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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

JORNAIS E LIBERDADE

  


“O mundo jazia sepultado nas trevas da ignorância. Ninguém sabia as horas a que raiava a aurora nem os minutos em que despontavam os ministérios. Os Lausprenes e a Questão do Oriente passavam igualmente ignorados das multidões, e quando a gente se levantava pela manhã a primeira coisa que tinha de perguntar, para satisfazer a curiosidade própria, era se as inscrições tinham subido ou se porventura as instituições tinham descido… Eduardo Coelho então pôs-se em bicos de pés e disse ao seu compadre Tomás Quintino, aquele que mais tarde seria o comendador Antunes: - Faça-se o Diário de Notícias. E o Diário de Notícias foi impresso. Este Fiat custa hoje a cada um de nós 10 réis por dia, ou 240 réis por mês – assinatura paga adiantada em estampilhas ou vales do correio”.


Com este estilo bíblico, no “Álbum das Glórias” de Rafael Bordalo Pinheiro, Guilherme de Azevedo (1839-1882), sob o nome de João Rialto, em agosto de 1880, dizia como tinha nascido em 1864 um periódico, inteiramente novo, para preencher uma exigência da modernidade – a informação atualizada e desejavelmente verdadeira. A cidade ficou cheia dos pregões dos ardinas, que então nasceram para dar vida a um periódico noticioso para todos os públicos. E os jornais deixaram de ser sobretudo porta-vozes dos partidos ou de agremiações para passarem a ocupar-se da informação, em nome da liberdade de pensamento. Eduardo Coelho (1835-1889) e Tomás Quintino Antunes (1820-1898) trouxeram para a ribalta um jornal informativo, apartidário, para enriquecer a reflexão crítica. No Jardim de S. Pedro da Alcântara, nas proximidades do Bairro Alto, onde foi fundado o jornal, encontra-se um pequeno monumento, inaugurado em 1904, a assinalar o facto, que homenageia o jornalista e escritor Eduardo Coelho e os ardinas que popularizaram o novo diário informativo. Os antigos jornais onde pontuou Rodrigues Sampaio, “A Revolução de Setembro”, que viria a ser órgão dos Regeneradores e o clandestino “O Espetro” (1846-47), do tempo da guerra anti-cabralista, fizeram o seu tempo e abriram caminho a um jornalismo profissional.  Estamos distantes dessa época e a informação independente, rigorosa e fiável é mais necessária que nunca. Com as novas tecnologias de comunicação, não podemos esquecer a importância do jornalismo cívico. E estamos, de algum modo, no prolongamento do debate sobre a importância do livro e da leitura, cujo futuro dependerá das gerações, dos contextos e das experiências.


Quem se limitar a aceitar como fatalidade o fim dos livros e dos jornais, abrirá uma brecha no respeito dos direitos fundamentais, como se prescindíssemos das memórias antigas e dos velhos livros, revistas e ilustrações da nossa infância, a que regressamos com facilidade e gosto. Isto, para não falar das histórias de quadradinhos e da banda desenhada e da mais íntima ligação ao cheiro da tinta e à textura do papel. Invocar a importância da história e da continuidade de uma instituição como o Diário de Notícias não tem por isso a ver com argumentos nostálgicos, mas como a exigência cívica e pedagógica de uma sociedade civil ativa. Precisamos de jornais livres, abertos e interventivos, com profissionais dignificados, como parte integrante da civilização. Hoje lê-se de mil maneiras e ler é comunicar e aprender. A imprensa escrita, a rádio, a televisão e a internet constituem peças fundamentais para preservar a liberdade de informação e a salvaguarda da livre expressão do pensamento, numa ética de responsabilidade. Eis por que razão a autonomia e a liberdade do jornalismo livre e responsável têm de ser defendidas com intransigência. E em várias experiências em que se procedeu à digitalização para acesso livre e gratuito de obras fundamentais, verificou-se um aumento da leitura e até da procura das publicações em papel. Entenda-se, pois, que devemos aprender que há novas formas de usufruir os bens culturais, e que é essencial apoiar a independência e a liberdade.


GOM