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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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TEATROS DE VENTURA TERRA NOS 100 ANOS DA SUA MORTE

 

Ocorre este ano o centenário da morte do arquiteto Ventura Terra (1866 – 1919). Já por diversas vezes aqui referimos o muito que se lhe deve na renovação da estrutura arquitetónica das salas de espetáculo a que esteve ligado, pela conceção original dos edifícios e também na renovação e atualização de outros teatros que histórica e cronologicamente o antecedem.

 

Designadamente, referimos, em artigos diversos, tanto o Teatro Politeama, como sabemos em plena atividade, ao qual voltaremos, e o Teatro Club de Esposende, este projetado em 1908 por Ventura Terra, inaugurado como teatro em 1911 e convertido em Museu Municipal em 1993, segundo projeto de adaptação do arquiteto Bernardo Ferrão.

 

 Trata-se de um edifício de notável qualidade, na fachada estreita em arco, dominada por varanda. Em boa hora a Câmara Municipal o conservou e reconverteu, mantendo a vocação cultural.

 

Ora, é de assinalar desde já que Ventura Terra transcende e aplica a sua criatividade em sucessivas criações arquitetónicas de espetáculo e de convívio público. O que incluiu especificamente a reestruturação do próprio Teatro de São Carlos, exemplo incomparável em Portugal da arquitetura das salas de espetáculo.

 

Deve-se efetivamente a Ventura Terra obras de modernização do edifício, com destaque para a primeira grande obra de restauro do setecentista Teatro de São Carlos, inaugurado em 13 de junho de 1793 com a ópera “La Ballerina Amante” de Domenico Cimarosa:  traçou diversas alterações a este teatro, modelo das casas de espetáculo da época.

 

Designadamente, nas obras de restauro efetuadas em 1908, alterou o grande foyer de entrada do Teatro e as pinturas do teto, que se deviam a Cyrilo Volkmar Machado. Mas mais relevante até hoje é a restruturação do interior, e designadamente do chamado Salão Nobre, belíssima sala de produção musical e de convívio.

 

E é de assinalar que, nesta avaliação de projetos de salas de espetáculo, encontramos Ventura Terra nas comissões que avaliaram os projetos de restauro do Teatro São João do Porto e do Teatro- Circo de Braga. Já ambos aqui referimos.

 

Como aliás já referimos a notável recuperação do chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira de Monção, onde se concilia a sala de pequenas dimensões, cerca de 50 lugares, com a magnitude do Palácio, desta forma valorizado também na dimensão cultural do espetáculo.   

 

Voltaremos a evocar Ventura Terra, designadamente a propósito do Teatro Politeama: e esse, como bem sabemos, mantem-se em plena e pujante atividade!

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATROS HISTÓRICOS EM LISBOA: TEATRO DAS FANGAS DA FARINHA

 

Temos aqui referido o património histórico dos teatros-edifícios construídos e/ou adaptados ao longo do país, em sucessivas fases da História do Espetáculo, e aí cobrindo, desde as realizações iniciais, aos tempos atuais: e sempre tendo em vista a própria realidade do teatro como expressão de um texto que é apresentado ao publico de acordo com os hábitos culturais e as técnicas de cada época.

 

E de tal forma assim é, que não nos podemos vincular à arquitetura específica e à técnica correspondente de cada expressão de espetáculo cénico.

 

Por isso aqui temos evocado sucessivos espaços de espetáculo teatral, desde as primeiras manifestações até à geração mais recente, e isto no ponto de vista dos autores, dos arquitetos e do público: pois teatro é espetáculo e sem público – nem que seja um único espetador – não há espetáculo!...

 

E isto vem a propósito, precisamente, de uma efeméride teatral que neste ano de 2019 completa exatos 5 séculos: a saber, a estreia em 1619 de um espaço teatral, o chamado Pátio das Fangas da Farinha, no que é hoje a Baixa lisboeta.

 

Vejamos então.

 

A partir de 1590, o empresário, diríamos hoje, Fernão Dias de la Torre, castelhano de origem e de cultura, organiza em Lisboa o que se pode considerar o primeiro espaço público de espetáculos, o chamado Pátio das Arcas, situado na zona que hoje corresponde mais ou menos à Rua Augusta. Para tal, obtém autorização do Hospital de Todos os Santos. E assim prossegue uma atividade de produção de espetáculos.

 

Ora o que é mais curioso é que a zona consagra pelo menos desde aí uma vocação, digamos assim, para a realização de espetáculos e de espaços musicais e teatrais. E assim, em 1619, portanto há exatos 400 anos, inicia atividade o chamado Pátio das Fangas da Farinha, próximo do que viria a ser o Tribunal da Boa Hora.

 

Em 21 de novembro de 1622 o Município de Lisboa emite um documento divulgado por Eduardo Freire de Oliveira em 1888 (in “Elementos para a História do Município de Lisboa”) que citamos na nossa “História do Teatro Português” e que aqui se evoca.

 

Transcreve então Freire de Oliveira:

 

 “A Relação se meteu em perturbar a jurisdição da cidade, mandando derrubar o Pátio das Fangas da Farinha (...) e ora chegando à nossa notícia que o Pátio da Rua das Arcas estava em notável perigo de arruinar e cair com o peso da gente se ordenou ao vereador do pelouro das obras que com o arquiteto da cidade e mais ministros dela fosse ver a fábrica do dito Pátio da Rua das Arcas e por todos, debaixo de juramento, foi dito que a obra estava fraca e notável risco de vira abaixo com o peso da gente, o que acontecendo, o que Deus não permita, mataria e estropiaria muita gente (...) deem licença a este Senado que mande concertar o das Fangas da Farinha”...!

 

Quer dizer: já nessa altura os poderes públicos se envolviam em problemas de gestão da infraestrutura de espetáculos!...

 

DUARTE IVO CRUZ 

AGUSTINA, DIRETORA DO TEATRO D. MARIA II

 

No artigo anterior, evocou-se Agustina Bessa-Luís nas funções de diretora do Teatro Nacional de D. Maria II, muito marcante nas temporadas de 1991 a 1993.

 

É certo que, na época como de certo modo ainda hoje, as funções não se confundem necessariamente com a direção das temporadas e com os repertórios e elencos respetivos: mas também é certo que antes ou depois daquele período, o prestígio de Agustina necessariamente marcaria não só a direção institucional e administrativa  do Teatro em si, mas certamente também a atividade artística no que se refere à função cultural e operacional da empresa, a gestão administrativa do edifício como património do Estado e até, seja permitido dizê-lo, a tradição do prestigio cultural do Teatro Nacional de D. Maria II, designadamente quando dirigido por um escritor: tradição essa que vinha do tempo de Garrett...!  

 

O certo é que de 1991 a 1993, o Teatro de D. Maria II marcou o meio cultural português pela sua atividade direta de grande e tradicional sala de espetáculos, mas também, simultaneamente, pelo nível de qualidade do repertório e pela atividade complementar, aberta a ações de cultura que transcendem a produção dos espetáculos em si.

 

É obvio que um Teatro, sobretudo do Estado exige um repertório em si mesmo qualificado e com uma dimensão de cultura, sendo certo que isso não obsta evidentemente à variedade dos espetáculos e à recetividade do chamado grande publico. Não deve ser nesse aspeto uma sala elitista, digamos assim: mas terá de ser uma sala qualificada. Na gestão de Agustina, foi o que ocorreu.

 

E de tal forma que, nas temporadas de 91 a 93, encontramos numerosos eventos que, para alem dos espetáculos da Companhia do Teatro em si, abrangem iniciativas de interesse cultural de âmbito interno mas também internacional.

 

Lembramos a esse respeito, designadamente mas não só, a realização de programas, exposições e debates  integrados nos Festivais Internacionais de Teatro,  a cooperação com companhias vindas do exterior, algumas de grande prestígio, e também a escolha de um repertório que simultaneamente apresentava tanto peças e espetáculos nacionais como  estrangeiros: os já referidos Festivais Internacionais de Teatro,  com exposições, ciclos de conferências e ateliers de cultura teatral e musica sobretudo ligados  à função de cultura de um Teatro Nacional.

 

Recordamos então que foram numerosas as iniciativas determinantes da cooperação internacional do Teatro de D. Maria II durante a gestão de Agustina Bessa-Luís.

 

E nesse sentido, poderemos  voltar ao tema.

DUARTE IVO CRUZ

OS 125 ANOS DO TEATRO SÃO LUIZ

 

Temos aqui referido o Teatro de São Luiz em perspetivas que englobam eventos, espetáculos e comemorações realizadas nesta bela sala que tanto marca a vida cultural de Lisboa e mesmo do país, a partir da sua conceção, construção, inauguração e atividade, como teatro, como cinema, como sala de concertos e centro cultural: e também como referência da área urbana em que se inscreve e das variantes urbanas e culturais que sucessivamente envolve.

 

Pois é hoje oportuno recordar que se assinala no dia 22 de maio o 125º aniversário da inauguração do então Theatro Dona Amélia, homenagem à  rainha, com a estreia em Lisboa da ópera “A Filha do Tambor Mor” de  Offenbach, numa produção italiana que aliás constitui, ao longo de decénios, uma das características das sucessivas explorações desta sala de espetáculos, também sucessivamente denominada Theatro da Republica, São Luiz Cine e Teatro São Luiz, conforme o regime e a atividade dominante em cada época.

 

Ardeu em 1915, foi devidamente restaurado, adotou o nome atual em 1918 e é explorado também e por vezes exclusivamente ou quase como cinema a partir de 1926.

 

 A designação decorre da construção se ficar a dever a uma individualidade, o Visconde de São Luiz Braga, nascido no Brasil de pais portugueses e que se fixaria também em Lisboa. De assinalar que o Teatro e depois Cinema São Luiz é um projeto de Ernesto Luis Raymond com intervenções dos cenógrafos Luigi Manini e Carlo Rossi.

 

O certo é que, passados estes 125 anos de constante atividade, o Teatro-Cinema São Luiz, a certa altura municipalizado, constitui um referencial da arquitetura e da atividade de espetáculo e de cultural em geral.

 

E é de assinalar designadamente o período em que o Teatro foi dirigido por Luiz Francisco Rebello que em 1971 se demitiu da atividade por problemas ligados à censura de um espetáculo programado – “A Mãe” de Witckiewicz, que não chegou a estrear.

 

Já aqui recordei a colaboração que na época prestei a Rebello na direção do teatro:  e tal como escrevi, acompanhei-o na saída da direção.

 

Mas ficou até hoje a recordação, e para mim é oportuno referi-la nestes 125 anos do Teatro São Luiz.

 

E não é demais assinalar a extraordinária coleção de placas que, desde quase as origens até hoje, assinalam a realização de espetáculos e eventos de cultura realizados no São Luiz!

 

Voltaremos a referir esta comemoração dos 125 anos de um teatro de Lisboa.

 

DUARTE IVO CRUZ

REFERÊNCIA AO TEATRO LU.CA REMODELADO

 

Em 2017 assinalámos aqui a fase de recuperação que na altura se teria iniciado no Teatro Luís de Camões, hoje Teatro LU.CA, na Calçada da Ajuda em Lisboa, referindo com destaque o historial da pequena sala de espetáculos que, nesse aspeto, de certo modo iniciava todo o movimento, hoje bem pujante na relatividade, nos novos Teatros. Com a ressalva do historial deste que vem de finais do século XIX, inaugurado que foi em 10 de junho de 1880, com a peça de Casimiro de Abreu, “Camões e o Jau”, no quadro das comemorações do terceiro centenário da morte do poeta. 

 

A iniciativa ficou a dever-se a um comerciante de nome João Açúcar. Em 1899 sediou o chamado Belém Clube. E tal como escrevemos, a sala, não obstante a limitação de espaços, nesse aspeto aliás notavelmente percursora, manteve a capacidade arquitetónica e de exploração de espetáculo social da época: plateia, frisas, camarotes, tribuna, mas tudo adequado à dimensão do que hoje se denomina teatro de bolso.

 

 Em qualquer caso, o Teatro é adquirido em 1967 pela Câmara Municipal de Lisboa, mas esteve mais ou menos fechado durante anos, até que em 2015 se iniciam obras e em 2018 é reinaugurado com a designação bem atual de Teatro LU.CA, paráfrase do nome original, agora numa vocação de teatro infanto-juvenil.

 

E a reabilitação arquitetónica é marcada por uma recuperação modernizante de estruturas originais, entretanto prejudicadas por sucessivas adaptações. Essa reabilitação, orientada pelos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, concilia o estilo oitocentista original sobrevivente com uma modernização da exploração do espetáculo, sobretudo, insista-se, vocacionado para o teatro infantojuvenil. E talvez a mudança nesse aspeto mais relevante será a abolição das portas dos camarotes, o que torna bem mais acessível o acesso, bem diferente da tradição oitocentista.

 

E de facto, o Teatro LU.CA está diferente do Teatro Luís de Camões, mas nem por isso deixa de manter a tradição arquitetónica de espetáculo. Ao contrário de tantas e tantas salas que, por esse país fora, foram desaparecendo!

 

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DO TEATRO NO PAÇO DA RIBEIRA

 

Nesta alternativa de teatros históricos decorrentes da inovação romântica e pós-romântica e os teatros mais modernos, aí incluindo os do que chamamos a geração dos cineteatros e os teatros atuais, referimos hoje, precisamente numa “retrospetiva histórica”, o denominado Teatro do Paço da Ribeira em Lisboa. Mas será então oportuno situar uma cronologia que reforça o carater específico e a memória deste efémero monumento urbano.

 

Desde logo porque o Teatro é integrado no próprio Palácio Real, situado no que é hoje o Terreiro do Paço – Praça do Comércio. O Palácio começa a ser construído em 1498 para residência da Corte, sendo D. Manuel I à data Rei de Portugal. O Trono e a Corte instalam-se em 1503 mas o terramoto de 1755 destrói por completo o Palácio que como tal não será reconstruído – e isto, sendo certo que o Paço da Ribeira já em parte sobrevivera a outro sismo, em 1531.

 

Na série de livros sobre Casamentos da Família Real Portuguesa, coordenados por Ana Maria S. Rodrigues, Manuela Santos Silva e Ana Leal de Faria, encontramos no Volume IV, editado em outubro último, um estudo sobre este Palácio, da autoria de Carla Alferes Pinto, com referências a espetáculos nele produzidos para a Corte. Aí designadamente se remete para “um grande serão tão ao gosto de D. Manuel I e da filha mais nova, D. Beatriz” ocorrido em 4 de agosto de 1521, assinalando as festividades do casamento desta.

 

Houve baile real. E acrescenta o texto de Carla Alferes Pinto que aqui citamos (pág.179):

 

“Depois dos folguedos, e enquanto os membros da corte se acomodavam em cadeiras, almofadas ou se mantinham de pé (segundo o rigoroso figurino das precedências cortesãs), e descansavam, teve lugar a encenação da tragicomédia Cortes de Júpiter escrita por Gil Vicente para a ocasião”.

 

O estudo prossegue em dezenas de páginas que descrevem todo o contexto politico, social e cultural da negociação e do noivado de D. Beatriz.  Mas o que aqui nos importa sublinhar é precisamente o enquadramento da “transformação” do Palácio em Teatro, episódica e circunstancial que tenha sido: e não muito mais se poderia aliás dizer, como vimos, do Palácio em si, desaparecido com foi menos de 60 anos depois de inaugurado!  

 

DUARTE IVO CRUZ

NO TRINDADE, HOMENAGEM A CARMEN DOLORES


Aqui temos referido o Teatro da Trindade na perspetiva tanto da qualidade arquitetónica como do notável historial nas artes do espetáculo que, desde a inauguração em 1867 mantem até hoje. Justifica-se então que se evoque essa tradição histórica, estética e arquitetónica, no contexto muito recente dos espetáculos que assinalam e homenageiam a carreira de Carmen Dolores, a partir da nova designação da sala principal do Teatro, agora chamada Sala Carmen Dolores.

 

Nada mais justo.

 

Em primeiro lugar, porque Carmen Dolores ali pela primeira vez enfrentou o público, curiosamente não em espetáculo teatral, mas na estreia em 1943, do “Amor de Perdição”, filme de António Lopes Ribeiro. Antes disso, recorda o programa agora distribuído na homenagem prestada no mesmo Teatro, teria atuado como declamadora na rádio. Mas foi no Trindade que pela primeira vez teve contacto com o público, mesmo que essa estreia tenha sido num filme...

 

E foi novamente no Trindade que Carmen Dolores enfrenta diretamente o público, agora na companhia denominada Os Comediantes de Lisboa, dirigida por Francisco Ribeiro, com textos exigentes: Giraudoux, Munoz Seca, Marcel Achard e outros.

 

E em 1951 junta-se ao Teatro Nacional de D. Maria II de Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro: e aí participa em espetáculos a partir de dramas e comédias do grande repertório que incluiu autores portugueses como Alfredo Cortez ou Luis Francisco Rebello, o que na época seria de registar...

 

Cito a propósito, o que escrevi em 2005 no livro “Teatros de Portugal”:

 

“O Trindade serviu de abrigo a sucessivas companhias de qualidade, desde o Teatro de Arte de Lisboa ao TNP de Ribeirinho, que estreou “À Espera de Godot” de Beckett, da Nova Companhia de Declamação a Amélia Rey Colaço- Robles Monteiro e a Companhia Nacional de Teatro de Couto Viana e voltando atrás, a todos os grande nomes desde Ângela Pinto a Rosas e Brasão, a Palmira , a Vasco Santana e praticamente a todos mais” -  e  incluindo obviamente  Carmen Dolores.

 

Mas não só: encontramos Carmen em 1958/59 no Teatro Avenida então dirigido por Gino Saviotti, na Nova Companhia do Teatro de Sempre, novamente no Trindade com o Teatro Nacional Popular, e no Teatro Moderno de Lisboa, que funcionou no Cinema Império, e ainda na Casa da Comédia, no Teatro Aberto.

 

Paula Gomes de Magalhães escreveu um excelente texto publicado no âmbito das homenagens prestadas no Teatro Meridional e no Teatro da Trindade, a partir do texto de “Vozes Dentro de Mim”, da autoria da própria Carmen Dolores (2017), autora também de “Retrato Inacabado (1984) e de “No Palco da Memória” (2013).

 

E, a partir de “Vozes Dentro de Mim”, tivemos no Trindade, no âmbito das comemorações, um longo monólogo com notável interpretação de Natália Luiza e também notável dramaturgia e encenação de Diogo Infante.

 

DUARTE IVO CRUZ

UM LIVRO SOBRE OS TEATROS DO BAIRRO ALTO

 

Nesta série de artigos sobre os Teatros portugueses ou de raiz histórica portuguesa, tivemos já ocasião de evocar e descrever um conjunto de edifícios ou espaços vocacionados para a atividade teatral: muitos perduram, outros desapareceram, muitos representam uma tradição histórica e arquitetónica, outros não se destacam pela qualidade do projeto e /ou da edificação e conservação.

 

A maioria corresponde ao território nacional, aí incluindo obviamente os teatros dos Açores e da Madeira: mas também aqui referimos numerosos teatros das ex-colónias e até, no que se refere à perspetiva histórica, ao Teatros romanos de Mérida e ao Teatro Manoel de La-Valetta, em Malta.

 

De qualquer forma, são assim descritos ou evocados centenas de teatros, pois muitos dos artigos referem mais do que um, por vezes bastante mais quando decorrem da implantação urbana ou da identificação do arquiteto: sendo certo, entretanto, que também há teatros analisados mais de uma vez. E temos ainda referências a livros sobre cidades ou zonas urbanas de grande tradição e implantação de salas de espetáculo, por vezes ao longo de centenas de anos.

 

E é esse o caso que hoje nos ocupa.

 

Referimo-nos então agora a um livro recentemente publicado, “O Bairro dos Jornais - As Histórias que Marcaram o Bairro Alto e os Seus Jornais”, da autoria de Paulo Martins (Quetzal ed. 2018).

 

Precisamente: o Capítulo 1, intitulado “Em Rutura com a Cidade Medieval”, cita e descreve os Teatros que a partir do século XVIII, foram lá implantados, desde logo em 1733, com o então chamado Teatro do Bairro Alto, no Palácio dos Condes de Soure, onde se realizaram os espetáculos de marionetas de António José da Silva.

 

Mas diz-nos o autor: “Arrasado pelo terramoto, o teatro ressuscitou em 1761. É provável que tenha adquirido a nova designação de Casa da Ópera do Pátio do Conde de Soure, talvez aproveitando parte das ruínas do palácio, uma vez que se situava na Rua da Rosa. Dinamizado pelo empresário João Gomes Varela, proporcionou a estreia a Luísa Todi em 1769” (pág. 33).

 

E o livro de Paulo Martins cita mais uma série de Teatros situados na mesma área urbana: um chamado Teatro Pitoresco, assim mesmo, de 1814, onde terá estreado o “Catão” de Almeida Garrett. E em 1836 Garrett fundou a Conservatório e instalou-o no antigo Convento dos Caetanos.

 

E na mesma zona de Lisboa instalaram-se sucessivas salas de espetáculo, com destaque, porque dura até hoje, para o Teatro da Trindade.

 

O livro de Paulo Martins cita outros teatros e cinemas, alguns que já aqui também referimos, outros não: o Trindade, o Ginásio, mas também, próximos, o São Carlos, o São Luís, e cinemas como o Chiado Terrasse ou o Ideal, que, por incrível que pareça, vem de 1912, com sucessivas e variadas designações: “Foi sucessivamente Cinema Ideal, Cine Camões (após 1978, depois de obras de remodelação) e Cine Paraíso nos anos 1990”. Depois fechou: “reabriu em 2014 completamente renovado. De novo Cinema Ideal, valoriza o conceito de cinema de bairro” (ob. cit.pág. 35).

 

Assim fossem todos!...   

DUARTE IVO CRUZ

O PÁTIO DAS ARCAS EM LISBOA

 

Evocamos hoje um dos primeiros espaços - edifícios de Lisboa vocacionados de forma estável para o espetáculo teatral. Trata-se do chamado Pátio das Arcas, na zona que é hoje a Rua Augusta. Trata-se do primeiro espaço de vocação para o teatro, definido e implantado, mais do que propriamente  “construído”, repita-se, na Baixa de Lisboa.  A iniciativa coube ao empresário castelhano Fernão Dias de La Torre, cerca de 1590.

 

E o documento que  evocamos data de 23 de novembro de 1622. Nele, o Município de Lisboa alerta para a situação precária do Pátio das Arcas. Vale a pena uma breve transcrição a partir do estudo de Eduardo Freire de Oliveira “Elementos para a História do Município de Lisboa” (1888), que cito no meu livro “Teatros de Portugal” (ed. INAPA 2005) e  posteriormente , em parte, na conferência comemorativa dos 150 anos do Teatro da Trindade (2017), num ciclo que, tal como aqui temos referido, integrou intervenções de Inês de Medeiros, Joaquim Paulo Nogueira, Isabel Pires de Lima, Luís Soares Carneiro, José Sarmento de Matos, Guilherme d’Oliveira Martins, Nuno Domingos e José Carlos Barros.

 

Diz então o documento:

“Viu-se em Câmara o escrito de Vossa Senhoria, pelo qual  lhe ordena que  deem despacho aos comediantes para que estes representem no Pátio em que agora o fazem, enquanto não houver mais outro concerto, capaz e se poder representar nele, ao que se satisfaz com se dizer das palavras do autor que fosse continuar como representar onde o fazia, até lhe ordenar coisas. Porém, pareceu significar a Vossa Senhoria o grande dano que resulta do  pejamento da rua das Arcas, onde estão arruados nem podem trabalhar em seus ofícios nem vender e dar expediente às suas obras o dia que ali se representa de mais de estar a rua impedida, que com dificuldade pode uma pessoa passar a cavalo por ela além de brigas que por estes respeitos são  causadas”...

 

Luís Soares Carneiro esclarece a propósito que “foi a aplicação a Portugal das leis que regiam os pátios de comédias em Espanha a primeira legitimação efetiva da atividade teatral, pois admitam a sua existência com carater permanente, desde que o rendimento desses pátios fosse entregue, no caso de Lisboa, ao Hospital de Todos os Santos” (in “Conferencia do Trindade” 2017).

 

Segundo Sousa Bastos, o Teatro ardeu em 1697, mas foi reconstruído e  reinaugurado três anos depois. Esclarece: “Tinha 20 camarotes no primeiro andar, seis camarotes e assentos gerais com cinco degraus em roda de todo o pátio no segundo andar, 21 camarotes no terceiro andar e outros 21 no quarto andar”. E  esclarece, no texto publicado em 1908  no  ”Dicionário do Theatro Português”,  que “o local em que este ficava este teatro era no sítio em que hoje está a rua Augusta junto ao Rossio (...) mais ou menos onde hoje está o segundo quarteirão da Rua Augusta”.

 

E finalmente: num estudo intitulado precisamente  “Teatros Portugueses” (ed. Sete Caminhos – 2005), Luciano Reis  diz que o Pátio das Arcas foi o segundo a ser construído e inclui uma gravura de Alberto de Sousa , que aliás não identifica, mas que aqui se reproduz: pois seja ou não seja, dá uma imagem feliz das zonas de espetáculo da época...

 

DUARTE IVO CRUZ

Os Primeiros Cineteatros de Lisboa

 

Faz-se aqui referência ao lançamento do excelente livro de Guilherme d’Oliveira Martins, intitulado “Ao Encontro da História – O Culto do Património Cultural” (Gradiva Ed. – 2018), onde, entre tantos mais temas, se efetua a análise histórica dos cinemas de Lisboa, a partir do início do século XX.

 

Efetivamente, no ponto de vista da infraestrutura do espetáculo cinematográfico e dos edifícios respetivos, Guilherme d’Oliveira Martins elenca uma série de cinemas ou espaços de espetáculo inaugurados em Lisboa, a saber:

 

O Salão São Carlos, na Rua Paiva de Andrade, próximo do então Real Theatro de São Carlos, em 1907; o Salão Chiado, também em 1907, este chamado “O Animatógrafo”, na Rua Nova do Almada; o Salão Trindade, na Rua Nova da Trindade, em 1909; o Salão “The Wonderful”, este instalados em 1911 no Jardim de Inverno do antigo Teatro D. Amélia, na época denominado Teatro Republica e mais tarde Cinema e hoje Teatro São Luis.

 

E mais esclarece Guilherme d’Oliveira Martins que “em boa verdade, o primeiro Salão, com direito a consideração especial, como espécie de caverna mágica, entre Platão e Alibabá, que aparece é o Salão Ideal ou Salão do Loreto...”

 

O livro evoca mais cinemas entretanto em funcionamento e ligados de uma forma ou de outra a estes movimentos de cultura e de espetáculo:  designadamente o Cinema Colossal da Rua da Palma que em 1916 estreou um filme de Ernesto de Albuquerque sobre a banda desenhada do “Quim e Manecas” criada um ano antes por Stuart Carvalhais.

 

E a esse respeito, Guilherme d’Oliveira Martins salienta “a ligação incindível entre o cinema e a BD”.

 

E acrescenta:

 

“Dir-se-á que as imagens em movimento motivam o traço da caricatura, superando o naturalismo, mas dando também um passo adiante do simbolismo. E pode dizer-se que o cinema não está longe desta motivação”. E cita o “Manifesto Anti-Dantas” de Almada, exatamente de 1915 e a propósito da estreia de uma peça de Julio Dantas, “Mariana Alcoforado”.  

 

Em resumo:  

 

Estamos perante o que poderemos chamar de primeira geração de salas de espetáculo especialmente vocacionadas para o cinema, mesmo que não   exclusivamente. Era uma época em que o cinema dava primeiros passos, o que torna a referência e elencagem ainda mais relevante: Lisboa revelava-se na época uma cidade de certo modo moderna no que respeita às artes do espetáculo!

 

Porque só mais tarde se generalizam pelo país fora os cineteatros. Mas aqui estamos numa primeira fase em que o cinema surge autonomizado e sobretudo extremamente inovador.

 

DUARTE IVO CRUZ