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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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MAFRA – UM MEMORIAL DE CONVENTO…

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TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

Diário de Agosto * Número 28

 

O Convento e Palácio Nacional de Mafra constitui uma das grandes referências europeias do barroco setecentista. A edificação propriamente dita, a Biblioteca única na diversidade e valia das obras nela integradas, o sistema de carrilhões (apoiado pela campanha dos 7 monumentos maia ameaçados da Europa Nostra), os órgãos da basílica – tudo aponta para um dos exemplos mais importantes da criação artística e arquitetónica da humanidade. Os trabalhos da construção iniciaram-se em 1717 por iniciativa de D. João V, em virtude de uma promessa em nome da descendência que viesse a ter da rainha D. Maria Ana de Áustria. Concebido inicialmente como um pequeno convento para 13 frades, o projeto para o Real Convento foi sofrendo sucessivos alargamentos, acabando num imenso edifício de cerca de 40.000 m2, com todas as dependências e pertences necessários à vida quotidiana de 300 frades da Ordem dos Frades Menores. O edifício ocupa uma área aproximada de quatro hectares (37.790 m2). Construído em pedra de lioz, abundante na região, é constituído por 1200 divisões, mais de 4700 portas e janelas, 156 escadarias e 29 pátios e saguões. No convento gastavam-se, quando começou a funcionar, anualmente 120 pipas de vinho, 70 pipas de azeite, 13 moios de arroz (cada moio corresponde a 828 litros) ou 600 cabeças de vaca. Junto ao Convento ficava o chamado Jardim da Cerca, com horta e pomar, vários tanques de água e sete campos de jogos, quatro da bola, um do aro e dois de laranjinha. Foi escolhido para arquiteto João Frederico Ludovice, ourives, arquiteto e engenheiro militar prussiano de formação italiana. Dirige a obra até 1730 e para sua conclusão ficará seu filho João Pedro Ludovice, também arquiteto. Para os altares da Real Basílica e diversas capelas, bem como áreas conventuais, como a portaria e o refeitório, o rei encomendou uma coleção de pintura religiosa, na qual avultam obras dos pintores italianos Masucci, Giaquinto, Trevisani e Battoni e de portugueses bolseiros em Roma como Vieira Lusitano e Inácio de Oliveira Bernardes. A coleção de escultura foi encomendada a grandes mestres italianos, entre os quais se contam Lironi, Monaldi, Bracci, Maini, Corsini, Rusconi e Ludovisi, constituindo a mais importante coleção de escultura barroca italiana fora de Itália, formada por 58 estátuas de mármore de Carrara, que inclui estudos em terracota e a produção da Escola de Escultura de Mafra, criada no reinado de D. José, sob a direção do mestre italiano Alessandro Giusti, e por onde passaram importantes escultores como Machado de Castro. Há ainda uma importante coleção de paramentos produzidos em Itália e em França.


A construção e a mitologia em seu entorno foi tema do romance de José Saramago “Memorial do Convento”. Entre os operários do Convento estava Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, e o romance trata do seu grande amor por Blimunda Jesus, mulher dotada do estranho poder de ver o interior das pessoas. Os dois conhecem o célebre padre Bartolomeu Lourenço de Gusmão, que entrou na história como pioneiro das máquinas voadoras. Desse encontro vai resultar a construção de um aparelho voador, a Passarola, que sobe em direção ao Sol, sendo que este atrai as vontades, que estão presas dentro da Passarola. Blimunda Jesus, ao ver o interior das pessoas, recolhe as suas vontades, descritas pelo autor como nuvens abertas ou nuvens fechadas.


Após um dos voos da passarola, Bartolomeu foge para Espanha, perseguido pela Inquisição. Blimunda e Baltasar vão tratando de esconder e de fazer a manutenção à Passarola, que estava dissimulada por arbustos em Montejunto. Um dia, Baltasar ficou preso à Passarola, enquanto fazia a sua manutenção, e os cabos que a impediam de se elevar nos céus rebentaram, tendo sido levado pelos ares. A aeronave despenhou-se e Baltasar foi capturado pela Inquisição, acusado de bruxaria. No epílogo da ação, Blimunda recolhe a vontade de Baltasar, enquanto este morre, condenado à fogueira.


Aqui património, tradição, sonho e imaginação encontram-se notavelmente…


E oiçamos José Saramago:


“Tu és Sete-Sóis porque vês às claras, tu serás Sete-Luas porque vês às escuras, e, assim, Blimunda, que até aí só se chamava, como sua mãe, de Jesus, ficou sendo Sete-Luas, e bem batizada estava, que o batismo foi de padre, não alcunha de qualquer um. Dormiram nessa noite os sóis e as luas abraçados, enquanto as estrelas giravam devagar no céu, Lua onde estás, Sol aonde vais.”


“Que sentes tu dentro de ti, Que ninguém se salva, que ninguém se perde, É pecado pensar assim, O pecado não existe, só há morte e vida, A vida está antes da morte, Enganas-te, Baltasar, a morte vem antes da vida, morreu quem fomos, nasce quem somos, por isso é que não morremos de vez, E quando vamos para debaixo da terra, e quando Francisco Marques fica esmagado sob o carro da pedra, não será isso morte sem recurso, Se estamos falando dele, nasce Francisco Marques, Mas ele não o sabe, Tal como nós não sabemos bastante quem somos, e, apesar disso, estamos vivos, Blimunda, onde foi que aprendeste essas coisas, Estive de olhos abertos na barriga da minha mãe, de lá via tudo.”


“Baltasar Mateus, o Sete-Sóis, está calado, apenas olha fixamente Blimunda, e de cada vez que ela o olha a ele sente um aperto na boca do estômago, porque olhos como estes nunca se viram, claros de cinzento, ou verde, ou azul, que com a luz de fora variam ou o pensamento de dentro, e às vezes tornam-se negros noturnos ou brancos brilhantes como lasca de carvão de pedra.”

 

 

    Agostinho de Morais

 

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

 

A Mulher Infiel

 

Romance de Jules Roy com tradução de José Saramago para a Estúdios Cor

 

Jules Roy é um escritor da linhagem de Saint-Exupéry. Pierre Loewell recorda mesmo que é o único escritor francês que a guerra fez aparecer. Direi que não obstante os prémios que a sua obra recebeu, a profundidade com que escreve faz dele uma marca das obras clássicas. O presente romance foi Grande Prémio de Literatura da Academia Francesa e orgulho sincero de Nataniel Costa o publicar na Coleção LATITUDE da editora Estúdios Cor.

 

E também julgo que o meio-dia estava próximo quando no esbulho dos livros amados o encontrei de novo. Coloquei-o em cima da secretária.

 

Dentro e fora de um avião que se despenhara no mar, a mulher infiel, e dentro dele o homem que tão bem e tão mal amava a sua mulher infiel ou, tão só e tão tudo: a mulher infiel.

 

Sabia que o caminho até ela seria percorrido através dos homens que ela tivera e, no entanto, este caminho ia dar ao mar, para sempre num atrevimento de quem o decifrasse.

 

Um telegrama anuncia na base dos capitães a queda deste avião trôpego, mas que cumpria a sua função como nenhum outro, ou, o seu piloto, a cada dia não fosse nele como quem vai para o amor eterno e com ele medisse forças.

 

A morte podia tornar insuportável o que a vida de um modo ou outro ajudara a aceitar. A presença da mulher infiel que ainda não tinha tido conhecimento da notícia, era uma presença de corpo de desejo que desafiava as regras estabelecidas. Era uma mulher que todos queriam pela carga de felicidade que lhes tornava mais tensa a posse que com ela mediam forças para se não deixar partir. Era como quem dizia o dono sou eu.

 

Todavia, a espécie de alegria confusa e sombria, depois do amor, arrastava-se nos homens até a amarem e amarem e admirarem o marido, excelente pessoa, o melhor piloto da base, agora morto e que nunca explicara a tolerância do que fingira não conhecer ou ele não fosse o único que a levava, à mulher infiel, nos braços, céu adentro no cockpit do pequeno avião, conjuntamente com as asas que lhe desenhara para a eventualidade de um avião inimigo atingir o seu. Então, ele iria para o mar. Ela não. Diante da maldade dos homens, ela sobreviveria, e, eles, honrados como eram, montariam uma encenação de tristeza para reduzirem a crueldade de lhe terem roubado a mulher, a ele, um excelente colega, um corajoso e invejado piloto que tão bem entendia que os seus voos eram tão tiranos quanto a sua mulher, e se abandonados o trairiam. Quando é que abandonara o voo? Só naqueles segundos em que se via a despenhar no mar, e ela? Só naqueles dias a partir dos quais, sem querer, a colocara a seguir ao voo e com ela não fizera suficiente ninho na terra.

 

A perda de velocidade até ao mar, imaginada pelos colegas, fazia senti-los mais impudicos, e afinal ainda não a encontraram para lhe dar a notícia que qualquer um, só a queria dar com um beijo, ou mil beijos que lhe cobrissem a ela o grito e a culpa do que eles lhe tinham despertado. Pois que era menos desejada do que o céu, mas estava próxima.

 

Caiu ajoelhada que a culpa de não chegar ao mar com o marido era dela.

 

No início fora fiel por indiferença e por vocação e por deixar de competir com o destino. Depois os vestidos colados ao corpo sem nada por baixo, deram-lhe o que um dia repentinamente lhe faltara ainda que ao seu lado. E eis uma nova liberdade. E ei-la de joelhos. E eis que bem conhecia que os homens não possuíam o dom de observação e que a vaidade os impedia de acreditar que as mulheres lhe podem sempre ser infiéis. Mas não, de joelhos, gritava não, não, não, ele observava o céu. Eu sei. Ele soltara seguramente as asas, as minhas, para voarem sozinhas e não intuírem a horrenda morte.

 

Ambos os capitães que deram à mulher infiel a notícia da morte do marido estavam perdidos com o rosto e as palavras da amante, ali, ajoelhada à frente deles, quase nua, para eles agora, como algumas santas nas igrejas, e, a memória do marido morto, salvo enfim pela própria morte da humilhação extrema que ambos sentiam. Não sabiam o que dizer. Muitas tinham sido as indecentes menções que fizeram à mulher infiel. E eis que a busca amorosa estivera sempre ferida pela admiração ao marido da amante infiel. E por ela, provocante, sem medo afinal.

 

Julgo que colocado em cena este romance, aqui chegado

 

Só um deles a levantou do chão e ajoelhando-se, ele, lhe disse:

 

sei que me não vais querer, mas quero que saibas que o que sinto por ti é mais forte que a minha vergonha. A partir daqui, sim, a minha vida será banal.

 

Teresa Bracinha Vieira

Fevereiro 2018

TERESA DESQUEYROUX

FRANÇOIS MAURIAC, Prémio Nobel da Literatura em 1952. Teresa Desqueyroux, uma obra-prima da primeira metade do séc., um dos melhores romances que li.

  


Em 1906 François Mauriac foi para Paris, vindo de Bordéus, cidade onde nasceu. Publica então Les Mains jointes, uma poesia muitíssimo saudada. Em 1922 Le Baiser au Lépreux e Genitrix já o colocam entre os melhores romancistas de seu tempo. A Academia Francesa entrega-lhe o Grande prémio do Romance pelo seu magnífico livro Le Désert de L’ Amour, contudo com a obra-prima Teresa Desqueyroux (1927) leva-o à inesquecível morada dos grandes.

 

Trata-se de um romance em que uma mulher casada tenta envenenar o marido num ambiente de vida conjugal de total solidão ainda que vivida no seio da família. Se acaso consegue Teresa Desqueyroux escapar à justiça dos homens e alcançar a liberdade que tanto desejara e sonhara, será para cada leitor dentro do imaginar que idade teria Teresa ou, antes se não teria idade alguma e por essa razão

 

«Não é a cidade de pedra que eu adoro, nem as conferências, nem os museus, mas a floresta viva que nela se agita, atormentada por paixões mais furiosas do que nenhuma tempestade. O gemido dos pinheiros de Argelouse, de noite, só emocionava pelo que dir-se-ia ter de humano.»

 

Teresa tinha bebido um pouco e fumado de mais. Ria sozinha como uma bem-aventurada. Pintou a cara e os lábios com minúcia; depois dirigiu-se para a rua e caminhou ao acaso.

 

Teresa, muitos dirão que não existes.

 

(…) Quantas vezes através das grades vivas de uma família te vi caminhar de um lado para o outro, a passo de loba.

 

Pelo menos, nesta rua onde te abandono, tenho a esperança de que não estás só.

 

Nataniel Costa, tradutor desta obra que li em português, e de cuja chancela ESTUDIOS COR era sócio fundador conjuntamente com José Saramago, ofereceu-me este livro em 1980 com uma dedicatória da qual me orgulho.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs.: O romance foi adaptado para cinema, com título homónimo, em 1962, sendo o realizador Georges Franju.

JOSÉ SARAMAGO


NO DIA DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

[poema de homenagem]

agora, livre da coadjuvância das afectações: os
deuses se escondem nas artérias do teu
silêncio, na tua fraqueza perfeita porque
sem o hábito de se auto-observar.
voltaste a ti: numa outra intermitência da morte, com
o sublime que é tudo aquilo que ignora um todo e
conduz uma perspectiva até ao quociente interno
de uma invisibilidade que fala através
do teu questionário incicatrizável.
e daí tudo vês: vês-me faltar de propósito à
conclusão do meu poema, vês o peso
da omnipresença do abstracto, da hora antiga,
vês as minhas infâncias e urgências juntas e tar-
dando hoje em se converterem, devolvendo-me
ao que eu era: ao início do dia.

Sylvia Beirute
http://sylviabeirute.blogspot.com/

 


 

UM ANO DEPOIS...


O ano de 2011 não ficará apenas marcado com a celebração do primeiro aniversario da morte do escritor, que se marca este fim-de-semana com várias iniciativas, a maior das quais o depósito das suas cinzas em frente à Casa dos Bicos, em Lisboa, mas também com o lançamento do inédito “Clarabóia”.


LANÇAMENTO DA OBRA INACABADA DE SARAMAGO EM 2012
O manuscrito inacabado em que José Saramago estava a trabalhar quando morreu o ano passado, a 18 de Junho de 2010, “Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas”, será publicado em 2012 e não este ano, conforme inicialmente previsto.

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UM ANO SEM SARAMAGO
Texto de Pilar del Río

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FUNDAÇÃO E PALÁCIO DE MAFRA QUEREM CRIAR NÚCLEO DEDICADOO A SARAMAGO

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José Saramago (1922-2010)

 

O escritor português e Prémio Nobel da Literatura em 1998, José Saramago, morreu hoje aos 87 anos em Lanzarote.
O autor português encontrava-se doente mas em estado "estacionário", mas a situação agravou-se, explicou o seu editor, Zeferino Coelho.

 

José Saramago é um grande escritor universal.
"Memorial do Convento" e "O ano da morte de Ricardo Reis" são grandes obras da língua portuguesa e da literatura contemporânea.
Era sócio do CNC e demonstrou-nos sempre a sua amizade!