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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

A VIDA DOS LIVROS

  
De 26 de fevereiro a 3 de março de 2024


O Museu Bordalo Pinheiro acaba de publicar Conversas Soltas – Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro, de Mariana Roquette Teixeira e Pedro Bebiano Braga.


OBSERVADOR ATENTO
Observador atento da cultura portuguesa, José-Augusto França foi porventura o melhor analista da nossa realidade histórica na passagem do século XIX para o século XX. Ligando de forma natural a realidade artística e a evolução política pôde deixar-nos na sua abundante produção literária e científica um retrato rigoroso sobre um tempo contraditório e paradoxal – aparentemente decadente, mas de facto profícuo no sentido da tomada de consciência das nossas fragilidades e erros, em simultâneo com o entendimento crítico sobre a necessidade de recusar um qualquer fatalismo do atraso. Quando lemos os textos agrestes da Geração de Setenta, percebemos que a crítica sem dó nem piedade possui não as cores da desistência, mas o aguilhão da vontade de renascimento. Daí a ligação das gerações anteriores de Garrett e Herculano às gerações seguintes de “A Águia”, de Pascoaes e Cortesão, de “Orpheu” de Pessoa, Amadeo e Almada, e da “Seara Nova”, de Sérgio, Brandão e Proença. Afinal, os companheiros de Antero de Quental, de Eça, Ramalho, Oliveira Martins e Junqueiro constituíram a placa giratória que permitiu chegarmos onde estamos, à democracia europeia e universalista, onde desejamos continuar com a exigência crítica que Eduardo Lourenço nos indicou na sua psicanálise mítica em “O Labirinto da Saudade”.


ZÉ POVINHO, CLARO… 
Em julho de 1903, Rafael Bordalo Pinheiro representou na figura emblemática de Zé Povinho a descrição da nossa História: «deitando-se na fuga de D. João VI, levantando-se em 1820 e em 1836, deitando-se na paz de Gramido imposta pelas potências vizinhas chamadas por D. Maria II contra a Maria da Fonte, levantando-se aquando do Ultimatum, deitando-se depois numa ‘soneca real’, à sombra de uma seca ‘árvore da Liberdade’, donde sobre ele, defeca o passarão do juiz Veiga das perseguições à imprensa… Porque, diz a legenda, o Zé Povinho ‘nunca se levanta que não se deite’». Zé Povinho é o símbolo de que somos da autoria do nosso mais célebre caricaturista. E J.-A. França diz-nos certeiramente: “Duas culturas (…) podem ser supostas, num país sujeito à centralização pombalina e jacobina do Terreiro do Paço, Praça do Comércio com século e meio de perenidade política, económica e social. Nela o Zé Povinho, rural urbanizado à força, em trajo e espertezas, em certa medida, ditas saloias, alfacinha por não poder ser outra coisa, necessariamente frutificou, para além do espaço de vida do seu criador, numa multiplicação de vidas menores”. No fundo, o Zé Povinho resume a evolução cíclica da nossa realidade – entre a albarda e o manguito. E há sempre a predisposição para largar uma em nome da soberana negação, como resposta direta, sem nostalgias nem saudades – “Queres fiado?...”. As duas culturas são incindíveis. Bordalo Pinheiro definiu, afinal, como os seus contemporâneos de 1870, o patriotismo prospetivo para não nos deixarmos arrastar pela indiferença ou pela sonolência. Tratou-se do apelo severo à vontade crítica. Zé Povinho está sempre pronto a levantar-se e a atirar os aparelhos ao ar. E Ramalho não esconde: “um dia virá em que ele mude de figura e mude também de nome, para, em vez de se chamar Zé Povinho, se chamar simplesmente Povo”.


CONVERSAS SOLTAS
O Museu Bordalo Pinheiro acaba de publicar Conversas Soltas – Guerra Junqueiro e Rafael Bordalo Pinheiro, de Mariana Roquette Teixeira e Pedro Bebiano Braga. Aí podemos encontrar a ilustração do que acabamos de dizer. «“Poeta exímio e cavaqueador inimitável” – foi assim que Rafael Bordalo Pinheiro descreveu o amigo Guerra Junqueiro quando o visitou na sua casa em Viana do Castelo, em 1887». E nos “Pontos nos ii” publicou uma vista do interior da casa do poeta, onde são evidentes as loiças, os móveis e as obras de arte do colecionador. Mas o momento-chave deste encontro entre Bordalo e Junqueiro está no episódio relatado por Luís Oliveira Guimarães, ocorrido pouco depois das Conferências Democráticas de 1871 e da célebre publicação do álbum humorístico “A Berlinda”. “Uma noite, Bordalo entrou no Martinho (do Rossio), abancou à mesa de Junqueiro, onde já abancara Guilherme de Azevedo e, quando os dois menos esperavam, segredou-lhes: - Vocês querem reformar as instituições? – Não queremos outra coisa – responderam ambos. – Pois então vamos fazer um jornal de caricaturas. Vocês escrevem, eu desenho… - Está dito.”. Falamos da “Lanterna Mágica” (1875) da autoria de Gil Vaz, sendo Gil, Guilherme de Azevedo e Vaz, Guerra Junqueiro. Foi, no entanto, muito fugaz esta experiência, apenas de maio a julho. Mas o sucesso não se fez esperar, o que levou a que a folha se tornasse diária no último mês de publicação. A partida súbita de Bordalo Pinheiro para o Brasil, para colaborar em “O Mosquito” do Rio de Janeiro, interrompeu a empresa. Iriam ser precisos quinze anos para que Junqueiro e Bordalo voltassem a colaborar, quando no fragor patriótico do Ultimatum, o poeta pediu ao desenhador duas ilustrações para o seu “Marcha do Ódio”, sobre um velho cavaleiro, que é Portugal, que encontra a morte num combate injusto e desigual. A publicação fez-se, e ainda no ano de 1890, os “Pontos nos ii” imprimem “O Caçador Simão”, violenta crítica de Guerra Junqueiro à inação de D. Carlos, inicialmente dado á estampa em “A Província” e “O Globo”. Ainda no mesmo ano, Bordalo publicaria com destaque duas intervenções parlamentares do poeta, as derradeiras como deputado progressista. Recorde-se, porém, que Junqueiro já fora especialmente invocado nos “Pontos nos ii” aquando da publicação de “A Velhice do Padre Eterno” (1885). E na correspondência entre ambos, nota-se ainda a tentativa de reunir textos significativos do grande amigo, quase esquecido, Guilherme de Azevedo, falecido em 1882, companheiro na “Lanterna”, o celebrado Rialto do “Álbum das Glórias”. Infelizmente tal não passou de projeto.


Em 1892, “O António Maria” publica, a propósito da saída de “Os Simples” uma significativa homenagem a Junqueiro, representado com uma coroa de louros numa pose glorificadora, quando o poeta afirmou: “Engana-se quem entre ‘Os Simples’ e ‘A Velhice do Padre Eterno’ descobrir porventura contradições. Este lirismo é o reverso daquela sátira”. Contudo, a última homenagem de Rafael Bordalo Pinheiro ao seu amigo Junqueiro ocorreu a propósito da publicação do poema “Oração ao Pão” em “A Paródia” (1902). É uma homenagem tocante, na qual o poeta surge como semeador de trigo e de palavras, vestido de mujique (como o mestre Tolstoi), trazendo um turíbulo aceso, donde saem nuvens de incenso. E J.-A, França refere a grande seriedade emotiva da caricatura, marcada pela palavra “Oremus!”. A caricatura é um verdadeiro testamento. Raul Brandão referir-se-á a “um pregador socialista-tolstoiano, um santo cavador, de barba negra e inculta”. E Bordalo Pinheiro não esconde a amizade profunda e a admiração pelo artista, que tão bem compreendeu o humor e o picaresco e que tanto o apoiou no projeto da Fábrica das Caldas da Rainha.     


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

  

De 19 a 25 de fevereiro de 2024


"Du personnalisme au fédéralisme européen - en Hommage à Denis de Rougemont", Centre Européen de la Culture, Genève, 1989, é um livro oportuno no momento em que duas guerras às portas da Europa exigem o reforço do projeto europeu.


MARE NOSTRUM, EUROPA NOSTRA
Nos quarenta anos da morte de Denis de Rougemont, lembramos que a Europa que herdámos nasceu em volta do Mediterrâneo e depois tornou-se continental ao longo dos séculos. As guerras civis europeias do século XX, com projeção mundial e resultados trágicos, levaram a que, sobretudo depois de 1945, tenha havido um forte movimento pan-europeu, que o Congresso de Haia de 1948 procurou projetar e desenvolver como um sobressalto cívico e um fator preventivo de futuras guerras e conflitos desregulados. Denis de Rougemont, no Centro Europeu de Cultura, de Genebra, foi um dos principais protagonistas dessa ação intelectual, que passou pela descoberta de autores e correntes de pensamento europeístas. Milan Kundera disse um dia que o europeu poderia ser definido como aquele que tem nostalgia da Europa. Tendo afirmado que na Idade Média a unidade europeia era baseada na religião e na Idade Moderna na cultura, perguntava qual seria o fator atual de unidade? Não há homogeneidade nem uma nação europeia, mas um caleidoscópio heterogéneo, pleno de complementaridades. No entanto, vista de fora, a Europa tem uma personalidade, muitas vezes olhada com desconfiança. Na célebre conferência de Genebra de setembro de 1946, Karl Jaspers procurou dar resposta a este intrincado problema. O pensador falou então de Liberdade, de História e de Ciência como marcas da personalidade europeia. “Se queremos citar nomes, a Europa é a Bíblia e a Antiguidade. (…) A Europa está nas suas catedrais, nos seus palácios, nas suas ruínas, é Jerusalém, Atenas, Roma, Paris, Oxford, Genebra, Weimar. A Europa é a democracia de Atenas, da Roma republicana, dos suíços e dos holandeses, dos anglo-saxões…”. Sentimos, no íntimo de nós a Europa como lugar de múltiplas diferenças, que trazem consigo a audácia da liberdade. A Liberdade (para Jaspers) significava inquietude e agitação, vitória da vontade sobre o arbitrário. A consciência trágica liga-se, assim, à esperança cristã, e o diálogo entre culturas torna-se busca de uma consciência de si. A História é a lógica sequência da Liberdade – situando o que é real e o que é possível, a partir da pessoa humana, num caminho inesgotável. A Ciência, por fim, parte da ideia de que o saber nos torna mais livres, pelo sentido crítico, pela experiência e pelo uso equilibrado da razão.


NOME PREMONITÓRIO
O adjetivo “Eurôpos” significa o que é largo e espaçoso. Como pessoa, “Eurôpé” quer significar aquela que tem grandes olhos – que permitem ver longe. Há afinidades evidentes com Eurídice. O rapto da formosa Europa por Zeus, transformado em touro, é a alusão mítica referenciada quando falamos da designação do velho continente. Uma princesa da Ásia trazida para a Grécia liga a civilização fenícia à cretense. Em 1948, o Congresso Europeu de Haia deu o sinal: haveria que usar um novo método na reconstrução da Europa e do mundo, depois da catástrofe da guerra. E a declaração de Paris de Schuman (9.5.1950) consagraria o objetivo defendido pelos intelectuais na capital holandesa. É neste contexto que se insere a obra de Denis de Rougemont, empenhado em lançar as bases desse novo método, baseado na descentralização e na subsidiariedade. As pessoas e os cidadãos devem, assim, ser a base de uma nova construção, não centrada na perspetiva nacional e nos egoísmos agressivos ou protecionistas, mas na procura de uma via pacífica e funcionalista, baseada na economia e na sociedade. Não se trataria de criar um Estado Europeu nem uma nação europeia, mas de construir uma solidariedade de facto e de direito, centrada no pluralismo e nas diferenças, numa palavra, unidade na diversidade. Daí a importância da procura das raízes comuns, não em nome da harmonização, mas sim de uma realidade complexa. Fernand Braudel, o historiador da economia, falou do carácter pioneiro e necessário do projeto europeu. Mas perguntava: “A unidade política da Europa poderá fazer-se hoje não pela violência, mas pela vontade comum dos parceiros? O programa desenha-se, levanta entusiasmos evidentes, mas também sérias dificuldades”. E o historiador lança os alertas necessários, uma vez que a construção europeia depressa se tornou menos um projeto político de cidadania, para ser uma mera adição de preceitos técnicos e de burocracias. “É inquietante verificar que a Europa, ideal cultural a promover, venha em último lugar na lista dos programas em causa. Não há uma preocupação nem com uma mística, nem com uma ideologia, nem com as águas falsamente acalmadas da Revolução ou do socialismo, nem com as águas-vivas da fé religiosa. Ora a Europa não existirá se não se apoiar nas velhas forças que a fizeram, que a trabalham ainda profundamente, numa palavra se negligenciarmos os humanismos vivos. (…) Europa dos povos, um belo programa, mas que está por formular”. Mais do que invocarmos os grandes idealistas, somos chamados a dar um salto desde os ideais até à realidade. E quando recordamos Denis de Rougemont ou Altiero Spinelli, não podemos esquecer os funcionalistas (como Jean Monnet) e os políticos europeus (como De Gasperi, Schuman, Delors e Mário Soares). A Europa do futuro constrói-se com mais política, com melhores instituições, com Estados de Direito e Uniões de Direito. Longe da tentação de construir instituições artificiais (que se tornam perigosamente reversíveis). Do que se trata é de superar os egoísmos nacionais pela salvaguarda sã das diferenças culturais (os Estados-nações não podem ser esquecidos, mas têm de subsistir, compreendendo que se tornaram, a um tempo, grandes e pequenos de mais). No fundo, é a dignidade da pessoa que está em causa, como sempre insistiu Alexandre Marc, um militante europeu centrado na liberdade e na dignidade humana. Do que se trata, pois, não é de criar uma identidade europeia, mas de entender a complexidade do pluralismo e das diferenças “Com um pouco de nervo político (diz o filósofo alemão Jürgen Habermas), a crise da moeda comum pode acabar por produzir aquilo que alguns esperavam em tempos da política externa comum – a consciência, por cima das fronteiras nacionais, de compartilhar um destino comum europeu”.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

A VIDA DOS LIVROS

De 12 a 18 de fevereiro de 2024


«Istambul – A História de Três Cidades» de Bettany Hughes (Planeta, 2023) permite-nos compreender como uma cidade que se encontra na fronteira entre o Ocidente e o Oriente pode ajudar-nos a entender a importância do diálogo entre culturas diferentes e complementares.

TRÊS CIDADES APAIXONANTES
Bettany Hughes, historiadora e publicista, venceu em 2018 o Prémio Europeu Helena Vaz da Silva, atribuído pela Europa Nostra, representada em Portugal pelo Centro Nacional de Cultura. O prémio foi-lhe atribuído pelo trabalho que tem realizado em livros e documentários televisivos na defesa e divulgação do Património Cultural europeu e universal. Estava-se no ano europeu dedicado ao tema e a sua atribuição correspondeu à exigência de pôr a tónica na noção abrangente de Património, não como realidade do passado, mas como realidade viva, envolvendo a herança recebida das gerações anteriores, incluindo a criação contemporânea – numa ligação íntima entre património material e imaterial, monumentos e tradições, natureza e paisagem, arte e ciência, considerando a História como realidade de que somos todos protagonistas. Daí a importância do património comum da humanidade, enquanto fator de paz e desenvolvimento, como salienta a Convenção de Faro, do Conselho da Europa sobre o valor do Património Cultural na sociedade contemporânea. O livro de Bettany Hughes de que falamos (Istambul, A História de Três Cidades, Crítica - Planeta, 2023) data originalmente de 2017 e constitui um notável testemunho sobre a importância de uma urbe de referência, que envolve a história de três cidades, num ponto de encontro único entre o Oriente e o Ocidente. Se nos reportamos ao Mediterrâneo mítico, quando avistamos o Bósforo da cidade de Istambul, lembramo-nos da deslumbrante paisagem do estuário do Tejo, e percebemos que as duas cidades se relacionam numa relação mimética. Não espanta, por isso, que muitos testemunhos recordem como Calouste Gulbenkian, quando vivia em Lisboa, no alto do Monsanto, recordava embevecido, em tardes amenas, a sua terra natal, olhando o estuário do Tejo. Por isso, muitas gravuras de Constantinopla assemelham-na a Lisboa e os clássicos, ao elegerem Ulisses como mítico fundador da cidade, fizeram-no, por certo, a pensar nessa íntima ligação mediterrânica.

 

UMA HISTÓRIA INESGOTÁVEL. - Bizâncio, Constantinopla e Istambul são pontos de ligação entre o Oriente e o Ocidente, o Norte e o Sul. Durante os seus mais de oito mil anos de história, estamos perante uma capital de Impérios, o romano, o bizantino e o otomano, onde se estabeleceram fenícios genoveses, venezianos, judeus e vikings. Há um movimento permanente de gente, de comércio, de transportes, de negócios – que constitui uma importante Economia-Mundo que nos leva a compreender a importância da cidade, para além das mil vicissitudes que acompanham a sua história. Quando lemos o retrato de Orhan Pamuk da sua cidade compreendemos bem que qualquer simplificação impede a compreensão das virtualidades desse encontro de culturas e de vontades. Centremo-nos em Santa Sofia – Haghia Sophia. Para Bettany Hughes tudo na cidade se desenrola e desenvolve em torno deste verdadeiro símbolo da humanidade. É um modelo de arte e de audácia. A cúpula dourada apresenta-se como suspensa no ar, representando a gravidade, a graça e a transcendência, servidas por uma construção exemplar que recorre a uma grande heterogeneidade das matérias-primas – tijolos de Rodes, pinturas, mosaicos, pilares, arquitraves, tetos revestidos a prata, mármore vindo de todo o império bizantino. Imagens poderosas representam uma espiritualidade pujante e serena. As memórias de Teodora e Justiniano (século VI) estão bem evidenciadas neste que foi durante cerca de mil anos o maior templo cristão da humanidade. E o fascínio da cidade corresponde à evidente complementaridade entre as diferentes fases históricas que a caracterizaram. Os vestígios bizantinos estão bem presentes no centro histórico, designadamente nas muralhas internas e externas construídas por Teodósio, avultando os complexos sistemas de cisternas subterrâneas para captação e fornecimento de águas. A magnífica Porta Dourada era o terminal da Estrada Romana, e quando hoje visitamos as ruas comerciais do centro histórico, na Sultanahmet, quase não nos apercebermos de que no dédalo complicado de vielas, pisamos o que foi outrora a via usada pelos Imperadores bizantinos nos grandes cerimoniais.

 

SETE COLINAS – COMO ROMA E LISBOA. - A cidade é antiga, plena de recantos e segredos, a que não faltam as Sete Colinas, que unem nas suas raízes a antiga Roma à cidade de Constantino e até a Lisboa. Quando percorremos um compêndio de História sobre a cidade, encontramos mil relatos de batalhas e combates. Não é estranho imaginá-lo, já que hoje mesmo estamos paredes meias com o tremendo conflito ucraniano e a evocação renascida da Guerra da Crimeia. O Bósforo é a fronteira da Europa e da Ásia, mas apenas foi aberto como o conhecemos 5500 anos antes da nossa Era. Foi o resultado de um gigantesco e dramático movimento de águas, que elevou o nível do Mar em cerca de 70 metros… E o certo é que o Bósforo hoje ainda esconde um curso de águas doces. Contudo esta ligação do Mar Negro ao Mediterrâneo encerra um potencial de espanto, de riqueza e de risco para a cidade, já que se permite o acesso da Rússia aos mares quentes do Sul e garante à Turquia a influência no Levante Mediterrânico.

 

Quando Constantino escolheu Bizâncio para sua capital ponderou seriamente as vantagens nas rotas do Oriente, preferindo a cidade do Bósforo à hipótese mítica de regresso ao que teria sido a antiga cidade de Tróia, onde quer que a mesma se tivesse situado verdadeiramente. Em 28 de outubro de 312 a vitória de Constantino sobre Maxêncio na Batalha da Ponte Mílvia abriria caminho a um período novo da história romana. Pouco antes da batalha teria mandado que pintassem nos escudos dos soldados uma cruz, tendo ainda avistado nos céus o milagroso lema “In Hoc Signo Vinces” (também invocado pelo nosso D. Afonso Henriques na mítica batalha de Ourique). Constantinopla seria capital do Império Romano de 330 a 395 e depois do Império Romano do Oriente (395-1204 e 1261-1453) e ainda do Império Latino (1204-1261). Mas foram os efeitos dramáticos da Quarta Cruzada que deixaram uma onda irreversível de destruição em Constantinopla, de que a cidade nunca recuperaria, sobretudo em razão de uma governação frágil e caótica no período do chamado Império Latino. O Império Bizantino seria reduzido à cidade, que se tornou um enclave dentro do Império Otomano, até que o sultão Maomé II tomou Bizâncio após um cerco de cerca de um mês em 1453, tornando-se a cidade capital otomana, em lugar da antiga Adrianópolis (Edirne). E foi o acontecimento de 1204 que contribuiu decisivamente para a destruição de Bizâncio e do Império Romano do Oriente. Bettany Hughes não tem dúvidas, porém, sobre o facto de Istambul ser ainda a capital não oficial da Turquia – “com muita da energia e vibração cosmopolita de que desfrutou ao longo da História”. Eis como o património cultural vivo marca o tempo.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 5 a 11 de fevereiro de 2024


Miguel de Unamuno foi porventura o pensador espanhol que mais intensamente procurou compreender a cultura portuguesa. O texto que se segue demonstra isso mesmo.

 


QUE SÉCULO DE OURO?
«Sem negar o valor de alguns dos clássicos portugueses, devo dizer que, em meu entender, a literatura portuguesa, que merece ler-se, data do século passado, do período romântico, da época de Almeida Garrett e de Herculano. E creio que a sua verdadeira idade de ouro é a atual». Assim se exprime Unamuno sobre a literatura portuguesa, em texto datado de Salamanca, de março de 1907. De que falava o pensador? Naturalmente, das repercussões poderosas na geração de 1870, de que falámos há dias, não escondendo profunda admiração pelos seus protagonistas – Antero de Quental, Oliveira Martins, Eça de Queiroz, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão. Os três primeiros já não faziam parte do número dos vivos quando o mestre escreveu, mas os dois últimos ainda estavam presentes. E o mestre salmantino invoca uma célebre conversa com Guerra Junqueiro: «O Cristo espanhol, dizia-me uma vez Guerra Junqueiro, está sempre no seu papel trágico: nunca baixa da cruz, onde, cadavérico, estende os seus braços e alarga as suas pernas cobertas de sangue; o Cristo português anda por costas e prados e montanhas, com a gente do povo, diverte-se com eles, merenda, e de vez em quando por pouco, para desempenhar o seu papel, regressa à cruz. (…) Aqui há o culto da morte; só que em vez de ser trágico, como em Espanha, é elegíaco e triste»… E ao dizer isto, o mestre sente encantamento. É verdade que não deixa de reconhecer, por comparação, as virtudes da literatura catalã, mas nas letras portuguesas vê um sinal da originalidade e o selo de uma identidade viva. E considera João de Deus o mais português dos nossos líricos do momento, corroborando Junqueiro esta consideração sentida. Mas Antero de Quental é outra coisa – comparável aos maiores na filosofia e na sensibilidade poética. «Em Espanha não temos nada que se assemelhe. Campoamor é a seu lado um falsificador do ceticismo. Quental foi uma das almas mais atormentadas pela sede de infinito e pela fome de eternidade. Há sonetos seus que viverão enquanto viva a memória das gentes, porque serão traduzidos, mais tarde ou mais cedo, em todas as línguas dos homens atormentados pelo olhar da esfinge». António Nobre apresenta o tom de um desespero resignado ou de resignação desesperada, que aparece noutros passos da literatura portuguesa.


CHORAR AMARGO, RIR BURLESCO
Quer o chorar amargo, quer o rir burlesco fazem parte da mesma atitude. E vem à baila Eça de Queiroz e as suas implacáveis sátiras que são tão dolorosas e exprimem queixume, como a mais triste das elegias. Os exemplos são significativos – A Ilustre Casa da Ramires e A Cidade e as Serras, mas também a corrosiva e supercrítica Correspondência de Fradique Mendes. Compreenda-se que é o autor do Sentimento Trágico da Vida a falar, apaixonado pelo caráter complexo do português. Há uma identidade construída num cadinho com ingredientes inesgotáveis. Mas Camilo Castelo Branco, com “alma tormentosa e apaixonada”, teria sido mais espanhol que português, com sinais de Quevedo. E Ramalho fala de proximidade com a dinastia dos Amadises e dos Palmeirins, numa participação evidente nas raízes do génio peninsular. E Oliveira Martins – o mais artista e penetrante dos historiadores - na História da Civilização Ibérica faz a análise desse génio, ilustrando-o com acontecimentos e com a demonstração das evidentes diferenças e complementaridades. Mas, para que não restem dúvidas, fica ainda para Unamuno a visão profética da língua portuguesa (e das línguas ibéricas) nas novas culturas da América do Sul, com evidentes e imprevisíveis potencialidades. Mas o pessimismo português impressiona o autor de Agonia do Cristianismo – que sobre Oliveira Martins diz que “o português é constitucionalmente pessimista”. O regicídio de 1908 deixa-o atónito, procurando compreender tão violenta expressão da ira do manso. «Neste povo doce, pacífico, sofrido e resignado, mas cheio de paixão por dentro, os crimes de sangue são raros, muito raros, raríssimos; mas entre os que ocorrem costuma havê-los muito mais atrozes e violentos que aqui em Espanha, onde por desgraça são mais frequentes tais crimes do que ali». Na literatura há manifestações contraditórias – para Herculano, a quem faltaria veia de artista, a literatura era uma missão e não um diletantismo, contudo para Garrett as coisas seriam diferentes já que usou a arte para descobrir o fundo do palpitar das entranhas portuguesas. “Que ouviu? Um coro de aflições tristes, uma resignação heroicamente passiva, uma esperança vaga, etérea na imaginação de uma jovem tísica e no desvario de um escudeiro sebastianista”. Eça cultivou a arte por ser estrangeirado…


ACREDITAR OU NÃO… 
Miguel de Unamuno julga ver nestes diversos sinais que “estes elegíacos pessimistas não acreditavam na pátria”. E lê as últimas páginas de Portugal Contemporâneo. "Submissos até quando se rebelam”. O país dormiria e sonhava – seria dado despertar ainda a tempo? Parece haver contradição entre considerar uma idade de ouro literária e artística e verificar a persistência de uma passividade endémica. Mas é na superação dessa contradição que os homens da Geração de 1870 e da Vida Nova vão poder encontrar forças para superar o atraso. “Não foi por acaso que Herculano falou do plácido sepulcro rodeado de esperança?”. E Unamuno recorda então o culto muito português das almas do Purgatório, lembrando-nos do mar como um enorme lugar de naufrágios e de mortes. Não por acaso, a nossa criação literária alia o lirismo e a história trágico-marítima. E invoca a figura do “Desterrado” de Soares dos Reis, como um autêntico símbolo, daquilo que o escritor não sabe explicar sobre o que o atraía Portugal. “Que terá esta terra, por fora risonha e branda, por dentro atormentada e trágica? Eu não sei; mas quanto mais lá vou, mais desejo voltar. (…) Parece que por ali pousa a lúgubre sabedoria do Eclesiastes. Num povo triste, tristíssimo, as pessoas divertem-se, sem dúvida, mas divertem-se como se dissessem: comamos e bebamos, que amanhã morreremos”. Marcado pela morte do amigo Manuel Laranjeira e recordando o fim trágico de Antero, de Camilo e de Soares dos Reis, Miguel de Unamuno fala de um país suicida. “Este é um povo não só sentimental, mas também apaixonado, ou melhor dito, antes apaixonado do que sentimental. A paixão trá-lo à vida, e a mesma paixão leva-o à morte”… Cultor de paradoxos, o pensador espanhol não ilude a contradição, agravada pelas circunstâncias – o século de ouro é ditado pela forte consciência existencial e crítica. E a inércia do vulgo é contrariada pela determinação do mundo das ideias, tornando a ação arte, a arte vontade e a vontade determinação...


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 29 de janeiro a 4 de fevereiro de 2024


«Noites de Peste» de Orhan Pamuk é uma narrativa histórica que põe na ordem do dia temas atuais e que nos permitem refletir sobre o futuro.


UMA PESTE ANTIGA
Orhan Pamuk começou a escrever o seu último romance antes da pandemia, mas estava longe de esperar que o tema pudesse tornar-se tão premonitório. A narrativa de Noites de Peste (Presença, tradução de Marta Mendonça) refere-se aos acontecimentos que tiveram lugar na ilha imaginária de Mingheria no Mediterrâneo Oriental durante o surto de peste de 1901. A narradora que o romancista criou, cuja identidade descobriremos mais tarde, propôs-se fazer a introdução editorial relativamente a cento e treze cartas que a princesa Pakize, terceira filha do sultão Murad V, escreveu a sua irmã mais velha, a sultana Hatice, de 1901 a 1913. Temos, assim, a construção de um enredo, no qual a imaginação permite apresentar uma interpretação verosímil sobre a aceleração dos vários sinais de decomposição de um império, que coincidem com a ocorrência de uma epidemia de peste. Ninguém teria sido capaz de abordar o tema com tanta perspicácia e atenção à diversidade de pormenores como a princesa Pakize, que nos apresenta relatos espirituosos e cheios de vida. E o romancista idealiza um lugar fictício, bem definido, e assume a pele de uma narradora, que compreende não só a perspetiva feminina da filha do sultão, mas também a sua cultura, numa evolução surpreendente, reveladora de um domínio seguro da construção literária. A protagonista e “autora dessas cartas raramente saiu da ala residencial do Palácio do Governador e só descobriu o que estava a acontecer na cidade por meio das histórias contadas pelo seu marido médico!” Hoje podemos avaliar a dimensão e características desse confinamento, aqui traduzido nas quarentenas, que uma criatividade fértil permite dar à protagonista e ao seu marido, uma princesa e um cientista, um papel histórico literariamente muito rico. A narradora, que nos transmite a leitura dos acontecimentos da ilha de Mingheria, revela-nos antes do mais, que essa era a sua terra-natal e descobriremos depois que a sua ligação ao que nos transmite é muito mais intensa do que à primeira vista pode parecer. Se as outras pessoas viam a ilha como um lugar mítico e lendário, para ela “a princesa Pakize era uma heroína típica de um conto de fadas”. E assim Ohran Pamuk, fazendo jus ao Prémio Nobel que ganhou em 2006, demonstra inequivocamente como “a arte do romance reside na capacidade de contarmos as nossas próprias histórias como se pertencessem a outas pessoas e de contarmos as histórias alheias como se fossem as nossas”…


UMA METÁFORA
No início do século XX, um navio a vapor partia de Istambul em direção a sul, rumo a Alexandria, passando pela ilha de Rodes ao fim de quatro dias de viagem, e entre águas turbulentas, avistava, passado meio dia, as delicadas torres do castelo de Arkaz, que identificam Mingheria, descrita por Homero na Ilíada como “uma esmeralda feita de terra rosada”. O romance é marcado pela sequência da chegada à ilha da embarcação real Azizye, tendo a bordo a princesa Pakize, filha de um sultão deposto, acompanhada do marido e príncipe consorte doutor Nuri e de Bonkowski Paxá, químico real, que teria um fim dramático Cada qual vai desempenhar uma missão. A catástrofe que se aproxima não se limita, porém, à peste bubónica, avassaladora que grassa na ilha. O Império Otomano está em crise, e a independência do 29º Estado da Grande Porta é evidente sinal dessa tensão, que o romancista descreve com minúcia, não só nas diversas peripécias públicas, mas nos sentimentos expressos pelos protagonistas e em especial pela jovem princesa, perante o evoluir dos eventos.


Na sucessão de acontecimentos trágicos, a princesa é chamada a desempenhar um papel muito relevante e o jornal parisiense Le Figaro noticia a declaração de independência do pequeno estado otomano. Os nacionalistas de Mingheria escolhem como rainha a princesa, que assim se vê no centro dos acontecimentos, sem que o pudesse prever. A tensão entre a princesa e o seu marido médico, com funções importantes no combate à peste, não deixa de se fazer sentir. Mas com o surto de peste ativo e as comunicações com o novo governo cortadas, a ilha continuou sob o bloqueio dos navios britânicos, franceses e russos. A princesa alimenta sentimentos contraditórios, já que a instabilidade psicológica acompanha a angústia geral pela situação da ilha. Mas a nova rainha alimenta a ilusão de que pode estabelecer a coesão e a confiança entre o povo da ilha nesse momento de grande dificuldade. É uma nova realidade que se constrói. E, apesar de tudo, os sinais de abrandamento da peste fazem-se sentir, a ponto de no dia 16 de outubro de 1901 não ter havido uma única morte de peste na ilha.


“As andorinhas e os estorninhos que, segundo a princesa Pakize, sabiam que o surto tinha acabado esvoaçavam de um lado para o outro, com chilreios empolgados e cheios de vida. Havia imensas altercações entre as pessoas que regressavam aos seus lares e as pessoas que os tinham ocupado ilegalmente na sua ausência, ou entre comerciantes furiosos cujas lojas tinham sido pilhadas e os aldeãos que se tinham instalado na cidade perante a peste, e não havia polícias nem soldados no Regimento de Quarentena suficientes para sequer tentarem intervir. Contudo, nenhum desses problemas conseguia ofuscar o sentimento de euforia que devolvera a capacidade de sorrir às pessoas…”. Contudo, apesar do entusiasmo, Mingheria deveria pertencer aos mingherianos. Mazhar Effendi assumiria o poder. E os tempos de liberdade chegavam ao fim. Regressada a normalidade, a princesa, tornada momentaneamente rainha por razões fortuitas e o Dr. Nuri Bei, príncipe consorte, compreenderam como a peste se juntara a uma revolta política, de que eram meros instrumentos. Afinal, tinham chegado à ilha a caminho da China, numa missão especial determinada pelo sultão Abdul Hamid II, para onde agora prosseguiriam, com seis meses de atraso, fixando-se em Hong Kong, onde os ingleses chegaram a prometer-lhes “oferecer” o reino de Albânia, que não aceitaram por falta do domínio da língua albanesa.


Em outubro de 1912, a Itália reconheceria oficialmente a independência de Mingheria, mas tratou-se de uma espécie de semi-independência, pois a bandeira italiana passou a partilhar com a bandeira mingheriana a posição cimeira no mastro do Palácio do Governador. E descobre-se que a autora do estudo que serviu de base ao romance era a bisneta da princesa Pakize e do príncipe consorte. A história de Mingheria é simbolicamente a história do fim do império otomano e de uma espécie de utopia sobre o futuro de uma ilha perdida, pretensa candidata à União Europeia, numa lógica romanesca. A bandeira otomana foi substituída pela mingheriana de 1901 a 1912; de 1912 a 1943 houve a partilha com a italiana; de 1943 a 1945, ondeou a cruz suástica alemã; entre 1945 e 1947 o Union Jack britânico tomou o lugar em nome dos vencedores da Grande Guerra, regressando a bandeira mingheriana, como símbolo da vitória da literatura e do sonho… E ao longo do romance sente-se a explicação de muitas interrogações que enchem o nosso tempo de incerteza e de incompreensão.  


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 22 a 28 de janeiro de 2024


A transição do século XIX para o século XX foi marcada pela experiência dos chamados “Vencidos da Vida”.


A CHEGADA DE UM NOVO REI
O reinado de D. Luís chegava ao fim. O rei tinha a saúde seriamente afetada e o Príncipe Real D. Carlos preparava-se para lhe suceder. Segundo a voz corrente, o jovem considerava essencial a renovação do pessoal político. As ideias de Oliveira Martins e da “Vida Nova”, que Anselmo Braamcamp partilhara, agradavam-lhe. Havia um mal-estar geral pela prevalência de interesses instalados e pela uma inércia bloqueadora. Oliveira Martins vem para Lisboa no início de 1888 e assume da direção do jornal “Repórter”, sucedendo a Pinheiro Chagas. Há boatos sobre o papel do historiador na nova situação, ele que interviera decisivamente na criação da nova Régie dos Tabacos, continuando empenhado como deputado na defesa da indústria nacional e dos direitos dos trabalhadores, sendo convidado, para surpresa de alguns, para assistir em Belém ao primeiro aniversário do filho primogénito de D. Carlos, D. Luís Filipe.


No Verão de 1888, o conde de Ficalho proferiu na Câmara dos Pares uma crítica severa à situação política, advogando uma ideia reformadora à semelhança da defendida por Oliveira Martins no Porto. “Não compreendo isto de andarmos a lançar o descrédito uns sobre os outros, nem as lutas de um dia e as reconciliações do dia seguinte, nem a utilidade do argentarismo exótico que se estabeleceu entre nós”. O alerta somava-se ao protesto devido ao impasse político partidário existente, de Oliveira Martins, António Cândido e Carlos Lobo d´Ávila, que se tinham declarado em silêncio no parlamento – sendo apelidados de “Amuados”. As palavras foram ditas no decorrer de um debate sobre a questão cerealífera, mas representou o tiro de partida relativamente à instituição do grupo que viria a ser designado como dos “Vencidos da Vida”. Os primeiros membros do grupo viriam a ser os referidos parlamentares das duas câmaras – Ficalho, Oliveira Martins, Carlos Lobo d´Avila e António Cândido Ribeiro da Costa. Depois, a solidariedade política e intelectual alargar-se-ia a Eça de Queiroz, Ramalho Ortigão e Guerra Junqueiro e finalmente juntar-se-iam os elementos palaciano, próximos do Príncipe Real D. Carlos – Bernardo Pindela, futuro conde de Arnoso, conde de Sabugosa, marquês de Soveral e Carlos Lima Mayer. Sobre a atitude dos “amuados”, Oliveira Martins definiu-os deste modo: “Amuado é todo aquele que fala com franqueza; e sem se desligar dos seus, prefere dizer com modos o que sente, repugnando-lhe o papel de granadeiro numa companhia de pomerânios”.


UM GRUPO JANTANTE
A partir de então iniciaram-se as célebres reuniões jantantes. O significado político era óbvio, mas perante a suspeita de que se engendrava um novo partido político, o próprios negavam-no. E quando lemos o “Diário da Vida Nova” de Luís de Magalhães essa ideia prevalece. Seguindo a cronologia dos célebres encontros, verificamos que primeiro de todos os ágapes foi no restaurante Tavares e seguindo-se imediatamente ao discurso do Conde de Ficalho na Câmara dos Pares de 28 de junho de 1888, sobre a inaceitável paralisia da vida política. Logo em julho, Oliveira Martins, nas colunas de «O Repórter»: perguntava: «Por que não haverá um jantar semanal, um jantar alegre e até um bom jantar, a carta constitucional de um partido novo?». E a que se deve a designação de «Vencidos da Vida»? O autor de «Os Filhos de D. João I», ao ouvir, por esses dias, o seu vizinho do terceiro andar da Calçada dos Caetanos, Ramalho Ortigão, ler uma descrição sobre a voga parisiense dos jantares, achou que podia usar o exemplo. À semelhança do caso então referido da Villa de Médicis - «les uns glorieux, les autres battus de la vie» - eis que o historiador considera ser essa uma boa ideia para o novo grupo: Vencidos da Vida… É o «Tempo», jornal de Carlos Lobo de Ávila, que nos permite fazer o seu elenco fundamental. São onze as celebradas refeições dos “Vencidos”, apesar de poder ter havido outros encontros nas quintas dos arrabaldes de Lisboa, como o Retiro do Perna de Pau, no Areeiro na Estrada de Sacavém. Em 16 de fevereiro de 1889, juntam-se oito convivas em casa de Bernardo Pindela - Ficalho, Sabugosa, Ramalho, Oliveira Martins, António Cândido, Carlos Mayer e Lobo de Ávila. Em 10 de março, há jantar, com os mesmos oito, no Hotel Braganza. A 19, «os vencidos» encontram-se no mesmo hotel para acolher Luís de Soveral, recém-chegado de Londres, onde era primeiro secretário da Legação portuguesa. Em 26 de março, ainda no Braganza, recebem Eça de Queiroz, vindo de Paris, tendo Guerra Junqueiro justificado a falta, por se encontrar no Minho, aproveitando para enviar dois alexandrinos (“Onze da noite. Chega o telegrama, Tudo / Já neste Eden do Lima é silencioso e mudo, /Astros e bacharéis, rosas e vereadores”). Em 29 de março, foi a vez de Carlos Mayer oferecer o jantar em sua casa, a que também não compareceria Junqueiro… Nesta ocasião, Ramalho e António Cândido tocaram rabeca, tendo todos seguido para o S. Carlos, onde se cantava o «Otelo» de Verdi. Mas voltemos ao calendário: a 10 de abril, encontraram-se no Café Tavares e no dia 2 de maio regressaram a S. Domingos, à Lapa, a casa de Pindela.


VISITANTES INESPERADOS
Na semana seguinte, o regenerador António Serpa Pimentel foi convidado pelo grupo, para o Braganza (o que causou grande vozearia e especulação política). No dia seguinte, Jorge O’Neill convidou para sua casa, tendo faltado Junqueiro, Arnoso e Cândido. Em 14 de maio, houve jantar em casa do Conde de Valbom, com a presença de Junqueiro, Eça e Oliveira Martins, Pindela e Alberto Braga. E a 17 de maio, celebraram-se os 29 anos de Carlos Lobo de Ávila, em casa de seu pai, o Conde de Valbom, onde foi cantado, com versos de Sabugosa, o hino humorístico do grupo, com música da «Rosa Tirana» (“Aqui estão os dez vencidos, / Oh Carlos! / Tirano / Com presuntos escolhidos, / Trolaró, laró. Laró”). Por fim, a 21 de maio, houve novo jantar em S. Domingos, à Lapa, a que faltaram Ficalho e Sabugosa, que interromperia por ocorrência da vilegiatura o conjunto dos repastos. Esta é a lista coeva dos onze ágapes, tudo apontando, assim, para que tenha sido o dia 2 de maio de 1889 em que o fotógrafo Augusto Bobone (1852-1910) realizou as fotografias que chegaram até nós, nas quais apenas falta António Cândido. Há, pois, além destas só uma fotografia, realizada em estúdio, com a equipa completa dos onze membros, de que não temos indicação quando foi realizada em 1889. Eça referirá ainda um «jantar de Vencido» em Paris com Luís Soveral, na Maison d’Or, com bacalhau, após o que foram, com o Príncipe D. Carlos, visitar a Torre Eiffel, em 27 de agosto de 1889. E António Cândido dirá, em entrevista a Gomes Monteiro (ABC, 16.3.1922): «Oh! Os Vencidos da Vida! – como isso vai distante. (…) A ideia da formação do grupo surgiu um dia, espontânea, imprevista, entre uma colherada de doce e uma gargalhada de champanhe no restaurante Tavares, na rua Larga de S. Roque. Oliveira Martins lembrara o título Vencidos da Vida, que todos aplaudiram e, pouco depois, o Conde Sabugosa compunha uns versos que, com música da Rosa Tirana constituíam o hino do nosso grupo. (…) Soltando sempre as suas gargalhadas espirituosas e cáusticas continuavam a fazer servir jantares elegantes em que se chegou a gastar dezoito vinténs de pão e bacalhau e dezoito mil réis de champanhe…». E a «águia do Marão» lembrava ainda o jantar de despedida, oferecido a Antero de Quental, de finais de maio de 1891, no Tavares… «Pobre amigo! Parece-me estar a vê-lo… No seu olhar melancólico e profundo, em que se adivinhava a nostalgia do Além, pairava já a visão da morte que tão tragicamente o arrebataria. Pobre Antero!»…


Sabugosa (lembrado por Silva Gaio) disse, contudo, que o «vencidismo» era difícil de classificar. «Foi um estado de espírito originado de afinidades já existentes e das que uma convivência delas nascida, mais avolumou e multiplicou». E Eça recordou que os detratores talvez se irritassem pelo facto de se chamarem a si Vencidos «aqueles que para todos os efeitos públicos parecem ser realmente vencedores». Este, no fundo, é o grande tema. A cultura portuguesa do século XX foi profundamente marcada por esses homens que se chamaram de vencidos criticamente por causa daquilo que Eduardo Lourenço sintetizou: «interrogávamo-nos apenas pela boca de Antero e de parte da sua geração, para saber se ainda éramos viáveis, dada a, para eles, ofuscante decadência». Daí Unamuno ter considerado esse o nosso século de ouro. Não poderia haver fatalismo, mas sim sentido crítico, para que os mitos não se tornassem bezerros de ouro.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 8 a 14 de janeiro de 2024


Maria Archer (1899-1982) foi uma escritora multifacetada. Como romancista enalteceu os direitos da mulher, como cronista e ensaísta deu-nos um retrato da África e do mundo do seu tempo, temas que merecem leitura nos nossos dias.


AUDÁCIA E ENERGIA
João Gaspar Simões afirmou em 1930 sobre Maria Archer: «Não conheço outra escritora portuguesa que à audácia dos temas e das ideias alie uma expressão tão enérgica e pessoal. O seu estilo respira força e solidez.» Pode dizer-se que se trata de um juízo justo, sobretudo quando tomamos contacto com a rica e diversificada obra de uma escritora, que infelizmente é muito pouco conhecida na nossa República das Letras. Contudo, sempre que alguém regressa à sua obra escrita é invariável o espanto e a admiração. 


Maria Archer nasceu em Lisboa a 4 de janeiro de 1899. Foi a primeira de seis irmãos e começou cedo, a viajar com os pais e a acompanhá-los - Ilha de Moçambique (1910-13) e Guiné-Bissau (1916-18). Uma vez que terminou tarde a instrução primária, por decisão própria, podemos considerá-la autodidata. Em 1921, vive em Faro com a família e aí casa com Alberto Passos, indo viver para o Ibo – Moçambique. Cinco anos depois regressam a Faro e de seguida vão para Vila Real, tendo o casamento durado apenas dez anos. Em 1932, parte para Angola, ao encontro de seus pais. Em Luanda, publica o seu primeiro livro - Três Mulheres (1935) – com o apoio de Pinto Quartin. Escreve para os jornais e vê-se confrontada com a incompreensão da própria família, designadamente aquando da publicação do romance Aristocratas (1945), uma vez que os elementos autobiográficos chocam os mais próximos de si. Em 1943, escreve com Branca de Gonta Colaço Memórias da Linha de Cascais. E no mesmo ano publica uma apresentação sobre os Parques Infantis, a convite de Fernanda de Castro. Participa em várias conferências, em Lisboa e no Porto, e faz várias entrevistas como jornalista. Em 1955, parte para o Brasil, por considerar a censura como intolerável. Os livros Ida e Volta duma Caixa de Cigarros (1938) e Casa Sem Pão (1947) tinham sido proibidos. Conhecedora da situação africana, desde muito cedo compreende a tendência para a emancipação dos povos coloniais, no que se aproxima de Henrique Galvão, quer nas preocupações culturais, quer nas políticas. Acompanha, por isso, o julgamento do antigo fundador da Emissora Nacional, tornado crítico da política de Salazar em Angola, que decorreu no Tribunal Militar de Santa Clara. Defensora dos direitos das mulheres tem na sua escrita a afirmação clara da exigência do necessário reconhecimento de uma igualdade substancial, deixando na sua obra a marca indelével da afirmação da democracia.


ENTENDER O FEMININO
Maria Archer é, de facto, uma das mais dotadas escritoras portuguesas do século XX. Soube entender o feminino até ao âmago, como nenhuma outra, o feminino nos seus sonhos, nos seus anseios e denunciar corajosamente a teia dos preconceitos absurdos que pendiam sobre as mulheres, sobretudo as que procuravam lutar pela sua dignidade. Em Ela é Apenas Mulher (1944) fica evidenciado não apenas uma capacidade extraordinária para definir quadros narrativos, mas também para retratar as personagens, em especial as femininas. A figura de Biluca Morgado, a protagonista de Nada lhe Será Perdoado (1953), é bem o símbolo do sofrimento de uma mulher ao pretender seguir, depois do divórcio, o seu próprio caminho de liberdade e dignidade... Já no Brasil e apesar da chantagem do regime, sobre o seu relato do julgamento de Galvão, publicará Os Últimos Dias do Fascismo Português (1959), que causará brado, pela natureza das acusações relativamente à política de Salazar. No Brasil, apesar da doença e da míngua de meios de vida, escreveu bastante para diversos jornais, nomeadamente para O Estado de S. PauloSemana Portuguesa Portugal Democrático. São desse período as seguintes obras: Terras onde se Fala PortuguêsÁfrica sem LuzBrasil, Fronteira da África. A obra de Maria Archer foi bastante diversificada, designadamente em periódicos, como Correio do Sul, Diário de Lisboa, Eva, Fradique, Ilustração, Ler, O Mundo Português, Portugal Democrático, Seara Nova, Sol e Estado de S. Paulo.


De 1935 a 1944 foi sobretudo novelista ou contista. De 1944 a 1955 chega à maturidade na sua produção literária, revelando-se perspicaz observadora e narradora dos problemas que atingem a mulher dessa época. A partir de 1956, temos a fase da resistência no Brasil com a publicação de vários artigos no Portugal Democrático e do livro referido sobre o julgamento de Henrique Galvão. Há coerência nos ensaios e estudos sobre África e os costumes dos seus povos (13 obras), nos quais se sente um sentido emancipador que envolve a necessidade da autodeterminação colonial.  A obra de Maria Archer traduz-se na publicação de trinta livros, três dos quais chegaram à terceira edição e cinco tiveram três, o que prova a apreciação positiva do público leitor, em especial das mulheres. Todos reconhecem um valor especial na literatura feminina do início do séc. XX, envolvendo novela, romance, ensaio e literatura de viagens. Escreveu, também, 5 peças de teatro, um romance de aventuras infantis e dois ensaios para que o público mais jovem aprendesse a História de forma lúdica. Como premonitoriamente reconheceu Gaspar Simões, foi na forma audaciosa como retratou a mulher portuguesa e os seus problemas familiares e sociais que se tornou uma referência essencial na literatura do séc. XX. Ainda no Brasil, em 1974, apesar de enfraquecida, continuou o seu combate na afirmação da democracia, em 1977 foi internada em São Paulo, donde regressou a Portugal em abril de 1979. Permaneceu em Lisboa até à morte em 23 de janeiro de 1982, há quarenta e dois anos.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  

De 18 a 24 de dezembro de 2023


Em Alberto da Costa e Silva a pluralidade da língua portuguesa compreende-se a partir da reflexão sobre “A Enxada e a Lança” ou sobre “A Manilha e o Libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700”, além de “Um Rio chamado Atlântico” – sobre “a África que moldou o Brasil e o Brasil que ficou na África”.


SAUDOSO AMIGO
Dediquei ao saudoso amigo Alberto da Costa e Silva, que agora nos deixou, o texto publicado em maio intitulado “Brasil, Tão Perto”, por ocasião da entrega do Prémio Camões a Chico Buarque. E lembrei então Antonio Candido, por ter desenvolvido na análise da cultura do Brasil, o facto de a obra de Sérgio Buarque de Holanda utilizar a “admirável metodologia dos contrários”. Trabalho e aventura; método e capricho; rural e urbano; burocracia e caudilhismo; norma impessoal e percurso afetivo – os pares que o autor de “Raízes do Brasil” destacou no modo-de-ser e na estrutura social e política, para analisar e compreender o País e os brasileiros. Se dediquei esse texto a Alberto da Costa e Silva, o inesquecível visionário de uma compreensão de largo prazo da realidade brasileira, fi-lo porque ele entendeu melhor que ninguém, na sua obra multifacetada, o Atlântico como presença influente nos continentes americano e africano, designadamente no complexo movimento triangular que une as nossas diferenças. A pluralidade da língua portuguesa compreende-se a partir da reflexão sobre “A Enxada e a Lança” ou sobre “A Manilha e o Libambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700”, além de “Um Rio chamado Atlântico” – sobre “a África que moldou o Brasil e o Brasil que ficou na África”. Assim, invocando a língua e as lusofonias, é necessário estudarmos um Atlas prospetivo sobre o que será o Atlântico Sul dentro de meio século, para entendermos o surgimento de um “rio” de incomensuráveis partilhas, nova casa miticamente comum, desde a Macaronésia ao planalto do Huambo e ao grande e múltiplo território brasílico. E recordei ainda o facto de António Correia e Silva, no estudo sobre o caso de Cabo Verde, evocar o ponto de encontro dos polos fundamentais do Atlântico Sul, salientando a importância da “crioulidade”, com variantes dialetais insulares, enquanto manifestação rica da cultura popular, fundamental para a coesão social e para a afirmação da unidade cabo-verdiana. O crioulo é, de facto, uma criação multissecular, com base na língua portuguesa e uma fecunda ligação às variantes culturais africanas. De facto, a cultura africana moldou em parte significativa a cultura do Brasil, ao lado das culturas da língua portuguesa e Alberto da Costa e Silva entendeu-o como ninguém.


LEMBRANÇA DO BENIM
Leia-se “Francisco Félix de Souza – Mercador de Escravos” (a biografia do célebre “Chachá”) e compreenda-se como o seu autor, em 2004, considerou a historiografia complexa sobre o tema num contexto das diferentes perspetivas complementares, evitando transposições ou apreciações anacrónicas e preservando não só as condições concretas dos diversos momentos históricos, mas também o sentido crítico e a transposição para as condições do tempo presente. “Ninguém era bondosamente traficante de escravos. A profissão era cruel e exigia dureza e frio na alma. Quem a exercia estava sempre de chicote na mão. Compravam-se, porém, e se vendiam escravos com a mesma indiferença, ou falta de remorso, aflição ou angústia, com que um empresário contemporâneo despede empregados e despenca famílias na indigência. Algum desassossego, ou mais que isso, um sentimento de pecado, devia, contudo, frequentar o espírito de alguns dos que comerciavam com seres humanos” … É certo que havia uma ponta de melancolia em alguns e noutros oferendas expiatórias, mas “como tantos de seu tempo, na Europa e nas Américas, provavelmente (o traficante) não considerava os africanos como seus semelhantes, mas, sim, uma humanidade à parte ou uma subumanidade, de cuja barbárie a escravização resgatava”. Para Alberto da Costa e Silva, Francisco Félix de Souza seria “um homem de notável inteligência, incomum habilidade e grande encanto pessoal, no trato com os brancos e com os grandes do Daomé”. Gilberto Freyre disse, um dia, que tinha, porém, “alguma coisa de malandro carioca”. Mas o biógrafo discorda: «Não tinha: era cumpridor, zeloso e sério. Mas fico com o resto da frase de Freyre: devia ter o ser tanto ‘de fidalgo pernambucano’ e ‘muito mais do baiano maciamente diplomata’». Em vida do Chachá (que em 1844 teria provavelmente a idade de 90 anos) assiste-se à transição lenta do comércio de gente para a transação de óleo de palma ou azeite-de-dendê e os navios negreiros começaram a adaptar-se, bem como os seus mercadores. Mas os britânicos apertavam cada vez mais o cerco ao tráfico de escravos de Ajudá, o que se traduziu em grandes prejuízos financeiros dos negreiros. Assim se explica que Francisco Félix tenha morrido, em 1849, sem a opulência de outrora, endividado e com o negócio condenado. Contudo, ficou a fama do nome e da família, e tive oportunidade de conhecer pessoalmente o Chachá VIII, Honoré Feliciano Julião de Souza, com evidente influência local. Mas Alberto da Costa e Silva recorda como, ao seu ouvido, um cidadão do Benim, que o acompanhava de visita, salientou, com naturalidade, que Félix de Souza não foi aquele grande homem a quem cantam loas, “mas a principal personagem de um medonho pesadelo”. 


A ENXADA E A LANÇA
Agostinho da Silva referiu-se no início de “A Enxada e a Lança” ao “Embaixador que nunca larga o Poeta”. “Sabe ele toda a história / geografia palmo a palmo / com saber apaixonado / ao mesmo tempo que calmo // mas o que mais lhe louvamos / ao livro de bom narrar / é o principal intento / que permite formular // para termos definido / o que o Brasil nos vai ser / como faísca do mundo // que do nosso vai nascer // pelo toque brasileiro / o de dádiva e de amor / o de alegria na vida / e de divino esplendor…” Para Alberto, a escassez e a fragilidade dos dados sobre o passado africano impuseram uma prosa plena de advérbios de dúvida, além de uma análise em que as hipóteses sobre o passado se associaram aos projetos de futuro. “Se é verdade que toda narrativa histórica é uma aproximação hipotética de acontecimentos que o autor não viveu — o papel escrito, embora pareça neutro, é quase sempre parcial e, como as tradições que a memória coletiva guarda e adultera, também mente, dissimula, cala e ilude, além de ser lido de modo distinto de geração em geração —, esse relativismo se acrescenta, ao tratar-se da África, pois os menos obscuros dos testemunhos de sua antiguidade são os objetos e as imagens de cerâmica, bronze, latão, madeira ou pedra, a indicarem o alto nível de mestria técnica e a agudeza de sensibilidade e inteligência que lhes deu origem”. No fundo, a interrogação sobre as raízes foi para Costa e Silva essencial para a compreensão da cultura como convergência de influências e desenvolvimento de esperanças.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 11 a 17 de dezembro de 2023


«Ilustrissimi» do Cardeal Albino Luciani, que viria a ser o Papa João Paulo I, é um conjunto inesperado e notável de missivas a heróis da literatura, em especial da nossa infância.


QUE TAREFAS PARA O DIA DE HOJE?
Neste Advento, o mundo apresenta-se incerto, imprevisível e distante dos Evangelhos. Precisamos de sinais de esperança. No prefácio que assinou ao volume “Ilustrissimi – Cartas do Patriarca”, da autoria do Papa João Paulo I, Albino Luciani, o Cardeal D. José Tolentino Mendonça pergunta: “Qual é a tarefa do cristianismo após a fratura da modernidade? Luciani sublinha-o na carta a Gilbert K. Chesterton: é urgente ajoelhar-se não diante daquele Deus que «pela secularização é chamado de “morto”», mas «diante de um Deus mais atual que nunca». Isto, porém, exige a sabedoria de compreender como o «ponto de vista» se tornou culturalmente complexificado. É por isso uma responsabilidade gravíssima da Igreja reativar processos culturais que desaguem na criação de códigos e chaves de leitura hermenêuticamente consistentes e vitais. Por isso, precisamos da literatura, não como um ornamento agradável, que, tudo somado, seja supérfluo, mas antes como estrutura portadora do nosso estar no mundo e da irrenunciável responsabilidade que o cristianismo transporta, como sustentava Luciani, de «fazer refletir!». E o certo é que este “fazer refletir” leva-nos à essência do fenómeno religioso, numa das suas raízes etimológicas – “relegere”, reler, repensar, ao lado do “religare que nos conduz à exigência do contrapor a coesão à fragmentação. E quando esta ligação e este repensamento estão na ordem do dia não podemos esquecer a participação ativa do Papa Francisco não só no desenvolvimento do processo sinodal, chamando todos a uma reflexão séria e persistente como participantes numa comunidade que se emancipa através da partilha de pensamento e ação, tirando consequências dos erros praticados ou das simplificações, mas também num caminho que se deseja de abertura, de diálogo, de capacidade crítica e de compaixão. É verdade que alguns gostariam de uma acomodação do Papa à inércia e ao “dolce far niente”. No entanto, este Sínodo tem uma agenda obrigatória e exigente que procura garantir a vivência de uma Igreja em movimento e em saída.


ECOLOGIA INTEGRAL
Compreende-se o gradualismo, mas é o inconformismo que tem de se constituir como marca e método. A sociedade humana evolui e o universalismo da dignidade das pessoas obriga à releitura da encíclica “Pacem in Terris” de S. João XXIII, numa conjuntura como aquela em que vivemos em que cultura da paz é subalternizada, e em que os direitos e deveres fundamentais são esquecidos. Quando o Papa apelou a “todos” em Lisboa, fê-lo, para além de qualquer formalismo, apontando para um humanismo pleno de pessoas livres e iguais em dignidade e direitos, que tendo como consequência a ecologia integral, afirmada em «Laudato Si’» e na exortação apostólica Laudate Deum, sobre o cuidado relativamente ao planeta, exprime profunda preocupação pela nossa casa comum, porque “não estamos a reagir de modo satisfatório, pois este mundo que nos acolhe, está-se esboroando e talvez aproximando-se dum ponto de rutura”. Embora o estado clínico geral do Papa Francisco tenha melhorado, os médicos pediram ao Papa que não efetuasse a viagem ao Dubai, para a 28ª Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, no entanto “o Papa e a Santa Sé continuam dispostos a participar nos debates durante a COP28, através de modalidades definidas oportunamente. O Papa Francisco reafirmou, assim, que, «além da guerra, o nosso mundo está ameaçado por um outro grande perigo, o climático, que coloca em perigo a vida na terra, especialmente a das gerações futuras. E isto é contrário ao projeto de Deus, que criou tudo para a vida”.


UMA LEITURA FECUNDA
D. José Tolentino Mendonça, no prefácio referido, lembra ainda que, no mesmo ano em que foi publicado “Illustrissimi. Cartas do Patriarca”, de Albino Luciani (1976), foram dadas à estampa as “Cartas luteranas”, de Pier Paolo Pasolini. Os dois livros são verdadeiros sismógrafos, já que Luciani alerta profeticamente para a necessidade de atenção às pessoas, enquanto Pasolini adverte para a «reviravolta antropológica promovida pela sociedade dos consumos e consumada pela desapiedada terraplanagem concretizada pelos seus processos sociais e culturais de homologação». A obra de Pasolini é um livro-denúncia, realçando a originalidade do livro de Luciani, que faz uma leitura crítica da realidade, enquadrando-a num horizonte necessariamente dilatado, «surpreendentemente convocado à redenção, pois Deus não desiste de procurar o Ser Humano». Italo Calvino escreveu que «um clássico é um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer». Como poderemos responder aos desafios que estão lançados pela crise económica e financeira, pelas guerras que se eternizam, pela permanência de uma estranha cegueira relativamente à indiferença, à escalada da violência e á destruição da natureza e do meio ambiente? Somos chamados à ação e às bem-aventuranças.


Guilherme d'Oliveira Martins
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A VIDA DOS LIVROS

  
De 27 de novembro a 3 de dezembro de 2023


No centenário do nascimento de Urbano Tavares Rodrigues (1923-2013), invocamos a sua obra multifacetada, designadamente «Os Insubmissos» (1961), além da poesia e ensaio, onde se encontram as raízes da cultura e a compreensão da importância da emancipação humana.


“A Primavera vem dançando / com seus dedos de mistério e turquesa / Vem vestida de meio dia e vem valsando/ entre os braços de um vento sem firmeza // Nu como a água o teu corpo quieto e ausente / Só este inquieto esvoaçar do teu sorriso /Loiro o rosto o olhar não se mente / se de tão negro e parado é um aviso / do destino que me fixa finalmente / Ai, a Primavera vai passando / com os seus dedos de mistério e de turquesa / Segue Primavera vai cantando / Que será do nosso amor nesta praia de incerteza” – ouvimos o poeta Urbano Tavares Rodrigues e relacionamos o tema com a sua vitalidade criativa.


Filho de proprietários agrícolas alentejanos nas imediações de Moura, o escritor nasceu em Lisboa a 6 de dezembro de 1923. O Alentejo marcou-o profundamente na beleza da paisagem, na força da natureza, no culto do sol e da luz e na tomada de consciência das injustiças e da pobreza, das desigualdades e dos contrastes. O Baixo Alentejo marca-o, ligando velhas tradições republicanas e a emergência dos movimentos sociais emancipadores. "Por um lado, recebi a oralidade e a magia das conversas dos camponeses, por outro lado, tive uma relação muito próxima com a natureza, com o rio onde aprendi a nadar, com os cavalos [...] tudo, a lua, as estrelas, as árvores, os animais eram-me muito familiares. [...]ao longo dos livros [...] quando volto ao Alentejo, creio que é quando eu encontro uma certa qualidade lírica e mágica da linguagem". Em Lisboa, depois de frequentar o Liceu Camões, vem estudar Românicas para a Faculdade de Letras, aí iniciando uma carreira académica. Entre 1949 e 1955 leciona em França, nas Universidades de Montpellier, Aix-en-Provence e Sorbonne - Paris. Casa-se com a romancista Maria Judite de Carvalho. Uma vez que tinha apoiado a candidatura de Humberto Delgado em 1958 é impedido de ensinar em Portugal e torna-se jornalista no “Diário de Lisboa” e professor no Colégio Moderno e no Liceu Francês Charles Lepierre.


Envolve-se na ação política, participando em diversas iniciativas de luta contra o regime, nomeadamente na designada Revolta da Sé (1959) e no assalto ao Quartel de Beja (1962). Em 1963 é preso no Aljube, sendo por diversas vezes detido às ordens da polícia política. Exilado em França, conhece os meios da emigração. De regresso a Portugal, após a revolução de 1974, foi professor na Faculdade de Letras, sob proposta de Luís Filipe Lindley Cintra, e será crítico literário, ficcionista, ensaísta e investigador. A figura de Manuel Teixeira Gomes, Presidente da República, Embaixador, escritor referencial na primeira metade do século XX, atrai-o especialmente, tornando-se um estudioso fundamental do autor para a compreensão da importância do cidadão e intelectual para a cultura de língua portuguesa. Autor de obras marcantes como Os Insubmissos, Bastardos do Sol ou A Estação Dourada, foi agraciado com inúmeros prémios literários que distinguiram a sua obra, como os prémios Ricardo Malheiros, Aquilino Ribeiro e Fernando Namora; bem como da Associação Internacional de Críticos Literários; da Imprensa Cultural; ou o Prémio Vida Literária — atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores; além do Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco.


A título de exemplo, na antologia intitulada “A Estação Dourada”, Urbano Tavares Rodrigues reúne vinte e uma narrativas breves, escritas ao longo de uma década, e que, no seu conjunto, constituem uma perspetiva multifacetada da realidade contemporânea. O título da coletânea é tirado da narrativa inaugural e pode ler-se como uma celebração da estação estival, tanto no sentido meteorológico como simbolizando a maturidade, com os seus aspetos positivos, mas também com os seus reveses e dúvidas. O Sul está bem presente, quer na dimensão das planuras alentejanas, como no anúncio algarvia, que o autor aprendeu a conhecer e as amar, sob a influência marcante do Mestre Teixeira Gomes, exemplo de bom gosto e de talento, sobremaneira admirado por Urbano Tavares Rodrigues.


Numa obra vasta caracterizada pelo culto da poesia e da narrativa, pela paixão das viagens e da diversidade da natureza, o escritor escreveu ainda “Torres Milenárias”, “A natureza do Ato criador”, “O Mito de D. Juan e outros Ensaios de Escreviver” ou “O Texto sobre o Texto”. Como diz Fernando Pinto do Amaral: “Autor muito prolífico e sempre atento à evolução da sociedade portuguesa, Urbano Tavares Rodrigues partilha ainda com o neorrealismo evidentes afinidades ideológicas (…), mas inscreve-se já no quadro do existencialismo pela atenção que presta à interioridade de cada uma das personagens por vezes adensada em virtude de uma dimensão claramente erótica que acaba por individualizar o seu universo ficcional”. Falecido, em Lisboa, a 9 de agosto de 2013, aos 89 anos, é um autor a que hoje regressamos com a possibilidade de continuarmos a reviver uma experiência literária com qualidades … A língua torna-se expressão de sentimentos e compreendemos a como a existência apela a uma permanente emancipação.


Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença