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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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NOVAS EVOCAÇÕES E DESCRIÇÕES DO TEATRO DE SÃO CARLOS NOS SÉCULOS XVIII/XIX

 

Referimos hoje novamente o Teatro de São Carlos, por já diversas vezes aqui citado e agora evocado e descrito no âmbito de uma sessão organizada há dias pelo Centro Nacional de Cultura, onde precisamente tivemos o gosto de participar.

 

A intervenção fez-se a partir de referências e evocações históricas, estéticas mas também pessoais deste grande Teatro, notável em si mesmo pela qualidade arquitetónica e pela atividade que desde a inauguração, ocorrida em 3 de junho de 1793, até hoje mantém. Foi beneficiando de sucessivas alterações e melhoramentos, com destaque para o São Nobre inaugurado em 1796.

 

Isto, com períodos de maior ou menor atividade, com maiores ou menores ligações diretas à produção nacional de cultura e de espetáculo operístico mas não só, e sobretudo com uma tradição de qualidade que em tudo se concilia com a qualidade arquitetónica do edifício em si mesmo.

 

Colocando-nos numa perspetiva histórica, recordamos então que o Teatro de São Carlos se deve à traça do arquiteto José da Costa e Silva, o qual se terá inspirado no Teatro de São Carlos de Nápoles, esse destruído por um incêndio em 1816.  E vale a pena recordar que o mesmo arquiteto Costa e Silva é autor também do primeiro Teatro São João do Rio de Janeiro, inaugurado em 1813 e destruído por incêndio. Ficaram gravuras que evocam o nosso São Carlos.

 

Tivemos já ensejo de citar diversos textos descritivos do Teatro, produzidos e divulgados ao longo dos séculos. Aliás, o salão nobre é aberto ao público em 1796. Recordamos agora um documento datado de 1803 e assinado pelo futuro Dom João VI, então Príncipe Regente, o qual expressamente refere “o luzimento e esplendor a que se tem elevado a benefício do público e grandeza da minha Corte”, assim mesmo!...

 

Mas já três anos antes, em 1800, Carl Israel Ruders descreve com grandes elogios o Teatro de São Carlos: “de toda a parte se ouve muito bem. Na plateia há três coxias paralelas entre os bancos ficando assim a sala dividida em quatro separações, o que permite entrar e sair sem apertos”. Descreve com grandes elogios os camarotes “adornados exteriormente com belos arabescos e candelabros de cristal, colocados de maneira que o brilho da luz não tira a vista aos espetadores”.

 

E mais acrescenta Ruders que “os panos de boca, tanto o exterior como o interior, representam assuntos mitológicos. São bem pintados”.

 

Mas voltamos ao século XIX, seguindo o que citamos na “História do Teatro Português”. Assim, em 1820, o Marquês da Fronteira vê “pôr-se de pé sobre um dos bancos um jovem elegante pelas sua maneiras, duma fisionomia simpática e toilette apurada um pouco calvo apesar da pouca idade, o qual, pedindo silêncio aos que o rodeavam, disse A Liberdade   e recitou uma bela ode”...  Era nada menos do que Garrett!...

 

E recordamos ainda diversos escritores da época. Assim, António Feliciano de Castilho recorda as aclamações que saudaram a noticia do regresso da D. João VI do Brasil, anunciada no São Carlos em 27 de abril de 1821.  Eça, em “O Primo Basílio”, descreve “figuras obscenas” desenhadas com o charuto nas paredes à entrada da plateia.

 

E a partir dos primeiros anos do século XX o Teatro de São Carlos acolhe a estreia de dramaturgos como Alfredo Cortez com a “Zilda” ou António Ferro com o “Mar Alto”. Marcou assim certa modernização, passe o termo, do teatro português... 

 

Mas isso veremos mais tarde, pois voltaremos a esta evocação do Teatro de São Carlos.

 

DUARTE IVO CRUZ  

EVOCAÇÃO DE LUIZ FRANCISCO REBELLO NAS “MEMÓRIAS DA ACADEMIA DAS CIÊNCIAS”

 

Acaba de ser publicado o Tomo XL das Memórias da Academia das Ciências de Lisboa, entidade prioritária a que me honro de pertencer.

 

Trata-se de uma edição em 2 volumes reunindo 54 textos de comunicações e colaborações de membros da Academia. E entre os textos, queremos aqui salientar duas comunicações de Luiz Francisco Rebello (membro da Academia) sobre temas ligados ao teatro português.

 

Assim, no Volume I, a comunicação evocativa, precisamente intitulada “No Centenário da Morte de D. João da Câmara”. E no Volume II, a comunicação sobre o teatro e os teatros em Portugal na transição do século, esta intitulada “O Teatro na Transição da Monarquia para a República”.

 

Para além da óbvia qualidade das comunicações, importa referir a abrangência temática no que respeita então ao teatro: a escrita de peças, a referência a análises históricas e críticas e a relevância do historial de peças, textos, salas e edifícios e os próprios espetáculos. Nesse aspeto, trata-se pois de uma abrangência das artes ligadas ao teatro, abrangência em si mesma da grande qualidade, o que, dado o autor, não é minimamente de estranhar!...  E essa globalidade surge em ambas as comunicações.

 

De tal forma assim é, que o texto evocativo do Centenário da Morte de D. João da Câmara começa por citar e remeter e situar textos interventivos de Gil Vicente, D. Francisco Manoel de Mello, António Ferreira, Garrett, Eça, Oliveira Martins, Fialho, Raul Brandão, Lopes de Mendonça, Júlio Dantas, Luís Barreto e tantos mais escritores, dramaturgos e críticos e analistas, de uma forma ou de outra ligados à criação, à analise ou à crítica teatral.

 

E como bem sabemos, Luiz Francisco Rebello, além de excelente dramaturgo, marcou profundamente todas estas dimensões da atividade e criação da arte do teatro. Aí se inclui a dimensão de espetáculo, que é sobretudo desenvolvida como tal no outro estudo acima citado, “O Teatro na Transição do Século da Monarquia para a República”.

 

Salientamos sobretudo toda a referência analítica que encerra o estudo. Refere a reforma do Conservatório, que em 1911 autonomizou a Escola de Arte de Representar.

 

E Luiz Francisco Rebello dá um justo destaque a fatores que normalmente são esquecidos. Citamos.

 

De um lado, a reforma do Conservatório, por decreto de 22 de maio de 1911, “autonomizando a Escola de Arte de Representar e fazendo desta um dos estabelecimentos congéneres mais avançados do seu tempo”.

 

Já “a projetada reforma do Teatro Nacional veio a revelar-se pouco produtiva”. 

 

Pelo contrário, iniciada em 1911 “a campanha vicentina em que se empenhou o poeta Afonso Lopes Vieira que arrancou ao esquecimento em que jazia há anos o autor da trilogia das Barcas”.

 

Também relevante o Teatro ao Ar Livre levada a efeito no Jardim da Estrela pelo cenógrafo Augusto Pina “em que se representou uma versão da Oréstia de Ésquilo assinada por Coelho de Carvalho”.

 

Mas diz-nos ainda Luiz Francisco Rebello, o incremento de sucessivas salas de cinema, que “já desde 1904 se tinha inaugurado em Lisboa “a primeira sala de cinema, o Salão Ideal”: mas esse incremento de salas de cinema  terá sido “a mudança mais  significativa e inovadora que a República registou nas áreas de espetáculo”.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DO TEATRO THALIA

 

Vale a pena recordar o papel e a função cultural do Teatro Thalia, muitas vezes referido como Teatro das Laranjeiras que se situa-se em área altamente frequentada. E a sua função e atuação em muito transcendeu as origens aristocratizantes, digamos assim, do Teatro em si, isto desde que foi inaugurado em 1825 por iniciativa do Conde de Farrobo, junto ao Palácio das Laranjeiras, onde morava, e no que é hoje o Jardim Zoológico de Lisboa.

 

Há anos tivemos ensejo de recordar que o velho Teatro foi inaugurado em 1825, alterado em 1842 segundo projeto de Francisco Lodi, e quase destruído por um incêndio ocorrido em 1862. Só a fachada ficou.

 

Mas em 2012 o Teatro é reconstruído segundo projeto dos arquitetos Gonçalo Byrne e Barbas Lopes. Já tivemos ocasião de sublinhar a conciliação do restauro com o que restava do edifício original. E esse edifício teve funções relevantes ao longo das sucessivas atividades socioculturais. Aliás, há como que uma tradição cultural ligada ao Palácio das Laranjeiras. Nos anos 20 do século passado realizaram-se lá espetáculos de bailado a que esteve ligado Almada Negreiros.

 

E tivemos ocasião, em textos anteriores, de recordar que o Teatro foi inaugurado com uma ópera hoje esquecida, “Il Castello de Spiriti” de Mercadante, compositor e maestro então responsável pelas temporadas de ópera organizadas pelo então dono do edifício, João Pedro Quintela, numa tradição familiar que vinha do pai, “nobilitado” com o título de Barão e depois a Conde de Farrobo.

 

 O pai, por sua vez, esteve ligado à fundação do Teatro de São Carlos em 1793 e o filho seguiu-lhe o exemplo de grande aficionado e amador de ópera. Farrobo filho viria a estar também a certa altura na gestão do São Carlos.

 

Na obra intitulada “O Teatro em Lisboa no Tempo de Almeida Garrett” Ana Isabel P. Teixeira de Vasconcelos evoca a frequência de Passos no Teatro das Laranjeiras e cita, entre mais eventos, a colaboração frequente de Rambois e Cinatti como cenógrafos. Evoca a descrição de Francisco Câncio acerca de uma receção a D. Maria II.

 

O Teatro era e será um grande centro de cultura e de projeção social. Como tal, continua hoje a merecer citação. Veremos em próximo texto as referências num volume publicado muito recentemente.

 

DUARTE IVO CRUZ

NOVAS EVOCAÇÕES DO TEATRO ROMANO DE LISBOA

 

Há cerca de 5 anos, evocámos aqui o Teatro Romano de Lisboa. Ocorre que a “redescoberta” das ruínas aliás consideráveis do espaço arquitetónico ou que o que dele restava na época, e que não era pouco, ocorre em 1798: sendo certo que os trabalhos de recuperação e sobretudo de reaproveitamento cultural e de espetáculo verificaram-se séculos decorridos e atingem hoje uma expressão considerável de relevância, tanto no ponto de vista da arqueologia arquitetónica como da atividade museológica e de espetáculo entretanto decorrente.

 

Nesse sentido há que assinalar a edição/reedição de estudos que abordam o tema, estudos esse editados pela EGEAC, entidade da CML que gere o espaço histórico.

 

Citamos designadamente dois livros como dissemos ditados pela EGEAC:

 

“Dissertação Critico-Filológico-Histórica” de Luiz António de Azevedo, edição fac-similada do estudo publicado em 1815 e agora reeditado com um Prefácio de Lídia Fernandes.

 

“Saudades da Rua da Saudade – O Teatro Romano e a sua Envolvente nas Memórias da Cidade”, textos da autoria de Joana Gomes Cardoso, Joana de Sousa Monteiro, Lídia Fernandes, Carolina Grilo, Daniela Araújo, Rui Coelho, Ana Cosme, Rani Almeida, Maria Miguel Lucas, Miguel Coelho.

 

A bibliografia sobre o tema é vasta. Pessoalmente abordei-o    em “Teatros de Portugal” e em textos aqui mesmo divulgados como o artigo datado de 15 de abril de 2014, sob o título de “Teatro Romano de Lisboa – Felicitas Iulia Olissipo”.

 

Aí cito designadamente o estudo de Lídia Fernandes, onde se esclarece que “os elementos arquitetónicos com revestimento a estuque, as características técnicas do edifício e o emprego da ordem jónica, são alguns dos elementos que nos apontam o início da sua construção para uma época recuada”. E acrescenta que o teatro sofreu “uma fase de remodelação, levada a cabo em meados do século I, concretamente 27 d. C.”.     

 

O teatro terá sido abandonado cerca do século VI e sacrificado e soterrado em fases sucessivas da expansão da cidade medieval. Mas o terramoto de 1755 põe as ruínas parcialmente a descoberto. São reconstituídas numa gravura de Francisco Fabri. Em 1815 Luis António de Azevedo publica uma reconstituição do proscénio.

 

Mais se desenvolve o texto, que cita como bibliografia obras diversas de Lídia Fernandes, Aarão de Lacerda, Irisalva Moita, Carlos Fabião, Jorge Alarcão.

 

E no livro acima citado “Saudades da Rua da Saudade” Lídia Fernandes historia a própria criação do Museu e as intervenções que, até 2001, marcaram a recuperação do edifício transformado em Museu, bem como sucessivos trabalhos efetuados neste singular monumento da cidade.

 

Retomaremos o tema em crónicas destinadas a evocar os dois livros recentes.

 

DUARTE IVO CRUZ

EVOCAÇÃO DOS 70 ANOS DA INAUGURAÇÃO DO CINEMA E TEATRO SÃO JORGE

 

Completam-se dentro de meses os 70 anos da inauguração do Cinema (e Teatro) São Jorge de Lisboa. E se o referimos desta forma, é porque, precisamente, o grande edifício, vocacionado para cinema desde a fundação, previu a potencialidade de espetáculos de teatro, e não foram poucas as vezes que tal sucedeu, mesmo tendo em vista a descontinuidade histórica - já o podemos assim dizer - da exploração junto do público e da natureza e qualidade dos espetáculos respetivos.

 

E isto apesar da vocação dominante expressa no projeto do arquiteto Fernando Silva, depois, aliás, profundamente alterado no interior das salas de espetáculo.

 

A função cultural de espetáculo do São Jorge transcendia de inicio a exploração cinematográfica, ela própria de exigente qualidade, vocacionada sobretudo para a filmografia inglesa, pois essa era a origem da direção do Cine-Teatro, chamemos-lhe assim: mas desde já se recordam os verdadeiros concertos de órgão eletrónico, efetuados no intervalo das sessões, a que ainda assistimos, aqui recordamos, e que marcavam a qualidade cultural dos espetáculos.

 

Evoca-os designadamente José Augusto França, situando o São Jorge no plano do desenvolvimento urbano de Lisboa com evocação muito elogiosa do projeto original de Fenando Silva, “que venceu um concurso, com correção britânica por identidade dos empresários, e contando com um magnífico espaço interior, superior a todos em Lisboa, que a massa finalmente construída não chegou a acompanhar”...

 

E mais acrescenta José Augusto França que, “apesar da novidade do seu órgão elétrico que tocava nos intervalos, o São Jorge nunca se integrou nos hábitos da capital, disputando dificilmente a clientela da melhor classe mundana do Tivoli e do São Luís, afeitas a um quadro mais tradicional”. Estávamos no início dos anos 50...  (J.A. França “Lisboa, História Física e Moral” ed. Livros Horizonte 2008 pág. 716).

 

Mas isto não obstou a que, durante décadas, o São Jorge tenha mantido uma atividade de espetáculos com qualidade e prestígio de público. 

 

Em 1981 o São Jorge encerrou para obras e reabriu cerca de um ano depois. Prosseguiu a exploração sobretudo cinematográfica, com alternativas que se revelaram difíceis, a ponto de se colocar novamente a certa altura a hipótese da demolição. 

 

Até que em 2001 a Câmara Municipal de Lisboa adquire o edifício.  Não se falou mais em demolição.

 

E até hoje, o São Jorge mantém atividade cultural, com uma programação interna e  internacional que transcende os próprios espetáculos.

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATROS DE VENTURA TERRA NOS 100 ANOS DA SUA MORTE

 

Ocorre este ano o centenário da morte do arquiteto Ventura Terra (1866 – 1919). Já por diversas vezes aqui referimos o muito que se lhe deve na renovação da estrutura arquitetónica das salas de espetáculo a que esteve ligado, pela conceção original dos edifícios e também na renovação e atualização de outros teatros que histórica e cronologicamente o antecedem.

 

Designadamente, referimos, em artigos diversos, tanto o Teatro Politeama, como sabemos em plena atividade, ao qual voltaremos, e o Teatro Club de Esposende, este projetado em 1908 por Ventura Terra, inaugurado como teatro em 1911 e convertido em Museu Municipal em 1993, segundo projeto de adaptação do arquiteto Bernardo Ferrão.

 

 Trata-se de um edifício de notável qualidade, na fachada estreita em arco, dominada por varanda. Em boa hora a Câmara Municipal o conservou e reconverteu, mantendo a vocação cultural.

 

Ora, é de assinalar desde já que Ventura Terra transcende e aplica a sua criatividade em sucessivas criações arquitetónicas de espetáculo e de convívio público. O que incluiu especificamente a reestruturação do próprio Teatro de São Carlos, exemplo incomparável em Portugal da arquitetura das salas de espetáculo.

 

Deve-se efetivamente a Ventura Terra obras de modernização do edifício, com destaque para a primeira grande obra de restauro do setecentista Teatro de São Carlos, inaugurado em 13 de junho de 1793 com a ópera “La Ballerina Amante” de Domenico Cimarosa:  traçou diversas alterações a este teatro, modelo das casas de espetáculo da época.

 

Designadamente, nas obras de restauro efetuadas em 1908, alterou o grande foyer de entrada do Teatro e as pinturas do teto, que se deviam a Cyrilo Volkmar Machado. Mas mais relevante até hoje é a restruturação do interior, e designadamente do chamado Salão Nobre, belíssima sala de produção musical e de convívio.

 

E é de assinalar que, nesta avaliação de projetos de salas de espetáculo, encontramos Ventura Terra nas comissões que avaliaram os projetos de restauro do Teatro São João do Porto e do Teatro- Circo de Braga. Já ambos aqui referimos.

 

Como aliás já referimos a notável recuperação do chamado Teatrinho do Palácio da Brejoeira de Monção, onde se concilia a sala de pequenas dimensões, cerca de 50 lugares, com a magnitude do Palácio, desta forma valorizado também na dimensão cultural do espetáculo.   

 

Voltaremos a evocar Ventura Terra, designadamente a propósito do Teatro Politeama: e esse, como bem sabemos, mantem-se em plena e pujante atividade!

 

DUARTE IVO CRUZ

TEATROS HISTÓRICOS EM LISBOA: TEATRO DAS FANGAS DA FARINHA

 

Temos aqui referido o património histórico dos teatros-edifícios construídos e/ou adaptados ao longo do país, em sucessivas fases da História do Espetáculo, e aí cobrindo, desde as realizações iniciais, aos tempos atuais: e sempre tendo em vista a própria realidade do teatro como expressão de um texto que é apresentado ao publico de acordo com os hábitos culturais e as técnicas de cada época.

 

E de tal forma assim é, que não nos podemos vincular à arquitetura específica e à técnica correspondente de cada expressão de espetáculo cénico.

 

Por isso aqui temos evocado sucessivos espaços de espetáculo teatral, desde as primeiras manifestações até à geração mais recente, e isto no ponto de vista dos autores, dos arquitetos e do público: pois teatro é espetáculo e sem público – nem que seja um único espetador – não há espetáculo!...

 

E isto vem a propósito, precisamente, de uma efeméride teatral que neste ano de 2019 completa exatos 5 séculos: a saber, a estreia em 1619 de um espaço teatral, o chamado Pátio das Fangas da Farinha, no que é hoje a Baixa lisboeta.

 

Vejamos então.

 

A partir de 1590, o empresário, diríamos hoje, Fernão Dias de la Torre, castelhano de origem e de cultura, organiza em Lisboa o que se pode considerar o primeiro espaço público de espetáculos, o chamado Pátio das Arcas, situado na zona que hoje corresponde mais ou menos à Rua Augusta. Para tal, obtém autorização do Hospital de Todos os Santos. E assim prossegue uma atividade de produção de espetáculos.

 

Ora o que é mais curioso é que a zona consagra pelo menos desde aí uma vocação, digamos assim, para a realização de espetáculos e de espaços musicais e teatrais. E assim, em 1619, portanto há exatos 400 anos, inicia atividade o chamado Pátio das Fangas da Farinha, próximo do que viria a ser o Tribunal da Boa Hora.

 

Em 21 de novembro de 1622 o Município de Lisboa emite um documento divulgado por Eduardo Freire de Oliveira em 1888 (in “Elementos para a História do Município de Lisboa”) que citamos na nossa “História do Teatro Português” e que aqui se evoca.

 

Transcreve então Freire de Oliveira:

 

 “A Relação se meteu em perturbar a jurisdição da cidade, mandando derrubar o Pátio das Fangas da Farinha (...) e ora chegando à nossa notícia que o Pátio da Rua das Arcas estava em notável perigo de arruinar e cair com o peso da gente se ordenou ao vereador do pelouro das obras que com o arquiteto da cidade e mais ministros dela fosse ver a fábrica do dito Pátio da Rua das Arcas e por todos, debaixo de juramento, foi dito que a obra estava fraca e notável risco de vira abaixo com o peso da gente, o que acontecendo, o que Deus não permita, mataria e estropiaria muita gente (...) deem licença a este Senado que mande concertar o das Fangas da Farinha”...!

 

Quer dizer: já nessa altura os poderes públicos se envolviam em problemas de gestão da infraestrutura de espetáculos!...

 

DUARTE IVO CRUZ 

AGUSTINA, DIRETORA DO TEATRO D. MARIA II

 

No artigo anterior, evocou-se Agustina Bessa-Luís nas funções de diretora do Teatro Nacional de D. Maria II, muito marcante nas temporadas de 1991 a 1993.

 

É certo que, na época como de certo modo ainda hoje, as funções não se confundem necessariamente com a direção das temporadas e com os repertórios e elencos respetivos: mas também é certo que antes ou depois daquele período, o prestígio de Agustina necessariamente marcaria não só a direção institucional e administrativa  do Teatro em si, mas certamente também a atividade artística no que se refere à função cultural e operacional da empresa, a gestão administrativa do edifício como património do Estado e até, seja permitido dizê-lo, a tradição do prestigio cultural do Teatro Nacional de D. Maria II, designadamente quando dirigido por um escritor: tradição essa que vinha do tempo de Garrett...!  

 

O certo é que de 1991 a 1993, o Teatro de D. Maria II marcou o meio cultural português pela sua atividade direta de grande e tradicional sala de espetáculos, mas também, simultaneamente, pelo nível de qualidade do repertório e pela atividade complementar, aberta a ações de cultura que transcendem a produção dos espetáculos em si.

 

É obvio que um Teatro, sobretudo do Estado exige um repertório em si mesmo qualificado e com uma dimensão de cultura, sendo certo que isso não obsta evidentemente à variedade dos espetáculos e à recetividade do chamado grande publico. Não deve ser nesse aspeto uma sala elitista, digamos assim: mas terá de ser uma sala qualificada. Na gestão de Agustina, foi o que ocorreu.

 

E de tal forma que, nas temporadas de 91 a 93, encontramos numerosos eventos que, para alem dos espetáculos da Companhia do Teatro em si, abrangem iniciativas de interesse cultural de âmbito interno mas também internacional.

 

Lembramos a esse respeito, designadamente mas não só, a realização de programas, exposições e debates  integrados nos Festivais Internacionais de Teatro,  a cooperação com companhias vindas do exterior, algumas de grande prestígio, e também a escolha de um repertório que simultaneamente apresentava tanto peças e espetáculos nacionais como  estrangeiros: os já referidos Festivais Internacionais de Teatro,  com exposições, ciclos de conferências e ateliers de cultura teatral e musica sobretudo ligados  à função de cultura de um Teatro Nacional.

 

Recordamos então que foram numerosas as iniciativas determinantes da cooperação internacional do Teatro de D. Maria II durante a gestão de Agustina Bessa-Luís.

 

E nesse sentido, poderemos  voltar ao tema.

DUARTE IVO CRUZ

OS 125 ANOS DO TEATRO SÃO LUIZ

 

Temos aqui referido o Teatro de São Luiz em perspetivas que englobam eventos, espetáculos e comemorações realizadas nesta bela sala que tanto marca a vida cultural de Lisboa e mesmo do país, a partir da sua conceção, construção, inauguração e atividade, como teatro, como cinema, como sala de concertos e centro cultural: e também como referência da área urbana em que se inscreve e das variantes urbanas e culturais que sucessivamente envolve.

 

Pois é hoje oportuno recordar que se assinala no dia 22 de maio o 125º aniversário da inauguração do então Theatro Dona Amélia, homenagem à  rainha, com a estreia em Lisboa da ópera “A Filha do Tambor Mor” de  Offenbach, numa produção italiana que aliás constitui, ao longo de decénios, uma das características das sucessivas explorações desta sala de espetáculos, também sucessivamente denominada Theatro da Republica, São Luiz Cine e Teatro São Luiz, conforme o regime e a atividade dominante em cada época.

 

Ardeu em 1915, foi devidamente restaurado, adotou o nome atual em 1918 e é explorado também e por vezes exclusivamente ou quase como cinema a partir de 1926.

 

 A designação decorre da construção se ficar a dever a uma individualidade, o Visconde de São Luiz Braga, nascido no Brasil de pais portugueses e que se fixaria também em Lisboa. De assinalar que o Teatro e depois Cinema São Luiz é um projeto de Ernesto Luis Raymond com intervenções dos cenógrafos Luigi Manini e Carlo Rossi.

 

O certo é que, passados estes 125 anos de constante atividade, o Teatro-Cinema São Luiz, a certa altura municipalizado, constitui um referencial da arquitetura e da atividade de espetáculo e de cultural em geral.

 

E é de assinalar designadamente o período em que o Teatro foi dirigido por Luiz Francisco Rebello que em 1971 se demitiu da atividade por problemas ligados à censura de um espetáculo programado – “A Mãe” de Witckiewicz, que não chegou a estrear.

 

Já aqui recordei a colaboração que na época prestei a Rebello na direção do teatro:  e tal como escrevi, acompanhei-o na saída da direção.

 

Mas ficou até hoje a recordação, e para mim é oportuno referi-la nestes 125 anos do Teatro São Luiz.

 

E não é demais assinalar a extraordinária coleção de placas que, desde quase as origens até hoje, assinalam a realização de espetáculos e eventos de cultura realizados no São Luiz!

 

Voltaremos a referir esta comemoração dos 125 anos de um teatro de Lisboa.

 

DUARTE IVO CRUZ

REFERÊNCIA AO TEATRO LU.CA REMODELADO

 

Em 2017 assinalámos aqui a fase de recuperação que na altura se teria iniciado no Teatro Luís de Camões, hoje Teatro LU.CA, na Calçada da Ajuda em Lisboa, referindo com destaque o historial da pequena sala de espetáculos que, nesse aspeto, de certo modo iniciava todo o movimento, hoje bem pujante na relatividade, nos novos Teatros. Com a ressalva do historial deste que vem de finais do século XIX, inaugurado que foi em 10 de junho de 1880, com a peça de Casimiro de Abreu, “Camões e o Jau”, no quadro das comemorações do terceiro centenário da morte do poeta. 

 

A iniciativa ficou a dever-se a um comerciante de nome João Açúcar. Em 1899 sediou o chamado Belém Clube. E tal como escrevemos, a sala, não obstante a limitação de espaços, nesse aspeto aliás notavelmente percursora, manteve a capacidade arquitetónica e de exploração de espetáculo social da época: plateia, frisas, camarotes, tribuna, mas tudo adequado à dimensão do que hoje se denomina teatro de bolso.

 

 Em qualquer caso, o Teatro é adquirido em 1967 pela Câmara Municipal de Lisboa, mas esteve mais ou menos fechado durante anos, até que em 2015 se iniciam obras e em 2018 é reinaugurado com a designação bem atual de Teatro LU.CA, paráfrase do nome original, agora numa vocação de teatro infanto-juvenil.

 

E a reabilitação arquitetónica é marcada por uma recuperação modernizante de estruturas originais, entretanto prejudicadas por sucessivas adaptações. Essa reabilitação, orientada pelos arquitetos Manuel Graça Dias e Egas José Vieira, concilia o estilo oitocentista original sobrevivente com uma modernização da exploração do espetáculo, sobretudo, insista-se, vocacionado para o teatro infantojuvenil. E talvez a mudança nesse aspeto mais relevante será a abolição das portas dos camarotes, o que torna bem mais acessível o acesso, bem diferente da tradição oitocentista.

 

E de facto, o Teatro LU.CA está diferente do Teatro Luís de Camões, mas nem por isso deixa de manter a tradição arquitetónica de espetáculo. Ao contrário de tantas e tantas salas que, por esse país fora, foram desaparecendo!

 

 

DUARTE IVO CRUZ