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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA

  


A PALAVRA DE JOÃO BÉNARD DA COSTA
LEGENDA AUREA


1 -
 Vai para uns tempos, puxei de rufos e tambores para saudar a edição de "A Bíblia dos Jerónimos," em parceria entre a Bertrand e a FMR. Vai para uns tempos? Que digo eu? Já o ano mudou de quatro para cinco e os tempos de que falo são tempos do ano passado. Às voltas no mundo ou às voltas com o mundo, voltei a despedir-me à francesa e a desaparecer sem dizer água-vai. Uns chamam-me flibusteiro, outras trapalhão, mas eu acho sempre que eles não se vão embora para não mais voltar. Eu volto sempre. Posso despassarar, mas estou sempre onde menos se espera. Aqui, por exemplo, cá estou eu de novo, pegando nos livros onde os deixei e no Natal, já o Dia de Reis se foi há mais de uma semana. Chega de tempos e da falta deles. O que eu queria lembrar é que, ao louvar "A Bíblia dos Jerónimos", sacudi do capote eventuais suspeitas de andar a soldo de Franco Maria Ricci. Ficava muito mal com a minha consciência se não me apressasse nos hossanas a uma edição tão bela como essa e que nada tem que ver com a Bertrand ou com Ricci, surgida nos escaparates por obra e graça da Civilização Editora do Porto. 


Em tão funesto ano como o passado, o Menino Jesus desceu do céu três vezes: para a Bíblia de que já tanto falei, e para os dois inadjetiváveis volumes que aqui me trazem hoje. Qual foi a terceira vez? A modéstia ou o orgulho impedem-me de o dizer por enquanto, mas pode haver quem repare. 2004, o malfadado, acabou em glória de livros de arte, desses que levaram o poeta das "Odes" ao verso famoso: "a thing of beauty is a joy forever".


2 - 
Algures em "A Alma dos Ricos", Agustina escreve que "santos e santas, pessoas de altíssima graça para a abnegação e o sacrifício, iam buscar essa paixão a um lugar inóspito e prodigioso, a própria infância". Não há muito que duvidar. Quem conhecer o mais vasto repertório de vidas de santos e santas jamais recolhido não encontra um ou uma que não tenham ido buscar a bem-aventurança a essa tenra idade. Hoje, lê-se muito menos a "Legenda Áurea". Mas, durante cerca de 600 anos, foi o "livro mais copiado e mais lido de todos os países da cristandade", juntamente com a Bíblia, como sustenta Diane de Selliers, no prólogo da magnificente edição francesa de 2000, em boa hora vertida para português em 2004. Por mim, só tenho algumas dúvidas ao lembrar-me da "Imitação de Cristo" (pelo menos tão lida como a "Legenda Áurea") e só ponho algumas reservas à expressão "países da cristandade". Sabido como os santos e santas foram desacreditados pela Reforma, não julgo que, nos países protestantes, o livro estivesse em muitas cabeceiras desde que a cristandade ocidental se partiu ao meio. Mas em terras do Papa, ou ao Papa reverentes (mesmo quando insolentes), a afirmação é pacífica. Quem, entre os ímpios, tiver dúvidas, leia a sábia introdução do prof. Aníbal Pinto de Castro e perdê-las-á. Só em Portugal não têm conta as edições, desde a de Alcobaça, em 1298, ainda o autor da "Legenda" era vivo, até as de 1818. Embora para os mais novos persistam muitas confusões. Eu, por exemplo, sempre lhe chamei "Lenda Dourada" (por influência do título francês "La Légende Dorée" e em francês li eu o livro, quando novo era) e sempre escrevi o nome do seu autor como Jacques de Voragine (outro galicismo). Os factos, resumidos pelo prof. Pinto de Castro, convenceram-me. É bem certo que Jácomo, lacopo ou Jacopo de Varezze - "cedo conhecido pelo apelido alatinado de Voragine" (1226?-1298) foi um nativo da Ligúria, que professou nos dominicanos em 1244 e chegou a provincial da Lombardia, a geral da Ordem dos Pregadores e a arcebispo de Génova. Se viajou bastante (foi até França, foi até à Hungria), quase toda a sua vida se passou em Itália.


De modo que, ao aportuguesar-lhe o nome, vale o compromisso de Pinto de Castro, que lhe chama Tiago de Voragine, pois que Tiago precedeu Jaime como versão lusa do Jacobus latino. Não me vou demorar na história da vida de Tiago de Voragine, mas acentuo, seguindo uma vez mais o prof. Pinto de Castro, na imensa erudição que o levou a redigir durante cerca de vinte anos (mais ou menos de 1240 a 1260) estas vidas de 365 santos, usando como fontes autores que vão de Santo Ambrósio a Santo Agostinho, do Pseudo-Dinis ao Venerável Beda, para lá das Escrituras, quer as ortodoxas quer as apócrifas. Voragine contou a verdade, só a verdade e nada mais que a verdade? No século XIII não se usavam tais pruridos e a palavra "legenda" por que a obra passou a ser conhecida, mostra, com clareza, que as fontes principais eram lendárias, recolhidas pela tradição com o mesmo grau de fidelidade dos contos populares. "Áurea", porquê? Porque "o seu conteúdo é de ouro" e brilha como brilha esse metal. 


Para se perceber bem este livro, sobretudo "mágico", há que atentar em dois pontos, relevados na sumptuosa edição que aqui me trouxe. O primeiro é referido numa citação de Gervásio de Cantuária (1140-1210) que serve de epígrafe ao texto introdutório de Diane de Selliers: "Com a Beleza resplandece a luz. No Céu, contemplaremos a Beleza face a face, ali já não teremos necessidade da arte. Na terra, não podemos prescindir dela." 


O segundo serve de título ao artigo de Pinto de Castro e chama à "Legenda Áurea" as "Mil e uma Noites do Cristianismo". Quem ler este livro, esquecido desta platónica invocação à beleza (bebida diretamente em Plotino), ou esquecido da sua analogia com os contos árabes, perde, quanto a mim, o essencial. Sendo também certo que, de acordo com as boas regras da retórica, "o prazer do texto (o 'delectare') e as emoções que desencadeia no destinatário (o 'movere') estão sempre ao serviço de uma intenção catequética e moralizante (o 'docere')" (aut.cit.). Esse duplo propósito reveste-se na edição francesa de 2000 - e agora, nesta, portuguesa, de 2004 - de um aspeto ainda mais deleitoso, pela opção de ilustrar os dois grandes volumes da obra com reproduções da grande pintura italiana do século XIII ao século XV, de Duccio e Giotto até Masaccio ou Piero. A obra agora editada é um "livro de arte" fabuloso, uma espécie de "riquíssimas horas" da cristandade medieval e do primeiro Renascimento, que junta ao prazer da beleza literária o da beleza pictórica, tão belos os textos quanto as imagens, gloriosamente reproduzidas. É um livro de imagens, é um livro de textos. O segundo é um dos mais belos textos medievais conservados. As primeiras levam-nos a percorrer a história da pintura (pintura italiana) entre os céus de Fra Angelico e as tebaidas de Uccello, para escolher dois de mil exemplos. "Movere"? "Docere"? Não o nego. Mas estes dois volumes, que a Mónica e a Sofia me puseram no sapatão, são, para mim, sobretudo, objeto de deleitação. Como diria o João César Monteiro, se fosse vivo, "que de leites!".


3 - 
Leites há muitos, como é de supor em obra que dá à Virgem e ao Menino tão abundante iconografia. Mas o líquido mais escorrente desta obra singularíssima é o sangue, já que a palma do martírio, ainda mais do que a da virgindade, foi a mais frequente via de acesso à eterna felicidade. Quem quiser ler um tratado de sado-masoquismo, encontra-o também nesta obra. Exemplo supremo é a fabulosa história da morte do mártir São Tiago Interciso, a quem cortaram todos os dedos da mão direita, depois todos os dedos da mão esquerda, depois todos os dedos do pé direito e depois todos os dedos do pé esquerdo. Como ele sempre bradasse: "Este é o maior dia da minha vida! Hoje irei para o Deus forte!", os carrascos cortaram-lhe o pé direito e a seguir o pé esquerdo. Depois as mãos, depois os braços. "Os algozes já desfaleciam, pois suavam a retalhá-lo desde a hora prima até à nona do dia. Mas, de novo, abriram-lhe a perna esquerda e extraíram-lhe o músculo até à coxa." E Tiago Interciso rezava: "Senhor Soberano ouve-me que já estou meio morto (...) Não tenho dedos para Tos oferecer nem mãos para estender para Ti. Os meus pés foram cortados e os meus joelhos destruídos. Assim, não consigo ajoelhar-me, pois sou como uma casa que vai ser demolida, porque já não tem colunas que a sustentem.


Escuta-me, Senhor Jesus Cristo, e tira a minha alma do cárcere. Ao dizer isto, aproximou-se um dos algozes e cortou-lhe a cabeça." Mas o corpo é um cárcere traiçoeiro. Quando a escolha se põe entre libertar a virgindade ou libertar o espírito, a opção é ainda mais dolorosa. 


É o dilema da Virgem da Antioquia, celebrada a 28 de abril. 


Determinavam os ímpios que a virgem ou sacrificasse aos ídolos ou se prostituísse num lupanar. "Que farei? Hoje, ou serei mártir ou virgem. Ambas as coroas me seduzem. Contudo, onde se nega o autor da virgindade também não se reconhece o nome da virgem. Mas como poderei ser virgem, se venerar a meretriz? Como serei virgem, se adorar o adúltero? (...) Portanto, mais vale ter o espírito virgem do que a carne. Se for possível os dois, será bom. Se não, seja casta para Deus, embora não para o homem. Raab foi prostituta, mas depois acreditou em Deus e encontrou a salvação. E Judite tornou-se adúltera para agradar a um adúltero. Mas porque fazia isto pela religião e não pelo amor, ninguém a julgava adúltera (...). Porque se Judite tivesse preferido a castidade à religião, perdida à pátria, teria também perdido a castidade (...). Julgai vós e vede se ela teria ou não podido adulterar o corpo, já que nem a voz adulterou (...). Virgens de Deus, fechai os ouvidos porque levam a virgem de Deus para o lupanar; mas abri os ouvidos, ó virgens de Deus, porque, embora a virgem possa ser prostituída, nunca poderá ser feita adúltera." 


Mil e uma noites nos foram contadas assim. Não é muito de espantar que as nossas noites de hoje ainda sejam como são. Mas, agora, o que interessa é abrir e fechar os ouvidos e os olhos às maravilhas destas lendas de ouro. Há quanto tempo eu esperava que um livro destes viesse ao meu encontro! Ele chegou, forrado de azul e de encarnado.

por João Bénard da Costa
14 de janeiro 2005 in Público

ANTOLOGIA


O INÍCIO DE UMA NOVA ERA
por Camilo Martins de Oliveira


Frei Tiago Voragino conclui o seu sermão sobre a Natividade do Senhor - de acordo com o texto incluído na Legenda Aurea - com o comentário sobre a utilidade dessa manifestação de Deus, depois de ter comentado, como vimos, o maravilhoso do acontecimento e o modo múltiplo, cósmico, como este se manifestou. "Ela vale, antes de mais, porque confunde os demónios: o inimigo já não pode prevaler-se do poder que tinha antes desse nascimento". Como ilustração, refere episódios sucedidos em mosteiros clunicenses, onde o virtuoso comportamento e a disciplina dos monges afugenta o diabo, que ali procurava instalar-se. A mensagem é clara: o Natal de Jesus marca o início de uma nova era na história da humanidade, que pode enfim libertar-se do pecado e das suas servidões. "Em segundo lugar, esta manifestação é útil para a obtenção do perdão. Lemos num livro de exemplos que uma mulher de má vida, que regressara enfim à sua consciência, desesperava do seu perdão; pensando no Juízo, considerava-se culpada; pensando no inferno, estimava-se merecedora de ali ser torturada; pensando no paraíso, estimava-se impura; pensando na Paixão, considerava-se ingrata. Mas, tendo ideia de que as crianças se deixam facilmente enternecer, rezou a Cristo pelo nome da sua infância e teve a graça de ouvir uma voz que lhe concedia o perdão".  O que Frei Tiago diz é que o Cristo infante é já o Cristo da Paixão, Aquele que padeceu, com infinita simpatia, o pecado do homem, para que com Ele ressuscitasse Homem Novo. "A terceira utilidade toca na cura dos nossos males. Diz S. Bernardo: "O género humano sofria de três doenças, ao princípio, no meio e no fim, isto é, no seu nascimento, na sua vida, na sua morte... ... O seu nascimento (de Cristo) purificou o nosso, a sua vida ordenou a nossa, e a sua morte destruiu a nossa". E continua Voragino: "A quarta utilidade dessa manifestação consiste na humilhação do orgulho. Por isso Agostinho diz que "a humildade do Filho de Deus, que a mostrou na incarnação, foi para nós um exemplo, um sacramento e um remédio. Ofereceu um exemplo muito apropriado, imitável pelo homem; um alto sacramento, capaz de nos livrar das amarras do pecado; e um remédio poderosíssimo, capaz de curar o abcesso do nosso orgulho"...  E Frei Tiago conclui: "A sua humildade desencadeou-se pelos homens, para serviço e salvação deles, até eles, por um modo de nascer análogo ao deles; e acima deles, por um modo de nascer diferente. Pois o seu nascimento foi, por um lado, análogo ao nosso: nasceu de uma mulher e saiu pela mesma porta de filiação. Por outro lado, o seu nascimento foi diferente: nasceu do Espírito Santo e da Virgem Maria". Que atualidade têm estas reflexões sobre a lição do Natal, feitas na segunda metade do século XIII? Num tempo que foi, quiçá, até ao Iluminismo do século XVIII, o período de maior cosmopolitismo de ideias na Europa, pois procurou reunir, analisar e comparar, as heranças bíblicas e patrísticas, gregas e romanas, árabes e das tradições "bárbaras" e populares que permaneceram, assentes em variados suportes, desde a queda do império romano até ao advento da sociedade urbana, pré-industrial, comercial e universitária da Europa pré-renascentista. Fala-se aí do poder do demónio, do pecado como negação, e da humildade como força de redenção e esperança. Ora bem: essa do demónio - ou dos demónios que habitam os homens e Shakespeare tão intensamente evocaria, três séculos depois da "Legenda" - não é uma ideia originalmente cristã, pois que a ideia do mal e seus agentes é tão velha como a humanidade e a consciência; a ideia de pecado como culpa própria ou fatídica de ofensa ou omissão, já estava nos temores literários anteriores a gregos, troianos e hebreus; como também não é exclusiva a ideia cristã de que se pode sempre fazer diferente, mais e melhor. E também será claro, para quem pense e procure tentar o bem - para os de boa vontade, sejam crentes ou não - que só a humildade nos pode levar ao reconhecimento do outro, ao diálogo e à construção da justiça e da paz. E o que é ser humilde? Não é, certamente, aceitar com recalcamento o jugo que nos é imposto, nem, por outro lado, considerarmo-nos acima do direito dos outros. Da lição da Natividade de Jesus, que vimos acompanhando, ressalta o exemplo de ter-se o próprio Deus feito igual aos homens... Por ser Deus com os homens é Deus sempre, e acompanha-nos no esforço de construção de uma sociedade mais justa e anunciadora de paz. As igrejas cristãs - católica incluída - talvez tenham insistido demais no pecado como culpa individual, concentrando-o, ainda por cima, sobretudo na transgressão de normas de comportamento sexual e de outras fraquezas da carne. Mas não será pecado maior aquele que ofende o Espírito Santo, isto é, a estupidez de se pretender o igual de Deus no juízo dos homens? O mandamento primeiro e maior é o do amor: o que fizeres a cada um destes pequeninos, a mim o fazes; antes de apresentares a tua oferta no altar, reconcilia-te com teu irmão.  Justiça e paz.


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 04.01.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


FREI TIAGO VORAGINO

por Camilo Martins de Oliveira


A iconografia dos antepassados, da família, do nascimento e da infância de Jesus que a tradição dos crentes, pelo imaginário popular, foi reproduzindo em inúmeras imagens e outras representações artesanais, ou ainda, através de magníficas obras de arte hoje espalhadas pelos museus do mundo e pelas igrejas, do Vaticano a Portugal, ao Brasil, às Filipinas, pela terra inteira... é maioritariamente inspirada pelas descrições que se encontram na "Legenda Aurea", que já conhecemos e visitámos. As fontes dessa obra de Frei Tiago Voragino são muitas, desde os livros canónicos da Bíblia a textos cristãos primitivos apócrifos até aos escritos dos Padres da Igreja, de bispos, monges, eremitas e santos, cronistas e comentadores, dos primórdios da cristandade até ao séc. XIII. Escreve Jacques Le Goff: "Tiago Voragino explora os géneros tradicionais da Idade Média: a compilação e, especialmente no séc. XIII, a enciclopédia. Os clérigos da Idade Média fizeram da compilação um método original e criativo... Quanto à enciclopédia, é uma especialidade que ocupa um bom lugar no grande movimento do progresso intelectual do séc. XIII: é uma suma que permite dar a medida dos conhecimentos acumulados, para que sirvam de apoio a ir-se mais longe." Para esta quadra natalícia, retenhamos também esta afirmação do professor e historiador francês:"Como diz Tiago Voragino no princípio da "Legenda Aurea", o mais importante neste desenrolar do tempo litúrgico, que é também o tempo da história, é a Incarnação de Deus: "pelo advento de Jesus Cristo tudo foi renovado". O séc. XIII é um século em que os valores descidos do céu à terra permitem aos homens apoiar-se no presente para seguirem em frente. É um sécúlo de otimismo e esperança". No presépio cósmico de Voragino que começámos a visitar entrando, por uma pintura de Fra Angelico, na manifestação da Natividade pela terceira categoria das criaturas, ou seja, pelos animais (burro e boi), a primeira proclamação da Incarnação de Deus é todavia feita pelo primeiro tipo de seres criados: os corpos puramente materiais. Pelos opacos, primeiro, com a queda da estátua de Rómulo e a sua destruição com o templo de Roma e a de muitas outras estátuas em inúmeros lugares. Já o profeta Jeremias dissera aos reis do Egipto que os seus ídolos cairiam quando uma virgem desse à luz um filho... Mas também corpos transparentes e translúcidos deram a conhecer o nascimento do Salvador, como predissera a Sibila: nessa noite, a escuridão do ar se transformou em dia claro, e uma nascente de água em fonte de óleo a desaguar no Tibre... Finalmente, deram sinal os " corpos puramente materiais luminosos como os corpos celestes"... "Segundo a narrativa dos antigos, como diz João Crisóstomo, aos Magos que rezavam no cimo de uma montanha apareceu uma estrela, mesmo sobre eles. Essa estrela tinha a forma de um lindo menino, sobre cuja cabeça brilhava uma estrela. Esse menino dirigiu-se-lhes e disse-lhes que fossem à Judeia, onde encontrariam um recém-nascido. E nesse mesmo dia, três sóis apareceram no oriente, que, a pouco e pouco, se fundiram num único corpo solar. Assim se significava que o conhecimento de Deus trino e uno se espalharia por todo o universo, ou então que tinha nascido aquele em que três coisas, a alma, a carne e a divindade se conjuntavam numa só pessoa..." Frei Tiago, que viria a ser arcebispo de Génova, vai agarrando notícias, lendas e narrativas constantes da tradição romano-latina numa Europa que fora dominada e dividida pelos "bárbaros" conquistadores do Império Romano, e procura servir-se delas para consolidar a história e o pensamento de uma cultura em que se enraíze uma sociedade nova: a que se desenvolverá por burgos e cidades, em corporações e universidades, em comércio, indústria e navegação. Saída dos medos e da insegurança dos campos e florestas, a gente europeia começa a lidar mais racionalmente com o escuro da história e as superstições antigas.

  

Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 21.12.12 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


LEGENDA AUREA

por Camilo Martins de Oliveira

 

A quarta categoria de criaturas, as que possuem a existência, a vida, a sensação e a razão, segundo o frade dominicano Tiago Voragino, reúne os seres humanos. No presépio cósmico da Legenda Aurea, o homem manifesta a Natividade através dos pastores e de César Augusto. A fonte do relato da adoração dos pastores é o Evangelho de S. Lucas; a do episódio do imperador Octávio encontra-se nas "Historiae adversus paganos" de Orósio. Traduzo os pertinentes trechos da Legenda: "No instante da Natividade, os pastores vigiavam os seus rebanhos, como era costume duas vezes por ano, na noite mais longa e na noite mais curta do ano. Era com efeito um costume antigo entre os Gentios, observarem-se essas vigílias em cada um dos dois solstícios, o do verão por volta da festa de S. João Baptista, e o do Inverno, por volta do Natal, por veneração pelo sol. E esse costume desenvolvera-se sem dúvida entre os judeus, por força dos contactos entre populações. Ora, um anjo do Senhor apareceu aos pastores, anunciou-lhes o nascimento do Salvador e onde encontrariam o sinal dele. Uma multidão de anjos reuniu-se para cantar "Glória a Deus nas alturas..." Assim vieram os pastores e encontraram tudo o que o anjo tinha anunciado. Este nascimento foi também manifestado por César Augusto, que então ordenou que mais ninguém tivesse a audácia de lhe chamar "senhor", segundo o testemunho de Orósio. Foi, sem dúvida, depois de ter tido essa visão à volta do sol, que se lembrou simultaneamente da queda do templo e da nascente de óleo; compreendeu então que um ser maior do que ele tinha nascido para o mundo, e nunca mais quis ser chamado deus nem senhor..." Torna-se aqui evidente que este relato recolhido de Orósio, é um trecho das "Historiae adversus paganos", de coisas contadas contra os pagãos. Mais de mil anos depois do nascimento de Jesus Cristo, na era do imperador Octávio, o Voragino vai colher a uma história apologética mais antiga, mas provavelmente divulgada, um argumento para afirmar a razão primeira do poder de Deus sobre todas as coisas, inclusive o exercício do poder temporal ou político. Não defende uma teocracia, mas diz que o soberano não deve ser jamais considerado nem deus, nem senhor: a Deus o que é de Deus, a César o que de César é. E, no conjunto desta cosmogonia, sobressairá também uma lição de democracia: o séc.XIII  -  que será, aliás, o século da Magna Carta, antecessora do Habeas Corpus inglês - é um tempo de afirmação de identidades nacionais, certamente, mas pela força das cortes que reúnem os três estados sociais, e reclamam o exercício do princípio do direito romano de Ulpiano: "Justitia est jus suum cuique tribuendi", ou seja, a justiça é o dever de se dar a cada um o seu direito. O fim do feudalismo, que terá, em muitos aspetos, uma longa e lenta agonia, inicia-se com este movimento do surto de classes médias, independentes do poder feudal, que prenunciam uma sociedade nova, em que os desvalidos da mudança de regime político-económico e a necessidade de desvendar e ordenar uma cultura que enraíze as gentes e as faça crescer como árvores, para o porvir, encontram, no eco-sistema religioso em que vivem, uma resposta organizada e ativa nas ordens religiosas mendicantes: franciscanos que, como subproletários, praticam a pobreza como evangelho de esperança; dominicanos, que, no despojamento de riquezas e preconceitos estabelecidos, apelam à razão para esclarecer a fé. A meditação da Legenda Aurea sobre o nascimento de Jesus, para ser mais claramente entendida, deverá ser olhada no caleidoscópio da circunstância do seu tempo. Mas, por aí, também nos aperceberemos que, tendo data, não é datada, antes atual será, mutatis mutandis, claro está.


Obs: Reposição de texto publicado em 14.12.12 neste blogue.