3.9. O núncio é um homem de caridade activa.

É necessário sublinhar permanentemente que “a oração, o caminho do discipulado de Cristo e a conversão encontram na caridade actuante a prova da sua autenticidade evangélica. E desta forma de vida deriva a alegria e a serenidade mental, porque, nos outros, se toca com a mão a carne de Cristo.”

 

A caridade também é gratuita. Por isso, Francisco, aqui, adverte para “o perigo permanente das regalias. A Bíblia define como iníquo o homem que ‘aceita presentes por debaixo da mesa, para desviar o curso da justiça’. A caridade activa deve levar-nos a ser prudentes na hora de aceitar os presentes que nos oferecem para ofuscar a nossa objectividade e, nalguns casos, desgraçadamente, para comprar a nossa liberdade. Que nenhum presente nos escravize! Recusai os presentes demasiado caros e frequentemente inúteis ou enviai-os para obras de caridade e nunca esqueçais que receber um presente caro nunca justifica o seu uso.”

 

3.10. O núncio é homem de humildade.

Francisco concluiu, apelando para a virtude da humildade: “Jesus manso e humilde de coração, faz o meu coração parecido com o teu.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 21 JUL 2019

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS - III

   

   Continuando o rosário de observações e lembranças encetado em textos anteriores, acrescentarei mais algumas que, tal como sempre, procuro tornar mais propostas de curiosidade e interrogações do que afirmações conclusivas ou referências dogmáticas. Aliás, nem pretendo escrever história, o título destas crónicas é o de um livro que vos convido a ler, sendo, para mim, uma interrogação sobre como me (nos) poderei (poderemos) tornar mais cristão sendo mais católico. 

 

   Assim, quanto à construção teológica e canónica do sacramento da ordem - sobretudo no tocante aos poderes que atribui e à sua exclusividade sacra -, ocorrem-me algumas perguntas radicalmente ligadas ao conceito de sagrado no cristianismo. Parto do princípio de que o leitor conhece, tal como eu mesmo ou qualquer leigo interessado, a chamada "doutrina do magistério eclesial"(ou, melhor dizendo, eclesiástico), pelo que procederei sem a invocar, limitando-me a formular interrogações advenientes. Todavia, não deixarei de recordar trechos da tradição da fé cristã, bem como passos dos textos neotestamentários que parecem melhor enquadrar as minhas propostas de reflexão.

 

   Há muito que pensossinto que o conceito inspirador do Corpo Místico é fulcral para o entendimento, não só do cristianismo original, como da sua evolução ecuménica e católica, designadamente através da diáspora judaica e helenística. Mais ainda: ele finalmente ilumina e anima, por um percurso de séculos, a orientação fundamentalmente mais cristã da Igreja, entendida como a comunhão de todos os fiéis (dos que têm fé). Compreendamo-lo lendo este trecho da epístola de S. Paulo aos Efésios (4, 11-16) : E Ele próprio providenciou que uns sejam apóstolos; outros, profetas; outros, anunciadores da boa nova; outros, pastores e professores, com vista ao aperfeiçoamento dos santos [assim eram designados os fiéis, na tradição judaica], até que atinjamos todos a unidade da fé e o conhecimento do filho de Deus e até que atinjamos o estado de homem realizado e a medida da estatura da plenitude de Cristo, para que já não sejamos crianças, batidos pelas ondas e levados por todo o vento da doutrina na batota das pessoas, na iniquidade com vista ao planeamento do equívoco; porém, ao sermos verdadeiros em amor, cresçamos em direção a ele em relação a todas as coisas, Ele que é cabeça, Cristo, do qual todo o corpo, ajustado e unido através de todo o ligamento da provisão (segundo a eficácia na medida de cada membro), efetua o aumento do corpo com vista à sua própria edificação em amor. A tradução, do grego, é de Frederico Lourenço.


   A celebração eucarística da comunhão de todos com Cristo, por Cristo e em Cristo é efetivamente o sacramento essencial da morte e ressurreição de Jesus, a reconciliação da humanidade consigo mesma e com Deus, de que a Igreja é memória, testemunho e corpo. E tal celebração é sempre o ato sacerdotal por excelência, o próprio Jesus Cristo convida a comunidade inteira a realizar com Ele. Quando, na epístola aos hebreus, se afirma que por conseguinte, tendo nós um grande sumo sacerdote que atravessou os céus, Jesus, o filho de Deus, fortaleçamos a fé professada. Pois não temos um sumo sacerdote incapaz de se compadecer das nossas fraquezas: foi provado em todas as coisas à nossa semelhança, excetuando o pecado. Aproximemo-nos, portanto, com liberdade do trono da graça, para que recebamos misericórdia e encontremos graça para uma ajuda em boa hora. (Hebreus, 4, 14-16). Ou ainda: Este é o sumo sacerdote que nos convinha: santo, inocente, imaculado, separado dos pecadores e elevado acima dos céus, que não tem necessidade, como os outros sumos sacerdotes, de oferecer vítimas todos os dias, primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos do povo. Pois ele fê-lo de uma vez por todas, oferecendo-se a si mesmo. A lei institui como sumos sacerdotes homens detentores de fraqueza, mas a palavra do juramento, que veio depois da lei, constitui o filho perfeito para sempre. (Hebreus, 7, 26-28)

 

   Chegamos aqui a um ponto de reflexão que muitos dos meus leitores poderão achar insólito, talvez despropositado: que terá a ver o sagrado com a religião cristã? Fará sentido haver, nos templos cristãos um "santo dos santos", um lugar sacro, apenas habitado pela divindade, e em que só pessoas autorizadas podem privar? Será o sacerdócio uma ordem - tal como era no judaísmo e noutras religiões - ou será, antes, próprio do povo dos fiéis, por união ao único sumo sacerdote, no corpo místico? Sou levado a refletir na hierofania (ou manifestação do sagrado), no cristianismo, como celebração de uma memória, algo, aliás, alheio a qualquer magia. Na nascente da religião cristã está a memória da encarnação, morte e ressurreição de Jesus, desse ato único da presença de Deus na história da humanidade, em que o Santíssimo (solus sanctus, hagios) vem revestir-se da nossa condição e para sempre permanecer connosco no seu Corpo Místico, e pela ação do Espírito Paráclito. O sagrado (sacer, hieros) habita entre nós, não por obra ritual, nem sacrifício, nem magia do poder de qualquer ungido - mas apenas em virtude do único sacrifício redentor que é a morte e ressurreição de Jesus Cristo, que incessantemente comemoramos na celebração da eucaristia, ceia sempre festiva da reconciliação e da partilha do pão da vida, por todos, pois por todos Jesus ofereceu o corpo e a vida, vencendo finalmente a morte.

 

   O sagrado, em muitas religiões, como na aceção geral, tanto convoca a adoração como a interdição, o tabu. Tocar no sagrado é, então, algo que vai da blasfémia à profanação. Profanar é tornar profano, dessacralizar ou, mais correntemente, macular o inefável.

 

   Mas também será possível alguém profanar-se, no sentido de tocar algo de interdito, porque maculador: por exemplo, um cadáver.

 

   Não necessariamente humano, como nos conta o estatuto de pária, a que são reduzidas pessoas ostracizadas por lidarem com o abate de animais ou o aproveitamento da sua pele (caso dos curtidores), etc. No Japão futurista, por exemplo, ainda hoje há quem conserve registos de pessoas e famílias que exercem ou exerceram essas profissões, para as banirem de qualquer possível relação familiar ou laboral; a esses excluídos se chama burakumin. Casos semelhantes se encontram noutras regiões e religiões da Ásia.

 

   Reiterando lembrança de que não pretendo fazer nem ciência nem doutrina, mas tão somente acordar ou estimular reflexões, direi que, da minha leitura dos textos neotestamentários, ressalta que o cristianismo mais próximo do ensino de Jesus Cristo, me parece o mesmo ser uma dessacralização - se assim, ainda que em termos pouco hábeis, me posso exprimir - da religião enquanto relação do humano ao divino. O Evangelho, a Boa Nova, é a do regresso do Verbo inicial, a vinda de Deus, em Jesus Cristo, para o meio de nós, simultaneamente anúncio do advento final do fim dos tempos, quando cada um será julgado, não conformemente a qualquer código de ritos ou obrigações canónicas, mas em função do seu esforço de proximidade àqueles a quem deu de comer e beber, visitou e consolou na aflição, acompanhou e fortificou na paz... O sagrado, memória e construção do Corpo de Cristo, é, afinal, obra de todos nós em comunhão com Ele, e em cumprimento do único mandamento, o tal que tudo encerra: amai-vos uns aos outros, como eu vos amei, e será perfeita a vossa alegria.

 

Camilo Martins de Oliveira

CONFISSÕES DO PAPA FRANCISCO. 3

 

Termino a longa e bela entrevista do Papa Francisco à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México.  Temas importantes de hoje: a reforma da Igreja, erros cometidos e a confissão, acusação de heresia, o diálogo com o islão, o desejo de ir à China, quanto tempo ainda de pontificado?

 

2.15. Francisco e a reforma da Igreja. A jornalista: “Qual é a coisa mais bonita que julga ter feito?” “O mais bonito para mim é, foi e é sempre estar com as pessoas, que queres que te diga? Eu renasço quando vou à praça (Praça de São Pedro), quando vou a uma paróquia. Às prisões..., estar com as pessoas. Sim, sou Papa, sou bispo, fui cardeal..., isto tudo pode cair, mas, por favor, não me tirem o ser padre, cura.”

 

Erros? “Erros há sempre. Confesso-me todos os 15 dias, o que significa que cometo erros.” A jornalista: “E são confissões longas ou curtas?”. Francisco: “A curiosidade feminina!, ‘the human touch’! “Como reagiu a essa de o acusarem de herege?” “Com sentido de humor, filha”. A jornalista: “Não lhe dá muita importância?” Resposta: “Não, não, rezo por eles porque estão equivocados, por vezes, pobre gente, alguns são manipulados. Vi quem eram os que assinavam... Não, a sério, sentido de humor e eu diria, ternura, ternura paternal. Quer dizer, isso não me fere minimamente. A mim o que me fere é a hipocrisia, a mentira.”

 

A jornalista: “E com a sua reforma tem a sensação de que estamos...” Resposta: “A reforma não é minha. Foram os cardeais que a pediram. Isto é assim, tal qual. As pessoas têm vontade de reformar. O esquema de corte tem de desaparecer. Foram os cardeais que o pediram. Bem, a maioria, graças a Deus.” A jornalista, referindo o caso de Maciel, fundador da Legião de Cristo, observou que o Papa João Paulo II tinha “obstaculizado essas reformas...”. Resposta: “Por vezes, enganaram João Paulo II.” No caso de Maciel e dos Legionários, “Bento XVI foi corajoso. E João Paulo II também. Quanto a João Paulo II, é preciso entender certas atitudes, porque vinha de um mundo fechado, a cortina de ferro, ainda estava vigente o comunismo lá... E havia uma mentalidade defensiva. Temos que compreender bem, ninguém pode duvidar da santidade desse homem e da sua boa vontade. Foi um grande.”

 

2.16. Geopolítica e islão. Pergunta a jornalista: “Qual é a sua estratégia face ao islão? Sente-o como uma prioridade neste momento?” Francisco: “Penso que sim. De facto, vou aos bairros em Roma, às paróquias e vêm, dizendo: ‘sou muçulmano’, ‘sou muçulmana’. Vêm saudar-me ou estão com o véu. Ou seja, o islão entrou na Europa outra vez, sejamos realistas, o islão é uma realidade que não podemos ignorar.” Também na África, há bispos que contam que há muçulmanos que vão rezar ao altar de Nossa Senhora. “Creio que somos irmãos, vimos todos de Abraão e nesse aspecto sigo as linhas do Concílio: estender as mãos aos judeus, aos islâmicos, estender as mãos o mais possível.”

 

Francisco reconhece a evidência de que “o islão está de modo muito forte ferido por grupos extremistas, por grupos intransigentes, fundamentalistas. Também nós, os cristãos, temos grupos fundamentalistas, pequenos grupos fundamentalistas, que obviamente não são guerrilheiros. Conclusão: é preciso ajudar os muçulmanos com a proximidade para que mostrem o melhor que têm, e esse melhor não é precisamente o terrorismo.” Está aí “o grande tema dos mártires cristãos...”, observa a jornalista. E Francisco: “Sim, e bastam pequenos grupos para causar desastres”.

 

Neste contexto da cristianofobia e da paz, chega a notícia do convite oficial para que o Papa visite o Iraque, o que poderá acontecer já em 2020: “Tenho a honra de convidar oficialmente Sua Santidade a visitar o Iraque, berço da civilização e lugar de nascimento de Abraão”, escreveu o presidente iraquiano, Barham Salih, numa missiva ao Papa. É sabido que aí, ao longo dos últimos anos, o número de cristãos passou de 1.5 milhões para uns 500 mil.

 

Ainda neste domínio, é necessário relembrar o que Francisco também tem sublinhado em ordem a este diálogo e à paz. Em primeiro lugar, também o islão tem de aprender o que custou à Igreja Católica, mas aprendeu: a leitura dos textos sagrados, no caso dos muçulmanos, do Alcorão, não pode ser literal, mas histórico-crítica. Por outro lado, é essencial salvaguardar a laicidade do Estado, isto é, a separação da religião e da política; por outras palavras: o Estado deve ser laico, não pode ter uma religião oficial; o Estado tem de ser confessionalmente neutro, para garantir a liberdade de todos. Sem a laicidade, não se supera a chamada capitis diminutio, isto é, a diminuição de cidadania dos cidadãos que não seguem a religião oficial. Dois princípios fundamentais.

 

E, evidentemente, Ahmed al Taleb, o Grande Imã da Mesquita e Universidade Al Azhar, no Cairo, com quem o Papa Francisco assinou, em Abu Dhabi, a histórica Declaração “A Fraternidade Humana”, a que aqui fiz longa referência, não pode continuar a aprovar que se bata na mulher “sem lhe partir um osso”: “Não deve partir-lhe um osso nem provocar danos num órgão ou membro do seu corpo nem tocar-lhe com a mão na cara nem provocar-lhe feridas nem causar danos psicológicos.”

 

Ainda no quadro da geoestratégia, Francisco confessa que o seu sonho é a China: “o meu sonho é a China. Gosto muito dos chineses.” Apesar das críticas, já que a perseguição não acabou, saúda o acordo com a China, para superar a dualidade da Igreja unida a Roma e a patriótica. “Agora, os católicos fruem o estar juntos. Com toda a política exterior dos pequenos passos, alguns sentem-se fora, isso é verdade, mas é a minoria. De facto, celebraram a Páscoa todos juntos, todos juntos e em todas as igrejas, este ano não houve problemas.” “Leva-nos à China?”, perguntou a jornalista. “Ficaria encantado. Para si vai ser a viagem número...”.

 

2.17. Quanto mais tempo ainda como Papa? A jornalista: “Lembra-se de que há quatro anos me dizia: ‘é que eu tenho a sensação de que o meu pontificado vai ser breve, dois, três, quatro anos...’, e já estamos, felizmente, no sexto.” Francisco: “E eu tenho a mesma sensação.” A jornalista: “Já passaram seis anos, já não é tão curto.” Francisco: “Mas também não pensemos em 20.” A jornalista: “Bom, em 20 talvez não, porque tem 82. Mas nos 100 anos...”. Resposta: “Está bem.”

 

A jornalista: “Recordo que também me disse que o que mais estranhava era como Papa não poder sair às escondidas para comer uma pizza, lembra-se? Já conseguiu fazer isso?” Francisco: “Não. Em Roma do que mais tenho saudades é de sair para comer uma pizza... Não, não o fiz. É uma coisa a que tenho de renunciar. Porque em Buenos Aires ia. A mim a rua diz-me muito, aprendo muito na rua.”

 

3. E a gente fica com a sensação de que Francisco, no meio de todas as crises por que passam a Igreja e o nosso mundo, é uma bênção para a Igreja e para o mundo. E compreendemos também o diálogo, no seu breve encontro com o Padre Ángel, o profeta dos pobres, presidente da ONG “Mensageiros pela Paz”, no Panamá, aquando do encontro da juventude: “Como estás?”, perguntou-lhe o Papa. Resposta: “Vou bem, apesar dos problemas. E tu, Francisco?” E Francisco: “Sobre os meus problemas, nem te falo.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 JUL 2019

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS – II

   

  Nicole Lemaître é professora de História Moderna na Universidade de Paris I-Panthéon-Sorbonne e, ainda, docente no Institut Catholique de Paris. Como comentário e aditamento ao meu texto anterior - cujo título e tema este agora presente retoma - traduzo passos do que ela escreveu sobre o tema do Padre. Será longa a citação, mas os trechos seguintes certamente nos ajudarão a ter uma visão mais abrangente da temática e problemática do sacerdócio na Igreja:

 

  O padre torna-se celibatário e modelo de cristão a partir do século XI. Toda uma defesa ideológica da sua perfeição pessoal acompanha periodicamente tal ser posto à parte, particularmente nos séculos XVI e XVII, quando a figura do padre se constrói por oposição aos pastores cismáticos e, posteriormente, entre 1800 e 1950, na peomoção eclesial duma sociedade perfeita. Mas no primeiro milénio as coisas não eram assim tão claras. Na origem, o enquadramento das comunidades era assegurado por ministros diversos, e o ministro encarregado dos serviços materiais e da assistência (diácono), servidor de todos, exercia um verdadeiro apostolado, e em caso algum era um «separado». Mas as primeiras comunidades também são hierárquicas: têm anciãos (presbíteros) à cabeça. São eles que guardam cada igreja e têm por missão apascentar o rebanho de Deus. Passadas as primeiras gerações, uma hierarquia a três filas é instalada: um bispo (epíscopo), pastor e presidente da comunidade, rodeado de presbíteros que os diáconos assistem. Mas não é necessário passar por todas essas etapas - São Cipriano tornou-se bispo sem nunca ter sido padre nem diácono: na verdade, o ministério põe-nos a todos ao serviço do sacerdócio de Cristo e, enquanto sucessores dos apóstolos, a todos qualifica para serem intendentes de Deus. Embora recebam a imposição das mãos, prosseguem todavia a sua vida normal, casam-se e exercem um ofício.

 

   Não é meu propósito comentar sequer aquela instituição de "separado" ou "posto à parte" que, por outras palavras, se pode dizer "sectário". Ou ainda, no seio da mesma sociedade, "pertencente a uma casta". Todos poderemos entender como, em sociedades maioritária ou crescentemente cristãs, que procuram reorganizar-se depois da queda do Império Romano, e no advento de um mundo de senhores feudais, se pretendesse assegurar a independência das comunidades e autoridades religiosas pela invocação de inspirações, princípios e normas que acentuassem o carácter eminentemente religioso e divino dos mandatos das autoridades eclesiásticas em circunstâncias fás ou nefas, como, em contextos bem diferentes, diria o Embaixador Franco Nogueira. Na preocupação com o reforço do poder espiritual ou eclesial face ao político, numa cristandade que evolui em tempos e modos novos, a maior legitimidade divina do primeiro é princípio que conveniente e evidentemente se impõe, até como justificação da sua independência própria. Assim, a afirmação de um estatuto sacerdotal distinto e marcado será fator de existência política. A par dos ritos de iniciação e ordenação, dos sinais sacramentais e paramentais desenvolvidos, a exigência do celibato (não simplesmente da castidade, que é coisa também própria das relações matrimoniais) torna-se constitutiva da pessoa e da classe sacerdotal.

 

   Paralelamente se irá desenvolvendo uma espiritualidade condizente, acentuadamente induzida pela ideia de vida consagrada ao serviço exclusivo das coisas de Deus. Tal sentido de serviço da caridade, incarnada em vidas como as do santo cura d’Ars - e tantas outras, ao longo de séculos e hoje ainda - ou em ficções tão profundamente inspiradas e tocantes, como Le Journal d´un Curé de Campagne, do Georges Bernanos, para falarmos só de casos de padres inseridos no drama das vidas quotidianas da gente comum (que todos nós somos), tal sentido do serviço evangélico e fraterno foi sendo a boia de salvação de uma Igreja que o clericalismo teimou entregar nas mãos da vaidade temporal e do autoritarismo soez. Recentemente, a canonização de frei Bartolomeu dos Mártires, o arcebispo peregrino das serranias nortenhas e suas gentes perdidas num Portugal esquecido, aviva-nos a memória da consciência cristã.

 

   Mas todas essas espirituais exceções também nos convidam a repensar as regras de que se distinguiram. Fica para outra conversa.

 

Camilo Martins de Oliveira

CONFISSÕES DO PAPA FRANCISCO. 2

 

Dou sequência à longa e bela entrevista do Papa Francisco à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México. Porque, se é verdade que é sempre espontâneo no contacto com os jornalistas, raramente o terá sido tanto. Cordial, tratando a jornalista por “filha”, a quem revela que é “um conservador”, mas que mudou.

 

2.7. Os de fora e os de dentro. A jornalista observa: “Há quem diga que o Papa parece gostar mais dos que estão longe do que dos seus”. Francisco: “É um piropo para mim. É um piropo, pois é o que Jesus fazia, acusavam-no disso. E Jesus diz: ‘Não são os sãos que precisam de médico, mas sim os doentes’. Eu não prefiro os de fora aos de dentro. Cuido dos de dentro, mas dou prioridade aos outros, isso sim.” É como numa família.

 

Acrescentou: “Alguns jornalistas acusam-me de que sou demasiado tolerante com a corrupção na Igreja; por outro, se carrego em cima dos corruptos, dizem que ‘lhes carrego demais’. Bonito. Assim, sinto-me pastor. Obrigado.”

 

2.8. E volta aos migrantes e refugiados, observando a jornalista que há quem o acuse de “falar muito mais deste tema do que dos temas, dos valores que antes se dizia serem valores irrenunciáveis do catolicismo como a defesa da vida.”

 

Francisco: “Porque é uma prioridade hoje no mundo. Todos os dias recebemos notícias de que o Mediterrâneo é cada vez mais cemitério, para dar um exemplo.”

 

Mas reconhece as tremendas dificuldades do problema. “Sobre migrantes, eu digo, em primeiro lugar, que é preciso ter coração para acolher; depois, é preciso acompanhar, promover e integrar. Todo um processo. Aos governantes digo: Vejam até onde podem ir. Nem todos os países podem, sem mais. E para isso é necessário o diálogo e que se ponham de acordo. É preciso integrar isto tudo, não é fácil tratar o problema migrantes, não é fácil.”

 

A mesma dificuldade quanto aos repatriados. “Não sei se viu as filmagens clandestinas que há quando os apanham outra vez. Às mulheres e aos miúdos vendem-nos, e os homens são feitos escravos, torturam-nos... Por isso, digo: cuidado também para repatriar com segurança.”

 

2.9. Sobre o aborto. “O aborto não é um problema religioso no sentido de: porque sou católico não posso abortar. É um problema humano. É o problema de eliminar uma vida humana. Ponto final. E por aqui me fico.”

 

2.10. E com os governantes? “Não gosto de responder: ‘gosto mais, gosto menos’. Quero ser honesto. Frente a um governante, procuro dialogar com o melhor que tem. Porque a partir do melhor que tem vai fazer bem ao seu povo.”

 

2.11. É sabido que Francisco não se cansa de atacar a bisbilhotice na Igreja, na Cúria, na vida de todos. Acaba de distribuir um folheto na Cúria sobre isso, porque “somos inclinados a falar mal das pessoas”. A jornalista: “Como se chama o folheto?” Resposta: “Não falar mal dos outros”. “É um defeito que temos todos: ver o mal do outro e não o bem. Isso vale para todos: a bisbilhotice, os mexericos. Dizem que as mulheres são mais bisbilhoteiras, mas é falso. Os homens também o são.” O que é mau deve-se dizer ao próprio, “em privado, para que se corrija. Não o digas aos outros.”

 

2.12. Situações “irregulares”, recasados e homossexuais. Francisco lamenta que por vezes abusem das suas palavras e o interpretem mal: “Por vezes as pessoas, com o entusiasmo de serem recebidas pelo Papa, dizem mais do que o Papa lhes disse, é preciso ter isso em conta.” A jornalista: “É um risco que corre...”. Resposta: “Claro, um risco. Mas todos são filhos de Deus. Todos. Eu não posso descartar ninguém. Preciso de ter cuidado, tomar precauções, mas descartar, não. Também não posso dizer a uma pessoa que o seu comportamento está de acordo com o que a Igreja quer, quando não está. Mas tenho de dizer a verdade: ‘És filho, filha de Deus. A ninguém tenho o direito de dizer que não é filho, filha de Deus, porque estaria a faltar à verdade. Ou que Deus não gosta dele, dela. De facto, Deus gosta de todos, até de Judas.” As pessoas têm é de ser responsáveis.

 

Mas há más interpretações. “Perguntaram-me sobre a integração familiar das pessoas com orientação homossexual e eu disse: as pessoas homossexuais, as pessoas com uma orientação homossexual têm direito a estar na família e os pais têm direito a reconhecer esse filho como homossexual, essa filha como homossexual. Não se pode pôr fora da família ninguém nem tornar a vida impossível a ninguém.” “Outra coisa é, quando se vêem alguns sinais nos miúdos que estão a crescer, mandá-los a um ‘especialista’ (na altura, saiu-me ‘psiquiatra’, mas queria dizer especialista, foi um lapsus linguae). Ora, um diário colocou em título: ‘O Papa manda os homossexuais ao psiquiatra’. Não é verdade. Não disse isso.”

 

Quanto aos divorciados recasados, “a doutrina foi reajustada, o que significa recuperar a doutrina de São Tomás.” O princípio continua claro: casamento para toda a vida; do que se trata é de aplicar, dentro de certas regras, o princípio às circunstâncias. Neste quadro, abre-se a porta à possibilidade da comunhão em casos concretos.

 

2.13. A jornalista observou: “Conhecidos seus dizem que, na Argentina, era conservador na doutrina.” Francisco: “Sou conservador.” A jornalista: Mas “tornou-se muito mais liberal do que era na Argentina. Foi o Espírito Santo?” Resposta: “A graça do Espírito Santo existe certamente. Eu sempre defendi a doutrina. E é curioso, uma vez que chama a atenção para isso, na lei do casamento homossexual... é uma incongruência falar de casamento homossexual.” A jornalista: “Então, antes era uma coisa e agora é outra?” “É verdade. Confio em que cresci um pouco, que me santifiquei um pouco mais. A gente muda na vida. Ampliei os meus critérios, isso pode ser; vendo os problemas mundiais, tomei mais consciência de algumas coisas que antes não tinha. Julgo que nesse sentido há mudanças, sim. Mas sou conservador e... sou as duas coisas.”

 

2.14. Francisco e a imprensa. A jornalista: “Atendendo a esta evolução, pode dizer-nos o melhor nestes seis anos?” Francisco: “Bom, escutar-vos a vós jornalistas, creio que para mim foi uma coisa... não digo a melhor, mas uma coisa linda.”

 

“Na Argentina, nunca contactava com a imprensa, não éramos santos da sua devoção”, observa a jornalista. “Não, não. Também agora não muito (risos). Não, mas realmente o diálogo convosco — isto é um pouco piada, mas quero dizê-lo —, eu tenho boa relação convosco e sinto-me bem convosco, que fique claro. É uma das coisas lindas.” “Mesmo que o critiquemos”. Francisco: “Claro que sim. Se criticarem bem, bendito seja Deus; se criticarem mal, saio a dizer-vo-lo. Porque  o papel da imprensa não é só criticar, é construir. Mas também tenho consciência de uma coisa: Nem sempre sois livres, lamentavelmente muitos, para viver..., nem sempre podem dizer tudo o que querem.”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 7 JUL 2019

COMO OS CRISTÃOS SE TORNARAM CATÓLICOS

   

   O título deste texto é a tradução literal do que a professora da Sorbonne Marie-Françoise Baslez deu ao seu último livro, editado este ano pela Tallandier: Comment les Chrétiens sont devenus Catholiques (1er-5ème siècle), obra cuja leitura recomendo a quem se disponha a refletir, em tempos interrogadores, sobre o nascimento e o(s) desenvolvimento(s) da Igreja Católica e a consciência da sua identidade própria. A história, isto é, a vivência do cristianismo inicial descobre-se fundamentalmente nos escritos do Novo Testamento que constituem os textos das epístolas apostólicas e dessa crónica coeva a que chamamos Atos dos Apóstolos, existindo ainda outros testemunhos na correspondência trocada e conservada pelas várias igrejas ou assembleias daquele tempo, bem como nos registos de documentos administrativos e cronistas exteriores às comunidades cristãs. Muito de todo este acervo foi redigido em cima dos acontecimentos e em virtude deles, sendo, aliás, anterior à redação dos Evangelhos (canónicos e apócrifos) que são sobretudo memórias da vida e dos ensinamentos de Jesus, guardadas e transmitidas pelas tradições de diferentes pregões e movimentos do apostolado e das igrejas consequentes à mobilização do Pentecostes.

 

   Por mim, entusiasmo-me sempre com essas narrativas de uma vida espiritual e religiosa que é essencialmente social, comunitária, contos velhinhos da juventude do abraço de Deus à reunião dos homens no amor, pela intercessão redentora de Jesus e o sopro incessante e livre do Espírito Santo. Aí encontro uma porta aberta sobre o mistério criador do cristianismo - que não é uma doutrina, nem ideologia, nem qualquer código, mas uma mensagem apenas: amai-vos uns aos outros como Deus vos amou e ama, para que seja completa a vossa alegria. Na verdade, peça-se à volta deste mundo, seja onde for, uma definição do amor e tal terá sempre um denominador comum: Amor é o que dá sentido à vida. Nada mais. É edificante observarmos como a Igreja cristã não surge como instituição divina, pré formada e organizada por Cristo, como tantas vezes alguns pretendem fazer-nos crer. E é lapidar a análise da Prof.ª Baslez:

 

   Os textos fundadores do Novo Testamento não puderam servir sozinhos para fundamentos teológicos de qualquer modelo organizacional que seria suficiente repetir, pois de modo algum se interessam pela questão das estruturas eclesiais. No princípio, não há doutrina, mas uma mensagem, um «evangelho» que comunidades recebem e meditam desenvolvendo uma consciência eclesial prévia a qualquer institucionalização. A primeira Igreja de Jerusalém, figuradora da Igreja Universal e projetora da Jerusalém celeste está definida nos Actos dos Apóstolos como «comunidade do múltiplo» (plethos), sem mais nenhuma referência estruturante além da lei da maioria.

 

   Foram as assembleias das Igrejas o berço das Escrituras. Os relatos de batismos e de refeições circulavam, como demonstra Paulo quanto à «refeição do Senhor», em texto bem anterior aos evangelhos. [Cf. Coríntios I, 11, 23-25: Pois eu recebi do Senhor o que também vos ofereci: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou pão e, tendo dado graças partiu-o e disse : «Isto é o meu corpo que é para vós; isto fazei para a minha memória.» Do mesmo modo, também o cálice tomou depois da ceia, dizendo: «Este cálice é a nova aliança no meu sangue; isto fazei - quantas vezes o beberdes - para a minha memória.» Pois quantas vezes comerdes este pão e beberdes este cálice, a morte do Senhor anunciais, até que ele venha. Tradução do trecho paulino por Frederico Lourenço.]

 

   Naquele tempo, era comum, na diáspora judaica, as comunidades ou sinagogas reunirem-se, para a celebração de festas ou em dias de preceito, numa casa escolhida para o efeito, e juntarem aos ritos religiosos a participação dos fiéis num repasto comum. Tal prática, aliás, também se realizava entre outras assembleias, designadamente nas cristãs, onde a ação de graças, ou eucaristia, se fazia como memória da Ceia do Senhor, atualização sacramental da Nova Aliança, isto é, da reconciliação de Deus com a humanidade inteira, com Cristo, por Cristo, em Cristo. A partilha do pão e do vinho entre todos e por todos significava assim substancialmente o sacrifício redentor de Jesus e a presença contínua do Senhor Ressuscitado entre nós: "Sempre que estiverdes reunidos em meu nome, eu estarei no meio de vós". A comunhão eucarística surge assim como união dos batizados no Corpo de Cristo, em ação de graças e como resposta efetiva à vocação da humanidade para a construção da nova terra e dos novos céus.

 

   Pela propensão obsessiva a defender o "Santíssimo Sacramento" como presença real do Corpo de Jesus, no sentido de um gesto de magia sagrada ter fisicamente transformado pão e vinho em carne e sangue, muita pregação eclesial e devota também vai encobrindo a realidade mística - realidade, sim, em sentido pleno - do Corpo de Deus como sacramento do sublime sacrifício de Cristo, pelo qual toda a humanidade se encontra reconciliada em Deus e com Deus. Os primeiros cristãos, aqueles que testemunhavam a Palavra e reproduziam os gestos do Senhor, celebravam a eucaristia como momento comunitário, não dispunham de sacerdote algum para consagrar o pão e o vinho, essa consagração fazia-se pela união dos batizados em torno da memória de Jesus Cristo. Aliás, por alguma razão, nos escritos neotestamentários, "sacerdote" é termo exclusivamente referido apenas ao Povo de Deus, jamais a alguém em particular. O conceito atualmente corrente de "sacerdote" data apenas do 2º milénio do cristianismo, surge na Idade Média e fixa-se, com o direito canónico, no século XII, quando se regulamenta que sacerdote é quem recebeu o sacramento da ordem e, por este, o poder divino, transmitido pela Igreja hierárquica, de batizar, abençoar, celebrar a eucaristia e perdoar os pecados. Tal estatuto foi gerando muitos e vários privilégios, desde as imunidades do foro eclesiástico à atribuição de funções e competências para as quais nem todo clero estava evidentemente preparado. Está aí a raiz histórica do clericalismo - mal ainda hoje viral na Igreja - que, todavia, não tem qualquer fundamentação teológica aceitável mas, muito pelo contrário, encontra nos próprios textos evangélicos palavras de repúdio e condenação por parte de Jesus.

 

    Não sei se estamos hoje no limiar de um novo período de avanço das comunidades cristãs para a catolicidade, mas o dinamismo atual dos movimentos ecuménicos, bem como sinais de abertura e progresso por parte de vários sectores da hierarquia eclesial, deixam-me esperar que sim. Vejamos a notícia da eleição do novo superior provincial dos frades capuchinhos de Mid America (EUA), um irmão leigo (isto é, sem ordens sacras, mas professo, ou seja, tendo já pronunciado os votos de obediência, pobreza e castidade exigidos pelo regulamento da Ordem dos Frades Menores). Eleito pela maioria absoluta dos seus irmãos em São Francisco de Assis (que tampouco era "sacerdote") viu a validação desse ato rejeitada pela Congregação da Santa Sé para os Religiosos, no Vaticano, com o fundamento de não ser ordenado, conforme exigido pelo artº 129-1 do Código de Direito Canónico: "Quem recebeu a ordem sagrada é capaz, segundo as normas do direito, do poder de governo que, por instituição divina, existe na Igreja, e que também é chamado poder de jurisdição". Mesmo que o pretensiosismo soez e desajeitado deste preceito canónico, nos faça sorrir, não deixa o mesmo de ser revelador da pobreza intelectual do clericalismo e seus defensores, com alguma confusão entre disposições canónicas e instituições divinas... Mas os capuchinhos americanos recorreram para o Papa, que anulou o veto e promulgou a eleição. É bom que se vá lembrando à Igreja como todos somos filhos de Deus através da fé em Jesus Cristo. Todos os que fomos batizados para Cristo estamos vestidos de Cristo. Não há judeu nem grego, não há escravo nem pessoa livre, não há macho e fêmea: todos nós somos um em Cristo Jesus. Se nós somos de Cristo, então somos semente de Abraão e herdeiros segundo uma promessa (S. Paulo aos Gálatas, 3, 26-29). Assim, já não somos estrangeiros nem estranhos, mas concidadãos dos santos e pessoas da casa de Deus, edificados sobre a fundação dos apóstolos e profetas, sendo o próprio Jesus Cristo a pedra angular, na qual todo o edifício, bem ajustado, aumenta de modo a tornar-se templo sagrado no Senhor, no qual também nós somos edificados para habitação de Deus em espírito (aos Efésios, 2, 19-22). A instituição eclesial é a comunhão de todos em Cristo, os ministérios eclesiais são desempenhos de serviços dessa comunhão e não conferem a quem os exerce qualquer estatuto distinto ou acima dos outros comungantes. E porque Cristo é tudo em todos, chamamos católica à sua Igreja.

 

Camilo Martins de Oliveira

CONFISSÕES DO PAPA FRANCISCO. 1

 

1. “O que está em crise são estruturas que formam a Igreja, que têm de cair. Sejamos conscientes. O Estado da Cidade do Vaticano como forma de governo, a Cúria, seja o que for, é a última corte europeia de uma monarquia absoluta. A última. As outras já são monarquias constitucionais, a corte dilui-se, mas aqui há estruturas de corte que são o que tem de cair.” “A reforma não é minha. Foram os cardeais que a pediram”, quando se debatia a sucessão de Bento XVI.

 

Quem disse isto foi o Papa Francisco numa extensa entrevista à jornalista Valentina Alazraki, de Noticieros Televisa, México. Os temas debatidos, num imenso à-vontade, mesmo quando difíceis e até escaldantes, foram muitos.

 

2. O que aí fica quer ser um brevíssimo resumo desse longo diálogo leal, onde não faltou o bom humor.

 

2.1. Um tema constante nas preocupações de Francisco: os migrantes e refugiados. Não se pode pretender resolver os problemas erguendo muros, como se “essa fosse a defesa. A defesa é o diálogo, o crescimento, o acolhimento e a educação, a integração ou o limite saudável do ‘não é possível acolher mais’, saudável e humano.” Referindo-se a Trump, disse: “Pode-se defender o território com uma ponte, não com um muro.”

 

2.2. Algo não funciona em relação à economia, que se tornou sobretudo economia da especulação financeira: “Já saímos do mundo da economia, estamos no mundo das finanças. Onde as finanças são gasosas. O concreto da riqueza num mundo de finanças é mínimo.” Então, o mal-estar provém desta constatação: “Cada vez há menos ricos, menos ricos com a maior parte da riqueza do mundo. E cada vez há mais pobres com menos do mínimo para viver.”

 

Francisco pronuncia-se contra uma economia neoliberal de mercado. É favorável a “uma economia social de mercado”.

 

Aqui, eu acrescentaria: economia social e ecológica de mercado e chamaria a atenção para as tremendas, se não insuperáveis, dificuldades para impô-la, apesar da sua urgência em ordem à sobrevivência. Porquê? Num mundo globalizado, os mercados são globais, mas a política é nacional ou regional. Nesta situação, onde estão as instâncias de regulação dos mercados? Francisco sabe disso e, por isso, acrescenta que é necessário “procurar saídas políticas, eu não as sei dizer, porque não sou político. Não tenho esse ofício. Mas a política é criativa. Não nos esqueçamos que é uma das formas mais altas da caridade, do amor, do amor social.”

 

Em conexão e interdependência com este mal-estar global da economia está “o maltrato do ambiente”. Francisco tem sido incansável no apelo a uma nova política para a salvaguarda do ambiente, se quisermos ter futuro. E até pergunta: será que ainda vamos a tempo de salvar “a nossa casa comum”? Sobre a ameaça do colapso ecológico, escreveu uma encíclica, Laudato Sí,  que fica para a História como decisiva, propugnando o que chamou justamente “uma ecologia integral”. Neste sentido, o Vaticano acaba de avançar com uma iniciativa ecuménica global de oração e de acção precisamente em ordem à protecção desta nossa casa comum: durante um mês, de 1 de Setembro a 4 de Outubro, chamado o mês do “Tempo da Criação”, os cristãos de todo o mundo são convocados para pôr em prática a Laudato Sí.

 

2.3. Sobre o narcotráfico: “É como se eu, para ajudar a evangelização de um país, fizesse um pacto com o diabo..., ou seja, há pactos que não se podem fazer.”

 

2.4. Os jovens? “Os jovens não estão corrompidos. Estão debilitados.” “A juventude corre o risco de, se é que o não fez já, perder as raízes.” E cita Zygmund Bauman, num livro escrito em italiano com um seu assistente italiano, com o título: Nati liquidi, nascidos líquidos, isto é, sem consistência. No alemão apareceu com o título: Die Entwurzelten, os desenraizados, os sem raízes. “Os alemães perceberam a mensagem do livro. Isso é muito importante hoje: ir às raízes”, o que nada tem a ver com “ideologia conservadora.” “Assumir as raízes normais, as raízes da tua casa, as raízes da tua pátria, da tua cidade, da tua história, do teu povo..., de ... mil coisas.” Por isso, acrescenta: “Eu aconselho sempre os jovens a falar com os velhos e os velhos a falar com os jovens, porque... uma árvore não pode crescer, se lhe cortarmos as raízes, como também não cresce, se ficarem só as raízes.”

 

2.5. As mulheres? Reconhece que a mulher “está ainda em segundo lugar... em segundo lugar.” Mas “sem a mulher, o mundo não funciona. Não por ser ela que gera os filhos, deixemos a procriação de lado... Uma casa sem a mulher não funciona.” Há uma palavra que está a desaparecer dos dicionários, porque “todos têm medo dela: ternura. É património da mulher. Daí ao feminicídio, à escravidão, vai um passo, não? Qual é o ódio, eu não saberia explicar. Talvez algum antropólogo o possa fazer.”

 

Aqui, o Papa Francisco que me desculpe, mas vou fazer um reparo. E na Igreja? Ele vai repetindo que “a Igreja é feminina” e já na viagem ao Brasil avisou: “Se a Igreja perde as mulheres, na sua dimensão total e real, corre o risco de se tornar estéril.” Então, porquê tanta hesitação em ordenar as mulheres como diáconos? Esse seria um primeiro passo da abertura que se impõe.

 

Francisco insiste na Igreja sinodal e essa ordenação deverá, tudo indica, acontecer já na sequência do próximo Sínodo para a Amazónia, em Outubro.

 

2.6. Sobre os escândalos da pedofilia na Igreja. Aqui, Francisco reconhece que também se equivoca. Equivocou-se nomeadamente no que à questão da pedofilia no Chile se refere. E foram concretamente perguntas dos jornalistas, “feitas com muita educação” no regresso da viagem ao Chile, que o fizeram perceber que a informação que tinha não era verdadeira. Estava mal informado. E não exclui que tenha havido corrupção na informação prestada: “Nem sempre é corrupção assim... por vezes é estilo da Cúria — sim, no fundo há uma lei de corrupção —, mas é um estilo que é preciso ajudar a corrigir.”

 

Concretamente quanto ao cardeal McCarrick, a quem acabou por retirar o cardinalato e reduzir ao estado laical, confessa: “De Mc Carrick eu não sabia nada, obviamente, nada, nada.” “O cardeal Pell obviamente que está preso e está condenado, apelou, mas está condenado. O cardeal Errázuriz já não podia continuar, era óbvio”. Conclusão: o grupo de cardeais consultores começou por ser constituído por nove e agora são seis. Quanto às acusações que o ex-Núncio Viganò lhe fez, respondeu, explicando o seu silêncio na altura: “Eu confio na honestidade dos jornalistas e disse-vos: ‘Estudai vós a questão e tirai as conclusões.’ E o trabalho que fizestes foi genial, e três ou quatro meses depois um juiz de Milão condenou-o.”

 

Mas, indo ao cerne dessa chaga que é a pedofilia na Igreja, concluiu que, com as medidas concretas que estão a ser tomadas, a “tolerância zero” é mesmo para implementar, salvaguardando também o princípio da presunção de inocência: “A tarefa do padre é levar o jovem a Jesus. Com os abusos, sepulta-o. Essa é a grande monstruosidade. Que é mais grave que tudo o resto.” Mas não se pode ignorar os números aterradores de casos de pedofilia no mundo, a maior parte na família, também entre educadores, no desporto, etc., que apresentou no discurso final da Cimeira no Vaticano contra os abusos na Igreja, em Fevereiro passado. “Evidentemente, a percentagem de sacerdotes que caíram nisto faz parte do todo, uma corrupção mundial na pedofilia, é de terror... E por isso quis que todos tivessem as estatísticas da Unicef, das Nações Unidas, as mais sérias, as estatísticas sérias.” “Seria importante aqui referir os dados gerais — na minha opinião, sempre parciais — a nível global e a seguir a nível da Europa, da Ásia, das Américas, da África e da Oceânia, para dar um quadro da gravidade e profundidade deste flagelo nas nossas sociedades. A primeira verdade que resulta dos dados disponíveis é esta: quem comete os abusos, ou seja, as violências (físicas, sexuais ou emocionais) são sobretudo os pais, os parentes, os maridos de esposas-meninas, os treinadores e os educadores. Além disso, segundo os dados Unicef de 2017, relativos a 28 países no mundo, em cada 10 meninas-adolescentes que tiveram relações sexuais forçadas, 9 revelam que foram vítimas de uma pessoa conhecida ou próxima da família.” Um número aterrador, a título de exemplo, no nível global: “Em 2017, a OMS estimou em mil milhões os menores com idade entre os 2 e os 17 anos que sofreram violências ou negligências físicas, emocionais ou sexuais.” (Continua)

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 30 JUN 2019