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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


UN TEOLOGO EN LA MUERTE…
por Camilo Martins de Oliveira 


Minha Princesa de mim,


Escreveu-me a NC um bilhete, gratificante para mim, sobre umas reflexões que me ouvira durante o jantar em casa dos C de T. Referia-se à minha meditação sobre o amor como comunicação, procura do outro, movimento perpétuo, e a perplexidade como desamor, paragem. Perplexo - até na sua raiz latina - é o que está atado, embaraçado, ou seja, confuso, indeciso, condenado ao imobilismo. O amor não sabe lidar com a perplexidade, porque é necessariamente generoso e a generosidade é uma atitude da alma como gesto para o outro. "Generositas", em latim, quer dizer nobreza, aquilo que tem qualidade; o seu radical é "genus" que significa nascimento, origem. E, assim também, genuíno se diz do que é verdadeiro, autêntico, inato. O amor é verdade marcada, desde o início, no coração dos homens. É princípio e fim de tudo. Não hesita, é um impulso vital. Quando ocorre a morte de um ente querido, ou nos escandaliza o sofrimento, a miséria, o mal espalhado pelo mundo, há um momento de perplexidade em nós, como se Deus nos tivesse traído. Até Cristo gritou, do alto do martírio da sua cruz: "Pai, porque me abandonaste?" O impulso genético do amor esbarra no absurdo. Só sabemos, então, que o absurdo não se explica. E hesitamos entre essa perplexidade - que nos fecha a Deus, aos outros, ao mundo, e nos imobiliza na impotência - e o amor que nos abre e empurra para fora de nós, ao encontro do outro. A escolha será nossa: amor e perplexidade não são compatíveis. Parafraseando o Ortega y Gasset ("el hombre es un transfuga de la naturaleza"), diria que o amor é um trânsfuga da condição individual: só se torna atual se nos transcendermos por pensamentos, palavras e obras que não nos confinem na paixão dos nossos limites. Quem passou pelo sofrimento de um amor traído, ou de uma amizade esquecida, saberá melhor o que custa, afinal, ser fiel: porque, quando ficou perplexo, terá tido ganas de acusar o outro, de se vingar, fazendo-o sofrer, tornando-o expiatório. Talvez ainda, quando mais resignado a uma fatalidade sofrida como injustiça, fosse tentado a quedar-se na perplexidade, rendido à amargura e à desilusão. Ou, quiçá, tenha feito da sua mágoa uma oferta, guardando serenamente no coração o amor como dom... Dom de si na comunhão de todos, nessa comunicação inesgotável com o nosso ser universal. O amor põe-nos na eternidade, vem do princípio antes de nós e vai até além de qualquer limite que possamos conceber. Recordo "Un teólogo en la muerte", do Jorge Luis Borges, inspirado num relato dos "Arcania Caelestia" de Emanuel Swedenborg: «Los ángeles me comunicaron que quando falleció Melanchton, le fué suministrada en el otro mundo una casa ilusoriamente igual a la que habia tenido en la tierra. (A casi todos los recién venidos a la eternidad les sucede lo mismo y por eso creen que no han muerto). Los objetos domesticos eran iguales: la mesa, el escritorio con sus cajones, la biblioteca. En cuanto Melanchton se despertió en ese domicilio, reanudó sus tareas literarias como si no fuera un cadáver y escribió durante unos días sobre la justificación por la fe. Como era su costumbre no dijo una palabra sobre la caridad. Los ángeles notaran esa omissión y mandaron personas a interrogarlo. Melanchton les dijo: "He demonstrado irrefutablemente que el alma puede prescindir de la caridad y que para ingresar en el cielo basta la fe." Esas cosas les decía con soberbia y no sabia que ya estaba muerto y que su lugar no era el cielo. Cuando los ángeles oyeron esse discurso lo abandonaran”». O conceito de justificação pela fé, do protestante Melanchton, mesmo com o pensamento na suposta libertação dos fiéis cristãos da tutela uniformizadora da doutrina e da prática religiosa impostas pela igreja católica, resultará finalmente em fundamentalismos exclusivistas, essencialmente análogos ao espírito da Santa Inquisição. Como se a verdade que cada um entende -  e em que acredita - fosse superior ao amor que, à imagem e semelhança de Deus, deve ser comum a todos. "Ama e faz o que queres", disse Agostinho. "Ubi est caritas ibi Deus est", diz a tradição do ensinamento de Jesus. O único antídoto para a concupiscência -  que é pensar e fazer por si sem ver o Outro - é o bem-querer, é a humildade intangível de querer o bem. O que está inscrito, no coração dos homens, não é esta ou aquela fé. É simplesmente a fé no amor que se comunica e salva todos. Poderei crer que a forma de fé que professo seja aquela em que melhor se revela e realiza o amor primordial. E nesse movimento quererei comunicá-la. Sem nunca me esquecer de que não sou dono do amor. Assim também, no amor humano, o que vale não é o que no outro mais me agrada ou desagrada. É, tão difícil e simplesmente, a procura da comunicação. Mesmo a comunhão dos santos não é uma uniformidade, nem há comunhão se não houver diferença. Comungar é juntar em paz, num só corpo, as nossas diferenças. No seu diário íntimo, Alma Werfel que, nesse mês de janeiro de 1902, viria a chamar-se, pelo casamento com Gustav - o compositor, maestro e diretor da Ópera de Viena - Alma Mahler, escreve: " Ele quer mudar-me, mudar-me completamente. E eu também quero. Consigo-o enquanto estou a seu lado - mas basta-me ficar sozinha para que o meu outro eu, esta cabeça má e vaidosa, tenha vontade de reaparecer...  ... Ontem à tarde, suplicou-me que lhe falasse - e eu não consegui encontrar uma única palavra calorosa. Nem uma. Chorei. E nada mais...".  Alberto Moravia conclui o seu romance sobre o amor conjugal com este diálogo, numa igreja em ruínas, mas acolhedora, entre o narrador e sua mulher, já com história feita de encontros e desencontros: "- Penso que, daqui a uns tempos, quando nos conhecermos melhor, deverás, como ontem à noite dizias, recomeçar a escrever este romance... e tenho a certeza de que farás uma coisa bem feita! (diz a mulher). Não respondi e limitei-me a acariciar-lhe a mão. Mas por cima do seu ombro vislumbrei o capitel com cara de demónio, e pensei que, para retomar o meu romance, precisaria não só de conhecer o diabo tão bem como o canteiro que o esculpira, mas de conhecer igualmente o seu contrário. - Precisarei de muito tempo... - disse, com doçura. E estas palavras, pronunciadas em voz alta, concluíram o meu pensamento". E termino eu mais esta etapa da nossa digressão pelo labirinto claro da mente de Camilo Maria. Recordando a afirmação que encerra o "Some like it hot" do Billy Wilder: "Nobody is perfect!"


Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 10.05.13 neste blogue

CRÓNICA DA CULTURA

1.     A CASA DOS 4 CAMINHOS: quando a ideia do fim sobrevive ao fim

 

Acabo de encontrar um sentir-chave: eu já sou uma floresta à porta de um dos caminhos da Casa. Por ela ofereci um acesso.

Comuniquei.

Usei uma combinação de palavras que exprimiram uma nova luz e ela é nova ou não fosse uma descoberta consentida no meio metalinguístico.

Borges conhece bem o ser humano e as suas fragilidades. Ele sabe «que uma coisa sugerida é muito mais eficaz que uma coisa expressa.» Ele sabe que o que fica por dizer é capaz de atear um pacto com o fogo e com a neve.

E acrescenta: «Também se escrevem palavras para nos livrarmos delas»

Então pergunto: se assim não for choco com algo físico, algo sem emoção? Algo bruto?


Recordo-te Jorge Luis Borges


As ditaduras fomentam a opressão, as ditaduras fomentam o servilismo, as ditaduras fomentam a crueldade; mas o mais abominável é que elas fomentam a idiotia.


Sim. Ouvi-te.

Agora, de um fim dos tempos surgiu o corona e dos emplumados auditórios das elites até às marchas populares, ele roubou-lhes as audiências, as carpetes e os asfaltos, e os resíduos apenas batem às portas do bem-estar, por vezes com violência escutando dos ácidos insubstituíveis a promessa de se proporem construir-se em clonos invisíveis do outro lado das máscaras.


Bella Ciao
O bella ciao, bella ciao, bella ciao, ciao, ciao


Teresa Bracinha Vieira

EM REBUSCA DO JAPÃO III

 

  Perdi-me (?) um pouco por outros devaneios, e só agora regresso à descoberta do haiku, seguindo citações de escritos de Mutsuo Takahashi, retomando uma análise do desempenho do hokku enquanto ovo da independência do haiku como poema:

 

   Embora não fosse totalmente independente, o hokku continha dois elementos que lhe permitiam uma certa independência: o kireji (palavras cortantes) e o kigo (palavras sazonais). A inclusão de kireji diferencia formalmente o hokku dos outros versos. O kigo é o elemento vital que sustém, do interior, a independência do hokku. Gostaria de falar do kigo com mais vagar.

 

   Porque a forma de cinco-sete-cinco sílabas é a mais curta forma poética fixa imaginável, o hokku deve conter nele o elemento que lhe confira a sua própria vitalidade. Tal elemento pode achar-se a emergir na mudança de estações capturada no kigo. As flores desabrocham na primavera; os cucos cantam no verão; a lua é mais linda no outono; a neve cai e cobre o chão no inverno.

 

   No kigo, as flores que desabrocham na primavera, especialmente as de cerejeira, são escolhidas para representar a essência das florações; a lua outonal para representar a lua de todas as estações. Claro que há flores que podem abrir no verão e no outono; e também a lua brilha no inverno e na primavera. Assim, ao facultar a uma imagem a exemplificação de um importante aspeto das estações, o kigo pode ser visto como um leque de convenções em que concordam os poetas que escrevem renga e haiku.

 

   Os kigo são reunidos em saijiki (almanaques sazonais), onde são classificados por estações e ilustrados por haiku. Tais saijiki acabam assim por ser quer compilações do sentido japonês das estações, quer antologias de excelentes hokku e haiku. [Não sei porquê, tais almanaques, mutatis mutandis, lembram-me um tantinho os nossos Borda d´Água...]

 

   Ele mesmo poeta e compositor de haiku, Mutsuo Takahashi não deixa de realçar até que ponto saijiki haiku pertencem e partilham uma herança comum do povo japonês, visto que, hoje ainda, cerca de 10% da população escreve haiku e consulta saijiki. Lembra-me, a mim, o lugar da quadra, por exemplo e sobretudo, na poesia popular portuguesa. E surgem-me, nesta manhã tão chuvosa de Maio, imagens de manjericos de Santo António com as suas bandeirinhas de versos amáveis que, dentro de um mês, ou menos ainda, virão perfumar-nos os ares e as almas... Regra alguma, nem conceito, nem preconceito poderão tornar-nos mais belo, transparente ou acessível o som essencial dessas vozes todas que um simples amor, aquém e além de nós desperta. E só as traduzimos sentindo nos com elas, como criança cujo choro se afoga na ternura da voz amiga que lhe fala.

 

    Como adiante veremos, há, por esse mundo, alguns, raros, grandes poetas que procuram, como disse Paul Claudel, aplicar nas suas línguas, transformando-os conforme o seu próprio gosto, os princípios da poesia japonesa, animados pelas seguintes ideias: cada poema é muito curto, de uma frase apenas, aquilo que possa sustentar, em som, sentido, palavras, um hálito, um sopro, ou o bater de asa de um leque. Por isso terá Claudel chamado ao seu livro de poemas curtos - a que voltarei - Cent frases pour éventails... Mas por aí também anda muito pretensioso - e alguns bastantes poetas medíocres - a "explicar técnicas" do haiku e até a publicar livros, supostamente obedientes a essa forma japonesa, de composições suas próprias... Mas desses não rezará a história. Mas vamos então aos casos  bons e sérios, e volto a citar Mutsuo Takahashi:

 

   Poetas eminentes de muitos países do Ocidente, e não só, andaram a tentar escrever haiku na sua língua. Na maioria dos casos, tentam adaptar cinco-sete-cinco às sílabas nas suas próprias línguas, e utilizar uma palavra que exprima natureza. Tive certa vez a oportunidade de traduzir para japonês todos os dezassete haiku que Jorge Luís Borges compusera segundo a forma nipónica. (Borges escreveu dezassete haiku em cinco-sete-cinco, por outras palavras, dezassete poemas de dezassete sílabas!). Gostei de traduzir os seus haiku.

 

   Quais poderiam ser as possibilidades do haiku na futura literatura global, no movimento poético global? Gostaria de deixar aqui uma previsão. Devido à sua extrema brevidade, o haiku muitas vezes coloca o seu tema no plano da frente, escondendo atrás a primeira pessoa do singular do poeta. Em muitos casos tal tema é uma coisa concreta, e tais coisas frequentemente se exprimem por kigo. Consequentemente, pergunto-me de isso nos poderá dar ou não um palpite sobre como os humanos deverão habitar a terra no futuro.

 

   Aqui deixo a dica e a interrogação. Mas no texto de Em rebusca do Japão III, voltarei a Claudel e à união entre poesia e caligrafia...

  

Camilo Martins de Oliveira

O grande BORGES, sempre!

 

Sueño que el mar, el mar aquel, me encierra

Y del sueño me salvan las campanas

de Dios, que santifican las mañanas

de estos íntimos campos de Inglaterra

 

Cinco años padecí mirando eternas

cosas de soledad y de infinito,

que ahora son essa historia que repito,

Ya como una obsesión, en las tabernas.

 

Dios me há devuelto al mundo de los hombres,

a espejos, puertas, números y nombres,

Y ya no soy aquel que eternamente

 

miraba el mar y su profunda estepa

Y cómo haré para que esse outro sepa

que estoy aqui, salvado, entre mi gente?

 

E como é possível que por detrás dos mitos e das máscaras, a alma esteja tão só?

 

Teresa Bracinha Vieira