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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XL - SÍLVIO ROMERO E O ELEMENTO PORTUGUÊS NO BRASIL

 

Em discurso no Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em maio de 1902, na conferência sobre O Elemento Portuguez no Brasil, o pensador brasileiro Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (SR),[1] defendeu a tese da conveniência de reforçar no Brasil o elemento português, pois se estudarmos as origens brasileiras, o seu genuíno ascendente europeu é constituído pela gente de Camões.

 

Não se tratava, tão só, e por mero capricho, de opor o elemento português aos outros elementos que colaboraram na formação do Brasil. Tratava-se, sim, “da conveniência de reforçar no Brasil os elementos que o constituíram historicamente uma nação luso-americana, os elementos que falam a língua portuguesa, ou, ainda e como consequência de tudo isso: de como de todas as novas colonizações que possam vir ao Brasil a mais conveniente é a portuguesa”[2]

 

Tendo o Brasil como um povo luso-americano, um prolongamento lusitano na América, tipo Portugal transplantado e metamorfoseado, é apologista que de todos os emigrantes que procuravam o país, os portugueses eram os que mais convinham, tendo tido o desígnio superior de se aliarem e não exterminarem as raças indígenas, nem repeliram o negro, melhorando as condições da extensíssima mestiçagem brasileira, sem alterar a fisionomia histórica da nação.

 

Facto único, a língua, só por si, chegaria para individualizar a nacionalidade brasileira marcando, para sempre, o lugar que o português tem no Brasil. Num período de antilusitanismo, foi firme na defesa da aproximação entre os dois povos, percebendo o papel fundamental de uma língua como eixo central de culturas, antevendo, já então, para o idioma comum, o lugar que agora lhe começa a ser reconhecido.

 

Portugal, pequeno, de diminuta população, teve força e habilidade bastante para entregar integralmente um país gigante e homogéneo àqueles que deviam ser os seus herdeiros.

 

Sendo estes os ensinamentos da história, conclui: “se a nossa nacionalidade é uma nacionalidade luso-americana, e se ela quer continuar a ser o que é para ficar sendo alguma coisa, (…), não temos outro recurso senão apelar para um reforço do elemento português, já que europeus de outras origens quaisquer não querem cá vir espalhar-se um pouco por toda a parte, e os das duas procedências que nos enviam imigrantes, (…), foram perturbadoramente aglomerados nas belas regiões do Sul, e são hoje um perigo permanente para a integridade da pátria”[3]

 

O que justifica, à data, pela ameaça permanente da integridade brasileira, por europeus de outras origens (italianos, e nomeadamente alemães), que não desejavam espalhar-se por todo o país, mas fixar-se nas apetecíveis regiões sulistas aí lançando, deixando-os, o gérmen de futuros Estados, designadamente de origem germânica. Seria assim, dado que o elemento germânico, mais que o italiano, é muito diferente de outros emigrantes e dos concorrentes brasileiros que considera inferiores a si, tendo a experiência provado que não se deixa assimilar e diluir pelas populações nativas. 

 

Propõe que os falantes de português se unam na sua defesa, não vendo como utopia ou sonho uma aliança entre Brasil e Portugal, “como não será um delírio ver no futuro o império português de África unido ao império português da América, estimulados pelo espírito da pequena terra da Europa que foi o berço de ambos”[4]

 

O reconhecer termos muito a aprender com os povos mais ricos, militarmente poderosos e industrialmente avançados, não o deslumbrou, não renegando as origens. Louva-lhes o mérito de um enorme progresso material, mas não os cobiça na sua arrogância de superioridade e hostilização não humanista.

 

O elemento germânico, que tem como superiormente dotado em termos étnicos, mas que, pela negativa, se não deixava assimilar e misturar pelas populações pátrias que o circundavam no Brasil, faz lembrar os medos e demónios que a Alemanha representou e representa para muitos, a começar pelos vizinhos, por confronto com o seu apreço. Mas  nunca o maravilhou. Ao invés de Portugal, não obstante a sua pequenez e a fraqueza de que então era portador como centro de poder. 

 

Parece um contra-senso, qual queda de um mito, a observação de que os emigrantes germânicos se fixavam preferencialmente no sul, em terras ricas e escolhidas a dedo, ao contrário dos portugueses, espalhados por todo o lado. Como que a inverter a fábula lafontaineana da formiga alemã que labuta, labuta, todo ano (e em toda a parte, presume-se), enquanto as cigarras do sul da Europa (incluindo Portugal, Espanha e, por arrastamento, os seus descendentes na América) andam sempre em folia e devem ser punidas. Apesar da História, como mestra da vida, nos ensinar que o ser-se mais ou menos civilizado e poderoso, varia no tempo e espaço, não sendo um dado adquirido para ninguém. Incluindo a Alemanha que, por muito forte e rica que seja, isolada pouco ou nada representa, a começar na União Europeia, onde se questiona, por agora, saber se está em causa a germanização da Europa ou a europeização daquela.

 

Constatando o desaparecimento gradual e total da língua portuguesa de certas zonas do Brasil, apesar de eterna em grande parte do país, conclui com a certeza de nunca vir a perecer entre a Galiza e a foz do Guadiana. Felizmente que tal receio não se concretizou, sendo o Brasil atual, como portador de todas as caraterísticas de uma potência emergente e continental, o maior protagonista da divulgação do nosso idioma comum à escala global, com base no critério da difusão mundial das línguas.

 

Ao promover um reencontro das origens e destino histórico do Brasil para os novos chamamentos competitivos no princípio do século XX, defendendo preferencialmente a utilidade de reforço do elemento português, sem que essa matriz nacional excluísse outros elementos que estiveram na base da sua formação e evolução, SR, para além de ser, eventualmente, o primeiro grande defensor da importância do contributo português na formação do povo brasileiro, foi também um precursor da lusofonia e da CPLP.

 

17.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

[1] Romero, Sylvio, O Elemento Portuguez no Brasil, Conferência (1902), Typographia da Companhia Nacional Editora, Conde Barão, 50, Lisboa.

[2] Idem, p. 6.

[3] Idem, pp. 20, 21.

[4] Idem, p. 32.

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXIX - PORTUGAL E A PROMOÇÃO DO PORTUGUÊS

 

1. Na época dos impérios coloniais, a língua das metrópoles europeias, ou do centro, era companheira do império, numa conceção de imperialismo linguístico. 

Com a ascensão do Direito Internacional e das organizações internacionais, emergem vários agrupamentos de países em blocos de poder, blocos linguísticos aglutinados por um idioma comum, como a anglofonia, a hispanofonia, a lusofonia e a francofonia, com o mundo ocidental centrado e repartido em quatro línguas de comunicação global internacional: inglês, espanhol, português e francês.
A língua deixou de ser só nossa, passando a ser também nossa.
De uma visão nacionalista e patrimonial transitou-se para uma visão não patrimonial, transnacional, transcontinental, partilhada.
Quanto ao nosso idioma, partindo de uma perspetiva lusíada chegámos, em dado momento, a uma perspetiva lusófona e de exportação.

 

2. Tem entre oito a nove décadas a ação de Portugal no âmbito do ensino do português no estrangeiro. Primeiro sob a dependência da Junta de Educação Nacional (1929/36). Pela atividade do Instituto para a Alta Cultura (1936/52). De seguida pelo Instituto de Alta Cultura (1952/76). Passando a designar-se, ainda em 1976, por Instituto de Cultura Portuguesa, até 1980. Passa, depois, a Instituto e Cultura de Língua Portuguesa, até 1992, data em que nasce o atual Instituto Camões, ligado ao Ministério da Educação (1992/94) e, desde 1994, sob a tutoria do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Durante anos, promoveu-se a difusão e ensino do português numa perspetiva centrada no âmbito das comunidades portuguesas emigradas e no espaço dos países de língua oficial portuguesa, ou seja, numa visão centrada e integrada no espaço potencial dos seus próprios falantes, sem intenção de a difundir e promover fora desse espaço, o que perdura, no essencial, até ao programa do X Governo Constitucional (1985/7).
Prevalecia a ideia de que o português era uma língua confidencial, de consumo doméstico e interno dos seus falantes, e não um idioma de comunicação internacional que poderia ser falado como língua estrangeira, como sucedia com o francês e inglês.

 

3. Surge, pela primeira vez, entre nós, de modo inequívoco, como medida programática de uso do português como língua estrangeira, uma proposta global de reforma, de julho de 1988, da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, via “utilização progressiva do Português como língua de comunicação internacional”.   

Esta linha programática pretende ultrapassar as fronteiras naturais dos seus falantes nativos, servindo de veículo de comunicação a outros falantes não nativos.
É a negação da manutenção do uso confidencial, paroquial ou regional da língua, de um sentimento de posse de quem se julga ser o seu único possuidor.
Num mundo globalizado, é uma visão redutora e simplista ver os recursos destinados à difusão e promoção da cultura e da língua portuguesa como fundos perdidos, desperdiçando um produto que para além de imagem de marca e simbólica, é um recurso económico com implicações tecnológicas e de imagem externa, como língua de comunicação global e de exportação à escala mundial. 

 

10.07.2018 
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVIII - HISPANOFONIA

 

A hispanofonia integra a comunidade linguística de todas as pessoas que têm em comum a língua espanhola, iniciada pelos falantes iniciais que a diáspora castelhana conquistou e espalhou pelo mundo, quer a nível da Península Ibérica (com a submissão, por Castela, de Leão, Navarra, Aragão, Catalunha, Granada), quer pelos descobrimentos, em especial nos países hispano falantes atualmente mais concentrados no continente americano.

 

O seu núcleo central e nuclear localiza-se atualmente nos países que têm o espanhol como língua materna, oficial ou dominante.

 

Além de Espanha, na Europa, e da Guiné Equatorial, em África, a sua implantação predomina nos países hispano-americanos, dispersos entre a América do Norte (México), Central (Guatemala, Belize, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Cuba, República Dominicana, Porto Rico) e do Sul (Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina).

 

Também a população de origem hispânica nos Estados Unidos tem vindo a aumentar, dada a emigração e a queda da taxa de natalidade da população nativa daquele país, o que não garante, por si só, uma ameaça para a língua inglesa, mas é um estímulo para a subida do espanhol à categoria de segundo idioma, com forte presença em regiões como a Califórnia e o Texas.

 

Refira-se, na Ásia, a substituição do espanhol pelo inglês nas Filipinas, uma antiga colónia espanhola após a invasão pelos Estados Unidos, em 1899.

 

O que não invalida que a língua espanhola seja a segunda mais falada e de maior projeção internacional do mundo ocidental.

 

Dado o número de países, sua estabilidade, identidade e número de falantes que têm o espanhol como idioma materno, oficial e nacional, é uma língua que não está ameaçada, nem em risco. Excetua-se a Guiné Equatorial, que ascendeu à independência apenas em 1968, estando linguisticamente isolada.

 

Em termos continentais, tem grande implantação apenas em dois continentes: na Europa e maioritariamente na América, ao invés do português, mais disseminado, pluralizado e universalizado por vários continentes, embora menos falada.

 

Comprovativo de que o espanhol vai ganhando força e espaço, é a expansão do Instituto Cervantes, com um orçamento mais agressivo e generoso que o do nosso Instituto Camões, sem nunca esquecer que os dois principais idiomas ibéricos (espanhol e português), para além de globais, são concorrentes entre si.

 

03.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVII - FRANCOFONIA

 

Tendo consciência de que enfrenta uma situação difícil para a sua língua, a França continua a pensar em grande, não se deixando vencer pela adversidade. Espera pelo abrandamento da vaga do inglês, pelo refluxo anglófono. 

 

De língua global e culturalmente dominante, foi gradualmente suplantada e secundarizada pelo inglês, nomeadamente após o fim da segunda grande guerra, depois da ocupação nazi e a libertação pelos aliados e vencedores anglófonos.

 

Os franceses têm uma relação muito particular com o seu idioma, sendo tendencialmente monolingues, aceitando mal a decadência do francês a nível mundial, por confronto com os seus tempos áureos. 

 

Mas continuam a resistir, com empenho e determinação, ao mesmo tempo que querem passar a mensagem que são menos imperialistas em termos linguísticos que os falantes maternos da língua inglesa.     

 

Só que, consoante o contexto, a estratégia muda.

 

Dado que, por confronto com o inglês, o francês perde, continuando a perder no curto e médio prazo, sem perspetivas de ganhos maiores nos tempos mais próximos, aceita-se o inglês como uma língua global de economia e finanças, e a francesa como uma língua para o desenvolvimento, de coesão, de partilha e solidariedade, uma mais-valia, uma terceira língua, que acresce à materna e ao inglês. Não interessa, nesta perspetiva, que se diga que o francês está a lutar contra o inglês, mesmo que não totalmente verdade.

 

Porém, para além de acusações de tentativas glotofágicas do francês na organização internacional da União Latina em relação ao espanhol, português, italiano, romeno e catalão, a francofonia olha de um modo muito especial o espaço das demais línguas românicas de expansão global, designadamente o espanhol e o português.

 

Ao mesmo tempo que defende a diversidade cultural e ser imperioso juntar esforços contra a ameaça do inglês, a França, em particular, é adversa dessa diversidade quando defende uma estratégia de intervenção que ultrapassa a mera ajuda, colaboração e cooperação a países menos desenvolvidos, como sucede, entre os países lusófonos, com Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e a Guiné Bissau. Incluindo algumas investidas em Moçambique.   

 

Há quem veja na estratégia da francofonia para a África de língua oficial portuguesa, com enfoque em Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, caraterísticas de imperialismo linguístico, numa tentativa de substituição, a prazo, do português pelo francês, em detrimento dum salutar convívio entre a lusofonia e a francofonia. 

 

Se a lusofonia e a CPLP atravessam dificuldades, há que explorar esses défices e fazer ver a esses países que têm o português como idioma oficial que há quem os compreende melhor, que tem e disponibiliza mais dinheiro para o seu desenvolvimento e necessidades de toda a espécie.     

 

Para o autor francês Chaudenson, segundo o qual quem não sabe fazer, deve dar lugar a outros, há que integrá-los na nova francofonia, juntamente com o único país africano de língua oficial espanhola, a Guiné Equatorial. O que reforça com o argumento de serem países rodeados de vizinhos francófonos e situados em zonas de predominância francófona. O que pode ser extensivo a Angola, com as inerentes adaptações derivadas das suas fronteiras com a República Democrática do Congo (Kinshasa) e a República do Congo (Brazzaville), ambos países francófonos.     

 

Sendo a África fulcral para a continuação do francês como língua global de comunicação internacional, Portugal e a lusofonia têm de estar atentos a estas tentativas de francofonizar alguns países lusófonos, especialmente os mais débeis, o que já não sucede em relação aos países de língua oficial inglesa, dado que, por certo, o “lobo” francês não é tão predador como o anglo-americano. 

 

Há que referir ainda o papel desempenhado mundialmente pela Alliance Française, numa crescente procura de parcerias, por exemplo entre a França, a China e o país africano de destino, dado o interesse chinês em África e saberem não poderem trabalhar em chinês, o que pode e deve, por analogia, ser aproveitado por Portugal e mundo lusófono.

26.06.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVI - O REINO UNIDO E O INGLÊS

 

Com o fim da segunda guerra mundial, para além da vitória dos aliados anglófonos sobressai, em termos linguísticos, a vitória da língua inglesa.

 

As economias e nações ocidentais sobreviventes da guerra, ficaram dependentes dos países falantes de inglês, em especial dos Estados Unidos da América, o mesmo sucedendo com o Japão e países da Ásia em geral.  

 

Ficaram de fora, temporariamente, os países que integravam o então bloco de leste europeu, afetos ao espaço de influência da então União Soviética. 

 

Apesar do papel decisivo e fundamental dos Estados Unidos, descendente do Reino Unido, ambos países falantes de inglês e tendo como património comum a mesma língua,  nada impediu que a antiga potência colonizadora tivesse uma estratégia visionária para a difusão e expansão da língua inglesa a nível mundial.     

 

Uma das instituições usadas para a qualificação linguística do inglês, foi o British Council, organismo oficial do Reino Unido, fundado em 1934, primeiro sob a designação de British Commitee for Relations with Other Countries, sob tutela do Foreign Office, para a promoção da ciência, cultura, educação e tecnologia britânicas.

 

Esta difusão inicial (e em geral) da língua e cultura britânicas, evoluiu e adaptou-se ao contexto mundial do momento, passando o British Council a apresentar-se como uma instituição vocacionada para a construção de relações reciprocamente vantajosas entre o povo britânico e demais povos, visando desvincular-se da associação a formas de imperialismo cultural e linguístico a que a cultura e língua inglesa, incluindo a anglofonia, são associadas. 

 

Deixou de proporcionar apenas o ensino da língua e cultura britânica, passando também a promover as “educational opportunities”.  

 

Tornou-se insuficiente recrutar leitores para lecionarem em universidades estrangeiras, apoiar escolas e bibliotecas no exterior, organizar e apoiar eventos e espetáculos culturais, mesmo com o apoio de embaixadas e consulados, passando a ser primordial proporcionar ferramentas culturais e educacionais vantajosas, numa projeção para voos mais altos que os do governo. 

 

Mudança de estratégia que tem como subjacente a constatação de que a língua inglesa, a nível internacional, está a deixar de ser, cada vez mais, para muitos, uma língua estrangeira, antes sim uma segunda língua, para além da materna, ou em paralelo com esta, sendo tida como uma ferramenta indispensável em termos pessoais e profissionais. O elevado número de pessoas que aprendem atualmente inglês, prevê-se que diminua para 500 a 600 milhões em 2050, não por qualquer desinteresse pelo inglês, mas, tão só, por, previsivelmente, a maioria da população mundial já o dominar.  

 

Uma reflexão útil, por certo, para os responsáveis em Portugal pela atuação e intervenção do Instituto Camões, no âmbito das políticas em redor da língua e cultura portuguesa e lusófona.             

 

19.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

12. BANIR O SONO

 

Pela eficiência permanente, que opera 24 horas por dia, elimine-se o sono.
O sono é estagnação, inatividade, inércia, ócio, preguiça.
É antagónico com a vida dos dias de hoje, impedindo-nos de sermos conscientes, racionais e trabalhadores a tempo inteiro.
O executivo dos nossos dias louva-se de dormir pouco ou quase nada, de passar noites em branco, de trabalhar até à exaustão pela noite dentro, um ser humano máquina, em competição com o computador, fazendo mega horas extraordinárias, que não perde a concentração, nem a missão ou o fim que tem em vista.
O sono impede o conhecimento, saber, rendimento, produtividade.
O sono é noite, escuridão, o império das trevas, incompatível com o dia, o empreendedorismo, com uma vida eficiente e de luzes continuamente acesas.
Para sermos eficientes, empreendedores e racionais a todo o tempo, é preciso abolir o sono, criando sociedades onde o êxito, o ser feliz, o mérito e o reconhecimento são diretamente proporcionais à ausência de sono. Sendo admissível, quando muito, três ou quatro horas bem dormidas, estigmatizando quem não consegue ou dorme o dobro.
A maximização da eficiência funcional é trabalharmos sem intervalos, dia e noite, porque tudo é importante, menos o sono, tendo como perdedores os que o enaltecem.
Por confronto com o malefício do sono, exalta-se a vigília, testando-a progressivamente, via ingestão de anfetaminas, ansiolíticos, pastilhas de estimulação cerebral, neuroquímicos, com a ajuda e empenho de Silicon Valley. 
Investiga-se e examina-se o funcionamento do cérebro de animais que conseguem passar vários dias e noites sem dormir.
Só que o sono é inevitável. Lamentável inevitabilidade, para os opositores. 
Não há melhor cura para curar o cansaço.   
Nem pior padecer que a tortura do sono.
Por enquanto, enquanto dormimos, o sono não é vendável, expulsando as leis do mercado.
O sono é pessoal e intransmissível.
É a afirmação e constatação dos limites do corpo humano, da nossa finitude, mesmo que governados ou dirigidos por pessoas que não querem dormir, que minimizam ou odeiam o sono, que o têm como dispensável e irracional, que o desejariam abolir ou banir, podendo.
Afinal, toda a gente se cansa e não sobrevive sem sono. 

 

12.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

11. BIODIVERSIDADE CULTURAL

 

Alimentação, vestuário, habitação e saúde são necessidades básicas, universais e fundamentais de sobrevivência. 

A cultura não é tida como uma necessidade básica de sobrevivência ou bem de primeira necessidade, por confronto com o que comemos, a água que bebemos ou a saúde.
Há uma percentagem significativa de pessoas que não tem interesses culturais, tendo a cultura como descartável e dispensável. 

Para quem entenda que a lógica dos impostos é que o dinheiro se destina a necessidades básicas e imprescindíveis, a cultura fica excluída. 

Razão pela qual a cultura tem de ser autossustentável. 
Mas uma parte da criação cultural não é sustentável por si.
Há quem defenda que se vá ao mercado, assumindo o risco na totalidade.   

Há quem entenda que deve ser apoiada se, naturalmente, não existir mercado que a sustente.  
Inexistindo apoios, nem mercado que a sustente, há morte cultural. 
Não há civilização sem cultura. Há a barbárie.

O que permanece especialmente e intemporalmente em termos civilizacionais é o legado cultural, incluindo o património, que nos foi deixado e transmitido em termos geracionais. 
Só que as necessidades económicas necessárias para a cultura, não obedecem necessariamente à lei da oferta e da procura.
Mas quando pagamos impostos, taxas ou coimas contribuímos para necessidades básicas, acessórias e complementares de outras pessoas, que não conhecemos, em lugares e regiões onde nunca fomos, não queremos ou não pretendemos ir, não nos afetando pessoalmente, embora diga respeito ao todo nacional.
Daí ser defensável a biodiversidade cultural, incluindo a criação cultural naturalmente sustentável e não sustentável, que não necessita e necessita de apoio.
Se assim não for, há a morte cultural de várias atividades culturais, dada a sua insustentabilidade sem apoio em termos económicos e logísticos.
Por exemplo, em Portugal, deixa de haver bailado, cinema, teatro ou ópera, se não existir apoio, o que é aterrador e assustador a nível da nossa memória coletiva e em termos de progresso civilizacional e cultural, por confronto com os avanços das nações que tomamos como referência.   
A necessidade desta biodiversidade cultural e de apoio à criação cultural quando naturalmente não sustentável, deve ser transversal a todas as ideologias, quer de direita, centro ou de esquerda, o que não implica, sempre e necessariamente, uma cultura estatizante centralizada e totalmente subsidiada, tida como inexequível.       

 

05.06.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXV - AGOSTINHO DA SILVA

 

“O Português precisa de tomar consciência de que é vário. Porque se ele percorrer os seus grandes homens, todos eles se apresentam como uma variedade enorme. É o Camões, é o António Vieira, e é aquele que vem dar a chave mais cómoda das coisas e que se chamou Fernando Pessoa. O Fernando Pessoa ousou ser vários; e para pôr isso bem claro aos olhos dos portugueses é que ele usou vários nomes”. 

 

Após reconhecer que Camões foi vário, reconhece que nunca mudou de nome, acrescentando:

 

“Não inventou, não se lembrou dessa história dos heterónimos. Mas o Fernando Pessoa, esse, lembrou-se, e deu com isso uma lição aos Portugueses. “Façam o favor de ser os vários que são”. Procurem qual é a economia, qual é a política, qual é a metafísica que lhes permitirá ser vários e ser, sobretudo, gente. Porque quando vamos ver o comportamento dos grandes portugueses, e até dos pequenos portugueses, encontramo-los sempre vários.” (“Esboço do Português, em Ir à Índia sem abandonar Portugal”,  Assírio & Alvim, p. 35).   

 

É, para Agostinho da Silva, uma caraterística louvável dos portugueses, ser vário, de que ele próprio fez o culto, levado pelo espírito de miscigenação, de integração e de comunhão com os povos e culturas lusíadas do lugar onde vivia, na sua própria vida de português errante, atravessador de mares e continentes, conformando a sua vivência humana e espiritual com uma espécie de vivência ecuménica muito sentida e espiritualizada.

 

Essa caraterística tão portuguesa de sermos sempre o mesmo sendo variadamente o outro, retira-a do passado de Portugal, que acaba por adaptar e projetar no seu futuro.

 

No que aqui nos interessa, através da disseminação pelos descobrimentos, Portugal deu novos mundos ao mundo, descobrindo-se a si próprio e aos outros, sendo sempre o mesmo sendo variadamente o outro, acabando por transmitir a esse outro a ideia de que a humanidade una através da diversidade apenas se pode realizar pelo Amor Universal. 

 

Não admira que em entrevista ao jornalista Victor Mendanha, responda:  

 

“Agora que  Portugal, é todo o território de língua portuguesa, os brasileiros poderão chamar-lhe Brasil e os moçambicanos …chamar-lhe Moçambique. É uma Pátria estendida a todos os homens, aquilo que Fernando Pessoa julgou ser a sua Pátria: a língua portuguesa. Agora, é essa a Pátria de todos nós”. 

 

Concluindo: 

 

“Quando se diz ter Portugal de fazer alguma coisa, o que tem de ser feito sê-lo-á por todos os homens de língua portuguesa. A missão de Portugal, agora, se de missão poderemos falar, não é a mesma do pequeno Portugal, quando tinha apenas um milhão de habitantes, que se lançou ao Mundo e o descobriu todo, mas a missão de todos quantos falam a língua portuguesa. Todos estes povos têm de cumprir uma missão extremamente importante no Mundo” (“Conversas com Agostinho da Silva”, Victor Mendanha, Pergaminho, pp.  30, 31).  

 

A Nação Portuguesa é o conjunto de pessoas que falam ou deviam falar Português, defendendo a criação de uma comunidade luso-afro-brasileira, com o ponto central em Angola, de modo a que ali se congregassem Portugal e o Brasil para o desenvolvimento de África e se formasse no Atlântico um triângulo estratégico de Língua Portuguesa (Portugal, Angola e Brasil), levando ao surgimento de outras relações, ou ao oferecimento de um novo tipo de relações a outros países. 

 

Quando, em 1956, na sua obra “Reflexão”, defende que o Brasil é o herdeiro do Portugal medieval, vai ao encontro do pensamento de Gilberto Freyre, que no prefácio desse mesmo livro tem como um dos mestres da sua vida intelectual. As ideias comuns entre ambos, não se ficam por aqui, sendo essencialmente coincidentes na sustentação de um Brasil plural, que se formou através da miscigenação, considerando que a vitória da colonização portuguesa é a vitória da mestiçagem. O mestiço, tido como o expoente máximo da miscigenação, é o homem que faz a ponte entre as culturas puras, é o símbolo da união racial de todos os povos, o primeiro fundamento para a formação de um outro homem. A mestiçagem ou plena hibridez é, em Freyre, o primeiro fundamento para a formação de um terceiro Homem e respetiva Cultura, fruto de uma simbiose luso-tropical. Em Agostinho da Silva, é o primeiro passo para o ecumenismo, em que a união cultural, racial e social é o trampolim para a unidade espiritual do Espírito Santo. Resultado da fusão da Europa com os trópicos e do enriquecimento da cultura europeia no contacto com o novo mundo.

 

Portugal, enquanto país que se situa entre a Europa e a África, possui caraterísticas africanas que lhe permitiram misturar-se com povos culturalmente diferentes, desconhecidos e de diversos climas.   

 

A isso chamou Freyre de plasticidade, Jaime Cortesão de plasticidade amorável e Agostinho da Silva de aptidão de se adaptar a qualquer meio e circunstância.

 

Para Agostinho da Silva, o fim do império colonial português fora necessário para que um novo Portugal emergisse: o Portugal criador da Lusofonia, baseado no espírito da língua comum. O Portugal do futuro, que não é sermos só europeus, é sermos isso e muito mais que isso. 

 

Agostinho assume o espaço da língua, da cultura e do espírito português, brasileiro e lusófono como o de uma comunidade messiânica laica, que tem como vocação maior ser mediadora de uma nova revelação do universal, contribuindo para um estado futuro onde se transcendem todas as antinomias e incompatibilidades.

 

A comunidade luso-tropical de Freyre é a mesma que Agostinho designa, em 1959, como comunidade luso-brasileira, e que vem a corresponder, em meados da década de noventa, à criação da CPLP. 

 

Trata-se de uma das teorias mais fortes e originais sobre o destino universal de Portugal e povos de língua portuguesa, respeitada e aceite por muitos, embora mais ampla a aceitação quando se fala no seu autor, tido por muitos como um dos portugueses mais original, visionário, honesto e íntegro do seu tempo (e mais extravagante, para outros), inclusive ao tentar coadunar a sua vida quotidiana com o seu pensamento filosófico.

 

29.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXIV - SÍLVIO ELIA

 

Tomando como orientação o sentido dado à palavra România no mundo neolatino, o brasileiro Sílvio Elia chama Lusitânia a um território cultural único formado pelo espaço geolinguístico ocupado pela língua portuguesa, no todo da sua unidade e variedade.

 

Esse espaço, que simboliza a unidade do sistema da língua, das viagens e seus viajantes, é o espaço da Lusofonia, sendo lusofalantes os seus utentes.

 

Tendo em atenção o estádio atual do nosso idioma no mundo, após a segunda guerra mundial, enumera cinco faces da Lusitânia atual: Lusitânia Antiga, Nova, Novíssima,  Perdida e Dispersa (“A Língua Portuguesa no Mundo”, São Paulo, Ática, 1989).

 

A Lusitânia Antiga compreende Portugal, incluindo as atuais Regiões Autónomas da Madeira e dos Açores. Trata-se da Lusitânia Continental e Insular.

 

A Lusitânia Nova é o Brasil.

 

Os cinco países africanos de língua oficial portuguesa (Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe), a que se junta Timor-Leste, na Ásia, constituem a Lusitânia Novíssima.  

 

Lusitânia Perdida são pequenos territórios isolados em regiões da Ásia e da Oceânia, onde não vê esperança de sobrevivência da língua portuguesa.

 

Lusitânia Dispersa são as comunidades migrantes de fala portuguesa dispersas pelo mundo não lusófono. 

 

É uma visão de um cidadão de um país independente descendente de uma antiga colónia europeia, cujos sucessores dos colonos europeus acederam diretamente ao poder e passaram a liderar o seu destino, em que a opção da língua não era um dilema, dado ser o idioma materno de quem havia colonizado e ser tido como uma consequência natural para os novos colonos, elites e senhores do poder. 

 

Ao invés das antigas colónias africanas e asiáticas, cujos dirigentes e elites indígenas tiveram de optar, ou não, dado o contexto, pelo idioma do antigo colonizador.

 

Há um prolongamento do mundo ocidental, um segundo Ocidente, que agarra mais de perto o primeiro Ocidente, nos países cujos dirigentes são descendentes dos antigos colonos europeus, onde o ressabiamento e ressentimento é menor, por confronto com a maior desconfiança e trauma dos dirigentes nativos não descendentes dos colonos das antigas potências colonizadoras.

 

Se bem que, nos tempos atuais, dada a globalização, se possa falar numa geoestratégia de longo prazo, em que o paroquial, o local, o regional, o transnacional e intercontinental já não chegam, dada a internacionalização global via internet e fluxos imateriais a ela inerentes, em que o fator língua está sempre presente, rumo a uma língua de exportação, internauta e interplanetária como sucede com a língua portuguesa, atualizando-a e adaptando-a aos nossos dias, por acréscimo à terminologia de Sílvio Elia. 

 

22.05.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

10. PROPAGANDA

 

A propaganda tenta transmitir uma mensagem universal, absoluta, correta, válida, em que há inverdades.
A propaganda não é crítica. 
Faz passar uma mensagem de confiança, estabilidade, felicidade.

Por vezes faz o culto da personalidade. 
Há a propaganda eficaz, ineficaz, passageira, que sobrevive ao longo do tempo, académica e vanguardista, explícita e implícita.
O cartaz foi um dos meios que melhor a serviu. 
Há cartazes de propaganda que funcionam apenas como documentos. 
Outros são tidos como obras de arte, concordemos ou não com as suas mensagens.
Na antiga União Soviética, desde os tempos de Lenine, proclamava-se que a arte do ocidente era burguesa, capitalista e decadente, expurgando-se intelectuais criadores de obras tidas por misteriosas e produzidas para elites, sem significado para o povo. A arte deveria ser inteligível para todos. Tendo por fim o ideal utópico do comunismo, surgem obras com uma imagética e cromatismo imediatamente reconhecível, assertivas e poderosas psicologicamente a nível dos destinatários.
El Lissitzky, no período da Rússia pós-revolucionária, em plena guerra civil, com a guarda branca anti-bolchevique a tentar derrubar o governo de Lenine, concebeu um cartaz chamativo, simbólico e vanguardista, usando formas geométricas, planos sobrepostos e a cor branca, preta e vermelha do suprematismo. Derrota os Brancos com a Cunha Vermelha (1919), é um dos cartazes mais icónicos e intemporais, exemplo conseguido da arte utilizada para propaganda. A sua simplicidade, pioneirismo, estética, atração e magnetismo influenciaram muitos designers gráficos, bandas pop e agrupamentos musicais.
Outro caso célebre é o Cartaz de Propaganda do Livro (1924), de Aleksandr Rodchenko, em que no seu geometrismo e cromatismo usual sobressai um rosto feminino lançando uma mensagem em voz alta.
O sonho da arte ao serviço da propaganda, exprime-se também em obras de arquitetura pública, como o monumento à III Internacional (Torre), de 1919, de Tatlin, apesar de  só executada a maqueta preparatória. Sem esquecer inúmeros cartazes, esculturas e estátuas fazendo o culto da personalidade de Marx, Engels, Lenine, Estaline e Mao.
Merece referência O Triunfo da Vontade e Olympia, de Leni Riefenstahl, películas com influências estéticas e cinematográficas de Eisenstein, tidas como as melhores obras de propaganda de sempre, proclamando o esplendor do nazismo. Onde há uma propaganda explícita que tem de comum um culto dirigista, exaltante e típico de estados ditatoriais, em que foi banida a arte pela arte e a liberdade de expressão e pensamento.

 

15.05.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício