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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

ESTE LIVRO É UM CORAÇÃO QUE O ESCREVE EM JEITO DE ORAÇÃO.

 

Ela, como ninguém, ensinou-me a importância de exercitar a gratidão.
Ela, como ninguém, mostrou-me que é o facto de esperarmos um destino comum que nos faz cúmplices e irmãos na aventura do caminho.»
Filipe Condado

 

José Tolentino de Mendonça e Filipe Condado atentos ao parto da alma de Etty Hillesum, porque se vive sempre e primeiro por dentro; porque a reconciliação é o pré parto que expele qualquer ódio que mine o entendimento da vida espiritual, porque se o desejo desta for identificado e abraçado pela única porta que nos conduz a nós e aos outros: então saberemos que nos referimos ao amor; então julgo que sei um pouco do itinerário deste livro.

 

Emocionou-me profundamente a leitura deste livro: os excertos do diário de Etty, as fotografias e as palavras de Filipe Condado, as palavras de Tolentino.

 

Este livro propõe um horizonte que não se esgota através do humano, mas por aí encontra a sua expressão/mediação de chegar lá onde e aonde se trabalha espiritualmente a vida, sobretudo para nela confrontarmos os pontos dolorosos, quantas vezes vividos na nossa família (não se escolhe lugar onde se nasce, nem pai nem mãe, nem outros pontos de partida) que nos condicionaram o sonho de muitos modos, e até nos fizeram sentir abandonados, ou, como diz Etty ao falar de casa

É tragicómico, não sei que tipo de casa é esta, mas aqui uma pessoa não progride.

 

Esta substância aniquiladora, da qual se apercebe Etty insinua-se sólida na sua vida e ela receia que prisioneira, perpetue aquela mistura de barbarismo e cultura, espécie de qualquer coisa que era, sem nunca ter sido, e, no entanto fora.

 

Talvez a partir daqui, por um caminho ou outro, comecemos um começo sem fugirmos de nós, e escutando-nos, até que nessa escuta caiba a nossa vulnerabilidade, a nossa necessidade de aperfeiçoamento a cada hora, a fim de expelirmos a tal

Tralha humana e matagal manhoso

que temos em nós, se não passarmos também da cabeça para o coração como diz Spier a Etty.

E tudo isto com a ajuda do silêncio.

 

Só o silêncio nos aproxima a pergunta: quantas pessoas existem em cada um de nós? Creio que pergunta semelhante aproximou Etty Hillesum a um caminho com Deus; um caminho, o tal caminho muito encostadinho ao seu íntimo, tão encostadinho que lhe confiava um calor de xaile de mãe, um calor que a apaziguava consigo mesma.

 

A partir desta conciliação, interpretei, abre-se sempre uma vastidão apta há muito! A tanto! que até o que nos ensina a ocupar-nos dos outros é o mesmo que se ocupou da nossa mão e nos disse de algum modo que

Existe algo de «Deus» na Nona de Beethoven.

 

Surge-me uma Etty Hillesum que se não quer perder em constantes campos de batalha; uma Etty que deixa o umbigo para espreitar um tantinho de eternidade, outro tantinho dentro dela que é a intuição de encontrar uma sabedoria que a faça pessoa, e não um conhecimento que lhe aporte poder.

 

E este livro também se pode ler abrindo-se em qualquer página. E este livro também se lê só vendo os desenhos; e este livro é uma preciosidade contra o medo e não o simplifica, antes o sossega: eis a tranquilidade.

 

Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez nem haja tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros de um campo.

 

O campo de concentração: o trabalho do espírito a enfrentá-lo de dentro para fora.

 

Lembrei-me que se torturam barbaramente os elefantes para lhes retirarem o espírito, isto é, para os subjugar e humilhar pela dor, faze-los ceder, desaparecer de si. Mas como fazer sumir no ar as humilhações no campo de concentração? E Etty escreveu

Esta manhã desfrutei do vasto céu (..). Diria eu que Etty nos propõe o céu total, mesmo que visto por uma brecha minúscula.

 

E chega outra proposta de pensamento: será que o maior roubo que nos é feito, é feito por nós próprios? Se assim for é necessário o despojamento material e de aparência, para melhor vivermos uma vida em cada dia, uma vida na posteridade, e dentro dela, acolhe-se então, simplesmente, a morte.

 

Etty deixou de estar revoltada, mas resignada nunca! Foi capaz, sim, de tirar energia do sofrimento e como escreveu

A partir de agora vou extrair o essencial de tudo com o meu espírito e guardá-lo para tempos de vacas magras.

 

Se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar a Deus.

 

Saberemos todos os caminhos que em nós se abrem ao entendimento da condição humana? Da sua índole? Saberemos nós perdoar-nos para que possamos perdoar os outros?

 

Saltam-me os poemas à memória, e todos eles sabem que à beira do morrer se descobre a paz da vida, e na mochila que connosco há-de partir em frutos e cereais vocacionados ao indizível sossego, digo, que mesmo que expressão alguma de desgosto humano não me seja alheia, que o absoluto possa conter em si o bem e o mal

Uma pessoa deve ser a sua própria pátria

e estar preparada para todos os inícios, acrescento, mesmo que eu não saiba como, mesmo que esteja eu num descampado de mim, saiba a minha mão por ela, que a estendo para ti.

 

Teresa Bracinha Vieira

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

O MITO DE SÍSIFO _ DE ALBERT CAMUS.jpg

 

"O MITO DE SÍSIFO" DE ALBERT CAMUS (XIX)

Albert Camus (1913-1960), Prémio Nobel da Literatura de 1957, representa uma das referências fundamentais do existencialismo. Com uma obra rica e multifacetada, o escritor franco-argelino foi, pela liberdade de espírito e pela orientação libertária, aquele que, na sua geração, melhor pôde corresponder à superação do espírito do tempo. Foi profundamente criticado, quando publicou “O Homem Revoltado” (1951), por não se ter eximido a criticar o que alguns consideravam tabu, no contexto da guerra fria, mas o tempo veio a confirmar plenamente a compreensão que teve em relação ao risco da tentação totalitária, que existia e poderia aparecer onde menos se esperaria…

Camus disse que o império dos homens pode desvirtuar os objetivos justos, pela cegueira do poder. Todavia, a culpa dos crimes feitos em nome desse império não é da revolta, mas sim a fuga e o esquecimento relativamente às razões da rebelião. A evolução da história contemporânea demonstrou que Camus estava na razão, tendo compreendido os riscos da ilusão sobre a infalibilidade da justiça.

O “Arquipélago de Gulag” e sobretudo o que se lhe seguiu vieram dar razão a Camus, não porque ele nos tivesse dado uma chave de interpretação, mas porque abriu, pela liberdade crítica, perspetivas para uma análise objetiva dos acontecimentos.

No ensaio “O Mito de Sísifo” (1942), escrito em plena grande guerra, o tema central é o absurdo, considerando o homem em busca de sentido num mundo ininteligível, na linha do pensamento de Nietzsche. Será que o absurdo conduz ao suicídio? “Não” - responde o escritor - “Obriga à revolta”. E compara o absurdo da vida do homem à situação de Sísifo, figura condenada a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o cimo de uma montanha, sendo que, uma vez alcançando o topo, a pedra rolava montanha abaixo até ao ponto de partida pela força irresistível da gravidade, destruindo todo o esforço despendido. Sísifo (como acontecera a Prometeu) desafiou os deuses e foi condenado para toda eternidade, a empurrar a pedra até o topo; e a ter de começar tudo de novo, vezes sem conta. Sísifo é, assim, o ser que assume a vida no máximo das suas possibilidades, odeia a morte e, por isso, é condenado a uma tarefa sem sentido, como herói absurdo. Camus apresenta, assim, a grande metáfora da vida moderna, em que “o operário de hoje trabalha todos os dias na sua vida, repetindo as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico porque só em raros momentos se torna consciente".

Contudo, para Camus, também há o absurdo criador ou do artista. E o absurdo da arte encontra-se com a experiência do mundo e com a existência de cada um de nós. “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”. E Camus lembra Dostoiévski e “Os Irmãos Karamazov”, no qual os protagonistas se encontram, ao explorar os limites da existência, num caminho de esperança e fé, que os leva a não serem criações totalmente absurdas. Camus sentiu-o quando, em plena guerra da Argélia, invocou os riscos sofridos por sua mãe quando a violência tomou conta do quotidiano da vida, apesar da justeza da luta. O seu compromisso pela Resistência, a sua opção pela liberdade, não impediram que fosse incompreendido e acusado em nome de uma lógica abstrata e cega.

Também no ano de 1942, Camus publicou “O Estrangeiro”, protagonizado por Mersault, que assassina um homem e é condenado à morte, mas vive a permanente indiferença em relação a todos os valores morais. Não aceita as regras do jogo. Contudo está disposto a ir até o fim na defesa da verdade em que acredita. Mersault desmascara a hipocrisia alimentada pela sociedade e por cada um – o homem abandona quem ama, mas também é abandonado, e é impotente perante as desgraças que presencia, e que finge não ver. “O Estrangeiro” disseca o que está errado, abre-nos os olhos para a limitação das falsas regras morais.

Camus morreu em janeiro de 1960 num brutal acidente de automóvel. O seu amigo e editor Michel Gallimard também perdeu a vida. Conduzia um Facel Veja e insistira para que o escritor aceitasse a boleia, ainda que tivesse já comprado os bilhetes para viajar de comboio com René Char. Consigo tinha o manuscrito de “O Primeiro Homem”, romance autobiográfico, que deveria sempre ficar inacabado. Como escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta, Albert Camus tornou-se o verdadeiro exemplo de quem sofreu na pele as angústias e incompreensões decorrentes da lógica do absurdo, sem nunca deixar o apego necessário à liberdade.

 

Agostinho de Morais

 

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"A CARTUXA DE PARMA" DE STENDHAL (XVIII)

 

Todos temos na memória as cenas marcantes do filme de Christian-Jaque “A Cartuxa de Parma” (1839) sobre o romance imortal de Stendhal (Henri-Marie Beyle 1783-1842) em que o triângulo amoroso, representado por Sanseverina - Maria Casares, Fabrício Del Dongo - Gérard Philipe e Clélia Conti - Renée Faure, permite acompanharmos uma das mais importantes referências românticas da literatura de sempre. O romance de Stendhal marcou toda a literatura europeia até ao século XX, não pertencendo apenas a uma escola ou a uma época, mas constituindo um modo a um tempo heroico e sentimental para ilustrar a História e a compreensão do género humano. Se falo do filme de 1948 é porque muitas gerações se deixaram apaixonar pela audácia e sensibilidade de Fabrício Del Dongo, pelo magnetismo de Gina Sanseverina e pela paixão sentida de Clélia Conti. Balzac admirou a construção narrativa, André Gide não teve dúvidas em considerar este o maior dos romances franceses e Tolstoi foi um leitor fiel das descrições de Stendhal, em especial no paralelo que encontramos entre a angústia de Fabrício, deambulando no cenário trágico de Waterloo, e a atitude de Pedro Bezukhov em circunstância semelhante. Stendhal inspirou-se nas leituras que fez de documentos sobre famílias antigas italianas, como os Farnese, aquando da sua estada como cônsul em Itália. Fabrício é um jovem aventureiro de família nobre, que admira Napoleão Bonaparte, como Julien Sorel, o outro grande herói de Stendhal, em “O Vermelho e o Negro” (1830), narrativa exemplar em que se associam as cores dos uniformes militares e da sotaina dos clérigos. É de Itália que “A Cartuxa de Parma” trata, associando a compreensão das ambições individuais à construção da unidade da pátria, como quisera Nicolau Maquiavel. Que papel teria o ducado de Parma e Placência no futuro que se anunciava, em lugar da fragmentação medieval? São limitadas as ambições de Fabrício, que prefere viver no mundo aristocrático, pensar no imediato, divertir-se, pensar num tempo de sonho e de prazer. No entanto, deseja conhecer e aproximar-se de Bonaparte, símbolo da coragem e de um tempo novo. Demarcando-se do pensamento de seu pai e da orientação monárquica, parte ao encontro do que será o canto do cisne do Imperador em Waterloo. Nesse gesto de audácia e de rutura conta com o apoio de sua tia Gina Pietranera, que se torna duquesa Sanseverina, amante do poderoso Conde Mosca. Mas a afeição entre tia e sobrinho torna-se intensamente amorosa. A dualidade entre o amor fraternal e o carnal revela-se dramática. Gradualmente, Fabrício compreende, contudo, que não amava a tia como mulher. Preso, na torre de Farnese, em virtude da complexa trama política em que se vê envolvido, Fabrício apaixona-se pela filha de um general do partido da oposição ao Conde Mosca, Clélia Conti. Essa paixão torna-se o centro da narrativa romanesca, mas trata-se de um amor impossível, não só porque Fabrício está preso, mas também porque a sua família é inimiga jurada da do pai de Clélia. Graças à intervenção de Gina, Fabrício será libertado e como clérigo e Monsenhor vai exercer o seu múnus, longe da amada. Os rumores sobre uma ligação a uma jovem, Anetta Marini, levam Clélia a ir ouvir o sermão do Monsenhor Fabrício e o encontro entre ambos leva ao renascimento da paixão, iniciando-se uma ligação secreta que vai durar três anos. Entretanto, morre o Arcebispo e Fabrício sucede-lhe. Mas como o novo prelado não pode encontrar-se com Clélia durante o dia, exige que Sandrino, o filho que nascera desse amor secreto venha para junto de si. Os amantes imaginam um estratagema, simulando a morte da criança. Mas Sandrino cai, realmente, gravemente doente e morre. Esta morte é vista por Clélia como uma severa punição divina; e não se perdoará por esse trágico desenlace. Com a morte de Clélia, Fabrício vende todos os seus bens e distribui-os, retirando-se para a Cartuxa de Parma – onde morrerá um ano depois. A duquesa Sanseverina não sobreviveu senão muito pouco tempo a Fabrício, que ela adorava… E com Mosca riquíssimo, o ducado de Parma conhece uma era de liberdade com o seu jovem príncipe Ernesto V…

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"AS VIAGENS DE GULLIVER" DE J. SWIFT (XVII)

 

Jonathan Swift (1667-1745) foi um clérigo e polemista irlandês, Reitor da Catedral de S. Patrício em Dublin, que se celebrizou ao ter criado a personagem de Lemuel Gulliver, que está presente na literatura juvenil dos últimos séculos. No entanto, Swift não escreveu para deleite dos mais jovens, mas como severo crítico da sociedade em que viveu. À distância do tempo, não reconhecemos os que severamente procura atingir, mas fica o carácter irónico de uma sociedade de seres caricatos. Ora, são os seus contemporâneos que Swift considera quase desprezíveis, cheios de si, marcados pela soberba e pela inveja e incapazes de se aperceberem dos seus defeitos incorrigíveis. Por exemplo, o critério para dividir as opções políticas tinha a ver não com a razão, mas com o lado pelo qual cada um deveria partir um ovo… O título por que a obra ficou mundialmente conhecida é “Gulliver's Travels”, mas o título original da edição de 1726, alterada em 1735, é “Travels into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships”. Trata-se de um romance satírico, escrito por alguém que esteve na esfera política dos Whigs (liberais) e depois passou para os Tories (conservadores). As edições mais popularizadas limitam-se a reproduzir a primeira parte da obra (sobre 1699), onde se fala de Lilliput, ilha fictícia que faz parte de um arquipélago algures no Oceano Índico, de que também faz parte a ilha de Blefuscu, com a qual os liliputianos estão em guerra. Aliás, Lemuel Gulliver ajuda os Lillipputianos a vencer os seus vizinhos de Blefuscu ao tomar a sua frota. Contudo, recusa a reduzir Blefuscu à condição de colónia de Lilliput, o que causa profundo desagrado ao rei e à corte. Tanto basta para que Gulliver caia em desgraça, sendo acusado de alta traição, pelo que é condenado a perder a visão. Todavia, com a ajuda de um amgo, dignitário da corte, consegue fugir para Blefuscu, onde encontra um barco abandonado e consegue ser salvo. A segunda aventura (1702-1706) passa-se em Brobdingnag, terra de gigantes, situada na América do Norte. Lemuel é exibido como um anão em espetáculos, que o deixam doente, e é vendido à rainha, ficando ao cuidado da filha do fazendeiro que o explorara. Como Gulliver é pequeno demais, a rainha de Brobdingnag ordena a construção de uma casa pequena para que ele possa ser transportado, a que chama "caixa de viagem". Depois de diversas peripécias, uma águia rouba a caixa e larga-a numa praia o que permite o retorno a Inglaterra. Entre 1706 e 1710, Gulliver passa por Balnibarbi, um reino governado por Laputa. A burocracia, a Royal Society e os excessos da procura científica são severamente criticados. Na Grande Academia de Lagado, muitos recursos são gastos em procuras absurdas, como a busca de raios de sol a partir de pepinos ou o desmascaramento de conspirações políticas pela análise do excremento dos suspeitos. Enquanto aguarda a partida para o Japão, visita em Glubbdubdrib a casa de um mago louco que discute história com fantasmas, como Homero, Aristóteles, Júlio César, Caio Bruto e até Descartes. Na ilha de Luggnagg, encontra os “struldbrugs”, que são imortais, e já no Japão consegue do Imperador o privilégio de não ter de abjurar o cristianismo. Por fim, entre 1710 e 1715, Gulliver volta ao mar, mas é vítima dum motim a bordo e é abandonado num bote. Encontra uma raça de humanoides selvagens e depois os Houyhnhnms, uma raça de cavalos falantes, que governam e subjugam os humanoides Yahoos. Swift é mestre das distopias e Gulliver é testemunha privilegiada dos defeitos da humanidade.

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"OS LUSÍADAS" DE LUÍS DE CAMÕES (XVI)

 

Camões e “Os Lusíadas” representam a maturidade da língua portuguesa. Toda a obra do grande épico constitui oportunidade para lidarmos com uma riquíssima convergência entre os maravilhosos pagão e cristão, servidos pelo domínio exemplar da palavra e da imagem. Vasco Graça Moura deu-nos, aliás, essa demonstração, pondo a obra camoniana ao nosso alcance e afirmando que estamos na linha dos grandes clássicos, tendo Virgílio, como referência. Deveremos, por isso, voltar a ler Camões, ao menos nos seus momentos mais marcantes. O poema divide-se em 10 cantos, compostos em oitava rima, totalizando 8.816 versos, na chamada medida nova, predominando os decassílabos heróicos, com a 6ª e a 10ª sílabas tônicas. “Os Lusíadas” têm cinco partes, segundo a tradição clássica: Proposição, Invocação das Tágides, Dedicatória ao Rei D. Sebastião, Narração e  Epílogo. A narração compreende três ações: a viagem de Vasco da Gama, a narrativa da história de Portugal e as intervenções dos deuses do Olimpo. Nos Cantos I e II,  narra-se a introdução e o Concílio dos Deuses, para deliberar sobre o destino dos novos Argonautas. Baco é contrário aos portugueses, Vénus e Marte, tomam a sua defesa, com a concordâcia de Júpiter. Vasco da Gama está no Índico, próximo de Moçambique. Baco, inconformado, instiga o governador de Moçambique contra os portugueses e põe a bordo um falso piloto, mas graças a Vénus, às nereidas, a Mercúrio e à coragem de Gama, os portugueses chegam a Melinde. No Canto III, começa o relato ao rei Melinde da história de Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa” e das origens, de Viriato, da Reconquista, da Primeira Dinastia, da Casa de Borgonha, de Ourique até à morte de Inês de Castro. No Canto IV, prossegue a narrativa, fala-se da revolução de 1383, de Nuno Álvares Pereira, de Aljubarrota, do Mestre de Avis, de Ceuta. E começam os episódios do início da viagem. D. Manuel sonha com os rios Indo e Ganges, a profetizarem sucessos e perigos no Oriente, e pede a Gama que monte a esquadra para concretizar a visão, mas na partida, o velho Restelo previne contra a “gloria de mandar e a vã cobiça”. No Canto V, Gama fala do Cruzeiro do Sul, do fogo-de-santelmo, até ao relato picaresco do marinheiro Veloso. No Cabo das Tormentas, o Adamastor simboliza a superação do medo.  No Canto VI, Baco desce ao palácio de Neptuno e incita os deuses marinhos contra Vasco da Gama, mas Vénus intervém. Veloso entretém os companheiros com a narrativa cavalheiresca dos Doze de Inglaterra. E os navegadores avistam Calicute. Nos Cantos VII e VIII, o samorim determina que o governador receba Gama, que o visita e oferece a amizade dos portugueses. Paulo da Gama esclarece o governador acerca do significado das figuras desenhadas nas bandeiras e conta os feitos dos heróis da pátria. Mas os muçulmanos intrigam, Gama é preso e tem de negociar a liberdade, em troca de mercadoria. Nos Cantos IX e X, depois de diversos incidentes, o samorim ordena que a armada possa levantar ferro e iniciar o regresso. E temos o longo episódio da Ilha dos Amores, já que Vénus decide premiar os navegadores numa ilha paradisíaca. O epílogo do poema contém as lamentações, como que um desabafo de Camões por todas as incompreensões sofridas. Mas fica-nos a reflexão sobre a exigência de porfia e de trabalho aturado para se alcançarem os sucessos necessários. Não por acaso, Camões inicia o poema épico citando o início de “A Eneida”: “Arma virumque cano, Trojae qui primus ab oris…”. Como em Dante, é sob a invocação de Virgílio que um tema sublime é tratado…

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"A MORTE DE VIRGÍLIO", HERMANN BROCH (XV)

 

Hermann Broch (1886-1951) nasceu em Viena, no momento que ele próprio definiu de um “Apocalipse alegre”, no seio de uma família judaica de industriais do setor têxtil. A sua formação foi orientada no sentido de assumir responsabilidades nos negócios da família em Teesdorf na manufatura têxtil, fiação e tecelagem, mas nunca escondeu a sua inclinação literária e até filosófica. Relacionou-se com a intelectualidade vienense do seu tempo, em especial com Robert Musil, Rainer Maria Rilke ou Elias Canetti. Em 1927 vendeu a fábrica têxtil e decidiu estudar matemática, psicologia e filosofia na Universidade de Viena. A sua carreira literária iniciou-se, assim, aos quarenta anos, tendo publicado «Os Sonâmbulos», em três volumes, onde se analisam três momentos da história contemporânea, caracterizados pelo “vazio de valores” e pela existência humana dividida entre a o sonho e a realidade. As três datas são: 1888 e a dissolução romântica do mundo antigo; 1905 e a confusão anárquica que prenuncia a guerra; e 1918 quando o niilismo se torna presente e ativo. «Os Sonâmbulos» de Broch procuram, a todo o momento, libertar-se da ética do passado, protagonizando situações contraditórias de racionalidade e irracionalidade. E assim caminham para o abismo. Com o Anschluss (1938), depois de ter escrito sobre Hofmannsthal (num ensaio que retomará em 1948) e quando já está a escrever «A Morte de Virgílio» é preso, mas um movimento de amigos, entre os quais James Joyce, consegue a sua libertação e a partida para o Reino Unido e depois para os Estados Unidos, graças ao visto obtido por Albert Einstein e Thomas Mann. Além da escrita, empenha-se intensamente no apoio aos refugiados alemães e franceses em fuga à barbárie nazi. «A Morte de Virgílio» é uma obra fundamental, que o autor não qualifica como romance, mas como um poema sinfónico, com o que Hannah Arendt concorda. Cada uma das quatro secções tem um elemento central - a água, o fogo, a terra e o éter – e há um ritmo musical assumido - andante, adagio, maestoso. E a morte do poeta é analisada através da repetição, que procura compreender o absurdo. O quadro da obra corresponde às últimas dezoito horas da vida de Virgílio. Na «Chegada», o poeta de “Eneida” toma consciência da dispersão da sua vida e da insatisfação que sente. E inicia-se um pensamento em ritmo febril, pleno de contradições e paradoxos, contrastes e dúvidas. Na «Descida», as memórias ganham unidade, dando-se o poeta conta, com trágico espanto, de que a sua vida e a sua obra, se foram fazendo no esquecimento de uma parte importante da existência. As memórias mais antigas correspondem a uma realidade heterogénea, depois vem uma visão lírica interior, surpreendentemente noturna. A terceira parte, «A Expectativa», recapitula as discussões de Virgílio com os amigos – e no «Regresso a Casa», todos estes elementos conflituais se resolvem numa visão sublime e unitária, no momento em que Virgílio deixa o mundo dos vivos. Como afirma Maria João Cantinho: «Há uma nobreza incomparável na sua teoria sobre a liberdade e no modo como define a responsabilidade humana». Eis como a literatura deveria considerar a prevalência da atenção e do cuidado relativamente ao outro. Nesse ponto encontramos paralelo em Jaspers e em Lévinas. Hermann Broch morreu em 1951 em New Haven, Conneticut – e é indiscutivelmente um dos grandes autores do século XX.

 

Agostinho de Morais

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"PEREGRINAÇÃO", FERNÃO MENDES PINTO (XIV)

 

Estamos perante uma obra pioneira na literatura mundial e europeia. Mais do que um livro de viagens, trata-se de um modo inteiramente novo e original de fazer uma narrativa. Como se disse relativamente a Cervantes, pode afirmar-se que, noutro registo, a “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto (c. 1510-1583) põe-nos perante uma verdadeira personagem romanesca, que assume diferentes acontecimentos e até personalidades, mas que descreve de um modo notabilíssimo, o que era a vida de um português no Oriente – mercador, missionário, soldado, corsário, marinheiro... O próprio título com que a obra foi publicada dá-nos bem conta da riqueza e complexidade do relato. "Peregrinaçam de Fernam Mendez Pinto em que da conta de muytas e muyto estranhas cousas que vio & ouvio no reyno da China, no da Tartaria, no de Sornau, que vulgarmente se chama de Sião, no de Calaminhan, no do Pegù, no de Martauão, & em outros muytos reynos & senhorios das partes Orientais, de que nestas nossas do Occidente ha muyto pouca ou nenhua noticia. E também da conta de muytos casos particulares que acontecerão assi a elle como a outras muytas pessoas. E no fim della trata brevemente de alguas cousas, & da morte do Santo Padre Francisco Xavier, unica luz & resplandor daquellas partes do Oriente, & reitor nellas universal da Companhia de Iesus". Ao ler a obra, houve quem duvidasse da verdade dos relatos, respeitantes aos vinte e um anos em que andou pela Ásia, tendo sido, na sua própria expressão, “treze vezes cativo e dezassete vendido nas partes da Índia, Etiópia, Arábia Feliz, China, Tartária, Macáçar, Samatra e muitas outras províncias daquele Ocidental arquipélago dos confins da Ásia”. A escrita começou uma vez regressado o autor a Portugal, em 1557, só sendo publicada trinta e um anos depois da sua morte (1614), por Pedro Craesbeek, com tardia autorização do Santo Ofício. Aos que duvidaram da veracidade dos relatos, o autor respondeu significativamente: “a gente que viu pouco mundo, como viu pouco também costuma dar pouco crédito ao muito que os outros viram”. É memorável, por exemplo, o encontro de Fernão Mendes Pinto com António de Faria, o célebre corsário, numa situação, em que quiseram saber novidades de Liampó, "porque se soava então pela terra que era lá ida uma armada de quatrocentos juncos em que iam cem mil homens por mandado de El-Rei da China a prender os nossos que lá iam de assento, a queimar-lhes as naus e as povoações, porque os não queria em sua terra, por ser informado novamente que não eram eles gente tão fiel e pacífica como antes lhes tinham dito", mas afinal era engano, pois essa armada tinha ido, afinal, socorrer um Sultão nas ilhas de Goto. É inesquecível a perseguição ao corsário mouro Coja Acém, que se dizia "derramador e bebedor do sangue português" e a quem Faria jurara vingança, por lhe ter roubado as fazendas e morto os companheiros na batalha mais violenta da “Peregrinação”. "E arremetendo com este fervor e zelo da fé ao Coja Acém como quem lhe tinha boa vontade, lhe deu, com uma espada que trazia, de ambas as mãos, uma tão grande cutilada pela cabeça que, cortando-lhe um barrete de malha que trazia, o derrubou logo no chão...” Hoje sabemos da verosimilhança de tudo quanto nos relatou. Pode até ter acontecido que não fora ele o real protagonista de tudo, mas percebemos que tudo ocorreu de facto. E os estudiosos desse tempo são os primeiros a considerar que não é possível compreender o que João de Barros ou Diogo do Couto nos relatam sem ler Fernão Mendes Pinto.

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"A ILÍADA" E "ODISSEIA" DE HOMERO (XIII)

 

“A Ilíada” e a “Odisseia”, atribuídas a Homero (século VIII a. C.), são as duas obras maiores da cultura greco-latina, marcando decisivamente as tradições mediterrânicas, a ponto de, segundo a lenda, Lisboa ter sido fundada por Ulisses. “A Ilíada” tem origem na tradição oral da época micênica cantada pelos aedos. Tais versos foram compilados numa versão escrita no século VI a. C. em Atenas. O poema foi então dividido em 24 cantos, divisão que persiste até hoje, correspondendo cada canto a uma letra do alfabeto grego, segundo o método usado pelos estudiosos da Biblioteca de Alexandria. O poema passa-se no décimo ano da guerra de Troia e refere-se à ira de Aquiles causada por uma disputa com Agamémnon, comandante dos exércitos gregos, e consumada na trágica morte do herói troiano Heitor, culminando no seu funeral. Este episódio é fundamental na cultura helénica, por se referir ao combate entre alguém da estirpe dos deuses, Aquiles, filho de Tétis, parcialmente vulnerável, e um homem, cujas qualidades heroicas não oferecem dúvida. Homero refere-se a mitos e acontecimentos prévios à guerra, mas esta não é contada na íntegra. O conhecimento da mitologia grega acerca de Troia é, pois, essencial para a compreensão da obra. A Guerra de Troia ocorre quando os aqueus atacaram a cidade de Troia, procurando vingar o rapto de Helena, mulher de Menelau, rei de Esparta, irmão de Agamémnon. Antepassados dos gregos, os aqueus representam no poema épico a origem mítica e histórica de uma civilização plural, enaltecida no poema. A mulher mais bela do mundo era Helena, filha de Zeus e de Leda. Estava casada com Tíndaro, rei de Esparta. Helena possuía diversos pretendentes, entre os quais os maiores heróis da Grécia. Tíndaro, seu pai adotivo, hesitava em tomar uma decisão, mas finalmente um dos pretendentes, Ulisses, rei de Ítaca, resolveu o impasse propondo que todos jurassem proteger Helena e a sua escolha, qualquer que ela fosse. Helena casou-se então com Menelau. A guerra inicia-se quando Páris, filho de Príamo, rei de Troia, vai a Esparta em missão diplomática, e apaixona-se por Helena, raptando-a e levando-a para Troia, o que naturalmente enfurece Menelau, que apela aos antigos pretendentes, em nome do juramento feito. Agamémnon então assume o comando de um exército de mil barcos e atravessa o mar Egeu para atacar Troia. As naus gregas desembarcaram na praia próxima de Troia e iniciaram um cerco que duraria dez anos, custando a vida a muitos heróis, de ambos os lados. Finalmente, seguindo o célebre estratagema proposto por Ulisses, através da suposta oferta do Cavalo pelos deuses, os gregos conseguem invadir a cidade governada por Príamo e terminam a guerra, vencendo-a. A «Odisseia» é também um poema elaborado ao longo de séculos pela tradição oral dos aedos, tendo sido fixada por escrito, provavelmente no fim do século VIII a.C.. Quase todas as edições e traduções modernas da «Odisseia» são divididas em 24 livros. O poema inicia-se dez anos após o fim da Guerra de Troia. Telémaco, filho de Ulisses, tem 20 anos e procede na ilha de Ítaca à partilha da casa de seu pai ausente, com sua mãe e uma multidão de desonestos pretendentes, que querem persuadir Penélope de que seu marido está morto, e que ela deve casar-se com um deles. O enredo de “Odisseia” tem a ver com o relato da viagem de regresso do herói de Troia para Ítaca. É uma descrição iniciática, na qual Ulisses viaja pelo mundo dos vivos e dos mortos. Passa pela terra dos Cícones, visita os comedores de Lótus, é capturado pelo ciclope Polifemo, consegue fugir após cegá-lo com uma ponta afiada de madeira, é recebido por Éolo, senhor dos ventos, que lhe oferece um saco de couro contendo todos os ventos (salvo o de oeste), que deveria garantir a viagem para casa em segurança… Porém, roídos pela curiosidade os marinheiros abriram o saco enquanto Ulisses dormia, pensando que se tratava de ouro; e deixaram escapar todos os ventos, gerando uma tempestade que afastou os navios de Ítaca… Os conselhos de Circe, a passagem pela ilha das sereias, Cila e Caríbdis, o trágico abate do gado do deus-sol e o naufrágio que se segue, os sete anos na ilha de Calipso – tudo culmina no regresso e no ajuste de contas final de Ulisses, símbolo da paixão temperada pela medida.

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"O LEOPARDO" DE LAMPEDUSA (XII)

 

Quando Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1956) morreu ninguém suporia que, poucos anos depois, graças ao romance que tinha deixado escrito se tornaria um dos mais celebrados autores do seu tempo – cronista inesgotável dos tempos atribulados da unificação italiana. E foi Luchino Visconti (1906-1976) o grande responsável pelo estrondoso sucesso de “Il Gattopardo” (“O Leopardo”, Feltrinelli, 1958) com o genial filme de 1963, recriação e releitura de uma obra inesquecível. A epopeia do romance liga-se à decadência da antiga aristocracia siciliana e à ascensão da nova burguesia, que aproveita o “Risorgimento” para se afirmar e singrar. A decadência é sempre um tema fecundo para a literatura, como vimos em Faulkner. Lampedusa atém-se, com especial ênfase, ao primeiro elemento (que conhece bem, por via familiar), enquanto Visconti prefere dar destaque ao confronto de classes e ao novo compromisso de uma nação que nasce. Dir-se-ia sem grande margem de erro que o Príncipe Fabrizio de Salina que nós conhecemos (e que associamos à efígie de Burt Lancaster) resulta de uma sobreposição entre dois registos autobiográficos, o de Lampedusa e o de Visconti. O livro e o filme tornam-se, assim, inseparáveis. Quando lemos um e vemos o outro temos a sensação de que estamos num vai-e-vem que nos remete constantemente de um para o outro. Assim, Visconti foi fiel ao essencial do romance. E se Lampedusa não pôde ver o sucesso do seu livro, e muito menos o filme, o certo é que, revisitando o livro, vemos que há um fluxo natural entre a obra e a sua ilustração. Estamos em 1860, no penúltimo capítulo da unificação italiana, antes da conquista dos Estados pontifícios (1870). Os Bourbons - Duas Sicílias, de Nápoles, representam o absentismo e as conceções arcaicas e ultrapassadas sobre o mundo. O exército de Garibaldi e da unificação italiana, a juventude revolucionária sob a égide do Piemonte de Victor-Manuel de Sabóia e de Cavour, trazem uma outra mentalidade e nova gente. Um soldado aparece morto na propriedade dos Salina. O facto interrompe a oração da família, que a princípio parece indiferente à algazarra. A trama desenvolve-se desde então. O Príncipe recusa a ideia de se deixar abater. Avalia as circunstâncias e joga com elas. O sobrinho Tancredi Falconeri (Alain Delon) ajuda-o. É um dos voluntários no exército de Garibaldi. O episódio da viagem para Donnafugata, desde a passagem na barricada revolucionária, por obra e graça dos conhecimentos de Tancredi, até às boas vindas na povoação, passando pelo ofício religioso a que o Príncipe assiste com a família, todos cobertos de pó, constitui a demonstração da atitude de D. Fabrizio. Ele dispõe-se ao compromisso, que se concretiza no casamento da filha do administrador da sua casa, Calogero Sedara (Paolo Stoppa), a deslumbrante Angélica Sedara (Cláudia Cardinale), com Tancredi. Fabrizio não se importa com os modos broncos de Calogero e é ele próprio que legitima Angélica na valsa que com ela dança no mítico baile. Ciccio Tomeo (Serge Regiani), o fiel companheiro de caça de D. Fabrizio, confessa-lhe que não entende o que se passa, e afirma a sua fidelidade à ordem antiga. Fabrizio compreende, mas prefere sobreviver, mesmo assumindo que os leopardos, ainda que na decadência, não gostam de caçar com os chacais… Afinal, na fórmula tornada clássica, “é preciso que algo mude para que tudo fique na mesma”…        

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS


"GRANDE SERTÃO – VEREDAS" (XI)

 

Um dia, no final dos anos cinquenta, Alexandre O’Neill disse a António Alçada Baptista que tinha descoberto um grande escritor e um livro extraordinário da língua portuguesa. Referia-se a João Guimarães Rosa (1908-1967) e à sua obra “Grande Sertão: Veredas” (1956, Livraria José Olympio). António tomou boa nota e embrenhou-se na obra tão elogiada. Nas primeiras impressões achou difícil. Mas depressa se deixou apaixonar por essa escrita tão atraente, de um escritor genial. E nunca mais deixou de elogiar e de citar esse livro, rigorosamente fantástico. Aparentemente, estamos perante a linguagem rural dos sertanejos, que o autor maneja com mestria perturbadora. No entanto, como diz António Cândido (e o meu amigo Celso Lafer sempre me lembra): “tudo se transformou em significado universal graças à invenção, que subtrai o livro da matriz regional”. Ali estão “os grandes lugares-comuns, sem os quais a arte não sobrevive: dor, júbilo, ódio, amor, morte, para cuja órbita nos arrasta a cada instante, mostrando que o pitoresco é acessório e, na verdade, o Sertão é o mundo”. O livro é difícil. Riobaldo começa a contar, de modo caótico, a sua experiência pessoal. Trata de tudo, dos mistérios do mundo e da vida. “O diabo na rua, no meio do redemoinho”. E contar é “dificultoso”, pela “astúcia” de certas coisas passadas, que fazem “balancé” e se remexem dos lugares. “Vivendo se aprende; mas o que se aprende, mais, é só a fazer outras maiores perguntas”. Riobaldo encontra Reinaldo, que o fascina. E depois da morte da mãe Brigi, vai para a fazenda do padrinho Selorico Mendes e conhece o mítico chefe Joca Ramiro. É professor do fazendeiro Zé Bebelo, mas isso serve para entrar no cangaço, como jagunço do bando deste, no sul da Bahia e em Goiás. Acaba, porém, por fugir e reencontra Reinaldo, “companheiro” de Joca Ramiro, “transferindo-se” de bando. Reinaldo revela-lhe em segredo que se chama Diadorim e abre-se o combate com o antigo bando, de Zé Bebelo, e contra as tropas governamentais. A pontaria de Riobaldo (chamado o Tatarana) torna-se celebrada e permite ao grupo de Joca levar de vencida Zé Bebelo. Este é julgado e condenado ao exílio em Goiás. Mas Joca Ramiro é assassinado à traição (pelos “judas”, Hermógenes e Ricardão) e Riobaldo e Reinaldo continuam no cangaço com Titão Passos. Riobaldo tem um caso com Nhorinhá, mas enamora-se de Otacília, de quem Diadoirim se enciúma. Por entre lutas e contra-lutas, Zé Bebelo regressa do exílio e toma a chefia do bando na perseguição dos “judas”. Os bebelos chegam a “Veredas-mortas” e Riobaldo faz um pacto com o diabo, para vencer os “judas”, e torna-se chefe do bando como Urutu-branco. “Deus existe mesmo quando não há. Mas o demónio não precisa de existir para haver”. O combate e a perseguição não têm tréguas nem quartel. Nos sertões de Minas, vindos da Bahia, os jagunços perseguem os hermógenes. Traições, lutas sangrentas, e Diadorim enfrenta Hermógenes. Mas ambos morrem. E descobre-se que Diadorim é Maria Diadorina da Fé Bittancourt Marins, filha do próprio Joca Ramiro. Diadorim (Bruna Lombardi) e Riobaldo (Tony Ramos) protagonizaram a mini-série da Globo (1985), dirigida por Walter Avancini, contribuindo para popularizar o genial romance. E Bruna Lombardi imortaliza Diadorim numa grande representação! No final do romance, Riobaldo fica gravemente doente, mas consegue sobreviver e acaba a vida a gozar da herança do padrinho a lembrar o pacto com o diabo, mas a concluir que o que verdadeiramente “existe é o homem humano”… Porque afinal “sertão é dentro da gente”. 

Agostinho de Morais