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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de novembro a 2 de dezembro de 2018.

 

Em boa hora, a Universidade da Beira Interior decidiu promover um Colóquio em torno da obra de Miguel Real. Foi uma excelente oportunidade para a realização de uma reflexão e um diálogo aprofundados em torno da obra de um dos mais persistentes e fecundos ensaístas e críticos no panorama português.

 

 

ENSAÍSTA ATENTO
Se refiro o ensaísta, não esqueço o romancista, com provas dadas e justos prémios alcançados, porém sendo um cultor da língua e um fino leitor e autor do romance, notamos (e essa é uma qualidade incontestável) que nunca deixa de pensar a cultura e a identidade, como realidades complexas que não podem passar despercebidas. Ora é a perspetiva do ensaísta que ocupará as linhas que se seguem. E as recentes iniciativas levadas a cabo, aquando do centenário do Padre Manuel Antunes, permitiram um reencontro com as reflexões de Miguel Real, até porque o autor do indispensável Repensar Portugal apontou muitas vezes no sentido de compreender a cultura portuguesa não em termos fechados ou retrospetivos, mas em termos integradores de uma complexidade, incompatível como estereótipos ou simplificações. O humanismo universalista é tudo menos uma marca redutora ou providencialista. Aliás, quando hoje lemos o Padre António Vieira da Clavis Prophetarum, tendo em consideração as mais recentes investigações nesse domínio, percebemos que as ideias de povo eleito ou de uma vocação imperial caem por terra – abrindo caminho ao reconhecimento da dignidade humana como património comum e como objetivo a partilhar pela humanidade… E Miguel Real nos vários registos da sua escrita e da sua reflexão tem procurado demarcar-se da tentação de uma certa predestinação de um povo ou de uma existência… Deste modo, a leitura marcadamente crítica sobre a mediocridade nacional insere-se na tradição das correntes de pensamento que desde tempos imemoriais olham a nossa realidade numa perspetiva crítica, com a preocupação de assegurar uma séria articulação de esforços, capaz de negar o fatalismo do atraso e de criar condições para podermos viver uma melhor defesa do bem comum. Fala-se do escárnio e maldizer, do picaresco, do não nos levarmos demasiado a sério, mas também do querer viver ao ritmo do mundo civilizado – os elementos são vários e as personagens da nossa cultura apresentam-se com características contraditórias, o que as leva a não se eximirem ao sentido fortemente crítico, que não deve ser confundido com puro negativismo.

 

HUMANISMO UNIVERSALISTA
António José Saraiva falava do “estar-se onde não se está”, o que leva os portugueses a serem religiosos e heréticos; ortodoxos, mas heterodoxos; emigrantes mas não colonizadores (por força da miscigenação); aventureiros, mas radicados (como na Diáspora); pobres mas generosos; e atrasados, mas crentes num destino (messianismo). De Gil Vicente a António José da Silva, de Garrett a Camilo e Eça de Queiroz encontramos a exigência crítica como contraponto à indiferença ou ao conformismo. E que é o país de suicidas de Unamuno, que hoje já não seria assim entendido, senão a manifestação séria de um inconformismo, que apenas visa combater a passividade e a irrelevância? A abrir “Portugal – Ser e Representação” Miguel Real cita, sintomaticamente, o Padre Manuel Antunes: “Reencontrar o antigo, por vezes mesmo o mais antigo para criar algo de novo (…). A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de rutura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo”… Uma história antiga, com raízes culturais múltiplas, as alternâncias entre continuidade e recusa, entre altos e baixos (numa ciclotimia de euforia e pessimismo) e o encontro entre vontade e destino – tudo se soma, numa Ibéria em que a nossa “maritimidade” se contrapõe à “continentalidade” de Espanha, projetando nos dois símbolos contrapostos – Fernão Mendes Pinto, como personagem múltipla no mundo, e D. Quixote, como imaginação e sonho. A multiplicidade da aventura da Peregrinação sublima-se na vontade do povo que Herculano encontra como explicação da independência e da unidade. O Brasil é a imagem grandiosa da frente marítima europeia de Portugal, enquanto as Espanhas projetam-se na América em múltiplos países, em razão das autonomias metropolitanas…

 

A DEMANDA DE PORTUGAL
A Portugal, segundo Eduardo Lourenço, faltou mentalidade europeia desde a segunda metade do século XVI. E o que nos ensinou Antero? A não nos escondermos no nosso passado (o Messias de Portugal é o seu próprio passado). O sebastianismo, além de prova póstuma da nacionalidade, é uma alucinação mental delirante, sentimentalmente verdadeira e racionalmente falsa (segundo Miguel Real). “Como nó central do imaginário português, o mito sebastianista sintetizou os quatro complexos culturais recorrentemente sofridos pelos portugueses: o complexo de Viriato ou viriatino, o complexo de Padre António Vieira ou vieirino; o complexo do Marquês de Pombal ou pombalino e o complexo canibalista, vinculado à inveja individual e à intolerância coletiva. Assim, ainda que de origem histórica profundamente negativa, o sebastianismo constitui igualmente uma espécie de motor ético dos portugueses, forçando-os a acreditarem dever ser o futuro melhor do que o presente, mesmo para que tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa, que do País se apodera como uma coutada sua e emigrar como o fazem hoje” (o autor escrevia em 2013 na Nova Teoria do Sebastianismo). Aqui se encontra como que uma síntese, que explica, afinal, a severa crítica, em que Miguel Real aprofunda a exigência de termos de fazer mais do que meramente nos adaptarmos e que está bem presente no universo romanesco do autor... Como José Mattoso ou Eduardo Lourenço têm dito, não somos nem melhores nem piores que outros – somos um país médio, com responsabilidades e oportunidades significativas, mas na senda de Herculano tudo depende do que formos capazes de fazer. Um messianismo larvar, a sombra sebástica, a tensão permanente das contradições do nosso código genético, o uso crítico dos nossos mitos para os podermos superar em emancipação – tudo isto constitui pano de fundo do nosso ser… Esta a base para a célebre “psicanálise mítica do destino português”, publicada em primeira mão na revista “Raiz e Utopia”. Miguel Real não é, porém, catalogável. Nós somos realmente uma mistura de fatores contraditórios. E neste ponto, não podemos deixar de recordar a importância que Matias Aires (1705-1763) teve no pensamento do nosso autor. Para o filósofo luso-brasileiro, a verdadeira felicidade não é a ilusória: do poder, da riqueza e da fama; é, sim, a “da aproximação incessante à verdade, exigindo o desmascaramento da vaidade individual e social, findando no estado interior de serenidade de quem sabe (…) que tudo é vaidade”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

UM ESCRITOR COMPLETO E ÚNICO QUE A HISTÓRIA DEVE REGISTAR: ANTÓNIO VIEIRA

 

Já tive oportunidade de escrever que António Vieira foi para mim um privilégio no partilhar Amizade, dedicação, obra, sorrisos e risos num mundo que antecipámos e dele falámos por hipóteses nebuladas de onde todas as partidas eram possíveis. A ele sempre o meu agradecimento. Que quem lê por ocasião da carpintaria, da marcenaria, do fabrico da literatura nunca o esqueça.

 

Hoje trago aqui E Ô S, um conto de um volume de contos que, a meu ver, é uma obra-prima breve e completa. Em 2002 a Editora Globo não descurou a hipótese de trazer à luz esta edição de essencial grandeza.

 

                                         Oh! Jeter le temps hors du temps!

                                                       Valéry, Tel Quel II (1943)

 

Quem fora e o que intentara?

 

Não sei se Títonos se propõe desconhecer a experiência do amor que idealizava por força da solidão que vivia, e assim desejava viver, arriscando mesmo, a totalidade de si nessa experiência de paixão, ou se se servia dela por intuir a solidão em que ficaria um dia, despojo estranho de um corpo áureo que habitara havia muito, e ainda assim nos provocaria ao expor-se do fundo das velhas órbitas, enrodilhado e rígido, não descuidando nunca a forma de um ponto de interrogação à nossa incredulidade.

 

Eôs era uma jovem e bela mulher ainda que bem mais velha do que Títanos, e que o rondava celebrando o tino que bem sabia nele incendiar. O olhar de ambos quando se cruzava era desejo magnético, insónia puxada por dois cavalos soberbos nomeados neste conto. Irromperam em Títanos todos os prodígios que do convite dela irradiavam diretos ao seu ser, e, medusado perante ela abandonou-se à tal viagem que tanto receava como desejava, qual sonho que o seu pensar excedia.

 

Quando ambos chegados ao palácio de Eôs, que, flutuava no mar alto, escutou Títanos uma cigarra que cantava em monótono coro com muitas outras, em rugidos secos como se por elas tivessem passado gerações. Eôs tendo reparado que Títanos se quedara com esta realidade, disse: “Todos as ouviram, mas poucos as olharam” e abriu-lhe a brancura do seu corpo deixando que todos os segredos lhe fossem tocados, e, Títanos descobre assim a experiência da duração.

 

Julgo que agora uma gravitação o agarrara. Julgo que ao ler e ao escrever a minha interpretação deste belíssimo conto, chegou aqui o meu momento de entender que afinal o arco-íris se pode fazer e desfazer, e digo-o afrontando a metáfora de John Keats.

 

Poderia escolher testemunhas do que acontecia entre ambos se as recolhesse entre terra, água, fogo e ar, todos sortilégio de um desejo que se adensava; e já Eôs à luz de um lampadário continha nas mãos a poção mágica que solicitara à indústria das armas, poder mesmo e único pertencente a Suze, a quem todos temiam pela falta de escrúpulos, pela maldade extrema de doar eternidade por morte e ainda assim Eôs por ele arrastava a sua sedução. Entendiam-se na raça e na linguagem da estirpe da primeira língua da humanidade. Julgamos.

 

Títonos começara a sentir-se arrastado por uma perdição que Eôs, de todo, não acompanhava. Deitou mão aos livros da biblioteca de Eôs e encontrava-os numa vitalidade de palavras perdidas. Amava ainda aquela mulher que lhe propusera a experiência da duração, mas o desejo, o ciúme, o desespero do desastre, o amor que declinava embaciado e sem remédio, abria-lhe horizontes tremendos de, nessa mulher, ser um estorvo, uma emoção de não-retorno para ela e para si.

 

Não sei se tudo o que li depois do que tento interpretar, representaria algum período de luto à tal seta que se despedira de Títanos, ou, se a decrepitude a que chegara num uivo quase impercetível, lhe dera a dimensão do tempo passado, e, esse tempo era tão só o vazio de um verbo ausente já da vida. A magia funesta da poção mágica não reparava o derrube total de uma juventude, antes a deixava envelhecer, carcomida a assistir ao novo escanção que sorvia o branco corpo de Eôs.

 

Então Títanos abrindo ligeiramente os lábios secos e obstinados da velhice, aceitou que Eôs com desprezo, lhe despejasse algumas gotas do liquido mágico, e, quando a metamorfose se operou, Títanos o amante da experiência da duração já caminhava, qual cigarra para junto das semelhantes e assim por entre elas se perdeu.

 

Se há aqui um ser humano que se converte em Jesus, desconheço. Se há neste conto uma inocência a compreender no desacordo do leitor: assim proponho. Se cada linha foi ponderada e limada: tenho a certeza. Se nas nossas mãos trazemos as cinzas dos esquecimentos, dos sonhos, dos dias das poções mágicas, da vigília ao homúnculo a que cada um será incrédulo: posso bem crer. E se não me engano, o tardio da descoberta de cada um, eis aqui.

 

Teresa Bracinha Vieira

AO CORRER DA PENA

 

Miguel Torga, pseudónimo literário do médico Adolfo Correia da Rocha, em homenagem a Miguel de Cervantes, Miguel de Molinos e a Miguel de Unamuno, bem como a um arbusto, de nome torga, que nasce entre as inóspitas pedras da terra onde nasceu, S. Martinho de Anta, em 1907, vindo a falecer em 1995, a 17 de janeiro, em Coimbra onde exerceru a sua profissão na especialidade de otorrinolaringologia.

 

Na sua extensa obra literária dividida entre poesia, teatro e o romance, destaca-se um pessoalíssimo Diário, em prosa e verso, com dezasseis volumes publicados e onde se encontra de tudo: crítica social, polémica, esboços de contos, reflexões de moralista e muito frequentemente textos da mais elevada poesia.

 

É notório, ao lermos a sua obra, que o seu fundamento impregna uma religiosidade ou melhor dizendo uma espiritualidade visto que não se vislumbra uma obrigação inadiável, sentindo-se por alguns momentos uma inspiração fora de qualquer confissão religiosa.

 

A escrita de Miguel Torga poderá dizer-se “se situa nela própria”, excluindo a participação de qualquer Ser Supremo. Todavia, nota-se na realidade, uma capacidade subjetiva para recerber as “impressões e capacidade do sentir”.

 

Na sua espiritualidade observa-se uma postura hierática. O problema fundamental na sua construção literária não é Deus mas o Homem na relação com o “Deus Supremo” onde simultaneamente se cruzam.

 

No seu poema Legado, o homem é um produto da busca escatológica: “O que eu espero, não vem./Mas ficas tu, leitor, encarregado/De receber o sonho./Abre-lhe os braços como se chegasse/O teu pai, do Brasil,/ A tua mãe, do céu,/ O teu melhor amigo, da cadeia./(...)Não lhe perguntes por que tardou tanto/ E não chegou a tempo de me ver./Uns têm a sina de sonhar a vida,/ Outros de a colher.”

 

A espiritualidade em Torga, divide-se entre S. Martinho de Anta (a terra que o criou) e a sua vida. Isto nota-se no poema Prece: (...) “Sou sete palmos de lama:/ Sete palmos de excremento/Da terra mãe que me chama.(...) Senhor, acaba comigo/ Antes do dia marcado.”

 

Nota-se neste, um grito de revolta, de angústia e a sua crença. Miguel Torga procura dentro de si próprio uma liberdade que se prende à terra que confere o poder de lhe conceder os momentos de inspiração. O autor não ignora que a terra se encontra plasmada na sua obra tem o valor maior de que quanto maior é a sua angústia, revolta e inspiração, será sempre maior a liberdade para a qual ele não encontra uma liberdade possível: “Livre não sou, que nem a própria vida/ Mo consente./ Mas a minha aguerrida/ Teimosia/ É quebrar dia a dia/ um grilhão da corrente./ Livre não sou, mas quero a liberdade./ Trago-a dentro de mim como um destino. (...)

 

M.T. sente em Deus um poder absoluto que limita a ação humana e, por isso, ele próprio busca, no mais fundo de si, a liberdade. Pode com algum rigor dizer-se que não acredita na existência  de Deus embora a sinta.

 

Pelo conjunto dos poemas retirados do seu Diário, alerta-nos para a presença de o homem ser um deus absoluto da própria terra, ser a causadora da angústia e teimosia ditando deus para o ser humano uma penitência para a eternidade. Trabalha de forma árdua tentando indireta mas subjetivamente substituir-se a Deus.

 

E que espiritualidade é esta que aproxima Deus dos homens e não os homens a Deus?

 

Carlos Rosa

LITERATURA VIVA!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO

 

Nova série. 19.10.2018

 

Esta semana lembrei-me de ir a um maço, guardado num lugar recôndito da biblioteca,  onde estão números antigos da “presença – folha de arte e crítica” e dei-me a recordar referências antigas. Fiquei no início de tudo, em março de 1927, no texto emblemático de José Régio sobre “Literatura Viva”. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca, tratou-se de, sob a inspiração dos modernistas de “Orpheu”, iniciar um novo tempo que demoraria a afirmar-se. E se digo que demoraria a afirmar-se é porque os jovens presencistas não foram os iconoclastas de 1915. O que fizeram, sim, foi proclamar o reconhecimento do contributo decisivo de Fernando Pessoa e dos seus. E se em determinado momento houve uma especial irritação com Eduardo Lourenço por ele ter estabelecido a distância entre o “Orpheu” e a “presença”, usando a palavra “contra-revolução”, a verdade é que o ensaísta de “Pessoa Revisitado” não usou a expressão com sentido político, mas com jaez metafórico. Os doze anos que separavam as duas revistas tinham muito que se lhes dissesse. Houve um compasso de espera de uma terrível guerra que durou trinta anos – e o presencismo tomou as devidas cautelas, não embarcando em qualquer unilateralismo. À Literatura o que era da literatura, sendo que a liberdade criadora, deveria ser posta em lugar cimeiro. Aqui completavam a geração de “Orpheu”, pondo mesmo a liberdade na ordem dia, sem ambiguidades que os modernistas alimentaram no fascínio mussolinesco. Fernando Pessoa desdobrou-se nos registos diferentes dos heterónimos e tornou-se progressivamente cada vez mais interessante, para além de um certo nacionalismo, que era moda do tempo. A “presença” admirava o cultor e os cultores da literatura viva, demarcando-se da mera função social da arte… Punham a tónica na palavra, na expressão artística, na liberdade criadora. Em arte seria vivo tudo o que era original. E a esta luz li o primeiro editorial da revista e tudo o que isso significava, de liberdade e autonomia – a começar pelo reconhecimento do génio de Pessoa e dos seus, sem preconceito nem limitação… Era, no fundo, a originalidade que admiravam.

 

Eis a célebre prosa Regiana:     

 

«Em arte, é vivo tudo o que é original. É original tudo o que provém da parte mais virgem, mais verdadeira e mais íntima duma personalidade artística. A primeira condição duma obra viva é pois ter uma personalidade e obedecer-lhe. Ora como o que personaliza um artista é, ao menos superficialmente, o que o diferencia dos mais, (artistas ou não) certa sinonímia nasceu entre o adjetivo original e muitos outros, ao menos superficialmente aparentados; por exemplo: o adjetivo excêntrico, estranho, extravagante, bizarro... Eis como é falsa toda a originalidade calculada e astuciosa. Eis como também pertence à literatura morta aquela em que um autor pretende ser original sem personalidade própria. A excentricidade, a extravagância e a bizarria podem ser poderosas - mas só quando naturais a um dado temperamento artístico. Sobre estas qualidades, o produto desses temperamentos terá o encanto do raro e do imprevisto. Afetadas, semelhantes qualidades não passarão dum truque literário.


Pretendo aludir nestas linhas a dois vícios que inferiorizam grande parte da nossa literatura contemporânea, roubando-lhes esse carácter de invenção, criação e descoberta que faz grande a arte moderna. São eles: a falta de originalidade e a falta de sinceridade. A falta de originalidade da nossa literatura contemporânea está documentada pelos nomes que mais aceitação pública gozam. É triste - mas é verdade. Em Portugal, raro uma obra é um documento humano, superiormente pessoal ao ponto de ser coletivo. O exagerado gosto da retórica (e diga-se: da mais sediça) morde os próprios temperamentos vivos; e se a obra dum moço traz probabilidades de prolongamento evolutivo, raro esses germes de literatura viva se desenvolvem. O pedantismo de fazer literatura corrompe as nascentes. Substitui-se a personalidade pelo estilo. Mas criar um estilo já é ter uma personalidade. E quem não tem personalidade só pode ter um estilo feito, burocrata, erudito, amassado de reminiscências literárias, de auto-plágios, e de pobres farrapos sobreviventes ao naufrágio. Assim se substitui a arte viva pela literatura profissional. E é curioso: Só então os críticos portugueses começam a reparar em tal e tal obra: Quando ela exibe a sua velhice precoce e paramentada. Regra geral, os nossos críticos são amadores de antiguidades. Em vez de lhes alargar o gosto, a erudição amarelenta-lhes a alma... Mas esta é outra questão, bem digna de ser tratada menos acidentalmente. Volto ao meu assunto, e suponho agora um exemplo talvez mais consolador: O escritor português tem e mantém uma personalidade. Pergunto: É essa personalidade suficientemente rica para que produza uma obra rica de conteúdo e de continente, de substância e de forma? É regra geral - presto homenagem às exceções - os nossos artistas terem uma mentalidade insuficiente; uma sensibilidade por vezes intensa, mas reduzida; e uma visão unilateral da vida. Esgotados em dois ou três livros, repetem-se confrangedoramente. E o seu progresso é puramente linguístico, superficial e negativo, porque breve a língua deixa de ser um meio vivo de expressão artística. É um instrumento quase inútil, que se aperfeiçoa segundo este ou aquele preconceito». (Presença, número 1, 1927)

 

Agostinho de Morais

 

 

AEPC.jpg   A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
   Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
   #europeforculture

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de setembro de 2018

 

Retábulo das Matérias - 1956-2013” (INCM, 2018) de Pedro Tamen, na coleção Plural, permite a revisitação da obra de um grande poeta, compreendendo a importância e o significado de um percurso ricamente singular.

 

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ARTE DA MEMÓRIA

 

Teria sido Simónides de Cós (séc. V, a. C.) o primeiro cultor da Arte da Memória. Ele disse ser preferível a arte de esquecer que a de lembrar. E hoje quando se fala tanto da memória informática na parafernália dos computadores, é bom voltar a esse entendimento, segundo o qual a sabedoria se faz sempre de lembrança e de esquecimento, para que não se confunda com ressentimento e favoreça a experiência e a aprendizagem. Por isso, ao sair do campo de concentração Joseph Rovan disse que esqueceria a cara dos carcereiros, mas lembraria sempre que importava combater a barbárie, pelo respeito e não pela vingança, pela dignidade e não pela violência. Memória Indescritível de Pedro Tamen (2000) ilustra bem esse cuidado especial com a memória, e essa relação paradoxal entre viver e reviver. A epígrafe de Sá de Miranda é significativa dessa contradição fecunda, que alimenta a existência. “Alma, que fica por fazer desde hoje / na vida mais, se a vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge / já quanto a vista alcança, a não alcança”. E o poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. De facto, não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre, por isso, indescritível: “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. Daí a invocação de Sá de Miranda, que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória é também essa perplexidade que se manifesta, entre o alcançar e não alcançar o que a alma diz.

 

 

LUCIDEZ CRÍTICA

 

Com uma lucidez crítica premonitória, e ainda numa fase precoce da produção poética do autor, António Ramos Rosa afirmou: “Vejo na poesia de Pedro Tamen uma das mais sérias tentativas para dar à atividade poética aquele sentido do sagrado, sem o qual não se pode atingir a verdadeira dimensão interior. Violentamente dramático, quase sempre, este poeta restabelece a circulação entre o humano e o elementar infundindo à linguagem poética uma energia e expressividade que superam a mera agressividade do bizarro, tantas vezes esterilmente ofensiva em alguns poetas surrealistas” (in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro, 1968). E o certo é que o tempo veio a confirmar este carácter sagrado e dramático – e um modo especial de lidar com as palavras, sem esquecer a ironia, a dúvida, a incerteza e a compreensão da realidade através do seu avesso. É verdade que o tempo trouxe muitas mudanças, mas Ramos Rosa não se enganou na linha fundamental revelada já nessa altura pelo poeta. Estamos perante um percurso coerente e seguro, de quem sempre aliou a ação e a reflexão: “Formado em direito e solidão, / às escuras te busco enquanto a chuva brilha. / É verdade que olhas, é verdade que dizes. / Que todos temos medo e água pura” (como disse em Escrito de Memória, 1973).

 

 

PRESENÇA DA PALAVRA

 

Na relação com as palavras, importa lembrar que, além de poeta seguro e talentoso, com indiscutíveis provas dadas, Pedro Tamen é um tradutor excecional, com larguíssima experiência com notáveis resultados. Além das traduções de final de sessenta, sob o pseudónimo M. Rodrigues Martins, temos um rol notável, desde Tomás Kêmpis (com Isabel Bénard da Costa) até Gustave Flaubert, Marcel Proust, Georges Perec, Pascal Quignard, Javier Marias ou Michel Houellebecq. Homem de cultura, Pedro Tamen tem um percurso ligado ao que António Alçada Baptista designou como a “Aventura da Moraes”. Vindo da revista “Anteu – cadernos de cultura” (1954), passaria pelo jornal “Encontro” da JUC, onde seria chefe de redação (1955-1957), dirigiu o Centro Cultural de Cinema (CCC) e publicou o primeiro livro Poema para todos os dias (1956). Terminado o curso de Direito, é incorporado no Exército uma primeira vez (1957), mas o ano de 1958 vai significar uma mudança – que se prende aos sobressaltos causados pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, pelo memorando do Bispo do Porto a Salazar, que levaria o prelado ao exílio, e ao início do pontificado de João XXIII. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação política e religiosa. Pedro Tamen entrou como seu sócio, aos quais se juntou uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva, E lança o Círculo da Poesia, com o inesquecível símbolo solar de José Escada, onde publica O Sangue, a Água e o Vinho. Anima as coleções Circulo do Humanismo Cristão e “O Tempo e o Modo” (que dará título à revista em 1963). Segundo António Alçada, havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formula o programa – simples e claro: “a ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo”. A Morais afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista concretiza-se em 29 de janeiro de 1963 – António Alçada Baptista era o proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, além da participação ativa de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Não era, porém, uma revista de católicos. Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista “Esprit” um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços, havia outros católicos de um setor mais técnico, como Adérito Sedas Nunes e Alfredo de Sousa, mas havia também jovens estudantes da greve de 1962, como Jorge Sampaio, Jorge Santos, Manuel de Lucena e José Medeiros Ferreira, e havia ainda oposicionistas clássicos como Mário Soares e Francisco Salgado Zenha… Sobre a abertura aos não católicos, João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé Maria para que o espírito nos iluminasse”. E a votação fez-se – cinco votos a favor, dois contra e a abertura foi decidida!

 

Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo. Os critérios que usou desde o “Círculo da Poesia” até à Gulbenkian, demonstram bem como pôde rodear-se dos melhores, num momento rico da nossa criação cultural. O seu talento foi um natural complemento da qualidade de escolha. Usando a expressão de Ruy Belo sobre a geração dos “vencidos do catolicismo”, a verdade é que estes, como os ancestrais de 1870, não foram vencidos no largo prazo, sendo símbolos vivos do que podemos designar como a “paixão crítica”. Quando foi inventada a expressão “vencidos da vida”, havia um misto de ironia e de revolta. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, foi o sentido crítico que venceu nas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” com a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

MATSUO BASHÔ

 

O pai de Matsuo Bashô era um samurai de pobres recursos numa altura em que o Japão era dominado pelos shoguns Tokugawa. Em 1672 começa Matsuo Bashô a impor-se como poeta em Edo (Tóquio). Os seus haiku têm uma dimensão rara de qualidade até aos dias de hoje.

 

Homem profundamente solitário aceita a construção de uma cabana que um discípulo ergue para ele e no primeiro inverno oferecem-lhe uma bananeira decorativa (Bashô, em japonês).

 

Depois de um incêndio que lhe destrói a cabana, ele parte errante para um mundo que percorre como viajante

 

«Estou só e escrevo para minha alegria»

 

Por vezes fazia-se acompanhar de um cuco, por uma borboleta, ou mesmo por um discípulo.

 

Vem Bashô a falecer em 1694 e sobre a sua sepultura, os seus discípulos plantaram uma bananeira.

 

Ainda hoje se menciona que o haiku é o resultado de uma lenta depuração que a poesia japonesa aceita ao longo dos tempos. Mas foi sobretudo Bashô que a construiu no seu estatuto mais cristalino.

 

Li que cada haiku deve ter um tom dominante, no qual se devem reunir a frugalidade, o isolamento e o mistério. O haiku deve surgir como um momento único na eternidade

 

Para o entendimento de um poema assim, devemos nós, os ocidentais despirmo-nos de transfigurações no sobrevém das horas da escrita e da leitura e absorver um haiku qual brisa ligeira que sacudiu as asas de uma libelinha.

 

Jorge Sousa Braga na organização da antologia de Bashô a que me refiro “O Gosto Solitário do orvalho” (chancela da Assírio e Alvim) segue o critério das antologias de haikus (no Japão e no Ocidente): o ciclo das estações, e refere

 

O texto sobre a bananeira decorativa transcrevi-o (…) como se Bashô se tivesse resolvido despir perante os seus leitores. Porque um poeta – e um poeta tão próximo da natureza como este – serve-se sempre nu.

 

E eis Matsuo Bashô

 

Primavera
Debaixo de uma cerejeira

tudo é servido
decorado com flores

 

Flores de cerejeira no céu escuro
E entre elas a melancolia
quase a florir

 

Verão
Silêncio:

as cigarras escutam
o canto das rochas

 

Sensação de vazio
Ao despedir-me colhi
uma espiga de trigo

 

Outono
No outono nos separamos

como as duas conchas
de uma ostra

 

Outono –
Empoleirado num ramo seco
um corvo

 

Inverno
Através da racha na lareira

o gato
vai ter com a amada

 

Deixem-me caminhar
até que tropece e desapareça
na neve

 

Também assim nesta estética de palavras, este homem antiquíssimo comanda um útero para melhor vigiar o mundo e o influir. Porque o verdadeiro poder se exerce na discrição e comunica-se sussurrando mensagens de uns para os outros. A vontade do dizer de Matsuo Bashô recebe e envia sinais com força de mandato e nós só o entendemos se desligados para sempre. E tendo os homens como gente atenta, anfóricos, cor de malva convocados, ao tempo das asas desenvoltas, e entendidos do porquê.

 

Cada ser, julgamos, está para além das somas e transborda do que lhe é conferido. É desse excesso que temos que nos despir para receber a cabana, a bananeira, a eterna viagem que para ser eterna não se consente em estados intermédios.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

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  De 27 de agosto a 2 de setembro de 2018

 

«Jornal do Observador» de Vitorino Nemésio (Verbo, 1974) é um repositório de crónicas do romancista, poeta e ensaísta onde o tema da cultura portuguesa é recorrente - considerado como um fecundo ponto de encontro de influências diversas, onde o humanismo universalista está bem evidenciado.

 

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CULTURA COMO COMPREENSÃO

De que falamos na História da Cultura? De continuidades e de mudanças, de características singulares e de convergências, de identidades e diferenças, de desafios e respostas. Não se trata de seguir os acontecimentos, mas de compreender as perspetivas sincrónica e diacrónica. No ensino da Cultura Portuguesa, António Manuel Machado Pires recorda, por isso, a preocupação que Vitorino Nemésio tinha com os seus discípulos, no sentido de abrir as suas mentes, ligando e relacionando realidades aparentemente distintas: «E por ‘ligar as coisas’ deve entender-se ligar mesmo, não apenas somar conhecimentos: fazer relacionações entre conhecimentos convencionalmente arrumados em cadeiras diferentes, ligar uma romaria a uma feira, esta a um modelo de vida, este à evocação de um almocreve, este a Gil Vicente e por que não, a O Malhadinhas de Aquilino?» O mesmo se diga quanto ao paralelo ou correspondência entre um anjo bochechudo e corado de um retábulo seiscentista e a vivência do barroco, considerando a imagem nobre simbólico-poética de Pégaso, o cavaleiro medieval ou a ética da cavalaria até… ao cavaleiro tauromáquico português estilo Luís XV. «Não é tudo a cultura simbolicamente aduzida pela imagem do cavalo? Não era Nemésio o autor dos poemas de O Cavalo Encantado?». Nesta afirmação há uma ideia de cultura como diálogo e confronto, entre quem vê e tenta compreender e aquilo que se pretende ver e entender numa relação sempre complexa entre a vida humana e a natureza que a rodeia. Daí a metáfora da varanda para ver a Cultura, tantas vezes usada – Varanda de Pilatos, mas também varanda donde se presencia o cortejo. E Hernâni Cidade, António José Saraiva, Jorge Dias, Orlando Ribeiro, Joel Serrão, José-Augusto França foram exemplos de perscrutadores de pistas culturais entre a intuição e a inteligência, a erudição e a capacidade de entender o “mundo da vida” – porque, no fundo, refletir sobre a cultura é fazê-la, construí-la, interpretá-la e torná-la viva.

 

VARANDAS SOBRE A REALIDADE

Lembre-se, por exemplo, o picaresco e dramático em Fernão Mendes Pinto: “não é só uma narração de experiências, percursos de paisagens exóticas ou encontros e desencontros de povos (Ocidente e Oriente), é a ironia da vida, a dor humana, pecado, entusiasmo e castigo, alegrias e lágrimas, voluntarismos e disponibilidades, uma grandiosa saga coletiva de um povo (nem sempre exemplar), mas provando a exemplar lição do tudo e nada da Vida”. Eis por que razão a perspetiva da Literatura ou da Arte são excelentes varandas para avistar e compreender a Cultura como panorama, uma vez que temos o testemunho concreto, mais do que a lógica de um poder ou do que a mera ostentação de um saber. E mesmo que o autor tenha autoridade (como nos casos de D. Dinis ou D. Duarte) a verdade é que comunica não pelo império, mas pela palavra e pelo sentimento. Assim, não compreenderemos o século XIX português sem ler Camilo (“raptos, fugas e famílias desgraçadas”), Júlio Dinis (“a conciliação social”), Eça (a ironia como método, devendo ser levada muito a sério) ou Cesário (a contradição dos sentimentos), João de Deus, Antero, Nemésio, Aquilino, Torga… Mas há outras dimensões a não esquecer absolutamente: a geografia de Orlando Ribeiro, as origens históricas, como em Damião Peres ou José Mattoso, as raízes mais remotas em Teófilo Braga e José Leite de Vasconcelos…

 

DUAS LINHAS DE PENSAMENTO

Concordo com Nemésio e Machado Pires quando falam de duas linhas de pensamento dominantes na reflexão sobre a cultura portuguesa, a idealista e a racionalista, representadas por Teixeira de Pascoaes e António Sérgio. Ambas têm de ser consideradas “para o balanço de ser português na vida, na cultura e no mundo”. Dando maior importância ora a uma ora a outra, o certo é que os dois polos têm de estar presentes na definição do “ser de Portugal”. A vontade, o sentimento de pertença, “a estruturação da Cultura e a organização do Estado”, caminhando a par (como na análise de A. J. Saraiva) articulam-se com a construção de um imaginário, a experiência “madre de todas as cousas” (de Duarte Pacheco Pereira e de Camões), os conflitos entre a sociedade antiga e a sociedade moderna (bem evidentes no “Portugal Contemporâneo”), a compreensão de um culto de sentimentos contraditórios, os mitos da origem, de resistência ou de predestinação, tudo nos permite tentar perceber quem somos e o que nos motiva e desafia. Mas temos de recusar as simplificações e a tentação de levar a História da Cultura para uma sucessão de factos ou acontecimentos. Daí termos de perscrutar tendências, de suscitar criticamente essas leituras, de comparar, de ver de dentro e de fora, de cruzar saberes e campos de pesquisa.

«“Cultura” não é um “somatório” heteróclito, indiferenciado, anódino e maçador, mas um caminho coerente para um fim demonstrável no seu todo, um rasgão na neblina de dúvidas e problemas, carreando um considerável conjunto de materiais para “forçar” a prova». No caso de Nemésio, este falava ao sabor da memória, “se bem me lembro”, usando as palavras como as cerejas, mas havia sempre um fio condutor, um fito, um meio de prova. O que deve estar em causa é a procura de caminhos explicativos, de linhas de reflexão, de sínteses e de paradoxos. O fim do século, a transição, a análise da crise política, económica e social, Antero de Quental, Eça de Queirós, Carlos Fradique Mendes (extraordinário heterónimo coletivo de uma geração, que encontramos no diálogo tenso entre Carlos e João da Ega), Ramalho Ortigão, Oliveira Martins, Manuel de Arriaga, Bernardino Machado devem ocupar o pensamento e a procura, num verdadeiro apelo a Jano, em resposta ao enigma persistente e contraditório de uma sociedade que oscila entre o messianismo e a vontade, entre o mito e a racionalidade, entre a crítica e a sobrevivência, entre o presente e o futuro.

 

UMA PERSPETIVA CONVERGENTE

A Cultura é “uma perspetiva convergente e unitária de vários ramos do saber”. Por exemplo, ao analisar as “raízes etnogénicas do Povo Português” no pensamento de Oliveira Martins, para quem a nossa identidade provém não só da vontade enfatizada por Herculano, mas também do fundo céltico, com o peso inerente do messianismo. E eis um paradoxo, “se o historiador busca a razão dos acontecimentos, culpa os homens; se procura os imperativos da Raça, culpa o Destino. Transporta a Moïra grega para o drama da causalidade histórica”. E, chamando a atenção para o percurso de vida do historiador oitocentista, fala do pessimismo das suas análises, em contraste com o seu compromisso cívico: “foi, no entanto, também ministro da Fazenda, preconizando a criação de riqueza agrícola, do fomento rural, o aproveitamento das águas públicas, o repovoamento florestal, a nacionalização dos transportes, promulgando mesmo, nos poucos meses do seu governo, a reorganização das Alfandegas e da Fazenda, talvez acreditando ainda, como nos longínquos anos de 1868, no universalismo das comunicações, na grande federação dos homens livres, na imprensa, na locomotiva, na eletricidade, na felicidade pelo Progresso Científico”. Ou seja, num momento em que, nos anos 90 do século XIX, a decadência se manifestava e em que o desastre parecia anunciar-se, com o Ultimato, a bancarrota, a dívida pública, a crise do regime, o desprestígio das instituições, Oliveira Martins não baixa os braços e revela o sentido positivo da atitude crítica, claramente demarcado de um qualquer fatalismo: “vemos como o seu amor à Pátria, à História e à dignidade do homem social nunca o abandonou e define com grandeza uma obra vasta e diversa que termina significativamente numa trilogia patriótica e na busca de arquétipos da excelência portuguesa”. Ao contrário das considerações superficiais sobre a Geração de 70, Machado Pires sempre procurou demonstrar o carácter complexo do seu pensamento e do seu magistério, a atitude crítica positiva orientada num sentido emancipador, a coerência fundamental, centrada nas preocupações ligadas à justiça e à coesão social, bem como à criação de condições concretas para pôr o coração do país a bater ao ritmo da civilização.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

HELENA MARQUES

 

(…) E revoltava – a também que a sua própria mãe, que a dera à luz trinta anos atrás, quando tinha apenas dezassete anos, continuasse a produzir, ano depois de ano, aquele caudal de gritos apavorados, aquelas apaixonadas promessas de nunca mais, nunca mais. E no ano seguinte, tudo se repetiria, o mesmo terror, o mesmo medo cego, a mesma rejeição, a mesma revolta. Como podiam? Como podia o pai provocar e impor tamanho sofrimento? (E ela, a mãe? utilizar como poder?)

 

(…) Marta não quer filhos, não terá filhos, não irá nunca casar-se.

 

Esta passagem do livro de Helena Marques - o livro que eu cheguei a chamar durante muito tempo “o livro da âncora”- refletiu em mim uma luz que insistia em não se mostrar como claridade que eu levasse à escrita. Essa luz, quando chegou, resumiu e ampliou o que eu não tinha colocado no papel, acerca da estranha insatisfação de um prazer doentio, quando este oblitera o caminho do amor, e, levando em si, um tudo em vão, um tudo de poder, portador de um elixir de puro logro que corrói os dias e constitui enfim, sua única sustentação. Disso, disso se quer fugir!

 

E se quer fugir também não casando. Não atribuindo a ninguém o direito de lhe fazer filhos, e que se evitasse que ela os manipulasse, se nascessem.

 

Os homens deveriam ser procurados apenas nas suas saídas solares e se paixão houvesse que ela fosse vivida em fulgor e não no langor da sua dissipação.

 

As mulheres deveriam ser achadas em núpcias de vida breve, antes que tivessem tempo de transmitir os cantos das resignações às suas eventuais descendências. Antes de lhes ensinar que a solidão envolve temer os tempos das laminárias sendo esse o único caminho.

 

Surgia-me assim uma consciência trágica do entendimento dos tempos que Marta vivera. Na sua memória, sempre algo de monstro, algo de envelhecido ao ritmo de um jugo. Algo subtraído às leis da duração da ordem cósmica.

 

Às vezes, Marta despenhava-se no mar e fitava de frente os turbilhões da água na procura de um deus. Outras vezes, julguei ver Marta menos prisioneira e mais afoita às constelações das aves, tão tristemente adiadas do seu conhecer. E sempre o mesmo medo de tudo se repetir como se repetira desde que nascera e a assombrara tanto.

 

Prometia-se ao seu interior num nunca mais. Prometia-se, mordendo-se para que uma marca a fizesse cumprir a promessa, evitando o desespero do desastre de uma vida igual àquela que tanto repudiara.

 

Via-se jovem e sabia que detinha uma passagem, uma cumplicidade subversiva que iria gerir entre dois mundos: o que repudiara e aquele que lhe era plataforma para um outro, um que iria descortinar por entre as duas margens da sua vida, e que saberia gerir.

 

Entretanto o tempo passava, alívio e cansaço, e a fronteira entre o mundo e a morte fechava-se.

 

 

Recordo bem que assim me ative no interpretar do que seria o último cais de Marta. 

 

Desconheço se Helena Marques assim pensou quando escreveu o parágrafo com que iniciei este acontecer. Resta que talvez os humanos possam ter o dom de entenderem várias palavras escritas e por elas comunicarem outras até saciarem a sua sede de saberem do Ser, sobretudo quando Marta foi para mim a criatura vinda de um outro frio; um frio larvado do seu interior, um frio onde seria aposto o dia em que deixaria o mundo, e, esse facto não era terrível, não! nem maligno, antes impenetrável mistério como o das cegonhas quando voando alto, levando consigo o azul, nas suas silhuetas migratórias.

 

Teresa Bracinha Vieira

QUERENÇA – UM BOM EXEMPLO!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 
10

 

Há dias terminou o Festival Literário Internacional de Querença. Foram três dias de intensa atividade de reflexão e de troca de ideias. O momento alto tivemo-lo na justíssima homenagem a Gastão Cruz com a entrega da Medalha de Mérito Cultural pelo Ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes. Um grande poeta merece o justo reconhecimento.

 

E não podemos esquecer a memória de Luís Guerreiro, que há pouco nos deixou, e a quem se deve o impulso para a ação muito relevante da Fundação Manuel Viegas Guerreiro. Este Festival a ele muito deve, e por isso o seu nome tem de ser recordado. Devemos ainda invocar a marca gráfica de José Carlos Fernandes – que em Querença continua a proteger-se das bocas do mundo, sem que faça esquecer que é uma referência nacional e internacional indiscutível no mundo da ilustração. A imagem de marca do FLIQ que aqui publicamos é inseparável do seu criador e ficamos muito agradados e agradecidos por esse facto… Lembramos, assim, Manuel Viegas Guerreiro como ele mais gostaria – em nome da memória viva do tempo!

 

No domingo, Rayma Suprani trouxe-nos a dura experiência venezuelana e Cécile Bertrand falou do equilíbrio entre liberdade e respeito mútuo. Onde estão os limites? A difamação não é aceitável, bem como a violência e a chantagem! E a ilustradora Cristina Sampaio mostrou-nos a sua criação, plena de humor e ironia. A liberdade é uma marca das sociedades abertas e pluralistas!

 

E se se falou do Património Cultural como realidade viva, vieram à memória grandes ilustradores algarvios – como Tóssan, Bernardo Marques e Maria Keil. Eis por que José Carlos Fernandes pertence a uma plêiade extraordinária… E que é o Património Cultural senão muito mais do que monumentos – devendo ligar as pedras mortas às pedras vivas, a arte e a arqueologia, mas também o património imaterial, as tradições, os costumes, as línguas, os falares, além das paisagens (a imagem dos países) e da criação contemporânea. E qual a mensagem essencial? Não deixar ao abandono o que nos foi legado por quem nos antecedeu!

 

Falando da relação entre palavra e imagem, nada melhor do que ouvir E naturalmente devemos ouvir Gastão Cruz:

 

Gravura
Ourives-gravador era o ofício

do meu avô paterno: sobre mesas
dispersos utensílios buris limas
por entre chapas e, há muito, objectos

 

acumulados; lembro-o curvado
com a luneta, fixamente olhando
a dura mão que no metal gravava
por encomenda nomes: desenhava com

 

força as linhas do seu significado
como se para alguma eternidade
ilusória as gravasse, assim o poeta

 

com o buril inscreve na deserta
chapa do mundo não interpretado
o sentido precário de o olhar
(“A moeda do tempo”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006).

 

Agostinho de Morais

 

 

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A rubrica TU CÁ TU LÁ COM O PATRIMÓNIO foi elaborada no âmbito do 
Ano Europeu do Património Cultural, que se celebra pela primeira vez em 2018
#europeforculture

 

 

 

 

VINTE LIVROS PARA FÉRIAS…

 

À semelhança de outros anos, escolhemos vinte livros que serão uma excelente oportunidade de leitura para este verão…

 

Revista «Colóquio – Letras» - Correspondência inédita de Alexandre O’Neill e Diálogo Edgar Morin e Eduardo Lourenço.
«Rimas» de Francisco Petrarca (tradução de Vasco Graça Moura), (Quetzal).
«Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa» (diversos volumes) - coordenação Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco (Circulo de Leitores)
«A Cidade Virtuosa» - Alfarrabi (tradução de Catarina Belo) (F. C. Gulbenkian).
«Obras Completas de Maria Judite de Carvalho» – vol. I «Tanta Gente Mariana» e «As Palavras Poupadas» (Minotauro).
«Antero – ou a Noite Intacta» (Gradiva)
«Estuário» - Lídia Jorge (D. Quixote).
«Obra Perfeitamente Incompleta» - José Sesinando (Tinta da China).
«Na Prática a Teoria é Outra» - Vítor Cunha Rego (D. Quixote).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«O Fogo Será a Tua Casa» - Nuno Camarneiro (D. Quixote)
«A Sociedade dos Sonhadores» - José Eduardo Agualusa (D. Quixote)
«Gente Séria» - Hugo Mezena (Planeta).
«Portugal no Golfo Pérsico – 500 Anos» (vários autores), (Biblioteca Nacional de Portugal).
«O Fundo da Gaveta» - Vasco Pulido Valente (D. Quixote).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Um Amante no Porto» - Rita Ferro (D. Quixote).
«Em Minúsculas» - Herberto Helder (Porto Editora).
«Os Ricos» - Maria Filomena Mónica (Esfera dos Livros).
«Correspondência Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, 1949-1978» (Guerra e Paz). 

 

BOAS LEITURAS!