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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 12 a 18 de janeiro de 2026


“Helena Vaz da Silva com Júlio Pomar” (ed. António Ramos, 1980) é ainda hoje um dos testemunhos mais importantes sobre a vida do grande pintor, no momento em que assinalamos o centenário do seu nascimento.

 


O diálogo entre as duas personalidades demonstra bem a importância que o artista desempenha na cultura portuguesa contemporânea. Júlio Pomar nasceu a 10 de janeiro de 1926, em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto, demonstrando desde muito cedo um excecional talento. A sua primeira exposição individual foi no Porto, em 1947, e nela apresentou apenas desenhos. Nesses anos, a sua oposição ao regime de Salazar resultou em quatro meses de prisão, bem como a apreensão de um dos seus quadros pela polícia e a ocultação dos frescos, que havia realizado no Cinema Batalha, no Porto. Em 1963 instalou-se em Paris, sendo bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian de 1964 a 1966. Nunca abandonou, porém, definitivamente Paris, mantendo uma relação de vida e de trabalho entre a capital francesa e Lisboa até ao fim da vida, em maio de 2018, na cidade portuguesa.

Com uma obra notável que se prolongou por oito décadas, destaca-se a sua participação na II Bienal de São Paulo (1953), e salientansdo-se as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965), e a participação numa mostra dedicada à pintura de Ingres, Le Bain Turc, no Museu do Louvre (1971), assim como as mostras «L’Espace d’Eros» (Galerie de la 2, Bruxelas, 1978), «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1979), «Tigres» (Galerie de Bellechasse e Galeria 111, 1981 e 1982), «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» (Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em 1984, instituição que, em 1978, promovera a sua primeira exposição retrospetiva). Na Estação do Alto dos Moinhos, Camões, Bocage, Fernando Pessoa e Almada Negreiros correspondem a uma homenagem sentida do pintor aos quatro maiores poetas da língua portuguesa, pondo em paralelo a criatividade do pintor e a originalidade da palavra poética. Por outro lado, temos ainda outras importantes mostras, como: «Pomar – Autobiografia» (Sintra Museu de Arte Moderna, 2003), «Júlio Pomar: Cadeia da Relação» (Museu de Serralves, 2008) ou «Júlio Pomar. Atirar a Albarda ao Ar» (Galeria 111 e Árvore – Cooperativa de Atividades Artísticas, 2012).

Durante a sua longa vida, nunca deixou de criar – desenhos, pinturas, gravuras, cerâmicas, esculturas, assemblagens – inscrevendo na História da Arte obras tão importantes como O Almoço do Trolha (1946-50), Gadanheiro (1947), Varina Comendo Melancia (1949), Marcha (1946),  Abriliberdade (1974), Navio Negreiro (2005-2012). A obra pública de Júlio Pomar inclui ainda os emblemáticos painéis cerâmicos da Avenida Infante Santo e do Campo Grande, a referida estação do metropolitano Alto dos Moinhos, em Lisboa, e outras intervenções artísticas realizadas em diversas cidades. Sente-se sempre, nos diferentes ciclos da sua obra, uma preocupação de se ligar à rua e aos cidadãos comuns, representando o pulsar concreto da vida humana.

Em 1990, o Ministério da Cultura francês convidou Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que passou a constituir uma referência na representação daquela grande referência do pensamento europeu.             

No ano seguinte, Pomar pintou o retrato oficial do Presidente Mário Soares, que hoje se encontra no Museu da Presidência da República, no Palácio de Belém: obra emblemática, irreverente e incontornável pela forma como desconstruiu o protocolo das representações oficiais, ligando-se à orientação moderna e iconoclasta que encontramos nas representações feitas por Columbano Bordalo Pinheiro de Teófilo Braga e Manuel Teixeira Gomes.

Com afirmou: “o esforço pode representar um prazer. A relação do dentro com o fora, o estar bem, o tirar prazer de, não é uma coisa que aconteça sozinha. É uma coisa que se procura e encontra, ou não. Esta é uma incomodidade de todos os dias, uma batalha”. Pode dizer-se que com esta afirmação, Pomar define-se. E nessa preocupação, o artista está de sobreaviso: “A realidade das pessoas é muitas vezes isso mesmo: determinarem-se a coisas para as quais não estão vocacionadas e que lhes liquida o gosto que podem ter em viver”. A atenção ao tempo e ao mundo exige, assim, a capacidade de resistência que permita entrar na batalha em plenitude. Por isso insistia ter feito durante a vida fundamentalmente o que lhe dava prazer.

Quando observamos o caminho seguido por Júlio Pomar ao longo da sua vida compreendemos, assim, uma recusa sistemática da facilidade. Desenhador exímio, talento de eleição, procurou sempre contrariar uma tendência natural, correndo o risco permanente de tentar a aventura das novas tendências, olhando com sentido crítico a realidade social e cultural que o cercava. Neste sentido, quando vemos “O Almoço do Trolha”, apercebemo-nos que há uma aguda compreensão das condições económicas e sociais e das injustiças. Tudo isso está implícito na obra e na sua mensagem. Há inconformismo, desassossego e consciência de que o artista não podia estar indiferente relativamente à ausência de liberdade. Nesse sentido, Pomar soube correr o risco de não se encerrar numa escola ou numa orientação. O neorrealismo e surrealismo encontravam-se, não como espaços dogmáticos, mas como apelos à inovação, às experiências libertadoras, ao poder ser iconoclasta. Nesse sentido, o pintor corre riscos, constrói e desconstrói, numa demanda persistente de uma linguagem própria e de um carácter marcante. “Varina Comendo Melancia” representa uma obra transição, com um misto de realidade e ironia, não menos crítico do que anteriormente, mas mais inesperado. Os autorretratos irónicos, o diálogo com a literatura, o retrato de Mário Soares – tudo isso representa a preocupação de recusa do esperável e a denúncia da acomodação ou da facilidade. Júlio Pomar pôde assim em toda a sua obra tornar-se ele-próprio, inserindo-se no seu tempo, com marca inconfundível.    


Guilherme d'Oliveira Martins

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  (XXVIII) O MUNDO DE JÚLIO POMAR

 

Helena Vaz da Silva terá sido porventura quem melhor entendeu a força e a diversidade do mundo de Júlio Pomar, num magistral diálogo que com ele teve. Pomar nasceu em 1926 em Lisboa. Frequentou a Escola de Artes Decorativas António Arroio e as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e Porto. Em 1942 participou numa primeira mostra de grupo, em Lisboa. Realizou a primeira exposição individual em 1947, no Porto. Em virtude de atividades oposicionistas é preso durante quatro meses, com apreensão de um dos seus quadros pela polícia política (“Resistência”) e ocultação dos frescos realizados para o Cinema Batalha no Porto. É autor do célebre retrato de Norton de Matos, candidato oposicionista. Afirma a independência da criação artística, mas associa o trabalho de pintor ao combate político, dando prioridade à defesa da responsabilidade social na criação de uma arte acessível e interveniente. Em 1963 instala-se em Paris. Na expressão de José-Augusto França, Pomar pertence à terceira geração modernista com uma obra multifacetada que se prolonga por sete décadas, destacando-se depois de um período inicial, dito neo-realista (“O Almoço do Trolha” ou “O Gadanheiro”), e de uma transição marcada por “Maria da Fonte” (1957), as exposições «Tauromachies» e «Les Courses» (Galerie Lacloche, Paris, 1964 e 1965); a participação numa mostra dedicada ao quadro de Ingres “Le Bain Turc” no Louvre (1971); as séries de pinturas “Mai 68” e “Le Bain Turc” (Galeria 111); as exposições «L’Espace d’Eros» (La Différence, 1978); «Théâtre du Corps» (Galerie de Bellechasse, 1979) e «Tigres» (Galerie de Bellechasse e Galeria 111, 1981 e 1982). Refira-se ainda «Um ano de desenho – quatro poetas no Metropolitano de Lisboa» - Camões, Bocage, Pessoa e Almada (Estação Alto dos Moinhos) em 1984 no CAM - Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian - que já em 1978 promovera a sua primeira exposição retrospetiva; além de «Ellipses» (Galerie de Bellechasse, Paris, 1984) e «Mascarados de Pirenópolis» (Galeria 111, ARCO, Madrid, 1988).

No começo da década de noventa, na sequência de uma estada no Alto Xingú, na Amazónia, realiza em 1990 as exposições «Los Indios» (Galeria 111, ARCO, Madrid) e «Les Indiens» (Galerie Georges Lavrov, Paris), a que se sucede «Pomar/Brasil», antologia organizada também pelo CAM da Gulbenkian e apresentada em Brasília, São Paulo, Rio de Janeiro e Lisboa. O Ministério da Cultura francês convida Júlio Pomar a realizar um retrato de Claude Lévi-Strauss, que precede o do presidente Mário Soares para a galeria oficial do Palácio de Belém (1991). Seguem-se as exposições «Pomar et la Littérature» (Charleroi, 1991), «Fables et Portraits» (Galerie Piltzer, Paris, 1994). A temática ficcional é retomada em «O Paraíso e Outras Histórias» (Culturgest, 1994) e «L’Année du cochon ou les méfaits du tabac» (Galerie Piltzer, 1996). A presença da Amazónia reaparece em «Les Joies de Vivre» (Galerie Piltzer, 1997) e «Les Indiens – Xingú 1988-1997» (Festival de Biarritz), enquanto a série “La Chasse au Snark” é mostrada em Paris (Galerie Piltzer, 1999) e em Nova Iorque (Salander-O’Reilly Gallery, 2000).

Trata-se de uma atividade intensa e de um permanente desejo de diversificação temática, que encontramos na repetição exaustiva, exigente e transformadora. Pomar recusou sempre a facilidade da expressão plástica. Nas suas múltiplas obras encontramos tigres, chapéus de chuva, macacos, retratos, mais ou menos explícitos; sendo clara a vontade de buscar as raízes culturais como em “Lusitânia no Bairro Latino – retratos de Mário de Sá Carneiro, Santa-Rita Pintor e Amadeo de Souza-Cardoso” de 1985, do mesmo modo que procura temas em fontes literárias e em matéria mitológica.

Apresenta «Pinturas Recentes», inéditas em Portugal, no Centro de Congressos de Aveiro em 2000. Regressa à Galeria 111 com a exposição «Os Três Efes – Fábulas, Farsas e Fintas» (2002), a que se sucedem «Trois travaux d’Hercule et quelques chansons réalistes» e «Méridiennes –Mères Indiennes» (Galerie Patrice Trigano, Paris, 2002 e 2004); «Fables et Fictions», esculturas e suas fotografias por Gérard Castello-Lopes (Galerie Le Violon Bleu, Sidi Bou-Said, Tunísia, 2004), que se prolonga em «A Razão das Coisas», assemblages e bronzes, fotografados por José M. Rodrigues, Serralves, Porto (2009). Marcelin Pleynet comissaria a exposição antológica no Sintra Museu de Arte Moderna – Coleção Berardo, designada «Autobiografia» (2004). As décadas recentes da obra de Júlio Pomar foram antologiadas por Hellmut Wohl no Centro Cultural de Belém em «A Comédia Humana». O Museu de Serralves, no Porto, incluiu numerosas assemblages inéditas na mostra «Cadeia da Relação», comissariada por João Fernandes (2008). Em 2009 expôs «Nouvelles aventures de Don Quixote et Trois (4) Tristes Tigres» (Galerie Patrice Trigano), e em 2012-13 apresenta «Atirar a albarda ao ar» na Cooperativa Árvore e na Galeria 111, Lisboa. Júlio Pomar é autor de “Catch: thèmes et variations”; “Discours sur la cécité du peintre”; “Et la peinture?”  (Éditions de la Différence), tendo os dois últimos sido traduzidos por Pedro Tamen com os títulos “Da Cegueira dos Pintores” (IN) e “Então e a Pintura?” (Dom Quixote); com duas coletâneas de poesias “Alguns Eventos” e “TRATAdo DITO e FEITO” (Dom Quixote). Júlio Pomar criou em 2004 a Fundação com o seu nome, tendo sido inaugurado o Atelier-Museu Júlio Pomar, criado pela Câmara Municipal de Lisboa, no edifício na Rua do Vale n.º 7, Mercês, com o projeto arquitetónico de reabilitação da autoria de Álvaro Siza. (Texto baseado na biografia do Atelier-Museu Júlio Pomar).

GOM

 

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A FORÇA DO ATO CRIADOR

 

Uma breve aproximação à Pintura, segundo Júlio Pomar.

 

'Assim a pintura veste uma aparência de quadro, pedaço solto do universo de repente insólito como um grande plano retirado de um filme.', Júlio Pomar 

 

A pintura para Júlio Pomar é uma revelação. É uma descoberta de algo que já existe mas que está coberto. É um diálogo aberto do artista consigo próprio. Mas também uma operação de síntese em que com toda a honestidade se mostra o fazer, o desfazer, o refazer e o nada a fazer. 

 

'A pessoa vai-se fazendo como se desfaz.', Júlio Pomar

 

A pintura sucede assim por aproximações, por escolhas e sucessivas seleções, porque nada é posto de parte. Para Pomar existe sempre uma simultaneidade de opções e tentativas. Ao conjunto de marcas, que se vão definindo com mais ou menos precisão, adiciona-se o poder do artista em fazer aparecer uma imagem. O processo, a maneira de descobrir, tudo vale a pena ser revelado numa pintura. Isto porque a imprecisão e a interrogação faz parte da procura. Uma pintura mesmo acabada é sempre um estado de matéria débil, frágil e momentâneo. 

 

'Não é o motivo, o tema, o assunto o que me interessa: é o que se passa entre mim e o motivo.', Claude Monet

 

Pintura para Pomar é uma maneira de entendimento e de participação no mundo - é um corpo a corpo com a matéria e com as analogias ou diferenças que determinam a aparição de uma imagem. A marca na pintura aparece antes da palavra, aparece através da difícil relação entre o fácil e o tempestuoso, entre o lugar comum e a exceção. Na tela, a tinta e a sua espessura, a mão e o pulso confrontam-se, e transformam o acidental e o pensado em volumes e sombras. A tela permite a abertura e a progressão do corpo e da matéria. Fixadas estão as dúvidas assim como as certezas e é nesse espaço movediço que se descobre o sentido da obra e a sua capacidade de espantar.

 

‘O real para mim, corresponde, digamos, à exaltação de um sentimento vital. O real para mim é a aparição do milagre. O milagre, para mim, é a gente ser capaz de querer viver e de querer sentir bem a viver. É tão raro que vale a pena chamar-lhe milagre.’, Júlio Pomar

 

Ana Ruepp