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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

De 1 a 7 de julho de 2019

 

Quando Fernando Namora (1919-1989), cujo centenário do nascimento ocorreu no dia 15 de abril, publicou «Retalhos da Vida de Um Médico» (1949) não se esperava um tão grande sucesso de um jovem autor, que ficou a dever-se essencialmente à escrita acessível, ao humanismo e ao retrato fiel do país profundo com que os leitores se identificaram.

 

 

A AUTONOMIA DE PENSAMENTO
Pode dizer-se que Fernando Namora assumiu, ao longo da sua vida, uma atitude baseada na autonomia de pensamento e na liberdade pessoal, tornando-se dificilmente classificável, ainda que com aproximações a uma visão realista do mundo. Há uma forte componente testemunhal que assenta numa escrita clara e facilmente compreensível, muito preocupada com a experiência vivida e influenciada na dimensão existencial, onde se encontram o eterno mito de Sísifo e a presença do homem inconformado… E não é apenas o eco de Camus ou de Malraux que encontramos, mas de Kierkegaard, Dostoievski, Tolstoi, Huxley ou mesmo de Sartre. Do que se trata, como bem sentimos na “Cidade Solitária” (1959) e fundamentalmente em “Domingo à Tarde” (1961), é da procura da relação entre a singularidade, o reconhecimento e a angústia com a vida que segue o seu curso nas suas múltiplas contradições. E em “Diálogo em Setembro” (1966), um longo diário de invocação memorialística, encontramos a descoberta, através do contacto com a Europa das ideias, com as suas contradições e paradoxos, e da necessidade de compromissos diversos e complexos, num mundo em profunda mudança, consciente dos limites das receitas políticas ou das explicações simplificadoras. Eduardo Lourenço refere, aliás, que esse encontro com os outros em Genebra torna-se um “verdadeiro encontro connosco”, feito à distância. Como nos veem lá fora? Como nos vemos de fora? Ao longo do percurso literário, enriquecido pela sua experiência de médico, primeiro na província e depois no Instituto de Oncologia, vamos encontrando uma aproximação humana entre a importância da liberdade individual e a consideração da sociedade e da sua organização. O filme “Domingo à Tarde” (1966) produzido por António Cunha Telles, realizado por António Macedo, projetou na tela o romance no qual Namora associa a análise da realidade social e a existência individual, através do encontro de Jorge (Ruy de Carvalho) e Clarisse (Isabel de Castro), bem como de Lúcia (Isabel Ruth), assumindo no novo cinema português uma perspetiva que abria novos horizontes, salientando João Bénard da Costa a qualidade da adaptação, da conceção estética, da novidade formal e até a sua ousadia. Por isso o filme superaria o romance, mas de facto, essas qualidades só são possíveis (dizemo-lo nós) em virtude da capacidade de Fernando Namora.

 

LITERATURA E LIBERTAÇÃO
Compreende-se, assim, a afirmação de Namora: “A literatura é um processo de libertação e, por conseguinte, aspira à liberdade. Quer dizer que o seu ponto de partida é uma recusa aos constrangimentos. Quer dizer, ainda, que os constrangimentos estão na sua génese ou no desencadear da sua explosão, como tem sido proclamado por tantos criadores. Homem livre, pois, o escritor – ou que visceralmente deseja sê-lo. Tão livre, ou tão necessitado de o ser, que nem sequer pode estar de acordo com certas situações para que ardorosamente contribuiu: seja numa sociedade burguesa, seja numa sociedade proletária, ele sempre encontrará razões para a sua insubmissão e para o seu inconformismo, mesmo se, muitas vezes, se trate de uma contestação inconsciente” (in “Jornal sem Data”, 1988). De facto, o tempo revelou que a diversidade da obra produzida e legada por Fernando Namora nos permite encontrar pistas bastante fecundas que nos levam a compreender que o encontro sobretudo no início da carreira literária com o neo-realismo, não impediu a afirmação de um percurso singular que levou Fernando Pinto do Amaral a dizer que “tendo chegado a ser por meados do século XX o prosador português mais divulgado e traduzido em todo o mundo (antes da atual difusão de Saramago e Lobo Antunes), Fernando Namora inscreve-se no quadro de um neo-realismo progressivamente temperado por aspetos menos esquemáticos, que o irão aproximar das preocupações existencialistas”. O êxito retumbante de “Retalhos da Vida de um Médico”, sobre a sua experiência clínica na Beira Baixa e Alentejo, representa, assim, algo mais do que uma receita marcada pelo “espírito do tempo”, o que, aliás, permite encontrar já alguns sinais de cunho pessoal não apenas no sentido humanista e solidário, mas também na análise existencial contemporânea, podendo encontrar-se a maturidade reflexiva em “Rio Triste” (1982).

 

A COMPLEXIDADE DO NEO-REALISMO
Eduardo Lourenço chamou a atenção, com especial ênfase, para a complexidade do Neo-realismo. Carlos de Oliveira e Fernando Namora são referidos, aliás, como exemplos de independência de espírito e de um trilhar de caminhos próprios que ilustram bem a complexidade do fenómeno. A prevalência da forma nos critérios de avaliação estética sobre orientações ideológicas torna-se especialmente importante e integradora. E Namora, até mercê da evolução da sua obra e da não subordinação a critérios instrumentais, faz parte do grupo intelectual de que Lourenço se aproxima, mostrando bem (como o fez ao descobrir Pessoa) qual era o Neo-realismo que lhe merecia solidariedade tanto geracional quanto oposicionista: aquele mais livre esteticamente falando… Como Rosa Maria Martelo afirmou em 2014, na apresentação em Coimbra do segundo volume das Obras Completas de Eduardo Lourenço da Gulbenkian, o ensaísta teve uma importante e inequívoca “participação geracional ao lado dos jovens do Novo Cancioneiro quanto nas leituras coetâneas que foi fazendo do Neo-realismo, e ainda nas leituras retrospetivas que depois elaborou. Como defende, “o Neo-realismo é a expressão literária de qualquer coisa muito mais ambiciosa, muito mais importante” do que o plano literário ou artístico, ou sequer cultural”. Assim, recorre à palavra “galáxia”, dizendo «que o Neo-realismo foi “o aparecimento em Portugal da galáxia marxista, da galáxia da cultura marxista”, capaz “de se determinar em relação praticamente a todos os temas da sociedade portuguesa”. E ao recordar o papel da coleção Novo Cancioneiro nos inícios da década de 40, pergunta: “Haveria nesse utopismo um excesso de ilusão, como o tempo o provou? Sem dúvida. Mas nos melhores, a crença num futuro menos inumano era vivida e sincera”». E Fernando Namora correspondeu, com assinalável coerência, à compreensão de que a liberdade na literatura constituía um valor inestimável, que obrigou a uma especial atenção à realidade social e humana e a uma exigência crítica capaz de entender a complexidade da compreensão. Daí que o ponto de partida da liberdade do escritor seja, de facto, a recusa dos constrangimentos – que sempre assumiu, em benefício da sua obra e da sua coerência, atribuindo à arte e à autonomia individual os lugares necessários.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 24 a 30 de junho de 2019

 

Agustina foi sempre uma pessoa surpreendente. O seu sentido de humor, mas sobretudo o seu sentido crítico, eram únicos. Por isso admirava a alegria de Camilo – “uma alegria profunda, rasgada, furibunda que as inteligências estreitas não entendem”. Ligava, assim, permanentemente o pícaro e o trágico da vida.

 

UMA PAIXÃO ESPECIAL
A permanente pesquisa sobre a humanidade encerra a procura da culpa e da sua razão de ser – como tantas vezes Agustina confessou. Tinha uma paixão especial por Dostoievski, não tanto para seguir os seus passos, mas por encontrar nele uma força original. Muitas vezes, fazia misturar a realidade com a ficção. Isso divertia-a intimamente. A vida, para si, era sonho e era drama. O célebre episódio do casamento com Alberto Luís, através de um anúncio de jornal, tem a ver com um cenário romanesco que quis inventar. E assim procurou forçar a realidade, como deus ex machina. Ao ouvi-la contar esse momento, como lhe ouvi várias vezes, ela ria-se intimamente ao lembrar o que o padre lhe disse a certa altura – “nem um táxi à porta da igreja…” – ou quando recordava um rato afoito a atravessar a Confeitaria do Bolhão, onde os noivos celebraram, com um chá, a singular boda… Quando conheci pessoalmente Agustina, quase tudo o que ouvira dizer sobre ela correspondeu à realidade, mas ao vivo era muito mais interessante e misteriosa do que todas as lendas que à sua volta se desenvolviam. Grandes amigos meus tinham uma paixão absoluta pela sua obra e pela sua força – e a verdade é que essa aura se revelava de forma fantástica na pessoa que encontrei e de quem tenho saudades. Os seus diálogos eram desarmantes. Nunca fazia o comentário que esperaríamos. Abria-nos sempre os olhos para o outro lado das coisas que nos passava despercebido. Estou a pensar na extraordinária admiração por Maria Agustina de Alberto Vaz da Silva e João Bénard da Costa. Contra ventos e marés, foram dos primeiros e chamar a atenção para a genialidade da escritora. E tão persistentes souberam ser que obrigaram tantos distraídos a ler com olhos de ver a sua escrita. Frederico Lourenço tem um belo ensaio onde descreve um curioso ciclo, iniciado pela extraordinária admiração da geração de seus pais pela escrita de Agustina, continuado no sentido crítico do jovem que desconfiava de tão radical admiração e terminado num verdadeiro reconhecimento da genialidade da escritora. António José Saraiva disse-o claramente: não tinha dúvidas sobre estarmos perante um nome máximo nas nossas letras de sempre – isto, com a autoridade especial de se tratar da apreciação de um dos nossos maiores mestres na história da literatura.

 

UMA FORÇA INESGOTÁVEL
A escrita de Agustina era torrencial e a sua letra (como insistiu Alberto Vaz da Silva) era reveladora de uma força inesgotável. Essa era a letra que Alberto Luís (que devo lembrá-lo com muita admiração) meticulosamente decifrava, revelando a prosa em todo o esplendor. Várias vezes Eduardo Lourenço me chamou a atenção para a grande energia contida no riso dela e para o seu caráter cortante. Era uma ironia que contagiava, sobretudo porque fazia questão de deixar claro que (pelo menos na aparência) não se levava demasiado a sério e que gostava verdadeiramente de ver o mundo às avessas, como se ela quisesse e pudesse mudar o curso da História. Gostava de cultivar episódios folhetinescos. Vi, um dia, o Alberto e o João Bénard a disputarem intensamente a propriedade de uma carta que, certamente por puro gozo, Agustina dirigiu ao João, apesar de ter endereçado o sobrescrito a Alberto. Nunca a situação se esclareceu. O mistério permaneceu – e o caso demonstra bem como a personalidade de Agustina gostava de alimentar universos romanescos. E se estes universos eram avidamente procurados pela escritora, também vinham ao seu encontro, como aconteceu com a carta de Teixeira de Pascoaes, descoberta depois do poeta ter morrido, no seu espólio, sobre a leitura atenta que fizera de Mundo Fechado. Dizia ele: «trata-se de uma escritora de raça, dotada de excecionais qualidades visionária e dotada de um raro instinto do real. Sem este instinto há só literatura e mais nada. Se os românticos excederam a realidade, caindo na falsidade, os chamados naturalistas cometeram o pecado contrário, e tornaram-se inferiores à natureza. A autora de Mundo Fechado não praticou esses erros. E, por isso, a felicito com o maior entusiasmo». O episódio vale por si e Pascoaes, que estava no fim da vida, e já não lia as obras que lhe mandavam, abriu uma exceção e revelou a fina qualidade crítica que possuía. Agustina usaria, aliás, esse acontecimento extraordinário em Os Quatro Rios, para descrever a angústia de um jovem perante o silêncio de um escritor consagrado a quem enviara uma obra na qual punha toda a esperança de se tornar conhecido. Aliás, falando de Pascoaes, não podemos esquecer outro romance, O Susto, em boa hora recentemente reeditado, com um magnífico prefácio de António Feijó, onde Agustina encena um encontro entre figuras que representam Pascoaes e Fernando Pessoa – salientando a sua superior admiração pelo autor de Maranus… No entanto, a família de Pascoaes não ficou agradada com o retrato imaginário dado no romance… Ossos do ofício…

 

O LADO ALEGRE DA VIDA
Um dia fui com Agustina até Amarante, em homenagem à sua Vila Meã. Era um sábado glorioso, com a temperatura tépida do fim da primavera. A natureza estava como Agustina gostava, ridente e viva. Depois de termos debatido os mistérios de A Sibila, numa iniciativa de escolas e professores, em torno de complexas relações do poder, subimos em excursão, lado a lado, até ao primeiro degrau do Marão e a romancista, olhando a paisagem que se estendia na frente do autocarro onde seguíamos, lembrou com júbilo as giestas batidas pelo vento e as aras de pedra onde o gado se abrigava – e veio à baila um livro de Pascoaes, Duplo Passeio, pelo humor que continha. “A arte de pedir, ó padre António Vieira, é a única arte nacional. Está para a Lusitânia como a escultura para a Grécia”. E Agustina ria, ao lembrar ainda, a frase do poeta: “quem pede é um ladrão amável, digno de toda a simpatia”. - «Já reparou, por certo (disse-me então), afinal somos um país pedinte… Veja bem que não tardará alguém aí…». “Pedir é uma realidade em que cabem todas as ilusões. É um dormir, deixando os dentes a fazer a sua função de morder, e as mãos a de voar come as borboletas”. Agustina “lia Pascoaes com uma devoção que só pertence à maturidade da criança que nunca se perde dentro de nós (…) Este Pascoaes é bem o meu padrinho nas Letras. Alegro-me disso…” (DN, 2.10.1993). E assim olhava a realidade que a cercava à procura do que a pudesse espantar e até divertir.  

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

UMA NOVA BIOGRAFIA DE SOPHIA

 

Já fizemos referências ao centenário do nascimento de Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004) e às celebrações no Centro Nacional de Cultura, onde tiveram lugar sucessivas evocações e análises biográficas e literárias da sua vida e obra.

 

Nesse contexto, assinala-se agora a edição do livro de Isabel Nery sobre Sophia, que no mês de lançamento (maio de 2019) alcançou duas edições.

 

A qualidade desse vasto estudo de Isabel Nery cruza a extensa e intensa biografia pessoal e familiar com a obra criacional e com o contexto político e literário, numa perspetiva que, no ponto de vista do teatro e dos teatros, e também das entidades culturais e de quem as presidiu, constitui um notável panorama do contexto da vida e da sociedade portuguesa.

 

E nesse aspeto há que assinalar a evocação e descrição do Centro Nacional de Cultura a que Sophia presidiu e que mantém uma ligação institucional e cultural, amplamente descrita e documentada, que se prolonga, no livro.

 

Merecem destaque as referências que são feitas por Guilherme d’Oliveira Martins, tanto à obra de Sophia em si, como às implicações políticas e judiciais que, durante décadas, foram  aludidas.

 

São sucessivas transcrições de poemas que conciliam a extraordinária qualidade literária com a afirmação histórica, politica e ideológica que sempre marcou a vida e obra de Sophia e do marido Francisco de Sousa Tavares. Conciliando o progressismo com uma visão ideológica ligada à modernização da História e dos regimes políticos.

 

Em todos estes aspetos entronca a ligação de Sophia e de Francisco ao Centro Nacional de Cultura, amplamente documentada neste livro de Isabel Nery, que, além do mais, refere não só o CNC como cita fases e sucessivas direções até à atual. E transcreve intervenções sobre política cultural, designadamente na AR.

 

E na lista de publicações, surgem referências a traduções de Claudel, de Shakespeare, de Eurípedes, que marcam também a intervenção de Sophia de Mello Breyner Andresen no âmbito do teatro, como aliás referimos nos artigos anteriores sobre Sophia.

 

(Isabel Nery - “Sophia de Mello Breyner Andresen” ed. A Esfera dos Livros 2019)

 

DUARTE IVO CRUZ

ÁNGEL CRESPO: UMA VERDADEIRA FESTA DA LEITURA

 

Volto de quando em quando a Ángel Crespo. Volto à sua doçura recorrendo à memória do seu passo pelas ruas de Lisboa. O meu regresso à poesia de Ángel supõe sempre o introduzir-me num espaço de aprendizagem de contínuos assombros e desde sempre os seus livros foram a tal festa da leitura para mim.

 

Foi num estado de maravilha em que fiquei quando adquiri este seu livro em Barcelona. Nesta antologia sobressai a contemporaneidade criativa que só ele soube construir, mantendo o pulso no realismo espanhol e devotando-se ao entendimento do consenso sobre a realidade. O seu livro La realidad entera que dá titulo a esta antologia, surpreende num itinerário que envolve a própria filosofia medieva, raridade de um intelectual numa sua criação muito peculiar na cultura espanhola, na segunda metade do seculo passado. Ángel, pensador e poeta de uma claríssima consciência atravessa transversalmente o espaço do conhecimento que, na bela expressão de José Lezama a traduz como sendo a grande amiga de todas as coisas. Julgamos que a palavra poética de Crespo é uma experiência vital para que a poesia resulte entre linguagem e mundo, desafiando a aventura crespiana um espaço do sagrado como forma de conhecimento e de presença de um enigma que possa fazer parte de uma carta, de um animal, de um símbolo, de um amigo e sempre veículo sem estridências que um passeio matinal não cure. Mas a sua obra em geral mesmo em registo que não de poesia, constitui o descobrir de uma escultura, de uma pintura, de uma viagem, do frio e do Nada. Tudo são passos necessários à concepção integral da poesia de Crespo. E, no mesmo processo se encadeia, as suas conferências, o seu professorado, os seus ensaios, as suas traduções. Ángel afirmou

 

Por supuesto, mi própria poesia fue da estimuladora y, en cierta manera, la iluminadora del resto de mi escritura(…) la poesía se ha convertido en objeto casi exclusivo de mis inquietudes intelectuales, tal vez por haber sido, tanto en las circunstancias propricias como en las adversas, mi más decisiva señal de identidad y, desde luego, la celadora constante de mi libertad.

 

Lembremo-nos que estas coordenadas são o centro, o ponto de convergência que converte, dito nas palavras de Borges, ao destino da ética secreta do homem.

 

Crespo mostra-se também muito interessado pelos poetas de cultura portuguesa no momento em que começa a traduzir Virgílio.

 

Afirma então

He procurado, pues, passar de lo intuitivo (o, si se quiere, no racional, pero tampoco irracional) de la consciencia colectiva a lo enigmático de la consciência superior.

 

A verdade é que nos resulta difícil fazer um relato dos caminhos de Crespo que exponham em profundidade a sua curiosidade intelectual insaciável. E chega à leitura de Dante em italiano, chega aos parnasianos - escola literária francesa dos poetas que cultivavam a arte pela arte e que defendiam a perfeição formal face a sentimentalismos excessivos do romantismo. Segundo a mitologia grega Parnaso é um monte onde habitaram as musas.Le Parnasse contemporain, recorde-se era o nome de uma revista francesa de poesia-, e simbolistas franceses em francês, a Baudelaire, à poesia hispano americana com Neruda, Rubén Darío entre outros e é um dos primeiros a reconhecer a alta qualidade de Juan Ramón Jiménez.

 

Mais tarde obtém na Suécia em 1973 o título de doutor em Filosofia e nesse mesmo ano traduz o inferno de Dante e a Antologia da poesia brasileira. O desejo de Crespo do conhecimento do homem através da obra do homem fá-lo viver o sentido do diálogo com o conhecimento sagrado da palavra poética num processo que se iniciou no início dos anos oitenta e em 1987 surge Lisboa y Las cenizas de la flor.

 

Por muito que falemos do percurso de Crespo, tudo é incompleto. Cremos plenamente que dentro do panorama espanhol ele é uma verdadeira exceção. É um poeta comprometido com uma conceção da poesia como conhecimento integrado na modernidade e colocando o sagrado numa situação de diálogo com os poetas que cruzam esse caminho, de Fernando Pessoa a Blake, a Mallarmé, entre outros.

 

Por profunda admiração, por não esquecermos o encontro com Crespo no Largo do Camões em Lisboa, por termos entendido nele uma ternura indizível, pelo orgulho por este grande poeta e em homenagem à sua linha de significação, o poema

 

«El INVISIBLE»

 

Yo sé que alguien me habla,

me habla con insistencia,

tercamente me dice cosas que debo saber,

pero ese alguien no usa mis palabras,

pero yo no conozco su lenguaje,

y los dos, frete a frente,

sin vernos, angustiados,

no podemos unir nuestros discursos.

 

A veces casi escucho su mensaje,

presiento cómo lucha junto a mí,

cómo trata de hablarme, de decirme,

cómo viene a mi libro, a mis papeles,

cómo se sienta al lado, invisible, en la silla

cómo hace a mi madre que diga cosas raras

que mi madre no querría decir,

para que yo le entienda.

 

También, cuando passeo,

a la cara me arroja hojas secas, y a veces

me hace tropezar en una brizna.

 

Pero yo no le entiendo,

yo no sé qué me quiere decir,

yo soy un tope incomprensivo, y sólo

sé abrir los ojos y exclamar con miedo:

Quién eres? Qué me quieres decir?

 

Pero se va

si nota mi impaciencia.

 

Teresa Bracinha Vieira

MACHADO DE ASSIS

 

O AUTOR COMPLETO DOS LIMITES SEM LIMITE!

O SEU LIVRO “A CASA VELHA” OU A HIPOCRISIA DAS CLASSES BURGUESAS

 

Ao reler Casa Velha de Machado de Assis, livro publicado em 1944, depois da sua morte, encontro ainda mais clara a similitude de significado entre um drama de família e a realidade política/histórica que se vive em sociedade no cerco e pelas limitações desta. Surgem-nos os acontecimentos políticos drapeados pelo pensar das gentes que os reflectem, e se deitarmos mão ao pressentir neste livro de um esboço de Dom Casmurro, entãotodas as entrelinhas são questões políticas de relevo, disfarçadas de histórias românticas, mesclando-se ambas em confidências acutilantes de verdade.

 

Neste livro, a narrativa é feita por um padre que por razões de fazer pesquisa na biblioteca de uma casa muito antiga e fidalga, nela encontra dados inerentes ao imperador Pedro II, bem como a seus altos membros de governo, cuja vida privada, mesquinha e devassa, permite a Machado de Assis a crítica aguda aos costumes sociais, aos seus jogos de interesse, religiosos ou não, a feiras de vaidades descritas numa fusão de interpretações, pertença única de Machado de Assis em palavras plenas de verdadeira essência anímica. E neste conto uma narrativa também de amor.

 

Diz-se que surge neste livro a descrição da primeira relação entre irmãos que se apaixonam desconhecendo os seus laços de sangue, temática posteriormente muito utilizada na literatura.

 

Lalau, moça de olhos largos de pureza-criança, amava como se o amor fosse a puberdade do espírito mas, assumindo-se como mulher neste sentimento, sendo que fingia acreditar que a leitura de Deus, por ser a mais velha, seria a melhor, num tempo em que para ela, tudo nunca era a aproximação sequer de quase tudo.

 

As travessuras da bela Lalau eram tão desafiantes que era sua a vontade de ver um desastre por dentro a fim de conhecer bem essa realidade, não podendo descortinar o malabarismo que lhe era feito pela sociedade, para que um qualquer fardado lhe parecesse rei. Ainda assim o rasgo pueril de achar prazer em qualquer coisa fazia-a dizer ao padre que se ele não pudesse conversar com ela, lhe agradecia se a deixasse ficar ali, a olhar para as paredes da biblioteca onde este fazia a pesquisa de dados históricos e políticos, pois ela também estava bem daquele modo: as paredes sempre lhe tinham contado muitas coisas.

 

E estas confissões de Lalau fizeram o padre descobrir-se a si mesmo de um outro modo, sobretudo quando foi o ciúme do amor de Lalau por Félix que o esclareceu de um acontecer que por Deus!, enquanto homem nunca poderia ter sido realidade diferente da que o levou ao respeito divino.

 

Haveria sim que assumir o compromisso da consciência antiga de sentir Lalau como mais do que uma criatura, ela era a sociedade humana se por aquele abismo que lhe preparavam, a sua decisão fosse a de arriscar sem mais. Havia que o evitar. A imperatriz da Casa Velha, D. Antónia gostaria de ter sido imperatriz nalgum ponto mínimo da terra que fosse, e ainda que tivesse oferecido educação a Lalau, não queria, nem sequer permitia que o padre reverendíssimo questionasse as suas decisões em relação ao futuro da moça. As ideias certas da casa velha eram as de que por ali ninguém vivia no mundo da lua e todos se haveriam de fazer às proximidades régias nem que não fossem dignas sequer de teimarias.

 

No dia em que Lalau falou pelo silêncio depois de lhe ter sido desmentido o laço de sangue a Félix, a vida humana foi para ela capital mendiga de tudo.

 

A verdade? Que verdade? Ex-ministros, criadas, escravos, os egoísmos de letrados, a claridade de que uma anedota era sempre algo político, os coronéis e a vida derramada que abrangia todos os recantos para os controlar e justificar poder de mando, mesmo quando quem baralhava as cartas, pudesse ser também uma casa velha, seca, nos rituais das novenas diárias, dentro da qual, a capela deitava missa cantada ou rezada, consoante as visitas da casa fidalga. Seria a missa mais solene, seguramente, desde que o governo mandasse fuzilar todos os legais que se achassem. E o fuzilamento poderia ser o de um amor entre seres que, supostamente, o não poderiam sentir. Só há que inventar. Só há que confundir! E o poder abre caminho sem esforço.

 

Um dia, depois de passadas as grandes tormentas, vi de relance Lalau, diz o padre narrador que os olhos de Lalau eram uma edição do vento que não vai às bibliotecas: era uma edição à qual se fechou a janela. E o que venceu não foi o amor, mas o valor pessoal.

 

Na Casa Velha multiplicaram-se as visitas e no limar das arestas, abriam-se mais entradas, totalmente discriminatórias, e cada qual sabia por onde entrar e sair. As soluções acomodatícias ligadas às emergências dos interesses e dos valores das actividades comerciais e financeiras e seus agentes estavam no auge. Além das entradas, havia, do lado oposto, onde ficava a capela, um caminho avesso que dava acesso às pessoas da vizinhança, que ali iam ouvir missa aos domingos. D. Antónia não tinha de o percorrer, nem de se encher de pó para chegar à reza. O seu local era uma reserva vitalícia junto ao altar com bênção mais forte do padre pois que a distancia dela, contava em atribuições.

 

O Cônego, homem por natureza, tinha o seu álibi, em nome de Deus e o seu meio para ser.

 

Afinal as poucas coisas que não eram velhas na Casa, além de Lalau, eram os livros de Voltaire e Rousseau e deles uma busca de independência num mundo que deixava pouca margem para isso. Enfim, a viagem dos comboios é muito diferente da que fazem os rios.

 

Um século antes de Casa Velha, foi dito que o homem nasce livre, mas encontra-se sempre aprisionado.

 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

De 13 a 19 de maio de 2019

 

Realiza-se nos próximos dias 16 e 17 de maio na Fundação Calouste Gulbenkian o II Congresso Internacional Sophia de Mello Breyner Andresen.

 

 

UM EXEMPLO DE CIDADANIA
O centenário de Sophia de Mello Breyner Andresen é especial, muito para além de mera comemoração. O exemplo de cidadania, de talento, de ligação natural entre a ética e estética é fundamental. De facto, estamos perante uma personalidade extraordinária que é lembrada como referência única, como um exemplo que fica, que persiste. Era a “pura liberdade” que lhe importava – e, por isso, temos de lembrar o “espaço de liberdade” que animou com Francisco de Sousa Tavares e foi lugar de debate e de acolhimento de jovens intelectuais e artistas, que tomaram como referência a sua presença, a sua palavra e o seu gesto. “No Centro Nacional de Cultura (CNC) fiz de tudo” – dizia Sophia de Mello Breyner… E nesse tudo, estiveram os cargos estatutários, mas sobretudo tudo o que decorria de uma solidariedade saudável e comprometida. “Discuti, li versos, fiz limpezas quando faltava a mulher-a-dias, organizei festas de Carnaval com rissóis e bebidas, mascarei-me, dancei e – coisa que mais do que detesto – fiz conferências. Não havia dinheiro para nada e era tudo improvisado e cada um fazia o que podia, o que sabia ou o que era preciso. Era um tempo de fervor e de dedicação gratuita. A amizade era concreta. E acima de tudo discutia-se tudo: os sistemas políticos, os problemas sociais, os problemas religiosos, o Corbusier, a pintura moderna, o surrealismo, o Fernando Pessoa, a literatura portuguesa, a literatura brasileira, a literatura americana, a guerra de África. À discussão cada um trazia o que sabia e também o que era”…

Pode dizer-se que Sophia e Francisco foram, num tempo decisivo, almas de um clube de ideias que soube persistir e fazer da liberdade a sua marca indelével, perante todas as dificuldades. E quando vemos as imagens a preto e branco da saída dos presos políticos de Caxias, pouco depois da revolução, é com muita emoção que presenciamos o entusiasmo e a alegria de Sophia, o zelo profissional e cívico de Francisco, acompanhados de seu filho Miguel, ao lado de Jorge Sampaio, José Manuel Galvão Teles, Francisco Salgado Zenha ou João Bénard da Costa… E Nuno Teotónio Pereira com tantos outros a sair da prisão e a manifestar uma enorme esperança no novo tempo que se iniciava. Ele que animara no CNC tantas reuniões clandestinas que pugnavam pela liberdade, pelo direito à informação e pela autodeterminação dos povos. Naquele momento em que os portões se abriram estava viva a imagem do encontro entre os que tinham lutado pela liberdade, não apenas com palavras vagas, mas com gestos concretos de coragem e determinação. Os que saíam e os que os acolhiam tinham uma causa comum – a liberdade, a democracia e os direitos humanos. Para quem conhece a história do CNC sabe que aqueles abraços, aquela genuína manifestação de solidariedade correspondiam a um trabalho generoso e persistente, conseguido através de um percurso longo e difícil, que Sophia lembrava: “Às vezes a Pide aparecia: um dia fez uma busca à procura de uns papéis que não encontrou porque o Francisco os tinha escondido no frigorífico. Em certas sessões surgiam homens cinzentos e calados, com a gabardina abotoada até ao queixo e um ar simultaneamente taciturno e comprometido; ‘poker faced’”.

 

RESISTÊNCIA COMO MODO DE AÇÃO
Não por acaso, contamos com muitos dos seus escritos e poemas como referências essenciais da resistência: levantou a sua voz em defesa do Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes; mas também contra a injustiça da desclassificação do monumento para Sagres “Mar Novo”, de João Andresen, Barata Feyo e Júlio Resende, que assinalaria a memória das Navegações portuguesas: na vigília do Dia Mundial da Paz de 1969 na igreja de S. Domingos disse com firmeza: “Vemos, ouvimos e lemos, não podemos ignorar” – e com que genuína emoção: ouvimos o poema, dedicado a Francisco: “Porque os outros se mascaram mas tu não / Porque os outros usam a virtude / Para comprar o que não tem perdão / Porque os outros têm medo mas tu não”. Cada palavra desse poema é uma marca firme contra a indiferença e a pusilanimidade, é uma lição cívica e ética. E daí a autoridade plena com que Sophia pôde dizer em Abril: “Esta é a madrugada que eu esperava / O dia inicial e limpo / Onde emergimos da noite e do silêncio / E livres habitamos a substância do tempo”. E quando ouvimos as suas palavras na Constituinte sobre a liberdade da cultura, vemos que se mantêm sem ruga nem mácula.

 

UMA INICIATIVA ABERTA
Deste modo, o CNC correspondeu ao apelo de Maria Andresen (do mesmo modo que acolheu o espólio, hoje na Biblioteca Nacional de Portugal) para apoiar a afirmação do legado cultural que Sophia deixou. Não poderia ser de outro modo. Muito mais do que um momento, do que se trata é de dizer que Sophia deve ser lembrada nas diversas facetas em que se singularizou – tendo a sua obra de ser considerada na globalidade, não esquecendo quantos inspirou. Assim, as iniciativas a realizar ou realizadas são múltiplas. E há uma preocupação da apoiar a liberdade e a criatividade. A consulta do sítio centenáriodesophia.com permite compreender a diversidade de temas e de participações, devendo perceber-se que não é exaustivo, já que não pode esquecer-se a multiplicidade de outras iniciativas, que correspondem à adesão espontânea de muitos admiradores da autora de Livro Sexto. Os colóquios de Lisboa na Gulbenkian, do Porto, de Lagos, de Roma, do Rio de Janeiro (sobre Sena e Sophia), de Macau, da Casa Pessoa e da Fundação de Mateus correspondem à reflexão multifacetada sobre a apaixonante obra da autora. O Conto Musical “A Menina do Mar”, do LU.CA Teatro Luís de Camões, com direção musical de Martim Sousa Tavares, traz-nos o famoso conto de Sophia transformado em voz e música e feito espetáculo sobre a amizade entre as coisas da terra e as coisas do mar. O livro Almadilha – Ensaios sobre Sophia de Mello Breyner Andresen, de Frederico Bertolazzi; a mostra “Olhares Mútuos: Maria Helena Vieira da Silva e Sophia” na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva; o espetáculo “Na Substância do Tempo” – eco da poesia de Sophia no mundo visível da dança de Vasco Wellenkamp e da Companhia Portuguesa de Bailado Contemporâneo; a Exposição Itinerante “Lugares de Sophia” com fotografias de António Jorge Silva, Duarte Belo e Pedro Tropa; ou o Concerto de 6 de novembro, no Teatro Nacional de S. Carlos com o “Orfeu e Eurídice” de Cristoph W. Gluck são exemplos de um ano pleno de iniciativas, em que há sobretudo uma preocupação de homenagear com a maior dignidade e diversidade alguém a que a cultura portuguesa tanto deve. Afinal, nunca esquecerei o dia em que na atribuição do seu nome à Escola Básica Sophia de Mello Breyner, de Carnaxide, pediu expressamente que os alunos representassem de cor “A Menina do Mar” e, numa tarde fantástica, com centenas de pessoas a aclamá-la, emocionou-se ao ver aqueles meninos e meninas das mais diversas origens geográficas, cumprirem à letra o seu pedido e serem extraordinários atores, sem falhas nem hesitações… E todos entendemos o que significa dizer: “a minha terra é o mar”, como definição da nossa cultura.    

 

 
Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 15 a 21 de abril de 2019

 

A leitura da última obra de António Carlos Cortez, Voltar a Ler – Alguma Crítica Reunida (Sobre Poesia, Educação e Outros Ensaios) (Gradiva, 2019), permite-nos tomar contacto com um conjunto polifacetado de textos, com uma sólida complementaridade e uma coerência que merecem ser elogiadas.

 


A IMPORTÂNCIA DA LEITURA E DA LITERATURA
Alguém que já se afirmou como poeta, surge neste livro, essencialmente, como crítico, como pedagogo e como cidadão preocupado com a vida cultural. Tive o grande gosto de participar na apresentação pública do livro, com o autor, Lídia Jorge e Isabel Soares, e pudemos partilhar em análises sucintas o sentido crítico e pedagógico que António Carlos Cortez empresta aos textos que agora reúne, produzidos em colóquios, jornais e revistas, e que, em boa hora, vêm a lume num tomo que é mais do que uma reunião de participações avulsas, já que nos revela não só uma panóplia de diversos autores relevantes do nosso panorama literário, mas também uma análise crítica sobre o reconhecimento da importância da leitura e da literatura no tempo atual. Dir-se-ia, assim, que o “voltar a ler” tem um triplo significado: como releitura de textos publicados pelo autor ao longo do tempo; como apelo à reflexão e ao tempo da crítica, num momento tão dado à superficialidade e ao imediatismo; e como uma séria invetiva contra a mediocridade e contra o esquecimento e a indiferença relativamente ao livro e à leitura. Começando por falar-nos da urgência da literatura, António Carlos Cortez divide o livro em três partes: sobre os ensaístas, sobre voltar a ler (a propósito de poetas portugueses modernos e contemporâneos) e sobre educação e cultura. Estamos perante um rol muito rico, em que os ensaístas e os poetas nos levam a compreender o que António Ramos Rosa nos ensina; “a significação de um poema especificamente moderno depende tanto dele como de nós e que é precisamente desta colaboração profunda entre criador e leitor que uma significação pode surgir e atualizar-se”. E quando se fala do poema, podemos facilmente chegar ao ensaio, que participa da mesma força criadora e do mesmo sentido crítico relativamente à urgência da literatura. De facto, “um crítico literário ‘tem de ser um homem total, um homem de convicções e de princípios, e com conhecimento e experiência de vida’, diz-nos T.S. Eliot (…) e é por se falar de literatura e, transversalmente, de Humanismo ou de valor das Humanidades, que estes textos podem ser lidos como partilha dessas convicções e princípios, propondo ao leitor uma espécie de pacto ou de aperto de mão que define a própria relação entre quem lê e aquele que é lido”.

 

TEMAS E AUTORES
Texto a texto, encontramos referências de memória e de vida, num permanente apelo aos textos e aos seus ritmos: Antero de Quental, Mário de Sá-Carneiro, Fernando Pessoa, Mário Dionísio, Sophia de Mello Breyner, David Mourão-Ferreira, Mário Cesariny, Eugénio de Andrade… Mas chegamos ainda a Fernando Echevarría, Fernando Guimarães, Ruy Belo, Herberto Helder, João Rui de Sousa, Fiama Hasse Pais Brandão, Gastão Cruz, Armando Silva Carvalho, Manuel António Pina. E ainda encontramos naturalmente, como numa encruzilhada luminosa da República das Letras: Camões, Vasco Graça Moura, Eduardo Lourenço, Vítor Aguiar e Silva, Cleonice Berardinelli, Manuel Gusmão, Fernando Cabral Martins, Richard Zenith ou Paula Morão… E sente-se a cada passo a lição de Jacinto do Prado Coelho ou de Jorge de Sena, expressa por Fernando J.B. Martinho: “um dado acontecimento literário na diacronia da nossa historicidade tem sempre de ser compreendido à luz de um quadro mais vivo de marcos e referências”. O poeta e o ensaísta não estão sós, o mundo e a vida alimentam-nos, o que permite entender a pergunta bem presente na torre de Montaigne: Que sais-je? Uma pergunta, mais do que respostas - é esse quadro vivo que o autor procura desvendar, não a partir de elucubrações fantasiosas, mas sim segundo uma compreensão rigorosa dos textos. Que é a crítica senão o respeito escrupuloso pelo dito e pelo escrito? Afinal, qual é a melhor pedagogia das humanidades senão o apelo à leitura direta dos originais sem a falsificação dos intermediários ou dos resumistas… E chegamos à necessária pedagogia. Vítor Manuel de Aguiar e Silva ensina-nos que “é o texto poético que deve concentrar a relação ensino-aprendizagem nas aulas de língua materna, dando às crianças e jovens a memória histórica que lhes falta”. Não é preciso dizer muito mais, sendo que, no entanto, aqui está dito o que é mais difícil na função motivadora do mestre em humanidades. Não se trata de fechar a literatura sobre si mesma ou sobre simplificações, mas de abrir horizontes para vários saberes – entendendo o que Eliot dizia sobre o conhecimento perdido na informação, e a sabedoria perdida no conhecimento. Sophia insistia que não podemos distinguir as redondilhas de um alexandrino se não entendermos o movimento e o número, a arte e a ciência. Eduardo Lourenço, fio de Ariadne vigilante, afirma-nos por isso que “a poesia é a realidade enigmática e luminescente como a Esfinge ou como a face de um antigo deus”. E não se trata de um jogo de palavras, mas da compreensão exata de que só a visão crítica dos mitos nos permite perceber a relação entre vida e destino. E o poético “é o inefável que procura concretizar-se pela ação artística, espelho da História”. Daí a tentativa de Lourenço para construir “a dialética mítica da poesia moderna portuguesa”, subjacente à psicanálise do destino português. E assim a “Mensagem” de Pessoa passou a ter de ser lida de outro modo, como um Espelho mágico decifrador de estranhos enigmas…

 

LER E VOLTAR A LER
E eis-nos chegados a Antero de Quental, supremo interrogador dos nossos enigmas. Pode dizer-se que em Voltar a Ler a referência central pode ser esta carta do genial poeta a Jaime Magalhães de Lima: “A natureza tinha-me talhado para romântico descabelado, pessimista, satânico, que sei eu? Mas tinha-me dado, ao mesmo tempo, por singular contradição, razão e sentimento moral para muito mais e melhor. Daí o conflito, a guerra civil, a luta interior. Essa luta foi a minha vida, e é o que explica a aparente singularidade (que reconheço ser grande) e a esterilidade dela. O que venceu em mim foi a razão e o sentimento moral; mas a imaginação e a paixão, embora vencidas, não se submeteram. Ora não é essa a razão, mas a imaginação e a paixão que fazem o poeta (…) os últimos vinte sonetos do meu livrinho são uma coisa nova, a nota cristalina duma poesia nova, de verdadeira poesia (ouso dizê-lo) do futuro”. O percurso biográfico, o caminho do poeta confirma como a literatura é chave da arte de aprender. De facto, a poesia concilia palavra e pensamento, sendo para Antero (com a sua tragédia) “a possibilidade de viver” uma “partícula de pó das estrelas num paraíso perdido que só a Poesia, suprema arte pode tornar real”… Eis por que razão António Carlos Cortez tem razão no apelo fundamental que faz: “Discutindo-se o lugar do livro na escola, raramente se diz o que muitos sabem: a única estratégia de combate contra a ‘nova ignorância’ (no fundo velha, se virmos bem…) passa por trazer de novo o livro para a Escola e a Universidade…”   

 


Guilherme d'Oliveira Martins
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CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Lembro-me de, no princípio dos anos 70, ir muito a Paris, às vezes com o João Cravinho, para reuniões na OCDE. [Ambos trabalhávamos então com o Secretário de Estado da Indústria (SEI), Rogério Martins: o João, muito mais qualificado, era o diretor geral do GEBEI - Gabinete de Estudos Básicos de Economia Industrial; eu era jovem assessor do SEI para as relações internacionais, e delegado ao Comité de Indústria da OCDE].  Costumávamos ficar num pequeno hotel da rue du Bois de Boulogne, à avenue Foch, donde, a pé, partíamos todas as manhãs, em passeio higiénico, para os nossos trabalhos no Château de la Muette. No regresso, ao fim do dia, acontecia-nos, quando mais cansados e com menos tempo, jantar algures nos Champs Élysées e ir comprar uns jornais ou revistas, nalguma drugstore. Por mim, juntava-lhes quase sempre uma banda desenhada, para surpresa do João Cravinho, que não entendia como é que eu podia gostar "daquilo". A verdade é que, desde os meus cinco anos, toda a vida me deliciei com histórias aos quadradinhos, e hoje ainda releio com confessado gosto muitas delas. Esta noite ainda, quase em 2019, calhou-me uma curiosa aventura do Tintin, em dois volumes: Les Sept Boules de Cristal e Le Temple du Soleil. Digo curiosa, porque, para além de temas comuns a muita literatura - como a ilusão e a magia, o secretismo, a descoberta e a maldição - o fio condutor desta história, a sua intriga fulcral, me parece ser a loucura. É ela o castigo que o espírito inca reserva para os cientistas aventureiros que ousem violar os seus mistérios, é dela que eles serão finalmente libertados, depois de Tintin ordenar ao sol em eclipse que reapareça - para assim obter, além do fim da maldição dos sábios hospitalizados, a própria libertação, e a dos seus inseparáveis amigos, em troco da promessa de manter secretos os segredos dos incas clandestinos, escondidos nas altitudes da sua milenar terra natal, em ruínas conservadas do seu perdido império. Mais: é a loucura, sobretudo ela, que espreita toda a gente, desde logo, nas páginas iniciais, a dos pacíficos burgueses que, no compartimento de comboio em que Tintin lê o jornal, espreitam os títulos das notícias de maldições, e logo se assustam muito, receosos do contágio da loucura de sonhos aventureiros... 

 

   Nota bem, Princesa de mim, que, de certo modo, é com audácia -- à qual, como à clarividência, tantas vezes chamamos louca - que Tintin vence a loucura. Esta surge manifestada por histerismos doentios, pelo medo, ou qualquer terror inspirado por fantasmas íntimos que as vítimas sofrem mas não conseguem expulsar. Como se, confusa, a consciência a si mesma se perseguisse... Ou um sonho tenebroso nos habitasse como se fosse real. Tintin também é perseguido: está a dormir no seu quarto, na enorme moradia do professor Bergamotte, onde se conserva a múmia de Rascar Capac, quando esta fantasmática figura lhe entra pela janela aberta e lança ao chão, quebrando-a, uma bola de cristal contendo gás de loucura. Assustado, o nosso herói salta da cama e verifica que, afinal, o vento e a chuva de uma borrasca é que lhe haviam aberto a janela, e quebrando-lhe os vidros. Tudo o mais não passara de sonho. Reparei numa jarra azul com flores, posta numa mesa de canto, junto à janela. Com a violência da rajada que a abriu, esta tombou aquela sobre a tal mesa, e caíram as flores. O pormenor da jarra vê-se claramente em três dos quadradinhos em que surge Rascar Capac. Tombada, surge noutros três, em que o fantasma está ausente e Tintin, bem acordado, regressa à realidade. Ocorreu-me a semelhança entre essa jarra e suas flores e o quadro de Van Gogh, Fleurs dans un Vase Bleu... Evocação da loucura, de uma intoxicação? Apenas pensossinto que, mesmo inconscientemente, Georges Rémy evoca ali, sob a aparência de coloridas flores, a perturbação que o pintor holandês também experimentou. A angústia é ali insídia interior, talvez a nossa consciência imperfeita em atroz desespero por não se nos encontrar nas explicações do universo e da vida. Histórias, novelas, desenhos e filmes de terror são exorcismos dessa coisa mais tremenda que há em nós: a incapacidade de total consciência lúcida.

 

   Só saímos dessa perplexidade respirando fundo, contando até dez, somando dois mais dois, e indo chamar pessoas e coisas pelos nomes que sabemos. Ou, mesmo antes, tocando fisicamente em algo à mão. Ser e sentir-se animal é melhor antídoto da angústia do que qualquer metafísica. Come chocolates, pequena..." aconselharia o Álvaro de Campos. Ou, melhor ainda, outro dos heterónimos do Fernando Pessoa (qualquer deles um exorcista das suas angústias), sabiamente:

 

Creio no mundo como num malmequer, / Porque o vejo. Mas não penso nele / Porque pensar é não compreender... / O mundo não se fez para pensarmos nele / (Pensar é estar doente dos olhos) / Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo. Esta confissão de Alberto Caeiro, Guardador de Rebanhos, é uma profissão de fé quando o mesmo assim fala: Pensar em Deus é desobedecer a Deus, / Porque Deus quis que o não conhecêssemos, Por isso se nos não mostrou...

 

   Alternamente formuladas - outra vez pelo engenheiro Álvaro de Campos, agora no seu Lisbon Revisited (1926) - as mesmas sugestões vão-se deixando tentar pela metafísica literária:

 

   Tens, como Hamlet, o pavor do desconhecido?
   Mas o que é conhecido? o que é que tu conheces, 
   Para que chames desconhecido a qualquer cousa em especial?

 

   Tens, como Falstaff, o amor gorduroso da vida?
   Se assim a amas materialmente, ama-a ainda mais materialmente:
   Torna-te parte carnal da terra e das coisas!
   Dispersa-te, sistema físico-químico
   De células noturnamente conscientes
   Pela noturna consciência da inconsciência dos corpos,
   Pelo grande cobertor não-cobrindo-nada das aparências,
   Pela relva e a erva da proliferação dos seres,
   Pela névoa atómica das cousas,
   Pelas paredes turbilhonantes
   Do vácuo dominante do mundo...

 

   A religião não é mezinha nem cura para a angústia. Não a tentes para o efeito, Princesa de mim. A própria experiência religiosa, mesmo mística, pode sofrer angústia. A presença sentida de Deus não o torna visível nem palpável, já são Paulo ensinava aos hebreus que a fé é a substância das coisas por vir. Todos os dias chamamos: Vinde Senhor Jesus! Como já o salmista interpelava "de profundis da sua angústia" o Senhor que não via.

 

   Ao que outros percebem como inexistência de Deus - por falta de prova experimental ou científica -, e, outros ainda, como simples ausência, chamam os crentes o silêncio de Deus. Destes, há os que reclamam sinais - dos tais que Jesus repetia terem sido já dados - talvez esquecidos da lição a São Tomé: acreditas porque viste; bem aventurados os que creem sem ter visto. Em religião, a resposta ao silêncio de Deus é o nosso silêncio que escuta. A experiência mística não é uma prece.  É uma comunhão. Esta pressupõe disponibilidade e despojamento, cujo exercício é ascese espiritual, a qual não se funde com quaisquer regras mecânicas ou rituais de calculada ou previsível eficácia, ou seja, não é um tratamento. Antes e só uma predisposição à escuta do silêncio que fala. Será difícil, em tempos de pressas e correrias, de fabricação constante de palavras e discursos, explicações e receitas, e, porque pensa que tudo se faz, considera que a escuta do silêncio é uma atitude passiva. Mas, de outro modo, poderemos entendê-la como essa talvez esperança que suspende o final da Ode Mortal de Álvaro de Campos:

 

   E de repente se abrirá a Última Porta das coisas,
   E Deus, como um Homem, me aparecerá por fim.
   E será o Inesperado que eu esperava -
   O Desconhecido que eu conheci sempre -
   O único que eu sempre conheci...

 

   Afinal, pela sua imperfeição, talvez a condição humana seja heroica. E talvez por ser louca e longa a silenciosa espera, na escuridão da noite vá nascendo o dia. Para que possamos dizer, como Ungaretti: M´illumino d´immenso... Poema brevíssimo, intitulado Mattina (Manhã na versão portuguesa de Orlando de Carvalho - Cadernos de Poesia, Publicações Dom Quixote, 1971 - que reza assim: Deslumbro-me / de imenso). Na minha tradução, opto por Alumio-me de imenso: não só, nem tanto, pela maior proximidade ao original italiano, mas por me parecer que, antes do deslumbramento (talvez mais sensorial e subjetivo) a iluminação vem de além, é o dom da luz, é a clarividência, a lucidez. Deslumbro-me depois de ter sido aceso como o Buda ou Paul Claudel em Notre Dame de Paris, ou claramente derrubado - porque perseguia ou desafiava - como São Paulo a caminho de Damasco. Sobre tão imensa luz que me alumia te escrevi, em 18 de maio de 2014, uma carta que o blogue do CNC publicou naquela data... Relia-a hoje.

 

Camilo Maria  


Camilo Martins de Oliveira

LIVROS DE 2018

 

Como habitualmente o CNC escolhe os Livros do Ano, sempre esperados ansiosamente…

 

ROMANCE
«A Última Porta Antes da Noite» - António Lobo Antunes (D. Quixote).

«Princípio de Karenina» - Afonso Cruz (Companhia das Letras).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Ensina-me a Voar sobre os Telhados» - João Tordo (C. das Letras).
«O Invisível» - Rui Lage (Gradiva).
«Luanda, Lisboa, Paraíso) – Djaimilia Pereira de Almeida (C. das Letras).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«Sua Excelência, De Corpo Presente» - Pepetela (D. Quixote).
«Obra Completa» – I a III – Maria Judite de Carvalho (Minotauro).

 

POESIA
«Obra Poética – I» - António Ramos Rosa (Assírio e Alvim).

«Estranhezas» - Maria Teresa Horta (D. Quixote).

 

MEMÓRIAS
«Aperto Libro (Páginas do Diário- I – 1977-1990)» - Eugénio Lisboa (Opera Omnia).

 

ENSAIO
«O Algarve Económico Durante o Século XVI» - Joaquim Romero Magalhães (Sul, Sol, Sal).
«O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão» - Onésimo Teotónio de Almeida (Quetzal).

 

TRADUÇÕES
«Berta Isla» - Javier Marias (Alfaguara).
«Aos Ombros de Gigantes» - Umberto Eco (Gradiva).
«Pensamentos» - Giacomo Leopardi (Edições do Saguão).
«Escolha Coletiva e Bem-Estar Social» - Amartya Sen (Almedina).
«Onde Estamos? Uma Outra Visão da História Humana» - Emmanuel Todd (Temas e Debates – Círculo de Leitores).

 

A todos desejamos um Bom Ano, com Saúde e boas leituras!
CNC

 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de novembro a 2 de dezembro de 2018.

 

Em boa hora, a Universidade da Beira Interior decidiu promover um Colóquio em torno da obra de Miguel Real. Foi uma excelente oportunidade para a realização de uma reflexão e um diálogo aprofundados em torno da obra de um dos mais persistentes e fecundos ensaístas e críticos no panorama português.

 

 

ENSAÍSTA ATENTO
Se refiro o ensaísta, não esqueço o romancista, com provas dadas e justos prémios alcançados, porém sendo um cultor da língua e um fino leitor e autor do romance, notamos (e essa é uma qualidade incontestável) que nunca deixa de pensar a cultura e a identidade, como realidades complexas que não podem passar despercebidas. Ora é a perspetiva do ensaísta que ocupará as linhas que se seguem. E as recentes iniciativas levadas a cabo, aquando do centenário do Padre Manuel Antunes, permitiram um reencontro com as reflexões de Miguel Real, até porque o autor do indispensável Repensar Portugal apontou muitas vezes no sentido de compreender a cultura portuguesa não em termos fechados ou retrospetivos, mas em termos integradores de uma complexidade, incompatível como estereótipos ou simplificações. O humanismo universalista é tudo menos uma marca redutora ou providencialista. Aliás, quando hoje lemos o Padre António Vieira da Clavis Prophetarum, tendo em consideração as mais recentes investigações nesse domínio, percebemos que as ideias de povo eleito ou de uma vocação imperial caem por terra – abrindo caminho ao reconhecimento da dignidade humana como património comum e como objetivo a partilhar pela humanidade… E Miguel Real nos vários registos da sua escrita e da sua reflexão tem procurado demarcar-se da tentação de uma certa predestinação de um povo ou de uma existência… Deste modo, a leitura marcadamente crítica sobre a mediocridade nacional insere-se na tradição das correntes de pensamento que desde tempos imemoriais olham a nossa realidade numa perspetiva crítica, com a preocupação de assegurar uma séria articulação de esforços, capaz de negar o fatalismo do atraso e de criar condições para podermos viver uma melhor defesa do bem comum. Fala-se do escárnio e maldizer, do picaresco, do não nos levarmos demasiado a sério, mas também do querer viver ao ritmo do mundo civilizado – os elementos são vários e as personagens da nossa cultura apresentam-se com características contraditórias, o que as leva a não se eximirem ao sentido fortemente crítico, que não deve ser confundido com puro negativismo.

 

HUMANISMO UNIVERSALISTA
António José Saraiva falava do “estar-se onde não se está”, o que leva os portugueses a serem religiosos e heréticos; ortodoxos, mas heterodoxos; emigrantes mas não colonizadores (por força da miscigenação); aventureiros, mas radicados (como na Diáspora); pobres mas generosos; e atrasados, mas crentes num destino (messianismo). De Gil Vicente a António José da Silva, de Garrett a Camilo e Eça de Queiroz encontramos a exigência crítica como contraponto à indiferença ou ao conformismo. E que é o país de suicidas de Unamuno, que hoje já não seria assim entendido, senão a manifestação séria de um inconformismo, que apenas visa combater a passividade e a irrelevância? A abrir “Portugal – Ser e Representação” Miguel Real cita, sintomaticamente, o Padre Manuel Antunes: “Reencontrar o antigo, por vezes mesmo o mais antigo para criar algo de novo (…). A nossa história multissecular de Povo independente é feita de espaços de continuidade e de espaços de rutura, de períodos de deterioração e de períodos de recuperação, de anos de sonolência e de momentos de crítico despertar, de estados de descrença e de instantes largos de esperança quase tão ampla como o universo”… Uma história antiga, com raízes culturais múltiplas, as alternâncias entre continuidade e recusa, entre altos e baixos (numa ciclotimia de euforia e pessimismo) e o encontro entre vontade e destino – tudo se soma, numa Ibéria em que a nossa “maritimidade” se contrapõe à “continentalidade” de Espanha, projetando nos dois símbolos contrapostos – Fernão Mendes Pinto, como personagem múltipla no mundo, e D. Quixote, como imaginação e sonho. A multiplicidade da aventura da Peregrinação sublima-se na vontade do povo que Herculano encontra como explicação da independência e da unidade. O Brasil é a imagem grandiosa da frente marítima europeia de Portugal, enquanto as Espanhas projetam-se na América em múltiplos países, em razão das autonomias metropolitanas…

 

A DEMANDA DE PORTUGAL
A Portugal, segundo Eduardo Lourenço, faltou mentalidade europeia desde a segunda metade do século XVI. E o que nos ensinou Antero? A não nos escondermos no nosso passado (o Messias de Portugal é o seu próprio passado). O sebastianismo, além de prova póstuma da nacionalidade, é uma alucinação mental delirante, sentimentalmente verdadeira e racionalmente falsa (segundo Miguel Real). “Como nó central do imaginário português, o mito sebastianista sintetizou os quatro complexos culturais recorrentemente sofridos pelos portugueses: o complexo de Viriato ou viriatino, o complexo de Padre António Vieira ou vieirino; o complexo do Marquês de Pombal ou pombalino e o complexo canibalista, vinculado à inveja individual e à intolerância coletiva. Assim, ainda que de origem histórica profundamente negativa, o sebastianismo constitui igualmente uma espécie de motor ético dos portugueses, forçando-os a acreditarem dever ser o futuro melhor do que o presente, mesmo para que tal se sintam obrigados a fugir da medíocre elite portuguesa, que do País se apodera como uma coutada sua e emigrar como o fazem hoje” (o autor escrevia em 2013 na Nova Teoria do Sebastianismo). Aqui se encontra como que uma síntese, que explica, afinal, a severa crítica, em que Miguel Real aprofunda a exigência de termos de fazer mais do que meramente nos adaptarmos e que está bem presente no universo romanesco do autor... Como José Mattoso ou Eduardo Lourenço têm dito, não somos nem melhores nem piores que outros – somos um país médio, com responsabilidades e oportunidades significativas, mas na senda de Herculano tudo depende do que formos capazes de fazer. Um messianismo larvar, a sombra sebástica, a tensão permanente das contradições do nosso código genético, o uso crítico dos nossos mitos para os podermos superar em emancipação – tudo isto constitui pano de fundo do nosso ser… Esta a base para a célebre “psicanálise mítica do destino português”, publicada em primeira mão na revista “Raiz e Utopia”. Miguel Real não é, porém, catalogável. Nós somos realmente uma mistura de fatores contraditórios. E neste ponto, não podemos deixar de recordar a importância que Matias Aires (1705-1763) teve no pensamento do nosso autor. Para o filósofo luso-brasileiro, a verdadeira felicidade não é a ilusória: do poder, da riqueza e da fama; é, sim, a “da aproximação incessante à verdade, exigindo o desmascaramento da vaidade individual e social, findando no estado interior de serenidade de quem sabe (…) que tudo é vaidade”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença