Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  

De 21 a 27 de novembro de 2022


Ao lermos os Cadernos de Lanzarote IV de José Saramago encontramos a lista dos autores que, segundo o próprio, mais o influenciaram.


A LISTA DE INFLUÊNCIAS
“A minha lista, com a respetiva fundamentação, foi esta: Luís de Camões, porque como escrevi em O Ano da Morte de Ricardo Reis, todos os caminhos portugueses a ele vão dar; Padre António Vieira, porque a língua portuguesa nunca foi mais bela que quando ele a escreveu; Cervantes, porque sem ele a Península Ibérica seria uma casa sem telhado; Montaigne, porque não precisou de Freud para saber quem era; Voltaire porque perdeu as ilusões sobre a humanidade e sobreviveu a isso; Raul Brandão porque demonstrou que não era preciso ser-se génio para escrever um livro genial, Húmus; Fernando Pessoa, porque a porta por onde se chega a ele é a porta por onde se chega a Portugal; Kafka, porque provou que o homem é coleóptero; Eça de Queirós, porque ensinou a ironia aos portugueses; Jorge Luís Borges, porque inventou a literatura virtual; Gogol, porque contemplou a vida humana e a achou triste”. Ao lermos esta genealogia cultural, compreendemos a obra e o percurso de José Saramago, mas também o sentido do caminho que seguiu. Camões permite entender a gesta portuguesa, nos seus claros e escuros. O épico e o lírico retratam não apenas o desafio da demanda da Índia, mas igualmente a procura do eu e do nós e a distância entre o sonho e a realidade como no Memorial do Convento, onde a sociedade é retratada, a propósito de uma descomunal construção, só possível graças ao ouro do Brasil e à coexistência entre a riqueza e a miséria. E ao lermos Que Farei com Este Livro? podemos compreender, co Camões, a nossa panóplia de paradoxos. Portugal e os portugueses mostram-se contraditórios entre si, capazes de cultivar a ilusão, mas também de se empenharem na obra que não se fica pelas intenções. Já Vieira cria na sua oratória uma realidade em que a construção do futuro corresponde à razão temperada pela fé, num extraordinário encantamento da palavra. “É o verbo vieirino que vai ressoando no meu cérebro enquanto escrevo” – di-lo-á Saramago em entrevista ao “Correio do Minho” em 1983. E completa o raciocínio: “Pegamos nos sermões do Padre António Vieira e, para além do preciosismo e do concetismo do gozo por vezes um pouco obscurecedor do sentido, verificamos que há, em tudo o que escreveu, uma língua cheia de sabor e ritmo, como se isto não fosse exterior à língua, mas lhe fosse intrínseco”. E ouvimos Vieira no Sermão de Santo António aos peixes de 1654 no seu ritmo oral, que afeiçoa o uso da palavra escrita: “Tão alheia cousa é, não só da razão, mas da mesma natureza, que, sendo todos criados no mesmo elemento, todos cidadãos da mesma pátria, e todos finalmente irmãos, vivais de vos comer!". É essa ligação entre os movimentos da sociedade que se torna presente na escrita amadurecida de Saramago. E não seria o Quinto Império o horizonte da sociedade humana reconciliada, com cidadãos da mesma pátria conscientes do respeito mútuo, para não se comerem uns aos outros, facto que tanto preocupa o romancista? Por outro lado, em Cervantes podemos encontrar a raiz de um teatro fantástico, pleno de prodígios, como nos momentos em que Blimunda vê dentro de cada corpo ou quando uma “jangada de pedra” se desprende, como para um mundo de moinhos de vento. Mas não é apenas D. Quixote que se manifesta, mas também Alonso Quijano, ao cair em si, procurando libertar-se, no fim da vida de uma loucura de mil sonhos. Sem Cervantes, a Península seria uma casa sem telhado? Sim, porque com o cavaleiro da triste figura passamos da fantasmagoria dos romances de cavalaria para a tomada de consciência de uma vontade que decorre da coragem de encarar a realidade tal com ela é. E a cultura ibérica manifesta-se como complementaridade entre a loucura e o bom senso, entre o continente e o mar, como condomínio entre a dureza e a abertura, entre a expressão trágica, o lirismo e o picaresco. Já em Montaigne é a singularidade que se manifesta, pondo-se a tónica na capacidade de ser cético e de se perguntar sistematicamente sobre quem somos, o que sabemos e o que fazemos. E em termos literários, no caminho do escritor, o romance torna-se meio privilegiado de expressão, como diálogo com a vida e como exigência de reflexão adequada ao movimento e à compreensão da existência humana.


REGRESSO AO “CÂNDIDO”
Já a memória de Voltaire, que tão ligado esteve, pela reflexão, aos acontecimentos portugueses do grande terramoto, corresponderia a uma exigência que deveria funcionar como fator de renascimento e de regeneração, como apelo de Cândido ao espírito de denúncia social, sem esquecer a ironia e a corajosa defesa da tolerância. Raúl Brandão representa a força da representação dos dramas humanos e a influência da grande literatura russa, favorecendo a definição dos conflitos tal como se manifestam e a tensão que resulta da complexidade de fatores que determinam a evolução humana. Como fica patente em O Ano da Morte, mas também no gradual conhecimento que se vai tendo da riqueza da obra de Pessoa, designadamente através da revelação do conteúdo da célebre “Arca”, em especial do “Livro do Desassossego”, a riqueza de conjunto da genialidade pessoana torna-se um fator de enriquecimento da criação de Saramago. Franz Kafka permite a compreensão do absurdo e do horror que se manifestam no mundo – enquanto Eça de Queirós se torna, desde muito cedo, mestre da ironia e da crítica, com as suas personagens marcantes, o que constitui uma presença constante nas referências do romancista, apesar da diversidade nos temas e no seu tratamento. Quanto a José Luís Borges é o culto do paradoxo e da complexa convergência plural de fatores no mundo da vida que se torna marcante. A realidade social tende a ser explicada por algo mais do que a análise da realidade social. Por fim, Gogol procura entender uma humanidade dominada pela indiferença e pela incompreensão. Dir-se-ia que assim seria possível superar uma sociedade sonâmbula, difícil de perceber, que obriga a recorrer a diversos pontos de vista, de modo a perceber-se o efeito da evolução do tempo e das mentalidades. E assim chegamos ao ponto em que Saramago se prepara para escrever o Ensaio sobre a Cegueira, que corresponde a uma reflexão que se encontra delineada em Cadernos de Lanzarote II: “Pensei na História e via-a cheia de homenzinhos minúsculos como formigas, uns que não cabem nas portas que fizeram, outros que arrancaram às pedreiras o mármore com que Miguel Ângelo fez o seu David, outros que a esta hora estão contemplando a estátua e dizem ‘Talvez ainda não tenhamos começado a crescer’”… E assim, à medida que a obra de foi afirmando, todos estes elementos convergiram e se complementaram…      


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA

AFONSO CRUZ

  


Sendo uma bola de pó feita de restos humanos, não deixa de ser irónico que o que varremos é a nossa própria morte.

A.C.

Li no Jornal de Letras (nº1356) «Pó» de Afonso Cruz, um dos nomes mais conceituados da nossa literatura.

Imaginei-nos numa fábrica que se vai despedindo do que produz, e antes de fechar, expõe o que resta de um processo. Depois, varre pele, que o mesmo é dizer corpo, e varre alma, que o mesmo é dizer quem lá trabalhou.

O êxito passou a ser a ideia da transição para outro produto, e essa ideia não é estática, mas cristaliza se não se desenvolver, passando a ser algo físico de explicação simples e de sentido único: pó.

A morte mais terrível seria mantermo-nos iguais

A.C.

Quem na fábrica conhecia previamente as perguntas das dissertações dos novos produtos ou das novas ideias, ou quem conhecia os arguentes, era estável, tão estável que definharia no próprio pó, engrossando-o, sem que tivesse dado algo avesso à morte.

Os outros eram os do preço a pagar pela arte da vassoura no regresso da pá.

A única maneira de matar a arte ou qualquer produção imaterial é disparando esquecimento, sendo essa também a única forma de uma alma morrer, tão diferente da outra, a do corpo que se transforma em pó.

A.C.

Percebe-se ou vai-se percebendo que no final de muito ou de tudo, não é tempo de reocupar o passado com a linha de montagem da fábrica. A fábrica e o produto já não estão ali. São apenas pó varrido na sua relação com o mundo. A morte não se altera.

Num sentido absoluto, a morte não é morrer, é esquecer a canção.

A.C.

Diria que a morte pertence ao que não negamos, mas varremos.

Talvez acreditar que em tudo há sempre um mais secreto: uma passagem que pode até nem coincidir, mas que não esquece por uma outra boca - que não sucede necessariamente à nossa - o som similar à vibração das folhas.

Que se leia de Afonso Cruz, meu profundo convite.

Que me tenha aproximado do que queria dizer é também minha viagem.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

  

De 7 a 13 de novembro de 2022


“A Viagem do Elefante” (2008) de José Saramago constitui um relato metafórico sobre a essência das viagens.


A VIAGEM COMO METÁFORA 
A metáfora da viagem está bem presente na obra de José Saramago. Quando percorremos Portugal de lés-a-lés, entendemos que o movimento é uma necessidade de entender as pessoas e de compreender a cultura, como sementeira permanente. “A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. (…) O fim da viagem é apenas o começo de outra”. Lembramo-nos bem como José Saramago termina a Viagem em Portugal. Se Portugal tem muito para mostrar, e se uma viagem é sempre uma procura de nós mesmos, tal corresponde à ideia de peregrinação, fiel à sua etimologia de “per agros”, compreendendo-se o fascínio de imaginar uma viagem entre Lisboa e Viena de Áustria, no longínquo ano de 1551. Tudo começou em Salzburgo, por ocasião de uma conferência para alunos de Língua e Cultura Portuguesa, num jantar num restaurante chamado “O Elefante”, que invocava o elefante indiano oferecido por D. João III a seu primo o arquiduque Maximiliano da Áustria, genro dos imperadores Carlos V e Isabel de Portugal, irmã do rei português. O romance representa uma metáfora da vida humana, com um longo percurso e um final inglório – uma morte, um ano depois da chegada do magnífico animal, tendo este sido esfolado, acabando as patas dianteiras transformadas em recipientes para guardar bengalas e guarda-chuvas…


SALOMÃO AJUDA A COMPREENDER 
O famoso elefante Salomão tornar-se-ia Solimão, como o célebre sultão otomano, e Saramago explica-nos que, “como deveríamos saber, a representação mais exata, mais precisa, da alma humana é o labirinto”. E tudo é possível. No romance, a viagem europeia foi apenas o epílogo de um longo cativeiro e de um interminável caminho. Desde Goa, seis meses acorrentado no tabuado do convés de um galeão. Chegado a Lisboa, seria sujeito a uma longa exposição num cercado em Belém, durante dois anos, para gáudio da curiosidade dos visitantes. E nesta triste aventura, explica-se como a vida é governada por imprevisíveis caprichos. D. João III não quis ficar atrás de seu pai na organização de uma embaixada exótica. E o nome do cornaca, Subhro, que significa “branco”, não é mais que uma ironia, tendo em consideração a sua origem e a sua tez. E esses caprichos partilhados entre o Rei de Portugal e o Arquiduque de Habsburgo traduzem-se numa espécie de metamorfose, na qual o cornaca deixa de se considerar indiano, passando a Subhro-Fritz, nunca mais regressando a Lisboa, sem que se saiba exatamente porquê, e o elefante, em nome da sua magnificência, passa a ostentar ricas roupagens que o tornam momentaneamente uma curiosidade ambulante – levando às costas talvez a mais rica gualdrapa do mundo…


Na viagem ficam demonstrados a divisão e o decaimento da Europa. E o romancista escolhe propositadamente o intervalo civilizacional que é o Renascimento para mostrar a desorientação política e de valores. À metáfora do labirinto, junta-se a alegoria de uma Europa de princípios religiosos decadentes. Francisco I de França, Carlos V da Áustria, I de Espanha, ou o Papa Leão X, o cardeal João Lourenço de Médicis, protagonizam um tempo de profundas dúvidas, em pleno Concílio de Trento, na sequência da crise das indulgências. A Europa medieval tinha deixado um vazio, que deu lugar ao complexo pano de fundo deste romance, permitindo ao autor usar alegorias e metáforas que prendem o leitor e equacionam questões fundamentais bem conhecidas dos leitores de Saramago. Assim, a desorientação descrita na caminhada de Salomão e a condução do cornaca constituem o retrato de uma Europa em convulsão.


UMA BIOGRAFIA DE SETE VIDAS 
Miguel Real e Filomena Oliveira procedem em As 7 Vidas de José Saramago (Companhia das Letras, 2022) a uma análise circunstanciada e de qualidade da biografia do escritor, no ano em que se assinalam os cem anos do seu nascimento. “Para o escritor, o sentido da vida por si criado é indubitavelmente, a literatura, enquanto construção de um caminho de salvação. Sem a literatura – tradução e criação autoral – Saramago teria sido outro homem e a sua vida teria sido a de outro homem. Que homem teria sido esse? Desconhecemos e consideramos supérfluo aventar hipóteses que nem de perto se realizaram”. Para cada uma das suas obras ou dos momentos da vida, poderemos pensar num cenário alternativo, que não aconteceu. A personalidade do autor já consagrado teria permitido outro desenvolvimento, o de tradutor, jornalista, editor….


É a literatura, porém, que marca o percurso, como labirinto e metáfora. E quando José Saramago fala de Aquilino Ribeiro ou mesmo de Raul Brandão, reconhecendo a sua influência, salienta a capacidade de compreenderem a literatura como o melhor modo de assumirem o mundo e a existência. Há assim uma ligação íntima entre literatura e exigência ética. E as sete vidas de José Saramago correspondem a uma procura permanente, à viagem realizada sempre com duas dimensões; a interior e a exterior. Que sete vidas? A primeira, da Azinhaga ao desejo de uma imaginária Josephville, cidade de José (1922-1938) - o diálogo entre as origens difíceis e a aspiração utópica, libertadora relativamente à cidade fechada. Depois, na segunda vida é o escritor que falha, mas que procura a conquista da primeira muralha da mítica Josephville, perseguindo a credibilidade social (1939-1953). A terceira vida leva-nos do Inferno ao Purgatório, do tentativo escritor ao editor, enquanto raiz ainda longínqua de uma escrita madura (1954-1971). Feito crítico, o autor começa a conhecer as manhas da “corporação” literária, mas não deseja submeter-se. A quarta vida, é a de Saramago cronista e editorialista (1968-1976), libertado dos choques e equívocos entre editor e autores. E quase tudo muda. Nas crónicas, em Deste Mundo e do Outro, encontramos o confronto aberto entre a cidade real e Josephville, como cidade ambicionada. Aqui está o essencial, anunciando o romancista que viria a seguir. O interesse e os elogios de Rodrigues Miguéis merecem atenção. É a quinta vida, a de Saramago escritor, que finalmente aparece. A ficção surge como iluminadora da História. Levantado do Chão põe na escrita o drama e o sangue de um país que tinha de se libertar do fatalismo da fome. E germina o realismo mágico do Memorial do Convento, enquanto “realismo de portas abertas”, com um narrador originalíssimo, surgindo na calha o poeta que com Camões Saramago mais admira – Ricardo Reis. Josephville é, deste modo, conquistada e chega a sexta vida – a da consagração internacional (1990-1997). E o Ensaio sobre a Cegueira constitui “a reflexão de um escritor e cidadão adulto, maduro, humanista, mas cético sobre o valor da Humanidade, concluindo ser necessário um sobressalto ético para despertar e desviar o Homem e a história de um evidente caminho para o abismo”. E chegamos à sétima vida – o Prémio Nobel em 1998 e a demonstração de que, afinal, a Cidade de José, Josephville, é o mundo inteiro, lugar de liberdade e deveres fundamentais. E é tempo de seguir viagem com Salomão até Viena…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA

  


Neste poderoso livro Misericórdia

há uma vida quase desconhecida, mas veemente, que se passa num lar da terceira idade, no qual a mãe de Lídia

irá viver os seus últimos tempos de vida.

Num ambiente concentracionário a escritora consegue atingir a esperança pelo mistério que a todos envolve,

afinal,

que a todos amarra,

num tempo de muitos tempos de pessoas em fim de vida

e de outras

quando tudo é experiência da condição humana.

E de tudo nos despedimos antes de entrar para estes locais-casas-do-adeus-final.

Antes,

há despedidas das nuvens e da lua que permanecem; dos bules de chá e dos caminhos para casa; das glicínias, do guarda-fato das peças amadas, das fotografias, e demais realidades que o livro recorda como de imprescindível despedida.

E é preciso não esquecer que este adeus é de um nunca mais ver pelo mesmo ângulo

e é de algum modo,

a memória surpreendente com a qual Dona Alberti enfrenta a nova residência-lar, acautelando que

Morrer é isso mesmo, é a verdade e a mentira já serem coisas iguais,

e isso ela não permitirá, nem que tenha de abrir todas as gavetas de uma cómoda imaginária até encontrar dois ouvidos:

o dela e o dos outros.

Até que consiga dar luta à charrete, cadeira de rodas das tangentes e secantes, empurrada por quem se não vê, mas que pode visar a alma

se nada se souber dos dias belos.

 

Um livro duro, realista até nos conflitos entre os residentes

quando nem se aproximando a morte se esbatem as classes sociais.

Quando até as formigas são suspeitas,

e as crianças acendem balões de cheiros de maçã assada com memórias de canela.

E cheia de fulgor:

Deixa-me da mão, ó noite. Estou cheia de energia, quero voltar ao pátio da escola e saltar até me voar o chapéu.

 

A filha de Dona Alberti

é escritora,

e diz à mãe que escreve sobre o cão da História

e admite

com um saber fulgurante de quem engravida,

que voltou a não descobrir

aquilo que queria,

 

e que por essa razão precisará de escrever outro livro.

 

Pelos livros de papel, por quem oferece livros em vez de vazios e violências,

para que se não deixem os homens ao abandono, e se lhe escutem e interpretem as falas, e se lhes faça companhia,

 

e pelo fenómeno multiplicador da poesia

 

assim te aguardo e te espero ó Lídia Jorge!

Teresa Bracinha Vieira

OS MORTOS TÊM SAUDADES NOSSAS

 

Estes dias outonais em que celebramos o centenário de Agustina Bessa-Luís são ocasião para lembrar o que um dia nos disse: “depois de mortos temos muito mais para ensinar”. E recordo uma visita que a romancista fez com José Régio à casa de Camilo Castelo Branco, em Seide, relatada em “O Tempo e o Modo” (nº 15, abril de 1964). O texto está repassado de paixão pelo mundo romanesco. A descrição baseia-se numa construção fascinante, suscitada pelo génio e pela imaginação criadora.  


«Diante do portão da casa de Seide tinha parado uma caleche verde; um padre obeso, duma palidez de recolhimento e de dietas, inclinava sobre o ombro a cabeça romana como a de um senador vencido. Não dormia. De vez em quando debruçava-se na sombra em que se percebia a fofa espessura duma manta de viagem que, apesar do calor, lhe cobria os joelhos; o olhar vivo riscava por um momento a faixa do portão semiaberto. A sua presença insólita e, no entanto, encarada como legítima, carregava-nos subitamente o coração de uma ansiedade furtiva: “São coisas como estas que a mim me causam calafrios” – disse o Régio». A este calafrio do companheiro de viagem, correspondia, contudo, uma sensação diferente de Agustina que, rindo intimamente, deixava-se entusiasmar pelo que a apavorava. E Camilo atraía-a, ele que se considerava desde novo predestinado para o infortúnio.  Mas, em bom rigor, esse infortúnio era menos condição própria e mais carácter dos outros. E, de facto, aquele ambiente era propício a pensar na comédia e no drama da vida.  “Da sala de trabalho de Camilo veem-se as hortas onde o calor desbota os verdes trigados de azul e do ouro dos primeiros anúncios de outono. Pensamos naquele escritor ali recluso não por desdém do mundo, mas por respeito pela forma de expressão que lhe foi conferida”. E alguém chama pelos visitantes, ou parece chamar. “Uma porta bateu talvez, outra chiou prolongadamente. ‘É alguém que tem saudades nossas’ – dizemos. Só os mortos têm saudades e chamam de longe, para que não os esqueçamos”. De facto, naquela tarde, Régio e Agustina sonhavam acordados em tal ambiente propício.  Camilo ligou sempre o “léxico do coração” a “muita ousadia”. E aquele lugar estava repleto de espíritos e de sentimentos contraditórios. José Régio inquietava-se e Agustina regozijava. O calor continuava. As palavras de Raul Brandão recordam: “A natureza chorava revolvida: a acácia do Jorge batia-lhe devagarinho nos vidros. Quem é que o chama? Atormentado de dores, ouve vozes, vê fantasmas”. Camilo está omnipresente. Os espíritos reais e imaginários abundam nas redondezas – Ana Plácido, Fanny Owen, José Augusto, Vieira de Castro, Simão Botelho, Calisto Elói, Eusébio Macário, tão diversos convívios.  


Num ápice, “já não está ao portão a caleche com o seu estranho viajante abrigado com a manta alpina”. Régio e Agustina perscrutam os arredores, a tentar perceber o que ocorreu. E ela, com intuição feminina, imagina que se trataria de um cónego velho que viria comprar alfaces; “há destes ladinos intuitos sob a forma de excentricidade e do mistério”. Mas comove-se com a estranheza do episódio, que reclama um desenvolvimento. “E, como para defender a gestação da memória, rodeio-a (diz-nos) de uma frialdade hibernal que intimida o doce mundo do convívio presente”. Eis a síntese que Agustina considera essencial. A memória é matéria-prima que se junta à imaginação. E este encontro com Camilo e a presença discreta de José Régio, permite compreender a coexistência e a distinção entre o mundo real e a ficção. Como poderemos entender esses mundos se não nos tornarmos simultaneamente protagonistas, narradores e figurantes capazes de criar ou de destruir? Essa dimensão de “deus ex machina” entusiasmava Agustina, deixava-a em êxtase, perante o mundo encarado como gigantesco palco de sentimentos e paixões.    


GOM

A VIDA DOS LIVROS

De 3 a 9 de Outubro de 2022


Agustina Bessa-Luís é no panorama da literatura portuguesa um caso especial. Lendo-a e em longas conversas com Alberto Vaz da Silva foi-me fácil compreender o carácter inconfundível e fulgurante da criação literária e cultural de Agustina.

 

ROMANCISTA MARCANTE
Nos alvores da revista “O Tempo e o Modo” houve debates épicos sobre a importância da romancista de “A Sibila”, de “Os Incuráveis” ou de “O Manto”. Foram usados argumentos ideológicos e literários. E com a evolução do tempo ficou demonstrado que a sua escrita marcou o panorama cultural português, pelas qualidades literárias, mas também pelo modo de descrever a vida. A sua escrita densa, a interrogação permanente do género humano, o confronto entre as raízes e as marcas inexoráveis do tempo, o culto das contradições e dos enigmas, tudo nos leva, enquanto leitores da sua vasta obra, a uma relação contrastada entre permanências e mudanças profundas, tendo como ponto de partida o encontro de valores, personalidades, interesses, circunstâncias. Foi essa capacidade de recusa do esperável ou das receitas repetidas que apaixonou literária e culturalmente o grupo inicial de “O Tempo e o Modo”, ciente de que estava longe das tradições da genealogia camiliana, da omnipresença queirosiana ou, naturalmente, da lógica realista, e mais perto de uma tendência para arejar a literatura no sentido da compreensão da singularidade da existência e da influência de novos ventos.


Contudo, como afirmou Manuel Poppe, a propósito de “O Manto”: Agustina Bessa Luís permanecia como “o caso mais importante da nossa atual literatura em prosa de ficção, e um dos casos mais sérios da nossa literatura de sempre” (nº 1, 1963, p. 79). Num sentido coincidente, quando lemos os testemunhos de escritora, compreendemos que essa qualidade e essa originalidade vêm da procura da razão de ser da realidade humana. Dostoievski era o autor que mais apreciava, ao lado de Kierkegaard. “Crime e Castigo” era para a escritora uma obra maior. E no seu percurso individual entendeu bem “O Jogador”, sendo ela filha de um jogador, com todas as vicissitudes inerentes a uma tal experiência. Daí a recusa pessoal da dependência das salas de jogo e da lógica da sorte e do azar…   “É a existência que luta com a existência”. O romance tem de lidar com esse confronto. E sente-se a dualidade entre os sentidos e a aspiração do infinito, como dirá em entrevista a Anabela Mota Ribeiro. A cabana de Kierkegaard é claramente preferida ao palácio de cristal de Hegel e daí as múltiplas incertezas e sobressaltos de ritmo e de estilo que encontramos na narrativa de Agustina, que mais não são do que expressão da própria imperfeição humana. O percurso da romancista é, assim, por si mesmo, inconformista e contraditório. “O humano, para se reconciliar com a própria natureza, nega a própria sabedoria” – afirmando em “Um Cão que Sonha”, surpreendentemente: “Nasci adulta, morrerei criança”. Como? Através do apuramento da atenção, que é domada ao longo da vida, com perda evidente de virtualidades. Agustina fala da descoberta do mundo e da linguagem e lembra que “se vive todos os tempos ao mesmo tempo”.


DESVENDAR ENIGMAS
À medida que o tempo passa, vai prevalecendo a banalidade, e é essa mesma que importa contrariar. E, chegamos à presença dos enigmas, que preenchem o mundo romanesco de Agustina, importando ter em consideração o que a própria sempre disse: “Eu não aprecio enigmas, gosto de desvendar os enigmas (…) Quando aparecem enigmas, corro a resolvê-los! Quem vive na província tem muito a noção do enigma a resolver. E num plano mais mesquinho, está incluído na convivência da vizinhança, de saber o que se passa, entrar na casa dos outros, na confiança dos outros. (…). No fundo é esclarecer o mistério humano” (para citar a entrevista já referida). E eis a chave da oficina da romancista, percebendo-se como é difícil ensinar o que é o amor, sem cuja compreensão não se entendem os caminhos da paz. A atenção à realidade que a cercava permitia-lhe seguir os vários caminhos que a vida nos reserva. “Precisaria de viver 300 anos para fazer tudo o que gostaria de fazer”. E Agustina confessa assim o seu apego à complexa realidade humana. Daí estar sempre disponível para, pelo menos em imaginação, partir para um outro destino. E nessa disponibilidade apenas precisaria da memória para levar consigo. Essa era a verdadeira matéria-prima que constituiria o barro do oleiro em cima da bancada para ser moldada na roda, com o uso da imaginação. De facto, as musas são filhas da memória, e esta com a inteligência e a vontade, constitui o conjunto das virtudes cardeais… Se a pessoa humana tem consciência do que distingue uns dos outros, a verdade é que à medida que a história evolui e se civiliza toma consciência de que o outro deixa de ser inimigo. Contudo, ao olharmos os acontecimentos mais recentes, percebemos que a relação conflitual regressa. À medida que a humanidade pensa e se civiliza, o outro deixa de ser inimigo, passando a ser diferente, e pode ser possível pensar num sentido de paz… Mas como deixar de considerar a paz como uma convenção? Como entender a paz como um valor, em lugar de uma realidade apenas possível nos cemitérios?


OLHAR OS PARADOXOS
Hobbes ou Rousseau quem terá razão? O lobo do homem ou o bom selvagem? Somos sempre tudo isso, paradoxalmente. A humanidade corresponde à coexistência desses elementos que determinam a perversidade da vida. E o universo romanesco de Agustina considera o contraponto entre a perversidade reflexiva e uma perversidade ativa. “Os sentimentos são como um bailado: servem para dar um colorido àquilo que é muitas vezes difícil de exprimir e muitíssimo difícil de relacionar através das palavras”. E Agustina confessa ainda que «“A Sibila” foi produzida num transe agudo de memória. Todo esse mundo até aí baço e repartido pela pequena história doméstica tomou ascendente sobre a memória. Os personagens que eram só pitorescos ou afetuosos, ganharam um recorte transcendente, que os libertava da simples função humana”. Aqui está a explicação cabal do processo criador – tudo nasce numa lembrança, depois essa referência caseira torna-se um momento digno de invocação moral, e então a circunstância projeta-se num episódio romanesco, que a memória eterniza… Não há romance sem projeção da memória…     


Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

PEDRAS NO MEIO DO CAMINHO

cap xxix.jpg

 

XXIX. A PERGUNTA SACRAMENTAL…

 

Aqui estamos nós! Neste ponto, temos uma interrogação. Mais importante do que saber qual o desenlace do folhetim idealizado como um entretimento ou uma brincadeira por Ramalho e Eça, importa saber qual a pergunta que está subjacente a todo o folhetim. Do vaqueiro do Monólogo da Visitação (ou do Auto da Lusitânia de Todo o Mundo e Ninguém) até às dúvidas de Antunes perante Judite, passando por Fernão Mendes ou pelo próprio Garrett, transformado não em autor, mas em personagem, eis a essência da trama. Mas não ficamos por aqui, uma vez que não podemos esquecer Blimunda e Baltazar no “Memorial do Convento” nem Bernardo Soares e Fernando Pessoa do “Livro do Desassossego” ou Ricardo Reis, junto ao Adamastor. E qual a interrogação? Afinal, sejamos claros: o que significa a portuguesa língua? Tudo o que ficou neste folhetim de folhetins tem a ver com esta pergunta, que é a mesma que Almada Negreiros pintor (como o escritor de “Nome de Guerra”) formula magistralmente nos painéis que visitámos, com um sentido irónico e sério. Do mesmo modo, Ruben A., em “A Torre da Barbela” apresenta com nitidez a panorâmica global sobre tal pergunta sacramental. Quem somos? O que desejamos? O que sentimos? O que queremos, nós falantes da nossa língua comum?

 

Todas as tardes ao cair da tarde, quando os visitantes abandonavam a visita turística à Torre edificada por D. Raymundo, que nos simboliza, os Barbelas que habitaram esse lugar ao longo dos séculos ressuscitam, trazendo de regresso as suas vivência de antanho. E assim uma torre única triangular com a altura de trinta e dois metros, torna-se palco e representação de um diálogo entre várias gerações de uma família antiga. Os amores e os ódios, as lembranças e as aventuras identificam um longo património cultural e histórico que se traduz na resposta a um enigma apaixonante. Em volta da Torre transfigurada em gente, reúnem-se a parentela moderna e antiga da família, "primos vestidos em séculos diferentes e com bigodes conforme a época". Entre eles estão Dom Raymundo, poeta e primo de Dom Afonso Henriques, ao lado de quem combateu; o Cavaleiro de aventuras, que percorre os montes com Vilancete, grande garrano da Ribeira de Lima, seguido por Abelardo, o falcão que o auxilia na caça. Isto, além de Frey Ciro, o santo da família, e da bruxa de São Semedo. Os eternos contrastes. Todavia, há ainda a linda D. Mafalda, com imagem e formato de vestidos cópia dos modelos de Watteau e Fragonard, correspondendo-se com William Beckford, o fértil viajante. E há a princesa D. Brites, célebre no século XIX; mas sobretudo Madeleine, a "prima que veio de Paris cheia de cores". Sim, esse amor do Cavaleiro mais lendário com a sua prima francesa é absolutamente emblemático no culminar desses oito séculos de paixões e de enguias fumadas, com pessoas a falar da véspera, do que já passou outrora e de um lugar, que nos representa, onde é impossível fazer qualquer coisa que não tenha sido estabelecida quatro séculos atrás. Mas como é difícil responder a essa pergunta sacramental, com tantos pressupostos e tão diversos perguntadores… Nós mesmos ainda somos em parte os Barbelas, à mistura com o vaqueiro aturdido (pelos arrepelões) ou com a capacidade de encenador e de personagem de A. Garrett ao lado de Ruben A..

 

E fazemos uma nova e breve pausa. Temos ainda Luísa em suspenso. E perguntamos ao dileto leitor. Que outra pergunta lhe assalta ao espírito, depois de ler esta representação plural das pedras no meio do caminho, que Drummond tão bem nos apresentou. Pedras vivas, as pessoas, pedras mortas, os monumentos, as obras, as artes, as crónicas, natureza que nos rodeia? Todas as tardes, ao cair da tarde, quando os visitantes abandonavam a visita turística à Torre, que vem à baila?

 

Agostinho de Morais

 

Pedras.jpg>> Pedras no meio do caminho no Facebook

A VIDA DOS LIVROS

image14752527605109.jpeg
   De 29 de agosto a 4 de setembro de 2022

 

“Raízes do Brasil” (1936) de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982) são motivo de reflexão sobre a construção do Brasil contemporâneo, no momento em que se celebram dois séculos da independência brasileira.

 

Sergio-Buarque.jpg

 

BRASIL - O OUTRO LADO DE NÓS

Parece audacioso o título que encima esta prosa. Poderá ser. É verdade que há muitas simplificações na apreciação das relações luso-brasileiras, como por exemplo a suposta irmandade, a coerência entre o que nos une e nos separa, a relação com o idioma comum. A verdade, porém, é que há uma grande complexidade nos elos que nos ligam. Não esqueço os inesgotáveis diálogos que estabeleci e estabeleço, tantas vezes apenas espiritualmente, com o meu saudoso mestre António Cândido, com Hélio Jaguaribe, mas também com o meu querido confrade Celso Lafer, com Fernando Henrique Cardoso, com Alberto Costa e Silva ou com Marcos Vinicios Vilaça. Devo dizer que se trata de matéria em que sou suspeito, uma vez que nasci numa família luso-brasileira. Minha avó Leonor nasceu no Estado de Paraná, na cidade de Paranaguá, de uma família de industriais da colonização alemã. Conheci em casa de meus avós Jordão Emerenciano, nos anos cinquenta, quando se vivia uma situação dramática com a morte de Getúlio Vargas, e não esqueço a gravação de poemas de Manuel Bandeira, que eram um regalo para o ouvido, a começar em “Recife” e no reconhecimento da sabedoria de Totónio Rodrigues. Anos depois, quando estive no Recife, corri à rua do Sol e verifiquei que ainda lá está, e não se chama doutor fulano de tal.

Partilhando muitas preocupações de amigos comuns, como José Carlos de Vasconcelos, gostaria que houvesse maior presença do Brasil em Portugal e de Portugal no Brasil. E recordo saudosamente conversas entusiasmadas com Mário Soares, José Aparecido de Oliveira, António Alçada Baptista, Zélia e Jorge Amado. Era um tempo em que Quincas Berro de Água fazia parte de um certo quotidiano. Com esta recordação bem viva, todos aspiramos a que haja uma maior relevância internacional da Comunidade de Países de Língua Portuguesa. Só uma relação biunívoca e uma compreensão das diferenças e complementaridades (ou se se quiser suplementaridades) poderão beneficiar-nos a todos. Longe de idealizar as relações comuns, trata-se de partir da heterogeneidade, das diferenças e da adaptação para delinear uma agenda de interesses e valores comuns. Se invoquei a experiência familiar, foi para tornar claro que sempre ouvi o teor contraditório dos debates, ora de lá, ora de cá. Tenho à entrada de minha casa a imagem de D. Pedro, enquanto o meu amigo Hélio, me levou a admirar o papel desempenhado por D. João VI na preservação da unidade brasileira. Conhecendo praticamente todo o território brasileiro, não apenas percorri o roteiro das reduções jesuíticas, mas também o impressionante percurso dos Bandeirantes, com a obra de Jaime Cortesão sobre Raposo Tavares nas mãos. E percebe-se bem a multiplicidade de fatores que contribuíram para a construção deste imenso território – podendo perceber-se a diversidade de fatores, lendo Sérgio Buarque de Holanda, Caio Prado Jr., Gilberto Freyre e naturalmente António Cândido.

 

UM MUNDO DA LÍNGUA PORTUGUESA

De facto, não há uma lusofonia, mas um mundo da língua portuguesa com muitas diferenças por encontrar e descobrir. E esse mundo da língua comum alberga várias línguas e várias culturas que devemos compreender melhor. Neste ano em que celebramos duzentos anos da independência formal brasileira e em Portugal assinalamos a nossa primeira Constituição, não esquecemos que o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves já existia em 7 de setembro de 1822, quando foi dado o grito do Ipiranga, desde 16 de dezembro de 1815. O Rio de Janeiro foi desde então capital de Império e essa circunstância definiu o novo tempo que permitiu ao Brasil definir uma história singular que ainda hoje marca as nossas relações. Eis por que tem razão de ser a referência ao Brasil como outra face de nós. Não se trata de uma idealização, mas sim relação tornada natural, com todas as dificuldades inerentes a uma proximidade quase familiar, com todos os encontros e desencontros dessa paradoxal proximidade. Por isso, Eduardo Lourenço fala do Brasil como um outro “mesmo quando o pensamos, para reforço da nossa identidade onírica, como o outro sublimado de nós mesmos”. Eis por que precisamos uns dos outros para nos compreendermos melhor.

A colonização portuguesa, o tráfico de escravos, a relação com África e o papel da população ameríndia são os fatores de formação do Brasil. As diversas mediações articulam-se. Lembremo-nos de Diogo Álvares Correia, designado como “Caramuru” pelos tupinambá, casado com uma índia que contribuiu para o enraizamento da sociedade colonial. Mais do que o controlo da costa é a descoberta do ouro que conduz ao desenvolvimento económico, desde a ocupação do interior e aproveitamento dos rios até à produção agrícola e abastecimento dos mercados urbanos. Cana-de-açúcar, tabaco, ouro e diamantes definem a evolução do sistema económico, bem como a exploração do pau-brasil que inicia a desflorestação. O sistema político é inicialmente influenciado pelo português, com adaptações consuetudinárias. Franceses, holandeses e espanhóis constituem uma concorrência que permite alargar as áreas de colonização e influenciar o sistema de transporte. Com os espanhóis há a competição de que é exemplo o caso de Colónia de Sacramento até ao Tratado de Madrid (1750), mas a monarquia dual facilitará a chegada ao Forte Príncipe da Beira, muito para além do meridiano de Tordesilhas. A coesão social do sistema imperial torna-se possível graças à circulação das elites à influência económica dos cristãos-novos, apesar da ocorrência de tensões – ora influenciadas pela herança holandesa no nordeste, ora entre bandeirantes paulistas e reinóis em Minas Gerais. A Inconfidência Mineira (1789) foi resultado do descontentamento pelo agravamento fiscal e incerteza económica.

 

RESULTADO DE MOVIMENTO COMPLEXO

O Brasil não é produto do acaso. Corresponde a uma convergência de fatores centrípetos e centrífugos, em que a economia, a natureza e o fator humano criaram condições para a afirmação de um território de grandes dimensões que resistiu à fragmentação hispânica. O Padre António Vieira teve uma influência diplomática e humanista importante. A Universidade de Coimbra foi um fator de coesão e de prestígio para a elite intelectual. A política jesuítica face aos índios foi um elemento estabilizador. A mitologia tupi, o Candomblé como rito afro-brasileiro, o cristianismo e o messianismo que chegaria aos “Sertões” de Euclides da Cunha e a António Conselheiro geraram movimentos híbridos a que se somou a influência puritana holandesa. Com afirma Francisco Bethencourt: “De uma forma geral, o sistema normativo e a religião cristã deixaram quadros de comportamento e de crença sobre os quais se inscreveram boa parte dos desenvolvimentos contemporâneos” (Público, 8.8.2022). Os legados que permitiram a independência de um Brasil unificado são de caráter plural e misto com consequências contraditórias, no contexto de uma cultura na qual destacamos a herança artística de António Francisco Lisboa (o Aleijadino) até à literária de Tomás António Gonzaga.

 

Guilherme d'Oliveira Martins