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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

De 10 a 16 de junho de 2024


Lembrar Camões (1524-1580) é mais do que louvá-lo. É abrir horizontes para a sua obra, no momento em que, no século XVI, foi com ele, que se atingiu a maturidade da língua portuguesa na poesia.


E não é indiferente dizê-lo, uma vez que falamos de um idioma nascido na poesia dos trovadores e que teve no rei D. Dinis o impulsionador que permitiu tornar a língua vulgar língua de cultura e meio de expressão formal para legistas e tabeliães. Essa decisão permitiu que em três séculos tenhamos podido ter com Camões a afirmação das origens do português moderno e no século seguinte a maturidade da prosa com o Padre António Vieira. Este é um caso especial no contexto das línguas europeias, que justifica plenamente que o dia nacional não se refira a uma batalha ou a um acontecimento político, mas a um ato de cultura que é a evocação da vida de um grande poeta. A língua italiana tem em Dante e na sua “Comédia” a definição suprema do paradigma da língua nacional, mas enquanto nesse caso é a unificação política nacional que determina a adoção do idioma, no caso português é a identidade que se afirma originalmente através da língua. O Estado precede a Nação, como apontou Alexandre Herculano, mas é a afirmação da língua que constitui um fator de congregação. E Camões é um símbolo natural de unificação, que constitui corolário de um caminho no qual a afirmação literária e poética assume um papel agregador fundamental. E a maturidade da poesia antecede a maturidade da prosa e da oratória, numa língua que se vai desenvolvendo pela comunicação da palavra. Como lembrou Vítor Aguiar e Silva, António Sérgio, em primeiro lugar deu um fundamental contributo “para a descoberta de um Camões pensador profundo e dramático”; José Régio elaborou uma admirável análise “interpretativa desta dialética do amor e do desejo”; Rodrigues Lapa advogou o regresso ao texto das primeiras edições das “Rimas” e Jorge de Sena foi quem pôde descobrir com a sua fulgurante inteligência teórica e crítica as virtualidades de um poeta que revelou a vitalidade cultural do seu tempo e a força do diálogo cosmopolita da riquíssima experiência renascentista. E a admiração e amor de Jorge de Sena pelo “maior escritor da língua portuguesa e cremos que um dos maiores poetas do mundo”, na sua própria expressão, merecem uma especial atenção (Cf. V. Aguiar e Silva, Jorge de Sena e Camões – Trinta Anos de Amor e Melancolia. Angelus Novus, 2009). Daí a importância da tese segundo a qual “o génio de Camões é um génio abstrato, ou seja, em que se define o universal concreto hegeliano – o qual consiste na unidade do universal e do particular, “que reduz sempre as emoções a conceitos, conceitos que não são ideias, mas a vivência intelectual delas”. Afinal, haveria que olhar Camões à luz da sua verdadeira grandeza e não de qualquer projeção de uma biografia construída, pouco consistente e tantas vezes falsamente imaginada.  E o pecado mortal do biografismo camoniano teria a ver com procurar-se interpretar a poesia do épico a partir de leituras arbitrárias, erróneas e transviadas da vida e obra e da própria poesia de Camões, baseada em muitos poemas apócrifos ou pertencentes a outros poetas. Haveria, assim, um círculo vicioso, desde a utilização de factos supostamente surgidos de modo a justificar as construções biográficas. Daí a importância das revisões críticas de Audrey Bell que visavam desmontar várias invenções tecidas por imaginativos biógrafos. Por isso, Jorge de Sena afirmou em 1951: “Apenas desejo aqui deixar consignada a mais calorosa adesão ao Camões humano que, entretanto, Aquilino Ribeiro tentou, em tão boa hora, ‘desbiografar’, se assim se pode dizer do que não é mais que uma nobre e veemente obra de humanização de um ‘mito’ nacional”. Porém se Aquilino romancearia essa reconstrução, o que importava para Jorge de Sena era essencialmente a necessidade de desconstruir o mito e os ilegítimos aproveitamentos do mesmo…


Como dirá no célebre discurso sobre o Dia de Portugal de 1977, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Jorge de Sena deixava, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».


Para Jorge de Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento insistia, aliás, em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”, como disse João Fazenda Lourenço. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E o discurso da Guarda remata com o apelo para Camões: «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  
De 3 a 9 de junho de 2024


A Desoras – diário – 2017-2023
(D. Quixote) é o sexto volume dos diários de Marcello Duarte Mathias, publicados sob o título geral de No Devagar Depressa dos Tempos.


METÁFORA DA VIDA HUMANA
O título geral destes Diários lembra-nos o extraordinário conto de João Guimarães Rosa “A terceira margem do rio”, onde, no percurso da narrativa, o genial autor nos diz a dado passo, que “Os tempos mudavam no devagar depressa dos tempos”. A escolha do conto e da passagem não foi arbitrária, pois essa terceira margem é uma metáfora sobre a vida humana, talvez hoje com uma pertinência mais evidente, permitindo a compreensão do mundo por um memorialista de exceção que nos fala do tempo e das pessoas sempre sob a tónica da procura de uma outra dimensão para além do lugar-comum, representado pelas duas margens do rio. Como tem salientado Paula Morão, a quem este volume é justamente dedicado, o escritor continua a deixar-nos preciosos fragmentos autobiográficos que se referem não apenas a si próprio, mas também a quem o rodeia. E a paixão pela História corresponde, no fundo, à necessidade de a compreender a partir dos pequenos pormenores, dos microcosmos, único modo de dar um panorama geral que nos liberte do momentâneo ou daquilo que a evolução das coisas vai desvanecendo irremediavelmente. É real a observação do “verso e reverso das coisas e dos dias: livros, citações, lembranças – entre viagens, amizades e desaparecimentos”. De facto, há uma permanente busca das raízes, das luzes e das sombras e da razão de ser dos acontecimentos, que constituem verdadeiros mestres interiores do autor, para usar a expressão clássica de Mounier.


NUNCA ESCREVEMOS AQUILO QUE SOMOS
“Somos sem dúvida aquilo que escrevemos e, todavia, nunca escrevemos aquilo que somos” – disse-nos Marcello Mathias, em tempos, no primeiro volume destes diários. Hoje, continua a pensar do mesmo modo e tem razão, mas é levado a acrescentar: “acabamos também por nos tornar naquilo que deixamos escrito, especialmente em textos de índole intimista, pois quer queiramos quer não, somos o que fomos, sobretudo o que nos foi dado viver (…) Sim, para lá de uma cronologia, somos por igual uma série de datas que constituem outras tantas linhas-fronteiras do nosso percurso”. E precisamos da presença de espírito para não nos deixamos apanhar pelas armadilhas da vida. A cada passo notamos nestes diários a capacidade de estar desperto para olhar o horizonte e para ver o outro lado das coisas, para além do que está na ordem do dia. E não podemos esquecer as ironias do destino, como é recordado a propósito do caso de Giuseppe Tomasi di Lampedusa, autor de um dos grandes romances do século XX, O Leopardo, recusado em vida pelos maiores editores, e que poderia ter ficado, por um triz, esquecido no fundo de uma gaveta. Morreu esquecido e só depois se tornou celebrado. E quantos casos desses nunca tiveram um desenlace favorável? A História está à mercê de vicissitudes absurdas, ditadas pela pura ilusão ou pela incapacidade de ver para além da escuridão de um canto esconso.


COMPREENDER O VERDADEIRAMENTE IMPORTANTE
Como compreender o que é realmente importante? E Marcello D. Mathias lembra-nos uma série dedicada no “Le Monde”, por Jean Birnbaum, a figuras marcantes do seu tempo, como Albert Camus, Hannah Arendt, George Orwell, Raymond Aron e Georges Bernanos. Talento, cultura e carácter – todos eles espíritos de exceção. E aí se realçavam qualidades como a capacidade de admirar, a consciência dos limites, a pluralidade infinita da condição humana, o gosto da liberdade, a recusa do slogan e da servidão ideológica, a necessidade de preservar a ética do justo e do verdadeiro, a simplicidade aliada à autenticidade, a apreensão do real em toda a sua complexidade, o decifrar das contradições, sem desconhecer a pulsão das forças irracionais, o heroísmo da incerteza, o sentido do humor, como coragem e distanciamento. Eis as virtudes que entusiasmam o memorialista. “O culto da nuance é um ato de bravura”. E Bernanos afirma claramente que escrevia para se justificar. Aos olhos de quem? Da criança que foi. “Moral da história: as imposturas e os impostores têm a vida curta e a decantação do tempo acaba, em regra, por selecionar quem merece sê-lo”. Dir-se-ia que aqui encontramos assim o denominador comum de um pensamento e de uma atitude perante a existência. Recordando um amigo comum, Alberto da Costa e Silva, embaixador e intelectual de exceção, evoca as suas memórias, e a afirmação de que “a imaginação vai alterando com o tempo o entrelaçado da lembrança”. De novo, o elogio de uma atitude essencial. A escrita tem capacidade de alterar o tempo. E essas são memórias que correspondem àquela “galeria de livros-depoimentos que não vêm nos manuais escolares, mas que pertencem ao mais íntimo da nossa biblioteca, integrando ao lado de outros a nossa pessoalíssima família”. E assim se recorda um excelente companheiro e a sua ironia, lâmina fina, que lembrava um florete pela leveza e precisão… Acompanhamos, a cada passo, o que o autor vai partilhando connosco – dúvidas, angústias, prazeres e preocupações, os passeios matinais com o saudoso Charlie, que conhecemos com expressão simpática na badana do livro. “Em regra a passagem do tempo cimenta, solidifica, congrega. A doença de Alzheimer perfaz o caminho contrário afasta, separa, desune. Onde se está, afinal? Simplesmente alhures, entre desconhecidos”. Mas há pequenos milagres que se usufruem de modo inesperado, como a natureza que renasce, o cheiro da erva molhada, depois da chuva, as padarias ao abrir do dia, o pão quente…  E compartilhamos gostosamente a divisa do Conde de Ficalho, autor dessa pequena maravilha que é o Conto do Malhadeiro: “Sei andar só e a pé”…  E há o barulho do mundo. Perante os tremendos acontecimentos no leste europeu, independentemente de todos os riscos e incertezas, Marcello tem razão: “hoje Putin é um homem acossado, à cabeça de um país enfraquecido, sujeito a um conjunto de imponderáveis que não domina: a situação militar no terreno, as relações com a China, o empobrecimento da Rússia devido à severidade das sanções, etc. E não se vislumbram soluções favoráveis. Porque não as há. É o proverbio grego: ‘O carvão quando quente, queima as mãos; frio, suja-as’”. Afinal, e a desoras (com o tempo fora do tempo), procuramos compreender-nos e compreender o que dura e o que passa. E é verdade o que o autor nos diz sobre todos quantos connosco viveram e já não os temos próximos. “Minha infância, embora se situe para lá do tempo ainda não morreu”. Por absurdo que pareça assim é. Eis o grande enigma da vida. E se pensamos na relação entre a vida e a literatura podemos dizer, sem hesitar: “Afinal, feitas as contas, ninguém morreu”.   


Guilherme d'Oliveira Martins
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BERNARD PIVOT

  


Partiu há dias Bernard Pivot (1935-2024), um jornalista único, conhecido por muitos como o “Rei Ler”, num jogo de palavras (de que ele tanto gostava) que o ligava à peça imortal de Shakespeare. Como afirmou Pierre Nora, Pivot foi o homem essencial que pôs a França a ler – e, não só para os francófilos, pois foi alguém que deu à leitura e aos livros uma importância fundamental no mundo da vida. Os programas “Apostrophes” e “Bouillon de Culture” foram grandes sucessos junto do público televisivo, conseguindo a extraordinária proeza de juntar cultura popular e erudita. Lançado em 1975, o “Apostrophes chegou a reunir entre 2,5 e 6 milhões de espectadores no mesmo programa em meados dos anos 80… Em 1983, um inquérito à opinião pública, revelou, aliás, que um terço das compras de livros em França se devia ao programa “Apostrophes”, o que levou Régis Debray, num acesso de mau humor, a falar de um monopólio de Pivot no mercado dos livros. O ativista arrepender-se-ia, porém, desse repente e pediria desculpas formais ao jornalista.


Lembro bem o entusiasmo de Isabel da Nóbrega sobre a importância desses programas, designadamente dos célebres “Dicos d’Or”, ditados nacionais para que se escrevesse melhor, com mais rigor, e que inspirou fugazmente os nossos Campeonatos Nacionais da Língua Portuguesa, que Francisco Balsemão, em boa hora, trouxe para Portugal. O segredo para o sucesso de Bernard Pivot deveu-se à escolha de personalidades capazes de suscitar boas polémicas e inesperadas controvérsias. Então presenciávamos o renascimento dos antigos salões literários, com uma qualidade e um refinamento difíceis de alcançar. Sabia-se sempre que algo se iria passar nessa noite – jocoso, dramático, inteligente, incerto, mas atraente, motivando uma boa razão de leitura e um bom livro ou uma ideia interessante. Bernard Pivot era de uma curiosidade e de uma imaginação inesgotáveis. Nunca perdeu a capacidade de fascínio de uma criança. E em alguns programas chegou mesmo a ter de lidar com situações muito desagradáveis, como aconteceu em 1978 com o desatino de um Charles Bukowski totalmente ébrio.


Mas Bernard Pivot gostava de arriscar, nunca tendo conseguido convencer Gracq, Cioran, Beckett ou Genet, mas tendo suscitado deliciosos encontros como o de Roland Barthes com Françoise Sagan, sob o olhar de Anne Golon, além da presença difícil, mas muito apreciada, de Marguerite Duras, Claude Levi-Strauss ou Vladimir Jankelévitch… Apesar de ter tido um desencontro profissional com Jean d’Ormesson no “Le Figaro”, a verdade é que este seria o autor com mais presenças nos seus programas. O debate de ideias funcionava e punha os espectadores presos à pantalha, como antes não suspeitariam possível. Só a qualidade excecional de Bernard Pivot permitia manter conversas apaixonantes, sempre renovadas, e sobretudo insuscetíveis de caber em qualquer receita repetitiva ou maçadora. Contudo, o trabalho a que se dava o jornalista era incomensurável, com uma equipa excecional, animada pela qualidade de um maestro culto, inteligente, atento e empenhado, com a tal curiosidade insaciável, facto bem evidente em livros como “Dicionário Amoroso do Vinho” (2006) e “As Palavras da Minha Vida”(2011), obras só possíveis para um grande e requintado especialista. Pode dizer-se que criou um fenómeno que nos obriga a pensar. Por mais campanhas que se façam, para promover a leitura, a verdade é que se torna necessário criar motivos sérios e exigentes para mobilizar vontades e interesses. Precisamos de catalisadores capazes de tornar a leitura e o amor aos livros fatores de cultura, como foi Bernard Pivot.          


Uma nota final. As Artes afirmam-se pela prática e pelo exemplo. Hoje, devo lembrar a memória de um jovem músico da Orquestra Gulbenkian, Pedro Freire, que nos deixou na flor da idade sem que alguém pudesse prever. Fica o seu entusiasmo e a sua extraordinária qualidade a demonstrar que o culto das Artes está no princípio de tudo.


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 27 de maio a 2 de junho de 2024


Ao terminar em 23 de maio a celebração do centenário do nascimento de Eduardo Lourenço, a Gradiva acaba de publicar “Eduardo Antes de Ser Lourenço – Textos de Juventude” coordenado por Luciana Leiderfarb, um conjunto dos primeiros textos do ensaísta.

 


Falaremos oportunamente da obra, assim como da nova edição de “Do Colonialismo como nosso Impensado” – com organização de apresentação de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi. Hoje publicamos parte de um ensaio sobre a relação do ensaísta com Antero de Quental no período de Vila do Conde vivido pelo poeta.


«Aqui as praias são amplas e belas e por elas passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz». É Antero que o confessa a João de Deus, em 13 de janeiro de 1882. Desde os finais do ano anterior mudara-se ao encontro de paz, sossego e da proximidade dos seus amigos mais próximos. «Fixei atualmente a minha residência em Vila do Conde, terrinha antiga, plácida e campestre, muito ao sabor dos meus humores de solitário» - diz a João Machado de Faria e Maia. «Vivo aqui como um verdadeiro ermita» (2 de janeiro). Sentia-se bem e confessara a Jaime Batalha Reis, nos últimos dias de outubro de 81: “Eu aqui consigo uma coisa rara, prodigiosa: dormir. Faço-o como se fosse a coisa mais natural deste mundo! Veja se não hei de considerar esta terra, além de maravilhosa, salvadora».


De facto, na vida de Antero, há um tempo e um “espírito de Vila do Conde”, que merece atenção especial. E se a relação de Eduardo Lourenço com a memória de Fernando Pessoa é especialmente relevante, a ponto de podermos dizer que é a descoberta do mistério fundamental dos heterónimos um dos maiores contributos do ensaísta para o conhecimento do modernismo português no seu conjunto, o certo é que há com Antero de Quental um elo incindível que ilumina todo o fascínio que a obra do autor de Psicanálise Mítica do Destino Português nos reserva. É, realmente, o poeta de Odes Modernas que constitui referência fundamental para o entendimento da raiz de Heterodoxia, o que leva entender-se justamente que Eduardo Lourenço é um herdeiro legítimo da Geração de 70.  Como, aliás, está afirmado e reafirmado, há uma presença indelével do tema matricial das Causas da Decadência dos Povos Peninsulares, nas duas visões complementares que o ensaísta considera, a da segunda Conferência do Casino de Antero e a da releitura de Oliveira Martins na História da Civilização Ibérica. Com efeito, podemos dizer que a marca desses dois textos está claramente presente quando Eduardo Lourenço se demarca de uma interpretação tradicional da cultura portuguesa, marcada a um tempo pelos ecos das glórias antigas e pelo peso do decaimento moderno. No fundo, reinterpretando Antero e Oliveira Martins, Eduardo chega a um enigma subjacente à Mensagem segundo o qual o destino português está marcado pela revelação crítica dos mitos, marcados pelos dois textos. Se o Fernando Pessoa não esconde a importância que reconhece à herança poética de Antero, deixa na penumbra a influência de Oliveira Martins na interpretação deste relativamente ao auge da afirmação histórica da dinastia de Avis e de Os Filhos de D. João I. E Eduardo Lourenço não tem dúvidas de que na Mensagem, a matriz fundamental utilizada por Fernando Pessoa corresponde à leitura que fez do autor da História da Civilização Ibérica. Como diz Eduardo Lourenço: “Em sentido próprio só com Oliveira Martins e a partir de Oliveira Martins, Portugal é história e tem a sua História. À perceção do destino português como ‘epopeia’ (transcendente ou positiva), Oliveira Martins opôs a ideia do nosso destino como ‘drama’ permanente e ambíguo. A integração do ‘mito’ no discurso histórico separa o grande Herculano, homem ainda do século XVIII, de Oliveira Martins, o autêntico romântico. Paradoxalmente, contudo, o discurso histórico do autor de Portugal e o Socialismo se tem o mérito de integrar a sombra no processo épico da visão tradicional, confere-lhe, por outro lado, um perfil fantasmagórico ao separar na escrita dele o plano vital e psicológico do plano material que condiciona o permanente balancear entre euforia e tragédia característico, segundo a sua visão, da nossa peripécia nacional” (Prefácio a Oliveira Martins, Uma Biografia, INCM, 1986, pp 16-17).


Sabemos a importância do período de Vila do Conde e não será demasiado audacioso dizer que, não por acaso, esse momento marcou especialmente a relação entre Eduardo Lourenço e o poeta de Sonetos. Sem sombra de saudosismo, o ensaísta encarou o tempo de Vila do Conde de Antero como uma oportunidade serena, de modo a pensar o inconformismo como atitude necessária, ditada pela tensão entre transcendência e imanência. Por isso, o ensaísta lembra que há entre Antero e Pessoa uma diferença intransponível, entre os sonhos sonhados e as frustrações que os acompanham. “Foi na vida mesma – na sua e na da sociedade que o cercava – que Antero quis realmente encarnar os seus sonhos, não seus apenas, mas os de uma longa utopia humana, sonho de igualdade, de justiça, de fraternidade, todos muito século XIX, que nunca foram – se não ironicamente os de Pessoa. Os sonhos de Pessoa foram, desde a origem assumida e provocatoriamente sonhos, de negação ou viagem numa outra realidade, que aquela que assim chamamos, loucura calma ou arrebatamento proposto como a sabedoria suprema. Como se tivesse nascido, e de facto teve consciência disso, sobre as ruínas do sonho anteriano que mesmo utopia de vida era já a consumação de um desastre (A Noite Intacta, pp. 140-141).


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 20 a 26 de maio de 2024


A décima quarta edição de “Bibliotecando em Tomar” constituiu mais uma vez uma excelente oportunidade para um debate sobre ideias bem como sobre livros e leitura no tema “Hospitalidade e Hostilidade”.


Maio traz-nos “Bibliotecando em Tomar”. É sempre uma emoção regressarmos às ideias que os livros nos trazem. Este ano ocorreu a décima quarta edição do certame e sentimos intensamente a força da língua portuguesa como expressão viva da comunicação entre culturas que partilham um mesmo idioma. A escritora homenageada este ano foi Ana Paula Tavares e sentimos o calor da sua palavra e do seu afeto, lendo e relendo os seus textos, desde a poesia de Ritos de Passagem até às crónicas amargas e doces de O Sangue da Buganvília, onde sentimos que “somos cada vez mais como as buganvílias a florir em sangue no meio da tempestade”. O tema escolhido para esta edição não poderia ser mais apropriado: “Da hostilidade à hospitalidade – Um Caminho de Paz”. A proposta definida há um ano e anunciada por Agripina Carriço Vieira revelou-se de uma atualidade perturbante. As incertezas, os medos, a violência e o ressentimento assaltam o mundo a cada passo, com uma intensidade inequívoca. O étimo comum das duas palavras, de origem indo-europeia, serviu de mote a uma reflexão séria que obriga a pensarmo-nos como seres humanos com sentimentos contraditórios na relação com os outros. O hóspede e o hospedeiro (host) encontram-se a natural tensão entre quem é recebido e quem recebe, num contexto de surpresa e perplexidade. Com afirma a escritora angolana: “A guerra, o abandono e a fome são o pano de fundo de seres que a terra mãe nem sempre adotou como devia. (…) O rosto mais visível da devastação e da guerra tem olhos de criança, tão grandes e espantados como os símbolos solares das pinturas rupestres mais antigas”. E a presença de Ana Paula Tavares permitiu demonstrar a importância do humanismo no diálogo entre culturas diferentes que se confrontam e completam. 


Carmen Tindó Secco e Tania Macedo trouxeram-nos, nesta perspetiva, uma leitura da obra de Ana Paula Tavares assente no apelo permanente a uma fecunda e complexa diversidade, incompatível com qualquer simplificação, desde a arqueologia da vida e da palavra até a um rico universalismo angolanamente sentido. E, na roda do oleiro, a argila amassada simboliza o húmus donde deriva a humanidade. Assim, a reflexão filosófica de José Gil colocou-nos perante o que Derrida considera ser a tensão permanente entre a hospitalidade incondicional e a hospitalidade absoluta, quando entra no nosso desejo o desejo do outro ou quando convertemos o desejo da morte (e da destruição) em desejo de convívio. De facto, a relação entre o hóspede e o hospedeiro é sempre ambígua – porque o estrangeiro é recebido como hóspede ou como inimigo, mercê da desconfiança perante a chegada do outro. E o certo é que a paz perpétua de Kant torna-se irrealizável, abrindo caminho à necessidade de repensar o sistema de relações entre pessoas e culturas, no que podemos designar como reforma profunda da democracia, que permita respeitar as diferenças. Afinal, o outro ao chegar a um novo lugar muda o seu desejo. O hóspede (guest) é refém de quem o convida, tornando-se convidador do convidador, ou seja, o hóspede (host) torna-se o hospedeiro do hospedeiro. E o estrangeiro cristaliza a simbolização o outro. Afinal, todos os homens e mulheres tornam-se estrangeiros, e somos levados a agir perante os outros segundo essa consideração hipotética. Ser amável para com o estrangeiro será assim ser amável para com qualquer pessoa com a qual podemos encontrar-nos. E a hospitalidade revela-se vital como remédio eficaz contra a hostilidade. Estaremos sempre em dívida para com o outro quando o encontramos e a hospitalidade comum jamais é suficiente, tendo de ser analisada na perspetiva da hospitalidade absoluta e da hospitalidade incondicional. E José Gil põe-nos perante o dilema permanente entre os dois termos da situação. Eis como uma aparente contradição assume a naturalidade da imperfeição humana, num contexto de imanência que obriga a cuidar da vontade e da determinação na recusa da indiferença e no compromisso sempre incompleto entre seres humanos livres e iguais em dignidade e direitos.


E ao longo das reflexões que nos foram oferecidas em Tomar em dias de intensa reflexão foi possível afirmar o que José Carlos Seabra Pereira, neste ano de Camões, generosamente, voltou a considerar sobre A Cultura como Enigma, colocando os livros e as bibliotecas na encruzilhada entre as diferentes gerações da humanidade, numa comunicação mágica entre nós e os autores que lemos e ouvimos, que se projeta para além da passagem momentânea do tempo. E poderíamos ouvir, de novo, Ana Paula Tavares a dizer “Não posso escorregar na emoção fácil que a saudade e a distância criam”. De facto, o grande enigma desse grande caleidoscópio que é a cultura e a arte exprime-o Dante no termo da jornada paradisíaca: “ânsias e vontades era a movê-las, já como roda por igual movida, / o amor que move o sol e as mais estrelas”… E celebrar Camões significa compreender a nossa cultura antiga, cujas raízes nos conduzem à atualização permanente e a uma noção de património vivo. E nada melhor do que o prolífero autor de uma lírica inesgotável e atualíssima, duma dramaturgia bem presente e de uma épica que nos faz reviver uma aventura coletiva que ombreia com Homero e Virgílio, com Ulisses e Eneias, para podermos entender o cerne desse enigma inconfessável da cultura. Centrado no triângulo essencial Educação, Ciência, Cultura, “Bibliotecando” pôde ouvir ainda em diálogo vivo os testemunhos de Eduardo Barroso, Pedro Simas e Sandra Barão Nobre pondo a tónica na experiência inesperada de uma humanidade que se confrontou num tempo relativamente curto com uma crise financeira, a ilusão de uma riqueza aparente, e uma inesperada pandemia, com um confinamento longo e angustiante e o surgimento de vacinas eficazes, tudo isso seguido da ocorrência de uma guerra que parece multiplicar-se e da emergência de um populismo que ameaça a racionalidade, a ponderação e a reflexão. Todavia, se a paz perpétua de Kant parece distante – o diálogo entre as culturas revela-se urgente, como bem deixaram evidente, num rico encontro sobre o primado da humanidade, Ana Paula Tavares, João de Melo e Alice Neto de Sousa. E correndo as palavras como as cerejas Ricardo Cruz, Álvaro Laborinho Lúcio, Alexandre Castro Caldas interrogaram-se oportunamente sobre a Inteligência Artificial e o progresso científico. Graça Capinha e Joaquim Arena falaram sobre a Língua como espaço necessário de encontro da Humanidade; além da participação de Marco Daniel Duarte, Rita Gaspar Vieira, Afonso Seixas-Nunes, Isabel Baltazar e Vasco Becker-Weinberg numa convergência da sensibilidade, da arte e da espiritualidade, na vivência da ideia que a Biblioteca mais intensamente nos traz – a conexão entre criatividade e a capacidade de compreender.     


Guilherme d'Oliveira Martins
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PORTUGAL EM BUENOS AIRES


Conta Jorge Luis Borges que o velho antiquário Joseph Cartaphilus, de Esmirna, ofereceu em Londres, no ano de 1929, à célebre manequim Princesa Marie Liliane de Faucigny-Lucinge, símbolo do exotismo da moda dos anos vinte, os célebres seis volumes da Ilíada de Alexander Pope (1715-1720). Cartaphilus era um poliglota reconhecido que rapidamente usava o inglês e o francês, cultivando também o ladino, numa conjugação enigmática do espanhol de Salónica com o português de Macau, não se sabe porque bulas… Ao regressar a Esmirna, o experimentado mercador morreu tragicamente no mar e o seu desaparecimento muito impressionou a lendária princesa que, entretanto descobrira maravilhada no último tomo da extraordinária edição de Pope, entre as descrições finais das cerimónias fúnebres dos heróis de Tróia, um estranho manuscrito sobre uma visita à Cidade dos Imortais, metáfora do mundo, dédalo edificado por deuses enlouquecidos como um labirinto sem saída, representando um momento sem memória, sem tempo, gerador de uma linguagem sem substantivos, feita de verbos impessoais e de epítetos indeclináveis. Em determinado passo, porém, um laivo de humanidade surge representado por Argos, o cão de Ulisses, como o cão das lágrimas de Saramago, anunciando um tempo em que na memória se desvanecem as imagens, para apenas ficar o rasto indelével das palavras…


Vem à lembrança o célebre conto de Borges “O Imortal” a propósito da iniciativa que tem lugar na Biblioteca Nacional da Argentina, dirigida pelo autor de Aleph entre 1955 e 1973, integrada na Feira Internacional do Livro de Buenos Aires, que tem Lisboa como cidade convidada, com curadoria de Carla Quevedo, compreendendo noventa eventos e a presença de uma importante delegação de escritores portugueses. Falo em especial de uma exposição singular de Livros de Artista e Edição Independente pertencentes à coleção da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian. A mostra é fascinante, uma verdadeira explosão de criatividade, com coordenação de João Vieira e Ana Barata, sendo composta por uma seleção de 40 exemplares de livros de diferentes tipologias, formatos e materiais. Aí estão presentes Alice Geirinhas, Ana Hatherly, E. M. Melo e Castro, José Escada, Julião Sarmento, Lourdes Castro, Pedro Calapez, René Bertholo, entre outros. A coleção de Livros de Artista e Edição Independente começou em 1990 e é hoje a maior e a mais relevante deste tipo em Portugal, contando já com cinco mil títulos que refletem a criação artística nacional a partir da década de 1960. De facto, os Livros de Artista ocupam um espaço muito importante e inesperado na criação contemporânea e permitem abordagens plásticas experimentais, com formas diversas de leitura e fruição, multidimensionais e até interativas. Trata-se de uma experiência surpreendente e muito rica que foi explicada por Ana Barata na conferência “Quando a Arte e o Livro se ilimitam: notas para uma definição de Livro de Artista”. É um verdadeiro deslumbramento o que podemos usufruir na casa que foi de Jorge Luís Borges, constituindo um elogio vivo da criação artística enquanto memória viva.


Lídia Jorge disse, aliás, em Buenos Aires, o essencial, que não pode ser esquecido. “Há uma espécie de luta, na sociedade contemporânea, para que a memoria não passe. As pessoas têm medo das autocracias, mas os que as querem parecem unidos. E lembrou que o seu romance Misericórdia é um livro sobre a resistência, perante uma espécie de anel, à volta do mundo, daqueles que são contra a democracia”. Nos cinquenta anos da restauração democrática em Portugal, a voz dos artistas portugueses na Biblioteca Nacional da Argentina é um sinal de resistência para que a cidadania não seja palavra vã e não prevaleçam as tiranias absurdas, os verbos impessoais e os epítetos indeclináveis.


GOM

CRÓNICA DA CULTURA

  


Era um livro-coto.

Um livro muito interrompido.

Faltavam-lhe muitas páginas. A que se podia pressupor como última nunca existira. A primeira, se a considerarmos como página escrita, era, na realidade, uma nota dispersa, e muitas das restantes continham narrativas que se interrompiam constantemente como se se tivessem deparado com uma outra força maior.

Era um livro-coto.

Importa explicar o poder que desde logo exercia aquele livro-falho sobre mim.

Era um livro que de imediato abria caminho à estranheza. Era um livro-desafio. Um livro que incitava às inquietações. Era afinal um completo livro-viagem.

Tive a certeza de que ao tentar cifrá-lo me entregava a um compromisso que poderia não compreender.

Mas tinha um plano para aquele livro. E fui progredindo numa narrativa que me levava a recordar que o trabalho não tem sempre forma conhecida, e que se alteram formas de verbos e se transportam textos até para outros já escritos ou para outros que nem existem.

Pois é.

Assim fui avançando como discípula de uma aula de nascimento.

O livro, e eu nele, assegurava-me a um tempo o visível e o invisível, labirinto que me ocultava a chave e com ela a possibilidade da decifração última do meu descobrir e do meu dizer.

E por entre assédios e dúvidas, precipitei-me numa circularidade.

Foi a minha natureza a lidar com o impasse a que chegara.

De súbito, quase leitora e quase narradora e quase escritora, dei-me conta que o livro-coto era uma casa de lavoura com um rebanho de filhos e terrenos pastados, a uma hora de todas as serras e mares e bestas e dores e trabalhos e beijos e céus e colheitas e pavios-lamparinas que sempre seguraram ilusão e esperança, enquanto o azeite, o azeite do livro-coto procurava sem fim escorar um ponto.

                                                         *

Um dia, passados anos, voltei a abrir o livro-coto.

Senti-o amável e silencioso como os sábios.

Nada a provar.

O mundo da literatura, revisitação de nós próprios, rasto naquele que viu, memória do ter visto ou intuído em páginas lidas, ou escandalosamente não escritas e ainda assim.


Teresa Bracinha Vieira

PAUL AUSTER (1947-2024)

  


P.A.

O desejo de retomar sempre uma ideia literária do momento decisivo e levá-la a cabo.

P.A.

O admirável mundo dos seus livros fez e fará reconhecer o enorme empreendimento da literatura.

P.A.

No ensaio “Why write” e a necessidade de um lápis, deixou-nos o claro significado de tudo e da absurdidade.

Em cada teu livro, entre princípio e fim,

tu em nós.


Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

  

De 6 a 12 de maio de 2024


A publicação da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego (Gulbenkian, 2024), constitui um acontecimento assinalável.



A publicação na coleção dos clássicos da Fundação Calouste Gulbenkian da obra de Jürgen Habermas Uma Outra História da Filosofia – I – A Constelação Ocidental da Fé e do Saber, com tradução de José Lamego, constitui, de facto, um acontecimento assinalável, incompatível com uma apreciação superficial de algo profundamente pensado pelo seu autor, que é hoje “indubitavelmente o filósofo alemão com maior projeção e o modelo, por excelência, do ‘intelectual público’ intervindo regularmente na imprensa”, com participação marcante nos principais debates sociais e políticos. Ao pôr mãos à obra na História da Filosofia, começa por se perguntar que sentido têm hoje as bem conhecidas perguntas de Kant: “Que posso saber?”, “Que devo fazer?”, “Que me é permitido esperar?” e “O que é o homem?”. E confessa não estar seguro sobre se a filosofia, tal como a conhecemos, ainda tem futuro. “Tal como todas as disciplinas, a filosofia segue a tendência de um acréscimo contínuo de especialização”. Nuns casos presta serviços analíticos e conceptuais para as ciências cognitivas, noutros há uma fragmentação perante a crescente necessidade de aconselhamento nos campos da economia, da bioética e da ética ambiental.  Ora, se para as ciências em geral a especialização corresponde a um progresso, para a filosofia não pode perder-se a visão de conjunto. Ora, ao dirigir-se ao todo, a filosofia não pode aspirar a uma visão metafísica nem a uma perspetiva científica. “A questão que me move (diz Habermas) é a de saber o que restaria da filosofia se ela (…) não procurasse contribuir para o esclarecimento racional da compreensão que temos quer de nós próprios, quer do mundo – esta disjunção sublinha precisamente a temática que, com o avanço da especialização, ameaça acabar por se desvanecer”. E assim o acréscimo do conhecimento do mundo exige a referência ao todo, evitando tentar saber mais sobre cada vez menos.


A FILOSOFIA COMO COMPREENSÃO
A filosofia não pode resignar-se perante a crescente complexidade da nossa sociedade e do nosso conhecimento, devendo encorajar os nossos contemporâneos a fazerem o uso autónomo da razão para terem um papel positivo no moldar da sua existência social. Como usar a nossa liberdade racional? Para Habermas, a filosofia apenas pode assegurar a independência do seu julgamento mediante uma autorreferência de natureza histórica – assumindo uma configuração pós-metafísica, segundo a qual a emancipação com vista ao uso da liberdade racional significa ao mesmo tempo, libertação e vinculação normativa. “O afastamento pós-metafísico da crença numa justiça redentora ou ‘salvífica’ permite ter em conta a disponibilidade para a cooperação que os sujeitos socializados em termos comunicacionais devem esperar com vista a fazerem o uso da sua liberdade racional”. Eis a preocupação que ocupa o filósofo nesta sua reflexão panorâmica sobre a fé e o saber, na procura de um fio condutor para encontrar a genealogia de um pensamento pós-metafísico, que mostre como a filosofia se apropriou de conteúdos essenciais das tradições religiosas e se transformou num saber suscetível de fundamentação. Importa, assim, assumir uma atitude de abertura e de diálogo, envolvendo a fé e o saber, com disponibilidade para uma aceitação recíproca de pontos de vista. Daí a demarcação de uma atitude secularista esclerosada, urgindo um diálogo como o que o filósofo entabulou com Johann B. Metz, com evidentes frutos positivos. E essa perspetiva genealógica obriga não apenas a evidenciar as circunstâncias contingentes, a que conduziram os processos de aprendizagem, mas também a insistir nos argumentos a favor de um conceito compreensivo da razão.


UM PENSAMENTO PONDERADO
Este volume de uma obra longamente ponderada pelo autor, começa por equacionar a questão da genealogia do pensamento pós-metafísico, formulando os cenários de crise e do declínio das grandes teorias filosóficas do século XX, até à pretensão de universalidade do pensamento pós-metafísico, continuando na análise das raízes sacrais das tradições do “período axial” de Karl Jaspers – ou seja, o eixo em torno do qual a rotação da história universal como que se acelerou, cerca de 500 a.C., com inerente transformação da consciência religiosa. Daí a necessidade de uma comparação provisória das imagens do mundo nesse período axial, prosseguindo na análise da simbiose da Fé e do Saber no Platonismo cristão e do surgimento da Igreja Católica Romana e da diferenciação progressiva entre Sacerdotium e Regnum, com os desafios colocados por Aristóteles à teologia do século XIII, com as respostas de Tomás de Aquino e a ontologização da ética aristotélica, com consequente transformação da filosofia prática. E o presente volume culmina com as reorientações filosóficas conducentes à modernidade científica, religiosa e político-social. Duns Escoto introduz a mudança de paradigma e Guilherme de Ockam opera a “revolução nominalista”, aproximando-nos da teoria funcionalista do poder estadual, representada por Nicolau Maquiavel, preocupado com a unificação italiana e por Francisco de Vitória com a necessidade de aperfeiçoar a legitimação. Para Maquiavel, com base no exemplo da República Romana, importaria considerar a convergência entre a estabilidade do poder e as qualidades do Estado, da sociedade e da população suscetíveis de legitimar o regime republicano. Este, para ser virtuoso, não depende da liberdade, da moralidade, da razão política dos cidadãos, mas da estabilização das instituições. Deste modo, os problemas da legitimação são subalternizados em relação aos problemas de estabilização do poder. Maquiavel negligencia, porém, a relação entre o poder político e o direito. Mas dois acontecimentos vão obrigar a reequacionar o pensamento jusnaturalista cristão: a chamada guerra dos camponeses e a inclusão colonial de povos pagãos.


UMA EVOLUÇÃO RICA
A guerra dos camponeses representa para o Império, para os territórios dos príncipes locais e para os domínios eclesiásticos o prelúdio da dissolução do poder temporal da Igreja, com passagem do domínio fundiário senhorial para as relações jurídicas modernas e para o direito à propriedade privada. Já Francisco Vitória afirma em De Indis que os “bárbaros”, se antes da chegada dos espanhóis tinham o dominium sui et rerum, não lhes poderia ser negado o direito de disporem livremente de si e das suas propriedades, devendo ser considerados pessoas jurídicas autónomas, não havendo o direito de os subjugar, devendo a fé cristã ser livremente assumida com base na convicção. Antecipa-se, deste modo, o conceito moderno de autonomia individual. Por isso, haveria que favorecer compromissos devidamente esclarecidos. No entanto, haveria que justificar a legitimidade do poder colonial, pelo que, forçando a nota, a guerra e a submissão colonial acabariam por se justificar pela resistência à incorporação dessas comunidades no sistema de domínio colonial… Habermas dá-nos, assim, nesta obra fundamental, uma visão compreensiva da evolução da filosofia contemporânea como fator de autonomia e de responsabilidade.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  
De 29 de abril a 5 de maio de 2024


Neste ano de Camões, em que assinalamos a comemoração dos 500 anos do nascimento do nosso maior poeta, iniciamos a publicação de textos que pretenderão dar a conhecer melhor uma figura que os portugueses conhecem mal, em toda a sua importância e originalidade. Deste modo, mais do que repetirmos o que tem sido dito, pretendemos dar ao grande poeta o lugar a que tem direito na língua comum falada por duas centenas e meia de cidadãos do mundo.
 


Camões é um todo inesgotável que, se soubermos lê-lo, nos enche de ventura, não sendo por acaso símbolo pátrio. A sua obra multifacetada está na encruzilhada das grandes componentes culturais das nossas letras. A lírica é inultrapassável, na tradição trovadoresca, a épica ombreia com a melhor tradição clássica, e todos os géneros que o autor pratica são seguramente cultivados, sempre com mestria. E até o fino humor é usado com a melhor ironia, como no delicioso episódio de Fernão Veloso… Não admira o verdadeiro culto que lhe votava Jorge de Sena, sempre com tão exigentes critérios de julgamento. Vítor Aguiar e Silva e Vasco Graça Moura demonstram a suprema valia, a cada passo verificável. Infelizmente a leitura de Camões não tem sido servida pela melhor pedagogia. Seja na lírica, seja na épica, devemos procurar entrar pela porta grande. Basta ler com olhos de ver e sem tentações formalistas. Com sólida formação e conhecimento da vida e do seu tempo, embrenhou-se não só na existência comum do seu tempo, mas também na cultura greco-latina como nenhum dos nossos escritores e, segundo Rodrigues Lapa, teve “a felicidade de viver e ser criado num tempo excecional, em que as disciplinas humanísticas, trazidas até cá por grandes professores, florescia entre nós intensamente”.


Oiçamo-lo: “Busque Amor novas artes, novo engenho, / para matar-me, e novas esquivanças; / que não pode tirar-me as esperanças, / que mal me tirará o que eu não tenho…”. São inesgotáveis a força, a sensibilidade, o ritmo, o génio, a arte, tudo…  Luís de Camões em “Os Lusíadas” apresenta e representa a maturidade poética da língua portuguesa. Toda a obra do épico constitui, assim, oportunidade para lidarmos com uma riquíssima convergência entre os maravilhosos pagão e cristão, servidos pelo domínio exemplar da palavra e da imagem. Só um humanista completo poderá dar-nos o que nele encontramos. Deveremos, por isso, ler Camões nos seus momentos mais marcantes. Centremo-nos em “Os Lusíadas”, poema que se divide em 10 cantos, compostos em oitava rima, totalizando 8.816 versos, na chamada medida nova, predominando os decassílabos heroicos, com a 6ª e a 10ª sílabas tônicas.


“Os Lusíadas” têm cinco partes, segundo a tradição clássica: Proposição, Invocação das Tágides, Dedicatória ao Rei D. Sebastião, Narração e Epílogo. A narração compreende três ações: a viagem de Vasco da Gama, a narrativa da história de Portugal e as intervenções dos deuses do Olimpo. Nos Cantos I e II, narra-se a introdução e o Concílio dos Deuses, para deliberar sobre o destino dos novos Argonautas. Baco é crítico dos portugueses, Vénus e Marte, tomam a sua defesa, com a concordância de Júpiter. Vasco da Gama está no Índico, próximo de Moçambique. Baco, inconformado, instiga o governador de Moçambique contra os portugueses e põe a bordo um falso piloto, mas graças a Vénus, às nereidas, a Mercúrio e à coragem de Gama, os portugueses chegam a Melinde. No Canto III, começa o relato ao rei Melinde da história de Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa” e das origens, de Viriato, da Reconquista, da Primeira Dinastia, da Casa de Borgonha, de Ourique até à morte de Inês de Castro. No Canto IV, prossegue a narrativa, fala-se da revolução de 1383, de Nuno Álvares Pereira, de Aljubarrota, do Mestre de Avis, de Ceuta. E começam os episódios do início da viagem. D. Manuel sonha com os rios Indo e Ganges, a profetizarem sucessos e perigos no Oriente, e pede a Gama que monte a esquadra para concretizar a visão, mas na partida, o velho Restelo previne contra a “glória de mandar e a vã cobiça”. No Canto V, Gama fala do Cruzeiro do Sul, do fogo-de-santelmo, até ao citado relato picaresco do Fernão Veloso. No Cabo das Tormentas, o Adamastor simboliza a superação do medo.  No Canto VI, Baco desce ao palácio de Neptuno e incita os deuses marinhos contra Vasco da Gama, mas Vénus intervém. Veloso entretém os companheiros com a narrativa cavalheiresca dos Doze de Inglaterra. E os navegadores avistam Calicute. Nos Cantos VII e VIII, o samorim determina que o governador receba Gama, que o visita e oferece a amizade dos portugueses. Paulo da Gama esclarece o governador acerca do significado das figuras desenhadas nas bandeiras e conta os feitos dos heróis da pátria. Mas os muçulmanos intrigam, Gama é preso e tem de negociar a liberdade, em troca de mercadoria. Nos Cantos IX e X, depois de diversos incidentes, o samorim ordena que a armada possa levantar ferro e iniciar o regresso. E temos o longo episódio da Ilha dos Amores, já que Vénus decide premiar os navegadores numa ilha paradisíaca. O epílogo do poema contém as lamentações, num tom de desabafo, de Camões por todas as incompreensões sofridas. Mas fica a reflexão sobre a exigência da porfia e do trabalho aturado para se alcançarem os sucessos necessários. Não por acaso, Camões inicia o poema épico citando o início de “A Eneida”: “Arma virumque cano, Trojae qui primus ab oris…”. E, como em Dante, é sob a invocação de Virgílio que se trata o tema sublime relativo à essência da vida humana… Mais do que símbolo pátrio, “Os Lusíadas” apresenta-se, na linha dos grandes clássicos como uma obra sobre o caminho da humanidade no sentido da emancipação e do aperfeiçoamento.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença