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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 5 a 11 de abril de 2021

 

“Sylvie e Bruno”, de Lewis Carroll, publicado em 1889-93, (trad. portuguesa, Relógio d’Água, 2003) foi o último e o menos conhecido dos livros do autor de “Alice no País das Maravilhas”, mas talvez o mais fascinante…

LITERATURA E ECONOMIA
A história tem todos os ingredientes conhecidos de Carroll e é protagonizado por duas crianças e pelas suas inesperadas reflexões. O autor explica no prefácio o que o anima nesta obra. “Uma vez que percebamos qual é o verdadeiro objetivo na vida — que não é prazer, nem conhecimento, nem sequer a fama(…) — mas que é o desenvolvimento do caráter, a subida a um mais elevado, mais nobre, mais puro estandarte, a construção do homem perfeito — e então, enquanto sentirmos que isso continua, e vai (confiamos) para sempre continuar, a morte não tem para nós nenhum terror; não é uma sombra, mas uma luz; não é um fim, mas um começo!”. Recordamos a obra, a propósito da relação entre Literatura e Economia invocada no último ensaio de Lord Maynard Keynes no livro, já por nós referido, “Ensaios em Persuasão” (Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018) – “Possibilidades Económicas para os nossos netos”… Lorde Keynes, o maior economista do século XX e um dos grandes génios de sempre, refletiu sobre a literatura e a economia no referido ensaio sobre o futuro, no qual chama à colação Lewis Carroll, lembrando o negócio que a Rainha Branca fez com Alice sobre uma compota, mas também o estranho entendimento de um Professor e de um Alfaiate relatado em “Sylvie e Bruno”… E se falamos dessa relação, devemos começar (antes de tudo) por ler o Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, de 1669, do nosso Padre António Vieira para percebermos a importância do fenómeno económico, no que às letras escritas diz respeito. Afinal, a economia tem a ver com a “regra da casa” e com o modo como as necessidades humanas são satisfeitas. Eis por que estamos na essência da literatura. E cite-se a passagem de Vieira, em que num subtil jogo de palavras relaciona a adequação entre a utilidade dos bens e as responsabilidades de cada qual. “Quem fez o que devia devia o que fez e ninguém espera paga de pagar o que deve. Se servi, se pelejei, se trabalhei, se venci, fiz o que me devia a mim mesmo; e quem se desempenha de tamanhas dívidas não há de esperar outra paga”. Entre a obrigação e o direito, entre o dever e a paga, entre o serviço e a responsabilidade, temos a essência do que hoje designamos como sustentabilidade – que é a palavra tecnocrática para exprimir o que é natura, enquanto equilíbrio entre a necessidade e o custo.


PROCURA DE EQUILÍBRIO
A economia é exatamente a procura desse equilíbrio – que, mais do que a riqueza, obriga à criação de valor. E como o que tem mais valor é o que não tem preço, estamos na essência das Humanidades, da comunicação entre as pessoas e das Artes como elementos criadores por excelência. Por isso, o Padre Vieira diz-nos que “quem fez o que devia devia o que fez” – do mesmo modo que “ninguém espera paga de pagar o que deve” O barroco jogo de palavras vem exprimir uma ordem simples do que é a capacidade criadora. Pagar o que cada um deve, fazer o que cada um pode, é no fundo, representar a vida como uma relação permanente de cada um com o outro e de todos nas relações que estabelecem entre si. Voltando a Keynes, este lembrava que Alice não gostava da compota que a Rainha lhe queria dar. Mas esta descobriu o estratagema para que a compota fosse recebida, apenas como um valor futuro. De facto, o pensamento económico comporta sempre consideração sobre o futuro. “O homem ‘determinado’, dizia Maynard, está sempre a tentar garantir uma imortalidade falsa e ilusória para os seus atos, empurrando o seu interesse por eles para a frente no tempo”. Eis a chave da narrativa: ligar o tempo presente e o passado ao futuro – como faz Xerazade nas “Mil e Uma Noites”. O que importa para Xerazade é conseguir mais uma noite de vida, estendendo as possibilidades da existência para além do imediato. E estamos aí na essência da narrativa e da literatura. Que é a literatura senão a criação de valor pela compreensão do tempo e da vida. O “homo economicus” de Keynes, que ele considera ‘determinado’ – “não gosta do seu gato, mas dos filhos do seu gato; bem, na verdade, nem dos filhos do seu gato, mas apenas dos filhos dos filhos do seu gato, e assim sucessivamente para todo o sempre até ao fim do reino dos gatos”… E regressando a Lewis Carroll. Para a Rainha “compota não é compota, a não ser que se trate de um caso de compota amanhã: nunca compota hoje”. Como Alice não gosta de compota, a Rainha oferece dois dinheiros por semana e compota dia sim, dia não. Portanto, falamos de compota amanhã ou de compota ontem, mas nunca de compota hoje. E como hoje não é nem ontem nem amanhã, nem sim, nem não, hoje é sempre hoje – nunca há compota hoje. E assim se cria a ficção. Do mesmo modo, como o paradoxo de Zenão, no romance “Sylvie e Bruno”, o alfaiate nunca vai receber a dívida do professor porque o montante da dívida vai sempre duplicar em cada ano – até morrer. E ele vai esperar, porque vale sempre a pena esperar mais um ano para obter o dobro do dinheiro. A lógica, a economia e a literatura digladiam-se e têm sempre um amanhã, como Xerazade e o professor ardentemente desejam, iludindo o alfaiate e o Sultão…


QUE OPORTUNIDADE?
Isabel I de Inglaterra talvez não se tenha apercebido de tudo quando investiu na expedição de Francis Drake da “Corça Dourada”, mas tomou a decisão certa. De facto, cada libra que Drake trouxe para casa em 1580, transformou-se hoje em 100 mil libras, pelo poder dos juros compostos. Mas será que o futuro repetirá o passado? O tempo nunca se repete – e a ilusão do alfaiate, se é a fonte da literatura, vai deparar-se com mil fatores complexos e aleatórios. “O ritmo a que poderemos alcançar (…) o destino da felicidade económica será definido (diz Keynes) por quatro elementos: a nossa capacidade de controlar a população, a nossa resolução de evitar guerras e conflitos internos, a nossa disponibilidade para confiar à ciência a orientação das questões que são do domínio da ciência, e a taxa de acumulação fixada pela margem entre a produção e o consumo. Destes quatro elementos, o último cuidará facilmente de si mesmo, se os três primeiros forem cumpridos”. E eis aqui a chave de todos os mistérios. É que apenas a imaginação e a literatura, por um lado, a inteligência e a capacidade de sermos prudentes a encarar o futuro, por outro, poderão permitir que um destino de felicidade não se torne uma realidade vã…   

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 29 de março a 4 de abril de 2021

 

«Sinais de Fogo» de Jorge de Sena (Livros do Brasil, 2017) é na obra do autor uma referência fundamental.

 

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A MEMÓRIA DOS ANOS TRINTA

Os anos de 1930 em Portugal foram literariamente marcados pela confluência entre o psicologismo e a incerteza social, num momento em que, ao contrário do que acontecera nas vésperas da Primeira Guerra, havia consciência de que algo de trágico se preparava. Em Sinais de Fogo, publicado postumamente em 1979, Jorge de Sena, com essa consciência, faz a análise de um tempo perturbador. O panorama geral é o de uma guerra próxima, que se indicia no seio da sociedade, e deixa as pessoas inseguras. Era uma sensação estranha e, ainda que pudesse não nos tocar diretamente enquanto país, teria sempre efeitos. E o romance, que procura retratar esse tempo, regista uma lembrança autobiográfica. O realismo cruza-se com o sonho, e o desenho geral da narrativa não esquece a tónica surrealista. Sinais de Fogo é concebido como o início de um ciclo não cumprido, que se intitularia como Monte Cativo, e que decorreria entre 1936 a 1959. Tudo começa na Figueira da Foz, subitamente cheia de espanhóis, com uma guerra civil em curso do lado de lá da fronteira, a perturbar já a tranquilidade da província.

 

A GUERRA TÃO PRÓXIMA

O ambiente político da guerra e de um regime policial recém-implantado constitui a base da ação – num romance de formação marcado pelo acordar dos sentimentos mais íntimos de um adolescente... E o protagonista interroga-se: “Era eu diferente dos outros? Estivera, desde sempre, destinado a sê-lo? Ou um conjunto de circunstâncias excessivamente extravagantes me transformara o suficiente para isso? Mas, se as circunstâncias haviam podido ter um tal resultado, não seria porque já eu estava destinado à diferença (que poderia dar-se ou não dar-se) de um conjunto delas agir sobre mim? Eu não queria ser diferente dos outros em nada, e não me sentia diferente. Pelo contrário, o que eu descobrira, ou descobria, é que todos são diferentes, desde que a hora ou o momento surjam”… A poesia, os sentimentos íntimos, a consciência política, tudo emerge num torvelinho de acontecimentos. E é um poeta que vai nascendo… “Poeta, para mim, como para a minha família, e para os meus amigos, era uma pessoa algo caricata, segregada da normalidade da vida, e que se instalava na personalidade romântica de falar por conta própria ou dos outros, como se o que ele dissesse fosse da mais alta e especial transcendência, não o sendo realmente para ninguém a não ser em ocasiões muito especiais”. Como diz Jorge Fazenda Lourenço: “Sinais de Fogo seria uma longa meditação sobre o caminho que vai do instante de se ‘ter nascido poeta’ (por Graça) ao momento de ‘reconhecer-se poeta’ (por Obra)” (“Relâmpago”, nº 21, outubro de 2007). E esse percurso, neste romance de formação, acompanha o drama violento da Guerra de Espanha e descreve a evolução difícil do desenvolvimento espiritual, do desabrochamento sentimental, da aprendizagem humana e social. A instabilidade externa pontua a agitação íntima numa metamorfose, que antecipa e justifica a profunda alteração das circunstâncias do mundo. Daí a preocupação de Jorge de Sena, como romancista, distanciado no tempo, em misturar propositadamente a realidade e o sonho, o conjunto e a singularidade… E assistimos assim à sucessão de uma guerra e de um armistício entre Jorge, o protagonista, e as suas memórias, quando o país e o mundo mudam intensamente. E os anos trinta anunciam com nitidez esse contraste entre a ilusória placidez interna de um Portugal ameaçado, mas incrédulo, e a proximidade de uma grande tragédia que, como sabemos, vai ser global, sem se conhecer se seríamos também envolvidos no drama anunciado. De qualquer modo, avista-se no horizonte o negrume da morte… O certo é que “a imprevisibilidade não era senão o sinal de que o maior horror da responsabilidade estava em não poder haver responsabilidade alguma”. E, ao cair do pano, com a ameaça irónica de uma intentona sem sucesso, vislumbramos a estranha contradição entre o medo e a angústia das tragédias imprevisíveis. E é a própria responsabilidade que se desvanece, perante a negação da liberdade. “Não era que as pessoas fossem coniventes de uma revolução falhada (…). Algumas, por certo leriam o jornal com o mesmo ansiado prazer de a ordem e a disciplina serem mantidas, que houvera na voz de minha mãe. E, todavia, essas mesmas sentiam-se sós e incomunicáveis, por terem aceitado que a ordem e a disciplina fossem uma coisa exterior a elas, defendida por outros, em nome de um governo que tomara sobre si o defini-las e se atribuía a omnisciência mesmo de revoluções que chegavam a sair e causavam mortos e feridos…”.

 

REFERÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

Este é o tempo em que a revista “Presença” (1927), órgão do nosso segundo modernismo, valoriza a narrativa de aventura individual e das questões não redutíveis aos conflitos sociais. É a “Literatura Viva” que está em causa. Casais Monteiro teoriza sobre o Romance Contemporâneo. Elói – ou Romance numa Cabeça, de João Gaspar Simões (1932) e O Jogo da Cabra-Cega de José Régio (1934) ilustram essa preocupação. Régio assume um tema confessional, no qual estão ligados os conflitos interiores entre o humano e o divino, o bem e o mal, a carne e o espírito. Pedro Serra descobre a pós-adolescência, com um alter-ego, Jaime Franco, como contraponto diabólico de si. Diferentemente, a novela O Barão de Branquinho da Fonseca (1942) baseia-se numa complexa invenção mítica de uma personalidade dominadora que leva o narrador para surreais caminhos mágicos. É o tema da singularidade pessoal que ocupa os caminhos do novo Romance. Note-se, aliás, que alguém distante do presencismo, como José Rodrigues Miguéis, publica em 1932 Páscoa Feliz, sob a influência de Dostoievsky e Raul Brandão, em registo psicológico: “a verdade é que psicologia a mais, angústia a menos, o Renato desta novela é apenas o subproduto de uma fauna provinciana que em Lisboa desagua, se dissolve e perece”, na expressão do autor. E a dimensão psicológica social termina em pura esquizofrenia. Por outro lado, José Marmelo e Silva em Sedução (1937) aborda o tema complexo da adolescência e da libertação moral de um modo reconhecidamente acutilante e original com apreciável capacidade analítica e sentido romanesco, mais tarde confirmado em Adolescente Agrilhoado (1948).

1934 é ainda para Miguel Torga, que se afastara do grupo da “Presença” com Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca em 1930, o ano emblemático do surgimento do nome literário, que invoca a vocação ibérica de Cervantes e Unamuno e a urze dos montes transmontanos. Isto ocorreu com a novela A Terceira Voz, onde o escritor procura mostrar a força do espírito inconformista, da independência de espírito, da resistência, do antes quebrar que torcer, do sacrifício propiciatório de reacender o fogo pátrio… Se é certo que não foi esta a obra que pôde consagrar, depressa a força que lhe estava subjacente projetou-se nas páginas de A Criação do Mundo e no Diário, que vieram a consagrar o escritor como referência fundamental – consciência crítica, cidadão capaz de ligar duravelmente a salvaguarda da singularidade e a capacidade de compreender a força emancipadora da sociedade. Será diferente a década seguinte, mas a tomada de consciência de uma singularidade que se torna ponto de encontro entre o reconhecimento da criatividade individual e a necessidade libertadora do espírito crítico marca decisivamente a caminhada que Jorge de Sena descobre em Sinais de Fogo, no sentido da presença do eu no mundo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

JÜRGEN HABERMAS

O grande pensador que nos diz:
envergonha-te de morrer antes de teres alcançado uma vitória para a humanidade.


No passado dia 28 do corrente na Fundação Calouste Gulbenkian colocaram-se as questões inerentes aos livros e às leituras, tendo em conta os desafios da era digital.

Debater o papel do livro e da leitura na era da internet tendo como convidado o filósofo e sociólogo alemão, Habermas, figura central do pensamento contemporâneo que desde logo, confessa:

No meu trabalho diário sentir-me-ia perdido sem o meu computador pessoal, mas não sou verdadeiramente um habitante do novo espaço virtual. Não participo nas redes sociais, não leio 'e-books' e de tempos a tempos escuto os relatos da minha neta sobre o seu admirável mundo novo.

Gomes Canotilho deu-nos conta que em 2010 Habermas falhou a presença em Portugal por razões de saúde. Desta feita aceitou fazer a viagem até Lisboa por se tratar de uma conferência sobre educação

Habermas um dos mais influentes filósofos do mundo a dois passos de física distância disse-nos: temos um ascensor comum.

Na semana passada, tinha lecionado uma aula sobre a Europa alertando, naturalmente, para os raciocínios de Jügen Habermas.

Expressei o que entendia ser a necessidade de uma política de saúde comum entre os povos, nos quais enfim, até se enraízam os mesmos princípios constitucionais, mesmo que sem as mesmas origens étnicas, linguísticas ou culturais.

Recordei a importância da Europa no pensamento de Habermas e que atravessa áreas como a ética, a filosofia da religião, a linguagem, a estética, entre outras temáticas, e recordando que a Fundação C.G. já editara este ano a obra de Habermas “A transformação estrutural da esfera pública”.

Para o filósofo, "no caso da pós-democracia, a perceção é a de que os governos não só perderam a vontade como também a força para intervir de modo a alterar o estados dos mais desfavorecidos".

Deste modo, poderemos colocar a possibilidade de alargar as fronteiras da legitimação democrática para lá das fronteiras do estado-nação?

Habermas entende que a transnacionalização da democracia oferece uma saída que não se compadece com a apatia do mundo ocidental, nem com o distanciamento em relação aos políticos, existindo mesmo uma exigência, por parte dos cidadãos e grupos de protesto, de uma democracia direta.

Aqui um silêncio interrogativo do auditório. E acrescentei que mais nos atiçara o pensador:

o preço a pagar pela governação para lá dos estados é a crescente insignificância dos processos de legitimação no interior do estado-nação (…)”

Então a resposta reforça a afirmativa:

 necessário se torna que surjam novos tipos de comunidades transnacionais e a União Europeia é suposta ser a primeira desse tipo de instituições, explicou o autor da “Teoria da Acção Comunicacional”.

No entanto, prosseguiu Habermas, a crise da zona euro é a prova de como é difícil o caminho até se chegar a um “sistema democrático supranacional ambicioso e com vários níveis”.

Ultrapassar o atual estado de coisas implica, defendeu, uma mudança no espaço público europeu, um espaço que é mais uma soma de espaços públicos nacionais do que um fórum de discussão de questões genuinamente europeias e comuns a todos os estados-membros.

A mundialização, a busca planetária, a Europa de geometria variável ou a la Carte, os laços de pertença interrompidos pelo “poder de agenda”, mostram-nos que, esta crise nos clareou o quanto é necessário mudar de política, e levá-la a enquadramentos partilhados por políticas económicas e sociais que nos libertem dos mercados financeiros, neles responsabilizando investidores e não contribuintes.

Claro está que para se caminhar neste futuro os países têm que se afastar dos egoísmos nacionais e adotar verdadeiras perspetivas europeias comuns, não conformadas ao mercado, mas sim, à modificação do seu papel em prol de um advir consciente, responsável e inequivocamente seguro da geração que se deseja por uma justiça a recriar, começando esta em cada um.

Mas os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, daquilo que os europeus devem uns aos outros. Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Quantas vezes a política do dar e do haver prejudicou a identidade dentro da União Europeia? Lancei aos alunos. Quantas vezes? E repito a análise de Habermas

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Habermas, um dos maiores pensadores do nosso tempo, encerrou com estas palavras a sua conferência sobre a democracia na Europa, na passada segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Fica por repensarmos a razão e o limite das transferências de soberania que não colocam em causa a coragem da revisão dos tratados, e fica por saber o quanto os meus alunos puderam compreender que qualquer dos caminhos tem custos, mas que é preciso sair do conforto dos egoísmos nacionais que nos condenam, e que saibamos olhar-nos como parte de uma comunidade, independentemente de fronteiras, na qual saibamos responder à  questão: quem somos nós?

Ou

E se precisarmos um dia, absolutamente de resolver um trágico problema comum?

Se estas controvérsias não forem lançadas nos espaços públicos nacionais, estes serão moldados de acordo com o formato das ‘democracias conformadas”, digo.

Mas, os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia como se ela não fosse o grande desafio de dimensões históricas.

Nasceu em Düsseldorf, em 1929 Habermas, e foi fortemente influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger.

Habermas para quem

O Homem é um “sim” que vibra com harmonias cósmicas

Recorde-se também o encontro entre Habermas e Ratzinger, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático". Habermas e o cardeal debateram razão e fé, capitalismo globalizado, moral nas sociedades pluralistas e mediáticas, interculturalidade, poder e direito comum.

Saibamos sempre que a Cultura se situa no contexto da história e que se limpem os pés e se usem mascaras que protejam a sanidade das ideias antes da tolerância de cada um a si mesmo.

E com este filósofo, casa cheia afinal na Fundação Gulbenkian!

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Texto muito similar foi publicado neste Blogue há cerca de 8 anos. Pouco depois, o atual, foi publicado noutra sede.

A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de março de 2021

 

“A Mocidade de Herculano” é a dissertação de doutoramento de Vitorino Nemésio (1934). Mas é muito mais do que isso: é o romance de uma figura cultural única e marcante – e aí encontramos não só a paixão poética, mas também a mestria romanesca, que prenuncia o genial “Mau Tempo no Canal”.

 

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Na década emblemática de 1930, devemos chamar à colação Vitorino Nemésio de um modo talvez inesperado, mas depressa compreensível. Refiro-me à dissertação de doutoramento “A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio”, defendida em 1934, que constitui muito mais do que um documento académico, já que é uma obra-prima da ensaística portuguesa. E se falo desta referência é porque não é despicienda a escolha do tema e o seu tratamento. Pode dizer-se que é o romancista e o poeta que aqui se anunciam, o que nem sempre foi bem entendido no claustro académico. Bem assinala David Mourão-Ferreira “o rigor da minudência erudita e a certeira intuição de quem sabe sondar, a um século de distância, toda a complexidade de um grande destino que se vai construindo”. Herculano surge como uma grande personagem, como um defensor da liberdade, num caminho de dúvidas e incertezas, mas um verdadeiro símbolo de um pensamento que estava em perigo quando o investigador o escolheu. Sente-se no jovem Nemésio uma especial identificação, subtil é certo, mas evidente – sobretudo por contraponto a um tempo em que o panorama político se apresentava como adverso relativamente à defesa e preservação dos valores queridos pelo historiador. Quando lemos “A Mocidade de Herculano” sentimos que o rigor historiográfico permite a construção de um quadro narrativo de uma grande riqueza, em que a singularidade se junta à necessidade de compreensão do contexto social e político – que será de grande utilidade para a riqueza da obra romanesca do autor. “Tenho pensado e vivido tanto com Herculano, que agora sou assim uma espécie de seu neto póstumo. Neto, não!, que o meu avô mais velho nasceu em 1841 (…) e Herculano é de 1810. E, mesmo para o meu bisavô, talvez fosse velho de mais. Como seria meu bisavô? Sei ou julgo saber como foi Herculano: não sei de meu bisavô senão por vagas memórias”. E o escritor lembra, ao menos, que em 1832, quando Herculano desembarcou na Terceira, o historiador e seu bisavô respiraram o mesmo ar, qualquer que fosse a distância a que tivessem estado. Estamos perante um verdadeiro romance, mas é o “abalo do poeta” que está na raiz do biógrafo. Perante a massa enorme de elementos sobre a emigração portuguesa existente no Museu Britânico, Nemésio restringe-se ao exílio de Herculano, “não sem investigar manu diurna et nocturna (como diziam nossos mestres), em três anos de full time, todo o âmbito da operosidade e da espiritualidade do escolhido. Interessava-me o homem inteiro (…) sempre e em tudo indistintamente filósofo, poeta – homo sum, nihil humanum a me alienum…”. A leitura dos dois volumes é apaixonante, porque neles deparamos com o feliz encontro de uma irrepreensível análise histórica e literária, que enriquece um percurso acidentado de carácter pessoal, com uma magnífica ilustração do contexto cultural europeu e nacional. Sentimos a presença desde a comum mediania à emergência de uma perceção elevada das mais relevantes personagens do tempo. “Emigrei da idade de vinte anos em consequência da infeliz tentativa da revolução do 4º Regimento de Infantaria, tentativa conduzida com tanto valor pelos meus honrados amigos o capitão Albino Francisco de Figueiredo e tenente-coronel Bravo…”.  E assim Herculano foi cúmplice de um “agente incógnito” e teve de fugir para a fragata “Melpotmène” e depois para bordo de um paquete inglês que o levou ao litoral da Mancha. E por muito que Inocêncio (o dicionarista) se afadigasse em referir as origens miguelistas de Herculano, a verdade é que encontramos o percurso natural de um português num tempo de contradições, cuja coerência determinada é feita de um percurso sempre sério e refletido…

 

AINDA O SIGNO DA LIBERDADE

Se a liberdade é o pano de fundo na prova académica de Nemésio no tempo em que o horizonte se enchia de nuvens totalitárias, na década seguinte Mau Tempo no Canal é a obra-prima, escrita nos anos de início da Guerra, a partir de 1939, na qual encontramos também o elogio da liberdade, na personalidade de Margarida Clark Dulmo, num tom original a superação dos limites do psicologismo “presencista”, bem como da lógica social neorrealista. É algo de próprio e de original, que podemos aproximar do rigor da “Mocidade de Herculano” de uma extraordinária dimensão poética. Trata-se de uma narrativa que concilia o genuino sabor local e uma reflexão universalista, relaciona a singularidade e o destino, o mistério e o presságio, o sonho e a tragédia. David Mourão-Ferreira classificará, com justiça, a obra romanesca como «a mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária». Margarida e João Garcia protagonizam, de início, um namoro contrariado pelas relações tensas entre as famílias de ambos, no contexto da sociedade açoriana plena de ressentimentos, medos, angústias, contradições, uma família de raízes aristocráticas, mas em situação difícil, e a ambição de um novo-riquismo desejoso de legitimação. E a grande metáfora é a da melancolia das ilhas e do mar oceano, da distância, mas também da liberdade e da esperança, da incerteza e da dúvida sentidas, em especial, entre o Faial e o Pico, entre o anfiteatro da cidade da Horta e o majestoso Pico, referência mítica do tempo que permanece inexorável, belo e ameaçador. Fica lembrada a carta de Antero a Oliveira Martins: “Aqui nos Açores, há um provérbio que reza: ‘S. Miguel, burgueses ricos; Terceira, fidalgos pobres; Faial, contrabandistas espertos’. Com efeito, a Terceira é uma terra essencialmente portuguesa e peninsular: fidalguia, pobreza, toiros, insouciance sóbria e filosófica, entusiasmo, bizarria e parlapatice: numa palavra os defeitos e as qualidades correspondentes do idealismo peninsular, que V. tão bem conhece e não menos bem descreveu já”… Margarida é a figura marcante do romance, forte e sensível, inteligente e arguta, livre e determinada, uma personalidade que não nos pode deixar indiferentes, porque compreende como ninguém a terrível teia em que está envolvida, entre sonhos e augúrios. Como é insondável o destino. Mas, no final, sente-se cega…"cega como a serpente do anel que nenhum ventre de peixe levaria a mesa humana e que àquela hora jazia, como a cucumária dos abismos, no mais secreto do mar"… E entre a força destas duas obras maiores da cultura portuguesa, lembramos o que Nemésio considera ser a sua existência. “Toda a vida estudei de tudo e o mais que podia para o que desse e viesse. Não me preparava dia a dia para amanhã e depois ou racionando, como a formiga, do verão propício ao Inverno rigoroso. Mas talvez não fosse apenas leviano, como a cigarra, pois tive de dançar no Inverno e cantei sempre”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 15 a 21 de março de 2021

 

“Toda a Terra” de Ruy Belo (Moraes, 1976) revela-nos a força criadora do poeta, num momento importante do seu percurso criador.

 

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FIDELIDADE À VIDA

Num ensaio célebre sobre Manuel Bandeira, publicado em “O Tempo e o Modo” (nºs 62-63, 1968), lido na Sociedade Nacional de Belas-Artes, numa homenagem ao poeta brasileiro, por sugestão de Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo afirmou que o autor de Vou-me Embora pra Pasárgada tinha “noções muito precisas acerca da poesia e do público”. Por isso defendia “a necessidade de uma fidelidade à vida tal como ela é”, fazendo-o “pelo recurso à enumeração e pela rigorosa passagem do singular ao universal, o que deve bastar para assegurar a um texto (…) uma temperatura poética que o tempo dificilmente fará arrefecer. E o poeta bem sabia a importância do manejo e combinação das palavras encantatórias criadoras de poesia. Ao lermos esse ensaio e o outro que publicou na revista “Rumo” em 1966 compreendemos qual a ideia de Ruy Belo sobre “como um poeta se faz”. E a propósito de Manuel Bandeira e do seu carácter precursor, o poeta de Toda a Terra coloca-nos no ensaio o caminho que preconiza para que, como poeta, possa exprimir a paixão pelas palavras. Ao rever há dias o filme “Ruy Belo, Era Uma Vez”, de Nuno Costa Santos, na RTP-Memória, reencontrei a lúcida análise de António Feijó sobre a importância fundamental do contributo de Ruy Belo na poesia portuguesa do século XX, pela originalidade, inteligência e profundidade de um testemunho, que abriu inúmeras pistas para as novas gerações e para a literatura da língua plural que o português é. E, com emoção, ouvimos, mais uma vez, a lembrança de Teresa Belo, de saudosa memória, cuja generosa persistência permitiu reforçar a tomada de consciência da singularidade excecional do poeta. Se refiro os ensaios sobre Manuel Bandeira, dados à estampa em Na Senda da Poesia (1969), é para deixar claro que essa reflexão de Ruy Belo faz luz sobre o seu próprio percurso e sobre a preocupação que tinha relativamente à relação entre as palavras e a vida. Daí a invocação do poema “Os Sapos” de 1918, que constitui um exemplo significativo, verdadeiramente um pequeno manifesto, sobre a necessidade de os poetas não se deixarem prender pela moda do tempo: “Enfunando os papos / Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra. // em ronco que aterra, / Berra o sapo-boi: / - Meu Pai foi à guerra! / - Não foi! – Foi! – Não foi!” // O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: Meu Cancioneiro / É bem martelado. // Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos // O meu verso é bom / Frumento sem joio. / Faço rimas com consoantes de apoio…”.  Afinal, o sapo-tanoeiro, representante do parnasianismo, sacrifica a poesia às artes poéticas, reduzindo a forma a fôrmas. Mas, longe da grita, na beira do rio, o sapo-cururu (ou seja, o próprio Manuel Bandeira) soluça, transido de frio, afastado da tentação do sapo-tanoeiro. É assim que Bandeira chega à Semana de Arte Moderna de 1922, com uma vivacidade e uma força inovadora, que claramente define em “Itinerário de Pasárgada”: “em literatura a poesia está nas palavras, se faz com as palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido seja por força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”. E Ruy Belo lembra “Evocação do Recife”: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha pela boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada”.

 

UM SÍTIO DE SILÊNCIO

Contra as fôrmas da moda parnasiana, Manuel Bandeira, atento à língua certa do povo e “industriado no convívio de Camões”, transforma defeitos em recursos e alcança “um ritmo lento, sincopado, que é de apreciar”. Eis como entendia ser importante ligar a palavra a todos quantos a usam, de modo a compreendê-la como realidade viva, sempre em mutação, para ser fiel intérprete de uma real capacidade de se fazer entender, de comunicar e de compreender os valores enraizados na vida. “Quero uma mesa e pão sobre essa mesa / na toalha de linho nódoas de vinho / quero só isso nem isso quero” – dirá o poeta em Toda a Terra. E ainda o ouviremos: “A minha vida é hoje um sítio de silêncio / a própria dor se estreme é dor emudecida / que não me traga cá notícias nenhum núncio / porque o silêncio é sinónimo da vida”… Trilhando caminho diferente de Manuel Bandeira, Ruy Belo é, no entanto, fiel ao espírito aberto e livre daquele, e procura fôlego, como fazia nos dias em que ia mar adentro em Vila do Conde perante as ondas bravias. “A mim morto no mar entre algas e corais / que notícias me dais aí da superfície / dessa única terra onde vivi / e foi minha ambição morrer pra nunca mais? / Ainda cheira a esteva por aí?”.

 

NÃO HÁ BEM MAIS HUMANO QUE A PALAVRA

Compreender a vida, obriga a usar as palavras certas para a dizer e interpretar – eis o que está em causa. Como o autor de Boca Bilingue afirmou numa entrevista em 1962 ao “Diário Ilustrado”: “A poesia não constitui um fenómeno isolado no contexto cultural. Poesia é fundamentalmente linguagem, e a língua, sendo em si mesma um facto de cultura, permite a fixação e a transmissão de toda a cultura. A poesia enquadra-se na arte e distingue-se das outras artes quanto ao ‘meio’ (o termo aqui, embora, claramente insuficiente, é aplicado na sua aceção vulgar) de expressão”. E é esta circunstância que a autonomiza e distingue. De facto, o poeta compreende, melhor que ninguém, que cada palavra é um infinito, “que exerce o sortilégio que o poder mágico lhe permite”. Eis o que Ruy Belo procurou no seu rápido caminho. “Não há bem mais humano do que a palavra, de tal maneira que ela até compromete na inteligência do homem toda ou quase toda a sua existência. Ela ajuda a criar, e participa da história do homem. Daí que pô-la em jogo seja movimentar o universo”. E se, para Ruy Belo, a palavra é humana, naturalmente se torna social, comprometida, responsável. Ela abre diversas relações com outras palavras e sobretudo com pessoas. Vista a esta luz, a poesia é o lugar “onde convivem umas com as outras as palavras”. E é isto que sentimos ao ler os poemas longos do autor. Teresa Belo recordava, por isso, os exercícios intermináveis que dedicava aos encontros e desencontros de palavras. Afinal, se “O Guardador de Rebanhos” veio de um só jacto; Régio confessava: “Há quanto, há quanto já que os versos me não vinham”… Foi na leitura de Homero que se educaram todos os atenienses, mas Platão preconizava a expulsão dos poetas da cidade pelo perigo que representavam. Hölderlin, se reconhecia a inocência da palavra, considerava-a o mais perigoso dos bens. “A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento”…  

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de fevereiro de 2021

 

Luís Sepúlveda (1948-2020) deixou-nos inesperadamente há um ano. Era um amigo de Portugal e a sua obra mantém-se atual, plena de humor e de sentido quase profético, como na “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (Porto Editora, 2008).

 

historia de uma gaivota e de um gato que a ensinou

 

UMA MEMÓRIA VIVA

Ainda a pandemia do Covid-19 dava os seus primeiros passos e, regresssado das “Correntes d’Escritas”, Luís Sepúlveda foi das primeiras vítimas desta terrível peste que assolou o mundo e da qual ainda não nos libertámos. Com uma obra plena de vitalidade, aprendemos com o escritor multifacetado a importância da memória – memória de acontecimentos, memória de pessoas, que  transmitia intensamente. Mas a sua personalidade irrequieta fazia questão de lembrar a tragédia ocorrida no Chile em setembro de 1973. Enquanto pensávamos que esse país parecia ser a exceção numa longa lista de pronunciamentos militares em que a América do Sul era pródiga – eis que o Chile se tornou, com a queda de Allende, mais uma triste confirmação de que a liberdade e a democracia nunca estão adquiridas. E Luís Sepúlveda era o exemplo de alguém que representava o entusiasmo dessa juventude chilena que acreditou na vitalidade inovadora de uma democracia social audaciosa. O certo é que nesse ano de 73 muitos sentimo-nos derrotados com a vitória de Pinochet. E nos olhos de Luís Sepúlveda percebíamos a expressão de uma esperança então derrotada, mas o ânimo de quem acreditava generosamente na força da liberdade, do pluralismo e da capacidade de fazer renascer a democracia no Chile, depois de lições dramáticas que foram sendo aprendidas.

 

UMA VIDA CHEIA

Nascido em 1948, teve uma vida cheia – como jornalista, militante político, romancista, realizador de cinema e argumentista. Logo em 1970 venceu o Prémio Casa das Américas pelo seu primeiro livro, “Crónicas de Pedro Nadie”, e uma bolsa de estudo na Universidade Lomonosov de Moscovo, onde apenas ficaria cinco meses. Foi membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, mas partiu para o exílio com a chegada da ditadura militar. Viajou pelo Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, numa missão de estudo da UNESCO. É essa experiência que inspirará o seu romance “Um Velho que Lia Romances de Amor” (1989) – um verdadeiro hino de amor à floresta amazónica, que se tornou uma das obras-primas da literatura latino-americana, em que o humor se liga ao tratamento muito sério de um tema candente. Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, e depois da vitória da revolução, trabalhou como repórter. Em 1982 partiu para Hamburgo, atraído pela literatura alemã, militando no movimento ecologista, percorrendo os mares do mundo com a Greenpeace, entre 1983 e 1988. Em 1997, instalou-se em Gijón, em Espanha, na companhia da mulher, a poetisa Carmen Yáñez, tendo fundado e dirigido o Salão do Livro Ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livreiros latino-americanos e europeus. Cultor da amizade, o escritor disse em “Jantar com Poetas Mortos”: “os amigos não morrem, simplesmente morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre ossos”. A força de memória está ainda na expressão de uma personagem desse livro – “enquanto falarmos deles e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem”. O método do escritor era o da deambulação e a partir dela contava histórias ouvidas a pessoas que foi conhecendo. O ofício de escritor era, assim, captar pequenos detalhes da existência, para que os afetos permanecessem. E considerava-se um cidadão-fronteira, entendendo essa linha não como um lugar de separação, mas como um modo de unir, um ponto de contacto, de diálogo e de novos conhecimentos. No fundo, entendia que assim poderia compreender melhor a natureza, na militância ativa dos últimos anos da sua vida na causa ecológica e na defesa da natureza. A “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (2008) é ilustração viva dessa militância ecológica. Zorbas é um gato grande, preto e gordo, a quem uma gaivota moribunda apanhada por uma maré negra de petróleo deixa dois compromissos: guardar o ovo que acabara de pôr e criar uma pequena gaivota, bem como ensiná-la a voar. Tudo com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabe-tudo, Barlavento e Colonello, numa tarefa dificílima para um bando de gatos habituados à vida dura do porto de Hamburgo… E aqui se sentem as forças da liberdade e da generosidade – num combate de todos em defesa da natureza para que outras gaivotas não fossem mais vítimas de desastres semelhantes.

 

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO

Amigo de Portugal, Luís Sepúlveda recebeu em 2016 o Prémio Eduardo Lourenço – pela intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica – e sentiu-se especialmente orgulhoso com essa distinção. Em “A Lâmpada de Aladino” (2008), um conjunto de contos marcados pela imaginação e pela procura de personagens inesquecíveis, deu-nos o retrato de Valdemar do Alentejo, um português impagável: “um personagem absolutamente real (diz o escritor). E convém explicar que se trata de um verdadeiro pirata. Não confundir com corsários, flibusteiros ou bucaneiros. Os verdadeiros piratas que eram homens livres no mar, foram muito poucos. Na verdade, só houve piratas em três lugares, No mar do Norte, por onde andou um pirata chamado Klaus Störtebeker, que assaltava navios da Liga Hanseática e distribuía o saque pelos pobres à laia de Robin Hood, nas costas africanas, sob forma de uma república pirata berbere, com um código de conduta ético rigorosíssimo, e depois no Estreito de Magalhães, onde existiram duas confrarias de piratas. Uma dirigida por dois holandeses, desertores da marinha dos Países Baixos, o Van der Meer. E outra que tinha como capitão o Alentejano. Apesar de distantes no espaço e no tempo todos tinham, a mesma bandeira vermelha e negra, como a dos anarquistas. Uma curiosa coincidência. Isto, e uma ideia elementar de justiça – devolver aos mais fracos o que lhe tinha sido tirado pelos mais fortes… Entusiasmado com essa ideia, Luís Sepúlveda preparava um novo romance baseado nas memórias e nos mitos cultivados em torno da sua recordação. Alguém que existiu realmente e que talvez tenha sido executado nas Ilhas Molucas, paraíso das especiarias. Luís Sepúlveda era uma presença assídua entre nós, tendo participado em quase todas as 21 edições do Festival Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim, a última das quais entre 18 e 23 de fevereiro de 2020. A sua lembrança está, pois, bem presente entre nós. Ao lermos os seus livros, plenos de humor e de uma séria ponderação das questões fundamentais que nos assaltam, é como se ele estivesse sempre a regressar, com a sua generosa força da liberdade…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 a 31 de janeiro de 2021

 

“Contos Populares Portugueses” de Adolfo Coelho (Paulo Plantier, 1879) constitui uma tentativa séria de preencher uma lacuna na cultura portuguesa e que tem a ver com a ausência de uma recolha sistemática, ao longo dos séculos, de exemplos coevos da cultura popular no imaginário literário.

 

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CONTOS DA CULTURA POPULAR

Como diz Adolfo Coelho (1847-1919) no prefácio da obra: «Os contos que publicamos não têm todos igual valor, mas oferecem todos mais ou menos interesse sob o ponto de vista tradicional. Em regra, pode considerar-se a tradição dos contos entre nós como assaz obliterada; falta-lhes vida, poesia, muitas vezes referência; muitas feições significativas em versões doutros países tornaram-se aqui ininteligíveis e só pela comparação se explicam. A sua forma em geral é seca, monótona, enumerativa. Alguns, porém, apresentam-se ainda numa forma excelente, menos deturpados por elementos modernos; noutros, como em todos os países sucede, há o resultado de estranhas combinações de elementos de contos diversos». Insiste o pedagogo que os contos populares «não são ridículas invenções, boas só para divertir gente rude, que não tem cousa melhor para pasto do seu espírito e da sua ociosidade» - e continua: «muita gente, séria e grave na própria opinião, pasmará de que haja quem gaste o seu tempo com tais coisas; mas algumas pessoas haverá também que queiram aprender e para essas escrevemos as observações que seguem, desnecessário aos que estão ao corrente da ciência». Mas reconhece que «a novelística culta de fundo tradicional é um dos ramos mais pobres da nossa literatura; por essa razão a história dos contos populares entre nós não se pode estudar com a clareza que haveria se tivéssemos numerosos documentos do género do que trasladamos. O Orto do Esposo e os Contos de proveito e exemplo de Gonçalo Fernandes Trancoso assumem, por isso, uma importância excecional». A mais antiga edição desses contos é de 1575, segundo Teófilo Braga, mostrando que foram escritos por ocasião da peste de 1569. E Trancoso terá usado a tradição popular como fonte». Entre os contos populares reunidos por Adolfo Coelho, podemos referir: A história da Carochinha; A Formiga e a Neve; O Rabo do Gato; A Torre da Babilónia; Mais vale quem Deus ajuda do que quem muito madruga; História do Grão-de-Milho; O Príncipe Sapo; O homem que busca estremecer, O Príncipe com Orelhas de Burro; Os Três Estudantes e o Soldado; a Moura Encantada…

 

CIDADÃO E PEDAGOGO

Francisco Adolfo Coelho foi pedagogo, filólogo, etnólogo, linguista e escritor. Exerceu funções de professor do Curso Superior de Letras, onde ensinou Filologia Românica Comparada e Filologia Portuguesa, foi diretor da Escola Primária Superior e lecionou na Escola do Magistério Primário de Lisboa, onde organizou o Museu Pedagógico. Nas Conferências do Casino, em 1871, tratou do tema “A Questão do Ensino”, onde defendeu a separação da Igreja do Estado e a promoção da liberdade de pensamento, como essenciais para o progresso do País pela Instrução Pública. O novo Portugal nasceria, para Adolfo Coelho, da incorporação da cultura popular num projeto da nação no qual a Educação fosse central. As tradições do povo, o seu saber e a pedagogia popular seriam considerados para alicerçar a modernização da sociedade portuguesa e o espírito da sociedade nova centrados na sua cultura. Figura considerada e prestigiada teve nas duas primeiras décadas do século XX um papel importante, designadamente na institucionalização da República, em especial no tocante à organização do ensino secundário superior. Assim, acentuou a necessidade de só se apresentar aos educandos aquilo que estivessem preparados para entender e de lhes dar liberdade de escolha entre algumas disciplinas de opção nas classes superiores do ensino secundário.

 

UM CONTO ATUAL

Como exemplo de pedagogia pela recordação da cultura popular, lembramo-nos do célebre conto tradicional das culturas europeias, que muitos de nós ouvimos contado pelas nossas avós. “O Homem que busca estremecer”, incluído nos “Contos Populares Portugueses”, que constitui uma versão nossa do velho conto dos irmãos Grimm do jovem que partiu em busca do medo. “Era um homem rico e tinha um filho que nunca estremeceu com nada. Dava-lhe o signo dele de ir passar muitas terras e nunca seria timorato, nunca teria medo a cousa nenhuma”. Pediu então o filho a seu pai que lhe desse o seu quinhão para poder partir em busca do medo que lhe faltava. E assim aconteceu, enfrentando mil situações aterradoras. Com demónios estoirando dentro de casas, sempre sem o mínimo calafrio. A tradição germânica relatada pelos Grimm é semelhante. “Um pai tinha dois filhos, o mais velho deles era sábio e sensato, e sabia fazer tudo, mas o mais novo era tolo, e não conseguia aprender nem entender o que quer que fosse”. Mas enquanto o mais velho se negava a ir para locais sombrios e assustadores, nada atemorizava o mais novo. Por mais que tentassem, nada havia que lhe metesse medo – até que um pobre sacristão ficou em muito mau estado quando quis assustá-lo como se fora um fantasma, pois o jovem não se deixou perturbar pela suposta ameaça. Então partiu pelo mundo em demanda do medo. Com cinquenta moedas no alforge, enfrentou perigos, até com risco de vida, mas sempre sem o menor temor. José Gomes Ferreira também tratou do tema nas “Aventuras de João sem Medo” (inicialmente publicadas nas páginas da revista “O Senhor Doutor”, em 1933). Aí, cansado de viver numa terra de choros e queixas, a aldeia de Chora-Que-Logo-Bebes, João decidiu saltar o muro que separava o lugarejo do mundo, em busca de enigmas da infância e de entes fantásticos – bichas de sete cabeças, gigantes de cinco-braços, fadas, bruxas, animais que falavam e ainda o mítico Príncipe de Orelhas de Burro… No conto de Adolfo Coelho o medo seria encontrado num cabaz de pombas que «lhe esvoaram para a cara», causando-lhe estremecimento; no relato de Grimm, o jovem tornar-se-ia rei e tudo terminou num epílogo algo ingénuo e pouco épico, com um balde de água fria, lançado por uma aia da rainha, cheio de gobiões, peixinhos moles e peganhentos, com barbatanas perturbadoras. As metáforas merecem ser lembradas. Os tempos muito incertos e cheios de ameaças que vivemos não permitem que facilitemos as coisas. Ainda estamos longe de nos libertarmos destas condições trágicas. Precisamos de encontrar todos os meios possíveis para inverter a tendência e para podermos salvar vidas. A liberdade individual e a proximidade uns dos outros terão de ser recuperadas com solidariedade e esperança. Sendo atuais, urge compreender o medo e a verdadeira audácia, para não nos desprevenirmos nesta pandemia que nos enlouquece… 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 4 a 10 de janeiro de 2021

 

"O Mundo À Minha Procura" de Ruben A. (Assírio e Alvim, 2020) é uma obra-prima da literatura memorialística portuguesa, a merecer uma atenção especial no momento em que o centenário do autor continua a ser celebrado.

 

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O MERECIMENTO INDISCUTÍVEL
Neste ano tão estranho, cheio de medos e motivos tragicómicos, seria suposto termos celebrado com a elevação necessária o centenário de Ruben A.. No caso de Ruben havia a especial razão de se tratar de um autor que merece ser mais e melhor conhecido, apesar de ter sido um audaz cultor da língua e da cultura, como poucos no século que passou. Daí não haver dúvidas sobre que o futuro se encarregará de lhe dar o adequado merecimento. É verdade que tudo sobre a recordação da memória do escritor (reflexões, debates, lembranças) continua a estar previsto para o ano 2021, mas o importante é que fica lembrado – e devendo sobretudo continuar a ser lido. 2021 quase parece um daqueles tempos previstos pelo teatro do absurdo, em que se propõe acertar os relógios, depois de uma suspensão da máquina do tempo, estranhamente desorientada. O certo é que ainda não temos em funcionamento o mítico “Cronoscafo”, previsto nas aventuras de Blake e Mortimer e de algum modo na mente de H. G. Wells, e nada se sabe verdadeiramente sobre o efeito das desventuras do famigerado vírus descontrolado sobre homens e máquinas. Felizmente o tempo não parou e a terra continuou a girar. Por isso, temos na lista dos melhores livros do ano a reedição do genial O Mundo à Minha Procura. Importa dizer que Memórias escritas por quem tinha 46 anos seriam sempre um desafio audacioso. Mas nós, leitores ávidos, só temos a agradecer uma tal decisão extraordinária, uma vez que pudemos contar com uma obra-prima, retrato especial de uma sociedade que evoluía da autarcia para a internacionalização, descrita à luz do percurso multifacetado de um intelectual culto e cosmopolita de mente arejada, com um esmerado gosto. Num só volume, passámos a contar com esta pérola literária (Assírio e Alvim, 2020), que ombreará em linguagem e encenação moderna com as melhores Memórias portuguesas, que Ruben conhecia, aliás, muito bem. E porque conhecia bem, estas são diferentes de quaisquer outras e têm a marca indelével do pós-guerra, com um especial tom anglo-saxónico. “Dos quarenta aos cinquenta, limpa-se a casa. Põem-se as telhas onde faltam, instala-se um novo sistema, e no jardim das delícias, no passeio depois de jantar, nas madrugadas sem Deus ouvimos uma voz que nos buzina que dali para a frente a contagem é outra”. Felizmente, assim pensou Ruben e tal permitiu não termos um repositório de factos e circunstâncias, mas uma procura do tempo. Henry Miller afirmou, assim, que “a Autobiografia é o mais puro romance, porque a ficção está sempre mais próxima da realidade que o facto”. Se dúvidas houvesse, bastaria lermos Ruben A. e propositadamente não faço qualquer comparação com outros autores e outros cultores do género, pois este caso é absolutamente inimitável. “O que me interessa sou eu”. E há o debruçar sobre um poço fundo.

 

COMPREENDER O REALMENTE IMPORTANTE
“Um dia compreendi a importância que teve para mim o Campo Alegre – o sítio, o cheiro, a vista, as árvores. Foi a fragrância quem me recebeu primeiro, facilitando-me no vaivém da ondulação distinguir as plantas e a terra que as recolhe”… E assim o escritor quis-se descobrir, na relação complexa entre o seu próprio lugar e a coexistência com os lugares dos outros, pelas forças e emoções por trás da vida… E assim encontramos um curioso retrato da sociedade portuguesa, onde “há um ciúme indescritível perante a coragem e perante a cultura. Que um dos seus membros se liberte pelo espírito ou pelo seu valor humano é o maior insulto que, eles, atrasados culturais, julgam que se lhes pode fazer. Sentem-se ofendidos, reagem de certo modo com maledicência, uma vez que não tendo nem grandes amores nem grandes ódios oferecem apenas o mesquinho da perseguição, fechando as casas, achando as pessoas uns pesos, ou votando a um ostracismo aqueles três ou quatro – em cada década só há também três ou quatro aves migradoras – bodes expiatórios da purga mental da sociedade, ancorados para toda a vida a um inferno. Esquecem-se da felicidade que irá acolher os eleitos, os que souberam fazer a escolha depois de anos de amadurecida visão, depois de terem estado sós”… Ruben A. pensava nos inúteis, nos cadáveres adiados que procriam, no dinheiro que alimentava o parasitismo, nas flatulências de pequeno efeito, nos ricos que criavam uma moral para si, na sociedade que temia o valor dos que assumem a coragem de procurar ver longe e largo. E ao longo da sua vida, encontrou vezes sem conta esses entraves e bloqueios, nunca tendo renunciado, porém, à independência de pensar pela própria cabeça, de ser inconformista e de ter consciência (desde muito jovem) do contraste entre o mundo absurdo do medo de falhar e a liberdade absoluta, que sentia no Campo Alegre… “Autor libérrimo e libertador” – lhe chamou Eduardo Lourenço. O sentido crítico, em ligação com o rigoroso conhecimento da História mercê de uma simbiose de método entre o rigor e uma rara intuição capaz de entender os grandes movimentos e tendências, permitiu-lhe ser um analista lúcido da realidade portuguesa, não esquecendo a lógica picaresca.

 

PORTUGAL HETEROGÉNEO E INDEFINÍVEL
É um Portugal heterogéneo e indefinível que encontramos nas memórias de Ruben A., situado entre a tradição e a vertigem da modernidade, entre as raízes antigas da família e o fascinante mundo vulgar que a rodeava, ora visto da janela sobranceira de um Daimler familiar, ora considerado na leitura dos clássicos, que se impõe muito gradualmente no aproveitamento irregular do estudante  (Garrett das Viagens na Minha Terra, Júlio Dinis da Morgadinha dos Canaviais e Camilo). “Camilo entendia-me. Depois de Júlio Dinis era ele quem me aproximava de um dia a dia verídico, cheio de suco, romance da vida, razão de ser no jogo de palavras cruzadas…” E se a literatura o entusiasma de um modo prospetivo, usando as potencialidades da língua com um misto de originalidade e de compreensão do carácter vivo e mutante da identidade, a natureza e o património cultural são fatores vivos de valorização humana: “Olho para tudo tendo como pano de fundo a intensidade colorida pela maior realidade de Portugal: o céu. O nosso céu é pessoal, claro, transparentem, grandioso, sonhador de terras longínquas – é um céu aberto”. E a defesa do património histórico: “É uma obrigação moral, nacional. Impõe-se no imediato que as vilas históricas, as cidades mais ricas do passado não sejam avassaladas por estranhos, que sabem deitar abaixo e nada fazer de arte no local da demolição”… E a ilustração desta preocupação a um tempo crítica e alegre projeta-se no genial romance A Torre da Barbela, recentemente reeditado, na expressão de José-Augusto França: um grande romance, dos mais importantes do século XX (Livros do Brasil, 2020). “Ao fim da tarde, antes do crepúsculo cantar as suas loas e sem se descortinar a realidade, apoderava-se da Barbela um sentido incógnito da existência. “Forte como as nacionalidades e rija como a têmpera da lâmina do Xasco, o maior escanhoador da Ribeira Lima, a Torre preparava-se para o banho noctívago na sua vida de séculos. Existissem ou não estrelas, fosse breu ou luar a jorros pelos campos marginais, o mundo abria-se então dividindo o tempo. (…) De noite ressuscitavam e, de companhia, traziam os amores e os ódios de outras eras e de outras sensibilidades. (…) Aquele ressuscitar transfigurava a Torre”. E assim se desenrola uma História portuguesa, através de fantasmas, com glórias e contratempos, mas sem ilusões que pudessem fazer esquecer vontade e a liberdade…    

Guilherme d’Oliveira Martins

CADA ROCA COM SEU FUSO…

 

JOHN LE CARRÉ, O ESPIÃO PERFEITO (1931-2020)


Pode dizer-se que o mestre dos romances de espionagem, se escreveu sobre o “crime quase perfeito”, foi de facto o “Espião Perfeito”. Porquê? Porque perfeito é completo e uma vez que não poderemos entender a Guerra Fria e o seu clima tenso e enigmático sem ler John le Carré, cujo nome de batismo era David John Moore Cornwell. Nasceu em Poole, Inglaterra, em 1931. Frequentou um colégio privado em Sherborne. Mudou-se para  Suíça aos 16 anos, onde se matriculou na Universidade de Berna, para estudar literatura moderna. Foi lá que, no final da década de 1940, foi recrutado para o MI-5 do Inteligent Service britânico por um amigo dos “serviços”, onde esteve de 1950 a 1964. Foi professor de francês e de alemão em Eton, o prestigiadíssimo colégio da elite britânica, numa altura em que começou a trabalhar efetivamente como agente secreto, o que lhe permitiria encontrar matéria de sobra para a sua escrita. Na Universidade de Oxford, para onde foi depois de estar em Berna, espiava possíveis simpatizantes soviéticos. O centro de operações onde trabalhou foi na Cruzon Street na capital britânica. Em 1960, mudou-se para a Alemanha, agindo com estatuto diplomático, o que lhe permitiu estar no fulcro dos acontecimentos da Guerra Fria. Era o tempo em que lhe estavam confiadas complexas tarefas, como fazer interrogatórios, realizar escutas telefónicas e dirigir agentes. Pôde, porém, apreender minuciosamente tudo o que era importante nessa tarefa. Foi então mordido pelo bicho literário, dedicando-se, a partir de 1964 exclusivamente ao romance, após o sucesso de O Espião que Saiu do Frio, saído a lume pela primeira vez em 1963 – “a melhor história de espionagem que jamais lera”, segundo o celebérrimo Graham Greene (seu colega no MI-6). Foi este livro — a sua terceira obra — que o lançou mundialmente. A obra foi aprovada pelos serviços secretos porque era “pura ficção do início ao fim” e, por isso, não representava riscos de segurança. Isto, ao contrário do que pensavam os críticos internos de Greene, que entendiam estar este sempre a pisar o risco quanto aos segredos que conhecia. Ainda assim, foi-lhe exigido que usasse um pseudónimo. Seguir-se-iam outras obras, como: O Alfaiate do Panamá, inspirado em O Nossos Agente em Havana de Graham Greene, Single & SingleO Fiel JardineiroAmigos até ao FimO Canto da Missão e Um Homem Muito Procurado. O agente George Smiley, tornou-se uma personagem célebre, ligando-se intimamente a Le Carré - “baixo e roliço, com óculos pesados e cabelo ralo (...), protótipo do solteirão falhado de meia-idade com um emprego sedentário”, segundo a descrição que dele faz uma velha amiga em Um Crime Quase Perfeito (1962), o segundo romance do escritor, depois de Chamada para a Morte (1961).O “The New York Times” recorda que John le Carré recusou sempre que os seus livros fossem inscritos para prémios literários. No entanto, muitos críticos consideraram que as suas obras são literatura de primeira água. Em Portugal, publicou um total de 25 obras desde 1969, por várias editoras (Edições 70, Europa-América, Presença, D. Quixote etc.)… Muitos dos seus livros foram adaptados para o cinema ou para a televisão: O Espião que saiu do Frio (com Richard Burton, óscar do melhor ator, filme realizado por Martin Ritt em 1965), A Gente de Smiley e A Toupeira, com Alec Guiness no papel de agente Smiley. Em 2016 surpreendeu ao publicar a autobiografia O Túnel de Pombos, onde evoca uma infância difícil: abandonado aos cinco anos pela mãe, com quem se reencontrou aos 21, dominado por um pai autoritário e mau carácter duvidoso, a certa altura preso por fraude. O seu último livro, Agente em Campo, foi publicado em 2019 e mostra Le Carré europeísta convicto e ativo opositor do “Brexit” , a olhar criticamente para a política britânica, bem como para a América de Trump e para a Rússia de Putin. É muito significativo que um autor arguto e inteligente como John Le Carré tenha preservado mesmo depois de 1989 e da queda do muro de Berlim a mesma lucidez sobre o curso de acontecimentos no mundo, em circunstâncias perigosas e incertas. Eis uma leitura essencialíssima, ainda por cima de um grande escritor…

 

Agostinho de Morais

A VIDA DOS LIVROS

de 14 a 20 de dezembro de 2020

“Uma História da Leitura” de Alberto Manguel (Tinta da China, 2020) fala-nos do prazer da leitura e da relação que se estabelece entre leitores e livros, ultrapassando as barreiras do tempo e do espaço e permitindo o que Quevedo designou ‘conversas com os mortos’…

BIBLIOTECA VIRTUOSA
“Uma biblioteca antes de o leitor exercer uma escolha é como o caldo primordial de átomos do qual toda a vida emergiu. Está tudo ao alcance de uma pergunta: cada ideia, cada metáfora, cada história, a identidade de cada leitor individual. As escolhas que faço numa biblioteca, a seleção de livros que mais prezo, denunciam não só a minha visão do Paraíso, mas também a minha identidade. A verdade é que sempre senti que a minha experiência do quotidiano, assim como uma certa compreensão dessa experiência, me chega através das minhas leituras. Em criança aprendi sobre o amor lendo histórias d’As Mil e Uma Noites, sobre a morte com os policiais, sobre o mar com Stevenson, sobre a selva com Kipling, sobre a possibilidade de aventuras extraordinárias com Júlio Verne. A experiência tangível chegou, na maioria dos casos, muito mais tarde, mas quando chegou eu tinha palavras para a nomear”. Alberto Manguel recorda-nos, assim, algo que é familiar para quem gosta de livros e de bibliotecas. As coisas passam-se normalmente desta maneira. Começa-se a amar os livros como objetos. Entusiasmamo-nos com as suas capas, com as suas encadernações, depois chegamos às imagens que os ilustram e à curiosidade de perceber o que significam, nesse sentido os Dicionários e as Enciclopédias ilustradas constituem lugares extraordinários, porque as ilustrações e os sentidos estão por definição próximos, em seguida entusiasmamo-nos pelas capitulares, até às narrativas e ao seu fantástico desenvolvimento. Não por acaso, as capitulares ricamente decoradas enchiam os mais antigos códices e a última edição do livro de Manguel tem na capa uma capitular, um L, como não poderia deixar de ser… A paixão da leitura constitui um processo complexo, como acontece na História da Humanidade, tudo começa pela oralidade, ainda antes de nascermos, quando ouvimos a voz da nossa mãe, primeiro conversando connosco ou entoando uma melodia, depois contando uma história muito simples, sobre o tempo em que os animais falavam, e a pouco e pouco vamos entendendo o mundo através dessa voz, dessas narrativas, desses poemas. Para mim, os livros de ilustrações não foram o princípio, mas depressa entendi a sua extraordinária importância e por ainda hoje me deixo fascinar pelas histórias de quadradinhos. Se comecei a amar os livros como objetos, foi porque nasci rodeado de livros muito sérios, enchendo paredes até ao teto, que fui descobrindo como caixas de surpresas muito ordenadas… Era muito difícil chegar as livros mais altos, mas felizmente o que se designa como obras de referência estão sempre à mão, que o mesmo é dizer nas prateleiras de baixo.


VINTE ANOS DEPOIS
Alberto Manguel regressou a este seu livro vinte anos depois (como o tempo que Alexandre Dumas escolheu para reencontrar os mosqueteiros), e sentimos que a atualidade está plenamente viva. E lembra-nos o tempo em que pôde ser leitor para alguém que estava a perder a visão, como Jorge Luís Borges, e esses diálogos são demonstrações de como a leitura é a descoberta do mundo. Umberto Eco disse, por isso, que podemos viver pelo menos cinco mil anos, lendo, porque esse é o tempo da história da nossa civilização… Essa é a demonstração de como ler é cumprir o que Quevedo afirmou, fazendo da memória algo presente – como algo de sublime. Desde a sabedoria de Salomão até aos contos de Borges, estamos, afinal, a antecipar o encontro com Dante na antecâmara do Paraíso. No fundo, aprender a ler é entrar plenamente no mundo da vida. “A criança que aprende a ler é admitida na memória comum por via dos livros e descobre, assim, um passado partilhado que ele ou ela renova, em maior ou menor grau, a cada leitura». Lembro bem o momento em que minha mãe me ajudou a decifrar as primeiras páginas da “Cartilha Maternal” – e não esqueço os tempos exaltantes em que ajudei os meus filhos e os meus netos na aprendizagem fundamental da leitura. E só um poeta talentoso como João de Deus poderia ter criado um sistema tão atraente, eficaz e duradouro… É certo que todos os métodos são bons desde que os seus resultados sejam positivos, mas ficamos para sempre ligados ao que seguimos. Afonso X, o Sábio, escritor maior da nossa língua, disse um dia: “Bem e lealmente devem os professores mostrar o seu saber aos discípulos, lendo-lhes livros e fazendo-os compreendê-los o melhor que forem capazes…” E acrescentava o carácter insubstituível dessa relação, pessoal e íntima. “Uma História da Leitura” é um percurso multifacetado com mil circunstâncias e exemplos sobre o prazer da leitura. E se digo prazer é porque essa relação tem de ser cultivada. Não escolhi nascer na biblioteca de meu avô, professor de profissão entre outros ofícios. Concedo que tive condições especiais para essa paixão.


Guilherme d’Oliveira Martins

Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença