Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A POLÍTICA DA LÍNGUA

  


A melhor política da língua e a única decente é: nenhuma. Deviam assim desaparecer todas as cátedras portuguesas pagas pelo governo português em universidades estrangeiras; todos os professores de português pagos pelo governo português, fora de Portugal; todas as regras sobre ortografia, e todas as tentativas grotescas de sugerir que por escreverem da mesma maneira as pessoas vão falar da mesma maneira; e de insinuar que quem fala da mesma maneira não pode deixar de estar de acordo; em suma, devia desaparecer toda a política externa baseada em afinidades linguísticas; e extinto o Instituto chamado maliciosamente Camões. Para o necessário bastam os hábitos existentes e as liberdades fundamentais: de expressão, de comércio, e de circulação.

Quando se fala de políticas fala-se de meios e de modos de encorajar certos comportamentos. No caso da língua portuguesa os comportamentos não são claros: será o falar português? O impressionar pessoas que não falam português? Fazer versos? As complicações aumentam porque a chamada política da língua tem uma dimensão internacional. Ao desejo de encorajar comportamentos linguísticos fora do país, mesmo que não se saiba quais, corresponde a fórmula opaca ‘a defesa da língua.’ A expressão intima campanhas militares, e inimigos numerosos; mas também não é claro quem possam ser.

Vistas as dificuldades logísticas, a defesa da língua consiste essencialmente em aulas profilácticas de português coloquial, literatura em tradução, e visitas a feiras e congressos; estes processos não requerem discernimento especial; visam cativar estrangeiros por atacado. Há o risco porém de, no seu cativeiro, os estrangeiros poderem aprender a conjugar o infinitivo pessoal. A habilidade torna-os capazes de exercer medicina, abrir floristas, ou comprar transportadoras aéreas de modo idiomático; e tais eventualidades correspondem aos piores pesadelos dos defensores da língua.

Uma língua estrangeira é uma coisa que dá trabalho a aprender. É como tocar violino, engolir fogo ou resolver equações diferenciais. É por isso preciso uma boa razão para o fazer. É natural que haja pessoas com boas razões para aprender português. Nunca todavia serão muitas, e as suas razões serão sempre muito circunstanciais. Razões circunstanciais não requerem políticas. São sempre particulares, e na maior parte dos casos desinteressantes.

Quando se torna em objecto de política, a língua transforma-se em religião; os barulhos portugueses mais primitivos passam a ser vistos como manifestação oracular de deuses. Um poeta brasileiro chamou-lhes por isso a última flor do Fábio. Em Portugal a língua é um objecto de culto no altar onde se adoram mais restos das religiões da Lusitânia: a luz de Lisboa, a ética republicana e a porca de Murça. Não pode nem deve naturalmente proibir-se ninguém de acreditar nessas coisas; mas não se deve legislar sobre elas, exactamente como não se deve legislar sobre religiões. Uma consequência de se aceitar que o estado não deve legislar sobre religião é aceitar-se que não deve legislar sobre a língua.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

ANA PAULA TAVARES


    Fotografia: Camões Berlim 


A atribuição do Prémio Camões a Ana Paula Tavares constitui um facto especialmente importante, uma vez que reconhece a relevância da língua portuguesa no mundo, e em especial para a poeta, historiadora e antropóloga na cultura dos trópicos. Estamos perante o caminho nómada de um idioma, enriquecido pela riqueza da permanência e da passagem. Ler e ouvir Ana Paula Tavares é compreender a diversidade de experiências que a escritora foi testemunhando. “Os contadores de histórias do meu país (ouvimo-la) sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz, e uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar. (…) Assim se acumulam notícias e cresce o espanto, que a língua tem dessas armadilhas: amortece a queda, cuida dos viventes, ensinando a conviver com a notícias deste danado tempo dos anos da peste”.

Nascida no planalto da Huíla, Paula Tavares deixou-se fascinar pela região e pela sua vida. Aí foi a sua primeira casa a dois mil metros de altitude, onde o olhar se perdia na distância do horizonte, limitado pela serra. A sua poesia liga-se aos ciclos da vida, à terra, às flores, aos frutos, e está cheia de oralidade, perante o mistério e a diversidade das línguas locais. O ritmo dos poemas é dominado pela cadência dos relatos mais antigos dos comerciantes de gado, que iam e vinham. E o mundo das mulheres fascinava-a. Elas compreendiam bem a vida autêntica. “Filha da savana / A árvore fêmea / Oferece os frutos / Na estação seca / Comida de onça / Remédio de gente / Serve de goma / Ao bairro das oleiras”. Cada poema encerra o entendimento de que as pessoas e a natureza se casam naturalmente. E todos os segredos se revelam aí. “Os livros, as estações do ano, as chuvas e as palavras jazem esquecidas nos baús da memória (diz-nos ainda). Ninguém sabe como ou porquê tal fenómeno acontece e dele só damos conta quando de repente, assim de manso, um acontecimento, uma moda, um ato de vontade, traz à superfície de muito turvas águas a palavra, o cheiro da terra molhada, as goiabas penetrando os poros, saturadas de cheiro, o silêncio breve de uma igreja vazia, o doce calor de uma vela acesa. As línguas francas, próprias ou alugadas, estão cheias desses enigmáticos recursos e engordam à custa de vocábulos repescados, esquecidos, retomados outra vez”. E, lembrando Mia Couto, Ana Paula diz-nos, no fundo de si: “Há que celebrar a viagem a empreender dentro de nós”.

Neste ainda ano do centenário do nascimento de Camões, a escritora faz da nossa língua comum o arado que vai permitir que a terra nos dê o fruto da palavra, que entra no coração da gente. É, pois, com emoção que recordamos o exemplo de Ana Paula Tavares, e que ouvimos as suas palavras, de mulher, lutadora da liberdade, amante da escrita, da língua e da generosidade dos povos que nos unem e fazem compreender as diferenças, sentindo-a como um elo forte que liga as várias margens do Atlântico. E ao lembrar há dias o exemplo da autora de “Sangue da Buganvília” com os confrades da Academia Brasileira de Letras quis exprimir como a língua portuguesa se expande nos quatro cantos do mundo exigindo-nos uma vontade comum de continuar o caminho ao encontro da liberdade e da diferença.


GOM

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

  


216. ATÉ SEMPRE, FERNANDO!


Conhecemo-nos pessoalmente no lançamento simultâneo de dois livros de um conhecido ensaísta e escritor.     

Estarmos sentados, lado a lado, propiciou a conversa e a empatia foi recíproca.

Os contactos, presenciais e virtuais, continuaram e permaneceram, intervalados pelas deslocações do Fernando Venâncio entre os Países Baixos (para onde emigrara, trabalhava e constituiu família) e Portugal (onde regressava quando podia).   

Foi de uma enorme satisfação e agrado conhecê-lo e sermos amigos, dialogarmos em longas e boas conversas em esplanadas, entre almoços, jantares, telefonemas, convites para apresentações públicas de novos livros (sem esquecer a feira do livro), algumas caminhadas, deslocações pontuais entre Lisboa, Queluz e Sintra. E através da internet e uma ou outra rede social. Se possível, uma agradável, fascinante e interessante conversa a dois tinha sempre prioridade.         

Como linguista e figura marcante e singular do panorama académico e cultural, e de um entusiamo contagiante pela língua portuguesa e galega foi, para mim, um privilégio tê-lo como amigo. Havendo discordância, sempre houve tolerância e respeito mútuo.

Depois do retorno à pátria nativa, para Mértola, a sua morte recente não me surpreendeu. Falava com ele, nos últimos tempos, amiudadas vezes, de cada vez com mais dificuldade, até ficar incontactável. 

A sua partida emocionou-me e consternou-me muito.     

Não esqueço a sua opinião, inteligente e sincera, sobre os textos que ia publicando neste blogue.

Nem o seu amor e dedicação pela Galiza.     

Nem a inesperada surpresa que me deste, Fernando, com os agradecimentos finais do teu livro “Assim nasceu uma língua”, ao referires o meu nome, entre outros, com “Um sincero e forte obrigado a quantos, no decurso de anos, com um pequeno ou grande contributo, tornaram este trabalho menos árduo”.     

E que palavras generosas teres escrito, para mim, em dedicatória, que esse teu “livro testamento” alguma coisa de precioso me deve, sem que eu, alguma vez, o tenha consciencializado (mesmo sabendo que muito falávamos sobre o nosso idioma).

Por tudo, tudo o que vivemos, o meu muito obrigado.     

Até sempre, meu bom Amigo Fernando!


06.06.25
Joaquim M. M. Patrício

A VIDA DOS LIVROS

  
De 28 de abril a 4 de maio de 2025


A data de 5 de maio foi oficialmente considerada no ano de 2009 pela Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), com a UNESCO, para celebrar a língua comum e as culturas da nossa língua.


A língua portuguesa é uma das línguas com maior expansão no mundo, com mais de 265 milhões de falantes espalhados por todos os continentes, sendo ainda a língua mais falada no hemisfério sul. O português é assim hoje, uma das principais línguas de comunicação internacional, e um idioma com uma forte extensão geográfica, prevendo-se um desenvolvimento significativo da sua influência até ao final do século, com especial incidência no Atlântico Sul. Os dias dedicados às línguas faladas em todo o mundo celebram anualmente a importância do multilinguismo e da diversidade cultural como fatores de paz e de respeito mútuo, bem como enquanto catalisadores da Educação, Ciência, Cultura e Comunicação, finalidades essenciais da UNESCO. Tais iniciativas constituem oportunidade para sensibilizar a comunidade internacional para a história, a cultura e o intercâmbio e cooperação entre as diferentes línguas. O multilinguismo é, aliás, um valor central das Nações Unidas e um objetivo de importância estratégica para a UNESCO, como fator essencial para a comunicação e entendimento entre os povos, suscitando a unidade, a diversidade, a compreensão internacional, a cooperação, a troca de experiências, o respeito mútuo e o diálogo entre culturas.


O idioma é essencial para a afirmação de uma identidade, mas também para enriquecer o diálogo entre culturas e civilizações. A língua portuguesa projetou-se em todos os continentes. Quando falamos dela, consideramos uma longa história, a partir do galaico-português, língua antiga, que cedo alcançou assinalável maturidade. O português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como a moçárabe, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos da expansão graças à cultura quinhentista. Devemos, assim, falar de uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas. De várias culturas, pela natureza própria da diversidade política, como língua de unidade de várias nações, como língua segunda, ou como língua integradora no complexo mosaico étnico e geográfico – ora em África, ora no Brasil. Quando referimos várias línguas, reportamo-nos ao desenvolvimento dos crioulos, de raiz portuguesa, e à coexistência com as línguas autóctones. Lembremo-nos de Baltasar Lopes, de Cesária Évora ou de Mário Lúcio e encontramos pontes essenciais de diálogo. De facto, sem paternalismos ou simplificações, a partir de exemplos concretos, trata-se de considerar uma “língua coincidente” que deve ser vista como realidade em constante movimento.


Temos assim de abrir espaço para a diversidade linguística, estabelecendo pontes entre os vários idiomas e as várias culturas. Não podemos esquecer que as chamadas Humanidades irão ganhar uma configuração cada vez mais fortemente relacionada com todas as disciplinas científicas. Como investigar as literaturas e as artes sem considerar a diversidade de culturas e línguas? Como dignificar a ciência sem ter vocabulários ligados á línguas?   Infelizmente, há quem julgue que a avaliação académica deve ser uniformizada e redutora, o que é o contrário da compreensão da diversidade. E não se pense, pois, que a tendência futura é para a existência de uma única língua franca. Num mundo globalizado, não podemos falar da língua portuguesa como realidade fechada, mas como uma identidade aberta e dinâmica, e aí está a sua riqueza e a sua virtualidade.


Como disse Sophia de Mello Breyner: «Gosto de ouvir o português do Brasil / Onde as palavras recuperam sua substância total / Concretas como frutos nítidas como pássaros / Gosto de ouvir a palavra com suas sílabas todas / Sem perder sequer um quinto de vogal…» (Geografia, 1967). Como Unamuno bem pressentiu e Eduardo Lourenço interpretou, com rigor e perfeição, somos feitos de lirismo e de história trágico-marítima – com mistura do picaresco, do escárnio e maldizer. Encontramo-nos nessa realidade multiforme desde a poesia trovadoresca até à rica poesia contemporânea, passando por Camões, Sá de Miranda, Bocage, Garrett, Herculano, Antero de Quental, João de Deus, Cesário, Camilo Pessanha, Fernando Pessoa, Almada Negreiros, Jorge de Sena e todos mais… Portugal, como palavra, é uma eterna convergência da lembrança e do desejo, do amor e da provação, e a língua portuguesa, espalhada pelo mundo foi-se construindo nessa pluralidade e nessa complementaridade… A língua portuguesa, temperada com mais açúcar ou mais especiarias, é um traço de união e de diferença. E se dúvidas houvesse João Guimarães Rosa leva-nos em busca da terceira margem, Mia Couto reinventa-nos em permanência, enquanto Adélia Prado usa como matéria-prima o afeto e a esperança… Eduardo Lourenço é perentório: «O que tínhamos de provar ao mundo já provámos quando isso era uma novidade e constituía uma ação para a humanidade inteira. Temos sempre este complexo de ser uma pequena nação não tão visível como outras. Mas outras nações também não são visíveis». Somos quem somos, porque queremos. «Não se sabe assim como é que há quase mil anos este país pequenino, aqui no canto da Europa, é ainda sujeito do seu próprio destino.». A História é uma constante batalha cultural. Mas há ameaças e perigos, e até indiferença e acomodação. Idioma de várias latitudes e culturas – eis um caleidoscópio incompatível com uniformidade ou paternalismo. Prevalecem o pluralismo e a diversidade. Por isso, Vieira, Garrett, Antero e Cortesão aspiraram a um patriotismo prospetivo, em que o fundo da língua portuguesa se afirma como exigência de abertura e pluralismo. Como disse magistralmente António Ferreira: «Floresça, fale, cante, ouça-se e viva / A Portuguesa língua, e já onde for. / Senhora vá de si, soberba e altiva. / Se téqui esteve baixa e sem louvor, / Culpa é dos que a mal exercitaram, /Esquecimento nosso e desamor». 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 7 a 13 de abril de 2025


António Cícero (1945-2024) foi um poeta, compositor, pensador e escritor, com uma obra multifacetada que merece ser lido e pensado como representante da mais moderna capacidade criadora dos brasileiros e dos cultores da língua portuguesa.
 


O último número do ano de 2024, a “Revista Brasileira” da Academia Brasileira de Letras, dirigida por Rozisca Darcy de Oliveira, dedicou um importante conjunto de textos e de depoimentos à memória do académico recentemente falecido Antonio Cícero (1945-2024), compositor, poeta, filósofo e crítico literário, titular da cadeira 27. Como letrista celebrizou-se junto do grande público ao acompanhar com os seus poemas sua irmã Marina Lima bem como outros artistas como Adriana Calcanhotto, José Miguel Wisnik, João Bosco e Waly Salomão. Prestigiado investigador, coordenou na Universidade Federal Fluminense com Alex Varella Cursos de Estética e Teoria da Arte realizados no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Em colaboração com Waly Salomão, desenvolveu o Banco Nacional de Ideias, promovendo ciclos de conferências e discussões com artistas e intelectuais consagrados, como João Cabral de Melo Neto, Haroldo de Campos, John Ashbery, Derek Walcott, Caetano Veloso, Richard Rorty, Tzventan Todorov, Hans Magnus Enzensberger, Peter Sloterdijk e Darcy Ribeiro.


Na antologia organizada por Italo Moriconi “Os Cem Melhores Poemas Brasileiros do Século”, o seu poema “Guardar” foi um dos escolhidos. E ao ouvirmo-lo, sentimos a força e a alma da sua palavra: “Guardar uma coisa  não é escondê-la ou trancá-la. / Em cofre não se guarda coisa alguma. / Em cofre perde-se coisa à vista. / Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por / admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado. / Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por / ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, / isto é, estar por ela ou ser por ela. / Por isso melhor se guarda o voo de um pássaro / Do que um pássaro sem voo. / Por isso se escreve, por isso, se diz, por isso se publica / por isso se declara e se declama um poema: / Para guardá-lo: / Para que ele, por sua vez, guarda o que guarda: / Guarde o que quer que guarda um poema: / Por isso o lance do poema: / Por guardar-se o que se quer guardar”. Merece referência especial a iniciativa em que participou com Gabriel o Pensador, Chico Buarque, Ronaldo Bastos e Fernando Brant da publicação de quatro CDs de homenagem a Carlos Drummond de Andrade (2002). Com José Saramago, Wim Wenders e Hermeto Pascoal participou no documentário “Janela da Alma” de João Jardim e Walter Carvalho. Em 2007 proferiu em Lisboa na Fundação Gulbenkian a conferência “Da atualidade do conceito de civilização”, no âmbito do encontro “O Estado do Mundo”, publicado em “A Urgência da Teoria”. Ainda em Lisboa, proferiu em 2008 a conferência de encerramento do Congresso Internacional Fernando Pessoa com o título “Fernando Pessoa – Poesia e Razão”, publicado em 2010. A Imprensa Nacional publicou “Guardar. A Cidade e os Livros. Porventura” (2020), uma reunião fundamental integrada na coleção Plural, com direção literária de Jorge Reis-Sá e o poeta teve participação relevante na Póvoa de Varzim nas Correntes de Escritas.


Pensador de uma fina inteligência aberta e livre, Antonio Cícero, ao tomar posse na Academia, afirmou:: “O cânone literário positivo, sendo produzido por uma sociedade aberta, é, ele próprio, aberto, expansivo, sempre sujeito a questionamentos, discussões e modificações. Convém ressaltar  que o reconhecimento de um cânone  não é absolutamente incompatível com a valorização da inovação na literatura. Assim, os movimentos de vanguarda não eram necessariamente contra o cânone. (…) Penso que a importância do cânone está, em primeiro lugar, no facto de que é através dele que sabemos o que é a literatura e o que é a boa literatura.. Não é através de nenhuma definição que sabemos o que é poesia, mas sim através da leitura de poemas e, em primeiro lugar, de poemas que têm sido considerados bons, modelares, clássicos, canónicos pela sociedade aberta de poetas, escritores, teóricos da literatura, críticos, professores, jornalistas, leitores etc.”. Ao longo das páginas dedicadas ao poeta homenageado, sentimos um percurso de rara coerência, bem demonstrada até ao seu último gesto. Simbolicamente, para além do dossiê de homenagem e dos diversos textos que o compõem, há uma página que estava destinada ao texto do poeta, que de algum modo, adivinhamos, relendo o que nos deixou. Como diz Rosiska Darcy de Oliveira: “Exercendo a sua última liberdade, ele escolheu colocar o ponto-final em sua história. Na sua ausência essa página em branco ilustra o vazio que ele deixou”.


Ilustrando a importância da vitalidade da cultura, o académico António Carlos Secchin, a propósito da Semana de Arte Moderna de 1922, demonstra como os caminhos da criação são insondáveis dando, afinal, razão a António Cícero sobre a importância da sociedade aberta e das suas diferenças. E fala-nos paradoxalmente de “Os Sapos” de Manuel Bandeira como possível símbolo dessa célebre Semana (de que não participou), quando o poema de Carlos Drummond “No meio do caminho” seria porventura mais coerentemente “hino” da Semana…Mas a mitologia desenvolveu-se de outro modo. “O Olimpo em Chamas”, eis as repercussões de uma sessão académica agitada pelas polémicas sobre a Semana modernista, com troca de argumentos corrosivos e a saída de Graça Aranha em ombros, em rutura anunciada com a Academia… Contudo, por momentos, a sessão modernista da ABL cairia no olvido. Mas ocorreu a seguir um volte-face. «Ainda assim, a despeito de tudo isso (diz A.C. Secchin), a Semana de Arte Moderna se consolidou miticamente como o maior acontecimento da história brasileira. Se Oswald de Andrade fosse vivo e eu lhe indagasse por quê, ele, irreverente, talvez respondesse: ‘Ora, você não conhece a profunda verdade de um verso paradoxal de Fernando Pessoa? O  mito é o nada que é tudo’».


A “Revista Brasileira” está cheia de motivos de interesse como o importante ensaio de Lília Schwarcz  sobre Amália Augusta de Lima Barreto, exemplo das estratégias conhecidas de certas famílias afro-brasileiras para ganharem a liberdade jurídica e conquistarem o reconhecimento social pelo acesso à educação. Por fim, a recensão da obra de Edgar Morin, “De Guerra em Guerra – de 1940 à Ucrânia”, permite-nos ouvir o centenário sócio correspondente da Academia dizer-nos: “A certeza de políticos e economistas de que o neoliberalismo seria produtor de um crescimento continuo era ilusória; a pandemia mundial, que provocou uma crise planetária gigantesca e multidimensional, foi mal compreendida pelo pensamento reinante, mecanicista e linear, que se mostra incapaz de conceber a complexidade dos fenómenos. Enquanto nos felicitamos por ter conseguido chegar à sociedade do conhecimento, estamos mergulhados numa cegueira que, quanto mais acredita possuir os meios adequados do saber, mais aumenta”…    


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

GOM _ A Vida dos Livros.jpg
   De 30 de dezembro de 2024 a 5 de janeiro de 2025

 

Assinalamos hoje, no termo do ano 2024, o centenário de António Ramos Rosa (1924-2013), um grande poeta que marcou a tradição do Algarve na cultura da língua portuguesa.

 

antonio ramos rosa.jpg

 

No último número dos “Anais do Município de Faro” recordei Nuno Júdice, como companheiro inesquecível. E nada melhor para o fazer do que lembrar o belo poema, que há um ano citei, sobre o silêncio das palavras. “Escuto o silêncio das palavras. O seu silêncio / suspenso dos gestos com que eles desenham / cada objeto, cada pessoa, ou as próprias ideias / que delas dependem. Por vezes, porém, as / palavras são o seu próprio silêncio. Nascem / de uma espera, de um instante de atenção, da / súbita fixidez dos olhos amados, como se / também houvesse coisas que não precisam / de palavras para existir.” (Pedro, Lembrando Inês, 2001). As palavras nascem da espera, da atenção - de realidades e acontecimentos que não precisam de palavras para existir. Sem palavras há coisas que não poderiam ter vida, porque o presente projeta-se no tempo que passou, no tempo atual e no futuro – para lembrarmos a expressão de Santo Agostinho. Melhor do que ninguém, o poeta põe-nos perante o insondável mistério do ser. Na sua ausência, não esquecemos a serena reflexão, que consideramos profética e que nos leva ao centenário de António Ramos Rosa, cujo espírito aqui está bem presente. 

 

LEMBRAR A POESIA 61

Este foi um ano de diversas partidas. Além de Nuno Júdice, deixou-nos Casimiro de Brito, cuja obra merece atenção. Foi uma presença da “Poesia 61” que seguiu Gastão Cruz e Manuel Baptista. E essa experiência continua presente entre nós, já que esses ecos do Sul correspondem não a uma escola, mas à compreensão da Arte e da Cultura como fatores inesgotáveis de criatividade e de inovação. Recordo, por isso, António Ramos Rosa, que não tendo participado na “Poesia 61” foi, podemos dizê-lo, um inspirador e uma referência. E se dúvidas houvesse descobrimos que a atenção à realidade, o não alinhamento e a recusa de uma atitude de grupo foram uma marca seguida pela geração mais nova de Gastão Cruz, Fiama Hasse Pais Brandão, Luíza Neto Jorge, Maria Teresa Horta e Casimiro de Brito. De facto, para António Ramos Rosa “a poesia distingue-se da mística na medida em que constrói um corpo e reconstrói o ser na própria linguagem. A palavra do poeta é comparável à força muscular na sua extrema intensidade. Ela é uma descida iniciática à matéria. Por isso, podemos considerá-la uma espécie de densidade, de música. Não há diferenças entre a criação do sentir poético e o amor da terra. Afinal, no corpo da linguagem encontra-se a luz da terra”. E foi Eduardo Lourenço quem disse: “o coração é a essência da poesia de Ramos Rosa vertiginosamente ocupada pelos mistérios da realidade – de toda, da mais trivial à mais enigmática. Em suma, toda ela não foi mais do que uma conversa sem fim com o poema como esfinge do real”.

 

O GRITO CLARO!

Em homenagem a António Ramos Rosa, o referido número dos “Anais” publicou cinco poemas do livro inédito “A Duração do Gérmen”, escrito nos anos 90. São poemas que nos levam ao encontro do Mar e de uma ilha. A nudez pressupõe a pureza essencial da atenção, em vez dos “volúveis arabescos do desejo”. E assim o poeta privilegia a “obstinada avidez de compreender”. Como ir além da superfície? E só o silêncio pode permitir que se desvende a “inteligência do vento”, capaz de nos levar à necessidade de “separar a presença da ausência”. Com efeito, a alma assemelha-se a uma ilha que é “feita de acolhimento”, mas que também se define pela ausência. E é o silêncio que marca a sua existência, num desejo intenso de ir ao encontro do mistério insondável das diferenças, que nos completam e da palavra essencial que faz nascer o mundo. E oiçamos: “Ilha / uma pedra mais silenciosa do que as pedras / a plenitude de estar perante ti / com a fronte lavada / pelo teu silêncio / que é só o teu silencio nu / através da monotonia de um mar / que não quebra o teu silêncio / que o acentua / /que o prolonga / e o faz respirar / Cessaram as imagens / os volúveis arabescos do desejo / a obstinada avidez de compreender / Estou perante a nudez / e estou nu / Tenho a inteligência do vento e estou presente / sem separar a presença da ausência…”

 

A DURAÇÃO DO GÉRMEN

É esse mistério essencial da palavra que faz nascer o mundo que revela a um hóspede silencioso como só a palavra pode abrir horizontes. E se há palavras que têm dificuldade em fazer mover o mundo, há sempre a possibilidade de abrir novas oportunidades para entender melhor o imutável. E a palavra, sempre ela, torna-se a memória do murmúrio, que enche o silêncio do universo, enquanto marca da humanidade. Afinal, perante um poeta, apenas podemos aspirar a compreender-nos melhor. E António Ramos Rosa ajuda-nos a desvendar o mistério insondável das raízes do tempo e das coisas, já que “o ato poético é um ato de concentração, porque o poema se separa do mundo quotidiano, do mundo objetivo, de um mundo que está dividido e, portanto, mutilado. O poema busca uma realidade perdida e a sua integração nas palavras e nos objetos que são sensibilizados pela impulsão poética”. Nesta afirmação feita na entrevista concedida a Francisco Bélard, em 1988, por ocasião da atribuição do Prémio Pessoa está contida uma revelação importante, que permite compreender o coração aberto à terra, que singulariza o poeta. Ao tentar responder quem era verdadeiramente esse poeta, retratado no ocaso da existência, José Tolentino Mendonça aproximou-o dos místicos – “esses que se confundem facilmente com peregrinos, estrangeiros e deslocados ou com mendigos. Não têm dono, não são heraldo de ninguém, não convergem para uma meta precisa. São frugais e leves. São abertos e vigilantes. Preservam a sua humildade com mansidão. A sede de absoluto e a nostalgia dos grandes espaços que preservam é um espelho da imensidão interior que obstinadamente cultivam. Definem-se como errantes, hóspedes habituais da natureza e só eventualmente dos homens, vivem a itinerância como pátria espiritual. Se suprimirmos o que eles não veem, suprimimos também o que veem. Eles sabem que silêncios, solidões e desertos não são necessariamente lugares, mas estados do coração a percorrer sem fim, e tornam-se mestres porque antes se tornaram justos” (Prefácio a Poesia Presente – Antologia, Assírio e Alvim, 2014). É Pascal que regressa com verdadeiro “esprit de finesse”. E razão tem Maria Filipe Ramos Rosa (a quem renovo os agradecimentos pela confiança em permitir a revelação do projeto inédito) quando diz que nos anos 90 o caráter repetitivo do poeta lembra “exercícios diários de sobrevivência”. Mas, mais do que isso, são glosas de temas fundamentais, que encontramos desde o “boi da paciência” ou do “funcionário cansado de um dia exemplar”, sem esquecer as magníficas traduções de Foucault, Éluard ou Mounier.  E ouvimos: “Quem escreve / quer juntar-se / à pedra, / à árvore // E ser através delas /o tranquilo sopro / do inominável” (A Intacta Ferida, 1991).      

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  
De 16 a 22 de setembro de 2024


Regressamos hoje a Carolina Michaelis de Vasconcelos (Berlim, 1851, Porto, 1925), a primeira mulher catedrática em Portugal e a mais inteligente e arguta estudiosa da língua portuguesa.


DIVAGAÇÕES FILOLÓGICAS
Quando escreveu “A Saudade Portuguesa” esclareceu com muita clareza a originalidade do conceito e a ligação do mesmo a uma perspetiva de humanismo universalista. A obra compõe-se do que a autora designa como divagações filológicas, designadamente em torno de Inês de Castro e do Cantar Velho «Saudade Minha - Quando te veria?», cabendo a segunda edição, revista e acrescentada, à Renascença Portuguesa, no Porto, à Seara Nova, em Lisboa, e ao Anuário do Brasil do Rio de Janeiro. 1922. E nota-se a intervenção de António Sérgio no sentido da abertura e da riqueza do conceito. Os especialistas consideram o estudo de grande brilhantismo e profundidade, sendo dividido em nove capítulos, com um post scriptum e um vasto conjunto de anotações. Os capítulos têm os seguintes títulos: Inês de Castro: história e lenda - O drama inesiano ‘Reinar despues de morir’; A referida canção ‘Saudade minha - Quando vos veria?’; D. Sancho I e Maria Paes, a Ribeirinha; Saudosistas autênticos e apócrifos; O que é a Saudade, linguisticamente; O que é a saudade, psicologicamente; Soledades; Cantares velhos; Motes e Voltas. Com recurso a uma segura hermenêutica, a autora analisa um grande número de textos da literatura popular e da literatura palaciana em que é usada a palavra Saudade, desfazendo atribuições e datações erradas e iluminando, de forma inovadora, a história de Inês de Castro. Trata-se de uma obra imprescindível para o estudo deste tema central da filologia, literatura e cultura portuguesas. Na rua da Cedofeita, no Porto, a casa de Carolina e Joaquim de Vasconcelos era um centro onde se reuniam os mais influentes intelectuais do seu tempo, a começar na chamada Geração de 70, empenhados na vida cívica e no lançamento das bases do progresso baseado na cultura e na liberdade. O conhecimento sobre a realidade portuguesa por parte de Carolina Michaelis enchia de espanto os seus leitores. É impressionante a lista dos trabalhos que publicou sobre história e crítica literárias. Lembremos os estudos sobre o "Cancioneiro da Ajuda" e um glossário imprescindível que preparou, com enorme cuidado.


INESGOTÁVEL CAMPO DE INVESTIGAÇÃO
A literatura portuguesa foi um inesgotável campo para a sua investigação sobre as origens da poesia peninsular. E o certo é que abriu perspetivas inovadoras, que hoje ainda são imprescindíveis. Em 1901, o rei D. Carlos concedeu a Carolina Michaelis de Vasconcelos o grau de oficial da Ordem de Santiago da Espada, como preito de homenagem ao seu extraordinário labor científico. E em 1911, logo após a implantação da República, foi nomeada professora da nova Faculdade de Letras de Lisboa, lugar que não aceitou, por motivos familiares. No entanto, assumiu o encargo na Universidade de Coimbra, onde recebeu, em 1916, o grau de Doutora honoris causa. Em 1923 foi-lhe outorgada idêntica honra na Universidade de Hamburgo. Mulher e investigadora, cultora da sensibilidade e do rigor, a sua vida demonstra a importância da ligação entre a opção pessoal e a vocação científica. Considerou a Saudade como um “traço distintivo da melancólica psique portuguesa e das suas manifestações musicais e líricas”, muito mais do que a Sehnsucht, característica da alma germânica. “Refletida, filosófica, acatadora do imperativo categórico da Razão pura, ou do imperativo energético da atividade ponderada”, a palavra alemã teria “muito maior força de resistência contra sentimentalismos deletérios”. “A saudade e o morrer de amor” são para a estudiosa “as sensações que vibram nas melhores obras da literatura portuguesa, naquelas que lhe dão nome e renome”. Elas perfumam o meigo livro de Bernardim Ribeiro e as obras que estilisticamente derivam dele, como a “Consolação de Israel” de Samuel Usque, as “Saudades da Terra” de Gaspar Frutuoso, as “Rimas” de Camões, os Episódios e as Prosopopeias de “Os Lusíadas”, as “Cartas da Religiosa Portuguesa” e as criações mais humanas de Almeida Garrett, a Joaninha dos olhos verdes e as figuras todas de “Frei Luís de Sousa”. Não faltam no Cancioneiro do povo; nem na sua fase arcaica, os reflexos cultos da musa popular que possuímos, isto é, nos cantares de amor e de amigo dos trovadores galego-portugueses, no período que se prolongou até Pedro e Inês. E logo no alvorecer da poesia, surgiram naturalmente “lindos lamentos de amor e de ausência, como na singela composição, em que o rei D. Sancho o Velho desdobra o sentimento da saudade nas suas duas componentes principais: cuidado e desejo”.


Vendo a mestra com olhos de hoje, não passa despercebida a intenção claramente emancipadora da mulher que defendia a liberdade e a igualdade, a igualdade e a diferença como faces do mesmo espelho, nunca como realidades antagónicas. Como disse Gerhard Moldenhauer na oração fúnebre: “Quem, para mais conscientemente se orgulhar de ser português, alguma vez se interessou pela nossa herança espiritual, encontrou sempre no excecional espírito de Carolina Michaelis o mais amável dos mestres e o mais seguro dos guias”.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CADA TERRA COM SEU USO

folhetim 27 com legenda.png

 

XXVII.  O universalismo da cultura portuguesa: língua como fator de diversidade e de encontro.    

 

O idioma é essencial para a afirmação de uma identidade, mas também para enriquecer pelo diálogo culturas e civilizações. A língua portuguesa projetou-se em todos os continentes. Quando falamos dela, consideramos uma longa história, a partir do galaico-português, língua antiga, que cedo alcançou assinalável maturidade. O português ou o espanhol jamais foi dialeto um do outro. A partir da matriz galega, temos uma diversidade de influências, como a dos moçárabes, principal veículo transmissor de um grande número de vocábulos árabes para o nosso léxico, pela parte bilingue da população, além dos caracteres próprios adquiridos com a cultura quinhentista… Devemos falar de uma língua de várias culturas e uma cultura de várias línguas. Falamos de várias culturas, pela natureza própria da diversidade política, como língua de unidade nacional, como língua segunda, ou como língua integradora no complexo mosaico étnico e geográfico – ora em África, ora no Brasil. E quando referimos várias línguas, reportamo-nos ao desenvolvimento dos crioulos, de raiz portuguesa, mas com uma vida própria. Lembremo-nos de Cesária Évora ou de Mário Lúcio e encontramos pontes essenciais de diálogo. De facto, sem idealizações ou simplificações, e muito menos paternalismos, a partir de exemplos concretos, trata-se de uma língua que deve ser vista como realidade em movimento. Como disse Rui Knopli, a língua tenderá a ser um denominador comum de vários espaços africanos, asiáticos, brasileiros, europeus, numa espécie de “pátria coincidente”. E para o compreender, basta lermos a literatura da língua portuguesa contemporânea. A língua inglesa é indubitavelmente fundamental nos vocabulários científicos, mas temos de assegurar o diálogo interlinguístico, designadamente no âmbito das ciências sociais, nas quais a diversidade da comunicação tem de ser compreendida, sob pena de desvirtuarmos o conhecimento. Como insistia Vasco Graça Moura, nenhum de nós quer uma língua única, totalitária.

 

Tem de se abrir espaço para a diversidade linguística, estabelecendo pontes entre os vários idiomas e as várias culturas. Não podemos esquecer que as chamadas Humanidades irão ganhar uma configuração cada vez mais fortemente relacionada com todas as disciplinas científicas. Como investigar as literaturas e as artes sem considerar a diversidade de culturas e idiomas? Vergílio Ferreira dizia, por isso, que não se pode pensar fora das possibilidades da língua em que se pensa. Infelizmente, há quem julgue que a avaliação académica deve ser uniformizada e redutora, o que é contrário da compreensão da diversidade. E não se pense que a tendência futura é para a existência de uma única língua franca. Num mundo globalizado, não falamos da língua portuguesa como uma realidade fechada, mas de uma realidade aberta e em movimento, e aí está a sua riqueza e as suas virtualidades.

 

Para compreender as culturas da língua portuguesa, temos de ler Machado de Assis, Euclides da Cunha, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Manuel Bandeira, Drummond de Andrade, Rachel de Queiroz, Lygia Fagundes Telles, João Cabral de Melo Neto, António Cândido, Ferreira Gullar, João Ubaldo Ribeiro, Rubem Fonseca, Alberto Costa e Silva e Nelida Pinõn, mas igualmente Baltazar Lopes da Silva, Manuel Lopes, Daniel Filipe, Luandino Vieira, Mário Pinto de Andrade, Corsino Fortes, Pepetela, José Craveirinha, Mia Couto, Orlando Costa, Paulina Chiziane, Ana Paula Tavares, Ondjaki, José Eduardo Agualusa, Arménio Vieira, Onésimo Silveira, Germano Almeida, Vera Duarte, Albertino Bragança, Alda do Espírito Santo ou Luís Cardoso. Nesta diversidade, não exaustiva ou sistemática, poderemos ter a compreensão de várias culturas que se cruzam e se enriquecem mutuamente, sem uniformidade nem modelo.

Agostinho de Morais

 

 

» Cada Terra com seu Uso no Facebook

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CXV - POR UMA QUESTÃO DE RESPEITO E BOM SENSO


Escrevi, em texto publicado neste blogue:

“A velocíssima rapidez com que jogadores e técnicos portugueses se adaptam ou tentam adaptar a um bom uso da língua oficial de Espanha quando aí trabalham ou residem, é inversamente proporcional aos esforços que desportistas e técnicos espanhóis fazem para se adaptar a um bom domínio do português em terras lusas”.

Continuando, acrescentei:        

“Refira-se que a ser verdade de que quem fala português tem mais facilidade de falar  (e compreender) castelhano, seria de prever, por tal vantagem, que houvesse proporcionalmente mais espanhóis a interessar-se pelo nosso idioma”, o que manifestamente não acontece (A Língua Portuguesa no Mundo, XLIX - Não ao Complexo de Inferioridade Linguístico (II)).

Exemplifico-o referindo um treinador espanhol do Benfica (Camacho), “useiro e vezeiro no uso do castelhano no nosso país, apesar de residente em Portugal por razões profissionais, nunca se lhe tendo ouvido, via comunicação social, um bom dia, boa tarde, boa noite ou obrigado”, o que era extensivo ao seu compatriota Quique Flores, sem reclamação ou protesto, o que não sucederia se portugueses, por razões similares, residissem e laborassem no país vizinho, como sucedeu com Carlos Queiroz, José Mourinho, Cristiano Ronaldo, Futre ou Figo, o mesmo sucedendo agora, por exemplo, com João Félix e João Cancelo.   

Aludo a um complexo de inferioridade linguístico luso, mesmo no nosso próprio país, quer através de um uso confidencial do nosso idioma ou sua baixa consideração social, quer por se entender serem os espanhóis maus em línguas, porque não se esforçam ou presumem não valer a pena, dada a nossa permissividade, sendo esta comum a uma percentagem significativa das nossas elites e jornalistas. 

Por mim, em Portugal (como residente) ou Espanha (como turista ou viajante), tento fazer-me entender em português, usando-o e repetindo pausadamente as palavras, justificando-se, usando o inglês em caso de conflito e de não reciprocidade, se exequível. E são cada vez mais os espanhóis que entendem o meu português, dado que determinados maus hábitos de permissividade plena não se justificam. O que é bem diferente de morar e trabalhar no dia a dia noutro país, que não o nosso (mesmo que temporariamente).     

Felizmente, há quem pense ser do mais elementar bom senso e uma questão de respeito aprender o nosso idioma quando residentes e trabalhadores entre nós aprendendo, no mínimo, o português básico e fundamental para uma integração saudável. Demonstra-o o atual treinador da seleção nacional Roberto Martinez, um espanhol da Catalunha, com aulas presenciais ou on line, nunca menos de duas horas diárias, para comunicar com os jogadores e entender a nossa cultura, tradições e história, tendo feito em português a primeira convocatória como selecionador de Portugal, usando-o quando interpelado no nosso país, onde reside e trabalha. Uma conduta adequada que deveria ser a norma, e que, até agora, é mais a exceção que a regra, o que se lastima.


15.12.23
Joaquim M. M. Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

  


CIX - COMO CANDIDATA A IDIOMA OFICIAL DA ONU


Tem-se um assunto comum, há muitos anos, querer que o português seja um idioma oficial da ONU, a par do inglês, francês, espanhol, chinês, russo e árabe.   


São recorrentes as propostas, recomendações, declarações de intenção, entre outras manifestações de vontade, reiteradas por sucessivos agendamentos formais que, até hoje, não se concretizaram.


Recentemente, na última Cimeira da CPLP, em agosto deste ano, em São Tomé, o presidente brasileiro, Lula da Silva, recebendo forte ovação, afirmou: “Temos de aproveitar termos um secretário-geral das Nações Unidas que fala português e acho que deveríamos entrar com informações e um pedido nas Nações Unidas para que a língua portuguesa seja transformada em língua oficial da ONU”, o que foi recebido e apoiado por unanimidade pelos presentes, mas é omitido na decisão final desta XIV sessão de países lusófonos.           


Não foi a primeira vez, dado que já em 2016, em Brasília, na XI Cimeira da CPLP, foi aprovada por aclamação uma proposta para que o português seja língua oficial da ONU, apresentada pelo então presidente brasileiro Michel Temer, da qual também é omissa a declaração final da reunião.


Por entre aplausos, aclamações, ovações, felicitações, saudações, registos sonoros de boas intenções, recomendações, reforços e resoluções, nada ficou, por escrito, quanto à mais que merecida proposta para que o nosso idioma seja aceite, por mérito e direito próprio, como idioma oficial da ONU.   


Sendo uma das línguas mais faladas a nível global, pluricontinental, pluricêntrica, a mais falada do hemisfério sul, a terceira do ocidente, de África e do continente americano, internacional, global, de exportação e com futuro, impondo-se por si como fator demográfico e geopolítico, é incompreensível ser uma candidata permanentemente adiada ao fórum de uma organização internacional universal como a ONU.


Lemos, que este ano, o Tribunal Centro-Americano de Justiça propôs ao Conselho de Segurança da ONU incorporar o português como seu idioma oficial, baseando-se na resolução de 2017 da Assembleia-Geral sobre a cooperação da CPLP com as Nações Unidas e o ser língua oficial da Conferência Geral da UNESCO, o que servia de base legal para solicitar a integração da língua portuguesa como língua oficial daquela organização e, posteriormente, poder ser aprovada na AG.


A corroborá-lo houve declarações de uma anuência, entre os líderes da CPLP, de falarem em português na AGNU, na grande maioria das reuniões e, sobretudo, em debates gerais, acrescentando-se que “(…) para falar em português temos que ter tradutores próprios, porque o sistema das Nações Unidas não tem tradutores de português”, salientando-se o imenso financiamento exigido para tornar exequível o português como um dos idiomas oficiais da ONU.


Quem paga e em que proporção, por certo será um dos problemas pendentes a resolver, sendo de presumir que caberá a Portugal e ao Brasil, maioritariamente ou na totalidade, esses custos, porque mais desenvolvidos e tidos potencialmente como os principais interessados e beneficiários, sem esquecer que os demais países da CPLP, recentemente descolonizados, poderão alegar tal facto, além de um nível de vida inferior, sem se esquecerem de invocar as suas sequelas como ex-colónias, embora o Brasil, em tempos idos, também o fosse. 


Melhor que nada, mas pouco, convenhamos, por entre declarações elogiosas e proclamatórias de boas intenções, até agora não concretizadas, indiciando-se que o português continuará a ser menorizado e secundarizado, desde logo pela exiguidade de meios do Instituto Internacional da Língua Portuguesa, exemplificando-o a recente verba anual de 310 000 euros (! …) que lhe foi atribuída.


03.11.23
Joaquim M. M. Patrício