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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 24 de fevereiro 1 de março de 2020

 

“Glória – Biografia de J.C. Vieira de Castro” de Vasco Pulido Valente (Gótica, 2001) – tornou-se um livro de referência na historiografia portuguesa, num importante conjunto de outras obras de um autor que marcou indelevelmente a literatura, o comentário e a ciência da História.

 

 

UM LIVRO DE HISTÓRIA
 Significativamente, o autor começa por deixar claro: “Este é um livro de história. Não é um livro de história a fingir de romance, nem um romance ‘documental’. Convém começar por dizer isto para que não haja confusões. As variantes do positivismo que ainda hoje dominam a disciplina foram reduzindo ao geral e abstrato a investigação sobre o passado”. Em lugar do desinteresse do indivíduo e de um mundo assético, de onde desapareciam a irracionalidade e a imaterialidade da vida, o historiador desta obra apresenta-se a descrever, a partir de uma rigorosa análise dos documentos e dos acontecimentos, a vida tal como a conhecemos. Vasco Pulido Valente procurou na biografia solução para a tal dificuldade que afastava a história e a vida. Por isso, abalançou-se na análise de figuras como o Duque de Palmela, Costa Cabral, Marcelo Caetano e Paiva Couceiro, até que se deparou com um caso muito especial: o de José Cardoso Vieira de Castro (1837-1872). Trata-se de um dirigente académico com alguma importância, um jornalista menor, um escritor sem talento, um político sem poder, e ainda por cima, um criminoso e um degredado. Todos estes elementos permitiram a consideração de alguém que, pelas promessas que representou, pelos meios que frequentou, pela personalidade que tinha, nos revelou um período social, cultural e político extremamente rico, que permite ao leitor adentrar-se no século XIX português tal como foi. E assim, a partir de uma figura dramaticamente célebre, podemos encontrar uma historiografia capaz de entender a complexidade da vida, desde a singularidade de cada um à encruzilhada das relações humanas. “Vieira de Castro não queria perder a vida num remoto canto da província. Queria conquistar Lisboa e o país. Queria glória”. A intenção do historiador foi de ‘mostrar’ como agiam, sentiam e pensavam os portugueses letrados de meados dos século XIX e não de os meter nos seus casulos…” E assim seguimos, passo a passo, as personagens e os acontecimentos, os encontros e os desencontros.

 

UMA AMIZADE FUNDAMENTAL
No caso de Vieira de Castro deparamos com uma ambição que tem a ver com uma carreira política. No ano de 1860, algo de fundamental ocorrera. Camilo Castelo Branco e J.C. Vieira de Castro criaram amizade especial, quando o romancista se refugiou na Casa do Ermo, solar ancestral da família do segundo, por aquele se encontrar em fuga devido aos amores com Ana Plácido, casada com Pinheiro Alves… E lemos “As Memórias do Cárcere”, “no ‘Ermo’ me esperava com os braços abertos e o coração no sorriso José Cardoso Vieira de Castro. Falseei a verdade. Vieira de Castro esperava-me a dormir naquela madrugada dele, que era meio-dia no meu relógio”. Depois, Vieira de Castro escreve a biografia de Camilo, que merece elogios de circunstância de Júlio Dinis. E volta a Coimbra, com a intenção de terminar o curso, enguiçado pelos sucessos do líder estudantil. Mas quando regressa, depara-se com o movimento encabeçado por Antero de Quental, notando-se uma contradição evidente na relação entre ambos. Vieira de Castro pensa na carreira política. Em 1864, o sucesso em Coimbra determina, de facto, a sua candidatura e eleição em 1864 pelo partido Regenerador num sufrágio suplementar para o círculo de Fafe. “Acabara enfim o exílio d’O Ermo, daquela província que o ‘sufocava’. Vieira de Castro podia vir para Lisboa em busca de uma glória que não se comparava aos triunfos de Coimbra, nem às pequenas vitórias de Fafe, nem sequer à meia celebridade que tinha no Porto. No Parlamento e com a retaguarda assegurada por Ferreira de Melo, a sua presa, a sua audiência era o país inteiro”. Vai morar para Santa Catarina, a dez minutos de S. Bento. “As janelas dominavam o Aterro e o Tejo” do Montijo até ao mar: um esplêndido “panorama”. “Como qualquer ‘elegante’ estabeleceu relações de ‘boa sociedade’”. Em abril de 1866 participa num jantar oferecido por Bulhão Pato, onde estavam o visconde de Seabra, Rodrigues Sampaio, o barão da Trovisqueira (a quem Vieira de Castro devia muitíssimo dinheiro), Rebelo da Silva, Francisco Luís Gomes, Eduardo Cabral, Tomás de Carvalho (…), Luís Augusto Palmeirim, Teixeira de Vasconcelos e Ramalho Ortigão”…

 

UM ORADOR ESQUECIDO
Na Câmara dos Deputados evidenciar-se-á a sua verve tribunícia. Depressa o orador ganha notoriedade, que ultrapassa fronteiras e chega ao Brasil. O seu modelo é o grande José Estevão, o mais célebre dos oradores parlamentares. É recebido com honras de triunfador no Brasil, e aí se casa no Rio de Janeiro (em fevereiro de 1867) com Claudina Adelaide Gonçalves Guimarães, filha do comendador António Gonçalves Guimarães, natural de Fafe e um dos diretores do Banco Rural e Hipotecário do Brasil. De regresso a Portugal, a jovem não parece conformada com uma vida provinciana, prefere uma casa na Rua das Flores, onde o casal se instala, recebendo uma tertúlia literária, onde estão Ramalho Ortigão, António Rodrigues Sampaio, e José Maria Almeida Garrett, sobrinho do célebre Garrett. Em 7 de maio de 1870, sábado, Vieira de Castro surpreende a jovem mulher a escrever uma carta a José Maria Almeida Garrett e tudo se precipita e se desmorona. Iludindo uma solução pacífica, para a não deixar fugir, Vieira de Castro mata a mulher, desafiando sem sucesso o jovem literato para um duelo, que este recusa. “Quando se entregou à polícia, a 10 de maio, Vieira de Castro não mediu o horror que o seu crime ia inspirar na ‘opinião pública’. Não acreditava que a sociedade que o aplaudira como um ‘ídolo’, ‘repentinamente o repelisse como um monstro’. Estava, aliás, seguro de que seria absolvido: era vítima, não era o culpado. A Camilo escreveu com toda a frieza: ‘Fizeste bem, ou antes, não fizeste mal em dizer que eu não tenho remorsos nenhuns’. Naqueles primeiros dias só se afligiu com a ruína da sua carreira política. A morte de Claudina não passava de uma desgraça que o privara de um grande e decisivo triunfo”… Em 1871 partiu para Luanda para cumprir a pena de degredo a que fora condenado, de 15 anos. A morte condená-lo-ia apenas um ano depois. O silêncio foi a regra. Poucos o recordaram. Camilo foi exceção: falou do “atribulado mártir” e da “divina Providência que lhe comutara em agonia de instantes o suplício de 15 anos”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de fevereiro de 2020

 

As Literaturas em Língua Portuguesa (Das Origens aos Nossos Dias), de José Carlos Seabra Pereira (Gradiva 2019) é um reportório fundamental para quem queira conhecer o panorama atual da língua portuguesa.

 

UMA OBRA INDISPENSÁVEL
É difícil proceder à apresentação de uma visão de conjunto das literaturas em língua portuguesa. Poucos poderiam encarregar-se de tal tarefa a contento, daí que a escolha de José Carlos Seabra Pereira merece aplauso, não só pelas provas académicas e pedagógicas sobejamente consagradas, mas também pelo resultado do trabalho agora dado à estampa em As Literaturas em Língua Portuguesa (Das Origens aos Nossos Dias) – em edição da Gradiva (2019), com o apoio do Instituto Politécnico de Macau e do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. Carlos Ascenso André, impulsionador do livro, está certo quando diz que “precisávamos (…) de uma obra que não se limitasse a Literatura Portuguesa, mas que se alargasse de forma abrangente, às demais literaturas de língua portuguesa. Mas precisávamos, igualmente, de que tal obra tivesse em conta esse público-alvo muito específico que são os milhares de aprendentes do Português mundo fora, com os seus condicionalismos próprios: um público heterogéneo, com patamares de conhecimento muito assimétricos, com interesses diversificados. Ou seja, uma obra acessível, mas rigorosa, útil a quem se limita à superfície das coisas, mas não menos instrumental para quem pretende descer mais fundo na sua reflexão e no seu conhecimento”. Não se trata, pois, de um manual, mas de um ensaio panorâmico, feito com especial cuidado, e apto a abrir novos caminhos e pistas, a partir da recusa uniformizadora e da consciência de que estamos perante uma língua de várias culturas, e portanto de diversas literaturas. Como língua, o português irá enriquecer-se pluralmente, num exigente desafio, pois as literaturas são, de facto, indicadores fundamentais para definirem os diversos sentidos que serão seguidos pela língua e pelas línguas. Por isso, o autor apresenta “um ensaio longo de roteiro das literaturas em língua portuguesa, que se distingue pela perspetiva de conceção e pelos parâmetros de elaboração”. E assim, em lugar de um tratamento minucioso e dilatado das épocas mais distantes, prefere uma “nítida expansão a partir da viragem para o século XX e decidida progressão pelos terrenos da literatura hodierna”. Se assistimos nesse momento à afirmação de maior pujança das literaturas portuguesa e brasileira, inicia-se também a consolidação das literaturas angolana e cabo-verdiana, além dos casos de Moçambique e Macau.

 

COMUNIDADE INTERLITERÁRIA
No dizer do autor, o livro procura captar e acompanhar um fluxo de águas vivas que, quanto mais se abre em inestimáveis deltas nacionais, mais parece dirigir-se para uma comunidade interliterária (na aceção de Dionýs Durisin)”. Estamos perante uma realidade multifacetada e multímoda em que se detetam pontos de encontro e de separação, num diálogo complexo a partir de inexoráveis raízes comuns, que coabitam com afluências divergentes. Há, assim, várias culturas e várias línguas que coabitam e dialogam. Longe de qualquer tendência uniformizadora ou centrada em hegemonias ou convergências, “não são rasuradas as tendências emergentes ou epigonais que coabitam com aquelas hegemonias estético-literárias em cada período e mormente nas fronteias fluidas do seu dealbar ou do seu ocaso”. Muito relevante é, aliás, a referência à língua literária portuguesa “com a interferência de variantes idiomáticas, de fenómenos de crioulização, de transvases de outras línguas”. De facto, quando nos referimos a uma língua falada em todos os continentes, percebemos que a consequência não é a uniformização global, mas sim a diversidade, as interferências e as complementaridades, tantas vezes exemplificadas em expressões e palavras de torna-viagem e em múltiplas trocas e partilhas de sentido. Daí que as simplificações seriam impossíveis e só um estudioso como J.C. Seabra Pereira poderia abalançar-se numa empresa desta dimensão, acompanhando as literaturas de uma língua antiga com as suas origens em textos de poesia lírica e satírica dos trovadores e dos cronistas – entre a Galiza e Portugal. E deste modo encontramos os fundos lírico, trágico e picaresco, que se vão projetando em caminhos diversíssimos.

 

UM PERCURSO SISTEMÁTICO
Propositadamente, encontramos um percurso lesto, mas não menos rigoroso, sobre o tempo cortês, o Renascimento e o Maneirismo, as Luzes e o arcadismo luso-brasileiro, os romantismos, o realismo e as suas margens, o decadentismo e o simbolismo na transição para o novo século, até à escrita vital de Aquilino… Vamos percorrendo, com sublinhados bastante nítidos, que exigem uma leitura atenta e compassada, os pontos fundamentais da literatura, com o aparecimento gradual e em crescendo da criação brasileira e depois africana. Veja-se a título de mero exemplo, como prolegómeno da parte mais desenvolvida da obra, a referência ao facto de Eça de Queiroz ficcionar “um vetor de caracterização peculiar do ethos português numa aproximação à literatura identitária de Portugal que nunca se quer isenta de alguma valência de ironia”. Fala-se, naturalmente, de A Ilustre Casa de Ramires e da ida de Gonçalo Mendes Ramires a África, num capítulo acrescentado pelo romancista, na versão final do livro, ao que foi publicado em folhetins na “Revista Moderna”. Noutro registo, refira-se a atenção do autor à “escrita vital” de Aquilino Ribeiro, surgido na margem do Modernismo, com um estilo versátil que se atualiza “numa réplica moderna daquele ‘porte desusado’ de ‘idioma novo e civilizado’ e daquela madre língua manejada com ‘agilidade e limpidez’ e ‘elegância sem perda de vigor e com ganho de harmonia’ que o mesmo Aquilino certeira e oportunamente louvava em Camões”. Considerando em Portugal e no Brasil “autores axiais” como Fernando Pessoa e Mário de Andrade, encontramos entre as duas guerras mundiais a emergência de uma modernidade estética de matriz baudelairiana, na “tradição do novo”. Modernismos e Vanguardas confrontam-se desde “A Águia” a “Orpheu”, até ao Livro do Desassossego. E Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimos, procura intervir como patriota cosmopolita, para superar a condição decadente da nação portuguesa, na aceção, anteriana e sergiana, de atraso relativamente à modernidade sócio-cultural do Ocidente… Por seu lado, a “Presença”, relativamente ao Modernismo de “Orpheu”, representa não uma rutura, mas uma plataforma comum do inconformismo, do individualismo, da urgência do novo e do cosmopolita, considerando o valor da arte como instituição. E tem razão J. C. Seabra Pereira quando afirma que “a articulação de ‘Orpheu’ e de ‘Presença’ ganha em ser lida na ótica de dissociação conceptual e histórico-literária entre Modernismo e Vanguarda(s)” – sem esquecer as interferência vanguardistas nos dois modernismos e percebendo-se que, em toda a Europa, os dois movimentos são concomitantes mas não confundíveis. Os exemplos dados permitem ilustrar como a obra ora dada à estampa é um instrumento importante que abre perspetivas de trabalho em progresso para uma melhor compreensão no mundo da língua portuguesa não só das diferenças culturais, mas também das confluências interliterárias.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de dezembro de 2019

 

O livro de Jorge de Sena, «Maquiavel e Outros Estudos», foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto, em maio de 1974, e constitui uma obra fundamental no conjunto dos ensaios de Jorge de Sena.

 

 

ALTO PADRÃO CÍVICO
Concordo com António Feijó quando afirma que Jorge de Sena é uma referência para a nossa geração, pelos altos padrões de valores que nos apontou e pela sua coragem. O certo é que o escritor, o poeta, o ensaísta lutou por uma liberdade que não era compatível com a mediocridade. Daí a necessidade de trabalho, de persistência e de uma capacidade inequívoca de vislumbrar o outro lado das coisas. Sem a tentação de apenas ver a claro e escuro ou de se limitar ao próprio e ao alheio, Sena é uma referência. Isso mesmo tem gerado mil incompreensões e injustiça. Importa, por isso, lembrar os verdadeiros testemunhos e não comentários de despeito e de má-fé. Recordo bem, quando “O Tempo e o Modo” (nº 59, Abril de 1968) publicou o número dedicado a Jorge de Sena, como houve vozes surdas e sonoras, desconfiadas, sem compreender, o que hoje sabemos, ou seja, a importância do pensamento e do método do polígrafo. António Cândido, que conheci, recordava amiúde: “Bastava conversar algum tempo com Jorge de Sena para perceber as suas fagulhas de genialidade. Na sua personalidade vulcânica, talvez o que mais impressionasse fosse a estrutura de contrastes. Era versátil de modo extensivo e, ao mesmo tempo, densamente profundo. Era arrebatado até à explosão e concentradamente reflexivo. A sua informação era inacreditável e a sua capacidade de captar conhecimento chegava a causar espanto pela rapidez e a penetração, só comparáveis à presteza com que traduzia os resultados em escrita”… Pedro Tamen, num depoimento dado à revista “Relâmpago” (nº 21, 2007) resumiu o essencial: “Sena era impaciente e tinha mau feitio. Cometeu, sem dúvida, algumas injustiças; mas se o fez, foi por não ter pachorra para a mediocridade. Para o ‘reino da estupidez’. É que Jorge de Sena era superior mesmo”.

 

UM ENSAIO NOTABILÍSSIMO
Há um ensaio notabilíssimo, não sobre os temas habituais de Jorge de Sena, mas sobre a grande filosofia política, que atesta bem a exigência de pensamento do mestre. Falo de «Maquiavel e o “Príncipe”», publicado em S. Paulo, pela Cultrix, em 1963, numa obra intitulada Livros que abalaram o mundo. Nesse livro Sena escreveu ainda «Marx e “O Capital”». Entre nós, Maquiavel e Outros Estudos, foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto, em maio de 1974, envolvendo Miguel Ângelo, Shakespeare, Galileu, Marx, Rousseau, Chestov e Malraux… No dia em que li esse extraordinário texto, Maquiavel tornou-se não aquela figura que muitos associam a um adjetivo caricatural e falso, mas o grande moralista, pensador político, que refletiu sobre a unificação italiana como um sinal de civilização. Nem velhacaria nem perfídia, do que Maquiavel trata é de outra coisa, e por isso deve ser considerado como “um patriota italiano e um estadista angustiado por ver a Itália dividida em principados, repúblicas, estados papais, e territórios de potências estrangeiras”. “Foi e é, um dos maiores escritores da literatura italiana; e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos de todas as épocas”. A sua grande revolução do pensador é despir “a ação política de toda a transcendência e, sobretudo, de toda e qualquer sanção extrínseca aos próprios valores cuja conquista devem norteá-la”. Leia-se, aliás, a “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, onde essa lembrança viva se encontra, “… o mesmo mundo que criemos / nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa / que não é nossa, que nos é cedida / para a guardarmos respeitosamente / em memória do sangue que nos corre nas veias, / da nossa carne que foi outra, do amor que / outros não amaram porque lho roubaram” (Metamorfoses, 1963).

 

MAQUIAVEL A OUTRA LUZ
Para Sena, Maquiavel “é um moralista na mais alta e nobre aceção da palavra: aquele que descreve os costumes humanos, os resultados a que eles conduzem, e as causas que os condicionam, com objetividade clínica. Se daí pode ser extraído, ou não, um conjunto de normas morais que rejam o bem-viver em sociedade, eis o que excede o âmbito do seu pensamento. E excede-o, não porque entende lucidamente que, no plano político, a virtude só tem sentido se estiver ao serviço de alguma coisa concreta”. A intuição do ensaísta português é extraordinária, uma vez que insere o grande pensador italiano no grande movimento de emancipação política da contemporaneidade. Eis como o pensamento de Maquiavel é contrário àquilo que “tem sido pejorativamente acusado de o ser; e a exploração que tiranos e ditadores fizeram dele não passa de uma depravação criminosa da sua nobreza intrínseca, da sua coerência empírica, da sua dignidade fundamental”. Longe de uma ambivalência moral e da tentação de justificar a ilegitimidade e a tirania, do que se trata é da criação de condições para que a liberdade, a dignidade e a independência possam existir. O bem e o mal perdem sentido na vida sociopolítica se forem abstratamente dissociados, já que, como diz o povo, de boas intenções está o inferno cheio. No fundo, temos de entender que a República, é dela que Maquiavel nos fala, é um regime de pessoas imperfeitas, que têm de saber lidar com a imperfeição, para poderem ser melhores. A lucidez do escritor é demasiado crua? Mas é preciso partirmos dela para criar condições a fim de nos aproximarmos de uma “vita buona”, conscientes de que nunca será acabada e perfeita, uma vez que em tal caso se tornaria desumana. “Todo o pensamento e toda a ação levam em si aquilo que os contradiz e destrói, aquilo que os fará inferiores à realidade que os ultrapassa”. De facto, “pensamento e realidade criam-se mutuamente, e é a criação, o ato de criar, o que os excede a ambos, e não um que se excede ao outro”. Basta lembrarmo-nos do ciclo de frescos de Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena, para compreendermos a importância e o sentido do texto de Maquiavel. Aí se oferecem as representações iconográficas dos conceitos políticos abstratos: a Paz, a Concórdia e a Segurança, por oposição à Guerra, à Divisão e ao Medo. E como mostrou Quentin Skinner, o grande pensador contemporâneo que tem estudado o tema, a alegoria do Bom Governo deve ser interpretada como a tradução visual duma ideologia: a do ideal da cidadania e da autonomia republicana, que se desenvolveu nas cidades-estado em Itália no início do Renascimento – e que Maquiavel deseja generalizar. Nesta perspetiva “Lorenzetti não se contenta com ilustrar uma ideologia da vida civil, contribui simultaneamente para produzir esta ideologia e da maneira mais espetacular. Ora, é a esta luz que o “Príncipe” deve ser lido, como extraordinária apresentação positiva de uma ideologia inovadora sobre as raízes republicanas do que hoje designamos como Democracia. Trata-se, no fundo da demarcação necessária relativamente às diversas formas de despotismo e tirania. Por isso, Jorge de Sena foi perentório: “A monstruosidade do príncipe maquiavélico é apenas, paradoxalmente, a do homem reduzido à sua virtù. E, se Maquiavel foi genial nesta redução que restitui o homem à sua dignidade responsável, foi porque retirou ao homem a desculpa de atribuir-se o direito de ser monstruoso à escala divina”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta sexta feira grisalha e um tanto quanto chuvosa e ventosa em que, neste ano de 2019, aterrou entre nós a celestial festa de Todos os Santos, as minhas ferrugens obrigaram-me a participar pela televisão na missa celebrada na Igreja de Santa Beatriz da Silva, em Lisboa. Eis um dia de alegria muito íntima - tão íntima que me faz chorar - e todos os anos a comemoro com o todo de mim, pois que é memória não de mortos mas de vivos, alguns dos quais foram habitantes do meu sangue antigo, muito antes de eu mesmo saber que por eles existo, outros da minha vida remota já ou próxima ainda, das minhas casas, amizades e amores, encantos e desilusões, inquietações, anseios e interrogações... E mais tantos, tantos, com quem partilhei ou quis partilhar a minha fé, sem contar com todos os de mim ignorados companheiros, que creio sempre amigos, não sei, mas necessariamente comungantes da mesma humana condição.

 

   Gosto deste amor universal que nos abraça na festa dos vivos, e tão solar e feliz me faz sorrir em dia aparentemente cinzento: reúno-me com a vida que não vejo agora -  com a dos que, incluindo meu irmão mais novo, saíram este ano da nossa vista -  e essa miríade de incógnitos de mim, agora junta, na memória presente do amor eterno, à de todos aqueles mais próximos cujas lembranças, dia após dia, me povoam de afetos a alma.

 

   Eis-me assim a pensarsentir, simultaneamente, o desprendimento e o reencontro, como se estivesse em Antan, o lugar situado no meio do universo e centro dessa fábula e parábola que é o maravilhoso livro da polaca Olga Tocarczuk (Nobel da Literatura 2019), intitulado - traduzo da versão francesa - Deus , o tempo, os homens e os anjos...

 

   No centro de Antan, Deus elevou uma colina que todos os anos é invadida por uma nuvem de besouros. Por isso a gente lhe chama a Montanha dos Besouros. Porque Deus trata de criar, e o homem de inventar nomes. Mais adiante, quase a chegar ao fim do livro, a escritora conta-nos, em curto trecho intitulado O Tempo do Jogo:

 

   «No sétimo mundo, os descendentes dos primeiros homens viajaram de país em país e acabaram por chegar a um vale mirífico. "Vamos lá, disseram eles, vamos construir uma cidade e uma torre que atinja o céu, para permanecermos um só povo e não nos deixarmos dispersar por Deus..." Logo se entregaram ao trabalho, juntaram pedras e utilizaram alcatrão como cimento. Assim edificaram uma cidade imensa, no meio da qual se erguia a torre. Acabou por atingir tal altura que, lá de cima, se conseguia ver o que estava para além dos oito mundos. Quando o céu estava limpo, os que trabalhavam lá em cima faziam uma pala com as mãos - para não serem cegos pelo sol - e conseguiam enxergar os pés de Deus, tal como o corpo monstruoso da serpente devoradora do tempo.

 

   Com a ajuda de paus, alguns deles tentavam sondar o espaço acima das suas cabeças.

 

   Deus observava-os com inquietação e pensava consigo: "Enquanto forem um só povo e falarem uma só língua, só poderão agir à sua maneira... Vou confundir as suas línguas e encerrá-los dentro deles próprios. Farei com que já não se entendam entre eles. E então se levantarão uns contra os outros. E Me deixarão, a Mim, em paz." E Deus fez o que tinha decidido.

 

   Os homens dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, e tornaram-se inimigos uns dos outros. Mas guardaram a lembrança do que tinham visto. Ora, aquele que viu a cerca do mundo sofre mais do que ninguém a sua condição de prisioneiro».

 

   Já no primeiro capítulo - O Tempo de Antan - está escrito, todavia, que Antan está rodeada por dois rios: o Negro, profundo e sombrio, que se junta, no moinho, ao Branco, pouco fundo e vivo. Então se encontram os seus cursos, primeiro "lado a lado, indecisos, intimidados por essa aproximação tão aguardada". Logo se "precipitam um no outro e se perdem no seu abraço. E o rio que dali nasce já não é Branco nem Negro, mas é poderoso e faz girar sem pena a roda do moinho". Será porque os quatro pontos cardeais de Antan estão guardados pelos arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel, como nos diz o conto? Ou antes não estará Olga Tokarczuk a evocar uma revelação apocalíptica (perdoa-me a forma enfática) de São João, lida na missa de hoje? Assim:

 

   Eu, João, vi um anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em voz alta aos quatro anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus.» E ouvi o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.»

 

   Esses todos, diz-nos depois o mesmo São João, "são os que vieram da grande tribulação, cujas túnicas foram lavadas e branqueadas pelo sangue do Cordeiro."

 

   Só de pensarmos nele já nos faz bem o amor universal.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de dezembro de 2019

 

Passam cinquenta anos sobre a morte de José Régio (1901-1969), autor multifacetado, que escreveu “A Velha Casa” (1945-1966), que considerou ser como a sua mais importante obra de ficção e “uma meditação sobre a vida humana, sobre a condição humana”.

 

 

MARGENS DO MONDEGO
“Uma coisa sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saiu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto”. É o próprio José Régio quem o confessa, num dos seus últimos escritos, Confissão de Um Homem Religioso (1971), esta sua ligação muito especial a Coimbra. É verdade que as raízes de Régio estão em Vila da Conde e aí sentimos a força das bases telúricas, éticas e literárias. Mas o núcleo das amizades do poeta e romancista, encontramo-lo na cidade do Mondego, em Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, Edmundo de Bettencourt, Miguel Torga, Vitorino Nemésio ou Afonso Duarte… Aí começará a publicar (Poemas de Deus e do Diabo, 1925) e a ter contacto com a literatura como realidade viva, ligada necessariamente ao quotidiano e à cidadania. E no primeiro livro de poemas surge logo a associação a seu irmão Júlio (Saul Dias), desenhador e pintor que é uma extraordinária referência do segundo modernismo, com vincada influência de Chagall. Depois, nas andanças docentes, Régio fixará em Portalegre o seu lugar de vida, em alternância com Vila do Conde. Para o biógrafo e intérprete fiel de Régio, Eugénio Lisboa: “o mais importante da sua biografia decorreu, como é o caso de tantos de nós, dentro de si próprio. As suas tempestades foram sobretudo interiores e são essas que irrigam, com vigor o tecido da sua obra” (José Régio ou a Confissão Relutante, Rolim, 1988). A consideração de Eduardo Lourenço sobre o carácter da obra de Régio e sobre a natureza da presença levará, no entanto, a uma estranha acumulação de equívocos, que só uma leitura mais atenta de “Presença ou a contrarrevolução do modernismo” (“Comércio do Porto”, 14.6.60) poderá esclarecer. O próprio Eduardo Lourenço preocupou-se em clarificar o que tinha dito, acrescentando a uma nova versão do texto o qualificativo “português” ao modernismo e um ponto de interrogação no final, procurando afastar qualquer entendimento político ou literal nessa ideia. Deste modo, Eugénio Lisboa, na comparação entre os dois modernismos, o de Orpheu e o da presença, afirma mesmo: “o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” (Ibidem.). Um e o outro completam-se e diferenciam-se. E até se percebe que Nemésio tenha preferido, em dado momento, criar um outro órgão de ideias - a Revista de Portugal (1937) talvez menos contaminada com a proximidade dos modernismos… A razão parece hoje irónica, mas foi invocada.

 

É VIVO O ORIGINAL
“Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística. A primeira condição de uma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos, superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo, o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade, calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto destes temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidade não passarão de um truque literário” (presença, nº 1, 1927). Eis o programa de Régio, que prefere, na sua batalha pela “Literatura Viva”, afirmar: “à personalidade do artista-criador nada proíbe a presença senão que se falseie; nada impõe senão que se revele” (“O Primeiro de Janeiro”, 25.10.44). No entanto, se desconfiava das originalidades “demasiado exibicionistas”, acusava de conformismo a falta de originalidade e a falta de sinceridade. Numa palavra, o certo é que a presença tornou-se o verdadeiro arauto que exprimiu quão relevante e visível foi a geração de Orpheu.

 

O SEGUNDO MODERNISMO
Todavia, o segundo modernismo era, essencialmente, um momento de reflexão e consolidação – e é essa distinção que Eduardo Lourenço quis fazer, de modo metafórico. Aliás, o próprio Régio assume esta ambiguidade, quando põe a dialogar, em A Velha Casa, Lelito com seu irmão João, e este diz: “Tornas falsas muitas coisas que são em si verdadeiras e sinceras”. E se o tema político merece toda a atenção tal deve-se à independência da revista e dos seus animadores, acima de toda a suspeita, e sob muitas desconfianças. Não houve, de facto, conciliação com o regime nascido em 1926 – vejam-se, por exemplo, a publicação do texto fortemente crítico de Raul Leal, aquando da homenagem coimbrã a António Correia de Oliveira (1930); a identificação de Régio relativamente à posição política de António Sérgio; e a tomada de posição de Guilherme Castilho, José Marmelo e Silva e João Campos, quando a presença fechou as portas (1940), dando ênfase à fidelidade da revista aos valores do espírito que estavam a ser destruídos pelos senhores da guerra. O modernismo não era, assim, uma receita, mas uma atitude: “qualquer mestre de hoje só é modernista na medida em que, sem ter de negar seja qual for das descobertas vitais do passado, se encaminha para novas descobertas e antevê novos mundos… que podem não ser mais do que a imprevista sondagem dos mundos já conhecidos” (presença, nº 23, dezembro de 1929). Régio foi sempre um escritor verdadeiramente livre, e encontramos nele: a compreensão da renovação da cultura portuguesa no século XX, com a geração de Orpheu, mas também com Teixeira de Pascoaes e o melhor da Renascença Portuguesa; ou com a consideração do modernismo não como uma escola ou um grupo, mas como uma atitude orientada para a compreensão dos novos mundos; na interrogação aberta e inconformista da transcendência – na linha de Dostoievski, Tolstoi, Proust, Claudel e Gide. Régio não é apenas poeta – é sobretudo dramaturgo, ensaísta e romancista, e nesses domínios encontramos alguma da melhor expressão da sua criatividade. David Mourão-Ferreira dirá: “Penetrante, arguto, tão apto por vezes para a síntese impressionista como para a análise psicológico-literária…”. A 22 de dezembro de 1969, em Vila do Conde, deixou-nos José Maria dos Reis Pereira, depois de uma vida de pedagogo, de escritor, de dramaturgo, de romancista, de novelista, de poeta, de contista, de ensaísta, de cronista, de memorialista. Foi há cinquenta anos. A sua obra multifacetada permite-nos compreender a existência humana através da literatura e da arte. E hoje voltamos a ler: “Era a hora do estudo da tarde, e Lelito pensava. As Catilinárias abertas na carteira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis na mão – pareciam demonstrar que Lelito prepareva a sua lição de latim. Mas Lelito não pensava nas Catilinárias. Na realidade nem pensava…”       

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de novembro de 2019

 

A obra de Mário Cláudio é multifacetada e rica. Eis por que os cinquenta anos de vida literária merecem especial atenção. Desde a poesia de “Ciclo de Cypris” (1969), encontramos uma criteriosa escolha de temas e uma permanente interrogação sobre vida, sentimentos, pessoas, artistas, escritores, poetas – certos de que o autor vai sempre descobrindo novos fatores para a compreensão do género humano.  


ESCREVER E TRANSFORMAR-SE
Tenho uma especial estima pessoal por Mário Cláudio, como o próprio bem sabe. Sou um seu leitor fiel, de há muito, e não esqueço a sua hospitalidade, em outubro de 2010, em Paredes de Coura, com Manuel Villaverde Cabral e Maria João Avillez, quando também pudemos falar dos edifícios desenhados por Joaquim Pedro Oliveira Martins, graças à influência do Conselheiro Miguel Dantas, sogro de Bernardino Machado. E, falando do Centro Mário Cláudio, não esqueço a longa evocação que fizemos dos nomes da literatura galaico portuguesa cuja memória encontramos dos dois lados da fronteira do Rio Minho: Aquilino Ribeiro, com a Casa Grande de Romarigães, Tomaz de Figueiredo, com a casa de Arcos de Valdevez; e do outro lado da fronteira, Camilo José Cela, Rosalía de Castro, Ramón del Valle-Inclan, Emília Pardo Bazán. Poderá, pois, compreender-se que a minha admiração por Mário Cláudio tenha raízes fundas… “Escrever é transformar-se continuamente. Não só escrever. A vida é uma constante transformação. Digamos que a escrita é mais o espelho dessa mutação em que nós estamos inseridos e que nos acompanha ao longo de toda a vida, e é um espelho onde se reflete uma imagem que, inclusivamente, não pode ser proveitosa, porque nos dá conta da dinâmica dessa evolução e nos permite corrigir determinados caminhos, aqui ou além, e enveredar por aquilo que nos parecer mais adequado, também de vez em quando” (JN, 19.7.17). Isso é evidente, quer quando o romancista descobre uma personagem histórica, quer quando se debruça sobre si mesmo, criando figuras imaginárias, que beneficiam da sua própria experiência. Lembramo-nos de Tiago Veiga e compreendemos como muitos leitores ficaram perplexos, com uma tão grande soma de elementos reais. Se Tiago Veiga não existiu, poderia ter existido; e se existiu é composto de vários elementos concretos, que encontramos nos meios literários e em figuras que resultam de vários elementos que se associam de modo verosímil, numa recriação notável da realidade humana.

 

AUTOBIOGRAFISMO…
Se lermos “Astronomia” (2015) é, no entanto, a perspetiva claramente autobiográfica que prevalece, no sentido propriamente dito. Mas também deparamos com as verdadeiras biografias romanceadas de personalidades marcantes reveladoras não apenas de figuras reais, mas também de uma descrição rigorosa dos ambientes e da vida quotidiana – como nos casos de “Amadeo” (1984), “Guilhermina” (1986) e “Rosa” (1988). Como prosador dotado, Mário Cláudio faz da literatura um modo de compreensão da vida e da sociedade. Daí partir nestes três casos de perspetivas diferentes da criação artística – desde o modernismo erudito de Amadeo de Souza Cardoso à uma dotadíssima expressão popular de Rosa Ramalho, passando pelo talento único que tinha Guilhermina Suggia. E a aura da genial intérprete fica enriquecida com a prosa de Mário Cláudio. E sentimos que estamos a participar numa ação parcialmente verídica e imaginosa, que sentimos como possível. “Camilo Broca” (2006) é a invocação da genialidade de Camilo Castelo Branco através do meio em que viveu desde a sua infância. Mais do que a história é também uma subtil homenagem ao universo de Agustina, com que Mário Cláudio tanto se compara e que admira (com cuidosas distâncias), em estreita relação com o romancista de “Estrelas Propícias”. Quando lemos “Triunfo do Amor Português” (2004), prefaciado por Agustina, vemos como a culpa assume papel fundamental no intenso fundo lírico desta cultura aberta ao Atlântico, com a presença de Pedro e Inês, Leonor Teles e Andeiro, Camões e a Infanta D. Maria, Mariana Alcoforado e o Conde de Chamilly, D. João V e Madre Paula, Tomás António Gonzaga e Marília de Dirceu, a Severa e o Conde de Marialva, Camilo e Ana Plácido, D. Pedro V e D. Estefânia, António Nobre e Alberto Oliveira… E assim a imaginação do romancista resulta da capacidade de associar elementos aparentemente contraditórios que procuram fazer sentido, como no caso de “Memórias Secretas” (2018), no qual recorre à “banda desenhada” e reinventa personagens – Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente aproximam-se de nós e descobrimos relações inesperadas. E falando, por fim, do “Tríptico da Salvação” (2019), em que intervêm figuras históricas, como Lutero e Lucas Cranach, não é tanto o romance histórico que interessa, mas a consideração das personagens envolvidas. Lutero é o homem inconformista, a um tempo conservador e reformista, que interessa ao romancista, até porque entra em choque simultaneamente com o Imperador e o Papa. Por outro lado, a admiração de Lutero por um grande pintor como Cranach, leva-o a evoluir na reflexão sobre o sentido da representação de imagens contra o entendimento inicial.

 

ESCRITOR E PEDAGOGO
A propósito de “Astronomia”, Mário Cláudio afirmou: “Quando digo que sou escritor incluo nisso todas as dimensões de atividades da minha vida. A docência é a continuidade da minha atividade de escrita. É como se estivesse a escrever a vida com outras pessoas ou a escrever na alma delas e elas na minha alma. Aprende-se muito através da docência. Aquilo que se recebe é talvez mais do que aquilo que se dá. Não era um professor facilitante, era bastante exigente, muito austero. Havia pessoas que se davam bem, outras não. Sempre validei as pessoas que trabalhavam mais. Não há que fugir a isso. E isso às vezes cria atritos. Mas devo dizer que olhando retrospetivamente, nos encontros com ex-alunos, tenho consciência que ficou uma réstia de amizade e afeto com todos eles”. É muito importante esta afirmação, de quem faz da sua escrita um caminho permanente de aprendizagem, vista como uma permanente troca de experiências. Longe da ideia do “magíster dixit”, o escritor, como o educador e o romancista têm de ganhar autoridade no modo como exercem o seu magistério – e o escritor que assim se apresenta refere a exigência como algo de natural e necessário, e o certo é que literariamente encontramos a mesma preocupação, bem evidente numa escrita rigorosa e atraente… Nesse ponto, apesar de admirar a figura e a obra e Agustina, põe as distâncias que o levaram naturalmente a trilhar caminhos diversos, nalguns pontos convergentes mas menos filosofantes, que um dia testemunhei, quando pudemos, de algum modo, partilhar um extraordinário convívio, com a própria Agustina, num memorável jantar portuense.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A SIBILA: "PORQUE... PORQUE..."

 

Temo, sinceramente, que, aquando do falecimento de Agustina Bessa-Luís, muitos, que nunca leram nada dela, se tenham servido do seu nome apenas como escada para subir e se mostrarem e serem vistos.

 

De qualquer modo, o que é que ainda se poderá dizer de novo sobre A Sibila, algo que ainda não tenha sido dito e reflectido? Mesmo assim, voltei lá, a A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, e ouso pensar que do que trata, em última análise e lá mais no fundo, é da condição humana, do mistério do que somos e de quem somos — mas não é disso que tratam todos os grandes romances? Não será por acaso que termina assim: “porque... porque...”.

 

Sirvo-me hoje dessa releitura, para uma homenagem a Agustina, mas sobretudo porque me parece uma preciosa ajuda para meditar nestes dias primeiros de Novembro. Numa sociedade que fez da morte tabu, ainda se permite que ela nos visite e dela se fale dois dias por ano: 1 e 2 de Novembro. Também a morte é, evidentemente, tema atento em A Sibilia. Porque a morte nos obriga a pensar e a distinguir bem entre o que verdadeiramente vale e o que não vale e, assim, abrir a uma consciência mais funda da liberdade e da ética. Cito A Sibila: No dia dos fiéis, no cemitério, “Quina orava, as mãos cruzadas sobre o ventre, diante da modesta morada de seu pai e de seu irmão Abílio. Uma lousa, os nomes gravados a branco já indistintos, um pedaço de terra mole onde a chuva empoçava, e era aquilo o maior agente moral do homem, do mundo — a morte. Maria debruçou-se para endireitar uma flor numa velha jarra esbeiçada que só servia na ocasião.” “O maior agente moral do homem, do mundo — a morte.”

 

E aquela oração, quando o velho morreu! “Quina aproximou-lhe a candeia do rosto, e viu, sob as suas pálpebras imóveis, duas lágrimas que escorriam como gotas de glicerina, vagarosas e desfeitas, no encalhe das rugas. Quando se chegaram para o amortalhar, Quina rezava diligentemente uma melopeia improvisada. Elevou a voz, que se tornou surda e pesada, com uma retumbância trágica e cheia de calor. “Aceita-o nos teus braços, ó meu Senhor, e que ele encontre tudo o que procurou aqui e não pôde achar; todo o tempo que já tinha vivido, com todas as coisas boas que ele, para tua glória, contém;  todas as coisas que por teu amor nascem e por teu amor morrem; tudo que por tua inspiração desejamos, e não tivemos forças para conseguir. Agora, ele está pobre e nu diante dos teus olhos divinos. Recebe-o. Esclarece-o agora, para que ele te diga por que pecou, e possa ser perdoado. Porque nós não sabemos por que erramos, só tu o sabes, Senhor, e é por isso que tu perdoas. Nós não compreendemos essa piedade, nós não compreendemos nada de nós, nem temos voz para explicar, nem olhos para ver no escuro, nem ouvidos para ouvir quando tudo parece calado. Mas tu estás do outro lado da noite. Agora, este que foi homem sabe porque veio de ti e voltou para ti, e já não nos pertence. Ajuda-o, porque agora deves guardá-lo — ele não está mais à nossa guarda. Na morte não há irmãos, ele já não é mais nosso...” Assim rezava Quina.

 

Lá vem também, sadio, aquele humor ácido anticlerical. O abade a Maria: “Reze três Ave-Marias como penitência. — Reze-as o senhor abade, que tem mais vagar do que eu. Era, aos noventa e quatro anos, um lucilar ainda do seu humor impávido e irreverente.” É também certo que, por vezes, a oração de Quina é interesseira, mas nunca abandona a elevação da beleza,  a dimensão evangélica e mística, a fé cheia de espiritualidade. “Abençoai os nossos campos, para que eles tenham água e nos dêem pão. Abençoai a nossa casa, o nosso gado, os nossos criados. Abençoai os nossos homens, os nossos frutos, que tudo aconteça para bem. Levai para longe a fome, a peste, a guerra e os amigos que mentem. Fazei-nos humildes na riqueza, orgulhosos na desgraça, sábios em desejar, corajosos em receber a ofensa, valentes em cumprir a vida e a morte. Abençoai também os nossos moinhos e os caseiros deles, que não pagam a renda há tanto tempo... Abençoai os nossos gostos, para que sejam nossos brinquedos e não cadeias. Abençoai as nossas dores, para que elas sejam experiência e não castigo...” 

 

Seja como for, e sobretudo, é este o comentário de Germa, que a conheceu bem: “Quina escondia as mãos sob o avental, e rezava. Quem poderia rir, quem a acharia grotesca, ou quem encontraria motivo de escândalo? Ela não dizia: “Eu estou a cumprir um momento excepcional e supremo da minha vida: cuido a minha alma, expurgo dela o que é terra, alimento-a na oração.” Não. Acontecia-lhe rezar, porque isso era uma inevitável função humana.”

 

A Sibila é, sem dúvida, uma obra profundamente marcada pela pergunta religiosa e metafísica. O seu fio condutor é um impulso inconformado de aspirações que arrasta a Humanidade na sua História. Há a mesquinhez nas relações humanas, a vaidade do poder e a sua busca ridícula, a pequenez estúpida, mas o que a todos une é querer compreender o que somos, e o que nos move, numa existência sempre ambígua, de grandezas e de cobardias, é uma transcendência inalcançada, mas sempre esperada.

 

“Sim, Quina foi apenas mais um punhado obscuro de aspirações que só despontaram ou mal floriram. É esta a mais grandiosa história dos homens (...). Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol, para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.”

 

“Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram a vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixassem de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dúvida.”

 

E agora é Germa, que continua o esforço para realizar e compreender o ser humano e nos representa a todos. “Eis Germa, eis a sua vez agora e o tempo de traduzir a voz da sua sibila. Talvez, porém, o seu tempo seja improdutivo e nefasto, e ela fique de facto silenciosa, porque — quem é ela para ser um pouco mais do que Quina e esperar que os tempos novos sejam mais aptos a esclarecer o homem e a trazer-lhe a solução de si próprio? Talvez a sua história fique hermeticamente fechada no círculo de aspirações que não conseguiu detalhar e cumprir, porque aconteceu ser cedo ou ser tarde, porque não se compreende ou não se crê o bastante, porque se deseja demasiado, e isto é todo o destino, porque... porque...”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 NOV 2019

A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de novembro de 2019

 

"Antologia Poética" de Jorge de Sena (Guimarães, 2010), com organização de Jorge Fazenda Lourenço, quando se celebra o primeiro centenário do nascimento do poeta (1919-1978), permite começar a entender o carácter poliédrico da obra de um autor complexo, difícil, seguro, fecundo e tantas vezes inesperado, para quem a liberdade é a chave da capacidade criadora.

 

CENTENÁRIOS CONVERGENTES
Quatro dias apenas de diferença entre as datas de nascimento de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen é uma feliz coincidência que une dois nomes maiores da cultura portuguesas, que na vida tiveram uma relação muito próxima, bem expressa numa correspondência notável, que Rita Azevedo Gomes transpôs para a tela, numa obra tocante, na qual as duas personalidades se completam naturalmente. Não é possível compreender essa correspondência sem a presença de Francisco de Sousa Tavares, em quem todos reconheciam a coragem, a audácia e a capacidade de compreender como poucos a força das raízes culturais portuguesas. A correspondência segue o período do exílio voluntário de Jorge de Sena, depois de 1959, quando, aproveitando um congresso na Bahia, partiu para ensinar Literatura Portuguesa, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos. Antes tinha-se estabelecido uma ligação muito forte, com a presença quase quotidiana de Sena na Travessa das Mónicas, tudo culminando no episódio algo quixotesco do golpe dito da Sé, em que Sousa Tavares usou a farda gasta de miliciano e pediu a sua mulher, Sophia, que pusesse os filhos em segurança, fora de casa, na noite aprazada para a tentativa revolucionária, de 11 para 12 de março de 1959. Estavam envolvidos Manuel Serra, João Perestrelo de Vasconcelos, à altura clérigo na Sé, Fernando Oneto, o Capitão Almeida Santos, João Varela Gomes e muitos outros – além de Jorge de Sena e de António Alçada Baptista. E lembramos Sophia em “Carta(s) a Jorge de Sena”, na hora em que ele nos deixou: “… Há muito estravas longe / Mas vinham cartas poemas notícias / E pensávamos que sempre voltarias / Enquanto amigos teus aqui te esperassem - / E assim às vezes chegavas da terra estrangeira / Não como filho pródigo mas como irmão prudente / E ríamos e falávamos em redor da mesa / E tiniam talheres loiças e vidros / Com se tudo na chegada se alegrasse / Trazias contigo um certo ar de capitão das tempestades / - Grandioso vencedor e tão amargo vencido…”

 

UM DISCURSO NOTÁVEL
Se lermos um dos últimos textos de Jorge de Sena, dito na cerimónia do dia 10 de junho de 1977 podemos compreender a extraordinária dimensão cultural e cívica do poeta e ensaísta, com um sentido crítico e inovador apuradíssimo, invocando a figura de Camões, que tanto admirava. Jorge de Sena revisita o épico, dando-lhe a importância que merece, muito para além das simplificações que constituíam o modo mais fácil de o invocar, símbolo primeiro da nossa cultura. Diga-se ainda para mais que, além do seu camonismo, Sena foi pioneiro na descoberta intelectual e literária de Fernando Pessoa, num tempo em que se estava longe do reconhecimento que mais tarde veio. Coube, de facto, a Jorge de Sena o início do projeto essencial que foi a publicação do “Livro Desassossego”, em cujos prolegómenos o poeta de “Fidelidade” esteve envolvido. António M. Feijó refere, aliás, as extraordinárias intuições interpretativas de Sena que abriram novas e fecundas perspetivas. Mas, voltando a Camões, para Sena, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Ao invocar a figura ímpar do épico, Jorge de Sena deixou, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».

 

O HOMEM UNIVERSAL POR EXCELÊNCIA
Para Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento (que há pouco nos deixou) insistia em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia 10 de junho a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno – entusiasmado, na sua experiência norte-americana, com a importância do conhecimento, da educação e da ciência. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos, no dizer de Jorge Fazenda Lourenço, que “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E chegamos ao final do discurso da Guarda – onde se remata com o apelo para Camões (por que não para Sena?): «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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LITERATURA E PENSAMENTO - CICLO 2084 IMAGINE

 

Conversas com Graça Castanheira

 

De referir a gratidão que senti a cada conversa neste Ciclo 2084 Imagine: chamei-lhe momentos de flecha de tempo original.

 

Em rigor, a sucessão reflexiva e os pensamentos nela contidos e expressos neste ciclo, criaram uma ponte imensa de esperança apta a conduzir a uma outra nomeação do acreditar, quando sabemos que o acreditar tem sido mero fragmento de rotina de pouca verdade nos dias que correm.

 

Estive atenta e entusiasmada aos pressentimentos que despertaram em mim ao longo deste Ciclo 2084 Imagine acutilantemente conduzido por

Graça Castanheira.

 

A divisão e a organização deste conjunto de conversas criaram uma totalidade compacta de relações e afinidades na área do Conhecer e do Saber que propiciaram uma infinidade temática, alertando-nos a reiniciar o infinito e nele o início/indício fundamental.

 

Impossível não conectar estas conversas com O Tempo e o Modo conduzido igualmente pela realizadora e argumentista Graça Castanheira, naquela serie de entrevistas sobre o futuro, e nele também a importância do tema do estado.

 

Pareceu-me encontrar nestas entrevistas/conversas do Ciclo 2084 Imagine uma ideia de fúria, uma ideia de fúria com a proximidade exponencial de cada tema a uma distância quase irrecuperável se o perdêssemos.

 

De um lado o declive das inquietações quando existem, do outro aquilo que excede o esclarecimento da hipotética abstração: aqui o risco da densidade é claramente uma proposta.

 

A tradução das ideias nelas mesmas, tornaram-nas possíveis como futuro e como presente, afinal reaparecendo ao nosso caminho e desafiando-o a que saibamos que as ideias que temos, podem ser suficientes à mudança, mas não aquelas que nesta espera de um compacto melhor surjam propício à nossa adesão. E o compacto a que se deseja aderir não é uma suspeita, infelizmente, é uma realidade. O desejo de levar as ideias até esse compacto é igualmente uma realidade. O tríptico há-de chegar a votos! Volta-se à circunvolução no movimento parado a que assistimos em hora de prime time.

 

E eis que surgem “ciclos 2084 imagine” com a capacidade de uma escola solitária aberta ao mundo.

 

Aqui a infidelidade da sabedoria é o saber permanecer fiel, em todas as circunstâncias, ao saber da arte no estar seguro dos entendimentos e assim os erros positivos têm segura cura.

 

Afinal o robot deixa-se desnortear com facilidade pois não conhece o esforço estranho para que isso não aconteça, ainda que o robot nos possa ajudar para aquilo que o programemos.

 

Atentemos sempre que as ideias não podem ser fracas em virtude de objetos superiores. Os Gregos, creio, deixaram-nos o sentido mais próprio do que não vale para o cidadão se o sentido for o de lhe atribuir um vale imitativo ou usurpatório de uma época ilesa de gente.

 

O cérebro pousa aquém e além das asas que lhe tocaram e irrompe incontido aos meandros dos nossos olhos, num lance, quando tudo está um jogo.

 

O afeto conduz também ao porquê do ter visto. A Noite pode insinuar o Jogo, mas o primordial revela-se e ascende se por ele soubermos e quisermos que se desvende a surpresa do Eu, e dele em nós num mundo com sim.

 

Teresa Bracinha Vieira

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOSÉ BENTO (1932-2019)

 

O Centro Nacional de Cultura homenageia o grande tradutor e poeta e envia sentidas condolências à família.

 

José Bento foi um grande tradutor de poesia e um grande poeta. Não é possível traduzir poesia com a qualidade com que o fazia sem se ter o dom da medida certa na palavra e no ritmo. Ao lado de Pedro Tamen, António Osório e Ruy Belo, seus companheiros de geração, é uma referência da poesia portuguesa contemporânea. Deixou-nos há poucos dias e devemos lembrá-lo. Colaborou em revistas como “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do Meio-Dia”. Trabalhou na redação de “O Tempo e o Modo”, e por isso foi muito cá de casa…, do mesmo modo que colaborou ativamente na revista da Gulbenkian “Colóquio-Letras”. É impressionante a lista das obras que traduziu: começou por “Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez – e apaixonou-se pelas línguas ibéricas. Organizou antologias de Pablo Neruda e Vicente Aleixandre para a Inova e cultivou uma genuína ligação entre os idiomas e as culturas peninsular. A memória do hispanista leva-nos a compreender melhor a complementaridade ibérica. Ouvimos Jorge Marique, através de José Bento e sentimos o impulso intenso de Frei Luís de Léon; Garcilaso de la Vega, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Francisco de Quevedo, Rafael Alberti. Leia-se a monumental “Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea” (1985) – que marca o contributo decisivo do nosso grande autor. Está lá tudo de essencial. Além da poesia, José Bento é um grande tradutor da prosa – como no caso de “D. Quixote de la Mancha”, mas também de Javier Marías, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Maria Zambrano e Jorge Luís Borges, com um grande reconhecimento pela extraordinária qualidade e clareza dos textos. José Bento venceu os prémios D. Dinis e Pen (1960) com “Silabário” e prosseguiu a ação sistemática, com a antologia do “Siglo d’oro”, “Lírica espanhola de tipo tradicional”. José Bento foi um grande homem de cultura, capaz de mobilizar energias e favorecer a comunicação entre culturas e entre pessoas, como fator de paz. Os livros ”Um Sossegado Silêncio” (2002, Asa) e “Alguns Motetos” (Assírio e Alvim, 2003) marcam a qualidade do autor e o seu entendimento de que tudo depende da capacidade de compreender e transmitir sentimentos…

 

Agostinho de Morais