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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

62. ESQUEMAS DE PROGRESSO, REGRESSÃO E DE PODER

 

O drama da queda do Império Romano sugere que a civilização não progride em linha reta e sempre em direção a mais prosperidade, lei, ordem, tecnologia, segurança, tolerância e unidade na diversidade.   

O progresso linear e ascendente em linha reta não é um dado adquirido e permanente em termos civilizacionais.   

A antiguidade greco-latina mostra-nos feitos incríveis alcançados por gregos e romanos que se perderam. 

A imperatriz de Roma, Eudóxia, foi escravizada por um bárbaro, Genserico, líder de uma tribo germânica, os Vândalos.

Com a queda de Roma a Europa fragmenta-se e ficará dividida durante 1500 anos.  Ficará fragmentada e habitada por bárbaros, para os romanos, em paralelo com os bárbaros que adjetivamos hoje de fundamentalistas e terroristas, tal como éramos e eram os germanos, gauleses, lusitanos, etc, no tempo dos romanos, para estes. 

Com a desagregação do império romano, anglos e saxões vão para a Grã-Bretanha.

Francos, vão para a França atual, a que deram o nome. 


Visigodos para a Península Ibérica. 

Há vikings no norte da Europa.

Árabes no sul: Córdoba era uma cidade tolerante, de judeus, cristãos, muçulmanos, estimulando a ciência e as artes em geral, destoando da idade das trevas europeia e da imagem atual que temos, ocidentais, de várias sociedades árabes.

Aquando da primeira guerra mundial, falava-se em “grande guerra”, porque se acreditava ser a última (guerra), devido às luzes da tecnologia, da ciência positivista, segundo a qual as luzes derrotariam as trevas.

Há os que são coerentes quanto àquilo que defendem e fazem (moral da convicção) e os que dizem que os fins justificam os meios (moral da responsabilidade).

São Tomás de Aquino defendeu o tirocínio (morte do tirano), o que, na realidade, para muitos, é um ato terrorista.

A revolução contém estruturalmente terrorismo e violência.

Se é ganha, os ganhadores são heróis.   

Se se perde, os perdedores são terroristas.

Quando se conquista ou ganha, deixa-se de ser mau  /terrorista, para se ser bom/herói.  Há a história dos vencedores e vencidos, conquistadores e perdedores, colonizadores e colonizados, a que a própria natureza, per si, também não é alheia.

Para quando uma civilização humana e humanista?   

 

23.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

61. FIM E FRUIÇÃO DA ARTE PELA ARTE E COMO MEIO OU INSTRUMENTO


Culturalmente falando, entendemos que os juízos críticos, análises, avaliações e demais considerações que têm por objeto a cultura, devem ser feitos em função de critérios e valores próprios, e não subjugados à realização de objetivos que lhe são exógenos, de natureza económica, financeira, ideológica, política ou social.   


Uma obra de arte, por exemplo, vale por si, tendo como fim principal a arte em si mesma, e não a arte como meio ou instrumento, independentemente das opções filosóficas, políticas, sociais ou outras do seu autor, destinatário, mediador ou das políticas públicas que a impulsiona ou divulga.


Num Estado Democrático e de Direito a consagração da Constituição cultural deve ser aberta e pluralista, legitimando critérios de cultura “pura” e não de cultura “para”.


Num Estado Democrático a arte deve ser um fim em si mesmo, a arte pela arte.


Num Estado totalitário é um meio para um fim, um instrumento ao serviço de qualquer coisa, havendo uma arte lícita e ilícita.


Nesta perspetiva, o neo-realismo considerava a literatura e a arte em geral um meio de transformar a sociedade, não sendo tal propósito, em si mesmo, artístico ou estético, mas moral e político, defendendo uma ideia pré-formada da realidade, amputando e limitando algo (a realidade) que por natureza não tem limites. Não transmitia a realidade, per si ilimitada e permeável a todos os qualificativos, mas a ideia que os doutrinadores e teóricos diziam que era e queriam que fosse a realidade.


Embora antecipadamente definido na sua essência pela sua escola, o neo-realismo era tido como democrático, dado que o artista só tinha que se disciplinar, organizar e copiar o que via, poia a realidade era objetivamente uma só e igual para todos, não exigindo a arte uma vocação específica por parte de quem a fazia ou recebia. Era promovida como peculiarmente popular, do povo para o povo, compreensível por todos, mesmo que sob a forma de propaganda ou do realismo socialista.   


Sucede, porém, que desde sempre, incluindo nas sociedades globalizadas de hoje, a arte e a cultura em geral nunca chegou a todos, podendo chegar a todos, ou a ninguém, por várias razões, inclusive inerentes e intrínsecas à própria pessoa,  podendo nada ter a ver com a ausência (ou não) de condições de ordem económica ou social. É um fenómeno transversal a toda a sociedade e a todas as classes sociais, e não uma realidade subjacente a esta ou aquela realidade económica ou social em particular.


Daí deriva a chamada “iliteracia cultural” traduzida, por exemplo, na ausência de hábitos de leitura e nas reduzidas taxas de compra de livros, por igual, à grande maioria da população, por maioria de razão se literariamente de linguagem trabalhada. Corrobora-o e exemplifica-o não passar despercebido, a um observador atento, a ausência de livros ou haveres culturais similares em tantas habitações de classes sociais de topo, endinheiradas e bem-sucedidas económica e socialmente, ou a sua ignorância em termos de cultura geral tida como básica.


O que prova que o acesso à fruição artística e à cultura em geral não pode ser visto apenas em termos económicos ou sociais, mas também em termos de autonomia própria e específica, em paralelo com critérios e valores que não necessitem de validação exógena, não confundindo nem desvirtuando os meios e fins das políticas de combate à desigualdade cultural com as de combate à desigualdade económica e social.     


16.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

60. NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL?

 

“Os ribeiros vão para o mar; e contudo o mar não se enche.   
Não há nada de novo debaixo do Sol. 
Não há lembranças das coisas primitivas.
Aborreci todo o meu trabalho que trabalhei debaixo do Sol, visto que eu havia de deixá-lo ao homem que viesse depois de mim.”     


Neste excerto do Eclesiastes sobressai uma visão pessimista, em que nada perdura, embora o futuro e o presente não sejam diferentes do passado. Os ribeiros e os rios correm sempre para o mar, mas as suas águas não enchem o oceano, não ficam lá, num interminável movimento cíclico de nascimento, vida e morte, em que todas as coisas nascem e morrem numa permanente e sucessiva repetição, sem um resultado aperfeiçoado e estável, dia, mês e ano após ano.


Este estado de alma ou de espírito descrente de que haja algo de novo e de interesse neste mundo, faz lembrar pessoas que geralmente não têm problemas a não ser aqueles que elas mesmas criam, que se têm como superiores por compreenderem a futilidade da vida, tantas vezes por satisfazerem os seus desejos sem esforço. 


Daí, ao que parece, não haja nada de novo debaixo do sol.   


Tem-se como um entendimento simplista das coisas, usando uma quantidade limitada de elementos que constituem o modelo-padrão da natureza e da vivência humana, não tendo presente que a perfeição e a sabedoria plena não são o destino do universo.


Não podemos ter o preconceito ou a presunção inilidível de que já somos portadores da compreensão de toda a história e só precisamos de confirmar a nossa teoria, a nossa experiência ou estados de alma.   


Como é que, há tantos e após tantos séculos, se pode afirmar que “Não há nada de novo debaixo do Sol”?   


Que sabia e sabe quem o diz sobre os avanços atuais na conquista do espaço, aviões, meios de comunicação social, rádio, televisão, informática, eletrónica, robótica, o bosão de Higgs, o vácuo, os drones, a inteligência artificial e outras portentosas invenções da humanidade?   


Não há nada de novo ou há coisas a mais debaixo do sol?


Como reagir à sua ausência e presença?     


Com desespero e pessimismo? 


Hoje, apesar do progresso, 95% do universo é desconhecido, segundo os especialistas. Ainda não compreendemos, por exemplo, a energia e a matéria escura. 


O que nos dá a medida da nossa ignorância. 


Se assim é, ainda há muito por descobrir debaixo do sol, numa maravilhosa aventura de imperfeição e querer ir sempre mais além, sabendo que nunca saberemos tudo.     

 

09.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

59. O ABSURDO EM CAMUS

 

Albert Camus, filósofo do absurdo, defendia que levamos vidas costumeiras, entediantes, monótonas e repetitivas.   


Até que um dia nos interrogamos: a vida faz sentido?


Percebeu que era impossível responder à pergunta: porque estamos aqui? 


Diz que fazemos as coisas de modo rotineiro, como Sísifo, uma personagem mitológica grega condenada pelos deuses a repetir sempre a mesma ação, por toda a eternidade: empurrar uma grande pedra até ao cume de uma montanha, para que voltasse a cair até ao vale, onde tinha de ir buscá-la e voltar a empurrá-la até ao cimo. 


Este trabalho cansativo e monocórdico, era um castigo ou punição para mostrar-lhe que os mortais não têm a liberdade dos deuses.


O absurdo de que fala Camus não é o de a vida não fazer sentido, mas, exatamente, a pretensão de procurar um sentido para as coisas.


O absurdo, que se opõe à razão, sensatez e bom senso, deixa de sê-lo a partir do momento em que aceitemos e deixemos de pensar que há coisas que dão sentido à vida. Quem aceita o absurdo vive bem com ele.


Em antinomia, segundo Camus, só se suicida quem, previamente, quis dar sentido à vida.


Que a vida seja absurda não significa cair numa apatia profunda.


Mesmo reconhecendo vivermos num abismo sem respostas, não devemos render-nos ante a vida.   


Temos de enfrentá-la em toda a sua incompreensibilidade.   


De ser criativos e inovadores na formulação de porquês geradores de outros porquês. Vivendo a vida em pleno, hidratando e renovando a monotonia, a repetição e o tédio. Mesmo que, por escolha pessoal, acreditemos num ente sobrenatural, exterior à natureza, a que a investigação científica não pode chegar.


Compreender essa verdade é aprender a viver.


02.10.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

13. DARC COSTA (II)

 

1. Resta a mágica da tolerância, tida como a grande mágica do mundo lusófono, sinónimo de cordialidade, tolerância com o diferente, com o estranho, com o incomum, com o inusitado, mas também tolerância capaz de mudar o mundo.

Escreve Darc Costa: “Devemos nos orgulhar e glorificar os valores do mundo luso, nossa tolerância, a brandura de nossos costumes, o nosso eclético venerar, a alegria simples que todos que vivem no mundo luso têm mesmo na miséria, e um certo “savoir vivre”, que jamais perdemos nas piores circunstâncias e cuja visão e conhecimento deixam perplexos e atónitos qualquer estrangeiro. Do mundo luso se tem uma mensagem única de esperança: o sinal que a inteligência humana é capaz de saltar por cima das adversidades e se integrar na compreensão do universo total. Do mundo luso vem a possibilidade que temos como género de ousar, aventurar. Somos diferentes e somos especiais. Nós fomos, somos e seremos a mundialização. Este é o nosso destino manifesto” (ibidem, p. 103).

Conclui que o discurso atual da globalização procura impor uma dominação das ideias, dos mercados e das culturas, pela ideia do espaço único. Globalização tida como um discurso de dominação, um discurso que se manipula ou pode manipular, contrário à mundialização, embora seja a versão corrente da mundialização. O que se vê hoje é “uma ideologia, a chamada globalização, revestida num mesmo, monótono e único discurso” (ibidem, p. 109). Por sua vez, a identidade cultural, como a que existe e subsiste no mundo lusófono, tem um passado comum como forma de criar solidariedade, ao contrário da identidade global que não tem quaisquer lembranças para convocar ou reivindicar a consciência formadora de um grupo, pelo que não existe identidade global. Assim, ao invés da globalização, a mundialização não afetou as relações primitivas, continuando a existir as relações centro e periferia sem mudanças nos paradigmas.

Sintetizando: “a mundialização é, antes de tudo, um processo de convivência, …de tolerância, …libertação, de construção de um mundo cada vez melhor. Um processo que continua avançando, apesar do seu uso por um discurso falso, o discurso da globalização. Contudo, o seu término, ou seja, a construção de uma única pátria humana, exige tempo e um demiurgo com características especiais que, no mundo atual, reafirmamos só existe no nosso mundo, o mundo luso” (ibidem, p. 112). 

2. Trata-se de uma visão bondosa, bem intencionada, romântica e utópica, algo mitificada, que tem os seus défices, a começar pela ausência de espaço e mentalidade do atual mundo lusófono, entre muros, desde o político, à liberdade de expressão, informação e pensamento, carência de sentido crítico, fenómenos de resistência à mudança, com culto do autoritarismo, do temor reverencial, compadrios e corporizações não tolerantes da criatividade, inovação, evolução e exercício do contraditório, fazendo jus do posso, quero e mando, em desabono da alegada mágica da tolerância, mais patente porque usualmente não posto em causa o poder instituído e a segurança em detrimento da liberdade pela liberdade, gerando um pacifismo per si saudável, é certo, mas limitado.

No país do autor, o Brasil, do mesmo modo que se gosta de o apresentar, por vezes mitificar, como aberto à cordialidade, lhaneza, generosidade, hospitalidade, à diversidade, ao jeitinho afetuoso e informal brasileiro, um idílio, terra de oportunidades e da promissão, uma nação avessa a conflitos, de convivência de géneros, etnias e raças, convém não omitir que tais generalizações nem sempre sobrevivem a um confronto com a violência estrutural (urbana e no campo), ao autoritarismo de vestígios  escravocratas, ao mandonismo, coronelismo, desigualdade social e de intolerância,  atingindo dos mais altos índices mundiais a nível de insegurança, criminalidade violenta e prisional, desde roubos, furtos, assassínios, latrocínio, narcotráfico, apagamento de populações indígenas, numa epidemia de violência que é o inverso da mágica da tolerância.

Mas é bom, para o futuro, tentarmos superar a fase de estarmos permanentemente malcontentes com aquilo que somos, sabendo valorizar capacidades com potencial positivo em termos de recebimento, absorção, integração e de exportação.

 

25.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

CRÓNICAS LUSO-TROPICAIS

 

12. DARC COSTA (I)

 

O estratega e neoluso-tropicalista brasileiro Darc Costa, após distinguir entre mundialização (o facto, aquilo que se constata) e globalização (um discurso, aquilo que se pode manipular), defende que os lusos e seus descendentes são os únicos artesãos possíveis da verdadeira mundialização.

Aponta como mágicas mais relevantes da cultura lusa, que lhe permitirão levar adiante a mundialização: a mágica da antropofagia, da mestiçagem, do sincretismo e a da tolerância (“Mundialização, Mundo Luso e Globalização”, Revista de Relações Internacionais da Universidade do Porto, n.º 4, 2003).

Mágica da Antropofagia - “é a propriedade que possuímos, no mundo luso, de apropriarmos, transformando, toda a manifestação cultural exógena”.

Vê como reducionista a explicação de que se trata do resultado da arte que a cultura lusa desenvolveu de adaptar valores e técnicas europeias aos trópicos em geral. Tem-na como uma caraterística única da cultura lusa, dado que nenhuma outra a detém, pelo menos em tal grau. Após afirmar que o lusitano era ibero, celta, fenício, cartaginês, grego, romano, judeu, suevo, visigodo, mouro, cruzado francês e inglês, numa progressiva e paciente assimilação das suas realizações, conclui que este amálgama progressivo dotou os portugueses dos elementos precisos para processar o diferente e torná-lo o igual, quando não o comum”. Dá como exemplo a constituição da cultura luso-brasileira. E acrescenta: “A capacidade de deglutir, de adaptar, de transformar de forma criativa e criadora o que lhe é apresentado, ou lhe é imposto, constitui-se no maior património hoje do povo brasileiro. ... No Brasil, assim como no mundo luso, nada se perde, tudo se transforma em algo que se utiliza. No futuro, assim como o foi no passado, ser mundializado é ser antropofágico” (ibidem, pp. 100, 101).

Mágica da Mestiçagem - é a propriedade que têm os lusófonos do mundo luso de deter diferentes graus de morenidade, em que surge como exemplo paradigmático o Brasil e em que foi e é referência incontornável o contributo de Gilberto Freyre.

Mágica do Sincretismo - é a completa permissividade religiosa. Embora o espaço da lusofonia seja um dos maiores espaços católicos do mundo, detendo o Brasil o lugar cimeiro da catolicidade mundial como país, não somos arrebatados pela mística católica, nem pela santidade. O catolicismo, e respetiva religiosidade, expressa-se no mundo lusófono muito mais por manifestações externas, por procissões e festas populares, dos S. Joões folgazeiros do Porto, dos Santo Antónios casamenteiros de Lisboa, dos Impérios do Espírito Santo, dos amuletos que trazemos, dos bentinhos espalhados pelas gavetas ou trazidos na mala. Com este catolicismo caminham juntos o espiritismo, o candomblé, a quimbanda e os evangélicos protestantes, tudo se miscigenando num caudal de credos e de fé onde impera a mais ampla tolerância religiosa e o mais claro sincretismo religioso. Este sincretismo aceita, quando não incentiva, o esoterismo, ou pretensamente premonitórias do futuro, tipo astrologia, o taro e os búzios.

Trata-se de um mundo luso como que detentor da fé universal, a que, em relação a Portugal, não será porventura alheio o facto de o nosso santo mais popular ser, ao mesmo tempo, o mais internacional (Santo António de Lisboa, é mais conhecido internacionalmente como de Pádua, porque por Itália se santificou, embora nascido em Portugal).

 

18.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXV - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (VII)   

 

Se a linguagem falada, é um produto da evolução biológica, e a linguagem escrita exige instrução, sendo um fenómeno cultural, destinado a vencer o tempo e o espaço, através da imprensa e do livro, a que acrescem os meios eletrónicos e digitais atuais, um ser humano civilizado e qualificado tem de saber ler e escrever, enquanto o homem natural pode viver com a linguagem oral, como sucede em tribos primitivas.

 

Mas o potencial de universalidade e a dimensão de estratégia e de vanguarda de uma língua decorre ainda de ter tido capacidade de atravessar e penetrar em vários espaços geográficos deslocalizados territorialmente por continentes, através da descontinuidade linguística.                                                 

 

O que sucedeu com o nosso idioma, através da sua disseminação, o que é corroborado pelas suas caraterísticas de língua intercontinental, transnacional, transoceânica, transatlântica, pluricêntrica, internauta e de comunicação global.

 

Ser partilhada por várias culturas que a democratizaram, enriqueceram e moldaram com novas colorações e mais valias, embelezando-a e nobilitando-a, como língua absorvida, apropriada, miscigenada, incorporando novos vocábulos africanos e ameríndios, formando crioulos ou protocrioulos, tornou-a dinâmica, migratória, mestiça, dotando-a de uma maior flexibilidade e plasticidade, permitindo-lhe permanecer atuante e viva, o que a diáspora portuguesa, lusófona e contemporânea consolidou.

 

As quatro línguas europeias mais faladas (inglês, espanhol, português e francês), fruíram da primeira fase da globalização iniciada com a expansão portuguesa.

 

Tomando como referência a economia, um dos fatores mais decisivos para a utilidade funcional de uma língua, o nosso idioma sofre, de momento, algum défice, dado que a maioria dos países de língua oficial portuguesa ficam em África, continente deficitário em termos de desenvolvimento (embora também aí fiquem a maioria dos países de língua oficial francesa e uma parte significativa dos de língua inglesa).

 

Em contrapartida, tem melhor representação no continente americano, pelo Brasil, país de dimensão continental, maior número de falantes e potência emergente, sendo a língua mais falada do hemisfério sul, com grande potencial de crescimento demográfico, atenta a taxa de natalidade e população essencialmente jovem dos jovens países lusófonos.

 

Sendo o português uma língua de comunicação global enquanto materna e oficial de vários países de quatro continentes, associando um bloco linguístico global e internacional, corporizado e institucionalizado na CPLP, ultrapassado por uma comunidade linguística mais ampla que é a lusofonia, tem uma margem de crescimento superior, por exemplo, à do alemão, francês, italiano, russo, japonês. 

 

No caso da língua portuguesa, transitou-se de uma conceção lusista, lusíada, nacionalista e patrimonialista, para uma conceção não patrimonialista, partilhada, transcontinental, transnacional, lusófona e de exportação.

 

Sendo imperioso que seja útil ser usada por falantes de outras línguas, como segunda, terceira ou outra opção, apropriada, aceite, escolhida e querida como de exportação, informática e internauta, pois se servir apenas os seus nativos e maternos, não será um idioma internacional de comunicação global, antes sim uma língua internacional regional do ponto de vista global.     

 

É também tida como uma língua bipolar, assumindo o estatuto de língua global a nível mundial e o de “pequena língua” na Europa, sendo cada vez mais, em termos estatísticos, essencialmente não europeia, apesar da sua génese.

 

No dizer de Ivo de Castro, e sem esquecer a sua matriz galega: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”.                                   

 

Segundo Fernando Venâncio: “A experiência do português como instrumento de contactos alargados é não apenas uma surpresa: pode provar-se um deslumbramento. Isto deve-se, decisivamente, à abertura que sempre o português patenteou, à sua característica de bom aproveitador de quanto, à sua volta, achava de útil”. Uma língua em circuito aberto, acrescentando: “Mas, se fomos sobretudo um idioma importador, alguma coisa produzimos, também, de proveitoso para o largo mundo” (Assim nasceu uma língua, Guerra e Paz, 2019).       

 

Sucede que o mundo é cada vez menos eurocêntrico, há um ocidente em crise,  uma Europa em declínio, ausência de liderança europeia, sendo-nos preferencialmente favorável uma visão europeísta e atlantista, e a ter como exemplo evolutivo, no mundo ocidental, a liderança atual dos Estados Unidos da América, pode concluir-se que são e serão os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro o que, por analogia, está a suceder com a nossa língua.                

 

11.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LXIV - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (VI)

 

Uma vez que a expansão marítima europeia foi iniciada pelos portugueses, a sua língua, ou a adaptação dela, tornou-se a língua franca da maioria das regiões costeiras que se abriram ao comércio e aos empreendimentos europeus em todo o globo.

Mesmo quando substituídos por holandeses, o nosso idioma criou raízes fortes. Enquanto os holandeses dominaram a totalidade ou parte do nordeste brasileiro, não conseguiram impor a sua língua. O mesmo sucedeu em Angola e no Congo onde, apesar de a maioria dos Bantos se ter associado aos holandeses entre 1641 e 1648, os seus escravos, auxiliares e aliados negros continuaram a utilizar o português.

Na Ásia, o português e os dialetos crioulos criados a partir dele, resistiram com êxito à pressão e legislação oficial holandesa. O exemplo mais visível da vitória da língua portuguesa sobre a holandesa é-nos dado pela capital colonial holandesa de Batávia, tida como a rainha dos mares orientais. O dialeto crioulo constituído a partir do português foi introduzido por escravos e criados domésticos da região da baía de Bengala e era falado pelos holandeses e mulheres de casta intermédia nascidas e criadas em Batávia, por vezes com exclusão da sua própria língua. Apesar das críticas oficiais a este costume, a maior parte dos holandeses tinha por grande honra ser capaz de falar uma língua estrangeira. O mesmo sucedeu em outras zonas, por exemplo no Cabo da Boa Esperança, onde o português crioulo se manteve durante muito tempo e teve forte influência no desenvolvimento da língua africânder.

A língua portuguesa era tida como uma língua fácil de falar e de aprender, com caraterísticas de língua global, unitária e universal, atenta a posição privilegiada de Portugal como potência marítima mundial, como língua apropriada, absorvida, enriquecida e miscigenada com o falar de outros povos, elevada à categoria de primeira língua de comunicação e imperial, como sucede hoje com o inglês.

Como consequência, difundiu-se por todo o mundo, ora falada corretamente, outras vezes sob a forma de crioulos e pidgins. Exemplos de uma língua que teve por base o português europeu, mas que depois se afastou do idioma de origem, temos os crioulos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Casamanssa (Senegal), os papiás cristam de Malaca, de Ceilão, os crioulos malaio-portugueses de Java e Singapura e os crioulos indo-portugueses de Goa, Damão e Diu. O pidgin é o proto-crioulo que deu origem aos vários crioulos portugueses espalhados pelas costas africanas e asiáticas.
Mas a difusão do nosso idioma não foi rígido nem categoricamente imperativo.

No Brasil, por exemplo, o português conviveu com o tupi-guarani dos índios, chegando a ser mais falada esta sua língua geral que o nosso idioma, o que prova que nos primeiros tempos não existia uma tentativa deliberada e consciente de aí difundir a língua portuguesa, o mesmo sucedendo, em maior ou menor grau, com as restantes línguas europeias em relação às suas colónias.

Esta política manteve-se até meados do século XVIII, época em que o Marquês de Pombal, no caso português, expulsou os jesuítas do Brasil e obrigou ao ensino do nosso idioma em todo o território, assegurando a unidade linguística e o futuro da língua portuguesa como idioma daquele país. Idêntica política viria a ser adotada mais tardiamente nas colónias africanas.

Esta conceção de imperialismo linguístico, em que era necessário impor a língua do centro, era praticada pelas demais potências coloniais em geral, nomeadamente Portugal, Espanha, França e Inglaterra. Tinha raízes na Revolução Francesa, em que um ideólogo, Abbé Grégoire, impunha o uso do francês e a proibição do latim, política que foi tomada como modelo a seguir. A Conferência de Berlim, em 1848, reforçaria esta visão.

 

04.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LXIII - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (V)

Sendo a dilatação da fé uma das razões para a expansão marítima, viajavam nas naus sempre missionários que se estabeleciam nas terras descobertas ou conquistadas, evangelizando e convertendo povos ao cristianismo.

Com referência a esses viajantes da fé cristã, refiram-se os padres José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, António Vieira e frei Cristóvão de Lisboa (Brasil), e S. Francisco Xavier e S. João de Brito (Ásia).

Descoberto o caminho marítimo para a Índia, assegurado e consolidado o Império pela África, Ásia, América e Oceânia, através de nomes como D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Lopo Soares de Albergaria e D. João de Castro, o rei D. Manuel I tomou o título de Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar, em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, título pomposo coroando e glorificando essa globalização.

Há a ter presente o conhecimento geográfico e a exatidão náutica que as viagens marítimas portuguesas proporcionaram à Europa, porque as suas cartas e rotas eram as melhores, sendo por isso pioneiras dos impérios marítimos europeus.

Da escola cartográfica portuguesa, nasceu a cartografia moderna, com cartógrafos como Diogo e Lopo Homem, Pedro e Jorge Reinel, Luís Teixeira, João Freire, Sebastião Lopes, Manuel Godinho de Erédia e Fernão Vaz Dourado.

Escreve o historiador britânico J. H. Plumb: “(…) o fascínio pela observação exata encontrava-se na maioria dos grandes exploradores portugueses. Traçavam as suas rotas nas cartas com uma exatidão espantosa. Anotavam cuidadosamente os animais, a vegetação, os minérios e as raças desconhecidas que iam encontrando, à medida que desciam a costa de África. Nada foi deixado ao acaso nos seus descobrimentos. Foram deliberados, bem programados e audaciosamente executados (…)” (introdução ao livro de Charles Boxer “O Império Marítimo Português 1415-1825”).

Dessa aventura pelos mares, surge a “era gâmica”, nas palavras do historiador inglês Arnold Toynbee, contactando com todo o género humano e todas as geografias.

A tomada de consciência da existência de um outro grupo de seres humanos, a troca de olhares e os gestos que acompanharam o primeiro encontro entre dois grupos de seres humanos foram o princípio da globalização cultural - a fala, a escrita, a discussão, o texto impresso, virão depois.

A confraternização ou a luta que se seguem a esse encontro, a negociação ou a violência que os acompanham são tidos como o princípio da globalização política, passando a globalização político-militar após a vinda das armas, exércitos, diplomatas e tratados.

A gestão das intenções em relação à posse das coisas, em termos de propriedade, e que eventualmente irá mudar como corolário das primeiras negociações ou confrontos, é o princípio da globalização económica.

 

28.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXII - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (IV)

 

Em 1394, nasceu, no Porto, a 4 de março, o Infante D. Henrique, “O Navegador”, pioneiro dos descobrimentos e da globalização.

 

Foram, assim, os portugueses os formuladores e os construtores iniciais da globalização/mundialização, neste feito forjando os seus heróis, aqui assumindo especial relevo Fernão de Magalhães e a viagem de circum-navegação à volta do globo terrestre, a primeira a nível mundial.

 

Cumpre referir, entre muitos, João Gonçalves Zarco, Tristão Vaz Teixeira, Gonçalo Velho Cabral, Gil Eanes, Afonso Gonçalves Baldaia, Nuno Tristão, Álvaro Fernandes, Dinis Dias, Diogo Gomes, António da Nola, Pedro de Sintra, Fernão Gomes, João de Santarém, Pedro Escobar, Fernando Pó, Álvares Esteves, Diogo de Azambuja,  Diogo Cão, João Afonso de Aveiro, Bartolomeu Dias, João Fernandes Labrador, Pedro de Barcelos, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Duarte Pacheco Pereira, Diogo Dias, Gaspar Corte Real, João da Nova, Vicente Sodré, Tristão da Cunha, Diogo Lopes de Sequeira, Francisco Serrão, António de Abreu, Jorge Álvares, Fernão Mendes Pinto que refere, no seu livro “Peregrinação”, que em 1541 ele próprio e dois companheiros, Diogo Zeimoto e Cristóvão Borralho, foram os primeiros portugueses que chegaram ao Japão, tendo visitado a ilha de Tanegashima, cujo régulo prendaram com uma espingarda, tida como a primeira arma de fogo introduzida naquele país.

 

Outros viajantes se podem mencionar, como Afonso de Paiva e Pêro da Covilhã, aos quais, em 1487 e às ordens de D. João II, coube, ao primeiro, levar à corte etíope cartas dirigidas pelo monarca português ao Preste João, nome dado na Europa ao Imperador da Etiópia, enquanto o segundo ficou com o dever de obter frutuosa e sigilosa informação sobre o comércio e navegação no Oceano Índico. A que acrescem outros nomes como os de Lopo Gonçalves e Rui de Sequeira, Diogo de Teive, viagens pelo Atlântico Norte de João Vaz Corte Real e Álvaro Martins Homem; novas explorações da Terra Nova por Miguel Corte Real e do Golfo de São Lourenço (ao sul da Terra Nova) por João Álvares Fagundes; achamento das Maldivas atribuído a Simão de Andrade, entre tantos outros.

 

Continuaram os portugueses a percorrer os mares e a descobrir novas terras, mesmo que por conta das navegações espanholas. Portugueses como João Dias de Solis, de origem espanhola e nascido em Portugal, que em 1515 achou as costas meridionais da América do Sul e explorou o estuário do Rio da Prata, onde foi morto pelos indígenas; João Rodrigues Cabrilho, explorador da Califórnia (1542-1543); Pedro Fernandes de Queiroz, descobridor das Marquesas (1595) e das Novas-Hébridas (1606). Portugueses marinheiros e construtores iniciais da globalização, mesmo colaborando no estudo e execução da expansão marítima de outros povos. 

 

21.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício