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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

"CADA HOMEM É UMA RAÇA"

  


Deve-se a Mia Couto a frase que encima esta crónica. Quando há a tentação de fazer das diferenças muros de separação, é tempo de ouvirmos a estória do “Embondeiro que sonhava pássaros”. Filipa Leal recordou-nos isto mesmo na sua maravilhosa “Pequena Biblioteca” na terça-feira da RTP-2. No limiar de um Novo Ano de 2026 é bom lembrarmos que “só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo”. Não que recusemos o mundo em si, mas para que não esqueçamos a sua imperfeição, e a necessidade de sermos melhores. E continuamos a ouvir o escritor moçambicano a confessar-nos que sabe como fala uma árvore, “parente da árvore, do bicho e do rio”. E nesta necessidade de ouvir está a força da personagem de Tiago, a “criança sonhadeira”, sem outra habilidade senão perseguir fantasias. E essas fantasias não são uma fuga à vida, mas o entendimento de pessoas como nós e daquele homem que não tinha sequer um nome, mas a quem chamavam apenas “passarinheiro” e que vivia num tronco ressequido e sábio da árvore que representava o mundo da vida.

O narrador, ao ouvir e ao interpretar o que a natureza nos oferece, enquanto realidade inesgotável, ensina-nos, não na teoria, mas na prática, na experiência e no exemplo, apenas: “posso ser triste, mas não infeliz” ou “o pessimismo é algo que devemos combater”. No entanto, a cada passo assalta-nos o estranho medo do outro e há quem nos tente convencer de que o outro é um inimigo, e não a metade de nós mesmos, onde quer que ele se situe. E ouvimos o gesto agressivo: “quem autoriza aqueles pés descalços a sujarem o barco?”. No entanto, como poderemos cultivar a indiferença? E de novo Mia põe-nos alerta: “há neste mundo mais medo de coisas más do que coisas más propriamente ditas”. Não vale a pena desenvolver muitas teorias. Um simples conto permite-nos explicar quase tudo. “Cada homem é uma raça”, diz-nos afinal que somos todos iguais e todos diferentes. A palavra raça outrora dominadora, torna-se símbolo irrepetível de singular autonomia e de encontro, não de encerramento. Em lugar da tentação dos grupos fechados e dos privilégios, importa considerar que todos e cada um dos seres humanos são a base do respeito mútuo e da justiça. Lendo Luandino Vieira, Guimarães Rosa e Fernando Pessoa, Mia Couto favorece a atenção e o cuidado para com todos, na legitimidade e na universalidade do ser humano. Unimo-nos na ficção à vida inesgotável e à liberdade que permite encontrar na realidade e no sonho a essência da humanidade. E o Papa Francisco no diálogo com Javier Cercas, lembra no livro do ano, O Louco de Deus no Fim do Mundo (Porto Editora, 2025), em que o escritor acompanhou o Sumo Pontífice até à longínqua Mongólia, que são bem-aventurados os puros de coração porque verão a Deus, pondo a tónica na misericórdia e na dignidade universal de todos os seres humanos, independentemente de escolhas ou de privilégios.

Artífice incansável de Terra Sonâmbula, Mia Couto acompanha-nos neste juízo do ano, e permite-nos compreender, como disse um dia, que a verdadeira arma de construção maciça de que que dispomos é o ofício de pensar, que nos permite ir além do queixandar e da incapacidade de responder a quem de nós precisa… E assim poderemos falar e ouvir, uns com os outros, entendendo-nos. 


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 22 a 28 de dezembro de 2025


Acaba de ser publicado numa edição especial alusiva aos 80 anos do Centro Nacional de Cultura “O Esplendor das Amizades – A Experiência Portuguesa de Edgar Morin”. A edição entrará no circuito comercial em janeiro, prevendo-se que esgote rapidamente, pelo que poderão já ser feitas encomendas online.


Edgar Morin tem uma ligação especial a Portugal e manifestou desejo de o deixar claro neste momento de sua vida, quando jubilosamente ultrapassa o limiar dos 100 anos de idade. Subscreveu, por isso, um testemunho singelo e impressivo, onde fica clara essa relação e que constitui a demonstração de um apreço especial.

«António Alçada Baptista, que animava, nos anos 60, a oposição cultural ao regime de Salazar, convidou-me a ir a Portugal fazer uma conferência no quadro das suas atividades democráticas. O meu nome foi-lhe sugerido pelos seus amigos da revista Esprit, entre os quais Jean-Marie Domenach. A partir desse momento, nasceu entre nós uma amizade indissolúvel. Fiz esta conferência e liguei-me, também, a muitos dos seus amigos de “O Tempo e o Modo”, como Helena Vaz da Silva, uma mulher maravilhosa, além de seu marido Alberto, do João Bénard da Costa e do Pedro Tamen, todos, pessoas notáveis.

Voltei várias vezes a Portugal e a relação com o António tornou-se cada vez mais profunda. É uma das maiores amizades da minha vida. Estive com ele na sua casa de campo. Uma destas visitas foi a seguir à minha estadia na Califórnia, nos anos 70, e lembro-me como foi entusiasmante participar com ele na sua luta pela democracia em Portugal.

O paradoxo da Revolução dos Cravos foi que, normalmente, os militares fazem golpes de Estado para subjugar. Em Portugal, de uma forma única e excecional, foram os militares colonialistas que fizeram o golpe de Estado democrático que derrubou o sucessor da ditadura de Salazar, Marcelo Caetano. O próprio António ficou surpreendido com este golpe mas, claro está, depois ficou muito contente. E eu tive a oportunidade de participar nesses dias maravilhosos de libertação, de euforia.

Continuámos a ver-nos até ao momento em que percebi que ele se sentia muito cansado. Ainda pude vê-lo pouco tempo antes da sua morte, em 2008. Em síntese, direi que António Alçada Baptista é uma figura histórica porque numa época de silêncio total, a revista O Tempo e o Modo e a sua ação foram uma afirmação de liberdade.

Foi o António que me apresentou a Mário Soares que estava exilado em Paris. Levou-o a minha casa e estivemos várias vezes juntos antes dos grandes acontecimentos. Lembro-me de um episódio curioso que se passou no caso “República”, num momento em que houve em Portugal uma ameaça de ditadura, uma espécie de revolução popular com o apoio de uma parte dos militares. O Observateur publicou um grande artigo em que se afirmava – como à época também se dizia no Le Monde - que, em Portugal, o importante era o pão e não a liberdade. Eu escrevi um artigo sobre este caso mostrando que aqui o importante era a liberdade e não o pão. O que reconfortou muito Mário Soares. Esta amizade também só extinguiu com o seu fim.

E tudo isto está ligado. António, graças a quem pude conhecer Mário Soares, graças a quem pude intervir num momento importante da revolução portuguesa, graças a quem me mantenho, em permanência, ligado a Portugal».

Este testemunho foi dado, de um modo emocionado, a Ana Barbosa em Marraquexe, com a preocupação que pudesse ficar registado como sinal de homenagem. De facto para Edgar Morin não apenas é importante destacar o caso singular da revolução portuguesa, como também evidenciar o papel desempenhado por Mário Soares na salvaguarda em Portugal de um Estado de Direito, baseado nos direitos fundamentais e na dignidade humana, numa palavra, num Democracia humanista, com o primado de instituições civis legitimadas pelo voto e respeitadoras do exercício de uma cidadania livre e responsável, e com instituições participadas pelos cidadãos e mediadoras em nome do bem comum. A demonstrar tão grande admiração, Edgar Morin sentiu profundamente o falecimento de Mário Soares, como sentira antes as perdas de Helena Vaz da Silva e de António Alçada Baptista. Foi como se uma parte decisiva do que o ligava a Portugal se tivesse perdido para sempre, não sem que tivesse permanecido a profunda ligação à democracia portuguesa, como exemplo moderno uma cidadania ativa, ciente da exigência da permanência de instituições legítimas.

*

«No decorrer dos anos 69 ou 70, descobri o esplendor de Lisboa e, ao mesmo tempo, o esplendor de maravilhosas amizades. Tinha sido convidado por António Alçada Baptista, que animava a revista “O Tempo e o Modo”, rodeado de uma plêiade de espíritos jovens apaixonados por liberdade e por justiça em pleno centro da ditadura salazarista. Entre esses amigos, ligou-me à Helena e ao Alberto um especial entusiasmo. Gostava profundamente de ambos. Ela, com o seu alegre dinamismo, a sua luminosa vitalidade; ele, com a sua reserva, a sua contensão, a sua sabedoria púdica. Nascidos e criados num mundo de tradições, tinham-se emancipado dele, fazendo em alguns anos o itinerário de três gerações: eu acabava de chegar da Califórnia e eles já estavam parcialmente californizados, ainda que conservando a sua lusitaneidade interior. Alberto era advogado e eu nunca soube dessa sua profissão. O que nos ligou foi o seu profundo sentido do mistério da vida, e lembro-me de uma longa noite em que, enquanto a minha mulher falava com a Helena, nós ficámos os dois, com o Alberto a fazer-me o horóscopo com um cuidado meticuloso: ele revelou-me a mim próprio traços da minha personalidade que nunca tinham aflorado à minha consciência. Qualquer coisa de comum nos unia um ao outro. Uma noite inteira nos ligou fraternalmente e esse sentimento fraterno perdurou. Voltei muitas vezes a Lisboa durante os anos 70, e tive a sorte de testemunhar a revolução dos cravos, momento de êxtase na história portuguesa que, como todos os grandes êxtases da História, nos marcou para sempre com a sua poesia, iluminadora e fugitiva, antes que o mundo volte a cair na prosa. Voltei nos anos seguintes, mas consagrei-me depois à América Latina, especialmente ao Brasil, filho de Portugal. Soube, com desgosto, da morte da Helena em 2002, mas não tive conhecimento da do Alberto e só mais tarde a notícia chegou até mim. Tal como o derradeiro brilho duma estrela morta há milhões de anos-luz que nos atinge com toda a sua intensidade muito mais tarde, assim me marcou a morte de Alberto. Direi do Alberto que possuía uma presença poética. Emanava dele uma aura de gravidade sorridente, de bonomia, de doçura extrema. Ser inesquecível, é por mim inesquecido e lamento por razões de última hora não poder estar fisicamente presente na homenagem que lhe é prestada».

Edgar Morin


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 15 a 21 de dezembro de 2025


Javier Cercas aceitou acompanhar o Papa Francisco na viagem à Mongólia e o resultado é uma obra de antologia. «O Louco de Deus no Fim do Mundo» (Porto Editora) é um diálogo apaixonante, entre um ateu confesso e o Sumo Pontífice. Nunca tal tinha sido feito, e percebemos que num diálogo entre pessoas civilizadas todos ganhamos – porque a fé é um dom que sopra onde menos se espera.


Hannah Arendt num ensaio célebre sobre o papa João XXIII conta que uma velha criada romana lhe disse que não compreendia como um Papa poderia ser um verdadeiro cristão, como ele. “Ninguém se terá apercebido de quem ele era?” E a filósofa alemã comentava: “A relutância da Igreja em nomear para altos cargos esses raros indivíduos cuja única ambição consistia em imitar Jesus de Nazaré não é difícil de compreender”. E Cercas pergunta: «Seria Bergoglio um desses poucos? (…) Seria Francisco um segundo João XXIII, o protótipo de um papa calmo, humilde e sem ambições, e por isso teve a ideia inicial de se chamar João XXIV (e a ideia final de se chamar Francisco)? Bergoglio será simplesmente um verdadeiro cristão sentado na cadeira de São Pedro? A Igreja ter-se-á enganado ao elegê-lo, tal como, segundo a criada romana de Hannah Arendt, se enganou ao eleger João XXIII? Será esse o segredo de Bergoglio?» Esta a grande interrogação que está presente ao longo deste diálogo. Os pontos relevantes são múltiplos e estamos perante o modelo de um encontro inteligente que lança pistas interessantes e inteligentes. E descobrimos, com o cardeal Tolentino, que é poeta, e com Javier Cercas, que a fé é uma intuição poética que só se pode expressar em linguagem poética. Mas encontramos ainda um caso prático com orientação dada pelo Papa, sobre a Doutrina da Fé, que certamente teria enchido de raiva o Grande Inquisidor de Dostoiévski: “O dicastério (…) noutras épocas chegou a utilizar métodos imorais. Foram tempos nos quais, mais que promover o saber teológico, se perseguiam possíveis erros doutrinários. O que espero de ti é, sem dúvida, uma coisa muito diferente”. E o destinatário dessas palavras completa. “Perante uma acusação, o dicastério deve ser um espaço de debate com essa pessoa, um instrumento que nos permita averiguar se esse alguém tem uma inquietação legítima que talvez seja preciso ter em conta, ou se algo que, à primeira vista, parece um erro, pode ser, na realidade, uma tentativa de expor um aspeto ou um problema que foi esquecido ou que não foi suficientemente pensado pela Igreja”…  Os tempos da Igreja são longos, o amadurecimento dos consensos é difícil. Compreende-se assim que seja preciso dar passos seguros. Mas há também quem se impaciente… O Papa Francisco, porém, condena o clericalismo nas suas diferentes manifestações…

Mas qual o segredo de Begoglio? Diz-nos Javier Cercas: “O segredo de Bergoglio é que não tem segredo nenhum: o segredo de Bergoglio é ser um homem comum e corrente”. Mas há o risco da mistificação. O eu pessoal e o eu social contradizem-se. “Definir o Papa como uma espécie de super-homem, uma espécie de estrela, parece-me ofensivo”. É o próprio papa quem o esclarece. “Francisco oculta Bergoglio, mas revela o seu desejo de ser Francisco”. Como leitor apaixonado de Chesterton, cultiva a humildade e demarca-se do orgulho satânico, mas não esquece as contradições íntimas, a lembrança das dificuldades, das angústias e dos problemas sentidos na Argentina. E é a conquista da humildade que o torna um cristão sentado na cadeira de São Pedro.

Três partes compõem este percurso: À Procura de Bergoglio; os Soldados de Bergoglio e o Segredo de Bergoglio. Há um jogo de procura e descoberta. “Foi para isto que embarquei neste avião: para perguntar ao Papa Francisco se a minha mãe verá o meu pai depois da morte e para lhe levar a sua resposta. Eis um louco sem Deus perseguindo o louco de Deus até ao fim do mundo”.

Ao ler o livro, compreendemos que a realidade humana esta cheia de elementos contraditórios. A Igreja é uma realidade viva, que se relaciona com o mundo como expressão da humanidade, com os seus defeitos e virtudes. E Javier Cercas desempenha exemplarmente o seu papel de interrogador e de analista, como um escritor sério que não se deixa levar pelas aparências, mas que sente a riqueza de uma realidade milenar que tem fortes raízes e busca a essência da vida…

*

A viagem ecuménica do Papa Leão XIV constituiu oportunidade para assinalar os 1700 anos do Concílio de Niceia. Tratou-se de renovar à luz dos dias de hoje o sentido do Concílio convocado em 325 pelo Imperador Constantino. O ecumenismo significa uma compreensão da diversidade com todas as suas consequências, como reconciliação, e como troca dos nossos dons e patrimónios espirituais. Neste espírito se insere a Carta Apostólica In Unitate Fidei, dirigida pelo Papa a toda a Igreja em sentido universal. “Para podermos desempenhar este ministério de forma credível, devemos caminhar juntos para alcançar a unidade e a reconciliação entre todos os cristãos. O Credo de Niceia pode ser a base e o critério de referência deste caminho. Propõe-nos efetivamente um modelo de verdadeira unidade na legítima diversidade. Unidade na Trindade, Trindade na Unidade, porque a unidade sem multiplicidade é tirania, e a multiplicidade sem unidade é desintegração. (…) Devemos, portanto, deixar para trás as controvérsias teológicas, que perderam a sua razão de ser, para adquirir um pensamento comum e, mais ainda, uma oração comum ao Espírito Santo, para que nos reúna a todos numa única fé e num único amor”. Contudo, falar de ecumenismo é referir o método sinodal e o grande trabalho confiado às Igrejas cristãs no sentido da salvaguarda da liberdade religiosa como pedra angular dos direitos humanos. Eis como hoje o diálogo entre religiões e culturas deve constituir um contributo decisivo para uma cultura de paz e para a defesa da dignidade humana. 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

"SANGUE SÁBIO"

  
    Flannery O’Connor com os seus pavões


Flannery O’Connor (1925-1964) é uma das grandes escritoras norte-americanas do século XX, cujo centenário assinalamos. O seu estilo é marcadamente original, representando, enquanto natural dos Estados do sul, um sinal especial de dureza e sinceridade, perante a presença dogmática protestante dos seus conterrâneos. Lê-la constitui um desafio exigente quer pelo carácter complexo dos seus temas, quer pela construção narrativa e pelo sentido que atribui ao destino dos seus protagonistas. O seu catolicismo leva-a a confrontar a realidade e a Graça, os acontecimentos e o mistério. O que caracteriza o seu pensamento é a capacidade de encarar o mundo do avesso. A consciência do mal e o pecado tornam-se não apenas um sobressalto, mas uma descoberta da humanidade. Como Mauriac, Bernanos ou Graham Greene, a escritora sublinha as situações limite, percebendo o mundo imperfeito. Deus escreve direito por linhas tortas, lembrou-o Claudel no pórtico de Le Soulier de Satin. De facto, Flannery preocupa-se, antes de mais, com a observação, a especificidade, a credibilidade, a verdade, ou seja, com a não indiferença perante o mundo e os outros, não ignorando o que parece ser simples e superficial, porque tudo lhe permite compreender a essência da vida. Por isso, alguém disse que foi apenas uma contadora de histórias, tendo sido muito mais.

Demarcando-se do “grotesco” sulista do “Bible Belt” e da ortodoxia luterana, dominados pela subalternidade, O’Connor vai assumir uma atitude inconformista, deixando nítido, como salienta Pedro Mexia no Prefácio a Um Diário de Preces, que «o “dogma” cristão é uma hipótese possível sobre o “mistério” da humanidade. De modo que quanto mais dogmático mais enigmático, ou seja mais verdadeiro». Quando afirma que O Céu é dos violentos,  sabe que “o amor deve ser pleno de fúria”, porque a guerra celestial propõe-se abandonar a sombra e procurar o sol. Cristo não traz a paz mas a espada, dizem os Evangelhos. E entre o amor dos seus pavões, as tarefas da quinta, os cuidados da doença incurável, a romancista lê S. Jerónimo e quantos a possam esclarecer sobre os mistérios da Graça.

Afinal, os temas que talvez não fizessem sentido nos dias de hoje abrem os olhos. Em lugar da placidez da indiferença, importava a luta contra os paradoxos da vida. E que é a literatura senão essa marca inesperada que abre horizontes onde menos se espera? E compreende-se que a protagonista do conto Por que motivo se rebelam os pagãos procurasse na leitura a revelação do que a intrigava. “Não era raro (…) deparar-se com uma passagem estranha sublinhada num livro que o filho deixara aberto algures e ficar a cismar sobre ela dias a fio. Uma passagem que encontrara num livro por ele deixado no chão da casa de banho no andar de cima ficara-lhe sinistramente gravada no espírito”. Em Sangue Sábio, o seu primeiro romance (1952), um jovem, neto de um pregador ambulante, abandona a fé ao servir no exército durante a Segunda Guerra Mundial. Ao regressar ao Tennessee, compreende a força da transcendência na comunidade, mas decide combatê-la através da fundação da sua “Igreja Sem Cristo”… Eis o método de Flannery O’Connor: partir da contradição para chegar à essência das coisas, oferecendo-nos sempre o que nunca nos pode deixar indiferentes. 


GOM

CORES, DEUSES, VIAGENS E AMORES

  


Sabemos que Teseu, o vencedor de Minotauro, teria afirmado que a imaginação chega mais longe do que a razão. E não é preciso ir até à Grécia mítica para o confirmar, pois basta lembrar que Albert Einstein disse o mesmo, demonstrando-o no audacioso caminho científico que trilhou. Partindo de Shakespeare e do Sonho de uma Noite de Verão, continuando com o célebre mapa da Catedral de Hereford, onde se compilaram velhas lendas do mundo antigo,  culminando na viagem de Gauguin ao Taiti em busca da essência da Arte, Francisco Louçã apresenta no seu livro Imaginação - Cores, Deuses, Viagens e Amores (Bertrand, 2025) uma estimulante e inesperada reflexão sobre esta interrogação fundamental: Existirá, além da fria razão, uma essência humana que nasce do impulso da criatividade? O percurso que nos apresenta é estimulante, como referiu Lídia Jorge na apresentação do livro. E já que falámos de Teseu, cumpre dizer que podemos usar para identificar esta longa reflexão as metáforas do labirinto e de um belo caleidoscópio. Os temas entrelaçam-se e podemos compreender como é possível recorrer a diversas pistas, “seja na religião as crenças sumérias e mesopotâmicas e o Alcorão, seja na literatura a influência encantatória da Epopeia de Gilgamés, do Romance de Genji e das Mil e Uma Noites, seja reportando as viagens africanas de Ibn Battuta ou a geografia de Al-Idrisi e a sageza indígena norte americana e Kondrarionk”. Apesar das distâncias na geografia e no tempo, cerca de mil anos, vamos descobrindo a complexidade da condição humana. Estamos perante um recenseamento, naturalmente limitado, apesar da sua extensão, sobre a capacidade de pensar e criar novas possibilidades em diferentes quadros sociais e históricos. E assim vemo-nos confrontados com sobreposições temporais reveladoras. E Plínio pergunta: “quantas coisas são julgadas impossíveis  antes de terem realmente ocorrido?”. Pode o autor dizer que o guião que apresenta é incompleto e até impreciso, mas o certo é que os temas são de si promissores abrindo várias perguntas que levam a novos horizontes.

O percurso que nos é proposto faz suceder um caminho exaltante, para quem considerar a leitura, a reflexão e o pensamento poderosos fatores de emancipação. E deste modo sucedem-se os temas, ao longo da obra: Imaginar a Cor; Imaginar o Além; Imaginar o desconhecido; e Imaginar o prazer. A propósito de cada um, podemos preencher os espaços abertos pelos mistérios insondáveis que nos são apresentados. E percebemos que a imaginação é a faculdade cognitiva que cria imagens mentais e os seus imaginários. “De facto, não se pensa, sente ou aprende sem imaginar”. Cervantes inventa o romance moderno, como Fernão Mendes Pinto constrói uma verdadeira saga. E Gauguin, na sua viagem, ensina-nos que o azul é o que nos parece azul. E as religiões, nas suas misteriosas ligações milenares, são os mais antigos imaginários sociais, narrando mitos, construindo rituais, caracterizando lugares. Dostoievski em Os Irmãos Karamazov põe-nos à prova sobre quem somos, e a memória de António Conselheiro na guerra dos Canudos leva-nos ao limite. E leia-se o testamento intelectual de Maria Helena Vieira da Silva, que nos obriga a ir ao âmago da Arte: “Lego aos meus amigos/ um azul cerúleo para voarem alto / um azul cobalto para a felicidade / um azul ultramarino para estimular o espírito / um vermelhão para fazer circular o sangue alegremente…”


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 24 a 30 de novembro de 2025


Na passagem dos 180 anos do nascimento de Eça de Queiroz realizaram-se em colaboração do Círculo Eça de Queiroz, do Grémio Literário e do Centro Nacional de Cultura diversas iniciativas, entre as quais um roteiro do Chiado queirosiano, conduzido por Guilherme d’Oliveira Martins no sábado 22 de novembro. 


Quando relemos “Os Maias”, lembramo-nos do longo tempo de feitura e de revisão que o autor dedicou a tal obra, o que permite que aí encontremos um conjunto complexo e heterogéneo de elementos, que nos levam a compreender a sociedade do tempo, o património cultural material e imaterial, a cidade, a natureza e a paisagem, e a capacidade criadora ditada pela contemporaneidade. Alguém disse “está lá tudo”… Não sei se está, mas a verdade é que há aí muito do que permite compreender criticamente a nossa realidade. Fizemos um longo percurso, o apuramento do sentido crítico que Eça e a sua geração nos ensinaram teve os seus resultados, mas há muito para fazer. Daí a importância de podermos lidar com a oficina do escritor, percebendo que à mediocridade devemos saber contrapor o não deixar ao abandono o que recebemos e a aprendizagem exigente da informação que tem de se tornar conhecimento e do conhecimento que deve ser sabedoria…


Na célebre carta a Ramalho Ortigão de 20 de fevereiro de 1881, a propósito de uma hipótese confusa de publicação em folhetins de Os Maias no “Diário de Portugal”, por Lourenço Malheiro, Eça fica na esperança de poder obter uma boa retribuição monetária pelo romance. Oiçamos o escritor: “e como via nessa proposta uma pequena fortuna (o Malheiro afiançava-mo) decidi logo fazer não só um romance, mas um romance em que pusesse tudo o que tenho no saco. A ocasião confesso era sublime para jogar uma enorme cartada”… O episódio revela, porém, desencontros e incompetências, atrasos tipográficos e outras incapacidades. Mas só em 1888 essa obra, considerada quase pronta sete anos antes, viu finalmente a luz do dia. O que importa dizer é que o romancista fez indiscutivelmente uma grande aposta – e é esse o resultado de que todos somos beneficiários, ao ler uma ampla representação da sociedade do momento. Em 12 de junho de 1888, em carta a Oliveira Martins, dirá: “Os Maias saíram uma coisa extensa e sobrecarregada, em dois grossos volumes! Mas há episódios bastante toleráveis. Folheia-os, porque os dois tomos são volumosos de mais para ler. Recomendo-te as cem primeiras páginas; certa ida a Sintra; as corridas; o desafio; a cena do jornal A Tarde; e sobretudo o sarau literário. Basta ler isso e já não é pouco. Indico-te, para não andares a procurar através daquele imenso maço de prosa”. Os Maias são um retrato do Portugal citadino do final do século XIX. Há um rico percurso que abrange desde um tempo de confronto entre a tradição e os ventos novos, representado pelo avô Afonso da Maia, que nos liga à sociedade antiga, até chegar aos efeitos da acalmação e do progresso concretizado pela Regeneração. Dir-se-á, porém, que confluem a imitação das sociedades avançadas da Europa e a ausência de meios suficientes para assegurar que os melhoramentos de Fontes Pereira de Melo tornassem o país próspero e superasse o atraso. A sombra do défice e da dívida pública abatem-se sobre o país (como se vê no jantar do Hotel Central) – e os ingredientes do romance trazem-nos, ao lado de uma trágica trama amorosa entre dois irmãos, que se desconhecem, o confronto entre o tédio vivido por Carlos da Maia e o pensamento de João da Ega, ditado pelas influências de um fim de século pessimista e contraditório. Há mudanças profundas que se reclamam, há intenções. Mas o pano de fundo revela futilidade, descrença, ilusão e mediocridade.


Indiscutivelmente, Os Maias é um romance fiel ao ambiente que se vivia quando foi publicado e escrito, o que faz crer a muitos que continuamos a persistir nessa sociedade retratada há tantos anos, numa obra longamente escrita e pensada… As diferenças na sociedade são profundas, mas há reminiscências que perduram. A escrita é cortante, clara, incisiva e tem de ser reconhecida na sua imensa riqueza. Os Maias assumem um lugar central no nosso panorama literário, pelo carácter, pela diversidade das personagens, pela força da escrita e pelo sentido crítico. Representam uma das marcas deixadas pela Geração de 1870 – graças a uma voz severa, mas não a um negativismo sem horizonte. Devemos lembrar o que Eduardo Lourenço disse em O Labirinto da Saudade: “Não é suscetível de discussão o amor (e o fervor) com que a Geração de 70 tentou desentranhar do Portugal quotidiano, mesquinho e dececionante, um outro, sob ele soterrado, à espera de irromper à luz do sol”. E sobre a crítica de Fialho de Almeida, o próprio Eça dirá em sua defesa: “condenar um escritor, como caluniador e maldizente, porque ele revela os ridículos do seu país – é declarar maldizente toda a literatura de todos os tempos, que toda ela tem tido por fim fazer a crítica dos costumes, pelo drama, a poesia, o romance e até o sermão!” (a Mariano Pina, 27.7.88). Talvez A Ilustre Casa de Ramires seja mais problematizante, mas também mais enigmático. Estamos, assim, diante de uma panóplia inesquecível, que deve ser recordada por quem queira conhecer a literatura portuguesa. Lembremos Maria Eduarda, fantasma marcante no romance, a condessa de Gouvarinho, Jacob Cohen, Dâmaso Salcede, Tomás Alencar, Palma Cavalão… E não se esquece, no Primo Basílio do célebre diálogo na entrada da Basílica dos Mártires entre Luísa e o Conselheiro Acácio. A diversidade romanesca esconde, no entanto, uma uniformidade desgostante da sociedade que decai. Mas é de literatura como realidade viva e atual que cuidamos, eis a razão desta escolha – de uma obra-prima da língua portuguesa de sempre. E na rampa de Santos, Carlos e João da Ega dão ainda uma corrida atrás do Americano – “Ainda o apanhamos!”. 


Guilherme d'Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

ANA PAULA TAVARES


    Fotografia: Camões Berlim 


A atribuição do Prémio Camões a Ana Paula Tavares constitui um facto especialmente importante, uma vez que reconhece a relevância da língua portuguesa no mundo, e em especial para a poeta, historiadora e antropóloga na cultura dos trópicos. Estamos perante o caminho nómada de um idioma, enriquecido pela riqueza da permanência e da passagem. Ler e ouvir Ana Paula Tavares é compreender a diversidade de experiências que a escritora foi testemunhando. “Os contadores de histórias do meu país (ouvimo-la) sabem como usar as suas línguas maternas para realizarem as tarefas de Deus, a transmutação do corpo em voz, e uma vez voz, repetir o murmúrio da tradição que assim se fortalece e se transforma em pedra de tanto durar. (…) Assim se acumulam notícias e cresce o espanto, que a língua tem dessas armadilhas: amortece a queda, cuida dos viventes, ensinando a conviver com a notícias deste danado tempo dos anos da peste”.

Nascida no planalto da Huíla, Paula Tavares deixou-se fascinar pela região e pela sua vida. Aí foi a sua primeira casa a dois mil metros de altitude, onde o olhar se perdia na distância do horizonte, limitado pela serra. A sua poesia liga-se aos ciclos da vida, à terra, às flores, aos frutos, e está cheia de oralidade, perante o mistério e a diversidade das línguas locais. O ritmo dos poemas é dominado pela cadência dos relatos mais antigos dos comerciantes de gado, que iam e vinham. E o mundo das mulheres fascinava-a. Elas compreendiam bem a vida autêntica. “Filha da savana / A árvore fêmea / Oferece os frutos / Na estação seca / Comida de onça / Remédio de gente / Serve de goma / Ao bairro das oleiras”. Cada poema encerra o entendimento de que as pessoas e a natureza se casam naturalmente. E todos os segredos se revelam aí. “Os livros, as estações do ano, as chuvas e as palavras jazem esquecidas nos baús da memória (diz-nos ainda). Ninguém sabe como ou porquê tal fenómeno acontece e dele só damos conta quando de repente, assim de manso, um acontecimento, uma moda, um ato de vontade, traz à superfície de muito turvas águas a palavra, o cheiro da terra molhada, as goiabas penetrando os poros, saturadas de cheiro, o silêncio breve de uma igreja vazia, o doce calor de uma vela acesa. As línguas francas, próprias ou alugadas, estão cheias desses enigmáticos recursos e engordam à custa de vocábulos repescados, esquecidos, retomados outra vez”. E, lembrando Mia Couto, Ana Paula diz-nos, no fundo de si: “Há que celebrar a viagem a empreender dentro de nós”.

Neste ainda ano do centenário do nascimento de Camões, a escritora faz da nossa língua comum o arado que vai permitir que a terra nos dê o fruto da palavra, que entra no coração da gente. É, pois, com emoção que recordamos o exemplo de Ana Paula Tavares, e que ouvimos as suas palavras, de mulher, lutadora da liberdade, amante da escrita, da língua e da generosidade dos povos que nos unem e fazem compreender as diferenças, sentindo-a como um elo forte que liga as várias margens do Atlântico. E ao lembrar há dias o exemplo da autora de “Sangue da Buganvília” com os confrades da Academia Brasileira de Letras quis exprimir como a língua portuguesa se expande nos quatro cantos do mundo exigindo-nos uma vontade comum de continuar o caminho ao encontro da liberdade e da diferença.


GOM

A VIDA DOS LIVROS

  

De 17 a 23 de novembro de 2025


Por ocasião dos dez anos da sua morte, recordamos a personalidade de Maria Barroso (1925-2015) na biografia escrita por Leonor Xavier (“Um Olhar Sobre a Vida”, Oficina do Livro, 2012), onde a educadora e a cidadã são justamente lembradas.


Maria Barroso e Mário Soares são um símbolo fundamental do pensamento e da prática da democracia no Portugal Moderno. Trata-se de um duo que funcionou sempre como uma equipa em que a coerência e a sensibilidade se associaram na perfeição, em nome de uma atitude humanista como aguilhão capaz de mobilizar os cidadãos para a liberdade e a justiça. Como educadora, Maria Barroso ligou a sua atividade cívica e política à ideia de emancipação pedagógica, uma vez que a função essencial da escola tem a ver com a preparação de jovens para a liberdade e para a responsabilidade de modo que a participação e a representação constituam meios eficazes para a defesa do bem comum. A república escolar de António Sérgio constituía a base do autogoverno democrático que os grandes pedagogos defenderam, ao invés da demagogia e da tentação de cultivar falsas soluções assentes na ilusão dos salvadores providenciais…     


Leonor Xavier quando escreveu Um Olhar sobre a Vida de Maria Barroso (Oficina do Livro, 2012) compreendeu-o perfeitamente que a educação, a cultura e a vida cívica se misturam naturalmente na vida da sua biografada. No percurso que analisou com grande cuidado e rigor dá-nos a dimensão de uma personalidade fascinante, com uma vocação própria que se afirmou com qualidades extraordinárias ao longo da vida, como aluna do Conservatório, como estudante da Faculdade de Letras, como artista de eleição do Teatro Nacional, com reconhecimento unanime, e naturalmente como pedagoga, como parlamentar e militante da sociedade civil.


Encontramo-la, nascida numa família algarvia de raiz democrática, com o pai preso e deportado para os Açores. Frequentou o Liceu Dona Filipa de Lencastre e foi aluna do curso de Arte Dramática. Depois de concluir o curso dos liceus no Pedro Nunes, inicia a frequência de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras. David Mourão-Ferreira recorda esses tempos, no Convento de Jesus: “Mal nos apercebíamos da luminosa rede de afetos que ali se ia tecendo”. Tal grupo reunia personalidades que viriam a ser marcantes na cultura portuguesa: Sebastião da Gama. Luís Filipe Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo, Eurico Lisboa, Maria de Lourdes Belchior, Joel Serrão, Helena Cidade Moura. A jovem Maria de Jesus destaca como mestres Vitorino Nemésio, Jacinto do Prado Coelho, Hernâni Cidade, Andrée Crabé Rocha e Virgínia Rau, admirando especialmente Delfim Santos professor da Filosofia Antiga ou Vieira de Almeida na cadeira de Lógica.  


Segue escrupulosamente os ensaios no teatro. A mãe acompanha-a e fica à sua espera no camarim, durante as representações noturnas. Estreia-se no Teatro Nacional em 1944 no Auto da Pastora Perdida e da Velha Gaiteira de Santiago Presado. Norberto Lopes fala de “uma promessa radiosa com a qual o teatro português deve contar”. Nos corredores da Faculdade conhece Mário Soares num episódio ligado a uma injustiça de que foi vítima por uma falta inexistente dada pelos compromissos com o teatro. Em maio de 1945, participa na grande manifestação estudantil do final da Guerra em que Mário Soares intervém, mas tem de correr para o ensaio geral no Teatro Nacional. Representava o papel de Elsa, a dactilógrafa, na peça Vidas sem Rumo, com Raul de Carvalho, Paiva Raposo e José Gamboa. Pouco depois, por escolha da própria Amélia Rey Colaço desempenha em Frei Luís de Sousa o papel de Maria de Noronha, ao lado de Palmira Bastos, destacando-se junto do público e dos críticos, pela segurança e pela emoção com que representa. Fernando Fragoso dirá “É um atriz que sobe a olhos vistos. E defendeu-se briosamente envolta num halo de graça e de frescura”.


No tempo do MUD juvenil e do final da Guerra, que exigia abertura democrática, Mário Soares é preso em 1947 e o regime endurece na perseguição aos seus opositores. Maria Barroso anima memoráveis recitais poéticos. Diz poemas como ninguém. São extraordinárias as suas intervenções, começadas em Santarém, que logo alertaram a polícia política. Traz para a praça pública a poesia do Novo Cancioneiro empolgando um público entusiástico. O poema de Álvaro Feijó Nossa Senhora da Apresentação era emblemático“Aquela que não tem mantos da cor do céu / Aquela que não tem fios nos cabelos”, numa denúncia forte da injustiça, da miséria e da fome. Mas também fazia ouvir as palavras inesquecíveis de Mataram a Tuna, de Manuel da Fonseca – “Ah meus amigos desgraçados, se a vida é curta e a morte certa / despertemos e vamos / eia / vamos fazer qualquer coisa de louco e heroico / como era a Tuna do Zé Jacinto / tocando a marcha Almadanim!”.


No Teatro Nacional, o seu desempenho continua a destacar-se. Robles Monteiro convida-a para protagonizar Benilde ou a Virgem Mãe de José Régio. E este faz-lhe confiança. É um grande sucesso, que entusiasma o próprio autor. Norberto Lopes diz: “Dentre a gente nova (…) permitimo-nos destacar o nome de Maria Barroso, que está em plena curva ascensional de uma carreira brilhante, onde pode vir a ocupar um lugar de primeiro plano, se os fados não a desviarem do caminho florido que tem à sua frente”. O final do texto revelar-se-ia profético, por más razões. A polícia política rondava. Infelizmente, com a terceira prisão de Mário Soares, coincidente com a encenação de Paulina Vestida de Azul, de Joaquim Paço d’Arcos, vem uma terrível decisão. Não poderia  continuar a trabalhar no D. Maria II, por uma ordem vinda da polícia e do Ministério da Educação. “Foi um desgosto. Senti que era uma injustiça” – confessa Maria Barroso. Amélia Rey Colaço considera um golpe fatal, que atinge o coração do Teatro. 


Ao reler Leonor Xavier, sentimos saudade e gratidão. E não esquecei o dia em que, convidando-a para evocar os Cadernos da Poesia, e sem qualquer preparação, foi possível ouvir a sua voz fantástica a recordar a grande poesia como voz de liberdade. “Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos. / Porque os outros calculam mas tu não” – como disse Sophia.


Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  

De 27 de outubro a 2 de novembro de 2025


«Novas Fases da Lua» de João de Melo (D. Quixote) é um diário dos anos de 2017 a 2024 (com exceção de 2020 e 2022) no qual encontramos o pulsar da vida cultural pela pena de um grande escritor.


O diário de um escritor é sempre a revelação apetecível de um retrato do mundo através do testemunho de quem procura ir além das aparências e do prazo curto. João de Melo é um excelente cicerone, que nos conduz por caminhos muito sedutores que nos ajudam a compreender o tempo e as pessoas. A cada passo encontramos autores e acontecimentos que seguimos com um incontido prazer, pois além da sedução da escrita podemos usufruir de uma leitura qualificada da realidade cultural que nos cerca. Em 17 de fevereiro de 2019, ouvimos o autor: “Ponho-me a imaginar a minha biblioteca sem mim, ou seja, depois de mim. Todos estes livros têm a marca das minhas mãos, uma história silenciosa que um dia se calará comigo. Dói-me imaginar o destino que os levará a outros olhos e a mãos diferentes das minhas. Perder-se-ão as dedicatórias dos autores, a minha leitura deles, os milhares de livros lidos sobre os quais se apagará a luz e a gratidão dos meus olhos. Houve um tempo em que as bibliotecas representavam pequenos tesouros familiares que os filhos herdavam com proveito e alegria. Hoje ninguém quer bibliotecas particulares: todos os lugares estão cheios e saturados delas – acabarão num sótão ou numa cave escura e coberta de pó, ou nas mesas de rua dos vendilhões de livros em segunda mão, comprados a pataco como pechinchas de ocasião. (…) Toda a vida a comprar e trazer livros para casa, e depois este logro, esta inutilidade alheia”. Estamos aqui no coração deste diário, de modo a que possamos usufruir da essência da memória, para além do desaparecimento do tempo. Olhe-se a lembrança de “Ana Karénina”, aprendendo “com os mestres a simplicidade profunda, o segredo discreto do génio, a linguagem natural da literatura. A grande literatura faz-se com a paciência laboriosa do inventário, com atenção e rigor máximo no pormenor”. Eis como um livro se mistura com a vida do leitor, e a biblioteca é a grande representação do mundo em que cada um de nós se insere. Tolstoi torna-se, assim, nosso companheiro. E lembramos Vargas Llosa a ensinar-nos que “devemos organizar a vida como se fossemos viver indefinidamente. De maneira que a morte seja como um acidente”. Assim a literatura e os livros tornam-nos participantes de um tempo eterno…  “A literatura mudou o curso dos meus dias. Deu-me no mundo um conhecimento bem mais vasto do que as minha origens. Nem eu sei que espécie de vertigem explica a minha necessidade vital de cultura, dos livros próprios e alheios, do que mim se irmana ao ler e amar os livros dos outros e de ser lido e amado por eles”. E assim nos deparamos com a fascinante leitura de “Astronomia” de Mário Cláudio, em que as personagens não têm nomes: são os Pais, os Tios, as Criadas, o Menino, o Rapaz e o Velho. Assim, o leitor descrê do teor pessoal da leitura e fixa-se na ficção biográfica. A realidade e a imaginação misturam-se, e entramos de pleno no mundo de uma realidade que nos faz assumir a transição entre o sonho e o mundo concreto, como sombra de várias sombras.


E de súbito encontramos a criada de Herculano, convencida de que o historiador era um preguiçoso, por levar os dias sentado  a escrever. Assim convivia com essas sombras míticas, projetando-as para além do tempo. No diário os temas sucedem-se, e o memorialista depara-se num passeio ao Sol de Inverno com um bairro novo cujas ruas têm nomes de escritores. Rua Vitorino Nemésio é paralela à de Jorge de Sena, e perpendicular à Alameda António Sérgio. Numa bela metáfora, os habitantes das estantes de uma biblioteca ocupam os espaço público. Tudo a partir da recordação do “poeta preclaro e secreto no seu género miúdo, prosador de luxo em várias frentes de escrita”. Temos, pois, o genial autor de “Mau Tempo no Canal” e dos contos magistrais de “O mistério do Paço do Milhafre”. E a escrita do diário flui, rápida e apaixonante. Depois de Nemésio, vamos ter com Raul Brandão e as suas “Memórias”. “Vê-se quando se fixa em testemunhos de bastidores. Não faltam motivos de interesse a prenderem-me à leitura desta obra sintomática: lá está o prosador emérito, tão subtil como expressivo, com uma linguagem dúctil e surpreendente, que nunca nos deixa indiferentes. Às vezes diz mais uma frase isolada do que alguns de nós em longos e amargos parágrafos”. E não se esconde a admiração por Aquilino, o sábio criador verbal que remexer fundo na linguagem e traz a superfície a nova língua portuguesa”.


Lembrando o seu tempo em terras de Espanha, o cronista afirma: “Pudesse eu ter meios para tanto, vinha viver aqui, podendo em Barcelona ser português, espanhol e catalão, em simultâneo, desde sempre, para sempre”. Há um sentido especial de grandeza, na arquitetura e no urbanismo, que nos aproxima de sermos ibéricos. Eu conheci melhor João de Melo nas andanças da Educação. Tive grande gosto em contar com a sua colaboração numa ideia com virtualidade indiscutíveis – usufruir da experiência dos escritores e artistas em itinerância nas escolas. Diz-nos João de Melo: “Fui um professor seguro da sua competência e dos seus deveres. E dos seus afetos. Revi nos alunos não a minha juventude mas a deles num país a abrir-se a novas práticas pedagógicas, novos direitos no exercício da experiencia escolar e democrática. A vida dividiu-me entre a docência e a literatura. Passei a ser o ‘escritor da Escola’”. A escola primária da Achadinha não se esquece e as raízes estão sempre presentes, entre mil afetos. Essa ligação à terra e à casa que o viu nascer e crescer é muito forte. A cada passo vem essa recordação intensa. Mas o escritor não esquece a imposição consumista do público e a influência desse modismo nos editores. “As editoras pedem-nos romances, só romances e nada mais que romances. Instalou-se de tal ordem esta ditadura do gosto sobre a condição literária, que tudo parece adverso e exige coragem, afinco, resistência ao lado da pequena minoria que frequenta a chamada short story e ainda dela se orgulha. Como eu”. E ainda esta mentalidade resistente sente-se quando o autor se rebela quanto ao conselho de poupar por não adquirir livros em papal, em benefício de obras no império digital. João de Melo partilha connosco pertinentes reflexões sobre o mundo contemporâneo. Não esconde preocupações com as tergiversações do Presidente Trump, com as estranhas cumplicidade com Putin e com a evolução da China: “Converteu-se o PC em conquistador do capitalismo dos outros. Não se percebe o que vai lá dentro, que regime é o deles com o partido único, um regime pouco ou nada comunista que catapulta sobre nós um imperialismo económico, algo de obscuro que nos vem de longe e de cima, lá de um alto a que não chega o orgulho europeu de cada pais, e menos ainda a união da velha Europa”. O Médio Oriente é também motivo de atenção. “Em Gaza morre-se por tudo e por nada. Morrem crianças, mulheres e gente velha só por isso: por existirem”. Por outro lado, “Ninguém sabe até onde irá Putin na sua sanha antieuropeia. O déspota do Kremlin começo a ameaçar-nos com as suas bombas atómicas. E com uma terceira guerra mundial. Morre gente tão boa, dia a dia – e o escroque sempre tão cheio de saúde e de veneno”. O perigoso mundo continua a rodar e as perplexidades vão-se acumulando, ao ritmo de um diário… É tempo de atenção e cuidado.   


Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

  
De 20 a 26 de outubro de 2025


No encerramento das comemorações do segundo centenário do nascimento de Camilo Castelo Branco (1825-1890), a sua memória deve ser recordada.


Camilo Castelo Branco é um caso singular na literatura portuguesa. Foi o nosso primeiro profissional da escrita e assim se fez respeitar como um autor aclamado pelo público leitor. A sua produção literária, que continua a ser apreciada, chega aos nossos dias preservando a sua força essencial. Há uma considerável distância no tempo, mas no essencial é a compreensão do género humano que está em causa. É, assim, ilusório o debate clubístico entre os camilianistas e queirosianos. Estamos perante artistas da mesma arte, ambos com um nível excecional, mas dispondo de um perfil radicalmente diferente. Antes do mais, o percurso de vida do autor de Amor de Perdição é marcado por vicissitudes que o aproximam dos acontecimentos ocorridos em Portugal no dealbar do liberalismo constitucional, nas suas diferentes vertentes, resistência e incentivos, o que nos permite compreender quer as raízes profundas da sua inserção no país tradicional, quer o confronto com a lógica dos ambientes citadinos.


Camilo encarna, a um tempo, o país fiel às suas tradições e a sociedade que anseia modernizar-se. Veja-se como nos conflitos civis que abalaram profundamente os portugueses e no imaginário subjacente a tais contradições, Camilo faz opções genuínas, até divergentes, indo ao encontro de sentimentos profundos que procuram seguir não só uma continuidade histórica, mas também a consciência popular. Lembremo-nos das apreciações sobre o movimento da Maria da Fonte, verdadeiro levantamento de um conjunto de amazonas de tamancos, tornado vivo nas memórias do Padre Casimiro, no ano de 1846, onde uma certa saudade articula as componentes paradoxais desse estranho episódio, que constitui matéria-prima para um fecundo manancial romanesco. Dir-se-ia que a reminiscência miguelista, já enterrada há mais de uma década, renascia num outro tempo e num outro contexto, apesar da demarcação evidente, para reconstruir a sociedade nova de constitucionalismo liberal. E assim, concordamos com Hélia Correia quando nos diz que Maria da Fonte sobressai, aliás, no conjunto da sua obra pelo modo seguro, diríamos, convicto, diríamos sincero, com que o autor reúne os seus conhecimentos, as inflexões de estilo, as gradações de orador apaixonado que ora ironiza, ora vitupera, ora se indigna, para com este texto servir a causa do progresso, do liberalismo, do espírito científico” (Prefácio a Maria da Fonte, Ulmeiro, 1986, p. 14). E aí deparamo-nos com o formal desmentido da lenda que circulara, e que alimentara, de que fora lugar-tenente de Mac-Donell. Já quando lemos A Brasileira de Prazins deparamos com os ingredientes fundamentais do panorama social, a consideração das contradições políticas e sociais, com a chegada de um falso D. Miguel e a exigência de reparar naquela sociedade um compromisso social que obrigaria a encontrar novos caminhos. E Camilo Castelo Branco é autor e consequência de tudo isso, e sente no íntimo de si os movimentos subterrâneos da comunidade, centrífugos e centrípetos, que constituem fundamento de um panorama narrativo inesgotável.


O romancista compreendia bem que não é possível entender o teatro humano sem referências históricas. Nesse sentido, quem melhor conhece Camilo sabe que era um bibliófilo com provas dadas e que o estudo da História foi sempre uma constante da sua vida intelectual. Por exemplo, Oliveira Martins tinha especial admiração por Camilo e considerava o parecer do romancista como marca de grande rigor, quer quanto ao conteúdo quer à formulação e ao idioma. Sabemos mesmo que no caso da História de Portugal o historiador procedeu a correções ou precisões a partir da opinião camiliana, já depois da publicação da primeira edição da obra. E o certo é que estamos perante um exímio leitor e um criterioso crítico. É exemplar o modo como presenciamos a integração dos textos na matéria e no período a que dizem respeito. O profissional da escrita surgia assim como um executor exímio da sua arte e um mestre artífice disponível para partilhar com outros que ele respeitasse os seus conhecimentos e as fontes de que dispusesse. A feitura da História de Portugal constitui exemplo sobre como o autor constrói as suas obras. Os elementos disponíveis que chegaram aos nossos dias não mostram a versão original da obra, que se terá perdido nas andanças tipográficas, mas permitem tomar contacto com uma cuidada e meticulosa intervenção do escritor, em especial na revisão e nos acrescentos a que procede. Como diz Eduardo Lourenço, dando sequência à leitura camiliana: «num século tendencialmente positivista, Oliveira Martins é ao mesmo tempo hiper-racionalista e intuicionista. Ou mesmo mitólogo. […] Sobretudo, num tempo genericamente eufórico e culturalmente humanista a ele propõe — a meio caminho entre Schopenhauer e Nietzsche — uma espécie de pessimismo não niilista, mas trágico pelo papel que confere aos indivíduos e em particular aos representativos — de responder à Fatalidade em termos de vontade e de energia, introduzindo assim o humano, mesmo se precário ou vão, no não humano». E o romancista afirma que “nesta História de Portugal há a largura dos grandes aspetos sociais dados a factos que pareciam pequenos e escurecidos em meio de outros mais característicos”. O historiador generaliza luminosamente “com uma grande harmonia de plano organizador, agrupando factos desconexos talvez com a cronologia, mas moral e politicamente harmónicos. Em poucos traços essenciais resume-se um período de história, uma anedota, um caso despercebido e sem o selo de notável importância sociológica, tratado (…) consoante o modo familiar de Taine, abre-nos a porta da vida íntima de uma época”, juntando ironia e realismo. E se um crítico disse que a História se lia aprazivelmente como um romance, o certo é que tal não pode ser levado à conta de um demérito. De facto, e esta História lê-se devagar e atentamente, devendo ser melhor entendida e apreciada por aqueles que houvessem colhido uma imperfeita, senão falsa, compreensão da vida portuguesa no estudo das crónicas. E Camilo não se impressiona com as quebras eruditas, já que na obra no seu todo prevalece a argúcia crítica e a visão do conjunto e do fundamental. E assim descobrimos no genial romancista o leitor atento do poderoso cultor da História com compreensão do essencial das personagens e dos acontecimentos. Camilo Castelo Branco está vivo na sua obra e no seu testemunho. Olha-nos ainda com intuição extraordinária, e não o esquecemos. 


Guilherme d'Oliveira Martins

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