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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

52. A EUROPA QUE QUIS SER EUROPA E NÃO FOI

 

Houve sempre tentativas de unidade europeia que se frustraram.   
Unidade que foi simbolizada pela República Cristiana, e falhou. 
Pelo império de Carlos Magno, fragmentando-se com a sua morte.  
Carlos V também quis ser Europa, e não foi.
Napoleão ambicionou ser Europa, e não foi.
Hitler desejou ser Europa, e não foi.   
Para além do falhanço de uma tentativa saxónica de poderio continental, que levou à guerra dos 100 anos, do expansionismo germânico, com Frederico da Prússia, do império Austro-Húngaro, de Bismark e Guilherme II, invasões da França e da Rússia, de vindas de eslavos para o ocidente. 
Todos falharam, ao pretenderem conquistar ou exercer hegemonia sobre os demais.
Contra tudo, vingou o princípio das nacionalidades, face ao qual os países não mudam os seus objetivos permanentes, nem o seu contexto físico ou configuração geográfica. Há, no presente, uma tentativa de unidade: a União Europeia. 
Num mundo cada vez menos eurocêntrico, num ocidente em crise e numa Europa em declínio.  
Em que há uma crise de liderança europeia.
Com os líderes europeus olhando em demasia para o seu umbigo. 
Em que a França conta na Europa, cada vez menos, como uma média potência imperial.
A Alemanha por ter relações relevantes com os países do leste europeu. 
A Inglaterra por ser ponto de referência dos Estados Unidos da América. 
Em que Portugal deve ter uma visão europeísta e atlantista.
Estará a UE à altura dos desígnios dos seus pais fundadores? 
Estará a UE disponível a superar os seus egoísmos económicos e financeiros, perante a pandemia vigente, criando um mecanismo solidário de entreajuda? 
Até agora, perante a realidade do coronavírus (da COVID 19), são mais as promessas que os resultados.   
Cada país, no essencial, age por si, por sua conta e risco.
Se tomarmos como referência as tentativas históricas frustradas da Europa que quis ser Europa e nunca o foi, nada haverá de novo na UE.
Se tivermos como orientação as clivagens permanentes quando há crise, agudizadas pela gravidade global do atual contexto, haverá algo de novo a esperar?   
Será o salve-se quem puder, cada um por si, o melhor que puder?
Uma solução excecional para uma situação excecional? 
Oxalá!? Esperamos que sim!? 
O amanhã di-lo-á.  

 

22.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

51. O ESSENCIAL E O SUBJETIVO NA FELICIDADE

 

Há coisas imprescindíveis à felicidade da maioria das pessoas: saúde, alimentação,    habitação, amor, ter trabalho, ser respeitado, liberdade de circulação e de movimentos. Para alguns, constituir família e ter descendência é fundamental. Na sua ausência, só alguém excecional é capaz de ser feliz.   

As pessoas que gozam de saúde e podem satisfazer as suas necessidades, deveriam ser felizes, e nem todas o são.   

Quem adquire facilmente as coisas que deseja, sem esforço, e mesmo assim é infeliz, dá razão a quem conclui que o privar-se alguém de algumas coisas de que precisa é parte indispensável da felicidade. 

Mas a felicidade não é uma evidência.

Cada um tem a sua interpretação. 

Há quem a negue e tenha como uma quimera. 

É um conceito amplo, variável no tempo e espaço, de pessoa para pessoa. 

Que impõe limites excluindo, desde logo, a obsessão pela felicidade.

A cultura do excesso, do sempre mais e mais, do espírito de competição doentio, do culto do dinheiro sem limites, parece ser um modo de fuga da realidade e de vivermos num mundo virtual.   

O dinheiro, por si só, não dá felicidade, apesar de dar jeito e, até um certo limite, a aumentar.

O sentimento de triunfo gerado pelo êxito da competição, torna a vida mais agradável, mas por si só também não chega.

Parecem ser um dos vários elementos da felicidade, sendo demasiado elevado o preço a pagar se em função de um deles se sacrificarem todos os demais. 

Será assim se se considerar o triunfo como um único fim em si mesmo, como a finalidade, o desfecho e meta da vida.

O mercado providencia pela procura em alta da felicidade, oferecendo várias terapias, numa sociedade orientada pela medicalização dos comportamentos e seus litígios, orientações psicológicas ou pontuais, com a pressão social para consumirmos cada vez mais, parecendo sempre felizes.

O que gera uma insatisfação permanente, uma incapacidade de resistência à frustração, criando a ilusão que ser feliz é viver sem angústia, tristeza, derrota, medo, desgosto, entre tantas outras coisas que fazem parte da condição humana, devendo ser aceites e compreendidas como tal e para melhor com elas lidarmos.

O lema de que nada é impossível, tudo depende de nós, está errado.

Há que ter como dado adquirido que saber viver e ser feliz se deve, em grande parte, ao facto de termos descoberto e termos alcançado o que mais desejávamos e, também, por termos excluído dos nossos anseios o incessível, como a aquisição filosófica e científica de um conhecimento absoluto em todas as coisas, ou o prazer ilimitado do culto do dinheiro, sob pena de cairmos no pessimismo, por vezes causa de várias formas de infelicidade, como a de quem tem tudo para ser feliz e ainda assim é infeliz, concluindo que a vida humana é essencialmente desprezível.     

Que os nossos interesses sejam tão amplos quanto possível, o relacionamento com as coisas, os animais, a natureza, o nosso semelhante seja o mais factível e saudável, a par de interesses subsidiários, além dos pessoais, que são o núcleo central da nossa mundividência. 

É uma mensagem a reter, sem esquecer o sentido crítico, interrogando o sistema, tentando libertar-nos duma realidade distópica e niilista.

Sem narcisismo, egocentrismo, megalomania, vaidade, aborrecimento, tédio, sentimento de culpa, ou de pecado, mania de perseguição, nem agitação, fadiga, inveja ou pessimismo derrotista. 

Antes sim, e tão só, um acessível e tranquilo gosto de viver.  

 

15.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

50. CAMINHAR E MEDITAR EM SILÊNCIO

 

Caminhar e meditar em silêncio são exercícios de resistência.
O inverso do espírito de competição, num tempo dominado pelo ruído, em que a filosofia de vida predominante é a do mundo de negócios.
Caminhar e meditar em silêncio é terapêutico.
Uma cura, um remédio, um ansiolítico natural que recompensa.
É viajar com a mente, pensando enquanto se caminha.
Trabalhar com a mente, enquanto se anda a pé.
Viver o corpo, enquanto se caminha e medita.
A mente a trabalhar e a cooperar com as pernas.
É humanizar a vida.
Simbolicamente é uma aventura, um passeio palpável e intangível, uma experiência de aprendizagem, cognitiva e de procura do silêncio, desfrutando-o.
O nosso mundo mais próximo, que nos rodeia, é apreciado, explorado e festejado.
Abrimos os olhos e achamos a beleza onde não diríamos estar.
É respirar e sentir a paz.
Dialogar com o tempo e o espaço.
Ter paciência, sem pressa, pois o mal da pressa apressa tudo.
Arrumam-se ideias, obrigações, compromissos, conhece-se o pormenor do percurso, o nome das ruas e seus desvios.
É passear ao longo da praia, apreciada e sentida de manhã cedo, ouvindo o oceano, molhando os pés, apanhando conchas, vendo as gaivotas e o mar a enrolar na areia.
Saboreia-se e disfruta-se a natureza.
Degustamos a memória do tempo passado, o presente das coisas, a espera e o sonho das coisas futuras.
Purifica-nos a contemplação e o sentir do silêncio que nos falta.
Interrogamo-nos sobre nós próprios e os outros.
Sensibilizam-nos pormenores da paisagem que usualmente não vemos.
Ocioso, para muitos, apoiando-se na teoria de vida dominante, que concebe a existência como uma luta, na qual só é devido respeito ao vencedor.
Vive-se o corpo e a mente, cada um está mais perto de si, dada a intimidade, introspeção e concentração do caminhar e meditar em silêncio, sociabilizando mentalmente com outros.
Um prazer físico, espiritual, frugal e tranquilo.

 

08.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

49. 1.º DE MAIO: DA GREVE GERAL AO FERIADO OFICIAL DE TODOS

 

Em finais do século XVIII e em todo o XIX nasceu uma nova classe social, o proletariado. A sua designação surgiu no Manifesto Comunista, de Marx e Engels, em 1848. Baseava-se no nome por que eram conhecidos na antiga Roma os que não tinham bens e não pertenciam a nenhuma gens, que tinham como única riqueza os filhos, com os quais contribuíam para a cidade.

 

O proletariado apareceu em Inglaterra com os que não puderam competir com os que usaram os benefícios da máquina a vapor ou foram substituídos por ela, caindo no desemprego, na miséria ou sendo mão-de-obra explorada de modo hediondo. O Primeiro de Maio, também conhecido por May Day, inicia o seu percurso na cidade de Chicago, nos Estados Unidos, em 1886, quando os operários fabris, por razões laborais, foram conduzidos pelos seus líderes a uma greve geral contra o patronato, em que a polícia interveio e, após alguns confrontos, dispararam e mataram alguns operários, tendo morrido alguns polícias.

 

Em 1889, em Paris, no primeiro Congresso da segunda Internacional Socialista, foi aprovada uma proposta para que se fizessem manifestações operárias onde houvesse sindicatos, em homenagem aos mártires de Chicago, cujo sucesso levou a IS, em 1891, no seu segundo Congresso, a que se reconhecesse formalmente este evento, inserindo-o no seu calendário.

 

O que deu causa a que no Congresso de Amesterdão, em 1904, se apelasse a todos os sindicatos para ser feita no 1.º de Maio uma greve geral para obtenção da meta das 8 horas de trabalho por dia, reforçando o significado da data como um dia de luta dos trabalhadores.

 

O senado francês, em 1919, ratificou a jornada de 8 horas e proclamou o 1.º de maio desse ano como feriado, a que se seguiu a União Soviética, em 1920.

 

Tornaram-se célebres as comemorações e desfiles na Praça Vermelha de Moscovo, na então União Soviética, irradiando a sua força para praças vermelhas de outros países, com paradas militares, exibição de armas e desejos de um proletariado liberto ansiando pela paz, com especial ênfase ao serviço de regimes populares, desde o sovietismo, maoismo, castrismo e demais comunismos.

 

Entre nós teve posição relevante após abril de 1974.

 

Com a institucionalização e globalização do 1.º de maio, fomentou-se a divisão e a luta entre classes sociais, como motor do progresso social, criando o conflito e a separação, dando autonomia e poder reivindicativo à classe operária.

 

Nascido em Chicago sob o signo do confronto é, para muitos, um perigo, porque cria e incentiva o conflito, a luta, a separação, em vez de reforçar a unidade e a comunidade, infundindo expetativas distorcidas, nocivas e utópicas, de que o vermelho comunista, trotskista, maoista, castrista e socialista se apropriaram como meio para atingir os seus fins, sem alcançar o fim da história gloriosa que proclamavam, cujas elites aproveitaram em benefício próprio e desfavor do proletariado.

 

Tentou a Igreja a sua substituição em memória de São José operário, o santo padroeiro dos trabalhadores, cujo dia lhe é dedicado no calendário litúrgico, mas em vão.

 

Resta, nos nossos dias, que o 1.º de maio não é apropriação exclusiva dos trabalhadores de tempos idos, de que a foice e o martelo são símbolos clássicos ultrapassados, antes sim de todos os que trabalham, sem estar afeto a ideologias identificadas do fim da história e da luta de classes como motor de progresso, não sendo da direita, do centro ou da esquerda, mas de todos.

 

Nem é propriedade exclusiva desta ou daquela ideologia, direito de preferência deste ou daquele partido, mas de todos, mais ou menos qualificados, daí a sua natureza de feriado.

 

01.05.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

48. UTILITARISMO, DIREITOS HUMANOS, ÉTICA E CONSEQUÊNCIAS

 

1. Face às teorias neoliberais dominantes, há uma tendência para a restrição dos direitos humanos a um núcleo duro e restrito.

 

Embora se admita que uma Constituição deve consagrar o que há de mais fundamental, especialmente, e em democracia, os direitos, liberdades e garantias no que toca à relação entre o indivíduo e o Estado, há quem defenda que quanto mais longe se vai na consagração de direitos económicos, sociais e culturais, entre outros, mais problemático é exigir-se o seu cumprimento.

 

Por razões de escassez de recursos, há o que se pode e não pode exigir, podendo chegar-se ao absurdo de exigir o impossível, porque está constitucionalmente consagrado.

 

Argumenta-se haver uma constitucionalização em excesso, como há quem o advogue em Portugal, em que a realidade, no seu todo, se tornou inconstitucional, dada a desconformidade entre o dever de cumprir exigido pela nossa Constituição e a alegada ausência de recursos que tornam materialmente impossível o seu cumprimento.   

 

A solução proposta é alterar a Constituição, mudá-la, quanto antes.

 

Apesar de se aceitar que a lei constitucional intervenha em matéria de questões económicas (princípio da concorrência, regras primárias e programáticas em sede de finanças públicas) e sociais (direito à saúde, ao trabalho, à educação, à habitação e correlativos deveres do Estado para que se concretizem), há que lhe impor limites em função dos recursos materiais e humanos disponíveis. 

 

É a conceção da intervenção do Estado mínimo, da secundarização do Estado social. Porque, como em tudo na vida, há o que se pode e não pode fazer.

 

Para esta visão utilitarista, os direitos económicos, sociais e culturais (direitos humanos de segunda geração), como o direito à saúde, educação, habitação, entre outros, trouxeram uma mudança de sentido para a noção de direitos humanos, dado que a sua efetivação passa a estar dependente do Estado, sendo determinados por opções políticas e dependentes dos recursos materiais e sociais disponíveis, realizando-se através do Estado, ao invés dos direitos humanos de primeira geração (ou direitos de abstenção estadual, como o direito à vida, à liberdade, à segurança pessoal, à constituição de família, a não ser escravizado ou torturado, a um julgamento justo).

 

Defende-se uma restrição dos custos em função da maximização do maior bem comum ou bem-estar geral, em antinomia com a justiça ligada à defesa e promoção dos direitos humanos, associados a ideias humanitárias, não dependendo do Estado, sendo-lhe anteriores, porque inatos a todo e qualquer ser humano. 

 

O que tem consequências em termos de ética. 

 

A ética prática ou utilitarista não parte de regras, mas de objetivos, avaliando as ações e os resultados na medida em que os fins e os objetivos desejados sejam favorecidos.

 

Para a teoria deontológica da ética, os fins não justificam os meios, a natureza ética de um ato não decorre de produzir ou não resultados positivos, sendo inaceitável sacrificar direitos humanos de uma só pessoa para salvar muitas outras.   

 

2. Uma prioridade absoluta e inegociável é o direito à vida, à saúde, salvar vidas. 

 

Todos temos direito à vida (art.º 24.º da CRP) e à saúde (art.º 64.º).

 

Face ao coronavírus há um problema grave de saúde pública, estando em causa a sobrevivência global de inúmeras pessoas em todos os países, em que escolher entre a vida e a morte é um drama pessoal, ético, humano e social para os médicos.

 

Ninguém, em circunstância alguma, quer que sejam médicos a decidir se devemos morrer ou viver por ausência de recursos (materiais e humanos) para combater o vírus da Covid-19, mesmo se idosos ou num grupo de risco, embora saibamos que pessoas mais novas merecem viver mais, e apesar de os mais velhos terem contribuído em grau superior, por força da idade, para a segurança social e serviço nacional de saúde. 

 

O que é aceitável e imperativo é esperar que todos se salvem, sendo  incompreensível que se decida em favor ou desfavor da vida de outrem por ausência de condições de tratamento adequado naquela circunstância, que alguém tenha de abdicar de um tratamento por ter 70 ou 80 anos (ou mais), estar num grupo de risco, ter deficiência física ou mental, por confronto com alguém sem deficiência ou mais novo, ou um pai e uma mãe com filhos que têm de ceder perante outros por serem mais jovens.

 

Este escalonamento humano pode abrir precedentes condenáveis e levar-nos a situações muito perigosas.   

 

Pela ordem natural das coisas é aceitável, se e quando esgotados todos os tratamentos adequados e exigíveis naquele contexto.   

 

Pela ordem artificial das coisas não o é.   

 

Não é legítimo culpabilizar quem deseja viver, nem querer que alguém seja herói, mártir ou uma referência orientadora dada a ausência ou escassez de meios e recursos, quando agudizados pela degradação e desinvestimentos num serviço público de saúde universal que não deve estigmatizar ninguém.

 

Porém, as notícias vindas de alguns países, suscetíveis de universalização, são preocupantes, mesmo assustadoras, quando os próprios médicos reconhecem, impotentes, que por ausência de meios e recursos são obrigados a ter de escolher entre a vida e a morte de doentes, dando preferência de sobrevivência aos mais novos, perante o dilema de salvar a vida, sem alternativa, entre um jovem e um idoso, mesmo que ambos úteis e, até aí, saudáveis.   

 

Gera-se um conflito de interesses, tendencialmente resolvido via utilitarismo, agudizado por uma maior contenção de recursos estaduais disponíveis, nomeadamente a nível dos alocados ao respetivo serviço nacional de saúde, o que é mais preocupante em países grandemente endividados, potenciando maior desadequação e desproporcionalidade entre a concretização prática e a consagração formal dos direitos humanos. 

 

Tudo em desfavor de um padrão ético, moral e humanista mais elevado, antepondo o sentido da vida ao dos negócios, indisponível para cortes cegos, prestando-se a adaptações só em último recurso, em oposição ao utilitarismo que se adapta e flexibiliza  permanentemente face à maior ou menor disponibilidade dos recursos existentes.  

 

24.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

47. DO UTILITARISMO À JUSTIÇA DE DEFESA DOS DIREITOS HUMANOS

 

Para Jeremy Bentham, há um princípio moral essencial: o da utilidade.

 

Sempre que haja a possibilidade de escolha entre ações ou políticas sociais alternativas, há que escolher aquela que, no seu todo, se apresente mais satisfatória para todos os interessados.   

 

John Stuart Mill, discípulo de Bentham, expôs as suas ideias no livro Utilitarismo, em que defende que ao decidir o que fazer, devemos perguntar qual o curso da ação que irá promover a maior felicidade para todos os que serão afetados pelos nossos atos.

 

Para os utilitaristas o bem é o que trouxer maior felicidade global.

 

A boa ação é que tiver maior exequibilidade de trazer a maior felicidade nas circunstâncias em causa.   

 

Uma objeção feita ao utilitarismo é que pode justificar muitas ações que, usualmente, são tidas imorais. Exemplificando: se pudesse provar-se que enforcar publicamente um inocente teria o efeito benéfico e imediato de reduzir os crimes violentos, por atuar como um fator de dissuasão, causando assim, no cálculo geral, mais prazer que dor, um utilitarista seria obrigado a aceitar que enforcar um inocente é a atitude moralmente mais correta a tomar.   

 

Generalizando, o princípio da utilidade ou utilitarista implica a maximização do bem-estar de todos os envolvidos, tendo também em conta os recursos disponíveis.

 

As medidas a tomar devem ser as que geram maior utilidade, maior bem-estar agregado, incluindo aqui, por exemplo, o doente em causa, outros doentes no mesmo contexto e com as mesmas necessidades, e a sociedade em geral.   

 

Defende-se um economicismo, poupança ou contenção dos custos que tem de ter lugar em função da maximização do bem-estar geral.     

 

Tem de ser medido pela utilidade máxima geradora para a sociedade no seu todo, pouco ou nada relevando o direito das pessoas, das minorias, marginalizados ou mais vulneráveis, desde que o conjunto beneficie maioritariamente com o sacrifício delas ou de alguns.     

 

A natureza ou eficácia deste princípio decorre de produzir ou não resultados positivos, tendo como admissíveis todos os meios para atingir os fins.       

 

Em oposição, temos o princípio da justiça ligada à defesa e promoção dos direitos humanos.   

 

Sendo a pessoa, todo o ser humano, um fim em si mesmo, é inadmissível sacrificar direitos humanos de uma pessoa para salvar um maior número de outras pessoas.

 

Contra o consequencialismo utilitarista, adota-se uma conceção deontológica, assegurando uma justiça unida à defesa e promoção dos direitos humanos, enumerando determinadas coisas que podem ser sempre feitas, ou que nunca podem ou devem ser feitas ainda que isso levasse a um maior bem-estar da sociedade em geral.

 

As restrições serão sempre ditadas pelos direitos humanos.

 

A racionalização dos custos não pode ser feita em função do bem-estar geral, mas no sentido de proteger, do melhor modo possível, por exemplo, o direito à saúde dos doentes, ou doente, em causa.   

 

Aqui o padrão ético e moral é mais elevado, estando indisponível para cortes cegos ou negociações, disponibilizando-se apenas para adaptações e tão só como último recurso, ao invés do utilitarismo que se adapta imediatamente em função da maior ou menor pressão dos recursos disponíveis. 

 

O pior e mais condenável é várias dimensões humanas entrarem em choque e conflito, desde logo a ética e a ciência, porque esta também tem limites, não tendo respostas para tudo.

 

Esta introdução teórica questiona-nos sobre os critérios de preferência a adotar, na prática, em termos de sobrevivência da espécie humana, nos tempos que agora vivemos, face à pandemia do coronavírus (do COVID 19) para a humanidade, que iremos abordar.

 

17.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício  

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

46. UMA CONCEÇÃO HUMANISTA E INTERNACIONAL DE CIÊNCIA

 

Se a ciência do Renascimento tinha como caraterísticas dominantes a observação, a experiência e o método experimental, também a do século XIX e XX se baseia na convicção de que o ser humano está sujeito às mesmas leis físicas que regem o universo  e de que o método experimental é aplicável aos vários ramos da ciência e do pensamento humano.   

 

A ciência era e é tida como obra da humanidade, com benefícios extensivos a todos, sem nacionalismos nem disputas pessoais. 

 

Testemunho presente desta conceção humanista e internacional da ciência, é o testamento do sueco Alfredo Nobel que, em 1896, deixou a sua fortuna a uma instituição incumbida de distribuir todos os anos cinco prémios às cinco pessoas que no decurso do ano prestassem maiores serviços à humanidade.

 

Pessoas a premiar: “a quem no domínio da física tenha feito a descoberta ou invento mais importante”, “a quem na química tenha feito a descoberta mais importante ou chegado a maior aperfeiçoamento”, “ao autor da mais importante descoberta no domínio da fisiologia ou da medicina”, “ao que tenha produzido a obra literária mais notável no sentido do idealismo” e ao “que tenha feito mais ou melhor para a obra da fraternidade dos povos, para a supressão dos armamentos, assim como para a formação ou propagação dos congressos da paz”.     

 

Químico inventor da dinamite, Nobel morreu magoado com o uso dos seus inventos para fins belicistas, ordenando que, após a sua morte, fosse feita a entrega de cinco prémios em física, química, medicina, literatura e para quem contribuísse de modo decisivo para a paz mundial (o prémio na área da economia foi criado, em 1969, em sua memória).

 

É o exemplo de mais um cientista para quem o seu trabalho não foi só felicidade pelo facto de a ciência ser progressiva, poderosa e inquestionável para si e os leigos em geral, acabando por colocar no mesmo patamar, e em pé de igualdade, ciências exatas, humanas e sociais.   

 

Alfredo Nobel apercebeu-se, por experiência própria, que enquanto a ciência evoluía, dominando a natureza e vencendo obstáculos, a inteligência humana procurava novas técnicas para se destruir, com o aparecimento de novas armas de destruição e um agudizar da guerra e conflitos bélicos.     

 

Curioso, nesta sequência, que premiasse a medicina, a literatura e a paz como contributos que podem humanizar o poder destruidor da ciência e da tecnologia, não desvalorizando ou vaticinando a hecatombe das humanidades, ao invés de quem elogia e diviniza as ciências exatas.   

 

É uma conceção de um cientista para quem o pesadelo de George Orwell, de uma ditadura tecnológica, com um controlo total da vida das pessoas, num mundo de cidadãos convertidos em autómatos, é de evitar através do não desaparecimento da cultura como questionamento permanente da realidade, agudizado se houver uma degradação das humanidades e do seu espírito crítico.       

 

Reduzir a ciência apenas a uma sua parte, desprezando ou ignorando o estudo das múltiplas ciências que estudam toda a complexidade humana, é não só uma forma de incultura, mas também um modo de fugirmos da realidade e vivermos num mundo virtual.  

 

10.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

45. CIÊNCIA, HUMANIDADES E HUMANISMO (II)

 

Não consta que o Renascimento tenha sido uma época de infelicidade e não reconhecimento do trabalho dos seus autores, como movimento literário, artístico e científico que foi, mesmo aquando da leitura, redescoberta e compreensão dos nomes mais representativos da antiguidade grega e latina, como Sócrates, Platão, Homero, Cícero, Virgílio, Ovídio, Suetónio, Tito Lívio, revivendo-os e fazendo-os renascer, apesar de serem passado.

 

O humanismo é tido como o pai do Renascimento significando, etimologicamente, culto, civilizado, onde a pessoa é o centro e objeto fulcral tendo, como nomes permanentes, Erasmo, Dante, Petrarca e Bocácio na literatura, na pintura e arquitetura Rafael, na escultura, pintura, poesia, urbanismo e arquitetura Miguel Ângelo, na sociologia e política Maquiavel e Tomás Moro.

 

Teve também cientistas, entre os quais Leonardo da Vinci e Copérnico. 

 

Leonardo foi astrónomo, engenheiro, matemático, geólogo, médico, investigador, desenhador, pintor, poeta, escultor, um humanista, um homem de ciência e das humanidades, mais que qualquer outro do seu tempo, até ao atual.

 

Copérnico foi um genial cientista do movimento científico humanista e renascentista, afirmando que a Terra girava, com outros planetas, à volta do Sol, o que foi completado e verificado, mais tarde, por Kepler e Galileu. 

 

Este movimento científico frutificou em grandes descobertas como as de Vesálio (pai da anatomia), Servet (leis da circulação do sangue) e Pedro Nunes (cientista e humanista português, inventor do nónio).   

 

Este humanismo prova que para ser integral e íntegro, nada melhor que a interligação entre as humanidades e a ciência, embora realidades autónomas, mas não independentes, face a face numa relação de colaboração e interdependência recíproca. 

 

À data, tão reconhecidos eram os homens das humanidades, como da ciência, tão infelizes, perseguidos e condenados podiam ser os primeiros (Damião de Góis, entre nós), como os segundos (Galileu), como Einstein também é censurado e responsabilizado pelo seu saber ao serviço da bomba atómica, de que o próprio se culpabilizaria e não mais se libertaria, apesar de hoje as humanidades serem tidas de menor valia e mais penalizadas que a ciência. 

 

A que acresce a menorização que é dada às humanidades, no fim da vida, por Steiner, entre outros, quiçá num desabafo de pontual pessimismo, por antagonismo com a maioria do seu legado, abalando admiradores, e com o qual não concordamos.   

 

Embora seja imperioso ter consciência que na ciência e tecnologia pode sempre haver o lado negro das trevas, que desumaniza, e o lado bom, que humaniza. 

 

A energia nuclear pode ser benéfica ou maléfica consoante o uso que tiver para alcançar o fim pretendido.   

 

É, por exemplo, um benefício para a humanidade na cintigrafia óssea, avaliação da função renal com o renograma, no avaliar da função alveolar com a cintigrafia pulmonar, no avaliar da função do miocárdio com a cintigrafia cardíaca e em muitas outras aplicações na medicina, particularmente na doença oncológica, mas também pode ser destrutiva, mediante o uso da bomba atómica. 

 

De igual modo o saber ler, escrever e falar línguas é imprescindível para qualquer pessoa, incluindo as da ciência e da tecnologia, bem como uma notável obra literária, musical ou das artes em geral que beneficie a idealização e perpetuação da nossa espécie, mas não é um ideal a seguir, se destrutiva e sem sentido crítico, havendo também o lado solar e sombrio das humanidades.   

 

O que se impõe é uma ética humanista que imponha limites, colocando o ser humano, na sua dignidade, acima de qualquer utopia científica e tecnológica por mais importante, progressiva e poderosa que seja, em comunhão e conjugação de esforços e reciprocidade com as humanidades e o humanismo.

 

03.04.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

44. CIÊNCIA, HUMANIDADES E HUMANISMO (I)

 

Há quem defenda que entre os intelectuais atuais os mais felizes são os cientistas, porque a ciência é poderosa e progressiva, não sendo posta em dúvida. 

 

O seu trabalho dá-lhes felicidade porque é reconhecido, não só pelos próprios, mas também pelo público em geral, mesmo quando não compreendido.

 

Contrapõe-se que o mesmo não sucede com os artistas e os homens das humanidades, sendo menos afortunados que os da ciência. 

 

Quando alguém, por exemplo, não compreende um quadro, um filme, um poema, um livro, conclui ser uma má pintura, má poesia, um mau cinema, uma má obra.

 

Mas quando alguém não compreende a teoria da relatividade conclui, com fundamento, que o seu conhecimento e cultura são insuficientes. 

 

Einstein, nesta perspetiva, será admirado e reconhecido por todos, enquanto muitos dos mais proclamados pintores, poetas, cineastas e escritores serão infelizes, esquecidos, desprezados, perseguidos, morrem à fome ou na miséria. 

 

A ser assim, pode pensar-se que apenas a ciência, e a tecnologia a ela associada, interessam à civilização e mundo atual.   

 

É curioso que George Steiner, um dos gurus mais aclamados das humanidades,  tenha elogiado e sacralizado o progresso científico e tecnológico, em fim de vida,  desqualificando as humanidades, ao afirmar:

 

“As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas ciência sociais” fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada”.   

     

E acrescenta:  

 

“O progresso e a descoberta estão no interior da dinâmica da ciência. Tive algum treino científico e tentei compreender ao menos uma ínfima parte do que os cientistas fazem. É um mundo novo, intocado. Nas humanidades, mais de 90% daquilo com que lidamos está no passado. Os livros, a música, a reflexão, a arte. É como os ponteiros do relógio a caminharem em direções opostas. Estou tão feliz por presenciar isso” (entrevista ao semanário Expresso, edição 2327, de 03.06.2017).

 

Será assim?     

 

Houve tempos em que os intelectuais das humanidades eram tidos em alta estima, como na antiguidade grega, latina e Renascimento, ombreando com os cientistas, alguns  simultaneamente homens de ciência, artistas e humanistas, de que Leonardo de Vinci é  o magno exemplo, o que desmente, por si só, qualquer tentativa de divinização da ciência em desfavor da secundarização e mero bluff das humanidades, mesmo para quem entenda haver, de momento, um défice de pensamento crítico em todo o mundo.

 

27.03.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

43. PAZ PERPÉTUA UNIVERSAL

 

“Não deve considerar-se como válido nenhum tratado de paz que se tenha feito com a reserva secreta de elementos para uma guerra futura”

 

“Os exércitos permanentes (miles perpetuus) devem, com o tempo, desaparecer totalmente”

 

O Projeto de Paz Perpétua, de Kant, tem como imperativo categórico que os Estados se associem numa organização de fins pacíficos, regida por uma lei universal que colocasse a guerra fora do Direito, declarando-a inimigo público número um de toda a humanidade.

 

Propunha como solução, para garantir a paz perpétua, a constituição de uma federação de Estados livres, uma República universal de um congresso permanente de Estados com competência para resolução de conflitos internacionais.

 

Sabemos, pela experiência vivida, que foi em nome dessa cooperação fundada em imperativos morais e jurídicos limitativos dos poderes estaduais que se norteou a Sociedade das Nações, o que não impediu, após a primeira grande guerra, que os ressentimentos se agudizassem e se chegasse à segunda guerra mundial.

 

Tudo para concluir que embora em termos estratégicos, mediatos e de longo prazo, não seja de excluir a utopia de uma organização internacional e universal que alcance um estádio similar àquele que, nos nossos dias, já foi atingido no interior dos Estados com o Direito a superar a vingança privada, só daqui por muitas gerações vindouras poderemos, eventualmente, banir a guerra e estabelecer uma paz justa.

 

Do mesmo modo, enquanto não tivermos um Direito Universal com a mesma eficácia e modelo do Direito que existe dentro de cada Estado, não haverá um Direito Internacional Público Universal.

 

Pura utopia falar em paz perpétua?

 

Guerra e paz sempre existiram, sendo nossa obrigação, com espírito de tolerância e uma educação permanente, reintroduzir nas relações internacionais a nobre tarefa de alcançar um consenso global a respeito da noção de guerra justa, paz e justiça.

 

Proclama a Unesco que Nascendo a guerra no espírito dos homens, é no espírito dos homens que devem ser construídas as defesas da Paz, sendo esta, na sua essência, a tectónica da paz, o que se pode adaptar à justa causa para fazer a guerra e a justiça, mesmo que se demorem séculos para excluir a guerra e consolidar a paz, ou mesmo que o imperativo categórico da paz perpétua não seja mais que uma magna promessa.

 

20.03.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício