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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de junho de 2018

 

«Do Monte Cara vê-se o Mundo» (Caminho, 2014) de Germano Almeida dá-nos conta do melhor que a cultura de Cabo Verde tem. Germano Almeida foi Bolseiro do Centro Nacional de Cultura, em 2001, no âmbito das Bolsas Criar Lusofonia.

 

BIÓGRAFO DE CABO VERDE
Germano Almeida é o biógrafo de Cabo Verde. Não podemos compreender a vitalidade cultural do arquipélago e do país sem ler hoje o autor de Do Monte Cara vê-se o Mundo. É verdade que Baltazar Lopes é uma espécie de patriarca da “caboverdianidade” ou que Corsino Fortes é um poeta que sente como ninguém a identidade dessa extraordinária cultura da Macaronésia do Sul, mas Germano busca a naturalidade, a alegria de viver, a ironia, a arte de contar, a diversidade de tipos populares e a sensualidade dos corpos e das relações humanas. Não esqueço um dia que nos encontrámos na Praia, numa iniciativa do Centro Nacional de Cultura, e falámos dum tempo que estava para vir, em que de um modo natural a literatura cabo-verdiana seria reconhecida como exemplo maior na diversidade da língua portuguesa. Esse tempo chegou primeiro com o reconhecimento de Arménio Vieira no Prémio Camões e agora com o próprio Germano Almeida. A vitalidade cultural de Cabo Verde augurava essa evolução como natural. Desde que li pela primeira vez O Testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo não tive qualquer dúvida sobre a qualidade excecional da obra e do autor. E em imaginação, percorremos o caminho iniciático do protagonista. “Atravessou a Rua de Lisboa, o Largo do Palácio e subiu ao Forte de Cónego trotando atrás de Jovita e extasiando-se com a maravilha que era o Mindelo, nunca vira tanta gente junta e sentia-se envergonhado de estar descalço atrás daquela carregadeira que calçava sandálias de plástico. Naquele dia não saiu de casa, temeroso de se perder na cidade enorme ou ser atacado por bandidos que sabia existirem e perseguirem as pessoas de dia ou de noite…”.

 

MINDELO, A CIDADE LIVRE
Ah, o Mindelo, cidade de história conturbada que Germano Almeida aprendeu a conhecer de trás para a frente. S. Vicente foi povoada tardiamente, tempo houve em que os piratas usavam a baía do Porto Grande como local de descanso, antes de avançarem para temíveis investidas. O povoamento foi lento, vindo de Santo Antão e S. Nicolau. E foi a memória da gloriosa revolução liberal, em que Garrett e Herculano estavam entre os bravos de Pampelido que deu o nome à extraordinária cidade que o escritor ama. Aqui acabava a escravatura. E essa invocação do Mindelo mítico era o melhor elogio da liberdade, como recusa a subalternização ou menoridade. E assim se tornou centro de irradiação de uma especial riqueza cultural que aproveitou as potencialidades do entreposto mercantil. Em Do Monte Cara vê-se o Mundo a personagem viva é a própria cidade do Mindelo e a sua gente. O velho Pepe é o cicerone, funcionando como um verdadeiro revelador e encenador de tudo o que vai acontecer. Júlia, Guida, D. Aurora, a Professora Ângela, o Trampinha – todos ilustram uma realidade humana muito rica, com uma ironia inesquecível, sob o olhar divertido e sábio do Monte Cara, em frente à cidade. E eis-nos embrenhados no dédalo que conduz ao Fortim d’El-Rei, à Alfândega Velha ou a Praça Nova, vibrante ao som do funaná. Aqui Nhô Baltas, Manuel Lopes e Jorge Barbosa criaram a revista “Claridade” – onde Chiquinho começou a ser publicado, com a originalidade cabo-verdiana, “excluindo os portugueses de toda e qualquer discussão referente ao destino das ilhas e dos homens”, como disse Alfredo Margarido.

 

UMA LITERATURA FEITA DE VIDA
O percurso de Germano Almeida começou na ilha da Boa Vista, onde aprendeu a viver entre a ruralidade e a cultura urbana. Em Regresso ao Paraíso dirá que “da Boa Vista da minha infância pouco mais já resta que o prazer de usar o tempo. É uma noção do tempo em que o hoje e o amanhã, o agora e o mais daqui a bocado, continuam significando a mesmíssima coisa. E quando para lá ia de férias ia sobretudo em busca desse tempo sem relógio, que é nosso está por nossa conta”. O futuro escritor fez a tropa em Angola, numa zona de confronto. Com vinte cinco anos, graças às qualidades da sua escrita consegue uma providencial bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar Direito em Lisboa – onde fomos contemporâneos. Em 1977 regressou à pátria e em 1983 fundou com Leão Lopes e Rui Figueiredo a revista “Ponto e Vírgula” – onde publicou contos com o pseudónimo de Romualdo Cruz… Depressa foi descoberta a sua verdadeira identidade e seguiu-se uma entrada natural no mundo literário, com obras reveladoras duma originalíssima maneira de usar a língua portuguesa de Cabo Verde, na tradição dos seus melhores compatriotas. A Ilha Fantástica é constituída por um conjunto de textos, aparentemente despretensiosos, saídos na revista “Ponto e Vírgula”, que se revelam essenciais para a compreensão de uma cultura, onde o picaresco se associa a uma extraordinária apetência de compreender e revelar sentimentos. A última obra publicada, a sair em breve entre nós, – O Fiel Defunto – confirma essa capacidade para privilegiar a ideia de “divertimento”, de prazer com as pequenas coisas… E alguém pergunta ao “fiel defunto”: “mas deves estar a fazer alguma coisa para assim te divertires durante tanto tempo”. “Sim, respondia galhofeiro, ouço música, navego na internet, espreito o facebook, onde aprendo muito sobre as pessoas em geral e as pequenas vaidades que lhes enchem a alma, leio livros, falo com amigos, faço má-língua, digo mal das criaturas de quem não gosto, cuido das plantas do meu jardim que nunca estiveram tão bonitas de tão bem tratadas, enfim um enorme rol de ocupações que me preenchem os dias que gostaria que tivessem 48 em vez de apenas 24 horas”… E assim se confessa imune aos vícios, incapaz de escrever o que não tem para dizer e apenas disponível para deixar passar o tempo, com uma cana de pesca na mão, “sem sequer desejar apanhar um peixe para não ter a maçada de o transportar para casa”… Tem sido ainda importante a intervenção de Germano Almeida no tema da língua portuguesa. Devo dizer que concordo muito com o seu pensamento. Conversei muito sobre isso também com Corsino Fortes. É indispensável um ensino rigoroso do crioulo e o português deve ser muito bem ensinado como língua segunda. É fundamental aprender a falar o português corretamente. A alfabetização em crioulo obriga a cuidados especiais, para evitar barreiras entre ilhas ou comunidades. Dada a natureza dos crioulos é fundamental que o português não seja sentido como língua estranha. A tarefa da escola e da pedagogia obriga a que haja um desenvolvimento harmónico das línguas – como fatores de comunicação e integração. Não esqueçamos que o autor de Chiquinho era professor de latim ou que a taxa de analfabetismo em Cabo Verde era em 1974 menor do que em Portugal. Que significa isto? Que só uma exigência significativa para a comunicação linguística – em crioulo e português, pode evitar a exclusão. Daí Germano Almeida insistir “na necessidade de nós em Cabo Verde dominarmos o português até mais que os portugueses, Porque com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas. Com o português vamos para Portugal, para o Brasil, para Angola”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

Hélia Correia

 

Quando li a «Dama Singular», um dos contos do livro de Hélia «Vinte Degraus e Outros Contos», chancela da Relógio D'Água, conto este dedicado a uma mulher da literatura portuguesa, senti e assim interpretei, o quanto a literatura pode ser uma lição descalça de muitos amores, aberta até de espaços, a mães ausentes, e enovelada em sóis que podem não chegar até onde e aonde se quer luz. Deste conto, retirei que a lição do seu segredo é a existência de uma escola de bonecas que o escuta, rebeldes e aprendizes bonecas para quando tiverem forma humana se salvarem, se um dia escreverem com um lápis tão fundo ao intuir de cada um de nós que, a cada palavra o soalho das mesmas faça ouvir a literatura.

 

E entretanto os padrões das palavras usadas sentem vontade de brincar, deste modo contribuindo para uma maturidade que as leve a entender para quem foram erguidas, e qual a razão desse empenho na subida de uma escada que ora é o total contacto com o chão, raiz de entendimento, ora é equilíbrio para quem queira ler as palavras a partir da distancia da literatura. E neste conto existem buganvílias que explicam o inverso da verdade numa febre que se não esquece. Também existem palavras deixadas a um especial relento para que morram ou para que escutem o quanto a preservação do seu universo, também é doloroso antes do ato de amor da literatura.

 

O conto da «Dama Singular» tem um cheiro de lenha húmida num quintal despenteado de certezas. Tem também muitos medos quando as palavras nos seus banhos receiam afundar-se, antes do apuramento certeiro do que visam.

 

E também existe neste conto uma casa. Há sempre uma casa: a literatura descobre-lhe função, estação e local de lição. Casos se conhecem em que a própria casa das palavras são seu lugar de libertação, são seu treino na estratégia de lhe entendermos peito, pensamento e mão.

 

Assim me aninhei neste conto.

 

Teresa Bracinha Vieira

Lídia Jorge

 

Estuário, o seu novo romance

 

Creio que as pessoas se perdem de nós e nós delas como se empurrássemos mundos que só se distanciam porque com o tempo somos conquistados por outros modos: pela morte ou pela vontade de uma escrita que os aceita, os quer buscar mesmo até à nudez que nos esclareça de tão blindada se sentir.

 

E escreve Lídia

 

Que a vida só está completa quando, ao morrermos, sentimos que obtivemos o conhecimento suficiente para outra vez nascermos. E essa contradição entre saber e percurso parece querer dizer que alguma coisa não está no seu lugar, mas está.

 

Escrever sobre este poderoso romance não é fácil, nem pretendo fazê-lo de jeito tradicional. Vou tentar dizer dele o que melhor saiba pelo ângulo que o senti, e direi de modo bifurcado, entre o espaço protetor do romance e o espaço sem contemplações do mundo cá de fora. E assim

 

Oferece-se também Edmundo para ser adivinhado neste livro e viver nele - terra tremenda - todas as traves, as casas, as muralhas, as ameias, o crepitar de vidas que ele quer colher no seu livro, escrito por sua mão amputada, por seus olhos fotográficos, pela sua capacidade de decifrar até quando desejará escrever tão avidamente o livro que tanto deseja, e deseja-o enfim, ao ponto de saber por entre as coisas secretas, que nenhum passo mais o levará a escrever algum dia esse livro, embaraço desvendado e eventualmente perturbador da sorte que lhe reserva um texto, qual grito de ave, lâmina.

 

Quero pensar que por entre os personagens de Estuário, por Edmundo Galeano chego a Tatiana e aos brincos de pérola, como proponho a chegada de David e da baleia cantora ao título do livro de Edmundo, a esse título 2030

 

E


Porque não havia uma correspondência entre as palavras e o mundo, ainda que muitos dissessem que sim. (…) que sentido tinha isso? O amor de Tristão e Isolda já não existe mais à face da Terra, ou antes, sabia-se agora que, afinal, sempre fora aquilo que fora, um mito construído com imaginação e palavras.

 

Um brinco de pérola salgada muito bela e criado em água doce e mansa. Ou a pergunta de David

 

Mãe, uma pessoa que se pendura de uma trave para morrer é muito fraca ou muito forte?

 

E responderá a baleia cantora pelo hino de Deméter que afinal é feliz quem dos viventes pergunta tal coisa.

 

Pois e não é que

 

Edmundo Galeano também entrou neste livro por uma garrafa que aportou à casa das vidas que queria escrever, que aportou ao estuário das saciedades e dentro da garrafa, uma película inextensa lhe permaneceu em negativo algures no seu cérebro.

 

Este livro de Lídia Jorge é também poético de tão real. Parece todo ele escrito entre o pôr-do-sol e o vir da noite, e, acaso adivinhais que nele também é dito

 

Quem disse alguma vez que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo, troçou da inteligência alheia. (…) Por que razão a vida sonhada era tão leve e a vida vivida, tão pesada? A imaginação tão diáfana, a realização tão grosseira? Perguntou-se Edmundo Galeano, com os olhos cheios de tristeza.

 

Edmundo optará por um regresso à casa, à casa junto à Praça do Mar e escreverá afinal o seu tão ansiado livro. Escreverá numa passada tutelada pela biblioteca onde A Cartuxa de Parma, A Peregrinação, a Ilíada, a Odisseia, O Homem sem qualidades, o Livro do Riso e do Esquecimento, a Ode Marítima, iluminarão sempre o que de melhor de si se salvará: a mão mutilada e afinal plena, ampla, como cavalo fogoso, agora esporeada para que a realidade não se fique por uma polegada acima ou abaixo do Estuário, antes substanciosa à vida.

 

Assim Lídia, neste teu livro senti uma mistura de inquietude e mágoa, humor e absurdo, capricho e segredo, mito e fantasia e o quanto as ligações humanas são todas tão perto do caos, verdade-herdeira de quem as escreve por mão insubmissa.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A prisão: uma recruta dos desertos

 

Depois de passar a primeira porta de ferro todas as vozes surgem reconstituídas face aos ecos que se fazem sentir. Quase se soletram as energias vocais de cada um e que correspondem a um diferente sentir instantâneo de uma ocasião repentina que se torna única quando o prisioneiro se depara com alguém que não conhece. Depois outra porta de ferro, e também automática, fecha-se a estalar atras de nós, numa descendência justificada de portas, uma após outra: e o corredor: eis. O corredor, ou antes, os corredores, em anarquias controladas de ruídos e movimentos que se esgotam nos repentes que se não veem, mas se apercebem por um ar, por onde, cheios do bater de asas, aves mudas seguem sopros que não são mais do que turvas visões. De todos são conhecidos os nervosos movimentos que se esgotam ali, súbitos, sob o nosso olhar como numa rápida operação de cálculo. Mais fundo, mais dentro da cadeia, chega o momento de se escutarem os segredos enlouquecedores vindos de cada um, e, entende-se que já por ali se não tem tudo o que a vida entregou antes de iniciar o gesto que daria o cumprir da pena. Ali quedaram-se muitas migrações e emigrações em sombras impassíveis de desastres confiados a um luto. Os guardas prisionais, naquela cadeia de alta segurança, surgiam-me, um após outro, como se os conhecesse desde sempre naquela profissão de lenhadores de ruínas que naquela hora única me sorriam à minha descida do céu.

 

Sentei-me à frente dos trinta e poucos prisioneiros que queriam ter tido aquela tarde na biblioteca que todos estávamos a construir, e eis que o Diretor da prisão entra, senta-se ao meu lado, e num gesto de harmonia simples e de contentamento solto, apresenta-me aos prisioneiros e, generosamente, agradece a minha presença e sai, pois o muito a fazer não lhe permite ficar.

 

Olhei para todos em breve relance. Os dois guardas presentes perfilavam-se também para me escutar ou escutar orlas desconhecidas da minha perceção. Os despertadores das trovoadas, quis crer, adormeceram num ápice. E eu

 

Não me ocorre nada do que pensei dizer-vos. Deixo à vossa consideração as perguntas que me queiram fazer face aos livros que sejam do vosso interesse. Eu, apenas vos digo, que um dia, um dia normal como tantos outros, um dia em que não se pensa sequer na liberdade como jornada a conquistar, um dia, disse-me um médico

 

Pois o seu caso é complicado, o que resulta dos exames renais leva-nos a atuar com a urgência máxima. Será operada daqui a dois dias, ou seja neste dia de Natal próximo, e, o pós cirurgia, devo dizer, é doloroso. Vamos ver como se lida com isto.

 

Tremia por dentro do peito como não sei dizer. Aquele cancro condenava-me a um mês de vida. Prisioneira de tudo e de todos procurava danos que tivesse cometido e que justificassem aquela pena máxima a que estava condenada. Não tinha a mínima possibilidade de escolher livremente quem queria ser naquele dia. E digo-vos, pensei nessa dor inexplicável, irremediável e injusta que então senti, quando há pouco se fecharam atras de mim as grades elétricas que me deixariam enfim, ao vosso lado. Pensei nisto tudo quando nos corredores vos vi a todos impacientes a uma estranha dança deste viver, assim, aqui dentro. Agora mesmo sinto no ar abandonos, feridas sufocadas por maldições e os vossos olhares a escutarem-me e eu nada mais vos sei dizer, neste momento, em que queria muito que pensassem que se estou aqui é porque sobrevivi ao mundo de dor pelo qual passei. E acima de tudo sobrevivi sem me sentir enraivecida pelo que suportei, a impotência não me moldou, devo dizer-vos, mas a caça por um mundo melhor trouxe-me neste dia até vós. Assim aceitem os senhores esta estranha janela que vos quero dar. Não sei se fui clara, mas não fui poupada neste meu tempo de viver, creiam, e tive de jogar às cartas da vida numa estúpida crença de que elas não possuíam o meu trunfo. E afinal, não possuíam mesmo: estou aqui, com as minhas fraquezas e as minhas possibilidades.

Obrigada.

 

Um guarda trouxe-me, num velho carro celular (não havia outro) até Campanhã. Recordo ter achado curioso experimentar a limitação e a incomodidade do dito. Viemos lado a lado a conversar numa estranha admiração mútua. As condições de trabalho que me explicou funcionarem naquele estabelecimento prisional, bem me consciencializaram para as pessoas que lutam pelas migalhas do pão de cada dia, bem cientes de que já viram demasiadas verdades. Vivemos num mundo arrasado e apenas aqueles que têm os corações arrasados, sabem que também se marcha por entre os destroços. Não esquecerei o diálogo com aquele guarda e muito me agradou o que ele não disse.

 

O comboio da noite, após várias horas, trouxe-me até Lisboa. Durante a viagem fui pensando uma a uma em todas as perguntas que me fizeram os prisioneiros e nas respostas que fui dando. O que se mostrou mais intelectual de entre todos e com Alberto Caeiro entre as mãos disse-me: a imperfeição absurda da vida é irremediável: escrevo isto muitas vezes pois cada vez fica mais claro. E um outro que se levantou para que a sua voz se ouvisse bem alto: sabe eu tenho um cão que olha para mim e me diz coisas que eu gostaria de ouvir de alguém. E eu, ali naquele comboio, cada vez mais me convencia que cada um de nós parece estar mais bem treinado para sacudir a água do capote. Também somos sobrecarregados connosco próprios, pensei, agrade-nos ou não a ideia. Lembrei-me de Yourcenar quando perguntava: existirá alguém tão insensato que morra sem conhecer a sua prisão? O que temos é, inevitavelmente, a opção de escolher em tudo o que fazemos, mas um homem sensato tem de ser um investigador de almas que saiba da luta vã contra a nossa insignificância. O seja feita a vossa vontade, é o saber recompor as horas fragmentadas e formar com elas uma harmonia, uma possibilidade em relação a cada novo dia. Talvez a compreensão deste facto nos permita acarinhar os desastres e tornarmo-nos humanos, dirigindo-nos ao mundo como indivíduos. Mais pensei, por muito que a ideia messiânica possa ser atraente, a simples crença na fraternidade de uma sociedade pode demonstrar compaixão em pessoas que ainda não saibam viver mais do que para elas. Então a tal janela que acima referi aos prisioneiros, pode abrir-se aos desejos e aos medos e podemos com ela libertar-nos da nossa prisão de portas automáticas que acolhem os recrutas de desertos, ainda que tudo isto seja, por óbvio, uma atividade interminável e estritamente pessoal. Olhei através da janela da carruagem em que seguia. Chovia torrencialmente naquela noite de inverno e muito de mim foi o que me uniu à tempestade. Do outro lado do corredor, e já muito bebidos, uns americanos festejavam ruidosamente a eleição de Trump. Voltei ao casulo dos meus pensamentos, tenho para mim que uma solidão quase inalienável faz parte de nós, e cada vez mais achei que a resistência aos nossos erros não começa com grandes palavras, começa com pequenos atos e saiba-se que quando nos entregamos, não temos ideia da dimensão da nossa entrega. Todos nos tornamos adultos tardiamente. Julgo ainda, que, só desaparecemos quando totalmente absorvidos pelo momento: quero dizer com isto que, naquele dia, quando não existi, foi afinal quando desfrutei de tudo o que me foi oferecido e ensinado.

 

Paços de Ferreira

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de março a 1 de abril de 2018.

 

Adília Lopes acaba de publicar «Estar em Casa» (Assírio e Alvim, 2018), o terceiro volume de um conjunto autobiográfico, em que se integram «Manhã» (2015) e «Bandolim» (2016), numa série em que a originalidade e a imaginação da autora continuam a afirmar-se plenamente.

 

UMA CAPA FEITA DE MEMÓRIAS
A capa de «Estar em Casa» é muito atraente e representa os brinquedos da infância da poetisa dispostos em cima de uma mesa em sua casa na José Estevão. De facto, a casa está muito presente não só neste livro, mas também nos volumes que o antecederam – e em toda a prolífera obra precedente. A casa é o refúgio, a proteção e a defesa. Com um finíssimo sentido de humor, inconfundível, lemos impressões aparentemente espontâneas e simples, mas profundamente pensadas, palavra por palavra… Adília Lopes tem insistido em dizer que o fascínio que sente pela obra de Sophia de Mello Breyner é exatamente originado pela busca permanente da palavra certa. E a verdade é que, ao longo da obra poética da autora, sentimos essa permanente exigência, em que a imaginação e a lucidez se ligam intimamente num objetivo determinado e exigente em que o non-sense surge de um modo cuidado como ilustração e compreensão da realidade. Ver o mundo às avessas é, assim, procurar vê-lo melhor. Como no casaco de malha, quando parecia faltar-lhe uma casa para o botão… De facto, estava mal abotoado… E lembramo-nos do gosto que José Blanc de Portugal (figura marcante da cultura, que foi tão próximo da nossa autora) tinha pelos «Disparates do Mundo» de Chesterton, que magistralmente traduziu, fácil é de fazer um paralelo com a preocupação que Adília tem em apresentar a realidade sob um ponto de vista atípico e aparentemente cómico ou até chocante, para que se compreenda melhor a singularidade do que nos procura dizer. Sobre essa marca muito especial, lembramo-nos do que disse Paula Rego, quando tomou contacto com a escrita e as recordações de Adília Lopes: «fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotetoras. Adília Lopes é de um grande romantismo e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes». Não é demais dar ênfase ao extraordinário paralelismo, com as distâncias necessárias e as especificidades próprias, entre as duas, Paula e Adília.

 

VERSO E REVERSO DE UMA MESMA REALIDADE
Não devemos esquecer o que um dia disse a autora: «Adília Lopes é água no estado gasoso e Maria José a mesma água em estado sólido». Não se trata de duas facetas diferentes de uma rica e complexa personalidade, de uma transbordante criatividade – mas de verso e reverso de uma mesma realidade, que não esconde as raízes familiares e a determinação em encontrar um caminho próprio, que a levou, naturalmente a migrar da Física para a Literatura e Linguística, numa ilustração evidente sobre as fronteiras ténues que ligam as Humanidades. Mas ficou a paixão da matemática e o sincero gosto pelo rigor científico e pela busca da incerteza. Como diria Pascoaes trata-se de se debruçar da «velhinha janela» para saber ouvir «a voz das cousas». Nunca Adília / Maria José deixou de ter uma atração especial pela Física, como antecâmara natural para uma boa compreensão do mundo da vida. E voltando a José Blanc de Portugal, nele encontramos essa ligação íntima entre o espírito científico (do geógrafo) e a paixão literária, a demonstrar que as humanidades são abrangentes, não albergando duas (ou várias) culturas distantes e separadas. «A literatura continua a ser para mim uma coisa muito séria». A água é a mesma esteja no estado gasoso ou no estado sólido. Daí a importância do conselho de Sebastião e Silva para a “utilização do Compêndio de Matemática” - «adotar um critério de escolha que elimine exercícios supérfluos e exercícios estapafúrdios». E que significa isso? Exatamente, compreender que o real quotidiano é bem mais simples e suscetível de clareza do que julgamos à primeira vista… «Gosto muito de comparações. Escrevo muitas vezes a palavra como. Como gosto muito de comer até tem mais graça». Assim mesmo – como se fosse tudo óbvio. Fernando Pessoa diz: «Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates». E Cristina Campo diz que «não tem mal nenhum uma pessoa repetir-se» Tudo depende de as ideias valerem a pena. E o que é «ser sempre criança»? É fazer da memória uma atenção permanente. «Memória / puzzle». É não esquecer. É pôr os brinquedos na mesa redonda para falarem. E é compreender a magia do escorrega – uma bela comparação para pensar e escrever.

 

UM MUNDO DE COMPARAÇÕES
Em maré de comparações, estamos diante de um mundo inesgotável. É esse o mundo em que Adília habita, com prazer genuíno, mas também com incomodidade. «Ao fim da tarde, depois de os amigos se terem ido embora, a sombra do bule fez-me ver como sou feliz às vezes». E na casa habitam os espíritos, as lembranças, os desejos, as perplexidades – tudo. Proust encontra-se com Cesário, Agustina vai ter com Sophia, Verlaine desencontra-se com Rimbaud. Os brinquedos falam sobre a mesa. «Escrevo / esgravato / com o bico da caneta / o caderno…». No caso de «Estar em Casa» temos de entender que com ele os outros dois livros autobiográficos fazem um conjunto só. O seu valor é do conjunto, das memórias, das dúvidas, das descobertas. «Manhã» e «Bandolim» anunciam «Estar em Casa» - e os três livros ler-se-ão naturalmente em conjunto. «Ler, escrever, ouvir música, andar a pé, brincar». Se virmos bem há um fio de Ariadne que liga tudo. «Cismar tagarelar». E um médico disse que «a novidade estimula» ou ainda que «a capacidade de esquecimento das pessoas é muito grande»… Isto a propósito da senhora que era pobre e não tinha dinheiro para comprar bibelots. Por isso tinha um baú, donde ia fazendo circular os poucos bibelots que tinha, para dar a impressão de que eram muitos e novos. «Não é bom ser pobre mas é bom ter imaginação». E se agora não encontramos as «caras baratas», vislumbramos a pata firme de Lu, uma gata omnipresente que chegava aos seus dias do fim. «Acho que só os animais são capazes de amar assim tanto. Eu não sou capaz». Maria José / Adília continua a dar-nos o retrato da vida. E diz-nos ser verdade que as flores baloiçam no ar!...

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 19 a 25 de março de 2018

 

«Memórias» de Rómulo de Carvalho (edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010) é um precioso relato de uma vida muito rica de um grande pedagogo, homem de ciência e humanista.

 

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MESTRE DE MESTRES

 

Era Campo de Ourique e chovia. Foi o dia em que, muito justamente, fomos lembrar e homenagear Rómulo de Carvalho na casa onde morou. Com uma ponta de emoção, o Presidente da República não pôde deixar de lembrar, com palavras oportuníssimas do mestre, os tempos em que teve como professor o homenageado de agora. E ficou como marco dessa invocação uma placa, que lembrará a quem por ali passar o professor, o poeta, o homem de ciência, numa palavra, o humanista no sentido mais rico do termo. O quarteirão desse bairro cheio de memórias é, aliás, o mesmo em que viveu Bento de Jesus Caraça… E tal placa levará os passantes à recordação do exemplo de quem foi sempre um legítimo praticante da arte de ensinar e aprender. Sim, porque para o pedagogo de exceção o fundamental era compreender que há sempre uma troca quando se trata de educar. É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico (ao seu trabalho se deve a publicação das Memórias), Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes”. Para Rómulo de Carvalho, o experimentado docente: “o Professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências”. Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro – com encenação, marcação, representação e climax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de Rómulo de Carvalho. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. No testemunho de duas discípulas, Alcina do Aido (minha professora) e de Maria Gertrudes Bastos: “a preocupação que nos procurava incutir com a maior ênfase era a necessidade de, nas vésperas de uma lição em que se previa a realização de uma certa experiência, executá-la com o maior cuidado, testando todo o material até ao último pormenor, na tentativa de evitar qualquer falha que pusesse em risco a conclusão que se pretendia tirar”…

 

 

A CHAVE DA CIVILIZAÇÃO

 

Num texto intitulado Presença de Descartes afirmava: “A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem”. E isto obriga à liberdade criadora – de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta… Não esqueço, como na sua História do Átomo da coleção Ciência para Gente Nova (Atlântida) dizia: “A história do átomo é a história de uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das atividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso”. António Gedeão era uma figura à parte, que não iludia a personalidade do seu criador, mas não se confundia com ele. Daí que Rómulo de Carvalho tenha tido o cuidado de o fazer sair do mundo dos vivos antes dele próprio. De facto, há uma fronteira, que permite compreender que a ciência e arte se ligam, na compreensão dos diferentes métodos que usam. Rómulo de Carvalho era um homem do método. Em célebre artigo publicado na revista “Palestra” em 1959, intitulado “A Física como objeto de Ensino”, afirmava ser “necessário ter cuidado ao considerar a experiência como base fundamental do ensino da Física em vista do seu valor como estimulante do processo indutivo. Realmente, não é a experiência que permite a indução. Somos nós, nós os que ensinamos, com as palavras que escolhemos e proferimos no decorrer da sua execução, com as nossas hábeis insinuações, com as nossas escamoteações oportunas, com o nosso conhecimento sagaz do aluno e das suas circunstâncias. Nós somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo”. Esta a chave fundamental da Educação, compreendendo-se que estamos sempre perante o complexo desafio de ligar a aprendizagem, o conhecimento, a relação direta entre o professor e o aluno, a valorização do trabalho, da exigência e da justiça. O essencial da educação está na aprendizagem. Esse o elemento crucial, que não pode ser alvo de confusões ou de qualquer tipo de inversão de valores. Só há Educação justa se houver exigência, só a qualidade pode combater a exclusão e a desigualdade.

 

 

LEMBRAR TAMBÉM NATÁLIA NUNES

 

Há poucas semanas, fomos despedir-nos de Natália Nunes. Então pude lembrar, com sua filha Cristina, o percurso multifacetado e rico da mulher de Rómulo de Carvalho, que ele tanto admirava. Não esqueço a última vez que a acompanhei à rua Sampaio Bruno, depois de termos ido ao Liceu de Pedro Nunes homenagear o Professor no seu Laboratório de Física, pleno de recordações e lugar onde pôde exercer a sua missão didática, pedagógica e científica. Foi uma oportunidade para lembrar a personalidade excecional de Rómulo na instituição secular que tanto marcou. Personalidade discreta, Natália Nunes é uma grande escritora, que foi sempre uma cidadã aberta e corajosa, a quem devemos Autobiografia de uma mulher romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1964) e Vénus Turbulenta (1997) – além de contos, ensaios e traduções. Era uma pessoa de rara sensibilidade e de grande cultura – que se singularizou como profissional de referência no mundo das Bibliotecas e Arquivos. Tenho testemunhos de muitos dos com ela trabalharam ou a ela recorreram bem demonstrativos das suas excecionais qualidades. Posso confirmá-lo pessoalmente. Falámos longamente, e era a liberdade da cultura que cultivava e uma fantástica curiosidade pelo mundo e pela vida – como notamos na sua obra, na variedade de temas e situações e no contacto conhecedor com a melhor literatura de Tolstoi, Dostoievski e Balzac, além de Raul Brandão. Nas palavras que troquei no dia da homenagem a seu pai com Cristina Carvalho pude ligar as duas personalidades cativantes que tive o gosto de conhecer e admirar – completavam-se naturalmente e o amor à cultura, à ciência e aos livros era apaixonante.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 12 a 18 de fevereiro de 2018.

 

"O Clube dos Anjos" de Luís Fernando Veríssimo (D. Quixote, 2000) é um livro, onde se conta como o desejo levado ao extremo se torna destruidor. Trata-se de um tema clássico, aqui tratado com ironia, sem esquecer a dimensão trágica da vida…

 

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VIRAR A VIDA DO AVESSO

«Quando a gente acha que tem todas as respostas, vem a vida e muda todas as perguntas». Luís Fernando Veríssimo tem o método de virar as coisas do avesso para as compreender melhor. É ele quem afirma o que acabamos de ler – e é significativo que o diga num tempo de incertezas, no qual melhor compreendemos a necessidade de estarmos atentos à alteração de circunstâncias. Num tempo de movimento uniformemente acelerado a necessidade de cultivar o paradoxo torna-se óbvia. As “Correntes d’Escritas” da Póvoa de Varzim deste ano homenageiam-no e inserem na sua revista um dossiê dedicado ao autor, e tal merece destaque, uma vez que se trata de uma justa invocação. Luís Fernando Veríssimo faz parte de uma importante tradição da literatura brasileira, onde está Millôr Fernandes e tantos outros, e que se ocupa em dizer as coisas mais sérias do mundo de um modo a um tempo difícil e desarmante, próximo mas inteligente. Do que se trata é de mostrar ao comum dos mortais como a realidade que nos cerca tem sempre o seu quê de incerto e de imprevisível. Onde menos se espera, aparece-nos na história alguma coisa que, não fazendo aparentemente parte dela, permite encontrar uma chave que julgávamos perdida. Afinal não procuramos o que perdemos junto da luz, mas devemos fazer chegar a lâmpada até junto do local em que está a coisa perdida ou desaparecida… Um dia perguntaram-lhe por que razão a raça humana não tem conseguido aperfeiçoar-se, como desejaríamos, e Veríssimo respondeu de imediato – porque usa e abusa das reuniões… Millôr diria que um camelo é um cavalo desenhado por um grupo de trabalho… Outra vez, invetivou um amigo: «não deixe que a saudade sufoque, que a rotina acomode, que o medo impeça de tentar. Desconfie do destino, acredite em si próprio. Gaste mais horas realizando que sonhando, fazendo que planejando, vivendo que esperando – porque, embora quem quase morra esteja vivo, quem quase vive já morreu». Aqui se encontra um verdadeiro programa de vida, de quem quer que não se morra de véspera… Quase viver não existe, por isso o escritor procura pegar nos acontecimentos como se fossem sempre únicos e irrepetíveis. Nesse ponto, encontramos a humanidade como referência universalista. É assim Luís Fernando Veríssimo, bem longe (ou demasiado perto) de seu pai Érico Veríssimo, o célebre autor de «Olhai os Lírios do Campo», mas com semelhante dose de talento – que nos leva a entender que o ADN de ambos é de qualidade humana muito especial. «Se o facto de ter um pai escritor o inibiu?». E a resposta numa entrevista foi a seguinte: «Conscientemente, não. Inconscientemente, talvez. Às vezes fico tentado a inventar algum drama edipiano entre meu pai e eu para satisfazer a expectativa das pessoas, mas nunca houve isso»… Compreende-se bem isto mesmo. Luís Fernando é ele mesmo, empenhado em cultivar a alegria do paradoxo e em exercitar a atenção desperta para tudo o que possa valer a pena. Mas esse gozo não esquece que felicidade é sempre uma acomodação – e o escritor negou-se sempre a acomodar-se, preferindo o desassossego. Só isso parece valer a pena, mas é mais trabalhoso.

 

O MÉTODO AFORÍSTICO.

Os aforismos, que encontramos nos seus diversos textos, são um meio de nos pôr a pensar. A principal matéria-prima para uma crónica são as relações humanas. Só assim é possível superar a angústia do papel branco. Este é o ponto essencial em que o escritor insiste. Nada do que é humano nos pode ser estranho, por isso a dimensão humorística apenas serve para demonstrar que não nos levamos demasiado a sério. O nosso Alexandre O’Neill com a força da sua ironia pensava da mesma maneira e por isso foi grande. E como dar importância às relações humanas se nos limitarmos a olhar o curto prazo e o superficial? Então, não é possível ir além do comezinho e do rasteiro… É por isso mesmo que Veríssimo procura a humanidade olhando para o avesso do tapete, a fim de perceber a razão de ser da beleza dos desenhos vistos do direito. A metáfora do tapete leva-nos a entender que a pessoa humana precisa de liberdade para cumprir as responsabilidades e para realizar o serviço que a vida sempre exige. E o serviço é o dom, a gratuitidade, sabendo-se que a troca estreitamente económica suscita debates e invejas. A alegria do paradoxo é o melhor modo de entender a vida como realização suprema da literatura. Luís Fernando Veríssimo demonstra-o com elementar clareza.

 

À VOLTA DA MESA.

«O Clube dos Anjos» conta a história de dez homens que se reúnem há vinte e um anos à volta de uma mesa para celebrarem a sua amizade. No início há as reuniões diárias no «Bar do Alberi», cujo prato principal é o picadinho de banana. Depois passa a haver jantares semanais em bons restaurantes, em que o prazer da comida requintada se torna um hábito e uma exigência. E, por fim, reúnem-se em jantares mensais nas residências dos membros do clube. É Daniel que conta a história dos dez amigos, a qual vai exigindo cada vez mais no requinte da gula, que parece não ter limites. E conhecem Lucídio, um rapaz misterioso que é exímio na arte da culinária. A procura do prazer é insaciável. Mas o caminho torna-se uma desenfreada corrida para a morte. E tudo se precipita quando Ramos parte… É a vida vivida, contraditória, irónica e trágica que aqui se manifesta. Tantas metáforas, tantas contradições…

 

Guilherme d'Oliveira Martins

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A VIDA DOS LIVROS

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  De 5 a 11 de fevereiro de 2018

 

«Obra Política – Escritos do Vintismo (1820-1823)» de Almeida Garrett (Estampa, 1985) permite-nos compreender os alvores do constitucionalismo, seus claros e escuros, segundo o mais inovador dos nossos românticos.

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LIVRES E IGUAIS…

Almeida Garrett, ao escrever em 1821, sobre os princípios da nossa primeira revolução liberal, a do Porto de 24 de agosto de 1820, disse que “os homens são iguais, porque são livres, e são livres porque são iguais; eis aqui um círculo vicioso à primeira vista, mas uma demonstração verdadeira; e exata, para quem a quiser aprofundar. (…) Somos livres; porque os direitos, que temos à existência, à boa existência, a prover aos meios dela, a aperfeiçoá-la, são comuns a todos (…). Somos iguais; porque não podendo nenhum homem ser impedido por outro no exercício dos seus direitos, sendo estes os mesmos para uns, que para outros, e portanto livres, este estado forma o que se diz, e o que é a igualdade”… E não deve esquecer-se a fraternidade, já que é “o homem dotado de uma sociabilidade, ou necessidade de viver com os outros homens, que é clara e patente a todas as luzes”. Nesta referência atualíssima, encontramos o fundamento do constitucionalismo moderno – assente nas ideias do primado da lei, de legitimidade cidadã e de diversidade. E se hoje a reflexão sobre a democracia, a representação e a participação estão na ordem do dia, a verdade é que a ligação entre liberdade e igualdade, igualdade e diferença, legitimidade e mediação devem ser consideradas. Nos duzentos anos do constitucionalismo português, importa ter presentes os antecedentes desse momento fundador. Realizado o Congresso de Viena, em que uma nova ordem europeia foi consagrada, depois da derrota de Napoleão, um paradoxo foi lançado, simétrico ao da expansão de Bonaparte. Se os ideais da Liberdade, Igualdade e Fraternidade entravam em choque com a lógica expansionista do Império, o certo é que no domínio dos princípios não podiam ser esquecidos – e no caso português, se a aliança luso-britânica nos salvara da perda da independência, com a inteligente solução de transferir a capital para o Rio da Janeiro, o certo é que a ausência do rei e os efeitos económicos da subalternização do Portugal europeu resultaram na nossa redução à condição de colónia. Não podemos esquecer a existência de uma importante corrente liberal (dita afrancesada) nos meios cultos portugueses, que não desapareceu durante as invasões francesas e a guerra de libertação nacional. E era paradoxal combater um invasor, que representava ideais de liberdade e de progresso… A figura de Gomes Freire de Andrade é representativa dessa tensão de ideias contraditórias – a da independência nacional, incompatível com a invasão napoleónica, e a de um constitucionalismo baseado na liberdade e na emancipação assente numa cidadania ativa, representada nos princípios originais da revolução francesa.

 

O PORTO COMO PONTO DE PARTIDA

A revolução constitucional do Porto de 1820 foi o corolário de uma tomada de consciência sobre a necessidade de encontrar um regime constitucional moderno, assente numa legitimidade cidadã. Daí termos de falar da tentativa de 1817 de Gomes Freire, barbaramente reprimida pela condenação ilegal e ilegítima dos mártires da Pátria – o que foi justamente associado às celebrações da abolição da pena de morte (1867) e deve ser continuado pela invocação agora dos duzentos anos da criação do Sinédrio, na cidade do Porto – verdadeiro embrião do movimento liberal-democrático que aboliria o absolutismo e implantaria a soberania popular. O Sinédrio foi criado no Porto a 22 de janeiro de 1818 por Manuel Fernandes Tomás, desembargador Tribunal da Relação, a ele aderindo doze figuras marcantes: João Ferreira Viana, comerciante; José Ferreira Borges, advogado e secretário da Companhia da Agricultura das Vinhas do Alto Douro; José da Silva Carvalho, juiz dos órfãos e futuro ministro de D. Pedro; Duarte Lessa, grande amigo de Garrett; José Maria Lopes Carneiro; José Gonçalo Santos e Silva; José Pereira Meneses; Dr. Francisco Gomes da Silva, médico militar; João da Cunha Sotomaior, desembargador; José de Melo e Castro e Abreu, coronel das milícias do Porto; José Maria Xavier de Araújo; e coronel Bernardo Correia da Costa e Sepúlveda, comandante do regimento de Infantaria 18… O fim da agremiação era “observar a opinião pública e a marcha dos acontecimentos, vigiar as notícias da vizinha Espanha, reunir-se no dia 22 de cada mês em um jantar na Foz, onde se daria parte dos sucessos acontecidos no mês passado, e do que conviria fazer no próximo, guardar a maior lealdade uns para com os outros e o mais inviolável segredo para com os estranhos…”. A designação foi escolhida pelo próprio Fernandes Tomás e havia a ideia determinada de libertar o país do vexame de ser praticamente um feudo do procônsul Beresford. Em 1818 e 1819 houve uma atividade persistente, mas discreta, reforçada pelos movimentos na Galiza no sentido da proclamação da Constituição de Cádis. E o Sinédrio foi reforçado pela entrada de António da Silveira Pinto da Fonseca, irmão do Conde de Amarante, figura de grande prestígio em Trás-os-Montes, que trouxe o coronel Sebastião Drago Valente de Brito Cabreira, comandante da Artilharia do Porto. De índole conservadora, os novos membros deram um impulso significativo ao movimento – com importantes adesões de altas patentes, o que levaria o Sinédrio a contar com todos os regimentos do Porto e de Trás-os-Montes. Faltavam apenas as forças do Minho – tendo, no entanto, o coronel António Lobo Teixeira de Barros assegurado a Xavier Araújo que poderiam contar plenamente com ele, o que dava aos conspiradores acentuada confiança. As boas comunicações com a Galiza e os apoios prometidos, com a retaguarda segura pelo controlo da praça-forte de Valença, levaram ao começo da preparação do golpe.

 

A REVOLUÇÃO REGENERADORA DE 1820

Foi fixada a data de 29 de junho, que teve de ser adiada, pois o coronel Teixeira de Barros deu o dito por não dito – uma vez que as condições tinham mudado. Esperava-se a todo o momento a chegada de Beresford, vindo do Rio, tendo ele, coronel, dado a palavra de honra ao governador militar da província, general Wilson, de que não concorreria para a revolução na sua ausência – afinal, na revolta da Galiza tudo apontava para que seria sufocada. Araújo parte para as Taipas onde comunica a Fernandes Tomás a nova situação. No entanto, o embaixador de Espanha em Lisboa, José Maria de Pando, entra em contacto com o Sinédrio, com vista a uma solução iberista, na linha do que defendia José Liberato Freire de Carvalho. O encontro do emissário tem lugar em um jardim na rua de Cedofeita. Mas Fernandes Tomás recusa essa solução: “Perdermos a nossa nacionalidade, nunca”. Entretanto, notícias da contrainformação levam o coronel Cabreira e o brigadeiro Silveira a querer avançar imediatamente. Mas faltam condições para o sucesso o que leva a diversas diligências, com êxito, designadamente de Cunha Sotomaior, para refrear os ânimos. Fernandes Tomás acerta em Lisboa os últimos pormenores e o movimento ganha um apoio de peso – o futuro Cardeal Saraiva, o beneditino D. Francisco de S. Luís. Fixa-se a data para 24 de agosto, mas Fernandes Tomás ainda se vê em sérias dificuldades para convencer o brigadeiro Silveira a aprovar uma declaração civilista e de sentido liberal e progressista. Manifestavam-se já as diferenças que levariam ao retrocesso de 1823, às guerras civis e às contradições que enfraqueceriam o constitucionalismo.     

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 22 a 28 de janeiro de 2018.

 

O ensaio de Jaime Cortesão “Os Fatores Democráticos na Formação de Portugal”, para servir de introdução à História do Regimen Republicano em Portugal, dirigido por Luís de Montalvor (1930), constitui ainda hoje uma peça referencial para a compreensão das mais importantes continuidades numa história antiga e complexa.

 

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ANALISTA CRITERIOSO

Jaime Cortesão foi um analista criterioso e atento das raízes de Portugal. Sobre a obra referida pode dizer-se que a sua perenidade se mantém viva – uma vez que, seguindo os passos de Herculano, mas superando-os em nome da crítica histórica, encontramos elementos que merecem atenção, até para que se constituam em incentivo ao aperfeiçoamento das instituições. De facto, a ideia moderna de mediação institucional encontra nas considerações de Cortesão uma base sólida à luz da qual podemos ver o constitucionalismo nos dias de hoje, no sentido do seu aperfeiçoamento. Releia-se o historiador: “Em Portugal é do próprio movimento das comunas que vai nascer o conceito supremo da Nação; e apenas desaparecidas as causas que entravam aqui, mais ainda do que no resto da Europa, o desenvolvimento político das classes populares, os princípios democráticos vão retomar a sua marcha até o advento da República. Os mesmos centros urbanos, que em 1383 elegeram o mestre da Avis e tão poderosamente contribuíram para assegurar a independência nacional, vão afirmar de novo a sua consciência política e capacidade nas lutas pela liberdade durante o período liberal e republicano”. Compreenda-se a importância da estratégia afonsina de mobilizar os municípios moçárabes, bem como o impulso audacioso do período dionisíaco na delimitação das fronteiras, na definição da língua e no reforço da aliança entre o poder real e os concelhos… E o modo como as Cortes de Coimbra (1385) com João das Regras definiram a nova legitimidade portuguesa torna evidente que aquilo que Cortesão designa como “fatores democráticos” constitui o pressuposto fundamental da independência portuguesa e da sua persistência multissecular – nas quais se aliam de modo indelével a vontade dos portugueses e a longa e omnipresente costa marítima, que se contrapõe à continentalidade da restante Península Ibérica. E Jaime Cortesão fala-nos de tendências universalistas, da afirmação da liberdade dos povos no sentido da boa organização e da satisfação justa das suas necessidades, que, “desenvolvidas durante a nossa Idade Média”, “eclodiram e triunfaram durante a revolução que levou ao trono o Mestre de Avis, determinando a formação social predominante, a missão histórica e o carácter ideal da Nação”… E, ao estudar o Brasil, o historiador pôde projetar globalmente a diversidade do mundo da língua portuguesa – num reforço inequívoco de uma identidade multímoda, caracterizadora do humanismo universalista. Sem idealização, e com a preocupação de reunir argumentos suficientemente claros e sólidos, Cortesão coloca-nos perante a necessidade de irmos, com uma vocação europeia e uma projeção global, aperfeiçoando pela experiência e pelo tempo as instituições, a representação democrática e a participação cívica.

 

UMA LIGAÇÃO NECESSÁRIA.

A invocação de Jaime Cortesão faz sentido quando se assinala o primeiro aniversário do falecimento de Mário Soares e quando se desenvolvem iniciativas ligadas ao bicentenário do constitucionalismo português, dentro de dias na cidade do Porto, para assinalarmos os duzentos anos do Sinédrio, e há bem pouco na invocação da pioneira abolição da pena de morte em Portugal e da condenação ilegal e ilegítima de Gomes Freire de Andrade e dos Mártires da Pátria - acontecimento justamente lembrado na representação na Assembleia da República da peça de Luís Sttau Monteiro Felizmente Há Luar. Tudo isto na perspetiva da celebração da Revolução de 1820 e da Constituição de 1822 – e do que se lhe seguiu em termos de consagração do Estado de direito, do primado da lei e das legitimidades do título ou da origem e do exercício. E se falo dos “fatores democráticos” e invoco a memória amiga e próxima de Mário Soares é para dar ênfase à continuidade e permanência da ideia democrática em Portugal – sobretudo num tempo em que somos chamados a aperfeiçoar e a reforçar as instituições baseadas na liberdade, na igualdade, no pluralismo e na cidadania livre e responsável. Mário Soares é um exemplo que tem de ser lembrado. O constitucionalismo moderno foi por si assumido como desafio e responsabilidade – a partir de um compromisso dinâmico de integração e de inclusão. Quantas vezes falámos dos desafios e da reflexão de Jaime Cortesão ou do grupo da “Seara Nova”, com António Sérgio, Raul Proença, Raul Brandão ou Rodrigues Migueis, como sinais de exigência? Quantas vezes invocámos a importância do respeito mútuo e da laicidade – num espaço público de respeito mútuo, de diversidade, de coesão social e de autêntica liberdade?

 

INCONFORMISMO E LIBERDADE.

Não esqueço o que o meu querido amigo António Alçada Baptista tanto gostava de lembrar – o inconformismo de Soares permitia que ele estivesse sempre do lado da liberdade, custasse o que custasse… Era uma garantia para todos, uma vez que as águas mornas podem tornar-se perigosas. Em nome desse magistério cívico, vem à lembrança a ideia necessária de “República Moderna”, como aquela por que Sérgio pugnou e que está bem evidenciada em textos do pós-guerra e na audaciosa apresentação da candidatura do General Humberto Delgado à Presidência da República. Essa dimensão histórica, assente, na herança da primeira geração romântica, com Garrett e Herculano e continuada pela grande geração das Conferências Democráticas, com a intervenção fundamental de Antero de Quental sobre as Causas da Decadência, e com a tentativa (de grande alcance) de implantar uma “Vida Nova”, que serviu para demonstrar que a sementeira de ideias podia ter consequências de larguíssimo prazo, desde que baseada no espírito crítico e na necessária superação do pessimismo e da decadência. Eça de Queirós e Oliveira Martins tornaram, assim, o sentido de ironia e a força da análise como tomada de consciência de que só a autocrítica e a desconstrução dos mitos poderiam ajudar à mobilização de energias contra o atraso como destino. E a cultura portuguesa do último século reforçou essa mesma ideia, designadamente com Eduardo Lourenço na sua psicanálise mítica do destino português. Hoje, no momento em que no horizonte há nuvens perturbadoras, em que a ideia da democracia como sinónimo de liberdade é posta em causa, em que se fala de pós-verdade, quando julgávamos que essa ideia estava sepultada na obra Orwell, ou quando os sinais de fragmentação europeia se constituem em ameaças a uma cultura de paz e de desenvolvimento – devemos lembrar a persistente voz determinada e crítica de Mário Soares, um intransigente defensor da liberdade da linhagem de Jaime Cortesão.  

      

Guilherme d'Oliveira Martins
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OS LIVROS SÃO SEMPRE FESTA…

 

Eis mais dez sugestões de livros de 2017 – todas igualmente suculentas!

Boas Festas! Boas Leituras! Muitos e bons livros…

 

1) Obras Completas de Luís de Camões – volume I – Maria Vitalina Leal de Matos (E-Primatur);

2) O Crepúsculo do Colonialismo, Bernardo Futsher Pereira (D. Quixote);

3) O Canto e o Signo – Existência e Literatura (1957-1993), Eduardo Lourenço (Gradiva);

4) Camões e Outros Contemporâneos, Hélder Macedo (Presença);

5) Tendências Gerais da Filosofia da Segunda Metade do Século XIX, Antero de Quental (Gulbenkian);

6) Memórias, Raul Brandão (Quetzal);

7) Ensaios e Artigos (1951-2007), Agustina Bessa-Luís (Gulbenkian);

8) Holocausto – Uma Nova História, Laurence Rees (Vogais);

9) Uso Particular, Rui Knopfli (Do Lado esquerdo);

10) 145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop).

 

CNC