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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de setembro a 3 de outubro de 2021

 

Quando hoje nos deparamos com a capa da revista “O Tempo e o Modo”, nascida em janeiro de 1963, encontramos, ao lado do fundador António Alçada Baptista, os nomes de dois futuros Presidentes da República, Mário Soares e Jorge Sampaio.

 

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CULTURA COMO MEIO NATURAL

De facto, o grupo que criou a nova revista, como testemunhou João Bénard da Costa, tinha um certa consciência de que algo de novo se preparava nos meios culturais portugueses. E mais do que os caminhos novos e plurais, era a própria ideia de democracia que estava em causa, onze anos antes da sua consagração efetiva através do Movimento das Forças Armadas, em 25 de abril de 1974. A presença do jovem Jorge Sampaio era significativa. Dirigente estudantil de um movimento marcante, escreve na revista, com Jorge Santos, um texto emblemático “Em Torno da Universidade”, no qual afirmam: “uma vez que haviam tomado consciência do papel que tinham a desempenhar na vida nacional, uma vez que tinham bem presente as suas responsabilidades perante a Nação, uma vez ainda, que a Universidade deixara de ser o tal ‘vase clos’, a tal corporação hermética dos tempos passados, os estudantes passaram a ocupar-se dos seus problemas de uma forma que, frequentemente saindo do ‘casulo universitário’, atinge o plano da própria vida política do país. (…) Entraram decisivamente a preocupar-se com o problema do alargamento do ensino ao maior número possível de jovens; começaram a exigir sistemas de subvenção de estudos, de seguros sociais para estudantes, de assistência médica estudantil etc.”. Hoje, quase parece profética essa convergência de contributos diferentes no pensamento e na ação, e a verdade é que a história da revista “O Tempo e o Modo” é bem ilustrativa de como a democracia se preparava, abrindo horizontes, mobilizando ideias diferentes e até contraditórias. As heterodoxias contrapunham-se às ortodoxias e o resultado era a emergência do cadinho das ideias democráticas que se afirmava.

Se refiro este momento emblemático, faço-o para salientar como a cidadania política é algo que não se faz instantaneamente, nem com ilusões de certezas absolutas. Quando lemos a biografia modelar de José Pedro Castanheira, percebemos em Jorge Sampaio um caminho feito de tentativas e erros, mas de uma essencial coerência. E a vida política é apaixonante porque é de riscos extremos. O estudo da história política corresponde à análise de uma sucessão de êxitos e de naufrágios, de persistência e de recuperação, e é preciso haver essa clara consciência. Por isso, Mário Soares disse que só é vencido quem desiste de lutar. O exemplo de Jorge Sampaio é o de alguém que sempre compreendeu que a política tem de ser assumida com independência e sentido de serviço público. Os valores éticos e as causas da cidadania são essenciais, mais importantes do que o sucesso fácil e imediato. Brilhante advogado, jurisconsulto de mérito, defensor ativo dos direitos humanos com todas as consequências, como demonstrou internacionalmente quando esteve no Conselho da Europa, no âmbito da Convenção Europeia dos Direitos Humanos, ainda hoje há quem recorde em Estrasburgo o período em que Jorge Sampaio se ocupou ativamente desses sempre complexos temas.

 

LIBERDADE AUTÊNTICA

Com uma apetência especial para as questões da criação cultural e da sensibilidade artística, deve dizer-se que o político foi moldado por essa especial ligação a essas questões. De facto, a liberdade autêntica constrói-se pela compreensão da complexidade, da capacidade criadora, da incerteza, da dúvida e do sentido crítico. Melómano conhecido, que gostaria de ter sido maestro, Jorge Sampaio amava os grandes autores e as suas obras musicais – Mozart, Beethoven, Chopin, Mahler, Schostakovich. Como leitor ativo de prosa e poesia, era ainda um amante da boa dramaturgia, e também um cultor da memória enquanto património vivo. Com sua Mãe falava indiferentemente em português e inglês – e a literatura e o jornalismo anglo-saxónicos eram-lhe familiares. Nascido de uma família com raízes muito antigas e arreigadas, em que os Bensaúdes, a diáspora e os Açores tinham uma marca forte de abertura, diversidade e apego à liberdade, a Cultura, ou a sensibilidade das artes, era para Jorge Sampaio um meio natural. Assim como, no texto de 1963, para o jovem que há pouco deixara os bancos da universidade ficava clara a necessidade de abertura de horizontes, em lugar da claustrofobia dos ambientes fechados, das soluções herméticas, essa abertura só seria possível se as liberdades fossem conquistadas, já que o valor da cultura obrigaria à democracia – numa ligação íntima entre cultura e liberdade. Daí que a identidade nacional só se enriqueceria de modo aberto, exigindo uma ligação entre cultura, educação e ciência. Afinal, haveria que compreender que “a educação é uma espécie de lugar geométrico de três grandes desígnios cívicos: desenvolvimento, democracia e emancipação individual.” (27.11.2002). Os avanços realizados nas aprendizagens foram importantes, mas não podem satisfazer-nos só por si, porque os progressos gerais não param, e porque a exigência de qualidade é permanente. O mesmo se diga da absoluta prioridade à ciência, a partir da internacionalização, do diálogo e cooperação com os principais centros mundiais. Daí Jorge Sampaio salientar “o papel absolutamente pioneiro que a Fundação Calouste Gulbenkian teve neste movimento de aproximação dos investigadores portugueses aos centros de excelência sediados no estrangeiro” (15.10.2002). De facto, é incindível o triângulo cultura, educação e ciência, obrigando a que a capacidade inovadora do artista permita compreender o impulso criador do cientista, e a afinação de um instrumento de precisão se assemelhe ao que permite ao instrumento musical dar maior fidelidade ao desejado pelo compositor.

 

O PATRIMÓNIO E A LÍNGUA

“O património histórico-cultural é por natureza diverso. Ele alimentou-se de uma tensão entre interno e externo, entre local e universal, entre elites e povo, entre exclusão e integração, entre uniformidade e alteridade. (…) Conservar é promover uma reaproximação. É, portanto, reinterpretar, de acordo com critérios e expectativas do presente. Finalmente porque a identidade de uma sociedade não é um dado imutável, é, isso sim, uma aquisição permanente, um processo continuo entre o passado e o desejo do futuro” (10.10.1996). As raízes históricas apenas podem ser entendidas pela compreensão deste movimento imparável – o que nos permitirá entender, no património imaterial, que “a língua que falamos não é apenas um veículo funcional e utilitário de comunicação, molda o que pensamos e o que sentimos, leva-nos ao mundo e traz-nos o mundo. A língua que falamos exige que a renovemos, que a recriemos, que a amemos. (…) Quando ouvimos falar o português nas vozes dos outros povos, sentimos que a nossa voz se amplia nessas vozes e que o futuro começa na língua que falamos” (6.12.2004). E assim uma cultura aberta e plural constitui-se fundamento da liberdade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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  De 16 a 22 de agosto de 2021

 

Autor de “O Sangue, a Água e o Vinho” (1958) ou de “Retábulo de Matérias” (2018), Pedro Tamen é indiscutivelmente um dos grandes poetas e homens de cultura do último século.

 

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INFLUÊNCIA MARCANTE

Pedro Tamen representa no panorama cultural português da segunda metade do século XX um exemplo significativo de influência marcante nos diversos campos em que agiu. Ouvimo-lo: …“e às apalpadelas toco o rasto / do caminho que nunca percorri” (Rua de Nenhures, 2013). Logo a partir de 1958, proveniente da Juventude Universitária Católica e da revista “Encontro”, tornou-se, com António Alçada Baptista e João Bénard da Costa, não apenas um jovem editor interveniente e dinâmico, mas alguém que teve consciência de que se preparava um novo tempo, que conduziria, mais tarde ou mais cedo, à democracia. E há nessa compreensão uma convergência de três fatores que se associam, com inevitáveis consequências: o abalo causado pela candidatura presidencial de Humberto Delgado e pela primeira divisão nas Forças Armadas, que eram um fundamento estrutural do chamado Estado Novo; o mal-estar causado pelo memorando enviado pelo Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, a Oliveira Salazar e que levaria ao exílio do prelado e à abertura de uma tensão com a Santa Sé, que não aceitou afastar o Bispo da titularidade da diocese, o que representou o primeiro sinal evidente de afastamento crítico por parte de uma figura relevante da Igreja Católica, outro apoio estrutural com que o regime contava, estava-se em vésperas do Concílio Vaticano II; por fim, no plano cultural a “aventura da Morais” e a preparação da revista “O Tempo e o Modo” representou a abertura de novos horizontes no meio intelectual, para além da forte influência neorrealista, sentida no pós-guerra. Abria-se caminho ao que Eduardo Lourenço designou como “heterodoxia”.

 

COERÊNCIA E SENTIDO PRÁTICO

Pedro Tamen envolveu-se com coerência e sentido prático nesse triplo desafio, que era, a um tempo, político, religioso e cultural. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação intelectual e religiosa. Tamen entrou como sócio, juntando-se uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva. Premonitoriamente, o que aconteceu com o nascimento do projeto da Morais teve projeção logo em 1959 em abaixo-assinados de fevereiro e março sobre “as relações entre a Igreja e o Estado e a liberdade dos católicos” e sobre os serviços de repressão do regime, cujos primeiros subscritores foram os Padres Abel Varzim e Adriano Botelho. Pedro Tamen apenas não assina por estar a prestar o serviço militar. Acresce que, em março de 1959, tem lugar a tentativa de Golpe da Sé, com a participação de elementos próximos da Morais, designadamente o Padre João Perestrelo de Vasconcelos, Manuel Serra, Francisco de Sousa Tavares, António Alçada Baptista e Jorge de Sena. A atividade editorial da Morais é intensa. Quando compulsamos os livros e autores publicados no Círculo de Poesia, verificamos como se trata de dar eco de um autêntico movimento de renovação da poesia portuguesa, num momento raro de confluência de grandes valores: Jorge de Sena, José Terra, Murilo Mendes, Cristovam Pavia, Vitorino Nemésio, João Maia, António Ramos Rosa, João Rui de Sousa, José Blanc de Portugal, José Cutileiro, Maria Alberta Meneres, E. M. de Melo e Castro, Alexandre O’Neill, Ruy Belo, Fernando Echevarria, Fernando Lemos, Salette Tavares, Ana Hatherly, Sophia de Mello Breyner… É impressionante a produção reunida, o que corresponde a uma ação persistente de Pedro Tamen, que não deixa, ele mesmo, de manter a sua própria produção poética. O cuidado extremo chega à parte gráfica e ao contributo decisivo de José Escada. Diz o testemunho de Pedro Tamen: «Não tenho a certeza, mas creio que o António Alçada já tinha pedido ao meu amigo, e dele, José Escada o lay-out das capas do futuro Círculo de Poesia.  Lembro-me, isso sim, de discutir com o Escada o tipo e qualidade da cartolina a usar, na qual seria colada a «etiqueta» com o belíssimo desenho do «sol» que se tornaria clássico.  As dificuldades relacionavam-se com o facto de a cartolina escolhida ser importada. (…) Mas tais dificuldades foram rapidamente ultrapassadas, rendidos que ficámos todos – o António, o Jorge de Sena e eu – à beleza indiscutível daquele projeto gráfico». Pedro Tamen prestará, porém, homenagem a António Alçada pelo facto de sempre ter acompanhado a coleção – que por razões diversas não pôde contar com Eugénio de Andrade, Herberto Helder, David Mourão-Ferreira, a Poesia-61 ou Mário Cesariny. Contudo, no essencial, estamos perante um verdadeiro panorama da poesia portuguesa da segunda metade do século, a que acresceram grandes nomes da poesia brasileira. Feitas as contas, até ao ano de 1975, sob a direção de Pedro Tamen, «o Círculo de Poesia publicou ao todo 70 livros novos, alguns dos quais reeditados uma e mais vezes, perfazendo até essa data a bonita soma de 75 edições de 36 autores».

 

EM PROL DA CULTURA

Pedro Tamen desdobrou-se em atividades em prol da cultura da língua portuguesa numa perspetiva de liberdade, culminando num quarto de século na Fundação Gulbenkian, nas áreas da Cultura e das Belas Artes, do Centro de Arte Moderna, do ACARTE e da Biblioteca de Arte. Consciente de que a democracia e a cidadania se constroem pelo reconhecimento do papel fundamental da cultura, da educação e da ciência, esteve sempre atento aos novos ventos no mundo do pensamento e das artes. Daí a sua relação, como artista e criador, com a memória. Não memória do passado, mas compreensão de um tempo que permanentemente se renova. Quando escolhe a epígrafe de Sá de Miranda, assume a dúvida e a contradição: “Alma, que fica por fazer desd’hoje / na vida mais, se é vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge? / Já quanto a vista alcança, a não alcança”. O poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. Não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre indescritível, ao invés de uma “memória descritiva”. “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava Agostinho, o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. Lembrança e esquecimento, eis o que tem estar sempre presente quando nos interrogamos sobre a existência. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. / Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. E não é um acaso a invocação de Sá de Miranda, já que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória, é também essa perplexidade que se manifesta. É o mistério da palavra que o poeta persegue, sempre preocupado com o domínio do ser. E é essa liberdade que a memória indescritível nos exige, capaz de compreender o limite do não alcançar no que a vista alcança. "Disseste: o sol nasceu. / Foi verdadeiramente então que o sol nasceu / e que nos habituámos todos a dizer / que o sol nasceu. / Às vezes pensamos que acontece várias vezes / mas é uma ilusão de ótica que não nos deixa ver / o grande círculo azul em cujo centro / tu dizes eternamente: o sol nasceu". A ironia completa a realidade. A memória permite que a palavra esclareça os limites do existir… Eis o caminho indescritível que Pedro Tamen procurou trilhar em pensamento e ação. E assim se pode compreender ainda o extraordinário tradutor que foi, demonstrando como o poeta cultivou um grande artífice da palavra, capaz de fazer da leitura de autores e obras consagrados a expressão da melhor escrita. Aí se sente o grande prazer da decifração.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

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   De 15 a 21 de fevereiro de 2021

 

«A Língua Portuguesa como Ativo Global» (Imprensa Nacional, 2020, com o apoio de Camões – Instituto da Cooperação e da Língua), da autoria de Luís Reto (coordenação), Nuno Crespo, Rita Espanha, José Esperança e Fábio Valentim é uma obra da maior utilidade para a compreensão da importância atual da língua portuguesa no mundo.

 

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LÍNGUA COMO VALOR GLOBAL

“A importância estratégica da língua portuguesa para Portugal e para os restantes países da CPLP está longe de ser plenamente assumida nas políticas públicas do nosso país e também dos restantes Estados que integram a nossa comunidade linguística. Das cerca de 7000 línguas faladas no nosso planeta raras são aquelas que integram o grupo de línguas que podemos considerar globais, como é o caso do português”. O tema é de uma significativa relevância nos dias que correm e a publicação na coleção “Essencial” da Imprensa Nacional de A Língua Portuguesa como Ativo Global (2020, com o apoio de Camões – Instituto da Cooperação e da Língua), da autoria de Luís Reto (coordenação), Nuno Crespo, Rita Espanha, José Esperança e Fábio Valentim constitui uma oportunidade para que o cidadão comum se possa aperceber das implicações de um tema com uma projeção presente e futura iniludível. Por um lado, a obra procede a uma análise geral das questões históricas, estratégicas e económicas da língua e, por outro, apresenta os resultados de um estudo comparado de 110 línguas, com atenção à língua portuguesa, na comparação relativa a critérios de número de falantes, impacto global e potencial. Trata-se de um trabalho em progresso, da maior relevância, que continuará a ser aprofundado, quer pela recolha de mais indicadores, que pela análise mais detalhada dos dados recolhidos. Finalmente, trata da presença da língua portuguesa no mundo, com dados atualizados da rede instituições do Camões, da rede Brasil Cultural e do IILP – Instituto Internacional de Língua Portuguesa, contendo dados qualitativos sobre perceções dos estudantes de português do Camões, recolhidos ao longo dos últimos anos. Não podemos entender o capital humano, enquanto fator de coesão, de identidade, de equidade e de eficiência sem falarmos das competências linguísticas, que correspondem a três requisitos fundamentais: a incorporação na pessoa, a partir da integração familiar e comunitária; a produtividade no mercado de trabalho e o consumo; e o investimento em tempo e dinheiro para quem precisa de adquirir conhecimento que não possui para a sua atividade, em especial para os imigrantes. O tema da mobilidade está na ordem do dia nas sociedades modernas, obrigando para os trabalhos qualificados um domínio correto da língua de trabalho, indispensável para que haja comunicabilidade, eficácia, qualidade e, em última análise, boa avaliação e reconhecimento. A globalização reforçou o papel das línguas de comunicação internacional e facilitou a sua expansão e aprendizagem. E no domínio da língua a qualidade é transversal, abrangendo, no multilinguismo, o bom domínio da língua materna e a capacidade de aprender mais do que uma língua estrangeira, para uma melhor compreensão da realidade e da vida. Mas há ainda o grande problema das barreiras linguísticas na ciência, para o qual não há soluções. Se os falantes do inglês pensam que toda a informação importante está disponível em inglês, a verdade é que assim não é – o que exige para o progresso do saber a capacidade de comunicar com experiências e tradições diferentes.

 

A ORDENAÇÃO DAS LÍNGUAS GLOBAIS

Quando se trata de procurar uma ordenação das línguas globais não estamos perante uma tarefa fácil pela variedade de critérios e dimensões a considerar e por falta de bases de dados com informação comparável para 100 línguas. Todavia, há algumas conclusões que podem ser referidas. Considerando a ordenação por falantes e por impacto global, encontramos um primeiro grupo de línguas fortes no número de falantes, na economia e na influência global – o mandarim, o inglês, o espanhol e o árabe – a que podemos acrescentar ainda o francês, apesar do reduzido número de falantes de primeira língua. Há ainda um segundo grupo de línguas de natureza mais local, mas com um número grande de falantes: o hindi, o punjabi e o bengalês. Noutros casos, a importância económica sobreleva o número de falantes – como o russo, o japonês e o alemão. A situação da língua portuguesa corresponde a uma posição atípica: está presente em todas as ordenações, em 6º ou 7º lugar, com debilidades na economia e nos falantes e com pontos fortes nos falantes maternos, nos recursos naturais e na presença global.

 

A DIVERSIDADE DA LÍNGUA PORTUGUESA

Do que se trata neste pequeno livro, claro e acessível, com diversas pistas para aprofundar uma questão crucial para as culturas da língua portuguesa, é de compreender como evoluímos na formação, apogeu, declínio e renascimento da língua portuguesa. De facto, estamos perante um caso pouco comum – de uma língua nascida fora do território de Portugal, sujeita a muitas vicissitudes e contrariedades, mas que se pôde impor entre as dez línguas mundiais mais importantes, qualquer que seja o critério que usemos na seriação dos idiomas globais. Se pensarmos na evolução da vizinha Espanha, com uma população quase sete vezes a portuguesa no século XVI, ninguém poderia prever os números a que chegaram os falantes da nossa língua no mundo. Mas há fragilidades a apontar: como o reduzido peso económico de uma parte importante dos membros da CPLP, com Angola e Moçambique abaixo do seu potencial; um certo marcar passo no desenvolvimento do Brasil; e os efeitos das últimas crises na economia portuguesa. Assim o “valor de mercado” da língua tem sofrido uma certa estagnação, com consequência na atratividade no comércio internacional e na falta de investimento de larga escala, quer interna quer externamente, no tocante à formação, aos materiais didáticos e aos vocabulários técnicos, além das necessidades na produção e divulgação de conhecimento científico, bem como das exigências no domínio das indústrias culturais criativas. Importa, por isso, compreender a importância do alargamento do número falantes de português como segunda língua e a necessidade de recursos a investir na qualidade da comunicação nas diferentes culturas da língua portuguesa. Contudo, as forças podem superar as fraquezas, desde que haja cooperação reforçada de qualidade. O conjunto dos países da CPLP detém um potencial significativo de recursos naturais face às populações – considerando plataformas marítimas, riqueza agrícola, reservas de água doce e recursos energéticos, capazes de preencher os requisitos de um Novo Contrato Ecológico. A articulação entre o Brasil e Portugal, nem sempre fácil, revela-se indispensável em benefício de todos e sem tentações hegemónicas ou de prevalência. Uma língua que detém a 6ª ou a 7ª posição mundial em falantes maternos e que duplicará o número atual até ao fim do século tem de investir com ambição, não cuidando apenas da língua como referência das diásporas, língua de herança ou de cultura. Torna-se necessária uma efetiva articulação estratégica no conjunto da CPLP, cooperação internacional realista e sem complexos e uma melhor compreensão das vantagens competitivas da comunicabilidade, no contexto do multilinguismo – eis o que tem de ser considerado num mundo que precisa cada vez mais de ligar as especificidades e as complementaridades, com entendimento da diversidade e da complexidade.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXIII - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (VI)


Como exemplo paradigmático da importância da língua portuguesa na CPLP, concluímos que a fala comum é a força que lhe dá movimento e a sua imagem de marca, antepondo-se a componente linguística e cultural em geral a outras componentes, como a económica. 


Na União Europeia hipervaloriza-se a componente económica e monetária, secundarizando-se o problema linguístico. 


Nesta perspetiva, a sobrevivência e o futuro da língua portuguesa joga-se sobretudo na lusofonia, nomeadamente via CPLP, e não na UE, onde além da predominância do fator económico, se tem sobreposto, na prática, um regime de plurilinguismo restrito (unidade sem diversidade), progressivamente afastado de um critério formal fundado num regime de pluralismo linguístico geral baseado na igualdade linguística (diversidade sem unidade).   


Na prática, para a burocracia de Bruxelas, predomina o conceito economicista sobre os alegados custos de uma Europa multilingue, pelo que a UE tem, de facto, tido uma atitude linguística interna apologista de uma política progressivamente monolingue. 


Das atuais línguas oficiais da UE, o português é tido como uma língua dominada, em número de falantes e a seguir, por ordem decrescente, ao alemão, francês, italiano, espanhol, polaco e holandês, em paralelo com o checo e grego, mas acima do inglês, dado o Brexit e ser apenas idioma oficial, por agora, na Irlanda (embora paradoxalmente o inglês domine, uma vez falado pela potência mundial dominante).   


O mesmo não sucede tomando como referência o critério objetivo de difusão mundial das línguas, em que a portuguesa é uma língua dominante e em crescimento, essencialmente pelo contributo do Brasil e potencialidades dos países africanos lusófonos, nomeadamente de Angola e de Moçambique, o que deve ser visto sem complexos por Portugal, à semelhança do que sucedeu (e sucede) pela  globalização do inglês por influência dos Estados Unidos em relação à antiga potência colonizadora, pois serão os descendentes e colonizados da velha Europa imperial os futuros impérios linguísticos.   


Segundo Ivo de Castro, “A história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”.    

 

12.02.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXV - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (VII)   

 

Se a linguagem falada, é um produto da evolução biológica, e a linguagem escrita exige instrução, sendo um fenómeno cultural, destinado a vencer o tempo e o espaço, através da imprensa e do livro, a que acrescem os meios eletrónicos e digitais atuais, um ser humano civilizado e qualificado tem de saber ler e escrever, enquanto o homem natural pode viver com a linguagem oral, como sucede em tribos primitivas.

 

Mas o potencial de universalidade e a dimensão de estratégia e de vanguarda de uma língua decorre ainda de ter tido capacidade de atravessar e penetrar em vários espaços geográficos deslocalizados territorialmente por continentes, através da descontinuidade linguística.                                                 

 

O que sucedeu com o nosso idioma, através da sua disseminação, o que é corroborado pelas suas caraterísticas de língua intercontinental, transnacional, transoceânica, transatlântica, pluricêntrica, internauta e de comunicação global.

 

Ser partilhada por várias culturas que a democratizaram, enriqueceram e moldaram com novas colorações e mais valias, embelezando-a e nobilitando-a, como língua absorvida, apropriada, miscigenada, incorporando novos vocábulos africanos e ameríndios, formando crioulos ou protocrioulos, tornou-a dinâmica, migratória, mestiça, dotando-a de uma maior flexibilidade e plasticidade, permitindo-lhe permanecer atuante e viva, o que a diáspora portuguesa, lusófona e contemporânea consolidou.

 

As quatro línguas europeias mais faladas (inglês, espanhol, português e francês), fruíram da primeira fase da globalização iniciada com a expansão portuguesa.

 

Tomando como referência a economia, um dos fatores mais decisivos para a utilidade funcional de uma língua, o nosso idioma sofre, de momento, algum défice, dado que a maioria dos países de língua oficial portuguesa ficam em África, continente deficitário em termos de desenvolvimento (embora também aí fiquem a maioria dos países de língua oficial francesa e uma parte significativa dos de língua inglesa).

 

Em contrapartida, tem melhor representação no continente americano, pelo Brasil, país de dimensão continental, maior número de falantes e potência emergente, sendo a língua mais falada do hemisfério sul, com grande potencial de crescimento demográfico, atenta a taxa de natalidade e população essencialmente jovem dos jovens países lusófonos.

 

Sendo o português uma língua de comunicação global enquanto materna e oficial de vários países de quatro continentes, associando um bloco linguístico global e internacional, corporizado e institucionalizado na CPLP, ultrapassado por uma comunidade linguística mais ampla que é a lusofonia, tem uma margem de crescimento superior, por exemplo, à do alemão, francês, italiano, russo, japonês. 

 

No caso da língua portuguesa, transitou-se de uma conceção lusista, lusíada, nacionalista e patrimonialista, para uma conceção não patrimonialista, partilhada, transcontinental, transnacional, lusófona e de exportação.

 

Sendo imperioso que seja útil ser usada por falantes de outras línguas, como segunda, terceira ou outra opção, apropriada, aceite, escolhida e querida como de exportação, informática e internauta, pois se servir apenas os seus nativos e maternos, não será um idioma internacional de comunicação global, antes sim uma língua internacional regional do ponto de vista global.     

 

É também tida como uma língua bipolar, assumindo o estatuto de língua global a nível mundial e o de “pequena língua” na Europa, sendo cada vez mais, em termos estatísticos, essencialmente não europeia, apesar da sua génese.

 

No dizer de Ivo de Castro, e sem esquecer a sua matriz galega: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”.                                   

 

Segundo Fernando Venâncio: “A experiência do português como instrumento de contactos alargados é não apenas uma surpresa: pode provar-se um deslumbramento. Isto deve-se, decisivamente, à abertura que sempre o português patenteou, à sua característica de bom aproveitador de quanto, à sua volta, achava de útil”. Uma língua em circuito aberto, acrescentando: “Mas, se fomos sobretudo um idioma importador, alguma coisa produzimos, também, de proveitoso para o largo mundo” (Assim nasceu uma língua, Guerra e Paz, 2019).       

 

Sucede que o mundo é cada vez menos eurocêntrico, há um ocidente em crise,  uma Europa em declínio, ausência de liderança europeia, sendo-nos preferencialmente favorável uma visão europeísta e atlantista, e a ter como exemplo evolutivo, no mundo ocidental, a liderança atual dos Estados Unidos da América, pode concluir-se que são e serão os descendentes da velha Europa imperial os novos impérios linguísticos do futuro o que, por analogia, está a suceder com a nossa língua.                

 

11.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LXIV - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (VI)

 

Uma vez que a expansão marítima europeia foi iniciada pelos portugueses, a sua língua, ou a adaptação dela, tornou-se a língua franca da maioria das regiões costeiras que se abriram ao comércio e aos empreendimentos europeus em todo o globo.

Mesmo quando substituídos por holandeses, o nosso idioma criou raízes fortes. Enquanto os holandeses dominaram a totalidade ou parte do nordeste brasileiro, não conseguiram impor a sua língua. O mesmo sucedeu em Angola e no Congo onde, apesar de a maioria dos Bantos se ter associado aos holandeses entre 1641 e 1648, os seus escravos, auxiliares e aliados negros continuaram a utilizar o português.

Na Ásia, o português e os dialetos crioulos criados a partir dele, resistiram com êxito à pressão e legislação oficial holandesa. O exemplo mais visível da vitória da língua portuguesa sobre a holandesa é-nos dado pela capital colonial holandesa de Batávia, tida como a rainha dos mares orientais. O dialeto crioulo constituído a partir do português foi introduzido por escravos e criados domésticos da região da baía de Bengala e era falado pelos holandeses e mulheres de casta intermédia nascidas e criadas em Batávia, por vezes com exclusão da sua própria língua. Apesar das críticas oficiais a este costume, a maior parte dos holandeses tinha por grande honra ser capaz de falar uma língua estrangeira. O mesmo sucedeu em outras zonas, por exemplo no Cabo da Boa Esperança, onde o português crioulo se manteve durante muito tempo e teve forte influência no desenvolvimento da língua africânder.

A língua portuguesa era tida como uma língua fácil de falar e de aprender, com caraterísticas de língua global, unitária e universal, atenta a posição privilegiada de Portugal como potência marítima mundial, como língua apropriada, absorvida, enriquecida e miscigenada com o falar de outros povos, elevada à categoria de primeira língua de comunicação e imperial, como sucede hoje com o inglês.

Como consequência, difundiu-se por todo o mundo, ora falada corretamente, outras vezes sob a forma de crioulos e pidgins. Exemplos de uma língua que teve por base o português europeu, mas que depois se afastou do idioma de origem, temos os crioulos de Cabo Verde, Guiné-Bissau, Casamanssa (Senegal), os papiás cristam de Malaca, de Ceilão, os crioulos malaio-portugueses de Java e Singapura e os crioulos indo-portugueses de Goa, Damão e Diu. O pidgin é o proto-crioulo que deu origem aos vários crioulos portugueses espalhados pelas costas africanas e asiáticas.
Mas a difusão do nosso idioma não foi rígido nem categoricamente imperativo.

No Brasil, por exemplo, o português conviveu com o tupi-guarani dos índios, chegando a ser mais falada esta sua língua geral que o nosso idioma, o que prova que nos primeiros tempos não existia uma tentativa deliberada e consciente de aí difundir a língua portuguesa, o mesmo sucedendo, em maior ou menor grau, com as restantes línguas europeias em relação às suas colónias.

Esta política manteve-se até meados do século XVIII, época em que o Marquês de Pombal, no caso português, expulsou os jesuítas do Brasil e obrigou ao ensino do nosso idioma em todo o território, assegurando a unidade linguística e o futuro da língua portuguesa como idioma daquele país. Idêntica política viria a ser adotada mais tardiamente nas colónias africanas.

Esta conceção de imperialismo linguístico, em que era necessário impor a língua do centro, era praticada pelas demais potências coloniais em geral, nomeadamente Portugal, Espanha, França e Inglaterra. Tinha raízes na Revolução Francesa, em que um ideólogo, Abbé Grégoire, impunha o uso do francês e a proibição do latim, política que foi tomada como modelo a seguir. A Conferência de Berlim, em 1848, reforçaria esta visão.

 

04.09.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

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LXIII - VIAGENS, VIAJANTES E O FATOR LÍNGUA (V)

Sendo a dilatação da fé uma das razões para a expansão marítima, viajavam nas naus sempre missionários que se estabeleciam nas terras descobertas ou conquistadas, evangelizando e convertendo povos ao cristianismo.

Com referência a esses viajantes da fé cristã, refiram-se os padres José de Anchieta, Manuel da Nóbrega, António Vieira e frei Cristóvão de Lisboa (Brasil), e S. Francisco Xavier e S. João de Brito (Ásia).

Descoberto o caminho marítimo para a Índia, assegurado e consolidado o Império pela África, Ásia, América e Oceânia, através de nomes como D. Francisco de Almeida, Afonso de Albuquerque, Lopo Soares de Albergaria e D. João de Castro, o rei D. Manuel I tomou o título de Rei de Portugal e dos Algarves, daquém e dalém mar, em África, Senhor da Guiné e da Conquista, Navegação e Comércio da Etiópia, Arábia, Pérsia e Índia, título pomposo coroando e glorificando essa globalização.

Há a ter presente o conhecimento geográfico e a exatidão náutica que as viagens marítimas portuguesas proporcionaram à Europa, porque as suas cartas e rotas eram as melhores, sendo por isso pioneiras dos impérios marítimos europeus.

Da escola cartográfica portuguesa, nasceu a cartografia moderna, com cartógrafos como Diogo e Lopo Homem, Pedro e Jorge Reinel, Luís Teixeira, João Freire, Sebastião Lopes, Manuel Godinho de Erédia e Fernão Vaz Dourado.

Escreve o historiador britânico J. H. Plumb: “(…) o fascínio pela observação exata encontrava-se na maioria dos grandes exploradores portugueses. Traçavam as suas rotas nas cartas com uma exatidão espantosa. Anotavam cuidadosamente os animais, a vegetação, os minérios e as raças desconhecidas que iam encontrando, à medida que desciam a costa de África. Nada foi deixado ao acaso nos seus descobrimentos. Foram deliberados, bem programados e audaciosamente executados (…)” (introdução ao livro de Charles Boxer “O Império Marítimo Português 1415-1825”).

Dessa aventura pelos mares, surge a “era gâmica”, nas palavras do historiador inglês Arnold Toynbee, contactando com todo o género humano e todas as geografias.

A tomada de consciência da existência de um outro grupo de seres humanos, a troca de olhares e os gestos que acompanharam o primeiro encontro entre dois grupos de seres humanos foram o princípio da globalização cultural - a fala, a escrita, a discussão, o texto impresso, virão depois.

A confraternização ou a luta que se seguem a esse encontro, a negociação ou a violência que os acompanham são tidos como o princípio da globalização política, passando a globalização político-militar após a vinda das armas, exércitos, diplomatas e tratados.

A gestão das intenções em relação à posse das coisas, em termos de propriedade, e que eventualmente irá mudar como corolário das primeiras negociações ou confrontos, é o princípio da globalização económica.

 

28.08.2020
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

30 BOAS RAZÕES PARA PORTUGAL

poema gráfico de Ana Hatherly baseado no poema de

 

(XXIII) A LÍNGUA PORTUGUESA

 

Recordamos o poema gráfico de Ana Hatherly, baseado no celebérrimo poema de Camões que também lembramos:

     'Descalça vai para a fonte
     Lianor pela verdura;
     Vai fermosa, e não segura.

     Leva na cabeça o pote,
     O testo nas mãos de prata,
     Cinta de fina escarlata,
     Sainho de chamelote;
     Traz a vasquinha de cote,
     Mais branca que a neve pura.
     Vai fermosa e não segura.

     Descobre a touca a garganta,
     Cabelos de ouro entrançado
     Fita de cor de encarnado,
     Tão linda que o mundo espanta.
     Chove nela graça tanta,
     Que dá graça à fermosura.
     Vai fermosa e não segura.'

Sendo a língua uma realidade viva, vemos aqui um modo moderno e um modo tradicional de usarmos o nosso idioma. Não esquecemos o que Vítor Aguiar e Silva disse: «a língua portuguesa é a mais esplendorosa, perdurável e irradiante criação de Portugal», o que nos obriga a especiais responsabilidades no culto do bom domínio do idioma, na sua preservação e na respetiva afirmação no mundo dos saberes.

Mário de Carvalho tem recordado, por isso, António Ferreira, no seu louvor à língua, na célebre carta a Pero Andrade Caminha:

     'Floresça, fale, cante, oiça-se e viva
     A portuguesa língua, e já onde for
     Senhora vá de si, soberba e altiva.
     Se téqui esteve baixa, e sem louvor,
     culpa é dos que a mal exercitaram,
     esquecimento nosso, e desamor' 

Falar bem a língua é um ato de cidadania. Não há nitidez de espírito, sem ideias claras e distintas. Não há conhecimento sem contacto com os autores e com os textos originais. E, infelizmente, assiste-se ao uso e abuso dos resumos e simplificações – ou à tentação de confundir comunicação com mera descrição simplificada ou linguagem comercial. Num tempo de multiplicação de informações, chegamos ao estranho paradoxo de nos satisfazermos com mensagens rápidas e sincopadas, que pretendem condicionar as opiniões, pondo de lado a complexidade e a necessidade de explicar, de demonstrar, de justificar – formulando juízos infantilmente primários. Perante temas e problemas cada vez mais complexos, deparamo-nos com comentários rápidos e incapazes de considerar o essencial.

Montaigne, na entrada da sua torre, perguntava apenas: «que sais-je?» - e aí encerrava a exigência de um caminho muito árduo para conhecer e compreender. Por isso, dizia que mais valia uma cabeça bem feita do que uma cabeça bem cheia… E aqui está a necessidade de cultivar especialmente o pensamento. Afinal, quanto menos se ler menos se há de pensar. Eis-nos perante uma condição de liberdade.

E qual o efeito das caricaturas do conhecimento e da aprendizagem, como se a simplificação e a infantilização fossem o caminho? O resultado é a pobreza vocabular, a confusão nos argumentos, a desordem nas exposições, a mistura de argumentos e conclusões e a indigência das ideias. Tudo isso tem a ver com a desatenção e a indiferença relativamente ao aprender e ao dizer.

Lembramo-nos do que Vieira afirma no Sermão da Sexagésima: «(O lavrador evangélico) semeou  uma semente só, e não muitas, porque o sermão há de ter uma só matéria e não muitas matérias. Se o lavrador semeara primeiro trigo, e sobre o trigo semeara centeio, e sobre o centeio semeara milho grosso e miúdo, e sobre o milho semeara cevada, que havia de nascer? Uma mata brava, uma confusão verde. Eis aqui o que acontece aos sermões deste género. Como semeiam tanta variedade não podem colher cousa certa. Quem semeia misturas, mal pode colher trigo. Se uma nau fizesse um bordo para o norte, outro para o sul, outro para leste, outro para oeste, como poderia fazer viagem? Por isso nos púlpitos se trabalha tanto e se navega tão pouco. Um assunto vai para o vento, outro assunto para outro vento, que se há de colher senão vento?».

Se queremos riqueza vocabular, ordenação de argumentos, rigor na exposição e desenvolvimento das ideias – precisamos de cultivar a comunicação e a palavra, de exercitar a memória (ler, repetir, representar a poesia e o teatro), de incentivar a criatividade. Almada Negreiros dizia: «o teatro é o escaparate de todas as artes. Todas as artes são todas as peças da mesma coisa». Língua, leitura e literatura têm de andar a par. Urge compreender um texto, lendo-o no original; relacionar as diversas formas de criação artística, representar poética e simbolicamente as ações, as virtudes, as misérias e os sonhos. Alberto Lacerda tinha razão ao dizer: «esta língua / é minha Índia constante / minha núpcia ininterrupta / meu amor para sempre / minha libertinagem / minha eterna / virgindade» («Oferenda», I). Falamos da língua portuguesa como terceira língua europeia mais falada no mundo, como primeira língua do hemisfério sul, que no final do século ultrapassará os quatrocentos milhões de falantes no mundo…

GOM

 


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A VIDA DOS LIVROS

De 11 a 17 de maio de 2020

 

O “Novo Atlas da Língua Portuguesa”, de Luís Reto, Fernando Luís Machado e José Paulo Esperança (INCM, ISCT, Camões, 2018) é uma obra de consulta e estudo obrigatórios para quem queira conhecer a realidade da língua portuguesa, como terceira língua europeia mais falada no mundo e primeira língua do hemisfério sul.

 

 

UM DIA DE AFIRMAÇÃO
Quando, no dia 25 de novembro de 2019, a Conferência Geral da UNESCO decidiu adotar o 5 de maio como Dia Mundial da Língua Portuguesa, esse reconhecimento significou uma extraordinária responsabilidade partilhada por todos os que no mundo usam a mesma língua como meio de comunicar, de pensar, de criar, de exprimir sentimentos, de cultivar as artes, de partilhar conhecimentos, de refletir ou de inovar. A língua é essencial para a afirmação das identidades, mas também para enriquecer pelo diálogo as culturas e civilizações. É verdade que, segundo alguns, os povos primitivos criaram diferentes línguas para poderem preservar os seus segredos, mas também é verdade que as diferentes línguas foram sofrendo um longo processo de intercâmbio e de enriquecimento mútuo, recebendo vocábulos, ideias, construções de outros que fortaleceram a comunicação entre os povos e a partilha de valores comuns.
Como afirma Fernando Venâncio em Assim Nasceu uma Língua – Sobre as Origens do Português o nosso idioma projetou-se em todos os continentes. E segundo Ivo de Castro: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”. Quando falamos da língua portuguesa, consideramos uma longa história, a partir do galaico-português, referimos uma língua antiga, que cedo alcançou uma assinalável maturidade, certamente em virtude do Rei D. Dinis tê-la tornado cedo língua dos tabeliães em lugar do latim – o que favoreceu a afirmação do idioma como modo de comunicar do povo e dos letrados. Foi na Galiza que tudo começou, desenvolvendo-se a língua a partir das influências que os portugueses imprimiram, multiplicaram e também sofreram. Mas o nosso idioma e o espanhol tiveram géneses diferentes e separadas, como se vê no banimento das consoantes, no desenvolvimento do ditongo ão e na redução das sibilantes. De facto, o português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro, sem prejuízo de um encontro do português e do espanhol por volta de 1400, no momento do “ofuscante esplendor” da cultura vizinha. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como a dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista…

 

LÍNGUA DE VÁRIAS CULTURAS
Eis por que temos falado de uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas, o que dá razão a Ivo de Castro quanto à complexa evolução de um idioma partilhado num mundo global. Falamos de várias culturas, pela natureza própria da diversidade política, como língua de unidade nacional, como língua segunda, ou como língua integradora num complexo mosaico étnico e geográfico – tudo isto encontramos, ora em África, ora no Brasil. E quando referimos várias línguas, reportamo-nos ao desenvolvimento dos crioulos, de raiz portuguesa, com uma vida própria, designadamente pela diversidade arquipelágica. De facto, sem idealizações ou simplificações, e muito menos paternalismos, a partir de exemplos concretos, trata-se, no fundo, de uma língua que deve ser vista como uma realidade em movimento. Como disse Rui Knopli a língua tenderá a ser um denominador comum de vários espaços africanos, asiáticos, brasileiros, europeus, numa espécie de “pátria coincidente”. E para o compreender, basta lermos a literatura da língua portuguesa contemporânea – Mia Couto, Germano Almeida, Pepetela, Rubem Fonseca, Ondjaki, Jaimilia Pereira de Almeida, António Lobo Antunes, Lídia Jorge…

 

«PÁTRIA COINCIDENTE»
Numa fórmula feliz, António Sampaio da Nóvoa, representante permanente de Portugal junto da UNESCO, fala-nos da “criação de um movimento que vá muito para além do dia 5 de maio, que simbolicamente é apenas a data, o lugar onde inscrevemos a nossa vontade de uma promoção internacional da Língua Portuguesa” e propõe uma estratégia a seguir, sintetizada em EC ao cubo, que integra Ensino, Cultura, Conhecimento e Comunicação. E a esta proposta, temos de ligar o especial empenhamento do Embaixador português, em dois importantes projetos no seio da UNESCO, as reflexões sobre o futuro do ensino e a exigência de uma ciência aberta e da partilha de dados e de conhecimento. São linhas de ação cruciais que certamente empenharão a Conferência Geral da organização de 2021 e constituirão a demonstração de que a língua portuguesa pode ser um dos catalisadores nas áreas de ação da UNESCO. E a afirmação de Sampaio da Nóvoa de que a UNESCO deve centrar-se na situação de África é essencial e tem de ser ouvida na organização e na cena internacional. Importa assegurar um diálogo efetivo entre as áreas universitárias e científicas, capaz de mobilizar e enriquecer a cooperação entre os Países de Língua Portuguesa, mas também de favorecer um diálogo global, designadamente com as outras áreas linguísticas, compreendendo que o multilinguismo é cada vez mais importante e que é nessa perspetiva que teremos de trabalhar no conhecimento e na investigação científica. A língua inglesa é indubitavelmente fundamental nos vocabulários científicos, mas temos de assegurar o diálogo interlinguístico, designadamente no âmbito das ciências sociais, nas quais a diversidade da comunicação tem de ser compreendida, sob pena de desvirtuarmos o conhecimento. Como insistia Vasco Graça Moura, nenhum de nós quer uma língua única, totalitária. Tem de se abrir espaço para a diversidade linguística, estabelecendo pontes entre os vários idiomas e as várias culturas. Veja-se a importância crescente das línguas asiáticas (mandarim ou hindi) e atente-se ao grande interesse das Universidades da R. P. da China na aprendizagem da língua portuguesa, exatamente num contexto de multilinguismo. E não podemos esquecer que as chamadas Humanidades irão ganhar uma configuração cada vez mais fortemente relacionada com todas as disciplinas científicas. Como investigar as literaturas e as artes sem considerar a diversidade de culturas e idiomas? Vergílio Ferreira dizia, por isso, que não se pode pensar fora das possibilidades da língua em que se pensa. Infelizmente, há quem julgue que a avaliação académica deve ser uniformizada e redutora, o que é contrário da compreensão da diversidade. E não se pense que a tendência futura é para a existência de uma única língua franca. De facto, a lógica unificadora do Esperanto desvaneceu-se com o tempo. E nós, falantes da língua portuguesa, sabemos bem do que falamos, porque tivemos no Índico e na Ásia uma língua franca, de mercadores e missionários, o “papiar cristão”… Num mundo globalizado, não falamos da língua portuguesa como uma realidade fechada, mas de uma realidade aberta e em movimento, e aí está a sua riqueza e as suas virtualidades.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de março de 2020

 

“Assim Nasceu uma Língua – Sobre as Origens do Português”, de Fernando Venâncio, Guerra e Paz, 2019 – é um livro indispensável para apreendermos o modo como nasceu a língua portuguesa, a partir do ocidente da Península Ibérica, projetando-se em todos os continentes.

UMA LÍNGUA DE PASSAGEM POR PORTUGAL
Segundo Ivo de Castro: “a história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”. Que significa a afirmação? Que foi na Galiza que tudo começou, desenvolvendo-se a língua a partir das influências que os portugueses imprimiram, multiplicaram e também sofreram. O futuro dependerá de um fenómeno lento e de águas profundas que corresponderá a uma mais ou menos profunda separação estrutural entre a língua de Portugal, a do Brasil e a dos países africanos… Não serão, porém, os portugueses europeus a definir esse caminho complexo e imprevisível. E o certo é que este livro, pleno de exemplos e de análises aprofundadas, mostra-nos como terá nascido a nossa língua, permitindo-nos compreender um caminho com diversas influências. Com razão, Ruy Belo disse que “sempre entre mim e ao que chamam coisas há de haver palavras” (País Possível, 1973). Partindo daqui, temos de entender, segundo Fernando Venâncio, que a vida de uma língua é algo que envolve diversos elementos e fatores, não se reduzindo a explicações mais ou menos simples sobre etimologia e antropologia. Uma língua é “uma construção imaginária em que se mesclam factos linguísticos com fatores históricos, políticos, sociais e culturais” (Carlos Faraco). Deste modo, a história material do idioma obriga a atender às múltiplas influências que se repercutem no léxico. No caso do português, temos as raízes galegas e depois a longa castelhanização (1450-1730) até às influências francesa e inglesa… A língua é uma realidade viva e surpreendente, geradora de soluções imprevistas. O autor lembra-nos, por exemplo, que a palavra “luar” é única no português e no galego, pois na generalidade das línguas descreve-se a “luz de luna” ou “clair de lune” – enquanto no português optamos por um conceito, sem paralelo noutros casos… De facto, as palavras não valem todas o mesmo, têm vida longa e não existiram sempre.

 

UM ESTUDO DIFÍCIL
“Em relação ao português clássico, quem o quiser estudar tem de se resignar a fazer de cabouqueiro, desenterrando penosamente os seus documentos, peneirando os dados, organizando uma taxinomia inexistente e, se ainda tiver coragem e tempo de vida, formulando hipóteses interpretativas que ficarão à espera de um debate crítico só possível se outros investigadores se transviarem pelos mesmos caminhos” (Ivo Castro). Ora, na vida da língua, pesa também no que Eduardo Lourenço tem designado como “maravilhosa imperfeição”. A identidade cultural é complexa e plural, como ensina José Mattoso, e, segundo Eduardo Lourenço, vive confrontada com dois complexos, um de inferioridade e outro de superioridade, que escondem a situação de um ser histórico em estado de intrínseca defensiva… No entanto, para compreender, não cuidamos apenas da evolução recente da língua, temos de ir mais atrás. Daí que o autor proponha “uma revisão da paisagem cronológica do nosso idioma”. Há, por isso, que saber recuar no tempo. Ora, “as nossas histórias da língua, depositárias amiúde duma ficção coletiva, imaginam a transição do latim para o nosso idioma consumada um ou dois séculos antes de iniciar-se a escrita, pelo ano 1200”. Tudo indica, porém, que, muito antes, por volta de 600, já a nossa língua tinha atingido “um estádio irreversível, desenvolvendo e sedimentando as principais características que a individualizam no conjunto das línguas da Península Ibérica”. O autor faz-nos a demonstração de que o nosso idioma e o espanhol tiveram géneses diferentes e separadas. Atente-se no banimento das consoantes, no desenvolvimento do ditongo ão e na redução das sibilantes. O português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro. O que há, como vimos, é um encontro do português e do espanhol por volta de 1400, num momento do “ofuscante esplendor” da cultura vizinha. Se há originalmente uma diferenciação da língua falada a ocidente, há depois um fenómeno de língua promíscua, que, partindo da citada queda das consoantes (voante, soante), reintroduz subtilmente aquilo que antes havia caído (volante, sonante)…Dir-se-ia que o “melting pot” étnico e cultural se torna linguístico… E deste modo houve, a partir do século XV, uma certa acomodação ao modelo espanhol, também com a adoção de diversos latinismos. “À hora exata da nossa glória excessiva, o espanhol enfim unido começava a levantar a sua sombra imensa” – como disse Eduardo Lourenço em O Labirinto da Saudade. Mas esse foi ainda o tempo em que Camões introduziu vários cultismos latinos, como abominoso, celso, cógnito, frondente ou fulvo. Também o Padre António Vieira e Francisco Manuel de Melo irão buscar à língua castelhana diversos adjetivos. Vieira usa assombroso, cabal, interessante ou lastimável. E Melo, atarantado, carinhoso, desprevenido, maltrapilho, presumido e sonso.

 

UMA LÍNGUA EM CIRCUITO ABERTO
Assim, o português torna-se transigente, integrador e cosmopolita e transmite essa característica a brasileiros e outros falantes. Afinal, se “o ato de nascimento da nossa língua” se fez de um modo determinado, a verdade é que “o português é, em si mesmo, a subversão, definidora e sistemática, do seu próprio ‘ato de nascimento’”, pela receção de diversas influências. “O português comum passa por um processo de elaboração que o separa das suas origens e que se sente como uma renovação” – no dizer de Ivo Castro. Mas serão as línguas galega e portuguesa uma mesma língua? É difícil a resposta e os argumentos são vários – mas devemos dizer que “os falantes dum e doutro (idioma) são o que se diz congenitamente bilingues”. Dispensam tradução, compreendem-se, não precisam de aprendizagem. Contudo e apesar de tentativas unificadoras há resistência à uniformização: “A lusitanizaçom excessiva dos textos por meio de palavras que nom se usam ou de uso mui limitado na Galiza, pode pôr dificuldades à leitura fluente dos nossos escritos”, como diz o Manual Galego de Língua e Estilo de 2007). Qual a lição de Fernando Venâncio? Antes do mais, a da matriz galega, depois a da diversidade de influências, como a dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, através da parte bilingue da população, e ainda a dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista… Sem idealizações ou simplificações, cuidando de exemplos concretos, trata-se, no fundo, de considerar a língua como realidade em movimento. Esta obra, procura dar-nos conta das origens peninsulares de um idioma bem surpreendente. Nascido em Mértola, em 1944, Fernando Venâncio diplomou-se em Linguística Geral na Universidade de Amesterdão (1976), onde obteve o doutoramento, tendo ensinado sobre a problemática e legislação das línguas minoritárias europeias e sobre a língua e a cultura portuguesa em Nimega, Utreque e Amesterdão.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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