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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

1. GILBERTO FREYRE E O LUSO-TROPICALISMO    

O sociólogo e ensaísta brasileiro Gilberto Freyre é uma referência incontornável, para uns, e dispensável, para outros.

Amado e desamado, a sua obra não é consensual, mas sim polémica, aberta à controvérsia, à contestação, ao debate, à discussão.   

Adulado por uns e censurado por outros, o seu legado perdura, sem a marca da indiferença, antes a da permanência temporal.

Concorde-se ou não, merece referência, com os seus merecimentos e críticas de amores e desamores tropicais. 

Há que falar, ab initio, do seu luso-tropicalismo. 

Tentou demonstrar o papel relevante que os portugueses tiveram nos trópicos.

Os primeiros estudos sobre os trópicos foram feitos pelos escritores que acompanhavam os navegadores e pelos europeus que se fixavam nos territórios que ocupavam.   

Gilberto Freyre defendeu existir um novo ramo de conhecimento, chamado tropicologia, que se destinava a estudar as regiões tropicais, constituídas por sub-ramos ligados a diversos países coloniais, como a anglo-tropicologia, a franco-tropicologia e a luso-tropicologia. 

Cada um dos países que se tinha disseminado e participado nas navegações marítimas e na colonização tinha a sua própria tropicologia, com a particularidade específica de se diferenciarem entre si consoante o método adotado no modo de observar os trópicos e neles viver.   

Nesta sequência, o luso-tropicalismo é uma consequência do processo de colonização portuguesa nos trópicos, da especial capacidade de adaptação e relacionamento dos portugueses às terras e gentes tropicais, manifestando-se essencialmente através da miscigenação e interpenetração de culturas.   

A obra “Casa Grande e Senzala” lança as bases do luso-tropicalismo, que de modo sintético se pode definir como uma “ciência” especializada no estudo sistemático do processo ecológico-social de integração de portugueses, seus descendentes e continuadores em ambientes dos trópicos. 

Tem o português como um povo indefinido entre a Europa e a África, de origem étnica híbrida, como gente flexível, flutuante, de plasticidade intrínseca, de sentido pragmático e riqueza de aptidões, sem imperativos categóricos em termos doutrinais e morais, reinando sem governar, no Brasil, miscigenando-se com os índios e os negros, formando nos trópicos uma civilização sui generis equilibrada, apesar dos antagonismos. Estas caraterísticas de superação das hostilidades, mobilidade, plasticidade, complexidade, mestiçagem e erotismo são preponderantes na linguagem do bem conhecido livro clássico de Freyre.   

Sendo o Brasil de base mestiça, pelo caldeamento de três raças, a branca, a negra e a ameríndia, também a linguagem em “Casa Grande e Senzala” é mista, colorida de saberes, sabores e efeitos de sentido.

Para além de ter a mobilidade, miscigenação e aclimatibilidade como três caraterísticas fundamentais do povo português, Freyre acaba por mostrar ao povo brasileiro, em toda a sua obra, a necessidade de se aceitar tal e qual como é, não se envergonhando nem inferiorizando.

 

18.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

21. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (IV)

 

Quanto a uma pretensa miopia diplomática de Portugal oscilando “(…)entre a cegueira interna, a falta de foco à distância e essa eterna “paranóia espanhola” - que o não deixa olhar o vizinho de frente, nem deixa de o espreitar com o canto do olho”[1], mais uma vez se simplifica, esquecendo que embora a reaproximação seja crescente, isso não é incompatível com as naturais cautelas, à semelhança de países iguais e mais pequenos, ao lado de outros maiores e mais poderosos, como a Holanda, Dinamarca e Áustria em relação à Alemanha, a Bélgica com referência à França, a Irlanda por confronto com o Reino Unido, entre outros, com a agravante de termos como vizinho um só país, maior, mais poderoso e populoso, em que a mentalidade conquistadora e imperial de Castela predomina. 

 

A propósito de Espanha, não será por ser a língua do conquistador (Castela) que o castelhano é o idioma oficialmente unitário?   

 

Não será simplista ter como questiúnculas literalmente provincianas, insólitas e patéticas, aos olhos e ouvidos de um estrangeiro (in casu de Wilson) a preservação das variedades linguísticas em Espanha? Incluindo o catalão, da sua amável Catalunha e sedutora Barcelona? Barcelona que, curiosamente, e à semelhança de Lisboa, o seduziu em absoluto. O que compreendemos, pois não esmagam, mas encantam. 

 

Mas observa, curiosamente, que os catalães nas ruas, festas ou grupos privados, usam o castelhano na presença de um estrangeiro, de um espanhol não local ou sabendo que entre eles o interlocutor não é catalão. Porquê? Resposta: “Por falta de autoestima (como os portugueses)? Não. Rigorosamente o contrário: porque os catalães são meritoriamente orgulhosos da sua terra, da sua cultura e das suas virtudes.”[2]  

 

Salvo o devido respeito, a História não demonstra que o sejam mais que os portugueses (pelo contrário),  pela simples razão de que Portugal tem sobrevivido desde sempre no contexto peninsular como um estado-nação unitário e coeso, em paralelo a um vizinho maior e menos unitário, havendo muitos catalães (e nativos de outras regiões espanholas) que nos admiram e tomam como referência, o que só se justifica por os portugueses serem meritoriamente portadores de um amor-próprio e pátrio que o autor não valoriza de modo adequado e proporcional.              

 

Restam as convicções monárquicas de Wilson Solon, tendo a monarquia como um regime que em milénios e séculos construiu as respetivas nacionalidades, vendo o seu derrube, entre nós, como uma rutura com a autoestima, a cidadania, a história e a identidade, referindo que “(…)há quase um século Portugal recusa a permitir-se sequer um plebiscito sobre a restauração da própria monarquia.[3]    

 

Concorde-se ou não, não deixa de ser irónico que mais de cem anos após a implantação da República um brasileiro nos interpele sobre o art.º 288.º, alínea b) da nossa Constituição, segundo o qual as leis de revisão constitucional terão de respeitar a forma republicana de governo. Discussões jurídicas à parte, quer se defenda que “(…)este limite material não se circunscreve forçosamente à proibição da restauração da monarquia em Portugal”[4], ou que surja a dúvida de que “(…)apesar de ser controvertido se não deveria ser deixado à livre margem de escolha do legislador ordinário  (para não dizer a referendo nacional)[5], a questão, para muitos, é pertinente, não cabendo aqui aprofundá-la, ao inverso do que sucederia se de um artigo de enfoque essencialmente jurídico ou político se tratasse.   

 

11.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Obra citada, p. 120.
[2] Obra citada, p. 27.
[3] Idem, p. 232.
[4] Miranda, Jorge e Medeiros, Rui, Constituição Portuguesa Anotada, Tomo III, Coimbra Editora, 2007, p. 937.
[5] Sousa, Marcelo Rebelo de, Constituição da República Portuguesa Comentada, Lex, Lisboa 2000, p. 433.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

20. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (III)

 

Apesar de Portugal ser pobre em recursos naturais, é verdade que prevalece entre nós uma mentalidade de ricos, para o que contribuiu o antigo Império, como sucedeu, em graus diferentes, com outras ex-potências coloniais europeias. 

 

À decadência geral da superioridade europeia, agravada pelas crises recentes, generaliza-se a ideia de que o máximo que podemos atingir é manter intocável o nosso modo de vida, defendendo-se a ausência da possibilidade de o melhorar consideravelmente (teoria conservacionista).   

 

É o que aparenta suceder em Portugal e na Europa, mas não no mundo em geral. A este conservacionismo essencialmente europeu, vem-se contrapondo que a ideia de mudança e de conquista do futuro está viva noutras paragens, na China, Índia, Ásia em geral. O que neste momento os europeus tentam conservar, é o que outros tentam alcançar, entre eles o Brasil. Este elemento terá de ser introduzido como um elemento novo a ter presente na análise crítica que aqui fazemos a Wilson Solon, que este não consciencializou em relação à “pátria-mãe”[1].

 

Também é observável que há em Portugal um discurso catastrofista em dizer mal de nós. Televisões e imprensa em geral deliciam-se em fazer o culto da autovitimização, do pessimismo e do miserabilismo, de que estamos em primeiro lugar em tudo o que é mau e em último em tudo o que é bom, existindo sempre algo a lastimar, sem pensar no mundo que nos rodeia, onde há quem esteja melhor, mas muitos, demasiados, pior. Que podíamos e devíamos estar melhor, ter mais ambição e esperança é verdade, mas daí à eterna insatisfação e lamúria, portadora de um complexo de inferioridade em relação ao estrangeiro que vive melhor, não se justifica.

 

Se os portugueses em geral são afáveis, há-os acres, mormente algumas elites, que se envergonham do país, aproveitando qualquer oportunidade para o denegrir, gerando uma psicologia derrotista, onde não nos revemos. Portugal renovar-se-á por uma atitude psicológica positiva, reprodutora dos momentos criativos da sua história, abrindo-se e confrontando-se com a multiplicidade, desmentindo a atual ausência do espírito de missão e apelando ao que de melhor nos disseminou pelo mundo.

 

Já não aceitamos que seja pelo facto de terem um nível de vida superior, que países similares ou mais exíguos tenham mais autoestima e sejam externamente mais conhecidos e considerados, o que peca por uma visão redutora e eurocêntrica,  excluindo a maioria dos outros, sendo facilmente observável que Portugal, pela sua história e universalidade, supera muitos deles, para já não falarmos da ficção que é, por exemplo, a Bélgica como nação (de um nível de vida superior ao nosso). 

 

À alegada indiferença de brasileiros, há-os reconhecidos, por paixão uma vez identificadas afinidades e afetos mútuos (como Wilson), sendo motivo de orgulho que um país continental tenha surgido da força, calculismo e diplomacia de um país tido pelo Brasil como minúsculo, a “terrinha”.

 

A que acresce, de momento, uma vinda elevada de brasileiros para Portugal, incluindo milionários e classe alta, fugindo da crise e da insegurança, tendo o nosso país como interessante, atrativo, pacífico e na moda, com a vantagem de falar um idioma comum.                                                   

 

04.10.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Como ele próprio lhe chama na p. 319.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

19. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (II)

 

É a visão de um encenador e realizador brasileiro, aliada à de artista, jornalista,  historiador e viajante que permaneceu entre nós no decurso de mais de cinco anos, e que aqui chegou em 1999.

 

A intenção é boa, sendo o livro polémico e merecedor de uma leitura ponderada, agregada a uma vontade de tentar compreender e expressar uma necessidade de mudança, o que nem sempre é conseguido.

 

O Portugal de que fala é o reflexo da sua televisão, da mediocridade dos seus écrans, do lixo televisivo, do fraco nível literário, linguístico e dramatúrgico, por confronto com uma literatura portuguesa de excelência.

 

Ao tomar como centro de análise o imobilismo reinante no meio em que trabalhava, generaliza ao todo, ao Portugal total, o que tinha como o essencial de uma parte. O meio televisivo português, com a sua negatividade, onde o autor exerceu a sua profissão temporariamente, serve de centro amplificador. Como na parte impera a apatia e os formatos televisivos importados, transfere essa caraterística para o todo, concluindo que tudo em Portugal está paralisado.

 

Trata-se de um simplismo redutor de uma realidade complexa de difícil (e impossível) simplificação, por Portugal não ser simplificável. É uma primeira crítica a anotar.

 

Ademais, não surpreende que o audiovisual brasileiro prolifere entre nós, não só pela sua reconhecida qualidade técnica e artística a nível mundial, mas também por falarmos a mesma língua, à semelhança do que sucede com os Estados Unidos em relação à Inglaterra. Apesar de o próprio Wilson não o negar: Não é menos verdade que no mundo lusófono em particular (analogamente ao anglófono), vêm da América as contribuições culturais mais numerosas para o património universal.”[1]  

 

É redutor falar num neocolonialismo cultural da antiga colónia. Se o Brasil é portador de uma mais-valia televisiva, qual o problema em aprendermos com ele? Compreensível, pois, que Solon tenha sido convidado a trabalhar entre nós.

 

Mas apesar da sua qualidade técnica televisiva, o Brasil é responsável por alguma  mediocridade da nossa televisão, uma vez Portugal ter adotado o formato das suas telenovelas como entretenimento televisivo predominante, pese embora o desagrado do ensaísta.         

 

Mas a mediocridade televisiva não é um fenómeno tipicamente lusitano, muito menos numa era global de consumos homogéneos em que toda a gente vê os mesmos programas televisivos. Muitos deles pejados de banalidades, excluindo qualquer sentido crítico, tantas vezes de importação maciça da atual superpotência. E que dizer do “Grande Irmão”/“Big Brother” originário da tão vanguardista Holanda?   

 

Questão diferente é a degradação da ficção televisiva portuguesa, de um  conservadorismo mental que não investe na “(…)incontestável  - e regra geral não utilizada - capacidade criativa dos portugueses”[2], renunciando à construção de um pensamento cultural próprio, por maioria de razão num país rico em história, singularidades e universalidades, com o que concordamos.

 

Absurda é a legendagem, em português do Brasil, neste país, de filmes e outros audiovisuais portugueses, ao invés do que sucede entre nós com películas e telenovelas brasileiras, como Wilson reconhece. Pergunta-se: terá o português de Portugal um valor acrescentado que o português do Brasil não tem, no pressuposto de que quem o fala compreende os demais lusófonos, não parecendo relevar, do mesmo modo, o inverso neste país irmão? Ou tratar-se-á de um analfabetismo mais acentuado e universalizado da população brasileira em geral?

 

Tratar-se-á de um conservadorismo mental brasileiro? De um “tempo brasileiro” paralisado, o efeito de uma vaidade desmedida e orgulho doentio pela continentalidade territorial, adaptando e devolvendo ao autor algumas considerações sobre Portugal? A nós, em terras brasileiras, nunca nos soou incompreensível o português do Brasil, nem para os nossos interlocutores o português de Portugal, o que agrava o paroxismo do absurdo. O que faz pensar num Brasil, o Enigma Lusófono. 

 

Generalizar que os portugueses assistem passivos a tudo, tomando como referência a formatação televisiva, é redutor e excessivo. Ter como suas caraterísticas estruturais e intrínsecas a resignação e a melancolia, mesmo que se invoque o fado (nem todo é triste, há-o alegre), também o é. 

 

Nem se pode absolutizar como inatas e inalteráveis de um povo certas caraterísticas, uma vez existirem reações comportamentais modificáveis consoante as circunstâncias e a situação que se vive. E se é verdade que Portugal teve dimensão superior às suas forças e ao seu território, nada impede que lutemos por isso, tendo sempre presente que as coisas muito desejadas e pensadas mentalmente, acabam por passar da teoria à prática. Desde logo, repudiando o fechamento (que sempre nos prejudicou), acolhendo a abertura aos outros e a aceitação ativa e crítica dos seus contributos, sem esquecer a  universalidade, invertendo uma certa e atual receção acrítica do modismo europeu e norte-americano, de um Portugal horizontal, consumista, sem espírito, sem razão de existir para além do dia-a-dia.

 

27.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

[1] Idem, pp. 117 e 118.
[2] Idem, p. 57.

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

18. O ENIGMA IBÉRICO
IMPRESSÕES DE UM BRASILEIRO EM PORTUGAL (I)

 

1. No livro Portugal, o Enigma Ibérico (Quidnovi, 2005), de Wilson Solon1, argumenta o autor que nenhum especialista, turista ou ciência pode interpretar Portugal, uma vez mover-se numa lógica única, nem sempre expondo na matéria os enigmas do seu espírito, sendo incompreensível a olho nu, num “tempo lusitano” paralisado em rituais de autoflagelação e vitimização.

 

Tem por irrealista que a pequenez territorial seja decisiva, refutada pela antiga determinação de um punhado de naus nas mãos decididas dos portugueses, sendo irreal supor que as grandes decisões surgirão de uma estreiteza mental à medida dos limites geográficos, o que também não justifica a ausência de autoestima. 

 

Na “velha Europa dos 15” (à data), é ridículo que tal dimensão possa ser usada para a falta de iniciativa dos seus habitantes, o que não sucede na Holanda, Bélgica, Suíça, Áustria, Irlanda, Dinamarca, Luxemburgo, de territórios mais pequenos, que tem como nações mais conhecidas e respeitadas.

 

Alegando que o comodismo paralisa a História, conclui que o nosso complexo de inferioridade pela retração do império, não pode ser disfarçado como se de modéstia ou humildade se tratasse, defendendo que o excesso de vaidade da alma lusa pode ter sido causa desse marasmo, findo o estatuto de nação imperial.   

 

Ao desperdício de energias da atitude pessimista dos portugueses em Portugal, contrapõe o empreendedorismo dos que emigram desconhecendo, em geral, casos mal sucedidos, ficando estes libertos das fronteiras psicologicamente opressoras da nacionalidade.

 

Os portugueses parecem sentir-se permanentemente culpados pelo que têm de melhor, têm um desprendimento pela sua língua, a saudade tem um lado passadista e ausente, ao invés do lado saudável no Brasil, de onde Portugal é visto como a memória de um passado comum entretanto obscurecido, onde muito turista usual ou pontual não o inclui nos seus roteiros, por indiferença ou ser tão parecido que nem vale a pena conhecê-lo.   

 

Após lamentar que os portugueses preferissem livrar-se (ou despojar-se) da sua monarquia, diz serem os mais fervorosos consumidores de audiovisuais brasileiros, sem vontade de construírem um pensamento cultural próprio para a televisão, o que se traduz num neocolonialismo cultural de uma antiga colónia: “Um caso singular no mundo, de um domínio que nem sequer fora imposto e sim, curiosamente, desejado pelo antigo colonizador!”, acrescentando: “Se tudo isso já soaria estranho para um português, não o fora menos para um brasileiro que optou por viver em Portugal.”2

 

Apesar destas distâncias e incompreensões, “(…) o português segue sendo o mais admirável fator de coesão nacional e união internacional no âmbito da lusofonia”3, ao invés de Espanha, de disputas linguísticas localizadas, embora Portugal e Brasil não se deem conta desse enorme património comum e unificador. Ambas as nacionalidades irmãs têm um traço comum: não acreditarem no vigor histórico da lusofonia. 

 

2. Ao falar das motivações originais das colonizações predominantes nas Américas, defende que os anglo-saxónicos e os hispânicos traziam a vontade de matar, ao contrário dos portugueses, diferenciando a arrogância anglo-saxónica da flexibilidade do espírito lusitano, exemplificando-o com o Brasil.   

 

No Brasil - caso único mundial - as referências raciais originais não têm cor, “(…) dado que quando adquiriu a sua identidade nacional, já lá estávamos todos - pretos, brancos, índios e mestiços (…). O próprio sentimento nacional na sua origem inclui as diversas raças. (…) Não há o de “fora” como informação visual”,4 sendo das nações “mescladas” a menos racista. 

 

Acrescenta que no Brasil “(…) subconscientemente, os nossos pretos não são “afros”. São brasileiros”5, razão pela qual a questão africana aí terá uma interpretação inversa à  europeia, para a qual prevalece a “visão superior” do colonizador, o que explica que a miscigenação racial seja algo de impensável a curto prazo em Portugal. 

 

Portugal tem de se reconciliar com a sua imagem, com um património inexplorado que sobrevive, como metrópole de um grande império de novos e velhos ideais, pelo que “Cabe perguntar: por que não usar este património a favor de um capitalismo espiritualista?”.     

 

Vendo que a maioria dos emigrantes no nosso país têm no português a sua língua materna, pergunta: “Suportarão, enfim, os portugueses uma aproximação com africanos e brasileiros sem que haja pelo menos um oceano pelo meio?6 

 

A integração lusófona tem de ser aceite como um facto consumado, libertando os portugueses das fronteiras que os aprisionam, começando pelas geográficas “(…) que os fazem experimentar a sensação de uma pequenez que a rigor é apenas mental; das ilusórias fronteiras europeias que, ao contrário, os convenceram de uma falsa grandeza que na prática pouco souberam aproveitar; e, por sinal, também das fronteiras virtuais de um capitalismo de ocasião que a rigor nem fronteiras possui.” 7   

 

Portugal terá de se expandir em todos os sentidos, cruzando de novo o Atlântico em todas as direções e transformando as barreiras que o separam de Espanha em reaproximação, pondo de lado a eterna “paranoia espanhola”. 

 

Analisaremos, nos próximos textos, os merecimentos e críticas que nos merecem estes olhares e impressões de um brasileiro que viveu alguns anos em Portugal. 

 

20.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

[1] Realizou trabalhos televisivos e assinou séries de ficção, como Jornalistas e O  Processo dos Távoras.
[2] Obra citada, p. 309.
[3] idem, p. 24.
[4] Idem, p. 108.
[5] Idem, p. 113.
[6] Idem, p. 119.
[7] Idem,p. 120.

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

33. VIAJAR EM CASA

 

Há quem esteja sempre a partir por mais viajado que seja.   

E há as viagens que se suscitam na nossa imaginação quando ficamos em casa.

Há também a antecipação mental da viagem quando imaginamos coisas que propiciam a experiência que pretendemos realizar. 

E há os objetos portadores de histórias e memórias de viagens realizadas que conservamos em casa, que não se esgotam na sua funcionalidade ou utilidade. 

No lar podemos estar rodeados de toda a panóplia de haveres que potenciam e asseguram a antecipação e a recordação da viagem.

Antecipando a viagem com guias, impressos, livros, desenhos, gravuras, pinturas, postais ilustrados, fotografias, vídeos e filmagens de museus, monumentos, hotéis, praias, pesquisas via internet dos itinerários.

Ou evocando a viagem partilhando-a e recordando-a com lembranças da Europa, África, Américas, Ásia e Oceânia. 

Há a realidade factual e virtual das viagens. 

E as viagens que se suscitam na imaginação, em sonhos, tão gratificantes, quanto fantásticas, exóticas e sublimes.

Viajando em casa podemos partilhar e imaginar fotos ou filmes de coisas ou eventos belos e sublimes, mesmo que horrendos, como a erupção de vulcões ou tempestades no mar. 

Não existe um sentido comum apreensível de viagem para todos.

Há quem por mais viajante que seja está sempre descontente e pronto a partir.

Há quem ache que a imaginação pode suprir virtualmente a vulgar realidade dos factos, viajando em casa.         

 

13.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LV - GILBERTO FREYRE

 

Defende Gilberto Freyre estar dentro da tradição portuguesa do Brasil, como no Oriente e em África, a tendência de assimilação de outros elementos, mesmo se estranhos.

Exemplifica-o com o português (idioma) tido como o primado número um da cultura de origem maioritariamente portuguesa no Brasil, falando de uma língua portuguesa enriquecida e mestiça, por aquilo que já assimilou do indígena, do africano, do holandês, do castelhano, do francês, do inglês, a qual não deve significar nunca uma exclusividade purista contrária, per si, à lusa tradição de assimilação. Assimilação sem violência, atenta a oportunidade que sempre, ou quase sempre, lhes tem dado de se exprimirem, de modo a que se faça docemente e por interpenetração.

Transportando tal capacidade de adaptação e assimilação do idioma e tradição portuguesa para o Brasil, defende que a tradição brasileira pode enriquecer-se, e muito, no contacto com as culturas levadas pelos imigrantes alemães, espanhóis, húngaros, italianos, japoneses, judeus, poloneses, entre outros.

Escreve, a propósito:
“De modo nenhum me parece que idiomas com o rico conteúdo cultural do alemão ou do italiano devam ser desprezados ou combatidos como inimigos pela gente brasileira. …devem ser aceites como estímulos ao nosso progresso cultural. Mas nunca, é claro, ao ponto de qualquer dos dois - o idioma alemão ou italiano - tomar, em qualquer regia, o lugar da língua tradicional, essencial, nacional que é a portuguesa. Esta que se enriqueça de germanismos e italianismos, como já se enriqueceu de indianismos, de africanismos, galicismos, mas continuando, na sua estrutura e nas suas condições de desenvolvimento, a língua portuguesa e a língua de todo o Brasil. A língua, também, desse conjunto transnacional de calores de cultura que é o mundo de formação lusitana” (“O Mundo que o Português Criou”, Prefácio).

Pluralidade de cultura sim, dentro do primado da cultura de origem predominantemente portuguesa e cristã, não renegando o critério histórico de formação luso-brasileira, pelo que o que for hostil a essa formação é contrário aos interesses do Brasil.
Assim, embora o Brasil deva defender e preservar a sua tradicional cultura luso-brasileira, não deve fechar-se nela, antes sim defendê-la, desenvolvendo-a.

Afirma que a língua portuguesa se vem destacando “(…) cada vez mais das línguas simplesmente neolatinas, pela crescente tropicalização das suas vozes, dos seus sons, do seu modo de corresponder a estilos e a conveniências de populações de várias origens, etnias e culturas, integradas em países quentes, dentro das normas de interpenetração ou de tolerância que tornam possível uma pax lusitana, diferente da romana e principalmente da britânica” (“O Luso e o Trópico”).

São seus exemplos palavras como amorenar, bronzear, banzar, xingar, cucutar, sol tropical, sol do trópico, num “português com açúcar” (ou chocolate?) de sotaque e pronúncia brasileira nas suas vozes e sons tropicais.

Trata-se de uma conceção pioneira em que as áreas culturais viriam a ter uma importância crescente no século atual, representando o luso-tropicalismo uma antecipação da lusofonia ou comunidade lusófona, institucionalizada através da CPLP, uma realidade plural em que a comunidade internacional está identificada.

 

06.09.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LIV - NÃO AO COMPLEXO DE INFERIORIDADE LINGUÍSTICO (VII)     

 

Que têm feito a CPLP, o Instituto Camões, autoridades governamentais, instituições, associações lusófonas e a sociedade civil, para atenuar ou evitar este complexo de inferioridade linguístico?   

 

Uma conclusão é a de que, apesar de vivermos em plena época da globalização, a sua pretensa e alegada uniformização a todos os níveis, incluindo o linguístico, não é tão evidente como seria de esperar. Se tomarmos como termo de comparação o que sucedia há vinte ou trinta anos, concluímos que o número de línguas disponíveis em termos culturais, turísticos e políticos era menor, restringindo-se, à data, normalmente ao francês e ao inglês, fora dos respetivos países falantes, apesar de atualmente o inglês ser a língua global em termos comerciais, negociais e tecnológicos. Conclui-se, pois, que globalização não é, nem tem que ser, sinónimo de uniformização.

 

Pelo lugar que ocupa mundialmente e no mundo ocidental, será legítimo que o nosso idioma tenha outra projeção internacional. 

 

Entretanto, muitas vezes os lusófonos, começando pelos portugueses, pouco ou nada fazem para que o idioma comum ocupe o lugar que lhe compete por direito próprio no mundo contemporâneo, quer numa perspetiva cultural, turística, tecnológica, política, de marketing, etc.

 

Como já referido, há que pôr de lado um certo culto de secundarização da língua portuguesa por parte dos lusófonos, como que derivado de um complexo de inferioridade sem sentido e associado a uma espécie de fatalidade ou de vergonha colada a uma pretensa falta de orgulho e de visibilidade dos respetivos países no jogo mundial.           

 

Será necessário, para tanto, que a CPLP, o Instituto Camões e entes paralelos   ultrapassem o campo das meras boas intenções em conjugação de esforços com as associações e sociedades civis lusófonas, as quais, por vezes, são potenciadoras de mais valias que superam a vontade política dos Estados membros.

 

É necessária uma estratégia que consagre a importância da língua comum como fator de projeção estratégica.    

 

Nesta sequência, fazendo uso das palavras de Vítor Marques dos Santos, “Os povos dos países da CPLP, bem como as comunidades de lusofalantes espalhadas pelo mundo, formam um espaço de expressão cultural, (…) definindo-se em termos de fator de projeção estratégica potencial”. E conclui: “Neste contexto, a CPLP constitui o enquadramento institucional que reúne as condições necessárias à defesa da lusofonia e ao desenvolvimento da língua portuguesa como património cultural, e fator de projeção estratégica, cujo desenvolvimento importa tanto para Portugal, como aos outros países da CPLP” (em “Lusofonia e Projeção Estratégica. Portugal e a CPLP”, Revista “Nação e Defesa”, n.º 109,  2.ª  série, Outono 2004, p. 123). 
coordenação de Óscar Soares Barata, ISCSP, p. 70).   

 

Assim, se o Conceito Estratégico Nacional (Adriano Moreira), ou Conceito Estratégico de Segurança Nacional (Loureiro dos Santos),  engloba os interesses irrenunciáveis e os objetivos primordiais relacionados com a identidade nacional de cada país e a função que pretende desempenhar, ou vai desempenhar, na comunidade internacional;  é inegável, quanto a nós, que a língua portuguesa e a lusofonia são parte integrante e elemento constitutivo de tal noção, não só numa perspetiva nacional, mas também multilateral, lusófona e internacional, seja qual for a terminologia adotada, dado que tais realidades, porque comuns, são  expressões fundamentais de identidade de todos os países da CPLP e comunidades lusófonas espalhadas pelo mundo, quer no plano interno ou externo.     

 

Porém, enquanto a lusofonia é apenas um dos elementos que estão por detrás da CPLP, uma vez que os países membros também têm uma cultura própria não lusófona; já a língua portuguesa é o seu elemento fundamental.           

 

30.07.19
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LIII - NÃO AO COMPLEXO DE INFERIORIDADE LINGUÍSTICO (VI)

 

Nem é verdade que haja um número pouco representativo de turistas falantes de português (além dos emigrantes lusófonos), sendo significativo o número de portugueses e brasileiros com que me cruzo por lugares e países que conheço, omissão que não se justifica, por maioria de razão, em relação a outros idiomas, que apesar de menos falados e com menos turistas são, por comparação, mais divulgados e oficializados.     

 

Esta indiferença de afirmação e de laxismo no reconhecimento da nossa identidade via língua inferioriza-nos, originando que nos associem como indígenas de uma língua menor ou de um dialeto castelhano, sendo nós tantas vezes os causadores dessa subsídio-dependência, por acrítica passividade, seguidismo acrítico, ao querermos demonstrar que somos fixes e hospitaleiramente poliglotas, absorvendo e aceitando tudo, tipo permissividade eufórica ou resignação apática. 

 

Se é verdade que não é por esta ou aquela omissão que a língua de Camões não sobrevive, não é menos verdade que tais omissões contribuem para a sua menor visibilidade, de Portugal e demais povos lusófonos, não a dignificando como merece.

 

De que nos vale o conhecimento e reconhecimento do alheio, se o não houver de nós próprios? Porquê tanta resignação perante o mote de “o que é estrangeiro é que é bom” (embora, na realidade, só seja “bom”, se de um país com um nível de vida superior ao nosso)?

 

Em certas situações uma desproporcionada permissividade pode representar um perigo, não remediado pela simpatia ou por não querermos parecer patrioticamente vaidosos, negando valor ao que é nosso e por direito próprio se impõe. 

 

Por maioria de razão quando regularmente e em igualdade de circunstâncias não funciona a reciprocidade, mesmo de idiomas menos falados que o nosso. 

 

Conclui-se que muitas vezes inferiorizamos um dos elos e dos símbolos maiores da nossa identidade e dignidade, senão o maior, sendo sabido que um povo que não tem identidade não tem dignidade. Deixemo-nos de complexos de inferiorização e defendamos sempre o que temos de mais profícuo em termos de identidade, sem nacionalismos doentios e recordemos, sem propósitos chauvinistas, que não foi a nossa pequenez territorial que nos impediu de disseminar pelo mundo a língua que falamos, que não é apenas nossa, partilhando-a com outros, que a enriquecem.   

 

Num mundo global as políticas nacionais centram-se, cada vez mais, na esfera cultural, incluindo a língua e o património em geral, sendo Portugal, em restritos termos económicos cada vez menos um país, à semelhança de outros, mas é-o cada vez mais como realidade cultural, a começar pela língua, sendo esta um dos vetores que nos diferencia, com grandes potencialidades lusófonas e lusófilas para, futuramente, nos diferenciar ainda mais.     

 

Se a admiração bacoca, gratuita e papalva pelo que não é nosso, e o fazer-se gala de não se ter qualquer preferência nacional são manifestações provincianas, por primazia de razão no que toca a um complexo de inferioridade linguístico amputador duma alegria e mais-valia de que, num sentido saudável, nos devemos orgulhar. Ao vivermos tão obcecados com o que nos falta, somos incapazes de beneficiar do que temos de bom e de melhor.   

 

Indicia-se sofrermos de um complexo de inferioridade em relação ao estrangeiro mais forte ou de um nível de vida superior, com algumas elites azedas e totalmente estrangeiradas que gostariam de ter nascido noutro país, inferiorizando o seu, sempre que podem, com reflexos no complexo de inferioridade linguístico, tendencialmente imitado pelo cidadão comum, dada a ausência duma liderança estratégica e responsável e duma não consciencialização dos direitos e deveres de cidadania.   

 

O que é extensivo a muitos lusófonos cultores da secundarização duma língua comum, como que derivado de um complexo de inferioridade sem sentido e associado a uma espécie de fatalidade ou sonho sempre adiado, a uma vergonha envergonhada colada a uma pretensa falta de orgulho, de amor-próprio e de não visibilidade maior dos respetivos países no jogo de poder à escala mundial, havendo necessidade duma estratégia que a defenda e divulgue como língua de vanguarda e de exportação, ao invés do estatuto de língua dominada que vem tendo, crescentemente, na União Europeia. 

 

Não sendo adepto de qualquer forma de nacionalismo ou patriotismo exacerbado ou não saudável, lamento esta indiferente desistência, algo comum a muitos de nós, com consequências de inferiorização a nível linguístico, embora esperançado numa estratégia não apenas nossa, mas também nossa. 

 

23.07.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LII - NÃO AO COMPLEXO DE INFERIORIDADE LINGUÍSTICO (V)

 

Exemplos mais recentes podem exemplificar esta indiferença ou omissão linguística  que tantas vezes implementamos. 

 

Em agosto de 2013, na National Gallery de Dublin, Irlanda, tentaram disponibilizar-me um áudio-expositivo, em castelhano, dada a minha nacionalidade e a ausência em português, com a observação: “Sir, please, but we have spanish![1]. Optei pelo inglês, lamentei a omissão, expus as minhas razões, reclamei por escrito, com a anuência e colaboração duma interlocutora irlandesa.

 

No dia anterior, no início da visita à “Guiness Storehouse”, foi o “espanhol”, uma vez mais, o idioma aconselhado, num opcional roteiro em grupo, por falta de guias em português, o que educadamente (eu e família) recusámos, não deixando de argumentar que a omissão da nossa língua não é suprida pela sugerida, nem dela dependente ou seu dialeto, por muito respeito que nos mereça. Fizemos a visita com a vantagem de nos ter sido dado na bilheteira um mapa informativo do percurso em português. Versões em português existiam ainda na Catedral da Igreja de Cristo (Christ Church Cathedral) e de São Patrício (St Patrick`s Cathedral). 

 

Todavia, em Abril de 2014, em Copenhaga, Dinamarca, nos passeios turísticos de autocarro e barco, as informações eram em dinamarquês, inglês, alemão, castelhano, italiano, polaco, sueco, russo, japonês e chinês. Nunca em português. 

 

Observam-se progressos, como na gala da Fifa, em Zurique, Suiça, em Janeiro de 2014, onde Cristiano Ronaldo falou e agradeceu em português, ao ser tido como o melhor futebolista do mundo de 2013 recebendo, pela segunda vez, a Bola de Ouro (Pelé, ao receber a Bola de Ouro de Honra, pela sua carreira, falou inglês), ao invés de 2008, em Paris, onde se expressou em inglês, ao receber, pela primeira vez, o mesmo troféu. Acrescente-se a abertura em português de um sítio na net pela Fifa e o acesso à biblioteca digital mundial, em sete línguas (árabe, chinês, inglês, francês, castelhano, russo e português), usando o critério do número global de falantes à escala planetária.  Para quando esclarecimentos e legendas em português em CD e DVD de música clássica e ópera?   

 

Merece referência o testemunho de Carlos do Carmo quando recebeu um Grammy Latino de Carreira, em 19.11.2014, em Las Vegas, onde decidiu falar em português, após observar algo que era embaraçoso para ele: todos falavam em espanhol. E acrescenta: “Fiquei até dececionado com um artista que admiro muito, o Ney Matogrosso, que de repente pega num papel, começa a ler e… fala em espanhol. Porquê, se ele vem de um país onde 200 milhões de pessoas falam português? O português é uma das quatro ou cinco línguas mais faladas no mundo, porque é que vou estar aqui encolhido a falar uma língua que não é minha, mesmo que a consiga dominar?”.    

 

Progressos pontuais que não justificam o conformismo e indiferença de muitos portugueses e outros lusófonos, sejam emigrantes ou turistas, menos ainda quando no nosso próprio país.                 

   

16.07.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

[1] “Senhor, por favor, mas temos em espanhol!”.