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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

"DIAS E DIAS"...

 

Esta peste que nos assolou ainda vai dar muito trabalho. Mesmo com a vacinação completa, precisamos de mil cuidados. A máscara veio para ficar. Antes, admirávamo-nos com o facto de os orientais que nos visitavam ostentarem máscaras cirúrgicas que nos intrigavam. O facto é que sabemos muito pouco desta doença. Tem havido muita literatura, atual ou antiga, e milhentos especialistas (que, em bom rigor, se confundem entre eles). A ciência tem muito para dar e muito para aprender, e a verdade é que é extraordinário como ao fim de um ano já contamos com vacinas, que são preciosa ajuda. E a solidariedade? Mas não conquistámos nem a imunidade de grupo, nem qualquer certeza sobre proteção e invulnerabilidade. Houve muitas vítimas, diretas e indiretas, prudência e imprudência, responsabilidade e irresponsabilidade… No nosso panorama literário duas obras da mesma autora – uma saída antes da pandemia e outra depois, merecem referência especial. Falo de “Estar em Casa” e de “Dias e Dias” de Adília Lopes (Assírio e Alvim), preciosos auxiliares para a compreensão do inesperado fenómeno que nos atormenta, preocupa e assusta. “Estar em Casa” é de 2018 e assume um carácter quase profético. E não uso de ironia, longe disso. De facto, ao lermos os livros, percebemos a importância e a eficácia da proteção, nossa e dos outros. É verdade que fomos submetidos a uma provação, dura e inesperada, mas pudemos usar a melhor trincheira para combater o inimigo, a casa. Antes dos testes e das vacinas, estar em casa foi a medida mais eficaz. Pascoaes ensinou-nos: “Ah, se não fosse a névoa da manhã / E a velhinha janela, onde me vou / Debruçar, para ouvir a voz das cousas, / Eu não era o que sou”. E compreendemos: “O prazer do texto sim / o frete do texto não”. Ler foi o melhor refúgio. “A Tia Paulina dizia; chuva, vento frio, E também dizia: vento a puxar chuva. Eu digo o mesmo hoje aqui”. E fica-nos o desejo de poder convalescer: “Década a passar mal / e de repente o Sol / como diamantes // Estou bem / depois de estar mal”. Quanto tempo faltará ainda? Entretanto, olhamos pela janela e desejamos não “dar trabalho aos que cá ficam”… E ouvimos um médico a dizer “a novidade estimula” e outro “a capacidade de esquecimento das pessoas é muito grande”. E com linguagem profética, entre recordações sinceras de uma gata “mansa meiga bondosa macia”, temos as palavras de Sophia: “Não aceito a morte a lacuna a perda o desastre / nunca aceitarei / não me venham com tretas”.


Para mim Adília Lopes é sempre Maria José, com pelo menos cento e cinquenta anos de conhecimento. A casa da José Estevão representa a eternidade. “Na casa de jantar havia um aparador, um móvel com loiças, vidros e pratas em exposição e uma taça com frutas”. Em “Dias e Dias”, de setembro de 2020, fica demonstrado como se pode antecipar o tempo. Leio, sentidamente: “muita saúde!, muita alegria!”. Recordamos Cristovam Pavia: “Havia grandes tílias aromáticas… / E pedrinhas brilhantes, coloridas / Conforme a luz…”. E vêm à memória Camilo Pessanha e os pequenos exercícios de José Escada. Neste século e meio de conhecimento, lembramos os pratos onde se comiam os bolos – com tambores ou andorinhas. Tudo memória bem viva. Agora: “É a quarentena do coronavírus. Não devo sair de casa. (…) Aprendo muito, oiço músicas bonitas”. Ironia e dúvida: “Esta música / é linda / mas não anula / o sofrimento / não traz de volta / à vida / aqueles que amei / e que já morreram”. Ideias a fervilhar: “Acho ‘A Colher de Pau’ um livro genial. Cozinhar tem sido alucinante para mim, uma terapia. Vem aí a macacoa, a miséria? Sem esparguete, com coronavírus, a vida não é divertida. Por enquanto divirto-me”. E o que é ainda a quarentena? “Estar em casa / estar a estar / dias e dias”…


GOM

A VIDA DOS LIVROS

De 26 a 1 de agosto de 2021

“A Velha Casa” de José Régio (1945-1966) é a obra de ficção mais importante do seu autor, que considera como obra de uma vida. Não se trata, porém, de uma autobiografia, nem Lelito é o seu herói…

 

SÍNTESE CULTURAL COMPLEXA
Se há herói neste romance de seis volumes é a própria casa. Mas “trata-se de uma meditação sobre a vida humana; sobre a condição humana. Apesar disso um romance: pois a condição humana não é aí meditada senão por meio de uma localização no espaço, duma situação no tempo, e através de personagens que vão vivendo o seu destino, tecendo e emaranhando a sua teia”…José Régio (1901-1969) merece uma atenção especial enquanto referência da cultura portuguesa do século XX. Cinco elementos poderemos salientar, que o tempo se encarregará de tornar mais evidentes. E a título de exemplo, podemos referir a apreciação que Régio fez de Camilo Castelo Branco e do lugar que ocupava na nossa literatura, que é de algum modo uma apreciação que poderemos considerar paralela relativamente ao seu próprio percurso, com as naturais distâncias. A história portuguesa e a síntese complexa que comporta demonstra bem como Régio segue as passadas camilianas, compreendendo a coexistência permanente entre o que puxa para a permanência e o que reclama as transformações. De facto, José Régio (a) compreendeu que a cultura portuguesa é múltipla e heterogénea; (b) ao salientar o papel de “Orpheu” e do primeiro modernismo, bem como a necessidade de o relembrar e continuar com a “Presença”, pôs em diálogo a modernidade e as raízes culturais permanentes; (c) o exemplo de Camilo é, assim, ilustrativo do modo como este via a nossa identidade, incompreensível sem a tensão entre uma arreigada tradição provinciana e castiça e o apelo do cosmopolitismo; (d) esta mesma tensão, na qual o eu se afirma, na relação com os outros (como em “A Velha Casa”, com Lelito), está bem patente na obra de Régio, como ponto de encontro entre diversas contradições, ora entre Deus e o Diabo, ora na distância entre a cidade e a província; e (e) Portugal viverá, assim, sempre entre a lembrança das raízes antigas e o apelo à metamorfose e à mudança, sendo a aparente homogeneidade identitária feita de um complexo melting-pot que permite acolher as diferenças e completá-las, mais do que proceder à sua mera adaptação.


UMA MODERNIDADE ABERTA
Como afirma Eugénio Lisboa, a obra de Régio “insere-se (…) numa conceção de moderno, não fanática, e aceita (…) uma ideia de originalidade irremediavelmente chumbada à noção de sinceridade”. O respeito pela singularidade obriga a pormo-nos no lugar do outro, para melhor o compreender a ele, e a nós também. E Jacinto do Prado Coelho dirá: “José Régio é um poeta moderno autêntico – pela desordem psicológica, pelo hipercriticismo dos próprios instintos, pela originalidade rebuscada, pela sobriedade vincante dos conceitos atirados à cara do leitor, pelo encerramento num castelo inacessível à maneira de Julião Sorel, de Stendhal, pelo arrojo e desencontro das formas”. Lembremos, de facto, a relação histórica de Régio com Camilo, sem tentação de anacronismo, ambos têm um diálogo natural, no qual prevalece a importância da sociedade, incapaz de se fechar numa das lógicas possíveis, a tradicional ou a moderna. “Em demasia foi encomiado Camilo por características estimáveis, sim, mas não de suprema importância na criação de um artista: o seu purismo, por exemplo, ou a extraordinária opulência do vocabulário, adquirido no trato com o povo e os clássicos. Outros dos seus admiradores – que, bem portugueses, reconheciam instintos e sentimentos seus próprios genialmente expressos nos livros do grande escritor – nem souberam descer ao fundo de si mesmos nem da obra dele. Balbuciaram razões de ordem acessória, eles que as tinham de boa categoria”. Régio chama, assim, a atenção mais para a obra de Camilo e menos para a sua imagem ou para a sua biografia, não confundível com as qualidades do escritor e do cultor da língua. Daí a citação de Luís Cardim, na “Seara Nova”, em que o crítico, ao escrever sobre a biografia de Oskar Wilde, de Hesketh Pearson, afirma que a melhor maneira de falar de um autor é “muito simplesmente, a de lermos as suas obras, e deixarmos em paz a vida, e até as idiossincrasias do autor que nas suas produções não estejam refletidas”.


OBRA DE ARTE, OBRA DE PENSAMENTO
Para Régio, a obra de arte, como a obra de pensamento, tem um valor em si – é uma “realidade concreta e objetiva”, cujo estudo desprevenido deve prevalecer sobre o da biografia, fisiologia, psicologia. A riqueza camiliana vem da simbiose entre a biografia  do autor e a criação literária que a transcende. E assim, Régio salienta que o escritor aparentemente popular é, no fim de contas, menos acessível na intimidade da sua verdadeira grandeza do que, por exemplo, um Eça. Longe de um velho escritor subjetivista ou sentimental, “incorrigível narrador de histórias de amores contrariados, pais tirânicos, meninas metidas em conventos e galãs fatais, com a morte ao fundo”, Camilo é um profundo conhecedor dos clássicos e da melhor criação literária, um conhecedor da vida do povo, um estudioso atento da realidade histórica e um fino analista do género humano. Contudo, vivendo da escrita, antecipou o que o tempo veio a tornar comum – a necessidade de encontrar modos de atrair e de fidelizar os seus leitores. Enganam-se, porém, quantos se limitam a lembrar as obras mais conhecidas, esquecidos da preocupação do escritor em ir além da receita romântica, designadamente no romance histórico ou na análise da sociedade. José Régio compreende esta lição, numa circunstância totalmente diferente. Importaria agora pôr em diálogo a melhor literatura e a reflexão individual. A “Literatura Viva” significa exatamente a compreensão da heterogeneidade e das diferenças. Como em “A Velha Casa”, metáfora da vida e da realidade: “O que lhe mostrava a experiência é que ninguém, senão ele, sabia na casa como ela tinha personalidade própria; como nessa personalidade compartilhavam todos os aposentos, tendo, embora, cada um o seu aspeto funcional; e como não só a personalidade da casa era insubmissa às coisas e pessoas que a povoavam, mas antes acabava por pesar sobre os seus gestos, palavras, atitudes, sentimentos”…

Guilherme d’Oliveira Martins 
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 28 de junho a 4 de julho de 2021


O pequeno livro “O Essencial sobre Raul Brandão” de António M. B. Machado Pires (INCM. 1997) é um precioso repositório sobre um dos escritores portugueses mais fecundos do século XX, que abre horizontes para a grande literatura mundial.

 

 

NECESSIDADE DO DESCONHECIDO
“Singulares criaturas devem nascer por este fim de século, em que a metafísica de novo predomina e a asa do Sonho outra vez toca os espíritos, deixando-os alheados e absortos. A necessidade do desconhecido de novo se estabelece” – assim se exprimiu o autor de “Humus”, definindo em síntese o que caracteriza a geração de 1890, que une Camilo Pessanha, Eugénio de Castro, António Nobre ou Francisco de Lacerda. São os símbolos que se impõem, numa visão trágica do tempo. E assim afirma em “Os Pescadores”, sob a luz doirada e o azul do céu, da Foz do Douro, com o negrume do luto pelo mar agreste: “essa Foz reduz-se cada vez mais na minha alma a um cantinho (…) que retenho na memória com raízes cada vez mais fundas na saudade, e mais vivas à medida que me entranho na morte”. E é a seu avô, “morto no mar”, que Raul Brandão (1867-1930) dedica essa fantástica biografia do mar português. Militar de profissão, sem entusiasmo, leitor insaciável, cronista, polígrafo, pintor por amadorismo, o que lhe permitiu ser um extraordinário escritor de paisagens e da natureza, torna-se um sedentário. Uma vez reformado do Exército, fixa-se na casa de Nespereira nos arredores de Guimarães, com sua mulher Maria Angelina, preciosa ajuda. Aí cultiva o amor à natureza e às árvores, “verdadeiro paradigma do mistério da vida”, permanecendo sempre durante as vindimas, vindo só depois para Lisboa, onde residiu na “York House”, antes de ter uma casa própria. 


ESCRITA ARDUAMENTE TRABALHADA

A sua escrita, arduamente trabalhada, segundo um humanismo panteísta, exerce influência significativa nos autores mais marcantes do século XX, como Torga, Régio, Nemésio, Branquinho da Fonseca, Irene Lisboa, José Gomes Ferreira, Rodrigues Miguéis, Agustina, Almeida Faria ou Luísa Dacosta… Pode, aliás, dizer-se que é maior a sua influência do que à primeira vista poderia parecer – sendo um indiscutível mediador relativamente à presença de Dostoievsky na literatura portuguesa. Brandão levou, assim, à leitura do autor de “Crime e Castigo”, mas igualmente foi ele mesmo portador dos ecos dessa influência. Homem de meditação e não de ação, o escritor centra-se no “seu buraco a cismar”. Machado Pires fala, por isso, de duas faces: a do mundo da Dor e do Sonho recalcado e a da escrita das viagens, das paisagens de luz e cor… Cinco palavras marcam a sua literatura: Sonho, Dor, Tempo, Morte e Luz. “A verdadeira existência, a que nos custa a deixar, é essa que nos parece quimérica. É até se me não engano, a única que existe. Às vezes morre, dilui-se: a alma já não exala sonho, e o corpo continua a viver – mas em verdade vos digo que o homem a quem isto suceda não passa de um cadáver” (“A Farsa”, 1903). Se nos lembrarmos das obras históricas de Brandão, percebemos que é menos o acontecimento que lhe importa e muito mais o drama e as contradições humanas. “É difícil de concluir se os homens é que fazem a História ou se é a História que faz os homens”. Sobre El-Rei Junot ou sobre Gomes Freire, o que encontramos são intuições, simpatias, impulsos, quase totalmente espontâneos. Vitorino Nemésio, quando o visita em Nespereira, descobre uma gravura que representa o Remexido, rebelde da serra algarvia, defensor de D. Miguel, símbolo do povo descamisado. É a sua paixão pela adversidade… 


UMA OBRA INCLASSIFICÁVEL

Raul Brandão procura mergulhar no íntimo do ser humano. Esse desígnio é evidente em “Humus”, que Régio considera difícil de classificar, mas que David Mourão-Ferreira entende como precursor do “nouveau-roman” e que Jacinto do Prado Coelho julga ser um anti-romance. Há a projeção de um mundo dostoievskiano marcado pelos grandes conflitos da alma humana, que reúnem sentimentos e espontaneidade. A aparente desordem expositiva revela, assim, a necessidade de compreender os limites. “O importante neste mundo talvez não seja procurar a verdade – talvez seja amar. E amar não consiste em fazeres o teu dever – nem mesmo em te despires pelos outros – amar é uma irradiação. Amar é um estado de graça. Poder amar é quase ser Deus” (“O Pobre de Pedir”, 1931).  Em “Jesus Cristo em Lisboa” (1927), escrito com Teixeira de Pascoaes, mas sobretudo marcado pelo próprio Raul Brandão, torna-se evidente o eco de Dostoievski: o cristianismo do século XX defronta-se com a incompreensão do exemplo de Cristo, que se vê rodeado de ambiciosos e corruptos, o que exige uma nova luz, franciscana e idealista, dando voz aos desgraçados, aos visionários, aos pobres e aos poetas. É o retrato – di-lo A.M. Machado Pires - da “Vida em todos os seus incompreensíveis e brutais contrastes, o idílico e o prosaico, o extase e a dor, a ternura (…) e a brutalidade, o efémero e o eterno, a avidez e a fugacidade, a trágica consciência da irreversível corrida para a morte, mas também a paixão perante o egoísmo, a humildade no pecado, que vale mais do que o orgulho na virtude (…), o fantasma que existe em nós, as misérias ‘fundo de poço’ escondidas pelo eu imagem-para-os-outros ou ainda a História do historiador perante a História do Homem – a Dor, lei eterna e motor da História”. 

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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  De 24 a 30 de maio de 2021

 

A “Conferência Europeia das Humanidades 2021” constituiu oportunidade para debater a necessidade de dar ao conhecimento lugar central na sociedade contemporânea.

 

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COMPREENDER O FUTURO

A realização, na Fundação Gulbenkian, da Conferência Europeia das Humanidades, organizada pela UNESCO, FCT e Conselho Internacional para a Filosofia e as Ciências Humanas (CIPSH), no âmbito da Presidência Portuguesa do Conselho da UE, permitiu um debate aprofundado sobre um tema complexo que não pode ser abordado de forma simplificada, como se tratasse de um mero dilema entre duas culturas – literária e científica. A verdade é que, como salientou durante os trabalhos António Damásio, a compreensão da complexidade obriga-nos a não cair no velho erro de Descartes e a garantir a complementaridade efetiva entre razão e sentimento. O programa, ao propor como tema geral “Humanidades Europeias e Além”, deu especial ênfase à ligação entre reflexão e espírito científico, já que, como o Presidente da República notou, na abertura da Conferência “nenhuma sociedade tem futuro sem conhecimento e sem colocar esse conhecimento como fundamento das suas decisões sociais e económicas”, sobretudo quando nos encontramos numa circunstância de tempos críticos muito desafiantes, já que os dilemas que se nos têm colocado, designadamente com a pandemia, têm obrigado a uma articulação efetiva entre pensamento e ação, coesão social e estratégias científicas. Com efeito, os problemas complexos e multidisciplinares em causa exigem abordagens que devem combinar várias perspetivas e disciplinas, de modo a compreendermos que a medicina e a ciência política, a saúde pública e a economia têm de andar permanentemente a par, de modo que a evolução da sociedade se faça num equilíbrio permanente entre as diferentes áreas de Investigação e Desenvolvimento. Nesse sentido, a diretora-geral adjunta da UNESCO, Gabriela Ramos recordou o livro de 1722, "Diário do Ano da Peste", de Daniel Deföe, onde se retrata a sociedade de Londres durante a Grande Peste de 1665 e mostra como os fenómenos são cíclicos e as atitudes se repetem: "Para entender uma pandemia temos de compreender as relações entre diferentes realidades, desde o clima, à geografia e à história. Temos de aprender com o passado para preparar o futuro e as humanidades são os guardiães desse conhecimento". De facto, como salientou ainda, “não vale a pena ter avanços e soluções científicas se a sociedade os não compreende”. As pessoas aceitam as decisões desde que tomadas por autoridades em quem confiem e desde que disponham de informação fiável, designadamente no domínio digital. Contudo, essa relação de confiança só é possível estabelecer se houver uma presença segura das Humanidades, como fatores de diálogo e de qualidade.

 

FONTE DE CRIATIVIDADE E DE INOVAÇÃO

De facto, as Humanidades são uma fonte de criatividade e inovação. E, como afirmou o crítico de arte e escritor inglês, John Ruskin (1819-1900): "As grandes nações escrevem a sua autobiografia em três manuscritos: o livro dos seus feitos e acontecimentos, o livro das palavras e o livro das artes". Contudo, "nenhum destes livros pode ser entendido se não tivermos em consideração os outros dois". Factos, palavras e artes constituem a base estrutural para entendermos a evolução histórica – daí que a pedagogia e a escola tenham de assentar a aprendizagem na permanente ligação entre os diferentes domínios do pensamento. Assim, falar de Humanidades não pode reduzir-se à literatura ou à reflexão, como realidades separadas, devendo, sim, participar como estímulo permanente à Ciência como Cultura. Daí a necessidade de não subalternizar a Filosofia. Não é demais lembrar que as sete Artes Liberais, o trivium (lógica, gramática e retórica) e o quadrivium (aritmética, música, geometria e astronomia), associavam naturalmente as Humanidades aos diversos ramos do saber. Lembremo-nos dos exemplos de Leonardo da Vinci e de Leibniz, ou de portugueses como Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro. Fácil é de notar como, para eles, as Humanidades ligavam todas as áreas do conhecimento, não de modo autossuficiente, mas como fatores de coordenação e exigência. A crise financeira de 2008 ou a crise pandémica de 2020-21 demonstraram como a lógica positivista da cultura científica falhou rotundamente, incapaz de distinguir realidade e ilusão, verdade e aparência. O racional e o razoável têm de se articular. E hoje a questão das alterações climáticas e o estado de emergência em que nos encontramos no domínio ambiental – deixaram de ser (com a pandemia) temas longínquos, já que as questões de sobrevivência da humanidade passaram a ser bem atuais e próximas de nós. Não há desenvolvimento sem aprendizagem de qualidade e sem a prioridade dada à educação, à ciência e à cultura. Por isso, o património cultural é cada vez mais fonte de criatividade e inovação, uma vez que nos permite entender o tempo nas sua diferentes dimensões, já que o passado projeta o futuro e as raízes são chaves para a compreensão sobre de onde vimos, quem somos e o que nos distingue dos outros… Numa sociedade de informação, devemos estar aptos a transformar informação em conhecimento e o conhecimento em sabedoria. T. S. Eliot disse “Where is the wisdom we have lost in knowledge? Where is the knowledge we have lost in information?” – Onde está a sabedoria que perdemos no conhecimento? Onde está o conhecimento que perdemos na informação?”.

 

A IMPORTÂNCIA DA COMPLEXIDADE

A reflexão sobre a complexidade de Edgar Morin (que se aproxima de completar cem anos) leva-nos a entender a célebre afirmação de Pascal: «considero impossível conhecer as partes sem conhecer o todo, mas tenho por não menos impossível a possibilidade de conhecer o todo sem conhecer singularmente as partes». Há, assim, um vai-e-vem em que se funda a diligência de conhecer. E é esta preocupação que nos permite articular o uno e o múltiplo, o próximo e o distante, a teoria e a experiência… De facto, a complexidade está no coração da relação entre o simples e o complexo porque uma tal relação é a um tempo antagónico e complementar. A ciência funda-se não só no consenso como no conflito. Ao mesmo tempo, evolui a partir de quatro colunas fundamentais: a racionalidade, o empirismo, a imaginação e a verificação. Sabemos que há um diferendo permanente entre o racionalismo e o empirismo. As novas descobertas empíricas e o experimentalismo foram pondo em causa, de diversas maneiras, as construções racionais – que permanentemente se reconstituem e reconstroem constantemente a partir de novos elementos e fatores. Ao salientarmos a importância das Humanidades, entendemos que a complexidade não é uma receita, mas um apelo à civilização das ideias. De facto, «a gigantesca crise planetária é a crise da humanidade que não consegue aceder à humanidade». Duas barbáries coexistem e agem sem contemplações: a que vem da noite dos tempos e usa a violência; e a barbárie moderna e fria da hegemonia do quantitativo, da técnica e do lucro. E ambas levam-nos ao abismo. Importa, pois, entender o que Hölderlin nos ensinou: «onde cresce o perigo, cresce também o que salva».

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

De 5 a 11 de abril de 2021

 

“Sylvie e Bruno”, de Lewis Carroll, publicado em 1889-93, (trad. portuguesa, Relógio d’Água, 2003) foi o último e o menos conhecido dos livros do autor de “Alice no País das Maravilhas”, mas talvez o mais fascinante…

LITERATURA E ECONOMIA
A história tem todos os ingredientes conhecidos de Carroll e é protagonizado por duas crianças e pelas suas inesperadas reflexões. O autor explica no prefácio o que o anima nesta obra. “Uma vez que percebamos qual é o verdadeiro objetivo na vida — que não é prazer, nem conhecimento, nem sequer a fama(…) — mas que é o desenvolvimento do caráter, a subida a um mais elevado, mais nobre, mais puro estandarte, a construção do homem perfeito — e então, enquanto sentirmos que isso continua, e vai (confiamos) para sempre continuar, a morte não tem para nós nenhum terror; não é uma sombra, mas uma luz; não é um fim, mas um começo!”. Recordamos a obra, a propósito da relação entre Literatura e Economia invocada no último ensaio de Lord Maynard Keynes no livro, já por nós referido, “Ensaios em Persuasão” (Imprensa da Universidade de Lisboa, 2018) – “Possibilidades Económicas para os nossos netos”… Lorde Keynes, o maior economista do século XX e um dos grandes génios de sempre, refletiu sobre a literatura e a economia no referido ensaio sobre o futuro, no qual chama à colação Lewis Carroll, lembrando o negócio que a Rainha Branca fez com Alice sobre uma compota, mas também o estranho entendimento de um Professor e de um Alfaiate relatado em “Sylvie e Bruno”… E se falamos dessa relação, devemos começar (antes de tudo) por ler o Sermão da Terceira Quarta Feira da Quaresma, de 1669, do nosso Padre António Vieira para percebermos a importância do fenómeno económico, no que às letras escritas diz respeito. Afinal, a economia tem a ver com a “regra da casa” e com o modo como as necessidades humanas são satisfeitas. Eis por que estamos na essência da literatura. E cite-se a passagem de Vieira, em que num subtil jogo de palavras relaciona a adequação entre a utilidade dos bens e as responsabilidades de cada qual. “Quem fez o que devia devia o que fez e ninguém espera paga de pagar o que deve. Se servi, se pelejei, se trabalhei, se venci, fiz o que me devia a mim mesmo; e quem se desempenha de tamanhas dívidas não há de esperar outra paga”. Entre a obrigação e o direito, entre o dever e a paga, entre o serviço e a responsabilidade, temos a essência do que hoje designamos como sustentabilidade – que é a palavra tecnocrática para exprimir o que é natura, enquanto equilíbrio entre a necessidade e o custo.


PROCURA DE EQUILÍBRIO
A economia é exatamente a procura desse equilíbrio – que, mais do que a riqueza, obriga à criação de valor. E como o que tem mais valor é o que não tem preço, estamos na essência das Humanidades, da comunicação entre as pessoas e das Artes como elementos criadores por excelência. Por isso, o Padre Vieira diz-nos que “quem fez o que devia devia o que fez” – do mesmo modo que “ninguém espera paga de pagar o que deve” O barroco jogo de palavras vem exprimir uma ordem simples do que é a capacidade criadora. Pagar o que cada um deve, fazer o que cada um pode, é no fundo, representar a vida como uma relação permanente de cada um com o outro e de todos nas relações que estabelecem entre si. Voltando a Keynes, este lembrava que Alice não gostava da compota que a Rainha lhe queria dar. Mas esta descobriu o estratagema para que a compota fosse recebida, apenas como um valor futuro. De facto, o pensamento económico comporta sempre consideração sobre o futuro. “O homem ‘determinado’, dizia Maynard, está sempre a tentar garantir uma imortalidade falsa e ilusória para os seus atos, empurrando o seu interesse por eles para a frente no tempo”. Eis a chave da narrativa: ligar o tempo presente e o passado ao futuro – como faz Xerazade nas “Mil e Uma Noites”. O que importa para Xerazade é conseguir mais uma noite de vida, estendendo as possibilidades da existência para além do imediato. E estamos aí na essência da narrativa e da literatura. Que é a literatura senão a criação de valor pela compreensão do tempo e da vida. O “homo economicus” de Keynes, que ele considera ‘determinado’ – “não gosta do seu gato, mas dos filhos do seu gato; bem, na verdade, nem dos filhos do seu gato, mas apenas dos filhos dos filhos do seu gato, e assim sucessivamente para todo o sempre até ao fim do reino dos gatos”… E regressando a Lewis Carroll. Para a Rainha “compota não é compota, a não ser que se trate de um caso de compota amanhã: nunca compota hoje”. Como Alice não gosta de compota, a Rainha oferece dois dinheiros por semana e compota dia sim, dia não. Portanto, falamos de compota amanhã ou de compota ontem, mas nunca de compota hoje. E como hoje não é nem ontem nem amanhã, nem sim, nem não, hoje é sempre hoje – nunca há compota hoje. E assim se cria a ficção. Do mesmo modo, como o paradoxo de Zenão, no romance “Sylvie e Bruno”, o alfaiate nunca vai receber a dívida do professor porque o montante da dívida vai sempre duplicar em cada ano – até morrer. E ele vai esperar, porque vale sempre a pena esperar mais um ano para obter o dobro do dinheiro. A lógica, a economia e a literatura digladiam-se e têm sempre um amanhã, como Xerazade e o professor ardentemente desejam, iludindo o alfaiate e o Sultão…


QUE OPORTUNIDADE?
Isabel I de Inglaterra talvez não se tenha apercebido de tudo quando investiu na expedição de Francis Drake da “Corça Dourada”, mas tomou a decisão certa. De facto, cada libra que Drake trouxe para casa em 1580, transformou-se hoje em 100 mil libras, pelo poder dos juros compostos. Mas será que o futuro repetirá o passado? O tempo nunca se repete – e a ilusão do alfaiate, se é a fonte da literatura, vai deparar-se com mil fatores complexos e aleatórios. “O ritmo a que poderemos alcançar (…) o destino da felicidade económica será definido (diz Keynes) por quatro elementos: a nossa capacidade de controlar a população, a nossa resolução de evitar guerras e conflitos internos, a nossa disponibilidade para confiar à ciência a orientação das questões que são do domínio da ciência, e a taxa de acumulação fixada pela margem entre a produção e o consumo. Destes quatro elementos, o último cuidará facilmente de si mesmo, se os três primeiros forem cumpridos”. E eis aqui a chave de todos os mistérios. É que apenas a imaginação e a literatura, por um lado, a inteligência e a capacidade de sermos prudentes a encarar o futuro, por outro, poderão permitir que um destino de felicidade não se torne uma realidade vã…   

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 29 de março a 4 de abril de 2021

 

«Sinais de Fogo» de Jorge de Sena (Livros do Brasil, 2017) é na obra do autor uma referência fundamental.

 

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A MEMÓRIA DOS ANOS TRINTA

Os anos de 1930 em Portugal foram literariamente marcados pela confluência entre o psicologismo e a incerteza social, num momento em que, ao contrário do que acontecera nas vésperas da Primeira Guerra, havia consciência de que algo de trágico se preparava. Em Sinais de Fogo, publicado postumamente em 1979, Jorge de Sena, com essa consciência, faz a análise de um tempo perturbador. O panorama geral é o de uma guerra próxima, que se indicia no seio da sociedade, e deixa as pessoas inseguras. Era uma sensação estranha e, ainda que pudesse não nos tocar diretamente enquanto país, teria sempre efeitos. E o romance, que procura retratar esse tempo, regista uma lembrança autobiográfica. O realismo cruza-se com o sonho, e o desenho geral da narrativa não esquece a tónica surrealista. Sinais de Fogo é concebido como o início de um ciclo não cumprido, que se intitularia como Monte Cativo, e que decorreria entre 1936 a 1959. Tudo começa na Figueira da Foz, subitamente cheia de espanhóis, com uma guerra civil em curso do lado de lá da fronteira, a perturbar já a tranquilidade da província.

 

A GUERRA TÃO PRÓXIMA

O ambiente político da guerra e de um regime policial recém-implantado constitui a base da ação – num romance de formação marcado pelo acordar dos sentimentos mais íntimos de um adolescente... E o protagonista interroga-se: “Era eu diferente dos outros? Estivera, desde sempre, destinado a sê-lo? Ou um conjunto de circunstâncias excessivamente extravagantes me transformara o suficiente para isso? Mas, se as circunstâncias haviam podido ter um tal resultado, não seria porque já eu estava destinado à diferença (que poderia dar-se ou não dar-se) de um conjunto delas agir sobre mim? Eu não queria ser diferente dos outros em nada, e não me sentia diferente. Pelo contrário, o que eu descobrira, ou descobria, é que todos são diferentes, desde que a hora ou o momento surjam”… A poesia, os sentimentos íntimos, a consciência política, tudo emerge num torvelinho de acontecimentos. E é um poeta que vai nascendo… “Poeta, para mim, como para a minha família, e para os meus amigos, era uma pessoa algo caricata, segregada da normalidade da vida, e que se instalava na personalidade romântica de falar por conta própria ou dos outros, como se o que ele dissesse fosse da mais alta e especial transcendência, não o sendo realmente para ninguém a não ser em ocasiões muito especiais”. Como diz Jorge Fazenda Lourenço: “Sinais de Fogo seria uma longa meditação sobre o caminho que vai do instante de se ‘ter nascido poeta’ (por Graça) ao momento de ‘reconhecer-se poeta’ (por Obra)” (“Relâmpago”, nº 21, outubro de 2007). E esse percurso, neste romance de formação, acompanha o drama violento da Guerra de Espanha e descreve a evolução difícil do desenvolvimento espiritual, do desabrochamento sentimental, da aprendizagem humana e social. A instabilidade externa pontua a agitação íntima numa metamorfose, que antecipa e justifica a profunda alteração das circunstâncias do mundo. Daí a preocupação de Jorge de Sena, como romancista, distanciado no tempo, em misturar propositadamente a realidade e o sonho, o conjunto e a singularidade… E assistimos assim à sucessão de uma guerra e de um armistício entre Jorge, o protagonista, e as suas memórias, quando o país e o mundo mudam intensamente. E os anos trinta anunciam com nitidez esse contraste entre a ilusória placidez interna de um Portugal ameaçado, mas incrédulo, e a proximidade de uma grande tragédia que, como sabemos, vai ser global, sem se conhecer se seríamos também envolvidos no drama anunciado. De qualquer modo, avista-se no horizonte o negrume da morte… O certo é que “a imprevisibilidade não era senão o sinal de que o maior horror da responsabilidade estava em não poder haver responsabilidade alguma”. E, ao cair do pano, com a ameaça irónica de uma intentona sem sucesso, vislumbramos a estranha contradição entre o medo e a angústia das tragédias imprevisíveis. E é a própria responsabilidade que se desvanece, perante a negação da liberdade. “Não era que as pessoas fossem coniventes de uma revolução falhada (…). Algumas, por certo leriam o jornal com o mesmo ansiado prazer de a ordem e a disciplina serem mantidas, que houvera na voz de minha mãe. E, todavia, essas mesmas sentiam-se sós e incomunicáveis, por terem aceitado que a ordem e a disciplina fossem uma coisa exterior a elas, defendida por outros, em nome de um governo que tomara sobre si o defini-las e se atribuía a omnisciência mesmo de revoluções que chegavam a sair e causavam mortos e feridos…”.

 

REFERÊNCIAS CONTEMPORÂNEAS

Este é o tempo em que a revista “Presença” (1927), órgão do nosso segundo modernismo, valoriza a narrativa de aventura individual e das questões não redutíveis aos conflitos sociais. É a “Literatura Viva” que está em causa. Casais Monteiro teoriza sobre o Romance Contemporâneo. Elói – ou Romance numa Cabeça, de João Gaspar Simões (1932) e O Jogo da Cabra-Cega de José Régio (1934) ilustram essa preocupação. Régio assume um tema confessional, no qual estão ligados os conflitos interiores entre o humano e o divino, o bem e o mal, a carne e o espírito. Pedro Serra descobre a pós-adolescência, com um alter-ego, Jaime Franco, como contraponto diabólico de si. Diferentemente, a novela O Barão de Branquinho da Fonseca (1942) baseia-se numa complexa invenção mítica de uma personalidade dominadora que leva o narrador para surreais caminhos mágicos. É o tema da singularidade pessoal que ocupa os caminhos do novo Romance. Note-se, aliás, que alguém distante do presencismo, como José Rodrigues Miguéis, publica em 1932 Páscoa Feliz, sob a influência de Dostoievsky e Raul Brandão, em registo psicológico: “a verdade é que psicologia a mais, angústia a menos, o Renato desta novela é apenas o subproduto de uma fauna provinciana que em Lisboa desagua, se dissolve e perece”, na expressão do autor. E a dimensão psicológica social termina em pura esquizofrenia. Por outro lado, José Marmelo e Silva em Sedução (1937) aborda o tema complexo da adolescência e da libertação moral de um modo reconhecidamente acutilante e original com apreciável capacidade analítica e sentido romanesco, mais tarde confirmado em Adolescente Agrilhoado (1948).

1934 é ainda para Miguel Torga, que se afastara do grupo da “Presença” com Edmundo de Bettencourt e Branquinho da Fonseca em 1930, o ano emblemático do surgimento do nome literário, que invoca a vocação ibérica de Cervantes e Unamuno e a urze dos montes transmontanos. Isto ocorreu com a novela A Terceira Voz, onde o escritor procura mostrar a força do espírito inconformista, da independência de espírito, da resistência, do antes quebrar que torcer, do sacrifício propiciatório de reacender o fogo pátrio… Se é certo que não foi esta a obra que pôde consagrar, depressa a força que lhe estava subjacente projetou-se nas páginas de A Criação do Mundo e no Diário, que vieram a consagrar o escritor como referência fundamental – consciência crítica, cidadão capaz de ligar duravelmente a salvaguarda da singularidade e a capacidade de compreender a força emancipadora da sociedade. Será diferente a década seguinte, mas a tomada de consciência de uma singularidade que se torna ponto de encontro entre o reconhecimento da criatividade individual e a necessidade libertadora do espírito crítico marca decisivamente a caminhada que Jorge de Sena descobre em Sinais de Fogo, no sentido da presença do eu no mundo.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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JÜRGEN HABERMAS

O grande pensador que nos diz:
envergonha-te de morrer antes de teres alcançado uma vitória para a humanidade.


No passado dia 28 do corrente na Fundação Calouste Gulbenkian colocaram-se as questões inerentes aos livros e às leituras, tendo em conta os desafios da era digital.

Debater o papel do livro e da leitura na era da internet tendo como convidado o filósofo e sociólogo alemão, Habermas, figura central do pensamento contemporâneo que desde logo, confessa:

No meu trabalho diário sentir-me-ia perdido sem o meu computador pessoal, mas não sou verdadeiramente um habitante do novo espaço virtual. Não participo nas redes sociais, não leio 'e-books' e de tempos a tempos escuto os relatos da minha neta sobre o seu admirável mundo novo.

Gomes Canotilho deu-nos conta que em 2010 Habermas falhou a presença em Portugal por razões de saúde. Desta feita aceitou fazer a viagem até Lisboa por se tratar de uma conferência sobre educação

Habermas um dos mais influentes filósofos do mundo a dois passos de física distância disse-nos: temos um ascensor comum.

Na semana passada, tinha lecionado uma aula sobre a Europa alertando, naturalmente, para os raciocínios de Jügen Habermas.

Expressei o que entendia ser a necessidade de uma política de saúde comum entre os povos, nos quais enfim, até se enraízam os mesmos princípios constitucionais, mesmo que sem as mesmas origens étnicas, linguísticas ou culturais.

Recordei a importância da Europa no pensamento de Habermas e que atravessa áreas como a ética, a filosofia da religião, a linguagem, a estética, entre outras temáticas, e recordando que a Fundação C.G. já editara este ano a obra de Habermas “A transformação estrutural da esfera pública”.

Para o filósofo, "no caso da pós-democracia, a perceção é a de que os governos não só perderam a vontade como também a força para intervir de modo a alterar o estados dos mais desfavorecidos".

Deste modo, poderemos colocar a possibilidade de alargar as fronteiras da legitimação democrática para lá das fronteiras do estado-nação?

Habermas entende que a transnacionalização da democracia oferece uma saída que não se compadece com a apatia do mundo ocidental, nem com o distanciamento em relação aos políticos, existindo mesmo uma exigência, por parte dos cidadãos e grupos de protesto, de uma democracia direta.

Aqui um silêncio interrogativo do auditório. E acrescentei que mais nos atiçara o pensador:

o preço a pagar pela governação para lá dos estados é a crescente insignificância dos processos de legitimação no interior do estado-nação (…)”

Então a resposta reforça a afirmativa:

 necessário se torna que surjam novos tipos de comunidades transnacionais e a União Europeia é suposta ser a primeira desse tipo de instituições, explicou o autor da “Teoria da Acção Comunicacional”.

No entanto, prosseguiu Habermas, a crise da zona euro é a prova de como é difícil o caminho até se chegar a um “sistema democrático supranacional ambicioso e com vários níveis”.

Ultrapassar o atual estado de coisas implica, defendeu, uma mudança no espaço público europeu, um espaço que é mais uma soma de espaços públicos nacionais do que um fórum de discussão de questões genuinamente europeias e comuns a todos os estados-membros.

A mundialização, a busca planetária, a Europa de geometria variável ou a la Carte, os laços de pertença interrompidos pelo “poder de agenda”, mostram-nos que, esta crise nos clareou o quanto é necessário mudar de política, e levá-la a enquadramentos partilhados por políticas económicas e sociais que nos libertem dos mercados financeiros, neles responsabilizando investidores e não contribuintes.

Claro está que para se caminhar neste futuro os países têm que se afastar dos egoísmos nacionais e adotar verdadeiras perspetivas europeias comuns, não conformadas ao mercado, mas sim, à modificação do seu papel em prol de um advir consciente, responsável e inequivocamente seguro da geração que se deseja por uma justiça a recriar, começando esta em cada um.

Mas os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia, daquilo que os europeus devem uns aos outros. Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Quantas vezes a política do dar e do haver prejudicou a identidade dentro da União Europeia? Lancei aos alunos. Quantas vezes? E repito a análise de Habermas

Vejo isto como um sinal de timidez política, quando não de puro oportunismo, perante um desafio de dimensões históricas, concluiu o filósofo.

Habermas, um dos maiores pensadores do nosso tempo, encerrou com estas palavras a sua conferência sobre a democracia na Europa, na passada segunda-feira, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa.

Fica por repensarmos a razão e o limite das transferências de soberania que não colocam em causa a coragem da revisão dos tratados, e fica por saber o quanto os meus alunos puderam compreender que qualquer dos caminhos tem custos, mas que é preciso sair do conforto dos egoísmos nacionais que nos condenam, e que saibamos olhar-nos como parte de uma comunidade, independentemente de fronteiras, na qual saibamos responder à  questão: quem somos nós?

Ou

E se precisarmos um dia, absolutamente de resolver um trágico problema comum?

Se estas controvérsias não forem lançadas nos espaços públicos nacionais, estes serão moldados de acordo com o formato das ‘democracias conformadas”, digo.

Mas, os partidos políticos evitam a questão da solidariedade europeia como se ela não fosse o grande desafio de dimensões históricas.

Nasceu em Düsseldorf, em 1929 Habermas, e foi fortemente influenciado pelo pensamento de Martin Heidegger.

Habermas para quem

O Homem é um “sim” que vibra com harmonias cósmicas

Recorde-se também o encontro entre Habermas e Ratzinger, no qual se discutiram "as bases pré-políticas e morais do Estado democrático". Habermas e o cardeal debateram razão e fé, capitalismo globalizado, moral nas sociedades pluralistas e mediáticas, interculturalidade, poder e direito comum.

Saibamos sempre que a Cultura se situa no contexto da história e que se limpem os pés e se usem mascaras que protejam a sanidade das ideias antes da tolerância de cada um a si mesmo.

E com este filósofo, casa cheia afinal na Fundação Gulbenkian!

 

Teresa Bracinha Vieira

 

Obs: Texto muito similar foi publicado neste Blogue há cerca de 8 anos. Pouco depois, o atual, foi publicado noutra sede.

A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de março de 2021

 

“A Mocidade de Herculano” é a dissertação de doutoramento de Vitorino Nemésio (1934). Mas é muito mais do que isso: é o romance de uma figura cultural única e marcante – e aí encontramos não só a paixão poética, mas também a mestria romanesca, que prenuncia o genial “Mau Tempo no Canal”.

 

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Na década emblemática de 1930, devemos chamar à colação Vitorino Nemésio de um modo talvez inesperado, mas depressa compreensível. Refiro-me à dissertação de doutoramento “A Mocidade de Herculano até à volta do Exílio”, defendida em 1934, que constitui muito mais do que um documento académico, já que é uma obra-prima da ensaística portuguesa. E se falo desta referência é porque não é despicienda a escolha do tema e o seu tratamento. Pode dizer-se que é o romancista e o poeta que aqui se anunciam, o que nem sempre foi bem entendido no claustro académico. Bem assinala David Mourão-Ferreira “o rigor da minudência erudita e a certeira intuição de quem sabe sondar, a um século de distância, toda a complexidade de um grande destino que se vai construindo”. Herculano surge como uma grande personagem, como um defensor da liberdade, num caminho de dúvidas e incertezas, mas um verdadeiro símbolo de um pensamento que estava em perigo quando o investigador o escolheu. Sente-se no jovem Nemésio uma especial identificação, subtil é certo, mas evidente – sobretudo por contraponto a um tempo em que o panorama político se apresentava como adverso relativamente à defesa e preservação dos valores queridos pelo historiador. Quando lemos “A Mocidade de Herculano” sentimos que o rigor historiográfico permite a construção de um quadro narrativo de uma grande riqueza, em que a singularidade se junta à necessidade de compreensão do contexto social e político – que será de grande utilidade para a riqueza da obra romanesca do autor. “Tenho pensado e vivido tanto com Herculano, que agora sou assim uma espécie de seu neto póstumo. Neto, não!, que o meu avô mais velho nasceu em 1841 (…) e Herculano é de 1810. E, mesmo para o meu bisavô, talvez fosse velho de mais. Como seria meu bisavô? Sei ou julgo saber como foi Herculano: não sei de meu bisavô senão por vagas memórias”. E o escritor lembra, ao menos, que em 1832, quando Herculano desembarcou na Terceira, o historiador e seu bisavô respiraram o mesmo ar, qualquer que fosse a distância a que tivessem estado. Estamos perante um verdadeiro romance, mas é o “abalo do poeta” que está na raiz do biógrafo. Perante a massa enorme de elementos sobre a emigração portuguesa existente no Museu Britânico, Nemésio restringe-se ao exílio de Herculano, “não sem investigar manu diurna et nocturna (como diziam nossos mestres), em três anos de full time, todo o âmbito da operosidade e da espiritualidade do escolhido. Interessava-me o homem inteiro (…) sempre e em tudo indistintamente filósofo, poeta – homo sum, nihil humanum a me alienum…”. A leitura dos dois volumes é apaixonante, porque neles deparamos com o feliz encontro de uma irrepreensível análise histórica e literária, que enriquece um percurso acidentado de carácter pessoal, com uma magnífica ilustração do contexto cultural europeu e nacional. Sentimos a presença desde a comum mediania à emergência de uma perceção elevada das mais relevantes personagens do tempo. “Emigrei da idade de vinte anos em consequência da infeliz tentativa da revolução do 4º Regimento de Infantaria, tentativa conduzida com tanto valor pelos meus honrados amigos o capitão Albino Francisco de Figueiredo e tenente-coronel Bravo…”.  E assim Herculano foi cúmplice de um “agente incógnito” e teve de fugir para a fragata “Melpotmène” e depois para bordo de um paquete inglês que o levou ao litoral da Mancha. E por muito que Inocêncio (o dicionarista) se afadigasse em referir as origens miguelistas de Herculano, a verdade é que encontramos o percurso natural de um português num tempo de contradições, cuja coerência determinada é feita de um percurso sempre sério e refletido…

 

AINDA O SIGNO DA LIBERDADE

Se a liberdade é o pano de fundo na prova académica de Nemésio no tempo em que o horizonte se enchia de nuvens totalitárias, na década seguinte Mau Tempo no Canal é a obra-prima, escrita nos anos de início da Guerra, a partir de 1939, na qual encontramos também o elogio da liberdade, na personalidade de Margarida Clark Dulmo, num tom original a superação dos limites do psicologismo “presencista”, bem como da lógica social neorrealista. É algo de próprio e de original, que podemos aproximar do rigor da “Mocidade de Herculano” de uma extraordinária dimensão poética. Trata-se de uma narrativa que concilia o genuino sabor local e uma reflexão universalista, relaciona a singularidade e o destino, o mistério e o presságio, o sonho e a tragédia. David Mourão-Ferreira classificará, com justiça, a obra romanesca como «a mais complexa, mais variada, mais densa e mais subtil em toda a nossa história literária». Margarida e João Garcia protagonizam, de início, um namoro contrariado pelas relações tensas entre as famílias de ambos, no contexto da sociedade açoriana plena de ressentimentos, medos, angústias, contradições, uma família de raízes aristocráticas, mas em situação difícil, e a ambição de um novo-riquismo desejoso de legitimação. E a grande metáfora é a da melancolia das ilhas e do mar oceano, da distância, mas também da liberdade e da esperança, da incerteza e da dúvida sentidas, em especial, entre o Faial e o Pico, entre o anfiteatro da cidade da Horta e o majestoso Pico, referência mítica do tempo que permanece inexorável, belo e ameaçador. Fica lembrada a carta de Antero a Oliveira Martins: “Aqui nos Açores, há um provérbio que reza: ‘S. Miguel, burgueses ricos; Terceira, fidalgos pobres; Faial, contrabandistas espertos’. Com efeito, a Terceira é uma terra essencialmente portuguesa e peninsular: fidalguia, pobreza, toiros, insouciance sóbria e filosófica, entusiasmo, bizarria e parlapatice: numa palavra os defeitos e as qualidades correspondentes do idealismo peninsular, que V. tão bem conhece e não menos bem descreveu já”… Margarida é a figura marcante do romance, forte e sensível, inteligente e arguta, livre e determinada, uma personalidade que não nos pode deixar indiferentes, porque compreende como ninguém a terrível teia em que está envolvida, entre sonhos e augúrios. Como é insondável o destino. Mas, no final, sente-se cega…"cega como a serpente do anel que nenhum ventre de peixe levaria a mesa humana e que àquela hora jazia, como a cucumária dos abismos, no mais secreto do mar"… E entre a força destas duas obras maiores da cultura portuguesa, lembramos o que Nemésio considera ser a sua existência. “Toda a vida estudei de tudo e o mais que podia para o que desse e viesse. Não me preparava dia a dia para amanhã e depois ou racionando, como a formiga, do verão propício ao Inverno rigoroso. Mas talvez não fosse apenas leviano, como a cigarra, pois tive de dançar no Inverno e cantei sempre”.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 15 a 21 de março de 2021

 

“Toda a Terra” de Ruy Belo (Moraes, 1976) revela-nos a força criadora do poeta, num momento importante do seu percurso criador.

 

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FIDELIDADE À VIDA

Num ensaio célebre sobre Manuel Bandeira, publicado em “O Tempo e o Modo” (nºs 62-63, 1968), lido na Sociedade Nacional de Belas-Artes, numa homenagem ao poeta brasileiro, por sugestão de Sophia de Mello Breyner, Ruy Belo afirmou que o autor de Vou-me Embora pra Pasárgada tinha “noções muito precisas acerca da poesia e do público”. Por isso defendia “a necessidade de uma fidelidade à vida tal como ela é”, fazendo-o “pelo recurso à enumeração e pela rigorosa passagem do singular ao universal, o que deve bastar para assegurar a um texto (…) uma temperatura poética que o tempo dificilmente fará arrefecer. E o poeta bem sabia a importância do manejo e combinação das palavras encantatórias criadoras de poesia. Ao lermos esse ensaio e o outro que publicou na revista “Rumo” em 1966 compreendemos qual a ideia de Ruy Belo sobre “como um poeta se faz”. E a propósito de Manuel Bandeira e do seu carácter precursor, o poeta de Toda a Terra coloca-nos no ensaio o caminho que preconiza para que, como poeta, possa exprimir a paixão pelas palavras. Ao rever há dias o filme “Ruy Belo, Era Uma Vez”, de Nuno Costa Santos, na RTP-Memória, reencontrei a lúcida análise de António Feijó sobre a importância fundamental do contributo de Ruy Belo na poesia portuguesa do século XX, pela originalidade, inteligência e profundidade de um testemunho, que abriu inúmeras pistas para as novas gerações e para a literatura da língua plural que o português é. E, com emoção, ouvimos, mais uma vez, a lembrança de Teresa Belo, de saudosa memória, cuja generosa persistência permitiu reforçar a tomada de consciência da singularidade excecional do poeta. Se refiro os ensaios sobre Manuel Bandeira, dados à estampa em Na Senda da Poesia (1969), é para deixar claro que essa reflexão de Ruy Belo faz luz sobre o seu próprio percurso e sobre a preocupação que tinha relativamente à relação entre as palavras e a vida. Daí a invocação do poema “Os Sapos” de 1918, que constitui um exemplo significativo, verdadeiramente um pequeno manifesto, sobre a necessidade de os poetas não se deixarem prender pela moda do tempo: “Enfunando os papos / Saem da penumbra, / Aos pulos, os sapos. / A luz os deslumbra. // em ronco que aterra, / Berra o sapo-boi: / - Meu Pai foi à guerra! / - Não foi! – Foi! – Não foi!” // O sapo-tanoeiro, / Parnasiano aguado, / Diz: Meu Cancioneiro / É bem martelado. // Vede como primo / Em comer os hiatos! / Que arte! E nunca rimo / Os termos cognatos // O meu verso é bom / Frumento sem joio. / Faço rimas com consoantes de apoio…”.  Afinal, o sapo-tanoeiro, representante do parnasianismo, sacrifica a poesia às artes poéticas, reduzindo a forma a fôrmas. Mas, longe da grita, na beira do rio, o sapo-cururu (ou seja, o próprio Manuel Bandeira) soluça, transido de frio, afastado da tentação do sapo-tanoeiro. É assim que Bandeira chega à Semana de Arte Moderna de 1922, com uma vivacidade e uma força inovadora, que claramente define em “Itinerário de Pasárgada”: “em literatura a poesia está nas palavras, se faz com as palavras e não com ideias e sentimentos, muito embora, bem entendido seja por força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia”. E Ruy Belo lembra “Evocação do Recife”: “A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros / Vinha pela boca do povo na língua errada do povo / Língua certa do povo / Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil / Ao passo que nós / O que fazemos / É macaquear / A sintaxe lusíada”.

 

UM SÍTIO DE SILÊNCIO

Contra as fôrmas da moda parnasiana, Manuel Bandeira, atento à língua certa do povo e “industriado no convívio de Camões”, transforma defeitos em recursos e alcança “um ritmo lento, sincopado, que é de apreciar”. Eis como entendia ser importante ligar a palavra a todos quantos a usam, de modo a compreendê-la como realidade viva, sempre em mutação, para ser fiel intérprete de uma real capacidade de se fazer entender, de comunicar e de compreender os valores enraizados na vida. “Quero uma mesa e pão sobre essa mesa / na toalha de linho nódoas de vinho / quero só isso nem isso quero” – dirá o poeta em Toda a Terra. E ainda o ouviremos: “A minha vida é hoje um sítio de silêncio / a própria dor se estreme é dor emudecida / que não me traga cá notícias nenhum núncio / porque o silêncio é sinónimo da vida”… Trilhando caminho diferente de Manuel Bandeira, Ruy Belo é, no entanto, fiel ao espírito aberto e livre daquele, e procura fôlego, como fazia nos dias em que ia mar adentro em Vila do Conde perante as ondas bravias. “A mim morto no mar entre algas e corais / que notícias me dais aí da superfície / dessa única terra onde vivi / e foi minha ambição morrer pra nunca mais? / Ainda cheira a esteva por aí?”.

 

NÃO HÁ BEM MAIS HUMANO QUE A PALAVRA

Compreender a vida, obriga a usar as palavras certas para a dizer e interpretar – eis o que está em causa. Como o autor de Boca Bilingue afirmou numa entrevista em 1962 ao “Diário Ilustrado”: “A poesia não constitui um fenómeno isolado no contexto cultural. Poesia é fundamentalmente linguagem, e a língua, sendo em si mesma um facto de cultura, permite a fixação e a transmissão de toda a cultura. A poesia enquadra-se na arte e distingue-se das outras artes quanto ao ‘meio’ (o termo aqui, embora, claramente insuficiente, é aplicado na sua aceção vulgar) de expressão”. E é esta circunstância que a autonomiza e distingue. De facto, o poeta compreende, melhor que ninguém, que cada palavra é um infinito, “que exerce o sortilégio que o poder mágico lhe permite”. Eis o que Ruy Belo procurou no seu rápido caminho. “Não há bem mais humano do que a palavra, de tal maneira que ela até compromete na inteligência do homem toda ou quase toda a sua existência. Ela ajuda a criar, e participa da história do homem. Daí que pô-la em jogo seja movimentar o universo”. E se, para Ruy Belo, a palavra é humana, naturalmente se torna social, comprometida, responsável. Ela abre diversas relações com outras palavras e sobretudo com pessoas. Vista a esta luz, a poesia é o lugar “onde convivem umas com as outras as palavras”. E é isto que sentimos ao ler os poemas longos do autor. Teresa Belo recordava, por isso, os exercícios intermináveis que dedicava aos encontros e desencontros de palavras. Afinal, se “O Guardador de Rebanhos” veio de um só jacto; Régio confessava: “Há quanto, há quanto já que os versos me não vinham”… Foi na leitura de Homero que se educaram todos os atenienses, mas Platão preconizava a expulsão dos poetas da cidade pelo perigo que representavam. Hölderlin, se reconhecia a inocência da palavra, considerava-a o mais perigoso dos bens. “A vida não se compadece com ideologias vãs / a vida pede pouco mais que vida / Para sabedoria não existe idade / mas a felicidade existe um só momento”…  

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de fevereiro de 2021

 

Luís Sepúlveda (1948-2020) deixou-nos inesperadamente há um ano. Era um amigo de Portugal e a sua obra mantém-se atual, plena de humor e de sentido quase profético, como na “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (Porto Editora, 2008).

 

historia de uma gaivota e de um gato que a ensinou

 

UMA MEMÓRIA VIVA

Ainda a pandemia do Covid-19 dava os seus primeiros passos e, regresssado das “Correntes d’Escritas”, Luís Sepúlveda foi das primeiras vítimas desta terrível peste que assolou o mundo e da qual ainda não nos libertámos. Com uma obra plena de vitalidade, aprendemos com o escritor multifacetado a importância da memória – memória de acontecimentos, memória de pessoas, que  transmitia intensamente. Mas a sua personalidade irrequieta fazia questão de lembrar a tragédia ocorrida no Chile em setembro de 1973. Enquanto pensávamos que esse país parecia ser a exceção numa longa lista de pronunciamentos militares em que a América do Sul era pródiga – eis que o Chile se tornou, com a queda de Allende, mais uma triste confirmação de que a liberdade e a democracia nunca estão adquiridas. E Luís Sepúlveda era o exemplo de alguém que representava o entusiasmo dessa juventude chilena que acreditou na vitalidade inovadora de uma democracia social audaciosa. O certo é que nesse ano de 73 muitos sentimo-nos derrotados com a vitória de Pinochet. E nos olhos de Luís Sepúlveda percebíamos a expressão de uma esperança então derrotada, mas o ânimo de quem acreditava generosamente na força da liberdade, do pluralismo e da capacidade de fazer renascer a democracia no Chile, depois de lições dramáticas que foram sendo aprendidas.

 

UMA VIDA CHEIA

Nascido em 1948, teve uma vida cheia – como jornalista, militante político, romancista, realizador de cinema e argumentista. Logo em 1970 venceu o Prémio Casa das Américas pelo seu primeiro livro, “Crónicas de Pedro Nadie”, e uma bolsa de estudo na Universidade Lomonosov de Moscovo, onde apenas ficaria cinco meses. Foi membro ativo da Unidade Popular chilena nos anos 70, mas partiu para o exílio com a chegada da ditadura militar. Viajou pelo Brasil, Uruguai, Bolívia, Paraguai e Peru. Viveu no Equador entre os índios Shuar, numa missão de estudo da UNESCO. É essa experiência que inspirará o seu romance “Um Velho que Lia Romances de Amor” (1989) – um verdadeiro hino de amor à floresta amazónica, que se tornou uma das obras-primas da literatura latino-americana, em que o humor se liga ao tratamento muito sério de um tema candente. Em 1979 alistou-se nas fileiras sandinistas, na Brigada Internacional Simon Bolívar, e depois da vitória da revolução, trabalhou como repórter. Em 1982 partiu para Hamburgo, atraído pela literatura alemã, militando no movimento ecologista, percorrendo os mares do mundo com a Greenpeace, entre 1983 e 1988. Em 1997, instalou-se em Gijón, em Espanha, na companhia da mulher, a poetisa Carmen Yáñez, tendo fundado e dirigido o Salão do Livro Ibero-americano, destinado a promover o encontro de escritores, editores e livreiros latino-americanos e europeus. Cultor da amizade, o escritor disse em “Jantar com Poetas Mortos”: “os amigos não morrem, simplesmente morrem-nos, uma força atroz mutila-nos da sua companhia e continuamos a viver com esses vazios entre ossos”. A força de memória está ainda na expressão de uma personagem desse livro – “enquanto falarmos deles e contarmos as suas histórias, os nossos mortos nunca morrem”. O método do escritor era o da deambulação e a partir dela contava histórias ouvidas a pessoas que foi conhecendo. O ofício de escritor era, assim, captar pequenos detalhes da existência, para que os afetos permanecessem. E considerava-se um cidadão-fronteira, entendendo essa linha não como um lugar de separação, mas como um modo de unir, um ponto de contacto, de diálogo e de novos conhecimentos. No fundo, entendia que assim poderia compreender melhor a natureza, na militância ativa dos últimos anos da sua vida na causa ecológica e na defesa da natureza. A “História de uma Gaivota e do Gato que a ensinou a voar” (2008) é ilustração viva dessa militância ecológica. Zorbas é um gato grande, preto e gordo, a quem uma gaivota moribunda apanhada por uma maré negra de petróleo deixa dois compromissos: guardar o ovo que acabara de pôr e criar uma pequena gaivota, bem como ensiná-la a voar. Tudo com a ajuda dos seus amigos Secretário, Sabe-tudo, Barlavento e Colonello, numa tarefa dificílima para um bando de gatos habituados à vida dura do porto de Hamburgo… E aqui se sentem as forças da liberdade e da generosidade – num combate de todos em defesa da natureza para que outras gaivotas não fossem mais vítimas de desastres semelhantes.

 

PRÉMIO EDUARDO LOURENÇO

Amigo de Portugal, Luís Sepúlveda recebeu em 2016 o Prémio Eduardo Lourenço – pela intervenção relevante no âmbito da cooperação e da cultura ibérica – e sentiu-se especialmente orgulhoso com essa distinção. Em “A Lâmpada de Aladino” (2008), um conjunto de contos marcados pela imaginação e pela procura de personagens inesquecíveis, deu-nos o retrato de Valdemar do Alentejo, um português impagável: “um personagem absolutamente real (diz o escritor). E convém explicar que se trata de um verdadeiro pirata. Não confundir com corsários, flibusteiros ou bucaneiros. Os verdadeiros piratas que eram homens livres no mar, foram muito poucos. Na verdade, só houve piratas em três lugares, No mar do Norte, por onde andou um pirata chamado Klaus Störtebeker, que assaltava navios da Liga Hanseática e distribuía o saque pelos pobres à laia de Robin Hood, nas costas africanas, sob forma de uma república pirata berbere, com um código de conduta ético rigorosíssimo, e depois no Estreito de Magalhães, onde existiram duas confrarias de piratas. Uma dirigida por dois holandeses, desertores da marinha dos Países Baixos, o Van der Meer. E outra que tinha como capitão o Alentejano. Apesar de distantes no espaço e no tempo todos tinham, a mesma bandeira vermelha e negra, como a dos anarquistas. Uma curiosa coincidência. Isto, e uma ideia elementar de justiça – devolver aos mais fracos o que lhe tinha sido tirado pelos mais fortes… Entusiasmado com essa ideia, Luís Sepúlveda preparava um novo romance baseado nas memórias e nos mitos cultivados em torno da sua recordação. Alguém que existiu realmente e que talvez tenha sido executado nas Ilhas Molucas, paraíso das especiarias. Luís Sepúlveda era uma presença assídua entre nós, tendo participado em quase todas as 21 edições do Festival Correntes d’Escritas, na Póvoa do Varzim, a última das quais entre 18 e 23 de fevereiro de 2020. A sua lembrança está, pois, bem presente entre nós. Ao lermos os seus livros, plenos de humor e de uma séria ponderação das questões fundamentais que nos assaltam, é como se ele estivesse sempre a regressar, com a sua generosa força da liberdade…

 

Guilherme d’Oliveira Martins
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