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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

HELENA MARQUES

 

(…) E revoltava – a também que a sua própria mãe, que a dera à luz trinta anos atrás, quando tinha apenas dezassete anos, continuasse a produzir, ano depois de ano, aquele caudal de gritos apavorados, aquelas apaixonadas promessas de nunca mais, nunca mais. E no ano seguinte, tudo se repetiria, o mesmo terror, o mesmo medo cego, a mesma rejeição, a mesma revolta. Como podiam? Como podia o pai provocar e impor tamanho sofrimento? (E ela, a mãe? utilizar como poder?)

 

(…) Marta não quer filhos, não terá filhos, não irá nunca casar-se.

 

Esta passagem do livro de Helena Marques - o livro que eu cheguei a chamar durante muito tempo “o livro da âncora”- refletiu em mim uma luz que insistia em não se mostrar como claridade que eu levasse à escrita. Essa luz, quando chegou, resumiu e ampliou o que eu não tinha colocado no papel, acerca da estranha insatisfação de um prazer doentio, quando este oblitera o caminho do amor, e, levando em si, um tudo em vão, um tudo de poder, portador de um elixir de puro logro que corrói os dias e constitui enfim, sua única sustentação. Disso, disso se quer fugir!

 

E se quer fugir também não casando. Não atribuindo a ninguém o direito de lhe fazer filhos, e que se evitasse que ela os manipulasse, se nascessem.

 

Os homens deveriam ser procurados apenas nas suas saídas solares e se paixão houvesse que ela fosse vivida em fulgor e não no langor da sua dissipação.

 

As mulheres deveriam ser achadas em núpcias de vida breve, antes que tivessem tempo de transmitir os cantos das resignações às suas eventuais descendências. Antes de lhes ensinar que a solidão envolve temer os tempos das laminárias sendo esse o único caminho.

 

Surgia-me assim uma consciência trágica do entendimento dos tempos que Marta vivera. Na sua memória, sempre algo de monstro, algo de envelhecido ao ritmo de um jugo. Algo subtraído às leis da duração da ordem cósmica.

 

Às vezes, Marta despenhava-se no mar e fitava de frente os turbilhões da água na procura de um deus. Outras vezes, julguei ver Marta menos prisioneira e mais afoita às constelações das aves, tão tristemente adiadas do seu conhecer. E sempre o mesmo medo de tudo se repetir como se repetira desde que nascera e a assombrara tanto.

 

Prometia-se ao seu interior num nunca mais. Prometia-se, mordendo-se para que uma marca a fizesse cumprir a promessa, evitando o desespero do desastre de uma vida igual àquela que tanto repudiara.

 

Via-se jovem e sabia que detinha uma passagem, uma cumplicidade subversiva que iria gerir entre dois mundos: o que repudiara e aquele que lhe era plataforma para um outro, um que iria descortinar por entre as duas margens da sua vida, e que saberia gerir.

 

Entretanto o tempo passava, alívio e cansaço, e a fronteira entre o mundo e a morte fechava-se.

 

 

Recordo bem que assim me ative no interpretar do que seria o último cais de Marta. 

 

Desconheço se Helena Marques assim pensou quando escreveu o parágrafo com que iniciei este acontecer. Resta que talvez os humanos possam ter o dom de entenderem várias palavras escritas e por elas comunicarem outras até saciarem a sua sede de saberem do Ser, sobretudo quando Marta foi para mim a criatura vinda de um outro frio; um frio larvado do seu interior, um frio onde seria aposto o dia em que deixaria o mundo, e, esse facto não era terrível, não! nem maligno, antes impenetrável mistério como o das cegonhas quando voando alto, levando consigo o azul, nas suas silhuetas migratórias.

 

Teresa Bracinha Vieira

QUERENÇA – UM BOM EXEMPLO!

 

TU CÁ TU LÁ

COM O PATRIMÓNIO


Diário de Agosto * Número 
10

 

Há dias terminou o Festival Literário Internacional de Querença. Foram três dias de intensa atividade de reflexão e de troca de ideias. O momento alto tivemo-lo na justíssima homenagem a Gastão Cruz com a entrega da Medalha de Mérito Cultural pelo Ministro da Cultura Luís Filipe Castro Mendes. Um grande poeta merece o justo reconhecimento.

 

E não podemos esquecer a memória de Luís Guerreiro, que há pouco nos deixou, e a quem se deve o impulso para a ação muito relevante da Fundação Manuel Viegas Guerreiro. Este Festival a ele muito deve, e por isso o seu nome tem de ser recordado. Devemos ainda invocar a marca gráfica de José Carlos Fernandes – que em Querença continua a proteger-se das bocas do mundo, sem que faça esquecer que é uma referência nacional e internacional indiscutível no mundo da ilustração. A imagem de marca do FLIQ que aqui publicamos é inseparável do seu criador e ficamos muito agradados e agradecidos por esse facto… Lembramos, assim, Manuel Viegas Guerreiro como ele mais gostaria – em nome da memória viva do tempo!

 

No domingo, Rayma Suprani trouxe-nos a dura experiência venezuelana e Cécile Bertrand falou do equilíbrio entre liberdade e respeito mútuo. Onde estão os limites? A difamação não é aceitável, bem como a violência e a chantagem! E a ilustradora Cristina Sampaio mostrou-nos a sua criação, plena de humor e ironia. A liberdade é uma marca das sociedades abertas e pluralistas!

 

E se se falou do Património Cultural como realidade viva, vieram à memória grandes ilustradores algarvios – como Tóssan, Bernardo Marques e Maria Keil. Eis por que José Carlos Fernandes pertence a uma plêiade extraordinária… E que é o Património Cultural senão muito mais do que monumentos – devendo ligar as pedras mortas às pedras vivas, a arte e a arqueologia, mas também o património imaterial, as tradições, os costumes, as línguas, os falares, além das paisagens (a imagem dos países) e da criação contemporânea. E qual a mensagem essencial? Não deixar ao abandono o que nos foi legado por quem nos antecedeu!

 

Falando da relação entre palavra e imagem, nada melhor do que ouvir E naturalmente devemos ouvir Gastão Cruz:

 

Gravura
Ourives-gravador era o ofício

do meu avô paterno: sobre mesas
dispersos utensílios buris limas
por entre chapas e, há muito, objectos

 

acumulados; lembro-o curvado
com a luneta, fixamente olhando
a dura mão que no metal gravava
por encomenda nomes: desenhava com

 

força as linhas do seu significado
como se para alguma eternidade
ilusória as gravasse, assim o poeta

 

com o buril inscreve na deserta
chapa do mundo não interpretado
o sentido precário de o olhar
(“A moeda do tempo”. Lisboa: Assírio & Alvim, 2006).

 

Agostinho de Morais

VINTE LIVROS PARA FÉRIAS…

 

À semelhança de outros anos, escolhemos vinte livros que serão uma excelente oportunidade de leitura para este verão…

 

Revista «Colóquio – Letras» - Correspondência inédita de Alexandre O’Neill e Diálogo Edgar Morin e Eduardo Lourenço.
«Rimas» de Francisco Petrarca (tradução de Vasco Graça Moura), (Quetzal).
«Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa» (diversos volumes) - coordenação Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco (Circulo de Leitores)
«A Cidade Virtuosa» - Alfarrabi (tradução de Catarina Belo) (F. C. Gulbenkian).
«Obras Completas de Maria Judite de Carvalho» – vol. I «Tanta Gente Mariana» e «As Palavras Poupadas» (Minotauro).
«Antero – ou a Noite Intacta» (Gradiva)
«Estuário» - Lídia Jorge (D. Quixote).
«Obra Perfeitamente Incompleta» - José Sesinando (Tinta da China).
«Na Prática a Teoria é Outra» - Vítor Cunha Rego (D. Quixote).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«O Fogo Será a Tua Casa» - Nuno Camarneiro (D. Quixote)
«A Sociedade dos Sonhadores» - José Eduardo Agualusa (D. Quixote)
«Gente Séria» - Hugo Mezena (Planeta).
«Portugal no Golfo Pérsico – 500 Anos» (vários autores), (Biblioteca Nacional de Portugal).
«O Fundo da Gaveta» - Vasco Pulido Valente (D. Quixote).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Um Amante no Porto» - Rita Ferro (D. Quixote).
«Em Minúsculas» - Herberto Helder (Porto Editora).
«Os Ricos» - Maria Filomena Mónica (Esfera dos Livros).
«Correspondência Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, 1949-1978» (Guerra e Paz). 

 

BOAS LEITURAS!

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 25 de junho a 1 de julho de 2018

 

«Estuário» (D. Quixote, 2018) é o mais recente romance de Lídia Jorge, no qual domina uma metáfora forte: o estuário surge, para a escritora, como uma paragem antes do esquecimento…

 

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UM CERTO REGRESSO

 

Em Estuário, Lídia Jorge volta, de algum modo, a O Dia dos Prodígios, não para repetir o tema, mas para retomar um certo sentido bíblico ou até litúrgico na consideração do tempo. Se o primeiro romance, justamente celebrado, nasceu da urgência libertadora, e se Os Memoráveis procuram uma reflexão feita a partir da relatividade dos acontecimentos, das pessoas e das coisas, Estuário parte da crise portuguesa e procura reencontrar “o carácter estoico e a honradez antiga” – perante a incapacidade de uma resposta que permita uma “sobrevivência digna”. E o que é aqui o homem moderno? Alguém que não sendo capaz de salvar o mundo, procura a ficção como modo de tentar consegui-lo. Edmundo Galeano são várias figuras a falar ao mesmo tempo – e o tema central não é outro senão o da resistência. E é bom que se diga que Lídia Jorge regressa, com coerência e determinação, a um tema que é seu e a que tem voltado persistentemente, em diversos registos e tons. E diz a autora: “o livro é sobre a grande crise que estamos a viver – mais do que sobre a crise que passámos” (DN, 26.5.2018). De facto, é ilusório pensar-se que a crise circunstancial está definitivamente passada. Há elementos duradouros que exigem reflexão e prevenção. E, ao longo de todo o romance, notamos um apelo constante a que nos mantenhamos atentos e firmes, e mais do que isso, que estejamos ativos. De facto, há muitos elementos dissuasores que impedem que as vozes cidadãs cheguem onde devem chegar para ser ouvidas. A comunicação de que muito se fala, torna-se tantas vezes uma ilusão. É este o problema da democracia hoje, tão mergulhada em crises e perplexidades, porque faltam instituições mediadoras, que impeçam a tirania do número, do imediato e da indiferença. E nos desencontros com o Estado a que aqui assistimos é da falta de mediação que, essencialmente, se trata.

 

 

UMA FAMÍLIA ENCLAUSURADA

 

O que encontramos no romance é uma família que vive enclausurada. E presenciamos um diálogo entre os grandes dramas globais, os processos históricos, e o que está próximo – o que vive ao nosso lado, sem cuja compreensão não podemos entender quem somos e onde estamos. Afinal, só se pode perceber o significado da tragédia dos outros quando esta deixa de ser abstrata – quando o medo deixa de ser difuso e passa a ser possível e próximo. Ao sentir a compaixão pelo próximo compreende-se que se pode escrever sobre o longínquo, sem que seja através de um mero conjunto de vagos lugares comuns. A distância desempenha, pois, um papel fundamental – os grandes problemas globais deixam na penumbra os dramas concretos que estão perto. E como em O Dia dos Prodígios também há a presença da magia, em breves apontamentos. Por exemplo, um casal atira ao mar uma mensagem dentro de uma garrafa à espera de uma boa notícia. Só os escritores podem perder o pudor para falarem sobre o que cada um procura esconder. Lídia Jorge tem-no repetido e assume como romancista o dever de não deixar por mãos alheias essa determinação. Urge desocultar o que está escondido. Resistência e emancipação, eis o que aqui encontramos ao longo de toda a obra. E Charlote encontra a sua força revelando a sua pele e o seu corpo, tornando a vulnerabilidade um modo de afrontar o medo, protagonizando uma história de amor. E que é o medo senão uma recusa de sermos nós perante os outros? Fechamo-nos dentro de uma concha, enclausuramo-nos e a memória, em lugar de se tornar um modo de nos abrirmos aos outros, torna-se lugar de ressentimento. Estuário poderia, segundo a autora, ter-se chamado “Casa dos Sonhos Trocados”. A crise geral, de facto, deve-se a uma inversão de valores e de sonhos… “A partir do que escrevemos tentamos iluminar. Cada frase é uma sombra da sombra de um sonho. Esse sonho é a realidade” (JL, 23.5.18).

 

Edmundo Galeano andou pelo mundo, esteve numa missão humanitária do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) no campo de Dadaab e regressou à casa paterna sem parte da mão direita. A grande casa de cinco pisos do Largo do Corpo Santo é uma metáfora da vida e do mundo e a mão direita desfigurada de Edmundo torna-se motivo da defesa da invenção literária perante a realidade nua e crua. Manuel Galeano, o pai, representa um tempo ligado ao mar que passou, mas faz da honradez a sua marca indelével, até às últimas consequências. A espera do Estado é desesperante, mas não é essa a salvação que se pode esperar. A resistência, afinal, manifesta-se contra esse Estado burocrático, distante, insensível. Há a frieza de Amadeu Lima, mas também o encontro entre ele e Charlote. São as duas faces da moeda – quem representa o poder de decisão e quem desesperadamente pede uma solução. “O que tinha ficado, isso sim, era um relâmpago que unia pessoas. Entre eles acontecia um relâmpago”… Esta era a face oculta de uma relação cheia de interrogações. A ficção da literatura torna-se um modo de afirmação substancial da resistência e da emancipação. Mais do que na culpa, importaria pôr a tónica na determinação em ir em frente. A literatura fixa a imagem que fica.

 

 

SOB A SOMBRA FERNANDO PESSOA

 

Se é verdade que “Ode Marítima” de Álvaro de Campos marca este romance – entre o drama do mar e a defesa da casa –, a Ilíada torna-se referência natural de um modelo literário revelador da humanidade de sempre. O funeral de Heitor, o herói amado pelos deuses, é lembrado – “como se o destino dos homens fosse um eterno combate, havendo um outro valor a defender” – para além do “compromisso dos contendores de adiarem por uns dias a nova batalha”. E Heitor é sempre um símbolo especial. Apesar de derrotado por Aquiles, depois de vencer Pátroclo, deixa-nos a ideia de que é essencial resistir. Com esta matéria-prima far-se-ia o caminho de salvação da humanidade, não feita de abstrações, mas de gestos e compromissos concretos. E aqui começa o romance de Edmundo Galeano, denominado 2030, no qual vamos encontrar temas de ameaça e perdição, mas também de salvação. Do que se trata é de um processo de aproximações sucessivas – a Terra gerida por quem tivesse a bomba nuclear ou o maior número de armas potentes e mortíferas; a ocorrência do Apocalipse e o subsequente Inverno Nuclear; e por fim a salvação dos que passavam por perto… “Salvavam-se os que conhecia, aqueles que surpreendera em plena batalha pela vida diária, esse humilde plano”… E que é o estuário? O encontro do rio e do mar, da água doce e da água salgada. A vida faz-se de contradições e complementaridades. E este romance permite-nos lidar com uma realidade multifacetada e inesgotável. Uma metáfora forte: o estuário surge, para a escritora, como uma paragem antes do esquecimento… E, não por acaso, Lídia Jorge usa como paráfrase do romance o que diz Saint-John Perse: “Eleva-se em nós um canto / que não conheceu nascente / e não terá foz em estuário”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

Ensaio Geral desta sexta-feira é dedicado ao jardim botânico do palácio nacional de Queluz, que foi reabilitado e mereceu o prémio da União Europeia para o Património Cultural, prémio Europa Nostra. Convidados da Renascença foram Manuel Batista, presidente do conselho de administração da Parques Sintra; Nuno Oliveira, engenheiro que faz a direção técnica do espaço; e Guilherme d’Oliveira Martins.
 
 

A VIDA DOS LIVROS

 

De 11 a 17 de junho de 2018

 

«Do Monte Cara vê-se o Mundo» (Caminho, 2014) de Germano Almeida dá-nos conta do melhor que a cultura de Cabo Verde tem. Germano Almeida foi Bolseiro do Centro Nacional de Cultura, em 2001, no âmbito das Bolsas Criar Lusofonia.

 

BIÓGRAFO DE CABO VERDE
Germano Almeida é o biógrafo de Cabo Verde. Não podemos compreender a vitalidade cultural do arquipélago e do país sem ler hoje o autor de Do Monte Cara vê-se o Mundo. É verdade que Baltazar Lopes é uma espécie de patriarca da “caboverdianidade” ou que Corsino Fortes é um poeta que sente como ninguém a identidade dessa extraordinária cultura da Macaronésia do Sul, mas Germano busca a naturalidade, a alegria de viver, a ironia, a arte de contar, a diversidade de tipos populares e a sensualidade dos corpos e das relações humanas. Não esqueço um dia que nos encontrámos na Praia, numa iniciativa do Centro Nacional de Cultura, e falámos dum tempo que estava para vir, em que de um modo natural a literatura cabo-verdiana seria reconhecida como exemplo maior na diversidade da língua portuguesa. Esse tempo chegou primeiro com o reconhecimento de Arménio Vieira no Prémio Camões e agora com o próprio Germano Almeida. A vitalidade cultural de Cabo Verde augurava essa evolução como natural. Desde que li pela primeira vez O Testamento do Sr. Napomuceno da Silva Araújo não tive qualquer dúvida sobre a qualidade excecional da obra e do autor. E em imaginação, percorremos o caminho iniciático do protagonista. “Atravessou a Rua de Lisboa, o Largo do Palácio e subiu ao Forte de Cónego trotando atrás de Jovita e extasiando-se com a maravilha que era o Mindelo, nunca vira tanta gente junta e sentia-se envergonhado de estar descalço atrás daquela carregadeira que calçava sandálias de plástico. Naquele dia não saiu de casa, temeroso de se perder na cidade enorme ou ser atacado por bandidos que sabia existirem e perseguirem as pessoas de dia ou de noite…”.

 

MINDELO, A CIDADE LIVRE
Ah, o Mindelo, cidade de história conturbada que Germano Almeida aprendeu a conhecer de trás para a frente. S. Vicente foi povoada tardiamente, tempo houve em que os piratas usavam a baía do Porto Grande como local de descanso, antes de avançarem para temíveis investidas. O povoamento foi lento, vindo de Santo Antão e S. Nicolau. E foi a memória da gloriosa revolução liberal, em que Garrett e Herculano estavam entre os bravos de Pampelido que deu o nome à extraordinária cidade que o escritor ama. Aqui acabava a escravatura. E essa invocação do Mindelo mítico era o melhor elogio da liberdade, como recusa a subalternização ou menoridade. E assim se tornou centro de irradiação de uma especial riqueza cultural que aproveitou as potencialidades do entreposto mercantil. Em Do Monte Cara vê-se o Mundo a personagem viva é a própria cidade do Mindelo e a sua gente. O velho Pepe é o cicerone, funcionando como um verdadeiro revelador e encenador de tudo o que vai acontecer. Júlia, Guida, D. Aurora, a Professora Ângela, o Trampinha – todos ilustram uma realidade humana muito rica, com uma ironia inesquecível, sob o olhar divertido e sábio do Monte Cara, em frente à cidade. E eis-nos embrenhados no dédalo que conduz ao Fortim d’El-Rei, à Alfândega Velha ou a Praça Nova, vibrante ao som do funaná. Aqui Nhô Baltas, Manuel Lopes e Jorge Barbosa criaram a revista “Claridade” – onde Chiquinho começou a ser publicado, com a originalidade cabo-verdiana, “excluindo os portugueses de toda e qualquer discussão referente ao destino das ilhas e dos homens”, como disse Alfredo Margarido.

 

UMA LITERATURA FEITA DE VIDA
O percurso de Germano Almeida começou na ilha da Boa Vista, onde aprendeu a viver entre a ruralidade e a cultura urbana. Em Regresso ao Paraíso dirá que “da Boa Vista da minha infância pouco mais já resta que o prazer de usar o tempo. É uma noção do tempo em que o hoje e o amanhã, o agora e o mais daqui a bocado, continuam significando a mesmíssima coisa. E quando para lá ia de férias ia sobretudo em busca desse tempo sem relógio, que é nosso está por nossa conta”. O futuro escritor fez a tropa em Angola, numa zona de confronto. Com vinte cinco anos, graças às qualidades da sua escrita consegue uma providencial bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian que lhe permitiu estudar Direito em Lisboa – onde fomos contemporâneos. Em 1977 regressou à pátria e em 1983 fundou com Leão Lopes e Rui Figueiredo a revista “Ponto e Vírgula” – onde publicou contos com o pseudónimo de Romualdo Cruz… Depressa foi descoberta a sua verdadeira identidade e seguiu-se uma entrada natural no mundo literário, com obras reveladoras duma originalíssima maneira de usar a língua portuguesa de Cabo Verde, na tradição dos seus melhores compatriotas. A Ilha Fantástica é constituída por um conjunto de textos, aparentemente despretensiosos, saídos na revista “Ponto e Vírgula”, que se revelam essenciais para a compreensão de uma cultura, onde o picaresco se associa a uma extraordinária apetência de compreender e revelar sentimentos. A última obra publicada, a sair em breve entre nós, – O Fiel Defunto – confirma essa capacidade para privilegiar a ideia de “divertimento”, de prazer com as pequenas coisas… E alguém pergunta ao “fiel defunto”: “mas deves estar a fazer alguma coisa para assim te divertires durante tanto tempo”. “Sim, respondia galhofeiro, ouço música, navego na internet, espreito o facebook, onde aprendo muito sobre as pessoas em geral e as pequenas vaidades que lhes enchem a alma, leio livros, falo com amigos, faço má-língua, digo mal das criaturas de quem não gosto, cuido das plantas do meu jardim que nunca estiveram tão bonitas de tão bem tratadas, enfim um enorme rol de ocupações que me preenchem os dias que gostaria que tivessem 48 em vez de apenas 24 horas”… E assim se confessa imune aos vícios, incapaz de escrever o que não tem para dizer e apenas disponível para deixar passar o tempo, com uma cana de pesca na mão, “sem sequer desejar apanhar um peixe para não ter a maçada de o transportar para casa”… Tem sido ainda importante a intervenção de Germano Almeida no tema da língua portuguesa. Devo dizer que concordo muito com o seu pensamento. Conversei muito sobre isso também com Corsino Fortes. É indispensável um ensino rigoroso do crioulo e o português deve ser muito bem ensinado como língua segunda. É fundamental aprender a falar o português corretamente. A alfabetização em crioulo obriga a cuidados especiais, para evitar barreiras entre ilhas ou comunidades. Dada a natureza dos crioulos é fundamental que o português não seja sentido como língua estranha. A tarefa da escola e da pedagogia obriga a que haja um desenvolvimento harmónico das línguas – como fatores de comunicação e integração. Não esqueçamos que o autor de Chiquinho era professor de latim ou que a taxa de analfabetismo em Cabo Verde era em 1974 menor do que em Portugal. Que significa isto? Que só uma exigência significativa para a comunicação linguística – em crioulo e português, pode evitar a exclusão. Daí Germano Almeida insistir “na necessidade de nós em Cabo Verde dominarmos o português até mais que os portugueses, Porque com o crioulo não vamos longe, não saímos das ilhas. Com o português vamos para Portugal, para o Brasil, para Angola”…

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

HÉLIA CORREIA

 

Quando li a «Dama Singular», um dos contos do livro de Hélia «Vinte Degraus e Outros Contos», chancela da Relógio D'Água, conto este dedicado a uma mulher da literatura portuguesa, senti e assim interpretei, o quanto a literatura pode ser uma lição descalça de muitos amores, aberta até de espaços, a mães ausentes, e enovelada em sóis que podem não chegar até onde e aonde se quer luz. Deste conto, retirei que a lição do seu segredo é a existência de uma escola de bonecas que o escuta, rebeldes e aprendizes bonecas para quando tiverem forma humana se salvarem, se um dia escreverem com um lápis tão fundo ao intuir de cada um de nós que, a cada palavra o soalho das mesmas faça ouvir a literatura.

 

E entretanto os padrões das palavras usadas sentem vontade de brincar, deste modo contribuindo para uma maturidade que as leve a entender para quem foram erguidas, e qual a razão desse empenho na subida de uma escada que ora é o total contacto com o chão, raiz de entendimento, ora é equilíbrio para quem queira ler as palavras a partir da distancia da literatura. E neste conto existem buganvílias que explicam o inverso da verdade numa febre que se não esquece. Também existem palavras deixadas a um especial relento para que morram ou para que escutem o quanto a preservação do seu universo, também é doloroso antes do ato de amor da literatura.

 

O conto da «Dama Singular» tem um cheiro de lenha húmida num quintal despenteado de certezas. Tem também muitos medos quando as palavras nos seus banhos receiam afundar-se, antes do apuramento certeiro do que visam.

 

E também existe neste conto uma casa. Há sempre uma casa: a literatura descobre-lhe função, estação e local de lição. Casos se conhecem em que a própria casa das palavras são seu lugar de libertação, são seu treino na estratégia de lhe entendermos peito, pensamento e mão.

 

Assim me aninhei neste conto.

 

Teresa Bracinha Vieira

LÍDIA JORGE

 

Estuário, o seu novo romance

 

Creio que as pessoas se perdem de nós e nós delas como se empurrássemos mundos que só se distanciam porque com o tempo somos conquistados por outros modos: pela morte ou pela vontade de uma escrita que os aceita, os quer buscar mesmo até à nudez que nos esclareça de tão blindada se sentir.

 

E escreve Lídia

 

Que a vida só está completa quando, ao morrermos, sentimos que obtivemos o conhecimento suficiente para outra vez nascermos. E essa contradição entre saber e percurso parece querer dizer que alguma coisa não está no seu lugar, mas está.

 

Escrever sobre este poderoso romance não é fácil, nem pretendo fazê-lo de jeito tradicional. Vou tentar dizer dele o que melhor saiba pelo ângulo que o senti, e direi de modo bifurcado, entre o espaço protetor do romance e o espaço sem contemplações do mundo cá de fora. E assim

 

Oferece-se também Edmundo para ser adivinhado neste livro e viver nele - terra tremenda - todas as traves, as casas, as muralhas, as ameias, o crepitar de vidas que ele quer colher no seu livro, escrito por sua mão amputada, por seus olhos fotográficos, pela sua capacidade de decifrar até quando desejará escrever tão avidamente o livro que tanto deseja, e deseja-o enfim, ao ponto de saber por entre as coisas secretas, que nenhum passo mais o levará a escrever algum dia esse livro, embaraço desvendado e eventualmente perturbador da sorte que lhe reserva um texto, qual grito de ave, lâmina.

 

Quero pensar que por entre os personagens de Estuário, por Edmundo Galeano chego a Tatiana e aos brincos de pérola, como proponho a chegada de David e da baleia cantora ao título do livro de Edmundo, a esse título 2030

 

E


Porque não havia uma correspondência entre as palavras e o mundo, ainda que muitos dissessem que sim. (…) que sentido tinha isso? O amor de Tristão e Isolda já não existe mais à face da Terra, ou antes, sabia-se agora que, afinal, sempre fora aquilo que fora, um mito construído com imaginação e palavras.

 

Um brinco de pérola salgada muito bela e criado em água doce e mansa. Ou a pergunta de David

 

Mãe, uma pessoa que se pendura de uma trave para morrer é muito fraca ou muito forte?

 

E responderá a baleia cantora pelo hino de Deméter que afinal é feliz quem dos viventes pergunta tal coisa.

 

Pois e não é que

 

Edmundo Galeano também entrou neste livro por uma garrafa que aportou à casa das vidas que queria escrever, que aportou ao estuário das saciedades e dentro da garrafa, uma película inextensa lhe permaneceu em negativo algures no seu cérebro.

 

Este livro de Lídia Jorge é também poético de tão real. Parece todo ele escrito entre o pôr-do-sol e o vir da noite, e, acaso adivinhais que nele também é dito

 

Quem disse alguma vez que os limites da nossa linguagem são os limites do nosso mundo, troçou da inteligência alheia. (…) Por que razão a vida sonhada era tão leve e a vida vivida, tão pesada? A imaginação tão diáfana, a realização tão grosseira? Perguntou-se Edmundo Galeano, com os olhos cheios de tristeza.

 

Edmundo optará por um regresso à casa, à casa junto à Praça do Mar e escreverá afinal o seu tão ansiado livro. Escreverá numa passada tutelada pela biblioteca onde A Cartuxa de Parma, A Peregrinação, a Ilíada, a Odisseia, O Homem sem qualidades, o Livro do Riso e do Esquecimento, a Ode Marítima, iluminarão sempre o que de melhor de si se salvará: a mão mutilada e afinal plena, ampla, como cavalo fogoso, agora esporeada para que a realidade não se fique por uma polegada acima ou abaixo do Estuário, antes substanciosa à vida.

 

Assim Lídia, neste teu livro senti uma mistura de inquietude e mágoa, humor e absurdo, capricho e segredo, mito e fantasia e o quanto as ligações humanas são todas tão perto do caos, verdade-herdeira de quem as escreve por mão insubmissa.

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

A prisão: uma recruta dos desertos

 

Depois de passar a primeira porta de ferro todas as vozes surgem reconstituídas face aos ecos que se fazem sentir. Quase se soletram as energias vocais de cada um e que correspondem a um diferente sentir instantâneo de uma ocasião repentina que se torna única quando o prisioneiro se depara com alguém que não conhece. Depois outra porta de ferro, e também automática, fecha-se a estalar atras de nós, numa descendência justificada de portas, uma após outra: e o corredor: eis. O corredor, ou antes, os corredores, em anarquias controladas de ruídos e movimentos que se esgotam nos repentes que se não veem, mas se apercebem por um ar, por onde, cheios do bater de asas, aves mudas seguem sopros que não são mais do que turvas visões. De todos são conhecidos os nervosos movimentos que se esgotam ali, súbitos, sob o nosso olhar como numa rápida operação de cálculo. Mais fundo, mais dentro da cadeia, chega o momento de se escutarem os segredos enlouquecedores vindos de cada um, e, entende-se que já por ali se não tem tudo o que a vida entregou antes de iniciar o gesto que daria o cumprir da pena. Ali quedaram-se muitas migrações e emigrações em sombras impassíveis de desastres confiados a um luto. Os guardas prisionais, naquela cadeia de alta segurança, surgiam-me, um após outro, como se os conhecesse desde sempre naquela profissão de lenhadores de ruínas que naquela hora única me sorriam à minha descida do céu.

 

Sentei-me à frente dos trinta e poucos prisioneiros que queriam ter tido aquela tarde na biblioteca que todos estávamos a construir, e eis que o Diretor da prisão entra, senta-se ao meu lado, e num gesto de harmonia simples e de contentamento solto, apresenta-me aos prisioneiros e, generosamente, agradece a minha presença e sai, pois o muito a fazer não lhe permite ficar.

 

Olhei para todos em breve relance. Os dois guardas presentes perfilavam-se também para me escutar ou escutar orlas desconhecidas da minha perceção. Os despertadores das trovoadas, quis crer, adormeceram num ápice. E eu

 

Não me ocorre nada do que pensei dizer-vos. Deixo à vossa consideração as perguntas que me queiram fazer face aos livros que sejam do vosso interesse. Eu, apenas vos digo, que um dia, um dia normal como tantos outros, um dia em que não se pensa sequer na liberdade como jornada a conquistar, um dia, disse-me um médico

 

Pois o seu caso é complicado, o que resulta dos exames renais leva-nos a atuar com a urgência máxima. Será operada daqui a dois dias, ou seja neste dia de Natal próximo, e, o pós cirurgia, devo dizer, é doloroso. Vamos ver como se lida com isto.

 

Tremia por dentro do peito como não sei dizer. Aquele cancro condenava-me a um mês de vida. Prisioneira de tudo e de todos procurava danos que tivesse cometido e que justificassem aquela pena máxima a que estava condenada. Não tinha a mínima possibilidade de escolher livremente quem queria ser naquele dia. E digo-vos, pensei nessa dor inexplicável, irremediável e injusta que então senti, quando há pouco se fecharam atras de mim as grades elétricas que me deixariam enfim, ao vosso lado. Pensei nisto tudo quando nos corredores vos vi a todos impacientes a uma estranha dança deste viver, assim, aqui dentro. Agora mesmo sinto no ar abandonos, feridas sufocadas por maldições e os vossos olhares a escutarem-me e eu nada mais vos sei dizer, neste momento, em que queria muito que pensassem que se estou aqui é porque sobrevivi ao mundo de dor pelo qual passei. E acima de tudo sobrevivi sem me sentir enraivecida pelo que suportei, a impotência não me moldou, devo dizer-vos, mas a caça por um mundo melhor trouxe-me neste dia até vós. Assim aceitem os senhores esta estranha janela que vos quero dar. Não sei se fui clara, mas não fui poupada neste meu tempo de viver, creiam, e tive de jogar às cartas da vida numa estúpida crença de que elas não possuíam o meu trunfo. E afinal, não possuíam mesmo: estou aqui, com as minhas fraquezas e as minhas possibilidades.

Obrigada.

 

Um guarda trouxe-me, num velho carro celular (não havia outro) até Campanhã. Recordo ter achado curioso experimentar a limitação e a incomodidade do dito. Viemos lado a lado a conversar numa estranha admiração mútua. As condições de trabalho que me explicou funcionarem naquele estabelecimento prisional, bem me consciencializaram para as pessoas que lutam pelas migalhas do pão de cada dia, bem cientes de que já viram demasiadas verdades. Vivemos num mundo arrasado e apenas aqueles que têm os corações arrasados, sabem que também se marcha por entre os destroços. Não esquecerei o diálogo com aquele guarda e muito me agradou o que ele não disse.

 

O comboio da noite, após várias horas, trouxe-me até Lisboa. Durante a viagem fui pensando uma a uma em todas as perguntas que me fizeram os prisioneiros e nas respostas que fui dando. O que se mostrou mais intelectual de entre todos e com Alberto Caeiro entre as mãos disse-me: a imperfeição absurda da vida é irremediável: escrevo isto muitas vezes pois cada vez fica mais claro. E um outro que se levantou para que a sua voz se ouvisse bem alto: sabe eu tenho um cão que olha para mim e me diz coisas que eu gostaria de ouvir de alguém. E eu, ali naquele comboio, cada vez mais me convencia que cada um de nós parece estar mais bem treinado para sacudir a água do capote. Também somos sobrecarregados connosco próprios, pensei, agrade-nos ou não a ideia. Lembrei-me de Yourcenar quando perguntava: existirá alguém tão insensato que morra sem conhecer a sua prisão? O que temos é, inevitavelmente, a opção de escolher em tudo o que fazemos, mas um homem sensato tem de ser um investigador de almas que saiba da luta vã contra a nossa insignificância. O seja feita a vossa vontade, é o saber recompor as horas fragmentadas e formar com elas uma harmonia, uma possibilidade em relação a cada novo dia. Talvez a compreensão deste facto nos permita acarinhar os desastres e tornarmo-nos humanos, dirigindo-nos ao mundo como indivíduos. Mais pensei, por muito que a ideia messiânica possa ser atraente, a simples crença na fraternidade de uma sociedade pode demonstrar compaixão em pessoas que ainda não saibam viver mais do que para elas. Então a tal janela que acima referi aos prisioneiros, pode abrir-se aos desejos e aos medos e podemos com ela libertar-nos da nossa prisão de portas automáticas que acolhem os recrutas de desertos, ainda que tudo isto seja, por óbvio, uma atividade interminável e estritamente pessoal. Olhei através da janela da carruagem em que seguia. Chovia torrencialmente naquela noite de inverno e muito de mim foi o que me uniu à tempestade. Do outro lado do corredor, e já muito bebidos, uns americanos festejavam ruidosamente a eleição de Trump. Voltei ao casulo dos meus pensamentos, tenho para mim que uma solidão quase inalienável faz parte de nós, e cada vez mais achei que a resistência aos nossos erros não começa com grandes palavras, começa com pequenos atos e saiba-se que quando nos entregamos, não temos ideia da dimensão da nossa entrega. Todos nos tornamos adultos tardiamente. Julgo ainda, que, só desaparecemos quando totalmente absorvidos pelo momento: quero dizer com isto que, naquele dia, quando não existi, foi afinal quando desfrutei de tudo o que me foi oferecido e ensinado.

 

Paços de Ferreira

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

 

De 26 de março a 1 de abril de 2018.

 

Adília Lopes acaba de publicar «Estar em Casa» (Assírio e Alvim, 2018), o terceiro volume de um conjunto autobiográfico, em que se integram «Manhã» (2015) e «Bandolim» (2016), numa série em que a originalidade e a imaginação da autora continuam a afirmar-se plenamente.

 

UMA CAPA FEITA DE MEMÓRIAS
A capa de «Estar em Casa» é muito atraente e representa os brinquedos da infância da poetisa dispostos em cima de uma mesa em sua casa na José Estevão. De facto, a casa está muito presente não só neste livro, mas também nos volumes que o antecederam – e em toda a prolífera obra precedente. A casa é o refúgio, a proteção e a defesa. Com um finíssimo sentido de humor, inconfundível, lemos impressões aparentemente espontâneas e simples, mas profundamente pensadas, palavra por palavra… Adília Lopes tem insistido em dizer que o fascínio que sente pela obra de Sophia de Mello Breyner é exatamente originado pela busca permanente da palavra certa. E a verdade é que, ao longo da obra poética da autora, sentimos essa permanente exigência, em que a imaginação e a lucidez se ligam intimamente num objetivo determinado e exigente em que o non-sense surge de um modo cuidado como ilustração e compreensão da realidade. Ver o mundo às avessas é, assim, procurar vê-lo melhor. Como no casaco de malha, quando parecia faltar-lhe uma casa para o botão… De facto, estava mal abotoado… E lembramo-nos do gosto que José Blanc de Portugal (figura marcante da cultura, que foi tão próximo da nossa autora) tinha pelos «Disparates do Mundo» de Chesterton, que magistralmente traduziu, fácil é de fazer um paralelo com a preocupação que Adília tem em apresentar a realidade sob um ponto de vista atípico e aparentemente cómico ou até chocante, para que se compreenda melhor a singularidade do que nos procura dizer. Sobre essa marca muito especial, lembramo-nos do que disse Paula Rego, quando tomou contacto com a escrita e as recordações de Adília Lopes: «fizeram-me logo lembrar a minha juventude, com as criadas, as bonecas, as mães ultraprotetoras. Adília Lopes é de um grande romantismo e ao mesmo tempo de um grotesco e de um cómico transbordantes». Não é demais dar ênfase ao extraordinário paralelismo, com as distâncias necessárias e as especificidades próprias, entre as duas, Paula e Adília.

 

VERSO E REVERSO DE UMA MESMA REALIDADE
Não devemos esquecer o que um dia disse a autora: «Adília Lopes é água no estado gasoso e Maria José a mesma água em estado sólido». Não se trata de duas facetas diferentes de uma rica e complexa personalidade, de uma transbordante criatividade – mas de verso e reverso de uma mesma realidade, que não esconde as raízes familiares e a determinação em encontrar um caminho próprio, que a levou, naturalmente a migrar da Física para a Literatura e Linguística, numa ilustração evidente sobre as fronteiras ténues que ligam as Humanidades. Mas ficou a paixão da matemática e o sincero gosto pelo rigor científico e pela busca da incerteza. Como diria Pascoaes trata-se de se debruçar da «velhinha janela» para saber ouvir «a voz das cousas». Nunca Adília / Maria José deixou de ter uma atração especial pela Física, como antecâmara natural para uma boa compreensão do mundo da vida. E voltando a José Blanc de Portugal, nele encontramos essa ligação íntima entre o espírito científico (do geógrafo) e a paixão literária, a demonstrar que as humanidades são abrangentes, não albergando duas (ou várias) culturas distantes e separadas. «A literatura continua a ser para mim uma coisa muito séria». A água é a mesma esteja no estado gasoso ou no estado sólido. Daí a importância do conselho de Sebastião e Silva para a “utilização do Compêndio de Matemática” - «adotar um critério de escolha que elimine exercícios supérfluos e exercícios estapafúrdios». E que significa isso? Exatamente, compreender que o real quotidiano é bem mais simples e suscetível de clareza do que julgamos à primeira vista… «Gosto muito de comparações. Escrevo muitas vezes a palavra como. Como gosto muito de comer até tem mais graça». Assim mesmo – como se fosse tudo óbvio. Fernando Pessoa diz: «Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates». E Cristina Campo diz que «não tem mal nenhum uma pessoa repetir-se» Tudo depende de as ideias valerem a pena. E o que é «ser sempre criança»? É fazer da memória uma atenção permanente. «Memória / puzzle». É não esquecer. É pôr os brinquedos na mesa redonda para falarem. E é compreender a magia do escorrega – uma bela comparação para pensar e escrever.

 

UM MUNDO DE COMPARAÇÕES
Em maré de comparações, estamos diante de um mundo inesgotável. É esse o mundo em que Adília habita, com prazer genuíno, mas também com incomodidade. «Ao fim da tarde, depois de os amigos se terem ido embora, a sombra do bule fez-me ver como sou feliz às vezes». E na casa habitam os espíritos, as lembranças, os desejos, as perplexidades – tudo. Proust encontra-se com Cesário, Agustina vai ter com Sophia, Verlaine desencontra-se com Rimbaud. Os brinquedos falam sobre a mesa. «Escrevo / esgravato / com o bico da caneta / o caderno…». No caso de «Estar em Casa» temos de entender que com ele os outros dois livros autobiográficos fazem um conjunto só. O seu valor é do conjunto, das memórias, das dúvidas, das descobertas. «Manhã» e «Bandolim» anunciam «Estar em Casa» - e os três livros ler-se-ão naturalmente em conjunto. «Ler, escrever, ouvir música, andar a pé, brincar». Se virmos bem há um fio de Ariadne que liga tudo. «Cismar tagarelar». E um médico disse que «a novidade estimula» ou ainda que «a capacidade de esquecimento das pessoas é muito grande»… Isto a propósito da senhora que era pobre e não tinha dinheiro para comprar bibelots. Por isso tinha um baú, donde ia fazendo circular os poucos bibelots que tinha, para dar a impressão de que eram muitos e novos. «Não é bom ser pobre mas é bom ter imaginação». E se agora não encontramos as «caras baratas», vislumbramos a pata firme de Lu, uma gata omnipresente que chegava aos seus dias do fim. «Acho que só os animais são capazes de amar assim tanto. Eu não sou capaz». Maria José / Adília continua a dar-nos o retrato da vida. E diz-nos ser verdade que as flores baloiçam no ar!...

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

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   De 19 a 25 de março de 2018

 

«Memórias» de Rómulo de Carvalho (edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010) é um precioso relato de uma vida muito rica de um grande pedagogo, homem de ciência e humanista.

 

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MESTRE DE MESTRES

 

Era Campo de Ourique e chovia. Foi o dia em que, muito justamente, fomos lembrar e homenagear Rómulo de Carvalho na casa onde morou. Com uma ponta de emoção, o Presidente da República não pôde deixar de lembrar, com palavras oportuníssimas do mestre, os tempos em que teve como professor o homenageado de agora. E ficou como marco dessa invocação uma placa, que lembrará a quem por ali passar o professor, o poeta, o homem de ciência, numa palavra, o humanista no sentido mais rico do termo. O quarteirão desse bairro cheio de memórias é, aliás, o mesmo em que viveu Bento de Jesus Caraça… E tal placa levará os passantes à recordação do exemplo de quem foi sempre um legítimo praticante da arte de ensinar e aprender. Sim, porque para o pedagogo de exceção o fundamental era compreender que há sempre uma troca quando se trata de educar. É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico (ao seu trabalho se deve a publicação das Memórias), Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes”. Para Rómulo de Carvalho, o experimentado docente: “o Professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências”. Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro – com encenação, marcação, representação e climax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de Rómulo de Carvalho. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. No testemunho de duas discípulas, Alcina do Aido (minha professora) e de Maria Gertrudes Bastos: “a preocupação que nos procurava incutir com a maior ênfase era a necessidade de, nas vésperas de uma lição em que se previa a realização de uma certa experiência, executá-la com o maior cuidado, testando todo o material até ao último pormenor, na tentativa de evitar qualquer falha que pusesse em risco a conclusão que se pretendia tirar”…

 

 

A CHAVE DA CIVILIZAÇÃO

 

Num texto intitulado Presença de Descartes afirmava: “A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem”. E isto obriga à liberdade criadora – de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta… Não esqueço, como na sua História do Átomo da coleção Ciência para Gente Nova (Atlântida) dizia: “A história do átomo é a história de uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das atividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso”. António Gedeão era uma figura à parte, que não iludia a personalidade do seu criador, mas não se confundia com ele. Daí que Rómulo de Carvalho tenha tido o cuidado de o fazer sair do mundo dos vivos antes dele próprio. De facto, há uma fronteira, que permite compreender que a ciência e arte se ligam, na compreensão dos diferentes métodos que usam. Rómulo de Carvalho era um homem do método. Em célebre artigo publicado na revista “Palestra” em 1959, intitulado “A Física como objeto de Ensino”, afirmava ser “necessário ter cuidado ao considerar a experiência como base fundamental do ensino da Física em vista do seu valor como estimulante do processo indutivo. Realmente, não é a experiência que permite a indução. Somos nós, nós os que ensinamos, com as palavras que escolhemos e proferimos no decorrer da sua execução, com as nossas hábeis insinuações, com as nossas escamoteações oportunas, com o nosso conhecimento sagaz do aluno e das suas circunstâncias. Nós somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo”. Esta a chave fundamental da Educação, compreendendo-se que estamos sempre perante o complexo desafio de ligar a aprendizagem, o conhecimento, a relação direta entre o professor e o aluno, a valorização do trabalho, da exigência e da justiça. O essencial da educação está na aprendizagem. Esse o elemento crucial, que não pode ser alvo de confusões ou de qualquer tipo de inversão de valores. Só há Educação justa se houver exigência, só a qualidade pode combater a exclusão e a desigualdade.

 

 

LEMBRAR TAMBÉM NATÁLIA NUNES

 

Há poucas semanas, fomos despedir-nos de Natália Nunes. Então pude lembrar, com sua filha Cristina, o percurso multifacetado e rico da mulher de Rómulo de Carvalho, que ele tanto admirava. Não esqueço a última vez que a acompanhei à rua Sampaio Bruno, depois de termos ido ao Liceu de Pedro Nunes homenagear o Professor no seu Laboratório de Física, pleno de recordações e lugar onde pôde exercer a sua missão didática, pedagógica e científica. Foi uma oportunidade para lembrar a personalidade excecional de Rómulo na instituição secular que tanto marcou. Personalidade discreta, Natália Nunes é uma grande escritora, que foi sempre uma cidadã aberta e corajosa, a quem devemos Autobiografia de uma mulher romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1964) e Vénus Turbulenta (1997) – além de contos, ensaios e traduções. Era uma pessoa de rara sensibilidade e de grande cultura – que se singularizou como profissional de referência no mundo das Bibliotecas e Arquivos. Tenho testemunhos de muitos dos com ela trabalharam ou a ela recorreram bem demonstrativos das suas excecionais qualidades. Posso confirmá-lo pessoalmente. Falámos longamente, e era a liberdade da cultura que cultivava e uma fantástica curiosidade pelo mundo e pela vida – como notamos na sua obra, na variedade de temas e situações e no contacto conhecedor com a melhor literatura de Tolstoi, Dostoievski e Balzac, além de Raul Brandão. Nas palavras que troquei no dia da homenagem a seu pai com Cristina Carvalho pude ligar as duas personalidades cativantes que tive o gosto de conhecer e admirar – completavam-se naturalmente e o amor à cultura, à ciência e aos livros era apaixonante.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
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