Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

   Ia-te dizendo que a eclesiologia ou tratado da Igreja começa a constituir-se como tal, e como disciplina autónoma, num período de lutas entre papado e monarcas. Congar observa, e bem, que já nos finais do século XIII e princípios do XIV se sente que um modo jurídico de discorrer vai invadindo largos sectores da teologia: Sentimo-lo até à evidência, quando passamos dos textos de São Tomás de Aquino ou São Boaventura, ambos mortos em 1274 (a caminho ou participando no Concílio de Lyon) aos textos de Henrique de Gand (morto em 1293), por exemplo, mas sobretudo aos de Guilherme de Ocam (morto em 1349/50). Achamos posições teológicas e conclusões menos determinadas por razões internas tiradas duma consideração contemplativa da natureza íntima das coisas, do que por autoridades puramente positivas, textos de decreto cujo valor mais ou menos coercivo se aprecia...

 

   ... O juridismo em teologia, em ética, em liturgia, etc., levanta a questão das condições mais positivas e mais estritas a que uma coisa possa ainda dar o nome, ser válida, satisfazer uma obrigação. [Quem se familiarizou com o método discursivo do Aquino, sabe bem a importância da distinção entre as coisas, conceitos e premissas para o progresso e a fecundidade do pensamento ou, dito doutra maneira, Princesa de mim, para se saber discorrer ou raciocinar. Mas, depois, a escolástica foi transformando esse espírito analítico num exercício de separação e dissociação, quantas vezes esvaziador de realidade]. Tal atitude dominou e prejudicou especialmente a liturgia. Favoreceu um velho instinto coisista e muito pouco espiritual, em virtude do qual as pessoas se interessam pelo rito, pela materialidade de uma prestação procurada, obrigatória, e não pela atitude pessoal profunda de quem, para além da satisfação de uma dívida, empenha o seu "coração": interessam-se pelas condições legais mínimas de validade, necessárias a estar em regra com a lei, pelo menos com a letra desta e com a autoridade, e não pelo sentido das coisas. [O escrito em itálico é sempre de Congar].

 

   Pessoalmente, com alguma frequência pensossinto que o irrealismo - com que a igreja clerical (em que incluo não só clérigos, e nem todos, mas muitos leigos igualmente imobilistas) considera circunstâncias e questões do nosso tempo  -  é fundamentalmente decorrente de um conceito de Igreja como instituição sociopolítica de direito divino, dotada de poderes jud jurisdicionais e judiciais sobre todos os aspetos da vida humana, tais poderes sendo exclusivamente atribuídos a, e por,  uma nomenclatura chamada "hierarquia". Coloca-se esta num plano diferente (superior), não só ao do comum dos mortais, mas ao da própria comunidade dos fiéis. Tal separação conduz ao seu desfasamento da realidade e, infelizmente e sobretudo, à degradação, e até rutura, do essencial entendimento - e diálogo dialético - no seio da comunhão cristã.

 

     Voltando ao início de uma minha carta anterior, aperto e espremo o trecho onde vem dito «tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha igreja!». Palavra pronunciada na sequência de uma inaudita confissão de fé, como decorre do próprio texto do evangelho de Mateus (16, 13-20), na tradução portuguesa, diretamente do grego, do professor Frederico Lourenço:

 

   Chegando Jesus à região de Cesareia de Filipe, interrogou os seus discípulos, dizendo: «Quem dizem as pessoas ser o Filho da Humanidade?» Eles disseram: «Uns dizem João, o Batista; outros, Elias; outros, Jeremias, ou um dos profetas.» Diz-lhes Jesus: «E vós, quem dizeis que eu sou?» Simão Pedro, respondendo, disse: «Tu és o Cristo, o filho do Deus, do Vivo.» Jesus, respondendo, disse-lhe: «Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque carne e sangue não te revelaram ´isto´, mas sim o meu Pai, o que ´está´ nos céus. E eu digo-te que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia e os portões do Hades não terão poder sobre ela. Dar-te-ei as chaves do reino dos céus e aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus, e aquilo que desligares na terra terá sido desligado nos céus». Jesus recomendou então aos discípulos que não dissessem a ninguém que ele é o Cristo. 

 

   Sempre meditei esta fortíssima bendição de Pedro como anúncio da renovação da fé no Pai Eterno, pelo reconhecimento e confissão da sua incarnação em Jesus Cristo. O que proclama o prólogo ou abertura do evangelho de João - No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. Este no princípio estava com Deus. Todas as coisas existiram por ação dele e sem ele nem uma só coisa existiu. Nele estava a vida e a vida era a luz dos homens. E a luz brilha na escuridão e a escuridão não dominou a luz - eis, precisamente, o que, segundo Mateus, Pedro responde a Jesus. E a fé de Pedro, pescador iletrado, é tão profunda, e tão profundamente clara, que não pode ter surgido do seu ser humano e carnal, mas apenas pelo próprio Deus revelada: a confissão de Pedro, como a profissão de fé de cada crente cristão e da assembleia ou reunião dos crentes que é a Igreja, proclama algo que existe nos céus desde o princípio dos tempos. O que Pedro diz, na sua resposta à pergunta de Jesus, liga o Verbo, o Cristo do Vivo, ao próprio Deus na sua realidade ontológica, que já assim era una nos céus. É evidentemente difícil, quiçá rigorosamente impossível - e sempre tentativo e ousado - procurar definir ontologicamente seja o que for: o próprio Deus, que é Ser absoluto, escapará sempre a qualquer definição.  Até dizemos, ao professar, no Credo, a nossa fé em Jesus Cristo - não só na pessoa humana e histórica que Deus quis ser, mas na pessoa divina e eterna que Ele é, desde o todo sempre - Deus de Deus, Luz da luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro... Deus é só de Deus, é já antes do princípio de tudo, é no vácuo, no meio de nada, a potência de tudo. Afinal, o início do Evangelho de São João remete-nos para o primeiro trecho da Bíblia (Génese 1, 1-3): No princípio Deus criou o céu e a terra. Ora, a terra era vazia e vaga, as trevas cobriam o abismo, um vento de Deus revolvia-se sobre as águas. Deus disse: «Faça-se luz!"- e a luz fez-se.

 

   Não sendo eu tradutor nem exegeta de textos bíblicos, deixo ao teu dispor a transcrição de algumas notas do professor Frederico Lourenço, tradutor dos textos evangélicos reproduzidos nesta carta. Por ordem, as duas primeiras observações referem-se aos trechos do evangelho de Mateus, a terceira ao prólogo do de João. Todas respigadas do volume I (Os Quatro Evangelhos) da tradução da Bíblia publicada pela Quetzal (Lisboa, 2016):

 

   16,18 - «tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha assembleia»: Jesus não está a dar agora o nome de Pedro a Simão, pois já antes se dissera (4, 18) que Simão se chamava Pedro. Mateus é o único evangelista a empregar a palavra "ekklêsía" («assembleia»; mais tarde «igreja» - não esquecer que «igreja» como edifício de pedra e cal é uma realidade que não existe antes do século IV). Uma das dificuldades desta célebre passagem (lida, durante séculos, para legitimar a identidade do Papa romano como sucessor de Pedro e, por isso, único representante autorizado de Cristo na terra) centra-se no próprio anacronismo de "ekklêsía", palavra que muitos comentadores têm dificuldade em admitir que pudesse ter sido dita pelo Jesus histórico, uma vez que a ideia da existência de uma «assembleia» de cristãos pressupõe a morte e ressurreição de Jesus. Não é por acaso que, das mais de cem ocorrências de "ekklêsía" no NT, só encontramos três (Mateus 16,18 e duas vezes em Mateus, 18,17) fora do "corpus" constituído por Atos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse.

 

   16, 19 - «aquilo que ligares na terra terá sido ligado nos céus»: note-se aqui a utilização do futuro perfeito passivo (perifrástico: "éstai dedeménon"). Não é fácil determinar ao certo o sentido que Mateus pretende dar a esta construção verbal. «Aquilo que ligares na terra será aquilo que já foi ligado por Deus»? Ou tratar-se-á, antes, de sublinhar a simultaneidade do ato de ligar, que acontece ao mesmo tempo na terra e no céu? Um aspeto importante a ter em conta é o facto de «aquilo» corresponder ao pronome relativo neutro em grego: trata-se de ligar (e desligar) algo - não alguém.

 

   Prólogo - «No princípio era o verbo, e o verbo estava com Deus, e Deus era o verbo. João inicia o seu Evangelho com uma das mais intraduzíveis afirmações alguma vez registadas por meio da palavra escrita: uma afirmação de fulminante arrojo assertivo, de sublime alcance teológico, carregada de múltiplos e complexos sentidos. A palavra-chave é "lógos", celebremente traduzida na Vulgata de São Jerónimo por "verbum" ("In principio erat verbum"), opção que condicionou desde então todos os que traduziram o quarto Evangelho para uma língua neolatina.

 

   Não entremos agora, Princesa de mim, pela esclarecedora explicação de Lourenço sobre o facto de que, embora inescapável (por falta de outra opção convincente em português) «verbo» não é uma tradução satisfatória... Já em cartas anteriores, falando-te deste magnífico prólogo que, desde uma infância de mim, sempre considero uma página luminosa da literatura universal, te repeti que o logos grego tanto é palavra significante de um raciocínio, como a própria razão deste, isto é, o ser. Mas está bem lembrado, pelo nosso erudito professor, um trecho de Goethe:

 

   Quem leu o Fausto de Goethe (vv.1224-1227) lembrar-se-á da cena em que o herói procura traduzir o início do Evangelho de João por «no princípio era a palavra» ("am Anfang war das Wort"), chegando de imediato à conclusão de que não faz sentido dar à palavra tão excelso estatuto. Na realidade, o que João diz ter existido «no princípio» não é só a razão na sua forma de pensamento já verbalizado, mas também a Razão em si mesma. Recorde-se que a própria palavra "lógos" já servira aos primeiros filósofos helénicos (e mais tarde aos estoicos) para designar a inteligência que preside ao universo. Um desses filósofos, também morador (como tradicionalmente se pensa de João Evangelista) de cidade de Éfeso, falou inclusive do "lógos" («segundo o qual todas as coisas acontecem») como sendo eterno (cf. Heraclito, fragmento 1). João dá ao termo "lógos" um novo sentido teológico, mais transcendente do que aquele que lhe é próprio no âmbito da filosofia grega. Deste "lógos" - desta Razão desde sempre «com Deus» que ao mesmo tempo é Deus - nos dirá o Evangelista que se tornou carne (1, 14) e tomou forma humana. É da Razão Divina encarnada em forma de homem - Jesus - e da sua passagem pelo mundo dos homens que trata, pois, este Evangelho.

 

   Se para aqui te trago, Princesa, todas esta considerações não será apenas pela meditação que, só em si mesmas, elas merecem. Mas porque pensossinto muito aquela resposta de Pedro: «Tu és o Cristo, o Filho do Deus, do Vivo!». Só porque tal lhe foi revelado é que aquele humilde pescador galileu, sem instrução, certamente com enorme coração - no qual, todavia, até por qualquer engolida resignação ao seu estatuto social, haveria quiçá mais medos e silêncios do que ambições e protestos - perguntaria depois: «Para onde iremos, Senhor, se só tu tens palavras de vida eterna?». E deixaria a sua terra e o seu lago ou mar da Galileia, para apontar a Roma e ser crucificado. Desafiara um poder imperial, ele que não tivera nem brio nem coragem para reconhecer Jesus defronte de pobres serviçais judias... A confissão de fé de Simão Pedro, que acima registamos segundo o Evangelho de São Mateus, tem sido muito frequentemente destinada, na pregação do clero e no ensino usual da Igreja Católica para fundamentar a primazia de Pedro e a decorrente hierarquia clerical com todos os seus poderes de origem divina. À imagem e semelhança das monarquias imperiais. Muito menos se fala e proclama a extraordinária profissão de uma apocalíptica visão de Deus em Jesus Cristo! E, todavia, é esta fé tremenda que nos é revelada pelo próprio Deus, e não pela carne nem pelo sangue. Simão Pedro não teve uma aparição, uma alucinação, uma visão: Teve Quem, à sua frente, lhe perguntou: e tu, Quem dizes que eu sou?. E deu então uma resposta muito acima da sua própria capacidade, algo que antes não sabia mas ora ficara a saber, naquele momento de revelação. E é sobre essa rocha, essa fé substantiva da união ontológica de Deus, já ligada no céu, que assentará a verdade e a comunhão dos fiéis. Não, certamente que não, na instituição de jurisdições e poderes que pretendam impor e executar o que entendam ser mandamentos e desígnios divinos.

 

   Jesus Cristo não fundou "Igreja" alguma, no sentido institucional, isto é, como se constituíram estados nacionais, a ONU, a Companhia de Jesus ou o Sporting Clube de Portugal. As primeiras comunidades cristãs eram reuniões de fiéis que confessavam a união das naturezas humana e divina na pessoa de Jesus, celebravam a eucaristia, ação de graças, pela partilha do pão, sacramento do corpo morto e ressuscitado de Jesus Cristo, e do seu corpo místico. Assim, a eucaristia era, já ela própria, sacramento de reconciliação (antes de levares a tua oferta ao altar, reconcilia-te com teu irmão), memória do sacrifício redentor de Cristo e da sua ressurreição, celebração da sempre presença do Senhor na sua Igreja, comunhão fraterna. Pode até dizer-se que, nesse sentido, a Igreja é a eucaristia comungada, não há eucaristia sem Igreja. Nem Igreja de Cristo sem abertura aos seres humanos, a começar por todos nós pecadores, para que todos encontremos respostas à vocação universal de Deus.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 

 

    Como prometido, vamos então descontraidamente procurar pistas que nos guiem num passeio histórico pelas institucionalizações humanas, mais ou menos ideológicas, "políticas", sempre canónicas, desse corpo místico cuja cabeça é Jesus Cristo, e é, no mundo, conhecido por assembleia ou Igreja dos seus fiéis ou batizados. Pelo Novo Testamento é esse povo, por Cristo, com Cristo e em Cristo, o único sacerdote.

 

   Para frei (e cardeal) Yves Congar, a Igreja inicial, ou dos Apóstolos, continua no período dos mártires (não esqueças, Princesa, que mártir quer dizer testemunha) até à paz constantiniana (1ª metade do século IV); segue-se-lhe o período dito "monástico", de que te falei em carta anterior, que mantém o princípio da autoridade episcopal como fator de união, em osmose com a comunidade dos cristãos e com carácter acentuadamente carismático ou espiritual. Período definido até ao século XI. Volto a citar-te São Cipriano (2ª metade do século III): Tenho por regra, desde o inicio do meu episcopado, nada decidir sem o vosso conselho (de padres e diáconos) e sem o sufrágio do povo, algo que fosse só da minha opinião pessoal... E traduzo o comentário de Yves Congar:

 

   De facto, todo o povo eclesial, e especialmente os leigos, intervinha na eleição dos bispos e na designação dos ministros, nos concílios aonde levavam informações, e, finalmente, na criação dos costumes pelos quais as próprias comunidades regulavam em grande parte as suas vidas. Contribuição tanto melhor acolhida quanto, apesar de bem estruturada canonicamente, a Igreja primitiva se queria dócil às intervenções do Espírito Santo. Ora, é do agrado de Deus dar a conhecer a sua vontade através do mais pequenos ou menos considerados...

 

   Pergunto-nos, Princesa de mim, se, na atual instituição clerical da Igreja Católica, não acabaremos por estar mais próximos da igreja senhorial, a da classe social chamada "primeiro estado" na nomenclatura sociopolítica medieval (clero, nobreza e povo, lembras-te?), do que da inicial Igreja dos Apóstolos, já que com tanta pujança se mantém o uso - pode dizer-se o costume, a consuetudo - das designações dos ministros dos fiéis (diáconos, presbíteros e epíscopos, sejam bispos ou arcebispos) como títulos honoríficos e até graus de uma carreira de honras clericais. Assim, continuam a ser nomeados bispos ou arcebispos de dioceses desaparecidas, clérigos nomeados para funções (que, por vezes, nem pastorais são) na cúria vaticana ou, até, junto a entidades estranhas à Igreja. Esquece-se que diácono, padre, bispo ou arcebispo não são patentes nem sequer graus hierárquicos, são designações de prestadores de serviços das comunidades eclesiais. Ou, dito de outra maneira: no povo de sacerdotes que são os batizados, escolhem-se ou elegem-se (como é, claramente, o caso do bispo de Roma ou papa) pessoas preparadas para o exercício de certas funções da palavra, do culto, dos sacramentos. O conceito - e a respetiva prática socio-eclesial - de uma classe de batizados de primeira (também erradamente chamados, a meu ver, consagrados) gerou a praga do clericalismo, que é sentimento de si e atitude de presumida superioridade de quem pensa deter e poder dispor do poder divino na terra, sobretudo o de absolver erros e pecados, declarar nulidades, ou mesmo ainda o de, no passado, se terem pregado e justificado guerras religiosas. Parece-me indispensável erradicar este mal clericalista... Por isso mesmo penso também que é verdadeiramente justa e digna de louvor a disposição da Igreja denunciar às legítimas instâncias judiciais civis os crimes cometidos pelos seus ministros.

 

   Vai-se alongando esta carta e ainda não cheguei a falar-te de parte do pensarsentir que me inspirou a escrevê-la. Ficará para a seguinte. Todavia, deixa-me dizer-te agora coisas que, creio eu, poderão ajudar a melhor entendermos o que a seguir vier. Sobretudo na medida em que for capaz de te pôr a adivinhar outro rosto de uma Igreja que, sendo mais fiel àquelas que os Apóstolos fundaram, seja também uma comunidade do nosso tempo, mais livre de tantos rebocos e pinturas que lhe foram fazendo, ao ponto de muitas vezes nos esquecermos da sua alma evangélica, para antes a encararmos como uma organização ideológica e jurídica de funcionários do sagrado  -  ou mesmo como um Estado transnacional, com sistema jurisdicional próprio e funcionalismo dispensador de passaportes para o paraíso...

 

   Recorro, uma vez mais, a Congar e ao seu Pour une Église servante et pauvre, livrinho que muitos consideram o "livro-programa do Papa Francisco". Refere-se a um artigo de Chateaubriand, publicado a 5 de Julho de 1824 e citado nas Mémoires d´outre-tombe, que diz assim (traduzo Chateaubriand): O tempo reduziu esta monarquia [a francesa] ao que ela tem de real : em política, já se ultrapassou a idade das ficções; já não se pode ter um governo de adoração, de culto e de mistério : cada qual conhece os seus direitos, nada é possível fora dos limites da razão, e até mesmo o favor, última ilusão das monarquias absolutas, é, como tudo o mais, pesado e apreciado nos dias de hoje. O teólogo e historiador dominicano transpõe assim a inspiração deste trecho:

 

   A sociedade moderna tende a construir-se sobre a razão, não sobre o sagrado. E pergunto se a Igreja operou a crítica correspondente, ou seja, a dessa parte de profano, de imperial, de feudal e de senhorial, que durante tanto tempo não só tolerou como buscou... Já não há Sacro Império, mas muitos títulos e insígnias, muitos cerimoniais ou ritos de visibilidade do seu prestigiado esplendor ficaram na Igreja... Não será já tempo, não haveria benefício nisso, de «sacudir a poeirada imperial que se foi depositando, desde Constantino, no trono de São Pedro?»

O dito é de João XXIII…

 

   Creio que nos será ainda útil respigar e traduzir mais uns trechos de frei Yves Congar, que nos ajudarão a melhor considerar certos aspetos ou facetas da Igreja que, sendo historicamente datados e circunstancialmente explicáveis, tendem muitas vezes a ser apresentados como traços essenciais da tal "Igreja fundada por Cristo"... Vou busca-los a um capítulo que aquele autor dominicano intitulou L’invasion du juridisme:

 

   Se interrogarmos os Padres [os Padres da Igreja, a Patrística] e a liturgia sobre o sentido que dão à Igreja, damos connosco num clima diferente do da eclesiologia moderna, pelo menos da que tem prevalecido nas escolas desde finais do século XVI ou quiçá começos do século XIV e a renovação atual [Vaticano II]. Essa eclesiologia das escolas mais não era do que a versão apologética de um tratado de direito público eclesiástico: só falava de poderes e direitos. Os Padres, a liturgia, falam de Igreja em termos de vida e comunidade espirituais, de Cidade santa, de combate espiritual do espírito contra a carne. Dela falam com os símbolos ou tipos dos patriarcas, de Rahab, a cortesã salva pela fita vermelha que põe à janela e pressagia a fé no sangue de Cristo, de Madalena, a impura que se torna pura, da Virgem Maria, mais feliz por ter acreditado do que por ter gerado Jesus Cristo... É que a Igreja deles é feita do conjunto dos homens que se convertem ao Evangelho. A sua eclesiologia inclui uma antropologia e os meios (sacramentos, regras de vida santa) pelos quais os homens podem viver na comunhão com Deus em Jesus Cristo.

 

... A alta Idade Média, e os grandes escolásticos, são ainda largamente tributários de tal perspetiva... Mas, pelo final do século XI, impõe-se a reforma gregoriana (de Gregório VII, papa): ... para operar a necessária conversão do clero, libertando-o do mal do nicolaísmo (incontinência) e sobretudo da simonia [transação comercial de bens religiosos] pela retirada da Igreja da sujeição a poderes laicos, reforçando a autoridade do papado e, consequentemente, a ação deste.

 

    Desta conjuntura surgirá necessariamente a procura e elaboração de um ordenamento jurídico da sociedade eclesial, donde o desenvolvimento do direito canónico cuja proeminência se revelará, por exemplo, no facto de que, após Alexandre III (papa de 1159 a 1181) e por dois séculos, quase todos os papas terem sido juristas, não apenas canonistas mas também doutores in utroque jure, isto é em direito romano e eclesiástico. Escreve frei Ivo:

 

   Esse desenvolvimento, essa ascensão do direito serviram sobretudo o papado nos conflitos com as potências seculares, conflitos esses que cobrem todos os «séculos de fé»: são os séculos da «cristandade», ou seja, esses em que, idealmente, os dois poderes são como os dois braços de um mesmo corpo, dois «ministérios» de uma única sociedade cristã...   ... É no contexto da luta do papa contra o imperador Henrique IV que se situa essa palavra de Gregório VII: «Ecclesia non est ancilla sed domina», "a Igreja não é serva mas senhora". Palavra que se deve entender em relação com o contexto histórico (tratava-se de sacudir a tutela, ou a dominação, da potência temporal), mas que não deixa de ser embaraçosa, por representar, materialmente, o contrário do princípio evangélico: non dominari sed ministrare, "não dominar mas servir".

 

   Aqui te ficam umas pistas para tua reflexão - como também orientam a minha: na verdade, é a todos nós, cristãos batizados, que compete essa abertura ao Espírito Santo para, em comunhão, irmos renovando a face da Igreja...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Os amigos que te referi, na carta anterior, é que me apontaram todos esses dogmas de que falo, bem como o da infabilidade papal. Para mim, este é um decreto datado, claramente decorrente de algum pânico clerical perante a crescente subversão do poder das autoridades eclesiásticas sobre as consciências, devida ao desenvolvimento do livre pensamento e do espírito crítico laico. De pouco ou nada serviu, e até eminentes teólogos e santos bispos se sentiram inconfortáveis com ele. 

 

   Quando recito o Credo de Niceia, confesso que Jesus Cristo nosso Senhor foi concebido pelo Espírito Santo no seio da Virgem Maria. Tal conceição virginal não consta da tradição joanina, nem dos textos paulinos, nem do evangelho de Marcos, o mais antigo escrito evangélico, redigido em grego para a instrução de pagãos sem conhecimentos de cultura judaica. Consta, todavia, dos chamados "evangelhos da infância", os de Mateus e Lucas. O primeiro, feito para judeus e para lhes demonstrar que Jesus Cristo é, na verdade, o Messias prometido pelas Escrituras, começa, aliás, pela genealogia de Jesus, desde Abraão a David, deste ao exílio em Babilónia, e daqui até José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama Cristo...   ... O nascimento de Jesus Cristo ocorreu deste modo. Estando sua mãe Maria desposada com José - e antes que eles tivessem consumado o casamento - ela foi descoberta como tendo [concebido] no ventre a partir de um espírito santo...   ... Tudo isto aconteceu para que se cumprisse o que foi afirmado pelo Senhor através do profeta, ao dizer: eis que a virgem terá no ventre um filho e o parturirá; e chamá-lo-ão pelo nome de Emanuel, o que significa Deus connosco. (Mateus,1, 18 e seguintes, na tradução de Frederico Lourenço. Em grosso, Isaías, 7, 14). Neste evangelho, se virmos bem, a anunciação surge feita pelo anjo a José. Só em Lucas (1, 26 e seguintes) aparece o relato da Anunciação a Maria, com a virgindade desta assim atestada (Lc. 1, 34-35, trad. de FL): Disse Maria ao anjo: «Como será isto, uma vez que não conheço homem?». E o anjo, respondendo, disse-lhe: «Um espírito santo virá sobre ti e o poder do altíssimo te sombreará. Por isso, o concebido é santo e chamar-se-á filho de Deus». E logo a seguir Gabriel lhe diz que Isabel, sua parente, estéril e já idosa, está grávida de seis meses e dará à luz João Baptista. A comparação de ambos os "milagres" ajuda-nos a melhor entender o significado da Virgem Mãe na fé profunda e na devoção cristãs. Já São Paulo (Romanos I, 3-4) nos aponta o "mistério": surto da linhagem de David segundo a carne e estabelecido Filho de Deus com poderio segundo o Espírito de santidade pela ressurreição dos mortos... Se a Ressurreição de Jesus Cristo o afirma como Filho de Deus, a sua Conceição terá de estar em linha com essa afirmação: será pois concebido pelo poder de Deus, por uma virgem. É inesperadamente novo, o Deus feito homem. Os relatos de Mateus e Lucas devem, portanto, compreender-se de uma perspetiva mais cristológica do que mariana. Na tradição judaica, os heróis de Israel são dados por Deus ao seu povo, quase sempre pelo milagre do parto de uma mulher estéril ou idosa que, todavia, terá tido, para o efeito, relação sexual com seu marido: Isaac, Jacó e Esaú, José e Benjamim, Sansão, Samuel... O mesmo sucederá com João Baptista. Mas que eu saiba, apenas o exemplo de Melquisedeque, contado no Livro dos Segredos de Enoque - que não é bíblico - será exceção: nesse caso, aliás, não deparamos, nem com uma conceição milagrosa (a mulher estéril que concebe um filho após uma relação sexual determinada), nem com uma virgem, mas com uma estéril não virgem, sem relação procriadora apontada. Diz o texto do Livro dos Segredos: Sofonim, a mulher de Nir, estéril e que não lhe tinha dado filhos, estava já na velhice e às portas da morte, e concebeu em seu ventre; ora Nir, o sacerdote, não tinha dormido com ela desde o dia em que o Senhor o tinha posto à cabeça do seu povo. A conclusão de Nir e de seu irmão Noé foi: Isto é obra do Senhor, meu irmão!

 

   O profeta Isaías (7, 14) dirá: Por isso o Senhor vos deixa um sinal: eis que a jovem [almah, em hebraico] está grávida e conceberá um filho e lhe dará o nome de Emanuel. Em Mateus e na tradução de Isaías na Bíblia dos Setenta, o hebraico almah será, em grego, parthénos, isto é, virgem. Há aí, claramente, uma afirmação teológica que se exprime pela imagem forte da conceição por uma virgem: a Incarnação de Deus é o início do triunfo da vontade divina sobre o mal, triunfo que se consumará gloriosamente na Ressurreição. Jesus não é um herói, um super-homem que o Senhor oferece ao seu povo. É o Emanuel, o próprio Deus connosco. Não esqueças, Princesa, que, no Credo, professas que crês em Deus Pai todo poderoso...   ...e em Jesus Cristo seu Filho unigénito, nascido do Pai antes de todos os séculos...   ...Deus de Deus...   ...gerado não criado, consubstancial ao Pai...   ...que por nós, homens, e para nossa salvação desceu dos céus e incarnou, pelo Espírito Santo, no seio de Maria Virgem. Fez-se homem como nós, Ele que era antes de nós. Se a mulher em que tomou forma humana fora isenta do pecado original (e não será este uma parábola de explicação do mal?) parece-me questão de somenos importância, antes serão desvelos de devoção mariana ou especiosidades teológicas. Aliás, repensando, não poderia o Salvador ter sido concebido no seio de uma mortal ainda sujeita ao pecado original (se este tiver mesmo substância), não terá o resgate começado pela incarnação de Deus? Durante toda esta quadra, que hoje se encerra com a festa da Epifania, todos os dias tenho contemplado o mistério do Natal de Deus entre os homens. E tal mistério desafia qualquer ciência. Resta-nos contemplá-lo, até ao apocalipse, dia da revelação final. Intuindo, como Frederico Lourenço, que nos cabe, a nós, seres humanos, sermos a refração da luz de Jesus.

 

   Essa luz é, simplesmente, a do mandamento novo: amai-vos uns aos outros. E tu, Princesa de mim, que há tantos anos me conheces, sabes bem como pensossinto que o mundo já nos torna as vidas tão complicadas... que será certamente de Deus a graça de um sorriso que nos anime.


Camilo Maria 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Abraão e Moisés - afirmam hoje muitos conceituados investigadores - não terão tido, provavelmente, existência histórica, mas o que eles simbolizam e nos dizem da aventura da humanidade é indestrutível património nosso. Como Homero, que não sabemos quem foi, nem quantos eram...etc. Até a existência de Maomé não parece - dizem os especialistas - estar definitivamente comprovada. Mas o islão está aí e a umma diariamente o invoca como profeta de Alá. A realidade histórica de Jesus Cristo é aceite pela maioria dos historiadores hodiernos, mas tal não impede que haja ainda crentes adeptos de teses que negam a incarnação (Jesus é apenas Deus, sem condição humana, teoria aliás vinda da antiguidade cristã, e com alguma popularidade pelo correr dos tempos), tal como conheço incréus que defendem, cientificamente, a historicidade de Jesus de Nazaré. As teses propriamente "mitistas" - que encaram a pessoa de Jesus como mais uma representação de mitos antigos, de origem egípcia ou assírio-babilónica - surgem apenas na viragem do século XVIII para o XIX.  Por outro lado, muitas outras lendas e narrativas existem, desde as do Santo Graal a tantas outras, mais ou menos fantasiosas e romanceadas do que a desse cálice, relacionadas com hagiografias e muitas relíquias. [A mais rebuscada quiçá seja a que diz que o Graal é Maria Madalena, acolhedora do sangue de Jesus que transmitiria à prole de ambos...]  No século XIX, o romantismo apropriou-se de muitas delas, inventou outras, atirou-se à construção de histórias perfumadas de passado, na literatura como na ópera.  

  

  Voltando às Escrituras e à Tradição, um pouco ao que te disse já sobre textos canónicos e apócrifos, traduzo-te passos do brilhante ensaio de frei Yves Congar, no seu La Tradition et les Traditions, para depois nos debruçarmos sobre gnósticos e místicos. Esse teólogo e historiador dominicano mostra como o verbo grego paradidonai - em latim tradere - se pode aplicar à transmissão de escritos: o substantivo "tradição" rapidamente designou um ensinamento transmitido oralmente, distinto da Escritura. E todavia, o seu conteúdo era relativo à Escritura...   ... Essa tradição da Igreja é, em si mesma, oral. Se os apóstolos não nos tivessem deixado qualquer escrito, seria necessário e suficiente seguir a ordo traditionis por eles entregue àqueles a quem confiavam as comunidades. De facto, existem escritos apostólicos, porque os apóstolos pregaram primeiro o Evangelho, «depois, por vontade de Deus, transmitiram-no-lo nas Escrituras, para que se tornasse na base e coluna da nossa fé» (Sto. Ireneu). Existe também uma parte não escrita da tradição dos apóstolos...   ...Na perspetiva dos fiéis dos séculos II e III, pouco importava que a transmissão fosse puramente oral, desde que se verificasse a única relação que contava, a única que era uma garantia de autenticidade: as Igrejas receberam-na dos apóstolos, os apóstolos de Cristo, Cristo de «Deus». Congar, aliás, já lembrara a doutrina de Santo Ireneu: «A verdadeira gnose é o ensinamento dos apóstolos, plano antigo da Igreja à dimensão do universo, e marca do Corpo de Cristo que consiste na cadeia de sucessão pela qual os bispos puseram a Igreja em cada lugar: a explicação mais completa das Escrituras que até nós chegou, sem alteração, acrescentamento ou subtracção»... Assim, penso eu, se deve colocar a aprovação canónica dos textos circulantes que a Igreja reteve: na tradição apostólica e no debate e acordo conciliar. Não é ditadura. Diz frei Yves Congar, citando um trecho dos Atos dos Apóstolos (8, 30-31): «Compreendes o que lês?» pergunta Filipe ao eunuco da Candácia. «E como poderia, se ninguém me guia?» Os guias são os apóstolos que, discípulos do Mestre, também receberam o seu Espírito, e aos quais ele abriu o sentido das Escrituras (Lucas, 24, 45). Jesus dissera que os apóstolos espalhariam a fé começando por Jerusalém. A Igreja antiga, sabemo-lo, concebia-se a si mesma como a realidade dessa invasão do mundo a partir da nascente apostólica.

 

 

   Em próxima carta voltaremos, por Jerusalém, aos Templários.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira