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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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HISTÓRIAS MUÇULMANAS SOBRE JESUS E O ESSENCIAL

 

1. No Evangelho, Jesus faz apelo ao essencial: “De que vale ao Homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma”, a sua vida, o essencial? Por isso, o amor a Deus e a avareza são inconciliáveis. Não se pode servir a Deus e à riqueza.


Jesus não é gnóstico (portanto, não é contra a matéria e os bens deste mundo), Jesus não é a favor da preguiça (pelo contrário, manda utilizar os talentos recebidos).


Jesus não combateu os ricos pelo facto de eles porem os talentos a render e criarem riqueza, recebendo o justo lucro. Aquilo a que Jesus se opôs de modo frontal e duro foi à avareza. E fê-lo, por dois motivos fundamentais. O primeiro refere-se à fraternidade e à generosidade. O rico, que o é de coração (neste sentido, até o pobre de bens materiais pode ser rico), o rico, que o é no seu íntimo, não é generoso nem fraterno. Por isso, banqueteia-se, enquanto ao lado o pobre geme e morre: lembremo-nos da terrível história contada por Jesus sobre o rico que se banqueteia enquanto o pobre Lázaro jaz para ali abandonado. Com a pandemia, segundo o último relatório da Oxfam, os 10 mais ricos do mundo duplicaram a sua fortuna e as desigualdades contribuem para a morte de pelo menos uma pessoa a cada 4 segundos... Face a esta situação explosiva, impõe-se tomar consciência de que é urgente acabar com este fosso entre ricos e pobres. Se o não fizermos por humanidade, façamo-lo ao menos por egoísmo esclarecido. De facto, este abismo intolerável pode incendiar o mundo, a ponto de o nosso bem-estar poder vir a transformar-se num inferno...


O outro motivo para Jesus açoitar o espírito de avareza, insaciável, diz respeito à diferença entre coisa e pessoa. A dignidade de ser Homem tem a sua raiz no facto de o ser humano ser pessoa. Como escreveu Tomás de Aquino, “a pessoa é o que é perfeitíssimo em toda a natureza”, e o que caracteriza e constitui a pessoa no seu núcleo é a liberdade. Ora, o avaro vive de tal modo agarrado às coisas que, a um dado momento, já não conhece a distinção essencial entre coisa e pessoa. De tal modo é escravo das coisas, do ter, que corrompe e deixa-se corromper; se for preciso, mata, corrompe, compra gente, escraviza, faz a guerra... Já não é livre, pois a liberdade e a pobreza de coração são irmãs gémeas. Ao corromper e deixar-se corromper, estando até disposto a vender e a comprar pessoas ou a matá-las, pela exploração ou pela guerra, degrada-se, isto é, abandona a dignidade infinita de ser pessoa para tornar-se coisa entre as coisas.


No seu aviso, Jesus é frontal: "Ninguém pode servir a dois senhores. Vós não podeis servir a Deus e a Dinheiro” — deve-se escrever com maiúscula, pois Jesus referia-se a Mamôn, uma deusa. Não se pode server a Deus, Pai/Mãe que quer a dignidade e a realização de todos, e a Mamôn.


2. Neste contexto, chamo a atenção para duas belas histórias, que vêm do islão, precisamente sobre este tema.


O amor e o respeito por Jesus são uma presença constante na literatura muçulmana. Tarif Khalidi, director do Centro de Estudos Islâmicos e membro do conselho directivo do King's College (Cambridge), reuniu em livro -- Jesus Muçulmano - as chamadas "máximas e histórias de Jesus", onde se encontram várias alusões aos Evangelhos. Uma delas diz assim, em síntese: 


Um homem juntou-se a Jesus, dizendo: "Quero ser teu companheiro." Seguiram viagem e, quando chegaram à margem de um rio, sentaram-se para comer. Levavam três pães. Comeram dois e sobrou um. Jesus foi ao rio beber água. Como, no regresso, não encontrou o terceiro pão, perguntou ao homem: "Quem tirou o pão?" Ele respondeu: "Não sei."


Continuaram viagem, e, no caminho, Jesus realizou dois milagres. Voltou-se das duas vezes para o companheiro, dizendo: "Em nome d'Aquele que te mostrou este milagre, pergunto-te: quem tirou o pão?" "Não sei", tornou a responder o homem.


Chegaram depois ao deserto e sentaram-se no chão. Jesus fez um montinho de terra e areia e disse-lhe: "Com a permissão de Deus, transforma-te em ouro", e assim aconteceu. Então, Jesus dividiu o ouro em três partes e disse: "Um terço para ti, um terço para mim e um terço para quem tirou o pão". Aí, o companheiro disse: "Fui eu que tirei o pão!" Jesus disse: "O ouro é todo teu."


Jesus continuou sozinho o seu caminho. Entretanto, chegaram dois salteadores que queriam roubar o ouro ao antigo companheiro. Este, porém, disse: "Vamos dividi-lo entre os três e um de vós vai à cidade comprar comida". Um deles foi à cidade e pensou: "Porque hei-de dividir o ouro com estes dois? Vou antes envenenar a comida e ficar com o ouro para mim!" E comprou comida, que envenenou.


Por sua vez, os que tinham ficado disseram: "Porque havemos de dar-lhe um terço do ouro? Em vez disso vamos é matá-lo quando regressar e dividimos o ouro entre os dois."


Quando o terceiro voltou, mataram-no. Depois, comeram a comida e também morreram. O ouro ficou no deserto com os três homens mortos ao lado.


Aconteceu que Jesus passou por ali e ao ver aquela miséria disse aos discípulos: "Assim é o mundo. Tende cuidado."


De outra vez, Jesus passou por uma caveira apodrecida. Ordenou-lhe que falasse. E ela disse: "Espírito de Deus, o meu nome é Balwan ibn Hafs, rei do Iémen. Vivi mil anos, gerei mil filhos, desflorei mil virgens, destrocei mil exércitos, matei mil tiranos e conquistei mil cidades. Que quem ouve a minha história não se deixe tentar pelo mundo, pois tudo isso foi como o sonho de um homem adormecido." Jesus chorou.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 5 de fevereiro de 2022

FELIZ NATAL!

 

Não sei, ninguém sabe, qual a data certa e o lugar real do nascimento de Jesus... Tampouco a maioria das pessoas pensará hoje no sentido deste evento natalício: a Festa do Natal, agora, é sobretudo social e profana, promovendo férias e encontros, libações várias, fúria consumista. Mas no âmago secreto da nossa cultura permanece esta celebração cristã do solstício de Inverno, quando do fundo da noite e do frio nasce a esperança, a certeza - que é fé - de que a luz não tardará a voltar, esplendorosa como o amor que nos aquece o coração e nos devolverá fraternidades perdidas.

Seja Feliz em nós, e promissora, a festa do Natal da misericórdia!

 

Camilo Maria
      

Camilo Martins de Oliveira

FÉRIAS: TEMPO FESTIVO

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1. O ser humano tem como uma das suas características ser laborans (trabalhador). Não apenas para ganhar a vida — uma expressão extraordinária, embora dura: a vida foi-nos dada e, depois, é preciso ganhá-la, e uma das coisas que me têm sido ensinadas pela experiência é que quem nada tem que fazer para ganhar a vida, trabalhando, porque tudo lhe é oferecido, nunca atinge uma adultidade madura —, mas também para se realizar autenticamente em humanidade. De facto, é transformando o mundo que a pessoa se transforma e faz. Isso é dito no étimo de duas palavras: a palavra trabalho vem do latim, tripalium, um instrumento de tortura (trabalhar não é duro?), mas também dizemos de alguém que realizou uma obra e que se vai publicar as obras de alguém (do latim, opera) — em inglês, trabalhar diz-se to work, e, em alemão, Werk é uma obra, sendo o seu étimo érgon, em grego. Ai de quem, à sua maneira, não realiza uma obra, a obra primeira que é a sua própria existência autêntica! Fazendo o que fazemos, o que é que andamos no mundo a fazer? A fazer-nos, e, no final, seria magnífico que o resultado fosse uma obra de arte.

Logo no princípio, Deus disse que o Homem tem de trabalhar. É próprio do Homem trabalhar, pois ele é constitutivamente relação com o mundo. Esta relação com o mundo é mais do que uma relação de trabalho para a produção de bens em ordem à subsistência: o trabalho é também realização própria, social e histórica: construindo o mundo, a Humanidade ergue a sua história de fazer-se.

Jesus também trabalhou, e trabalhou no duro. Normalmente, diz-se que era caprinteiro, mas o grego — os Evangelhos foram escritos em grego — diz que era um téktôn (donde vem arquitecto), isto é, o que antigamente se chamava um “faz-tudo”: era capaz de ajudar a erguer uma casa e preparar instrumentos agrícolas. Foi nessa relação dura com o trabalho, e foi a trabalhar que passou a maior parte da sua vida, que percebeu melhor a vida e, por exemplo, as relações entre quem tem muito dinheiro e os outros... Estou convencido de que, se o clero tivesse mais experiência do trabalho duro, haveria outra compreensão da Igreja na sua missão no mundo... A vida é exaltante, mas também é dura, esmagadora por vezes. Isso diz-se nos rituais dos mortos, quando se reza: “Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso... Descansa em paz. Amén.” Tantas são as canseiras da vida!...

 

2. Mas Deus também estabeleceu um dia de descanso e Jesus, diz o Evangelho, também descansou. É necesssário sublinhar que a Bíblia faz questão de dizer que Deus deu o mandamento de um dia feriado semanal, santo, sem trabalho, para que o Homem fizesse a experiência de que não é uma besta de carga, mas um ser festivo. Tem de trabalhar — e duro —, mas não é besta de carga. E aí está o Domingo ou o luxo de um feriado aqui e ali. Aí estão as férias.

E as palavras não são arbitrárias. A palavra latina feria, no plural feriae, tinha o sentido de "descanso, repouso, paz, dias de festa". No século III, a Igreja assumiu os dias da semana como dias de "comemoração festiva", enumerando-os como feria prima, feria secunda, tertia, quarta, quinta, sexta, ou, invertendo a ordem das palavras: prima feria, secunda feria, tertia feria, quarta feria, quinta feria, sexta feria. Daí, ao contrário de outras línguas, como o espanhol, o italiano, o francês, etc., que adoptaram a classificação romana baseada na divinização de um planeta: Lunes, Martes, Lundi, Mardi, etc., o português ter seguido a designação eclesiástica: segunda-feira, terça-feira, quarta-feira, etc. Que feira enquanto mercado esteja igualmente associada a feria deriva do facto de os comerciantes aproveitarem os dias festivos para vender as suas mercadorias.

O importante é sublinhar, até do ponto de vista histórico e etimológico, o carácter festivo associado às férias. Assim, em espanhol férias diz-se vacaciones e em francês vacances. Ora, vacaciones e vacances têm o seu étimo no latim vacatio, com o significado de isenção, dispensa de serviço. Os ingleses em férias dizem que estão on holidays, e isso quer dizer em dias santos. Os alemães, esses têm Ferien ou Urlaub. Ora, a raiz de Urlaub é Erlaubnis, com o sentido de dias livres de serviço e trabalho.

Se pensarmos bem, as férias não têm como finalidade  serem apenas um intervalo no trabalho, para repor as forças em ordem a trabalhar outra vez e mais. As férias têm o seu fim em si mesmas: a experiência de que o ser humano é um ser festivo. É preciso apanhar sol na praia, no campo, na montanha, ler a grande literatura, ouvir música, que nos remete para origens imemoriais e para a transcendência utópica toda. É preciso reaprender a ver o sol a nascer e a pôr-se, e a exaltar-se com a lua enorme — cheia — ou pequenina que nem um fio, e com o alfobre das estrelas: isso que na cidade não se vê. É preciso voltar às alegrias simples: contemplar uma simples folha de erva, acolher o perfume de uma “rosa sem porquê”, como dizia Angelus Silesius, o inútil do ponto de vista da produção — "o fascinante esplendor do inútil", escreveu George Steiner —, exaltar-se com o enigma de um rosto, o mistério do ser e de ser. É preciso ter tempo para a Família, para os amigos, para ouvir o Silêncio onde se acendem as palavras que iluminam. É preciso ter tempo para a beleza: não é a beleza que redime o mundo, como disse Dostoiévski? Tempo para o melhor: ouvir Deus, dialogar com o Infinito. Rezar.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 21 AGOSTO 2021

    

DEUS MORREU? TESTEMUNHOS

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Há quase 150 anos (1882), Nietzsche proclamou a morte de Deus. Desde então, o mundo não é o mesmo. É certo que para Nietzsche o cristianismo é que é propriamente uma religião niilista, de tal modo que, com a proclamação da morte de Deus, é o mar infindo das novas possibilidades do sim à vida que se abre. “Quem o matou fomos todos nós, vós mesmos e eu!” “Nunca existiu acto mais grandioso.” No entanto, à morte de Deus não se seguiria a morte do Homem e do sentido último de toda a realidade? Nietzsche tem consciência aguda do que se segue: “Para onde vamos nós, agora? Não estaremos a precipitar-nos para todo o sempre? E a precipitar-nos para trás, para a frente, para todos os lados? Será que ainda existe um em cima de um em baixo? Não estará a ser noite para todo o sempre, e cada vez mais noite?”

Segundo Gilles Lipovetsky, "Deus morreu, as grandes finalidades extinguem-se, mas toda a gente se está a lixar para isso. O vazio do sentido, a derrocada dos ideais não levou, como se poderia esperar, a mais angústia, a mais absurdo, a mais pessimismo": isto escreveu ele em A era do vazio. Os espíritos mais atentos acham, porém, que é necessário dar antes razão a L. Kolakowski, o filósofo polaco agnóstico, quando afirmou que, desde a proclamação da morte de Deus por Nietzsche, nunca mais houve ateus serenos: "Com a segurança da fé desfez-se também a segurança da incredulidade. Ao contrário de um mundo familiar, protegido por uma natureza benéfica e benigna, como era proposto pelo ateísmo iluminista, o mundo sem Deus dos nossos dias é sentido como um caos opressor, eterno. É um mundo privado de todo o sentido, de qualquer orientação, sinal de direcção, estrutura. De há cem anos a esta parte, praticamente nunca mais vimos ateus serenos. A ausência de Deus tornou-se a ferida sempre aberta do espírito europeu, por maior que tenha sido o esforço feito para esquecê-la, recorrendo a toda a espécie de narcóticos." De qualquer forma, no seu livro posterior, A Sociedade da Decepção, o próprio Lipovetsky, reconehcendo “a reafirmação do religioso”, veio dizer que, “privados de sistemas de sentido englobante, numerosos indivíduos encontram uma tábua de salvação no reinvestimento de antigas e novas espiritualidades capaz de oferecer a unidade, um sentido, referências, uma integração comunitária: é do que o Homem necessita para combater a angústia do caos, a incerteza e o vazio.”

Como escreveu o filósofo Eusebi Colomer, a própria expressão "morte de Deus" não é unívoca, pois pode ter e tem múltiplos sentidos. Pode significar que Deus realmente nunca existiu, embora só recentemente tenhamos feito essa descoberta. Pode querer dizer que talvez Deus exista, mas os seres humanos, que outrora se lhe dirigiram pela fé e pela invocação, hoje já não acreditam nele. Talvez queiramos apenas exprimir a experiência de ausência e aparente silêncio de Deus, própria do nosso tempo. Talvez estejamos apenas a referir-nos à necesssidade de transcender constantemente as nossas ideias acerca de Deus, e, neste sentido, a "morte de Deus" significa a morte dos ídolos fabricados por nós. Afinal, que Deus era esse que morreu? Se o Deus verdadeiro é o Deus sempre maior, que transcende sempre tudo quanto possamos pensar ou afirmar dele, então os deuses enquanto ídolos têm que morrer, para ser possível a fé no Deus verdadeiro...

Neste domínio, a pergunta essencial consiste em saber se é possível ser Homem sem colocar honestamente a questão de Deus. É que ser Homem é a abertura ao Infinito, e, assim, a questão do Homem é a questão de Deus precisamente enquanto questão. Neste contexto, afirmar Deus não é então também um modo de expressar a confiança no Sentido último, como sugeriu o filósofo L. Wittgenstein?

De facto, como disse Marion Gräfin Dönhoff, co-editora do conhecido semanário alemão “Die Zeit”, "o fixar-se exclusivamente no aquém, que corta o Homem das suas fontes metafísicas, e o positivismo total, que se ocupa apenas com a superfície das coisas, não podem dar aos seres humanos um sentido duradouro e estável, e, por isso, levam à frustração".

Isto tudo não prova, evidentemente, a existência de Deus. Significa apenas que o Homem se não compreende cabalmente sem colocar a questão de Deus. Aliás, a relação de cada um com Deus é um mistério para si próprio. Para ficar na actualidade, lembro que o insigne psiquaiatra Daniel Sampaio, com quem tive o privilégio de debater uma vez na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto a questão do sentido da vida e o suicídio, declarou, depois da luta pessoal duríssima que travou com a covid-19, que durante a doença chegou a lembrar-se de Deus e agradeceu a quem por ele rezou a um Deus que ele, não crendo, respeita.

Continuando na actualidade, investigações científicas recentes — uma da prestiagiada Universidade Católica de América, em Washington, a outra, publicada na conhecida revista MedNext —, concluíram, respectivamente, que “as pessoas que se mostram activas nas comunidades religiosas tendem a ter níveis mais altos de bem-estar, tendo sido este o caso durante a pandemia”, e que há uma “relação salutar entre a espiritualdiade e o sistema imunitário”.

Por fim, o nadador norteamericano Caeleb Dressel, que se afirma profundamente cristão e que trouxe dos Jogos Olímpicos em Tóquio cinco medalhas de ouro, declarou que Jesus é mais importante do que as medalhas de ouro: “a minha felicidade está em Deus”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 14 AGOSTO 2021

O PERIGO DE UM DEUS BOM

 

1. Julgo que o que no Papa Francisco provoca mais a admiração das pessoas, dentro e fora da Igreja — talvez até mais fora —, é ele ser um cristão. Por palavras e obras.


O que é ser cristão? É ser discípulo de Jesus, tentar viver como ele. Jesus é o autor da maior revolução da História, que consiste na revolução da imagem de Deus. Até pessoas que se dizem cristãs continuam com a ideia de que Deus manda epidemias, por exemplo, de que Deus precisou da morte do seu Filho Jesus para se reconciliar com a Humanidade. Pergunto: que pai ou mãe decentes exigiriam a morte de um filho? Em relação ao Deus que tivesse mandado o Filho ao mundo para, pela sua morte na cruz, poder aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade só haveria uma atitude humanamente digna: ser ateu.


Na realidade, Jesus, veio, pelo contrário, revelar que Deus é Pai/Mãe, amigo de todos, que a todos dá a mão, que compreende e perdoa e quer a salvação de todos. Deus é Amor incondicional, “o seu nome é Misericórdia”, diz o Papa Francisco, que faz como Jesus: anima a todos, dá a mão aos mais pobres, abandonados, marginalizados, denuncia a economia financeira especulativa e corrupta, que mata...


Afinal, na Páscoa, a pergunta que precisamos de fazer é sempre esta: Quem mandou matar Jesus, crucificando-o? Dá que pensar e até causa arrepios: Jesus foi mandado matar, em primeiro lugar, pelos sacerdotes do Templo. Eles não toleravam que Jesus dissesse, colocando na boca de Deus estas palavras: “Eu não quero sacrifícios (de pombas, ovelhas, vitelos...), mas sim justiça e misericórdia.” Os sacerdotes viviam, até financeiramente, da exploração do povo em nome da religião. Quem mandou crucificar Jesus, a pedido dos interesses do Templo, foi o representante do Império, Pilatos. Para que é que existem os impérios senão para idominar, explorar, escravizar? Pilatos teve medo de que o fossem denuncar ao imperador por libertar um subversivo com consequências para o poder imperial. De facto, o Deus de Jesus não quer escravos nem explorados por impérios ou seja pelo que for. Deus quer a dignidade de todos.


Não é esta dignidade e justiça para todos que Francisco também anuncia, quer e pratica?


Até parece que nos damos mal com um Deus bom para todos. Talvez não seja só parecer; em geral, damo-nos mesmo mal. É que, se Deus não fosse bom, não seríamos obrigados também nós a ser bons; se Deus fosse vingativo, também nós podíamos vingar-nos; se Deus não fosse o Deus da justiça e da paz, nós também podíamos roubar, ser corruptos, fazer a guerra, matar em nome de Deus ou invocando o seu nome...


Será que temos meditado suficientemente sobre o que levou Jesus à Cruz? Jesus não morreu na cruz por vontade de Deus. Morreu por vontade dos homens. Jesus não morreu para satisfazer um Deus irado. Morreu pela causa de um Deus bom, amável. Morreu para dar testemunho da Verdade e do Amor: Deus é Amor... e só quer o bem de todos. Quem nunca ouviu falar da parábola do filho pródigo, dos banquetes de Jesus com pecadores públicos, com prostitutas, acolhendo todos em nome de Deus?...


O sofrimento físico, psicológico, moral, de Jesus durante o julgamento, o abandono e a fuga dos discípulos mais próximos, a flagelação, a coroação de espinhos, o caminho do Calvário, aquelas horas de horrores na cruz, é inimaginável. Rezou a Deus, que tratava por “Abbá” (Pai querido), que o libertasse daquele suplício, que se aproximava, sentiu pavor, suou sangue, rezou aquela oração que atravessa os séculos: “Meu Deus, meu Deus, porque é que me abandonaste?”. Mas as últimas palavras foram de perdão e de confiança filial: “Perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem”. “Pai, nas tuas mãos entrego meu espírito.”


Tantas vezes a cruz verdadeira de Cristo foi insultada com cruzes peitorais de ouro com pérolas incrustadas para ostentação de quem as utilizou...


2. Aparentemente, foi o fim. Mas, lentamente, os discípulos — a primeira foi Maria Madalena,, porque amava mais — foram reflectindo sobre tudo o que viveram com Jesus, o que Ele disse, o que Ele fez, o modo como o fez até à morte e morte de Cruz, e foi-se tornando claro para eles, numa experiência avassaladora de fé, que aquele Jesus crucificado para dar testemunho do Deus que é Amor, não podia ter sido devorado pela morte. Na morte, não encontrou o nada, mas o Deus que é a Vida e Amor. Jesus é o Vivente. E reuniram-se outra vez e foram anunciar o Deus que Jesus anunciou, por palavras e obras. Deram testemunho dEle até à morte. “Vede como eles se amam”, diziam os pagãos sobre os cristãos. E uma nova esperança percorreu o mundo. E quando parecia que tudo se afundava, o cristianismo venceu, como sublinhava o ateu religioso Ernst Bloch, por causa desta proclamação: “Eu sou a Ressurreição e a Vida”.


3. As primeiras comunidades cristãs reuniam-se e celebravam a Eucaristia com alegria nas suas casas, lembrando Jesus, a sua vida, a sua morte, a sua ressurreição, e aunciando a esperança da vida eterna plena: “Fazei isto em memória de mim”.


Mas damo-nos mal com um Deus bom. E, lentamente, porque eram acusados de ateísmo por não oferecerem sacrifícios à divindade, a Eucaristia foi transformada em sacrifício oferecido a Deus, e surgiram os sacerdotes com ordens sacras para oferecerem o sacrifico da Missa, e reapareceram os senhores do Sagrado e as duas classes na Igreja: o clero e os fiéis.


Introduziram-se as cerimónias, com mais ou menos solenidade, das cortes imperiais. O que restou (resta?) da Ceia de Jesus?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 15 MAIO 2021

JESUS E A IGREJA. 4

 

Na Igreja, haverá líderes no, com e para o Povo de Deus, para celebrar nas comunidades e com as comunidades a Eucaristia: a vida, a morte e a ressurreição de Jesus e da Humanidade inteira. A Eucaristia é memória da última Ceia e também de todas as refeições que Jesus tomou concretamente com pecadores e excluídos, precisamente para indicar a presença e actuação do Reino de Deus. Esses banquetes tinham causado profunda impressão nos discípulos. Jesus aliás comparou a realidade do Reino de Deus a bodas e banquete. Não se trata, pois, do padre-sacerdote do culto ritual-sacrificial. Jesus rejeitou o sacerdócio judaico e o culto sacrificial do seu tempo, e nada indica que quisesse instituir um novo culto sacrificial. Ele próprio não era “sacerdote” nem nenhum dos “Doze” nem Paulo. As suas relações com o Templo e o culto nele realizado pelos sacerdotes foram de ruptura, de tal modo que foi o sacerdócio judaico que o levou à cruz. No Novo Testamento, a palavra “sacerdote” no sentido sacrificial-cultual foi evitada. A concepção sacrificial da Eucaristia, que implica a introdução do sacerdote, é posterior, tendo na sua base sobretudo a vontade de impedir a acusação de ateísmo pelo facto de os cristãos se recusarem a prestar culto aos deuses e não oferecerem sacrifícios. Mas então o “povo sacerdotal” transformou-se na “Igreja dos padres”, e, esquecendo a Eucaristia como memorial do amor incondicional de Cristo pela Humanidade até ao fim na vida e na morte, a sua compreensão como sacrifício contribuiu para a concepção do Deus que precisa do sangue das vítimas, a começar pelo sangue do próprio Filho, em ordem a aplacar a sua ira. Deste modo, porém, continuou a história do deus sádico Moloch, em nome do qual é possível legitimar todo o sangue derramado. De facto, se Deus precisa, para ser aplacado na sua ira divina, do sangue de vítimas e até do do próprio Filho, porque é que nós não havemos também de poder derramar sangue e de vingar-nos?


Não se pode esquecer que o divino andou sempre vinculado ao belo, de tal modo que não há encontro autêntico com Deus sem o encontro com a beleza. Ora, é necessário reconhecer que frequentemente as celebrações das comunidades cristãs são confrangedoras no seu mau gosto. Quando nas igrejas se ouve a música que se ouve e se tem de escutar  as homilias que se sabe, é de espantar como é que há ainda tanta gente que vai à igreja. São necessárias celebrações familiares e belas, em que pré-apareça e se experiencie a beleza que nos redime de um quotidiano tantas vezes vulgar e vazio. Por outro lado, em casos especiais, como na situação de confinamento, por exemplo, nunca se pode esquecer que, como fizeram as primeiras comunidades, há possibilidade da celebração em casa. 


Será de acrescentar que hoje, oficialmente, só se consideram sete sacramentos. Mas Santo Agostinho falava em dezenas. E com razão, pois, se no Antigo Testamento Deus fala através de sinais e se no Novo Testamento Jesus fala mediante sinais, também a Igreja o deve fazer. Trata-se de sinais que mostram que o Reino de Deus está presente, trazendo salvação e força à Humanidade, manifestando a bondade de Deus e a sua solicitude. O que é preciso é adaptar e transformar o universo simbólico da Igreja para os novos tempos e necessidades.


Concluindo. Como escreveu J. A. Pagola, “O objectivo de Jesus foi introduzir no mundo o que ele chamava ‘o Reino de Deus’, uma sociedade estruturada de maneira justa e digna para todos, como Deus a quer. Quando Deus reina no mundo, a Humanidade progride em justiça, solidariedade, compaixão, fraternidade e paz. A isto se dedicou Jesus com verdadeira paixão. Por isso foi perseguido, torturado, executado. ‘O reino de Deus’ foi o absoluto para ele”. A conclusão é evidente: a força, o motor, o objectivo, a razão e o sentido último do cristianismo é “o Reino de Deus”, não outra coisa. “O critério para medir a identidade dos cristãos, a verdade de uma espiritualidade ou a autenticidade do que faz a Igreja é sempre ‘o Reino de Deus’. Um reino que começa aqui e alcança a sua plenitude na vida eterna.” Assim,  concluindo: “Uma das ‘heresias’ mais graves que se foi introduzindo no cristianismo é fazer da Igreja o absoluto. Pensar que a Igreja é o centro, a realidade à qual tudo o resto se há-de subordinar; fazer da Igreja o ‘substituto’ do Reino de Deus; trabalhar pela Igreja e preocuparmo-nos com os seus problemas, esquecendo o sofrimento que existe no mundo e a luta por uma organização mais justa da vida.”


O cristão acredita que o Deus Pai de Jesus Cristo é o Criador do mundo. Por isso, esta vida sobre a terra não é uma passagem ou um simples treino para a vida verdadeira do Além. Não! Esta existência neste mundo, aqui e agora, é já vida real e verdadeira, de salvação, com Deus. Mas ainda não somos o que seremos. Aguardamos a consumação e céus novos e uma terra nova. Uma religião que esqueça a Terra está inevitavelmente sob a suspeita de ilusão, como um mundo sem transcendência fica inevitavelmente sob a ameaça da desumanidade.


Como escreveu E. Schillebeeckx, quando a Igreja vive seguindo Jesus na oração e na libertação dos homens e das mulheres, “a fé na ressurreição não conhece por isso mesmo qualquer crise”. Mas, por outro lado, é preciso reconhecer e proclamar que “é melhor não ter fé na vida eterna do que confessar um Deus que, com o olhar num Além melhor, rebaixa, empequenece e humilha politicamente os seres humanos no ‘aqui e agora’”.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 8 MAIO 2021

JESUS E A IGREJA. 3

 

Os baptizados formam um povo de profetas, reis e sacerdotes. A ruptura numa Igreja de irmãos deu-se com a ordenação sacerdotal, que originou duas classes: clero e leigos.


Todos os cristãos são sacerdotes: oferecem a sua vida a Deus e à sua causa, que é a causa dos seres humanos. Aqueles e aquelas que se reúnem convocados no baptismo pela pessoa de Jesus e o seu Reino formam a Igreja e são povo sacerdotal e sacramento de um mundo outro. Mas é necessário que haja homens e mulheres que dedicam a sua vida ao anúncio do Reino de Deus, conselheiros espirituais que despertam para a transcendência, animadores e coordenadores das comunidades...


Neste sentido, embora sem ordens sacras, continuará o ministério de padres, presbíteros, bispos, líderes das comunidades. Homens e mulheres, casados ou não, escolhidos pelas comunidades ou com a sua participação. Alguns temporariamente, outros de modo permanente. E para quê?


1. Para que a questão de Deus não morra entre os homens enquanto questão. Se a simples palavra "Deus" deixasse de existir, o Homem deixaria de ser Homem, como escreveu Karl Rahner: "A morte absoluta da palavra "Deus", uma morte que eliminasse até o seu passado, seria o sinal, já não ouvido por ninguém, de que o Homem morreu." Até filosoficamente, toda a pergunta pelo "sentido da acção humana", o perguntar pelo "sentido do processo do mundo na totalidade" exigem "um conceito de Deus". Com o eclipse de Deus, desaparece o sentido do mundo, que o Homem "em vão tenta reencontrar mediante uma acumulação de racionalidade". Mas já Georges Gusdorf tinha prevenido: "O caos, o absurdo, hoje, não propõem possibilidades abstractas; campeiam por todo o lado, não por insuficiência de racionalidade, mas por superabundância e excesso de lógica, de técnica, de intelectualidade parcelar, num universo em que a imensa acumulação de pormenores contraditórios oculta, ou mesmo destrói, a ordem humana. Deus morreu, a História enlouqueceu, o Homem morreu: tudo fórmulas desesperadas que exprimem a tomada de consciência, e o ressentimento, da ausência do sentido." O mundo parece encontrar-se perante um facto decisivo e mesmo único: se, independentemente da sua resposta positiva ou negativa, o Homem já não vir pura e simplesmente necessidade de colocar a questão de Deus, isso significa que, pela primeira vez na sua história, a Humanidade sucumbe à imediatidade, a uma visão fragmentária do aqui e agora e "abdica da sua procura de sentido".


Mas o Homem enquanto for Homem não deixará de perguntar, e toda a pergunta, em última instância, desemboca na pergunta pelo Ser Absoluto e Fundamento Último. Como diz Ciorán, "tudo se pode sufocar no Homem excepto a necessidade do Absoluto, que sobreviverá à destruição dos templos, e inclusivamente ao desaparecimento da religião". No mesmo sentido, afirma L. Rougier: "A Igreja pode declinar, mas o sentimento religioso grávido de um impulso para o ideal, de uma sede do Absoluto, de uma necessidade de superar-se, que os teólogos chamam transcendência, subsistirá."


2. Líderes, para que a causa de Jesus, que é o Reino de Deus enquanto causa do Homem, não morra entre os homens. Líderes, portanto, exercendo, com o Povo de Deus, o tríplice múnus de Cristo, profeta, rei e sacerdote.


Profetas, anunciando o Deus Pai/Mãe que quer a salvação de todos os homens e mulheres. Não um deus do terror, mas o Deus da alegria e da vida; não um deus da exclusão, mas o Deus do perdão sem condições, que a todos acolhe, sobretudo aqueles e aquelas que são excluídos e marginalizados por motivos sociais, económicos, sexuais, religiosos; não um deus infantil, infantilizante e imoral, mas o Deus que é força de autonomização e dignificação. Profetas, que, parafraseando Kafka, falam sobre Deus, porque primeiro aprenderam a falar a Deus e com Deus. Profetas que sabem ler os sinais do mundo e dos tempos, que perguntam e escutam, e preparam anunciadores do Reino de Deus, implicados numa pastoral da interrogação, que tem a ver com dar razões da dúvida e razões da fé e da esperança. A fé não pode encerrar-se nas muralhas de um dogmatismo fixo, coisista e morto, mas tem de abrir-se ao diálogo e à razão crítica.


Líderes com um múnus régio. Jesus respondeu a Pilatos: sim, sou rei; nasci para dar testemunho da verdade. E já tinha dito: "Vim para servir, não para ser servido." Líderes, portanto, para animar comunidades cristãs fraternas, de serviço à dignidade infinita do ser humano. Desgraçadamente, a globalização está a ser sobretudo mundialização do mercado, no quadro ideológico do neoliberalismo, que cava cada vez mais fundo o fosso entre ricos e pobres. Os números não param de chegar, alarmantes e falando por si. Para quem tenta seguir Jesus Cristo, este estado de coisas é intolerável, bem como toda a exploração do trabalho, o racismo, os vários tipos de discriminação, qualquer violação dos direitos humanos. Trata-se, portanto, do combate lúcido e eficaz pela dignidade livre e pela liberdade com dignidade de todos os homens e mulheres, a começar pelos mais pobres, pelos humilhados e excluídos.


3. Não há religião verdadeira sem justiça e solidariedade. Mas isto implica que a justiça e o respeito pelos direitos humanos têm de começar pelo interior da própria Igreja. Na Igreja, Jesus até queria mais do que uma democracia, pois o que ele propunha era uma filadélfia, isto é, comunidades de irmãos e amigos (lê-se no Evangelho de S. João: "Já não vos chamo servos, mas amigos").

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 1 MAIO 2021

JESUS E A IGREJA. 2

 

1. A interpretação da Eucaristia como sacrifício teve várias consequências perniciosas. A maior foi a da ordenação sacra sacerdotal. Mas o Novo Testamento evitou a palavra hiereus — o sacerdote sacrificador de vítimas para oferecer à divindade e aplacá-la e pedir os seus favores. Jesus, que era leigo, foi vítima dos sacerdotes do Templo e, citando os profetas, colocou estas palavras na boca de Deus: “Ide aprender: eu quero justiça e misericórdia e não sacrifícios; os vossos sacrifícios aborrecem-me”. Evidentemente, com a ordenação sacra, a mulher, ritualmente impura, ficou excluída de presidir à Eucaristia.


O Novo Testamento diz que, pelo baptismo, todos formam um povo de sacerdotes, profetas e reis. Mas, com a ordenação sacerdotal, surgiu a distinção, essencial e não de grau, entre  o “sacerdócio comum” dos fiéis e o “sacerdócio ordenado” e, com ela, o estabelecimento de duas classes na Igreja: o clero e os leigos. E entrou “a lepra do clericalismo”, na expressão do Papa Francisco: de facto, a “hierarquia” (poder sacro) fica com todos os poderes — julgo que não se pensa suficientemente no que significou ser padre ou bispo, com o poder de “trazer Cristo à Terra, com a consagração”, perdoar os pecados, decidindo da salvação eterna ou da condenação das pessoas... —, usando e abusando do poder..., até à tragédia da pedofilia, privilégios de toda a ordem...


A Missa foi concebida como “immolatio” e “mactatio” de Cristo, embora se discutisse se essa imolação é real, moral, mística, ou sacramental. O sacerdote tinha o poder de realizar o milagre da transubstanciação do pão e do vinho, que deixavam de ser pão e vinho. Esta concepção substancialista e coisista da presença de Cristo na Eucaristia arrastou consigo vários equívocos. Em primeiro lugar, precisamente a concepção coisista da presença de Cristo. Hegel viu bem o perigo desta coisificação: referindo-se à celebração da Eucaristia, escreveu que, segundo a representação católica, “a hóstia — essa coisa exterior, sensível, não espiritual — é, mediante a consagração, o Deus presente — Deus como coisa”. Outro equívoco foi o da divisão e separação da realidade em sagrado e profano, de tal modo que o padre era retirado do profano para se consagrar ao sagrado (ainda hoje, a linguagem eclesiástica fala dos “consagrados”, sendo todos os outros, implicitamente, os profanos). A Eucaristia já não era celebração em que todos participavam activamente, mas sacrifício objectivo autónomo, que o padre até podia celebrar sozinho e que oferecia pelas almas do Purgatório e outras intenções — ainda há padres a celebrar, sós, Missas contínuas. E era possível esta contradição nos termos: “ir” à Missa, que até se dizia em latim e de costas para o povo, sem comungar, quando Jesus disse na Última Ceia: “Tomai e comei”. Está-se na Missa, mas de fora, ignorando que a celebração da memória de Jesus implica uma real e autêntica conversão, com a entrada activa na dinâmica do seu Reino, que é o Reino da justiça, da fraternidade, da verdade. Chegou-se a esta distorção: é-se convidado para um banquete, mas é de fora que se assiste à festa, às “cerimónias”. Por isso é que há as “missas oficiais” a que assistem agnósticos e indiferentes. Paradoxalmente, com a interpretação coisista da presença de Cristo, contra o sentido profundo do que S. Paulo diz aos Coríntios — “quem come do pão e bebe do cálice do Senhor indignamente torna-se réu do Corpo e do Sangue do Senhor” —, muitos cristãos, indo à Missa e não comungando, vêem-se libertos da urgência da conversão ao projecto de vida de Jesus. Ora, precisamente nesta não conversão, é que, segundo S. Paulo, nos tornamos “réus do Corpo e do Sangue do Senhor”, isto é, culpados da sua morte: de facto, o que S. Paulo condena nas comunidades são as suas divisões e que enquanto uns se fartam outros passam fome.


É, pois, necessário ser consequente: uma vez que se deve partir do pressuposto de que quem vai à Missa é porque quer sinceramente entrar no espírito de Jesus, não se compreende que não comungue. Evidentemente, se se estiver na dinâmica da conversão, com capacidade de entrega e sacrifício em ordem a uma vida pessoal e familiar digna e ao combate por um mundo de verdade, justiça e paz. Ainda neste sentido, torna-se igualmente claro que a celebração eucarística terá de acontecer no quadro das diferentes culturas do mundo. Assim, é claro que no Japão ou na China ou entre os esquimós não se deveria impor o pão e o vinho. A não ser que a Igreja queira continuar a ser uma instituição de clonagem cultual e cultural...


O que na Igreja Católica está em questão é se a presente constituição hierárquica é de instituição divina e, por isso, imutável. Já vimos que não, e é significativo que, segundo o Pontifical Romano. Ordenação do bispo, dos presbíteros e diáconos, o próprio ritual de ordenação já não diga “sagração episcopal” nem “ordenação sacerdotal”, mas “ordenação do bispo” e “ordenação dos presbíteros”.


A Igreja Católica precisa, com urgência, de uma nova constituição: uma constituição de mais comunhão de discípulas e discípulos, sem duas classes, que ponha fim a uma das últimas monarquias absolutas do mundo, com respeito pelos direitos humanos, que consagre a igualdade de homens e mulheres, que termine com o celibato obrigatório, com uma nova atitude perante a sexualidade. Como poderá ser a Igreja Católica, se se deixar orientar pelo Evangelho, por aquilo que Jesus anunciou e queria?

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 24 ABR 2021

JESUS E A IGREJA. 1

  

1. Será preciso começar pela pergunta: Jesus fundou a Igreja, concretamente com a constituição com que hoje se apresenta? A resposta é inequívoca: “Não”. De facto, por exemplo, na obra com o título em português A Igreja Católica ainda tem futuro? Em defesa de uma nova Constituição para a Igreja Católica, na sequência de outras, o famoso exegeta Herbert Haag, da Universidade de Tubinga, com quem tive o privilégio de privar, renovou a tese segundo a qual é um dado seguro da nova investigação teológica e histórica que Jesus não fundou nem quis fundar uma Igreja (Jesus é o fundamento da Igreja, mas não o seu fundador, dizia o grande teólogo Karl Rahner) e, assim, muito menos pensou numa determinada constituição para ela. Também o Cardeal Walter Kasper, quando era professor da Universidade de Tubinga, perguntava nos exames aos estudantes se Jesus tinha fundado a Igreja, esperando uma resposta negativa.


Jesus não pregou a Igreja; anunciou o Reino de Deus. É bem conhecida a afirmação célebre de Alfred Loisy, em O Evangelho e a Igreja (1902), talvez a obra de teologia que mais polémica levantou no século XX: “Jesus anunciava o Reino e o que veio foi a Igreja”.


Com a morte de Jesus na Cruz, o suplício próprio de escravos, os discípulos confusos fugiram, dispersaram-se, voltaram às suas tarefas normais, pois aparentemente tudo tinha terminado. Assim, o que é espantoso — o enigma do Cristianismo, mesmo de um ponto de vista histórico, é precisamente esse — é que pouco tempo depois começaram a dizer que o tinham “visto”, que Ele está vivo. Se tudo tivesse terminado na morte, o destino de Jesus teria sido o esquecimento. Os discípulos reuniram-se, pois, outra vez e formaram comunidades (ekklesiai) congregadas pela fé em que esse Jesus, o Messias de Deus, voltaria em breve para instaurar o Reino de Deus em plenitude. Portanto, também as primeiras comunidades cristãs viveram dessa profecia, dessa fé e dessa esperança da chegada iminente do Reino de Deus. Neste sentido, basta ler a Primeira Carta de S. Paulo aos Tessalonicenses 4, 15-17: “Nós os que estamos vivos, quando vier o Senhor, não teremos preferência sobre os que morreram.”


Não há dúvida de que as comunidades de São Paulo se legitimaram democrático-carismaticamente. Como é um facto que as primeiras comunidades se reuniam em casas particulares e celebravam a Eucaristia — o banquete do amor e testemunho da verdade até ao fim —, recordando a última Ceia e as várias refeições de Jesus. Quem presidia era o dono ou a dona da casa. Isto significa que todos os ministérios da Igreja actual, nomeadamente o ministério episcopal e o ministério sacerdotal, não foram criados por Jesus, mas pela Igreja. Como escreve Hans Küng, dado o adiamento da segunda vinda de Jesus, foi por motivos práticos que se impôs mais tarde uma “hierarquia”, uma “hierarquia ministerial”, composta por bispos, presbíteros e diáconos. Mas, a partir dos documentos do Novo Testamento, não se pode falar de uma “instituição” desta hierarquia ministerial e ordenada por Cristo ou os Apóstolos. Por isso, “apesar de toda a ideologia eclesiástica”, também não se pode afirmar que seja “imutável”. Ela é “o resultado” — talvez quase inevitável — de “um desenvolvimento histórico”, de tal modo que, embora a Igreja possa ser assim organizada, “não tem que sê-lo”. Portanto, a Igreja dispõe dos ministérios livremente. Pode mantê-los, aboli-los, mudá-los. Nisto, o princípio tem de ser: não é a comunidade que tem de orientar-se pelas necessidades do ministério, mas o ministério pelas necessidades da comunidade. Os ministérios existem para a comunidade, não a comunidade para os ministérios. Assim, mesmo para presidir à Eucaristia, o pressuposto não tem que ser uma ordenação sacra (Weihe), pois trata-se de um encargo, uma função, uma missão (Auftrag), que poderá ser temporária, por algum tempo, conferida a um homem ou a uma mulher, casados ou não. Onde é que está, no Novo Testamento, que Jesus ordenou alguém como sacerdote na Última Ceia?


A ordenação sacra sacerdotal levou, contra a vontade de Jesus, a duas patologias: o clericalismo e o patriarcalismo. A Igreja constituiu-se como nova sociedade composta por duas classes: hierarquia e povo, “clero” e “leigos”, sublinha Herbert Haag. Deste modo, estabeleceu-se aquele equívoco corrente: sempre que alguém se refere à Igreja, entende-se a hierarquia e não as discípulas e os discípulos de Jesus, isto é, esquecendo mais de noventa e nove por cento da Igreja, tem-se em mente menos de um por cento. Mas Jesus tinha dito: “Sois todos irmãos.”


Um dos nós do problema começou com a concepção da Eucaristia como sacrifício. Com a perspectivação cultual- sacrificial, apareceu o sacerdote, e, com a celebração diária da Eucaristia, a obrigação do celibato, pois o sacerdote está separado, à parte: tocando no Corpo do Senhor não pode tocar a profanidade impura do corpo da mulher, que ficou excluída da ordenação sacerdotal.


Aparecem então várias contradições na Igreja. Há uma que se torna gritante, concretamente em tempos de confinamento: os padres e os bispos podem celebrar a Eucaristia, centro da vida cristã, mesmo sozinhos; as comunidades cristãs, não. A outra: o cristianismo está na base da emancipação feminina, cada vez mais presente nas sociedades, mas a Igreja continua a discriminar as mulheres, não lhes reconhecendo igualdade com os homens. Por isso, sentem-se humilhadas na Igreja, que, muitas, vão abandonando.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 10 ABR 2021

A INFÂNCIA DE JESUS

Jesus no Templo de Heinrich Hoffmann (1881).jpg

 

Longe de mim querer minimamente ferir o fascínio da magia divina das narrativas do Natal, mas é natural que a pessoas se perguntem como foi a infância de Jesus, em que data nasceu e onde, quem eram os reis magos, se houve a matança dos inocentes, se Jesus menino foi levado para o Egipto...

É a essas muitas perguntas que vou tentar responder, inspirando-me em parte no exegeta Ariel Álvarez Valdés: Cuál es el origen del diablo? Para descobrir o sentido autêntico e profundo das celebrações natalícias.

1. O Natal é a maior festa do cristianismo? Embora seja a mais popular, e compreende-se - a luz, o calor humano da família e da amizade, a evocação do milagare do nascimento de uma criança... -, o Natal não é a festa maior. A festa central da fé cristã é a Páscoa, que celebra a vida, o anúncio da boa nova do Reino de Deus, a paixão e morte de Jesus e a sua ressurreição: na morte, Jesus não morreu para o nada, na morte encontrou a plenitude da vida em Deus, que é Pai-Mãe. Este é o núcleo da mensagem cristã, como proclamou São Paulo: “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé.”
E é à luz da Páscoa que se comprendem as narrativas do Natal. De facto, no início, os cristãos não se interessaram pelo seu nascimento, pois o essencial era a vida, a morte e a ressurreição.

2. Como apareceu a festa do Natal? Hoje, nenhum historiador sério nega que Jesus existiu realmente. Quando, por volta do séculos III-IV já havia comunidades cristãs espalhadas pelo Império Romano, houve a ideia de transformar a festa pagã do Dies Natalis Solis Invicti (Natal do Sol Invicto), associada ao solstícoo do Inverno, quando os dias começam a aumentar e com eles a luz solar, na festa do nascimento do Sol dos cristãos, dAquele que é o verdadeiro Sol invencível, a Luz verdadeira. A Missa do galo está associada a esta luz, o galo canta, anunciando a aurora.

3. Quando nasceu? Estamos enganados quando dizemos que entrámos no ano 2021 depois de Cristo. De facto, no século VI, quando o cristianismo já se tinha vastamente difundido e Jesus surgia como figura determinante da História, de tal modo que agora o calendário se deveria orientar pela data do seu nascimento: a. C., d. C. (antes de Cristo, depois de Cristo), o monge encarregado de determinar essa data, Dionísio, o Exíguo, enganou-se em 4 ou mesmo 6 anos. Portanto, Jesus, paradoxalmente, nasceu em 4-6 a.C.

4. Nasceu em Belém? Voltamos ao início. O essencial da fé cristã encontra-se na Páscoa. Foi a partir dessa fé que os discípulos leram a vida histórica de Jesus, real, situada num tempo concreto, uma história real, mas lida e interpretada com o olhar da fé. Esta leitura é particularmente visível nos relatos da infância, que só aparecem nos Evangelhos de São Mateus e São Lucas, utilizando um género literário próprio, que projecta e vê no princípio o que sabem no fim: em Jesus cumpriram-se as promessas, Ele é o Messias, o Filho de Deus, o Salvador por todos esperado. Na realidade, Jesus terá nascido em Nazaré: é conhecido por Jesus de Nazaré ou o Nazareno. Mas puseram-no a nascer em Belém: trata-se de mostrar que ele é o verdadeiro Messias e rei, da descendência de David, que era de Belém.

5. São José é o pai de Jesus? A teologia não é um tratado de biologia e anatomia. São Paulo escreverá de modo simples: Jesus, “nascido de mulher”, para dizer que é da nossa raça, que é o que se lê também nos dois evangelistas. Mas Ele é único, especial. Para mostrar que João Baptista é especial, os Evangelhos dirão que foi concebido quando a mãe, Isabel, já não podia ter filhos. Quanto a Jesus, acreditando que Ele é o Filho de Deus, a revelação definitiva de Deus como Pai, escreverão que foi concebido pelo Espírito Santo.
A mãe era Maria, o pai era José. Tinha irmãos e irmãs. Há algum mal em ter uma família numerosa?

6. Como foi a sua infância? Normal e despercebida, de tal modo que, quando aparece em Nazaré, no início da vida pública, a anunciar o Reino de Deus, os seus conterrâneos ficam profundamente admirados a ponto de perguntarem: não é este o carpinteiro, a família dele não vive entre nós?
Certamente, frequentando a sinagoga, Jesus aprendeu a rezar, a escrever e a ler as Escrituras (Antigo Testamento) até aos 12 anos, quando iniciou a aprendizagem do ofício de tekton, artesão, trabalhando com a madeira, a pedra, o ferro: um ofício duro. Trabalhou em vários lugares, o que lhe deu conhecimento da vida, da sua dureza, das relações sociais e dos seus labirintos.

7. O episódio dos reis magos vindos do Oriente, guiados por uma estrela, é dos mais conhecidos e fascinantes para o imaginário colectivo, mas, quando se analisa criticamente todos os dados, realmente não crível historicamente.
O que se passa é que o evangelista compara Jesus com o rei Salomão. Salomão, tão estimado pelos judeus pela sua sabedoria, foi visitado por uma rainha anónima vinda de longe, de Sabá, atraída pela sua fama. Jesus é mais do que Salomão. Ele é a Sabedoria verdadeira, que a todos ilumina. Daí, a visita dos reis.

8. Também não é crível a matança dos inocentes. Como seria possível Flávio Josefo não ter referido essa matança?
O evangelista compara Jesus e Moisés. Aquando do seu nascimento, o faraó mandou matar todos os meninos nascidos no Egipto. E Jesus é levado para o Egipto - realmente nunca terá lá estado -, donde voltará. Para dizer que Jesus é o novo verdadeiro Moisés, o Libertador de todo o mal e opressão, incluindo a morte. Porque Deus não suporta a opressão, a escravidão.

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 02 JAN 2021