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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EM REBUSCA DO JAPÃO II

 

  Retomo - tal como prometera em carta à Princesa de mim - o fio da meada que nos tem levado a percorrer caminhos e atalhos da cultura japonesa, ou daquilo que, tantas vezes (!), nos possa parecer, e talvez seja, reflexo simétrico do nosso próprio pensarsentir, será também sempre um adquirido. Posto que, na verdade, há momentos da vida em que nos surpreendemos estranhos, "bárbaros" à míngua de outras aprendizagens...

 

   Volto ao esclarecedor texto de Mutsuo Takahashi, isto é, ao iniciar de uma análise da estética e da poética do haiku, neologismo inventado, em finais do século XIX, por Masaoka Shiki (1867-1902), esse poeta que, entre muitos outros, nos deixou estes versos tão primaveris:

  

          ergue-se no ar uma cotovia
          respiro a bruma
          caminho sobre nuvens

 

   Traduzo agora este terceto, só para nos chamar a atenção para que qualquer surto poético não tem de (nem que) ser explicado. Basta respirá-lo, sobretudo quando, como na poesia japonesa, tal respiração nos traz, pelo toque fugidio da evanescência, a contemplação da permanência essencial das coisas. Aliás, para além de qualquer forma métrica, sintática ou rítmica, ou de rimas e sonoridades, a poesia vive sempre nas formas idiomáticas em que foi composta - e que são muito dificilmente traduzíveis - nas quais, afinal, iremos procurar encontrar o tal "não sei o quê e quase nada" que a torna universalmente nossa íntima. Aliviando esta conversa, pergunto como se pode traduzir, do português para japonês (por exemplo), esta quadra de Luís Vaz de Camões, enviada a D. António, senhor de Cascais, que tendo-lhe prometido seis galinhas recheadas, por uma copla que lhe fizera, lhe mandou por princípio da paga meia galinha recheada:

  

          Cinco galinhas e meia
          deve o senhor de Cascais;
          e a meia vinha cheia
          de apetite pera as mais.

 

   Pormenorizadamente explicadinha, talvez a quadra ache graça em ouvidos estrangeiros, e até poderá acordar algum sabor a pilhéria... Mas faltar-lhe-á a espontaneidade do riso, a surpresa imediata de um entendimento espontâneo. No tocante a literatura japonesa, creio que será talvez maior a distância para chegarmos ao seu alcance, não só pela nossa própria estranheza à cultura que a informa, como por ser bem real - e pude pessoalmente verificá-lo em inúmeros encontros e reuniões - que a comunicação entre japoneses acontece, como dizem os antropólogos, em alto contexto.

 

   Kotaro Takamura (1883-1956), escultor e poeta surgido no tempo e ação de aproximação da cultura japonesa à ocidental, familiarizado com a obra de Rodin, Cézanne, Verlaine e Baudelaire, que divulgou e traduziu no Japão, é o autor de um poema em verso livre, intitulado Ore no Shi, cuja versão francesa (Mes Vers)  por Jeanne Sigée (Anthologie de poésie japonaise contemporaine. Paris, Gallimard, 1986) aqui verto para português. Fala melhor do que eu:

 

          Os meus versos não procedem da poesia ocidental
          Dois círculos se traçam mutuamente uma tangente mas
          No termo não se sobrepõem idealmente.
         Sendo eu apaixonado pelo mundo poético ocidental contudo
         Os meus versos próprios não podem negar que assentam noutras fundações.
         O céu de Atenas, a subterrânea nascente do cristianismo
         Geraram língua e pensamento da poesia ocidental.
         Tal mundo entrou-me no íntimo infinitamente belo infinitamente forte contudo
         Essa fisiologia de trigo de manteiga e de entrecosto
         Mantém à distância as necessidades do meu japonês.
         Os meus versos emergem das minhas vísceras, das minhas entranhas.
         Nascido no fim do Extremo Oriente, com arroz criado
         Com a minha alma alimentada de fermento de saké, de soja, de carne de peixe
         Com reminiscências do antigo Gândara todavia pregadas ao corpo
         A minha alma que se alumia mais da cultura amarela do imenso continente
         Que se purifica mergulhada na corrente sussurrante dos clássicos japoneses
         Ei-la repentinamente embasbacada pela energia atómica.
         Os meus versos não têm mais recurso para além do meu corpo,
         O meu próprio corpo é, sem dúvida, o de um escultor do Extremo Oriente.
         A meu ver, embora o universo tenha os anais das estruturas
         São os versos que lhes recitam o contraponto.
         A poesia ocidental é uma vizinha muito querida contudo
         Cumpre-se numa órbita diferente.

 

   Quanto mais me familiarizo com tanta poesia vinda de mundos, línguas e culturas distintas das minhas, tanto melhor entendo como nem tudo se desvenda, ou sequer abre, por conceitos: a proximidade, como, por maioria de razão, o aconchego, vai-se alcançando por escuta presente, silenciosa e humilde. Talvez por isso, quem traduz poderá sempre encontrar novas expressões da descoberta de um encontro, quiçá porque, como árvore, em si também vai crescendo a emoção qualquer que o feriu primeiro. A poesia comove-nos, move-nos com ela.

 

   Procurando outra imagem, vislumbro a minha mão em busca de outra, até que com suas costas se aflorem, como dois círculos se traçam mutuamente uma tangente, na bela expressão de Kotaro Takamura.

  

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em texto breve e claro, Claude Lévi-Strauss fala de algo que disse no Japão e a que chama apprivoiser l'étrangeté, encabeçando a sua reflexão por uma citação de Platão: Porque o mais contrário é o maior amigo do que lhe é mais contrário... Poderia também ter citado alguém mais seu coevo, como o jornalista correspondente de guerra Robert Guillain, que teve esta afirmação famosa: Le Japon est le pays où le contraire est vrai...

 

   E, referindo-se à descoberta da cultura japonesa pelo Ocidente, logo aponta o jesuíta português Luís Froes como pioneiro, no século XVI, desse exercício de comparação simétrica de pessoas, usos e costumes que, em meados do século XIX, levou o mesmo Ocidente a ganhar o sentimento de se redescobrir nas formas de sensibilidade estética e poética que o Japão  lhe propunha. Esta frase, aliás, resume o teor do prefácio que o célebre antropólogo francês (nascido em 1908, em Bruxelas) escreveu para a edição francesa de Européens et Japonais. Traité sur les contradictions et différences de moeurs, que, em português, foi escrito pelo padre Luís Froes em 1585 e, apesar de praticamente ignorado na sua pátria, e sua própria língua, foi, muito mais tarde, traduzido e publicado em França pela Chandeigne (1998 e 2005).

 

   Noutro texto seu, e noutra charla nipónica, Lévi-Strauss fala de Sengai (1750-1837), calígrafo, pintor e poeta, monge zen que costumava ir beber à fonte dos haikai de mestre Basho. O trecho que seguidamente para ti traduzo vale bem a leitura que fizeres, pelo muito que nos desvenda da íntima relação - para não dizer natureza comum  -  da poesia, caligrafia e pintura japonesas. Escuta bem:

 

   A arte de Sengai, reconhecia André  Malraux, deixa perplexo o espectador ocidental: «Nenhuma outra arte extremo-oriental, prosseguia ele, está tão longe da nossa, nem de nós.»

 

   Cada vez que se nos revela o sentido das legendas inscritas por Sengai à margem das suas pinturas, compreendemos um pouco melhor as razões de tal mal entendido. Pois que, pelo seu significado e o seu grafismo, as palavras têm tanta importância quanto o assunto, já que desses curtos textos, muitas vezes em forma de poemas, com as suas citações implícitas e as suas alusões maliciosas, os seus subentendidos, apenas obtemos das obras uma perceção mutilada.

 

   Mas, em certo sentido, isso é válido para toda a pintura extremo-oriental, indissociável da caligrafia, e não tão somente porque esta tem sempre cabimento naquela. Cada coisa representada - árvore, rochedo, curso de água, casa, senda, monte   -  para além da sua aparência sensível, recebe um significado filosófico de como o pintor a representa e situa num conjunto organizado.

 

   Mesmo se nos ativermos apenas à caligrafia, é claro que, apesar de todos os esforços dos tradutores, o essencial da poesia dos haikai - tais como os de Basho, de quem Sengai se sentia próximo, fica fora do nosso alcance. Tanto quanto o sentido literal, único acessível, contam a escolha de um caracter em vez de qualquer outro, o estilo da escrita (os manuais enumeram pelo menos cinco) e a disposição do texto sobre a folha...

 

   Já noutras cartas para ti, ou ainda em textos vários que escrevi sobre as minhas descobertas e insistentes interrogações acerca da cultura japonesa, abordei temas relacionados com a tradução literária ou as imitações e tentativas de adoção de géneros e modos literários próprios de outras culturas e línguas. Tais aventuras são sempre empresas de risco e incógnitos sucessos à partida. Exigem aos seus fautores, antes de mais, um refletido esforço de escuta e humildade, Com o tempo todo que lhe for necessário. E, depois, a serenidade de uma partilha, só pelo gosto dela. 

 

   O poeta, nosso contemporâneo, Mutsuo Takahashi editou em 2003 uma curiosa antologia de haiku - que, aliás, considera a chave poética do Japão - cuja maior qualidade, a meu ver, reside, precisamente, na achega a uma poética e estética, que nos proporciona, não só através das suas magníficas traduções para inglês, como pelas fotografias que a ilustram, e através das quais Hakudo Inue tenta desvendar-nos alguma visão mais intimista dos poemas japoneses. Essa também é facilitada pelo facto da edição ser bilingue (japonês-inglês), nesta publicação da P-I-E Books (Tokyo, 2003). O prefácio escrito pelo antologista e tradutor é, além disso, breve, conciso e claro, muito informativo e esclarecedor. Vem, a talho da fouce desta carta, traduzir-te eu os seguintes trechos desse texto de apresentação:

 

   ...O haiku de cinco-sete-cinco sílabas, todavia, nem sempre foi uma forma independente. Começou enquanto primeiro verso, chamado hokku, de uma espécie de poesia engrenada, chamada renga e haikai no renga (ou renga em estilo popular).  [Abro aqui um parêntese, Princesa, para te dizer que ouso pensar no "hokku" nipónico como equivalente ao nosso mote em desafios poéticos]. Tais poemas engrenados eram colaborativamente escritos por vários poetas que lhes iam alternativamente adicionando versos de sete-sete ou cinco-sete-cinco sílabas. Há pouco mais de cem anos, Shiki [Masaoka Shiki, 1867-1902, poeta, inventor do neologismo "haiku"] , decidiu separar o hokku do renga e do haikai  no renga, assim nascendo então o haiku.

 

   Havia uma conexão entre o hokku e os versos seguintesque começava com o segundo verso (wakiku ou "verso de suporte"). Apesar disso, o hokku permanecia semiautónomo. Aquilo a que hoje chamamos haiku, de Basho ou de Buson, são os seus semiautónomos hokku, vistos como poemas independentes.

 

   [Permite-me aqui, Princesa de mim, abrir mais um parêntese, chamando a atenção para a pertinência desta observação, já que tem sido generalizada a ideia de que haiku (para o qual, aliás, se inventou o plural, inexistente em japonês, de "haikus") é uma forma poética, ou género literário independente desde a sua origem. E é bem notória a tendência de se identificar tal mal entendido com, por exemplo, a obra escrita de Munefusa Matsuo (mais conhecido por Basho), esquecendo que dois terços da mesma está em prosa, sendo os versos destacados comentários, quiçá mais intimistas, ao próprio relato dos textos prosaicos. Aliás, tal facto nada tem de novo: já em literatura japonesa muito antiga  -  e no próprio Conto de Genji - o recurso a interlúdios poéticos é patente, retratando bem a unidade japonesa e budista das artes da escrita, da caligrafia e da ilustração plástica. Talvez, mesmo mais do que qualquer outra em todo o mundo e história, a literatura japonesa seja integral e profundamente emocional, registo possível do pensarsentir do ser humano. Quiçá por motivos próximos dos que levam a língua japonesa a tanto se alimentar de onomatopeias. Ocorre-me, neste preciso instante da escrita desta carta, voltar a citar-te um passo do Zen and Japanese Culture do professor Daisetz Suzuki (Princeton University Press, 1970), a que já muitas vezes me referi em escritos vários: Está certo dizer-se que a mente oriental é intuitiva, enquanto a mente ocidental é lógica e discursiva. Uma mente intuitiva tem certamente as suas fraquezas, mas o seu ponto forte surge quando trata de coisas mais fundamentais na vida, isto é, coisas relativas à religião, à arte, à metafísica. E foi o Zen que especialmente estabeleceu esse facto: o satori. A ideia de que a verdade última da vida e das coisas deve geralmente ser intuitiva e não conceptualmente apanhada, e de que tal apreensão intuitiva é o fundamento, não só da filosofia, mas de todas as outras atividades culturais - eis aquilo com que a forma Zen do budismo mais contribuiu para a cultura do apreço artístico entre o povo japonês.]

 

   Retomarei o fio desta meada em carta próxima, ou talvez aproveite a oportunidade para iniciar já com a presente uma nova série de escritos meus sobre o Japão, à qual, depois de Fomos em Busca do Japão e de Um Itinerário de Muitos Olhares, talvez ponha o título de Em Rebusca do Japão. Até lá. Mas, a fechar a presente, deixa-me traduzir-te as primeiras linhas de um "Diário de Viagem" de Matsuo Basho, intitulado Nozarashi kiko, e que é o primeiro apresentado, já em 1988, por René Sieffert na sua versão francesa Bashô - Journaux de voyage, publicada pelas Publications Orientalistes de France. A minha versão portuguesa foi feita directamente da francesa de Sieffert, com recurso esporádico e "tant bien que mal" ao texto original japonês, e o apoio do meu querido Dicionário Universal Japonês-Português do nosso jesuíta e contemporâneo padre Jaime Cepeda Coelho, velho e querido amigo. O pequeno trecho que se segue, a meu ver, diz muito sobre o espírito, a obra e o universo do grande Basho:

 

   Partindo para uma viagem de mil léguas, sem me embaraçar com provisões para o caminho, «sob a lua da terceira vigília entrei no inquestionável», poderia dizer esse Ancião: ao seu cajado me apoiei, na era Jokyo, no ano do Primogénito da Árvore e do Rato [1684], pela oitava lua do outono, quando deixei o meu casebre desconjunto, ao pé do rio, e um vento frio soprava.

 

          Embranqueçam os meus ossos
          penetra-me o vento o corpo
          até ao coração

 

          Passados dez outonos
          o nome de pátria designa
          Edo doravante

 

   No dia em que atravessei as barreiras, caía chuva e os montes todos desapareciam por entre as nuvens.

 

          Nevoeiro e bruma
          dissimulam o Fuji
          encanto deste dia

 

      Camilo Maria  

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Hoje, apenas te mando um imaginário bilhete postal, com as ilustrações que nele descobrires.

 

   Pela madrugada, entrou-me pela varanda do quarto uma luz leitosa e acordei cercado por cerrado nevoeiro. Foi-se desvanecendo com o espreguiçar do sol, mas logo voltou a fechar-se. Talvez fosse uma saudade da noite a chamar à paisagem uma penumbra de silêncio. Afinal, já erguido e remoçado, o astro rei limpou os ares e fez-se luz. E ocorreu-me este haiku, penso que de Masaoka Shiki, poeta da era Meiji, na viragem do século XIX para o XX:

 

                      Haru no hi ya
                      hito nanimo senu
                      komura kana

 

   Três versos com cinco, sete e cinco sílabas. Que, livremente, o meu pensarsentir traduz assim:

 

                     Dia de Primavera:
                     neste lugar isolado
                     ninguém faz nada

 

   Desço ao rés do chão sobre os campos, e com eles me confundo em ação de graças pela solidão que o sol aquece.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Yasushi Inoue (1906-1991) do século  terá sido um dos mais populares romancistas japoneses do século XX, conhecido sobretudo pelas suas novelas históricas, muitas delas situadas nos tempos atribulados da reunificação do Japão nos anos de 1500/600. Em O Mestre do Chá (ou, no original, Honkaku Bo Ibun, isto é, O Diário de Honkaku Bo), debruça-se sobre o mistério do suicídio ritual de Mestre Rikyu, em obediência ao Taiko Toyotomi Hideyoshi. Na minha leitura de hoje, aí redescobri o poema que se afixara à vista dos participantes numa cerimónia do chá que Rikyu celebrara por ocasião da despedida para o exílio de outra personagem, uma tal condenada pelo Taiko. Traduzo:

 

               As folhas abandonam os ramos,
               o fim do Outono é frio e puro.
               Neste instante, os laureados
               saem do mosteiro zen:
               Parti para onde quiserdes
               e se descobrirdes um lugar deserto
               voltai depressa
               para nos confiardes
               o fundo do vosso coração.

 

   Por estes dias receosos de obscuro medo - que, afinal de contas, quiçá mais não sejam do que a recusa de vivermos com reconhecimento consciente de dúvidas, interrogações e temores, que nos vão povoando a tenebrosa, vaga e silente inconsciência em que teimamos justificar as distrações e drogas com que procuramos afastar fantasmas - sabe-me bem meditar nesses cinco versos que nos incitam a partir para onde quisermos e a confiar a outros, quando encontrarmos um lugar deserto, o fundo do nosso coração...

 

   Qualquer deserto tem, para nós, sobretudo uma existência imaginária, é a utopia  da nossa solidão. Esta - tê-lo hás também tu descoberto, Princesa de mim - será sempre, para qualquer um, mais um sentimento de si do que a sua própria condição.

 

   Muitas vezes, nestes dias de quarentena, dou comigo a pensarsentir como a ascese mística vai conduzindo quem a pratica à intimidade da presença do solitário absoluto, daquele cujo nome é Eu, o Eu sou Quem sou. Mestre Eckhart diz que Deus é - com exclusão de todo o não-ser, de qualquer carência. E tal como o mouro Avicena, diz ainda que Deus não tem outra essência para além da sua existência. É, pois, uma presença pura, essa a que se dá o nome de Ser. E imagina-o como uma efervescência, a esse Ser infinito que em si mesmo se move, fervura borbulhante ou parturiente, sempre fervente em si, e que em si se liquefaz e entra em ebulição: bullitio sive parturitio...   ...fervens...   ...in se fervens et in se ipso  et in se ipsum liquescens et bulliens...  

 

   Nestes dias em que vejo menos gente, converso menos, sinto-me, como tantos outros, tentado a comprazer-me no meu isolamento, como se encerrar-me fosse decisão minha e subitamente me tornasse senhor do meu ser em relação, como naquela canção do dentista cansado da amante e da família e sonha poder existir só em si, por si e para si: I, Me and Myself... E quiçá gostaria de me esquecer dessa pura presença do Ser Absoluto e sem carência, do Quem é tudo em todos.

 

Mas eis que essa presença ferve sempre, em mim e nos outros, lembra-me que só o encontro da relatividade de cada um de nós nos poderá, como quem abraça, conduzir ao Ser.

 

   E assim me pensossinto mais próximo de todos esses profissionais de saúde, de limpeza e higiene, de produção e distribuição de bens essenciais, de segurança e transporte, de organização e logística - que nos vão permitindo usufruir de um descanso relativo, que certamente lhes é negado pela necessidade e dever de serem, nestas horas difíceis, a parte de nós que está alerta e funcional.

 

   Assim se me torna claro o pensarsentir a alteridade, não como estranha, mas antes como minha, nossa de cada um. Diz bem frei Bento Domingues, no Público do passado domingo, dia 22, que a ética samaritana, sem qualquer invocação religiosa, obriga-nos a todos, ontem e hoje. O que significa que ninguém está dispensado de procurar aprender a descobrir novos modos de responder à pergunta fundamental da condição humana: em que posso e como posso ajudar? O pregador dominicano será, penso eu, uma das poucas vozes genuinamente evangélicas da Igreja portuguesa, cuja nomenclatura clerical continua com forte propensão a privilegiar a prática de rituais com fezadas milagrosas e a discursar em jeito meloso, banalizador e pretensiosamente poético, sobre benefícios "espirituais" de ensimesmamentos religiosos.

 

   Leio frei Bento: Este período de quarentena - a quaresma inesperada - não pode servir para criar em nós uma religião intimista, uma mística de olhos fechados para as carências múltiplas das pessoas, sobretudo das mais sofredoras e isoladas.

 

Na verdade, não nos devemos esquecer de que o período difícil que atravessamos será, quando confrontado com situações similares noutras épocas da história humana, menos aflitivo e angustiante. Desde já, não porque haja termo próximo ou cura imediata à vista, mas por que os meios técnicos e logísticos nos permitem e facultam, apesar do imprescindível isolamento, condições de proximidade, contacto e assistência, muito melhores. [Imaginemos ainda o que poderá acontecer nos casos de propagação da pandemia por áreas do mundo habitado em que as infraestruturas, a disponibilidade e acessibilidade de cuidados, não possam agora ser tão bem asseguradas].

 

   Saibamos pois aproveitar as graças de que beneficiamos por via dos aparelhos técnicos ao nosso dispor para sermos a presença do próximo junto dos que estão mais sós e abandonados. E que desses contactos, por telefone, "sms" ou correio eletrónico, nasça também uma consciência nova da nossa humanidade comum, que Quem fará fervilhar em novas ideias e iniciativas pela desejável justiça e paz do nosso mundo novo. Concordas, Princesa?

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O prémio literário mais prestigiado no Japão é o Akutagawa, que, além de ser distinção de talentos das letras nipónicas, é, pelo seu próprio nome, uma memória e uma homenagem ao grande escritor da era Taisho que foi Ryunosuke Akutagawa, morto aos 37 anos de idade, em 1926. Nas duas noites passadas o meu gosto da leitura deliciou-se com alguns dos seus contos (ou novelas breves), entre eles o saborosíssimo Nezumi-Kozo, história de um Robin Hood japonês ou, melhor, do desmascaramento de uma personagem pela sua própria ironia. Seguindo a narrativa feita pelo próprio, somos transportados para um teatro de Kabuki, onde assistimos ao desenrolar estoirar da farsa que o romancista seu autor apresenta assim (traduzo):

 

   Tradicionalmente, no Japão, Nezumi-Kozo (1795-1802) é apresentado como um ladrão cavalheiresco que tirou aos ricos para dar aos pobres, e bem pode ser chamado Robim dos Bosques japonês. É geralmente aceite que ele era um mestre de «ninjútsu», a arte de nos tornarmos invisíveis, e que levava um saco de «nezumi» (ratos) quando assaltava casas de «daimyo» (senhores feudais), e os soltava para enganar os dorminhocos que acordassem, fazendo-lhes crer que o barulho era feito pelos ratos. Em japonês, «kozo» quer dizer «aprendiz» ou «ouriço». [Pessoalmente, pensossinto-me melhor traduzindo por diabrete... Digo isto porque, em inglês, «urchin», referido a um garoto, significa travesso...]     

  

   Nos anos que se seguiram à revolução de 1868, que derrubou o shogunato e restaurou o poder executivo do imperador, as peças de kabuki que tinham Nezumi Kozo por protagonista e herói ganharam imensa popularidade entre o povo japonês, acabado de se emancipar do feudalismo que, durante séculos, impusera uma rígida hierarquia de quatro castas, assim ordenadas do topo para baixo: militares, agricultores, industriais e comerciantes. Por isso, a gente do povo se deliciava e divertia com representações que diminuíam ou gozavam os antigos senhores feudais, seus governantes, e os respetivos sequazes que, de todas as maneiras possíveis, os tinham sujeitado a vexames e humilhações, hoje dificilmente imagináveis.

 

   A história que aqui apresento é um episódio, em jeito de farsa, do popular e tradicional herói num palco de kabuki.

 

   E agora, Princesa de mim, cabe-me resumir para ti a farsa contada por Ryunosuke Akutagawa. A história começa em Edo (a atual Tokyo no shogunato Tokugawa), numa taberna em que dois velhos amigos vão saboreando conversa e saké. Um deles, com ar imponente e aspeto de forte, vai evasivamente falando da sua ausência de três anos, aliás menosprezando a fama de justiceiro e carrasco de ladrões que o outro encomiasticamente lhe atribui, tal como minimizando o facto da própria fama ser jubilosamente festejada pelo povo, feliz com o seu regresso. Pessoalmente, pensa que noutros tempos as pessoas eram melhores, mais interessantes, e até havia ladrões com classe, como Nezumi Kozo. Falando neste, confessa que a lembrança dele lhe dá riso, por causa de algo que lhe aconteceu, há precisamente três anos, quando deixara Edo.

 

   Encontrara na estrada um comerciante simpático que, por seguir para o mesmo destino, se fizera seu companheiro de jornada. Assim, ambos pernoitaram na mesma estalagem, depois de jantarem e beberem juntos. Pesadamente adormecido com ajuda do éter ingurgitado, o nosso homem, pela madrugada, ainda sentiu que uma mão estranha lhe vagueava pelo leito e encontrava a bolsa presa ao cinto apertado, tentando furtá-la... Num "Ai, Buda!" (o "Ai Jesus!" local), prende tal mão torce-lhe o braço, atira ao chão o candidato a ladrão. O ruído da peleja acordou outros hóspedes, trouxeram luzes e, para surpresa de todos, reconheceu-se o homem dominado no chão: era o horado comerciante, companheiro de viagem. Logo ad hoc se reuniu um tribunal popular, perante o qual o frustrado gatuno se defendeu, dizendo que procedera com a louvável intenção de tirar a um rico para dar a muitos pobres. Instado a ser mais claro, acaba por confessar que, na verdade, é o mui famoso Nezumi Kozo. Espera, pois, que a popularidade de um herói nacional o salve da condenação. Só que o "nosso imponente fortalhaço" lhe troca as voltas, interrogando-o sobre a pretendida identidade, enquanto o vai avisando de que, se fosse ele mesmo juiz, não perderia a oportunidade de deter, julgar e condenar tão manifesto e descarado ladrão: ao crime agora presente, juntaria com gosto os muitos outros que a fama do outro por aí tem proclamado. Acossado, desorientado, aflito, o desgraçado comerciante lá se retrata e retira, sem cheta, debaixo de um coro de gargalhadas...

 

   Voltando à conversa dos dois velhos amigos naquela taberna de Edo, depois de contada a divertida ocorrência: "Afinal, pergunta o ouvinte ao narrador, ele não era mesmo o Nezumi, nem sabia quem este era?" - "Acho que não."  - "Tens a certeza?" - "Tenho." - "Porquê?". - "Porque o Nezumi Kozo sou eu..."

  
Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Vai curta a carta, começa apenas a cumprir a promessa, que te fiz, de falar da gastronomia na cultura japonesa. Hoje, vamos contemplar um aspeto da circunstância estética do gosto de comer, prazer que começa, precisamente, por um olhar. E regresso ao Inei Raisan (Elogio da Sombra) do "nobel" Junichiro Tanizaki, livro que também recomenda a utilização de lacas como continentes de sopas servidas. Sem propriamente seguir a ordem do texto do romancista japonês, irei traduzindo trechos do que ele nos quer dizer:

 

   Já houve quem dissesse que a cozinha japonesa não é coisa que se coma, mas coisa que se contempla. Assim sendo, vejo-me tentado a dizer melhor ainda: não só que se contempla, mas que se medita! Tal é, com efeito, o resultado da silenciosa harmonia entre o tremeluzir das velas na sombra e o reflexo das lacas. Outrora, Mestre Soseki [Natsume Soseki - 1867-1916 - foi um dos maiores escritores da era Meiji] celebrava no seu romance Kusa-makura (1906) as cores dos yokan [pasta gelatinosa da feijão encarnado e agar-agar, açucarada e com sabores a frutos vários] e, de certo modo, penso que tais cores também nos podem levar à meditação. A sua superfície tremida, meio translúcida como um jade, a impressão que dão de absorver até na própria massa a luz do sol, de envolverem uma claridade indecisa como um sonho, esse profundo acordo de tintas, essa complexidade, nada disso poderemos encontrar em qualquer bolo ocidental. Compará-los a qualquer creme seria superficial e ingénuo.

 

   Vamos então dispor, num prato de laca para bolos, essa harmonia colorida que um yokan é, colocai-o numa sombra que torne difícil discernir-lhe a cor, e ele ficará ainda mais propício à contemplação, E quando, finalmente, levarmos à boca essa matéria fresca e lisa, sentiremos a derreter-se na ponta da nossa língua como que uma parcela da obscuridade da sala, solidificada numa massa doce, e descobriremos nesse yokan que, afinal, até é um tanto insípido, uma estranha densidade que lhe realça o gosto.

 

   O caldo de miso encarnado, por exemplo, que tomamos todas as manhãs: basta olharmos-lhe para a cor para facilmente compreendermos que tenha sido inventado nas sombrias casas de outrora. Aconteceu-me certo dia que, convidado para um chá, me tivessem servido, a ferver, sopa de miso, cor de tijolo, da tal que já tantas vezes comera sem lhe prestar muita atenção; desta feita, porém, ao vê-la à luz difusa das candeias, no fundo de uma tijela da laca preta, descobri-lhe uma verdadeira profundidade e um ar mais apetitoso.

 

   É assim também com o shoyu, sobretudo quando nos servimos dele, como se faz na região de Kyoto, para temperar peixe cru, legumes confeitos ou cozidos, daquela variedade espessa que se chama tamari. Tal molho oleoso e luzidio tem melhor aspeto se visto na sombra, em perfeito acordo com a obscuridade. Por outro lado, o miso branco, o tofu, o kamaboko, os peixes brancos e todos os alimentos brancos não podem ser valorizados se se iluminar o ambiente. E, desde logo, o arroz, cujo aspeto, quando é apresentado numa caixa de laca negra e brilhante, disposta num canto obscuro, satisfaz o nosso sentido estético e logo nos abre o apetite. Esse arroz imaculado, cozido no ponto, acumulado numa caixa preta, no instante em que se levanta a tampa desta, emite um vapor quente, e cada grão brilha como pérola. Não há japonês algum que, ao vê-lo, não sinta a sua insubstituível generosidade. Aqui chegados, damo-nos conta de que a nossa cozinha se acorda com a sombra, e de que entre ela e a obscuridade existem laços indestrutíveis.

 

   Não vou aborrecer-te, Princesa de mim, com explicações pormenorizadas do que é o shoyu (molho ou tempero de soja), o kamaboko (pasta de peixe cozido a vapor), e quejandos. Desculpar-me-ás também da exiguidade de texto escrito por mim mesmo, mas a tradução deu-me muito trabalho... E penseissenti que soaria mal ser eu próprio a falar com tanta convicção da cozinha do Japão. Lembro-me sempre deste e de outros escritos quando como japonês, pois ao sabor de uma cozinha tão diferente da nossa eles acrescentam outra dimensão, espiritual talvez, num jeito bem diferente do consumismo reinante.

  
Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os Jotas festejam este ano dez de casados. Assim, João e Joana, felizes autores de três descendentes diretos, todos varões, vão passar umas férias de mel no Japão. Pediram-me umas sugestões de itinerários e estadias (o João, em solteiro, já passara uma temporadazinha em nossa casa, em Tokyo), procuraram outras também, e lá traçaram programa e percurso nipónico. Faço votos de boa viagem e feliz encantamento por uma terra que julgo conhecer tão bem quanto me foi possível e que pacificamente amo.

 

   Entretanto, dizem-me que Kamakura, cidade antiga e de muitos templos será uma das suas etapas. Curiosamente, na semana passada, os dois livros que me ajudaram a mobilar umas horas de insónia tratavam ambos de cozinha e gastronomia japonesa: Sandwich wa Ginza de, da escritora Yoko Hiramatsu (versão francesa pelas Éditions Picquier em 2019: Un sandwich à Ginza) e Kodoku no Gourmet, do mangaka Jiro Taniguchi (versão francesa pela Casterman em 2016: Les Rêveries d´un gourmet solitaire). Em japonês, kodoku significa solidão, isolamento, e Taniguchi, com guião de Masayuki Kusumi, desenhou dois livros sobre um petisqueiro abstémio que gosta de, solitário, ir experimentando a gastronomia de vários restaurantes de diversas cozinhas. Penso que, em português, um título que diria bem o conteúdo da obra seria "Deambulações e Devaneios dum Petisqueiro Solitário". Ou talvez devesse antes dizer Solteiro, em vez de Solitário, lembrado duma sonora gargalhada do Avô do Jota, o embaixador João de Deus Bataglia Ramos, há uns bons sessenta anos, em plena baixa lisboeta, quando, de passeio com ele e o filho mais velho, outro João de Deus, tio e padrinho deste Jota de que te falo, e meu querido amigo, larguei uma evidência que me houvera ocorrido: "De repente, percebi que ser solteiro quer dizer andar à solta!" Ao escrever-te esta carta, recordo-me dessa referência, creio que sem prejuízo das razões que seguidamente explano, e a pensar sugerir aos Jotas um certo almoço em Kamakura.

 

   O templo de Komyo (o Komyo-ji) é budista, foi fundado no século XIII por um mestre da seita ou escola de Jodo-shu, ou da "Terra Pura", creio eu ; ganhou fama, ultimamente, pelas refeições vegetarianas que serve a visitantes turistas. A Yoko Hiramatsu lembra-nos que shoguns antigos dedicaram este templo ao estudo, mas que, hoje em dia, é um jovem cozinheiro, Takashi Ueda, do restaurante Miyokawa, conhecido em Kamakura, o autor e diretor das ementas respeitadoras das regras dietéticas e culinárias budistas que são servidas no templo. Apesar da sua juventude, o chefe Ueda é um mestre na preparação do caldo budista, arte básica daquela cozinha. Diz ele que manda vir de Hokaido, no norte, as algas kombu, e do Kyushu, no sul, os cogumelos secos shiitaké. "Para o caldo, utilizo meia centena de algas e uns noventa cogumelos. Na cozinha budista, é costume preparar-se um caldo gostoso e rico que sirva depois para uma série de pratos, desde sopas a guisados". [Sabes bem, Princesa de mim, porque já provaste, que também eu me entretenho, por vezes, a fazer uns caldos de cogumelos variados e dentes de alho, a que junto folhas de espinafre ou agriões, e um fio de azeite, para uma abençoada sopa!]

 

   A Yoko descreve-nos a "Ementa do Exegeta" do chefe Ueda, que ela provou, para saudar a Primavera, em fins de fevereiro. Traduzo:

 

      Prato liso: feijões pretos, confeito de legumes da horta do Komyo-ji, gengibre "myoga" com vinagre doce, favas "à jade".

 

      Prato fundo: pele de tofu, taro, beringela descascada, algas hijiki com massa de glúten, ervilhas.
      Prato liso: rolo de pele de tofu fresco com pepinos e acompanhamento, flores de wasabi.
      Prato liso: tempuras budistas (angélica do Japão, beringela, abóbora menina).
      Taça: feijão verde em caldo me "miso" e sésamo.
      Tacinha: tofu com sésamo (wasabi e molho de soja perfumado).
      Tijela de arroz com legumes.
      Pires: três legumes em salmoura.
      Tijela de sopa de batata doce (batata doce, "daikon", cenoura, lâminas de tofu frito, bardana, alho porro).

 

   A escolha dos legumes e flores presentes obedece ao propósito de configurar a ementa à celebração do advento da Primavera, que os filhos do Império do Sol Nascente iniciam na segunda metade de fevereiro. Assim, também a decoração dos pratos e taças em que tudo é servido se inspira de imagens e símbolos da estação em que a natureza parece renascer. Este princípio aplica-se também nos restaurantes e refeitórios que não fazem cozinha budista nem sequer vegetariana.

 

   A oração antes da refeição vem escrita no invólucro dos pauzinhos para comer, e reza assim: 

 

      Recebemos este alimento
      No respeito dos benefícios da natureza
      E com gratidão pelo trabalho que foi feito.
      Após dez encantações
      Comecemos o repasto.

 

   A ação de graças está sempre presente nas refeições japonesas, faz mesmo parte essencial da devoção xintó-budista à natureza e ao mundo todo. O nosso "bom proveito" ou " bom apetite", pronunciado no início de qualquer refeição partilhada, diz-se "itàdàkimás!" em japonês, isto é, "demos graças!"

 

   Acabada a mesma, os convivas, de mãos postas para orar - e, nos mosteiros budistas, a convite de um monge assistente, que apenas aparece antes e depois do ágape - recitam esta reza:

 

      Terminada a nossa refeição, com o espírito e o corpo satisfeitos
      Retomamos as nossas atividades
      E comprometemo-nos a honrar este dom.
      Recitemos dez encantações
      Para agradecer este repasto.

 

   Não concluas, Princesa de mim, que ação de graças, respeito pela natureza e pelo trabalho humano, tal como a prestação de honras aos produtos consumidos, são exclusivos do budismo vegetariano mais rigoroso ou de qualquer religião ou filosofia. Na cultura nipónica, o ser humano é indissociável da natureza que o cria e da qual depende. Vou trazer-te uma curiosa ilustração, traduzida do "Sanduíche em Ginza" da Yoko Hiramatsu, que relata a sua experiência de um almoço de tsuki-nabe, em Hira-Sanso, na região de Shiga, a noroeste de Kyoto. São curtos trechos, mas muito elucidativos:

 

   O senhor Matsubara, caçador, diz-me que, «no Inverno, os ursos são três vezes maiores do que no Verão, porque têm de se preparar para passar três meses sem comer nem beber. As bolotas são o seu alimento preferido. Da Primavera a meados do Verão, comem amoras e também se alimentam da seiva dos cedros e carvalhos». O urso é o mensageiro da montanha, o servo da floresta. Eis, sem dúvida, o que confere à sua carne delicadeza e generosidade. A sua gordura imaculadamente branca e luzidia é a banha das bolotas e das árvores...

 

   ... Na manhã seguinte, no coração do Inverno, a estalagem de Hira-Sanso está banhada de uma luz muito terna. Ao longe, os montes estão envoltos em bruma matinal. Na floresta recôndita, os ursos estão certamente adormecidos, todos enrolados. Ontem, o senhor Ito explicou-me a origem do "tsuki-nabe", o "cozido de urso":

 

   «O urso come-se quando neva, antes da eclosão das flores na Primavera. Fui buscar um caracter à trilogia neve, lua, flores - tão cara a poetas e pintores - e escolhi tsuki (lua) para dar nome a este prato».

 

   Ontem, o urso, trazendo consigo a terra de Hira, penetrou-me no corpo. Comer seres vivos é uma maneira dos humanos marcarem o seu respeito pela natureza, de lhe exprimirem gratidão, de acompanhá-la. Senti-o profundamente.

 

   Ando a matutar, Princesa de mim, a divagação, em próximas cartas, por vários temas referentes à gastronomia japonesa, quer de índole religiosa ou filosófica, quer a tradições e superstições populares, quer, ainda, ao calendário e estações do ano, como a estéticas e etiquetas, à literatura e às artes plásticas e decorativas... A arte da mesa é, na verdade, uma festa contínua, um banquete de reunião da cultura nipónica. E como pensei em sugerir aos Jotas dois restaurantes especializados em kaiseki (dois ryotei), apenas lembro que tal estilo de refeição em 12 a 14 pratos os escolhe e dispõe atendendo a diversos tipos de culinária, de modo a contrastar paladares. Já te escrevi sobre isso, e creio que lhe fiz um apontamento para o meu Fomos em Busca do Japão. O primeiro desses ryotei, o Nanzen-ji Hyotei, situa-se em Kyoto Oriental, na zona do templo de Nanzen, quase visita obrigatória. O outro, o Waranji-ya, também em Kyoto, já foi por mim descrito numa das cartas para ti, com uma recordação do grande escritor Junichiro Tanizaki: Os compartimentos particulares do Waranji-ya são salinhas de quatro tatami e meio (+ ou - 7m2) em que o toko-no-ma e o tecto têm manchas escuras, dando uma impressão de escuridão que nem um candeeiro elétrico consegue totalmente eliminar. Mas substituindo o candeeiro por um castiçal, descubro, à luz tremente da chama, que as lacas ganham reflexos profundos e densos como pântanos. Eis um encanto novo que nos deixa compreender como os nossos antepassados, ao descobrirem esse unto a que chamamos laca, se tinham deixado encantar por esse lustro das cores do utensílios, e que tal não fora certamente obra do acaso.

 

   Mas se, sempre em Kyoto, a par ou em vez de uma refeição de luxuoso requinte, os nossos Jotas - ou tu, Princesa - quiserem, antes ou também, descobrir o espírito culinário zen, vegetariano e rigoroso, poderão ir até ao Isuzen, no mosteiro Daitoku-ji, na zona norte da cidade, onde o almoço lhes será servido em teppatsu. As teppatsu são malgas de ferro, iguais às que, em tempos idos, os monges levavam para pedir esmola.

 

Camilo Maria

Camilo Martins de Oliveira

FRANCISCO NO JAPÃO: É "IMORAL" O USO E A POSSE DE ARMAS NUCLEARES

 

Francisco realizou o seu sonho de jovem: ser missionário no Japão. Foi de lá que, na semana passada, enviou para o mundo mensagens essenciais para o futuro da Humanidade.

 

1. Entre essas mensagens, clamou por uma “ecologia integral”, atendendo, portanto, também à ecologia humana, que exige solidariedade; deixou claro que é necessário combater “o fosso crescente entre ricos e pobres”; “a dignidade humana deve estar no centro de toda a actividade social, económica e política, sendo necessário fomentar a solidariedade inter-geracional”; “sabemos que, em última análise, a civilização de cada nação e povo não se mede pelo seu poder económico mas pela atenção que dedica aos necessitados bem como pela capacidade de tornar-se fecundos e promotores da vida”; clamou contra “o eu isolado”, contra o bullying e os excessos do consumismo compulsivo, pedindo concretamente aos bispos que ajudem os jovens contra o bullying e os suicídios, já que em cada ano no Japão 30.000 pessoas, na sua maioria jovens, acabam com a vida; advertiu contra o carreirismo, a competição excessiva na busca do lucro e da eficiência, o êxito a qualquer preço: “a liberdade pode ver-se asfixiada e debilitada quando ficamos encerrados no círculo vicioso da ansiedade e da competitividade ou quando concentramos toda a nossa atenção e as melhores energias na procura sufocante e frenética de produtividade e consumismo como único critério para medir e validar as nossas opções e definir quem somos e quanto valemos”; apelou ao sentido do maravilhamento e da admiração frente “à imagem das cerejeiras em flor”; embora a Igreja Católica seja minoritária (menos de 0,5% da população, sendo a maioria dessa minoria constituída por trabalhadores estrangeiros), “isso não deve tirar força ao vosso compromisso com uma evangelização cuja palavra mais forte e clara é a de um testemunho humilde, quotidiano e de diálogo com outras tradições religiosas”; “o anúncio do Evangelho da Vida impele-nos e exige, como comunidade, que nos convertamos num hospital de campanha, preparado para curar feridas e oferecer sempre um caminho de reconciliação e perdão”; na Universidade Sophia de Tóquio, dos jesuítas, renovou as suas críticas ao “paradigma tecnocrático” ao mesmo tempo que pediu que “os grandes avanços tecnológicos de hoje possam colocar-se ao serviço de uma educação mais humana, justa e ecologicamente responsável.”

 

2. Há muitos anos, encontrei-me em Paris, na sua casa, com o célebre filósofo Jean Guitton, e foi ali que eu percebi até ao mais fundo como, com o nuclear e as primeiras bombas atómicas lançadas sobre duas cidades do Japão, a Humanidade agora sabia o que é o apocalipse no sentido da possibilidade do fim do mundo.

 

Foi com este propósito primeiro de pedir e exigir o desarmamento nuclear total, quando  o mundo se confronta com 9. 000 armas nucleares prontas para serem disparadas, que Francisco pisou pela segunda vez território nipónico (a primeira aconteceu quando era Provincial dos jesuítas na Argentina). Nas duas cidades, reiterou a exigência de que “nunca mais, na História da Humanidade, volte a acontecer a destruição gerada pelas bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki.” Para isso, tem de haver uma tomada de consciência crescente de co-responsabilidade entre as nações. É preciso “recordar, caminhar juntos, proteger”. Em Hiroshima, onde o relógio ainda marca as 8.15, a hora em que pela primeira vez caiu uma bomba atómica, que matou num instante 80.000 pessoas, foi claro: “O uso da energia atómica com fins de guerra é imoral. Seremos julgados por isto. As novas gerações levantar-se-ão como juízes da nossa derrota, se falarmos da paz, mas não a realizarmos com as nossas acções entre os povos da Terra.” Dirigindo-se indirectamente aos nove países que detêm armamento atómico (Estados Unidos, Rússia, França, Inglaterra, Israel, China, Índia, Paquistão, Coreia do Norte), foi contundente, indo além da condenação do seu uso: “A posse e fabricação de armas atómicas é imoral”, “um crime contra o futuro”. Em Nagasaki, afirmou que a paz e a estabilidade internacional  são incompatíveis com a tentativa de construir sobre o medo e o terror da mútua destruição ou sobre a ameaça da aniquilação total, adiantando que o dinheiro usado para armas nucleares teria excelente destino, se gasto em erradicar a pobreza. E chamou as fortunas gastas ou ganhas para fabricar, modernizar e vender armas cada vez mas destruidoras enquanto “milhões de crianças e famílias vivem em condições infra-humanas”, um “atentado contínuo que brada aos céus”.

 

Já de regresso a Roma, na habitual conferência de imprensa, voltou insistentemente ao tema, reiterando o dito no Japão, mas acrescentando que é doutrina que fará parte do Catecismo: “O uso de armas nucleares é imoral: isto deve ser incluído no Catecismo da Igreja Católica. E não só o uso, também a sua posse. Porque penso na loucura de um governante, na loucura de alguém que pode destruir a Humanidade. Pensemos no dito de Einstein: ‘a Quarta Guerra Mundial far-se-á com paus e pedras’.” Apelou a uma nova ordem mundial, na qual desapareça o “direito de veto” das cinco grandes potências (Estados Unidos, Rússia, França, Reino Unido e China) do Conselho de Segurança das Nações Unidas: “Talvez as Nações Unidas devessem dar um passo adiante, renunciando no Conselho de Segurança ao direito de veto de algumas nações. Não sou um técnico nisto, mas seria bom que todos tivessem o mesmo direito”, lutando juntos contra o armamento.

 

E o direito à legítima defesa, quando um país é atacado por outro? “A paz hoje é muito débil, mas não se deve desanimar. A hipótese da legítima defesa permanece sempre, inclusivamente na Teologia moral deve ser contemplada, mas como último recurso. Acentuo: último recurso com as armas, a legítima defesa deve fazer-se com a diplomacia, com as mediações. Sublinho: último recurso. Estamos a avançar num progresso ético que a mim, ao questionar todas estas coisas, me dá muita alegria.  Isto é belo: que a Humanidade também continue a progredir no e com o bem, não só com o mal.”

 

Interrogado sobre a pena de morte, ainda vigente no Japão, respondeu: “Há quinze dias fiz um discurso à conferência de Direito Penal internacional e falei seriamente sobre o tema. A pena de morte não pode existir, não é moral. Inclusive quanto à prisão perpétua devemos pensar como o condenado perpétuo se pode reinserir, dentro ou fora. Dir-me-á: mas há condenados por um problema de loucura, doença, incorrigibilidade genética... Nessas circunstâncias, é preciso procurar o modo de terem actividades que os façam sentir pessoas. Em muitas partes do mundo, as cadeias estão superlotadas, são depósitos de carne humana, de tal modo que, em vez de crescer com saúde, muitas vezes os condenados corrompem-se.”

 

Falando em corrupção, reconheceu que também existe no Vaticano, mas garantiu que os corruptos serão levados a julgamento. Agora, “o sistema de controlo do Vaticano funciona bem.”

 

3. Nessa conferência de imprensa, reafirmou que “gostaria de ir a Pequim, eu amo a China”.

 

Depois destas palavras, o governo chinês destacou o “gesto de boa vontade” de Francisco: a China “aprecia o gesto de boa vontade mostrado pelo Papa Francisco e está a aberta a intercâmbios com o Vaticano”, referiu o porta-voz da Chancelaria chinesa, citado pela versão em inglês do diário oficial Global Times.

 

Houve quem, por exemplo, o sítio Religión Digital, visse nesta declaração a possibilidade de uma futura visita do Papa a Pequim. É de notar que, ao sobrevoar o espaço aéreo da China e de Taiwan, Francisco utilizou termos diferentes: enviou saudações à “nação” da China, mas saudações ao “povo” de Taiwan e referiu-se a Hong Kong como “território”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 DEZ 2019

A ESTÉTICA DO EFÉMERO - I

  

Por qualquer razão, ou nenhuma, pareceu-me curial iniciar a publicação de post scripta, isto é, escritos posteriores às minhas cartas à Princesa de mim, apontamentos anotados na sequência delas, quer porque os redigira e não enviara, quer porque apenas os rascunhara para outros textos de reflexão. Reencontrados agora, apresentam, quanto a mim, uma virtude rara: a de descobrirem momentos de um qualquer discurso do meu pensarsentir, sem pretender concluir mais além do que a sugestão de caminhos para o entendimento de culturas que povoam a terra nossa, com as suas condicionantes e aparentes divergências, convergências, contradições e semelhanças. Sem pretender ensinar seja o que for, mas apenas recordar o que nos ajude a aproximar-nos. Não trago teses, trago hipóteses talvez só adivinhadas, mais insinuadas do que expostas.  

 

          Haru wa hana                     À Primavera as flores

          Natsu hototogisu               Ao Verão o cuco               

          Aki wa tsuki                        Ao Outono a lua

          Fuyu yuki sae te                 Ao Inverno a neve

          Suzushi kari keri                Cristalina  imaculada

 

   Este poema encontra-se no cancioneiro Shobogenzo (abram os ós e leiam guê) que Mestre Dogen (idem para a pronúncia do nome) redigiu entre 1231 e 1253, ano de sua morte. Tal coletânea é obra marcante e reveladora da cultura e da literatura japonesas: na verdade, todos os waka que a compõem foram escritos em japonês clássico. Mas, como nos esclarece Yoko Orimo no seu inspirador Comme la lune au milieu de l´eau, Art et spiritualité du Japon (Le Prunier, Sully, Paris, 2018) -, feitas as contas, mais não são do que traduções e comentários de sutras e textos escritos em chinês...   ... No seio do espaço literário essencialmente compósito da obra, concebido e estruturado como espelho sem estanho, o japonês e o chinês mutuamente se refletem. E é graças ao reflexo dessas duas línguas e civilizações, simultaneamente tão próximas e tão diferentes, que conseguimos ver e entender o que ainda não tínhamos visto nem entendido até agora...

 

   Esta autora japonesa, diplomada pela École Pratique des Hautes Études de Paris é sobretudo conhecida, precisamente, pela sua tradução e interpretação do Shobogenzo - a verdadeira Lei, Tesouro do Olhar (Sully, Vannes, 2014), de Mestre Dogen (1200-1253). Talvez por aqui inicie ela a sua interpretação da cultura japonesa como cultura de empréstimo, ideia que não andará muito longe da de outros, mas sempre no sentido em que Shusaku Endo nos fala da assimilação pelo "pântano" japonês, que tudo engole, digere e devolve seu. Tenho para mim, e não só, que a caraterística marcante da cultura japonesa - tal como entendo o que é uma cultura - é o seu extraordinário poder de assimilação de outras, sempre concomitante à sua perseverança em ser ele própria.

 

   Mas prefiro hoje abordar a questão do tempo como essência da própria cultura nipónica. Em cartas muitas à minha Princesa de mim falei da perceção e cultura do efémero como forma de espiritualidade... Sobre outras teses da presença essencial do tempo em culturas como a do Sol Nascente, talvez diga que sim, mas enquanto momento. Arrisco então a hipótese de que o instante no tempo circular é como eternidade, essência mais do que efeméride.

 

   Será isto mais difícil de entender em mentes que pensam em tempo escatológico.  Todavia, também nós, os que vivemos em culturas de forte sentido escatológico, muita vezes nos surpreendemos a viver, pensarsentir ou desejar como eternidade um instante só. Então dizemos que, durando apenas um minuto ou uma hora, nos pareceu uma eternidade. Poderá ter sido assim por força do nosso lado passivo, sofredor ou ansioso. Ou, para nossa satisfação, por virtude desta nossa entranha amante, ou por essa aspiração à completude perfeita que, para tanto ser, só é concebível na intemporalidade, num algures ainda desconhecido e, como tal, quiçá um nenhures a que chamamos utopia. Assim imaginaremos a nossa ressurreição possível apenas noutro mundo, ou num universo transformado, como a face da terra renovada pelo Espírito, tudo isso, afinal no final do tempo, quando a duração já não é possível, pois nenhuma mensuração poderá então fazer qualquer sentido.

 

   Em tempo circular, já os instantes e suas manifestações próprias se sucedem em roda de eterno retorno, como se a passagem das horas, dos dias, das luas e das estações fossem constante advento e regresso. Assim devemos entender aquele ditado japonês que diz que a flor é o espelho do tempo, pois que pela variação infinita das suas formas e cores, lembra-nos Yoko Orimo, a flor nos deixa ver o tempo: fazendo-se eco do que é nela invisível, a flor anuncia a estação que chega e que parte. Com esta inspiração devemos entender esse ensinamento de Mestre Dogen: A multidão de cores não está reservada apenas às flores, a multidão dos tempos também se reveste de cores como o azul, o amarelo, o vermelho, o branco, etc. A Primavera atrai as flores; as flores atraem a Primavera.

 

   Sobre esta intuição, Yoko Orimo elabora a seguinte premissa: Se a flor é o espelho do tempo, espelho que traz a imagem do invisível, o tempo é já, ele próprio, o espelho. E conclui: Refletindo-se a si mesmo e em si mesmo, o tempo torna visível a imagem deste Presente tal qual, Presente eterno. Já dizia Mestre Dogen que, sendo a imagem e o espelho apenas um, esse espelho é a Natureza. E Orimo esclarece que, contrariamente aos espelhos feitos por mão humana, o espelho que é a Natureza é um espelho sem estanho, «Não tem verso nem reverso, ambos os lados oferecem visão. Parecem coração e olho. E parecer significa que uma pessoa encontra outra» (Dogen)... A cada instante, em cada estação, a Natureza realiza a sua própria imagem, fazendo-se eco dela mesma e nela mesma, desde sempre e para sempre. Isto porque no coração da Natureza se encontra a Ressonância do universo. Nada mais além dessa Ressonância do universo, idêntica ao coração da Natureza, se cristaliza na Primavera em imagem de flores, no Outono em imagem da lua, no Inverno em imagem da neve.

 

   Assim a própria natureza se contempla nela mesma: ver e ver-se, o visível e o invisível, o dentro e o fora, a profundidade e a superfície são apenas um. E como essa visão da Natureza pertence ao coração da Natureza, o povo japonês diz que «A flor tem coração». E perante a terra toda coberta de neve, Mestre Dogen afirma: «todo o verso e todo o reverso estão cobertos de neve profunda. O universo inteiro é a terra do coração, o universo inteiro é sentimentos e emoções das flores!» Por paradoxal que pareça, só o coração da Natureza, puro e transparente como um espelho, cria a primazia da superfície na estética japonesa...

 

   Tal dimensão espiritual da Natureza, e a profunda comunhão do ser humano com ela, será o que explica a frase de Paul Claudel: Nesse belo e feliz país o natural e o sobrenatural são apenas um... Eu próprio que, desde muito novo, enveredei pela busca insistente da consistência de algo permanente, sendo aliás sempre curioso e sobretudo atento a processos de aculturação, tentei - talvez inspirado pela minha juvenil leitura de Teilhard de Chardin e de Lévy-Strauss - perceber melhor os progressos e falhanços das inculturações religiosas e filosóficas no Japão. Já falei bastante sobre isso, e até publiquei escritos dispersos, designadamente sobre os modos budistas de aculturação com o shintoísmo nativo, bem como o estigma de estrangeirado que sempre marcou o cristianismo naquela cultura. Sobre a seara que hoje escolhi para talho de minha fouce, nada repetirei do que já afirmei ou interroguei. Apenas traduzirei uns trechos da obra de Yoko Orimo aqui citada, que oportunamente introduzirei nestas reflexões sobre a estética do efémero. Por agora, regresso a lições colhidas em leituras da minha mocidade e que, pensossinto, paradoxalmente ainda hoje me ajudam a conviver melhor com espiritualidades inspiradas por outras diferentes filosofias, tal como por visões do universo e perceções do tempo certamente contrárias e aparentemente contraditórias daquelas em que fui criado. Ao melhor recordarmos raízes, troncos e ramos da nossa cultura nativa, tanto melhor nos aperceberemos das diferenças dos conceitos inerentes a discursos e sensibilidades diversas e, por exercício dialético, nos aproximaremos de um olhar comum do coração da humanidade.

 

   Assim, é curioso como o grande paleontólogo, antropólogo, visionário e místico, francês e jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin, autor de obras cujos títulos apenas já muito dizem (La Place de l´Homme dans la Nature; Le Phénomène Humain; Le Milieu Divin), evolucionista crente na obra de Deus como motor da história natural, suspeito de panteísmo pela Igreja, tenha começado a sua aventura interior, científica e mística, por um firme propósito de procura do imperecível e duradouro. Escreve um seu biógrafo, o dominicano Jacques Arnould - doutor em ciências e em teologia, investigador da vida e sua evolução e das dimensões éticas, sociais e culturais da chamada "conquista do espaço" - em Teilhard de Chardin (Perrin, Paris, 2005:

 

   Sempre em busca do imperecível e do duradouro, atravessa um período dito "do Ferro". Sessenta anos depois, escreverá em Le Coeur de la Matière: «Não devia ter mais de seis ou sete anos quando comecei a sentir-me atraído pela Matéria ou, mais exatamente, por algo que "luzia" no coração da Matéria». É verdade que, esclarece, sob a influência duma mãe tão piedosa como a sua, ele tem muito amor ao Menino Jesus. Todavia, reconhece, o seu "eu" está alhures nesses momentos em que, secretamente, se recolhe «na contemplação, na posse, na existência saboreada do seu "Deus de Ferro"». Uma chave de charrua encontrada no campo, ou um estilhaço de obus, a cabeça duma cunha de reforço, claro que metálica, emergindo dum soalho: eis uns ídolos que o miúdo literalmente adora. «E porquê o Ferro? e porquê, mais especialmente, tal pedaço de ferro (tinha de ser, o mais possível, espesso e maciço), só porque, para a minha experiência infantil, nada neste mundo era mais duro, mais pesado, mais tenaz, mais duradouro do que essa maravilhosa substância apanhada em forma tão plena quanto possível...» De que andará já à procura o rapazito de Sarcenat, que prefere o robusto coleóptero à muito frágil borboleta, a não ser da consistência e, sobretudo, do inalterável? «Até hoje (e sinto que até ao fim) essa primazia do Inalterável, isto é, do Irreversível, não cessou, não cessará nunca de marcar irrevogavelmente as minhas preferências pelo Necessário, pelo Geral, pelo "Natural" - por oposição ao Contingente, ao Particular e ao Artificial - tal disposição tendo, aliás, e por muito tempo, obscurecido a meus olhos os valores supremos do Pessoal e do Humano. Sentido da Plenitude, já nitidamente individualizado, e procurando já satisfazer-se pelo agarrar de um Objeto onde se concentrasse a Essência das Coisas». Ser-lhe-ão precisos muitos mais anos para descobrir «até que ponto a Consistência é então um efeito, não de "substância", mas de "convergência". 

 

     Agora, neste instante mesmo, cá estou eu a tentar olhar para isso a que se chama "Essência das Coisas" por diversas perspetivas, e procurando apor dois discursos diferentes, em vez de os opor. A perspetiva do tempo escatológico, prisma cristão, e a do tempo circular, não só prisma budista, mas shintoísta também e, na cultura japonesa, com a sua versão shinto-budista. Traduzo mais um trecho do livro de Yoko Orimo:

 

   Deve ressaltar-se que, no decurso do longo processo de aculturação do budismo em terra japonesa, se desenvolveu, sobretudo a partir do fim do século XI, o sincretismo shinto-budista, em cujo seio a pouco e pouco se operou uma revolução doutrinal acerca da noção de impermanência: mujo. Se o budismo antigo concebia, com forte pendor pessimista, a existência humana como que atirada para o oceano do sofrimento em que os seres transmigram infinitamente, para o shinto, o mesmo movimento perpétuo do aparecer e desaparecer neste mundo fenomenal mais não é do que o processo natural e global da regeneração da vida do universo, incitando o ser humano a contemplá-la e exaltá-la. Nos confins destas duas óticas espirituais radicalmente opostas [a budista antiga e a shinto-budista], o sincretismo shinto-budista acaba por proclamar que a impermanência é permanente enquanto impermanente e é precisamente a própria manifestação da natureza do Despertado (Buda) abraçando a vida de todos os existentes, incluindo minerais e vegetais.

 

   Regresso afinal à minha tradução e meditação do waka de Dogen, acima transcrito: a Primavera (haru) é flor (hana), como as flores são Primavera; o Verão (natsu) cuco (hototogisu), como é cuco o Verão que o pássaro do tempo (hototogisu) acorda; o Outono (aki) é lua (tsuki), e esta em suas fases passa pelo quarto minguante e outonal do ciclo; anunciando o Inverno (fuyu), neve (yuki) gélida que, cristalina, nítida, nos cobre como manto. Os perecíveis impermanentes da Natureza falam-nos da permanência da vida, fazem-nos ver o invisível. Também aqui descobrimos que a Consistência não é efeito da substância, mas da convergência do Espírito e da Matéria. Simultaneamente material e visível, espiritual e invisível.  Será?

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Em cartas passadas, falava-te de Vladimir Jankélévitch. Hoje, o meu amigo Marcello Duarte Mathias, chama-me a atenção para uma nota de pé de página (a 7, na pág. 362 do seu Caminhos e Destinos - A memória dos outros, tomo II), que reza assim: Numerosos intelectuais de confissão judaica sofreram idêntica dificuldade no seu relacionamento com a cultura germânica por virtude da perseguição aos judeus ocorrida durante o nazismo. Entre outros, é de citar o caso do filósofo francês Vladimir Jankélévitch (1903-1985). Germanista de formação, autor de uma tese sobre Schelling, melómano erudito e apaixonado, deixou de estudar os grandes filósofos alemães a par dos músicos do universo germânico Mozart, Brahms, Beethoven, Schubert, excluindo uns e outros do seu universo cultural, por mera força de vontade. Caso deveras excecional esta espécie de exílio mental imposto a si próprio, que redunda num corte radical com o passado, abolindo-o de vez. (Se tanto nos é possível...)

 

   Este conceito de exílio mental é, desde logo, por si mesmo fascinante, e tal fascínio vai finalmente iluminando o notável texto de Marcello Mathias, recolhido na obra acima citada com o título O Escritor e o Sentimento de Exílio.Tema mordente, ali abordado sob a bênção inspiradora destes versos de Saint-John Perse: Ô toi hanté, comme la mer, de choses / lointaines et majeures  (...)  La nuit où tu navigues n´aura-t-elle point son île, son rivage? / Qui donc en toi toujours s´aliène et se renie?

 

   "A ti que, como o mar, és perseguido por coisas / longínquas e maiores (...) Quando te dará a noite em que navegas uma ilha, uma costa? Quem será que em ti sempre se aliena e se renega?"

 

   Alguém sabe? Frequentemente penso nos intelectuais judeus  -  russos, romenos, alemães, austríacos e não só  -  que, desde os pogrom  do tempo do tzarismo às perseguições nazis, se depararam com crises de identidade, sobretudo os que mais se tinham assimilado a outras culturas, desde o austríaco Hertzl, que se tornou pioneiro do sionismo, movimento para encontrar uma pátria aos judeus rejeitados pelas suas pátrias europeias (e, no início, tal pátria não seria necessariamente na Palestina, chegando mesmo a estudar-se a possibilidade de uma localização na África subsaariana). Aliás, Theodore Hertzl, abastado burguês vienense, começou por procurar ajudar os judeus expulsos da Rússia pelos progom, e teve a revelação do problema da sua própria identidade ao dar-se conta de que aqueles eram pouco, mal, ou reticente e ressentidamente acolhidos pelas nações da Europa Ocidental.

 

   Voltando aos anos loucos do século XX europeu, interroguemo-nos agora sobre os sentimentos - e o próprio sentimento de si - dos judeus, e dos intelectuais judeus, apanhados pela ascensão e o "triunfo" do nazismo. Casos diferentes uns dos outros, em todos eles me impressiona a variedade de respostas encontradas para enfrentar o ostracismo votado à muito sua identidade, quiçá mista judia e de uma nacionalidade europeia. De Hannah Arendt - que perdoou Heidegger, por muito ter amado, sem todavia fazer qualquer desconto ao desvario nazi - a Stefan Zweig, que afinal não conseguiu digerir a sofrida desconsideração da sua identidade vienense, austríaca ("habsburgamente" vivida!), germânica e europeia, e se suicidou no Brasil, em 1945.

 

   Samuel Jankélévitch, pai de Vladimir, era médico e foi tradutor de Hegel, Schelling e Freud. Seu filho, o judeu filósofo e musicólogo franco-russo, foi pelo pai assim criado no gosto e amor da cultura germânica. Não me parece que o seu posterior alheamento de músicos e filósofos germânicos assinale o desejo de apagar o passado, antes talvez o de afastar ou alhear de si qualquer sinal de pertença a uma cultura de se sentiu repudiado... Creio que procurará revestir-se de outra identidade, esta já ligada às suas raízes russas e ao seu abrigo e alimento francês, permitindo-lhe fugir à apagada e vil tristeza que matou Zweig. Talvez isso também lhe tenha permitido perdoar aos que lhe "furtaram" uma identidade sua (pensa, Princesa de mim, quanto tanto poderá magoar), sem todavia o impedir de, já em 1976, ainda declarar: J´ai pour Heidegger une profonde aversion, et je vis sans m´en occuper... Certo, e verificável, no plano musical, é que ele tampouco se debruçou muito sobre música italiana, ou americana, ou outra, ainda que com notórias exceções, como Liszt, Chopin, Bartok, Falla ou Albeniz, Mompou, Dvorak, Smetana e Janacek... Orientou-se para Fauré, Saint-Saens, Ravel e Debussy, Rimsky-Korsakov, Tchaikovsky  e Stravinsky, franceses e russos. Creio que tinha muito afecto por Fauré, como já te disse, certamente Debussy, Ravel sendo todavia aquele sobre o qual mais escreveu (ainda guardo o seu Ravel, publicado na coleção Solfèges, da Seuil, em 1956, mas cujo original data de 1939, editado pela Rieder, em Paris, logo dois anos após a morte do compositor. Jankélévitch talvez procurasse outro som interior (e digo interior também porque ele não era amigo de discos, preferia partições e o seu piano), mais próximo dessa parte de si que já não queria ser o que lhe tinham tirado. Mas sobre o que poderá ser um som alemão, e outras sensações, te falo já de seguida, recorrendo às confidências do grande maestro japonês Seiji Ozawa ao seu compatriota, escritor universal, Haruki Murakami. [Só por graça - porque nada tem que ver com o que te irei contar, os apelidos Ozawa e Murakami, literalmente traduzidos por este curioso lusitano, querem dizer, respetivamente: Grande Pântano e Acima da Aldeia, que, substituindo o significado topológico de Kami pelo espiritual, eu traduzia por Espíritos da Aldeia... Nos meus anos de Japão, há mais de duas décadas, os meus amigos divertiam-se muito com estas minhas "observações"].

 

   Em 2011, a editora Shinchosa (que, atendo-me ao som destes romaji ou caracteres latinos, que fazem transcrições fonéticas, seria tentado a traduzir por Nova Investigação) publicava em Tokyo um livro intitulado (e volto a recorrer à transcrição da escrita em kanji e hiragana para romaji) Ozawa Seiji-san to ongaku ni tsuite hanashi o suru, isto é, em jeito simples, o Senhor Ozawa Seiji e a música, em conversas registadas. A versão inglesa desta memória de conversas do Maestro japonês com Murakami Haruki foi editada em New York, pela Penguin Random House em 2016., com o título de Absolutely on Music: conversations with Seiji Ozawa. Desta foi traduzida a versão francesa, intitulada De la Musique: conversations, com indicação de autoria de Haruki Murakami e Seiji Ozawa.

 

   O livro tem vários motivos de interesse, desde o facto de reproduzir conversas muito eruditas de dois japoneses sobre música ocidental clássica (se bem que ambos confessem o seu amor ao jazz), até à revelação de pormenores significativos do árduo labor dos músicos profissionais, que nunca deixam, não podem deixar, de treinar o ouvido musical, as expressões de toques e de gestos de execução e direção musical, a concentração e abertura necessárias aos possíveis entendimentos de uma partitura. E vão surgindo várias comparações de artes e artistas, de inspirações e acústicas, de momentos e de estilos. Tudo isso se lê com muito gosto e enriquecimento humano, e nos introduz num universo onde as pessoas se encontram, se reúnem e comunicam, quiçá todas em busca do mesmo sopro, nem sempre em harmonia, mas com as suas próprias dissonâncias.

 

   Ozawa foi maestro assistente de Bernstein e de Karajan, bem diferentes um do outro. E foi, durante umas três décadas, diretor musical da Orquestra Sinfónica de Boston, à qual pretendeu "dar um som alemão"... Mas durante a sua permanência no cargo pôde verificar como o som da Boston Symphonic mudava conforme os maestros que a dirigiam (e houve muitos maestros convidados). Traduzo-te um trecho das "confissões" de Seiji Ozawa:

 

   Cerca de dois ou três anos após a minha chegada, o som da orquestra mudou para se orientar para o estilo alemão puro e concentrado a que chamo «into the strings». Os músicos regulam o seu arco [fala de instrumentos de cordas, claro, maioritários na orquestra] de modo a obterem um som mais pesado. Até aí, o som da Boston Symphony tinha sido sempre claro e fremente, isso porque a música francesa constituía o essencial do seu repertório. Munch e Pierre Monteux tinham exercido sobre ela uma influência profunda: Monteux já não era diretor musical, mas permanecia omnipresente. Quanto a Leinsdorf, ele tampouco tinha fosse o que fosse de alemão.

 

   Comenta Murakami: Chegara portanto a hora da orquestra mudar de som... E Ozawa acrescenta:

 

   Eu queria mesmo fazer música alemã. Queria interpretar Brahms e Beethoven, Bruckner e Mahler. Assim, pedi que se tocasse «into the strings». Depois de me ter resistido algum tempo, o primeiro violino, Joseph Silverstein, acabou por me apresentar a sua demissão. Também era o chefe assistente, e detestava aquele modo de tocar. Achava que diminuía o som. Levantou fortes objeções mas, no final de contas, o chefe era eu, e ele pouco mais podia fazer, além de renunciar.

 

   Pelo apelido se percebe que Silverstein era judeu, mas também Bernstein o era, o que não o impediu de brilhar em Beethoven, Brahms e Mahler, nem de transmitir a Seiji Ozawa grande gosto por esses compositores. Mais tarde Daniel Barenboim, judeu ecuménico, dirigirá um dos mais notáveis registos da tetralogia wagneriana... O maestro japonês que se nos confessa, quando Haruki Murakami lhe pergunta se, tendo dirigido a Orchestre National de France, não estará tão bem com a música francesa como com a alemã, contesta:

 

   Não é bem assim. Estudei com o maestro Karajan, e a minha prática da música é fundamentalmente alemã. Mas depois da minha chegada a Boston, apreciei muito Munch e assim toquei muita música francesa. Dirigi as integrais das obras orquestrais de Ravel e Debussy, cheguei mesmo a gravá-las. Descobri a música francesa depois de ter ido para Boston. O maestro Karajan nunca me tinha mandado trabalhar esse repertório - quiçá com exceção do Prélude à l´après midi d´un faune... E confidenciará ainda que, antes de Boston, apenas interpretara a Sinfonia Fantástica de Berlioz, cuja música não só é difícil, mas demencial, ao ponto de, por vezes, eu já não saber bem o que lá se passa! Mas talvez por isso ela se preste tão bem à direção de um chefe asiático. Posso fazer dela o que quiser. Certo dia, em Roma, há muito tempo, dirigi a ópera Benvenuto Cellini. Pois bem: deixei-me levar, entreguei-me a todos os meus desejos. O público adorou.

 

   O universo da música: tempo e lugar etéreo de reunião numa linguagem única da partilha. Espaço de liberdade comum.

 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira