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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA 

  


Cão


Envelhecemos lado a lado, meu amigo,
companheiro das sinuosas veredas de cardos e
urtigas,
guardador dos rebanho brancos e de cada
solitária rosa dos meus dias,
calámo-nos juntos, meu amigo,
companheiro de maculada voz,
e agora já não poderei levar-te desta margem às
outras margens,
onde havias de suavizar, ternamente, as minhas
feridas.
Sei que em breve te direi adeus.
Tenho medo de saber como serão as horas de
uma casa,
vazia para sempre, depois de ti.


in Esta voz é quase o vento, 2004


Dog


We grew old side by side, my friend,
my companion of winding paths of thistles
and nettles,
guardian of white flocks and
of the solitary rose of my days,
we stood silent together, my friend,
my companion of maculate voice,
and now I’ll no longer be able to take you from this shore
to another,
where you would, tenderly, soothe my wounds.
I know I’ll soon bid you farewell.
I dread knowing how the hours of a house
will be,
forever empty, after you.


© Translated by Ana Hudson, 2014
in Poems from the Portuguese

POEMS FROM THE PORTUGUESE

POEMA DE JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA


É a prata da minha amada


É a prata da minha amada.
Dir-lhe-ei docemente adeus,
e que não arranque os espinhos da primeira rosa,
subindo pela vida.
E quando eu caminhar pelo vale da sombra,
ela descerá ao pequeno porto, descalçando as sandálias,
mergulhando no mar,
repetindo os nomes de todos os que partiram,
de todos os que a amaram,
hesitando à entrada da taberna,
vendo o meu lugar vazio, o violino sobre a mesa, um
silêncio maior que a lentidão das praias,
e pensará em tudo, em cada som, em cada lágrima, em
nada.
Ela voltará as costas.
Nunca fomos deste mundo, dir-lhe-ei por fim, ao fechar
a última porta.


in Caminharei pelo Vale da Sombra, 2011


It is my beloved’s silver


It is my beloved’s silver.
I’ll gently say good-bye,
and tell her not to cut the thorns of the first
life-climbing rose.
And when I walk through the valley of the shadow,
she’ll come down to the small harbour, taking off her sandals,
dive into the sea,
repeating the names of all who left,
of all who loved her,
hesitating at the tavern door,
seeing my empty place, the violin on the table, a
silence greater than the slowness of the sea shores,
and she’ll consider everything, in each sound, in each tear, in
nothing.
She’ll turn her back.
We have never been of this world, I’ll finally tell her, as I close
the last door.


© Translated by Ana Hudson, 2014
in Poems from the Portuguese