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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ABDULRAZAK GURNAH, PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA 2021

A temática dos refugiados é a base do seu trabalho

 

Segundo a Academia, o prémio foi concedido "por sua penetração intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino do refugiado no abismo entre culturas e continentes."

  

Deste escritor tanzaniano ainda só li este livro By the sea.

Ficou-me sonoro na alma o que se possa entender por um requerente de asilo. Por um requerente de paraíso que há-de encher até fazer transbordar o saco que desde Zanzibar leva às costas e no qual também transporta um pouco de incenso: sua posse mais preciosa.

Depois uma história de amor e traição, de sedução e de desvendamento, de luz e névoa, angústia e medo e nunca, nunca a rota da trégua no caminho do refugiar.

Bem-haja quem denuncia estrada tão amarga, tão poço junto à boca: tão no ventre dos nossos dias.

 

Teresa Bracinha Vieira 

PARA QUEM AMA LER COM IMAGINAÇÃO

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É sempre dificílimo escrever sobre os livros de excelência.

Só devagar, muito devagar nos chega a coragem para que não fique por dar o reconhecimento às coisas da beleza, da memória, do entendimento e do horizonte.

E que as palavras consigam deixar um perfume, uma exaltação, um convite inequívoco a infinitos pormenores.

EUGENIO CARMI.jpgEUGENIO CARMI

Pintor, autodefine-se «fabricante de imagens».

Com Umberto Eco, tornou-se ilustrador.

 

umberto eco _ foto.jpgUMBERTO ECO


Filósofo, medievalista, semiólogo e escritor, autodefine-se «fabricante de palavras».
Com Eugenio Carmi tornou-se fabulista.


Neste livro, a linguagem apoiada por belíssimas ilustrações, propõe o convite para refletirmos sobre a tolerância na resolução dos conflitos, no legado às gerações futuras, nas consequências do ódio e do consumo e da incapacidade dos afetos se gerarem e multiplicarem com devoção e força.

Para tanto as entrelinhas da pintura e das palavras.

A ironia e o sarcasmo estão presentes como arestas indispensáveis ao que se invoca.

E era uma vez um general a quem os átomos faziam frente impedindo-lhe a decisão das guerras, a desarmonia das mães, das arvores e das casinhas brancas, conhecedores que eram da loucura dos buracos negros.

O general carregava na farda inúmeros galões o que muito acabou por ajudar ao seu novo emprego como porteiro de hotel. Por agora.

E era uma vez a Terra e Marte.

A Terra, demasiado apertada queria conquistar Marte e enviou cosmonautas.

Eram eles um americano, um russo e um chinês que afinal se entenderam quando o americano disse: - Mommy…

O russo disse: - Mama.

O chinês disse: - -Ma-Ma.

Viviam, enfim, os mesmos sentimentos!

Contudo quando conheceram o marciano dos seis braços não foram capazes de o amar, não fosse a intervenção de um passarinho que de muitos modos e só um, afinal, fez a todos concluir que a diferença não é inimiga.

E era uma vez um imperador que, desesperado, enviou um explorador para o espaço a fim descobrir novos territórios.

Este, tão logo viu um, muito belo e de gente prazenteira, dirigiu-se-lhes dizendo que vinha para os descobrir.

Os gnomos, habitantes deste planeta lindo, surpreenderam-se e responderam que estavam convencidos de terem sido eles a descobrir o explorador.

Na verdade, o explorador não gostou do que ouviu já que lhe tinham ensinado que tão logo se levasse civilização, os indígenas adotavam-na sem qualquer protesto.

Estava-se à vontade.

De regresso à terra do imperador, as forças falaram em voz pasma …

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Julgamos que estamos confusos?, ou, quem vence, vence, bem mais na mente dos homens do que nos campos de batalha e a sorte do mundo e a dos povos é a que for a do destino das mentalidades.

Permiti que o digamos assim.

E, em rigor, o estar como se está por entre os terráqueos é como o aceitar de uma nova religião que se propaga e desfigura como a lepra.

Ouviu-se.

E mais:

Condenaram-se os homens aos seus desígnios de escravos, condenação esta tão compatível quanto assertiva pois a maioria aceitou-a.

Ergueram-se pedras, muros contra muitos saberes antigos como se fossem mercadoria impróprias, não vá o saber, neles, ser um saber do ar fresco da vida.

E eis que nem todas as mensagens oxidam. Eis que o inabitual não encandeia.

Eugenio Carmi e Umberto Eco, duas almas-ave ,deixaram-nos este livro qual ajudante-de-campo aos dias até onde e aonde luz e mundo nos permitam antes da partida desvendar o porquê de aqui estar, e qual o nosso destino.

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

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   De 20 a 26 de setembro de 2021

 

Dante Alighieri morreu há setecentos anos, a 14 de setembro de 1321, e foi muito mais do que um grande poeta e pensador. É autor de um poema imortal - “A Divina Comédia” - a um tempo teológico e épico, uma das obras-primas da literatura universal, mas, mais de que uma obra literária, tornou-se a base da língua italiana moderna, representando o culminar do modo medieval de entender o mundo e a abertura para o pensamento moderno.

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 UM POETA DESESPERADO

Segundo Vasco Graça Moura, que transpôs exemplarmente para português “A Comédia” de Dante Alighieri (1265-1321), provavelmente rebatizada por Boccaccio para a expressão que imortalizou a obra até aos nossos dias, representa “um homem desesperado, aos 35 anos, no meio do caminho da vida, seguindo a formulação de Isaías, diz ter empreendido uma jornada singular entre a noite de Quinta-Feira Santa (7 de abril) da Páscoa do ano de 1300 e a quarta-feira seguinte (13 de abril)”. Esse homem vivia numa Itália perturbada por querelas políticas em que interferiam constantemente as ambições do Império, da Coroa francesa e do Papado, para além das grandes famílias da Toscana, do comércio e da manufatura. Dante nasceu e cresceu numa cidade onde, desde há décadas, duas fações se digladiavam intensamente, consoante seguiam o Sacro Império Romano-Germânico ou o Papado, respetivamente, Gibelinos e Guelfos (estes últimos ainda subdivididos em Brancos e Negros). O poeta reclama que os abusos e a simonia (tráfico das coisas sagradas) sejam reprimidos, aspirando a uma vida civil regenerada capaz de combater a corrupção. A jornada descrita na “Comédia” enumera um conjunto significativo de exemplos, com incidência e repercussão variáveis, que apresentam o ambiente vivido na República. Dante aproveita para invocar desde a mitologia à Bíblia, da história local à história antiga e à contemporânea, da observação da Natureza e da paisagem até aos ofícios artesanais e às práticas sociais, e assim aponta os efeitos negativos da fragmentação política e do negocismo imperante…

 

UM EXÍLIO PERPÉTUO

A “Divina Comédia” foi escrita entre 1304 e 1321, no período correspondente ao exílio da cidade de Florença a que Dante foi condenado em 1302 pelos guelfos negros – sendo ele um guelfo branco, defensor do Papado, mas próximo dos partidários do Sacro Império. É sob essa condenação, que o poeta considera injusta, que este vai escrever a sua obra-prima – guiado pela sombra de Virgílio, primeiro, e pelas presenças de Beatriz e S. Bernardo, acompanhado longamente por Estácio, faz a sua “jornada transcendente, da abjeção das trevas à redenção da luz”. Cada uma das três partes em que o poema está dividido (Inferno, Purgatório e Paraíso) em 33 cantos, com mais um de introdução. A obra soma 100 cantos, número que significa a perfeição da perfeição, e soma 14.233 versos em "tercetos dantescos". Dante e Virgílio começam por atravessar o rio Aqueronte, que separa os mundos dos vivos e dos mortos, na barca de Caronte. O barqueiro, assustado e incrédulo, pede a Dante que se afaste dos mortos, mas Virgílio esclarece que Dante tem uma permissão de Deus para fazer a viagem. Começam por avistar o Inferno, com nove círculos concêntricos: onde estão os pagãos virtuosos (limbo) e onde penam os pecadores da luxúria, da gula, da ganância, da ira, da heresia, da violência, da fraude e da traição. Cada um recebe um tipo diferente de tormento. E são descritos três vales da violência, dez fossos da fraude e quatro esferas da traição, para as diferentes formas das ações licenciosas. Nesses mundos perversos os dois visitantes encontram personagens conhecidas da Antiguidade clássica como Paris, Helena, Cleópatra e Dido. Então avistam a cidade de Dite, onde Lucifer é rei, e onde estão as Érinis, deusas da vingança, que têm o corpo coberto de sangue e a cabeça de cobra, e Medusa, que petrifica quem a olha. E o viajante dialoga com os condenados e procura compreender o que levou a estarem ali, encontrando o Papa Nicolau III condenado por simonia…

 

O TERMO DE UMA VIAGEM ESSENCIAL

Passando ao Purgatório os visitantes encontram seis partes - o rio Tibre, o ante-purgatório dos arrependidos à hora da morte; o baixo purgatório dos que perverteram o amor; o médio purgatório dos que não conseguiram amar; o alto purgatório dos que amaram em excesso e, no cimo, o Paraíso terrestre ou Jardim do Éden. A elevada montanha está dividida em sete degraus, correspondentes ao pecados capitais: orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria. Tratando-se da preparação para a entrada no Paraíso, os pecadores praticam as virtudes que não cultivaram na vida terrena. Ao sair do Purgatório, Dante despede-se de Virgílio, que não viveu a cristandade, não podendo por isso ultrapassar o umbral do Paraíso. É a formosa Matilde que fica com o poeta e começam por presenciar uma procissão onde se representam as virtudes e as glórias da Igreja. Então Dante é acompanhado pela bela Beatriz Portinari, modelo de virtudes, na visita das nove esferas celestes do Paraíso – Lua, Mercúrio, Vénus, Sol (como símbolo da prudência e do bom uso da teologia), Marte (sinal de coragem), Júpiter (lugar de justiça, onde, inesperadamente, se encontra o pagão Rifeu de Tróia), Saturno (da contemplação), Estrelas fixas (da Igreja triunfante) e a última esfera do universo físico que antecede o Empíreo, onde se dá a contemplação, o encontro com Deus, olhos nos olhos. Beatriz deixa Dante com S. Bernardo. É a teologia que comanda, sobre a essência de Deus – mas Dante, na reflexão mais elevada, confessa: “não é voo para as minhas asas”… Nunca tendo podido regressar à amada cidade natal, Dante morreu no exílio, mas tornou-se um verdadeiro símbolo dos valores da paz, da dignidade humana e da busca sincera da verdade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de setembro de 2021


«Os Fidalgos da Casa Mourisca» é a última obra de Júlio Dinis, já publicada depois da sua morte. Há cento e cinquenta anos morreu Júlio Dinis (1839-1871). Desde então muito se tem debatido sobre a importância real do romancista na cultura portuguesa.


UM AUTOR POUCO LEMBRADO
Lembramo-nos do que Eça de Queiroz disse quando soube da morte de Júlio Dinis: “Tréguas por um instante nesta áspera fuzilaria! Numa página à parte, tranquila e meiga, pomos a lembrança de Júlio Dinis. Que as pessoas delicadas se recolham um momento, pensem nele, na sua obra gentil e fácil, que deu tanto encanto, e que merece algum amor. (…) Júlio Dinis viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve” (As Farpas, setembro de 1871). É um comentário que pressupõe distância, que compreendemos por parte de quem pugnava por uma renovação profunda da literatura e do pensamento, colocando o autor de Uma Família Inglesa no lado romântico da geração que o antecedera. Trata-se de uma apreciação comprometida, e o certo é que o comentário persistiu ao longo do tempo, numa situação agravada pelo facto de Júlio Dinis ser um dos nossos melhores escritores, infelizmente mal compreendido porque pouco lido. E assim fica por parte de Eça de Queiroz o reconhecimento de uma aura de simpatia, apesar da relativização da obra. Contudo, estamos perante um dos mais marcantes autores da sua geração, que bem conhecia os mais importantes autores da língua inglesa do seu tempo, notando-se a preocupação especial no tratamento dos temas dos seus romances, obedecendo a um sentido cuidado de clareza, verdade e pedagogia, além da escolha de um ritmo ponderado capaz de entender a diversidade da vida, de procurar a autenticidade e a regulação dos conflitos, numa gradual aproximação ao naturalismo.  Jane Austen, Charles Dickens ou William Thackeray eram bem conhecidos do romancista portuense, notando-se essa influência, não numa perspetiva de escola, mas com uma preocupação de compreender e representar a sociedade portuguesa.


AUTOR MAIOR DA NOSSA LITERATURA
Júlio Dinis é um autor maior da nossa cultura, com identidade própria, profundamente influenciado pela melhor literatura anglo-saxónica. O certo é que não é possível conhecer a sociedade portuguesa do seu tempo (e as origens da nossa) sem ler os seus romances, onde se nota, com nitidez a coexistência da tradição antiga, patriarcal e conservadora, do tempo anterior, com as manifestações e anseios de modernidade, de uma nova época. É o Portugal profundo que se confronta com o mundo em mudança. As personagens do romance português do século XIX coexistem e coabitam. Dir-se-ia que as gerações se sucedem e se completam, entre dramas e desencontros, entre anseios e sonhos – com Garrett, Júlio Dinis, Camilo e Eça. Em bom rigor, se não seguirmos essa pequena multidão pouco compreendemos. E quando se nos depara a rica panóplia de Portugal Contemporâneo, não podemos esquecer que tudo está ilustrado nessa rica complementaridade romanesca. No caso de Júlio Dinis, numa leitura superficial, pareceria que são os fatores conservadores a prevalecer. É uma ilusão. Leia-se As Pupilas do Senhor Reitor, publicado em 1866, Uma Família Inglesa, retrato da vida citadina e da pequena burguesia nascente (1868), A Morgadinha dos Canaviais, a melhor análise da vida política do constitucionalismo liberal. O que o romancista já anuncia é o surgimento do realismo e do naturalismo, sobretudo numa Europa em profunda mudança, como os jovens do Bom Senso e do Bom Gosto cedo compreenderam. Atormentado pela doença, luta contra o tempo, em 1869, parte para a Madeira, em busca de melhoras da doença, reflete profundamente sobre o mundo que se transforma. Em 1870, no Porto publica os Serões da Província e conclui Os Fidalgos da Casa Mourisca, cujas provas tipográficas já não acaba de rever. E é talvez nesta ponta final que poderemos encontrar uma curiosíssima síntese capaz de fazer compreender a sociedade em que o escritor vivia e que anunciava culturalmente significativas mudanças. A leitura da obra romanesca de Júlio Dinis permite-nos lidar com uma literatura que acompanha a evolução de uma sociedade que se vai emancipando progressivamente pelo exercício da liberdade.


ENTENDER PAÌS PROFUNDO
Se entendemos o país profundo na complexa trama de A Morgadinha dos Canaviais, em especial na tensão extraordinária entre o Conselheiro Manuel Bernardo Mesquita e Joãozinho das Perdizes e no panorama do enredo, não podemos compreender o liberalismo constitucional português sem ler o romance e sem compreender as suas personagens. Mas, como assinalou com extrema pertinência, Helena Carvalhão Buescu em “A Casa e a Encenação do Mundo: ‘Os Fidalgos da Casa Mourisca’ de Júlio Dinis” (“Veredas – Revista da Associação Portuguesa de Lusitanistas”, 1, Porto, 1988) o romancista na sua derradeira obra usa a metáfora da “Casa Mourisca” para representar Portugal, enquanto realidade histórica e política. No início, o velho País, como a casa do título, surge majestoso e severo, dominado pela questão do tempo e pela heterogeneidade da sua construção. À imponência de um passado visto como glorioso mas perdido, segue-se a decadência material do presente, projetando-se a recuperação do futuro. “Os tempos e os países, reflete Júlio Dinis, não se fazem já da predominância de velhos senhores agarrados à tradição enclausurante do passado, mas do estabelecimento de mediações e contratos (sociais, evidentemente, que Rousseau não é já desconhecido) que ao mesmo tempo preservem (trata-se de uma solução reformista) e alterem o tecido social no sentido da sua heterogeneidade e cooperação interativa” (H. Buescu). Deste modo, aproximamo-nos da reflexão de Gonçalo em A Ilustre Casa de Ramires – e, nas duas situações, as Casas são as matrizes sociais. Portugal, isto é, a Casa Mourisca (como na Torre de Ramires) não se constrói pela eliminação de contrários, mas pela criação de condições para a convivência, através do contrato social. A guerra civil nacional reproduz-se em miniatura na Casa Mourisca, no confronto dramático entre D. Luís Negrão de Vilar de Corvos e o cunhado, ou no diálogo entre Frei Januário e o liberal hortelão ex-companheiro do cunhado morto. A verdade é que a guerra civil terminara há mais de trinta anos, mas importava entender esse tempo como passado. Maurício, Jorge e Berta da Póvoa representam um novo tempo e uma nova vontade. A filha de Tomé da Póvoa, antigo caseiro de D. Luís, representa, assim, como a sociedade se transformava decisivamente. “Desenganemo-nos; a época não é de privilégios nem de isenções nobiliárias; é de trabalho e de atividade. Plebeu é hoje só o ocioso, nobre é todo o que se torna útil pelo trabalho honrado”. Um escritor é a sua época e projeta-se para além dela, usando a literatura como modo de melhor compreender os acontecimentos e as pessoas. Eis a atualidade permanente da melhor literatura. Júlio Dinis faz parte dela.    

 Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 6 a 12 de setembro de 2021

 

Ao assinalar os cinquenta anos do nascimento de Daniel Faria, a Assírio e Alvim acaba de publicar “Sétimo Dia” (2021), resultado de incursões ao espólio recolhido no mosteiro de Singeverga, onde foi encontrado um conjunto de catorze folhas com textos inéditos.

 

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POETA MÍSTICO

Foi Eduardo Prado Coelho quem me chamou a atenção para a importância da poesia de Daniel Faria (1971-1999) e foi então que li, em 2002, os três primeiros livros, editados pela Fundação Manuel Leão, graças ao apoio do então Padre Carlos Moreira Azevedo, segundo o corpus definido pelo próprio poeta desaparecido: Explicação das Árvores e de outros Animais; Homens que são como Lugares mal situados e Dos Líquidos. É certo que este último volume foi publicado a título póstumo, mas foi deixado globalmente acabado, como obra de fecho desse conjunto. Ou seja, pouco depois da sua morte prematura e inesperada, pudémos dispor de uma prova concludente relativa ao valor do poeta e à importância da sua promessa. «Não sabemos como tencionaria Daniel Faria prosseguir o “Sétimo Dia” ou sequer se teria encarado em algum momento a hipótese de concluí-lo; interrogamo-nos, caso tivesse continuado, que lugar ocuparia cada homem nos dois dias em falta», escreveu Francisco Saraiva Fino no texto que abre o volume. Apenas sabemos da boca do próprio poeta que ele tinha a intenção de reconhecer Cristo como “lugar mal situado”, devendo ser compreendido pela humanidade, até pela dificuldade em encontrar um lugar onde “reclinar a cabeça”. No fundo, tratar-se-ia de fazer da arte poética uma procura do lugar de encontro entre a imanência e a transcendência. «Em “Sétimo dia”, cinco homens repartem perspetivas sobre a ideia de ocupação e coincidem no desejo de alcançar uma certa ideia de existência transcendente sem depor a medida humana». E cada voz é o anunciar de um degrau no caminho do reencontro com a palavra poética na expressão tendo em consideração a “fé inabalável no mistério que inclina / Os homens para dentro” e na representação das depurações da semente na difícil ascensão para a vida do espírito.»  Deste modo, o poeta caminha na busca de um lugar, não como certeza fechada, mas como: “Homens que são como casas saqueadas / Que são como sítios fora dos mapas / Como pedras fora do chão / Como crianças órfãs / Como homens sem fuso horário / Homens agitados sem bússola onde repousem (…) / Porque a sua força é para fora e a sua espera / É a fé inabalável no mistério que inclina / Os homens para dentro / Não os levantemos / Nem nos sentemos ao lado deles. Sentemo-nos / No lado oposto, onde eles podem vir para erguer-nos / A qualquer instante». Com efeito, há algo por desvendar, nesse texto incompleto agora divulgado. Apenas podemos reler o que o poeta nos deixou. Se, de facto, há um mistério que se manterá eternamente, podemos sentir a inquietação manifestada… «Agora, quando telefonar de novo (diz Daniel Faria), vou deixar no atendedor de chamadas uma passagem bíblica. Há aqui uma de que gosto por demais: “Ao descer da montanha, seguiam-no multidões numerosas, quando um leproso de repente se aproximou e se prostrou diante dele dizendo: ‘Senhor, se queres, tens poder para purificar-me’. Ele estendeu a mão e, tocando-o, disse: ‘Eu quero, sê purificado’ E imediatamente ele ficou curado.” E Jesus disse, “Eu quero”… Eu nunca ouvi nada com mais luz. Eu nem consigo imaginar, sem que me aumente a febre, esse homem a correr por entre a multidão, esse homem a dizer se queres e Jesus a dizer eu quero… Eu quero… eu quero… eu nunca tinha dito nada assim.»

 

UM PERCURSO MUITO FUGAZ

Daniel Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de abril de 1971. Frequentou no Porto o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – onde se licenciou em 1996. No Seminário e na Faculdade de Teologia demonstrou uma forte inclinação poética, estabelecendo um diálogo com a criação contemporânea. Também se diplomou em Estudos Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Simultaneamente com a sua fecunda criação artística, a opção monástica torna-se evidente. A partir de 1990, colabora com a paróquia de Santa Marinha de Fornos, Marco de Canaveses, onde demonstra uma capacidade excecional para a animação cultural e um grande potencial de sensibilidade para o teatro, encenando, com recursos limitados, As Artimanhas de Scapin de Molière e o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente. Faleceu tragicamente a 9 de junho de 1999, quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de Singeverga, em resultado de uma queda. Como lembra Alexandra Lucas Coelho, num texto fundamental, que corresponde a um retrato fiel de Daniel Faria: «Sophia de Mello Breyner Andresen foi, para ele, o princípio da poesia. E quando chegou a vez de Sophia o ler, disse: "Versos que põem o mistério a ressoar em redor de nós." Essa é a síntese, tudo o que importa. É da poesia que partimos, mesmo quando vamos de casa em casa, à volta da vida. Para saber um pouco mais, para voltar a não saber. Vale só por isto, a aproximação a uma biografia.

 

UM ROSTO QUE HÁ DE VIR

Quando lhe pediram um autorretrato, Daniel Faria escreveu que era "um rosto que há de vir". E assim será, para o leitor dos poemas. Acreditamos que na poesia portuguesa dos últimos 20 anos poucos tenham vindo à luz assim, com um impacto de pedra». Nesse testemunho recolhido no jornal Público. Um colega recorda: "O Daniel tinha sempre projetos fantásticos, queria ler as obras completas de Shakespeare... O Rilke, na tradução do Paulo Quintela, era fundamental para ele, como o Herberto. E depois Luiza Neto Jorge, Eugénio, Ramos Rosa, Sophia, Ruy Belo, Lorca. Foi com ele que conhecemos Drummond, Guimarães Rosa..." O poeta empenhou-se na ida de Eugénio de Andrade ao seminário. Foi um risco, mas o resultado foi muito bom: Daniel Faria "ficou exausto, havia oposições dentro do seminário, isso angustiou-o imenso. Depois correu muito bem, o Eugénio só não entrou na capela, lembro-me que se admirou por jogarmos futebol sem batina..." E Eugénio de Andrade resumiu essa inédita aventura como "uma tarde divertidíssima". (cf. Público, 14.6.2001). A memória de Daniel Faria foi-se consolidando com o andar do tempo. Mas o seu prematuro desaparecimento teve dois efeitos contraditórios: por um lado, atrasou o reconhecimento da importância da sua obra; e, por outro, permitiu que, finalmente, possamos encontrar a sua voz, como uma das mais significativas da contemporaneidade.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 30 de agosto a 5 de setembro de 2021

 

“A Intimidade de Um Intelectual Indomável” é o subtítulo da Fotobiografia de António José Saraiva, da autoria de António Manuel P. Saraiva, José António Saraiva e Pedro António P. Saraiva (Gradiva, 2021).

 

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A MARCA DO INCONFORMISMO

O percurso de um dos intelectuais mais importantes da segunda metade do século XX português constitui excelente oportunidade para conhecermos um pensamento complexo, cuja coerência significa uma permanente busca de razões de ser para a história portuguesa, com recusa de conclusões adquiridas. O inconformismo é uma marca indelével que, longe de significar hesitação, representa a clara compreensão de que os factos históricos não têm explicações unívocas, resultando sempre de uma confluência de fatores contraditórios e heterogéneos. Deste modo, percebemos que o caminho de António José Saraiva é de permanente exigência, com aproximações e distanciamentos relativamente a autores e explicações, em resultado de um sentido crítico apurado, essência do fenómeno cultural e da sua compreensão. Ser “intelectual indomável” significa, assim, colocar o pensamento como bussola para uma caminhada capaz de conciliar a liberdade de espírito e o rigor na análise dos acontecimentos. E o irmão, José Hermano Saraiva, revela-nos uma explicação: “a ideia que ele escreveu na minha fita de formatura: quando tiveres encontrado enfim uma verdade, rasga-a e procura outra verdade melhor”. Ao seguirmos a obra de António José Saraiva, encontramos na dissertação de licenciatura o tema da poesia de Bernardim Ribeiro (1938) e no doutoramento em Filologia Românica a referência a Gil Vicente e ao fim do teatro medieval (1942) e em ambos encontramos a originalidade e a relevância das considerações do jovem investigador, em temas cruciais na afirmação da cultura portuguesa. No Liceu Gil Vicente fora aluno de Fidelino de Figueiredo e em 1940 travara conhecimento com Óscar Lopes, seu companheiro na empresa referencial da “História da Literatura Portuguesa”, a partir de 1949 – “vademécum” de muitas gerações na compreensão da nossa identidade literária. Quando hoje lemos textos de 1946 como “As Ideias de Eça de Queirós” ou “Para a História da Cultura Portugal” notamos já uma evidente maturidade, que prossegue não só em “A Escola, Problema Central da Nação”, mas igualmente em “A Evolução do Teatro de Garrett”, em “A Obra de Júlio Dinis e a sua Época” e sobretudo no fundamental “Herculano e o Liberalismo em Portugal – Os Problemas morais e culturais da instauração do regime”. Seguir a produção intelectual do jovem professor é, desta forma, extremamente atraente, uma vez que, apesar das referências ideológicas, nunca perdemos o extremo rigor no lidar com os acontecimentos e a consideração de uma rica dialética crítica, que recusa as explicações unívocas ou simplificadoras. Aliás, a perenidade da obra fica a dever-se a esse permanente viés crítico que tantas vezes corrige as naturais tentações simplificadoras. Dir-se-ia que a fidelidade ao mestre Herculano constitui uma marca que dá atualidade e coerência ao historiador e ao pensador. Quando lemos “O Caprichismo Polémico do Senhor António Sérgio” notamos, é certo, o espírito do tempo e a circunstância política, mas o tempo veio a corrigir a influência ideológica, de que Saraiva ao longo do tempo se soube libertar, como confessará no final da vida. É muito rica a lista dos temas que ocupam o cientista social e o pedagogo, cujo percurso é afetado pelas opções políticas – militância partidária na oposição, apoio à candidatura de Norton de Matos, proibição de ensinar no ensino oficial e prisão por motivos políticos.

 

TEMAS APAIXONANTES

Os temas estudados não são neutros. A Idade Média portuguesa até à crise social do século XIV, a importância de Fernão Lopes, a Inquisição em Portugal, Fernão Mendes Pinto ou a Sátira Picaresca da Ideologia Senhorial, Luís de Camões, a Ressaca do Renascimento, o “Dicionário Crítico da Algumas Ideias e Palavras Correntes” constituem reflexões ricas, nas quais se nota a preocupação pela prevalência de uma opção de independência e liberdade, nem sempre corretamente compreendidas. Impedido de ensinar em Portugal, exila-se em França no final dos anos cinquenta, integrando a equipa de Marcel Bataillon, e chega a preparar a ida para o Brasil, o que se torna impossível em virtude da ocorrência do golpe militar de 1964. Em 1966 retoma o estatuto de investigador em Paris, no CNRS, por proposta de Fernand Braudel, assistindo aos acontecimentos de maio de 1968, que merecem a sua análise, em muitos pontos se revelará premonitória. Quando obtém um lugar na Universidade de Amesterdão (1970) publica “Maio e a Crise da Civilização Burguesa”, que suscita acesa polémica. Regressado a Portugal em 1975, assume funções na Universidade Nova de Lisboa e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, prosseguindo uma muito ativa intervenção literária: “Épica Medieval” (1979), “O Discurso Engenhoso – Estudos sobre Vieira e Outros Autores Barrocos”, “Filhos de Saturno – Escritos sobre o Tempo que Passa” (1980), “A Cultura em Portugal” (2 volumes) e “O Crepúsculo da Idade Média” (1988).

 

PENSAMENTO INDOMÁVEL

Fiel ao pensamento indomável, conheci pessoalmente António José Saraiva, quando escreveu e publicou “A Tertúlia Ocidental” (1990), obra de maturidade, de quem tão bem conhecia os homens de 1870, a ponto de poder escrever sobre eles um genial romance. E um dia disse-me que, sem demonstração histórica, era mais cinematográfico que tenha sido José Fontana a apresentar Oliveira Martins a Antero. Por outro lado, a chave da “Ilustre Casa” não era o colonialismo, mas a atração pelo desconhecido. E recordava «As Minas de Salomão», onde Gonçalo foi buscar motivo de inspiração. Ao contrário de Fradique, a geração coimbrã de Antero e dos seus acreditava numa outra relação entre a liberdade e a igualdade, diferente da romântica. A. J. Saraiva considerara em “As Ideias de E.Q.”, o fradiquismo como «uma desistência de agir sobre o meio e as condições sociais». Eça deparar-se-ia com a dificuldade de combater a mediocridade e a plutocracia. E ter-se-ia desinteressado. O próprio «esforçado Oliveira Martins» acabaria a cultivar a «flor da arte» ou outras flores. Seria uma evasão… Os anos passaram, o ensaísta continuou a estudar e a pensar, como inesgotável crítico. E em «A Tertúlia» recusou «uma súmula de clichés então reinantes» sobre a geração de 1870. O certo é que importaria dar uma especial atenção à afirmação de Eça no prefácio a «Azulejos» de Bernardo Pindela: «A arte é tudo, e tudo o mais é nada». O perigo da ilusão perturbava quem ainda acreditava na ação e na política. É certo que Eça dissera a Luís de Magalhães: «Não se deixe levar pelas teorias abomináveis do amigo Oliveira Martins sobre a sinceridade da emoção». Não poderia esquecer-se a fórmula «sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia». O paradoxo tinha como polos não apenas a ação e a indiferença, mas também a vontade e a arte. E Saraiva concluía: «Hoje as ideias de Eça de Queiroz (que não são exatamente as que lhe atribuímos em 1945) aparecem-nos principalmente como temas de arte, tal como na “Correspondência de Fradique Mendes” são pretextos para cartas».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

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  (XXIX) RUY BELO, HOMEM DE PALAVRA(S)

 

Para Ruy Belo (1933-1978), “a poesia não constitui um fenómeno isolado no contexto cultural. Poesia é fundamentalmente a linguagem, e a língua, sendo em si mesma um facto de cultura, permite a fixação e a transmissão de toda a cultura. A poesia enquadra-se na arte e distingue-se das outras artes quanto ao ‘meio’ (o termo aqui, embora, claramente insuficiente, é aplicado na sua aceção vulgar) de expressão”. E é esta circunstância que a autonomiza e distingue. De facto, o poeta compreende, melhor que ninguém, que cada palavra é um infinito, “que exerce o sortilégio que o poder mágico lhe permite”. E recordámos, de modo insuspeito, Alexandre O’Neill a dizer que é bom termos o infinito entre nós, sem quaisquer ilusões. E Ruy Belo, no seu permanente repensamento, foi suficientemente claro: “Não há bem mais humano do que a palavra, de tal maneira que ela até compromete na inteligência do homem toda ou quase toda a sua existência. Ela ajuda a criar, e participa da história do homem. Daí que pô-la em jogo seja movimentar o universo”. E se a palavra é humana, naturalmente que se torna social, comprometida, responsável. Abre diversas relações com outras palavras, mas sobretudo com pessoas. A poesia é o lugar “onde convivem umas com as outras as palavras”. Teresa Belo recordava, por isso, os exercícios intermináveis que o poeta dedicava aos encontros e desencontros de palavras. Mas “O Guardador de Rebanhos” veio de um só jacto. E foi na leitura de Homero que se educaram os atenienses, mas Platão preconizava a expulsão dos poetas da cidade pelo perigo que representavam. Hölderlin reconhecia a inocência da palavra, mas considerava-a o mais perigoso dos bens. “A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento…”  

A esta luz Ruy Belo pensou Portugal. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, e sem dó nem piedade no sentido crítico, as gerações da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” assumiram plenamente a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas. O atraso recusa-se. E a leitura de “Portugal Futuro” obriga-nos a não baixar os braços e a renovar o ânimo crítico. Uma cultura acomodatícia ou conformista tende a tornar-se frágil. A clareza crítica contrapõe-se à cacofonia… Daí a necessidade de uma visão dialógica de diferentes culturas, não como amálgama em que ninguém se entende. Eis como é importante a tradição de D. Pedro das Sete Partidas, mas também de Pedro Nunes, Garcia de Orta, D. João de Castro – de Camões, de Fernão Mendes Pinto e de Vieira… E esse cosmopolitismo liga-se à diversidade das culturas da língua portuguesa – da saudade até à morabeza… Haverá melhor definição de património vivo? «O portugal futuro é um país / aonde o puro pássaro é possível / e sobre o leito negro do asfalto da estrada / as profundas crianças desenharão a giz /esse peixe da infância que vem na enxurrada / e me parece que se chama sável / Mas desenhem elas o que desenharem / é essa a forma do meu país / e chamem elas o que lhe chamarem / portugal será e lá serei feliz / Poderá ser pequeno como este / ter a oeste o mar e a espanha a leste / tudo nele será novo desde os ramos à raiz / À sombra dos plátanos as crianças dançarão / e na avenida que houver à beira-mar / pode o tempo mudar será verão / Gostaria de ouvir as horas do relógio da matriz / mas isso era o passado e podia ser duro /edificar sobre ele o portugal futuro» (in 'Homem de Palavra[s]').

GOM

 

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  (XXVI) A IRONIA DE ALEXANDRE O’NEILL

 

Alexandre O’Neill (1924-1986) foi entre nós um dos mais dotados artífices da escrita do português do último século. Em Caixadòclos definiu o seu autorretrato com especial culto da ironia. António Tabucchi salientava, aliás, a importância da cultura portuguesa do picaresco, do chiste e do anedótico, que teve no poeta expressão superlativa: «– Patriazinha iletrada, que sabes tu de mim? / – Que és o esticalarica que se vê. / – Público em geral, acaso o meu nome... / – Vai mas é vender banha de cobra! / – Lisboa, meu berço, tu que me conheces... / – Este é dos que fala sozinho na rua... / – Campdòrique, então, não dizes nada? / – Ai tão silvatávares que ele vem hoje! / – Rua do Jasmim, anda, diz que sim! / – É o do terceiro, nunca tem dinheiro... / – Ó Gaspar Simões, conte-lhes Você... / – Dos dois ou três nomes que o surrealismo... / – Ah, agora sim, fazem-me justiça! / – Olha o caixadòclos todo satisfeito / a ler as notícias...» (Feira Cabisbaixa, 1965)

Quando nas comemorações do dia 10 de Junho de 1990, António Alçada Baptista anunciou a publicação das “Poesias Completas – 1951-1986” (Imprensa Nacional) fê-lo com a consciência plena de que homenageava um poeta singular que ajudou (e muito) à introspeção nacional, que traduz bem do carácter português. Uma ironia forte e subtil, o uso do escárnio e maldizer, desde os trovadores a Nicolau Tolentino, com linguagem de hoje, concedem a O’Neill um lugar especial na literatura. “Há mar e mar, há ir e voltar” – criou a fórmula mágica, mas viu recusada outra, por ser rebarbativa: “Vá de Metro, Satanás”. Quanto ao encontro com o Grupo Surrealista de Lisboa (1947) apesar de saudações sentidas a Breton (“Deflagraste em nós na sempiterna circunstância: a pasmaceira”) e Éluard (“Cantaste a beleza proferiste a verdade / (…) Disseste o que devias dizer”), o poeta considerava essencial não se levar muito a sério, demarcou-se de escolas e cartilhas. E em 1951 rompeu formalmente com o surrealismo como escola, sem deixar o apego às marcas indeléveis dessa influência – “É tempo de acordar nas trevas do real / na desolada promessa / do dia verdadeiro” (Tempo de Fantasmas). A ironia será marca permanente. “No Reino da Dinamarca” (1958), vemo-lo seguir o próprio caminho – “Ó Cesário Verde como eu queria / Que estivesses aqui!”. Há humor e mágoa, rir e roer… “E se fossemos rir, / Rir de tudo tanto, / Que à força de rir / nos tornássemos pranto…”. E em “Abandono Vigiado” (1960): “Teima? Que topete! / Que se julga ele / Se um tigre acabou / nesta sala em tapete?”. Alexandre O’Neill perscruta sempre o quotidiano, não como realidade pacata, mas como reflexão, excesso e divertimento – como no jogo dos sinais ortográficos. A vírgula – “Quando estou mal disposta / (e estou-o muitas vezes) / mudo o sentido às frases, / complico tudo”. O ponto – “Que eu saiba / só em Éluard sou único e final”.

Eis-nos perante a libertação da arte e pela arte – este o seu programa, a que voltou sempre, conversando e desconversando, moendo e remoendo incessantemente as palavras, com recusa sistemática de uma Poesia com maiúscula, já que preferiu o retrato “à la minuta” do país em diminutivo. E na “Feira Cabisbaixa” desenha Portugal (“se fosses só três sílabas”), diferença a diferença para chegar até nós (“se fosses só o sal, o sol, o sul, / o ladino pardal, / o manso boi coloquial”…). Das doceiras de Amarante aos toureiros da Golegã, “não há «papo-de-anjo» que seja o meu derriço, / galo que cante a cores na minha prateleira”. Mas quem é, afinal, Portugal? “Portugal: questão que eu tenho comigo mesmo, / golpe até ao osso, fome sem entretém, / perdigueiro marrado e sem narizes, sem perdizes, / rocim engraxado, / feira cabisbaixa, / meu remorso, / meu remorso de todos nós”. Portugal magistralmente esboçado por um impressionista de génio. Como poderemos entender-nos sem ler o seu português castiço, que Tabucchi endeusava (como os sinais sonoros de Maria Parda). “País engravatado todo o ano / e a assoar-se na gravata por engano”. O’Neill impagável, olhar atento, para dentro de nós: “Subamos e desçamos a Avenida, / enquanto esperamos por uma outra / (ou pela outra) vida”…" E, em Um Adeus Português (1958), sente-se a força de uma cultura, que O’Neill entendeu como ninguém, onde lírica, tragédia e ironia se encontram sempre: “Nesta curva tão terna e lancinante / que vai ser que já é teu desaparecimento / digo-te adeus / e como um adolescente / tropeço de ternura / por ti». Do mesmo modo que a Peregrinação Interior de António Alçada tem Alexandre por marca: « - Quem? O infinito? / Diz-lhe que entre. / Faz bem ao infinito / Estar entre gente.» (Abandono Vigiado).

GOM

Oiçamos a voz do poeta!

 

 

 


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SÁNDOR MÁRAI


  DO TRATADO DA AMIZADE


Aprende-se que há um amor a todos os títulos fecundo quando os homens são capazes de criar e de manter a vivência de uma amizade como salto qualitativo na forma de viver.


O romance As Velas Ardem Até ao Fim tem sido merecidamente aclamado, mas um autor como Sándor Márai, nunca por excesso será nomeado, tal a força da sua imensa inteligência no poderosíssimo discurso escrito.


Entramos num ecossistema de leitura diferente de cada vez que revisitamos estas velas que ardem qualitativamente catalisadoras de transformações profundas e que sempre direi a reler neste romance.


A magia de um diálogo deslumbrante neste livro, acode ao mistério do tudo e do nada, há quarenta e um anos vivido lado a lado com o que se não pode resolver, ou, por se tratar de ideias falsas, ou, por tão perto e de tão perto, que já não acresce reconhecer o que afinal de nós nunca saiu e tanto no outro se procurou.


E procurou-se no jeito dos porquês e dos comos, ambos miseravelmente idênticos, ambos fórmula sem testemunha que deponha benevolente.


Afinal, da leitura deste livro fabuloso, também resulta que a tudo se sobrevive e, talvez que muitos silêncios sejam mais humanos do que as palavras alguma vez o foram, na ânsia de qualificar a vida.


Existem muitos crimes que os códigos não reconhecem pois que pouco sabem de conteúdos. Também existem misérias e grandiosidades, vaidades e preconceitos que ardem como as velas, muitas, ainda assim, expectantes que se não apaguem de morte esquecida.


E reli e irei reler e apelo à (re)leitura deste romance de Sándor Márai As Velas Ardem Até ao Fim. Todas as noites têm luz quando se sugere um livro como este, pleno de palavras meticulosamente talhadas na alma das pedras.


A realidade é um pormenor na luz flutuante do salão que abriga o diálogo entre dois homens, amigos inseparáveis. Amigos migratórios. Amigos que reconhecem os defeitos e as consequências dos mesmos. Amigos que se não amam apenas pelas virtudes e pelas fidelidades. Amigos até que ambos amparam a bala que afinal não era inteiramente sincera.


Também existe uma mulher neste livro, tal como a amizade que quando surge é um destino.


Também é no seio de uma comum permissão secreta que não se deseja libertar as verdades que em comunhão com uma paixão tiveram ambição de soldado.


E houve guerra. E solidão. E castelos e conventos e cortinas e uma nudez humana que responde com toda a sua vida.


Também existem muitos significados de caça que só muito mais tarde se entendem. Em verdade, as caças têm muito de despedidas, têm muito do foste tu que me chamaste?


Com tudo o que de brilhante nos ocorre quando lemos este livro, o caos da criação onde se desenvolve a dignidade humana, é ainda mais cintilante, quando o sentimos como uma obrigação nobre, tão nobre que faz parte do ofício do entendimento, como andar a cavalo, ou participar num concerto de Chopin.


Oculta e exposta está a sensualidade deste livro. Surge-nos como consequência natural das circunstâncias que levam as mãos ao tremor, tão antigo na paixão, quanto jovem e permanente ao posto de vigia: licor líquido cor de púrpura a quem no acto de leitura o não descuida.


Citando Sándor
“Era o momento em que a noite se separa do dia, o mundo de baixo do mundo de cima. E talvez haja outras coisas que também se separam nesses momentos (…) já não é noite, mas ainda não é dia.”


E nem sempre se argumenta com palavras da razão. Digo.

Teresa Bracinha Vieira
31.03.10


Obs: Solicitou-se a reposição do presente texto