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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VII

 

Minha Princesa de mim:

 

   Não há testemunhas presenciais do levantamento de Jesus Cristo do chão dos mortos. Não há relatos, reportagens, desse momento fundamental, fundador, da fé cristã. As narrativas existentes do sucesso, ou acontecimento, dessa Ressurreição apenas nos contam a descoberta do sepulcro vazio. O capítulo XVI do Evangelho de Marcos - que a seguir te transcrevo na tradução de Frederico Lourenço - é curta, incisiva, interrogadora, quiçá cheia de uma verdade que, todavia, para a condição humana do leitor, poderá não ser assim tão evidente:

 

   Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram perfumes para irem embalsamá-lo. E muito cedo de manhã, no primeiro dia da semana, elas vão até ao sepulcro tendo já nascido o sol.

 

   E diziam entre si: «Quem rolará para nós a pedra da entrada do sepulcro?» E tendo olhado à sua volta, veem que a pedra tinha sido rolada para o lado; e era muito grande. E entrando elas no sepulcro, viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca, e ficaram apavoradas.

 

   Ele diz-lhes: «Não vos assusteis. É Jesus, o Nazareno, que procurais, o crucificado? Ressuscitou. Não está aqui. Vede o lugar onde o depuseram. Mas ide e dizei aos seus discípulos e a Pedro: "Ele vai à vossa frente, a caminho da Galileia; lá o vereis, tal como ele vos disse.»

 

   E elas, saindo, fugiram do sepulcro, pois dominava-as um tremor e um êxtase. E nada disseram a ninguém: tinham medo, pois.

  

   Assim termina uma das quatro narrativas canónicas da Boa Nova de Jesus Cristo, esta sendo, provavelmente, a mais antiga. Como se fossem todos saduceus ou, noutra hipótese, considerassem que a ressurreição dos mortos fosse algo só imaginável no após fim do mundo, do tempo e do espaço, quando rebentassem inúmeras catástrofes. Tinham medo dos fantasmas, como todos nós, nas nossas culturas, ao longo de milénios... Qualquer contacto com os espíritos dos mortos seria necessariamente obra do maligno, ou como descer aos infernos, ao Hades donde nem Orfeu logrou tirar Eurídice, mas apenas o castigo que o levou a quedar-se explodido na abóboda estelar...

 

   Já o mais tardio dos evangelhos, o de João, no seu penúltimo capítulo (o XX), reportando embora o túmulo vazio e a ausência imediata de Jesus, conta que Maria Madalena desatou a correr e foi ter com Pedro e o discípulo que Jesus amava: «Levaram o Senhor do túmulo e não sabemos onde o puseram!» Ambos então acorreram ao local, entraram no túmulo e encontraram e viram que os panos que envolviam o corpo estavam depostos, e o sudário que estivera à volta da cabeça dele não jazia juntamente com os panos, mas dobrado à parte em lugar próprio. Então, o outro discípulo, que chegara primeiro ao túmulo, entrou e viu e acreditou. Ainda não conheciam o trecho da Escritura, segundo o qual ele tinha de ressuscitar dos mortos. Os discípulos voltaram de novo para junto dos seus. E o Evangelho segundo S. João prossegue o relato da cena que nos deixa adivinhar o mistério da Ressurreição e nos põe a interroga-lo. Não só sobre o que será ou possa ser ressurgir dos mortos, mas, desde logo, sobre os modos como nos poderemos relacionar com essa eventualidade anunciada. Todos e qualquer de nós, mesmo quem tenha ou creia ter fé. Os textos de João Evangelista que seguidamente transcrevo (sempre na versão de Frederico Lourenço) são bem elucidativos do paradoxo da fé:

 

   Maria Madalena ficou de pé a chorar no exterior do túmulo. Enquanto chorava, espreitou para dentro do túmulo e viu dois anjos sentados, vestidos de branco, um à cabeça, outro aos pés, no sítio onde jazera o corpo de Jesus. E eles dizem-lhe: «Mulher, porque choras?» Ela diz-lhes: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram. Enquanto ela dizia isto, voltou-se para trás e viu Jesus e pé e não sabia que era Jesus. Jesus diz-lhe: «Mulher, porque choras? Quem procuras?» Ela, pensando que ele é o jardineiro, diz-lhe: «Senhor, se o levaste, diz-me onde o puseste e eu levo-o.» Diz-lhe Jesus: «Maria!» Ela, voltando-se, diz-lhe em hebraico: «Rabounî!» (o que quer dizer Mestre). Jesus diz-lhe: «Não me toques. Ainda não ascendi para o Pai. Vai para junto dos meus irmãos e diz-lhes: "Subo para meu Pai e vosso, Deus meu e Deus vosso".» Chega Maria Madalena anunciando aos discípulos que «vi o Senhor!» e as coisas que ele lhe disse.

 

   Antes de passar ao trecho seguinte - para voltarmos aos diferentes modos da fé - deixa-me, Princesa de mim, fazer sobre este um comentário linguístico e trazer-te uma recordação pictórica. O primeiro manifesta a minha maior simpatia por outra tradução da expressão grega "mé mo hapto": não me retenhas! Em vez de não me toques, como na latina da Vulgata, por que é sobejamente conhecida, noli me tangere. Dir-te-ei porquê, ao comentar duas representações da mesma cena: a de Hans Holbein Júnior e a de Lavínia Fontana, uma hoje presente na galeria real de Hampton Court, perto de Londres, onde a visitei com os meus netos, outra nos Uffizi de Florença, que também contemplei em tempos mais meus... À primeira, curiosamente e sem machismo algum, chamam-lhe Noli me tangere; à segunda, pintada por uma mulher, chamam Aparição de Cristo Ressuscitado a Maria Madalena...


   Jean-Luc Nancy, filósofo, escreve no seu Noli Me Tangere (Paris, Bayard, 2003): Na maioria das suas representações pictóricas, Noli me tangere dá azo a notáveis jogos de mãos: aproximação e designação do outro, arabesco de dedos afinados, prece e bênção, esboço de um toque, de um afago, indicação de prudência ou de um aviso. Todas essas mãos desenham uma promessa tenção ou retenção, de se ligarem uma às outras: na verdade, estão, muitas vezes, não só bem no centro do desenho, mas como se fossem o próprio desenho, como as mãos do pintor que diligencia e manipula o desligar dos seus dedos e das suas palmas...   ... Na verdade, essas mãos são signos e sinais da intriga de uma chegada (a de Madalena) e de uma partida (a de Jesus), mãos prontas a juntarem-se, mas já disjuntas, e tão distantes quanto a sombra da luz, mãos que trocam saudações mescladas de desejos, mãos que apontam os corpos tanto quanto designam o céu...

 

   No quadro de Holbein o Jovem, Jesus e Maria estão ambos de pé, mas ela, segurando o vaso de bálsamo com a mão esquerda, inclina-se para a frente, estendendo a direita, como para tocar em Jesus e certificar-se de que ali está mesmo o seu Mestre. Este, pelo contrário, inclina-se para trás, frustrando-se à mão que o procura, e atirando para a frente os seus dois braços, como que a mandá-la parar.

 

   Na pintura de Lavínia Fontana, também do século XVI, Jesus, vestido de jardineiro, com chapéu de palha na cabeça e uma pá ou sacho na mão esquerda, estende a direita sobre a cabeça de Madalena ajoelhada a seus pés, de braços abertos e vaso perfumador na sua mão esquerda, enquanto a direita revela uma íntima ação de graças, como se o gesto suspenso do Mestre, que não lhe toca, fosse simultaneamente uma bênção de despedida e uma promessa.

 

   Apesar das suas muitas diferenças, ambas estas representações ilustram a mesma narrativa evangélica, são a sua reportagem pictórica. Comumente, Cristo Ressuscitado é mais representado vestido de luminoso tecido branco e segurando na mão esquerda um estandarte, de semelhante alvura, sobre a qual surge uma cruz vermelha, e por vezes parece lança espetada sobre o túmulo da própria morte, pois só esta agora ali se encontra, como celebração do triunfo do Ressuscitado. Nestas duas que temos vindo a ver, apenas se conta um episódio, não há qualquer retrato de um corpo ressuscitado. A este sói chamar-se corpo glorioso, quiçá para o diferenciar dos fantasmas imaginários que tanto assombramento causam. Talvez para vencer o medo que o desconhecido sempre nos mete cá dentro. Seja o que for, se até deste mundo sabemos muito pouco, apesar de o situarmos no espaço/tempo que nos permita entendê-lo, que poderemos dizer do outro, infinito e intemporal? Assim, a glória, tal como suas derivadas verbalizações e adjetivações, são apenas conceitos que criamos, neste caso, para designar o indesignável: a realidade (que não é condicionada) da imortalidade, e o seu lugar (que ou é nenhures ou omnipresente).

 

   A fé na Ressurreição não é, pois, não pode ser, o conhecimento, nem sequer a imaginação, de algo palpável. Cristo ressuscitado já não pode continuar entre nós em condição humana, pois esta é periclitante e terminal. Muitos gostaríamos de poder retê-lo e tocar-lhe. Mas, desde o início do seu ensino, Jesus diz-nos que terá de padecer, morrer e ressuscitar para voltar para o Pai. E, em troca da sua ausência necessária, deixa-nos a memória de si e o Espírito de Vida. Deus não está connosco como se o Transcendente pudesse existir submetido à condição humana. Veio uma vez e revolucionou a nossa vida, em sentido próprio: deu-lhe a volta completa para nos pôr, a nós, outra vez, no início do mundo. Agora já como seu Corpo Místico, celebrado na ação de graças que é a Eucaristia, mas vivificado pelo Espírito Paráclito que anima o sacramento cristão por excelência: amai-vos uns aos outros.

 

   O mesmíssimo capítulo XX do Evangelho de João conta-nos, depois da narrativa da Madalena que, sem sequer ter podido tocar o Senhor, o reconheceu e foi, correndo, contar aos discípulos fechados em medos que o tinha visto, a visita que Cristo Ressuscitado lhes faz, ali onde, temerosos, se tinham trancado: «Paz para vós». E dizendo-lhes isto, mostrou-lhes as mãos e o flanco. Então, os discípulos alegraram-se ao verem o Senhor...   ... Mas Tomé, um dos doze, não estava com eles quando Jesus veio. Os outros discípulos diziam-lhe: «Vimos o Senhor!» Mas ele disse-lhes: «A não ser que veja nas mãos dele a marca dos pregos e ponha o meu dedo na marca dos pregos e ponha a minha mão dentro do flanco dele, não acreditarei». E oito dias depois, os discípulos estavam de novo dentro, e Tomé estava com eles. Chega Jesus, estando trancadas as portas, e pôs-se de pé a meio e disse: «Paz para vós.» Depois diz a Tomé: «Aproxima o teu dedo daqui e vê as minhas mãos e aproxima a tua mão e põe-na no meu flanco e não te tornes descrente mas sim crente.» Tomé respondeu e disse-lhe: «Meu Senhor e meu Deus.» Diz-lhe Jesus: «Porque me viste, acreditaste? Bem aventurados os que não viram e acreditaram».

 

   Caravaggio, na sua Incredulidade de São Tomé (1600-1)que vi no Neues Palais, em Potsdam, pinta com intenso realismo físico o dedo do apóstolo a meter-se no lado lancetado do Mestre, cuja mão esquerda lhe segura e empurra a direita para que toque bem a ferida. Há uma força voluntarista e serena no rosto atento de Jesus, enquanto Tomé parece atónito e confuso, e outros dois apóstolos (Pedro e João?) se debruçam como quem quer certificar-se. Não surge sangue algum, um corpo ressuscitado já está livre de qualquer sinal ou atributo de vida carnal. E qualquer certeza física da Ressurreição parece aqui deslocada, quase absurda. Pertence já ao domínio da simples fé, substância das coisas que hão de vir.

 

   Outra tela do Caravaggio, coeva desta (1601), oferece-nos, na National Gallery, em Londres, A Ceia de Emaús, um conto neotestamentário que resume bem a herança que Jesus Cristo deixa depois de morto e ressuscitado. Sentado à mesa já composta para a ceia, o Senhor é figura central, cujo braço direito se ergue sobre os alimentos presentes, em que se reconhecem o pão e o vinho eucarísticos, num gesto de bênção e oferta. À sua esquerda senta-se um discípulo (Pedro?) que, com os braços abertos em cruz, se debruça como quem abraça o gesto do Mestre. Diante deste senta-se outro discípulo que, segurando-se com força ao seu assento, fita o mesmo gesto com o maravilhamento de quem assiste a uma revelação. De pé, quase por detrás de Jesus, o estalajadeiro, com semblante muito sério, contempla e escuta os gestos e palavras do celebrante, interrogando-se, talvez, sobre o que se está na realidade passando.

 

   E em 2019, por chuvosa semana de Páscoa a tornar mais verdejantes os campos largos que avisto, também eu, minha Princesa de mim, continuo a contemplar e interrogar um mistério, na esperança de que certo dia me seja desvendado.

 

Camilo Maria    

  
Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DERRADEIRAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA - VI

 

Minha Princesa de mim:

 

   No início da celebração desta Páscoa cristã, em Domingo de Ramos, antes da narrativa evangélica da Paixão de Jesus (que em cada ano é recolhida dum dos três sinópticos, Mateus, Marcos ou Lucas), somos sempre chamados a meditá-la com a ajuda de dois textos bíblicos, cuja leitura precede aquela: o primeiro, extraído do Livro de Isaías, vem lembrar-nos a virtude da fortaleza ; o segundo, tirado da Carta de São Paulo aos Filipenses, irá concluir que a auto aniquilação em serviço dos outros é sinal de vitória do bem sobre o mal, e razão de glória. Não é fraqueza, é fortaleza suprema. Vejamos cada um deles:

 

   Isaías - O Senhor deu-me a graça de falar como um discípulo, para que eu saiba dizer uma palavra de alento aos que andam abatidos. Todas as manhãs Ele desperta os meus ouvidos, para eu escutar como escutam os discípulos. O Senhor Deus abriu-me os ouvidos, e eu não resisti nem recuei um passo. Apresentei as costas àqueles que me batiam e a face aos que me arrancavam a barba; não desviei o rosto dos que me insultavam ou cuspiam. Mas o Senhor Deus veio em meu auxílio, e por isso não fiquei envergonhado; tornei o meu rosto duro como pedra, e sei que não ficarei desiludido.

 

   Não consta haver aqui qualquer tibieza. Apenas força e profunda consciência dela como dom e aprendizagem.

 

   Paulo - Cristo Jesus, que era de condição divina, não se valeu da sua igualdade com Deus, mas aniquilou-se a si próprio. Assumindo a condição de servo, tornou-se semelhante aos homens. Aparecendo como homem, humilhou-se ainda mais, obedecendo até à morte, e morte na cruz. Por isso Deus o exaltou e lhe deu um nome que está acima de todos os nomes, para que ao nome de Jesus todos se ajoelhem no céu, na terra e nos abismos, e que toda a língua proclame que Jesus Cristo é o Senhor, para glória de Deus Pai.

 

   Repara bem, minha Princesa de mim: não há vida sem morte, nem qualquer possível glória sem padecimento e obediência. Por não ter entendido isto do mesmo modo, o Islão primitivo logo se distingue do Cristianismo: apesar de acolher Jesus como um dos seus profetas maiores, e também celebrar Maria como sua mãe sempre virgem, o Corão negará bem expressamente a crucifixão e morte de Jesus, pois que admiti-las seria como aceitar a fraqueza de Deus. As primeiras comunidades cristãs, pelo contrário, desde muito cedo comemoram a Paixão e Morte de Jesus Cristo, sendo o dia aniversário desta, Sexta Feira Santa, dia de muita celebração religiosa, sobretudo na própria comunidade de Jerusalém. Na verdade, aí se situam os lugares dos próprios autos narrados no evangelho de João, cuja leitura é hoje feita na liturgia da Palavra de Sexta Feira Santa, que também compreende mais um trecho do "Servo do Senhor" de Isaías e um passo da carta de Paulo aos Hebreus, assim retomando as lições de Domingo de Ramos ou da Paixão. E nessa tarde da crucifixão e morte do Senhor, esta é lembrada como redentora (a morte de Cristo é a morte da morte) e suscita uma oração universal que confia todos os seres à obra dessa Redenção. Os participantes em tal liturgia vão ainda adorar a cruz como seu símbolo triunfante, rezar o Pai Nosso e comungar no Corpo de Cristo.

 

   Já no sábado imediato, ficam os lugares de culto silenciosos e vazios, como os seus próprios tabernáculos. É dia de silêncio a alimentar a esperança que na Vigília Pascal explodirá em alegria e cânticos de aleluia. Nesse dia, sempre contemplo e medito a descida à mansão dos mortos. Faço-o no mesmo modo em que olhando, por dias sombrios de Inverno, a aparente desolação de campos mudos e tristes, escuto o silêncio a dizer-me que há muita vida ali esconsa, vida que verei quando, colorida e alegre, estalar a Primavera.  E é disso que te quero falar hoje. Pertence a uma tradição muito antiga da piedade cristã, sem todavia ter qualquer fundamentação bíblica, com exceção, talvez, de um passo da 1.ª carta de S. Pedro (3, 18-19): O próprio Cristo morreu uma vez só pelos pecados - o Justo pelos injustos - para vos levar a Deus. Morreu segundo a carne, mas voltou à vida pelo Espírito. Foi por este Espírito que ele foi pregar às almas que estavam na prisão da morte... Só um século depois, a literatura patrística comentará o tema. Começo por citar Santo Ireneu de Lyon, e continuarei com as observações de Éliane e Régis Burnet (Décoder un tableau religieux, Paris, Le Cerf, 2018) sobre o fresco de Andrea da Firenze, reproduzido no livro, que representa a descida de Cristo aos limbos ou, se preferires, aos infernos, em Sábado Santo, pintado entre 1365-1368, e que pude ver na capela espanhola de Santa Maria Novella, em Florença). Escreve, na sua Contra as Heresias, IV, 27, 1, aquele Padre da Igreja, do século IV:

 

O Senhor, o Santo de Israel, pensou nos seus mortos, que dormiam em seus túmulos, e desceu até eles para anunciar a salvação, para os tirar de lá e libertá-los... Continua o casal Burnet: Entretanto, Santo Efrém, o Sírio (+373), acrescenta, num hino litúrgico : «Glória a ti que desceste e mergulhaste nas profundezas, para ali ires buscar Adão, que libertaste do Hades, a fim de o conduzires ao Paraíso!» (Carmina Nisebena, 65). E todos os da minha geração se lembram ainda do Símbolo dos Apóstolos ou Credo que aprendemos a recitar ainda pequenos, e em que professávamos a fé em Jesus Cristo que padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, desceu aos infernos (hoje diz-se "à mansão dos mortos"), ressuscitou ao terceiro dia e subiu aos céus, onde está sentado à direita do Pai, e donde virá julgar os vivos e os mortos...

 

   Continuam então os Burdet: Mas estes textos fornecem poucos elementos suscetíveis de dar lugar a representações iconográficas. Um pretexto virá com o «Evangelho de Nicodemos», obra do século IV:

 

   «Então, o Rei de Glória, esmagando sob a sua Majestade a Morte a seus pés, e prendendo Satanás, privou o inferno de todo o seu poder e reconduziu Adão à claridade da sua luz. E o Senhor, estendendo a mão, fez o sinal da cruz sobre Adão e todos os santos e, pegando na mão direita de Adão, ergueu-o dos infernos. Com todos os santos atrás dele.

 

   Eis aí todos os elementos que serão depois retomados: o esmagamento da Morte e de Satanás; o sinal da cruz sobre os santos; o pegar na mão direita de Adão e o cortejo dos santos em direção ao céu.

 

   Tudo isso é representado no fresco de Andrea da Firenze. E me faz pensarsentir um mistério com que vibro mais intensamente em dias de silêncio, quando o luto e a alegria entre si disputam o meu espaço mais íntimo: algo que me ensinaram quando menino, e dá pelo nome secreto de comunhão dos santos. Jovem ainda, parafraseava para os meus botões uns versos do Alexandre O´Neill que eu dizia assim: "Humanos somos nós todos / desde pequenos / Humanos somos nós todos / e nunca menos"... [Se não me falha a memória, como diria o Nemésio, os versos do O´Neill (eram, ou não dele?) rezavam assim: "Burgueses somos nós todos / desde pequenos / burgueses somos nós todos / ou ainda menos"... Como doutros, na minha memória, a ordem desses versos é arbitrária.]

 

   É claro que te falo de experiências vividas por mim na minha cultura. Mas marcaram-me, e continuo a vivê-las. Entretanto, também fui aprendendo que os primeiros cristãos - pese embora a proximidade histórica com o próprio Jesus Cristo, ou quiçá por isso mesmo - tiveram de ir aprendendo a reler a mensagem de Jesus, como apontado por Enrico Norelli (La Nascita del Cristianesimo, Il Mulino, Bolonha, 2014): Tal mensagem parecia estar ligada à perspetiva da eminência de um tempo em que Deus iria mudar radicalmente a condição dos pobres e dos excluídos. Tal expectativa foi completada pelos discípulos com a espera do regresso glorioso (a "parusia") de Jesus como enviado de Deus. Mas também se gorou esta expectativa, e os historiadores modernos facilmente atribuíram a tal «atraso da parusia» a profunda transformação da mensagem de Jesus: substituiu-se a tensão para a iminência do Reino de Deus pela adaptação temporária ao mundo, por tempo indeterminado, e criaram-se os instrumentos assim necessários. Por mim, Princesa, comecei a olhar pela perspetiva da comunhão dos santos para essa tão piedosa tradição que lembrava, em Sábado Santo, festa tumular, a descida de Jesus à mansão dos mortos, para os ir buscar e levar na sua Ressurreição. Uma grande e feliz Páscoa para os humanos que a morte fez esquecer...

 

   Feliz Páscoa, digo, demos todos nós também esse feliz passo para além, minha Princesa de mim!

 

 Camilo Maria

  

P.S. - A notícia, violenta e súbita, do incêndio destruidor de Notre Dame de Paris, vem realçar a lembrança de que vivemos no efémero, bem como, paradoxalmente, ao efémero sempre nos atemos, em busca da permanência... A catedral de Paris, por exemplo, esteve para ser demolida, propositadamente, devido ao estado de abandono e decrepitude em que se encontrava, no segundo quartel do século XIX. Salvou-a a popularidade que lhe conseguiu o romance de Victor Hugo, em que Nostradamus e Esmeralda viveram os seus amores no refúgio de um terraço superior do templo. Creio que foi em 1843, que começaram, então, as obras de restauração do monumento antes condenado, agora com a flecha central, creio eu, arquitetada por Viollet Le Duc. Parece que, agora, o incêndio terá começado precisamente em estruturas de novas obras de restauração... Esta memória leva-me a visitar, por fotografias e filmes, já que não posso mais viajar, a exposição Tu me fais revivre, da pintora e pastora protestante Beatrice Hollard-Beau, patente no claustro das Billettes, em Paris, de 11 a 23 deste mês de abril. Diz a própria artista: Reviver é uma longa experiência. É recair e voltar a subir e, a dada altura, tomar consciência de que, quando pensávamos reviver graças às nossas próprias forças, não revivemos sozinhos...   ... Reviver é Deus que nos encontra no meio da Cruz, no meio das nossas cruzes. Deus que nos dá um projeto mais forte do que imagináramos. Creio que é no fundo da Cruz e nas coisas piores que podem acontecer as mais bonitas. É preciso ir até lá, mesmo até à morte. Porque é a morte que nos dá a esperança viva do Cristo vivo.

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Ia-te dizendo que a eclesiologia ou tratado da Igreja começa a constituir-se como tal, e como disciplina autónoma, num período de lutas entre papado e monarcas. Congar observa, e bem, que já nos finais do século XIII e princípios do XIV se sente que um modo jurídico de discorrer vai invadindo largos sectores da teologia: Sentimo-lo até à evidência, quando passamos dos textos de São Tomás de Aquino ou São Boaventura, ambos mortos em 1274 (a caminho ou participando no Concílio de Lyon) aos textos de Henrique de Gand (morto em 1293), por exemplo, mas sobretudo aos de Guilherme de Ocam (morto em 1349/50). Achamos posições teológicas e conclusões menos determinadas por razões internas tiradas duma consideração contemplativa da natureza íntima das coisas, do que por autoridades puramente positivas, textos de decreto cujo valor mais ou menos coercivo se aprecia...

 

   ... O juridismo em teologia, em ética, em liturgia, etc., levanta a questão das condições mais positivas e mais estritas a que uma coisa possa ainda dar o nome, ser válida, satisfazer uma obrigação. [Quem se familiarizou com o método discursivo do Aquino, sabe bem a importância da distinção entre as coisas, conceitos e premissas para o progresso e a fecundidade do pensamento ou, dito doutra maneira, Princesa de mim, para se saber discorrer ou raciocinar. Mas, depois, a escolástica foi transformando esse espírito analítico num exercício de separação e dissociação, quantas vezes esvaziador de realidade]. Tal atitude dominou e prejudicou especialmente a liturgia. Favoreceu um velho instinto coisista e muito pouco espiritual, em virtude do qual as pessoas se interessam pelo rito, pela materialidade de uma prestação procurada, obrigatória, e não pela atitude pessoal profunda de quem, para além da satisfação de uma dívida, empenha o seu "coração": interessam-se pelas condições legais mínimas de validade, necessárias a estar em regra com a lei, pelo menos com a letra desta e com a autoridade, e não pelo sentido das coisas. [O escrito em itálico é sempre de Congar].

 

   Pessoalmente, com alguma frequência pensossinto que o irrealismo - com que a igreja clerical (em que incluo não só clérigos, e nem todos, mas muitos leigos igualmente imobilistas) considera circunstâncias e questões do nosso tempo  -  é fundamentalmente decorrente de um conceito de Igreja como instituição sociopolítica de direito divino, dotada de poderes jud jurisdicionais e judiciais sobre todos os aspetos da vida humana, tais poderes sendo exclusivamente atribuídos a, e por,  uma nomenclatura chamada "hierarquia". Coloca-se esta num plano diferente (superior), não só ao do comum dos mortais, mas ao da própria comunidade dos fiéis. Tal separação conduz ao seu desfasamento da realidade e, infelizmente e sobretudo, à degradação, e até rutura, do essencial entendimento - e diálogo dialético - no seio da comunhão cristã.

 

     Voltando ao início de uma minha carta anterior, aperto e espremo o trecho onde vem dito «tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja!». Palavra pronunciada na sequência de uma inaudita confissão de fé, como decorre do próprio texto do evangelho de Mateus (16, 13-20), na tradução portuguesa, diretamente do grego, do professor Frederico Lourenço:

 

   Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: «Quem dizem as pessoas ser o Filho da Humanidade?» Eles disseram: «Uns dizem João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou um dos profetas.» Diz-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Simão Pedro, respondendo, disse: «Tu és o Cristo, o filho do Deus, do Vivo.» Jesus, respondendo, disse-lhe: «Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque carne e sangue não te revelaram ´isto´, mas sim o meu Pai, o que ´está´ nos céus. E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia e os portões do Hades não terão poder sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus e aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e aquilo que desligares na terra terá sido desligado nos céus». Jesus recomendou então aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele é o Cristo. 

 

   Sempre meditei esta fortíssima bendição de Pedro como anúncio da renovação da fé no Pai Eterno, pelo reconhecimento e confissão da sua incarnação em Jesus Cristo. O que proclama o prólogo ou abertura do evangelho de João - No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele nem uma só coisa existiu. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz - eis, precisamente, o que, segundo Mateus, Pedro responde a Jesus. E a fé de Pedro, pescador iletrado, é tão profunda, e tão profundamente clara, que não pode ter surgido do seu ser humano e carnal, mas apenas pelo próprio Deus revelada: a confissão de Pedro, como a profissão de fé de cada crente cristão e da assembleia ou reunião dos crentes que é a Igreja, proclama algo que existe nos céus desde o princípio dos tempos. O que Pedro diz, na sua resposta à pergunta de Jesus, liga o Verbo, o Cristo do Vivo, ao próprio Deus na sua realidade ontológica, que já assim era una nos céus. É evidentemente difícil, quiçá rigorosamente impossível - e sempre tentativo e ousado - procurar definir ontologicamente seja o que for: o próprio Deus, que é Ser absoluto, escapará sempre a qualquer definição.  Até dizemos, ao professar, no Credo, a nossa fé em Jesus Cristo - não só na pessoa humana e histórica que Deus quis ser, mas na pessoa divina e eterna que Ele é, desde o todo sempre - Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro... Deus é só de Deus, é já antes do princípio de tudo, é no vácuo, no meio de nada, a potência de tudo. Afinal, o início do Evangelho de São João remete-nos para o primeiro trecho da Bíblia (Génese 1, 1-3): No princípio Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra era vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus revolvia-se sobre as águas. Deus disse: «Faça-se luz!"- e a luz fez-se.

 

   Não sendo eu tradutor nem exegeta de textos bíblicos, deixo ao teu dispor a transcrição de algumas notas do professor Frederico Lourenço, tradutor dos textos evangélicos reproduzidos nesta carta. Por ordem, as duas primeiras observações referem-se aos trechos do evangelho de Mateus, a terceira ao prólogo do de João. Todas respigadas do volume I (Os Quatro Evangelhos) da tradução da Bíblia publicada pela Quetzal (Lisboa, 2016):

 

   16,18 - «tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia»: Jesus não está a dar agora o nome de Pedro a Simão, pois já antes se dissera (4, 18) que Simão se chamava Pedro. Mateus é o único evangelista a empregar a palavra "ekklêsía" («assembleia»; mais tarde «igreja» - não esquecer que «igreja» como edifício de pedra e cal é uma realidade que não existe antes do século IV). Uma das dificuldades desta célebre passagem (lida, durante séculos, para legitimar a identidade do Papa romano como sucessor de Pedro e, por isso, único representante autorizado de Cristo na terra) centra-se no próprio anacronismo de "ekklêsía", palavra que muitos comentadores têm dificuldade em admitir que pudesse ter sido dita pelo Jesus histórico, uma vez que a ideia da existência de uma «assembleia» de cristãos pressupõe a morte e ressurreição de Jesus. Não é por acaso que, das mais de cem ocorrências de "ekklêsía" no NT, só encontramos três (Mateus 16,18 e duas vezes em Mateus, 18,17) fora do "corpus" constituído por Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse.

 

   16, 19 - «aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus»: note-se aqui a utilização do futuro perfeito passivo (perifrástico: "éstai dedeménon"). Não é fácil determinar ao certo o sentido que Mateus pretende dar a esta construção verbal. «Aquilo que ligares na terra será aquilo que já foi ligado por Deus»? Ou tratar-se-á, antes, de sublinhar a simultaneidade do ato de ligar, que acontece ao mesmo tempo na terra e no céu? Um aspeto importante a ter em conta é o facto de «aquilo» corresponder ao pronome relativo neutro em grego: trata-se de ligar (e desligar) algo - não alguém.

 

   Prólogo - «No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. João inicia o seu Evangelho com uma das mais intraduzíveis afirmações alguma vez registadas por meio da palavra escrita: uma afirmação de fulminante arrojo assertivo, de sublime alcance teológico, carregada de múltiplos e complexos sentidos. A palavra-chave é "lógos", celebremente traduzida na Vulgata de São Jerónimo por "verbum" ("In principio erat verbum"), opção que condicionou desde então todos os que traduziram o quarto Evangelho para uma língua neolatina.

 

   Não entremos agora, Princesa de mim, pela esclarecedora explicação de Lourenço sobre o facto de que, embora inescapável (por falta de outra opção convincente em português) «verbo» não é uma tradução satisfatória... Já em cartas anteriores, falando-te deste magnífico prólogo que, desde uma infância de mim, sempre considero uma página luminosa da literatura universal, te repeti que o logos grego tanto é palavra significante de um raciocínio, como a própria razão deste, isto é, o ser. Mas está bem lembrado, pelo nosso erudito professor, um trecho de Goethe:

 

   Quem leu o Fausto de Goethe (vv.1224-1227) lembrar-se-á da cena em que o herói procura traduzir o início do Evangelho de João por «no princípio era a palavra» ("am Anfang war das Wort"), chegando de imediato à conclusão de que não faz sentido dar à palavra tão excelso estatuto. Na realidade, o que João diz ter existido «no princípio» não é só a razão na sua forma de pensamento já verbalizado, mas também a Razão em si mesma. Recorde-se que a própria palavra "lógos" já servira aos primeiros filósofos helénicos (e mais tarde aos estoicos) para designar a inteligência que preside ao universo. Um desses filósofos, também morador (como tradicionalmente se pensa de João Evangelista) de cidade de Éfeso, falou inclusive do "lógos" («segundo o qual todas as coisas acontecem») como sendo eterno (cf. Heraclito, fragmento 1). João dá ao termo "lógos" um novo sentido teológico, mais transcendente do que aquele que lhe é próprio no âmbito da filosofia grega. Deste "lógos" - desta Razão desde sempre «com Deus» que ao mesmo tempo é Deus - nos dirá o Evangelista que se tornou carne (1, 14) e tomou forma humana. É da Razão Divina encarnada em forma de homem - Jesus - e da sua passagem pelo mundo dos homens que trata, pois, este Evangelho.

 

   Se para aqui te trago, Princesa, todas esta considerações não será apenas pela meditação que, só em si mesmas, elas merecem. Mas porque pensossinto muito aquela resposta de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus, do Vivo!». Só porque tal lhe foi revelado é que aquele humilde pescador galileu, sem instrução, certamente com enorme coração - no qual, todavia, até por qualquer engolida resignação ao seu estatuto social, haveria quiçá mais medos e silêncios do que ambições e protestos - perguntaria depois: «Para onde iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna?». E deixaria a sua terra e o seu lago ou mar da Galileia, para apontar a Roma e ser crucificado. Desafiara um poder imperial, ele que não tivera nem brio nem coragem para reconhecer Jesus defronte de pobres serviçais judias... A confissão de fé de Simão Pedro, que acima registamos segundo o Evangelho de São Mateus, tem sido muito frequentemente destinada, na pregação do clero e no ensino usual da Igreja Católica para fundamentar a primazia de Pedro e a decorrente hierarquia clerical com todos os seus poderes de origem divina. À imagem e semelhança das monarquias imperiais. Muito menos se fala e proclama a extraordinária profissão de uma apocalíptica visão de Deus em Jesus Cristo! E, todavia, é esta fé tremenda que nos é revelada pelo próprio Deus, e não pela carne nem pelo sangue. Simão Pedro não teve uma aparição, uma alucinação, uma visão: Teve Quem, à sua frente, lhe perguntou: e tu, Quem dizes que eu sou?. E deu então uma resposta muito acima da sua própria capacidade, algo que antes não sabia mas ora ficara a saber, naquele momento de revelação. E é sobre essa rocha, essa fé substantiva da união ontológica de Deus, já ligada no céu, que assentará a verdade e a comunhão dos fiéis. Não, certamente que não, na instituição de jurisdições e poderes que pretendam impor e executar o que entendam ser mandamentos e desígnios divinos.

 

   Jesus Cristo não fundou "Igreja" alguma, no sentido institucional, isto é, como se constituíram estados nacionais, a ONU, a Companhia de Jesus ou o Sporting Clube de Portugal. As primeiras comunidades cristãs eram reuniões de fiéis que confessavam a união das naturezas humana e divina na pessoa de Jesus, celebravam a eucaristia, ação de graças, pela partilha do pão, sacramento do corpo morto e ressuscitado de Jesus Cristo, e do seu corpo místico. Assim, a eucaristia era, já ela própria, sacramento de reconciliação (antes de levares a tua oferta ao altar, reconcilia-te com teu irmão), memória do sacrifício redentor de Cristo e da sua ressurreição, celebração da sempre presença do Senhor na sua Igreja, comunhão fraterna. Pode até dizer-se que, nesse sentido, a Igreja é a eucaristia comungada, não há eucaristia sem Igreja. Nem Igreja de Cristo sem abertura aos seres humanos, a começar por todos nós pecadores, para que todos encontremos respostas à vocação universal de Deus.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

    Como prometido, vamos então descontraidamente procurar pistas que nos guiem num passeio histórico pelas institucionalizações humanas, mais ou menos ideológicas, "políticas", sempre canónicas, desse corpo místico cuja cabeça é Jesus Cristo, e é, no mundo, conhecido por assembleia ou Igreja dos seus fiéis ou batizados. Pelo Novo Testamento é esse povo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, o único sacerdote.

 

   Para frei (e cardeal) Yves Congar, a Igreja inicial, ou dos Apóstolos, continua no período dos mártires (não esqueças, Princesa, que mártir quer dizer testemunha) até à paz constantiniana (1ª metade do século IV); segue-se-lhe o período dito "monástico", de que te falei em carta anterior, que mantém o princípio da autoridade episcopal como fator de união, em osmose com a comunidade dos cristãos e com carácter acentuadamente carismático ou espiritual. Período definido até ao século XI. Volto a citar-te São Cipriano (2ª metade do século III): Tenho por regra, desde o inicio do meu episcopado, nada decidir sem o vosso conselho (de padres e diáconos) e sem o sufrágio do povo, algo que fosse só da minha opinião pessoal... E traduzo o comentário de Yves Congar:

 

   De facto, todo o povo eclesial, e especialmente os leigos, intervinha na eleição dos bispos e na designação dos ministros, nos concílios aonde levavam informações, e, finalmente, na criação dos costumes pelos quais as próprias comunidades regulavam em grande parte as suas vidas. Contribuição tanto melhor acolhida quanto, apesar de bem estruturada canonicamente, a Igreja primitiva se queria dócil às intervenções do Espírito Santo. Ora, é do agrado de Deus dar a conhecer a sua vontade através do mais pequenos ou menos considerados...

 

   Pergunto-nos, Princesa de mim, se, na atual instituição clerical da Igreja Católica, não acabaremos por estar mais próximos da igreja senhorial, a da classe social chamada "primeiro estado" na nomenclatura sociopolítica medieval (clero, nobreza e povo, lembras-te?), do que da inicial Igreja dos Apóstolos, já que com tanta pujança se mantém o uso - pode dizer-se o costume, a consuetudo - das designações dos ministros dos fiéis (diáconos, presbíteros e epíscopos, sejam bispos ou arcebispos) como títulos honoríficos e até graus de uma carreira de honras clericais. Assim, continuam a ser nomeados bispos ou arcebispos de dioceses desaparecidas, clérigos nomeados para funções (que, por vezes, nem pastorais são) na cúria vaticana ou, até, junto a entidades estranhas à Igreja. Esquece-se que diácono, padre, bispo ou arcebispo não são patentes nem sequer graus hierárquicos, são designações de prestadores de serviços das comunidades eclesiais. Ou, dito de outra maneira: no povo de sacerdotes que são os batizados, escolhem-se ou elegem-se (como é, claramente, o caso do bispo de Roma ou papa) pessoas preparadas para o exercício de certas funções da palavra, do culto, dos sacramentos. O conceito - e a respetiva prática socio-eclesial - de uma classe de batizados de primeira (também erradamente chamados, a meu ver, consagrados) gerou a praga do clericalismo, que é sentimento de si e atitude de presumida superioridade de quem pensa deter e poder dispor do poder divino na terra, sobretudo o de absolver erros e pecados, declarar nulidades, ou mesmo ainda o de, no passado, se terem pregado e justificado guerras religiosas. Parece-me indispensável erradicar este mal clericalista... Por isso mesmo penso também que é verdadeiramente justa e digna de louvor a disposição da Igreja denunciar às legítimas instâncias judiciais civis os crimes cometidos pelos seus ministros.

 

   Vai-se alongando esta carta e ainda não cheguei a falar-te de parte do pensarsentir que me inspirou a escrevê-la. Ficará para a seguinte. Todavia, deixa-me dizer-te agora coisas que, creio eu, poderão ajudar a melhor entendermos o que a seguir vier. Sobretudo na medida em que for capaz de te pôr a adivinhar outro rosto de uma Igreja que, sendo mais fiel àquelas que os Apóstolos fundaram, seja também uma comunidade do nosso tempo, mais livre de tantos rebocos e pinturas que lhe foram fazendo, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos da sua alma evangélica, para antes a encararmos como uma organização ideológica e jurídica de funcionários do sagrado  -  ou mesmo como um Estado transnacional, com sistema jurisdicional próprio e funcionalismo dispensador de passaportes para o paraíso...

 

   Recorro, uma vez mais, a Congar e ao seu Pour une Église servante et pauvre, livrinho que muitos consideram o "livro-programa do Papa Francisco". Refere-se a um artigo de Chateaubriand, publicado a 5 de Julho de 1824 e citado nas Mémoires d´outre-tombe, que diz assim (traduzo Chateaubriand): O tempo reduziu esta monarquia [a francesa] ao que ela tem de real : em política, já se ultrapassou a idade das ficções; já não se pode ter um governo de adoração, de culto e de mistério : cada qual conhece os seus direitos, nada é possível fora dos limites da razão, e até mesmo o favor, última ilusão das monarquias absolutas, é, como tudo o mais, pesado e apreciado nos dias de hoje. O teólogo e historiador dominicano transpõe assim a inspiração deste trecho:

 

   A sociedade moderna tende a construir-se sobre a razão, não sobre o sagrado. E pergunto se a Igreja operou a crítica correspondente, ou seja, a dessa parte de profano, de imperial, de feudal e de senhorial, que durante tanto tempo não só tolerou como buscou... Já não há Sacro Império, mas muitos títulos e insígnias, muitos cerimoniais ou ritos de visibilidade do seu prestigiado esplendor ficaram na Igreja... Não será já tempo, não haveria benefício nisso, de «sacudir a poeirada imperial que se foi depositando, desde Constantino, no trono de São Pedro?»

O dito é de João XXIII…

 

   Creio que nos será ainda útil respigar e traduzir mais uns trechos de frei Yves Congar, que nos ajudarão a melhor considerar certos aspetos ou facetas da Igreja que, sendo historicamente datados e circunstancialmente explicáveis, tendem muitas vezes a ser apresentados como traços essenciais da tal "Igreja fundada por Cristo"... Vou busca-los a um capítulo que aquele autor dominicano intitulou L’invasion du juridisme:

 

   Se interrogarmos os Padres [os Padres da Igreja, a Patrística] e a liturgia sobre o sentido que dão à Igreja, damos connosco num clima diferente do da eclesiologia moderna, pelo menos da que tem prevalecido nas escolas desde finais do século XVI ou quiçá começos do século XIV e a renovação atual [Vaticano II]. Essa eclesiologia das escolas mais não era do que a versão apologética de um tratado de direito público eclesiástico: só falava de poderes e direitos. Os Padres, a liturgia, falam de Igreja em termos de vida e comunidade espirituais, de Cidade santa, de combate espiritual do espírito contra a carne. Dela falam com os símbolos ou tipos dos patriarcas, de Rahab, a cortesã salva pela fita vermelha que põe à janela e pressagia a fé no sangue de Cristo, de Madalena, a impura que se torna pura, da Virgem Maria, mais feliz por ter acreditado do que por ter gerado Jesus Cristo... É que a Igreja deles é feita do conjunto dos homens que se convertem ao Evangelho. A sua eclesiologia inclui uma antropologia e os meios (sacramentos, regras de vida santa) pelos quais os homens podem viver na comunhão com Deus em Jesus Cristo.

 

... A alta Idade Média, e os grandes escolásticos, são ainda largamente tributários de tal perspetiva... Mas, pelo final do século XI, impõe-se a reforma gregoriana (de Gregório VII, papa): ... para operar a necessária conversão do clero, libertando-o do mal do nicolaísmo (incontinência) e sobretudo da simonia [transação comercial de bens religiosos] pela retirada da Igreja da sujeição a poderes laicos, reforçando a autoridade do papado e, consequentemente, a ação deste.

 

    Desta conjuntura surgirá necessariamente a procura e elaboração de um ordenamento jurídico da sociedade eclesial, donde o desenvolvimento do direito canónico cuja proeminência se revelará, por exemplo, no facto de que, após Alexandre III (papa de 1159 a 1181) e por dois séculos, quase todos os papas terem sido juristas, não apenas canonistas mas também doutores in utroque jure, isto é em direito romano e eclesiástico. Escreve frei Ivo:

 

   Esse desenvolvimento, essa ascensão do direito serviram sobretudo o papado nos conflitos com as potências seculares, conflitos esses que cobrem todos os «séculos de fé»: são os séculos da «cristandade», ou seja, esses em que, idealmente, os dois poderes são como os dois braços de um mesmo corpo, dois «ministérios» de uma única sociedade cristã...   ... É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV que se situa essa palavra de Gregório VII: «Ecclesia non est ancilla sed domina», "a Igreja não é serva mas senhora". Palavra que se deve entender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, ou a dominação, da potência temporal), mas que não deixa de ser embaraçosa, por representar, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare, "não dominar mas servir".

 

   Aqui te ficam umas pistas para tua reflexão - como também orientam a minha: na verdade, é a todos nós, cristãos batizados, que compete essa abertura ao Espírito Santo para, em comunhão, irmos renovando a face da Igreja...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os amigos que te referi, na carta anterior, é que me apontaram todos esses dogmas de que falo, bem como o da infabilidade papal. Para mim, este é um decreto datado, claramente decorrente de algum pânico clerical perante a crescente subversão do poder das autoridades eclesiásticas sobre as consciências, devida ao desenvolvimento do livre pensamento e do espírito crítico laico. De pouco ou nada serviu, e até eminentes teólogos e santos bispos se sentiram inconfortáveis com ele. 

 

   Quando recito o Credo de Niceia, confesso que Jesus Cristo nosso Senhor foi concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Tal conceição virginal não consta da tradição joanina, nem dos textos paulinos, nem do evangelho de Marcos, o mais antigo escrito evangélico, redigido em grego para a instrução de pagãos sem conhecimentos de cultura judaica. Consta, todavia, dos chamados "evangelhos da infância", os de Mateus e Lucas. O primeiro, feito para judeus e para lhes demonstrar que Jesus Cristo é, na verdade, o Messias prometido pelas Escrituras, começa, aliás, pela genealogia de Jesus, desde Abraão a David, deste ao exílio em Babilónia, e daqui até José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo...   ... O nascimento de Jesus Cristo ocorreu deste modo. Estando sua mãe Maria desposada com José - e antes que eles tivessem consumado o casamento - ela foi descoberta como tendo [concebido] no ventre a partir de um espírito santo...   ... Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi afirmado pelo Senhor através do profeta, ao dizer: eis que a virgem terá no ventre um filho e o parturirá; e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, o que significa Deus connosco. (Mateus,1, 18 e seguintes, na tradução de Frederico Lourenço. Em grosso, Isaías, 7, 14). Neste evangelho, se virmos bem, a anunciação surge feita pelo anjo a José. Só em Lucas (1, 26 e seguintes) aparece o relato da Anunciação a Maria, com a virgindade desta assim atestada (Lc. 1, 34-35, trad. de FL): Disse Maria ao anjo: «Como será isto, uma vez que não conheço homem?». E o anjo, respondendo, disse-lhe: «Um espírito santo virá sobre ti e o poder do altíssimo te sombreará. Por isso, o concebido é santo e chamar-se-á filho de Deus». E logo a seguir Gabriel lhe diz que Isabel, sua parente, estéril e já idosa, está grávida de seis meses e dará à luz João Baptista. A comparação de ambos os "milagres" ajuda-nos a melhor entender o significado da Virgem Mãe na fé profunda e na devoção cristãs. Já São Paulo (Romanos I, 3-4) nos aponta o "mistério": surto da linhagem de David segundo a carne e estabelecido Filho de Deus com poderio segundo o Espírito de santidade pela ressurreição dos mortos... Se a Ressurreição de Jesus Cristo o afirma como Filho de Deus, a sua Conceição terá de estar em linha com essa afirmação: será pois concebido pelo poder de Deus, por uma virgem. É inesperadamente novo, o Deus feito homem. Os relatos de Mateus e Lucas devem, portanto, compreender-se de uma perspetiva mais cristológica do que mariana. Na tradição judaica, os heróis de Israel são dados por Deus ao seu povo, quase sempre pelo milagre do parto de uma mulher estéril ou idosa que, todavia, terá tido, para o efeito, relação sexual com seu marido: Isaac, Jacó e Esaú, José e Benjamim, Sansão, Samuel... O mesmo sucederá com João Baptista. Mas que eu saiba, apenas o exemplo de Melquisedeque, contado no Livro dos Segredos de Enoque - que não é bíblico - será exceção: nesse caso, aliás, não deparamos, nem com uma conceição milagrosa (a mulher estéril que concebe um filho após uma relação sexual determinada), nem com uma virgem, mas com uma estéril não virgem, sem relação procriadora apontada. Diz o texto do Livro dos Segredos: Sofonim, a mulher de Nir, estéril e que não lhe tinha dado filhos, estava já na velhice e às portas da morte, e concebeu em seu ventre; ora Nir, o sacerdote, não tinha dormido com ela desde o dia em que o Senhor o tinha posto à cabeça do seu povo. A conclusão de Nir e de seu irmão Noé foi: Isto é obra do Senhor, meu irmão!

 

   O profeta Isaías (7, 14) dirá: Por isso o Senhor vos deixa um sinal: eis que a jovem [almah, em hebraico] está grávida e conceberá um filho e lhe dará o nome de Emanuel. Em Mateus e na tradução de Isaías na Bíblia dos Setenta, o hebraico almah será, em grego, parthénos, isto é, virgem. Há aí, claramente, uma afirmação teológica que se exprime pela imagem forte da conceição por uma virgem: a Incarnação de Deus é o início do triunfo da vontade divina sobre o mal, triunfo que se consumará gloriosamente na Ressurreição. Jesus não é um herói, um super-homem que o Senhor oferece ao seu povo. É o Emanuel, o próprio Deus connosco. Não esqueças, Princesa, que, no Credo, professas que crês em Deus Pai todo poderoso...   ...e em Jesus Cristo seu Filho unigénito, nascido do Pai antes de todos os séculos...   ...Deus de Deus...   ...gerado não criado, consubstancial ao Pai...   ...que por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus e incarnou, pelo Espírito Santo, no seio de Maria Virgem. Fez-se homem como nós, Ele que era antes de nós. Se a mulher em que tomou forma humana fora isenta do pecado original (e não será este uma parábola de explicação do mal?) parece-me questão de somenos importância, antes serão desvelos de devoção mariana ou especiosidades teológicas. Aliás, repensando, não poderia o Salvador ter sido concebido no seio de uma mortal ainda sujeita ao pecado original (se este tiver mesmo substância), não terá o resgate começado pela incarnação de Deus? Durante toda esta quadra, que hoje se encerra com a festa da Epifania, todos os dias tenho contemplado o mistério do Natal de Deus entre os homens. E tal mistério desafia qualquer ciência. Resta-nos contemplá-lo, até ao apocalipse, dia da revelação final. Intuindo, como Frederico Lourenço, que nos cabe, a nós, seres humanos, sermos a refração da luz de Jesus.

 

   Essa luz é, simplesmente, a do mandamento novo: amai-vos uns aos outros. E tu, Princesa de mim, que há tantos anos me conheces, sabes bem como pensossinto que o mundo já nos torna as vidas tão complicadas... que será certamente de Deus a graça de um sorriso que nos anime.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Abraão e Moisés - afirmam hoje muitos conceituados investigadores - não terão tido, provavelmente, existência histórica, mas o que eles simbolizam e nos dizem da aventura da humanidade é indestrutível património nosso. Como Homero, que não sabemos quem foi, nem quantos eram...etc. Até a existência de Maomé não parece - dizem os especialistas - estar definitivamente comprovada. Mas o islão está aí e a umma diariamente o invoca como profeta de Alá. A realidade histórica de Jesus Cristo é aceite pela maioria dos historiadores hodiernos, mas tal não impede que haja ainda crentes adeptos de teses que negam a incarnação (Jesus é apenas Deus, sem condição humana, teoria aliás vinda da antiguidade cristã, e com alguma popularidade pelo correr dos tempos), tal como conheço incréus que defendem, cientificamente, a historicidade de Jesus de Nazaré. As teses propriamente "mitistas" - que encaram a pessoa de Jesus como mais uma representação de mitos antigos, de origem egípcia ou assírio-babilónica - surgem apenas na viragem do século XVIII para o XIX.  Por outro lado, muitas outras lendas e narrativas existem, desde as do Santo Graal a tantas outras, mais ou menos fantasiosas e romanceadas do que a desse cálice, relacionadas com hagiografias e muitas relíquias. [A mais rebuscada quiçá seja a que diz que o Graal é Maria Madalena, acolhedora do sangue de Jesus que transmitiria à prole de ambos...]  No século XIX, o romantismo apropriou-se de muitas delas, inventou outras, atirou-se à construção de histórias perfumadas de passado, na literatura como na ópera.  

  

  Voltando às Escrituras e à Tradição, um pouco ao que te disse já sobre textos canónicos e apócrifos, traduzo-te passos do brilhante ensaio de frei Yves Congar, no seu La Tradition et les Traditions, para depois nos debruçarmos sobre gnósticos e místicos. Esse teólogo e historiador dominicano mostra como o verbo grego paradidonai - em latim tradere - se pode aplicar à transmissão de escritos: o substantivo "tradição" rapidamente designou um ensinamento transmitido oralmente, distinto da Escritura. E todavia, o seu conteúdo era relativo à Escritura...   ... Essa tradição da Igreja é, em si mesma, oral. Se os apóstolos não nos tivessem deixado qualquer escrito, seria necessário e suficiente seguir a ordo traditionis por eles entregue àqueles a quem confiavam as comunidades. De facto, existem escritos apostólicos, porque os apóstolos pregaram primeiro o Evangelho, «depois, por vontade de Deus, transmitiram-no-lo nas Escrituras, para que se tornasse na base e coluna da nossa fé» (Sto. Ireneu). Existe também uma parte não escrita da tradição dos apóstolos...   ...Na perspetiva dos fiéis dos séculos II e III, pouco importava que a transmissão fosse puramente oral, desde que se verificasse a única relação que contava, a única que era uma garantia de autenticidade: as Igrejas receberam-na dos apóstolos, os apóstolos de Cristo, Cristo de «Deus». Congar, aliás, já lembrara a doutrina de Santo Ireneu: «A verdadeira gnose é o ensinamento dos apóstolos, plano antigo da Igreja à dimensão do universo, e marca do Corpo de Cristo que consiste na cadeia de sucessão pela qual os bispos puseram a Igreja em cada lugar: a explicação mais completa das Escrituras que até nós chegou, sem alteração, acrescentamento ou subtracção»... Assim, penso eu, se deve colocar a aprovação canónica dos textos circulantes que a Igreja reteve: na tradição apostólica e no debate e acordo conciliar. Não é ditadura. Diz frei Yves Congar, citando um trecho dos Atos dos Apóstolos (8, 30-31): «Compreendes o que lês?» pergunta Filipe ao eunuco da Candácia. «E como poderia, se ninguém me guia?» Os guias são os apóstolos que, discípulos do Mestre, também receberam o seu Espírito, e aos quais ele abriu o sentido das Escrituras (Lucas, 24, 45). Jesus dissera que os apóstolos espalhariam a fé começando por Jerusalém. A Igreja antiga, sabemo-lo, concebia-se a si mesma como a realidade dessa invasão do mundo a partir da nascente apostólica.

 

 

   Em próxima carta voltaremos, por Jerusalém, aos Templários.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira