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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 25 a 31 de maio de 2020

 

“A Torre da Barbela” (1964) de Ruben A. (Livros do Brasil, 2020) é uma obra-prima de imaginação, de mestria romanesca e de excelente domínio da língua.

 

 

 

UM NOVO SISTEMA SENTIMENTAL
“Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se telhas onde faltam, instala-se um novo sistema sentimental, e no jardim das delícias, no passeio depois do jantar, nas madrugadas sem Deus, ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra”. Ruben A., cujos cem anos do nascimento agora celebramos, teve a extraordinária lucidez de escrever as suas extraordinárias memórias no momento que permitiu que usufruíssemos delas como um dos melhores exemplos da nossa literatura memorialística. O Mundo à Minha Procura (1964-68) é uma obra extraordinária, na qual encontramos uma grande personagem, multifacetada, complexa, em que o fino humor se liga ao retrato fiel do tempo, de uma geração e de uma cultura, vistas por alguém que tinha a atenção desperta para o mundo e era conhecedor como poucos, desde as raízes à atualidade, da Arte de ser português. E não esqueço, graças à amizade antiga e sólida do Nicolau, seu filho, os momentos que tenho passado no convívio da memória fascinante de Ruben. Não se entende, por exemplo, a nossa cultura sem a leitura da Barbela. E o certo é que esses momentos não têm sido apenas os da leitura e releitura de uma obra fantástica, mas também os de visita aos lugares marcados pelo percurso de vida de alguém que muito bem conhecia Portugal – desde Entre Douro e Minho, do Porto, do Campo Alegre, até ao Alentejo, passando em Lisboa pela Praça do Príncipe Real, onde veio ao mundo, e pelo Monte Olivete… As excursões e passeios mirabolantes com programas surrealistas foram marca sua… Os percursos de Orlando Ribeiro e Torga apaixonavam-no. No entanto, estes tempos, estranhos de confinamento, adiaram (apenas adiaram) o encontro que tínhamos marcado para a Fundação Gulbenkian, com a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, cuidadosamente preparado com Miguel Tamen e António Feijó e pelo Nicolau, naturalmente. Não poderemos, contudo, deixar de fazer dessa celebração a justa invocação de quem tanto merece que tertuliemos longamente sobre um espírito tão versátil e rico, cujas pistas que nos deixou têm de ser seguidas e aprofundadas.

 

DO CONVÍVIO À EXTROVERSÃO
“Era um homem que se ocultava no convívio e na extroversão” – disse António Quadros, quando falou dele depois da morte inesperada e absurda. “Tinha uma imparável fúria criadora. Não sabia estar parado… quase existia heteronimicamente, como o Pessoa. Havia o Ruben historiador, escrevendo livros sérios, … Havia o Ruben public-relations, literato da Embaixada do Brasil… Havia o Ruben-minhoto, apaixonado por Carreço, Afife e pela Ribeira Lima. Havia o Ruben-colecionador de cacos-velhos e frequentador de Antiquários. Havia o Ruben surrealista e louco, escrevendo livros como as Páginas”. Era isso e muito mais…E Alexandre O’Neill disse, melhor que alguém: “Ao coro de rãs, respondeu Ruben A., com algumas arreliantes dissonâncias, enfim, com o que nele era vivo pressentimento de que uma obra se faz a contrapeso do gosto mediano…” De facto, muitos não compreenderão o que escreve e o sentido da procura. Em Inglaterra no King’s College, Charles Boxer elogia-o pelas capacidades pedagógicas, pelo trabalho realizado e por ser “a vida e a alma do Departamento”. Ruben demonstra conhecimento e entusiasmo, ao falar de Fernão Lopes, de D. Pedro V, da Geração de Setenta e de Fernando Pessoa ou ao encenar o Mar de Miguel Torga. Mas, na escrita, procura novos caminhos, seguindo os passos de Garrett, que nas “Viagens” escreveu como falava, dando à língua o tom vivo do que realmente se comunica. Não lhe interessava copiar “coisas arcaicas do passado numa língua que já ninguém fala”… Mas há quem não entenda, a começar pelo próprio Salazar, que considera intoleráveis as liberdades de Páginas II (1950)O triste episódio é bem conhecido e nada abona para quem o suscitou. João Gaspar Simões ou António Quadros, ao contrário, entenderam bem que era Ruben que estava na razão…

 

LIVRO INSUPERÁVEL
O romancista continua a seguir a via original de uma criatividade inconformista. Sobre Caranguejo (1954) dirá Eduardo Lourenço: “não foi nada senão bicho insólito, entrando às arrecuas e aos pinos na policiada praia lusitana que o reenviou de novo para o mar resplandecente de onde tivera a insolência de querer sair para contemplar o Sol e as estrelas”. E Maria Lúcia Lepecki não tinha dúvidas em considerar o romance como o maior… A Torre da Barbela (1964) é, no entanto, insuperável na obra do autor. E se ele amou tanto Portugal, a verdade é que, por isso mesmo, não deixou de fazer a severa crítica das limitações, invejas, mediocridades, provincianismos, como forma de as podermos superar. Jacinto do Prado Coelho fala de uma “cura de inverosimilhança”, de um retrato do aforro às tradições, da ronceirice, da tacanhez e de ridículas prosápias… E Liberto Cruz tem razão quando alerta para não se confundir o significado com o significante: o leitor “precisa sobretudo de deter-se na seriedade deste romance, atentar na ironia que o envolve, no humor que o reveste, no tom doloroso de dezenas de páginas, na amargura de tantos episódios que provocam gargalhadas salutares, na frescura sadia, na alegria de viver, que exala a cada momento” (Ruben A. – Uma Biografia, Estampa, 2012). Como salientou António Tabucchi é essencial reconhecer a vertente picaresca na cultura portuguesa, além do lírico e do trágico… Bocage, Beckford, Afonso Henriques e D. João V pontuam um enredo pleno de estranhas personagens que são muito mais do que figurantes à volta dos amores entre o Cavaleiro e Madeleine. Só, porém, alguém profundamente conhecedor de Portugal poderia escrever um romance assim, onde os anacronismos são tratados com o cuidado de darem o tom onírico, numa fusão entre tradição e modernidade, num caleidoscópio sempre variado, como assinalou José Blanc de Portugal. E é o homem crente da modernidade, que se apaixona desde cedo pela figura de D. Pedro V. Não, não é o romântico que Ruben Andresen Leitão descobre nas suas deambulações históricas, logo no final de 40. “É este Rei o primeiro homem moderno no nosso País; é ele que nos seus escritos proclama insistentemente o que a geração de 70 vai tentar realizar. É, se me perdoam a expressão, o primeiro grito histórico no século XIX, depois daqueles anos desmantelados de liberalismo duvidoso. A História não pode idealizar figuras quando elas têm valor para transcender o ambiente literário – perde-se a lenda e fica o homem na mais pura conceção de atuação vivida” (D. Pedro V – Um Homem e um Rei, 1950). É significativa a epígrafe que Ruben tira do pensamento do malogrado rei: “Escrevemos para um povo dormente a quem convém despertar; para cegos (dos da pior espécie que são os que não querem ver) a quem cumpre restituir a luz; para obstinados cuja relutância devemos vencer”… Eis o programa de vida, em que o escritor sempre acreditou. Mas Ruben A. era uma personagem. Eduardo Lourenço contou que, na véspera de defender a tese em Coimbra, convidou-o a ir ao Astória, onde o encontrou “fazendo a sua toilette como Luís XVI” – deixando a ideia de uma espécie de encarnação de Fradique Mendes. “Foi divertidíssimo. Não sei se se inventará uma personagem de romance tão singular como foi Ruben A.”… E Sophia escreveu: “Carta a Ruben A. / Que tenhas morrido é ainda notícia / Desencontrada e longínqua e não a entendo bem / Quando – pela última vez – bateste à porta de casa e te sentaste à mesa / Trazias contigo como sempre alvoroço e início / Tudo se passou em planos e projetos / E ninguém poderia pensar em despedida…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 18 a 24 de maio de 2020

“Monsignor Quixote” (1982) de Graham Greene (tradução portuguesa, Europa-América, 1984) é o relato de uma viagem à Espanha pós-franquista, num tempo de diálogo com o comunismo e de renovação do catolicismo pós-conciliar. Trata-se de um diálogo vivo e divertido sobre temas muito sérios e complexos que um grande romancista trata de um modo inteligente e atual.


UMA RECRIAÇÃO PARA OS DIAS DE HOJE
Estamos perante uma recriação, nos dias de hoje, da obra de Cervantes, que é uma chamada à atualidade, como a do século dezassete, de uma crítica jocosa e séria à sociedade e ao confronto eterno entre valores e realidades. «E tudo se passou assim. O Padre Quixote tinha encomendado o seu almoço solitário à governanta e pôs-se ao caminho para ir buscar vinho a uma cooperativa local, a oito quilómetros de El Toboso, na estrada de Valência. Era um dia de calor imóvel, no qual o ar trepidava sobre os campos secos. Com o seu Seat 500, comprado barato havia oito anos, sem ar condicionado, o Padre cismava com tristeza sobre o momento em que iria ter de mudar de carro. O homem vive sete vezes mais do que um cão: com tais contas, o automóvel não tinha entrado ainda na idade madura, mas o Padre tinha reparado que os seus paroquianos consideravam já o seu Seat quase senil. E chamavam-lhe a atenção: ‘Nunca fiando, Abade Quixote!’ e só ele podia responder: ‘Percorremos maus dias, e eu peço ao Senhor que esta viatura me possa sobreviver’. Com tantas orações sem serem ouvidas, alimentava uma certa esperança de que este pedido pudesse funcionar como um pedacito de cera na ‘Orelha Eterna’»… O Seat era a sua Rocinante, e havia uma espécie de afeto que Quixote alimentava no seu íntimo. E indo nestes pensamentos não reparou logo num Mercedes parado na estrada. Mas, olhando bem, deu nota de que se tratava de alguém que tinha cabeção, era um clérigo, e mais do que isso tinha vestes de um Monsenhor… Naturalmente, indagou o que era. Tratava-se de um Bispo, vindo de Roma, com uma pronúncia inconfundível, que se identificou como de Motopo, um título in partibus infidelium. O contacto foi fácil e a hospitalidade extraordinária, com vinho, queijo, carne e a boa cozinha de Teresa, a governanta do Padre Quixote. O encontro foi, assim, de grande simpatia e de tal modo a ajuda foi benfazeja, ainda que bem simples, graças a um jerrican para repor o nível de combustível, que o Bispo romano partiu satisfeito para Madrid, o seu destino. E aqui nasceu o motivo romanesco. Para grande surpresa do Bispo da diocese, o Padre recebeu do Vaticano a nomeação para Monsenhor, em reconhecimento das qualidades reveladas, mas, ao contrário do que seria esperável, o bispo considerou incómoda a distinção para quem era um modesto pároco de aldeia, a que o prelado não reconhecia especiais qualidades, pelo que se tornou incómoda a sua presença na paróquia, o que levou Quixote a aproveitar o ensejo para viajar com seu amigo Sancho, um comunista, que inesperadamente perdera as eleições para Alcalde de El Toboso. Neste ponto, com as devidas distâncias, tudo se assemelha ao encontro de D. Camilo e Peppone de Giovanni Guareschi.

 

VIAGEM PARA ENTENDER A ESPANHA
Nessa viagem de encontros inesperados e de desencontros, o que se debate é a Espanha marcada pela Guerra Civil e pelo franquismo, que espreita ainda onde menos se espera. E o Padre Quixote, ao que parece, descendente do herói mítico de Cervantes, compreende em sentido crítico a fé e a razão, não como ilusão, mas como uma exigência de compreensão. O materialismo de Sancho choca com o espírito de Quixote, mas na realização da justiça há a preocupação do Padre se pôr na pele do Alcalde, para surpresa deste, mostrando que não há dogmatismo que possa vencer o amor e o cuidado com os outros. Por isso, Quixote afirma que “o raciocínio lógico leva-nos tantas vezes a situações absurdas”… Há que ponderar os dilemas que nos são colocados pela coexistência de valores que não podem sobrepor-se ao primado das pessoas concretas, de carne e osso. Em determinado momento, Sancho insinua que a fé e a ilusão se tocam. Mas Monsenhor Quixote não deixa passar em claro esse ponto: “Pensa que o meu Deus não é senão uma ilusão, como os moinhos de vento. Mas Ele existe, sou eu que o digo. Não me limito acreditar. Posso tocá-lO”. A polémica, porém, não é apenas com Sancho, que se demarca da solução eurocomunista e de Santiago Carrillo, preferindo Álvaro Cunhal, há também um sério confronto entre o novo Monsenhor e o seu Bispo, quando este põe dúvidas sobre a liberdade e as suas virtudes por esta ser perigosa, o que leva Quixote a responder: «Foi Ele (Jesus Cristo) quem nos deu a liberdade, não foi? Por isso mesmo O crucificaram».

 

UMA ÚLTIMA AVENTURA
No final do romance, Graham Greene revisita o célebre episódio de Cervantes com Dulcineia e transpõe-no para uma cena em que um grupo de fanáticos profana a imagem da Virgem Maria cobrindo-a de dinheiro, o que obriga Monsenhor Quixote a intervir, a ser atacado e a sair severamente molestado, além de ver destruído o seu querido automóvel. Acolhe-se com o seu amigo no Mosteiro trapense onde, fraco e doente, é acometido de um delírio sonâmbulo, levantando-se de noite para ir até à Igreja onde celebra uma antiga missa tridentina, imaginando que tem nas suas mãos o pão e o vinho eucarísticos, que administra num derradeiro gesto em comunhão ao antigo Alcalde, caindo depois morto nos seus braços… O romancista escreveu “Monsenhor Quixote” depois de uma viagem de reconhecimento em vésperas da chegada da Espanha às Comunidades Europeias, que fez como seu amigo Padre Leopoldo Durán. O diálogo entre Quixote e Sancho significa a compreensão de um encontro necessário entre as duas Espanhas, e Greene não esconde a sua admiração por míticos como S. João da Cruz e uma especial identificação com Miguel de Unamuno, e o seu “Sentimento Trágico da Vida”. Humor e tragédia são encontrados neste percurso em que D. Quixote é relido à luz dos nossos dias. Como Leopoldo Durán testemunha, Greene era de uma disciplina notável – lia sete a dez narrativas num mês e diariamente escrevia a partir das 8 horas pelo menos trezentas palavras. E não foi só uma viagem, mas 15 verões passados na Península. Durán pagava a gasolina, algumas refeições e as pernoitas em conventos e mosteiros e Greene assegurava os jantares e os hotéis. Interessava ao romancista ver como ficava a Espanha depois do fim do franquismo. Logo em julho de 1976 visita Salamanca, Galiza e a costa cantábrica até San Sebastian, Burgos e Segóvia… No ano seguinte parte de Salamanca, Ávila e Leão e segue até Portugal, com paragens no Porto, Lisboa e Sintra… E depois retorna a Madrid, onde no Prado se torna um admirador devoto de Goya. E depois visitou sistematicamente La Mancha, depois do circuito amplo Andaluzia, Levante, Catalunha e Pirenéus… Eis como Monsenhor Quixote deve ser lido como uma reflexão e um balanço de um escritor do seu tempo. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 6 a 12 de abril de 2020

 

“Dicionário de Lugares Imaginários” de Alberto Manguel e de Gianni Guadalupi, com tradução de Carlos Vaz Marques e Ana Falcão Bastos (Tinta da China, 2013) é, como o nome indica, um livro de referência, onde a imaginação impera. Mais do que o simples repositório de elementos conhecidos, trata-se de uma fecunda e apetecível recriação.

 


UM EXERCÍCIO ROMANESCO
Verdadeiramente, estamos perante um autêntico exercício romanesco que se estende no tempo, mas que procura centra-se em diversos espaços. Trata-se, assim de um poderoso exercício de imaginação que parte da informação dada pelas fontes originais. Tudo começou quando Gianni Guadalupi (1943-2007), um “viajante sedentário”, teve a ideia de escrever um guia turístico para Selene, a cidade dos vampiros, do romance do francês Paul Féval (1816-1887), sobre as cautelas a ter quanto aos vampiros, onde se podia comer e dormir ou não se devia estar de modo algum. Guadalupi traduziu para italiano autores como Kipling, Borges, Allende e Benedetti, editando diversos livros e antologias dedicados a viagens, reais e imaginárias. Estudou temas diversos, como os jesuítas na China, os viajantes setecentistas na Pérsia e no Oriente, os portugueses na Índia ou a descoberta da América e os pioneiros aeronáuticos italianos. Publicado originalmente em 1980, o Dicionário de que falamos foi aumentado em 1987 e 1999 e integra não só lugares previsíveis do mundo literário como Ruritânia, Shangri-La, Xanadu, Atlântida, Oz, o País da Maravilhas de Lewis Carroll, Utopia, Nárnia, os países de Gulliver, a ilha de Crusoé, mas também as criações de Tolkien, Dylan Thomas, Edgar Rice Borroughs, Conan Doyle ou de Cervantes e Rabelais… Se é verdade que o ponto de partida foi o encontro com a literatura conhecida, a-pouco-e-pouco o universo foi-se alargando, para lugares que um viajante pudesse querer visitar, deixando de lado os céus, os infernos e o futuro, e incluindo apenas o nosso planeta. Excluíram-se lugares como Balbec de Proust, Wessex de Hardy, Yoknapatawpha de Faulkner e Barchester de Trollope por verdadeiramente serem disfarces de lugares reais. E, a partir daqui, houve uma escolha em que o imaginário e a verosimilhança se foram articulando e afinando. E houve que ilustrar o livro, com rigor e sobriedade, e assim foram escolhidos Graham Greenfield e Eric Beddows, e James Cook para os mapas.

 

UMA ANTIGA NECESSIDADE
“É muito antiga a necessidade de inventar países e depois dizer como o autor os encontrou”. Assim aconteceu com a “Epopeia de Gilgamesh”, que é uma crónica da viagem de um rei ao Reino dos Mortos ou com a “Odisseia”, em que Ulisses viaja entre Troia e Ítaca…De facto, nos primórdios, as ilhas imaginárias foram gregas: a ilha dos Ciclopes, o reino de Circe, a sociedade da Atlântida. Os árabes também imaginaram ilhas. “As Mil e Uma Noites” têm ilhas mágicas que vogam nos mares, transformam-se em baleias ou voam nos céus. No entanto, a verdadeira geografia imaginária das ilhas surge com Thomas Morus em “Utopia”, que propositadamente é batizada como não tendo lugar algum, donde vem um português, Rafael Hitlodeu. Tendo arquitetado a obra com Erasmo de Roterdão, Morus ganhará muitos seguidores, como Campanella, Bacon, Rabelais, Voltaire, Fourier, Montesquieu, Huxley, H. G, Wells – segundo o método ideal didático – positivo e negativo – baseado numa alegoria, que se contrapõe às sociedades reais vividas por cada um. A ilha de Crusoé é real, mas o autor concede liberdade a Robinson, para dar ênfase à importância da singularidade. Já Jonathan Swift faz Gulliver viajar ao encontro de sociedades que são autênticos “espelhos deformadores” do nosso próprio mundo: em Lilliput tudo é pequeno e ridículo, em Brodingnag tudo é enorme, o que leva o rei desse lugar distante a comparar os homens a pequenos vermes desprezíveis. A ilha de Laputa, que voa nos céus, e Lagado levam Swift a denunciar projetos científicos ilusórios, enquanto em Glubbdubdrib, ilha de feiticeiros e de mágicos, as mentiras dos historiadores são postas a nu, enquanto, na ilha dos Houyhnhms, os brutais yahoos são cavalos que no fundo se assemelham a nós. E no esteio do crítico severo e implacável que Swift foi, encontraremos autores modernos como Bioy Casares, Italo Calvino, Haruki Murakami, Garcia Marquez e Umberto Eco.

 

UM DICIONÁRIO ESPECIAL
As 1200 entradas deste Dicionário permitem viajarmos no inesgotável mundo da imaginação. E podemos encontrar das mais antigas referências deste repositório logo na Atlântida, “vasto continente-ilha submerso sob as águas do Atlântico por volta de 9560 a. C.” e referenciado desde Platão até Conan Doyle. E não podemos deixar de associar aos Açores e à Macaronésia… Mas lembramos ainda a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, com Calemplui, a ilha ao largo da costa da China, na foz de um dos grandes rios, rodeada por uma muralha de 26 palmos de altura, construída com lajes tão perfeitas que a parede parece feita de uma só peça. E ciclo bretão? Camelot, capital do reino de Logres no sul de Inglaterra, é a corte do rei Artur, não podendo esquecer-se Avalon e mediatamente o célebre Amadis de Gaula. E continuando com referências próximas e conhecidas, José Saramago traz-nos a Ilha dos Cegos. Misteriosamente, Nedim Gürsel leva-nos ao Cemitério dos Livros Não Publicados, estranho armazém de obras impossíveis, daí devendo partir-se para o Reino da Imaginação, lugar sempre verdejante, governado por uma imperatriz bondosa, secundada pela embaixadora princesa da História e pela controversa Madame Moda. E, em contraponto, Jorge Luís Borges lembra a estranha Cidade dos Imortais, em tempos habitada por Homero e onde Joseph Cartaphillus, antigo comerciante de Esmirna, deve ter encontrado um antídoto eficaz contra o estigma, pois morreu a bordo do «Zeus» em outubro de 1929 e foi enterrado na Ilha de Ios. Já Ishmaelia é o país em que Evelyn Waugh celebrizou por engano um pobre jornalista. Tolkien põe-nos na Terra Média, onde encontramos a raiz da História na música de Eru ou Iluvatár, origem de toda a criação e o mais poderoso dos seres. Eru possui a Chama Imperecível que animou os Ainur, os Sagrados, a primeira das suas criações… E Umberto Eco inventa a Ilha da Véspera “porque os visitantes são incapazes de fixar um ponto no espaço a partir do qual se possa medir o tempo, o que torna impossível inscrever a Ilha no presente…” E num movimento sempre tão intenso, não poderemos deixar de lembrar, como corolário de tudo, Xavier de Maistre na sua viagem à volta do quarto de 1794, talvez o mais criativo de todos os lugares imaginários… 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de março de 2020

 

“Entretiens” de George Steiner, par Ramin Jahanbegloo, Bibliothèques 10-18, Paris, 2000, é um conjunto de conversas com o pensador que apresentam de modo panorâmico uma visão global da sua obra.

 

 

LEMBRAR OS CLÁSSICOS
«À medida que a nossa civilização passa a evoluir à deriva (ouvimos George Steiner), a literacia torna-se incerta. Como o chamado ‘pós-modernismo’ proclama, vale tudo. O que não significa que deixaremos de produzir e ler livros, alguns dos quais estimáveis, de visitar museus ou de construir salas de concertos. Continuaremos a fazer tudo isso. As audiências talvez cresçam. É muito o que se pode ler na Internet, ou admirar em reprodução holográfica…». No entanto, segundo o que nos é dado ver, a concorrência faz-se, em condições absurdas e viciadas, entre a qualidade e a fancaria. “Mandarins e artistas cada vez mais esporádicos multiplicarão esforços visando conquistar o estrelato no âmbito dos meios de comunicação de massa». Por isso, o intelectual fala sobre a necessidade de reintroduzir critérios de exigência que permitam a consagração de uma ordem de mérito que distinga «a excelência autêntica das formas de parasitismo que hoje proliferam como cogumelos» (Cf. Os Livros que Não Escrevi, Gradiva, 2008). George Steiner morreu há dias na sua casa de Cambridge. Nuno Júdice recordou no último número do JL o grande crítico de uma época em que “se sinalizaram o gosto e as tendências da nossa cultura contemporânea”. E lembramos uma conferência memorável na Gulbenkian em 2007. Hoje dou nota do facto de ter deixado a Nuccio Ordine o encargo de divulgar uma entrevista póstuma, com a condição de o fazer no dia seguinte ao falecimento do mestre, o que aconteceu nas páginas do “Corriere de la Sera”. A entrevista original data de 21 de janeiro de 2014, mas foi revista no ano passado. Nuccio Ordine começou por perguntar qual era o segredo mais importante que desejaria revelar nesta entrevista, e Steiner confessa que nos últimos 36 anos manteve um diálogo epistolar com uma interlocutora (cujo nome não revela), que considera um verdadeiro diário. Aí se encontram os sentimentos mais íntimos e reflexões estéticas e políticas. Essas cartas estão em Cambridge no Churchill College e apenas poderão ser consultadas depois de 2050. A ideia de uma entrevista póstuma sempre fascinou Steiner, com o objetivo de deixar uma mensagem para os que ficam e para despedir-se, deixando as suas últimas palavras. Em suma, trata-se de uma reflexão de conjunto e um balanço. “Nesta fase da vida as recordações do passado convertem-se no único e verdadeiro futuro interior”. Ao ser-lhe perguntado o que lamenta na sua vida, recorda o que afirmou na sua Errata, confessando não ter conseguido compreender alguns fenómenos essenciais da modernidade. A educação clássica, o temperamento e a carreira académica não lhe permitiu compreender completamente a importância de certos movimentos. Não entendeu devidamente a importância do cinema, como nova fase de expressão, reveladora da criatividade e de novas leituras, porventura mais ricas do que as clássicas da literatura e do teatro. Também não teria entendido o movimento contra a razão, o desconstrutivismo e alguns aspetos do pós-estruturalismo – bem como as repercussões do feminismo (que o próprio apoiou), e que assumiu uma função política e humana extraordinária.

 

O VALOR PARA CRIAR…
No plano pessoal ter-lhe-ia faltado “o valor para criar” – a literatura criativa poderia ter tido um significado importante, mas Steiner não quis assumir o risco transcendente de experimentar algo de novo e próprio na narrativa. Crítico, leitor, erudito, professor são profissões que amava profundamente, mas é completamente diferente a grande aventura da criação… “provavelmente é melhor fracassar no intento de criar do que ter um certo êxito no papel de parasita”. De facto, a distância entre os que criam literatura e os que comentam é muito grande. O crítico vira as costas à literatura, e muitos colegas universitários nunca lhe terão perdoado ter-se destacado mais do que muitos dos autores que estudou e analisou. E o que mais sofreu teve a ver com o facto de não ter aperfeiçoado muitos dos ensaios que escreveu, e que mereceriam melhoramentos. Em contrapartida, o que o tornou mais realizado foi o ter ensinado e ter vivido em muitos idiomas. O francês, o inglês, o alemão e o italiano foram os seus idiomas e a possibilidade de traduzir poemas nessas línguas e de ir ao encontro da essência cultural foi o que o tornou mais feliz. E quanto aos desafios não cumpridos? Muitas viagens não realizadas, livros que planeou e não se concretizaram, ou encontros que não teve, “por falta de valor ou disponibilidade ou energia”. Poderia ter conhecido Martin Heidegger – mas ainda jovem não o quis importunar. E a vitória mais saborosa? Foi insistir na ideia que a Europa continua a ser uma necessidade fundamental e que, apesar das ameaças e dos muros que se constroem, não deveremos abandonar o sonho europeu. Pode ser que tenha passado o momento alto europeu, mas o contributo do velho continente não pode ser subestimado, como fator criativo e civilizacional.

 

VALORES CULTURAIS
Daí a relevância e a necessidade dos valores culturais que não deixem abandonados ao consumismo e à mediocridade. G. Steiner sempre detestou o nacionalismo; por isso se demarcou do sionismo. Apesar de tudo, pensava no fim da vida que talvez pudesse ter combatido o chauvinismo e o militarismo em Jerusalém. Falando dos momentos tristes, lembra os amigos que já não podia voltar a encontrar e os lugares que nunca visitou. O certo é que a amizade tinha para si um significado enorme. Daí a importância dos amigos próximos, que nos últimos anos puderam dialogar e partilhar uma intimidade afetiva. “Talvez a amizade seja mais valiosa do que o amor – e isto porque a amizade não tem egoísmo nem o desejo carnal”. E quanto ao amor, recorda a importância do seu casamento, que não podia explicar-se racionalmente. “Creio que potencialmente as mulheres têm uma sensibilidade superior à dos homens”. E recorda o privilégio que teve por ter tido relações amorosas em várias línguas. Daí que considerasse que o donjuanismo poliglota foi uma ocasião de viver várias vidas. Depois de afirmar não crer em algo depois da morte, diz estar convencido que o momento do passo pode ser muito interessante. E termina a entrevista, pedindo desculpas a um amigo íntimo, durante muito tempo, com quem rompeu por um episódio de somenos. “Aprendi muito com essa experiência, como às vezes um instante sem importância pode transformar-se num facto decisivo na vida”. O entrevistador recordava ainda a proverbial irascibilidade do escritor, uma das características da sua personalidade, mas o interlocutor confessa que os anos lhe ensinaram a moderar-se, o que não impediu que tenha pago um preço caro pela sua ironia, amiúde muito mordaz, nem sempre bem recebida – o que levou, por desgraça, ao longo dos anos, a colecionar muitas hostilidades e a romper muitas amizades… Um dia Steiner disse que os Antigos são do amanhã, e acrescentou que desejaria que um livro seu dentro de muitos anos pudesse ser útil a alguém. Afinal, que são as humanidades senão a compreensão de um tempo longo de memória?  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 24 de fevereiro 1 de março de 2020

 

“Glória – Biografia de J.C. Vieira de Castro” de Vasco Pulido Valente (Gótica, 2001) – tornou-se um livro de referência na historiografia portuguesa, num importante conjunto de outras obras de um autor que marcou indelevelmente a literatura, o comentário e a ciência da História.

 

 

UM LIVRO DE HISTÓRIA
 Significativamente, o autor começa por deixar claro: “Este é um livro de história. Não é um livro de história a fingir de romance, nem um romance ‘documental’. Convém começar por dizer isto para que não haja confusões. As variantes do positivismo que ainda hoje dominam a disciplina foram reduzindo ao geral e abstrato a investigação sobre o passado”. Em lugar do desinteresse do indivíduo e de um mundo assético, de onde desapareciam a irracionalidade e a imaterialidade da vida, o historiador desta obra apresenta-se a descrever, a partir de uma rigorosa análise dos documentos e dos acontecimentos, a vida tal como a conhecemos. Vasco Pulido Valente procurou na biografia solução para a tal dificuldade que afastava a história e a vida. Por isso, abalançou-se na análise de figuras como o Duque de Palmela, Costa Cabral, Marcelo Caetano e Paiva Couceiro, até que se deparou com um caso muito especial: o de José Cardoso Vieira de Castro (1837-1872). Trata-se de um dirigente académico com alguma importância, um jornalista menor, um escritor sem talento, um político sem poder, e ainda por cima, um criminoso e um degredado. Todos estes elementos permitiram a consideração de alguém que, pelas promessas que representou, pelos meios que frequentou, pela personalidade que tinha, nos revelou um período social, cultural e político extremamente rico, que permite ao leitor adentrar-se no século XIX português tal como foi. E assim, a partir de uma figura dramaticamente célebre, podemos encontrar uma historiografia capaz de entender a complexidade da vida, desde a singularidade de cada um à encruzilhada das relações humanas. “Vieira de Castro não queria perder a vida num remoto canto da província. Queria conquistar Lisboa e o país. Queria glória”. A intenção do historiador foi de ‘mostrar’ como agiam, sentiam e pensavam os portugueses letrados de meados dos século XIX e não de os meter nos seus casulos…” E assim seguimos, passo a passo, as personagens e os acontecimentos, os encontros e os desencontros.

 

UMA AMIZADE FUNDAMENTAL
No caso de Vieira de Castro deparamos com uma ambição que tem a ver com uma carreira política. No ano de 1860, algo de fundamental ocorrera. Camilo Castelo Branco e J.C. Vieira de Castro criaram amizade especial, quando o romancista se refugiou na Casa do Ermo, solar ancestral da família do segundo, por aquele se encontrar em fuga devido aos amores com Ana Plácido, casada com Pinheiro Alves… E lemos “As Memórias do Cárcere”, “no ‘Ermo’ me esperava com os braços abertos e o coração no sorriso José Cardoso Vieira de Castro. Falseei a verdade. Vieira de Castro esperava-me a dormir naquela madrugada dele, que era meio-dia no meu relógio”. Depois, Vieira de Castro escreve a biografia de Camilo, que merece elogios de circunstância de Júlio Dinis. E volta a Coimbra, com a intenção de terminar o curso, enguiçado pelos sucessos do líder estudantil. Mas quando regressa, depara-se com o movimento encabeçado por Antero de Quental, notando-se uma contradição evidente na relação entre ambos. Vieira de Castro pensa na carreira política. Em 1864, o sucesso em Coimbra determina, de facto, a sua candidatura e eleição em 1864 pelo partido Regenerador num sufrágio suplementar para o círculo de Fafe. “Acabara enfim o exílio d’O Ermo, daquela província que o ‘sufocava’. Vieira de Castro podia vir para Lisboa em busca de uma glória que não se comparava aos triunfos de Coimbra, nem às pequenas vitórias de Fafe, nem sequer à meia celebridade que tinha no Porto. No Parlamento e com a retaguarda assegurada por Ferreira de Melo, a sua presa, a sua audiência era o país inteiro”. Vai morar para Santa Catarina, a dez minutos de S. Bento. “As janelas dominavam o Aterro e o Tejo” do Montijo até ao mar: um esplêndido “panorama”. “Como qualquer ‘elegante’ estabeleceu relações de ‘boa sociedade’”. Em abril de 1866 participa num jantar oferecido por Bulhão Pato, onde estavam o visconde de Seabra, Rodrigues Sampaio, o barão da Trovisqueira (a quem Vieira de Castro devia muitíssimo dinheiro), Rebelo da Silva, Francisco Luís Gomes, Eduardo Cabral, Tomás de Carvalho (…), Luís Augusto Palmeirim, Teixeira de Vasconcelos e Ramalho Ortigão”…

 

UM ORADOR ESQUECIDO
Na Câmara dos Deputados evidenciar-se-á a sua verve tribunícia. Depressa o orador ganha notoriedade, que ultrapassa fronteiras e chega ao Brasil. O seu modelo é o grande José Estevão, o mais célebre dos oradores parlamentares. É recebido com honras de triunfador no Brasil, e aí se casa no Rio de Janeiro (em fevereiro de 1867) com Claudina Adelaide Gonçalves Guimarães, filha do comendador António Gonçalves Guimarães, natural de Fafe e um dos diretores do Banco Rural e Hipotecário do Brasil. De regresso a Portugal, a jovem não parece conformada com uma vida provinciana, prefere uma casa na Rua das Flores, onde o casal se instala, recebendo uma tertúlia literária, onde estão Ramalho Ortigão, António Rodrigues Sampaio, e José Maria Almeida Garrett, sobrinho do célebre Garrett. Em 7 de maio de 1870, sábado, Vieira de Castro surpreende a jovem mulher a escrever uma carta a José Maria Almeida Garrett e tudo se precipita e se desmorona. Iludindo uma solução pacífica, para a não deixar fugir, Vieira de Castro mata a mulher, desafiando sem sucesso o jovem literato para um duelo, que este recusa. “Quando se entregou à polícia, a 10 de maio, Vieira de Castro não mediu o horror que o seu crime ia inspirar na ‘opinião pública’. Não acreditava que a sociedade que o aplaudira como um ‘ídolo’, ‘repentinamente o repelisse como um monstro’. Estava, aliás, seguro de que seria absolvido: era vítima, não era o culpado. A Camilo escreveu com toda a frieza: ‘Fizeste bem, ou antes, não fizeste mal em dizer que eu não tenho remorsos nenhuns’. Naqueles primeiros dias só se afligiu com a ruína da sua carreira política. A morte de Claudina não passava de uma desgraça que o privara de um grande e decisivo triunfo”… Em 1871 partiu para Luanda para cumprir a pena de degredo a que fora condenado, de 15 anos. A morte condená-lo-ia apenas um ano depois. O silêncio foi a regra. Poucos o recordaram. Camilo foi exceção: falou do “atribulado mártir” e da “divina Providência que lhe comutara em agonia de instantes o suplício de 15 anos”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de fevereiro de 2020

 

As Literaturas em Língua Portuguesa (Das Origens aos Nossos Dias), de José Carlos Seabra Pereira (Gradiva 2019) é um reportório fundamental para quem queira conhecer o panorama atual da língua portuguesa.

 

UMA OBRA INDISPENSÁVEL
É difícil proceder à apresentação de uma visão de conjunto das literaturas em língua portuguesa. Poucos poderiam encarregar-se de tal tarefa a contento, daí que a escolha de José Carlos Seabra Pereira merece aplauso, não só pelas provas académicas e pedagógicas sobejamente consagradas, mas também pelo resultado do trabalho agora dado à estampa em As Literaturas em Língua Portuguesa (Das Origens aos Nossos Dias) – em edição da Gradiva (2019), com o apoio do Instituto Politécnico de Macau e do Conselho Coordenador dos Institutos Superiores Politécnicos. Carlos Ascenso André, impulsionador do livro, está certo quando diz que “precisávamos (…) de uma obra que não se limitasse a Literatura Portuguesa, mas que se alargasse de forma abrangente, às demais literaturas de língua portuguesa. Mas precisávamos, igualmente, de que tal obra tivesse em conta esse público-alvo muito específico que são os milhares de aprendentes do Português mundo fora, com os seus condicionalismos próprios: um público heterogéneo, com patamares de conhecimento muito assimétricos, com interesses diversificados. Ou seja, uma obra acessível, mas rigorosa, útil a quem se limita à superfície das coisas, mas não menos instrumental para quem pretende descer mais fundo na sua reflexão e no seu conhecimento”. Não se trata, pois, de um manual, mas de um ensaio panorâmico, feito com especial cuidado, e apto a abrir novos caminhos e pistas, a partir da recusa uniformizadora e da consciência de que estamos perante uma língua de várias culturas, e portanto de diversas literaturas. Como língua, o português irá enriquecer-se pluralmente, num exigente desafio, pois as literaturas são, de facto, indicadores fundamentais para definirem os diversos sentidos que serão seguidos pela língua e pelas línguas. Por isso, o autor apresenta “um ensaio longo de roteiro das literaturas em língua portuguesa, que se distingue pela perspetiva de conceção e pelos parâmetros de elaboração”. E assim, em lugar de um tratamento minucioso e dilatado das épocas mais distantes, prefere uma “nítida expansão a partir da viragem para o século XX e decidida progressão pelos terrenos da literatura hodierna”. Se assistimos nesse momento à afirmação de maior pujança das literaturas portuguesa e brasileira, inicia-se também a consolidação das literaturas angolana e cabo-verdiana, além dos casos de Moçambique e Macau.

 

COMUNIDADE INTERLITERÁRIA
No dizer do autor, o livro procura captar e acompanhar um fluxo de águas vivas que, quanto mais se abre em inestimáveis deltas nacionais, mais parece dirigir-se para uma comunidade interliterária (na aceção de Dionýs Durisin)”. Estamos perante uma realidade multifacetada e multímoda em que se detetam pontos de encontro e de separação, num diálogo complexo a partir de inexoráveis raízes comuns, que coabitam com afluências divergentes. Há, assim, várias culturas e várias línguas que coabitam e dialogam. Longe de qualquer tendência uniformizadora ou centrada em hegemonias ou convergências, “não são rasuradas as tendências emergentes ou epigonais que coabitam com aquelas hegemonias estético-literárias em cada período e mormente nas fronteias fluidas do seu dealbar ou do seu ocaso”. Muito relevante é, aliás, a referência à língua literária portuguesa “com a interferência de variantes idiomáticas, de fenómenos de crioulização, de transvases de outras línguas”. De facto, quando nos referimos a uma língua falada em todos os continentes, percebemos que a consequência não é a uniformização global, mas sim a diversidade, as interferências e as complementaridades, tantas vezes exemplificadas em expressões e palavras de torna-viagem e em múltiplas trocas e partilhas de sentido. Daí que as simplificações seriam impossíveis e só um estudioso como J.C. Seabra Pereira poderia abalançar-se numa empresa desta dimensão, acompanhando as literaturas de uma língua antiga com as suas origens em textos de poesia lírica e satírica dos trovadores e dos cronistas – entre a Galiza e Portugal. E deste modo encontramos os fundos lírico, trágico e picaresco, que se vão projetando em caminhos diversíssimos.

 

UM PERCURSO SISTEMÁTICO
Propositadamente, encontramos um percurso lesto, mas não menos rigoroso, sobre o tempo cortês, o Renascimento e o Maneirismo, as Luzes e o arcadismo luso-brasileiro, os romantismos, o realismo e as suas margens, o decadentismo e o simbolismo na transição para o novo século, até à escrita vital de Aquilino… Vamos percorrendo, com sublinhados bastante nítidos, que exigem uma leitura atenta e compassada, os pontos fundamentais da literatura, com o aparecimento gradual e em crescendo da criação brasileira e depois africana. Veja-se a título de mero exemplo, como prolegómeno da parte mais desenvolvida da obra, a referência ao facto de Eça de Queiroz ficcionar “um vetor de caracterização peculiar do ethos português numa aproximação à literatura identitária de Portugal que nunca se quer isenta de alguma valência de ironia”. Fala-se, naturalmente, de A Ilustre Casa de Ramires e da ida de Gonçalo Mendes Ramires a África, num capítulo acrescentado pelo romancista, na versão final do livro, ao que foi publicado em folhetins na “Revista Moderna”. Noutro registo, refira-se a atenção do autor à “escrita vital” de Aquilino Ribeiro, surgido na margem do Modernismo, com um estilo versátil que se atualiza “numa réplica moderna daquele ‘porte desusado’ de ‘idioma novo e civilizado’ e daquela madre língua manejada com ‘agilidade e limpidez’ e ‘elegância sem perda de vigor e com ganho de harmonia’ que o mesmo Aquilino certeira e oportunamente louvava em Camões”. Considerando em Portugal e no Brasil “autores axiais” como Fernando Pessoa e Mário de Andrade, encontramos entre as duas guerras mundiais a emergência de uma modernidade estética de matriz baudelairiana, na “tradição do novo”. Modernismos e Vanguardas confrontam-se desde “A Águia” a “Orpheu”, até ao Livro do Desassossego. E Fernando Pessoa, ortónimo e heterónimos, procura intervir como patriota cosmopolita, para superar a condição decadente da nação portuguesa, na aceção, anteriana e sergiana, de atraso relativamente à modernidade sócio-cultural do Ocidente… Por seu lado, a “Presença”, relativamente ao Modernismo de “Orpheu”, representa não uma rutura, mas uma plataforma comum do inconformismo, do individualismo, da urgência do novo e do cosmopolita, considerando o valor da arte como instituição. E tem razão J. C. Seabra Pereira quando afirma que “a articulação de ‘Orpheu’ e de ‘Presença’ ganha em ser lida na ótica de dissociação conceptual e histórico-literária entre Modernismo e Vanguarda(s)” – sem esquecer as interferência vanguardistas nos dois modernismos e percebendo-se que, em toda a Europa, os dois movimentos são concomitantes mas não confundíveis. Os exemplos dados permitem ilustrar como a obra ora dada à estampa é um instrumento importante que abre perspetivas de trabalho em progresso para uma melhor compreensão no mundo da língua portuguesa não só das diferenças culturais, mas também das confluências interliterárias.    

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 9 a 15 de dezembro de 2019

 

O livro de Jorge de Sena, «Maquiavel e Outros Estudos», foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto, em maio de 1974, e constitui uma obra fundamental no conjunto dos ensaios de Jorge de Sena.

 

 

ALTO PADRÃO CÍVICO
Concordo com António Feijó quando afirma que Jorge de Sena é uma referência para a nossa geração, pelos altos padrões de valores que nos apontou e pela sua coragem. O certo é que o escritor, o poeta, o ensaísta lutou por uma liberdade que não era compatível com a mediocridade. Daí a necessidade de trabalho, de persistência e de uma capacidade inequívoca de vislumbrar o outro lado das coisas. Sem a tentação de apenas ver a claro e escuro ou de se limitar ao próprio e ao alheio, Sena é uma referência. Isso mesmo tem gerado mil incompreensões e injustiça. Importa, por isso, lembrar os verdadeiros testemunhos e não comentários de despeito e de má-fé. Recordo bem, quando “O Tempo e o Modo” (nº 59, Abril de 1968) publicou o número dedicado a Jorge de Sena, como houve vozes surdas e sonoras, desconfiadas, sem compreender, o que hoje sabemos, ou seja, a importância do pensamento e do método do polígrafo. António Cândido, que conheci, recordava amiúde: “Bastava conversar algum tempo com Jorge de Sena para perceber as suas fagulhas de genialidade. Na sua personalidade vulcânica, talvez o que mais impressionasse fosse a estrutura de contrastes. Era versátil de modo extensivo e, ao mesmo tempo, densamente profundo. Era arrebatado até à explosão e concentradamente reflexivo. A sua informação era inacreditável e a sua capacidade de captar conhecimento chegava a causar espanto pela rapidez e a penetração, só comparáveis à presteza com que traduzia os resultados em escrita”… Pedro Tamen, num depoimento dado à revista “Relâmpago” (nº 21, 2007) resumiu o essencial: “Sena era impaciente e tinha mau feitio. Cometeu, sem dúvida, algumas injustiças; mas se o fez, foi por não ter pachorra para a mediocridade. Para o ‘reino da estupidez’. É que Jorge de Sena era superior mesmo”.

 

UM ENSAIO NOTABILÍSSIMO
Há um ensaio notabilíssimo, não sobre os temas habituais de Jorge de Sena, mas sobre a grande filosofia política, que atesta bem a exigência de pensamento do mestre. Falo de «Maquiavel e o “Príncipe”», publicado em S. Paulo, pela Cultrix, em 1963, numa obra intitulada Livros que abalaram o mundo. Nesse livro Sena escreveu ainda «Marx e “O Capital”». Entre nós, Maquiavel e Outros Estudos, foi publicado pela Livraria Paisagem, do Porto, em maio de 1974, envolvendo Miguel Ângelo, Shakespeare, Galileu, Marx, Rousseau, Chestov e Malraux… No dia em que li esse extraordinário texto, Maquiavel tornou-se não aquela figura que muitos associam a um adjetivo caricatural e falso, mas o grande moralista, pensador político, que refletiu sobre a unificação italiana como um sinal de civilização. Nem velhacaria nem perfídia, do que Maquiavel trata é de outra coisa, e por isso deve ser considerado como “um patriota italiano e um estadista angustiado por ver a Itália dividida em principados, repúblicas, estados papais, e territórios de potências estrangeiras”. “Foi e é, um dos maiores escritores da literatura italiana; e, se compreendida e situada no tempo dele, a sua obra é a de um dos mais argutos, lúcidos e corajosos pensadores políticos de todas as épocas”. A sua grande revolução do pensador é despir “a ação política de toda a transcendência e, sobretudo, de toda e qualquer sanção extrínseca aos próprios valores cuja conquista devem norteá-la”. Leia-se, aliás, a “Carta a Meus Filhos sobre os Fuzilamentos de Goya”, onde essa lembrança viva se encontra, “… o mesmo mundo que criemos / nos cumpre tê-lo com cuidado, como coisa / que não é nossa, que nos é cedida / para a guardarmos respeitosamente / em memória do sangue que nos corre nas veias, / da nossa carne que foi outra, do amor que / outros não amaram porque lho roubaram” (Metamorfoses, 1963).

 

MAQUIAVEL A OUTRA LUZ
Para Sena, Maquiavel “é um moralista na mais alta e nobre aceção da palavra: aquele que descreve os costumes humanos, os resultados a que eles conduzem, e as causas que os condicionam, com objetividade clínica. Se daí pode ser extraído, ou não, um conjunto de normas morais que rejam o bem-viver em sociedade, eis o que excede o âmbito do seu pensamento. E excede-o, não porque entende lucidamente que, no plano político, a virtude só tem sentido se estiver ao serviço de alguma coisa concreta”. A intuição do ensaísta português é extraordinária, uma vez que insere o grande pensador italiano no grande movimento de emancipação política da contemporaneidade. Eis como o pensamento de Maquiavel é contrário àquilo que “tem sido pejorativamente acusado de o ser; e a exploração que tiranos e ditadores fizeram dele não passa de uma depravação criminosa da sua nobreza intrínseca, da sua coerência empírica, da sua dignidade fundamental”. Longe de uma ambivalência moral e da tentação de justificar a ilegitimidade e a tirania, do que se trata é da criação de condições para que a liberdade, a dignidade e a independência possam existir. O bem e o mal perdem sentido na vida sociopolítica se forem abstratamente dissociados, já que, como diz o povo, de boas intenções está o inferno cheio. No fundo, temos de entender que a República, é dela que Maquiavel nos fala, é um regime de pessoas imperfeitas, que têm de saber lidar com a imperfeição, para poderem ser melhores. A lucidez do escritor é demasiado crua? Mas é preciso partirmos dela para criar condições a fim de nos aproximarmos de uma “vita buona”, conscientes de que nunca será acabada e perfeita, uma vez que em tal caso se tornaria desumana. “Todo o pensamento e toda a ação levam em si aquilo que os contradiz e destrói, aquilo que os fará inferiores à realidade que os ultrapassa”. De facto, “pensamento e realidade criam-se mutuamente, e é a criação, o ato de criar, o que os excede a ambos, e não um que se excede ao outro”. Basta lembrarmo-nos do ciclo de frescos de Ambrogio Lorenzetti no Palazzo Pubblico de Siena, para compreendermos a importância e o sentido do texto de Maquiavel. Aí se oferecem as representações iconográficas dos conceitos políticos abstratos: a Paz, a Concórdia e a Segurança, por oposição à Guerra, à Divisão e ao Medo. E como mostrou Quentin Skinner, o grande pensador contemporâneo que tem estudado o tema, a alegoria do Bom Governo deve ser interpretada como a tradução visual duma ideologia: a do ideal da cidadania e da autonomia republicana, que se desenvolveu nas cidades-estado em Itália no início do Renascimento – e que Maquiavel deseja generalizar. Nesta perspetiva “Lorenzetti não se contenta com ilustrar uma ideologia da vida civil, contribui simultaneamente para produzir esta ideologia e da maneira mais espetacular. Ora, é a esta luz que o “Príncipe” deve ser lido, como extraordinária apresentação positiva de uma ideologia inovadora sobre as raízes republicanas do que hoje designamos como Democracia. Trata-se, no fundo da demarcação necessária relativamente às diversas formas de despotismo e tirania. Por isso, Jorge de Sena foi perentório: “A monstruosidade do príncipe maquiavélico é apenas, paradoxalmente, a do homem reduzido à sua virtù. E, se Maquiavel foi genial nesta redução que restitui o homem à sua dignidade responsável, foi porque retirou ao homem a desculpa de atribuir-se o direito de ser monstruoso à escala divina”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   Nesta sexta feira grisalha e um tanto quanto chuvosa e ventosa em que, neste ano de 2019, aterrou entre nós a celestial festa de Todos os Santos, as minhas ferrugens obrigaram-me a participar pela televisão na missa celebrada na Igreja de Santa Beatriz da Silva, em Lisboa. Eis um dia de alegria muito íntima - tão íntima que me faz chorar - e todos os anos a comemoro com o todo de mim, pois que é memória não de mortos mas de vivos, alguns dos quais foram habitantes do meu sangue antigo, muito antes de eu mesmo saber que por eles existo, outros da minha vida remota já ou próxima ainda, das minhas casas, amizades e amores, encantos e desilusões, inquietações, anseios e interrogações... E mais tantos, tantos, com quem partilhei ou quis partilhar a minha fé, sem contar com todos os de mim ignorados companheiros, que creio sempre amigos, não sei, mas necessariamente comungantes da mesma humana condição.

 

   Gosto deste amor universal que nos abraça na festa dos vivos, e tão solar e feliz me faz sorrir em dia aparentemente cinzento: reúno-me com a vida que não vejo agora -  com a dos que, incluindo meu irmão mais novo, saíram este ano da nossa vista -  e essa miríade de incógnitos de mim, agora junta, na memória presente do amor eterno, à de todos aqueles mais próximos cujas lembranças, dia após dia, me povoam de afetos a alma.

 

   Eis-me assim a pensarsentir, simultaneamente, o desprendimento e o reencontro, como se estivesse em Antan, o lugar situado no meio do universo e centro dessa fábula e parábola que é o maravilhoso livro da polaca Olga Tocarczuk (Nobel da Literatura 2019), intitulado - traduzo da versão francesa - Deus , o tempo, os homens e os anjos...

 

   No centro de Antan, Deus elevou uma colina que todos os anos é invadida por uma nuvem de besouros. Por isso a gente lhe chama a Montanha dos Besouros. Porque Deus trata de criar, e o homem de inventar nomes. Mais adiante, quase a chegar ao fim do livro, a escritora conta-nos, em curto trecho intitulado O Tempo do Jogo:

 

   «No sétimo mundo, os descendentes dos primeiros homens viajaram de país em país e acabaram por chegar a um vale mirífico. "Vamos lá, disseram eles, vamos construir uma cidade e uma torre que atinja o céu, para permanecermos um só povo e não nos deixarmos dispersar por Deus..." Logo se entregaram ao trabalho, juntaram pedras e utilizaram alcatrão como cimento. Assim edificaram uma cidade imensa, no meio da qual se erguia a torre. Acabou por atingir tal altura que, lá de cima, se conseguia ver o que estava para além dos oito mundos. Quando o céu estava limpo, os que trabalhavam lá em cima faziam uma pala com as mãos - para não serem cegos pelo sol - e conseguiam enxergar os pés de Deus, tal como o corpo monstruoso da serpente devoradora do tempo.

 

   Com a ajuda de paus, alguns deles tentavam sondar o espaço acima das suas cabeças.

 

   Deus observava-os com inquietação e pensava consigo: "Enquanto forem um só povo e falarem uma só língua, só poderão agir à sua maneira... Vou confundir as suas línguas e encerrá-los dentro deles próprios. Farei com que já não se entendam entre eles. E então se levantarão uns contra os outros. E Me deixarão, a Mim, em paz." E Deus fez o que tinha decidido.

 

   Os homens dispersaram-se pelos quatro cantos do mundo, e tornaram-se inimigos uns dos outros. Mas guardaram a lembrança do que tinham visto. Ora, aquele que viu a cerca do mundo sofre mais do que ninguém a sua condição de prisioneiro».

 

   Já no primeiro capítulo - O Tempo de Antan - está escrito, todavia, que Antan está rodeada por dois rios: o Negro, profundo e sombrio, que se junta, no moinho, ao Branco, pouco fundo e vivo. Então se encontram os seus cursos, primeiro "lado a lado, indecisos, intimidados por essa aproximação tão aguardada". Logo se "precipitam um no outro e se perdem no seu abraço. E o rio que dali nasce já não é Branco nem Negro, mas é poderoso e faz girar sem pena a roda do moinho". Será porque os quatro pontos cardeais de Antan estão guardados pelos arcanjos Rafael, Gabriel, Miguel e Uriel, como nos diz o conto? Ou antes não estará Olga Tokarczuk a evocar uma revelação apocalíptica (perdoa-me a forma enfática) de São João, lida na missa de hoje? Assim:

 

   Eu, João, vi um anjo que subia do Nascente, trazendo o selo do Deus vivo. Ele clamou em voz alta aos quatro anjos a quem foi dado o poder de causar dano à terra e ao mar: «Não causeis dano à terra, nem ao mar, nem às árvores, até que tenhamos marcado na fronte os servos do nosso Deus.» E ouvi o número dos que tinham sido marcados: cento e quarenta e quatro mil, de todas as tribos dos filhos de Israel. Depois disto, vi uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas. Estavam de pé diante do trono e na presença do Cordeiro, vestidos com túnicas brancas e de palmas na mão. E clamavam em alta voz: «A salvação ao nosso Deus, que está sentado no trono, e ao Cordeiro.»

 

   Esses todos, diz-nos depois o mesmo São João, "são os que vieram da grande tribulação, cujas túnicas foram lavadas e branqueadas pelo sangue do Cordeiro."

 

   Só de pensarmos nele já nos faz bem o amor universal.

 

Camilo Maria

  
Camilo Martins de Oliveira

A VIDA DOS LIVROS

De 2 a 8 de dezembro de 2019

 

Passam cinquenta anos sobre a morte de José Régio (1901-1969), autor multifacetado, que escreveu “A Velha Casa” (1945-1966), que considerou ser como a sua mais importante obra de ficção e “uma meditação sobre a vida humana, sobre a condição humana”.

 

 

MARGENS DO MONDEGO
“Uma coisa sei de certeza: Que nunca me arrependi de ter ido para Coimbra. Lá ganhei novos amigos. De lá saiu a presença. Lá passei pelo menos alguns dos anos mais felizes da minha vida. E creio que a minha criação literária lucrou com a ida para Coimbra, pois lá achei elementos para um fecundo ambiente literário que não acharia no Porto”. É o próprio José Régio quem o confessa, num dos seus últimos escritos, Confissão de Um Homem Religioso (1971), esta sua ligação muito especial a Coimbra. É verdade que as raízes de Régio estão em Vila da Conde e aí sentimos a força das bases telúricas, éticas e literárias. Mas o núcleo das amizades do poeta e romancista, encontramo-lo na cidade do Mondego, em Branquinho da Fonseca, João Gaspar Simões, Casais Monteiro, Edmundo de Bettencourt, Miguel Torga, Vitorino Nemésio ou Afonso Duarte… Aí começará a publicar (Poemas de Deus e do Diabo, 1925) e a ter contacto com a literatura como realidade viva, ligada necessariamente ao quotidiano e à cidadania. E no primeiro livro de poemas surge logo a associação a seu irmão Júlio (Saul Dias), desenhador e pintor que é uma extraordinária referência do segundo modernismo, com vincada influência de Chagall. Depois, nas andanças docentes, Régio fixará em Portalegre o seu lugar de vida, em alternância com Vila do Conde. Para o biógrafo e intérprete fiel de Régio, Eugénio Lisboa: “o mais importante da sua biografia decorreu, como é o caso de tantos de nós, dentro de si próprio. As suas tempestades foram sobretudo interiores e são essas que irrigam, com vigor o tecido da sua obra” (José Régio ou a Confissão Relutante, Rolim, 1988). A consideração de Eduardo Lourenço sobre o carácter da obra de Régio e sobre a natureza da presença levará, no entanto, a uma estranha acumulação de equívocos, que só uma leitura mais atenta de “Presença ou a contrarrevolução do modernismo” (“Comércio do Porto”, 14.6.60) poderá esclarecer. O próprio Eduardo Lourenço preocupou-se em clarificar o que tinha dito, acrescentando a uma nova versão do texto o qualificativo “português” ao modernismo e um ponto de interrogação no final, procurando afastar qualquer entendimento político ou literal nessa ideia. Deste modo, Eugénio Lisboa, na comparação entre os dois modernismos, o de Orpheu e o da presença, afirma mesmo: “o primeiro modernismo foi um momento de convulsão e o segundo um momento de reflexão e consolidação” (Ibidem.). Um e o outro completam-se e diferenciam-se. E até se percebe que Nemésio tenha preferido, em dado momento, criar um outro órgão de ideias - a Revista de Portugal (1937) talvez menos contaminada com a proximidade dos modernismos… A razão parece hoje irónica, mas foi invocada.

 

É VIVO O ORIGINAL
“Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima de uma personalidade artística. A primeira condição de uma obra viva é pois ter uma personalidade a obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos, superficialmente, o que o diferencia dos mais (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo, o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro… Eis como é falsa toda a originalidade, calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas – mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto destes temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidade não passarão de um truque literário” (presença, nº 1, 1927). Eis o programa de Régio, que prefere, na sua batalha pela “Literatura Viva”, afirmar: “à personalidade do artista-criador nada proíbe a presença senão que se falseie; nada impõe senão que se revele” (“O Primeiro de Janeiro”, 25.10.44). No entanto, se desconfiava das originalidades “demasiado exibicionistas”, acusava de conformismo a falta de originalidade e a falta de sinceridade. Numa palavra, o certo é que a presença tornou-se o verdadeiro arauto que exprimiu quão relevante e visível foi a geração de Orpheu.

 

O SEGUNDO MODERNISMO
Todavia, o segundo modernismo era, essencialmente, um momento de reflexão e consolidação – e é essa distinção que Eduardo Lourenço quis fazer, de modo metafórico. Aliás, o próprio Régio assume esta ambiguidade, quando põe a dialogar, em A Velha Casa, Lelito com seu irmão João, e este diz: “Tornas falsas muitas coisas que são em si verdadeiras e sinceras”. E se o tema político merece toda a atenção tal deve-se à independência da revista e dos seus animadores, acima de toda a suspeita, e sob muitas desconfianças. Não houve, de facto, conciliação com o regime nascido em 1926 – vejam-se, por exemplo, a publicação do texto fortemente crítico de Raul Leal, aquando da homenagem coimbrã a António Correia de Oliveira (1930); a identificação de Régio relativamente à posição política de António Sérgio; e a tomada de posição de Guilherme Castilho, José Marmelo e Silva e João Campos, quando a presença fechou as portas (1940), dando ênfase à fidelidade da revista aos valores do espírito que estavam a ser destruídos pelos senhores da guerra. O modernismo não era, assim, uma receita, mas uma atitude: “qualquer mestre de hoje só é modernista na medida em que, sem ter de negar seja qual for das descobertas vitais do passado, se encaminha para novas descobertas e antevê novos mundos… que podem não ser mais do que a imprevista sondagem dos mundos já conhecidos” (presença, nº 23, dezembro de 1929). Régio foi sempre um escritor verdadeiramente livre, e encontramos nele: a compreensão da renovação da cultura portuguesa no século XX, com a geração de Orpheu, mas também com Teixeira de Pascoaes e o melhor da Renascença Portuguesa; ou com a consideração do modernismo não como uma escola ou um grupo, mas como uma atitude orientada para a compreensão dos novos mundos; na interrogação aberta e inconformista da transcendência – na linha de Dostoievski, Tolstoi, Proust, Claudel e Gide. Régio não é apenas poeta – é sobretudo dramaturgo, ensaísta e romancista, e nesses domínios encontramos alguma da melhor expressão da sua criatividade. David Mourão-Ferreira dirá: “Penetrante, arguto, tão apto por vezes para a síntese impressionista como para a análise psicológico-literária…”. A 22 de dezembro de 1969, em Vila do Conde, deixou-nos José Maria dos Reis Pereira, depois de uma vida de pedagogo, de escritor, de dramaturgo, de romancista, de novelista, de poeta, de contista, de ensaísta, de cronista, de memorialista. Foi há cinquenta anos. A sua obra multifacetada permite-nos compreender a existência humana através da literatura e da arte. E hoje voltamos a ler: “Era a hora do estudo da tarde, e Lelito pensava. As Catilinárias abertas na carteira, o dicionário à direita, o caderno de significados à esquerda e o lápis na mão – pareciam demonstrar que Lelito prepareva a sua lição de latim. Mas Lelito não pensava nas Catilinárias. Na realidade nem pensava…”       

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de novembro de 2019

 

A obra de Mário Cláudio é multifacetada e rica. Eis por que os cinquenta anos de vida literária merecem especial atenção. Desde a poesia de “Ciclo de Cypris” (1969), encontramos uma criteriosa escolha de temas e uma permanente interrogação sobre vida, sentimentos, pessoas, artistas, escritores, poetas – certos de que o autor vai sempre descobrindo novos fatores para a compreensão do género humano.  


ESCREVER E TRANSFORMAR-SE
Tenho uma especial estima pessoal por Mário Cláudio, como o próprio bem sabe. Sou um seu leitor fiel, de há muito, e não esqueço a sua hospitalidade, em outubro de 2010, em Paredes de Coura, com Manuel Villaverde Cabral e Maria João Avillez, quando também pudemos falar dos edifícios desenhados por Joaquim Pedro Oliveira Martins, graças à influência do Conselheiro Miguel Dantas, sogro de Bernardino Machado. E, falando do Centro Mário Cláudio, não esqueço a longa evocação que fizemos dos nomes da literatura galaico portuguesa cuja memória encontramos dos dois lados da fronteira do Rio Minho: Aquilino Ribeiro, com a Casa Grande de Romarigães, Tomaz de Figueiredo, com a casa de Arcos de Valdevez; e do outro lado da fronteira, Camilo José Cela, Rosalía de Castro, Ramón del Valle-Inclan, Emília Pardo Bazán. Poderá, pois, compreender-se que a minha admiração por Mário Cláudio tenha raízes fundas… “Escrever é transformar-se continuamente. Não só escrever. A vida é uma constante transformação. Digamos que a escrita é mais o espelho dessa mutação em que nós estamos inseridos e que nos acompanha ao longo de toda a vida, e é um espelho onde se reflete uma imagem que, inclusivamente, não pode ser proveitosa, porque nos dá conta da dinâmica dessa evolução e nos permite corrigir determinados caminhos, aqui ou além, e enveredar por aquilo que nos parecer mais adequado, também de vez em quando” (JN, 19.7.17). Isso é evidente, quer quando o romancista descobre uma personagem histórica, quer quando se debruça sobre si mesmo, criando figuras imaginárias, que beneficiam da sua própria experiência. Lembramo-nos de Tiago Veiga e compreendemos como muitos leitores ficaram perplexos, com uma tão grande soma de elementos reais. Se Tiago Veiga não existiu, poderia ter existido; e se existiu é composto de vários elementos concretos, que encontramos nos meios literários e em figuras que resultam de vários elementos que se associam de modo verosímil, numa recriação notável da realidade humana.

 

AUTOBIOGRAFISMO…
Se lermos “Astronomia” (2015) é, no entanto, a perspetiva claramente autobiográfica que prevalece, no sentido propriamente dito. Mas também deparamos com as verdadeiras biografias romanceadas de personalidades marcantes reveladoras não apenas de figuras reais, mas também de uma descrição rigorosa dos ambientes e da vida quotidiana – como nos casos de “Amadeo” (1984), “Guilhermina” (1986) e “Rosa” (1988). Como prosador dotado, Mário Cláudio faz da literatura um modo de compreensão da vida e da sociedade. Daí partir nestes três casos de perspetivas diferentes da criação artística – desde o modernismo erudito de Amadeo de Souza Cardoso à uma dotadíssima expressão popular de Rosa Ramalho, passando pelo talento único que tinha Guilhermina Suggia. E a aura da genial intérprete fica enriquecida com a prosa de Mário Cláudio. E sentimos que estamos a participar numa ação parcialmente verídica e imaginosa, que sentimos como possível. “Camilo Broca” (2006) é a invocação da genialidade de Camilo Castelo Branco através do meio em que viveu desde a sua infância. Mais do que a história é também uma subtil homenagem ao universo de Agustina, com que Mário Cláudio tanto se compara e que admira (com cuidosas distâncias), em estreita relação com o romancista de “Estrelas Propícias”. Quando lemos “Triunfo do Amor Português” (2004), prefaciado por Agustina, vemos como a culpa assume papel fundamental no intenso fundo lírico desta cultura aberta ao Atlântico, com a presença de Pedro e Inês, Leonor Teles e Andeiro, Camões e a Infanta D. Maria, Mariana Alcoforado e o Conde de Chamilly, D. João V e Madre Paula, Tomás António Gonzaga e Marília de Dirceu, a Severa e o Conde de Marialva, Camilo e Ana Plácido, D. Pedro V e D. Estefânia, António Nobre e Alberto Oliveira… E assim a imaginação do romancista resulta da capacidade de associar elementos aparentemente contraditórios que procuram fazer sentido, como no caso de “Memórias Secretas” (2018), no qual recorre à “banda desenhada” e reinventa personagens – Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente aproximam-se de nós e descobrimos relações inesperadas. E falando, por fim, do “Tríptico da Salvação” (2019), em que intervêm figuras históricas, como Lutero e Lucas Cranach, não é tanto o romance histórico que interessa, mas a consideração das personagens envolvidas. Lutero é o homem inconformista, a um tempo conservador e reformista, que interessa ao romancista, até porque entra em choque simultaneamente com o Imperador e o Papa. Por outro lado, a admiração de Lutero por um grande pintor como Cranach, leva-o a evoluir na reflexão sobre o sentido da representação de imagens contra o entendimento inicial.

 

ESCRITOR E PEDAGOGO
A propósito de “Astronomia”, Mário Cláudio afirmou: “Quando digo que sou escritor incluo nisso todas as dimensões de atividades da minha vida. A docência é a continuidade da minha atividade de escrita. É como se estivesse a escrever a vida com outras pessoas ou a escrever na alma delas e elas na minha alma. Aprende-se muito através da docência. Aquilo que se recebe é talvez mais do que aquilo que se dá. Não era um professor facilitante, era bastante exigente, muito austero. Havia pessoas que se davam bem, outras não. Sempre validei as pessoas que trabalhavam mais. Não há que fugir a isso. E isso às vezes cria atritos. Mas devo dizer que olhando retrospetivamente, nos encontros com ex-alunos, tenho consciência que ficou uma réstia de amizade e afeto com todos eles”. É muito importante esta afirmação, de quem faz da sua escrita um caminho permanente de aprendizagem, vista como uma permanente troca de experiências. Longe da ideia do “magíster dixit”, o escritor, como o educador e o romancista têm de ganhar autoridade no modo como exercem o seu magistério – e o escritor que assim se apresenta refere a exigência como algo de natural e necessário, e o certo é que literariamente encontramos a mesma preocupação, bem evidente numa escrita rigorosa e atraente… Nesse ponto, apesar de admirar a figura e a obra e Agustina, põe as distâncias que o levaram naturalmente a trilhar caminhos diversos, nalguns pontos convergentes mas menos filosofantes, que um dia testemunhei, quando pudemos, de algum modo, partilhar um extraordinário convívio, com a própria Agustina, num memorável jantar portuense.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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