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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EM BUSCA DE IDEIAS CONTEMPORÂNEAS

Folhetim de Verão - Capítulo 26
 

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INCOMENSURABILIDADE DE VALORES
 
 
Existe a tentação de ceder ao absolutismo ou ao relativismo ético. No absolutismo ético pretende-se impor unilateralmente uma determinada visão e hierarquia de valores. No relativismo ético prevalece a indiferença em relação a uma hierarquia de valores – tudo poderia valer… Ao invés importa assumir uma perspetiva de Ética dialógica assente da noção de pluralismo, que não se confunde com o relativismo ou a indiferença. Não somos neutros relativamente aos valores éticos, nem estamos sujeitos a uma mesma medida comparativa, importando que o respeito mútuo se baseie na salvaguarda das diferenças – daí a liberdade de pensamento, a liberdade religiosa e a liberdade de crença e convicção. “Não sabemos o suficiente para ser intolerantes” (como afirma Karl Popper).
 
Mas a intolerância pode destruir a tolerância. Há esse risco, por isso temos de ser muito claros: a liberdade de pensamento e a ética dialógica exigem que sejamos tolerantes em relação às pessoas, mas não podemos ser passivos em relação às ideias intolerantes ou ao risco da destruição da liberdade. A defesa do pluralismo e da diversidade impõe a prevenção relativamente às ideias intolerantes. Isaiah Berlin (1909-1997) baseia o seu pensamento no pluralismo ético ou axiológico. Assim, “os valores produzidos pelos homens não são conciliáveis numa única hierarquia”. O pensador desenvolve, por isso, a ideia de “incomensurabilidade de valores” – já que a razão não pode definir uma ordem única de valores éticos nem medir os valores de modo universal, por isso o pluralismo é uma necessidade.
 
O princípio da democracia, enquanto sistema baseado na incomensurabilidade dos valores, permite a coexistência pacífica de distintos valores e interesses que constituem a expressão filosófica de uma sociedade livre e aberta. Impõe-se, assim, salvaguardar a liberdade negativa, como ausência de impedimentos à ação e à autonomia de cada um. Isaiah Berlin distingue, por isso, como se sabe, esta liberdade negativa, da liberdade positiva, que exigiria ação, o que determina uma valoração especial relativamente aos entraves que possam estabelecer-se relativamente à liberdade individual.
 
No triângulo Valor ético, Norma e Facto, de que fala Miguel Reale, encontramos uma relação complexa que nos obriga à procura de fundamentação. O vai-e-vem já referido também se aplica às relações facto / valor e facto / normas. O carácter indiretamente normativo da Ética leva-nos à pergunta: porquê um dever moral? Antes do mais, o respeito mútuo não pode ser abstrato. Tem de dar lugar a uma responsabilidade. Daí a legitimidade do exercício (além da legitimidade da origem) obrigar a realizar na prática o bem comum. Temos de ter resposta, perante quem está connosco ou precisa de nós. Se há uma incomensurabilidade dos valores, há também uma exigência de respeitar as diferentes esferas da liberdade de todos.
 
Isaiah Berlin fala-nos da coexistência na sociedade de uma dualidade entre raposas e ouriços. Para a raposa, a curiosidade infinita da razão e a sua permanente busca apontam para a prevalência da diversidade e do pluralismo. Ao invés, o ouriço estaria à espera e não se movia – numa atitude passiva de expectativa. Este último veria o mundo através da lente de uma única ideia definidora (como Platão, Dante ou Hegel). Já o exemplo da raposa corresponderia a Erasmo, Shakespeare, Montaigne ou Goethe. E se Dostoievski poderia ser qualificado como ouriço, Tolstoi não escaparia ao dualismo – com talentos de raposa e de ouriço. Vivemos num mundo plural de raposas e ouriços… A diversidade moral, o pluralismo axiológico são marcas da imperfeição humana – já que apenas somos perfectíveis.
 
Quando lemos a Declaração Universal dos Direitos Humanos (“todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”) compreendemos que estamos perante: a expressão concreta dos valores éticos; a sua aplicação numa sociedade aberta; a exigência de liberdade de expressão e de ideias; o respeito mútuo, como valor de valores; a universalidade da dignidade humana. Considerando Valores, Normas e Factos, esse vai-e-vem constante da norma para o valor, do facto para o valor, do valor para a norma e da norma para o facto dá-nos a expressão da relação incindível entre ética, moral e direito.… No fundo a interpretação normativa obriga a um relacionamento complexo na compreensão do mundo. Não estamos sós. Se a pessoa humana é irrepetível e única, se todos somos diferentes, a relação com os outros de respeito mútuo é uma exigência insubstituível.
 
 
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CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


134. A IMPERFEIÇÃO DA RAPOSA E A PERFEIÇÃO DO OURIÇO


Em “O Ouriço e a Raposa - Ensaio sobre a Visão da História de Tolstói”, escreve Isaiah Berlin:


“O sentido omnipresente dessa estrutura (…) algo “inexorável”, universal, penetrante, não alterável por nós, fora do alcance do nosso poder (…), é o que está na origem do determinismo de Tolstói, e (…) do seu realismo (…). Está “lá” - o sistema, a fundação de tudo - e só o homem sábio tem noção dele (…) Tolstói sabe que a verdade está lá, e não “aqui”: não nas regiões suscetíveis de observação, discriminação, imaginação construtiva, não no poder de perceção microscópica e da análise, (…). Mas Tolstói não a viu cara a cara, porque não tem, faça o que fizer, uma visão do todo; não é, está longe de ser, um ouriço; e o que vê não é o um, mas sempre, com uma minuciosidade sempre crescente, com uma lucidez obsessiva, inescapável, incorruptível, totalmente incisiva que o enlouquece, o muitos”
(sublinhado nosso).   


Embora ansiasse por um princípio explicativo universal, Tolstói não o conseguiu,  sendo mais uma “raposa” que um “ouriço”, apesar de o seu drama consistir em ser naturalmente uma “raposa”, desejando ser um “ouriço”, segundo Berlin.


Tendo em atenção a divisão de IB, de artistas e intelectuais, entre raposas e ouriços, ele próprio é uma “raposa”, porque defensor do pluralismo axiológico, tendo-o como vital e inevitável, como um princípio democrático que possibilita a coexistência pacífica de vários interesses, opiniões e tolerâncias em prol do bem comum, entre valores não reconduzidos a uma única hierarquia, por serem múltiplos e nem sempre compatíveis entre si.     


Esta metáfora canónica e estandardizada de ouriços e raposas - na aparente inocência de que a raposa é dispersa e sem uma visão unificadora, e o ouriço organizado e previsível, só tendo espinhos para se defender - tem consequências a vários níveis, incluindo construções utópicas, sobre que Berlin se pronunciou. 


Para IB, falar de utopia é falarmos de um estado perfeito, onde os valores maiores da existência humana têm a sua máxima expressão, como a liberdade, igualdade, justiça e direitos humanos.


Esse mundo nunca existiu, nem existe, é uma ilusão, não só por razões empíricas e pela imperfeição humana, mas ainda porque são múltiplos e nem sempre compatíveis entre si, sendo inviável uma liberdade, igualdade ou justiça total, apenas alguma, dado que a liberdade plena dos lobos significa a morte dos carneiros e ovelhas.   


Resta ser imperioso escolher, nem sempre fácil e onde há uma perda real, tal como nas nossas vidas não é possível ter tudo, aceitando uns valores, conciliando-os ou excluindo outros. 


Daí que as “raposas” tenham vantagens sobre os “ouriços” ao aceitarem a imperfeição, a diversidade, aceitando a perda, terem afeições livres e interesses vastos, garantindo a maior felicidade possível com esses interesses e afetos, tornando-os objeto de interesse e afeição para outros, agarrando mais de perto a natureza (imperfeita) humana.   


Os ouriços, calculáveis, corretos, cordatos, querendo simplificar questões complexas transformando-as num princípio orientador, numa visão do todo que organiza e unifica tudo o que fazem, procuram impor a perfeição, uma ideia redentora que salva, quais mensageiros, donos, messias ou tiranos da verdade.


O que não exclui, em qualquer caso, maior exigência e a possibilidade de sermos melhores. 


24.03.23
Joaquim M. M. Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


133. O OURIÇO MONISTA E A RAPOSA PLURALISTA


Arquílico, antigo poeta grego, escreveu: “A raposa sabe muitas coisas, mas o ouriço sabe apenas uma grande coisa”, metáfora que abre o livro “O Ouriço e a Raposa - Ensaio sobre a Visão da História de Tolstói”, de Isaiah Berlin.   


Impactante pela sua simplicidade, eficácia e representação, há várias interpretações sobre o seu significado, indiciando-se que agarra mais de perto o seu fim a de que a raposa, apesar de toda a astúcia, malícia e manhas, desiste de ferir e trespassar o ouriço, pelo único e definitivo recurso de defesa que ele tem: os espinhos.


Em sentido figurado, divide-se os humanos entre ouriços e raposas: os primeiros, de ideias centrípetas, são associados a uma visão central e única, a um só princípio organizador universal, procurando explicar a diversidade do mundo por referência a um sistema monista, a partir do qual se compreende, pensa e sente; os segundos, de ideias centrífugas, pensamento difuso e disperso, são pluralistas, sabem que há vários fins, nem sempre compatíveis entre si, apreendendo-se a essência de uma heterogeneidade de experiências e objetos, sem se determinarem por uma visão dominante e essencial, onde a variedade do mundo não valida um só sistema explicativo.


Esta categorização ampla de uma procura de saberes abrangentes e uma visão global do mundo (raposas), de uma grande coisa que dê unidade formal à nossa realidade para nos reconciliarmos com o universo (ouriços), mesmo que redutora e simplista, se bem contextualizada, pode servir de guia e meio instrumental a nível ideológico, político, empresarial, intelectual e outros.


Para Isaiah Berlin, por exemplo, são “ouriços” Platão, Dante, Pascal, Hegel, Dostoévski, Marx, Nietzsche, Ibsen e Proust. Heródoto, Aristóteles, Shakespeare, Montaigne, Erasmo, Molière, Goethe, Púchkin, Balzac e Joyce são “raposas”. 


Entre nós, referimos o padre António Vieira, Antero de Quental e Teixeira de Pascoaes como “ouriços”, Eça de Queirós, Fernando Pessoa e Eduardo Lourenço como “raposas”.


Ao dividir os intelectuais entre ouriços e raposas, acabou por criar dois tipos de personalidade distintivos presentes na história intelectual do Ocidente, que pode ser extensiva e adaptada a outras grupos, como a separação entre platónicos e aristotélicos, autocracia, ditadura, totalitarismo e democracia, pluralismo, liberalismo, especialistas e generalistas, tudo indiciando encaminhar-se, perante esta dicotomia, que uma liderança financeira ou empresarial de sucesso cabe preferencialmente aos “ouriços”. 


Também há os que são naturalmente raposas e acreditam ser ouriços, e o inverso, exemplificando-o Isaiah Berlin com Tolstói que, segundo ele, foi “por natureza uma raposa, mas por convicção um ouriço”.   


Quem é mais feliz?


Em face das consequências de um pensar aparentemente inócuo, há que viver, interrogando-nos e conciliando-nos, o que será tema vindouro.


17.03.23
Joaquim M. M. Patrício