Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 18 a 24 de novembro de 2019

 

A obra de Mário Cláudio é multifacetada e rica. Eis por que os cinquenta anos de vida literária merecem especial atenção. Desde a poesia de “Ciclo de Cypris” (1969), encontramos uma criteriosa escolha de temas e uma permanente interrogação sobre vida, sentimentos, pessoas, artistas, escritores, poetas – certos de que o autor vai sempre descobrindo novos fatores para a compreensão do género humano.  


ESCREVER E TRANSFORMAR-SE
Tenho uma especial estima pessoal por Mário Cláudio, como o próprio bem sabe. Sou um seu leitor fiel, de há muito, e não esqueço a sua hospitalidade, em outubro de 2010, em Paredes de Coura, com Manuel Villaverde Cabral e Maria João Avillez, quando também pudemos falar dos edifícios desenhados por Joaquim Pedro Oliveira Martins, graças à influência do Conselheiro Miguel Dantas, sogro de Bernardino Machado. E, falando do Centro Mário Cláudio, não esqueço a longa evocação que fizemos dos nomes da literatura galaico portuguesa cuja memória encontramos dos dois lados da fronteira do Rio Minho: Aquilino Ribeiro, com a Casa Grande de Romarigães, Tomaz de Figueiredo, com a casa de Arcos de Valdevez; e do outro lado da fronteira, Camilo José Cela, Rosalía de Castro, Ramón del Valle-Inclan, Emília Pardo Bazán. Poderá, pois, compreender-se que a minha admiração por Mário Cláudio tenha raízes fundas… “Escrever é transformar-se continuamente. Não só escrever. A vida é uma constante transformação. Digamos que a escrita é mais o espelho dessa mutação em que nós estamos inseridos e que nos acompanha ao longo de toda a vida, e é um espelho onde se reflete uma imagem que, inclusivamente, não pode ser proveitosa, porque nos dá conta da dinâmica dessa evolução e nos permite corrigir determinados caminhos, aqui ou além, e enveredar por aquilo que nos parecer mais adequado, também de vez em quando” (JN, 19.7.17). Isso é evidente, quer quando o romancista descobre uma personagem histórica, quer quando se debruça sobre si mesmo, criando figuras imaginárias, que beneficiam da sua própria experiência. Lembramo-nos de Tiago Veiga e compreendemos como muitos leitores ficaram perplexos, com uma tão grande soma de elementos reais. Se Tiago Veiga não existiu, poderia ter existido; e se existiu é composto de vários elementos concretos, que encontramos nos meios literários e em figuras que resultam de vários elementos que se associam de modo verosímil, numa recriação notável da realidade humana.

 

AUTOBIOGRAFISMO…
Se lermos “Astronomia” (2015) é, no entanto, a perspetiva claramente autobiográfica que prevalece, no sentido propriamente dito. Mas também deparamos com as verdadeiras biografias romanceadas de personalidades marcantes reveladoras não apenas de figuras reais, mas também de uma descrição rigorosa dos ambientes e da vida quotidiana – como nos casos de “Amadeo” (1984), “Guilhermina” (1986) e “Rosa” (1988). Como prosador dotado, Mário Cláudio faz da literatura um modo de compreensão da vida e da sociedade. Daí partir nestes três casos de perspetivas diferentes da criação artística – desde o modernismo erudito de Amadeo de Souza Cardoso à uma dotadíssima expressão popular de Rosa Ramalho, passando pelo talento único que tinha Guilhermina Suggia. E a aura da genial intérprete fica enriquecida com a prosa de Mário Cláudio. E sentimos que estamos a participar numa ação parcialmente verídica e imaginosa, que sentimos como possível. “Camilo Broca” (2006) é a invocação da genialidade de Camilo Castelo Branco através do meio em que viveu desde a sua infância. Mais do que a história é também uma subtil homenagem ao universo de Agustina, com que Mário Cláudio tanto se compara e que admira (com cuidosas distâncias), em estreita relação com o romancista de “Estrelas Propícias”. Quando lemos “Triunfo do Amor Português” (2004), prefaciado por Agustina, vemos como a culpa assume papel fundamental no intenso fundo lírico desta cultura aberta ao Atlântico, com a presença de Pedro e Inês, Leonor Teles e Andeiro, Camões e a Infanta D. Maria, Mariana Alcoforado e o Conde de Chamilly, D. João V e Madre Paula, Tomás António Gonzaga e Marília de Dirceu, a Severa e o Conde de Marialva, Camilo e Ana Plácido, D. Pedro V e D. Estefânia, António Nobre e Alberto Oliveira… E assim a imaginação do romancista resulta da capacidade de associar elementos aparentemente contraditórios que procuram fazer sentido, como no caso de “Memórias Secretas” (2018), no qual recorre à “banda desenhada” e reinventa personagens – Corto Maltese, Bianca Castafiore e o Príncipe Valente aproximam-se de nós e descobrimos relações inesperadas. E falando, por fim, do “Tríptico da Salvação” (2019), em que intervêm figuras históricas, como Lutero e Lucas Cranach, não é tanto o romance histórico que interessa, mas a consideração das personagens envolvidas. Lutero é o homem inconformista, a um tempo conservador e reformista, que interessa ao romancista, até porque entra em choque simultaneamente com o Imperador e o Papa. Por outro lado, a admiração de Lutero por um grande pintor como Cranach, leva-o a evoluir na reflexão sobre o sentido da representação de imagens contra o entendimento inicial.

 

ESCRITOR E PEDAGOGO
A propósito de “Astronomia”, Mário Cláudio afirmou: “Quando digo que sou escritor incluo nisso todas as dimensões de atividades da minha vida. A docência é a continuidade da minha atividade de escrita. É como se estivesse a escrever a vida com outras pessoas ou a escrever na alma delas e elas na minha alma. Aprende-se muito através da docência. Aquilo que se recebe é talvez mais do que aquilo que se dá. Não era um professor facilitante, era bastante exigente, muito austero. Havia pessoas que se davam bem, outras não. Sempre validei as pessoas que trabalhavam mais. Não há que fugir a isso. E isso às vezes cria atritos. Mas devo dizer que olhando retrospetivamente, nos encontros com ex-alunos, tenho consciência que ficou uma réstia de amizade e afeto com todos eles”. É muito importante esta afirmação, de quem faz da sua escrita um caminho permanente de aprendizagem, vista como uma permanente troca de experiências. Longe da ideia do “magíster dixit”, o escritor, como o educador e o romancista têm de ganhar autoridade no modo como exercem o seu magistério – e o escritor que assim se apresenta refere a exigência como algo de natural e necessário, e o certo é que literariamente encontramos a mesma preocupação, bem evidente numa escrita rigorosa e atraente… Nesse ponto, apesar de admirar a figura e a obra e Agustina, põe as distâncias que o levaram naturalmente a trilhar caminhos diversos, nalguns pontos convergentes mas menos filosofantes, que um dia testemunhei, quando pudemos, de algum modo, partilhar um extraordinário convívio, com a própria Agustina, num memorável jantar portuense.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A SIBILA: "PORQUE... PORQUE..."

 

Temo, sinceramente, que, aquando do falecimento de Agustina Bessa-Luís, muitos, que nunca leram nada dela, se tenham servido do seu nome apenas como escada para subir e se mostrarem e serem vistos.

 

De qualquer modo, o que é que ainda se poderá dizer de novo sobre A Sibila, algo que ainda não tenha sido dito e reflectido? Mesmo assim, voltei lá, a A Sibila, de Agustina Bessa-Luís, e ouso pensar que do que trata, em última análise e lá mais no fundo, é da condição humana, do mistério do que somos e de quem somos — mas não é disso que tratam todos os grandes romances? Não será por acaso que termina assim: “porque... porque...”.

 

Sirvo-me hoje dessa releitura, para uma homenagem a Agustina, mas sobretudo porque me parece uma preciosa ajuda para meditar nestes dias primeiros de Novembro. Numa sociedade que fez da morte tabu, ainda se permite que ela nos visite e dela se fale dois dias por ano: 1 e 2 de Novembro. Também a morte é, evidentemente, tema atento em A Sibilia. Porque a morte nos obriga a pensar e a distinguir bem entre o que verdadeiramente vale e o que não vale e, assim, abrir a uma consciência mais funda da liberdade e da ética. Cito A Sibila: No dia dos fiéis, no cemitério, “Quina orava, as mãos cruzadas sobre o ventre, diante da modesta morada de seu pai e de seu irmão Abílio. Uma lousa, os nomes gravados a branco já indistintos, um pedaço de terra mole onde a chuva empoçava, e era aquilo o maior agente moral do homem, do mundo — a morte. Maria debruçou-se para endireitar uma flor numa velha jarra esbeiçada que só servia na ocasião.” “O maior agente moral do homem, do mundo — a morte.”

 

E aquela oração, quando o velho morreu! “Quina aproximou-lhe a candeia do rosto, e viu, sob as suas pálpebras imóveis, duas lágrimas que escorriam como gotas de glicerina, vagarosas e desfeitas, no encalhe das rugas. Quando se chegaram para o amortalhar, Quina rezava diligentemente uma melopeia improvisada. Elevou a voz, que se tornou surda e pesada, com uma retumbância trágica e cheia de calor. “Aceita-o nos teus braços, ó meu Senhor, e que ele encontre tudo o que procurou aqui e não pôde achar; todo o tempo que já tinha vivido, com todas as coisas boas que ele, para tua glória, contém;  todas as coisas que por teu amor nascem e por teu amor morrem; tudo que por tua inspiração desejamos, e não tivemos forças para conseguir. Agora, ele está pobre e nu diante dos teus olhos divinos. Recebe-o. Esclarece-o agora, para que ele te diga por que pecou, e possa ser perdoado. Porque nós não sabemos por que erramos, só tu o sabes, Senhor, e é por isso que tu perdoas. Nós não compreendemos essa piedade, nós não compreendemos nada de nós, nem temos voz para explicar, nem olhos para ver no escuro, nem ouvidos para ouvir quando tudo parece calado. Mas tu estás do outro lado da noite. Agora, este que foi homem sabe porque veio de ti e voltou para ti, e já não nos pertence. Ajuda-o, porque agora deves guardá-lo — ele não está mais à nossa guarda. Na morte não há irmãos, ele já não é mais nosso...” Assim rezava Quina.

 

Lá vem também, sadio, aquele humor ácido anticlerical. O abade a Maria: “Reze três Ave-Marias como penitência. — Reze-as o senhor abade, que tem mais vagar do que eu. Era, aos noventa e quatro anos, um lucilar ainda do seu humor impávido e irreverente.” É também certo que, por vezes, a oração de Quina é interesseira, mas nunca abandona a elevação da beleza,  a dimensão evangélica e mística, a fé cheia de espiritualidade. “Abençoai os nossos campos, para que eles tenham água e nos dêem pão. Abençoai a nossa casa, o nosso gado, os nossos criados. Abençoai os nossos homens, os nossos frutos, que tudo aconteça para bem. Levai para longe a fome, a peste, a guerra e os amigos que mentem. Fazei-nos humildes na riqueza, orgulhosos na desgraça, sábios em desejar, corajosos em receber a ofensa, valentes em cumprir a vida e a morte. Abençoai também os nossos moinhos e os caseiros deles, que não pagam a renda há tanto tempo... Abençoai os nossos gostos, para que sejam nossos brinquedos e não cadeias. Abençoai as nossas dores, para que elas sejam experiência e não castigo...” 

 

Seja como for, e sobretudo, é este o comentário de Germa, que a conheceu bem: “Quina escondia as mãos sob o avental, e rezava. Quem poderia rir, quem a acharia grotesca, ou quem encontraria motivo de escândalo? Ela não dizia: “Eu estou a cumprir um momento excepcional e supremo da minha vida: cuido a minha alma, expurgo dela o que é terra, alimento-a na oração.” Não. Acontecia-lhe rezar, porque isso era uma inevitável função humana.”

 

A Sibila é, sem dúvida, uma obra profundamente marcada pela pergunta religiosa e metafísica. O seu fio condutor é um impulso inconformado de aspirações que arrasta a Humanidade na sua História. Há a mesquinhez nas relações humanas, a vaidade do poder e a sua busca ridícula, a pequenez estúpida, mas o que a todos une é querer compreender o que somos, e o que nos move, numa existência sempre ambígua, de grandezas e de cobardias, é uma transcendência inalcançada, mas sempre esperada.

 

“Sim, Quina foi apenas mais um punhado obscuro de aspirações que só despontaram ou mal floriram. É esta a mais grandiosa história dos homens (...). Tudo o que vivemos nos faz inimigos, estranhos, incapazes de fraternidade. Mas o que fica irrealizado, sombrio, vencido, dentro da alma mais mesquinha e apagada, é o bastante para irmanar esta semente humana cujos triunfos mais maravilhosos jamais se igualam com o que, em nós mesmos, ficará para sempre renúncia, desespero e vaga vibração. O mais veemente dos vencedores e o mendigo que se apoia num raio de sol, para viver um dia mais, equivalem-se, não como valores de aptidões ou de razão, não talvez como sentido metafísico ou direito abstracto, mas pelo que em si é a atormentada continuidade do homem, o que, sem impulso, fica sob o coração, quase esperança sem nome.”

 

“Eis Quina, exemplo de energias humanas que entre si se devoraram e se deram a vida. Vaidade e magnífico conteúdo espiritual foram os seus pólos; equilibrando-se entre eles, percorreu um extremo e outro da terra, venceu e foi vencida, sem que, porém, as suas aspirações mais inquietantes deixassem de ser, no seu íntimo, as mesmas formas incompletas, chave da transfiguração que os homens eternamente tentam moldar e se legam de mão em mão, como um segredo e como uma dúvida.”

 

E agora é Germa, que continua o esforço para realizar e compreender o ser humano e nos representa a todos. “Eis Germa, eis a sua vez agora e o tempo de traduzir a voz da sua sibila. Talvez, porém, o seu tempo seja improdutivo e nefasto, e ela fique de facto silenciosa, porque — quem é ela para ser um pouco mais do que Quina e esperar que os tempos novos sejam mais aptos a esclarecer o homem e a trazer-lhe a solução de si próprio? Talvez a sua história fique hermeticamente fechada no círculo de aspirações que não conseguiu detalhar e cumprir, porque aconteceu ser cedo ou ser tarde, porque não se compreende ou não se crê o bastante, porque se deseja demasiado, e isto é todo o destino, porque... porque...”

 

Anselmo Borges
Padre e professor de Filosofia

Escreve de acordo com a antiga ortografia
Artigo publicado no DN  | 3 NOV 2019

A VIDA DOS LIVROS

De 4 a 10 de novembro de 2019

 

"Antologia Poética" de Jorge de Sena (Guimarães, 2010), com organização de Jorge Fazenda Lourenço, quando se celebra o primeiro centenário do nascimento do poeta (1919-1978), permite começar a entender o carácter poliédrico da obra de um autor complexo, difícil, seguro, fecundo e tantas vezes inesperado, para quem a liberdade é a chave da capacidade criadora.

 

CENTENÁRIOS CONVERGENTES
Quatro dias apenas de diferença entre as datas de nascimento de Jorge de Sena e de Sophia de Mello Breyner Andresen é uma feliz coincidência que une dois nomes maiores da cultura portuguesas, que na vida tiveram uma relação muito próxima, bem expressa numa correspondência notável, que Rita Azevedo Gomes transpôs para a tela, numa obra tocante, na qual as duas personalidades se completam naturalmente. Não é possível compreender essa correspondência sem a presença de Francisco de Sousa Tavares, em quem todos reconheciam a coragem, a audácia e a capacidade de compreender como poucos a força das raízes culturais portuguesas. A correspondência segue o período do exílio voluntário de Jorge de Sena, depois de 1959, quando, aproveitando um congresso na Bahia, partiu para ensinar Literatura Portuguesa, primeiro no Brasil e depois nos Estados Unidos. Antes tinha-se estabelecido uma ligação muito forte, com a presença quase quotidiana de Sena na Travessa das Mónicas, tudo culminando no episódio algo quixotesco do golpe dito da Sé, em que Sousa Tavares usou a farda gasta de miliciano e pediu a sua mulher, Sophia, que pusesse os filhos em segurança, fora de casa, na noite aprazada para a tentativa revolucionária, de 11 para 12 de março de 1959. Estavam envolvidos Manuel Serra, João Perestrelo de Vasconcelos, à altura clérigo na Sé, Fernando Oneto, o Capitão Almeida Santos, João Varela Gomes e muitos outros – além de Jorge de Sena e de António Alçada Baptista. E lembramos Sophia em “Carta(s) a Jorge de Sena”, na hora em que ele nos deixou: “… Há muito estravas longe / Mas vinham cartas poemas notícias / E pensávamos que sempre voltarias / Enquanto amigos teus aqui te esperassem - / E assim às vezes chegavas da terra estrangeira / Não como filho pródigo mas como irmão prudente / E ríamos e falávamos em redor da mesa / E tiniam talheres loiças e vidros / Com se tudo na chegada se alegrasse / Trazias contigo um certo ar de capitão das tempestades / - Grandioso vencedor e tão amargo vencido…”

 

UM DISCURSO NOTÁVEL
Se lermos um dos últimos textos de Jorge de Sena, dito na cerimónia do dia 10 de junho de 1977 podemos compreender a extraordinária dimensão cultural e cívica do poeta e ensaísta, com um sentido crítico e inovador apuradíssimo, invocando a figura de Camões, que tanto admirava. Jorge de Sena revisita o épico, dando-lhe a importância que merece, muito para além das simplificações que constituíam o modo mais fácil de o invocar, símbolo primeiro da nossa cultura. Diga-se ainda para mais que, além do seu camonismo, Sena foi pioneiro na descoberta intelectual e literária de Fernando Pessoa, num tempo em que se estava longe do reconhecimento que mais tarde veio. Coube, de facto, a Jorge de Sena o início do projeto essencial que foi a publicação do “Livro Desassossego”, em cujos prolegómenos o poeta de “Fidelidade” esteve envolvido. António M. Feijó refere, aliás, as extraordinárias intuições interpretativas de Sena que abriram novas e fecundas perspetivas. Mas, voltando a Camões, para Sena, importava «dar a Portugal um Camões autêntico e inteiramente diferente do que tinham feito dele: um Camões profundo, um Camões dramático e dividido, um Camões subversivo e revolucionário, em tudo um homem do nosso tempo, que poderia juntar-se ao espírito da Revolução de Abril de 1974, e ao mesmo tempo sofrer em si mesmo as angústias e as dúvidas do homem moderno que não obedece a nada nem a ninguém senão à sua própria consciência». Ao invocar a figura ímpar do épico, Jorge de Sena deixou, assim, claro que, «sendo Camões o maior escritor da nossa língua que é uma das seis grandes línguas do mundo e um dos maiores poetas que esse mundo alguma vez produziu (ainda que esse mundo, na sua maioria, mesmo no Ocidente, o não saiba), ele é uma pedra de toque para portugueses, e porque tentar vê-lo como ele foi e não como as pessoas quiserem ou querem que ele seja, é um escândalo».

 

O HOMEM UNIVERSAL POR EXCELÊNCIA
Para Sena, Camões é «o homem universal por excelência, o português estrangeirado e esquecido na distância, o emigrante e o exilado, é em Os Lusíadas e na sua obra inteira, tão imensa e tão grande, a medida do mais universal dos portugueses e do mais português dos homens do universo». Fora de qualquer tentação de autossatisfação ou de ilusão, «ninguém, como Camões, desejou representar em si mesmo a humanidade, representar tão exatamente o próprio Portugal, no que Portugal possui de mais fulgurante, de mais nobre, de mais humano, de mais de tudo e todos, em todos os tempos e lugares». No essencial, «ele é, como ninguém, o homem que viajou, viu e aprendeu. O homem que se sente moralmente no direito de verberar com tremenda intensidade, as desgraças de viver-se e os erros ou vícios da sociedade portuguesa». Eis a legitimidade própria para considerar Camões como um verdadeiro símbolo, em que o sentido crítico sobreleva quaisquer argumentos de oportunidade. José Bento (que há pouco nos deixou) insistia em que Sena não se ficava pelo meio – “procurava sempre a totalidade”. Porventura sem querer, ou querendo-o intimamente, Jorge de Sena deixou nesse dia 10 de junho a mensagem fundamental de um grande poeta e ensaísta moderno – entusiasmado, na sua experiência norte-americana, com a importância do conhecimento, da educação e da ciência. Aliás, em “Sinais de Fogo”, obra-prima, apesar de incompleta, que começa no tempo da guerra de Espanha, sentimos, no dizer de Jorge Fazenda Lourenço, que “a tensão existencial entre conhecer e o agir, na vida social, amorosa, sexual, desencadeia a criação poética”. E de facto raramente se terão harmonizado, numa mesma personalidade, o poeta, o dramaturgo, o ficcionista, o crítico, o ensaísta, o erudito, o investigador, o historiador da cultura, o professor, o engenheiro, o cidadão do mundo. E, como afirmou ao grande amigo Ruy Cinatti, aos 22 anos, “Viver é coisa de mar, cheira a horizonte. Que mais é preciso? Só é preciso o que existe – eu é que exijo tudo o que existe”. E chegamos ao final do discurso da Guarda – onde se remata com o apelo para Camões (por que não para Sena?): «Leiam-no e amem-no: na sua epopeia, nas suas líricas, no seu teatro tão importante, nas suas cartas tão descaradamente divertidas. E lendo-o e amando-o (poucos homens neste mundo tanto reclamaram amor em todos os níveis, e compreensão em todas as profundidades) – todos vós aprendereis a conhecer quem sois aqui e no largo mundo, agora e sempre, e com os olhos postos na claridade deslumbrante da liberdade e da justiça. Ignorar ou renegar Camões não é só renegar o Portugal a que pertencemos, tal como ele foi, gostemos ou não da história dele. É renegarmos a nossa mesma humanidade na mais alta e pura expressão que ela alguma vez assumiu. E esquecermos que Portugal como Camões, é a vida pelo mundo em pedaços repartida».

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

LITERATURA E PENSAMENTO - CICLO 2084 IMAGINE

 

Conversas com Graça Castanheira

 

De referir a gratidão que senti a cada conversa neste Ciclo 2084 Imagine: chamei-lhe momentos de flecha de tempo original.

 

Em rigor, a sucessão reflexiva e os pensamentos nela contidos e expressos neste ciclo, criaram uma ponte imensa de esperança apta a conduzir a uma outra nomeação do acreditar, quando sabemos que o acreditar tem sido mero fragmento de rotina de pouca verdade nos dias que correm.

 

Estive atenta e entusiasmada aos pressentimentos que despertaram em mim ao longo deste Ciclo 2084 Imagine acutilantemente conduzido por

Graça Castanheira.

 

A divisão e a organização deste conjunto de conversas criaram uma totalidade compacta de relações e afinidades na área do Conhecer e do Saber que propiciaram uma infinidade temática, alertando-nos a reiniciar o infinito e nele o início/indício fundamental.

 

Impossível não conectar estas conversas com O Tempo e o Modo conduzido igualmente pela realizadora e argumentista Graça Castanheira, naquela serie de entrevistas sobre o futuro, e nele também a importância do tema do estado.

 

Pareceu-me encontrar nestas entrevistas/conversas do Ciclo 2084 Imagine uma ideia de fúria, uma ideia de fúria com a proximidade exponencial de cada tema a uma distância quase irrecuperável se o perdêssemos.

 

De um lado o declive das inquietações quando existem, do outro aquilo que excede o esclarecimento da hipotética abstração: aqui o risco da densidade é claramente uma proposta.

 

A tradução das ideias nelas mesmas, tornaram-nas possíveis como futuro e como presente, afinal reaparecendo ao nosso caminho e desafiando-o a que saibamos que as ideias que temos, podem ser suficientes à mudança, mas não aquelas que nesta espera de um compacto melhor surjam propício à nossa adesão. E o compacto a que se deseja aderir não é uma suspeita, infelizmente, é uma realidade. O desejo de levar as ideias até esse compacto é igualmente uma realidade. O tríptico há-de chegar a votos! Volta-se à circunvolução no movimento parado a que assistimos em hora de prime time.

 

E eis que surgem “ciclos 2084 imagine” com a capacidade de uma escola solitária aberta ao mundo.

 

Aqui a infidelidade da sabedoria é o saber permanecer fiel, em todas as circunstâncias, ao saber da arte no estar seguro dos entendimentos e assim os erros positivos têm segura cura.

 

Afinal o robot deixa-se desnortear com facilidade pois não conhece o esforço estranho para que isso não aconteça, ainda que o robot nos possa ajudar para aquilo que o programemos.

 

Atentemos sempre que as ideias não podem ser fracas em virtude de objetos superiores. Os Gregos, creio, deixaram-nos o sentido mais próprio do que não vale para o cidadão se o sentido for o de lhe atribuir um vale imitativo ou usurpatório de uma época ilesa de gente.

 

O cérebro pousa aquém e além das asas que lhe tocaram e irrompe incontido aos meandros dos nossos olhos, num lance, quando tudo está um jogo.

 

O afeto conduz também ao porquê do ter visto. A Noite pode insinuar o Jogo, mas o primordial revela-se e ascende se por ele soubermos e quisermos que se desvende a surpresa do Eu, e dele em nós num mundo com sim.

 

Teresa Bracinha Vieira

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOSÉ BENTO (1932-2019)

 

O Centro Nacional de Cultura homenageia o grande tradutor e poeta e envia sentidas condolências à família.

 

José Bento foi um grande tradutor de poesia e um grande poeta. Não é possível traduzir poesia com a qualidade com que o fazia sem se ter o dom da medida certa na palavra e no ritmo. Ao lado de Pedro Tamen, António Osório e Ruy Belo, seus companheiros de geração, é uma referência da poesia portuguesa contemporânea. Deixou-nos há poucos dias e devemos lembrá-lo. Colaborou em revistas como “Árvore”, “Cassiopeia” e “Cadernos do Meio-Dia”. Trabalhou na redação de “O Tempo e o Modo”, e por isso foi muito cá de casa…, do mesmo modo que colaborou ativamente na revista da Gulbenkian “Colóquio-Letras”. É impressionante a lista das obras que traduziu: começou por “Platero e Eu” de Juan Ramón Jiménez – e apaixonou-se pelas línguas ibéricas. Organizou antologias de Pablo Neruda e Vicente Aleixandre para a Inova e cultivou uma genuína ligação entre os idiomas e as culturas peninsular. A memória do hispanista leva-nos a compreender melhor a complementaridade ibérica. Ouvimos Jorge Marique, através de José Bento e sentimos o impulso intenso de Frei Luís de Léon; Garcilaso de la Vega, S. João da Cruz, Santa Teresa de Ávila, Francisco de Quevedo, Rafael Alberti. Leia-se a monumental “Antologia da Poesia Espanhola Contemporânea” (1985) – que marca o contributo decisivo do nosso grande autor. Está lá tudo de essencial. Além da poesia, José Bento é um grande tradutor da prosa – como no caso de “D. Quixote de la Mancha”, mas também de Javier Marías, Miguel de Unamuno, Ortega y Gasset, Maria Zambrano e Jorge Luís Borges, com um grande reconhecimento pela extraordinária qualidade e clareza dos textos. José Bento venceu os prémios D. Dinis e Pen (1960) com “Silabário” e prosseguiu a ação sistemática, com a antologia do “Siglo d’oro”, “Lírica espanhola de tipo tradicional”. José Bento foi um grande homem de cultura, capaz de mobilizar energias e favorecer a comunicação entre culturas e entre pessoas, como fator de paz. Os livros ”Um Sossegado Silêncio” (2002, Asa) e “Alguns Motetos” (Assírio e Alvim, 2003) marcam a qualidade do autor e o seu entendimento de que tudo depende da capacidade de compreender e transmitir sentimentos…

 

Agostinho de Morais 

ESTE LIVRO É UM CORAÇÃO QUE O ESCREVE EM JEITO DE ORAÇÃO.

 

Ela, como ninguém, ensinou-me a importância de exercitar a gratidão.
Ela, como ninguém, mostrou-me que é o facto de esperarmos um destino comum que nos faz cúmplices e irmãos na aventura do caminho.»
Filipe Condado

 

José Tolentino de Mendonça e Filipe Condado atentos ao parto da alma de Etty Hillesum, porque se vive sempre e primeiro por dentro; porque a reconciliação é o pré parto que expele qualquer ódio que mine o entendimento da vida espiritual, porque se o desejo desta for identificado e abraçado pela única porta que nos conduz a nós e aos outros: então saberemos que nos referimos ao amor; então julgo que sei um pouco do itinerário deste livro.

 

Emocionou-me profundamente a leitura deste livro: os excertos do diário de Etty, as fotografias e as palavras de Filipe Condado, as palavras de Tolentino.

 

Este livro propõe um horizonte que não se esgota através do humano, mas por aí encontra a sua expressão/mediação de chegar lá onde e aonde se trabalha espiritualmente a vida, sobretudo para nela confrontarmos os pontos dolorosos, quantas vezes vividos na nossa família (não se escolhe lugar onde se nasce, nem pai nem mãe, nem outros pontos de partida) que nos condicionaram o sonho de muitos modos, e até nos fizeram sentir abandonados, ou, como diz Etty ao falar de casa

É tragicómico, não sei que tipo de casa é esta, mas aqui uma pessoa não progride.

 

Esta substância aniquiladora, da qual se apercebe Etty insinua-se sólida na sua vida e ela receia que prisioneira, perpetue aquela mistura de barbarismo e cultura, espécie de qualquer coisa que era, sem nunca ter sido, e, no entanto fora.

 

Talvez a partir daqui, por um caminho ou outro, comecemos um começo sem fugirmos de nós, e escutando-nos, até que nessa escuta caiba a nossa vulnerabilidade, a nossa necessidade de aperfeiçoamento a cada hora, a fim de expelirmos a tal

Tralha humana e matagal manhoso

que temos em nós, se não passarmos também da cabeça para o coração como diz Spier a Etty.

E tudo isto com a ajuda do silêncio.

 

Só o silêncio nos aproxima a pergunta: quantas pessoas existem em cada um de nós? Creio que pergunta semelhante aproximou Etty Hillesum a um caminho com Deus; um caminho, o tal caminho muito encostadinho ao seu íntimo, tão encostadinho que lhe confiava um calor de xaile de mãe, um calor que a apaziguava consigo mesma.

 

A partir desta conciliação, interpretei, abre-se sempre uma vastidão apta há muito! A tanto! que até o que nos ensina a ocupar-nos dos outros é o mesmo que se ocupou da nossa mão e nos disse de algum modo que

Existe algo de «Deus» na Nona de Beethoven.

 

Surge-me uma Etty Hillesum que se não quer perder em constantes campos de batalha; uma Etty que deixa o umbigo para espreitar um tantinho de eternidade, outro tantinho dentro dela que é a intuição de encontrar uma sabedoria que a faça pessoa, e não um conhecimento que lhe aporte poder.

 

E este livro também se pode ler abrindo-se em qualquer página. E este livro também se lê só vendo os desenhos; e este livro é uma preciosidade contra o medo e não o simplifica, antes o sossega: eis a tranquilidade.

 

Quando uma pessoa leva uma vida interior, talvez nem haja tanta diferença entre estar fora ou dentro dos muros de um campo.

 

O campo de concentração: o trabalho do espírito a enfrentá-lo de dentro para fora.

 

Lembrei-me que se torturam barbaramente os elefantes para lhes retirarem o espírito, isto é, para os subjugar e humilhar pela dor, faze-los ceder, desaparecer de si. Mas como fazer sumir no ar as humilhações no campo de concentração? E Etty escreveu

Esta manhã desfrutei do vasto céu (..). Diria eu que Etty nos propõe o céu total, mesmo que visto por uma brecha minúscula.

 

E chega outra proposta de pensamento: será que o maior roubo que nos é feito, é feito por nós próprios? Se assim for é necessário o despojamento material e de aparência, para melhor vivermos uma vida em cada dia, uma vida na posteridade, e dentro dela, acolhe-se então, simplesmente, a morte.

 

Etty deixou de estar revoltada, mas resignada nunca! Foi capaz, sim, de tirar energia do sofrimento e como escreveu

A partir de agora vou extrair o essencial de tudo com o meu espírito e guardá-lo para tempos de vacas magras.

 

Se Deus não me ajudar mais, nesse caso hei-de eu ajudar a Deus.

 

Saberemos todos os caminhos que em nós se abrem ao entendimento da condição humana? Da sua índole? Saberemos nós perdoar-nos para que possamos perdoar os outros?

 

Saltam-me os poemas à memória, e todos eles sabem que à beira do morrer se descobre a paz da vida, e na mochila que connosco há-de partir em frutos e cereais vocacionados ao indizível sossego, digo, que mesmo que expressão alguma de desgosto humano não me seja alheia, que o absoluto possa conter em si o bem e o mal

Uma pessoa deve ser a sua própria pátria

e estar preparada para todos os inícios, acrescento, mesmo que eu não saiba como, mesmo que esteja eu num descampado de mim, saiba a minha mão por ela, que a estendo para ti.

 

Teresa Bracinha Vieira

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

O MITO DE SÍSIFO _ DE ALBERT CAMUS.jpg

 

"O MITO DE SÍSIFO" DE ALBERT CAMUS (XIX)

Albert Camus (1913-1960), Prémio Nobel da Literatura de 1957, representa uma das referências fundamentais do existencialismo. Com uma obra rica e multifacetada, o escritor franco-argelino foi, pela liberdade de espírito e pela orientação libertária, aquele que, na sua geração, melhor pôde corresponder à superação do espírito do tempo. Foi profundamente criticado, quando publicou “O Homem Revoltado” (1951), por não se ter eximido a criticar o que alguns consideravam tabu, no contexto da guerra fria, mas o tempo veio a confirmar plenamente a compreensão que teve em relação ao risco da tentação totalitária, que existia e poderia aparecer onde menos se esperaria…

Camus disse que o império dos homens pode desvirtuar os objetivos justos, pela cegueira do poder. Todavia, a culpa dos crimes feitos em nome desse império não é da revolta, mas sim a fuga e o esquecimento relativamente às razões da rebelião. A evolução da história contemporânea demonstrou que Camus estava na razão, tendo compreendido os riscos da ilusão sobre a infalibilidade da justiça.

O “Arquipélago de Gulag” e sobretudo o que se lhe seguiu vieram dar razão a Camus, não porque ele nos tivesse dado uma chave de interpretação, mas porque abriu, pela liberdade crítica, perspetivas para uma análise objetiva dos acontecimentos.

No ensaio “O Mito de Sísifo” (1942), escrito em plena grande guerra, o tema central é o absurdo, considerando o homem em busca de sentido num mundo ininteligível, na linha do pensamento de Nietzsche. Será que o absurdo conduz ao suicídio? “Não” - responde o escritor - “Obriga à revolta”. E compara o absurdo da vida do homem à situação de Sísifo, figura condenada a repetir eternamente a tarefa de empurrar uma pedra até o cimo de uma montanha, sendo que, uma vez alcançando o topo, a pedra rolava montanha abaixo até ao ponto de partida pela força irresistível da gravidade, destruindo todo o esforço despendido. Sísifo (como acontecera a Prometeu) desafiou os deuses e foi condenado para toda eternidade, a empurrar a pedra até o topo; e a ter de começar tudo de novo, vezes sem conta. Sísifo é, assim, o ser que assume a vida no máximo das suas possibilidades, odeia a morte e, por isso, é condenado a uma tarefa sem sentido, como herói absurdo. Camus apresenta, assim, a grande metáfora da vida moderna, em que “o operário de hoje trabalha todos os dias na sua vida, repetindo as mesmas tarefas. Esse destino não é menos absurdo, mas é trágico porque só em raros momentos se torna consciente".

Contudo, para Camus, também há o absurdo criador ou do artista. E o absurdo da arte encontra-se com a experiência do mundo e com a existência de cada um de nós. “Se o mundo fosse claro, a arte não existiria”. E Camus lembra Dostoiévski e “Os Irmãos Karamazov”, no qual os protagonistas se encontram, ao explorar os limites da existência, num caminho de esperança e fé, que os leva a não serem criações totalmente absurdas. Camus sentiu-o quando, em plena guerra da Argélia, invocou os riscos sofridos por sua mãe quando a violência tomou conta do quotidiano da vida, apesar da justeza da luta. O seu compromisso pela Resistência, a sua opção pela liberdade, não impediram que fosse incompreendido e acusado em nome de uma lógica abstrata e cega.

Também no ano de 1942, Camus publicou “O Estrangeiro”, protagonizado por Mersault, que assassina um homem e é condenado à morte, mas vive a permanente indiferença em relação a todos os valores morais. Não aceita as regras do jogo. Contudo está disposto a ir até o fim na defesa da verdade em que acredita. Mersault desmascara a hipocrisia alimentada pela sociedade e por cada um – o homem abandona quem ama, mas também é abandonado, e é impotente perante as desgraças que presencia, e que finge não ver. “O Estrangeiro” disseca o que está errado, abre-nos os olhos para a limitação das falsas regras morais.

Camus morreu em janeiro de 1960 num brutal acidente de automóvel. O seu amigo e editor Michel Gallimard também perdeu a vida. Conduzia um Facel Veja e insistira para que o escritor aceitasse a boleia, ainda que tivesse já comprado os bilhetes para viajar de comboio com René Char. Consigo tinha o manuscrito de “O Primeiro Homem”, romance autobiográfico, que deveria sempre ficar inacabado. Como escritor, filósofo, romancista, dramaturgo, jornalista e ensaísta, Albert Camus tornou-se o verdadeiro exemplo de quem sofreu na pele as angústias e incompreensões decorrentes da lógica do absurdo, sem nunca deixar o apego necessário à liberdade.

 

Agostinho de Morais

 

 

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"A CARTUXA DE PARMA" DE STENDHAL (XVIII)

 

Todos temos na memória as cenas marcantes do filme de Christian-Jaque “A Cartuxa de Parma” (1839) sobre o romance imortal de Stendhal (Henri-Marie Beyle 1783-1842) em que o triângulo amoroso, representado por Sanseverina - Maria Casares, Fabrício Del Dongo - Gérard Philipe e Clélia Conti - Renée Faure, permite acompanharmos uma das mais importantes referências românticas da literatura de sempre. O romance de Stendhal marcou toda a literatura europeia até ao século XX, não pertencendo apenas a uma escola ou a uma época, mas constituindo um modo a um tempo heroico e sentimental para ilustrar a História e a compreensão do género humano. Se falo do filme de 1948 é porque muitas gerações se deixaram apaixonar pela audácia e sensibilidade de Fabrício Del Dongo, pelo magnetismo de Gina Sanseverina e pela paixão sentida de Clélia Conti. Balzac admirou a construção narrativa, André Gide não teve dúvidas em considerar este o maior dos romances franceses e Tolstoi foi um leitor fiel das descrições de Stendhal, em especial no paralelo que encontramos entre a angústia de Fabrício, deambulando no cenário trágico de Waterloo, e a atitude de Pedro Bezukhov em circunstância semelhante. Stendhal inspirou-se nas leituras que fez de documentos sobre famílias antigas italianas, como os Farnese, aquando da sua estada como cônsul em Itália. Fabrício é um jovem aventureiro de família nobre, que admira Napoleão Bonaparte, como Julien Sorel, o outro grande herói de Stendhal, em “O Vermelho e o Negro” (1830), narrativa exemplar em que se associam as cores dos uniformes militares e da sotaina dos clérigos. É de Itália que “A Cartuxa de Parma” trata, associando a compreensão das ambições individuais à construção da unidade da pátria, como quisera Nicolau Maquiavel. Que papel teria o ducado de Parma e Placência no futuro que se anunciava, em lugar da fragmentação medieval? São limitadas as ambições de Fabrício, que prefere viver no mundo aristocrático, pensar no imediato, divertir-se, pensar num tempo de sonho e de prazer. No entanto, deseja conhecer e aproximar-se de Bonaparte, símbolo da coragem e de um tempo novo. Demarcando-se do pensamento de seu pai e da orientação monárquica, parte ao encontro do que será o canto do cisne do Imperador em Waterloo. Nesse gesto de audácia e de rutura conta com o apoio de sua tia Gina Pietranera, que se torna duquesa Sanseverina, amante do poderoso Conde Mosca. Mas a afeição entre tia e sobrinho torna-se intensamente amorosa. A dualidade entre o amor fraternal e o carnal revela-se dramática. Gradualmente, Fabrício compreende, contudo, que não amava a tia como mulher. Preso, na torre de Farnese, em virtude da complexa trama política em que se vê envolvido, Fabrício apaixona-se pela filha de um general do partido da oposição ao Conde Mosca, Clélia Conti. Essa paixão torna-se o centro da narrativa romanesca, mas trata-se de um amor impossível, não só porque Fabrício está preso, mas também porque a sua família é inimiga jurada da do pai de Clélia. Graças à intervenção de Gina, Fabrício será libertado e como clérigo e Monsenhor vai exercer o seu múnus, longe da amada. Os rumores sobre uma ligação a uma jovem, Anetta Marini, levam Clélia a ir ouvir o sermão do Monsenhor Fabrício e o encontro entre ambos leva ao renascimento da paixão, iniciando-se uma ligação secreta que vai durar três anos. Entretanto, morre o Arcebispo e Fabrício sucede-lhe. Mas como o novo prelado não pode encontrar-se com Clélia durante o dia, exige que Sandrino, o filho que nascera desse amor secreto venha para junto de si. Os amantes imaginam um estratagema, simulando a morte da criança. Mas Sandrino cai, realmente, gravemente doente e morre. Esta morte é vista por Clélia como uma severa punição divina; e não se perdoará por esse trágico desenlace. Com a morte de Clélia, Fabrício vende todos os seus bens e distribui-os, retirando-se para a Cartuxa de Parma – onde morrerá um ano depois. A duquesa Sanseverina não sobreviveu senão muito pouco tempo a Fabrício, que ela adorava… E com Mosca riquíssimo, o ducado de Parma conhece uma era de liberdade com o seu jovem príncipe Ernesto V…

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"AS VIAGENS DE GULLIVER" DE J. SWIFT (XVII)

 

Jonathan Swift (1667-1745) foi um clérigo e polemista irlandês, Reitor da Catedral de S. Patrício em Dublin, que se celebrizou ao ter criado a personagem de Lemuel Gulliver, que está presente na literatura juvenil dos últimos séculos. No entanto, Swift não escreveu para deleite dos mais jovens, mas como severo crítico da sociedade em que viveu. À distância do tempo, não reconhecemos os que severamente procura atingir, mas fica o carácter irónico de uma sociedade de seres caricatos. Ora, são os seus contemporâneos que Swift considera quase desprezíveis, cheios de si, marcados pela soberba e pela inveja e incapazes de se aperceberem dos seus defeitos incorrigíveis. Por exemplo, o critério para dividir as opções políticas tinha a ver não com a razão, mas com o lado pelo qual cada um deveria partir um ovo… O título por que a obra ficou mundialmente conhecida é “Gulliver's Travels”, mas o título original da edição de 1726, alterada em 1735, é “Travels into Several Remote Nations of the World. In Four Parts. By Lemuel Gulliver, First a Surgeon, and then a Captain of Several Ships”. Trata-se de um romance satírico, escrito por alguém que esteve na esfera política dos Whigs (liberais) e depois passou para os Tories (conservadores). As edições mais popularizadas limitam-se a reproduzir a primeira parte da obra (sobre 1699), onde se fala de Lilliput, ilha fictícia que faz parte de um arquipélago algures no Oceano Índico, de que também faz parte a ilha de Blefuscu, com a qual os liliputianos estão em guerra. Aliás, Lemuel Gulliver ajuda os Lillipputianos a vencer os seus vizinhos de Blefuscu ao tomar a sua frota. Contudo, recusa a reduzir Blefuscu à condição de colónia de Lilliput, o que causa profundo desagrado ao rei e à corte. Tanto basta para que Gulliver caia em desgraça, sendo acusado de alta traição, pelo que é condenado a perder a visão. Todavia, com a ajuda de um amgo, dignitário da corte, consegue fugir para Blefuscu, onde encontra um barco abandonado e consegue ser salvo. A segunda aventura (1702-1706) passa-se em Brobdingnag, terra de gigantes, situada na América do Norte. Lemuel é exibido como um anão em espetáculos, que o deixam doente, e é vendido à rainha, ficando ao cuidado da filha do fazendeiro que o explorara. Como Gulliver é pequeno demais, a rainha de Brobdingnag ordena a construção de uma casa pequena para que ele possa ser transportado, a que chama "caixa de viagem". Depois de diversas peripécias, uma águia rouba a caixa e larga-a numa praia o que permite o retorno a Inglaterra. Entre 1706 e 1710, Gulliver passa por Balnibarbi, um reino governado por Laputa. A burocracia, a Royal Society e os excessos da procura científica são severamente criticados. Na Grande Academia de Lagado, muitos recursos são gastos em procuras absurdas, como a busca de raios de sol a partir de pepinos ou o desmascaramento de conspirações políticas pela análise do excremento dos suspeitos. Enquanto aguarda a partida para o Japão, visita em Glubbdubdrib a casa de um mago louco que discute história com fantasmas, como Homero, Aristóteles, Júlio César, Caio Bruto e até Descartes. Na ilha de Luggnagg, encontra os “struldbrugs”, que são imortais, e já no Japão consegue do Imperador o privilégio de não ter de abjurar o cristianismo. Por fim, entre 1710 e 1715, Gulliver volta ao mar, mas é vítima dum motim a bordo e é abandonado num bote. Encontra uma raça de humanoides selvagens e depois os Houyhnhnms, uma raça de cavalos falantes, que governam e subjugam os humanoides Yahoos. Swift é mestre das distopias e Gulliver é testemunha privilegiada dos defeitos da humanidade.

 

Agostinho de Morais

TRINTA CLÁSSICOS DAS LETRAS

 

"OS LUSÍADAS" DE LUÍS DE CAMÕES (XVI)

 

Camões e “Os Lusíadas” representam a maturidade da língua portuguesa. Toda a obra do grande épico constitui oportunidade para lidarmos com uma riquíssima convergência entre os maravilhosos pagão e cristão, servidos pelo domínio exemplar da palavra e da imagem. Vasco Graça Moura deu-nos, aliás, essa demonstração, pondo a obra camoniana ao nosso alcance e afirmando que estamos na linha dos grandes clássicos, tendo Virgílio, como referência. Deveremos, por isso, voltar a ler Camões, ao menos nos seus momentos mais marcantes. O poema divide-se em 10 cantos, compostos em oitava rima, totalizando 8.816 versos, na chamada medida nova, predominando os decassílabos heróicos, com a 6ª e a 10ª sílabas tônicas. “Os Lusíadas” têm cinco partes, segundo a tradição clássica: Proposição, Invocação das Tágides, Dedicatória ao Rei D. Sebastião, Narração e  Epílogo. A narração compreende três ações: a viagem de Vasco da Gama, a narrativa da história de Portugal e as intervenções dos deuses do Olimpo. Nos Cantos I e II,  narra-se a introdução e o Concílio dos Deuses, para deliberar sobre o destino dos novos Argonautas. Baco é contrário aos portugueses, Vénus e Marte, tomam a sua defesa, com a concordâcia de Júpiter. Vasco da Gama está no Índico, próximo de Moçambique. Baco, inconformado, instiga o governador de Moçambique contra os portugueses e põe a bordo um falso piloto, mas graças a Vénus, às nereidas, a Mercúrio e à coragem de Gama, os portugueses chegam a Melinde. No Canto III, começa o relato ao rei Melinde da história de Portugal, “onde a terra se acaba e o mar começa” e das origens, de Viriato, da Reconquista, da Primeira Dinastia, da Casa de Borgonha, de Ourique até à morte de Inês de Castro. No Canto IV, prossegue a narrativa, fala-se da revolução de 1383, de Nuno Álvares Pereira, de Aljubarrota, do Mestre de Avis, de Ceuta. E começam os episódios do início da viagem. D. Manuel sonha com os rios Indo e Ganges, a profetizarem sucessos e perigos no Oriente, e pede a Gama que monte a esquadra para concretizar a visão, mas na partida, o velho Restelo previne contra a “gloria de mandar e a vã cobiça”. No Canto V, Gama fala do Cruzeiro do Sul, do fogo-de-santelmo, até ao relato picaresco do marinheiro Veloso. No Cabo das Tormentas, o Adamastor simboliza a superação do medo.  No Canto VI, Baco desce ao palácio de Neptuno e incita os deuses marinhos contra Vasco da Gama, mas Vénus intervém. Veloso entretém os companheiros com a narrativa cavalheiresca dos Doze de Inglaterra. E os navegadores avistam Calicute. Nos Cantos VII e VIII, o samorim determina que o governador receba Gama, que o visita e oferece a amizade dos portugueses. Paulo da Gama esclarece o governador acerca do significado das figuras desenhadas nas bandeiras e conta os feitos dos heróis da pátria. Mas os muçulmanos intrigam, Gama é preso e tem de negociar a liberdade, em troca de mercadoria. Nos Cantos IX e X, depois de diversos incidentes, o samorim ordena que a armada possa levantar ferro e iniciar o regresso. E temos o longo episódio da Ilha dos Amores, já que Vénus decide premiar os navegadores numa ilha paradisíaca. O epílogo do poema contém as lamentações, como que um desabafo de Camões por todas as incompreensões sofridas. Mas fica-nos a reflexão sobre a exigência de porfia e de trabalho aturado para se alcançarem os sucessos necessários. Não por acaso, Camões inicia o poema épico citando o início de “A Eneida”: “Arma virumque cano, Trojae qui primus ab oris…”. Como em Dante, é sob a invocação de Virgílio que um tema sublime é tratado…

 

Agostinho de Morais