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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


145. NÃO SOMOS A MEDIDA DE TODAS AS COISAS (II)


O que é mais poderoso que o homem é tradicionalmente associado ao nome de Deus. Nesta perspetiva, sendo omnipotente e o criador de todas as coisas, e Job um homem bom, piedoso e justo, interrogamo-nos porque se manteve Deus mudo perante o seu sofrimento, exercendo sobre ele, que não fora mau, o seu poder implacável, apesar da sua fidelidade, aflição e humildade, acabando por lhe endereçar uma das mais pertinentes interpelações do Velho Testamento (ver texto anterior).

Enquanto as vozes e lamentos de Job não chegavam ao céu, sendo vítima de sucessivas provações que o levaram a amaldiçoar o dia em que nasceu, a sua agonia e humilhação é, para muitos, bárbara, cruel e mesquinha, um momento injustificável da ausência e do silêncio de Deus, levando-os a não crer num Deus do bem e misericordioso, antes sim num Deus inflexível, punitivo e mau que, podendo, não elimina o mal.  

Esta apatia de Deus à dor, esta omissão e indiferença na relação que devemos ter com o outro, que deve ser o centro do nosso olhar e compaixão quando sofre, conduz muitas pessoas a questionarem-se se se pode acreditar em Deus, concluindo que não e tornando-se ateus. O mesmo perante os horrores do holocausto, a iniquidade de Auschwitz e do Goulag, os males da guerra e a pedofilia. Se Deus é infinitamente bom e criador do universo, porquê um Deus castigador, vingativo e sacrificial? Recordo, da minha infância, uma catequista ter justificado com a ira de Deus o afundamento do Titanic, provocado por um icebergue, dada a soberba humana de o ter como inafundável, sendo um exemplo de arrogância, vaidade e luxúria (pecado mortal).

É uma, entre várias, interrogações e interpretações, todas legítimas, em paralelo com a de que o universo é mais poderoso que nós, seres humanos frágeis e mortais, limitados na nossa finitude e imperfeição, portadores do bem e do mal, daí o afirmarmos, amiúde, que ninguém é perfeito, embora perfectíveis. 

Pode compreender-se, assim, que quando Job reclamou de Deus que lhe explicasse o facto de ter permitido que a sua vida se transformasse num acumular de sofrimento, apesar de ser um homem bom, a resposta se baseasse em chamar-lhe a atenção para as leis dos fenómenos naturais, que nos ultrapassam, como os rios, oceanos, relâmpagos, trovão, chuva, orvalho, granizo, neve, astros, céus, a que podemos adicionar a imensidão e o esmagamento de glaciares, icebergues, desertos, montanhas, dado que o universo é maior que nós, não estando ao nosso alcance saber a que lógica obedece, não admirando que Job não compreendesse o porquê do que de ilógico, em termos humanos, lhe acontecera, o que não demonstra que o universo seja ilógico per si.   

Há inúmeros fenómenos no universo que diminuem a nossa dimensão, que nos fazem sentir a nossa pequenez e fragilidade, que indiciam e transportam em si uma força, grandeza e monumentalidade maior, que nos ameaçam e desafiam, provocando-nos admiração e respeito, mesmo se humilhados porque mais poderosos que nós, o que se pode combinar com um desejo de adoração ou exclamação diante do ilimitado e sublime, lembrando-nos que a nossa vida (e a razão) não é a medida de todas as coisas, o que não implica aceitar, sem mais, a indiferença e a resignação.  


11.08.23
Joaquim M. M. Patrício 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS


144. NÃO SOMOS A MEDIDA DE TODAS AS COISAS (I)


O início do Livro de Job, texto da Bíblia, diz que Job, da terra de Us, era um homem bom, rico, justo e temente a Deus, afastando-se do mal. Tinha sete filhos, três filhas, sete mil ovelhas, três mil camelos, quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas e uma grande quantidade de escravos. As suas ordens eram cumpridas e as suas virtudes recompensadas. Um dia foi atingido pela desgraça e sujeito a provações. Os sabeus roubaram-lhe os bois e as jumentas, passando os servos a fio de espada. Os raios reduziram a cinzas as suas ovelhas e pastores. Os caldeus ficaram com os camelos. Um furacão, vindo do deserto, assolou a casa do seu filho primogénito, matando-o, e aos seus irmãos e irmãs. O corpo de Job cobriu-se de uma lepra maligna e, sentado e meditando entre ruínas, limpava as feridas e abandonou-se ao pranto. A mulher disse: “Persistes ainda na tua integridade? Amaldiçoa a Deus e morre de uma vez!” Respondeu-lhe Job: “Falas como uma insensata. Se recebemos os bens da mão de Deus, não aceitaremos também os males?”. Os amigos tinham como resposta para tamanho sofrimento os seus pecados. Deus não poderia ter dado a morte aos seus descendentes sem que estes e o pai tivessem agido mal: “Deus não abandona o homem íntegro, nem dá a mão aos malvados”.

Job rejeitou estas alegações, que considerou de charlatães e fazedores de mentiras. Se nunca fora um homem mau, qual o porquê deste infortúnio?    

Após várias interpelações dirigidas a Deus, eis que: “Então, do seio da tempestade, o Senhor respondeu a Job e disse:  

Quem é esse que obscurece os meus desígnios com palavras insensatas?

Cinge os rins como um homem; pois vou interrogar-te e tu responder-me-ás.

Onde estavas, quando lancei os fundamentos da terra?

Diz-mo, se a tua inteligência dá para tanto. 

Sabes quem determinou as suas dimensões?  

Quem pôs diques ao mar, quando, impetuoso, saía do seu seio materno?...

Alguma vez, na tua vida, deste ordens à manhã e indicaste o seu lugar à aurora, para que ela alcançasse as extremidades da terra e expulsasse dela os malfeitores?  

De que lado habita a luz? Qual o lugar das trevas? …  

Qual a maneira como se divide o relâmpago e por onde se expande o vento leste pela terra? 

Quem abre o caminho aos aguaceiros e as rotas ao trovão? …  

Terá a chuva um pai?   

Quem gera as gotas do orvalho?

De que seio sai o gelo?  

Conheces as leis do céu? A tua ordem faz surgir os relâmpagos?

És tu que dás força ao cavalo? … É pela tua sabedoria que o falcão levanta voo? … Acaso é à tua ordem que a águia levanta voo? …    

Queres condenar-me para te justificares? Tens um braço forte como o braço de Deus?”.   

Trata-se de um pequeno excerto de um livro do Antigo Testamento, causa de várias interpretações, desde a censura ao implacável poder de Deus, passando pela ética da compaixão, até à aceitação da nossa pequenez perante o que é mais forte, incluindo a incapacidade de justificar e superar acontecimentos que escapam às leis atuais do conhecimento humano. Desafiando-nos e podendo provocar ira, ressentimento, fragilidade e resignação (qual Prometeu e Sísifo), há que o interpretar e compreender, o que tentaremos.


04.08.23
Joaquim M. M. Patrício