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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

16. STEINER, A CIÊNCIA E AS HUMANIDADES

 

 

“Toda a minha vida foi dominada pela pergunta: como é que aquilo pôde acontecer na Europa? Como é que por trás da casa de Goethe existe um campo de concentração? Como é que o país mais educado do mundo se tornou nazi? Nunca se esqueça que a educação na Alemanha era provavelmente a mais avançada, mas não foi suficiente para travar Hitler. Toda a minha vida me interroguei sobre se as humanidades realmente humanizam”.

 

“As ciências não conhecem a hipocrisia, não fazem bluff. Na ciência verdadeira há o certo e o errado, e quem faz batota é obrigado a sair do jogo. Pelo contrário, as chamadas “ciências sociais” fazem bluff o tempo todo, estão cheias de mentira, de conversa fiada”.

 

“E também existe outro fenómeno: pode ser-se um grande artista e um assassino, uma pessoa a favor do extermínio”.

 

“Quando ouço os cientistas, sinto alegria. Estão a passar um bom bocado” (excertos da entrevista de Steiner ao semanário Expresso, de 03.06.17).

 

Ao elogiar a ciência e vaticinar a queda e ambiguidade das humanidades, George Steiner (GS) tem uma visão idealizada e exaltante da ciência, contrária ao pessimismo que tem pelas humanidades.   

 

Sendo um pensador, crítico literário, escritor, filósofo e um dos expoentes máximos da grande cultura europeia, é um homem especialista das humanidades.

 

Porquê, então, este desencanto com as humanidades? 

 

Uma das razões é não terem evitado barbáries e crimes contra a humanidade como o holocausto, o antissemitismo estar de novo a aumentar por toda a parte, com os judeus em perigo iminente, num fenómeno sem fim à vista, não se tendo aprendido absolutamente nada com a História.

 

De origem judia, sente-se perplexo pela sua sobrevivência, “é um milagre ter sobrevivido”, o que significa ter ao longo da vida a obrigação ética de não esquecer os que não sobreviveram. 

 

Idealiza, em alternativa, como refúgio, compensação e redenção, uma ciência idealista e verdadeira, desconhecedora da falsidade, do fingimento, da simulação e manipulação linguística das mentiras do totalitarismo linguístico. 

 

Que ciência é esta? Ela existe? Existe uma ciência verdadeira que não conhece a hipocrisia, nem faz bluff?

 

É um dado adquirido que na ciência também há mentira, dissimulação, falsidade, erros e hipocrisia. 

 

E há a interpretação, propaganda e manipulação dos resultados, consoante é feita por A, B, X ou Y.       

 

Que dizer da bomba atómica e da inovação nuclear, a propósito de um lado negro, ou reino das trevas, das ciências, que desumanizam, e não humanizam? 

 

O génio e talento de alguém na ciência não o torna uma boa pessoa.

 

O génio e talento de alguém nas artes e humanidades em geral não o torna uma boa pessoa.     

 

O ser-se um guru da ciência ou das humanidades não faz, quem quer que seja, uma boa pessoa.   

 

Nem as humanidades, nem a arte, nem a ciência é a pessoa. Estão acima do autor. Libertam-se da pessoa, do criador.   

 

Steiner, depois de dizer, perplexo:   

 

“Há um momento muito importante nos diálogos de Cosima Wagner, em que Wagner está lá em cima, no primeiro andar, e ela ouve-o ao piano a rever o 3.º ato do “Tristão”. Ele desce para almoçar, e de que é que eles falam? De como queimar os judeus. O homem que tinha estado a compor a melhor música do mundo desce para almoçar e discute alegremente como livrar-se dos judeus”.   

 

Dá a resposta, questionando-se: “O que quero dizer é que eu não poderia viver num mundo sem a música de Wagner. A minha dívida para com ele é enorme. A minha dívida para com Nietszche, para com Céline! Que livros belos e horrendos! Não tenho resposta para estas pessoas. Não há explicação. Perante os gigantes temos de ficar calados”

 

Uma obra cultural ou científica vale por si, independentemente das opções políticas, científicas, filosóficas, religiosas ou sociais do seu autor. 

 

A ciência e as humanidades não são invenção recente, sempre existiram, no seu melhor e pior, em curiosidade e interligação autónoma e recíproca, havendo que saber distinguir entre a obra em si ou ao serviço de qualquer coisa, entre a obra “pura” e a pessoa ou a vontade do seu criador.

 

De maior desencanto seria viver num mundo em que não houvesse lugar para as questões colocadas pelas ciências sociais e humanidades em geral, e tão só, ou quase em exclusivo, para a descoberta e progresso científico que GS tem como ciência verdadeira, que também peca por défice, numa idealização excessiva e sacralizada, a nosso ver.        

 

18.09.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

15. PROCRASTINAR, PROCRASTINANDO, …

 

Há palavras que impõem que se lhes faça sentido. 

 

Que reclamam sentinela.

 

Que merecem pagar imposto.

 

São empoladas, elitistas, pedantes, petulantes.

 

Apresentam-se bem.

 

Usá-las é um luxo pessoal e cultural.

 

São altivas e soberbas no vestir.

 

Presunçosas e pretensiosas por condição.

 

No essencial, apenas se escrevem, sinal de solenidade escrita.

 

Marginalmente faladas, não se cantam, não se dançam, nem consta que inspirem poesia.

 

Chamativas e ousadas, não convivem com a plebe.

 

Têm-se por chiques, chiquérrimas, usando smoking, no mínimo fato e gravata, vestidos de gama superior e de alta costura.

 

Nos tribunais, onde a solenidade também faz a lei, é palavra de acórdãos, sentenças, requerimentos e recursos, vestindo beca e toga negra.

 

Só que, vulgarmente falando, procrastinar significa adiar, atrasar, delongar, demorar, transferir para outro dia, deixar para depois.

 

Procrastinação significa adiamento, delonga, dilação, morosidade, protelação.

 

Sendo depreciativo, no mínimo incomodativo, saber que frases comuns como: “Estás atrasado!” ou “Adiou-se o julgamento!” significam: “Estás procrastinado!” e “Procrastinou-se o julgamento!”.

 

Atrasar, adiar, demorar são palavras vulgares.

 

Procrastinar, procrastinando, procrastinação manifestam-se com jactância.

 

E são caprichosas, curvilíneas, maneiristas e extravagantes de escrever.

 

São barrocas por natureza, como o procrastinador que procrastina, procrastinando e com procrastinação, o que é procrastinável. 

 

São invulgares, eruditas e não gostam da rua.

 

Mas também se usam para nos entendermos. 

 

11.09.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

Vasarely

 

14. A ANTECIPAÇÃO MENTAL DA PROCURA E A SUA REALIDADE

 

Não se encontra o que se procura, mas o que se encontra.

 

Não encontro o que procuro, mas o que encontro.

 

Não encontramos o que procuramos, mas o que encontramos.

 

Mas é usual dizer que só encontramos o que procuramos.


Qual a relação entre a antecipação mental da procura e a sua realidade?

 

Entre a imaginação e a realidade?

 

Entre a realidade imaginada, mental, espiritual e a realidade física, material, real?

 

Entre o modo como imaginamos uma pessoa e o que acontece quando a conhecemos na realidade?

 

Entre o modo como imaginamos um lugar e o que sucede quando lá chegamos?

 

Entre o modo como imaginamos uma coisa e quando temos contacto com ela?


A realidade é diferente daquilo que antecipamos mentalmente.

 

Não se encontra aquilo que se procura, mas o que se encontra.

 

O que pressupõe estarmos abertos, totalmente disponíveis para a descoberta, a viagem, o desconhecido, o desconhecido conhecido, o conhecido desconhecido.

 

A antecipação da realidade tem uma linguagem própria.

 

A antecipação mental do real tenta suprir a realidade factual, se possível através da fotografia, vídeo, gravuras e impressos sobre coisas, pessoas e viagens, locais de chegada, partida e de passagem, tentando ser uma cópia fiel da realidade.

 

Ou ser como um sonho, se anteciparmos algo que nunca imaginámos e sem auxiliares como a fotografia, filme, ou similares, como numa viagem de total libertação dos sentidos, num imaginário total e libertador, como quem lê um livro exótico ou extravagante e antecipa e ficciona mentalmente algo que nunca viveu ou imaginou.

 

Esta antecipação mental da procura que não corresponde com a sua realidade, quando confrontados com esta, é um lado da vida, da nossa realidade humana.

 

É parte integrante do lado espiritual, imaterial, impalpável, que não se fotografa, nem filma, é uma liberdade de expressão e de pensamento universal, pessoal e intransmissível, libertária e que liberta.

 

Faz parte do lado mais importante da nossa vida.

 

04.09.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

 

 

13. AS FORMIGAS E O GAFANHOTO E A CIGARRA E A FORMIGA

 

 

No tempo em que os animais falavam, passou o gafanhoto todo o verão compondo e tocando música, enquanto uma família de formigas trabalhava. Quase a chegar o inverno, e com ele o frio, o faminto gafanhoto abeirou-se delas, com um violino debaixo do braço, pedindo comida, ao que aquelas, com desconfiança, perguntaram o que fez durante o verão, respondendo que fez música, ao que as formigas retorquiram: “Todo o tempo a fazer música? Muito bem, agora dança!” 

 

Esta fábula do grego Esopo, foi readaptada e recontada pelo francês Jean de La Fontaine, em a Cigarra e a Formiga, contando a história de uma cigarra que cantou durante o verão, enquanto a formiga trabalhava. Chegado o inverno, a cigarra, não tendo que comer, pediu à formiga que lhe emprestasse comida, com a promessa de lhe pagar com juros antes de agosto. A formiga, tida por ser poupada e não emprestar nada a ninguém indagou, desconfiada, o que fez a cigarra no verão. Respondeu esta que cantava noite e dia, ao que a formiga replicou: “Cantavas? Pois dança agora!” 

 

Se a lição dominante destas fábulas é a de que há tempo para o trabalho e para a diversão, que devemos ser previdentes e poupados, que para os cultores da preguiça há sempre lazer, também podem ser reinterpretadas no sentido de que há nelas uma exaltação extrema ao trabalhar por trabalhar, à acumulação de capital, riqueza e bens materiais, à avareza usurária e desumana da formiga, à descredibilização e marginalização dos cantores, músicos e poetas, injustamente equiparados a pessoas absentistas e preguiçosas.

 

Estas fábulas, na sua multiplicidade de interpretações e leituras, também são adaptadas, em termos culturais, à invocada diferença de atitude mental e cultural entre povos e países, por exemplo, entre os do norte e do sul da Europa.

 

É usual dizer-se que se perguntarem aos portugueses, espanhóis, italianos e gregos, entre outros povos mediterrânicos e do sul da Europa, se as formigas devem ajudar o gafanhoto e a cigarra ou deixá-los por sua conta e risco, que eles, em unanimidade, defendem que as formigas os devem ajudar, coitadinhos, enquanto os alemães, holandeses, dinamarqueses, finlandeses e outros povos nórdicos entendem, em uníssono, que devem morrer de frio e fome, sem compaixão, tendo o que merecem, dada a sua malandrice.

 

Uns acreditam que o gafanhoto e a cigarra aprenderam a lição e no próximo verão não voltarão a reincidir, outros que prevaricaram e devem ser punidos. 

 

Só assim se fará justiça, tomando como referência o exemplo da formiga, a ser seguido por todos os animais, incluindo o ser humano. 

 

Sucede que compor e tocar música, escrever poemas ou letras para canções, cantar e dançar é um trabalho digno, exigente e gratificante para quem o faz e dele vive, à semelhança de qualquer outro, que compensa e gratifica a vida de todos nós, sendo redutor e simplista associá-lo a mera diversão.

 

O que não significa que os gafanhotos e cigarras absentistas não tenham de começar a trabalhar, ou a trabalhar mais e melhor, e que as formigas, na sua arrogante superioridade, não necessitem de gafanhotos e cigarras, evitando o seu desaparecimento e inevitáveis consequências, humanizando-se e tendo sempre presente a nossa precariedade mundana, que o que aparenta ser superior hoje pode não o ser ou não o é em permanência, em conjugação com  a inviabilidade universal de poder haver só excessos orçamentais, para todos, sem défices, para ninguém, e a necessidade humana de saber viver entre o prevenir amealhando e a compensação cultural e espiritual, mesmo que a título de lazer, sob pena de “dançarmos” todos!  

 

24.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XL - SÍLVIO ROMERO E O ELEMENTO PORTUGUÊS NO BRASIL

 

Em discurso no Gabinete Português de Leitura, no Rio de Janeiro, em maio de 1902, na conferência sobre O Elemento Portuguez no Brasil, o pensador brasileiro Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero (SR),[1] defendeu a tese da conveniência de reforçar no Brasil o elemento português, pois se estudarmos as origens brasileiras, o seu genuíno ascendente europeu é constituído pela gente de Camões.

 

Não se tratava, tão só, e por mero capricho, de opor o elemento português aos outros elementos que colaboraram na formação do Brasil. Tratava-se, sim, “da conveniência de reforçar no Brasil os elementos que o constituíram historicamente uma nação luso-americana, os elementos que falam a língua portuguesa, ou, ainda e como consequência de tudo isso: de como de todas as novas colonizações que possam vir ao Brasil a mais conveniente é a portuguesa”[2]

 

Tendo o Brasil como um povo luso-americano, um prolongamento lusitano na América, tipo Portugal transplantado e metamorfoseado, é apologista que de todos os emigrantes que procuravam o país, os portugueses eram os que mais convinham, tendo tido o desígnio superior de se aliarem e não exterminarem as raças indígenas, nem repeliram o negro, melhorando as condições da extensíssima mestiçagem brasileira, sem alterar a fisionomia histórica da nação.

 

Facto único, a língua, só por si, chegaria para individualizar a nacionalidade brasileira marcando, para sempre, o lugar que o português tem no Brasil. Num período de antilusitanismo, foi firme na defesa da aproximação entre os dois povos, percebendo o papel fundamental de uma língua como eixo central de culturas, antevendo, já então, para o idioma comum, o lugar que agora lhe começa a ser reconhecido.

 

Portugal, pequeno, de diminuta população, teve força e habilidade bastante para entregar integralmente um país gigante e homogéneo àqueles que deviam ser os seus herdeiros.

 

Sendo estes os ensinamentos da história, conclui: “se a nossa nacionalidade é uma nacionalidade luso-americana, e se ela quer continuar a ser o que é para ficar sendo alguma coisa, (…), não temos outro recurso senão apelar para um reforço do elemento português, já que europeus de outras origens quaisquer não querem cá vir espalhar-se um pouco por toda a parte, e os das duas procedências que nos enviam imigrantes, (…), foram perturbadoramente aglomerados nas belas regiões do Sul, e são hoje um perigo permanente para a integridade da pátria”[3]

 

O que justifica, à data, pela ameaça permanente da integridade brasileira, por europeus de outras origens (italianos, e nomeadamente alemães), que não desejavam espalhar-se por todo o país, mas fixar-se nas apetecíveis regiões sulistas aí lançando, deixando-os, o gérmen de futuros Estados, designadamente de origem germânica. Seria assim, dado que o elemento germânico, mais que o italiano, é muito diferente de outros emigrantes e dos concorrentes brasileiros que considera inferiores a si, tendo a experiência provado que não se deixa assimilar e diluir pelas populações nativas. 

 

Propõe que os falantes de português se unam na sua defesa, não vendo como utopia ou sonho uma aliança entre Brasil e Portugal, “como não será um delírio ver no futuro o império português de África unido ao império português da América, estimulados pelo espírito da pequena terra da Europa que foi o berço de ambos”[4]

 

O reconhecer termos muito a aprender com os povos mais ricos, militarmente poderosos e industrialmente avançados, não o deslumbrou, não renegando as origens. Louva-lhes o mérito de um enorme progresso material, mas não os cobiça na sua arrogância de superioridade e hostilização não humanista.

 

O elemento germânico, que tem como superiormente dotado em termos étnicos, mas que, pela negativa, se não deixava assimilar e misturar pelas populações pátrias que o circundavam no Brasil, faz lembrar os medos e demónios que a Alemanha representou e representa para muitos, a começar pelos vizinhos, por confronto com o seu apreço. Mas  nunca o maravilhou. Ao invés de Portugal, não obstante a sua pequenez e a fraqueza de que então era portador como centro de poder. 

 

Parece um contra-senso, qual queda de um mito, a observação de que os emigrantes germânicos se fixavam preferencialmente no sul, em terras ricas e escolhidas a dedo, ao contrário dos portugueses, espalhados por todo o lado. Como que a inverter a fábula lafontaineana da formiga alemã que labuta, labuta, todo ano (e em toda a parte, presume-se), enquanto as cigarras do sul da Europa (incluindo Portugal, Espanha e, por arrastamento, os seus descendentes na América) andam sempre em folia e devem ser punidas. Apesar da História, como mestra da vida, nos ensinar que o ser-se mais ou menos civilizado e poderoso, varia no tempo e espaço, não sendo um dado adquirido para ninguém. Incluindo a Alemanha que, por muito forte e rica que seja, isolada pouco ou nada representa, a começar na União Europeia, onde se questiona, por agora, saber se está em causa a germanização da Europa ou a europeização daquela.

 

Constatando o desaparecimento gradual e total da língua portuguesa de certas zonas do Brasil, apesar de eterna em grande parte do país, conclui com a certeza de nunca vir a perecer entre a Galiza e a foz do Guadiana. Felizmente que tal receio não se concretizou, sendo o Brasil atual, como portador de todas as caraterísticas de uma potência emergente e continental, o maior protagonista da divulgação do nosso idioma comum à escala global, com base no critério da difusão mundial das línguas.

 

Ao promover um reencontro das origens e destino histórico do Brasil para os novos chamamentos competitivos no princípio do século XX, defendendo preferencialmente a utilidade de reforço do elemento português, sem que essa matriz nacional excluísse outros elementos que estiveram na base da sua formação e evolução, SR, para além de ser, eventualmente, o primeiro grande defensor da importância do contributo português na formação do povo brasileiro, foi também um precursor da lusofonia e da CPLP.

 

17.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

 

[1] Romero, Sylvio, O Elemento Portuguez no Brasil, Conferência (1902), Typographia da Companhia Nacional Editora, Conde Barão, 50, Lisboa.

[2] Idem, p. 6.

[3] Idem, pp. 20, 21.

[4] Idem, p. 32.

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXIX - PORTUGAL E A PROMOÇÃO DO PORTUGUÊS

 

1. Na época dos impérios coloniais, a língua das metrópoles europeias, ou do centro, era companheira do império, numa conceção de imperialismo linguístico. 

Com a ascensão do Direito Internacional e das organizações internacionais, emergem vários agrupamentos de países em blocos de poder, blocos linguísticos aglutinados por um idioma comum, como a anglofonia, a hispanofonia, a lusofonia e a francofonia, com o mundo ocidental centrado e repartido em quatro línguas de comunicação global internacional: inglês, espanhol, português e francês.
A língua deixou de ser só nossa, passando a ser também nossa.
De uma visão nacionalista e patrimonial transitou-se para uma visão não patrimonial, transnacional, transcontinental, partilhada.
Quanto ao nosso idioma, partindo de uma perspetiva lusíada chegámos, em dado momento, a uma perspetiva lusófona e de exportação.

 

2. Tem entre oito a nove décadas a ação de Portugal no âmbito do ensino do português no estrangeiro. Primeiro sob a dependência da Junta de Educação Nacional (1929/36). Pela atividade do Instituto para a Alta Cultura (1936/52). De seguida pelo Instituto de Alta Cultura (1952/76). Passando a designar-se, ainda em 1976, por Instituto de Cultura Portuguesa, até 1980. Passa, depois, a Instituto e Cultura de Língua Portuguesa, até 1992, data em que nasce o atual Instituto Camões, ligado ao Ministério da Educação (1992/94) e, desde 1994, sob a tutoria do Ministério dos Negócios Estrangeiros.

Durante anos, promoveu-se a difusão e ensino do português numa perspetiva centrada no âmbito das comunidades portuguesas emigradas e no espaço dos países de língua oficial portuguesa, ou seja, numa visão centrada e integrada no espaço potencial dos seus próprios falantes, sem intenção de a difundir e promover fora desse espaço, o que perdura, no essencial, até ao programa do X Governo Constitucional (1985/7).
Prevalecia a ideia de que o português era uma língua confidencial, de consumo doméstico e interno dos seus falantes, e não um idioma de comunicação internacional que poderia ser falado como língua estrangeira, como sucedia com o francês e inglês.

 

3. Surge, pela primeira vez, entre nós, de modo inequívoco, como medida programática de uso do português como língua estrangeira, uma proposta global de reforma, de julho de 1988, da Comissão de Reforma do Sistema Educativo, via “utilização progressiva do Português como língua de comunicação internacional”.   

Esta linha programática pretende ultrapassar as fronteiras naturais dos seus falantes nativos, servindo de veículo de comunicação a outros falantes não nativos.
É a negação da manutenção do uso confidencial, paroquial ou regional da língua, de um sentimento de posse de quem se julga ser o seu único possuidor.
Num mundo globalizado, é uma visão redutora e simplista ver os recursos destinados à difusão e promoção da cultura e da língua portuguesa como fundos perdidos, desperdiçando um produto que para além de imagem de marca e simbólica, é um recurso económico com implicações tecnológicas e de imagem externa, como língua de comunicação global e de exportação à escala mundial. 

 

10.07.2018 
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVIII - HISPANOFONIA

 

A hispanofonia integra a comunidade linguística de todas as pessoas que têm em comum a língua espanhola, iniciada pelos falantes iniciais que a diáspora castelhana conquistou e espalhou pelo mundo, quer a nível da Península Ibérica (com a submissão, por Castela, de Leão, Navarra, Aragão, Catalunha, Granada), quer pelos descobrimentos, em especial nos países hispano falantes atualmente mais concentrados no continente americano.

 

O seu núcleo central e nuclear localiza-se atualmente nos países que têm o espanhol como língua materna, oficial ou dominante.

 

Além de Espanha, na Europa, e da Guiné Equatorial, em África, a sua implantação predomina nos países hispano-americanos, dispersos entre a América do Norte (México), Central (Guatemala, Belize, Honduras, El Salvador, Nicarágua, Costa Rica, Panamá, Cuba, República Dominicana, Porto Rico) e do Sul (Colômbia, Venezuela, Equador, Peru, Bolívia, Chile, Paraguai, Uruguai e Argentina).

 

Também a população de origem hispânica nos Estados Unidos tem vindo a aumentar, dada a emigração e a queda da taxa de natalidade da população nativa daquele país, o que não garante, por si só, uma ameaça para a língua inglesa, mas é um estímulo para a subida do espanhol à categoria de segundo idioma, com forte presença em regiões como a Califórnia e o Texas.

 

Refira-se, na Ásia, a substituição do espanhol pelo inglês nas Filipinas, uma antiga colónia espanhola após a invasão pelos Estados Unidos, em 1899.

 

O que não invalida que a língua espanhola seja a segunda mais falada e de maior projeção internacional do mundo ocidental.

 

Dado o número de países, sua estabilidade, identidade e número de falantes que têm o espanhol como idioma materno, oficial e nacional, é uma língua que não está ameaçada, nem em risco. Excetua-se a Guiné Equatorial, que ascendeu à independência apenas em 1968, estando linguisticamente isolada.

 

Em termos continentais, tem grande implantação apenas em dois continentes: na Europa e maioritariamente na América, ao invés do português, mais disseminado, pluralizado e universalizado por vários continentes, embora menos falada.

 

Comprovativo de que o espanhol vai ganhando força e espaço, é a expansão do Instituto Cervantes, com um orçamento mais agressivo e generoso que o do nosso Instituto Camões, sem nunca esquecer que os dois principais idiomas ibéricos (espanhol e português), para além de globais, são concorrentes entre si.

 

03.07.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVII - FRANCOFONIA

 

Tendo consciência de que enfrenta uma situação difícil para a sua língua, a França continua a pensar em grande, não se deixando vencer pela adversidade. Espera pelo abrandamento da vaga do inglês, pelo refluxo anglófono. 

 

De língua global e culturalmente dominante, foi gradualmente suplantada e secundarizada pelo inglês, nomeadamente após o fim da segunda grande guerra, depois da ocupação nazi e a libertação pelos aliados e vencedores anglófonos.

 

Os franceses têm uma relação muito particular com o seu idioma, sendo tendencialmente monolingues, aceitando mal a decadência do francês a nível mundial, por confronto com os seus tempos áureos. 

 

Mas continuam a resistir, com empenho e determinação, ao mesmo tempo que querem passar a mensagem que são menos imperialistas em termos linguísticos que os falantes maternos da língua inglesa.     

 

Só que, consoante o contexto, a estratégia muda.

 

Dado que, por confronto com o inglês, o francês perde, continuando a perder no curto e médio prazo, sem perspetivas de ganhos maiores nos tempos mais próximos, aceita-se o inglês como uma língua global de economia e finanças, e a francesa como uma língua para o desenvolvimento, de coesão, de partilha e solidariedade, uma mais-valia, uma terceira língua, que acresce à materna e ao inglês. Não interessa, nesta perspetiva, que se diga que o francês está a lutar contra o inglês, mesmo que não totalmente verdade.

 

Porém, para além de acusações de tentativas glotofágicas do francês na organização internacional da União Latina em relação ao espanhol, português, italiano, romeno e catalão, a francofonia olha de um modo muito especial o espaço das demais línguas românicas de expansão global, designadamente o espanhol e o português.

 

Ao mesmo tempo que defende a diversidade cultural e ser imperioso juntar esforços contra a ameaça do inglês, a França, em particular, é adversa dessa diversidade quando defende uma estratégia de intervenção que ultrapassa a mera ajuda, colaboração e cooperação a países menos desenvolvidos, como sucede, entre os países lusófonos, com Cabo Verde, São Tomé e Príncipe e a Guiné Bissau. Incluindo algumas investidas em Moçambique.   

 

Há quem veja na estratégia da francofonia para a África de língua oficial portuguesa, com enfoque em Cabo Verde, Guiné Bissau e São Tomé e Príncipe, caraterísticas de imperialismo linguístico, numa tentativa de substituição, a prazo, do português pelo francês, em detrimento dum salutar convívio entre a lusofonia e a francofonia. 

 

Se a lusofonia e a CPLP atravessam dificuldades, há que explorar esses défices e fazer ver a esses países que têm o português como idioma oficial que há quem os compreende melhor, que tem e disponibiliza mais dinheiro para o seu desenvolvimento e necessidades de toda a espécie.     

 

Para o autor francês Chaudenson, segundo o qual quem não sabe fazer, deve dar lugar a outros, há que integrá-los na nova francofonia, juntamente com o único país africano de língua oficial espanhola, a Guiné Equatorial. O que reforça com o argumento de serem países rodeados de vizinhos francófonos e situados em zonas de predominância francófona. O que pode ser extensivo a Angola, com as inerentes adaptações derivadas das suas fronteiras com a República Democrática do Congo (Kinshasa) e a República do Congo (Brazzaville), ambos países francófonos.     

 

Sendo a África fulcral para a continuação do francês como língua global de comunicação internacional, Portugal e a lusofonia têm de estar atentos a estas tentativas de francofonizar alguns países lusófonos, especialmente os mais débeis, o que já não sucede em relação aos países de língua oficial inglesa, dado que, por certo, o “lobo” francês não é tão predador como o anglo-americano. 

 

Há que referir ainda o papel desempenhado mundialmente pela Alliance Française, numa crescente procura de parcerias, por exemplo entre a França, a China e o país africano de destino, dado o interesse chinês em África e saberem não poderem trabalhar em chinês, o que pode e deve, por analogia, ser aproveitado por Portugal e mundo lusófono.

26.06.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XXXVI - O REINO UNIDO E O INGLÊS

 

Com o fim da segunda guerra mundial, para além da vitória dos aliados anglófonos sobressai, em termos linguísticos, a vitória da língua inglesa.

 

As economias e nações ocidentais sobreviventes da guerra, ficaram dependentes dos países falantes de inglês, em especial dos Estados Unidos da América, o mesmo sucedendo com o Japão e países da Ásia em geral.  

 

Ficaram de fora, temporariamente, os países que integravam o então bloco de leste europeu, afetos ao espaço de influência da então União Soviética. 

 

Apesar do papel decisivo e fundamental dos Estados Unidos, descendente do Reino Unido, ambos países falantes de inglês e tendo como património comum a mesma língua,  nada impediu que a antiga potência colonizadora tivesse uma estratégia visionária para a difusão e expansão da língua inglesa a nível mundial.     

 

Uma das instituições usadas para a qualificação linguística do inglês, foi o British Council, organismo oficial do Reino Unido, fundado em 1934, primeiro sob a designação de British Commitee for Relations with Other Countries, sob tutela do Foreign Office, para a promoção da ciência, cultura, educação e tecnologia britânicas.

 

Esta difusão inicial (e em geral) da língua e cultura britânicas, evoluiu e adaptou-se ao contexto mundial do momento, passando o British Council a apresentar-se como uma instituição vocacionada para a construção de relações reciprocamente vantajosas entre o povo britânico e demais povos, visando desvincular-se da associação a formas de imperialismo cultural e linguístico a que a cultura e língua inglesa, incluindo a anglofonia, são associadas. 

 

Deixou de proporcionar apenas o ensino da língua e cultura britânica, passando também a promover as “educational opportunities”.  

 

Tornou-se insuficiente recrutar leitores para lecionarem em universidades estrangeiras, apoiar escolas e bibliotecas no exterior, organizar e apoiar eventos e espetáculos culturais, mesmo com o apoio de embaixadas e consulados, passando a ser primordial proporcionar ferramentas culturais e educacionais vantajosas, numa projeção para voos mais altos que os do governo. 

 

Mudança de estratégia que tem como subjacente a constatação de que a língua inglesa, a nível internacional, está a deixar de ser, cada vez mais, para muitos, uma língua estrangeira, antes sim uma segunda língua, para além da materna, ou em paralelo com esta, sendo tida como uma ferramenta indispensável em termos pessoais e profissionais. O elevado número de pessoas que aprendem atualmente inglês, prevê-se que diminua para 500 a 600 milhões em 2050, não por qualquer desinteresse pelo inglês, mas, tão só, por, previsivelmente, a maioria da população mundial já o dominar.  

 

Uma reflexão útil, por certo, para os responsáveis em Portugal pela atuação e intervenção do Instituto Camões, no âmbito das políticas em redor da língua e cultura portuguesa e lusófona.             

 

19.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

12. BANIR O SONO

 

Pela eficiência permanente, que opera 24 horas por dia, elimine-se o sono.
O sono é estagnação, inatividade, inércia, ócio, preguiça.
É antagónico com a vida dos dias de hoje, impedindo-nos de sermos conscientes, racionais e trabalhadores a tempo inteiro.
O executivo dos nossos dias louva-se de dormir pouco ou quase nada, de passar noites em branco, de trabalhar até à exaustão pela noite dentro, um ser humano máquina, em competição com o computador, fazendo mega horas extraordinárias, que não perde a concentração, nem a missão ou o fim que tem em vista.
O sono impede o conhecimento, saber, rendimento, produtividade.
O sono é noite, escuridão, o império das trevas, incompatível com o dia, o empreendedorismo, com uma vida eficiente e de luzes continuamente acesas.
Para sermos eficientes, empreendedores e racionais a todo o tempo, é preciso abolir o sono, criando sociedades onde o êxito, o ser feliz, o mérito e o reconhecimento são diretamente proporcionais à ausência de sono. Sendo admissível, quando muito, três ou quatro horas bem dormidas, estigmatizando quem não consegue ou dorme o dobro.
A maximização da eficiência funcional é trabalharmos sem intervalos, dia e noite, porque tudo é importante, menos o sono, tendo como perdedores os que o enaltecem.
Por confronto com o malefício do sono, exalta-se a vigília, testando-a progressivamente, via ingestão de anfetaminas, ansiolíticos, pastilhas de estimulação cerebral, neuroquímicos, com a ajuda e empenho de Silicon Valley. 
Investiga-se e examina-se o funcionamento do cérebro de animais que conseguem passar vários dias e noites sem dormir.
Só que o sono é inevitável. Lamentável inevitabilidade, para os opositores. 
Não há melhor cura para curar o cansaço.   
Nem pior padecer que a tortura do sono.
Por enquanto, enquanto dormimos, o sono não é vendável, expulsando as leis do mercado.
O sono é pessoal e intransmissível.
É a afirmação e constatação dos limites do corpo humano, da nossa finitude, mesmo que governados ou dirigidos por pessoas que não querem dormir, que minimizam ou odeiam o sono, que o têm como dispensável e irracional, que o desejariam abolir ou banir, podendo.
Afinal, toda a gente se cansa e não sobrevive sem sono. 

 

12.06.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício