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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

BIBLIOTECANDO EM TOMAR

  

 

Uma biblioteca é a melhor metáfora do mundo. É um labirinto cujos caminhos se fazem de perguntas e respostas. E há um misterioso fio de Ariadne que nos leva em cada estante, em cada livro, em cada palavra à descoberta dos enigmas que nos permitem vislumbrar os contornos dos sentidos que a humanidade reveste. O meu saudoso amigo António Pinto da França telefonou-me um dia a fazer um desafio para um projeto aliciante, que estava em curso e tinha como epicentro Tomar, com o título quase mágico de “Bibliotecando”. Em duas palavras, falou-me com entusiasmo de professores, alunos e comunidade, que colocavam na relação com os livros a raiz de um diálogo entre as escolas e a vida. Embarquei logo, com gosto, nessa nave que continua a fazer o seu caminho, graças a uma equipa denodada e à reflexão sobre os temas mais atuais e pertinentes. Entretanto, o António partiu, mas nunca esqueci as suas palavras de alegria e a sua lição de vida, tão presentes na sua ação e na sua obra histórica, em que os acontecimentos e a sua compreensão funcionam como um modo de ir ao encontro das culturas enquanto expressão plural da dignidade humana.  Com Agripina Carriço Vieira, António Godinho ou Célio Gonçalo Marques e uma equipa incansável, os anos foram-se sucedendo com os temas e a preocupação de pôr a diversidade, a complexidade e a incerteza no centro das “leituras em diálogo”. No próximo fim-de-semana, terá lugar a 12ª edição do “Bibliotecando em Tomar” e o tema, escolhido, antes que se pudessem adivinhar os desenvolvimentos de uma guerra absurda como a da Ucrânia foi “Presença e Exílio”. E Alberto Manguel lembrou, invocando Dante, como o exílio de Florença constituiu matéria-prima inesgotável para a criação e para a circulação das ideias. A distância aguça o talento, a lembrança dá densidade aos acontecimentos e a memória revela o sentido das existências.


Muitos argumentos podem ser utilizados para demonstrar a importância da leitura e da relação amorosa com os livros, mas nenhum é tão forte como a compreensão da vida pela sua representação e pela narrativa da existência humana. Somos nós que nos encontramos no relato do combate entre Aquiles e Heitor, na rebelião de Antígona, na armadilha de Ulisses ou na viagem de regresso a Ítaca, além da linhagem de Abraão, Isaac e Jacob, da lição de José do Egipto, da libertação de Moisés ou da dúvida de S. Tomé. Aí está a raiz da literatura, projetada no ciclo bretão do rei Artur e dos cavaleiros da Távola Redonda, na “Divina Comédia”, na “Peregrinação”, em “D. Quixote”, mas também em Camões, Shakespeare, Stendhal, Tolstoi, Dostoievski ou Virgínia Woolf ou Thomas Mann… Jorge Luís Borges falou-nos, assim, das “literaturas que honram as línguas dos homens, as filosofias que procurei penetrar, os entardeceres, os ócios, as solitárias orlas da minha cidade, a minha cidade, a minha estranha vida cuja possível justificação está nestas páginas, os sonhos esquecidos e recuperados, o tempo”… O “Bibliotecando em Tomar”, à sombra da história intensa da cidade, faz-nos reviver a justificação das estranhas vidas, dos sonhos, das interrogações e do indefinível tempo. A pandemia, que nos tolheu, revelou a companhia insubstituível dos livros. A guerra, os refugiados, a violência bárbara apelam à importância da leitura, do entrecruzar das culturas e das suas diferenças, que levam a vermo-nos no olhar dos outros. Este ano o “Bibliotecando” homenageia Lídia Jorge e a sua obra, pela riqueza do testemunho e pelo exemplo da relação entre a literatura e o mundo, entre as pessoas concretas e a sua dignidade. Só compreendendo-nos poderemos partilhar a ética da convicção e a ética da responsabilidade. Uma sociedade melhor depende da misteriosa capacidade para dialogarmos com os mortos e com os vivos, em nome do respeito dos vivos, para entender o futuro como fecunda espera.        

GOM 

LEITURA EM VIAGEM

  


Uma viagem não se resume ao tempo em que se realiza. Antegozamo-la nos preparativos, na procura de pistas, na definição dos percursos e até no modo como os poderemos realizar. Depois de partir, e sobretudo porque já definimos o campo de interesse, verificamos que a realidade ultrapassa o que pudemos imaginar. Não se trata de fazer ofício de turista acidental, mas de ir ao encontro de memórias perdidas ou esquecidas, desde as pedras às palavras, dos costumes às reminiscências históricas. A viagem tem sempre um fundamento no instinto nómada que nos acompanha. E é esse prazer de viajar, que nos leva à procura de fragmentos de nós mesmos espalhados pelo mundo. Nada melhor do que ilustrar o que dizemos com um caso prático.


Cidade fantasmagórica, Alcântara, em frente a São Luís do Maranhão, no outro lado da baía de São Marcos, é a recordação de um tempo que já não volta. E como o prazer supremo está em viajar pelo mundo com livros nas mãos e com leituras em dia, eis que Josué Montello nos ajuda na decifração do espírito do lugar: “Na calma da tarde ensolarada, vou andando pelo Largo da Matriz, e não encontro uma única pessoa. Tudo quieto. Não ouço rumor de vida à minha volta. Nem sequer uma revoada de andorinhas estala o seu alarido feliz por cima dos telhados escuros. Se apuro mais o ouvido, interrogando o silêncio que me rodeia, distingo uma rolinha chorando na borda de um beiral. É um choro manso, repetido, que não tem fim” (Noite Sobre Alcântara, Livros do Brasil, 1989). Mas recuemos no tempo. A cidade foi rica e opulenta. Fundada em 1648 foi centro da atividade económica da produção da cana-de-açúcar e do algodão até à abolição da escravatura, no terceiro quartel do século XIX. Trata-se de um conjunto arquitetónico dos séculos XVII e XVIII paradoxalmente preservado, entre ruínas e memórias, pelo abandono dos seus habitantes quando a decadência se tornou inexorável.


O catamaran leva-nos de São Luís até Alcântara. Ao aproximarmo-nos de terra e do velho porto, Danilo, o guia, recorda-nos que aqui houve um povoamento tupinambá, a aldeia de Tapuitapera, fundada por índios tapuias, que os tupis expulsaram. E se a colonização francesa ainda manteve os índios no local, a verdade é que o desenvolvimento agrícola, por um lado, a escravatura negra e um surto terrível de varíola (1663), por outro, afastaram definitivamente os índios da região. Alcântara foi buscar o nome ao lugar de Alcântara em Lisboa, donde provinha António Coelho Carvalho, o donatário da capitania de Cumã. A vila desenvolveu-se porque se tornou um ponto obrigatório nas ligações entre São Luís e Belém do Pará, e porque serviu de base às forças portuguesas que expulsaram os holandeses do Maranhão.


Estamos no Porto do Jacaré. Uns sobem a pé até à povoação pela ladeira, outros preferem seguir no ónibus. Depressa nos encontramos na Rua das Mercês, entre a igreja e a Casa da Câmara. A economia da cidade baseava-se nos engenhos do açúcar, cuja produção uma vez chegada aqui era embarcada para São Luís. Com a fundação da Companhia do Comércio do Maranhão (1682) as fazendas organizaram-se e a cidade tornou-se importante, crescendo significativamente até ao tempo de Sebastião José, quando foi criada a grande Companhia Geral de Comércio do Grão-Pará e Maranhão. Além do açúcar, Alcântara era entreposto de gado, de arroz e de algodão, para o mercado inglês, nos alvores da revolução industrial.


Na Praça da Matriz, as ruínas da Igreja de S. Matias, de 1648 no lugar onde houve uma ermida feita pelo índio Maretin e uma igreja dedicada a S. Bartolomeu. O pelourinho com as armas de Portugal foi reposto na praça. Durante muito tempo, ficou deslocado para a Rua da Bela Vista, velha Rua da Amargura, e não se sabe se a designação vem dos castigos infligidos aos escravos, se do facto de ser daqui que se faziam as últimas despedidas dos que partiam para o Reino. Muitos jovens iam estudar para Coimbra, e em grande parte dos casos ficavam-se mesmo pela Europa… S. Matias está em ruínas, e conta-se mesmo que um novo rico de nome Sousandrade teria mandado demolir parte da torre para poder ter melhor vista do seu sobrado. As fazendas em redor chegaram a ter dez mil escravos no momento alto da produção do algodão, em meados do século XIX. Oitenta e uma fazendas de cereais, vinte e dois engenhos de açúcar, vinte e quatro fazendas de gado e cem salinas, eis os números da glória de Alcântara. Nem as epidemias de varíola e de cólera na passagem dos séculos XVIII e XIX impediram este progresso. Havia quem pensasse que a riqueza da cidade seria eterna. Montello ajuda-nos a reconstituir a vida: “Por estas calçadas compridas, ao pé dos sobrados que rodeiam o largo, retiniram esporas de cavaleiros, tacões de botas de soldados e sapatões ferrados de graves ouvidores. Estas pedras foram pisadas por sinhás donas e sinhazinhas. Nelas também estalou o pleque-pleque das sandálias de seda das negras de cintura fina, peito cheio e bunda redonda, que não se deitavam com brancos, negros e mulatos de outro lugar. E junto ao meio-fio, ainda se descobrem as argolas de ferro onde se amarravam os cavalos arreados de prata”.


Em cada sobrado há uma história para contar: amores contrariados, cumplicidades de escravos e senhores, vitórias e derrotas, tiranias e liberalidades. A pouco e pouco, o sonho foi-se desvanecendo. Acabou a escravatura, as técnicas mudaram, a guerra da Secessão americana teve o seu fim e a concorrência do algodão tornou o progresso insustentável. A independência, o melhor acesso de transportes, tudo levou a que o final do século XIX tenha sido um pesadelo. A cidade começou a ser abandonada e depois foi saqueada. Os antigos senhores foram substituídos pelos filhos e netos dos escravos… Este é o pano de fundo de Noite Sobre Alcântara. Natalino e Maria Olívia acompanham-nos. São os verdadeiros protagonistas nesta cidade cheia de espíritos. A pouco e pouco, a cidade vai desaparecendo, literalmente, e Natalino descobre o que antes não suspeita, mas que vai mudar tudo na sua vida, tem um filho homem de uma mulher casada com outro…


E encontramos os dois palácios inacabados dos barões de Mearim e Pindaré. Porquê? O Imperador D. Pedro II poderia ter sido a salvação da cidade decadente, se na vinda ou na ida de uma viagem aos Estados Unidos pudesse ter parado no Maranhão. Visitaria Alcântara e faria jus à sua glória. “Se vier temos de estar preparados”. O barão de Mearim era o chefe do Partido conservador e o barão de Pindaré o chefe do Partido liberal. Ambos se aprestaram a receber D. Pedro de Alcântara. E as construções começaram, a cem metros uma da outra. Vemo-las ainda hoje. São ruínas, são casas imperfeitas e inacabadas. “E se não vier?” – perguntava-se na cidade. “Ficamos de consciência tranquila: cumprimos o nosso dever”. A história, quase caricata, é a ilustração da decadência. E o Imperador não foi e as ruínas das “suas” casas ficaram por lá até hoje são motivo de visita e de ironia.


Na rua Grande, junto aos dois palácios inacabados, voltámos a tomar o ónibus improvisado. E olhámos o longe da Baía de São Marcos, o Maranhão das águas. Descemos a ladeira do Jacaré, lembrando o último diálogo de Natalino e de Maria Olívia. “- Vamos juntos para São Luís?”. “- Não, Natalino. Já lhe disse que fico. Alguns têm de ficar. Vim para lhe dizer adeus”… Alguns têm de ficar!


Guilherme d’Oliveira Martins

A VIDA DOS LIVROS

  

De 2 a 8 de maio de 2022.

 

“Tia Suzana, Meu Amor” de António Alçada Baptista (Presença, 1989) mostra-nos como o mundo e a vida se caracterizam e desenvolvem através dos sentimentos e dos afetos e que a compreensão do sentido obriga-nos a entender o mistério do amor.


AMOR, SERENIDADE E PAZ
René Dubos disse um dia que "as descobertas que condicionarão o futuro não hão de vir do conhecimento do que se passa na célula, na bioquímica, na ciência ou na técnica, mas daquilo que nos ajude a compreender os mecanismos centrais que condicionam a afetividade". O amor, a serenidade e a paz têm de ser cultivados. Mas como integrar tudo isso nas nossas relações para que "a violência, a astúcia e a agressividade não sejam moeda de troca das relações humanas"? O valor dos afetos permite a passagem lenta e segura da natureza à cultura… E no entanto, perante o cenário de guerra, de incerteza e de violência, que nos rodeia, somos levados a descrer. Eis, por que razão Edgar Morin apela, do alto de um século de vida, para que acordemos da terrível letargia que corrompe o mundo e a vida. "Repara que o Evangelho não nos manda amar a humanidade, mas o próximo. E isto porque a humanidade é uma abstração" - disse Lanza del Vasto, um dia, a António Alçada Batista. E o certo é que de tanto se falar de crise, quase nos esquecemos do que devemos fazer para compreender quem está connosco e da necessidade de combater a indiferença. Mais importante do que os tratados de edificação moral é a vida prática e os exemplos colhidos nela, o saber de experiências feito. O anti-herói Fernão Mendes Pinto e as suas mil peripécias, voluntárias e involuntárias revelam muito melhor o inesperado sentido da vida do que a tentação de nos levarmos demasiado a sério. O Quincas Berro d'Água de Jorge Amado, apesar de parecer aos nossos olhos de europeus um caso de compaixão, desperta-nos para a esperança e para o gosto de viver. E a poesia de Alexandre O'Neill dá-nos o outro lado da realidade, com ironia e non sense, em nome da busca muito séria de sentido - "é tempo de unir o mesmo gesto/ o real e o sonho…/É tempo de acordar nas trevas do real/ na desolada promessa/ do dia verdadeiro".


LEMBRAR UM MUNDO DE AVENTURAS
António Alçada Baptista recordava, tantas vezes, a lembrança das aventuras de Sandokan ou de Texas Jack, porque é bom que tenhamos a cabeça povoada de imaginárias aventuras, as mesmas que nos levam a compreender e a amar intensamente as pessoas. Por isso, costumava dizer: "tenho a certeza que Kierkegaard não teria escrito “O Desespero Humano” se tivesse nascido na Bahia, nem o Jorge Amado o Quincas Berro d'Água se fosse dinamarquês". E Eduardo Lourenço diz que "é para trazer à luz, mostrar aos outros, e a si mesmo, o que ainda não era visível, palpável, audível, que a obra nasce" (“O Tempo e o Modo”, n.º6, Junho 1963). Eis a chave da cultura como criação e da compreensão dos sinais dos tempos, em nome do respeito da dignidade humana. Devemos remar contra a maré. Esse o sentido da obrigação de compreender e conhecer o mundo e a vida. Segundo um cuidado saber náutico, António Alçada sempre achou que se todos se juntam a bombordo ou a estibordo, a embarcação naufraga. É sempre indispensável que alguém fique do outro lado, mesmo que as incompreensões continuem. Assim como assim… Por isso, tantas vezes foi incompreendido. E a verdade é que só deixaremos de ser sonâmbulos (na expressão de Broch) se nos dispusermos a fazer da liberdade e do bem comum os indicadores estáveis das nossas bússolas. Assim, o autor da “Peregrinação Interior”, em vez dos banquetes de sabedoria pura, contrapunha o diálogo dos afetos, com elevação e inteligência, seguindo a lição de Denis de Rougemont. Afinal, é de sabedoria que se trata. Por isso, invocava Borges: "Creo que un dia mereceremos que no haya gobiernos". E insistia: precisamos de o merecer. E oiçamos a romanesca tia Suzana: "Julgo que o mais importante são as palavras. Quando se vive a solidão, sabe-se que, por causa duma palavra verdadeira, caem muitas vezes as muralhas que levantámos à volta das nossas almas. Uma palavra verdadeira pode ser um milagre: é a solidão derrotada". Apesar das suas depressões cíclicas, a verdade é que foi sempre a busca das palavras (e das pessoas que as proferem e que buscam nelas sentido) que ocupou António Alçada, para nos levar à compreensão do tempo e do mundo. Como nos disse, temos de ter o cuidado de compreender que “a verdadeira relação com Deus – como Deus é um ser superior, e os que se dedicam a isso, seres superiores”, não pode limitar-se às ideias, aos silogismos, às lógicas, às abstrações, porque uma teologia abstrata é uma idolatria.


COMPREENDER A CULTURA
Compreender a cultura? Mas não é a cultura a capacidade de melhor entender a humanidade? Eis que temos de ser claros! Edgar Morin volta a apontar-nos o caminho: «Só podemos pensar o futuro, se estivermos conscientes do passado e do que se passa no presente. (…) E hoje o futuro depende dessas grandes correntes que atravessam a Humanidade e que são ameaçadoras e regressivas. Portanto, é urgente pensar o futuro. (…) É preciso estar vigilante. É preciso esperar o inesperado   para saber navegar na incerteza. Há toda uma série de reformas e modos de pensar e de se comportar, que são hoje necessários». Uma celebração, qualquer que seja, centrada apenas no passado torna-se vazia e inútil. Compreender a cultura é procurar perceber o tempo e o futuro, mas sobretudo entender que, longe das idolatrias, devemos cuidar da dignidade do ser.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

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   De 25 de abril a 1 de maio de 2022

 

“Padre António Vieira – a arquitetónica do Quinto Império e a carta Esperanças de Portugal - 1659” da autoria de Miguel Real é um pequeno ensaio pleno de interesse, que revela uma faceta menos conhecida do grande orador sagrado.

 

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UMA PRESENÇA INESPERADA

Regressei há dias aos Países Baixos, numa visita familiar, adiada há mais de dois anos pela pandemia. Apesar das previsões meteorológicas anunciarem mau tempo e a proximidade de uma frente polar, houve boas condições, que permitiram um belo regresso. E aproveitei para seguir as pisadas do Padre António Vieira nas célebres viagens diplomáticas, em representação do rei D. João IV. E deparei-me com a presença inesperada de Menasseh ben Israel (1604-1657) nesta peregrinação, ao encontro dos judeus portugueses.  Em 20 de abril de 1646, Vieira chegou a Haia, vindo de Rouen, com duas missões: discutir o futuro de Pernambuco, na posse dos holandeses, e contactar os sefarditas portugueses sobre a possibilidade de regressarem a Portugal num momento decisivo em que os meios financeiros faltavam, com o Tesouro exaurido por sessenta anos de monarquia dual com a Espanha. O jesuíta conhecia bem o estado de espírito dos judeus portugueses – tinham uma boa lembrança da pátria antiga, mas desejavam, no essencial, liberdade de consciência e garantias de segurança, que a Inquisição não dava. Sem provas documentais, sabemos que o Padre Vieira se encontrou com Menasseh ben Israel, cuja pessoa admirava, partilhando muitas das suas convicções. Tal como pensavam os conselheiros económicos do rei, defensores do que designamos como política de fixação, que obrigava a investimentos mercantilistas, era indispensável atrair capitais e mobilizar iniciativas para reconstruir uma economia empobrecida. O facto de os capitais ligados ao comércio das Índias Orientais e Ocidentais estarem nas mãos de judeus e cristãos-novos constituía um motivo para que a diligência defendida pelo diplomata jesuíta representasse uma oportunidade que teria de ser aproveitada. Daí a importância do diálogo com a comunidade judaica com a preciosa ajuda de um líder religioso e civil de indiscutível prestígio.

 

MENASSEH BEN ISRAEL

Explique-se que Menasseh ben Israel nasceu na Madeira, filho de Gaspar Rodrigues Nunes, sendo-lhe dado o nome de Manuel Dias Soeiro. O pai, acusado de práticas judaizantes, teve de partir para a Holanda em 1613 e tomou o nome de Joseph ben Israel, dando a seus filhos os nomes de Ephraim e de Menasseh. Em 1622, encontramos Menasseh como pregador da comunidade, no ano seguinte casado com Raquel Abarbanel, de uma família importante. Em 1626, funda a primeira tipografia de caracteres hebraicos, onde publica obras em hebraico, latim, espanhol e português. Corresponde-se com Rembrandt van Rijn (que o retrata) e com Hugo Grócio, sendo figura muito respeitada. Semuel ben Israel Soeiro, o filho, prosseguirá a intensa atividade editorial paterna. Em 1651, Menasseh tentará estabelecer pontes com as ilhas britânicas, mantendo contactos com Cromwell, num primeiro momento com resistências, apesar de uma predisposição positiva por parte da fugaz República britânica. Em 1656 é inaugurada a Sinagoga de King Street e é decidida a construção do hospital de Mile Ende, iniciando-se um grande crescimento da comunidade judaica, sobretudo a partir do reinado de Carlos II, marido de D. Catarina de Bragança. Menasseh está em Londres entre 1655 e 1657, regressando aos Países Baixos em 1657. Morre em Midleburgo em novembro e está sepultado no cemitério judeu de Beit Haym, que conheço bem, e que fica em Ouderkerk no Amstel, nos arredores de Amesterdão. Diga-se que o rabino Menasseh ben Israel não estava em Amesterdão quando Saul Levi Morteira assinou a condenação de Bento Espinosa, e diz a tradição que se Israel tivesse intervindo tal decisão não teria sido tomada.

 

UM DIPLOMATA ESPECIAL

O Padre António Vieira ficaria nos Países Baixos durante três meses, voltando a Haia a 17 de dezembro de 1647. A missão de Vieira era complexa, desde o casamento de D. Teodósio, filho de D. João IV, alvo de uma grande pressão diplomática da parte de Mazarino, no sentido de reforço da influência francesa, até ao destino de Pernambuco, mas sobretudo na tentativa de mobilizar recursos para a reconstrução do País – abrindo as portas do comércio marítimo com os territórios africanos e americano aos judeus portugueses da Holanda. Se é certo que os resultados práticos não foram efetivos, é fundamental o que António José Saraiva descobriu, na sua estada holandesa. Não foi apenas o dinheiro dos judeus que interessou António Vieira, mas a aproximação das teses judaicas. Assim considerou os judeus, a “gente da nação”, um povo laborioso, enriquecedor das comunidades em que se inseriu, em nada podendo perverter os costumes tradicionais da Igreja Católica. E como está bastamente demonstrado na reflexão e na oratória, se o capital mercantil dos judeus lhe importou, com resultados práticos, houve igualmente uma preocupação de justificar a aproximação às ideias positivas que poderiam colher-se no pensamento judaico. Daí o sucesso na negociação dos empréstimos para a coroa portuguesa com Duarte Silva, cristão-novo de Lisboa, que abriu caminho aos créditos obtidos em Haia e Amesterdão. E a proposta de solução económica para o reino, enviada a D. João IV em 1643, consagra a necessidade de convergência entre judeus e cristãos, “que esperarão juntos e harmonizados o fim dos tempos sob um mesmo Império temporal e um só Império espiritual de Cristo”. Estamos perante a revelação lenta e gradual do pensamento profético do Padre António Vieira no sentido que virá ser defendido na “Chave dos Profetas”. E é com Menasseh ben Israel, em Amesterdão, que o jesuíta encontrará os fundamentos da complexa ideia de “Quinto Império do Mundo”, baseada no livro de Daniel. Como diz Miguel Real, “o sentido que o Padre Vieira encontrara em Amesterdão fora o sentido total da história e do mundo concentrado num único ano, 1666, e numa única teoria englobalizadora, o Quinto Império do Mundo ou o Reino de Cristo Consumado” (in “Padre António Vieira – a arquitetónica do Quinto Império e a carta Esperanças de Portugal - 1659” – “Revista Lusófona de Ciência das Religiões”, 2008). E, de modo pioneiro, António José Saraiva, em 1972, nos “Studia Rosenthaliana” destacou as semelhanças entre o espírito profético de M. ben Israel e do Padre Vieira, que Hernâni Cidade enfatiza em “Vieira à Luz de um Recente Estudo de António José Saraiva”, in “Colóquio-Letras”, F.C. Gulbenkian, março de 1973. Saraiva salienta o facto de em 1644, nos planaltos da Colômbia, ter sido descoberta uma das tribos desaparecidas de Israel, de Ruben, segundo o pensamento profético judaico, referido por Bandarra; bem como o facto de Vieira ter concluído que a doutrina cristã, de índole eminentemente espiritual, não excluir a doutrina judaica sobre um Messias de ordem eminentemente temporal. De facto, é no regresso de Amesterdão que Vieira inicia a escrita, nunca acabada, da “História do Futuro” (1649), e em 1659 a carta “Esperanças de Portugal, Quinto Império do Mundo”, pela qual será processado pela Inquisição (a partir de 1663), explicitará a síntese obtida, segundo a qual o “Quinto Império localizar-se-ia na Terra, na totalidade geográfica da Terra, e não no Céu”, mercê da convergência de vontades de um Imperador espiritual e de um Imperador temporal, no sentido da criação de um estado de justiça e santidade, de paz universal e de sobriedade. Amesterdão lembra tudo isso.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 10 a 16 de janeiro de 2022

 

“Literatura e Cidadania” será o curso que o Centro Nacional de Cultura organizará a partir de fevereiro. Apresentamos hoje a respetiva introdução para conhecimento dos interessados.

 

literatura e cidadania.jpgIlustração de Fernando Bento para o “Boletim Cultural das Bibliotecas Itinerantes da Fundação Gulbenkian”

 

CINCO TEMAS

A série “Literatura e Cidadania” refere-se à língua portuguesa, sendo organizada em cinco sessões do seguinte modo. “As raízes e as origens – dos Trovadores ao Cancioneiro Geral” começa por analisar o modo como a literatura constituiu um importante esteio para a afirmação da identidade cultural, sendo decisivo o papel desempenhado pelo rei D. Dinis, como poeta na tradição de seu avô o rei Afonso X, o Sábio, de Leão e Castela. O tema de “Os Contos Tradicionais – de Bernardim à Peregrinação” pretende entender o “melting pot” social e cultural projetado na criação literária, desde os Nobiliários, das Crónicas e das tradições narrativas locais até à reflexão de ideias e às experiências romanescas, que articulam o lirismo e a história trágico-marítima evidenciados nas origens da literatura ou na dramaturgia de Gil Vicente, em ligação com a originalidade dos relatos de viagem, onde Fernão Mendes Pinto se singulariza. Já em “A Literatura e a Oratória – de Camões a Vieira” vamos encontrar a maturidade da língua portuguesa, primeiro na poesia com o genial épico e depois na prosa, através da oratória vieirina, que em muito supera os temas religiosos, traduzindo-se na afirmação de um pensamento ético e cívico, bem evidente ao longo da riquíssima produção literária. O quarto capítulo refere-se à evolução “Das Luzes ao Romantismo: Garrett, Herculano e a Geração de 70 – plantadores de Modernidade”, pretendendo uma análise ampla da idade romântica, na linha analítica de José-Augusto França, desde o século de D. João V e do consulado de Sebastião José, abrangendo a passagem de testemunho de D. Luís da Cunha e a preparação e afirmação do constitucionalismo liberal e do espírito regenerador – numa Europa profundamente influenciada pela necessidade de uma síntese entre idealismo e realismo, entre tradição e modernidade. Assim, além de Garrett e Herculano, Camilo, Júlio Dinis, Eça de Queiroz e Antero de Quental serão as referências marcantes de uma Literatura claramente orientada para uma cidadania crítica e ativa. O quinto capítulo intitulado “A ‘Renascença Portuguesa’ raiz da modernidade – ‘Orpheu’ sinal de futuro” reportar-se-á à génese e desenvolvimento do século XX, marcado por tons claros e escuros, nos quais o período ditatorial deixa na penumbra a cultura, que renasce em 1974, graças à democracia  e à prevalência do pluralismo, que foi favorecendo uma síntese muito rica, num mundo global em que a língua portuguesa, falada nos vários continentes, mas profundamente diversa, se enriqueceu mutuamente em diálogo com outras culturas. A presença fulgurante de Fernando Pessoa e a atribuição do prémio Nobel a José Saramago culminaram a afirmação de um conjunto rico de escritores da língua portuguesa, que demonstraram significativa criatividade.

 

UMA IDENTIDADE ABERTA E PLURAL

A decisão de adotar o galaico-português como língua oficial para os tabeliães e o Direito constituiu um impulso decisivo para a independência do Reino de Portugal. Pode mesmo dizer-se que a cultura se associou à definição pioneira das fronteiras em Alcanizes (1297) e à definição centralizadora do poder real em aliança com o poder municipal. A afirmação da literatura faz-se depois pela originalidade e força criadora de um Fernão Lopes, e pela articulação entre a forte tradição lírica e a necessidade de a projetar nos contos tradicionais, com ligações europeias, no contexto do fundo céltico e do ciclo bretão sob a influência do rei Artur, de Amadis de Gaula ou do Palmeirim de Inglaterra. Encontramos a procura de uma absoluta originalidade que se afirmará na “Peregrinação” em complemento da renovação apresentada por Cervantes. Entretanto, a lírica e a épica de Camões representam, com solidez, a maturidade de uma identidade cultural aberta, capaz de articular o maravilhoso cristão e o maravilhoso pagão, com reencontro das raízes clássicas gregas e latinas, em especial através da influência de Virgílio. Complementarmente, o Padre António Vieira supera significativamente uma lógica providencialista ou messiânica (diríamos sebastianista), concebendo a História do Futuro como uma artificiosa relação entre vontade e vocação universalista do humanismo enquanto cultura de convergência e de paz, como se vê numa leitura atenta da “Clavis Prophetarum”. A Monarquia dual ibérica e a Corte na Aldeia (1580-1640) suscitam uma literatura de resistência a que sucede um tempo marcado pelas riquezas vindas da exploração do ouro brasileiro, depois das tentativas sem sucesso de atrair os cristãos-novos emigrados através da ação de Vieira.

 

PERSPETIVAS DE MUDANÇA

O século XVIII português abriu perspetivas de mudança, que as guerras peninsulares interromperam ou perturbaram até à independência do Brasil. No entanto, a criatividade literária desenvolveu-se pelo reconhecimento progressivo das liberdades públicas – desde a Arcádia, envolvendo a Marquesa de Alorna ou Bocage, na importante transição do classicismo para o romantismo, abrindo-se novos caminhos, que culminaram, depois da Revolução constitucionalista liberal (1820), na emigração política e na guerra civil que irão marcar o Romantismo, como realidade complexa, de múltiplas influências e resultados. É o tempo em que Garrett e Herculano marcam um percurso de cidadania e de modernidade, assente na determinação e na vontade, para pôr Portugal ao ritmo da Europa, sem esquecer as suas raízes culturais e históricas. A conferência de Antero de Quental sobre “As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares” no Casino Lisbonense constitui um marco essencial no anúncio das novas tendências que o século XX concretizará. A “Renascença Portuguesa”, após a implantação da República, albergará no seu seio Teixeira de Pascoaes, Fernando Pessoa e António Sérgio – o saudosismo, “Orpheu” e a “Seara Nova”. O código genético do século XX cultural português definir-se-á através de uma matriz plural. A língua portuguesa, com uma afirmação global no mundo, abrangerá, assim, uma ampla diversidade cultural, cuja riqueza é tanto maior quanto melhor pudermos compreender essa complexidade. De José Régio a Sophia, de Cardoso Pires a Saramago e António Lobo Antunes, de Jorge Amado a Mia Couto, de Guimarães Rosa a Pepetela e Germano Almeida as diferenças marcam as complementaridades…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

FOTÓGRAFO DE PALAVRAS…

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Ao percorrer as fotografias de Manoel de Oliveira, que vieram de Serralves até à Gulbenkian, lembrei-me de João Bénard da Costa, sempre saudoso amigo, e tive desejo de o reencontrar ali para podermos lentamente, perante cada uma daquelas imagens discorrer livremente sobre os mistérios da criação e da arte. Por momentos, ele ficou ali, em espírito, bem presente. E tive a boa ilusão de que se nos juntava o cineasta e fotógrafo. E recordámos “Douro, Faina Fluvial”, vinte minutos geniais, de 1931, com fotografia de António Mendes, que se torna obrigatório ver e rever. Luigi Pirandello, que assistiu à estreia, a convite de António Ferro, não teve dúvidas em reconhecer logo, contra alguns espectadores distraídos, a genialidade do autor e das imagens.

 

A imaginação flui, ao assistirmos à meticulosa colocação das fotografias nos seus sítios. Sentimos um verdadeiro prazer no encontro da poesia de cada uma daquelas imagens – como as da jovem noiva do artista, Maria Isabel, a olhar a câmara ou junto da serenidade das águas. E vem à mente a frase que Agustina e Oliveira fizeram dizer a Francisca-Fanny Owen: “a alma é um vício”. João Bénard logo acrescentava que o cinema também o é, do mesmo modo que a fotografia. Na criteriosa escolha desta mostra, isso vê-se muito bem. Ruy Belo, no poema que escreveu a propósito da morte de Marilyn Monroe, demonstrou o sentido e alcance poético da ligação entre alma e vício, no sentido em que o belo é tão difícil de captar que obriga a procurar entender o que está para além do que se vê ou do que parece perceber-se.

 

Passo a passo, vemos na escolha de António Preto, a partir de um acervo de milhares de fotografias, que é mesmo esse vício de alma que encontramos na aparente normalidade das imagens – família, férias, filmagens, ideias em estado puro. A casa refletida no farol do automóvel alimenta o sonho. E, não por acaso, anuncia-se para breve na Casa do Cinema Manoel de Oliveira uma mostra sobre as relações artísticas do cineasta com Agustina Bessa-Luís. São a literatura e a imagem, a memória e a vida, a arte e a técnica que se encontram. E Manoel de Oliveira é uma figura de fascínio, que cultivou pela imagem a busca do fundo do espírito e da alma. Neste período fecundo do inesperado fotógrafo estão os catorze anos em que esteve sem filmar, desde “Aniki-Bobó”(1942) até “O Pintor e a Cidade” (1956). E as imagens fixam o que ficou por realizar, como o documentário sobre o Aero Club do Porto ou “O Saltimbanco”. Quantos espíritos por aqui circulam, quantos caminhos diferentes se abrem…

 

Em 1952, o artista é chamado a fazer a fotografia de uma jovem que acaba de morrer. Daqui sairá o argumento, que leva ao filme “O Estranho Caso de Angélica” (2010), que marca o registo onírico que o cineasta gostava de cultivar. Imanência a reclamar a transcendência. Isaac, fotógrafo sefardita, que está numa modesta pensão de Peso da Régua para testemunhar em imagens a faina agrícola da vinha no Douro, é chamado inesperadamente, numa noite que se revelaria funesta, a fazer o retrato da jovem de uma família influente. O tema ilustra a metáfora que liga a fotografia, o cinema, a alma, a morte e a vida, evidentes no fugaz sorriso de Angélica, a belíssima jovem, que consumirá Isaac. A descoberta de Manoel de Oliveira fotógrafo, nesta extraordinária reunião de imagens, continuará a constituir uma surpresa, mesmo para quantos já conheciam esta faceta do seu talento. É um reencontro mágico, a que não podemos ficar indiferentes, que abre novos caminhos e que, encantatório, permitirá continuar a ver com olhos de ver o modo como um homem da imagem nos permite entender melhor a vida das palavras.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

CRÓNICA DA CULTURA


Lídia Jorge. A compreensão reside na continuada interpretação. 


Acedo à amizade que partilho com Lídia numa substancial eternidade do dito e do que fica por dizer, quando sabemos de cor como disseminamos silêncios viventes, troianos, pontuais, numa arte de hermenêutica de ilimitada abordagem.


Em 1981 quando li O Dia dos Prodígios percecionei o quanto a Lídia poderia fazer dos livros sobre os livros; o quanto esta magnifica escritora poderia vir a ser considerada como aquela que age nas palavras num todo significante raramente encontrado.


E aguardei.


Aguardei para ler outro e outro livro da Lídia Jorge, num contexto de paz entre o significado e a compreensão. Numa circunstância de corpo-receção, de ouvido cumulativo à mão cheia de mundo, pois que a obra não era, nem nunca fora, nem é efémera ou vulgar.


Sim Lídia, hoje entendo a promessa que fazemos à felicidade e a outros núcleos de histórias íntimas, e tudo de tal forma força que, de facto, só é menor a violência exterior das mulheres na forma de exercer o poder, tal como afirmas na entrevista de maio deste ano à revista Ler. Todavia, atamos realmente as relações de um jeito muito perverso, remetendo, quantas vezes, para o lado masculino, o vencer a todo o preço.


Querida Lídia, eu também digo muitas vezes o quanto somos muito próximos nos comportamentos de outros que julgamos não assumir e o quanto somos muito distantes daqueles que não vendem a alma por um punhado de palavras.


Acresce mesmo dizer, e a propósito da minha leitura do teu livro A Noite das Mulheres Cantoras, que me falta a tolerância à ganga ética dos tristes que de si se enamoram e cegam, numa mão cheia de incongruências.


Afinal como não sabermos andar cinco centímetros acima do chão?


Acima do chão para amar, suspender, espantar, seduzir, ouvir, rever, herdar, inovar, pintar, recusar, numa experiência pessoal que é processo de mosaico?


A Ilíada e a Odisseia têm-me acompanhado toda a vida. Fausto é para mim uma questão de fúria e até Nadime Gordimer me prova o quanto é cerco a história de cada um dos seus livros. Contudo, queridíssima Amiga Lídia Jorge, bem sei que sabes que a filologia é um somatório de amor e logos, mas sem amálgama alguma, é sim, a escultura da palavra, a figuração explicativa de significados que de modo tão exclusivo sabes concretizar.


Maestrina ao longo da tua obra exprimes o sentido fonte como um espelho que olha para outro espelho, trocando luz. Assim O Cais das Merendas; assim e numa variedade responsiva o Combateremos a Sombra, livro de encontro e colisão entre a consciência e a forma significante, livro só teu enquanto escritora.


Deixa que diga ainda o quanto O Belo Adormecido englobando os contos do desejo, ou de um desejo, tem a morosidade bastante à revelação da natureza do ser enquanto pessoas afinadas ou não pela música que nos possui. Ingrediente da própria intriga do ser? Não o interpretei assim, mas antes um ser sobre as nossas paixões, nunca demasiadamente enigmáticas, e, no entanto, plenas de concatenações de antenas estritamente privadas e que, por vezes, até escapam ao nosso entendimento.


Diria que aqui e além o teu romance, O Grande Gatão é uma história tão plena das aventuras pelas noites de luar quanto o é, de muitas formas, o empenho da mulher insubmissa que reside pelo livro A Maçon.


Registei e registo que nos Invernos em que se digladiou para a libertação, uma mulher, face a um marido que a queria na dimensão do bico do seu lápis, vem a ter ela personagem no teu livro O Marido e Outros Contos. 


Toda esta escrita, tua escrita, querida Lídia é de uma extraordinária limpidez e inquietação seminal.


Repetirei que tem a escrita de Lídia Jorge o privilégio de exigir a sua leitura de lápis na mão, e o privilégio de gerar réplica no leitor. Fazê-lo pensar também como a mãe das Musas.


No meu interpretar, a obra de Lídia Jorge é uma experiência que modifica a consciência.


É amiúde uma escrita inesperada e no campo estético, poderosa, possuidora de voz, humor, desígnios, aflições, consolos e tão aguarela de Cézanne que a paisagem das nossas perceções tem a frescura das tempestades após a calmaria.


A maturidade desta escrita implica que a compreensão resida na continuada interpretação, e nos alerte sempre que afinal o regresso a casa, só é regresso a uma casa como a vida.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs. Reposição de texto publicado em 2011.

ALMUDENA GRANDES


Uma das grandes escritoras do nosso tempo que às gentes caminhantes aconteceu.


Malena es un nombre de tango,
livro perturbador, corajoso que dá forma ao tempo do conhecer e do dar a conhecer, na busca de uma perfeição inalcançável.

Os Doentes do doutor Garcia, até nós pela mão da Porto Editora em 2020 entre outros.

As tuas palavras, as poucas que de ti conheci, senti-as como um convite à casa onde as coisas também estão como casa do morar.

Obrigada!

 

Teresa Bracinha Vieira

RAMON LLULL

Ramon Llull.jpg

 

Calcula-se que Ramon Llull tenha nascido nos finais de 1232 em Maiorca.

Recorda-nos Umberto Eco que no local de nascimento de Ramon, se vivia, na altura, uma encruzilhada das três culturas, a judaica, a islâmica e a cristã, o que muito determinou a formação de Llull, bem como o facto das suas iniciais obras terem sido escritas em catalão e árabe.

Crê-se que Llull conheceu a Zairja numa das suas viagens à cultura árabe e por ela desenvolveu a chamada Grande Arte.

A Zairja era um dispositivo dos árabes medievais que combinava as vinte e oito letras do alfabeto árabe para designar vinte e oito categorias filosóficas, respetivamente, e ao combinar valores numéricos com as letras criavam-se associações de pensamento que se podiam desenvolver. Aliás, diz-se, que, por conhecer e bem interpretar a Zairja, Llull criou um templo espiritual de paisagens intelectuais só interpretadas pela chamada Grande Arte que acima citamos.

Llull é considerado um fascinante escritor, filósofo e poeta acutilante já considerado como um dos mais importantes da Idade Média da língua catalã.

No campo espiritual, como missionário e teólogo viaja para conhecer papas, príncipes e reis a fim de obter ajudas aos seus projetos de cruzadas de missionário.

Seguindo para o norte de Africa aos 82 anos, foi apedrejado em Tunes tendo vindo a morrer cerca de um ano depois em Maiorca para onde o transportaram os seus amigos genoveses.

O Livro do Amigo e do Amado surge-nos numa temática de fervor sentimental entre a pessoa humana (o amigo) e a essência do divino (o amado).

De quando em vez volto a este livro das edições Cotovia de 1990 e dele hoje estes parágrafos:

1. Perguntou o amigo ao seu amado se havia nele alguma coisa por amar, e o amado respondeu que aquilo que poderia multiplicar o amor do amigo era amar.

176. Diz-me, doido: Tens dinheiro? Respondeu: Tenho o Amado. – Tens casas, castelos, cidades, condados ou ducados? Respondeu: - Tenho amores, pensamentos, prantos, desejos, penas e dores, que são melhores do que os reinos e os impérios.

188. Perguntaram ao amigo se era possível que o seu amado o desenamorasse. Respondeu que não, enquanto a memória se lembrasse dele e o entendimento entendesse as nobrezas do seu amado.

350. Teologia e Filosofia, Medicina e Direito encontraram o amigo que lhes perguntou se tinham visto o seu amado. A Teologia chorava, a Filosofia duvidava, a Medicina e o Direito alegravam-se. E a questão é:o que significa cada um dos quatro significados para o amigo que procurava o seu amado.

 

Também lemos a conceção segundo a qual, o amor neste livro, constitui uma fusão entre o amor humano e o amor divino transformando Deus em amante e em amado, como afirma Henry Corbin no Prólogo da obra Le Jasmin des Fidèles d’Amour de Rūzbehān Baqlī Shīrāzī (1128-1209), o grande representante do Sofismo iraniano. Obra esta para a qual nos remeteram e à qual ainda se não acedeu.

Certo é que para iniciarmos o entendimento do fenómeno místico em Ramon Llull, é fundamental compreendermos a importância da “comunicação” entre as culturas do diálogo inter-religioso, sobretudo entre o Cristianismo e o Islão.

Enfim, por pouco conhecermos esta temática de procura sem fim, e por mais atrevimento termos em abordá-la, aqui ficam mil modestas centelhas na procura de infinitos amigos e amados, porque não antecâmara ao contributo do entendimento da fala nas casas do mundo.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

ABDULRAZAK GURNAH, PRÉMIO NOBEL DE LITERATURA 2021

A temática dos refugiados é a base do seu trabalho

 

Segundo a Academia, o prémio foi concedido "por sua penetração intransigente e compassiva dos efeitos do colonialismo e do destino do refugiado no abismo entre culturas e continentes."

  

Deste escritor tanzaniano ainda só li este livro By the sea.

Ficou-me sonoro na alma o que se possa entender por um requerente de asilo. Por um requerente de paraíso que há-de encher até fazer transbordar o saco que desde Zanzibar leva às costas e no qual também transporta um pouco de incenso: sua posse mais preciosa.

Depois uma história de amor e traição, de sedução e de desvendamento, de luz e névoa, angústia e medo e nunca, nunca a rota da trégua no caminho do refugiar.

Bem-haja quem denuncia estrada tão amarga, tão poço junto à boca: tão no ventre dos nossos dias.

 

Teresa Bracinha Vieira