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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

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   De 23 a 29 de novembro de 2020

 

Irene Vallejo, recentemente premiada com o Prémio Nacional de Ensaio de Espanha, graças ao livro O Infinito num Junco (Bertrand, 2020), oferece-nos uma reflexão fundamental sobre as origens e o destino do livro.

 

CNC - Irene Vallejo _ O Infinito num Junco .jpg

 

OS LIVROS TÊM O SEU PRÓPRIO DESTINO

Falando de livros e de autores, não podemos esquecer o que Eduardo Lourenço nos diz sobre o nascimento da modernidade portuguesa. “Almeida Garrett e Herculano ‘refundaram’ Portugal porque, pela primeira vez, e de uma maneira mais radical do que acontecera nas raras mas fortes crises que pontuaram a nossa história de nação independente, o país esteve em sérios riscos de perecer. E de uma maneira que não afetaria apenas a sua expressão política, mas o seu todo como organismo histórico e cultural”. E que aconteceu? Portugal ficou em discussão na balança da Europa, depois das guerras napoleónicas. Os poetas românticos foram para o exílio, em nome da liberdade – e “Portugal e os Portugueses, pela primeira vez divididos ideologicamente – ao menos uma pequena minoria – começam a preocupar-se e a ocupar-se do destino de Portugal. Como se fossem já cidadãos e não meros súbditos. (…) Com o voto da Constituição de 1822 nasce o liberalismo em Portugal e pede-se ao rei que regresse para jurar a Constituição. A semente estava lançada…” Tratava-se de separar o Portugal velho do Portugal Novo. E os dois românticos, pensando o País em termos profanos, integram-no na História. Assim, insiste Eduardo Lourenço, “A História de Portugal de Alexandre Herculano não é uma entre outras, é a primeira digna desse nome escrita de dentro e segundo as mais rigorosas exigências da época. É já também, intrinsecamente, Portugal como história. O inacabado monumento ficou perfeito no seu inacabamento. É também uma leitura do nosso passado à luz do presente, um Portugal que, de armas na mão, se conquistou como liberdade. E é o passado dessa liberdade – quando na sua perspetiva mereceu esse nome – que ele exuma e exalta. Um passado julgado mesmo com severidade (…) antecipando a leitura dramática da geração seguinte. Miraculosamente, contudo, tenta preservar os dois Portugais que sob os seus olhos se digladiaram, conciliando liberalismo com cristianismo” (Portugal como Destino – Dramaturgia cultural portuguesa, 1998).

Não por acaso falamos de dois autores que influenciaram decisivamente o seu tempo pelo que escreveram. E hoje as suas obras são marcantes. Fizeram uma ligação entre uma cultura antiga e ancestral e o tempo presente. Mas a força da sua influência deveu-se à construção de uma cidadania livre – capaz de ligar as raízes antigas e a modernidade. Por isso, o ensaísta de Mitologia da Saudade salienta que a importância de Garrett e Herculano não se deverá a qualquer acomodação ou adaptação, mas à afirmação da sua visão da história e a uma exigência do seu individualismo ético. E nesse ponto, como o analista afirma, os dois mestres antecipam o que Antero de Quental dirá em As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. De facto, a geração do último quartel do século XIX vai completar a sementeira de ideias lançada pelos primeiros românticos, que sempre recusaram ser mestres-escola, antes preferindo ser desafiadores de ideias novas. Por isso, José-Augusto França analisou o Romantismo português como um fenómeno de conjunto, com múltiplas implicações, nunca confundível com uma ideologia circunstancial… E entende-se Herculano, tendo vivido o suficiente para poder ver a influência na geração que se lhe seguiu, dialogando com ela, sem cedências, com exata compreensão da força perene do individualismo ético, que os jovens de 1870 utilizariam para a afirmação de uma via democrática e social e de uma síntese entre a liberdade, as raízes históricas e a reorganização da sociedade.

 

A PAIXÃO DOS LIVROS…

Eduardo Lourenço como, antes dele António Sérgio, ressalvadas diferenças e confluências, insere-se nessa mesma genealogia. E não por acaso coloca Garrett e Herculano na fundação da sua estirpe intelectual. E podemos recordar nesta ligação o que o gramático latino relativamente obscuro, Terenciano, afirmou: “Habent sua fata libelli”, significando que os livros têm o seu próprio destino. Irene Vallejo, recentemente premiada com o Prémio Nacional de Ensaio de Espanha, graças ao livro O Infinito num Junco (Bertrand, 2020), interrogou a invenção dos livros no mundo antigo – lembrando que tudo começou na oralidade, desde a transmissão pelos Aedos das narrativas heroicas, como a Ilíada e a Odisseia… Não por acaso, faço a ligação entre as reflexões do nosso maior ensaísta e esta obra tão rica de pensamento. Longe de se tornarem esquecidos, o livro e a leitura assumem hoje uma importância indiscutível, pelo número de novos leitores e pela perceção de que, com vários suportes tecnológicos, a transmissão de narrativas tem a ver com a memória e a sua exigência como procura de sentido e como modo de superar o vazio de valores, de que fala Hermann Broch, num mundo de “sonâmbulos”. A pandemia, a distância, a prevenção da doença obrigam à compreensão de que temos de encontrar respostas para a indiferença, a separação e o medo.

A Biblioteca de Alexandria procurou reunir o conhecimento num mesmo lugar, acessível a quem pretendesse saber. A ideia original do Museu também é semelhante, pretendendo em homenagem às musas pôr em contacto o conhecimento e a experiência. Mas enquanto em Alexandria no século III a.C. tentava reunir-se a totalidade dos livros, o Imperado Qin Shi Huang Di ordenava que se queimassem todos os livros nos seus domínios. Como salientou Umberto Eco, o livro é uma tecnologia fundamental, mas não há um modelo de livro – já tivemos o rolo, o papiro, as placas de argila, os códices medievais até ao digital contemporâneo. Trata-se, no fundo, de preservar a palavra, E a evolução significa a procura incessante da melhor maneira de preservar as palavras. Estamos a falar de arquivos da memória e das palavras. E nesta extraordinária transmissão, temos além dos Aedos, as mulheres, as mães que desde a conceção da criança têm um papel decisivo na sua formação, através da oralidade.

 

A MEMÓRIA DE ASPÁSIA DE MILETO…

E não diz Irene Vallejo que Aspásia de Mileto foi quem escreveu muito provavelmente o mais célebre dos discursos de seu marido Péricles? E não podemos esquecer que o primeiro país que erradicou o analfabetismo foi a Noruega, por ter proibido o casamento de mulheres analfabetas, para que se não perdesse a leitura da Bíblia, necessária ao luteranismo, e a oralidade da comunicação familiar. Mas não estamos apenas no campo do sublime, uma vez que os livreiros foram ao longo dos tempos tantas vezes vítimas da sua própria coragem e do risco de vida, ao publicarem obras polémicas, ao abrigo da liberdade de pensamento e de expressão. Quantos não perderam a vida apenas para concretizarem a liberdade, a autonomia e a dignidade humana. Desde os versos de Homero à Biblioteca de Sarajevo, encontramos o essencial da história humana. A ficção e o ensaio andam paredes meias. Se Montaigne tem uma capacidade única de se dirigir ao leitor, de tu a tu, As Mil e Uma Noites são uma cadeia interminável de relatos que permitem entender a complexidade da vida e do género humano. Daí que O Infinito num Junco seja uma verdadeira arqueologia do saber e das ideias, cuja matéria-prima é feita de memória humana, em toda a sua complexidade. São as Humanidades que encontramos na sua vitalidade plena, quando vislumbramos a eternidade num fresco da Vila dos Papiros em Herculano.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CADA ROCA COM SEU FUSO...

 

A SURPRESA DE LOUISE GLÜCK


Quando Louise Glück (1943) soube que lhe tinha sido atribuído o Prémio Nobel 2020 mostrou-se muito surpreendida por se tratar de poesia e ainda por cima por ser uma escritora branca. Mas não havia razões para surpresa, não só pela sua atitude de compreensão permanente pelos mais legítimos combates pelo respeito da dignidade humana, mas também pelos temas que tem escolhido para a sua criação poética – nos quais a não indiferença marca sempre a busca de um elo entre as mais legítimas preocupações da arte e dos criadores. Pelo menos, ficamos com a certeza de que este será um caso em que o tempo se encarregará de demonstrar que o prémio Nobel da Literatura tem também grandes nomes a celebrizá-lo. “A necessidade de escrever é o desejo de seguir uma ideia. Para um escritor, pensar e escrever, como pensar e sentir são sinónimos” – eis o que nos diz a poeta. Mas também encontramos na sua escrita coerente e imprevisível a compreensão da incindibilidade entre a mente e os sentimentos: “O melhor / é não ter mente. Sentimentos / Oh, tenho-os / governam-me”. Os mitos clássicos são um dos seus temas preferidos. Importa compreender os valores permanentes. Ao tratar da guerra de Troia, pergunta-se se a guerra é um passatempo masculino, “um passatempo para fugir a questões espirituais profundas”.  A cada passo, Glück vê a história, real e mítica, como realidade contraditória, que é preciso encarar com sentido crítico, reflexão e sentimento. Tantas vezes as personagens do teatro grego não são pessoas, como Perséfone e Hades, mas aspetos do dilema e do conflito de qualquer ser humano. “Que farás quando chegar a tua vez em um campo com um deus?”… Há um permanente diálogo entre pessoas, como se a autora conversasse com cada um dos leitores. A simplicidade da linguagem, o humor, a aparente proximidade tornam a poeta uma grande referência. Neste tempo marcado pela pressa e não pela reflexão, mas também pelo medo e pela incerteza, Glück é uma marca positiva e necessária. Um jornalista de “El Pais” salientou como temas recorrentes da premiada; a traição, a mortalidade, o amor, o sentimento de perda. Eis um conjunto de questões que tornam a escritora um símbolo atualíssimo, para além das modas e das imitações… Como disse Adam Plankett, o mais extraordinário milagre de Louise Glück é a capacidade extraordinário de transformar água em sangue, não no sentido elementar, mas como sentimento humano – o mesmo que encontramos no combate entre Aquiles e Heitor e no título do livro de 1985 “The Triumph of Achilles”. Não há, contudo, livros traduzidos em português, há apenas algumas traduções esparsas. Recordamo-las aqui, à espera das edições que a autora tanto merece… 

Agostinho de Morais  

O Poder de Circe

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.


*Poema publicado originalmente na coletânea
Meadowlands (1996), com o título “Circe’s Power”. Editado em Portugal na antologia Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro (2001), da Assírio & Alvim, numa tradução de José Alberto Oliveira.


Paisagem

Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono

fora muito seco; o campo
ardeu como palha.

Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.

Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –

Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.

Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.

É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?

Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.

Pensas: como pude viver aqui?

Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.

Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.

O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.


*Terceira parte do poema “Landscape”, de Averno (2006), traduzido por Rui Pires Cabral. Os versos foram publicados no n.º 12 da revista Telhados de Vidro, da editora Averno, maio de 2009

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

30. PATERSON: ENTRE O TRIVIAL E A AUTOSSATISFAÇÃO POÉTICA

 

Paterson é motorista de autocarros e poeta.
Tem um trabalho que não dói, vida e afetos estáveis, uma domesticidade trivial.
A poesia é fundamental para Paterson, o autor, mas Paterson, a cidade, não é poética. Ele e a cidade de Paterson, New Jersey, nos Estados Unidos, partilham o mesmo nome.
Em casa tem livros de William Carlos Williams, entre os quais “Paterson”.

Ele e Laura amam-se e têm um buldogue inglês pacholas, ciumento e intruso.
A urbe que habitam é vulgar, trivial, apática, pouco cuidada.
Aparentemente não infunde poesia.
Mas a poesia está na rua e a rua na poesia. 
A poesia está em casa e em casa a poesia.
Em coisas triviais, como a rotina diária do chofer que a observa e vê passar pelo espelho retrovisor. Os versos dos poemas, sem rima e em prosa, são banais e modestamente poéticos, falando de caixas de fósforos, copos de cerveja, conversas de passadouro.

 

Em Poema de Amor, lê-se:

 

“Temos imensos fósforos em nossa casa. 
Mantemo-los sempre à mão.
   

Atualmente a nossa marca favorita é a Ohio Blue Tip (…)
Eles são excelentemente embalados, (…) com o texto em forma de megafone, (…) como que para dizer ainda mais alto ao mundo, “Eis o mais belo fósforo do mundo, (…) tão sóbrio e furioso e teimosamente pronto a explodir numa chama, acendendo, talvez, o cigarro da mulher que amas, pela primeira vez (…)”
.                                                      

 

Poema em que Laura figura como musa:      

 

“É isso que tu me deste, eu transformo-me no cigarro e tu no fósforo, ou eu no fósforo e tu no cigarro, resplandecendo em beijos que ardem em lume brando rumo ao paraíso”.  

 

Os poemas são minimais, frugais, despretensiosos, humildes e não eruditos, como a vida citadina, pessoal, social e espartana que vive e rodeia Paterson:

 

“Quando somos crianças aprendemos que existem três dimensões: altura, largura e profundidade.   Como uma caixa de sapatos. 


E mais tarde compreendemos que existe uma quarta dimensão: tempo.  Umm.
E há quem diga que podem ser cinco, seis, sete,…
Termino o trabalho, tomo uma cerveja no bar.
Olho para o copo e sinto-me contente”
.

Poemas de coisas concretas, materializando a matéria de que é feita a poesia:
“A água cai do céu singelo.      
Cai como cabelo, a cair dos ombros duma rapariga (…)”.    
“Estou em casa.     
Está agradável lá fora: quente.   
Sol na neve fria. 
Primeiro dia de primavera ou último de inverno”
.    
Poemas de pessoas em concreto, materializando o conteúdo de que é feita a poesia:
“Minha pequena abóbora,
às vezes gosto de pensar em outras raparigas,   
mas a verdade é     
se alguma vez me deixares 
arranco o meu coração
e nunca mais volto a pô-lo no lugar.   
Nunca existirá ninguém como tu. 
Que embaraçoso”
.      


Por que não publicar os poemas? Têm de ser publicados! Sugere e sentencia Laura.

Paterson diz que sim, num permanente adiar, não os divulgando, não querendo que os leiam, até ao dia em que Marvin, o buldogue, os mastiga e tritura: “O cão comeu-me o tpc, o trabalho de casa”. O que aceitou como um facto consumado, qual gesto de autossatisfação. Sem paixão? E perda de orgulho em si próprio, porque eram apenas palavras escritas na água? O protagonista nunca se assumiu como poeta, apenas como motorista.     


Paterson, filme do realizador japonês Jim Jarmusch, é um poema em prosa de aceitação da vida, onde pessoas boas, comuns, resignadas, cansadas, ensimesmadas, gabarolas, macambúzias e perdidas se confundem com a diversidade comum em uniformidade.


Onde a poesia é a sua imagem de marca por excelência, retratando e visando ultrapassar o trivial rumo a um equilíbrio de autossatisfação e de desejável felicidade, numa fusão de simplicidade e profundidade.   
E o nome de Laura, a amada de Paterson, é igual ao da amada de Petrarca…                                      

 

28.05.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

LIVROS DE 2018

 

Como habitualmente o CNC escolhe os Livros do Ano, sempre esperados ansiosamente…

 

ROMANCE
«A Última Porta Antes da Noite» - António Lobo Antunes (D. Quixote).

«Princípio de Karenina» - Afonso Cruz (Companhia das Letras).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Ensina-me a Voar sobre os Telhados» - João Tordo (C. das Letras).
«O Invisível» - Rui Lage (Gradiva).
«Luanda, Lisboa, Paraíso) – Djaimilia Pereira de Almeida (C. das Letras).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«Sua Excelência, De Corpo Presente» - Pepetela (D. Quixote).
«Obra Completa» – I a III – Maria Judite de Carvalho (Minotauro).

 

POESIA
«Obra Poética – I» - António Ramos Rosa (Assírio e Alvim).

«Estranhezas» - Maria Teresa Horta (D. Quixote).

 

MEMÓRIAS
«Aperto Libro (Páginas do Diário- I – 1977-1990)» - Eugénio Lisboa (Opera Omnia).

 

ENSAIO
«O Algarve Económico Durante o Século XVI» - Joaquim Romero Magalhães (Sul, Sol, Sal).
«O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão» - Onésimo Teotónio de Almeida (Quetzal).

 

TRADUÇÕES
«Berta Isla» - Javier Marias (Alfaguara).
«Aos Ombros de Gigantes» - Umberto Eco (Gradiva).
«Pensamentos» - Giacomo Leopardi (Edições do Saguão).
«Escolha Coletiva e Bem-Estar Social» - Amartya Sen (Almedina).
«Onde Estamos? Uma Outra Visão da História Humana» - Emmanuel Todd (Temas e Debates – Círculo de Leitores).

 

A todos desejamos um Bom Ano, com Saúde e boas leituras!
CNC

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de setembro de 2018

 

Retábulo das Matérias - 1956-2013” (INCM, 2018) de Pedro Tamen, na coleção Plural, permite a revisitação da obra de um grande poeta, compreendendo a importância e o significado de um percurso ricamente singular.

 

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ARTE DA MEMÓRIA

 

Teria sido Simónides de Cós (séc. V, a. C.) o primeiro cultor da Arte da Memória. Ele disse ser preferível a arte de esquecer que a de lembrar. E hoje quando se fala tanto da memória informática na parafernália dos computadores, é bom voltar a esse entendimento, segundo o qual a sabedoria se faz sempre de lembrança e de esquecimento, para que não se confunda com ressentimento e favoreça a experiência e a aprendizagem. Por isso, ao sair do campo de concentração Joseph Rovan disse que esqueceria a cara dos carcereiros, mas lembraria sempre que importava combater a barbárie, pelo respeito e não pela vingança, pela dignidade e não pela violência. Memória Indescritível de Pedro Tamen (2000) ilustra bem esse cuidado especial com a memória, e essa relação paradoxal entre viver e reviver. A epígrafe de Sá de Miranda é significativa dessa contradição fecunda, que alimenta a existência. “Alma, que fica por fazer desde hoje / na vida mais, se a vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge / já quanto a vista alcança, a não alcança”. E o poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. De facto, não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre, por isso, indescritível: “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. Daí a invocação de Sá de Miranda, que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória é também essa perplexidade que se manifesta, entre o alcançar e não alcançar o que a alma diz.

 

 

LUCIDEZ CRÍTICA

 

Com uma lucidez crítica premonitória, e ainda numa fase precoce da produção poética do autor, António Ramos Rosa afirmou: “Vejo na poesia de Pedro Tamen uma das mais sérias tentativas para dar à atividade poética aquele sentido do sagrado, sem o qual não se pode atingir a verdadeira dimensão interior. Violentamente dramático, quase sempre, este poeta restabelece a circulação entre o humano e o elementar infundindo à linguagem poética uma energia e expressividade que superam a mera agressividade do bizarro, tantas vezes esterilmente ofensiva em alguns poetas surrealistas” (in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro, 1968). E o certo é que o tempo veio a confirmar este carácter sagrado e dramático – e um modo especial de lidar com as palavras, sem esquecer a ironia, a dúvida, a incerteza e a compreensão da realidade através do seu avesso. É verdade que o tempo trouxe muitas mudanças, mas Ramos Rosa não se enganou na linha fundamental revelada já nessa altura pelo poeta. Estamos perante um percurso coerente e seguro, de quem sempre aliou a ação e a reflexão: “Formado em direito e solidão, / às escuras te busco enquanto a chuva brilha. / É verdade que olhas, é verdade que dizes. / Que todos temos medo e água pura” (como disse em Escrito de Memória, 1973).

 

 

PRESENÇA DA PALAVRA

 

Na relação com as palavras, importa lembrar que, além de poeta seguro e talentoso, com indiscutíveis provas dadas, Pedro Tamen é um tradutor excecional, com larguíssima experiência com notáveis resultados. Além das traduções de final de sessenta, sob o pseudónimo M. Rodrigues Martins, temos um rol notável, desde Tomás Kêmpis (com Isabel Bénard da Costa) até Gustave Flaubert, Marcel Proust, Georges Perec, Pascal Quignard, Javier Marias ou Michel Houellebecq. Homem de cultura, Pedro Tamen tem um percurso ligado ao que António Alçada Baptista designou como a “Aventura da Moraes”. Vindo da revista “Anteu – cadernos de cultura” (1954), passaria pelo jornal “Encontro” da JUC, onde seria chefe de redação (1955-1957), dirigiu o Centro Cultural de Cinema (CCC) e publicou o primeiro livro Poema para todos os dias (1956). Terminado o curso de Direito, é incorporado no Exército uma primeira vez (1957), mas o ano de 1958 vai significar uma mudança – que se prende aos sobressaltos causados pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, pelo memorando do Bispo do Porto a Salazar, que levaria o prelado ao exílio, e ao início do pontificado de João XXIII. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação política e religiosa. Pedro Tamen entrou como seu sócio, aos quais se juntou uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva, E lança o Círculo da Poesia, com o inesquecível símbolo solar de José Escada, onde publica O Sangue, a Água e o Vinho. Anima as coleções Circulo do Humanismo Cristão e “O Tempo e o Modo” (que dará título à revista em 1963). Segundo António Alçada, havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formula o programa – simples e claro: “a ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo”. A Morais afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista concretiza-se em 29 de janeiro de 1963 – António Alçada Baptista era o proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, além da participação ativa de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Não era, porém, uma revista de católicos. Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista “Esprit” um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços, havia outros católicos de um setor mais técnico, como Adérito Sedas Nunes e Alfredo de Sousa, mas havia também jovens estudantes da greve de 1962, como Jorge Sampaio, Jorge Santos, Manuel de Lucena e José Medeiros Ferreira, e havia ainda oposicionistas clássicos como Mário Soares e Francisco Salgado Zenha… Sobre a abertura aos não católicos, João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé Maria para que o espírito nos iluminasse”. E a votação fez-se – cinco votos a favor, dois contra e a abertura foi decidida!

 

Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo. Os critérios que usou desde o “Círculo da Poesia” até à Gulbenkian, demonstram bem como pôde rodear-se dos melhores, num momento rico da nossa criação cultural. O seu talento foi um natural complemento da qualidade de escolha. Usando a expressão de Ruy Belo sobre a geração dos “vencidos do catolicismo”, a verdade é que estes, como os ancestrais de 1870, não foram vencidos no largo prazo, sendo símbolos vivos do que podemos designar como a “paixão crítica”. Quando foi inventada a expressão “vencidos da vida”, havia um misto de ironia e de revolta. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, foi o sentido crítico que venceu nas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” com a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

VINTE LIVROS PARA FÉRIAS…

 

À semelhança de outros anos, escolhemos vinte livros que serão uma excelente oportunidade de leitura para este verão…

 

Revista «Colóquio – Letras» - Correspondência inédita de Alexandre O’Neill e Diálogo Edgar Morin e Eduardo Lourenço.
«Rimas» de Francisco Petrarca (tradução de Vasco Graça Moura), (Quetzal).
«Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa» (diversos volumes) - coordenação Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco (Circulo de Leitores)
«A Cidade Virtuosa» - Alfarrabi (tradução de Catarina Belo) (F. C. Gulbenkian).
«Obras Completas de Maria Judite de Carvalho» – vol. I «Tanta Gente Mariana» e «As Palavras Poupadas» (Minotauro).
«Antero – ou a Noite Intacta» (Gradiva)
«Estuário» - Lídia Jorge (D. Quixote).
«Obra Perfeitamente Incompleta» - José Sesinando (Tinta da China).
«Na Prática a Teoria é Outra» - Vítor Cunha Rego (D. Quixote).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«O Fogo Será a Tua Casa» - Nuno Camarneiro (D. Quixote)
«A Sociedade dos Sonhadores» - José Eduardo Agualusa (D. Quixote)
«Gente Séria» - Hugo Mezena (Planeta).
«Portugal no Golfo Pérsico – 500 Anos» (vários autores), (Biblioteca Nacional de Portugal).
«O Fundo da Gaveta» - Vasco Pulido Valente (D. Quixote).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Um Amante no Porto» - Rita Ferro (D. Quixote).
«Em Minúsculas» - Herberto Helder (Porto Editora).
«Os Ricos» - Maria Filomena Mónica (Esfera dos Livros).
«Correspondência Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, 1949-1978» (Guerra e Paz). 

 

BOAS LEITURAS!

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 19 a 25 de março de 2018

 

«Memórias» de Rómulo de Carvalho (edição da Fundação Calouste Gulbenkian, 2010) é um precioso relato de uma vida muito rica de um grande pedagogo, homem de ciência e humanista.

 

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MESTRE DE MESTRES

 

Era Campo de Ourique e chovia. Foi o dia em que, muito justamente, fomos lembrar e homenagear Rómulo de Carvalho na casa onde morou. Com uma ponta de emoção, o Presidente da República não pôde deixar de lembrar, com palavras oportuníssimas do mestre, os tempos em que teve como professor o homenageado de agora. E ficou como marco dessa invocação uma placa, que lembrará a quem por ali passar o professor, o poeta, o homem de ciência, numa palavra, o humanista no sentido mais rico do termo. O quarteirão desse bairro cheio de memórias é, aliás, o mesmo em que viveu Bento de Jesus Caraça… E tal placa levará os passantes à recordação do exemplo de quem foi sempre um legítimo praticante da arte de ensinar e aprender. Sim, porque para o pedagogo de exceção o fundamental era compreender que há sempre uma troca quando se trata de educar. É a aprendizagem a marca da civilização, e é do despertar das consciências e do transmitir de saberes que depende a vivência da cultura. Com que zelo, com que amor sincero, como confessava seu filho Frederico (ao seu trabalho se deve a publicação das Memórias), Rómulo se encarregava de ensinar (a começar na própria casa), nunca como monólogo, mas como autêntico diálogo. Não se tratava, porém, de descer até ao jovem aprendente, mas sim de o elevar ao conhecimento maduro, com a preocupação da clareza e do gradualismo. Para o mestre, haveria sempre que saber dar os passos necessários para chegar ao conhecimento e à compreensão. “Estimular é saber tirar proveito das coisas, saber encantar, digamos, pôr as coisas em relevo, mesmo as coisas insignificantes”. Para Rómulo de Carvalho, o experimentado docente: “o Professor tem de ter qualidades muito humanas e saber expressar-se, manifestar as suas ideias. Os alunos agradam-se disso. Tal como deliram com as experiências”. Mas na arte de educar tem de haver uma dramaturgia. É como se estivéssemos num teatro – com encenação, marcação, representação e climax. O amadorismo ou o improviso não cabiam nos procedimentos de Rómulo de Carvalho. Tudo tinha de estar muito bem preparado. Os alunos são julgadores severíssimos. Apenas se deixam impressionar se tudo for brilhante e irrepreensível. O metodólogo sabia-o, melhor que ninguém, e explicava isso com muito cuidado e rigor aos seus formandos. No testemunho de duas discípulas, Alcina do Aido (minha professora) e de Maria Gertrudes Bastos: “a preocupação que nos procurava incutir com a maior ênfase era a necessidade de, nas vésperas de uma lição em que se previa a realização de uma certa experiência, executá-la com o maior cuidado, testando todo o material até ao último pormenor, na tentativa de evitar qualquer falha que pusesse em risco a conclusão que se pretendia tirar”…

 

 

A CHAVE DA CIVILIZAÇÃO

 

Num texto intitulado Presença de Descartes afirmava: “A finalidade dos estudos deve consistir em orientar o espírito para a construção de juízos sólidos e verdadeiros sobre todos os objetos que se lhe apresentem”. E isto obriga à liberdade criadora – de alguém que foi, em complementaridade perfeita (o próprio diria, no seu sentido autocrítico, quase perfeita), o pedagogo, o praticante da cultura científica, o divulgador e também, com existência própria, o poeta… Não esqueço, como na sua História do Átomo da coleção Ciência para Gente Nova (Atlântida) dizia: “A história do átomo é a história de uma das mais belas vitórias dos homens. Quer-nos até parecer que em todo o desenrolar das atividades humanas nunca a Ciência e a Poesia estiveram ligadas tão intimamente como neste caso”. António Gedeão era uma figura à parte, que não iludia a personalidade do seu criador, mas não se confundia com ele. Daí que Rómulo de Carvalho tenha tido o cuidado de o fazer sair do mundo dos vivos antes dele próprio. De facto, há uma fronteira, que permite compreender que a ciência e arte se ligam, na compreensão dos diferentes métodos que usam. Rómulo de Carvalho era um homem do método. Em célebre artigo publicado na revista “Palestra” em 1959, intitulado “A Física como objeto de Ensino”, afirmava ser “necessário ter cuidado ao considerar a experiência como base fundamental do ensino da Física em vista do seu valor como estimulante do processo indutivo. Realmente, não é a experiência que permite a indução. Somos nós, nós os que ensinamos, com as palavras que escolhemos e proferimos no decorrer da sua execução, com as nossas hábeis insinuações, com as nossas escamoteações oportunas, com o nosso conhecimento sagaz do aluno e das suas circunstâncias. Nós somos, em última análise, o método, o processo, a forma e o modo”. Esta a chave fundamental da Educação, compreendendo-se que estamos sempre perante o complexo desafio de ligar a aprendizagem, o conhecimento, a relação direta entre o professor e o aluno, a valorização do trabalho, da exigência e da justiça. O essencial da educação está na aprendizagem. Esse o elemento crucial, que não pode ser alvo de confusões ou de qualquer tipo de inversão de valores. Só há Educação justa se houver exigência, só a qualidade pode combater a exclusão e a desigualdade.

 

 

LEMBRAR TAMBÉM NATÁLIA NUNES

 

Há poucas semanas, fomos despedir-nos de Natália Nunes. Então pude lembrar, com sua filha Cristina, o percurso multifacetado e rico da mulher de Rómulo de Carvalho, que ele tanto admirava. Não esqueço a última vez que a acompanhei à rua Sampaio Bruno, depois de termos ido ao Liceu de Pedro Nunes homenagear o Professor no seu Laboratório de Física, pleno de recordações e lugar onde pôde exercer a sua missão didática, pedagógica e científica. Foi uma oportunidade para lembrar a personalidade excecional de Rómulo na instituição secular que tanto marcou. Personalidade discreta, Natália Nunes é uma grande escritora, que foi sempre uma cidadã aberta e corajosa, a quem devemos Autobiografia de uma mulher romântica (1955), Regresso ao Caos (1960), Assembleia de Mulheres (1964) e Vénus Turbulenta (1997) – além de contos, ensaios e traduções. Era uma pessoa de rara sensibilidade e de grande cultura – que se singularizou como profissional de referência no mundo das Bibliotecas e Arquivos. Tenho testemunhos de muitos dos com ela trabalharam ou a ela recorreram bem demonstrativos das suas excecionais qualidades. Posso confirmá-lo pessoalmente. Falámos longamente, e era a liberdade da cultura que cultivava e uma fantástica curiosidade pelo mundo e pela vida – como notamos na sua obra, na variedade de temas e situações e no contacto conhecedor com a melhor literatura de Tolstoi, Dostoievski e Balzac, além de Raul Brandão. Nas palavras que troquei no dia da homenagem a seu pai com Cristina Carvalho pude ligar as duas personalidades cativantes que tive o gosto de conhecer e admirar – completavam-se naturalmente e o amor à cultura, à ciência e aos livros era apaixonante.

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões - Ensaio Geral, Rádio Renascença

 

 

DO MELHOR DO ANO 2017 NA CULTURA

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Livro português:

Jalan Jalan, Afonso Cruz (Companhia das Letras)

 

Livro traduzido:
145 Poemas, Konstantinos Kavafis (Flop)

 

Ficção Internacional:

Lincoln in the Bardo, George Saunders (Random House)

Há tradução portuguesa: Lincoln no Bardo (Relógio d’Água)

 

Cinema:

Silêncio, Martin Scorsese

 

Cinema - Portugal:

Peregrinação, João Botelho

 

Televisão:

Handmaid’s Tale, Bruce Miller

 

Portugal - Televisão cultural:

Visita Guiada, Paula Moura Pinheiro

 

Música:

From Baroque to Fado, Os Músicos do Tejo, dir. Marcos Magalhães

 

Divulgação musical portuguesa:

RTP, Antena 2.

 

Exposição:

José de Almada Negreiros - Uma Maneira de Ser Moderno, Gulbenkian.

 

As escolhas são algo aleatórias.

Não há um júri, mas a qualidade é o critério fundamental.

Boas iniciativas culturais!

 

CNC

 

 

CRÓNICA DA CULTURA

 

A única forma que tenho de trabalhar os meus livros, é colocá-los, de quando em vez, arrumados nas minhas estantes, encontrando-lhes fundamento e afeto e cumplicidades nessas arrumações. Desta feita dei comigo a colocar ao lado do Alçada, não só o Alexandre como o grande Borges, bem como a Yourcenar, e encostado às Peregrinações, o Régio, o Ruy Belo e o Manuel Bandeira. Desta vez envolvi-os assim. Pareceu-me que todos falavam bem entre si e que o triunfo sem perda seria o saberem extrapolar princípios e vastidões. Foi uma forma de colocar os crentes destes caminhos a dividirem o destino humano em boa disposição. Estas arrumações fazem-me muito bem, confesso, sobretudo porque lhes reconheço por antecipação a alegria do chão no caos que se seguirá – aquele caos que mal me deixa ver em cima da secretária o teclado onde escrevo. E enfim breve, breve chega afinal o momento dos livros arrumados descerem de novo à secretária e aos sofás e ao chão. Chegam das arribas tocados pela ideia de mundo, querendo-se amar uns aos outros, muito próximos fisicamente e espiritualmente apesar dos riscos.

 

Esta é a melhor gente do mundo, esta gente de desmedidos projetos de procura através de migalhas cósmicas que lhes desencadeiam custos e peripécias de luz…

 

E Mallarmé, onde te coloco? Ao lado de Kafka, Flaubert, Tolstoi, Celan, Torga e Comte-Sponville? Ah e Camões? Deus que isto é um universo inviável e que compromete a unidade! Digo para mim com um sorriso que convoca a ideia de relativismo que forma o meu mise en abyme no discorrer destas tardes de arrumações de livros. Também lhes peço a eles, ajuda em nome de todos os que retendo alguma coisa quando os leem, imaginam logo qualquer coisa saber: perigoso e desapiedado cesto de Pandora!

 

E assim ao fim de uns dias, um azul próprio do céu dos livros deixa-se ver em volta de um ponto invisível que me roda sempre a leitura e releitura dos mesmos. Mesmo quando começo a escrever, espreito esse ponto invisível porque o sei lá onde e aonde imprecisa é a vida e a morte.

 

E acontece-me de novo pegar num livro, sondá-lo, buli-lo, incitá-lo a desafiar-me o namoro e a partir da paixão já sem recato, que ele me permita frui-lo até onde eu o possa levar. Só por lá a fórmula da natureza humana.

 

E não me sinto estranha assim perdida, assim envolvida no trabalho de arrumar os livros entre os sensuais ecos das palavras dos filósofos que, insidiosamente, são sabedores da direcção do engenho por onde ando.
 

Teresa Bracinha Vieira

A VIDA DOS LIVROS

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     De 28 de agosto a 3 de setembro de 2017

 

«Tudo o que não Escrevi» de Eduardo Prado Coelho (2 volumes), edições Asa, 1991-1992, é um retrato em forma de diário de uma das personalidades mais interessantes e ativas do meio cultural português da passagem do século XX para o século XXI.

 

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DEZ ANOS DEPOIS…

Já decorreram dez anos desde que o Eduardo Prado Coelho nos deixou e no entanto a sua memória, a vitalidade do seu exemplo continuam bem presentes, sendo justo que devamos recordá-lo, como ele gostaria. Fora de qualquer ideia retrospetiva, a sua preocupação fundamental estava no culto de uma atenção desperta para o tempo e a realidade que o cercava. Não conheci mais ninguém que estivesse tão atento ao debate de ideias e ao surgimento de novos contributos e de novas perspetivas. No Centro Nacional de Cultura contei sempre com a sua participação ativa nas iniciativas para que era desafiado. Quando o Chiado ainda estava morto, sob os efeitos do terrível incêndio, lançámos as festas no Chiado (na altura, duas por ano). Era um tempo em que ninguém estava certo de que seria possível dar vida àquela capital de Lisboa, na expressão de José-Augusto França, e o Eduardo aceitou o desafio dos cinco livros, cinco autores – para trazer aqui os mais interessantes escritores, ensaístas e poetas. E com que zelo e prazer fazia o seu trabalho… Muitas vezes, os autores que indicava eram ainda pouco conhecidos, mas o tempo veio a provar que o Eduardo tinha um faro verdadeiramente raro para descobrir o que tinha realmente qualidade. Lembramo-nos que, relativamente a um autor hoje consagradíssimo, tivemos 5 pessoas da primeira vez que foi escolhido – mas um ou dois anos depois já havia para a mesma pessoa quase uma centena de presenças… O tempo passou e o Chiado renasceu, pujante, graças a uma extraordinária convergência de esforços e de vontades – entre os quais Siza Vieira teve um papel crucial. E se lembro o entusiasmo de Eduardo, a verdade é que os livros e a cultura foram âncoras essenciais para que o Chiado tenha renascido mais forte do que nunca… O certo é que a ideia de cultura, que sempre esteve presente na sua ação, tinha a ver com a criatividade, a atenção e o cuidado. Educação, formação, ciência, pensamento, cidadania ativa, responsabilidade política, antecipação do futuro, ligação entre tradição e mudança – eis o que o ensaísta soube cultivar e aprofundar (e essa ligação íntima a Eduardo Lourenço deve ser lembrada especialmente). Se nos lembrarmos do seu contributo para os primeiros passos do estruturalismo entre nós, verificamos, antes do mais, a atenção aos novos caminhos, sem se deixar aprisionar pelas leituras exclusivas ou unilaterais. O primeiro entusiasmo dava lugar a outras influências e outros contributos. O mesmo se diga relativamente ao pensamento marxista ou depois à lógica liberal-libertária.

 

UMA GENUÍNA CURIOSIDADE.

O que Eduardo Prado Coelho tinha era uma curiosidade genuína pelo mundo das ideias. Daí a capacidade de se apaixonar por elas, mas simultaneamente também a disponibilidade crítica para abrir novos capítulos e novas influências. Deste modo, foi um cultor de um pensamento plural, aberto à diversidade. Esse o balanço geral do rico percurso intelectual que assumiu e que teve diversas facetas. E se alguns salientam este ou aquele momento mais marcado por determinada opção, a verdade é que o conjunto da intervenção do ensaísta (que ele foi essencialmente) dá-nos um panorama de abertura à diversidade – e de capacidade para se pôr em causa ao descobrir novos caminhos para a sua reflexão. Quando apoiou Maria de Lourdes Pintasilgo em 1985 teve a lucidez de pôr a ênfase no que essa candidatura tinha de mais novo e enriquecedor, salientando a importância da convergência com o movimento de ideias que Mário Soares pôde suscitar e depois assumir. Fui testemunha dessa fase e sei da importância que teve esse diálogo na renovação das ideias da esquerda democrática, numa fase especialmente difícil, em que havia o risco da fragmentação. A filosofia política anglo-saxónica, a segunda esquerda francesa, a nova escola de Frankfurt punham-se em confronto e em diálogo – num momento em que F. Fukuyama e S. Huntington não poderiam ser lidos de modo simplista, já que o sistema de polaridades difusas gerado no fim da guerra-fria e na queda do muro de Berlim abria caminho a uma imprevisibilidade perigosa. Hoje sabemo-lo: «Brexit», Trump, Putin, Síria, Estado Islâmico, República Popular da China, Coreia do Norte e assim sucessivamente… E fica-nos a grande curiosidade de saber que teria dito o Eduardo perante Houellebecq no seu romance «Submissão», para além da lógica da «Espuma dos dias» de Boris Vian…

 

O DILEMA EUROPEU.

Estará a Europa condenada à fragmentação e à irrelevância? Muitos são os temas para os quais o Eduardo Prado Coelho seria, certamente, um ativo estimulador de ideias – a partir da capacidade de compreender como o diálogo do pensamento pode ser um fator de progresso e emancipação, compreendendo que nunca descobriremos uma qualquer via de reconciliação definitiva… Não esqueço que a última vez que falámos, poucos dias antes da sua morte. Disse-me que se sentia melhor e que estava disponível para continuar a animar uma iniciativa centrada na literatura… Estava otimista e parecia com uma energia renovada, eis por que razão foi um choque receber a notícia. O certo é que a última lembrança do Eduardo foi positiva, com o seu entusiasmo de sempre… Por isso, escrevi na altura um texto em que recordava «Emílio e os Detetives», uma narrativa juvenil – ciente de que a ficção era para ele uma prova de vida… Por isso, costumava lembrar as suas lágrimas de criança quando leu a descrição de Salgari da morte de Sandokan, na célebre coleção da Romano Torres, envolvendo o inconfundível português Gastão de Sequeira. Na reta final da vida assumiram uma especial importância as cartas que trocou com o Cardeal Patriarca D. José Policarpo, onde a independência de espírito, a inteligência e a compreensão do mundo estavam bem presentes. No seu diário, confessa a dificuldade da relação com o mundo da vida. Há muitas perplexidades, mas sempre a preocupação com o ter os olhos abertos perante a realidade humana: «Há uma frase que me tem seguido pela vida fora. Qualquer coisa como "não tens vida interior". Que significa? Não propriamente que me seja atribuída uma ausência de "pensamento interior" - de modo algum. Mas perpassa a suspeita de que esse pensamento se desenrola numa espécie de impessoalidade indiferente aos relevos afetivos de todos os dias. Confesso que isto me espanta, porque se alguma coisa eu sinto é que tudo aquilo que penso se modela sobre um corpo afetivo extremamente atento e vibrátil. Tudo o que seja um pensamento segregado do quotidiano me parece insignificante».    

 

Guilherme d'Oliveira Martins