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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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EM REBUSCA DO JAPÃO III

 

  Perdi-me (?) um pouco por outros devaneios, e só agora regresso à descoberta do haiku, seguindo citações de escritos de Mutsuo Takahashi, retomando uma análise do desempenho do hokku enquanto ovo da independência do haiku como poema:

 

   Embora não fosse totalmente independente, o hokku continha dois elementos que lhe permitiam uma certa independência: o kireji (palavras cortantes) e o kigo (palavras sazonais). A inclusão de kireji diferencia formalmente o hokku dos outros versos. O kigo é o elemento vital que sustém, do interior, a independência do hokku. Gostaria de falar do kigo com mais vagar.

 

   Porque a forma de cinco-sete-cinco sílabas é a mais curta forma poética fixa imaginável, o hokku deve conter nele o elemento que lhe confira a sua própria vitalidade. Tal elemento pode achar-se a emergir na mudança de estações capturada no kigo. As flores desabrocham na primavera; os cucos cantam no verão; a lua é mais linda no outono; a neve cai e cobre o chão no inverno.

 

   No kigo, as flores que desabrocham na primavera, especialmente as de cerejeira, são escolhidas para representar a essência das florações; a lua outonal para representar a lua de todas as estações. Claro que há flores que podem abrir no verão e no outono; e também a lua brilha no inverno e na primavera. Assim, ao facultar a uma imagem a exemplificação de um importante aspeto das estações, o kigo pode ser visto como um leque de convenções em que concordam os poetas que escrevem renga e haiku.

 

   Os kigo são reunidos em saijiki (almanaques sazonais), onde são classificados por estações e ilustrados por haiku. Tais saijiki acabam assim por ser quer compilações do sentido japonês das estações, quer antologias de excelentes hokku e haiku. [Não sei porquê, tais almanaques, mutatis mutandis, lembram-me um tantinho os nossos Borda d´Água...]

 

   Ele mesmo poeta e compositor de haiku, Mutsuo Takahashi não deixa de realçar até que ponto saijiki haiku pertencem e partilham uma herança comum do povo japonês, visto que, hoje ainda, cerca de 10% da população escreve haiku e consulta saijiki. Lembra-me, a mim, o lugar da quadra, por exemplo e sobretudo, na poesia popular portuguesa. E surgem-me, nesta manhã tão chuvosa de Maio, imagens de manjericos de Santo António com as suas bandeirinhas de versos amáveis que, dentro de um mês, ou menos ainda, virão perfumar-nos os ares e as almas... Regra alguma, nem conceito, nem preconceito poderão tornar-nos mais belo, transparente ou acessível o som essencial dessas vozes todas que um simples amor, aquém e além de nós desperta. E só as traduzimos sentindo nos com elas, como criança cujo choro se afoga na ternura da voz amiga que lhe fala.

 

    Como adiante veremos, há, por esse mundo, alguns, raros, grandes poetas que procuram, como disse Paul Claudel, aplicar nas suas línguas, transformando-os conforme o seu próprio gosto, os princípios da poesia japonesa, animados pelas seguintes ideias: cada poema é muito curto, de uma frase apenas, aquilo que possa sustentar, em som, sentido, palavras, um hálito, um sopro, ou o bater de asa de um leque. Por isso terá Claudel chamado ao seu livro de poemas curtos - a que voltarei - Cent frases pour éventails... Mas por aí também anda muito pretensioso - e alguns bastantes poetas medíocres - a "explicar técnicas" do haiku e até a publicar livros, supostamente obedientes a essa forma japonesa, de composições suas próprias... Mas desses não rezará a história. Mas vamos então aos casos  bons e sérios, e volto a citar Mutsuo Takahashi:

 

   Poetas eminentes de muitos países do Ocidente, e não só, andaram a tentar escrever haiku na sua língua. Na maioria dos casos, tentam adaptar cinco-sete-cinco às sílabas nas suas próprias línguas, e utilizar uma palavra que exprima natureza. Tive certa vez a oportunidade de traduzir para japonês todos os dezassete haiku que Jorge Luís Borges compusera segundo a forma nipónica. (Borges escreveu dezassete haiku em cinco-sete-cinco, por outras palavras, dezassete poemas de dezassete sílabas!). Gostei de traduzir os seus haiku.

 

   Quais poderiam ser as possibilidades do haiku na futura literatura global, no movimento poético global? Gostaria de deixar aqui uma previsão. Devido à sua extrema brevidade, o haiku muitas vezes coloca o seu tema no plano da frente, escondendo atrás a primeira pessoa do singular do poeta. Em muitos casos tal tema é uma coisa concreta, e tais coisas frequentemente se exprimem por kigo. Consequentemente, pergunto-me de isso nos poderá dar ou não um palpite sobre como os humanos deverão habitar a terra no futuro.

 

   Aqui deixo a dica e a interrogação. Mas no texto de Em rebusca do Japão III, voltarei a Claudel e à união entre poesia e caligrafia...

  

Camilo Martins de Oliveira

O grande BORGES, sempre!

 

Sueño que el mar, el mar aquel, me encierra

Y del sueño me salvan las campanas

de Dios, que santifican las mañanas

de estos íntimos campos de Inglaterra

 

Cinco años padecí mirando eternas

cosas de soledad y de infinito,

que ahora son essa historia que repito,

Ya como una obsesión, en las tabernas.

 

Dios me há devuelto al mundo de los hombres,

a espejos, puertas, números y nombres,

Y ya no soy aquel que eternamente

 

miraba el mar y su profunda estepa

Y cómo haré para que esse outro sepa

que estoy aqui, salvado, entre mi gente?

 

E como é possível que por detrás dos mitos e das máscaras, a alma esteja tão só?

 

Teresa Bracinha Vieira