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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

A FANTÁSTICA OFERTA DO MAGNÍFICO PARA O PRÍNCIPE PERFEITO…
30 de abril de 2019

 

Faz no dia 2 de maio 5 séculos, se não contarmos o salto de 11 dias de 1582, em que se passou do calendário juliano ao calendário gregoriano, que o grande Leonardo morreu. Tenho por ele uma admiração incomensurável. Impulsionado pelo texto de Alexandra Carita no último “Expresso”, estive hoje toda a manhã à sua conta na minha biblioteca, subi e desci a escada e encontrei muito do que desejava sobre Florença e sobre Portugal. Tenho uma grande paixão por Florença. Considero que San Miniato al Monte é a fronteira do Paraíso. E descobri o que desde miúdo desconfiava, que o nosso D. João II (1455-1495) foi o modelo de Lourenço de Médici, e por isso este encomendou a Leonardo da Vinci (1452-1519) para oferecer ao Príncipe Perfeito uma tapeçaria de Flandres. O caso parece ter pouca importância, uma vez que a tapeçaria em ouro e seda nunca chegou a ser executada, no entanto o episódio significa muito sobre a admiração que Lourenço, o Magnífico votava ao nosso Rei. Aliás, quando lemos «O Príncipe», dedicado por Maquiavel ao Magnífico, não podemos deixar de associar o modelo escolhido pelo pensador italiano ao monarca português. Ora, mais de cem anos depois de o cartão não ter seguido para a Flandres, permanecendo na cidade do Arno, o certo é que estava em casa de Otaviano de Médici – e a partir de então não mais se conheceu o seu paradeiro. Giorgio Vasari (1511-1574) fala de Leonardo e da célebre encomenda: “Foi-lhe pedido um cartão de tapeçaria, retratando a expulsão de Adão e Eva do Paraíso, que deveria ser feita na Flandres e depois enviada ao Rei de Portugal. Leonardo trabalhou o pincel com claro-escuro, irradiando de branco, um campo de ervas infinitas e alguns animais. Pode dizer-se que certamente, em diligência e naturalidade, nenhum divino intelecto possa imaginar igualar-se a este”. Vasari, o grande crítico e historiador de arte diz ter visto o cartão e descreve-o: “Há uma figueira, folhas e ramos executados com muito cuidado que a mente se deslumbra só de pensar como um homem poderia ter tanta paciência para o fazer. Há também uma palmeira executada cada dia com mais grandiosidade e maravilhosa arte, impossível de fazer se não fosse a paciência e a mente de Leonardo. Esta obra não foi terminada e encontra-se em Florença na afortunada casa do magnífico Otaviano Médici, doada não muito tempo depois de concluída pelo tio de Leonardo”. E ainda li em Vasari: “Além de uma beleza de corpo que nunca será suficientemente enaltecida, havia uma graça infinita em todas as suas ações, e o seu génio era tal, e de uma natureza tal, que fossem quais fossem as coisas difíceis a que se dedicasse, facilmente as resolvia”. É um deleite ler as apreciações de Giorgio Vasari em “As Vidas dos mais Excelentes Pintores, Escultores e Arquitetos” (tenho a edição de 1568)… Fui ainda recordar a representação de “Rapariga lavando os pés a uma criança” (1480), que está na Faculdade de Belas-Artes do Porto, e recordei a confissão do grande Francisco de Holanda sobre ter na sua livraria um esboço de Leonardo: “Busto de Homem grotesco de perfil”…  É bom pensarmos como Lourenço de Médici só em Leonardo encontrou o digno artista para homenagear o mais completo dos Reis contemporâneos…

 

E depois de ter lembrado este bizarro episódio, não resisto à tentação de reproduzir uma fábula que encontrei, nas minhas andanças, da autoria do próprio Leonardo da Vinci – que bem merece uma meditação serena…   

 

«A Borboleta e a Chama

Uma borboleta multicor estava voando na escuridão da noite quando viu, ao longe, uma luz. Imediatamente voou naquela direção e ao aproximar-se da chama pôs-se a rodeá-la, olhando-a maravilhada.

Como era bonita!

Não satisfeita em admirá-la, a borboleta resolveu fazer o mesmo que fazia com as flores perfumadas. Afastou-se e em seguida voou em direção à chama e passou rente a ela.

Viu-se subitamente caída, estonteada pela luz e muito surpreendida por verificar que as pontas de suas asas estavam chamuscadas.

“Que aconteceu comigo?” – Pensou ela.

Mas não conseguiu entender. Era impossível crer que uma coisa tão bonita quanto a chama pudesse causar-lhe mal. E assim, depois de juntar um pouco de forças, sacudiu as asas e levantou voo novamente.

Rodou em círculos e mais uma vez dirigiu-se para a chama, pretendendo pousar sobre ela. E imediatamente caiu, queimada, no óleo que alimentava a brilhante e pequenina chama.

- Maldita luz! – murmurou a borboleta agonizante – Pensei que ia encontrar a felicidade e em vez disso encontrei a morte. Arrependo-me desse tolo desejo, pois compreendi, tarde demais, para minha infelicidade, o quanto a chama é perigosa.

- Pobre borboleta! – respondeu a chama – Eu não sou o sol, como a borboleta tolamente pensou. Sou apenas luz. E aqueles que não conseguem aproximar-se de mim com cautela, são queimados.

Esta fábula é dedicada àqueles que, como a borboleta, são atraídos pelos prazeres mundanos, ignorando a verdade. E quando percebem o que perderam, já é tarde demais».

 

Agostinho de Morais

AS ARTES E O PROCESSO CRIATIVO

 

XXXII - RENASCIMENTO - I

 

À volta de 1500 surge um movimento literário, artístico e científico herdeiro e continuador da Idade Média, mas que, ao mesmo tempo, a repudia, ao querer fazer renascer o mundo antigo, em especial a antiguidade clássica da Grécia e de Roma. Imita-se, em primeiro lugar, os gregos e os romanos, criando depois o homem ideal do renascimento: cosmopolita, universal, completo, perfeito, a mais bela criatura divina, obra suprema de Deus, o melhor na filosofia, nas letras, na ciência, nas artes em geral, admirado, famoso, poderoso e rico.   

 

Transita-se do teocentrismo dominante na Idade Média, em que Deus é o centro omnipresente e total, para o antropocentrismo, que atribui ao indivíduo uma posição de centralidade em relação a todo o universo.

 

O humanismo, que etimologicamente significa culto, civilizado, foi um fator decisivo e influenciador do Renascimento, prestando tributo às letras, belas artes e ciência, ao estudo dos problemas de que o ser humano é o centro, reabilitando a antiguidade grega e latina, pensadores e filósofos como Sócrates, Platão e Aristóteles, escritores como Homero, Cícero e Virgílio, nomes como Ovídio, Suetónio e Tito Lívio, sem esquecer a época de Péricles (Grécia) e de Augusto (Roma).

 

Foi em Itália, pátria da antiga civilização romana, que surgiu o movimento humanista, florescendo em Florença, Génova, Milão, Pádua, Pisa, Roma e Veneza, tendo como precursores Dante, Petrarca e Bocácio, contagiando as elites, governantes, desde papas, príncipes, banqueiros, senhores da guerra e da paz, riqueza e poder, detentores do poder espiritual e temporal, surgindo novos mecenas, protetores das letras, artes e ciência.

 

Cria-se uma união entre o espírito religioso e a curiosidade profana, com o reabilitar, por um lado, da cultura e herança mitológica greco-latina, até então tidas como pagãs e opostas ao cristianismo, e, por outro, com o redescobrir das ciências exatas, experimentais e naturais, bem como de disciplinas esotéricas, como a alquimia e a astrologia.   

 

Homens da Igreja, como S. Bernardo e S. Tomás de Aquino, tendo estudado e lido literatos e poetas da antiguidade clássica, procuraram integrar o humanismo no cristianismo. O mesmo sucedeu com os monges, nos conventos, ao copiarem obras famosas da antiguidade, salvando-as do esquecimento. 

 

A corrente humanista dissemina-se em visões diferentes. Para os que admiram Platão, sendo o mundo terreno uma rude cópia de um outro verdadeiro e eterno, veem no seu mentor um antecessor de Cristo e no seu pensamento um meio do ser humano se elevar até Deus. O amor humano era uma faísca do divino. A inteligência humana uma fagulha da divina. Os mortais, uma imperfeição da perfeição divina. O culto do amor, da beleza, da bondade, da justiça e da razão, feito pelos autores clássicos, como Platão, aproximava o humano do sagrado e do cristianismo. Tomás Moro, na sua Utopia, inspira-se em Platão, ao imaginar uma sociedade ideal, perfeita, numa ilha longínqua que não existe em lado algum.

 

Outros depuraram e cristianizaram a doutrina de Aristóteles, transformando o ensino em habilidosos raciocínios fundados em silogismos, sem abertura para novos voos que o humanismo explorava. Outros ainda, como Maquiavel, baseado na história de Roma e na Política de Aristóteles, escreve O Príncipe, em que razões de Estado justificam os meios para atingir os fins.

 

Mas surgiriam academias e colégios subsidiados por príncipes, reis e mecenas, onde tudo era debatido, ultrapassando a tradicional escolástica universitária, em que a ciência evoluiria a par da evolução filosófica, sendo Leonardo da Vinci tido como o seu máximo representante.

 

02.01.2018
Joaquim Miguel De Morgado Patrício