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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO


27. INEI RAISAN

 

O Elogio da Sombra, que Junichiro Tanizaki publicou em 1933, aos 44 anos, vinte anos depois de A Tatuagem, a primeira novela que editou, poderia -  penso eu muitas vezes - intitular-se também O Elogio do Silêncio. Para nós, a verdade das coisas é aquela que se descobre, que se traz ao de cima, que se manifesta. E esta atitude vale tanto para o naturalista, como para o impressionista, o cubista ou o abstracionista: todos eles afirmam uma visão própria, pretendem transmitir realidades tal como delas se apoderaram. Para o japonês, o que se procura, o que determina a entrega à contemplação, é o que não se vê. Olhar ou escutar - assistir a um concerto no Japão é perceber como o silêncio é participante  -  torna-se assim, mais do que um exercício dos sentidos, uma extensão da alma. E é esse olhar ou escuta da alma que traz a obra de arte - cheia de um mundo invisível e inaudível - para o convívio quotidiano. Se compararmos o recheio e decoração dos palácios e casas grandes onde nascemos , e a sua acumulação de objectos exibindo abundância material, com o despojamento dos interiores coevos das residências e retiros da nobreza japonesa, logo nos aperceberemos dessa diferença essencial. Nos interiores japoneses, o bom gosto não amontoa, não pretende mostrar nem demonstrar coisa alguma, basta-se. Afasta e singulariza cada objecto de estimação - e todos se guardam e esperam a sua vez de exposição - um kakemono pendurado na parede, uma caligrafia, um sumi-e, uma pintura, ou ainda um arranjo de flores, uma peça de cerâmica ou qualquer outro artesanato - de modo a poder ser contemplado e convidar ao íntimo diálogo invisível... Este sentimento da decência e da superioridade espiritual do que é simples está patente na arquitectura e arrumo interior dos santuários, templos e mosteiros, tal como nas casas e pavilhões de repouso da nobreza, mesmo quando têm a grandeza de  Katsura, para não falar na elegância linear do palácio imperial de Kyoto. Esse refrear do exagero e da ostentação sente-se ainda nas construções mais elaboradas do que eu chamaria "barroco Tokugawa" - e que se ergueram para demonstrar a grandeza e a força de um poder político ou de uma linhagem - como o Nijo-jo, em Kyoto, ou os mausoléus dos shogun dessa família, em Nikko, a noroeste de Tokyo. Mas vamos ao Inrei raisan, Elogio da sombra, do Tanizaki, não sem antes lembrar que já tínhamos falado de shoji (janelas ou divisórias em molduras de papel japonês translúcido) e de toko no ma (alcova ou recanto de uma sala, onde se coloca um único objecto decorativo, seja um arranjo floral, uma cerâmica, uma caligrafia...): Se comparássemos uma divisão de uma casa japonesa com um desenho a tinta da China, os shoji corresponderiam à parte em que a tinta está mais diluída, a toko no ma ao sítio onde ela é mais espessa. Cada vez que vejo uma toko no ma, essa obra prima da delicadeza, maravilha-me verificar até que ponto os japoneses penetraram os mistérios da sombra, e com que engenho souberam utilizar os jogos de sombra e de luz. E isso sem qualquer procura especial de qualquer efeito preciso. Numa palavra, sem outros meios além de madeira não trabalhada e paredes nuas, arranjou-se um espaço retirado, onde os raios luminosos que nele podem penetrar geram, aqui e ali, recantos vagamente escuros. E todavia, contemplando as trevas agachadas por detrás da trave superior, ou em redor de um vaso de flores, ou debaixo de uma prateleira, e sabendo bem que apenas são sombras insignificantes, sentimos que o ar, nesses lugares, encerra uma espessura de silêncio, que uma serenidade eternamente inalterável reina sobre essa escuridão. Feitas as contas, quando os ocidentais falam de "mistérios do Oriente" talvez assim se refiram a essa calma um tanto ou quanto inquietante, secretada pela sombra quando atinge aquela qualidade... Uma das minhas primeiras impressões, quando ia entrando na cultura japonesa, foi precisamente um  sentimento ou intuição do mistério através dessa experiência do silêncio e da sombra como forma de contemplação. Tanizaki chega a escrever: Há quem diga que a cozinha japonesa não é coisa que se coma ,mas coisa que se olha, pelo que sou mesmo tentado a dizer: que se olha e, mais ainda, se medita! Tal é, na verdade, o resultado da misteriosa harmonia entre a luz das candeias tremendo na sombra e o reflexo das lacas! E o escritor irá comparar o cinema japonês do seu tempo (a preto e branco) com o europeu ou americano, dizendo que ele é diferente, não só pelos temas e cenários, mas, desde logo, pela própria fotografia, pelo valor dos jogos de sombras e dos contrastes... E dirá mais: Se o fonógrafo e a rádio tivessem sido inventados por nós, é provável que teriam sido concebidos de modo a valorizar as qualidades próprias da nossa voz e da nossa música. Em princípio a nossa música caracteriza-se por uma certa retenção, pela importância que dá ao ambiente, a ponto de perder parte do seu encanto quando é gravada e amplificada. Na arte oratória evitamos as explosões da voz, cultivamos a elipse e, sobretudo, damos grande importância às pausas; ora, na reprodução mecânica do discurso, a pausa é completamente destruída... Tal como o prémio Nobel Kawabata, Tanizaki teve obra censurada durante a ditadura Showa, antes e durante a guerra do Pacífico. Ele foi, certamente, um romancista perturbante, e até difícil de classificar: já em 1910, aquando da publicação da sua primeira novela, a intelectualidade e crítica japonesa, em vésperas da transição da era Meiji para a Taisho, se mostrava surpreendida, irritada ou perplexa... Curiosamente, em seu abono surgiram duas grandes figuras contraditórias no pensamento e na literatura nipónica do tempo: o "romântico" e conservador Mori Ogai, de que já falámos, e o naturalista ou realista Nagae Kafu, que com o primeiro não tinha em comum nem o estatuto social, nem a filosofia e estilo de vida. Ao que dizem, Junichiro Tanizaki só nunca se terá aborrecido com a qualificação de esteta... E talvez seja obra prima deste romancista o ensaio sobre estética japonesa, que intitulou Elogio da Sombra. Aí, ironicamente, o romancista travesso, por vezes quase sórdido, revela-se um conservador japonês de gema. Será, quiçá por isso mesmo, um guia privilegiado para a interpelação de valores nipónicos no tempo e no modo. Que alma japonesa espreitará o mundo e a vida no universo electrónico e informático, que tem no bairro de Akihabara, em Tokyo, a sua maior montra, onde incessantemente surgem as últimas novidades, artigos de consumo que espicaçam comportamentos de isolamento pessoal e convívio virtual?  


Camilo Martins de Oliveira 

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO


Imagem do Prof. Takashi Nagai no Museu da Paz, em Nagasaki


26. KONO KO O NOKOSHITE


Um dos primeiros livros sobre os bombardeamentos atómicos cuja publicação, no Japão, foi autorizada pelo ocupante americano intitula-se Kono Ko o Nokoshite (Ao Deixar Estas Crianças). Estas eram os filhos, uma e um, do Prof.Doutor Takashi Nagai, filhos que lhe dera a mulher que a terrível bomba matara. A morte e despedida anunciada, agora já só ele a podia dizer, e sabendo bem que as radiações, que também a ele tinham atingido, o matariam. E assim morreu, ao fim de seis anos de sofrimento, em 1951. Entretanto, recebera a bênção papal, a visita de Helen Keller e, em Maio de 1949, a do Imperador Hirohito, que o ocupante americano e a Constituição de 1947 já haviam utilmente transformado apenas num pacífico e inimputável símbolo da nova nação nipónica... O Prof.Nagai, médico radiologista, cientista e investigador , sabia bem o que lhe acontecia, pois já antes da guerra e da bomba ele tivera de se expor a experiências com raios X... e acautelar-se! Mas morria então, por nada poder fazer ou ter feito, aos 43 anos, vítima da força destruidora do átomo. Era um dos muitos cristãos católicos que ainda hoje vivem em Nagasaki. No conjunto da população japonesa actual, 1% serão cristãos, 0,6% católicos? Mas este homem, sobretudo com a publicação do seu segundo livro, Nagasaki no Kane (Os Sinos de Nagasaki), que foi adaptado ao cinema, virá a tornar-se num dos mais profundos inspiradores do sentimento pacifista que, vencendo qualquer ressentimento, crescentemente se apoderará da alma japonesa. Um cristão introduzirá assim o ninjo como valor constitutivo do giri. Quando o nosso grupo do CNC visitou, em Nagasaki, a catedral de Urakami - cuja construção se iniciou em 1895, na era Meiji, e concluiu em 1925, já no princípio da era Showa ( do imperador Hirohito, condutor da guerra), para ser destruída em 1945, pela bomba atómica, e reconstruída, pelos cristãos japoneses em 1959 - recordei aquela Sexta-Feira Santa, anos antes, em que ali recolhido meditei nessa reflexão mística de Takashi Nagai, médico, cientista, vítima de um acto de guerra atroz, cristão sempre: Não terá sido Nagasaki a vítima escolhida, o cordeiro sem mancha, sacrificado numa fogueira total, num altar de sacrifício, respondendo pelos pecados de todas as nações durante a 2ªGuerra Mundial?" E pensei senti que a interrogação do Prof.Nagai era profundamente japonesa e simultaneamente shintoísta e cristã. Contra o shintoísmo de Estado, que fizera do imperador a incarnação do divino e a vontade única de todas as consciências, no caminho do altar sacrílego da guerra, renascia o shinto como caminho dos espíritos para a harmonia, porque, naquela alma de cristão, o sacrifício imposto igualava todas as vítimas e reclamava ,sim, perdão e paz, ressentimento e vingança não. E ocorreu-me aquele passo do Apocalipse de S.João: Digno é o Cordeiro sacrificado de receber o poder, a riqueza, a sabedoria, a honra, a glória e o louvor! E vem-me, a esta cabeça que também se chama coração, uma lembrança de Roma, que um dia tive em Kyoto. Dessa Roma que no mesmo Apocalipse de S.João, será essa mulher blasfema, com sete cabeças e dez cornos... Tinha na fronte inscrito um enigma: Babilónia magna, mãe das prostitutas da terra, que se embebedava do sangue dos santos e dos mártires de Jesus. Um deles teria sido Pedro, nos anos 60 da nossa era, talvez uns dos muitos crucificados e queimados, tochas ardentes iluminando os jardins de Nero, como conta Tácito, que acrescenta: Mesmo que essa gente fosse culpada e merecesse o maior rigor, tínhamos pena deles e perguntávamo-nos se eram executados em virtude do bem público, ou apenas para satisfação da crueldade de uma só pessoa... Até que ponto a crueldade de certas execuções não terá, apenas, a dimensão mesquinha do nosso demónio? Pela tradição imperial japonesa, que se pretende descender da deusa solar Amaterasu, a maioria dos imperadores nipónicos pouco ou nenhum poder político exerceu, mas foi milenarmente incarnando o mito fundador da ascendência divina do povo japonês. Mas a sua afirmação como poder temporal universal surge com a "restauração" Meiji e, mais tarde, baldados os esforços de liberalização e democratização, que se prolongaram pela era Taisho, levou, com o imperador Showa (Hirohito) ao exaspero de uma pretensão de domínio destruidora de dezenas de milhões de vidas humanas. No plano externo, retomava-se assim a política expansionista de Meiji, que levara à declaração de guerra à China (em 1894) - com vista à ocupação da Coreia (colonizada em 1904) - que teve de ceder ao Japão a Formosa e as Pescadores (nomes ainda portugueses), além da península de Liaotung no sul da Manchúria. As ofensivas bélicas sucessivamente lançadas, sob o imperador Hirohito, a partir de 1931 (em Le Lotus Bleu, aventura de Tintin na China, surge precisamente a explosão, provocada pelo exército japonês num troço da ferrovia da Manchúria do Sul, que serviu de pretexto para os primeiros ataques japoneses) conduziriam a loucura até à guerra que eles chamaram Pan-Asiática e que, depois do ataque a Pearl Harbour, provocou a intervenção dos EUA, em 1941, na que passou a ser conhecida por Guerra do Pacífico (ironias da toponímia geográfica) até à derrota final do Império do Sol Nascente, após os bombardeamentos atómicos de 1945 em Nagasaki e Hiroshima. Até esse desastre final acontecer, já em território japonês, e antes dos outros raids aéreos americanos sobre o arquipélago nipónico, as notícias da guerra chegavam aos cidadãos por via da propaganda oficial. Afinal, tudo se desenrolava lá longe, e o japonês comum e não mobilizado pouco ou nada sabia das barbaridades que os exércitos imperiais iam cometendo pela Ásia fora... Tocava-lhes a guerra, sim, pela mobilização crescente de jovens, pelo racionamento, pelo sacrifício de bens próprios, e do próprio trabalho, em prol do esforço bélico nacional. Essa progressiva pauperização dos cabedais e das almas e, finalmente, a destruição e a miséria impostas pela derrota final, explicam o desalento, a resignação, e até a relativa simpatia com que os vencedores ocupantes foram recebidos. Estes traziam - a um povo que ouvira, pela primeira vez na vida, a voz do seu Celeste Soberano, apenas em 1945, quando, pela rádio, lhe anunciou a rendição do Divino Império do Sol Nascente - donativos de bens essenciais, dinheiro para comprar serviços, garantias de ordem pública, e algumas esperanças e ideias novas, como a de democracia, etc. Nas grandes cidades, como Osaka ou Tokyo, tocadas por bombardeamentos não atómicos, multiplicaram-se bairros de lata, como se propagou o abastecimento das famílias em lixeiras, o mercado negro, a prostituição, esta sobretudo a soldados americanos. Mas também vieram casamentos de japonesas com ocupantes, e começou a desenhar-se um novo estatuto social da mulher, incluindo a extensão do sufrágio. Entre os intelectuais, os literatos e políticos - e não só - foi reaparecendo o rasgão da alma japonesa, essa luta interior entre tradição e modernidade, nacionalismo e internacionalização, inspiração radicalmente nipónica ou maior aceitação de conceitos exógenos na reconstrução de um país e de um povo. Um debate chegou mesmo a qualificar-se como sendo entre a autenticidade e a decadência... Venceu finalmente a esperança e a realização dela por virtude da solidariedade e do trabalho. Sem esquecer a fórmula dos votos de Ano Bom, que tantas vezes cito: Sê flexível como o bambu e persistente como o pinheiro. Lembro ainda estes versos do poeta Horiguchi Daigaku, escritos em 1946:


Encolheu-se o país,
está impotente,
escasso de alimento,
transbordante de vergonha,
com frágil vida.
Parem as lamentações!
Ergam-se os olhos
às copas das árvores,
até ao céu!

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

Bairro de Ginza, Tóquio 

 

25. MEDITAÇÃO JAPONESA

 

A abertura do Japão ao convívio internacional, em meados do sec. XIX e após mais de duzentos anos de reclusão imposta pelo shogunato Tokugawa, começou por promover algum comércio e a instalação de comunidades estrangeiras em Kobe e Yokohama. Mas depressa produziu efeitos de outra ordem de grandeza, quer no tocante à "modernização" tecnológica, económica e social, jurídica, política e administrativa do Império do Sol Nascente - que, aliás, gerou dilemas e crises de identidade, cuja "digestão" ainda hoje não está terminada - quer também quanto à projecção de representações tradicionais da cultura nipónica sobre o gosto, a moda e as artes do ocidente europeu e norte-americano. Gravuras dos mestres de ukiyo-e, como Hokusai e Hiroshige, kimonos e leques, cerâmicas e lacas, desenho de objectos e arquitectura de edifícios impuseram-se com tal veemência ao gosto europeu, que logo se espalhou uma moda a que, em França, se chamou japonisme... Lembremo-nos da influência daquelas gravuras do mundo flutuante nos cartazes de Toulouse-Lautrec, da sensualidade e erotismo da japonaise au bain de James Tissot, ou de cenas de banho desenhadas por Degas. Sem esquecer a elegância e os cenários nipónicos de tantos quadros do Whistler ou de Mary Cassat, nem o Portrait du Père Tanguy de Van Gogh, os guaches de Gauguin sobre papel recortado em forma de leques japoneses. E há tantos outros motivos nipónicos na pintura de Manet, Pissarro e muitos outros! Nas artes decorativas, em porcelanas de Worcester, da Milton e da Martin Brothers, em pratas e casquinhas da Christofle e da Tiffany´s, em vidros do Daum ou do Gallé. Generalizou-se o uso de biombos e a decoração japonizante de portas, paredes e móveis, e outro jeito de arranjar flores. No vestuário e acessórios, novos padrões de tecidos, kimonos, leques e sombrinhas... O Ocidente do fim do sec.XIX descobre, mitifica e imita o gosto japonês. Mas que fazem os japoneses coevos? Mandam políticos e samurais, juristas e médicos, engenheiros e artistas plásticos, à Europa e aos EUA, para conhecerem as nossas constituições e o nosso direito, a nossa medicina e os nossos hospitais, os nossos caminhos de ferro, estradas e pontes, as nossas indústrias, os nossos exércitos, as nossas escolas. Num esforço de emulação do que entendem ser as melhores realizações do génio ocidental, os japoneses da era Meiji erguem fábricas e estaleiros navais, montam um estado novo, com imperador, parlamento, constituição e organização política e administrativa. Constroem ferrovias, pontes e telégrafos, organizam o serviço militar obrigatório. Abrem universidades, empresas e bancos. Fazem de Ginza, em Tokyo, uma zona de comércio de luxo, com avenidas largas e grandes armazéns, para suplantar o que de semelhante viram em Londres, Paris, Berlim e New York. Tudo isto feito durante os reinados Meiji e Taisho; quando, no início da era Showa, em 1923, um terrível terramoto destrói grande parte da capital, tudo será reconstruído, em melhor. Mas não se pode falar de ocidentalização do Japão, apenas de importação, adaptação, assimilação e eventual melhoramento de técnicas e sistemas. A alma nipónica recebe e rejeita tudo isso, serve-se do que é instrumentalizável, mas não se converte. A era Meiji formou a matriz do pensamento e das reacções japonesas no sec.XX, até aos nossos dias. Diz um escritor nosso contemporâneo: Desde essa época e até hoje,a civilização ocidental, pelos nossos contactos e fricções com ela, foi-nos pródiga em benfeitorias e, simultaneamente, fez-nos sofrer. Mais precisamente, os sofrimentos do Japão - ou talvez mesmo da Ásia - começaram quando os ocidentais se tornaram, aos nossos olhos, mais belos do que os asiáticos. E essa mágoa ou, melhor, esse mal-estar, permanece em mim, que aqui vivo sem conseguir liquidá-la... Escritores da era Meiji, como Chomin, Soseki, ou Mori Ogai, testemunharam - como alhures referimos - esse drama da recriação da alma de uma nação, simultaneamente fiel a si mesma e desafiando as potências estrangeiras pela aplicação "japonizada" de conceitos e técnicas considerados instrumentos de progresso social e material. De estado feudal e economia agrícola, o Japão passou, em menos de duas décadas, a potência militar e colonial, assente numa fortíssima revolução industrial. E após a terrível derrota e destruição resultante da 2ªGrande Guerra, foi capaz de se elevar ao nível tecnológico dos países mais avançados nessa área, ultrapassando-os em muitos campos e tornando-se em vedeta económica mundial. O Japão da era Meiji (1867-1912) é uma nova força no concerto das nações, consegue, logo em 1905, ser a primeira potência asiática a vencer, em guerra, uma potência europeia, o Império Russo. "Moderniza-se", mas rasga a alma. Entre os que insistem em ser tão "desenvolvidos" e fortes como os "maiores ocidentais" e em tudo proceder como eles - tornando-se mesmo em potência colonial, como logo acontece na Coreia - e os que privilegiam a herança da alma e do modo nipónicos, está o drama de muitos intelectuais e populares que, intuindo, uns, a duração e a demora, outros, o desastre, procuram um equilíbrio sempre periclitante. A "modernização" comanda a industrialização e urbanização de territórios e pessoas, o enquadramento social e ético parece desfazer-se... Finalmente, goradas as expectativas "liberais" da era Taisho (1912-1923), chegará a hora fatídica em que forças reunidas num "complexo militaro-industrial" acabarão por impor o caminho para a guerra. Para melhor compreendermos esse conflito que, afinal, decorre no espírito de cada japonês, socorremo-nos dos conceitos de giri e ninjo... Não se trata de diferenciar o bem do mal, pensemos antes no ser eu e a minha circunstância do Ortega y Gasset. Na consciência japonesa, o giri -que é inculcado pela educação da solidariedade nas famílias e nas escolas - é condicionante, como obrigação de cada um se comportar, para com os seus círculos familiares e sociais, e para com a Pátria, com entrega, fidelidade e obediência, seja qual for o sacrifício exigido, posto que, exigível a todos, este é sempre recíproco. O ninjo é o afecto sentido pelos outros, estará naturalmente desperto em cada um como o amae, a doçura do amor de mãe. Anima a pessoa, impulsiona, por exemplo, a criação artística. Será o sentimento de mim na harmonia? Também pode ser, mas, por educação, impõe-se o giri. Essa palavra amae é curiosa, etimologicamente próxima de amai, que significa doce, doçura. Defende o psiquiatra Tadeo Doi que amae é vocação para a dependência, como que um desejo de regresso da criança à união inicial com sua mãe, que se traduz por uma expressão que evoca a nostalgia da intimidade no tempo da gestação, tornada sensível, após o nascimento, pela doçura do leite materno. Amae será então um desejo vindo da antiguidade da infância, a recusa do desamparo que, afinal, mais não é do que um modo de orfandade. A forma verbal de amae é amaeru, que podemos traduzir por desejar depender do amor dos outros. Para o Doutor Doi, o conceito de amae é a chave para a confrontação de giri e ninjo que, aliás, é o tema fulcral do romance A Bailarina, de Ogai Mori (1862-1922), um dos textos fundadores da moderna literatura japonesa. Conta-nos a história autobiográfica do amor do autor (médico militar de alta patente, pertencente à elite do Império Meiji) e de uma senhora europeia que conheceu na Alemanha, onde estudava a cultura e a civilização do Ocidente. Convidou-a a vir ter com ele ao Japão (o que ela fez), para se casarem, mas por pressão familiar e social obrigou-se, na sua consciência dividida, a renunciar a esse compromisso do coração. Prevaleceu o giri. Assim também se explicam comportamentos como os dos chamados kamikaze, ou pilotos suicidas, ou daqueles que cometem seppuku (harakiri), o suicídio ritual, por obediência ou fidelidade ao seu senhor.

 

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

Biwa (imagem wikicommons)

24. OUTRAS MEMÓRIAS E ASSOCIAÇÕES...


Pareceu-me interessante recolher também - neste volume de memórias da viagem que, como guia, fiz ao Japão, com o Centro Nacional de Cultura - outras que guardei de diferentes idas e estadias, todas elas, aliás, publicadas no blogue do CNC, quer por referirem aspectos omissos nestas que se publicaram sob o título de FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO, quer porque, mesmo quando novamente os apresentem ou evoquem, estabelecem pontes com diversos temas de outras culturas. Na verdade, a permanência mais prolongada - ou o contacto mais assíduo -- em qualquer cultura que não seja a que, de um ou outro modo, nos formou, leva-nos, muitas vezes, a comparar referências, mais em busca da proximidade ou familiaridade, do diálogo, do que da precisão das diferenças, ainda que estas, naturalmente, não desapareçam. Com essa intenção, irei transcrevendo trechos de crónicas passadas, embora introduzindo pequenas adaptações e alterações, ou acrescentando-lhes uma ou outra reflexão posterior. E, por me parecer um bom prefácio a esta segunda parte do nosso memorando, reproduzirei hoje partes de uma das primeiras crónicas que escrevi para o CNC, em 10 de Agosto de 2012, intitulada

A MÚSICA ENTRE MUITAS ROTAS.

Num texto introdutório a S. Francisco Xavier - A Rota do Oriente, produzido por Jordi Savall, escreveu Rui Vieira Nery: Como reagiram todas essas culturas ao impacto da música ocidental, e como reagiram os músicos peninsulares aos sons desconhecidos das tradições locais? As vilhuelas e as guitarras que iam a bordo estabeleceram contacto com outros instrumentos de corda dedilhada como o sarod indiano ou a biwa japonesa. Os tambores europeus encontraram-se com a ampla gama de virtuosísticas percussões africanas e a sosisticada tradição da tabla indiana. A flauta e a flauta doce, que podem ter acompanhado facilmente os marinheiros peninsulares, descobriram a atmosfera poética do shakuhachi japonês... Que resultou daqui? No seu Tratado em que contêm muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre gente da Europa e esta província do Japão, o jesuíta Padre Luís Froes (sec.XVI) considera que a música japonesa é a mais horrenda que se pode dar, mas também reconhece que todos os nossos instrumentos lhes são insuaves e desgostosos... Já o dominicano Frei Gaspar da Cruz, no seu Tratado das cousas da China que, publicada em Évora em 1570, é a primeira monografia sobre a China a ser impressa na Europa, escreve: Os instrumentos que usam para tanger são umas violas como as nossas, ainda que não tão bem feitas, com as suas caravelhas para as temperarem, e há umas de feição de guitarras que são mais pequenas, e outras à feição de viola de arco que são menores. Usam também de doçairias e de rabecas, e de uma maneira de charamelas que quase arremedam as de nosso uso. Usam de uma maneira de cravos que têm muitas cordas de fios de latão; tangem-nos com as unhas que para issso criam; soam muito e fazem mui boa harmonia. Tangem muitas vezes muitos instrumentos juntos concertados em quatro vozes que fazem muito boa consonância... Um século depois do Tratado de Frei Gaspar, um jesuíta português, o Padre Tomás Pereira, era pessoa notável em Pequim, e muito estimado pelo imperador Kangxi. Um jesuíta belga, o Padre Verbiest, escrevia em 1680: Construímos um carrilhão numa torre da igreja e noutra colocámos um órgão fabricado com tubos de estanho conforme as regras da música. Todos querem visitá-lo e creio que, no Oriente inteiro, não há um de tamanha grandeza. Estas duas obras de arte, devidas à habilidade e engenho do Padre Pereira, músico muito habilidoso, são de uma perfeição acabada... E, em 1735, o Pe.Du Halde anotava: A facilidade com que, por meio de notas, retemos uma ária logo à primeira audição, surpreendeu o falecido imperador Kangxi. No ano de 1679, mandou que viessem ao seu palácio os Padres Grimaldi e Pereira, para tocarem um órgão e um cravo que outrora lhe tinham oferecido. Saboreou as nossas árias da Europa e pareceu ter gosto nisso. Em seguida mandou que os seus músicos tocassem uma ária da China num dos seus instrumentos, e ele mesmo o tocou com muita graça. O Padre Pereira tomou nota da ária inteira enquanto os músicos a cantavam. Quando terminaram, o Padre repetiu-a sem falhar um tom, e como se há muito já a conhecesse. O Imperador ficou muito surpreendido, custou-lhe a crer. Teceu grandes louvores à precisão, à beleza e à facilidade da música da Europa. Admirou sobretudo como o Padre em tão pouco tempo aprendera uma ária que tanto lhe havia custado a ele e aos seus músicos... Imaginemos nós também que as multidões nipónicas que, no sec.XVI, acorriam a ver os cortejos e procissões dos portugueses - e tanto nos imitavam no traje e outras modas - talvez não desgostassem assim muito das nossas músicas e animações...

 

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO


Figura na entrada do Templo de Nikko

 

23. SHINTO e SÍMBOLOS

 

O shintoísmo não tem ídolos, como os têm os pagãos por esse mundo e essa história fora, desde a Polinésia a Grécia e Roma, da África à Fenícia, e em muitas outras e variadas partes... Os missionários cristãos, como já lemos, referiam-se com frequência aos guardiões e budas dos templos budistas japoneses como se fossem ídolos, talvez por não lhes ocorrer que antes seriam simples ícones ou representações, imagens de lembrança e alerta como as que - apesar de históricas crises de iconoclastia, ainda hoje com sequelas nas confissões protestantes - foram povoando as igrejas cristãs... (Pensemos, a talho de fouce, se, por exemplo, umas estátuas católicas peregrinas não estarão mais próximas de um ídolo do que de um ícone cristão...). Os santuários shinto são simplesmente albergues ou abrigos dos kami, estes não se limitando às personagens míticas antigas, pois que são todas essas forças que habitam os corações das pedras, das águas, das árvores, dos animais, e dos homens que somos e dos que já morreram... Até ícones budistas, como kannon e muitos bodisatva entraram no panteão dos kami... . Mas, com excepção de algum leão ou outro bicho posto à entrada de um santuário, como guarda qua assusta os maus espíritos - e nem uns nem outros se veneram - nenhum ídolo se encontra num santuário shinto. Mesmo nos lares, os altares domésticos são miniaturas de santuários, como habitações dos espíritos dos antepassados ou protectores da família. A religiosidade shintoísta é uma comunhão com a natureza e a história, e a comunidade dos homens. Penso que se entenderá melhor o que aqui procuro dizer se reflectirmos no conceito de unmei ... Mas, todavia, que cada um de nós pense, antes de pretender perceber os outros: "também eu sou ocidental e cristão, nado e criado na cultura do destino e responsabilidade individual, da história da humanidade num tempo escatológico, e no culto de um Deus único e transcendente que - assim o professa a minha religião - incarnou, nascendo de mulher, para tomar a nossa condição e redimir os nossos pecados, pela sua morte e ressurreição..." Ora, para o shintoísta, não há pecado original, a natureza e o homem são inatamente bons, pesem embora as catástrofes naturais frequentes: terramotos e maremotos, furacões e vulcões... ou, ainda, as faltas e má conduta dos homens. Mas não sabemos porque se zangam os espíritos, sejam os da natureza ou os dos homens que a ela pertencem. Temos apenas de os serenar, com as nossas ofertas (que, primitivamente eram produtos da terra e do trabalho dos homens) e orações. Ou pelo cuidado da purificação, ainda que esta seja só o rito matinal da lavagem da boca e dos dedos com água clara. Podemos mesmo distraí-los, diverti-los: as festas dos santuários shinto apresentam danças rituais e coloridas (kagura), em que as dançarinas (que mexem mais os braços e inclinam o corpo, do que movimentam os pés) estão viradas para a entrada do templo - para que as veja o espírito que ali mora - e não para o público ou assembleia dos fiéis. (Lembremos que semelhante posicionamento ou atitude litúrgica também se discutiu quanto à missa católica, designadamente quando o concílio Vaticano II determinou que o celebrante estivesse voltado de frente para a assembleia, e não de costas...e também se decidiu então pelas línguas vernáculas, em vez do latim ; nos ritos shinto, continua a usar-se um japonês arcaico, só acessível a quem o estude). Mas também se apresentam outras danças clássicas (bugaku) e concursos de tiro ao arco (a pé e a cavalo), para distrair o público, e até combates de sumo, cuja arena é sagrada, purificada por sal que os lutadores lançam para afastar os maus espíritos.
Voltemos ao unmei: literalmente, traduz-se por movimento do mundo. Significa destino. É o movimento de tudo aquilo que, natural e invisivelmente, traça a nossa presença no mundo. É inimputável, e tampouco pode ser contrariado: contra ele nada podemos fazer. Por isso, o destino de cada um de nós é, simultaneamente, o pessoal e o de todos e tudo. A felicidade é a simples memória de pertencermos ao cosmos... A relação original do shintoísmo com o envolvimento da natureza, que se manteve mesmo durante séculos de economia predominantemente agrícola, explica também que ele tivesse primeiramente sacerdotisas, antes de se imporem as classes sacerdotais masculinas, aliás vinculadas a funções e famílias determinadas: os Nakatomi celebravam os ritos e preces; os Imbe eram abstinentes e asseguravam as purificações e o contacto com os kami; os Urabe eram adivinhos; os Shirakawa foram, do sec.XI ao XIX, porque família de cepa imperial, os supervisores de todos os outros. O Imperador, detentor dos três símbolos (o espelho, a espada e a joia), era o sumo pontífice. Curiosamente, até à restauração Meiji, quem celebrava no santuário imperial de Ise era uma sacerdotisa, princesa de sangue imperial. Tal função foi terminada em 1868, pelo governo Meiji que, além de ter separado o budismo do shintoísmo, e feito deste a religião nacional, quis reunir efectivamente as sumas funções religiosas e políticas na pessoa divina do imperador. Depois da 2ª Grande Guerra, com a abolição deste regime, a sacerdotisa regressou, em 1946. Em Tokyo, no santuário Meiji, onde se guardam os espíritos do imperador desse nome e sua mulher, a avenida conducente ao torii que marca a entrada do templo, chama-se Omote-sando, ou principal acesso. Os sando surgem em todos os santuários, caminhos assinalados pelos torii (de tori=pássaro e i =estar, dois caracteres que, assim juntos, significam poleiro). São portanto um símbolo de uma habitação para a qual os espíritos voam... No interior, quase sempre invisível no santo-dos-santos, guarda-se um espelho de metal, símbolo de Amaterasu, como do Imperador. No Jinno Shotoku (1339), Chikafusa Kitabatake escreveu: O espelho nada esconde. Brilha sem egocentrismo. Todas as coisas, boas e más, certas ou erradas, nele se reflectem sem falha. O espelho é fonte de honestidade porque responde de acordo com a forma dos objectos. Aponta-nos a equidade e imparcialidade da vontade divina.

 

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

22. SHINTO


Em vários manuais sobre as religiões dos japoneses normalizam-se assim as diferenças principais entre shintoísmo, budismo e cristianismo : as duas primeiras são politeístas (apesar de eu considerar que não são rigorosamente identificáveis, entre eles, kami com bodisatva, nem qualquer destes com deuses, no sentido clássico, ainda que no paganismo greco-romano o Olimpo, Hades e a terra dos homens possam ser intertransitáveis), enquanto que o cristianismo é monoteísta; também contrariamente a este, shintoísmo e budismo aceitam a participação em diferentes tradições ou confissões religiosas (donde o seu sincretismo); no shintoísmo não há salvação transcendente, pois que os homens já vivem no mundo animado pelos kami e a harmonia com estes passa por ritos de purificação; já no budismo, o acesso ao nirvana, estado de paz, consegue-se pela iluminação resultante da meditação; e só o cristianismo fala da salvação pela fé na graça de Deus que redime os pecados dos homens. Mas não foram apenas estas divergências teológicas, acima simplificadas, que dificultaram a missionação cristã, apesar da natural predisposição dos japoneses ao acolhimento de mensagens de outras partes, sobretudo em períodos de instabilidade política e transformação e agitação social, como foram as últimas décadas do shogunato Ashikaga, ao tempo da chegada dos primeiros portugueses e jesuítas. Noutro plano de análise, podemos observar que o cristianismo se inicia no Japão, com a conversão de gente do povo humilde do Kyushu, provavelmente mais próxima do shintoísmo do que do budismo praticado por gente letrada e pela aristocracia. Essas classes mais elevadas só mais tarde se aproximarão dos missionários cristãos, muito em virtude do interesse dos daimyo locais pelo comércio aberto pelos portugueses. Entrámos assim em considerações várias acerca das relações entre as religiões e a sociedade nipónica, suas classes e poder político. Procurámos que tal se tornasse num exercício interessante, que nos ajude a entender melhor, não só o Japão em mudança, que os jesuítas e portugueses do sec.XVI vieram encontrar, como o Japão de sempre, na sua evolução e sobressaltos até aos dias de hoje. O nosso percurso vai do shintoísmo primitivo, onde surge o mito fundador da linhagem imperial e identidade nacional, até à Constituição promulgada em 3 de Novembro de 1946 - que determina, no artº,20: " nenhuma organização religiosa poderá receber quaisquer privilégios do Estado nem exercer qualquer autoridade política" - passando pela introdução do budismo e as várias fases da sua relação ao Estado, pela visão oficial nipónica do cristianismo como factor político e estratégico, e pela restauração Meiji do Estado shinto. O shintoísmo antigo não era uma religião organizada ou institucionalizada, antes seria uma forma de animismo, cujo culto era o convívio espiritual com a natureza e suas forças, espíritos ou kami, entre os quais se incluíam os mortos ou antepassados. Cada pessoa individual necessariamente se sentia parte integrante de uma unidade social, grupo ou clã a que se chamava uji e descendia da mesma divindade. O chefe do uji era também o seu sumo sacerdote, e a palavra matsurigoto significava simultaneamente governo e rito religioso ou mágico. A nação japonesa, como já vimos, nasce desse mesmo conceito, quando o reino de Yamato, no sec.V antes de Cristo, reúne todos os uji sob a autoridade política e religiosa da linhagem descendente da deusa solar Amaterasu. Todavia, a designação institucional de imperador - tal como a própria designação shinto (ou caminho dos espíritos) - só se imporão, já no sec.VI da nossa era, por influência chinesa. Seja como for, têm raízes muito primitivas na cultura identitária japonesa esses conceitos, tal como o de ie (casa, no sentido de família patrimonial, unidade social não necessariamente confinada à consanguinidade) que se desenvolveria já durante o shogunato Tokugawa... Numa das suas cartas, o padre Gaspar Vilela - que, como vimos, viveu no seio de uma comunidade de pescadores, habitantes da aldeia donde nasceria Nagasaki, e que teriam formado um dos primeiros núcleos cristãos do Japão, depois de se converterem das suas crenças shintoístas - refere os mitos antigos da origem do cosmos e do Japão, entre os quais a descendência de Izanagi e Izanami (a que chama, respectivamente, Yanamin e Yanagui), revelando por aí como as crónicas antigas, Kojiki e Nihonshoki, eram conhecidas dos jesuítas quinhentistas. Escreve, mais ou menos, o seguinte: No seu princípio, o mundo era um lago de água, e não havia nem terra nem gente, Um homem chamado Yanamin lançou do céu um tridente em forma de anzol dizendo "Talvez haja um rio debaixo dos céus". E agitando a água, apanhou uma gota de lama que estava debaixo da água. Este pedaço de lama colou-se ao tridente e quando chegou à tona da água tornou-se numa ilha, e o reino do Japão foi-se a pouco e pouco formando a partir daqui. Por essa razão vêem nesse homem Yanamin e nessa mulher Yanagui os primeiros fundadores do Japão e os progenitores da raça japonesa. Na mitologia shintoísta, Izanagi e Izanami são os pais de Amaterasu. E o padre João Rodrigues fala- nos, na sua História, da Tensho-Daijin (outro nome de Amaterasu): No reino de Ise há um templo dedicado ao principal kami do Japão, Tensho-daijin. Esta mulher era filha do primeiro homem e da primeira mulher, que, dizem eles, povoaram o Japão. E dizem que ela foi a primeira a reinar sobre o país, e que todos os reis do Japão descendem dela. Peregrinos vêm de todo o Japão a este templo e dão ricas esmolas... O santuário de Ise - que ainda hoje activamente existe no mesmo local - consta de duas cercas distintas, sendo que, em cada uma delas, alternadamente, é um templo destruído e reconstruído, na mesma planta, de vinte em vinte anos. Os materiais de construção utilizados, bem como as ferramentas, são sempre novos, mas a respectiva natureza e desenho, e o modus faciendi são idênticos aos que ergueram os primeiros templos, há mais de mil e duzentos anos... Aqueles missionários que seguiram - no Padroado Português do Oriente, feitos portugueses ao serviço do Senhor Dom João III - São Francisco de Xavier, encontraram um povo animista, com um coração aberto a novos kami que participassem na comunhão universal em que se sentiam convivas. Por isso lhes pareceu haver ali vasta e amorosa seara para o Senhor Jesus. Era também gente a quem a promiscuidade das seitas budistas com a aristocracia e o poder político, aliás não isenta de conflitos - foram frequentes os gosos, ou manifestações de monges budistas na capital, durante a idade média japonesa, o que levou Oda Nobunaga, iniciador da idade moderna, a dizimar os monges do Monte Hiei, cerca de Kyoto - afastava do budismo oficial e predispunha à fidelidade a um poder superior. Talvez também esse sentimento de lealdade a um poder e dever, com despojamento de si, tivesse levado muitos samurai - que já no budismo se aproximavam da ascética zen - a converterem-se ao cristianismo. Vemos alguns representados, em práticas religiosas, nos biombos namban. A história "teológica" das relações do cristianismo do sec.XVI-XVII com as religiões nipónicas está por fazer. Mas sabemos que os grandes debates apologéticos se fizeram sobretudo com o budismo zen. A perseguição e expulsão do cristianismo teve, como já dissemos, motivos predominantemente políticos. Com eles se confundiram também as forças budistas, não tanto por razões de ordem religiosa, mas pelo receio de outra possível religião de estado. Pessoalmente, creio que Nobunaga - o primeiro comandante da reunificação do Japão - terá considerado a hipótese de ir substituindo o budismo pelo cristianismo como religião do estado. Aliás, o seu filho, convertido ao cristianismo, só não lhe sucedeu, depois do assassinato do pai, por ter sido afastado por Hideyoshi. A história do Japão poderia ter sido outra. Assim, por todo o shogunato Tokugawa, de 1603 até 1867, o shintoísmo, que, desde o sec.VI, abrira o recinto dos seus santuários à instalação de templos budistas, e acolhera os budas e bodisatvas entre os seus kami, continuou a viver na sombra do budismo. Este perdera, já no advento do período Azuchi-Momoyama, parte da sua influência política, mas continuaria sendo a religião (se isso lhe podemos chamar) eleita e protegida pelo poder shogunal. Por isso mesmo, a restauração do poder e funções políticas imperiais, imposta pelo imperador Meiji, que terminou o shogunato Tokugawa em 1867, irá fazer do shintoísmo a religião oficial do Estado japonês e venerar, na mesma pessoa (o Tenno, descendente da deusa solar Amaterasu), simultaneamente o divino pontífice e o supremo chefe político e militar. Este Shintoísmo de Estado exercita-se então através do Shintoísmo da Casa Imperial, com regras e ritos próprios à liturgia do Imperador, e do Shintoísmo dos Santuários, que reúne e governa as funções dos santuários shinto mais importantes (incluindo os mais antigos), livres de interferências budistas, locais de assembleia, culto e peregrinações. A par desta religião organizada, o Estado Meiji criou uma instituição para supervisionar e controlar as muitas seitas de culto shintoísta que o povo e a história tinham produzido. Tal como instituiu um serviço de supervisão das outras religiões (que, creio, foi posteriormente integrado no ministério da educação), designadamente o budismo e o cristianismo, entretanto readmitido no Japão. Como se disse acima, todo este sistema foi abolido, tal como a afirmação constitucional da natureza divina do Imperador, pela legislação subsequente à derrota de 1945, tendo a Constituição de 1946 consagrado o princípio da separação e da liberdade religiosa. Finalmente, parece-me importante lembrar que o shintoísmo não tem fundador (no sentido de um Moisés, Jesus Cristo, Maomé ou Gautama) nem escrituras sagradas. Os seus textos de referência, os Kojiki e Nihon Shoki, são compilações ou registos de tradições orais muito mais antigas, redigidas já na nossa era cristã, depois da introdução da escrita e da cultura chinesa no Japão. A própria palavra Shinto, escrita com dois caracteres, é a chinesa Shentao, que significa via da mente ou do espírito. Os mesmos caracteres, na sua pronúncia japonesa não chinesa, podem ler-se kami michi, o caminho dos kami ou espíritos (quiçá possamos dizer almas, sendo alma o que está em cada acontecimento telúrico, nas rochas, nos mares, nos seres vivos ou já passados...). No budismo chinês há textos em que shentao refere os ensinamentos de Gautama e outros em que parece designar a alma mística; no confucionismo, tanto refere as forças misteriosas da natureza, como a senda que conduz a um túmulo; no taoísmo, aponta para os exercícios, atitudes ou, ainda, práticas mágicas que levam ao destino.

 

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO


Refeição teppatsu no mosteiro zen (Kyoto)

Refeição teppatsu no mosteiro zen (Kyoto)  


21. HORYUJI E TODAIJI


Ainda almoçámos, em Kyoto, com satisfação de todos, num restaurante vegetariano, situado no complexo de um mosteiro zen. Nesse contexto, tal cozinha dá pelo nome de teppatsu, que nos remete para uma tigela ou prato fundo de ferro, com que os monges pediam a esmola dos alimentos que, depois, nele comiam.
O budismo zen - tal como o das seitas Jodo e Nichiren - surge no Japão, no princípio do séc. XIII, num movimento de reforma do budismo então reinante, descendente das chamadas seis seitas da capital do sul (Nara), e que se tinha mundanizado e corrompido. É interessante observar como, pela mesma altura, na Igreja Cristã Ocidental se iniciava a reforma conduzida pelas ordens mendicantes, designadamente franciscanos e dominicanos.

Como já vimos, o Budismo foi introduzido no Japão em meados do séc. VI, tendo encontrado no príncipe regente Shotoku (574-622), do qual já aqui se falou, o seu protector e promotor. Foi ele o fundador, ainda na era Asuka, do templo e mosteiro de Horyuji, que em Nara visitámos. A seguir a Shotoku, foi o imperador Kotoku, que reinou de 645 a 655, a decretar o Budismo religião legítima do Império. E, já no período Nara, o imperador Shomu (reinou de 724 a 749) afirmou que o Budismo era a religião guardiã do Estado. Mas daquelas seis seitas budistas mais antigas, hoje apenas restam três: a Ritsu, a Hosso e a Kegon. Todas as três têm as suas sés em templos de Nara. A da Kegon é no Todaiji (à letra: To=oriente, dai=grande, ji=templo, isto é, o grande templo oriental, de Nara, claro), onde estivémos e de que falaremos agora.
Talvez valha a pena olhar para este templo, inicialmente erigido em 745-52, para acolher o Daibutsu (Grande Buda), uma das maiores estátuas de bronze existentes no mundo de então e de agora, com os olhos do médico e jesuíta português do século XVI, Luís de Almeida:
...Fomos ver outro templo, chamado Daibutsu ou Grande Santo. O portão principal e os que estão de ambos os lados do adro são maravilhosamente grandes e altos; o adro com o seu claustro tem 60 alas de comprimento (os templos japoneses são construídos de modo a assim podermos calcular as suas medidas num relance). O adro e os seus claustros estão bem construídos, compactos e muito agradáveis de ver, de facto uma das coisas mais amáveis que jamais vi. O templo ergue-se no meio do adro e mede cerca de 40 alas por 30; os degraus, entrada e chão do templo estão pavimentados com grandes lages quadradas, de pedra. Duas grandes estátuas de monstros estão de cada lado da entrada e guardam o portão principal. De cada lado da porta do templo estão as estátuas das sentinelas, uma chamada Tamon e a outra Bishamon, e dizem que cada uma é rei e regulador de um dos céus. Estes guardas têm mais de 14 alas de altura e são bem proporcionados, e têm ferozes expressões nos rostos. Cada um deles pisa um demónio e estrangula-o com o pé - eles são mesmo uma maravilha de se ver. Olhar para um desses ídolos é como olhar para uma torre.
No meio do templo está a estátua de Shaka com os seus dois filhos Kannon e Seishi de cada lado. A estátua de Shaka é feita de cobre e é dourada e bem proporcionada, enquanto que os ídolos dos seus filhos são de madeira. Todas estão decoradas de ouro e têm grandes raios que delas emanam; esses raios estão habilmente envoltos e o dourado tão bem aplicado que o brilho e esplendor destas grandes estátuas é deslumbrante. Apesar de estar sentada, a estátua de Shaka tem mais de 14 alas de altura, e a altura do seu pedestal (parecido a uma bela flor) é de 6 alas. Os filhos também estão sentados e têm cerca de 9 alas de altura.
Atrás deles, levantam-se as estátuas de mais dois guardas, Komoko e Zocho, que têm o ofício de guardar mais dois céus e se parecem com as sentinelas já mencionadas. Uma ala mediria cerca de 115cm, o atual Daibutsu (que também dá pelo nome de Shaka) tem cerca de 16m e 20cm de altura, reproduziu e substituiu, em 1692, o original, datado de meados do séc. VIII (a sua fundição em bronze dourado, foi ordenada pelo imperador Shomu em 743).
Tudo o mais, os guardiões e os monstros - em seus tamanhos, feições, atitudes e gestos - corresponde hoje ainda, tal como vimos, à descrição do padre Luís de Almeida. Até os seus respectivos nomes se mantêm, o que é tanto mais de admirar quanto sabemos que as variações das invocações de Buda, dos bodisatvas e apsaras, e demais seres celestes ou míticos, induziam frequentemente japoneses e estrangeiros a cair em confusões.
Todaiji não é só aquela maior estrutura de madeira em todo o mundo (Horyuji sendo a mais antiga), que abriga o monumental Grande Buda, nem apenas o destino anual de milhões de peregrinos, que ao seu grandioso portão de entrada chegam percorrendo uma alameda antiga onde gazelas mansas lhes vêm comer à mão uns biscoitos que para ali se vendem para o efeito. Todaiji é símbolo e memória da implantação espiritual, política e social do Budismo no Japão, iniciada na era Asuka, confirmada no período Nara, e dominante no Império do Sol Nascente até ao regresso do shintoísmo como religião oficial do Imperador e do Estado, por imposição da restauração Meiji em 1867.
Todaiji também deu nome à escola de escultura budista de Nara, sequência, afinal, da tradição (ou tradução?) nipónica que, um século antes, Horyuji, bem perto dali, fizera da chinesa Tang.
Relendo Luís de Almeida e outros testemunhos da arquitetura e escultura budista-japonesa, que europeus descobriram no séc. XVI, sentimos igual espanto face à grandiosidade, força - e até violência - das imagens estatuárias ou da dimensão dos edifícios... Mas, parece, não nos impressiona a serenidade misteriosa, quase alheia, do rosto do Buda: talvez não seja referência que sirva o nosso entendimento. Tampouco garanto que muitos japoneses a tivessem entendido, posto que muita guerra e perseguição houve entre seitas budistas, e entre elas e o poder político...
A arte cristã coeva também era canonicamente executada, basta recordarmos as imagens bizantinas, que apresentavam aos homens a sereníssima ordem de Deus, em sua Trindade, e dos seus exércitos. Como se a paz fosse só possível noutro mundo que desde já devêssemos contemplar. O nosso Cristo crucificado não aparenta sofrimento, é sempre vencedor magnânimo. Os anjos e arcanjos podem esmagar os demónios, castigá-los, mas Deus e o seu Cristo estão acima desse combate. O sofrimento humano, essa condição que Jesus Cristo assumiu, só mais tarde será assunto de representação, como as dores e lágrimas de Maria. Na arte cristã, o Deus incarnado levou séculos a humanizar-se.
No pagode de Horyuji, podemos ver a morte de Buda e o seu acesso ao Nirvana. O Gautama, de bronze dourado, está reclinado num divã, uma velhota se ajoelha diante dele... À sua volta, dez discípulos, alguns quase esqueléticos, se arranham e contorcem de dor, ou simplesmente se interrogam e choram. Em Horyuji também vimos Kannon, bobisatva ou "filhos" ou acólitos de Buda, já no séc. VI com aspecto feminino. Essa figura de acolhimento, vai-se tornando maternal, será progressivamente representada com uma criança ao colo...
Ainda hoje guardo, em minha casa, um baixo relevo gravado em pedaço de madeira com forma de flor de lótus, uma Kannon aureolada e de menino ao colo... No reverso, senpuku desenharam uma cruz cristã...

 

Camilo Martins de Oliveira

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Jardim do Templo Ryoanji, em Kyoto

Jardim do Templo Ryoanji, em Kyoto

 

20. KARESANSUI

 

Kare-sansui escreve-se com quatro kanji: os dois primeiros formam as duas sílabas significantes do verbo kareru (ru sendo a terminação dos verbos japoneses no infinitivo), que quer dizer secar; san é montanha, sui é água. Os jardins zen japoneses são secos, com pedras ou rochas que evocam montanhas ou ilhas, sobre gravilha que se penteia para que sugira mares ou cursos de água. Visitámos alguns desses jardins em Kyoto, os mais notáveis sendo o do mosteiro de Nanzenji, desenhado por Kobori Enshu, no princípio do séc. XVII, e o de Ryoanji, este criado, quase um século antes, pelo monge Tokuho Zenketsu. Neste se contam quinze rochas, mas nunca vistas pela mesma perspectiva; se não mudarmos de posição, há sempre umas que nos escapam... Rectangular, com 25 metros de comprimento e 10 de largura, não tem árvores nem arbustos, nem flores; apenas gravilha branca e rochas pequenas, algumas circundadas de musgo. E tem aquela tentação da contagem certa do número de ilhas ou montanhas... Está essa no cerne daquele jardim: só serve, precisamente, para percebermos que é inútil a insistência em acertar, seja no que for, pelos nossos próprios meios. O génio do Zen está em nós, adormecido, não há esforço, cálculo ou técnica, que o acorde. O seu despertar, o satori, surgirá do nosso inconsciente, depois de nos termos sentido pouco à vontade com a agitada preocupação das nossas análises: só desistindo da nossa presunção acederemos à realização da força que está em nós. Este jardim, cada um de nós o poderá imaginar em múltiplas figuras, cada um de nós saberá sempre, no fim da meditação contemplativa, que a inesperada paz está no esquecimento da nossa imposição. Na arte do tiro de arco e seta, que os zen tanto praticaram, fecham-se os olhos, a pontaria certeira é, necessariamente, uma intuição do objetivo. O Inconsciente como morada do despertar é, na caligrafia -exercício artístico de perfeição - como na poesia japonesa, um estado da alma: a beleza criada nasce do despojamento de nós. Parafraseando Novalis, direi: quanto mais vazios, mais verdadeiros. Bem sei que isto é difícil de explicar, a nossa visita a jardins zen foi como abrir uma porta para olhar o incompreensível... Conta o Prof. Doutor Daisetz Suzuki que Chiyo (1703-75), a célebre poetisa de haiku, apesar da fama de que gozava na sua terra, pediu a um mestre forasteiro que lhe explicasse o que era um haiku autêntico, de genuína inspiração poética. Diz o Prof. Suzuki: Ele deu-lhe um tema para um haiku, bem convencional: o cuco. É este um dos pássaros mais apreciados, para mote, pelos poetas que compõem haiku e waka.: o cuco canta de noite enquanto voa, é difícil ouvi-lo porque voa e vê-lo porque canta. Reza assim um dos waka sobre cucos 

 

      Hototogisu                                Ouvindo o grito do cuco

      Nakitsuru kata wo:                   Pró ar olhei, em sua direcção 

      Nagamureba,                            Em busca donde vinha o som;

      Tada ariake no                          E que vi eu? 

      Tsuki zo nokoreru.                    A lua a crescer no céu.

Os waka, como este têm trinta e uma sílabas (5+7+5+7+7), os haiku, que surgem posteriormente, apenas dezassete (5+7+5). Diz-se que Chiyo nunca mais acertava num haiku que agradasse ao mestre... Até que, conta-nos Suzuki, certa noite, ela se pôs a cogitar tão intensamente no tema que nem sequer se deu conta de que já amanhecia, nem de que os shoji se iluminavam palidamente, quando este haiku aconteceu no seu espírito:

 

      Hototogisu,                                Ó cuco, cuco!

      Hototogisu tote,                        Toda a noite cuco...

      Akenikeri!                                 Amanheceu por fim!

O comentário seguinte é do professor japonês: Quando o mostraram ao mestre, ele logo o aceitou como um dos melhores haiku jamais compostos sobre o cuco. E isso porque esse haiku comunicava verdadeiramente o genuíno sentimento íntimo da autora sobre o hototogisu (cuco), e ali não havia qualquer esquema artificial ou intelectualmente calculado para qualquer espécie de efeito; ou seja, não havia qualquer "ego", por parte do autor, com vista à sua própria glorificação... O haiku é uma curtíssima forma de poema, cuja tradição costuma ser filiada num poeta da segunda metade do século XVII, que, praticante do zen, se reclamava do espírito de despojamento do eu-próprio e seus laços (muga) e de solidão (sai-shiori): chamava-se Basho e viveu de 1643 a 1694. Foi várias vezes invocado, ao longo da nossa peregrinação nipónica. Diz-se que o haiku com que iniciou a respectiva escola e modo de poesia foi o seguinte:

 

      Furu ike ya!                               Ah, o velho charco!

      Kawasu tobikomu ,                    Pra lá salta uma rã :

      Mizu no oto.                              O som da água!


Aí está uma realidade intuída pela iluminação de um som...

O nosso João Rodrigues, o Tçuzu, na sua Arte Breve da Língoa Japoa, impressa em Macau, no ano de 1620 (há uma edição anterior, intitulada Arte da Lingoa de Japam, publicada em Nagasaki em 1604) faz um sumário da arte poética japonesa: fala de uta, tanka, renga, haikai. Será este último o próximo antepassado do haiku. Diz o padre Rodrigues, mais ou menos, isto: O haikai é um tipo de poema, como o renga. É escrito num estilo muito coloquial, com palavras e frases de todos os dias. Muito embora este tipo de poema não seja obrigado a tantas regras como o renga, pode ter o mesmo número de versos. Pode começar com dois versos de sete sílabas (tsukeku) e continuar depois com três de cinco, sete, cinco sílabas cada. Por exemplo:

 

      Abunaku mo ari                          Acaso eu correrei 

      Abunaku mo nashi,                     O risco de ter medo             

      Hotarubi no                                 Daquele lume

      Kayaya no noki ni                        Que o lento pirilampo deixa

      Haitsukite.                                  No beiral de palha?

No Ryoanji, quem terá contado rochas? Só me lembrei de que talvez pudesse traduzir haiku por... surpresa !

 

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO


Portão Oriental do Nijo-jo

Portão Oriental do Nijo-jo

 

19. O NIJO-JO

 

O Nijo-jo que visitámos não é o que Luís Froes nos descreve, como já referi, nem outro; falo de cor, mas se não me falha a memória, além do que conhecemos hoje, houve dois anteriores, já desaparecidos, mas que se situavam nas proximidades do actual. Este, cuja construção se concluiu em 1603 - muito embora tenha sido ampliado e contemplado com novos edifícios, nas décadas seguintes - ergueu-se quando o imperador conferiu a Tokugawa Yeasu, o sucessor de Nobunaga e Hideyoshi, o título de Seii-tai-shogun (ou Condestável), que aqueles seus antecessores no comando das campanhas de reunificação do Japão não tinham recebido. Yeasu fez questão em obtê-lo, já que, embora não tivesse poder executivo, a autoridade do Imperador lhe conferiria legitimidade política para o exercício das suas funções de generalíssimo e chefe do governo. O palácio fortificado Nijo-jo, relativamente próximo do palácio imperial simbolizava assim essa  legitimação e sublinhava o poder delegado no Shogun. E doravante, os daimyo, bem como os altos funcionários e comandantes militares, teriam de passar pela audiência do shogun, assim significada em Kyoto, capital imperial, ainda que o domicílio do generalíssimo e a sede do seu governo (bakufu) se estabelecesse em Edo (hoje Tokyo), onde os senhores feudais teriam, aliás, residência obrigatória, junto do shogun, seis meses por ano. O Nijo-jo, subsequentemente, passou a acolher os Tokugawa apenas quando eles viessem a Kyoto visitar o Imperador. Dentro da cerca da fortificação, rodeada por um fosso de água, estão dois palácios. Ao entrarmos pelo portão oriental, somos conduzidos ao Ninomaru, palácio hoje reduzido a menos de metade do que ali fora inicialmente edificado, depois de lhe ter sido acrescentado uma importante área coberta, várias construções comunicantes com as já existentes e com o Honmaru, o outro palácio do complexo ( palácio principal seria, com a sua alta torre, mas, destruído pelo fogo no sec.XVIII, é hoje uma construção de 1893). Tais edifícios, incluindo um teatro para representações de noh, ergueram-se entre 1624 e 1626, precisamente para servirem de recepção à visita do imperador Gomizuno-o ao terceiro shogun Tokugawa, de seu nome próprio Iemitsu. O paço para temporária habitação do Imperador, o Gyoko Goten, hoje desaparecido, situava-se entre os dois palácios, e a eles se ligava por corredores. Nesse paço, o Imperador bebeu cerimonialmente saké com o shogun Iemitsu, seu cunhado, e o pai deste, o segundo e então já ex-shogun Hidetada, seu sogro. A 9 de Setembro de 1626, terceiro dia da sua estadia, foi Gomizuno-o convidado a assistir a uma representação de noh e, posteriormente, a conviver com o seu anfitrião no grande salão, ou sala de audiências do Ninomaru, residência do shogun. E foi esse salão ou ohiroma que também nós visitámos. Penetrando no Ninomaru - passámos primeiro pela Karamon, porta monumental, ao gosto chinês, superada por uma coberta com símbolos dourados da família imperial e da Tokugawa, e ainda pelo portão interior dos coches, com o seu pórtico de madeira esculpida de flores, pavões e outras aves voadoras - fomos surpreendidos pelo gemido ou chiar das tábuas (há quem aí reconheça o pio ou o canto de rouxinóis) do piso do largo corredor que fomos percorrendo: assim foi feito propositadamente para que não houvesse entradas furtivas nem inesperadas surpresas. Mas logo fomos envolvidos pela nobre dimensão das salas de cedro robusto, sobre o qual, nas paredes, tectos e portas, aplicações de ouro fino e pinturas de cores calorosas e discretas criam um cenário de acolhedora grandeza. A pintura das paredes e fusuma é de artistas da escola Kano, e aqui se encontram as obras de maior dimensão dessa família de pintores. Os motivos são tigres e panteras entre bambus, gansos selvagens e garças povoando paisagens de Inverno e neve, pavões exibindo-se ou andorinhas voando. E por aí chegámos à referida ohiroma, salão decorado por magníficos pinheiros, de vigorosos troncos e ramos, e verde folhagem sobre fundo de ouro. O tecto, todo trabalhado em caixilhos, tem pinturas geométricas florais. O salão ordena-se por duas divisões ou pisos de diferente altura: o jodan, mais elevado, ao fundo do qual está a tokonoma, a parte mais recuada, onde se sentava, nas audiências, o shogun (em qualquer sala japonesa, o lugar de honra é sempre, de frente para a entrada, o mais afastado desta); e o gedan, um degrau abaixo, onde se sentavam os outros senhores. Como era de regra, o shogun tem, à sua direita, uma tsuke-shoin, espécie de escritório, para escrita, e, à sua esquerda, uma estante montada num recuo da parede, de prateleiras não alinhadas (chigaidana) e as fusuma com frisos dourados (chodaigamae), tudo com pinturas de pinheiros resistentes, da autoria da Kano Tanyu, que aliás enchem as paredes do salão. Os visitantes descobrem hoje o ohiroma com manequins representando uma audiência do shogun (sentado no jodan, acima dos restantes) aos senhores que, sentados sobre os joelhos, se inclinam respeitosamente, deixando-nos ver melhor os seus brasões bordados nas costas das riquíssimas vestes... A cena assim montada refere-se à última audiência: aquela em que, corria o ano de 1868, Tokugawa Yoshinobu, 15º e derradeiro shogun, comunicava a nobres e governantes que entregara ao Imperador Meiji todos os poderes que a sua família reunira durante mais de 260 anos... No século XVI - quando, com o movimento de reunificação militar e política do Japão, se reafirmou o poder central do shogunato, reconhecido pelo Imperador - o nosso padre Cosme de Torres definia mais ou menos assim a autoridade do estado nipónico e seu exercício: O estado secular deste país divide-se por duas autoridades, ou nobres principais, um dos quais trata da concessão de honras, e outro do poder, da administração e da justiça. 

Ambos esses nobres vivem em Miyako. O que trata das honrarias chama-se Ô (Rei) e é hereditário o seu ofício; o povo venera-o como aos seus ídolos, e como tal o louvam... Chegando ao termo do nosso percurso do Ninomaru, admirámos, na kuroshoin, sala na área de aposentos do shogun, a pintura, por Kano Naonobu, de sakura (cerejeiras em flor) sobre as fusuma: sobre fundo de ouro claro, surgem os troncos quase imaginários, vigorosos, grossos e torcidos, mais artísticos e sugestivos do que realistas e naturais, donde explodem ramos etéreos de flores de um rosa branco, que nos lava o olhar... Ocorreu-me então um texto do padre João Rodrigues, o Tçuzu, que ali poderá ter estado, e que nos diz mais ou menos o seguinte: A primeira e mais importante das artes mecânicas deles é a pintura. São muito habilidosos a pintar coisas da natureza, que copiam o melhor que podem, com grande exactidão. Apresentam nas suas pinturas muitas coisas fantasiadas e mais concebidas pela imaginação do que descobertas na natureza, tais como flores imaginárias e figuras inteligentemente desenhadas e ligadas entre si... De acordo com o seu melancólico temperamento, inclinam-se geralmente para pinturas de solidão e comoção profunda, como as que retratam as quatro estações do ano. Atribuem uma cor especial a cada estação e descrevem as várias coisas que nela crescem ou se encontram. Por exemplo: associam o branco ao Inverno, à conta da neve, geada e frio daquela estação, e também à conta das diversas espécies de aves selvagens, como gansos, cisnes, garças e muitas outras que, durante o Inverno, chegam da Tartária, voando em bandos. A cor verde é associada à Primavera, porque as plantas, vegetais e flores, nas árvores e nos campos, estão em rebento, e também por causa da névoa que por essa altura cai. O vermelho colore o Verão, à conta do grande calor, com os frutos amadurecendo nas árvores e tudo em flor. O azul é a cor do Outono, quando a fruta já está bastante madura e as árvores largam as suas folhas à descida da sua energia para as raízes, onde fica armazenada à espera. Deste modo se diz que o fruto é produzido na Primavera, floresce e viceja no Verão, é colhido no Outono, e se esconde no Inverno, quando as árvores murcham e perdem as folhas... Estes quadros, sucessivamente pintados nas paredes e painéis das salas, são muito agradáveis e comoventes, por tão vivamente descreverem a natureza nas diferentes estações. E neste folhetim de cerejas que se vão comendo, rebenta-se-me uma sagacidade antiga, talvez aquela que melhor percebe quando se interroga: João Rodrigues veio, há quase meio milénio, de Sernancelhe, lá das montanhas do norte-interior de Portugal, feridas e marcadas, acolhidas e temperadas pelos rigores e pelas clemências das estações...  Sofreu e saboreou, em menino, as graças e desgraças do tempo circular, do tal que, antes de o sentirmos, envelhecendo, mais escatológico por nos parecer fatal, fatal, sim, nos surge só pela repetição do nascimento, da maturidade, do envelhecimento e, finalmente, do silêncio interrogador das estações de cada ano... Fez-me o Tçuzu pensar que, no Nijo-jo dos primeiros shogun Tokugawa, alguma mensagem haveria nos temas das pinturas interiores do Ninomaru: afinal, bambus e pinheiros resistentes, estes tão sólidos e verdes, acolhem tigres e falcões, e as sakura eternizam a Primavera como promessa... Ano Novo, Era Nova: o shogunato Tokugawa será flexível como o inquebrável bambu, e resistente como o persistente pinheiro. E mesmo as aves vindas de frios bárbaros nele encontrarão repouso. Durou quase três séculos. Tinha eu uns oito anitos, acabara de chegar a Portugal com meus pais, minha Mãe, cheia de disciplinada e nórdica boa vontade, ainda se debatia arranhadamente com a fala portuguesa. Passámos a Entrecampos, a caminho de uma corrida de touros no Campo Pequeno, ao gosto de meu Pai. Sobre a entrada de um estabelecimento comercial, uma placa anunciava: Casa de Pasto. Minha Mãe, sempre curiosa, interrogou: Casa de Pasto? O que é isso? Ao que meu Pai, que lhe detestava o sotaque, respondeu, imperturbado: É uma escola de pensamento. Ali aprendemos a mastigar as ideias, a ruminá-las e digeri-las. Nunca mais me esqueci de que nada se percebe à primeira vez.

 

Camilo Martins de Oliveira

FOMOS EM BUSCA DO JAPÃO

Nº. de inventário: FO/0634

Créditos fotográficos: © Hugo Maertens/BNP Paribas/Museu do Oriente, Lisboa.


18. KABE NI MIMI ARI, SHOJI NI ME ARI

 

Uma pintura de Tosa Mitsuyoshi, mestre da escola de apelido Tosa, do século XVI, representa a mesma cena do conto V do Genji, que Kano Eitoku pintou num biombo. Têm as duas obras diferenças de estilo e de execução; afinal, sempre são de escolas diferentes... Mas ambas as narrativas pictóricas são fiéis ao texto do romance, desde o Príncipe Genji a espreitar por detrás de uma canas, ao braço direito que Murasaki estende em direcção ao pardal que, voando, lhe foge. Gesto que, simultâneamente, é desejo de prender, apreensão, e livre adeus, como se o amor morasse na despedida... Artistas japoneses que, pintando a poesia subtil dos Contos do Genji, nos lembram Novalis: a poesia é o real absoluto; quanto mais poético, tanto mais verdadeiro. Os temas tratados na arte japonesa são recorrentes, respeitam-se e atendem-se como tradições que se devem cultivar, não só porque qualquer herança é mais espiritual, cultural, do que material, mas também, e sobretudo, porque o ir beber às mesmas fontes e pensarsentir os mesmos temas é factor de coesão social, é comunhão que sustenta um entendimento mútuo mais enraizado e profundo, donde resulta que a comunicação entre eles seja  -  como dizem os antropólogos  -  de alto contexto. Pelo muito tempo que vivi na cultura japonesa, talvez tenha sentido, ao olhar para a pintura da neve sobre bambus numa fusuma do Nijo-jo, o mesmo que maravilhou o padre Gaspar Vilela, quase meio milénio antes, perante outra pintura com o mesmo tema. Também no Namban Bunka-kan, em Osaka, está um biombo representando o santuário de Itsukushima, aquele cujo torii se ergue do mar e marca a entrada religiosa para o complexo de santuários shinto e templos budistas que povoam a ilha de Myajima, perto de Hiroshima. Nesse quadro surgem uns namban, com o seu capitão protegido  --  à maneira  --  pelo habitual guarda-sol. Faz par com outro, sem namban-jin, e representando o célebre panorama de Amanohashidate. Este par de vistas, assim se foi juntando sempre, é das regras. Também pode aparelhar-se o panorama de Matsushima, considerado, com os dois de que falamos, um dos três mais belos do Japão. Temos, no Museu do Oriente, em Lisboa, um biombo, que há muitos anos adquiri em Kyoto, representando Itsukushima, e pintado nos finais do primeiro quartel do sec. XVIII, pouco menos de um século depois do que está no Namban Bunka-kan: não tem par (ter-se-á perdido ou seguiu divergente caminho de vendas) e  -  nota-se pelo nariz curto, e pela falta de calçado condizente  -  os namban-jin são já japoneses vestidos à moda namban... Vinda da China, logo no sec. VI-VII, a pintura de interiores, nos templos e palácios nipónicos, aplicava-se nas paredes, nas portas ou divisórias deslizantes (fusuma) e nos biombos. A tudo se chamava shohei-ga, à pintura (ga) sobre paredes e fusuma shoheki-ga. Inicialmente ambas seguindo a tradição chinesa ou kara-e, todas foram evoluindo ao gosto da tradição japonesa ou yamato-e, muito embora grande parte dos temas chineses se mantivessem, ainda que a pintura de biombos se libertasse para histórias e cenas mais ao gosto japonês ou com mais atualidade  - desde cenas de batalhas a panoramas do Japão, até às cenas de rua, como as dos rakuchu-rakugai-zu, ou à "reportagem" namban... No templo e mosteiro de Shunko-in  -  aquele que guarda, no complexo monástico de Myoshin-ji, o sino português de 1577, salvo da igreja de Nossa Senhora da Assunção de Kyoto  -  pudemos ver algumas fusuma, cuja pintura é atribuída a Kano Eigaku, celebrando personagens e temas do confucionismo, ou seja, ainda na tradição kara-e ou chinesa. Explicou-nos o abade que a filosofia de Confúcio se casava bem com o budismo zen e que, dada a influência deste na via do guerreiro ou samurai, faziam ali sentido as alusões confucionistas à inteireza de carácter, lealdade e honra. Cabe-me notar aqui que, para além de Confúcio, de um sino católico religiosamente preservado ao longo de séculos, e, ainda, de uma lanterna de pedra com símbolos cristãos disfarçados (do tempo dos senpuku ) no cuidado jardim, o Shunko-in tem a principal parte deste desenhada como símbolo do santuário de Ise que, hoje em dia é o "vaticano" do shintoísmo... Mas já falámos de sincretismo. Peritos em caligrafia sino-japonesa (os kanji) dizem que o desenho do ideograma que significa capital e, em japonês, se lê kyo ( como em Kyoto ou Tokyo ) corresponde ao grafismo da forma das tais lanternas de pedra, as quais, na verdade, ladeavam as avenidas de acesso às sedes do poder ou do sagrado. Em Horiyuji magnificamente edificado na planície de Yamato, pátria do Japão, havia paredes pintadas ao gosto dos temas chineses nas representações da dinastia Tang, ou não fossem, o mosteiro e os templos, edificados pelo príncipe regente Shotoku Taishi, protector do budismo no sec.VI-VII. Eram pinturas murais, executadas por técnicas já utilizadas na China e na Coreia, provavelmente as primeiras a serem feitas no Japão. No pavilhão dourado, destacava-se uma, que infelizmente só conhecemos por fotografia: com 3m13X2m60, datava do ano 700 e representava o paraíso do Buda Amida. Estão ali três figuras de sereníssima expressão : trata-se da trindade ou Tríade Amida, que reconhecemos em esculturas ainda hoje existentes no oratório da senhora Tachibana (sec.VII), conservado na galeria dos tesouros de Horiyuji. A tríade volta a surgir noutra escultura em bronze  -  da autoria do famoso Tori, e dedicada ao príncipe Shotoku  -  colocada no pavilhão dourado ou principal,  onde se reunem os oragos de Horiyuji, confirmando assim que a trindade Amida seria ali a principal invocação. Esta tríade, também conhecida por Tríade Shaka (versão japonesa do sânscrito Sakya, nome do clã do Buda histórico) mostra apenas o Amida ladeado por dois acólitos. Mas a este e outros aspectos da artes budistas voltaremos, quando contarmos as nossas visitas ao Todai-ji e ao Byodo-in, e ainda à percepção do budismo japonês pelos nossos missionários do século XVI. Por agora, basta-nos recordar alguns exemplos da pintura artística de parede (hekiga-e ) e de divisórias e portas deslizantes (fusuma-e ) com que deparámos nos nossos passeios pelos interiores de mosteiros e palácios. São esses, em regra, bastante sombrios, a luz do dia penetra apenas através de folhas de papel translúcido, encaixilhadas nas janelas e em divisórias das salas, ambas deslizantes, que dão pelo nome de shoji. E terá sido tal penumbra que foi convidando à pintura colorida  --  designadamente no estilo Yamato-e  --  aplicada directamente sobre a madeira daqueles suportes, ou sobre papel ou seda, de modo a dar mais brilho e calor aos aposentos. No Koncho-in do Nanzen-ji, em Kyoto, admirámos as shoji da Hasso-seki,,a casa do chá desenhada por Kobori Enshu, em 1622. E as fusuma-e, obras atribuídas a Hasegawa Tohaku e Kano Naonobu, uma com macacos e árvores, outra com garças e bambus. No mesmo Nanzenji  -  ou templo zen do sul  -  descobrimos fusuma pintadas por Genshin Kano e Eitoku Kano, e, no Ko-Hojo  - pequeno pavilhão trazido para ali do castelo de Momoyama, o tal em Fushimi, erigido por Hideyoshi  -  a fusuma pintada por Kano Tanyu, que nos mostra um tigre a beber água: Mizunomi no Tora... No palácio imperial de Kyoto, as fusuma que separam três salas de espera distintas  -  de acordo com a categoria protocolar de quem esperava  -  diferenciam-nas pelos temas da pintura: o tigre, a garça, a cerejeira... Deus me perdoe a preferência: de todas estas obras de arte tão subtil, uma há que me aparece em sonhos, confundida na noite: a pintura daquele macaco que, com uma mão, se segura ao ramo e, de braço esquerdo esticado, esforçadamente se debruça e, estendendo em calculado esforço o direito, com essa mão procura apanhar em baixo o reflexo da lua... Vimo-la no Koncho-in, Hasegawa Tohaku a pintou em finais do sec.XVI. Aparição que me surge, por vezes, com a lembrança de um dito popular que tem a ver com paredes e janelas (shoji) : kabe ni mimi ari, shoji ni me ari... Isto é: as paredes têm ouvidos, as janelas têm olhos... Será que só a lua se esconde?

   
Camilo Martins de Oliveira