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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM


Minha Princesa de mim:   


   Amigo meu referiu-me hoje uma frase lida, salvo erro, na revista Marianne. Tal dito recordava que, muito depois de Descartes ter afirmado Cogito, ergo sum, agora - pelo menos aparentemente - temos mais tendência a acreditar em Sou visto, logo existo. 


  
É hoje prática corrente e universal, que políticos e outras figuras públicas multipliquem périplos e aparições para "ganharem maior visibilidade", pois se julga que à aparência corresponde essencialmente o reconhecimento... Donde resulta ser a política, por exemplo, cada vez mais uma disciplina do "marketing".


   Ocorreu-me entretanto, por inopinada inspiração, um passo da narrativa de Max Gallo, historiador francês, intitulada La Chute de l´Empire Romain (XO Éditions, Paris 2014), que passo a traduzir:


   No primeiro de janeiro de 417, o imperador Honório decide partilhar, pela segunda vez, o cargo de cônsul com o general Constâncio e, ao remeter-lhe as insígnias dessa função - e a de patrício, que coloca Constâncio em pé de igualdade com a família imperial - torna Galla Placídia noiva do general.


   Galla Placídia deixa o imperador Honório pegar-lhe na mão e pô-la na de Constâncio. 
 


   Assim, ela própria quis que Honório surgisse como mestre de obra daquela união.


   Aprendera, durante os seis anos que fora obrigada viver no meio dos bárbaros godos, que de modo algum são as aparências que contam, mas sim o que elas escondem.


  
E era ela filha do imperador Teodósio o Grande, o tal que dividiu o império romano em dois, deixando um a cada um dos filhos: o império do ocidente ficou para Honório, a quem sucederia o sobrinho Plácido Valentiniano (419-455), filho de Galla Placídia e do general Constâncio e, por desígnio de sua mãe, último imperador de Roma. Um parágrafo desta narrativa de Max Gallo vai resumir as núpcias de Galla e Constâncio de modo muito especial:  


   Na Primavera do ano de 417, celebram-se as bodas. O general Constâncio pavoneia-se, o imperador Honório triunfa. Galla Placídia está de mármore.


  
E agora me ocorre um comentário mais íntimo, que fui buscar ao Memorial do Convento, do Saramago:


   ...mas isto é certamente defeito dos olhos que usamos, porque aí vem justamente uma mulher, e onde nós víamos um homem velho, vê ela um homem novo, o soldado a quem perguntou um dia, Que nome é o seu, ou nem sequer a esse vê, apenas a este homem que desce, sujo, canoso e maneta, Sete-Sóis de alcunha, se a merece tanta canseira, mas é um constante sol para esta mulher, não por sempre brilhar, mas por existir tanto, escondido de nuvens, tapado de eclipses, mas vivo, Santo Deus, e abre-lhe os braços, quem, abre-os ele a ela, abre-os ela a ele, ambos, são o escândalo da vila de Mafra, agarrarem-se assim um ao outro na praça pública, e com idade de sobra, talvez seja porque nunca tiveram filhos, talvez porque se vejam mais novos do que são, pobres cegos, ou porventura serão estes os únicos seres humanos que como são se vêem, é esse o modo mais difícil de ver, agora que eles estão juntos até os nossos olhos foram capazes de perceber que se tornaram belos. 


   Fecho os meus olhos, Princesa de mim, vou dormir, talvez sonhar à sombra de um sorriso que agora me ilumina e humaniza. O vero, o bom, o belo, o essencial é, consoladoramente, invisível à vista. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

E OUTRA AINDA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José Saramago:


   ...meu pai mal pode andar, acho que  lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar... diz Baltasar Sete Sóis, no Memorial do Convento,  quando, sob o efeito da saudade do desaparecido padre Bartolomeu e duns púcaros de vinho a mais, a sua mente oscila entre o aparente disparate de tal pensamento - que, todavia lhe inspira, a si, meu caro Saramago, essa frase que imagina a morte tão humana e tão bonita - e a confusão que as ideias sobre Deus geram em cabeças fragilizadas. Cito: ...Deus não tem a mão esquerda porque é à sua direita que senta os seus eleitos, e uma vez que os condenados vão para o inferno, à esquerda de Deus não vem a ficar ninguém, ora, se não fica lá ninguém, para que quereria Deus a mão esquerda, se a mão esquerda não serve, quer dizer que não existe, a minha mão serve porque não existe, é só a diferença, Talvez à esquerda de Deus esteja outro deus, talvez Deus esteja sentado à direita doutro deus, talvez Deus seja só um eleito doutro deus, talvez sejamos todos deuses sentados, donde é que estas coisas me vêm à cabeça é que eu não sei, disse Manuel Milho, e Baltasar rematou, Então sou eu o último da fila, à minha esquerda é que não se pode sentar ninguém, comigo acaba-se o mundo, donde vêm tais coisas à cabeça destes rústicos, analfabetos todos, menos João Anes, que tem algumas letras, é que nós não sabemos.


   
Venho saboreando a sua frase, tão humana e tão bonita: meu pai mal pode andar, acho que lhe estão a nascer raízes nos pés, ou é o coração à procura de terra para descansar.  Tantas vezes eu mesmo propriamente me sinto assim... tantas quantas me surpreendo a pensarsentir que um homem é árvore, nascida para crescer, dar sombra e fruto, e morrer de pé, num abraço ao chão que lhe sustentou a vida. Depois do abate, poderão queimar-me para dar calor e luz ainda, sem pretensões, apenas porque, para tal, possa ter algum préstimo. Nada me pertenceu ou pertence, só eu pertenci e pertencerei sempre a esse devir de que Deus é dono, e a que chamamos vida por vir, universo inteiro. 


   Nem aos filhos de Zebedeu Jesus garantiu lugares de privilégio no Reino do Pai, nem Baltasar sabe se, sentado no último lugar da fila, será ele o primeiro a cair pela esquerda, ou quando o mundo for acabar. Da mão esquerda de Deus, da sua utilidade e desígnios, tanto nada sabem os sábios humanos (incluindo os que se enaltecem de títulos sacerdotais) como João Anes ou qualquer dos seus analfabetos companheiros etilizados. Por mim, apenas ouso tentar adivinhar que, com mão esquerda ou sem ela, Deus terá decidido que o seu segredo só pode ser guardado no coração de cada humano de boa vontade.


    E ainda arrisco dizer que o José Saramago não discordará totalmente de mim, sobretudo se lhe ocorrer que, por me encontrar ainda do lado de cá da contemplação do mistério da vida e da morte, nesta idade e condição, também poderei sentir-me como quando era menino pequenino e carente de tudo, impotente ansiando por que uma inefável ternura tenha misericórdia de mim.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

MAIS OUTRA CARTA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José:


...e o padre Francisco Gonçalves, como lhe competia, respondeu, Todo o saber está em Deus, Assim é, respondeu o Voador, mas o saber de Deus é como um rio de água que vai correndo para o mar, é Deus a fonte, os homens o oceano, não valia a pena ter criado tanto universo se não fosse para ser assim, e a nós parece-nos impossível poder alguém dormir depois de ter dito ou  ouvido dizer coisas destas.


   
Ao escrever estas poucas linhas, mais do que as suas personagens, estaria o próprio autor inquieto. Você mesmo o confessa, meu caro José, ter-lhe-á sido difícil conciliar o sono depois de as ter pensado e redigido... A mente humana é muito sensível, por isso gosto de dizer que a expressão pensossinto me parece mais realista e acertada, e ainda mais conforme à inquietação que nos percorre e, por vezes, nos faz tremer, mesmo quando não tememos. Da ignorância diremos que é noite do espírito, escuridão, não temos medo necessariamente do que ela esconde, receamos, sim, a nossa própria incapacidade de desenhar as coisas e de, tão temerariamente quanto possível, as nomearmos. Noutro passo do seu Memorial, o José Saramago também se interroga sobre o significado de só Deus, o Sem Nome, saber o nome de tudo e todos, deixando-nos a nós, humanos, o labirinto que vamos semeando de invenções. Não ficou escrito assim, nem por esta ordem, mas assim veio habitar o meu pensarsentir.


   Aliás, a resposta do padre Francisco Gonçalves acima transcrita resulta de interpelação feita pelo padre Bartolomeu Lourenço, como significativamente o José conta no Memorial : Dormiu cada qual como pôde, com os seus próprios e secretos sonhos, que os sonhos são como as pessoas, acaso parecidos, mas nunca iguais, tão pouco rigoroso seria dizer Vi um homem, como Sonhei com água a correr, não chega isto para sabermos que homem era nem que água corria, a água que correu no sonho é água só do sonhador, não saberemos o que ela significa ao correr se não soubermos que sonhador é esse, e assim vamos do sonhador ao sonhado, do sonhado ao sonhador, perguntando, Um dia terão lástima de nós as gentes do futuro por sabermos tão pouco e tão mal, padre Francisco Gonçalves, isto dissera o padre Bartolomeu Lourenço antes de recolher ao seu quarto...


   
Tenho para comigo que a nossa humana inquietação brota duma qualquer mista consciência de perplexidade (ou, talvez, humilhação revolta) e de curiosidade (pertinaz, teimosa, ousada) - e, ao pensá-la assim, estou sentindo outra iluminação, um encanto novo no conto genético da tentação do fruto proibido da árvore do conhecimento. Será esse o paradoxo da condição humana, ou descoberta da nossa contingência na própria ânsia do cumprimento de uma promessa inicial e fundadora da nossa própria humanidade? Terão Adão e Eva errado por desejarem conhecer a verdade? Tal desejo não seria, afinal, já parte própria deles mesmo? Ou serão os erros cometidos condição necessária do conhecimento do bem e do mal?


   
No Memorial, eis o que diz padre Bartolomeu a Domenico Scarlatti: ... é um defeito comum nos homens, mais facilmente dizerem o que julgam querer ser ouvido por outrem do que cingirem-se à verdade, Porém, para que os homens possam cingir-se à verdade, terão primeiramente que conhecer os erros. E praticá-los, não saberei responder à pergunta com um simples sim ou um simples não, mas acredito na necessidade do erro...


... Tendes razão, disse o padre, mas, desse modo, não está homem livre de julgar abraçar a verdade e achar-se cingido com o erro, Como livre também não está de supor abraçar o erro e encontrar-se cingido com a verdade, respondeu o músico, e logo disse o padre, Lembrai-vos de que quando Pilatos perguntou a Jesus o que era a verdade, nem ele esperou pela resposta, nem o Salvador lha deu, Talvez soubessem ambos que não existe resposta para tal pergunta.


 
Ou talvez fosse só Pilatos cético, pois Jesus, Deus que era, não só se manteve calado durante todo o processo, como quiçá entendia que não chegara a hora de revelar um vislumbre sequer da verdade ontológica que só a Deus pertence... A cada um de nós cabe a tarefa de procurar a verdade possível de encontrar, e só o amor posto nesse trabalho nos trará o perdão que o ter-se amado consegue. E bem diz, meu caro Saramago: Procura cada qual, por seu próprio caminho, a graça,  seja ela o que for, uma simples paisagem com algum céu por cima, uma hora do dia ou da noite, duas árvores, três se forem as de Rembrandt, um murmúrio, sem sabermos se com isto se fecha o caminho ou finalmente se abre, e para onde, para outra paisagem, ou hora, ou árvore, ou murmúrio, veja-se este padre que anda a tirar de si um Deus e a pôr outro, mal sabendo que proveito haverá na troca, e, se proveito houver, quem dele finalmente aproveitará, veja-se este músico que outra música que esta não saberia compor, que não estará vivo daqui a cem anos, para ouvir a primeira sinfonia do homem, erradamente chamada Nona...


   
Ao Deus sem nome - e talvez por isso mesmo - deram os humanos muitos nomes. Ao Deus desconhecido inventaram histórias e preceitos, de forma a torná-lo por vários gostos reconhecível. Mas há um - cujo nome está acima de qualquer nome - que nos envia o seu Primogénito a ensinar-nos o Santo Nome: PAI. E nós assim dizemos: Pai nosso, que estás no Céu, santificado seja o teu nome... Veja bem, meu caro José Saramago, como, por este caminho, me vou despindo de orfandade, e pensossinto que religiosa ou religioso é todo o ser humano que, dia a dia, sai de si para ir em busca do Pai...

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTA NOVA A JOSÉ SARAMAGO


Meu Caro José Saramago:


   Nas minhas Cartas a José Saramago, todas publicadas, há uns anos (2013/14), no blogue do Centro Nacional de Cultura, nunca me debrucei sobre o Memorial do Convento, obra que sempre me falou menos do que outros escritos seus, com que dialoguei naqueles tempos... Dias atrás, todavia, resolvi pegar nesse livro de 1982, em edição donde não se apagara ainda a dedicatória do autor a Isabel da Nóbrega: À Isabel, porque nada perde ou repete, porque tudo cria e renova. Bonito dito, quase bíblico, deveria ter sido guardado pela mesma verdade que tão sinceramente o inspirou.


   Mas deixo o desabafo sozinho, ou talvez não. Acompanho-o de uma mais longa citação do próprio romance, quando o padre Bartolomeu Lourenço, em trabalhos de passarola, diz ao mutilado soldado Baltasar, conhecido pelo cognome de Sete-Sóis:


   «...maneta é Deus, e fez o universo».


   Baltasar recuou assustado, persignou-se rapidamente, como que para não dar tempo ao diabo de concluir as suas obras, Que está a dizer, padre Bartolomeu Lourenço, onde é que se escreveu que Deus é maneta, Ninguém escreveu, não está escrito, só eu digo que Deus não tem a mão esquerda, porque é à sua direita, à sua mão direita, que se sentam os eleitos, não se fala nunca da mão esquerda de Deus, nem as Sagradas Escrituras, nem os Doutores da Igreja, à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência, portanto Deus é maneta. Respirou fundo o padre, e concluiu, Da mão esquerda. 


   
Se estivesse agora a escrever-lhe, José Saramago, mais uma das minhas cartas intemporais (se fossem suas, seriam póstumas), dir-lhe-ia que, de Deus, nada sabemos, nem de direita, nem de esquerda. Todavia, por muitas e variadas imagens do Inferno que o engenho humano construa, nenhuma me parece tão verosímil como esta: à esquerda de Deus não se senta ninguém, é o vazio, o nada, a ausência. Isso mesmo: o Inferno é a ausência de Deus. Tão somente bastante. É evidente que outras representações, como as de sofrimento eterno ou de infinita tortura, tantas vezes resultantes de uma intenção de castigo vindicativo, nascem de visões antropomórficas do ser divino: os humanos - uns mais, outros menos - são propensos a gostar do espetáculo, ainda que só imaginário, do padecer alheio. Vá lá a gente perceber porquê, somos tentados a ser assim, até a própria Igreja - Santa Madre Igreja - consentiu e fomentou o Santo Ofício, a Santa Inquisição, o Santo Temor de Deus, do Rex Tremendae Majestatis, Senhor absoluto do Dies Irae. Parte importante da pedagogia cristã e do que se entende por Magistério da Igreja se fez incutindo o medo, o horror às profundas do Inferno, este surgindo como lugar de sevícias infligidas aos humanos pecadores por diabos a soldo do Deus castigador... A abundante iconografia é esclarecedora da insistência sadomasoquista nas misérias diabólicas do Inferno.


   Ora, com exceção de alguns poucos episódios (como a expulsão dos vendilhões do templo), os evangelhos não recorrem ao castigo como indispensável coadjutor da conduta moral, antes apelam à vocação libertadora da conversão para abrir a via de ultrapassagem do pecado - pecado que é a nossa teimosa paixão de nos confinarmos nos nossos próprios limites - e nos levar à descoberta da vida nova. Vai em paz e não voltes a pecar. Curiosamente, os pecados referidos, tais são conforme a lei mosaica, Jesus não cria qualquer catálogo de pecados novos (como a igreja clerical mais tarde o fará, remoendo sobretudo, e misoginamente, práticas sexuais), apenas ensina que o bem e o mal se cozinham no pensarsentir dos seres humanos, e é de cada um de nós que, bem ou mal, têm voz de saída. O único mandamento novo é o do amor fraterno, para que a nossa alegria seja completa. E quando nos chama a atenção para a escuta dos sinais dos tempos, e de Deus, conta a parábola do rico que desprezava o pobre Lázaro em vida, e que ,depois de morto, sufocado de sede no Inferno, pediu autorização para poder avisar seu irmão de que não deveria proceder como ele próprio, pois correria risco de castigo grande... É-lhe negado tal alívio : quem não escuta em vida a voz de Deus, nas vozes tantas que a vida nos traz, não saberá arrepender-se depois de morto. Nosso é só o tempo desta vida.  


   Ao afirmá-lo ocorre-me outro passo do Memorial, páginas adiante do já citado: Não é verdade que a mão esquerda não faça falta. Se Deus pode viver sem ela, é porque é Deus, um homem precisa das duas mãos, uma mão lava a outra, as duas lavam o rosto... Leio-o metaforicamente, Saramago toca aí em algo que as nossas ânsias de representação antropomórfica de Deus - teimamos em recriá-Lo à nossa imagem e semelhança - nos escondem: o Deus Vivo, não tem morte nem qualquer limitação, é simplesmente o Quem é, o Ser por si, alheio ao espaço e ao tempo. Nós, pelo contrário, somos contingentes, medimos o espaço que nos é alocado, contamos a vida e o tempo, organizamos a nossa mente e suas visões (é isso a cultura), moralizamos e legiferamos também, para podermos contar e julgar os atos. Agitamo-nos muito, condenamos ou "canonizamos", com feroz sofreguidão, sob o chicote da impaciente pressa do tempo. Esquecemos Deus, para quem um dia é igual a mil, e mais ainda nos esquecemos de que nada sabemos dele, nem da sua presença no coração de cada um de nós, cujo íntimo só Ele conhece. Estar à mão esquerda de Deus, poderá ser uma queda no esquecimento ou na nulidade, mas também significar que o Rex Tremendae Majestatis se esqueceu do castigo, pelo menos desde o dia em que o descobrimos na pessoa incarnada do Filho que nos ensinou como tudo é perdoado aos que muito amarem. Deus não tem mão esquerda. Mas nós temos inquietação. Nem o José, enquanto por cá andou, a conseguiu sempre disfarçar.


Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

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(XXVIII) MAFRA E JOSÉ SARAMAGO

 

Prémio Nobel da Literatura de língua portuguesa, José Saramago (1922-2010) tornou-se uma referência essencial dos estudiosos e cultores das literaturas da nossa língua comum, encontrando na sua obra razões fortes para desejarem conhecer melhor Portugal.

«Memorial do Convento» foi publicado em 1982 e constituiu um sucesso literário, pelo tratamento do tema, pela vivacidade e ritmo da escrita, pelo domínio da língua portuguesa. É o retrato do rei D. João V e da sua magnificência, num tempo dominado pela riqueza do ouro do Brasil no reino, numa rica convergência de elementos contraditórios, bem evidenciados na complexidade das personagens escolhidas. Para Saramago a personagem fundamental, em torno da qual tudo se desenvolve, é o magnífico Convento de Mafra (com órgãos únicos no mundo, carrilhões insuperáveis, livraria extraordinária, património invejável). «Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento de Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido»...

A riqueza do ouro, transportado em arcas, contrasta com os vários operários anónimos que contribuem para a magnífica construção. E entre eles, está Baltasar Mateus, que tem a alcunha de “Sete-Sóis” porque vive atraído pela luz, tendo perdido a mão esquerda na guerra da sucessão de Espanha. Baltazar ama Blimunda Jesus, chamada de “Sete-Luas”, porque consegue ver no escuro e por dentro das pessoas. Esta, ao ter esta capacidade, consegue recolher as vontades de cada um, como nuvens abertas ou nuvens fechadas. Os dois conhecem um clérigo visionário, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, “o voador”, marcado pelo espírito científico e pela heterodoxia religiosa, que inicia a construção de um aparelho voador, a Passarola, com o objetivo de subir em direção ao Sol, em lugares a que só Cristo e os santos tinham chegado. A concretização deste sonho torna-se uma obsessão e leva-o a viajar primeiro para a Holanda, em busca do segredo, que permitiria a Passarola voar, e depois para Coimbra, onde se doutorou. É ele, aliás, quem realiza o batismo e a comunhão de Sete-Luas e Sete-Sóis: «o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou: Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um». Após um dos voos da Passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição, enquanto Blimunda e Baltasar tratam de esconder o aparelho entre os arbustos da serra e de fazer a sua manutenção. Não podemos esquecer a figura do músico Domenico Scarlatti que, a convite do Padre Bartolomeu, participa no projeto da Passarola, como testemunha silenciosa. Então une-se a ciência e a arte, como reveladoras de um espírito de inovação e de abertura ao progresso. Scarlatti instala secretamente o seu cravo na Quinta do Duque de Aveiro, onde toca a sua música e inspira a construção da Passarola, símbolo dos novos tempos das luzes. E quando Blimunda fica com a estranha doença do esgotamento na recolha das vontades, a arte do músico provoca uma cura completa. Um dia, Baltasar ficou preso à passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave então despenha-se e Baltasar é capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. Blimunda recolhe, no epílogo do romance, a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira. E quem é Baltazar? Um homem simples, rudimentar, resignado, terno e fiel, que ama Blimunda, a qual compensa a mão que lhe falta, mas que lhe permite compreender para além do que vê, aceitando o que a vida lhe oferece. E no final é Blimunda quem sobrevive, ela que aprendera tudo o que sabia ainda no seio de sua mãe, onde estivera de olhos abertos.

Se o Memorial é referência essencial, importa lembrar a sombra de Fernando Pessoa e de Ricardo Reis, médico e latinista, nascido em 19 de setembro de 1887. É um homem solitário, que gosta de almoçar em pequenos restaurantes. E pede aos empregados que ponham o lugar à sua frente para um companheiro imaginário. E imagina histórias sobre hóspedes que frequentam o hotel. Cria familiaridade com o gerente, Senhor Salvador, e com Pimenta que lhe carrega as malas, mas também com Lídia, a empregada que lhe limpa o quarto, onde lhe serve o pequeno-almoço. Mas não deixa de chamar a atenção da polícia política, que se interroga sobre a verdadeira razão da sua vinda do Brasil. As notícias que lê todos os dias nos jornais desenham uma pátria pacífica, um oásis num mundo agitado. É “onde o mar acaba e a terra principia, chove sobre a cidade pálida, as águas do rio correm turvas do barro, há cheia nas lezírias” … Reis chega no dia 29 de dezembro de 1935. Os periódicos, em geral, pintam um retrato idílico do país em que Salazar faz o seu caminho. No fim do interrogatório, a que não escapa, na PVDE sente à saída da António Maria Cardoso um fedor a cebola que exalava Victor, o inevitável informador. E o certo é que noutros momentos esse cheiro característico rondava por perto. Ricardo Reis encontra-se com País que deixara anos antes por fidelidade às suas ideias monárquicas… Mas, com Fernando Pessoa, com a revolta dos marinheiros de setembro de 1936 em fundo, vai desvanecer-se no alto de Santa Catarina sem que alguém desse por isso… “O Adamastor não se voltou para ver, parecia-lhe que desta vez ia ser capaz de dar o grande grito. Aqui onde o mar se acabou e a terra espera”...

GOM

 


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TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

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"MEMORIAL DO CONVENTO" de JOSÉ SARAMAGO (XXII)

 

«Memorial do Convento» de José Saramago (1922-2010) foi publicado em 1982 e constituiu um grande sucesso literário, pelo tratamento do tema, pela vivacidade e ritmo da escrita, pelo domínio da língua portuguesa.

É o retrato do rei D. João V e da sua magnificência, num tempo dominado pela riqueza do ouro do Brasil no reino, numa rica convergência de elementos contraditórios, bem evidenciados na complexidade das personagens escolhidas.

Se para Victor Hugo o protagonista de “Notre-Dame de Paris” foi a própria catedral, também para Saramago a personagem fundamental, em torno da qual tudo se desenvolve o romance, é o Convento de Mafra. «Era uma vez um rei que fez promessa de levantar um convento de Mafra. Era uma vez a gente que construiu esse convento. Era uma vez um soldado maneta e uma mulher que tinha poderes. Era uma vez um padre que queria voar e morreu doido»...

A riqueza do ouro, transportado em arcas, contrasta com os vários operários anónimos que contribuem para a magnífica construção. E entre eles, está Baltasar Mateus, que tem a alcunha de “Sete-Sóis” porque vive atraído pela luz, tendo perdido a mão esquerda na guerra da sucessão de Espanha. Baltazar ama Blimunda Jesus, chamada de “Sete-Luas”, porque consegue ver no escuro e por dentro das pessoas. Esta, ao ter esta capacidade, consegue recolher as vontades de cada um, como nuvens abertas ou nuvens fechadas. Os dois conhecem um clérigo visionário, o Padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, “o voador”, marcado pelo espírito científico e pela heterodoxia religiosa, que inicia a construção de um aparelho voador, a Passarola, com o objetivo de subir em direção ao Sol, em lugares a que só Cristo e os santos tinham chegado. A concretização deste sonho torna-se uma obsessão e leva-o a viajar primeiro para a Holanda, em busca do segredo, que permitiria a Passarola voar, e depois para Coimbra, onde se doutorou. É ele, aliás, quem realiza o batismo e a comunhão de Sete-Luas e Sete-Sóis: «o padre virou-se para ela, sorriu, olhou um e olhou outro, e declarou: Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um». Após um dos voos da Passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição, enquanto Blimunda e Baltasar tratam de esconder o aparelho entre os arbustos da serra e de fazer a sua manutenção.

Não podemos esquecer a figura do grande músico Domenico Scarlatti que, a convite do Padre Bartolomeu, participa no projeto da Passarola, como testemunha silenciosa. Então une-se a ciência e a arte, como reveladoras de um espírito de inovação, de respeito e de abertura ao progresso. Scarlatti instala secretamente o seu cravo na Quinta do Duque de Aveiro, onde toca a sua música e inspira a construção da Passarola, símbolo da modernidade e dos novos tempos das luzes. E quando Blimunda fica com a estranha doença do esgotamento na recolha das vontades, a arte do músico provoca uma cura completa. Um dia, Baltasar ficou preso à passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave então despenha-se e Baltasar é capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. Blimunda recolhe, no epílogo do romance, a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira.

E quem é Baltazar? Um homem simples, rudimentar, resignado, terno e fiel, que ama Blimunda, a qual compensa a mão que lhe falta, mas que lhe permite compreender para além do que vê, aceitando o que a vida lhe oferece. E no final é Blimunda quem sobrevive, ela que aprendera tudo o que sabia ainda no seio de sua mãe, onde estivera de olhos abertos.

 

Agostinho de Morais

 

 

SOBRE SARAMAGO E DEUS

 

O Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra e a Câmara Municipal de Coimbra organizaram nos passados dias 8, 9 e 10 de Outubro, no Convento de São Francisco de Coimbra, um Congresso Internacional: “José Saramago: 20 anos com o Prémio Nobel”. Carlos Reis e Ana Peixinho pediram-me uma intervenção sobre Saramago e Deus. O que aí fica é uma breve síntese da minha fala nesse Congresso.

 

1. Numa entrevista dada a João Céu e Silva, uma das últimas, se não a última, Saramago referiu-se-me com admiração por ter lido e gostado do seu livro Caim. “Até fiquei surpreendido quando ouvi um teólogo — uma coisa é um teólogo e outra um padre — Anselmo Borges, dizer que tinha gostado do livro”. Mas na Net também se diz, e é verdade, que fui crítico por causa de alguma unilateralidade com que Saramago leu a Bíblia. Assim, a minha intervenção quer ser essencialmente um esclarecimento sobre essa minha dupla visão.

 

2. Saramago foi à Academia Sueca dizer, no dia 7 de Dezembro de 1998, logo na primeira frase: “O homem mais sábio que conheci em toda a minha vida não sabia ler nem escrever”.

 

Quando me expresso sobre o diálogo inter-religioso, digo sempre, com escândalo de alguns, que desse diálogo também fazem parte os ateus, os ateus que sabem o que isso quer dizer — os crentes também só o são verdadeiramente, se souberem o que isso quer dizer. Fazem parte, porque são eles que, estando de fora, mais facilmente vêem as superstições, as inumanidades e até as barbaridades que tantas vezes infectam as religiões. Assim, à maneira de Saramago, também digo: foi com dois ateus que aprendi do melhor da Teologia: Ernst Bloch e o nosso homenageado, José Saramago. Mais com Bloch, porque, dada a situação da Teologia na Universidade alemã — em todas as Universidades, há duas Faculdades de Teologia, uma católica e outra protestante —, ele tinha profundos conhecimentos bíblicos. Neste enquadramento, refiro três pontos.

 

2.1. Também sou ateu em relação ao deus denunciado por eles. Porque é isso que se deve ser, se se quiser manter a dignidade humana face a um deus brutal, irresponsável, ciumento, mesquinho, tirânico, cruel, sádico, sanguinário... Neste sentido, estou de acordo com Ernst Bloch, quando escreveu que “só um bom ateu pode ser um bom cristão, só um bom cristão pode ser um bom ateu”.

 

Previno que a boa exegese mostra que nem sempre está no texto bíblico aquilo que o puseram a dizer e que passou à tradição. Por exemplo, o caso de Isaac, cujo significado é o contrário daquilo que frequentemente se ensinou: ao aparecer o cordeiro, Deus está a proclamar que não quer o sacrifício de seres humanos. Mas, de facto,  muitas vezes foi a outra tradição que passou, aquela a que se referiu o prestigiado biblista católico do século XX, Norbert Lohfink, quando constatou que a Bíblia judaica é “um dos livros mais cheios de sangue da literatura mundial”.

 

Como aceitar um deus que castigasse a Humanidade inteira por causa de os primeiros pais terem comido uma maçã? De qualquer modo, no quadro da evolução, quem foram os primeiros e como é que poderiam ter um acto de liberdade tal que arrastasse consigo todos os males do mundo, incluindo a morte? Que sentido pode ter um pecado original herdado, de tal modo que todas as crianças seriam geradas em pecado, do qual só o baptismo pode libertar?

 

E Jesus não foi enviado por Deus para ser morto e com a sua morte pagar a dívida infinita da Humanidade para com Deus e Deus aplacar a sua ira e reconciliar-se com a Humanidade. Que pai decente imporia isso ao seu filho querido, condenando-o à morte?

 

Caim, segundo Saramago, vai, castigado, pelo mundo, não sem perguntar a deus porque é que o não impediu de matar o irmão, Abel. Deus é, pois, co-responsável por esse acto...

 

Trata-se de um deus arbitrário, irresponsável, ciumento, pior do que nós.  

 

Ficamos arrepiados, quando lemos que Deus exigiu de Abraão que matasse o seu filho Isaac. O próprio filósofo Sören Kierkegaard, que propunha Abraão como modelo da fé incondicional, viu o horror da situação e diz que o miúdo voltou para casa e deixou de acreditar em deus e Abraão nunca disse uma palavra a Sara sobre o acontecido.

 

Sodoma e Gomorra. Lá também havia crianças inocentes. E deus não se lembrou delas?

 

Babel. Deus, em vez de castigar os homens pelo seu feito, deveria honrar-se com o êxito das suas criaturas. É ciumento, invejoso.

 

Também no Dilúvio, deus não teve compaixão para com os inocentes. A mesma acusação vale para a situação dos filhos primogénitos dos egípcios.

 

Ah, e, aquando do nascimento de Jesus, houve a matança dos inocentes e José não se preocupou. No regresso do Egipto nem sequer perguntou às mães pela sua dor...

 

Do pior: as guerras religiosas, pois é deus contra deus, e as vítimas são os homens e as mulheres e as crianças... Como é possível deus mandar matar, haver guerras em nome de deus?

 

2.2. Ernst Bloch foi mais longe. Sabendo Teologia e exegese, distinguiu muito bem duas camadas na Bíblia: a do deus dos senhores, do deus dominador, tirânico, imoral e opressor e a do Deus da libertação e dignificação de todos. Em conexão, viu também dois tipos de Igreja: a Igreja dos senhores, a Igreja do poder inquisitorial, opressora, e a Igreja dos pobres, do bem, da justiça, da paz. Para Bloch, há um duplo fio condutor na Bíblia: o sacerdotal, em que domina o deus opressor, dos senhores, e o profético-messiânico-apocalíptico, que anuncia o Reino de Deus, a herdar meta-religiosamente como Reino do Homem: “Esta vida no horizonte do futuro veio ao mundo pela Bíblia.”

 

Jesus agiu como um homem bom, escreve Bloch, “algo que ainda não tinha acontecido”. Ele personifica a bondade e o amor e nele exprime-se e realiza-se o melhor da esperança, o ainda não do que a Humanidade pode e deve ser. Ele não foi morto por Deus seu Pai, mas pelo religião do Templo, a religião dos sacerdotes, que viviam da exploração dos crentes.

 

O que devemos ao cristianismo? O próprio conceito de pessoa foi dentro dos debates à volta da tentativa de compreender Jesus Cristo que surgiu. Sabemos que nenhum homem pode ser “tratado como gado”: foi através de Jesus que o sabemos, porque nele, por ele e com ele, se proclama a dignidade infinita de todo o ser humano.

 

Onde é que nasceu a Declaração dos Direitos Humanos? Foi na China? Na Arábia?

 

Jürgen Habermas, o filósofo mais influente da actualidade, agnóstico, escreveu que a democracia não é senão a tradução para a política da ideia cristã de que cada homem e cada mulher são filhos de Deus. Isso, politicamente traduzido, dá um homem um voto, uma mulher um voto.

 

Não haveria o horror da pedofilia, também na Igreja, se se ouvisse a maior proclamação de sempre feita por Jesus sobre a dignidade das crianças: “Deixai vir a mim as criancinhas, porque delas é o Reino de Deus”, acrescentando logo a seguir: “Ai de quem escandalizar uma criança: mais valia atar-lhe uma mó de moinho ao pescoço e ser lançado ao mar”.

 

Tudo isto para repetir o que disse logo no início da minha fala: estou grato, muito grato, a Saramago, mas não aceito a sua afirmação: “A história dos homens é a história dos seus desentendimentos com deus, nem ele nos entende a nós, nem nós o entendemos a ele”. A sua leitura foi unilateral.

 

3. O que é ser ateu? Quando se diz que se é ateu, é preciso começar por perguntar o que se entende por isso e concretamente em relação a que Deus se é ateu.

 

Há dois modos de negação de Deus: a negação real e a negação determinada.

 

Por negação determinada entende-se a negação de um determinado deus, de uma certa imagem de deus. Foi o que Saramago fez. Como podia ele ou alguém intelectualmente honesto aceitar um deus cruel e sanguinário? Daí a inversão da oração de Cristo na Cruz, no Evangelho segundo Jesus Cristo.  Onde no Evangelho se diz: “Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem”, lê-se em Saramago: “Homens, perdoai-lhe porque ele não sabe o que fez”.

 

A negação determinada não significa negação real. A pergunta é, portanto, se Saramago negou realmente Deus ou se, pelo contrário, na negação do deus arbitrário e sanguinário, não está dialecticamente presente o clamor pelo único Deus verdadeiro, o do amor incondicional, o do Anti-mal.

 

De qualquer modo, segundo Saramago, “Deus é o silêncio do universo, e o ser humano o grito que dá sentido a esse silêncio”. “Esta definição de Saramago é a mais bela que alguma vez li ou ouvi”, escreveu o teólogo Juan José Tamayo. “Essa definição está mais perto de um místico do que de um ateu”.

 

4. No final da minha intervenção, a viúva de Saramago, Pilar del Río, aproximou-se, agradeceu e disse-me: Sabe qual foi o contexto desse diálogo entre o meu marido e Tamayo? Íamos os três pela Plaza de la Giralda, em Sevilha, e os sinos da catedral repicaram, e Saramago: “Os sinos tocam porque está um teólogo a passar”. E Tamayo retorquiu: “Não, os sinos repicam porque um ateu está prestes a converter-se ao cristianismo”.

 

Anselmo Borges

Padre e professor de Filosofia
Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN | 24 NOV 2018

MAFRA – UM MEMORIAL DE CONVENTO…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 28

 

O Convento e Palácio Nacional de Mafra constitui uma das grandes referências europeias do barroco setecentista. A edificação propriamente dita, a Biblioteca única na diversidade e valia das obras nela integradas, o sistema de carrilhões (apoiado pela campanha dos 7 monumentos maia ameaçados da Europa Nostra), os órgãos da basílica – tudo aponta para um dos exemplos mais importantes da criação artística e arquitetónica da humanidade. Os trabalhos da construção iniciaram-se em 1717 por iniciativa de D. João V, em virtude de uma promessa em nome da descendência que viesse a ter da rainha D. Maria Ana de Áustria. Concebido inicialmente como um pequeno convento para 13 frades, o projeto para o Real Convento foi sofrendo sucessivos alargamentos, acabando num imenso edifício de cerca de 40.000 m2, com todas as dependências e pertences necessários à vida quotidiana de 300 frades da Ordem dos Frades Menores. O edifício ocupa uma área aproximada de quatro hectares (37.790 m2). Construído em pedra de lioz, abundante na região, é constituído por 1200 divisões, mais de 4700 portas e janelas, 156 escadarias e 29 pátios e saguões. No convento gastavam-se, quando começou a funcionar, anualmente 120 pipas de vinho, 70 pipas de azeite, 13 moios de arroz (cada moio corresponde a 828 litros) ou 600 cabeças de vaca. Junto ao Convento ficava o chamado Jardim da Cerca, com horta e pomar, vários tanques de água e sete campos de jogos, quatro da bola, um do aro e dois de laranjinha. Foi escolhido para arquiteto João Frederico Ludovice, ourives, arquiteto e engenheiro militar prussiano de formação italiana. Dirige a obra até 1730 e para sua conclusão ficará seu filho João Pedro Ludovice, também arquiteto. Para os altares da Real Basílica e diversas capelas, bem como áreas conventuais, como a portaria e o refeitório, o rei encomendou uma coleção de pintura religiosa, na qual avultam obras dos pintores italianos Masucci, Giaquinto, Trevisani e Battoni e de portugueses bolseiros em Roma como Vieira Lusitano e Inácio de Oliveira Bernardes. A coleção de escultura foi encomendada a grandes mestres italianos, entre os quais se contam Lironi, Monaldi, Bracci, Maini, Corsini, Rusconi e Ludovisi, constituindo a mais importante coleção de escultura barroca italiana fora de Itália, formada por 58 estátuas de mármore de Carrara, que inclui estudos em terracota e a produção da Escola de Escultura de Mafra, criada no reinado de D. José, sob a direção do mestre italiano Alessandro Giusti, e por onde passaram importantes escultores como Machado de Castro. Há ainda uma importante coleção de paramentos produzidos em Itália e em França.


A construção e a mitologia em seu entorno foi tema do romance de José Saramago “Memorial do Convento”. Entre os operários do Convento estava Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, e o romance trata do seu grande amor por Blimunda Jesus, mulher dotada do estranho poder de ver o interior das pessoas. Os dois conhecem o célebre padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, que entrou na história como pioneiro das máquinas voadoras. Desse encontro vai resultar a construção de um aparelho voador, a Passarola, que sobe em direção ao Sol, sendo que este atrai as vontades, que estão presas dentro da Passarola. Blimunda Jesus, ao ver o interior das pessoas, recolhe as suas vontades, descritas pelo autor como nuvens abertas ou nuvens fechadas.


Após um dos voos da passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição. Blimunda e Baltasar vão tratando de esconder e de fazer a manutenção à Passarola, que estava dissimulada por arbustos em Montejunto. Um dia, Baltasar ficou preso à Passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave despenhou-se e Baltasar foi capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. No epílogo da ação, Blimunda recolhe a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira.


Aqui património, tradição, sonho e imaginação encontram-se notavelmente…


E oiçamos José Saramago:


“Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.”


“Que sentes tu dentro de ti, Que ninguém se salva, que ninguém se perde, É pecado pensar assim, O pecado não existe, só há morte e vida, A vida está antes da morte, Enganas-te, Baltasar, a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, E quando vamos para debaixo da terra, e quando Francisco Marques fica esmagado sob o carro da pedra, não será isso morte sem recurso, Se estamos falando dele, nasce Francisco Marques, Mas ele não o sabe, Tal como nós não sabemos bastante quem somos, e, apesar disso, estamos vivos, Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo.”


“Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lasca de carvão de pedra.”

 

 

    Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A Mulher Infiel

 

Romance de Jules Roy com tradução de José Saramago para a Estúdios Cor

 

Jules Roy é um escritor da linhagem de Saint-Exupéry. Pierre Loewell recorda mesmo que é o único escritor francês que a guerra fez aparecer. Direi que não obstante os prémios que a sua obra recebeu, a profundidade com que escreve faz dele uma marca das obras clássicas. O presente romance foi Grande Prémio de Literatura da Academia Francesa e orgulho sincero de Nataniel Costa o publicar na Coleção LATITUDE da editora Estúdios Cor.

 

E também julgo que o meio-dia estava próximo quando no esbulho dos livros amados o encontrei de novo. Coloquei-o em cima da secretária.

 

Dentro e fora de um avião que se despenhara no mar, a mulher infiel, e dentro dele o homem que tão bem e tão mal amava a sua mulher infiel ou, tão só e tão tudo: a mulher infiel.

 

Sabia que o caminho até ela seria percorrido através dos homens que ela tivera e, no entanto, este caminho ia dar ao mar, para sempre num atrevimento de quem o decifrasse.

 

Um telegrama anuncia na base dos capitães a queda deste avião trôpego, mas que cumpria a sua função como nenhum outro, ou, o seu piloto, a cada dia não fosse nele como quem vai para o amor eterno e com ele medisse forças.

 

A morte podia tornar insuportável o que a vida de um modo ou outro ajudara a aceitar. A presença da mulher infiel que ainda não tinha tido conhecimento da notícia, era uma presença de corpo de desejo que desafiava as regras estabelecidas. Era uma mulher que todos queriam pela carga de felicidade que lhes tornava mais tensa a posse que com ela mediam forças para se não deixar partir. Era como quem dizia o dono sou eu.

 

Todavia, a espécie de alegria confusa e sombria, depois do amor, arrastava-se nos homens até a amarem e amarem e admirarem o marido, excelente pessoa, o melhor piloto da base, agora morto e que nunca explicara a tolerância do que fingira não conhecer ou ele não fosse o único que a levava, à mulher infiel, nos braços, céu adentro no cockpit do pequeno avião, conjuntamente com as asas que lhe desenhara para a eventualidade de um avião inimigo atingir o seu. Então, ele iria para o mar. Ela não. Diante da maldade dos homens, ela sobreviveria, e, eles, honrados como eram, montariam uma encenação de tristeza para reduzirem a crueldade de lhe terem roubado a mulher, a ele, um excelente colega, um corajoso e invejado piloto que tão bem entendia que os seus voos eram tão tiranos quanto a sua mulher, e se abandonados o trairiam. Quando é que abandonara o voo? Só naqueles segundos em que se via a despenhar no mar, e ela? Só naqueles dias a partir dos quais, sem querer, a colocara a seguir ao voo e com ela não fizera suficiente ninho na terra.

 

A perda de velocidade até ao mar, imaginada pelos colegas, fazia senti-los mais impudicos, e afinal ainda não a encontraram para lhe dar a notícia que qualquer um, só a queria dar com um beijo, ou mil beijos que lhe cobrissem a ela o grito e a culpa do que eles lhe tinham despertado. Pois que era menos desejada do que o céu, mas estava próxima.

 

Caiu ajoelhada que a culpa de não chegar ao mar com o marido era dela.

 

No início fora fiel por indiferença e por vocação e por deixar de competir com o destino. Depois os vestidos colados ao corpo sem nada por baixo, deram-lhe o que um dia repentinamente lhe faltara ainda que ao seu lado. E eis uma nova liberdade. E ei-la de joelhos. E eis que bem conhecia que os homens não possuíam o dom de observação e que a vaidade os impedia de acreditar que as mulheres lhe podem sempre ser infiéis. Mas não, de joelhos, gritava não, não, não, ele observava o céu. Eu sei. Ele soltara seguramente as asas, as minhas, para voarem sozinhas e não intuírem a horrenda morte.

 

Ambos os capitães que deram à mulher infiel a notícia da morte do marido estavam perdidos com o rosto e as palavras da amante, ali, ajoelhada à frente deles, quase nua, para eles agora, como algumas santas nas igrejas, e, a memória do marido morto, salvo enfim pela própria morte da humilhação extrema que ambos sentiam. Não sabiam o que dizer. Muitas tinham sido as indecentes menções que fizeram à mulher infiel. E eis que a busca amorosa estivera sempre ferida pela admiração ao marido da amante infiel. E por ela, provocante, sem medo afinal.

 

Julgo que colocado em cena este romance, aqui chegado

 

Só um deles a levantou do chão e ajoelhando-se, ele, lhe disse:

 

sei que me não vais querer, mas quero que saibas que o que sinto por ti é mais forte que a minha vergonha. A partir daqui, sim, a minha vida será banal.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

TERESA DESQUEYROUX

FRANÇOIS MAURIAC, Prémio Nobel da Literatura em 1952. Teresa Desqueyroux, uma obra-prima da primeira metade do séc., um dos melhores romances que li.

  


Em 1906 François Mauriac foi para Paris, vindo de Bordéus, cidade onde nasceu. Publica então Les Mains jointes, uma poesia muitíssimo saudada. Em 1922 Le Baiser au Lépreux e Genitrix já o colocam entre os melhores romancistas de seu tempo. A Academia Francesa entrega-lhe o Grande prémio do Romance pelo seu magnífico livro Le Désert de L’ Amour, contudo com a obra-prima Teresa Desqueyroux (1927) leva-o à inesquecível morada dos grandes.

 

Trata-se de um romance em que uma mulher casada tenta envenenar o marido num ambiente de vida conjugal de total solidão ainda que vivida no seio da família. Se acaso consegue Teresa Desqueyroux escapar à justiça dos homens e alcançar a liberdade que tanto desejara e sonhara, será para cada leitor dentro do imaginar que idade teria Teresa ou, antes se não teria idade alguma e por essa razão

 

«Não é a cidade de pedra que eu adoro, nem as conferências, nem os museus, mas a floresta viva que nela se agita, atormentada por paixões mais furiosas do que nenhuma tempestade. O gemido dos pinheiros de Argelouse, de noite, só emocionava pelo que dir-se-ia ter de humano.»

 

Teresa tinha bebido um pouco e fumado de mais. Ria sozinha como uma bem-aventurada. Pintou a cara e os lábios com minúcia; depois dirigiu-se para a rua e caminhou ao acaso.

 

Teresa, muitos dirão que não existes.

 

(…) Quantas vezes através das grades vivas de uma família te vi caminhar de um lado para o outro, a passo de loba.

 

Pelo menos, nesta rua onde te abandono, tenho a esperança de que não estás só.

 

Nataniel Costa, tradutor desta obra que li em português, e de cuja chancela ESTUDIOS COR era sócio fundador conjuntamente com José Saramago, ofereceu-me este livro em 1980 com uma dedicatória da qual me orgulho.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs.: O romance foi adaptado para cinema, com título homónimo, em 1962, sendo o realizador Georges Franju.