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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    S. Francisco de Assis


Na continuação do Papa Francisco     


O Papa Leão XIV já declarou várias vezes que quer seguir a herança do Papa Francisco e, por isso, quer continuar a sinodalidade, que, como diz até o étimo, quer dizer caminhar juntos.

Sim, pensando de modo consequente, verdadeiramente o caminho só pode ser esse, o sinodal. Evidentemente, quando se pensa na Igreja cristã, a mensagem é que tem de ser o núcleo, e a mensagem é: a fé em Jesus e no seu Evangelho, o Deus-Amor, Pai-Mãe, com todas as consequências: agir com a dignidade de filhos e filhas e amarmo-nos todos como irmãos e irmãs... E o caminho é juntos.

Evidentemente, é de igual modo claro que, onde há muita gente, muitos e muitas, e espalhados por toda a  Terra, se impõe um mínimo de organização, que  tem de ser meio e não fim, pois tem de estar ao serviço da mensagem. Não foi o que, como se lê no Evangelho segundo São Mateus, Jesus quis dizer a Pedro, louvando-o porque proclamou que ele é o Messias, mas chamando-o Satanás, porque pensou que a salvação vinha mediante o poder? Que diria Jesus hoje das Paróquias, das Dioceses e sobretudo  do Vaticano, da sua pompa, das suas vestes, das suas mitras, das suas intrigas, escândalos, privilégios...? E não era sobretudo da Cúria que se queixava Francisco? Dizia acidamente: “É mais difícil reformar a Cúria do que limpar a esfinge do Egipto com uma escova de dentes”.

Afinal, quem decide na Igreja? Poucos, muito poucos, homens celibatários e de idade avançada, numa Igreja hierárquica, vertical, clerical, misógina, sem divisão de poderes... Francisco queria uma Igreja sinodal, com a participação de todos. Um parêntesis: já se reparou no que se passa na Igreja, quando se pensa, por exemplo, num Consistório de cardeais, mesmo que mundial? Afinal, o Papa reúne-se com aqueles que o elegeram a ele, tendo eles próprios sido escolhidos por ele ou outro Papa... Não estamos — perdoe-se a expressão — perante um círculo “incestuoso”?

Numa obra importante, “Quem manda na Igreja? (Quién manda en la Iglesia? Notas para una sociología del poder en la Iglesia Católica del siglo XXI), o sociólogo católico Javier Elzo apresenta outro modelo para a Igreja do século XXI: “Uma Igreja em rede, à maneira de um gigantesco arquipélago que cubra a face da Terra, com diferentes nós em diferentes partes do mundo, inter-relacionados e todos religados a um nó central, que não centralizador, que, na actualidade, está no Vaticano. Aí ou noutras parte do planeta, todos os anos se reuniria uma representação universal de bispos, padres, religiosas e religiosos, leigos (homens e mulheres), todos sob a presidência do Papa, para debater a situação da Igreja no mundo e adoptar as decisões pertinentes” e iluminar os grandes problemas da Humanidade. Portanto, um Sínodo verdadeiramente universal, no qual o Papa continua a ter uma palavra decisiva, mas onde todos têm direito a voto e tomando decisões com uma maioria clara (dois terços?)...

Continuaremos. Mas, para já, ficam estas duas perguntas, inevitáveis: Continuará a lei do celibato obrigatório para os padres? Continuará a intolerável discriminação da mulher na Igreja, que a impede de presidir à celebração da Eucaristia?


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia 

Sábado, 31 de Janeiro de 2026

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Andrés Torres Queiruga, fotografado por Sandra Alonso


A fé convive com a dúvida


Insisto constantemente em que no Novo Testamento há duas “definições” de Deus — evidentemente, Deus não é definível, mas são tentativas de dizer algo sobre o seu mistério. Na Primeira Carta de São João, está escrito que Deus é Agapê, Amor incondicional. O Evangelho segundo São João começa com estas palavras: “No princípio era o Logos, o Logos estava Deus e o Logos era Deus. Por Ele é que tudo começou a existir.” Logos significa palavra, razão, inteligência.  Deus é, portanto, Amor e Razão e, assim, a existência humana e cristã autêntica resultará da convergência e interpenetração da bondade e da razão, da inteligência e do amor. Portanto, a fé não só não pode contradizer a razão como deve ser razoável e, como diz a Primeira Carta de São Pedro, é preciso “dar razões da esperança”. E, como tentei explicar na crónica da semana passada, não há resposta definitiva constringente para o que é a realidade na sua ultimidade. É no próprio acto de fé que o crente experiencia o carácter razoável da sua adesão confiante livre.

Assim, tanto o crente como o ateu, a partir do mundo comum, que é ambíguo, arrancam de perguntas humanas radicais — qual é o Fundamento e o Sentido último? —, e as suas respectivas respostas de fé ou descrença representam interpretações da realidade, mas nestes precisos termos, como escreveu o filósofo da religião Andrés Torres Queiruga: "não se interpreta o mundo de uma determinada maneira porque se é crente ou ateu, mas é-se crente ou ateu porque a fé ou a descrença aparecem aos respectivos sujeitos como o modo melhor de interpretar o mundo comum". Deste modo, também no domínio da fé há uma "verificação": se o crente dá a sua adesão à fé é porque comprova que a "hipótese religiosa" é a que melhor ilumina as questões últimas da vida e da morte, a realidade do mundo e da história; o agnóstico confessará que não acha razões suficientes para decidir-se; o ateu apoia-se na convicção de que têm mais peso as razões contra a existência de Deus. Como se não cansava de repetir Pedro Laín Entralgo, só o penúltimo é certo, o último é e não pode não ser incerto.

Deste modo, torna-se claro que a fé convive com a dúvida, como já observou Santo Tomás de Aquino e, para dar exemplos, já aqui citei algumas vezes a situação angustiante de Santa Teresinha do Menino Jesus quando as dúvidas da fé a assaltavam. De qualquer modo, erguer-se-á sempre aquela terrível pergunta: Como é que Deus é compatível com tanto mal, tantos horrores no mundo?

Hoje quero chamar a atenção para o querido Papa Francisco, tão sensível também ele ao problema do mal, na sua autobiografia, que foi e é um best-seller, com o título ESPERANÇA. Termina assim: “Uma vez, um jovem universitário perguntou-me: na universidade tenho muitos amigos que são agnósticos ou ateus, o que devo dizer para que se tornem cristãos? Nada, disse eu. A última coisa que deves fazer é falar. Primeiro, deves fazer, e então será quem vê como vives, como geres a tua vida, que irá perguntar: por que razão o fazes? Então, poderás falar. No testemunho de uma vida, a palavra vem depois, é consequência. Deixar também um espaço para a dúvida, também esta é uma chave importante”. E acrescenta: “Se uma pessoa diz que encontrou Deus com certeza total, então não está bem. Se alguém tem respostas para todas as perguntas, esta é a prova de que Deus não está com ele. Quer dizer que é um falso profeta, que instrumentaliza a religião, que a usa para si mesmo. Os grandes guias do povo de Deus, como Moisés, sempre deixaram espaço para a dúvida. É necessário sermos humildes, deixar espaço ao Senhor, não às nossas fingidas seguranças. A ternura não é fraqueza: é a verdadeira força. É a estrada que os homens e as mulheres mais fortes e corajosos percorreram. Percorramo-la, lutemos com ternura e com coragem. Percorrei-a, lutai com ternura e com coragem... Eu sou apenas um passo.”

Quereria fechar esta crónica talvez pouco sistematizada, observando que é essencial pensar que, lá no mais fundo, quando a pergunta é a pergunta pelo Sentido último, se está confrontado com a questão decisiva: a Vida plena, eterna, em Deus, ou o nada.


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado 15 de Novembro 2025

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    E. Ciorán


Sem Deus, que sentido?


O que é a religião? O que deve entender-se por pessoa religiosa? Onde se fundamenta a religião? Qual é o dinamismo que está na base das religiões? Porque há religião/religiões?

Toda a religião tem a ver com a ética e também com a estética. Hegel viu bem, quando afirmou que a arte, a religião e a filosofia estão referidas ao Absoluto. A pergunta é, como escreveu o filósofo J. Gómez Caffarena, se a ética, a estética e a filosofia acabarão por absorver a religião, como já insinuava Goethe: “quem tem arte (e moral e filosofia) tem religião; quem a não tem que tenha religião”.

Segundo Lucrécio, “o medo criou os deuses”. Desde então, isso tem sido repetido, acrescentando a ignorância e a impotência, de tal modo que, com o avanço da ciência e da técnica, a religião acabaria por ser superada e desaparecer. Será, porém, verdade que na génese da religião estão o medo, a ignorância e a impotência? Ninguém poderá negá-lo. A questão é saber se esses são os únicos e decisivos factores e de que modo actuam. De facto, não é a limitação enquanto tal que está na base da religião, mas a consciência da limitação. Na consciência da finitude, que tem a sua máxima expressão na consciência da mortalidade, o Homem transcende o limite e articula um mundo simbólico de esperança de sentido último e salvação. Como disse Hegel, a verdade do finito encontra-se no Infinito, e Kant viu bem, ao referir a religião à esperança de um sentido final. Segundo ele, o interesse da filosofia pode reduzir-se às seguintes perguntas: “O que posso saber? O que devo fazer? O que me é permitido esperar? O que é o Homem? À primeira pergunta responde a metafísica, à segunda a moral, à terceira a religião e à quarta a antropologia”. Assim, é possível que a ciência e a técnica obscureçam a força do apelo religioso. Mas, permanecendo a finitude e a sua consciência, há-de erguer-se sempre a pergunta pelo Fundamento e Sentido últimos.

Como disse E. Ciorán, “tudo se pode sufocar no Homem, salvo a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos e mesmo ao desaparecimento da religião”. Na mesma linha, afirmou L. Rougier: “A Igreja pode declinar. O sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam Transcendência, subsistirá.” O que, do ponto de vista biológico, une a Humanidade é a interfecundidade. Do ponto de vista espiritual, o que a une é a pergunta radical pela totalidade e o seu sentido, o Sentido último.

O Homem é o animal que pergunta pelo seu ser e pelo ser. A razão humana não cria a partir do nada. Na base do ser humano, há uma “passividade originária”, como repetia o meu saudoso mestre e amigo Miguel Baptista Pereira: quando damos por nós, já lá estamos, ninguém foi consultado nem decidiu vir a este mundo e ser quem é; depois, um dia, a morte chega e leva-nos. A razão humana constrói, portanto, a partir do dado e, feito todo o seu percurso, sabe que acende a sua luz na noite do Mistério. Se pergunta, é porque ela própria é perguntada pela realidade, que é ambígua. Precisamente na sua ambiguidade, provocando, por isso, espanto positivo e negativo, a realidade e a existência convocam para a pergunta radical: o que é o Ser?, o que é o Homem? Quando, no processo evolutivo, se deu a passagem do animal ao homem, apareceu no mundo uma forma de vida inquieta que leva consigo constitutivamente a pergunta pelo Sentido de todos os sentidos, portanto, a pergunta pelo Sentido último. A dinâmica religiosa deriva da experiência de contingência radical e da esperança num sentido final. A mesma experiência tem um duplo pólo: a radical problematicidade do mundo e da existência e a referência em esperança a uma resposta de Sentido último, plenitude, felicidade, orientação, identidade, salvação. Este domínio da busca de sentido aparece de modo tão central na vida humana que a História da Humanidade não se compreende sem a história da consciência religiosa, não sendo de esperar o fim da religião e das religiões. Neste contexto, não é ousado afirmar que todo o ser humano é religioso, na medida em que é confrontado com a pergunta pela Ultimidade. Só poderíamos falar de irreligiosidade, no caso de alguém se contentar com a imediatidade empírica, recusando todo e qualquer movimento de transcendimento, o que não é possível, pois isso é contraditório.

É inevitável a pergunta: Sem Deus, que sentido teria a vida?


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 25 de Outubro de 2025

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
    Johann Paul Friedrich Richter


“Deus morreu”. O que se segue


Penso que é mesmo urgente parar para pensar. Concretamente neste nosso tempo de ameaça de apocalipse niilista, quando Deus morreu e a questão de Deus é ignorada mesmo enquanto questão constitutiva do ser ser humano enquanto tal. O que se segue à morte Deus e quando a própria pergunta por Ele está morta?

1. Volto muitas vezes a esse sublime e abissal texto, pavoroso, um dos grandes da grande literatura alemã, escrito por Jean Paul, pseudónimo de Johann Paul Friedrich Richter, em 1796: Rede des toten Christus vom Weltgebäude herab, dass kein Gott sei (Discurso do Cristo morto, a partir do cume do mundo, sobre a não existência de Deus).   

Nele, o célebre escritor descreve um sonho. Pela meia-noite e em pleno cemitério, numa visão apavorante, o olhar estende-se até aos confins da noite cósmica esvaziada, os túmulos estão abertos, e, num universo que se abala, as sombras voláteis dos mortos estremecem, aguardando, aparentemente, a ressurreição.

É então que, a partir do alto, surge Cristo, uma figura eminentemente nobre e arrasada por uma dor sem nome. E, com um terrível pressentimento, "os mortos todos gritam-lhe: “Cristo, não há Deus?” Ele respondeu: "Não, não há Deus."

Então, a sombra de cada morto estremeceu, e umas a seguir às outras desconjuntaram-se. E Cristo continuou, anunciando o que aconteceu no instante da sua própria morte: "Atravessei os mundos, subi até aos sóis, voei com as galáxias através dos desertos do céu; e não há Deus. Desci até onde o ser estende as suas sombras, e olhei para o abismo, gritando: "Pai, onde estás?" Mas apenas ouvi a tormenta eterna, que ninguém governa." Quando, no espaço incomensurável, procurou o olhar divino, não o encontrou; apenas o cosmos infindo o fixou petrificado com uma órbita ocular vazia e sem fundo, "e a eternidade jazia sobre o caos e roía-o e ruminava-se".

O coração rebentou de dor, quando as crianças sepultadas no cemitério se lançaram para Cristo, perguntando: "Jesus, não temos Pai?" E ele, debulhado em lágrimas, respondeu: "Somos todos órfãos, eu e vós, não temos Pai." "Nada imóvel, petrificado e mudo! Necessidade fria e eterna! Acaso louco e absurdo! Como estamos todos tão sós na tumba ilimitada do universo! Eu estou apenas junto de mim. Ó Pai, ó Pai! Onde está o teu peito infinito, para descansar nele? Ah! Se cada eu é o seu próprio criador e pai, porque é que não há-de poder ser também o seu próprio exterminador?"

Para Jean Paul, a morte de Deus não era ainda um destino espiritual inevitável. Apenas a tentação de uma possibilidade ameaçadora. E ele queria estar prevenido: que, quando a tentação o visitasse, soubesse de antemão o abismo sem fim, pavoroso, a que a morte de Deus conduz. Quando acordou do pesadelo ateu, a sua alma "chorava de alegria, por poder de novo adorar a Deus — e a alegria e o choro e a fé nele era a oração".

2. Um século depois (1882), o louco de Friedrich Nietzsche proclamou, em A Gaia Ciência, a morte de Deus: "Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu! Os seus algozes somos nós todos! E como o fizemos? Como conseguimos engolir todo o mar? Quem nos deu a esponja para apagar todo o horizonte? Que fizemos nós, quando soltámos a corrente que ligava esta terra ao seu sol? Para onde se dirige ela agora? Para onde vamos nós? Para longe de todos os sóis? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para os lados, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não andaremos errantes através de um nada infinito? Não  estaremos a sentir o sopro do espaço vazio? Não estará agora a fazer mais frio?  Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

Ao contrário do que habitualmente se afirma, não penso que Nietzsche — morreu há precisamente 125 anos: 25 de Agosto de 1900 — seja ateu. Ele constata o que se segue à morte de Deus. E quer que se pense...   


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 11 de Outubro de 2025

SOB A INVOCAÇÃO DA ESPERANÇA

  
  Cardeal Pietro Parolin © Agência ECCLESIA/HM


A presença em Portugal do Cardeal Pietro Parolin constituiu um acontecimento que merece destaque, uma vez que teve lugar no âmbito do Ano Jubilar de 2025, que vivemos sob a invocação da Esperança. As palavras que o Secretário de Estado da Santa Sé proferiu na Fundação Calouste Gulbenkian constituem afirmações de especial importância, considerando o momento que hoje se vive de incerteza, de guerra em fragmentos e de ausência de regulação no sentido da paz. O Compromisso com a Cidade constitui uma exigência destes tempos de instabilidade, pelo que a proposta de sermos Peregrinos da Esperança revela uma especial responsabilidade para todos. Neste Jubileu das Autoridades houve, assim, um apelo muito forte no sentido de haver um empenhamento para que compreendamos os sinais dos tempos, de modo a criar condições para uma cultura de paz e de justiça, onde todos caibam, como foi muito claramente proclamado pelo Papa Francisco e hoje continua a ser proposto por Sua Santidade o Papa Leão XIV. Nesta ocasião a palavra Autoridades liga-se à capacidade de assumir o serviço público com todas as suas consequências, ligando-se a uma etimologia que enaltece a qualidade criadora como fator de partilha e de salvaguarda do cuidado, da atenção aos outros e do bem comum. Apesar de continuarmos a ser vozes que clamam no deserto, importa não desistirmos, persistindo na mobilização de vontades em prol da Justiça. Não esquecemos o exemplo de S. Tomás Morus, patrono da vida política, ele mesmo símbolo de sacrifício máximo perante a razão de Estado, mas lembramos outros casos contemporâneos de cidadãos exemplares como Robert Schuman um dos pais fundadores da União Europeia ou Giorgio La Pira, síndaco de Florença, cujo exemplo de cristão defensor da democracia, dos direitos fundamentais e do respeito mútuo está bem presente em todos nós.

Como afirmou o Cardeal Parolin: “Neste tempo complexo e marcado por profundas fraturas, sentimos uma necessidade que precede até o dever: a de voltar a falar, com coragem e verdade, da dignidade humana. Uma dignidade que não é concedida, mas reconhecida; que é infinita e inalienável, própria de cada homem e cada mulher, sem qualquer exclusão”. E é esta dimensão universal da dignidade da pessoa humana que tem de se assumir como prioridade absoluta, quando na cena internacional assistimos a uma onda de horrores com muitas vítimas inocentes da cegueira humana e da recusa do primado do direito e da justiça. Deste modo,  “num mundo que tantas vezes parece perder a direção, é importante recordar que a esperança não é apenas um conceito abstrato, mas uma promessa concreta; neste tempo de crescente complexidade global, somos todos chamados – como cidadãos responsáveis e profissionais do compromisso público – a promover o humano e a sua dignidade com um olhar amplo, integral e profundo.”

Perante os apelos pungentes de tantos inocentes, civis, mulheres e crianças, devemos recordar especialmente as recentes palavras do Papa Leão XIV: «Farei todos os esforços para que a paz se propague. A Santa Sé está disponível para que os inimigos se encontrem e se fitem nos olhos, para que aos povos se devolvam a esperança e a dignidade que merecem, a dignidade da paz. Os povos querem a paz e eu, com o coração nas mãos, digo aos responsáveis dos povos: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos! A guerra nunca é inevitável, as armas podem e devem ser silenciadas, pois não resolvem os problemas mas só os aumentam; pois ficará na história quem semeia a paz, não quem ceifa vítimas; pois os outros não são sobretudo inimigos, mas seres humanos: não vilões a odiar, mas pessoas com quem falar”. Deste modo, o Papa é muito claro: “Rejeitemos as visões maniqueístas típicas das narrações violentas, que dividem o mundo entre bons e maus. A Igreja não se cansará de repetir: silenciem as armas!”

O que estamos a assistir hoje obriga-nos a refletir. Os sinais dos tempos trazem palavras de violência e os seus ecos. As instituições têm dificuldade em funcionar normalmente. A sociedade civil tarda em fazer-se ouvir. Faltam instrumentos de mediação que facilitem a representação e a participação dos cidadãos. Nestas condições, emerge a tentação do apelo às intervenções de um falso messianismo, do mesmo modo que prevalecem as lógicas mercantis, como se tudo fosse transacionável. Deve recordar-se a atualidade da Constituição Pastoral “Gaudium et Spes”, capaz de abranger todos os homens e mulheres de boa vontade. A palavra todos tem, assim, um significado amplo, unificador e diferenciador. Para tanto, a justiça e a paz constituem desígnios que obrigam a uma grande determinação, capaz de superar as resistências, os equívocos e as ilusões. A verdade e a vida tornam-se assim sinais de sinceridade. Há pontes que têm de se estabelecer, diálogos a aprofundar, esperanças a cultivar.

As palavras do Cardeal Secretário de Estado e o apelo do Papa ecoaram numa casa de cultura como é a Fundação Calouste Gulbenkian, sob a inspiração do seu fundador, defensor das Artes e do diálogo entre Ocidente e Oriente. Foi bom ouvir as palavras que recordamos com especial ênfase. Que a Justiça e a Paz se tornem deveres da Humanidade toda.


GOM

A FESTA DO BANQUETE

Em merecido descanso, reproduzimos uma crónica anterior do Padre Anselmo Borges.

  


É surpreendente que o austero Immanuel Kant, um dos pensadores maiores de todos os tempos, autor da moral do imperativo categórico, tenha deixado na sua Antropologia um belo texto sobre as regras de uma refeição agradável em boa companhia. Não é saudável, mesmo para o filósofo e sobretudo para o filósofo, escreve ele, comer sozinho. É que o objectivo da celebração de uma refeição não deve ser tanto a satisfação corporal (portanto, comer em ordem à sobrevivência física) - isso podia fazê-lo cada um por si mesmo - quanto o prazer de estar juntos. Daí que sublinhe permanentemente o imperativo do respeito mútuo. "De facto, escreve, mesmo sem prévio pacto expresso, todo o banquete tem uma certa sacralidade". A conversa deve ser mantida em bom ritmo, de tal modo que a refeição termine, "como num concerto, no meio da alegria geral e assim seja tanto mais salutar; como naquele banquete de Platão, do qual o convidado dizia: ‘As tuas refeições não agradam só enquanto se saboreiam, mas também sempre que se pensa nelas'". E os amigos, sempre que se reencontram, avisam: “havemos de repetir”.

Não é verdade que uma das alegrias grandes que podemos conceder-nos é oferecer um almoço ou um jantar, pelo simples prazer de estarmos juntos? Será possível imaginar uma festa - um casamento, um aniversário, um reencontro - sem um banquete, por mais simples que seja?

Por surpreendente que pareça, há um feriado nacional em Portugal que tem a ver com um banquete, a Última Ceia de Jesus Cristo. Jesus, que escandalizou os contemporâneos, pois comia com mulheres consideradas pouco recomendáveis e os pecadores públicos, antes de ser condenado à morte, ofereceu uma refeição de despedida. E os cristãos, ao longo dos tempos, deviam reunir-se, lembrando-se dele e da sua causa, que é a causa dos seres humanos, isto é, a liberdade, a dignidade, a igualdade, a felicidade, a alegria, a fraternidade entre todos os homens e mulheres.

Quando os cristãos se reúnem para a celebração da Missa ou da Ceia do Senhor, partilham o pão e o vinho. Na nossa cultura mediterrânica, o pão e o vinho são dois símbolos fundamentais. O pão quer dizer força, vida, o vinho simboliza festa e alegria. Quem convida para essa festa é o próprio Jesus Cristo. Ele oferece pão e vinho. E, segundo a mentalidade oriental, quem oferece uma refeição oferece sobretudo a sua presença. Assim, os cristãos, quando se reúnem para lembrar a Última Ceia de Jesus, acreditam que Ele está presente. Mas discutir o modo dessa presença só pode levar a becos sem saída, como é sabido pela História. O decisivo é reunir-se, ouvindo e cumprindo o único mandamento de Cristo: sede bons uns para os outros, amai-vos uns aos outros como eu vos amei. O amor vence a morte.

Lembrar. Se, neste instante, perdesse a memória, não perdia apenas o passado. De facto, uma vez que já não saberia quem sou, ao perder a memória, perdia não só o passado, mas também o presente e o futuro. O animal vive da imediatidade do presente. O ser humano, esse, conjuga os verbos no passado, no presente e no futuro. Pela memória, sabemos que vimos de um passado, pela atenção, damos por nós no presente, pela expectativa, pela esperança, projectamo-nos no futuro. E é integrando o passado, o presente e o futuro, que nos vamos erguendo, na procura de uma identidade sempre a caminho.

Por estranho que pareça, isto tudo vem, mais uma vez, a propósito da festa que a Igreja Católica celebra: a festa do Corpo de Deus, festa que nos remete para a Eucaristia e, em linguagem mais comum, para a Missa. Aos Domingos, muitos cristãos continuam a ir à Missa. O que é que lá se vai fazer? Diria que fundamentalmente lembrar, recordar. Na Última Ceia, Jesus, abençoando o pão e o vinho, que significam a sua entrega por amor a todos, disse: “Fazei isto em memória de mim”. Na Eucaristia, os cristãos recordam-se do que Jesus é e fez. Assim, lembram-se também do que eles próprios são e devem ser e fazer. E anunciam, desde já, o futuro: celebram a esperança do que há-de vir: a vida eterna. Deste modo, não é totalmente destituído de sentido que muitos que nem eram praticantes habituais, quando morrem, queiram uma Missa: porque nela se celebra a memória do futuro..., a esperança da salvação. Um funeral de alguém, no contexto cristão, é a celebração da sua morte e ressurreição.

A festa do Corpo de Deus. É impressionante: festa do Corpo de Deus. Quem imaginaria? A pergunta então é: celebra-se o Corpo de Deus, e depois despreza-se o corpo? A festa do Corpo de Deus tem de ser também a festa do corpo humano, que é corpo vivo, que sente, corpo que deseja, que pensa, que quer, que ama, corpo que diz eu, que é esperante,  até espera para lá da morte...

Na festa do Corpo de Deus, há quem pergunte se os católicos acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia. A resposta é sim. Mas é preciso distinguir entre a presença física e coisista e a presença real pessoal. Por exemplo, um homem e uma mulher, pela relação sexual, estão fisicamente presentes, mas, se não houver amor, estão realmente ausentes enquanto pessoas. Porém, até pode acontecer que, por qualquer motivo, tenham de estar fisicamente ausentes, mas se há amor, continua a presença real entre eles. Os católicos não crêem na presença físico-coisista de Cristo, mas na sua presença espiritual, dando o seu Espírito de Vida, de Amor,  de Paz: “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”. Isso tem de ter consequências na vida.


Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 de junho de 2024

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

Herbert Haag.jpg
  Herbert Haag

 

Acontecimento trágico.
Temas para reflexão

 

Esta é a notícia trágica: nos últimos cinco anos suicidaram-se na Índia pelo menos 13 padres católicos — em média, um a cada seis meses; nos primeiros cinco meses deste ano de 2025, já se suicidaram dois... Evidentemente, a situação é alarmante e obriga a Igreja na Índia, e não só, a uma reflexão profundíssima.

Não vou entrar directamente no tema. Mas, aproveitando este acontecimento trágico e o facto de estarmos ainda no início de um novo pontificado, deixo aí três momentos de reflexão inevitável, que não pode de modo nenhum continuar a ser adiada, tanto mais quanto, mesmo entre nós, o número de padres está em queda vertiginosa, aumentando sem cessar o número de paróquias sem padre.

Em termos simples.

1. A Igreja não pode impor como lei o que Jesus entregou à liberdade. Que é que isto quer dizer? É necessário acabar com a lei do celibato obrigatório para os padres. Aliás, essa lei é relativamente recente e, mesmo hoje, há padres na Igreja católica normalmente com família — é o caso na Igreja oriental ou de convertidos da Igreja anglicana. Concretizando, pergunta-se: porque é que, dentro de determinados critérios, não hão-de voltar ao ministério padres que tiveram de abandonar levados pelo amor e constituindo família?

2. Jesus não discriminou as mulheres. Assim, a Igreja também não pode discriminá-las também no que se refere aos ministérios. Isso é contra a vontade de Jesus e contra os direitos humanos. Herbert Haag, talvez o maior exegeta do século XX, a quem devo o favor de ser um querido amigo, insistiu constantemente — veja-se o seu livro “A Igreja Católica ainda tem futuro?” — que nos primeiros séculos houve mulheres que presidiram à Eucaristia; então, porque é que o que foi possível no princípio não há-de ser possível hoje?

3. Pode escandalizar, mas é um facto: Jesus foi leigo, não pertencia à classe sacerdotal. Aliás, nesta linha, o Novo Testamento evitou a palavra hiereus (sacerdote). Só mais tarde (século III) é que a Eucaristia, que era um banquete festivo dos cristãos no qual se fazia memória da Última Ceia e dos muitos banquetes de e com Jesus, foi interpretada como sacrifício ritual, dando origem, consequentemente, aos sacerdotes, seguindo-se daí que a Igreja ficou dividida em duas classes: o clero (ai o clericalismo!) e os leigos.

4. A Igreja vai continuar a precisar de ministérios para as diversas funções e serviços? É claro que sim.

Neste contexto, quero chamar a atenção para que Bento XVI, quando era apenas professor Joseph Ratzinger, falou em dois tipos de padres: uns que continuariam na sua vida normal, na sua família, nas suas profissões, mas que as comunidades escolheriam, depois de provas dadas, para presidir à comunidade, orientá-la...; outros que, optando livremente pelo celibato, escolheriam dedicar a sua vida integralmente à Igreja, estando entre as suas tarefas a coordenação e formação dos outros padres...

5. Neste contexto de temas e problemas, é inevitável e imprescindível rever toda a questão da formação nos Seminários, com uma vivência que corre o risco de fugir à realidade como ela é, com a ausência do universo feminino e de todas as exigências até económicas da vida actual e formando jovens para uma vida que vai ser tantas vezes de exigência e solidão insuportável numa sociedade que hoje já não é sequer sociologicamente cristã. Os padres devem cuidar; e quem cuida deles?...

 

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Sábado, 16 de Agosto de 2025

 

A VIDA DOS LIVROS

  

De  14 a 20 de julho de 2025


Destacamos hoje a comunicação do novo Papa Leão XIV às Igrejas Orientais, exprimindo um conjunto importante de orientações que merecem leitura atenta num momento de especial incerteza.

 

 

 Leia-se com atenção as palavras dirigidas pelo Papa às Igrejas Orientais por ocasião do respetivo jubileu em 14 de maio de 2025. Simbolicamente e tocando o tema fundamental da unidade e coerência dos cristãos, o Papa Leão XIV afirmou: «A Igreja precisa de vós! Como é grande a contribuição que o Oriente cristão nos pode oferecer hoje! Quanta necessidade temos de recuperar o sentido do mistério, tão vivo nas vossas liturgias, que abrangem a pessoa humana na sua totalidade, cantam a beleza da salvação e suscitam o enlevo pela grandeza divina que abraça a pequenez humana! E como é importante redescobrir, também no Ocidente cristão, o sentido do primado de Deus, o valor da mistagogia, da intercessão incessante, da penitência, do jejum, do pranto pelos pecados, próprios e de toda a humanidade (penthos), tão típicos das espiritualidades orientais! Por isso, é fundamental valorizar as vossas tradições sem as diluir, talvez por praticidade e comodidade, para que não sejam corrompidas por um espírito consumista e utilitarista». Nesta linha de pensamento, o Papa procura ir ao encontro das virtualidades de um verdadeiro diálogo centrado nos valores essenciais: «As vossas espiritualidades, antigas e sempre novas, são medicinais. Nelas, o sentido dramático da miséria humana funde-se com a admiração pela misericórdia divina, de tal modo que as nossas baixezas não provoquem desespero, mas convidem a acolher a graça de ser criaturas curadas, divinizadas e elevadas às alturas celestiais. É preciso louvar e dar graças incessantes ao Senhor por isto!».


Contudo, o Sumo Pontífice não se limita à afirmação de grandes princípios. Encara frontalmente a grave situação internacional e o tema das guerras em curso, afirmando: «Farei todos os esforços para que esta paz se propague. A Santa Sé está disponível para que os inimigos se encontrem e se fitem nos olhos, para que aos povos se devolvam a esperança e a dignidade que merecem, a dignidade da paz. Os povos querem a paz e eu, com o coração nas mãos, digo aos responsáveis dos povos: encontremo-nos, dialoguemos, negociemos! A guerra nunca é inevitável, as armas podem e devem ser silenciadas, pois não resolvem os problemas mas só os aumentam; pois ficará na história quem semeia a paz, não quem ceifa vítimas; pois os outros não são sobretudo inimigos, mas seres humanos: não vilões a odiar, mas pessoas com quem falar. Rejeitemos as visões maniqueístas típicas das narrações violentas, que dividem o mundo entre bons e maus. A Igreja não se cansará de repetir: silenciem as armas! E gostaria de dar graças a Deus por aqueles que, no silêncio, na oração, na oferta, tecem fios de paz; e aos cristãos - orientais e latinos - que, sobretudo no Médio Oriente, perseveram e resistem nas suas terras, mais fortes do que a tentação de as abandonar. Aos cristãos deve ser dada a oportunidade, não apenas palavras, de permanecer nas suas terras com todos os direitos necessários para uma existência segura. Por favor, que se lute por isto!»


O apelo feito de um modo veemente não se limita a dirigir-se intra muros, procura ser ouvido “urbi et orbi”. «Que as vossas Igrejas sirvam de exemplo e os Pastores promovam com retidão a comunhão, especialmente nos Sínodos dos Bispos, para que sejam lugares de colegialidade e de autêntica corresponsabilidade. Que haja transparência na gestão dos bens, que se dê testemunho de humilde e total dedicação ao povo santo de Deus, sem apego às honras, aos poderes do mundo e à própria imagem. São Simeão, o Novo Teólogo, indicava um bom exemplo: «Assim como alguém, lançando pó sobre a chama de uma fornalha ardente, a apaga, do mesmo modo as preocupações desta vida e toda a espécie de apego a coisas mesquinhas e sem valor destroem o calor do coração aceso nos primórdios» (Capítulos práticos e teológicos, 63). O esplendor do Oriente cristão exige, hoje mais do que nunca, a libertação de toda a dependência mundana e de quaisquer tendências contrárias à comunhão, para ser fiel na obediência e no testemunho evangélicos». Esta passagem é muito significativa, uma vez que, além do apelo a que haja uma influência positiva no sentido da paz, também se definem caminhos claros de colegialidade e de corresponsabilidade. Por outro lado, trata-se de construir uma Igreja pobre e com sobriedade, sem apego às honras e ao luxo, apta a contribuir para uma administração justa dos recursos que nos são atribuídos em comum, em lugar de uma economia que mata. Nota-se, assim, que são dados sinais claros e inequívocos sobre as orientações necessárias do novo pontificado: gestos concretos no sentido da construção da paz, da mobilização da sociedade com tal objetivo, do respeito inteiro pelo bem comum, da participação de todos com um papel acrescido da mulher, do espírito de serviço, do cuidado e da atenção ao próximo, da colegialidade e da corresponsabilidade no aprofundamento do método sinodal.


Personalidade diferente da de Francisco, o Papa Leão XIV apresenta um programa de continuidade e de reforma segundo uma atitude, que se deseja de coragem e determinação, no sentido do combate pela justiça e pela paz, com a tomada de consciência de que há passos concretos que terão de ser dados ao encontro dos grandes desafios da sociedade contemporânea, com preservação da unidade e da coerência e salvaguarda da dignidade humana para todos. Será um caminho difícil que exigirá o despertar das consciências para a ponderação de fatores contraditórios numa sociedade receosa e dividida entre a indiferença e a ilusão, entre a certeza e a imperfeição.  


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

  
   Diário de um Pároco de Aldeia (Bresson)


Mudança na Constituição da Igreja


Estes dias desde a morte do Papa Francisco em que os meios de comunicação social estiveram concentrados no Vaticano, infelizmente muitas vezes nem sempre pelas melhores razões cristãs no sentido fundo da palavra, pois lembrava-se por vezes mais a pompa e o fausto das cortes imperiais dos antigos impérios, deveriam ter sido uma ocasião para reflectir de modo fundo sobre o cristianismo na sua profundidade essencial, a melhor mensagem que alguma vez chegou à Humanidade na sua História e, dessa reflexão, tirar necessárias e urgentes conclusões, para voltar precisamente ao essencial.

1. É confrangedor e mesmo horripilante saber que há ainda quem pregue e até ensine na catequese que Jesus veio ao mundo, enviado por Deus, para ser crucificado como vítima expiatória pelos pecados. Por causa do pecado dos primeiros pais, a Humanidade tinha uma dívida infinita para com Deus, que Jesus pagou na cruz, e assim Deus pôde aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade.

Em relação a este Deus bárbaro e macabro, pior do que qualquer ser humano decente e que faz lembrar os deuses a quem as pessoas sacrificavam os seus filhos primogénitos como vítimas para os aplacar e implorar bens e graças, eu pessoalmente sou ateu.

2. Na realidade, foi o contrário que se passou. Jesus anunciou exactamente o contrário. Este é o seu Evangelho, notícia boa e felicitante: Deus é bom, Abbá (querido Papá), Pai/Mãe. E todos são seus filhos e filhas e ele só quer o bem deles, a sua alegria, felicidade e realização plena de todos. Essa foi a mensagem de Jesus por palavras e obras, seguindo-se que, se todos são filhos e filhas, todos são irmãos e irmãs e devem agir em consequência…

Era evidente que essa mensagem ia contra os interesses do Templo. Jesus enfrentou concretamente o sacerdócio judaico — parece que havia uns 20 000 sacerdotes e levitas e Flávio Josefo refere que numa páscoa degolaram 255 600 cordeiros. Segundo Jesus, é preciso aprender que o que Deus quer é justiça e misericórdia, dizia-lhes: "Ide aprender: Deus não quer sacrifícios rituais de vítimas, quer justiça e misericórdia". A mensagem de Jesus também ia contra os interesses de Roma, pois os impérios não existem para a fraternidade, mas para a exploração...

Jesus sabia, portanto, que punha em risco a sua vida, mas não se acobardou. Pelo contrário, foi até ao fim para dar testemunho da Verdade e do Amor. Assim, foi julgado e condenado à morte e morte de Cruz: o horror pura e simplesmente. Ele, o inocente, foi vítima não de Deus, mas dos homens, vítima de um assassinato. Deus, porém, ressuscitou-o: Jesus, na morte, não encontrou o nada, mas a plenitude da vida, e os discípulos acreditaram e foram anunciar a Boa Nova e surgiram comunidades de cristãos e cristãs. Eles amavam como Jesus mandara: “Dou-vos um mandamento novo: amai-vos uns aos outros como eu vos amei.”. E reuniam-se em banquetes festivos e fraternos para recordar a Última Ceia e outros banquetes de Jesus, a sua mensagem, a sua morte, a sua ressurreição, celebrar e aprofundar a fé e a esperança, animar a caridade, o amor... E a celebração acontecia na casa de um cristão ou cristã com uma casa maior e melhor, e quem presidia era o dono ou a dona da casa.

3. Com o tempo (século III) — quem explicou isso bem foi Herbert Haag, Professor da Universidade de Tubinga, talvez o maior exegeta do século XX, que tive o privilégio de ter como querido amigo —, também porque os cristãos iam sendo acusados de ateus por não oferecerem sacrifícios à divindade, a Eucaristia foi perdendo esse carácter de banquete festivo e fraterno e surgiu a sua interpretação como sacrifício — o manual de Teologia por que estudei em jovem ainda falava na Missa como “mactatio mystica Christi” (matação, imolação mística de Cristo, discutindo-se se a imolação era real, moral, sacramental) e, quando presentemente nas igrejas se olha para os altares laterais, vem à lembrança o tempo ainda recente em que vários sacerdotes iam oferecendo, só com um acólito, que nada entendia, até porque era em latim, o “santo sacrifício da Missa” por diversas intenções, e ainda não se acabou com o absurdo dos “Trintários de Missas” — e, com a interpretação da Eucaristia como sacrifício de expiação pelos pecados, começou a ordenação sacerdotal e, assim, na Igreja apareceram duas classes: o clero com todos os seus privilégios e os leigos. Totalmente contra o que Jesus queria: "sois todos irmãos". E nem Jesus nem os Apóstolos ordenaram sacerdotes. Mas, com a ordenação sacerdotal, apareceu não só uma Igreja com duas classes — o clero e o povo —, mas foi-se também impondo o celibato, e as mulheres, que antes também tinham presidido, foram excluídas, por causa da impureza ritual…

E nem Francisco abriu a porta à ordenação presbiteral — intencionalmente, não utilizo a palavra sacerdotal — das mulheres nem à ordenação de homens casados e ao fim da lei do celibato…

4. Para voltar a Jesus, impõe-se uma mudança na Constituição da Igreja, uma verdadeira revolução, que implica, como explico longamente no meu mais recente livro: O Mundo e a Igreja. Que Futuro?, "pôr fim à ordenação de sacerdotes".

Evidentemente, na Igreja — não sou anarquista — haverá, como desde o início houve, funções, ministérios e serviços ordenados, que até podem ser temporários, de homens e mulheres, mas não com a ordenação sacerdotal, com ordens sacras, o que é completamente diferente.

De facto, segundo a doutrina oficial, a ordenação sacerdotal implica uma transformação ontológica do ordenado, fazendo dele um "alter Christus", "outro Cristo", só ele podendo presidir à Eucaristia e perdoar os pecados na confissão. Com a ordenação sacerdotal, a Igreja não tem reforma possível, por causa da sua divisão automática em duas classes, repito: clero e povo, de tal modo que, quando se fala em Igreja, o que se está normalmente a referir é menos de 1% da Igreja: a chamada hierarquia. E Jesus tinha dito: "sois todos irmãos".

E aí estão a peste do clericalismo e a pompa e o luxo destes dias. E, quando se entrou em conclave para eleger o novo Papa, lá esteve aquele “extra omnes”: “fora todos”, todos os que não pertencem ao conclave, ao qual só pertence o topo da hierarquia, aliás num sistema endogâmico, pois aqueles 133 cardeais eleitores são purpurados criados por Papas anteriores, portanto, evidentemente, sem nenhuma mulher, mesmo se mais de metade dos católicos são mulheres...


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia

CRÓNICAS PÁRA E PENSA

 

  
    Fotografia de Christopher Furlong/Getty Images


As primeiras palavras do Papa Leão XIV 
na sua primeira bênção Urbi et Orbi
8 de Maio de 2025 


A paz esteja com todos vós!

Caríssimos irmãos e irmãs, esta é a primeira saudação de Cristo Ressuscitado, o Bom Pastor que deu a vida pelo rebanho de Deus. Eu também gostaria que esta saudação de paz entrasse nos vossos corações, chegasse às vossas famílias, a todas as pessoas, onde quer que estejam, a todos os povos, a toda a terra. A paz esteja convosco!

Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz desarmante, humilde e perseverante. Ela vem de Deus, Deus que nos ama a todos incondicionalmente. Ainda conservamos nos nossos ouvidos aquela voz fraca, mas sempre corajosa, do Papa Francisco que abençoava Roma!

O Papa que abençoava Roma concedia a sua bênção ao mundo, ao mundo inteiro, naquela manhã do dia de Páscoa. Permitam-me prosseguir com essa mesma bênção: Deus ama-nos, Deus ama a todos vós, e o mal não prevalecerá! Estamos todos nas mãos de Deus. Portanto, sem medo, unidos, de mãos dadas com Deus e entre nós, sigamos em frente. Somos discípulos de Cristo. Cristo precede-nos. O mundo precisa da sua luz. A humanidade precisa dele como ponte para ser alcançada por Deus e pelo seu amor. Ajudai-nos também vós, pois, uns aos outros, a construir pontes, com o diálogo, com o encontro, unindo-nos todos para sermos um só povo, sempre em paz. Obrigado, Papa Francisco!

Quero também agradecer a todos os meus irmãos cardeais que me escolheram para ser o Sucessor de Pedro e caminhar convosco, como Igreja unida, sempre procurando a paz, a justiça, procurando sempre trabalhar como homens e mulheres fiéis a Jesus Cristo, sem medo, para proclamar o Evangelho, para sermos missionários.

Sou um filho de Santo Agostinho, agostiniano, que disse: «Convosco sou cristão e, para vós, bispo». Neste sentido, podemos todos caminhar juntos rumo àquela pátria que Deus nos preparou.

À Igreja de Roma, uma saudação especial! Devemos procurar juntos como ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, dialoga, sempre aberta para receber, como esta praça com os braços abertos, a todos, a todos aqueles que precisam da nossa caridade, da nossa presença, do diálogo e do amor.

(em espanhol)

E se também me permitem, uma palavra, uma saudação a todos aqueles, e em particular à minha querida diocese de Chiclayo, no Peru, onde um povo fiel acompanhou o seu bispo, compartilhou a sua fé e deu muito, muito para continuar a ser Igreja fiel de Jesus Cristo.

A todos vós, irmãos e irmãs de Roma, da Itália, do mundo inteiro, queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que procura sempre a paz, que procura sempre a caridade, que procura sempre estar próxima, especialmente daqueles que sofrem.

Hoje é o dia da Súplica a Nossa Senhora de Pompeia. Nossa Mãe Maria quer sempre caminhar connosco, estar próxima, ajudar-nos com a sua intercessão e o seu amor.

Agora, gostaria de rezar convosco. Rezemos juntos por esta nova missão, por toda a Igreja, pela paz no mundo e peçamos esta graça especial a Maria, nossa Mãe.

Ave-Maria...

(Texto original em italiano)


Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia