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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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O MUNDO DOS BRINQUEDOS…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 29

 

As duas imagens que hoje se apresentam correspondem à lembrança da infância de há cinquenta anos… pouco dirá aos nossos jovens, mas conheço alguns que sentem prazer em ouvir dos avós estórias de outros tempos.

 

Na primeira imagem, a Zé procura com um binóculo avistar o castelo misterioso do cimo da montanha. Eles encontraram-se no Casal de Kirrin, como habitualmente nas férias grandes, e a partir daí desenrolaram-se mil aventuras e mil peripécias. Eles são, além da Zé, a Ana, o Júlio, o David e o inseparável Tim (no original: Georgina, Anne, Julian, Dick e Timmy). Em Portugal eram esses os nomes dos heróis mais célebres de Enid Blyton (1897-1968). Era apaixonante ler cada uma das cerca de 120 páginas da coleção da Editorial Notícias, sendo o primeiro “Os Cinco na Ilha do Tesouro”. Mas havia também o programa semanal da Emissora Um, “Meia Hora de Recreio”, que apresentava capítulos dos Famosos Cinco, sob a direção de Maria Madalena Patacho (1903-1993) e com a inconfundível voz de Ruy Ferrão (1918-2010)…

 

Nesse tempo, a nossa Mãe preparava-nos o lanche em volta do imponente aparelho de rádio, gigantesco, com um som forte e irrepreensível – café com leite, pão com manteiga, queques e bolos de arroz. E ouvíamos deliciados as descrições das opíparas merendas que a Mãe da Zé preparava para os pequenos: ovos com bacon, compotas variadas, sumos - e juro-vos que o nosso lanche mais corriqueiro sabia exatamente às descrições de Enid Blyton. A sugestão era tudo, e sobretudo havia todo o suspense dessas aventuras fantásticas. Cada geração tem os seus heróis - e a minha, que era a do “Cavaleiro Andante”, era naturalmente irmã dos Cinco… Eu sei que houve os Sete, o Noddy, a Gémeas do Colégio de Santa Clara, mas apenas os Cinco nos interessaram verdadeiramente, como antecâmara das Biografias da Civilização e dos clássicos da Sá da Costa…

 

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A segunda imagem de hoje remete para a coleção dos Dinky Toys, fabricados pela Meccano de boa memória. Importa lembrar que a Meccano (fundada em 1908 por Frank Hornby) começou por produzir peças para montar elevadores, gruas, tratores, automóveis. Uma grua como devia ser demorava mais de um dia a ser produzida, reunindo centenas de peças e muitos parafusos. Era um brinquedo fabuloso. Começámos com a caixa número cinco e acabámos com a número 10, capaz de realizar autênticas obras de alta engenharia… Mas regressemos às miniaturas. A fábrica inglesa da Meccano produziu miniaturas de fundição injetada entre 1935 e 1979. Não esqueço um Connaught Fórmula 1 de cor verde, que foi pilotado por Stirling Moss, que eu vi correr em carne e osso em Monsanto no último ano em que essa marca concorreu, 1959. Depois vieram um Land Rover, um Morris Minor, um Austin, uma camioneta Dodge… Em simultâneo começaram a surgir os Corgi Toys, com molas e com portas e capots a abrir e fechar… Os Dinky e os Corgi associavam-se facilmente pois tinham a mesma escala… Vários dos meus modelos chegaram mesmo a estar expostos no Museu do Brinquedo… A fábrica da Dinky em Binns Road, Liverpool, fecharia em 1979, em virtude da concorrência de produtos feitos no Oriente em série mais baratos mas de menor qualidade, e a Corgi Toys ainda duraria até 1983, mas conheceria o mesmo destino. A Matchbox viria até 2000 a produzir sob a marca Dinky modelos que tinham ganho notoriedade. Hoje a produção de miniaturas mudou radicalmente, prevalecendo os modelos de pequena dimensão ou de escala superior às dos clássicos Dinky e Corgi Toys…  Foi um outro tempo – e agora essa nostalgia é responsável por preços astronómicos alcançados em leilões pelos pequenos modelos originais…  

 

Sobre a nostalgia dos brinquedos da infância oiçamos hoje Cecília Meireles:

 

«O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.

 

O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.

 

O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.

 

E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.

 

(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)»

 

   Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

OS JOGOS DA NOSSA INFÂNCIA

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Diário de Agosto * Número 21 

 

Hoje o Património Cultural chega ao mundo dos jogos… Todos nos lembramos das tardes chuvosas de inverno, em que íamos buscar as caixas de jogos, avultando entre estes – a Glória. Entre nós, no século XIX, designou-se como Jogo da Glória, com adaptações (90 casas em vez de 63), o que era conhecido na Europa como “Jeu de l’Oie” ou “Juego de la Oca”. Este teve origem na Índia e representa originalmente o percurso da vida e da morte – com as diversas vicissitudes da existência: desde o sucesso ao fracasso, prémios e castigos, virtudes e pecados, considerando ainda a morte, o purgatório e o inferno. O Ganso é o símbolo e a referência universal do jogo. Estamos perante uma progressão em espiral (jogando-se com dois dados e peças de várias cores), mas alguns recordam que a origem é a roda do hinduísmo (Samsara), completada pela referência à filosofia budista do Nirvana (presente na consumação do jogo). Na Europa a primeira referência conhecida do que entre nós designamos como Jogo da Glória data de 1617 na obra de Pietro Carrera sobre jogos de mesa. Depois de referir a antiguidade do jogo do xadrez, afirma que estoutro é muito lúdico, tendo sido popularizado em Florença e oferecido por Francisco I a Filipe II de Espanha e I de Portugal. Recorde-se que se discute a origem do xadrez, segundo uns a China, segundo outros a Pérsia. No século XIV na Europa atualizaram-se as suas regras, tal como hoje as conhecemos – e o xadrez tornou-se ciência. Voltando ao Jogo da Glória, deve dizer-se que no início do século XVII conheceu uma grande voga em toda a Europa – sendo conhecido pela designação francesa “Jeu de l’Oye, renouvelé des Grecs”. O nome deve-se à ideia de que se trata de um jogo indo-europeu adaptado pelos clássicos helénicos. Ao escrever “O Testamento de um Excêntrico”, Júlio Verne (1899) baseia o enredo num Jogo da Glória, no qual um milionário decide atribuir a sua fortuna a quem ganhar um jogo que se desenrola nos diversos estados norte-americanos, partindo de Providence (Rhode Island), com chegada a Chicago (illinois). Selma Lagerlof usa o Ganso como o transporte aéreo de Nils Holgersson para dar a conhecer a Suécia aos jovens estudantes (em 1906 e 1907). Já no decurso do século XX, em Portugal, o jogo foi popularizado pela marca Majora, fundada em 1939, no Porto, por Mário José António de Oliveira, pioneira na produção de brinquedos – e na publicação de pequenos contos tradicionais. Os anos 50 foram fundamentais para a consolidação da iniciativa que se apresentou ao mercado com os cubos da Carochinha, o Rapa o Tacho e a Roda da Sorte. O primeiro jogo de tabuleiro da Majora foi o Pontapé ao Goal (a palavra ainda aparecia assim grafada, antes da forma Golo). Depois apareceu o Sabichão na década de 60 há 54 anos. Até 1992 a Majora produziu sob licença o Monopólio (Monopoly), editado pela Hasbro. São célebres o Mikado, o Loto, as Damas, o Gamão, além do Jogo da Glória, que totalizaram cada um mais de 1.5 milhões de unidades vendidas. Em março de 2013 a empresa de brinquedos encerrou a fábrica no Porto, tendo sido adquirida com o seu espólio em 2014 por um fundo que entretanto retomou a atividade.

 

Nada melhor hoje do que invocarmos Ricardo Reis…

A magia do jogo entra em contradição com a vida.

E que são os jogos senão a busca vã da glória e a interrogação indiferente sobre a morte e a vida?…

 

«Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia

Tinha não sei qual guerra,

Quando a invasão ardia na Cidade

E as mulheres gritavam,

Dois jogadores de xadrez jogavam

O seu jogo contínuo.

À sombra de ampla árvore fitavam

O tabuleiro antigo,

E, ao lado de cada um, esperando os seus

Momentos mais folgados,

Quando havia movido a pedra, e agora

Esperava o adversário,

Um púcaro com vinho refrescava

Sobriamente a sua sede.

Ardiam casas, saqueadas eram

As arcas e as paredes,

Violadas, as mulheres eram postas

Contra os muros caídos,

Traspassadas de lanças, as crianças

Eram sangue nas ruas...

Mas onde estavam, perto da cidade,

E longe do seu ruído,

Os jogadores de xadrez jogavam

O jogo do xadrez.

Inda que nas mensagens do ermo vento

Lhes viessem os gritos,

E, ao refletir, soubessem desde a alma

Que por certo as mulheres

E as tenras filhas violadas eram

Nessa distância próxima,

Inda que, no momento que o pensavam,

Uma sombra ligeira

Lhes passasse na fronte alheada e vaga,

Breve seus olhos calmos

Volviam sua atenta confiança

Ao tabuleiro velho.

Quando o rei de marfim está em perigo,

Que importa a carne e o osso

Das irmãs e das mães e das crianças?

Quando a torre não cobre

A retirada da rainha branca,

O saque pouco importa.

E quando a mão confiada leva o xeque

Ao rei do adversário,

Pouco pesa na alma que lá longe

Estejam morrendo filhos.

Mesmo que, de repente, sobre o muro

Surja a sanhuda face

Dum guerreiro invasor, e breve deva

Em sangue ali cair

O jogador solene de xadrez,

O momento antes desse

(É ainda dado ao cálculo dum lance

Pra a efeito horas depois)

É ainda entregue ao jogo predileto

Dos grandes indiferentes.

Caiam cidades, sofram povos, cesse

A liberdade e a vida,

Os haveres tranquilos e avitos

Ardem e que se arranquem,

Mas quando a guerra os jogos interrompa,

Esteja o rei sem xeque,

E o de marfim peão mais avançado

Pronto a comprar a torre.

Meus irmãos em amarmos Epicuro

E o entendermos mais

De acordo com nós-próprios que com ele,

Aprendamos na história

Dos calmos jogadores de xadrez

Como passar a vida.

Tudo o que é sério pouco nos importe,

O grave pouco pese,

O natural impulsa dos instintos

Que ceda ao inútil gozo

(Sob a sombra tranquila do arvoredo)

De jogar um bom jogo.

O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória; a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor.

A glória pesa como um fardo rico,

A fama como a febre,

O amor cansa, porque é a sério e busca,

A ciência nunca encontra,

E a vida passa e dói porque o conhece...

O jogo do xadrez

Prende a alma toda, mas, perdido, pouco

Pesa, pois não é nada.

Ah! sob as sombras que sem querer nos amam,

Com um púcaro de vinho

Ao lado, e atentos só à inútil faina

Do jogo do xadrez,

Mesmo que o jogo seja apenas sonho

E não haja parceiro,

Imitemos os persas desta história,

E, enquanto lá por fora,

Ou perto ou longe, a guerra e a pátria e a vida

Chamam por nós, deixemos

Que em vão nos chamem, cada um de nós

Sob as sombras amigas

Sonhando, ele os parceiros, e o xadrez

A sua indiferença».

 

Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
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