Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Associa-se o sublime, em geral, ao excelso, grandioso, soberbo, esplêndido, digno de admiração, de uma beleza celestial, radiosa e magnífica, despertando pensamentos e sentimentos nobres de respeito.
Mas há que não confundir a noção do belo e do sublime, dado este também representar um desafio à nossa vontade, sendo mais forte que nós, uma força maior que a dos humanos e que, na sua grandiosidade, esmagamento ou ousadia, nos pode provocar fúria ou arrebatamento.
Daí que, elevando-se acima do humano e convidando-nos a aceitar as nossas limitações, ao desafiar a nossa vontade pode não provocar apenas um julgamento de admiração e respeito, mas também ira e ressentimento, fazendo sentir-nos humilhados pelo que é poderoso e insolente e maravilhados pelo que é poderoso e nobre, podendo chegar à adoração e veneração.
Se o sublime nos faz sentir pequenos, porque diminui a nossa dimensão, apoucamento que, só por si, pode ser desagradável, também pode ser satisfatório, na medida em que, por exemplo, há quem viaje para atravessar e observar paisagens a fim de vivenciar emoções espiritualmente avassaladoras e gratificantes, viajando pelos espaços infinitos ou esmagadores dos vastos desertos, cadeias de montanhas, glaciares, icebergues, céus, oceanos e outros lugares procurados intencionalmente para que, quem os procura, se sinta pequeno. E podemos não ter palavras para exprimirmos o que sentimos, estabelecendo-se uma relação espiritual com o que observamos.
O sublime excita, supera-nos e se mais forte não o devemos ter como necessariamente odioso, dado que nos interpela e transcende, ensinando-nos que o universo é mais poderoso que nós, o que está tradicionalmente associado ao nome de Deus e das divindades.
Há quem o tenha como a nossa maior paixão e a nossa suprema experiência emocional, que está para além da alegria ou do contentamento e do acalmar no belo, mesmo quando baseado no perigo, no temor ou pânico.
Elevar o espírito do sublime pode traduzir-se em soltar exclamações diante do ilimitado e do infinito, ter medo, admiração e respeito por tudo aquilo que desafia a nossa vontade e a transcende.
Por meio da sua força e grandeza, ajuda-nos a aceitar, sem azedume nem jeremiadas, os impedimentos que somos incapazes de superar e as ocorrências insondáveis que desassossegam as nossas vidas e a que não somos capazes de dar sentido, recordando-nos a nossa efemeridade e vulnerabilidade, contrariando a afirmação de Protágoras de que “o homem é a medida de todas as coisas”.
As pessoas devem ser naturais e seguir os seus gostos e convicções na medida em que não sejam abertamente antissociais.
Poucas são felizes se a sua vida, elaboração e idealização do mundo não forem sancionadas, no geral, por aqueles com quem se relacionam socialmente, em especial por aqueles com quem vivem.
A maioria, para se sentir bem e realizada, carece de um ambiente simpático, de adaptar-se aos costumes e credos usuais, aguardando o reconhecimento dentro da norma.
Outros, em pequenas ou grandes minorias, fogem às convenções demasiado convencionais, formais e rígidas, submetendo-se o estritamente necessário a uma convivência de coexistência integrante e pacífica.
É menos saudável uma sociedade onde a opinião pública se rege por convenções em que toda a gente procede do mesmo modo, dado ser mais interessante uma sociedade em que, em princípio, as pessoas não são réplicas da maioria ou de todas as outras.
Por exemplo, todos os que têm algum mérito artístico ou intelectual se sentem mais facilmente “hostilizados” num meio ou sociedade em que o futebol é rei, porque fogem ao que é a regra. Do mesmo modo, ao escolher-se uma carreira ou profissão, mesmo que respeitável, mas não costumeira ou consagrada no meio, pode-se ser apelidado de cobiçoso ou desajustado.
Havendo timidez injustificada, pode ser mais tirânica a reação, por analogia com a velha máxima de que um cão ladra e morde com mais força quando a vítima se assusta do que quando manifesta indiferença.
Porém, uma pessoa estimulada e inclinada a ter gostos e convicções diferentes da opinião geral, pode sentir-se “degredada” ou “exilada”, condenada a isolamento hostil e causa de sofrimento, o que não exclui que noutro grupo não possa ser tida como alguém totalmente normal.
Se o receio dos vizinhos é agora menor do que antigamente, surgiu um novo medo, com o aparecimento da imprensa em papel e digitalizada, que é o pânico do que podem dizer os jornais, as revistas e as redes sociais, uma nova forma de perseguição social, em especial para quem se expõe publicamente, um temor opressivo que pode ser tão assustador como o da caça às bruxas em tempos idos.
Se bem que seja compreensível, em regra, respeitar a opinião pública dentro do que é exigível a uma convivência consensual mínima em sociedade, tudo o que ultrapasse esses limites pode ser submissão ou infelicidade.
Mas sabemos que sempre houve e há pessoas de uma vida interior tão poderosa que o seu isolamento, a sua solitude, a incompreensão e a hostilidade do grupo ou do meio não as subjugaram, dada a sua envergadura espiritual, como as irmãs Bronte (em especial Emily) a quem alguma simpatia só sorriu após a publicação dos seus livros.
A sexta-feira preta ocorre na última sexta-feira do penúltimo mês do ano, no dia de hoje, 28 de novembro de 2025.
Com raízes nos Estados Unidos da América e mundializada pela globalização anglo-saxónica, indicia-se ser mais universalmente conhecida por “black friday”, como sucede entre nós, o que se lamenta, tanto mais que o seu nome e dicção, em português, é eficaz e marcante, mesmo em termos comerciais lusófonos. Ou sexta-feira negra? Tenho, por mim, a sexta-feira preta como menos artificial e elaborada, porque naturalisticamente mais nativista.
Porquê esta anglicização incorporando na língua portuguesa vocabulários desnecessários, quando o nosso idioma é portador de expressões que têm um significado igual e um efeito similar? Ou até um impacto superior, e não inferior, em termos de pronunciação linguística, com a vantagem de que fazemos “jus” à nossa língua materna como elemento e referência número um em termos da nossa singularidade como nação e no espaço lusófono.
Há que não contribuir para que nosso idioma seja “socialmente subestimado”.
Há que não promover o uso confidencial da nossa língua.
Há que não fazer o culto de esconder dos ouvidos externos um bem de que eventualmente nos julguemos ser os únicos possuidores.
Muito menos ter um complexo de inferiorização linguístico de algo que nos identifica e é uma língua de comunicação global e internacional, transcontinental e transcultural.
E que surge na galáxia linguística mundial como integrando o restrito conjunto das “central languages” (línguas centrais), no quadro de um sistema linguístico global, mesmo sabendo que o inglês surge como hipercentral, função que agora lhe cabe.
Se já há quem não resiste à sexta-feira preta em termos de um consumismo apelativo de um consumo compulsivo tendencialmente tido como enganador ou indutivo em erro, o ideal seria começar por não sucumbir a um estrangeirismo, um anglicismo tomado desnecessariamente por empréstimo.
Por preguiça mental ou puros interesses comerciais? Por ambos os motivos, por certo, a par de um provincianismo de seguir mimeticamente, com uma subordinação alegre, chique e inconsciente, o que é importado de países alegadamente “superiores”.
É lamentável que nem nós próprios, na nossa própria casa, não consigamos resistir a esta usucapião pacífica linguística, subtil e lesiva, de um bem jurídico que nos singulariza e universaliza.
Se o infinito exprime a ideia de um caminho sempre aberto, um processo contínuo e permanente de continuidade sem fim, uma busca pelo ilimitado, um ciclo eterno que nunca se conclui, à imagem de uma biblioteca infinita que contém todas as histórias e saberes possíveis, tem de ser inerentemente antiautoritário, tal como a liberdade o é, valendo-se ambos de todos os recursos, desde logo intelectuais, ao seu dispor, dado que quanto mais se avança, mais essa procura pelo infindável e a liberdade avançam.
Têm de estar abertos à experimentação, à dúvida, à discordância, à refutação, à tolerância, à incerteza, à ignorância, à diversidade, à imprevisibilidade, à crítica, ao provisório, a conclusões probabilísticas, à mudança, ao não sectarismo, à criatividade, à autonomia e independência, à universalidade, ao falível, ao indeterminismo, à atividade criativa e ao empreendedorismo contínuos.
E se o cérebro humano, estruturalmente finito, tem a capacidade de conceber o infinito, imaginando e idealizando mundos e universos intermináveis, números sem fim e possibilidades infinitas, também temos de ter asas para voar sempre mais alto, não nos servindo de nada se a porta da gaiola nunca se abrir, roubando-nos a curiosidade e a liberdade.
Mas há um preço, que se chama responsabilidade, que transcende a abstração e se materializa num legado que é um elo entre o passado, o presente e o futuro, sendo preciso saber, em cada momento, se se pode decidir quando voar e quando parar, sobrepondo o bem comum à nossa vontade individual.
O fascínio e sedução pelo infinito e por ser livre não é voar indefinidamente e porque sim, é também poder justificar as nossas escolhas.
Se uma biblioteca infinita é fascinante porque tem todas as histórias e leituras possíveis, se a biblioterapia é um método que usa a leitura e a discussão de livros para promover o bem-estar emocional e psicológico, por que não criarmos estantes biblioterapeutas com livros e leituras intencionais que nos dão a possibilidade de nos sentirmos compreendidos, mais sarados e com menos stresse?
Quando há livros, há que os arrumar, rearrumar, desarrumar e baralhar, aprendendo-se sempre em qualquer das situações, mesmo quando há uma conjunção de livros que não têm nada que ver uns com os outros, arrumando-os consoante o formato e a cor, por exemplo.
A tendência mais comum é arrumá-los de acordo com a apetência de os ler, colocando os mais desejados próximos das nossas mãos.
Esse apetite de proximidade varia conforme os nossos interesses profissionais, de entretinimento, gostos específicos ou por obrigação e dever de ofício.
E se é normal arrumar livros cuja temática versa sobre viagens, arte, filosofia, ensaios, poesia, romance, o mesmo não sucede com os que nos fazem sentir ouvidos, vistos, entendidos, onde há um processo curativo em potência quando vemos a nossa angústia, arrependimento, dor, perda, abandono, redução do stresse e os problemas que nos assolam nas páginas de um livro.
Há livros de salvação, de resgate, terapêuticos, doadores de biblioterapia individual ou de grupo, que podem ser institucionalizados para serviços de leitura, curadoria literária e formação em biblioterapia.
Os seus benefícios podem ser partilhados por cada um, na nossa casa, em especial na biblioteca, em estantes biblioterapeutas, beneficiando de uma leitura consciente, empática e reflexiva que pode ser um alívio e salvação, dando-nos a possibilidade de nos conectarmos emocionalmente e psicologicamente com as vidas de outras pessoas que vivem ou passaram experiências similares, levando-nos a uma catarse que pode abrir portas para nos sentirmos mais curados e resolvidos connosco e os outros, com maior autoconsciência, autoconfiança e resiliência emocional.
Os clássicos Homo economicus, Homo sociologicus e Homo Sapiens estão em expansão permanente, num processo sempre aberto e contínuo, em busca do infinito, agora com o advento do Homo digitalis e da inteligência artificial.
Novos desafios emergem com a cibernética, digitalização, algoritmos, manipulação genética, novos fármacos, transplantes, próteses, a inteligência artificial, ajudando-nos a interpelar um futuro que já existe, surgindo toda uma variedade de inovações que adicionam artificialidade ao natural, obrigando-nos a perguntar: onde acaba a máquina e começa o humano? Ou: onde acaba o humano e começa a máquina?
O que se pode processar à revelia da nossa sensibilidade emocional e espiritual, em que o critério é o da eficácia, da operacionalidade e utilidade, atuando o nosso cérebro segundo uma programação de algoritmos sem consciência, espírito ou sentimentos, pondo em causa a nossa própria subjetividade e anulando gradualmente, cada um de nós, como cidadão.
Para Nick Bostrom, filósofo e pensador sueco, o objetivo da inteligência artificial é o desemprego total, interpretado no sentido de que ninguém precisaria de trabalhar para ganhar dinheiro, a que acresce um “mundo resolvido”, uma utopia segundo a qual é exequível uma maturidade tecnológica suficientemente adequada se usada, em termos gerais, para fins benéficos, em vez de nos oprimirmos e matarmos uns aos outros, libertando-nos da governação e do labor diário. Fica a questão: o que poderá dar um propósito à nossa vida num “mundo resolvido” em que tudo é feito por máquinas? Sabendo-se que “não fazer nada” é o mais difícil, exigindo toda a nossa energia?
O progresso científico processa-se a um ritmo tão vertiginoso, que há quem acredite na criação de um processamento de dados - “a Internet-de Todas-as-Coisas” - que dará ao Homo Sapiens tamanha abrangência que o levará à ascensão de uma nova espécie humana, ora divinizada e há muito ansiada: o “Homo Deus”.
Só que sendo o ser humano finito, com limites naturais intrínsecos (desde logo com um cérebro humano estruturalmente finito, mesmo que com capacidade para imaginar o infinito), não se vislumbra que, algum dia, pelo que racionalmente sabemos, possa ter a veleidade de ser sacralizado como uma alegada divindade do “Homo Deus”, podendo ser vítima da sua própria e inegável mestria.
Nem se pode falar de um “Homo Deus” que desconhece o que há para além da morte, quando morremos, finda o universo e a infinitude do que nos transcende. São mínimos que se exigem a um Deus.
Na medida em que o desejo também nos puxa para o desconhecido, a curiosidade, os mistérios da vida, nos transforma e tira da inércia, do ócio, do tédio, programando o que poderá ou poderia ser, acaba por ser, de igual modo, uma manifestação de liberdade de expressão que se quer livre.
Se não reconhecido fica censurado, se reprimido torna-se silencioso, desembocando a ausência (de desejo), nesse contexto, em angústias, silêncios e numa previsível “infalibilidade” de quem reprime e não se assume como falível.
Contentando-se com o que é repudiado e o que poderia ser, a ausência de desejo apela, num certo enquadramento, à segurança, ao mito da normalidade, ao estabelecido e não questionado, ao não querer correr riscos, à arrogância de querer ter sempre resposta conhecida para o desconhecido.
O reconhecimento da nossa própria falibilidade, refutando a infalibilidade, faz parte do que faz alguém ter um desejo sério, fazendo progredir o conhecimento humano.
O desejo, como a liberdade, é inerentemente antiautoritário, autocorrigindo-se, ao invés da sua omissão.
Mas também é ambíguo, luz ou sombra, solar ou escuridão, de bom ou mau gosto, sendo o seu significado determinado pelo seu contexto de apresentação ou de expressão. Desejar é viver em estado de incerteza e de inquietação, é ser liberal, estar aberto à experimentação, à tolerância, à dúvida, à mudança, à refutação, ao erro, à diversidade, em conjugação com o facto de o ser humano ser, por natureza, incompleto ou imperfeito.
Há desejos que nos libertam e os que nos amarram, e os que reconhecem o mistério da vida a que não cede quem ousa pensar (ingloriamente) que tem resposta para tudo.
Estar ocupado ou sempre ocupado é, cada vez mais, um símbolo de importância, produtividade, estatuto ou poder. Para muitos dá status e é gratificante saber-se que têm excesso de agitação e de compromissos, falta de tempo ou que não têm tempo para nada. Glorifica-se e exibe-se com orgulho o ser ocupado.
O descanso, por sua vez, é visto, crescentemente, como improdutivo, fracasso, preguiça, ócio, tédio, aborrecimento, não fazer nada, uma repetição monótona e permanente, um tempo livre e rame-rame ocioso e não produtivo. Desacelerar, priorizando o descanso, é fracassar. Mesmo aqueles que trabalharam décadas continuamente sentem-se, tantas vezes, mal vistos, porque menos produtivos e a reclamarem o seu direito ao descanso.
Todos sabemos que o trabalho é, antes de tudo, um preventivo contra o aborrecimento, que dá a satisfação de matar o tempo e possibilidades de êxito e de saída à ambição, havendo nele todas as gradações, desde o mero alívio do tédio às gratificações mais profundas. Se em excesso gera fadiga física, nervosa ou emocional podendo, segundo os especialistas, provocar neurastenia por exaustão corpórea ou psicológica, onde o amor à agitação pode conduzir ao não abandono do trabalho como “remédio” para uma cura fictícia, quando o verdadeiro “fármaco” deveria ser a desaceleração e o descanso.
A informática e as redes sociais reforçam e dão visibilidade a este excesso de trabalho e compromissos, mesmo que haja uma ilusão mediática e virtual de maior produtividade cada vez que são massivamente usadas.
Há, pois, que repensar este modelo de vida, tendo como referência primordial que o valor de uma pessoa não deve estar essencialmente amarrado à sua produtividade, há que reclamar e readquirir, com naturalidade e equilíbrio, o direito ao descanso, ao ócio e tédio criativo, ao não ruído, à não agitação, à contemplação, à pausa, ao silêncio. Nem podemos perder a capacidade de simplesmente não fazer nada. Nem do tempo livre, proporcionado pelo descanso, ter de ser sempre preenchido por mais, mais “trabalhos”.
O descanso tem de ser tido como um sinal de equilíbrio que cuida e nos aproxima de nós próprios, que se justifica por si e não precisa de ser justificado.
230. SABER ACEITAR E USAR A INEVITABILIDADE DA EVOLUÇÃO
Gostemos ou não temos de aceitar a evolução, dado ser algo que nos ultrapassa e para a qual não temos escolha. É um movimento imparável e não referendável, uma realidade que acontece e se impõe por si e que ninguém controla.
Face às nossas criações já há avatares e conteúdos totalmente geridos por inteligência artificial, no médio prazo estão programados aparelhos através dos quais as pessoas falarão entre si, independentemente do idioma de cada um o que, por um lado, é fascinante e, por outro, inevitável.
Essa evolução, em si, faz parte do processo evolutivo, que se vai sedimentando e evoluindo progressivamente por camadas, sendo inelutável e irreprimível.
Mas embora a nossa opinião sobre se é bom ou mau seja irrelevante, dada a sua natureza evolutiva e ininterrupta, o que podemos e devemos escrutinar é saber como usar essas novas ferramentas e as suas transformações para melhorar a nossa qualidade de vida de um modo construtivo, digno e equitativo.
Por exemplo, as potências nucleares são uma realidade factual e indesmentível da sociedade internacional imperfeita em que vivemos, mas podemos e devemos contribuir e esforçar-nos para que o uso nuclear se paute por um alto sentido de direção ética, moral e política, controlando ou influenciando, na maior extensão possível, a definição dos fins e a escolha dos meios respetivos para alcançar uma mais valia que otimize o bem-estar de todos e a nossa relação com os outros.
O mesmo quanto ao uso da inteligência artificial e à genética, podendo haver evoluções negativas ou benéficas, sendo insuficiente dizer que dependem sempre de nós, porque criações humanas, dado que basta haver um grupo de pessoas que as queira usar para controlar o nosso planeta, o que é assustador, no mínimo.
Pode não ser o modelo que permita atingir o ideal, mas sempre será melhor que lavar as mãos do inevitável, numa fuga para a frente de pura impressionabilidade desligada da realidade.
Há um problema de finalidade quando nos fechamos sobre nós próprios por excesso de previsibilidade, quando se indicia ter-se sacralizado o domínio do que existe e se intui ter-se liquidado o domínio do que é possível.
Um excesso de conforto, de técnica, de dependências, de substitutos, de máquinas que funcionam com base no pré-concebido, faz parte do já conhecido e não do que não se conhece.
Mesmo quando nos confrontamos perante a inevitabilidade da inovação, isso não acarreta, necessariamente, o surgimento de várias possibilidades de escolha no âmbito do que é possível, como o exemplifica o chatGTP e a inteligência artificial, na medida em que fornecem sínteses do que lhe pedimos com base no que receberam e conhecem, mas não com fundamento no que não conhecem.
O desconhecido precisa da nossa imaginação. O mundo continua a precisar de ser imaginado por nós. O que é mais premente se pensarmos que o mundo atual precisa de ser repensado, defendendo a condição humana, redefinindo o humano, dado que, ao invés, a inteligência artificial, através dos algoritmos, responde a algo com fundamento em dados que lhe demos, regendo-se pela semelhança a partir de elementos de coincidência, afunilando o pensamento.
E se a ciência e a tecnologia nos dão meios para fazer muitas coisas, a imaginação humana tem o papel primordial a desempenhar, como sempre, imaginando o futuro, onde a ciência, os cientistas, a literatura, os escritores, os livros, os artistas e criadores em geral têm sempre lugar, por maioria de razão quando paira no ar qualquer coisa que bloqueia a imaginação do que pode vir a seguir.