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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

RAMON LLULL

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Calcula-se que Ramon Llull tenha nascido nos finais de 1232 em Maiorca.

Recorda-nos Umberto Eco que no local de nascimento de Ramon, se vivia, na altura, uma encruzilhada das três culturas, a judaica, a islâmica e a cristã, o que muito determinou a formação de Llull, bem como o facto das suas iniciais obras terem sido escritas em catalão e árabe.

Crê-se que Llull conheceu a Zairja numa das suas viagens à cultura árabe e por ela desenvolveu a chamada Grande Arte.

A Zairja era um dispositivo dos árabes medievais que combinava as vinte e oito letras do alfabeto árabe para designar vinte e oito categorias filosóficas, respetivamente, e ao combinar valores numéricos com as letras criavam-se associações de pensamento que se podiam desenvolver. Aliás, diz-se, que, por conhecer e bem interpretar a Zairja, Llull criou um templo espiritual de paisagens intelectuais só interpretadas pela chamada Grande Arte que acima citamos.

Llull é considerado um fascinante escritor, filósofo e poeta acutilante já considerado como um dos mais importantes da Idade Média da língua catalã.

No campo espiritual, como missionário e teólogo viaja para conhecer papas, príncipes e reis a fim de obter ajudas aos seus projetos de cruzadas de missionário.

Seguindo para o norte de Africa aos 82 anos, foi apedrejado em Tunes tendo vindo a morrer cerca de um ano depois em Maiorca para onde o transportaram os seus amigos genoveses.

O Livro do Amigo e do Amado surge-nos numa temática de fervor sentimental entre a pessoa humana (o amigo) e a essência do divino (o amado).

De quando em vez volto a este livro das edições Cotovia de 1990 e dele hoje estes parágrafos:

1. Perguntou o amigo ao seu amado se havia nele alguma coisa por amar, e o amado respondeu que aquilo que poderia multiplicar o amor do amigo era amar.

176. Diz-me, doido: Tens dinheiro? Respondeu: Tenho o Amado. – Tens casas, castelos, cidades, condados ou ducados? Respondeu: - Tenho amores, pensamentos, prantos, desejos, penas e dores, que são melhores do que os reinos e os impérios.

188. Perguntaram ao amigo se era possível que o seu amado o desenamorasse. Respondeu que não, enquanto a memória se lembrasse dele e o entendimento entendesse as nobrezas do seu amado.

350. Teologia e Filosofia, Medicina e Direito encontraram o amigo que lhes perguntou se tinham visto o seu amado. A Teologia chorava, a Filosofia duvidava, a Medicina e o Direito alegravam-se. E a questão é:o que significa cada um dos quatro significados para o amigo que procurava o seu amado.

 

Também lemos a conceção segundo a qual, o amor neste livro, constitui uma fusão entre o amor humano e o amor divino transformando Deus em amante e em amado, como afirma Henry Corbin no Prólogo da obra Le Jasmin des Fidèles d’Amour de Rūzbehān Baqlī Shīrāzī (1128-1209), o grande representante do Sofismo iraniano. Obra esta para a qual nos remeteram e à qual ainda se não acedeu.

Certo é que para iniciarmos o entendimento do fenómeno místico em Ramon Llull, é fundamental compreendermos a importância da “comunicação” entre as culturas do diálogo inter-religioso, sobretudo entre o Cristianismo e o Islão.

Enfim, por pouco conhecermos esta temática de procura sem fim, e por mais atrevimento termos em abordá-la, aqui ficam mil modestas centelhas na procura de infinitos amigos e amados, porque não antecâmara ao contributo do entendimento da fala nas casas do mundo.

 

Teresa Bracinha Vieira

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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  De 30 de agosto a 5 de setembro de 2021

 

“A Intimidade de Um Intelectual Indomável” é o subtítulo da Fotobiografia de António José Saraiva, da autoria de António Manuel P. Saraiva, José António Saraiva e Pedro António P. Saraiva (Gradiva, 2021).

 

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A MARCA DO INCONFORMISMO

O percurso de um dos intelectuais mais importantes da segunda metade do século XX português constitui excelente oportunidade para conhecermos um pensamento complexo, cuja coerência significa uma permanente busca de razões de ser para a história portuguesa, com recusa de conclusões adquiridas. O inconformismo é uma marca indelével que, longe de significar hesitação, representa a clara compreensão de que os factos históricos não têm explicações unívocas, resultando sempre de uma confluência de fatores contraditórios e heterogéneos. Deste modo, percebemos que o caminho de António José Saraiva é de permanente exigência, com aproximações e distanciamentos relativamente a autores e explicações, em resultado de um sentido crítico apurado, essência do fenómeno cultural e da sua compreensão. Ser “intelectual indomável” significa, assim, colocar o pensamento como bussola para uma caminhada capaz de conciliar a liberdade de espírito e o rigor na análise dos acontecimentos. E o irmão, José Hermano Saraiva, revela-nos uma explicação: “a ideia que ele escreveu na minha fita de formatura: quando tiveres encontrado enfim uma verdade, rasga-a e procura outra verdade melhor”. Ao seguirmos a obra de António José Saraiva, encontramos na dissertação de licenciatura o tema da poesia de Bernardim Ribeiro (1938) e no doutoramento em Filologia Românica a referência a Gil Vicente e ao fim do teatro medieval (1942) e em ambos encontramos a originalidade e a relevância das considerações do jovem investigador, em temas cruciais na afirmação da cultura portuguesa. No Liceu Gil Vicente fora aluno de Fidelino de Figueiredo e em 1940 travara conhecimento com Óscar Lopes, seu companheiro na empresa referencial da “História da Literatura Portuguesa”, a partir de 1949 – “vademécum” de muitas gerações na compreensão da nossa identidade literária. Quando hoje lemos textos de 1946 como “As Ideias de Eça de Queirós” ou “Para a História da Cultura Portugal” notamos já uma evidente maturidade, que prossegue não só em “A Escola, Problema Central da Nação”, mas igualmente em “A Evolução do Teatro de Garrett”, em “A Obra de Júlio Dinis e a sua Época” e sobretudo no fundamental “Herculano e o Liberalismo em Portugal – Os Problemas morais e culturais da instauração do regime”. Seguir a produção intelectual do jovem professor é, desta forma, extremamente atraente, uma vez que, apesar das referências ideológicas, nunca perdemos o extremo rigor no lidar com os acontecimentos e a consideração de uma rica dialética crítica, que recusa as explicações unívocas ou simplificadoras. Aliás, a perenidade da obra fica a dever-se a esse permanente viés crítico que tantas vezes corrige as naturais tentações simplificadoras. Dir-se-ia que a fidelidade ao mestre Herculano constitui uma marca que dá atualidade e coerência ao historiador e ao pensador. Quando lemos “O Caprichismo Polémico do Senhor António Sérgio” notamos, é certo, o espírito do tempo e a circunstância política, mas o tempo veio a corrigir a influência ideológica, de que Saraiva ao longo do tempo se soube libertar, como confessará no final da vida. É muito rica a lista dos temas que ocupam o cientista social e o pedagogo, cujo percurso é afetado pelas opções políticas – militância partidária na oposição, apoio à candidatura de Norton de Matos, proibição de ensinar no ensino oficial e prisão por motivos políticos.

 

TEMAS APAIXONANTES

Os temas estudados não são neutros. A Idade Média portuguesa até à crise social do século XIV, a importância de Fernão Lopes, a Inquisição em Portugal, Fernão Mendes Pinto ou a Sátira Picaresca da Ideologia Senhorial, Luís de Camões, a Ressaca do Renascimento, o “Dicionário Crítico da Algumas Ideias e Palavras Correntes” constituem reflexões ricas, nas quais se nota a preocupação pela prevalência de uma opção de independência e liberdade, nem sempre corretamente compreendidas. Impedido de ensinar em Portugal, exila-se em França no final dos anos cinquenta, integrando a equipa de Marcel Bataillon, e chega a preparar a ida para o Brasil, o que se torna impossível em virtude da ocorrência do golpe militar de 1964. Em 1966 retoma o estatuto de investigador em Paris, no CNRS, por proposta de Fernand Braudel, assistindo aos acontecimentos de maio de 1968, que merecem a sua análise, em muitos pontos se revelará premonitória. Quando obtém um lugar na Universidade de Amesterdão (1970) publica “Maio e a Crise da Civilização Burguesa”, que suscita acesa polémica. Regressado a Portugal em 1975, assume funções na Universidade Nova de Lisboa e na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, prosseguindo uma muito ativa intervenção literária: “Épica Medieval” (1979), “O Discurso Engenhoso – Estudos sobre Vieira e Outros Autores Barrocos”, “Filhos de Saturno – Escritos sobre o Tempo que Passa” (1980), “A Cultura em Portugal” (2 volumes) e “O Crepúsculo da Idade Média” (1988).

 

PENSAMENTO INDOMÁVEL

Fiel ao pensamento indomável, conheci pessoalmente António José Saraiva, quando escreveu e publicou “A Tertúlia Ocidental” (1990), obra de maturidade, de quem tão bem conhecia os homens de 1870, a ponto de poder escrever sobre eles um genial romance. E um dia disse-me que, sem demonstração histórica, era mais cinematográfico que tenha sido José Fontana a apresentar Oliveira Martins a Antero. Por outro lado, a chave da “Ilustre Casa” não era o colonialismo, mas a atração pelo desconhecido. E recordava «As Minas de Salomão», onde Gonçalo foi buscar motivo de inspiração. Ao contrário de Fradique, a geração coimbrã de Antero e dos seus acreditava numa outra relação entre a liberdade e a igualdade, diferente da romântica. A. J. Saraiva considerara em “As Ideias de E.Q.”, o fradiquismo como «uma desistência de agir sobre o meio e as condições sociais». Eça deparar-se-ia com a dificuldade de combater a mediocridade e a plutocracia. E ter-se-ia desinteressado. O próprio «esforçado Oliveira Martins» acabaria a cultivar a «flor da arte» ou outras flores. Seria uma evasão… Os anos passaram, o ensaísta continuou a estudar e a pensar, como inesgotável crítico. E em «A Tertúlia» recusou «uma súmula de clichés então reinantes» sobre a geração de 1870. O certo é que importaria dar uma especial atenção à afirmação de Eça no prefácio a «Azulejos» de Bernardo Pindela: «A arte é tudo, e tudo o mais é nada». O perigo da ilusão perturbava quem ainda acreditava na ação e na política. É certo que Eça dissera a Luís de Magalhães: «Não se deixe levar pelas teorias abomináveis do amigo Oliveira Martins sobre a sinceridade da emoção». Não poderia esquecer-se a fórmula «sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia». O paradoxo tinha como polos não apenas a ação e a indiferença, mas também a vontade e a arte. E Saraiva concluía: «Hoje as ideias de Eça de Queiroz (que não são exatamente as que lhe atribuímos em 1945) aparecem-nos principalmente como temas de arte, tal como na “Correspondência de Fradique Mendes” são pretextos para cartas».

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 23 a 29 de agosto de 2021

 

“O Homem que só Queria ser Tóssan” foi editado por João Paulo Cotrim (“Arranha Céus”, 2021). São três volumes um sobre a obra gráfica e dois sobre a produção escrita – “Lógica zoológica. Frutos e desfrutos. Animalia. Contos e Descontos” e “Versos côncavos e com versos”.

 

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O FARO DE UM CÃO

«Se o faro de cão / está mesmo no cão / o cão tem faro. // Se o faro é do cão / o cão é de Faro / o faro é do cão. // Mas se fareja e cheira / é de Albufeira. // E se tem olho o cão / e ladra a ladrão / o cão é de Olhão. // Se curva e vira / é de Espinhaço de Cão / ou de Tavira / ou até de Portimão. // Mas se ferra o cão… / não é algarvio, não!». Em boa hora escolhi como leitura de um fim de semana algarvio bem passado “O Homem que só Queria ser Tóssan”, editado por João Paulo Cotrim, na “Arranha Céus”, com o apoio do Município de Loulé, que me foi oferecido pelo meu amigo Vítor Aleixo. São três volumes imperdíveis, um sobre a obra gráfica e dois sobre a produção escrita – “Lógica zoológica. Frutos e desfrutos. Animalia. Contos e Descontos” e “Versos côncavos e com versos”. Conheci Tóssan, António Fernando dos Santos, em Albufeira nos anos sessenta e sempre me deleitei com o traço fino e irónico dos seus desenhos e a personalidade das suas personagens. Nascido em Vila Real de Santo António, foi nos seus amigos de Coimbra, como António Almeida Santos (cujos contos de “Rã no Pântano” ilustrou), que encontrei inesquecíveis recordações. As caricaturas dos estudantes eram pagas a 30 escudos por unidade ou com latas de quilo de fiambre. E lembramos as caricaturas de José Régio, Teixeira de Pascoaes, Paulo Quintela, Lins do Rego, Alves Redol, Bertold Brecht… Tivemos uma referência comum, o Dr. Joaquim Magalhães, com quem discreteava, caminhando na rua de Santo António em Faro, quando ia entregar a crónica para o “Diário de Notícias”. A memória de António Aleixo e o humor de Tóssan eram temas de conversa – para além da invocação de Antero de Quental, de Eça e desse grupo heroico…  Foram o professor do Liceu de Faro e o relojoeiro de Loulé José Rosa Madeira os primeiros a darem atenção ao poeta popular. O caso de António Aleixo impressionou desde cedo Tóssan. “O contacto diário com ‘o poeta-cauteleiro e antigo guardador de cabras’ (…) no Sanatório dos Covões, a partir de junho de 1943, colocou-o perante a descoberta impactante de uma literatura oral com laivos filosóficos e políticos que a todos surpreendia pela acutilância e alcance humanista”, diz Vasco Rosa. O “Auto do Curandeiro” resultou do encontro de Tóssan com Aleixo. É de Tóssan o mais célebre retrato de Aleixo, de 1943, que Manuel Viegas Guerreiro popularizou junto dos estudantes dos liceus.

 

UMA CORUJA DE CARICATURA

Houve um período em que teve uma função essencial nas relações culturais com o Brasil. O embaixador Alberto Costa e Silva não lhe poupa elogios sobre o tempo do Presidente JK: “Tóssan, grande e gordo, tinha cabelos abundantes e negros que formavam tufos nos lados, usava uns óculos enormes, que aumentavam a vivacidade do olhar e o faziam parecer uma coruja de caricatura”. No Palácio Foz deu vida após 1974 a um breviário da cultura democrática na editora “Terra Livre” e multiplicou ilustrações para as crianças e os jovens, colaborando, por exemplo, com Leonel Neves. Tóssan não se levava a sério: “gordão, bonacheirão, / satisfeito, rezingão. / Carregado de pecados, / viajado, / arreliado, / mal-disposto / malcriado…”.  O teatro apaixonou-o sempre, desde o Lethes e do TEUC. O desenho era o modo de pôr a gente em ação, daí o entusiasmo de crianças e adultos com as suas ilustrações. Mário Viegas levou à cena “Tótó” com um conjunto extraordinário de textos de Tóssan. Teatro e vida confundiam-se. “O teatro diminui a luz como quem desce as pálpebras aos poucos (…). Uma mala de senhora atirou-se de um camarote para a plateia. Todos se levantam. Todos se sentam. Todos comentam. Um tosse; tossem todos. (…). Mas mal abriu a cortina, o público ficou natureza-morta – apenas se ouvem os olhos dos espectadores a devorarem a cena…”.

  

ODE AO FUTEBOL

E o mais célebre dos poemas de Tóssan: “Retângulo verde, meio de sombra meio de sol / Vinte e dois em cuecas jogando futebol / Correndo, saltando, ziguezagueando / ao som dum apito / Um homem magrito, também em cuecas / E mais dois carecas com uma bandeira / De cá para lá, de lá para cá / Bola ao centro, bola fora. / Fora o árbitro! / E a multidão, lá do peão / Gritava, berrava, gesticulava / E a bola coitada, rolava no verde / Rolava no pé, de cabeça em cabeça / A bola não perde, um minuto sequer / Zumbindo no ar como um besoiro, / Toda redonda, toda bonita / Vestida de coiro. / O árbitro corre, o árbitro apita / O público grita / Gooooolllllooooo! / Bola nas redes / Laranjadas, pirolitos, / Asneiras, palavrões / Damas frenéticas, gordas esqueléticas / esganiçadas aos gritos. / Todos à uma, todos ao um / Ao árbitro roubam o apito / Entra a guarda, entra a polícia / Os cavalos a correr, os senhores a esconder / Uma cabeça aqui, um pé acolá / Ancas, coxas, pernas, pé, / Cabeças no chão, cabeças de cavalo, / Cavalos sem cabeça, com os pés no ar / Fez-se em montão multidão. / E uma dama excitada, que era casada / Com um marinheiro distraído, / No meio da bancada que estava à cunha, / Tirou-lhe um olho, com a própria unha! / À unha, à unha! / Ânimos ao alto! / E no fim, / perdeu-se o campeonato!”

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

LIVROS PARA FÉRIAS...

 

Como habitualmente, o Centro Nacional de Cultura escolhe vinte livros para as Férias de 2021. 


ROMANCE E CONTO

«Embora Eu Seja Um Velho Errante» – Mário Cláudio (D. Quixote)
«Águas Passadas» – João Tordo (Companhia das Letras)
«Volta ao Mundo em Vinte Dias e Meio» – Julieta Monginho (Porto Editora)
«Maremoto» – Djaimilia Pereira de Almeida (Relógio d’Água)
«Hífen» – Patrícia Portela (Caminho)
«Afastar-se» – Luísa Costa Gomes (D. Quixote)
«Devastação» – Eduardo Pitta (D. Quixote)
«Quarentena – Uma História de Amor» – José Gardeazabal (Companhia das Letras)


POESIA

«Sétimo Dia» – Daniel Faria (Assírio e Alvim)
«Voltar» – Luís Filipe Castro Mendes (Assírio e Alvim)
«A Noite Abre Meus Olhos» – José Tolentino Mendonça (Assírio e Alvim)
«Obra Completa» – Francisco Sá de Miranda (Assírio e Alvim)


MEMÓRIAS

«Autobiografia Não Autorizada» – Dulce Maria Cardoso (Tinta da China)
«Líbano, Labirinto» – Alexandra Lucas Coelho (Caminho)
«Diário da Peste – O Ano de 2020» – Gonçalo M. Tavares (Relógio d’Água)


ENSAIO

«Ver é Ser Visto» – Eduardo Lourenço (Gradiva)
«Jorge de Sena, Contemporâneo Capital» – Eduardo Lourenço (Gulbenkian), vol. X das Obras Completas
«História do Bailado em Portugal» – António Laginha (CTT)
«Tudo o que Eu Quero» – Helena de Freitas, Bruno Marchand (coord.) (Imprensa Nacional)


TRADUÇÕES

«Todos os Poemas» – Friedrich Hölderlin, tradução de João Barrento (Assírio e Alvim)


BOAS LEITURAS!

A VIDA DOS LIVROS

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   De 23 a 29 de novembro de 2020

 

Irene Vallejo, recentemente premiada com o Prémio Nacional de Ensaio de Espanha, graças ao livro O Infinito num Junco (Bertrand, 2020), oferece-nos uma reflexão fundamental sobre as origens e o destino do livro.

 

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OS LIVROS TÊM O SEU PRÓPRIO DESTINO

Falando de livros e de autores, não podemos esquecer o que Eduardo Lourenço nos diz sobre o nascimento da modernidade portuguesa. “Almeida Garrett e Herculano ‘refundaram’ Portugal porque, pela primeira vez, e de uma maneira mais radical do que acontecera nas raras mas fortes crises que pontuaram a nossa história de nação independente, o país esteve em sérios riscos de perecer. E de uma maneira que não afetaria apenas a sua expressão política, mas o seu todo como organismo histórico e cultural”. E que aconteceu? Portugal ficou em discussão na balança da Europa, depois das guerras napoleónicas. Os poetas românticos foram para o exílio, em nome da liberdade – e “Portugal e os Portugueses, pela primeira vez divididos ideologicamente – ao menos uma pequena minoria – começam a preocupar-se e a ocupar-se do destino de Portugal. Como se fossem já cidadãos e não meros súbditos. (…) Com o voto da Constituição de 1822 nasce o liberalismo em Portugal e pede-se ao rei que regresse para jurar a Constituição. A semente estava lançada…” Tratava-se de separar o Portugal velho do Portugal Novo. E os dois românticos, pensando o País em termos profanos, integram-no na História. Assim, insiste Eduardo Lourenço, “A História de Portugal de Alexandre Herculano não é uma entre outras, é a primeira digna desse nome escrita de dentro e segundo as mais rigorosas exigências da época. É já também, intrinsecamente, Portugal como história. O inacabado monumento ficou perfeito no seu inacabamento. É também uma leitura do nosso passado à luz do presente, um Portugal que, de armas na mão, se conquistou como liberdade. E é o passado dessa liberdade – quando na sua perspetiva mereceu esse nome – que ele exuma e exalta. Um passado julgado mesmo com severidade (…) antecipando a leitura dramática da geração seguinte. Miraculosamente, contudo, tenta preservar os dois Portugais que sob os seus olhos se digladiaram, conciliando liberalismo com cristianismo” (Portugal como Destino – Dramaturgia cultural portuguesa, 1998).

Não por acaso falamos de dois autores que influenciaram decisivamente o seu tempo pelo que escreveram. E hoje as suas obras são marcantes. Fizeram uma ligação entre uma cultura antiga e ancestral e o tempo presente. Mas a força da sua influência deveu-se à construção de uma cidadania livre – capaz de ligar as raízes antigas e a modernidade. Por isso, o ensaísta de Mitologia da Saudade salienta que a importância de Garrett e Herculano não se deverá a qualquer acomodação ou adaptação, mas à afirmação da sua visão da história e a uma exigência do seu individualismo ético. E nesse ponto, como o analista afirma, os dois mestres antecipam o que Antero de Quental dirá em As Causas da Decadência dos Povos Peninsulares. De facto, a geração do último quartel do século XIX vai completar a sementeira de ideias lançada pelos primeiros românticos, que sempre recusaram ser mestres-escola, antes preferindo ser desafiadores de ideias novas. Por isso, José-Augusto França analisou o Romantismo português como um fenómeno de conjunto, com múltiplas implicações, nunca confundível com uma ideologia circunstancial… E entende-se Herculano, tendo vivido o suficiente para poder ver a influência na geração que se lhe seguiu, dialogando com ela, sem cedências, com exata compreensão da força perene do individualismo ético, que os jovens de 1870 utilizariam para a afirmação de uma via democrática e social e de uma síntese entre a liberdade, as raízes históricas e a reorganização da sociedade.

 

A PAIXÃO DOS LIVROS…

Eduardo Lourenço como, antes dele António Sérgio, ressalvadas diferenças e confluências, insere-se nessa mesma genealogia. E não por acaso coloca Garrett e Herculano na fundação da sua estirpe intelectual. E podemos recordar nesta ligação o que o gramático latino relativamente obscuro, Terenciano, afirmou: “Habent sua fata libelli”, significando que os livros têm o seu próprio destino. Irene Vallejo, recentemente premiada com o Prémio Nacional de Ensaio de Espanha, graças ao livro O Infinito num Junco (Bertrand, 2020), interrogou a invenção dos livros no mundo antigo – lembrando que tudo começou na oralidade, desde a transmissão pelos Aedos das narrativas heroicas, como a Ilíada e a Odisseia… Não por acaso, faço a ligação entre as reflexões do nosso maior ensaísta e esta obra tão rica de pensamento. Longe de se tornarem esquecidos, o livro e a leitura assumem hoje uma importância indiscutível, pelo número de novos leitores e pela perceção de que, com vários suportes tecnológicos, a transmissão de narrativas tem a ver com a memória e a sua exigência como procura de sentido e como modo de superar o vazio de valores, de que fala Hermann Broch, num mundo de “sonâmbulos”. A pandemia, a distância, a prevenção da doença obrigam à compreensão de que temos de encontrar respostas para a indiferença, a separação e o medo.

A Biblioteca de Alexandria procurou reunir o conhecimento num mesmo lugar, acessível a quem pretendesse saber. A ideia original do Museu também é semelhante, pretendendo em homenagem às musas pôr em contacto o conhecimento e a experiência. Mas enquanto em Alexandria no século III a.C. tentava reunir-se a totalidade dos livros, o Imperado Qin Shi Huang Di ordenava que se queimassem todos os livros nos seus domínios. Como salientou Umberto Eco, o livro é uma tecnologia fundamental, mas não há um modelo de livro – já tivemos o rolo, o papiro, as placas de argila, os códices medievais até ao digital contemporâneo. Trata-se, no fundo, de preservar a palavra, E a evolução significa a procura incessante da melhor maneira de preservar as palavras. Estamos a falar de arquivos da memória e das palavras. E nesta extraordinária transmissão, temos além dos Aedos, as mulheres, as mães que desde a conceção da criança têm um papel decisivo na sua formação, através da oralidade.

 

A MEMÓRIA DE ASPÁSIA DE MILETO…

E não diz Irene Vallejo que Aspásia de Mileto foi quem escreveu muito provavelmente o mais célebre dos discursos de seu marido Péricles? E não podemos esquecer que o primeiro país que erradicou o analfabetismo foi a Noruega, por ter proibido o casamento de mulheres analfabetas, para que se não perdesse a leitura da Bíblia, necessária ao luteranismo, e a oralidade da comunicação familiar. Mas não estamos apenas no campo do sublime, uma vez que os livreiros foram ao longo dos tempos tantas vezes vítimas da sua própria coragem e do risco de vida, ao publicarem obras polémicas, ao abrigo da liberdade de pensamento e de expressão. Quantos não perderam a vida apenas para concretizarem a liberdade, a autonomia e a dignidade humana. Desde os versos de Homero à Biblioteca de Sarajevo, encontramos o essencial da história humana. A ficção e o ensaio andam paredes meias. Se Montaigne tem uma capacidade única de se dirigir ao leitor, de tu a tu, As Mil e Uma Noites são uma cadeia interminável de relatos que permitem entender a complexidade da vida e do género humano. Daí que O Infinito num Junco seja uma verdadeira arqueologia do saber e das ideias, cuja matéria-prima é feita de memória humana, em toda a sua complexidade. São as Humanidades que encontramos na sua vitalidade plena, quando vislumbramos a eternidade num fresco da Vila dos Papiros em Herculano.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CADA ROCA COM SEU FUSO...

 

A SURPRESA DE LOUISE GLÜCK


Quando Louise Glück (1943) soube que lhe tinha sido atribuído o Prémio Nobel 2020 mostrou-se muito surpreendida por se tratar de poesia e ainda por cima por ser uma escritora branca. Mas não havia razões para surpresa, não só pela sua atitude de compreensão permanente pelos mais legítimos combates pelo respeito da dignidade humana, mas também pelos temas que tem escolhido para a sua criação poética – nos quais a não indiferença marca sempre a busca de um elo entre as mais legítimas preocupações da arte e dos criadores. Pelo menos, ficamos com a certeza de que este será um caso em que o tempo se encarregará de demonstrar que o prémio Nobel da Literatura tem também grandes nomes a celebrizá-lo. “A necessidade de escrever é o desejo de seguir uma ideia. Para um escritor, pensar e escrever, como pensar e sentir são sinónimos” – eis o que nos diz a poeta. Mas também encontramos na sua escrita coerente e imprevisível a compreensão da incindibilidade entre a mente e os sentimentos: “O melhor / é não ter mente. Sentimentos / Oh, tenho-os / governam-me”. Os mitos clássicos são um dos seus temas preferidos. Importa compreender os valores permanentes. Ao tratar da guerra de Troia, pergunta-se se a guerra é um passatempo masculino, “um passatempo para fugir a questões espirituais profundas”.  A cada passo, Glück vê a história, real e mítica, como realidade contraditória, que é preciso encarar com sentido crítico, reflexão e sentimento. Tantas vezes as personagens do teatro grego não são pessoas, como Perséfone e Hades, mas aspetos do dilema e do conflito de qualquer ser humano. “Que farás quando chegar a tua vez em um campo com um deus?”… Há um permanente diálogo entre pessoas, como se a autora conversasse com cada um dos leitores. A simplicidade da linguagem, o humor, a aparente proximidade tornam a poeta uma grande referência. Neste tempo marcado pela pressa e não pela reflexão, mas também pelo medo e pela incerteza, Glück é uma marca positiva e necessária. Um jornalista de “El Pais” salientou como temas recorrentes da premiada; a traição, a mortalidade, o amor, o sentimento de perda. Eis um conjunto de questões que tornam a escritora um símbolo atualíssimo, para além das modas e das imitações… Como disse Adam Plankett, o mais extraordinário milagre de Louise Glück é a capacidade extraordinário de transformar água em sangue, não no sentido elementar, mas como sentimento humano – o mesmo que encontramos no combate entre Aquiles e Heitor e no título do livro de 1985 “The Triumph of Achilles”. Não há, contudo, livros traduzidos em português, há apenas algumas traduções esparsas. Recordamo-las aqui, à espera das edições que a autora tanto merece… 

Agostinho de Morais  

O Poder de Circe

Nunca transformei ninguém em porco.
Algumas pessoas são porcos; faço-os
parecerem-se a porcos.

Estou farta do vosso mundo
que permite que o exterior disfarce o interior.

Os teus homens não eram maus;
uma vida indisciplinada
fez-lhes isso. Como porcos,

sob o meu cuidado
e das minhas ajudantes,
tornaram-se mais dóceis.

Depois reverti o encanto,
mostrando-te a minha boa vontade
e o meu poder. Eu vi

que poderíamos ser aqui felizes,
como o são os homens e as mulheres
de exigências simples. Ao mesmo tempo,

previ a tua partida,
os teus homens, com a minha ajuda, sujeitando
o mar ruidoso e sobressaltado. Pensas

que algumas lágrimas me perturbam? Meu amigo,
toda a feiticeira tem
um coração pragmático; ninguém

vê o essencial que não possa
enfrentar os limites. Se apenas te quisesse ter
podia ter-te aprisionado.


*Poema publicado originalmente na coletânea
Meadowlands (1996), com o título “Circe’s Power”. Editado em Portugal na antologia Rosa do Mundo. 2001 Poemas Para o Futuro (2001), da Assírio & Alvim, numa tradução de José Alberto Oliveira.


Paisagem

Nos fins do outono uma rapariga deitou fogo
a um trigal. O outono

fora muito seco; o campo
ardeu como palha.

Depois não sobrou nada.
Se o atravessávamos, não víamos nada.

Nada havia para colher, para cheirar.
Os cavalos não compreendem –

Onde está o campo, parecem dizer.
Como tu ou eu a perguntar
onde está a nossa casa.

Ninguém sabe responder-lhes.
Não sobra nada;
resta-nos esperar, a bem do lavrador,
que o seguro pague.

É como perder um ano de vida.
Em que perderias um ano da tua vida?

Mais tarde regressas ao velho lugar –
só restam cinzas: negrume e vazio.

Pensas: como pude viver aqui?

Mas na altura era diferente,
mesmo no último verão. A terra agia
como se nada de mal pudesse acontecer-lhe.

Um único fósforo foi quanto bastou.
Mas no momento certo – teve de ser no momento certo.

O campo crestado, seco –
a morte já a postos
por assim dizer.


*Terceira parte do poema “Landscape”, de Averno (2006), traduzido por Rui Pires Cabral. Os versos foram publicados no n.º 12 da revista Telhados de Vidro, da editora Averno, maio de 2009

 

CRÓNICAS PLURICULTURAIS

 

30. PATERSON: ENTRE O TRIVIAL E A AUTOSSATISFAÇÃO POÉTICA

 

Paterson é motorista de autocarros e poeta.
Tem um trabalho que não dói, vida e afetos estáveis, uma domesticidade trivial.
A poesia é fundamental para Paterson, o autor, mas Paterson, a cidade, não é poética. Ele e a cidade de Paterson, New Jersey, nos Estados Unidos, partilham o mesmo nome.
Em casa tem livros de William Carlos Williams, entre os quais “Paterson”.

Ele e Laura amam-se e têm um buldogue inglês pacholas, ciumento e intruso.
A urbe que habitam é vulgar, trivial, apática, pouco cuidada.
Aparentemente não infunde poesia.
Mas a poesia está na rua e a rua na poesia. 
A poesia está em casa e em casa a poesia.
Em coisas triviais, como a rotina diária do chofer que a observa e vê passar pelo espelho retrovisor. Os versos dos poemas, sem rima e em prosa, são banais e modestamente poéticos, falando de caixas de fósforos, copos de cerveja, conversas de passadouro.

 

Em Poema de Amor, lê-se:

 

“Temos imensos fósforos em nossa casa. 
Mantemo-los sempre à mão.
   

Atualmente a nossa marca favorita é a Ohio Blue Tip (…)
Eles são excelentemente embalados, (…) com o texto em forma de megafone, (…) como que para dizer ainda mais alto ao mundo, “Eis o mais belo fósforo do mundo, (…) tão sóbrio e furioso e teimosamente pronto a explodir numa chama, acendendo, talvez, o cigarro da mulher que amas, pela primeira vez (…)”
.                                                      

 

Poema em que Laura figura como musa:      

 

“É isso que tu me deste, eu transformo-me no cigarro e tu no fósforo, ou eu no fósforo e tu no cigarro, resplandecendo em beijos que ardem em lume brando rumo ao paraíso”.  

 

Os poemas são minimais, frugais, despretensiosos, humildes e não eruditos, como a vida citadina, pessoal, social e espartana que vive e rodeia Paterson:

 

“Quando somos crianças aprendemos que existem três dimensões: altura, largura e profundidade.   Como uma caixa de sapatos. 


E mais tarde compreendemos que existe uma quarta dimensão: tempo.  Umm.
E há quem diga que podem ser cinco, seis, sete,…
Termino o trabalho, tomo uma cerveja no bar.
Olho para o copo e sinto-me contente”
.

Poemas de coisas concretas, materializando a matéria de que é feita a poesia:
“A água cai do céu singelo.      
Cai como cabelo, a cair dos ombros duma rapariga (…)”.    
“Estou em casa.     
Está agradável lá fora: quente.   
Sol na neve fria. 
Primeiro dia de primavera ou último de inverno”
.    
Poemas de pessoas em concreto, materializando o conteúdo de que é feita a poesia:
“Minha pequena abóbora,
às vezes gosto de pensar em outras raparigas,   
mas a verdade é     
se alguma vez me deixares 
arranco o meu coração
e nunca mais volto a pô-lo no lugar.   
Nunca existirá ninguém como tu. 
Que embaraçoso”
.      


Por que não publicar os poemas? Têm de ser publicados! Sugere e sentencia Laura.

Paterson diz que sim, num permanente adiar, não os divulgando, não querendo que os leiam, até ao dia em que Marvin, o buldogue, os mastiga e tritura: “O cão comeu-me o tpc, o trabalho de casa”. O que aceitou como um facto consumado, qual gesto de autossatisfação. Sem paixão? E perda de orgulho em si próprio, porque eram apenas palavras escritas na água? O protagonista nunca se assumiu como poeta, apenas como motorista.     


Paterson, filme do realizador japonês Jim Jarmusch, é um poema em prosa de aceitação da vida, onde pessoas boas, comuns, resignadas, cansadas, ensimesmadas, gabarolas, macambúzias e perdidas se confundem com a diversidade comum em uniformidade.


Onde a poesia é a sua imagem de marca por excelência, retratando e visando ultrapassar o trivial rumo a um equilíbrio de autossatisfação e de desejável felicidade, numa fusão de simplicidade e profundidade.   
E o nome de Laura, a amada de Paterson, é igual ao da amada de Petrarca…                                      

 

28.05.2019
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

LIVROS DE 2018

 

Como habitualmente o CNC escolhe os Livros do Ano, sempre esperados ansiosamente…

 

ROMANCE
«A Última Porta Antes da Noite» - António Lobo Antunes (D. Quixote).

«Princípio de Karenina» - Afonso Cruz (Companhia das Letras).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Ensina-me a Voar sobre os Telhados» - João Tordo (C. das Letras).
«O Invisível» - Rui Lage (Gradiva).
«Luanda, Lisboa, Paraíso) – Djaimilia Pereira de Almeida (C. das Letras).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«Sua Excelência, De Corpo Presente» - Pepetela (D. Quixote).
«Obra Completa» – I a III – Maria Judite de Carvalho (Minotauro).

 

POESIA
«Obra Poética – I» - António Ramos Rosa (Assírio e Alvim).

«Estranhezas» - Maria Teresa Horta (D. Quixote).

 

MEMÓRIAS
«Aperto Libro (Páginas do Diário- I – 1977-1990)» - Eugénio Lisboa (Opera Omnia).

 

ENSAIO
«O Algarve Económico Durante o Século XVI» - Joaquim Romero Magalhães (Sul, Sol, Sal).
«O Século dos Prodígios – A Ciência no Portugal da Expansão» - Onésimo Teotónio de Almeida (Quetzal).

 

TRADUÇÕES
«Berta Isla» - Javier Marias (Alfaguara).
«Aos Ombros de Gigantes» - Umberto Eco (Gradiva).
«Pensamentos» - Giacomo Leopardi (Edições do Saguão).
«Escolha Coletiva e Bem-Estar Social» - Amartya Sen (Almedina).
«Onde Estamos? Uma Outra Visão da História Humana» - Emmanuel Todd (Temas e Debates – Círculo de Leitores).

 

A todos desejamos um Bom Ano, com Saúde e boas leituras!
CNC

 

A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de setembro de 2018

 

Retábulo das Matérias - 1956-2013” (INCM, 2018) de Pedro Tamen, na coleção Plural, permite a revisitação da obra de um grande poeta, compreendendo a importância e o significado de um percurso ricamente singular.

 

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ARTE DA MEMÓRIA

 

Teria sido Simónides de Cós (séc. V, a. C.) o primeiro cultor da Arte da Memória. Ele disse ser preferível a arte de esquecer que a de lembrar. E hoje quando se fala tanto da memória informática na parafernália dos computadores, é bom voltar a esse entendimento, segundo o qual a sabedoria se faz sempre de lembrança e de esquecimento, para que não se confunda com ressentimento e favoreça a experiência e a aprendizagem. Por isso, ao sair do campo de concentração Joseph Rovan disse que esqueceria a cara dos carcereiros, mas lembraria sempre que importava combater a barbárie, pelo respeito e não pela vingança, pela dignidade e não pela violência. Memória Indescritível de Pedro Tamen (2000) ilustra bem esse cuidado especial com a memória, e essa relação paradoxal entre viver e reviver. A epígrafe de Sá de Miranda é significativa dessa contradição fecunda, que alimenta a existência. “Alma, que fica por fazer desde hoje / na vida mais, se a vã minha esperança, / que sempre sigo, que me sempre foge / já quanto a vista alcança, a não alcança”. E o poeta procura esclarecer essa relação necessariamente imperfeita e contraditória. De facto, não há memória que se complete a si mesma – ela será sempre, por isso, indescritível: “Deixar correr o tempo sem memória/ entre memoriais de tudo quanto houve/ valendo-me assim do que os outros lembram/ para nada lembrar”. É, no fundo e sempre, a complexa relação com o tempo, que tanto perturbava o bispo de Hipona, que está em causa - a tripla dimensão do presente, articulando o agora, o passado e o devir, numa observação atenta e inesperada. “Por sobre o ombro (dói!) lobrigo/ tantas confusas coisas, falo delas./.../o peso, o contrapeso, a palavra que digo. Sufoco o medo a medo, e olho a esteira/ remudo e quedo, sentado na cadeira”. Daí a invocação de Sá de Miranda, que nos remete ainda para o célebre poema: “Comigo me desavim, / Sou posto em todo perigo; / Não posso viver comigo / Nem posso fugir de mim”. Com a memória é também essa perplexidade que se manifesta, entre o alcançar e não alcançar o que a alma diz.

 

 

LUCIDEZ CRÍTICA

 

Com uma lucidez crítica premonitória, e ainda numa fase precoce da produção poética do autor, António Ramos Rosa afirmou: “Vejo na poesia de Pedro Tamen uma das mais sérias tentativas para dar à atividade poética aquele sentido do sagrado, sem o qual não se pode atingir a verdadeira dimensão interior. Violentamente dramático, quase sempre, este poeta restabelece a circulação entre o humano e o elementar infundindo à linguagem poética uma energia e expressividade que superam a mera agressividade do bizarro, tantas vezes esterilmente ofensiva em alguns poetas surrealistas” (in Poesia Liberdade Livre, Ulmeiro, 1968). E o certo é que o tempo veio a confirmar este carácter sagrado e dramático – e um modo especial de lidar com as palavras, sem esquecer a ironia, a dúvida, a incerteza e a compreensão da realidade através do seu avesso. É verdade que o tempo trouxe muitas mudanças, mas Ramos Rosa não se enganou na linha fundamental revelada já nessa altura pelo poeta. Estamos perante um percurso coerente e seguro, de quem sempre aliou a ação e a reflexão: “Formado em direito e solidão, / às escuras te busco enquanto a chuva brilha. / É verdade que olhas, é verdade que dizes. / Que todos temos medo e água pura” (como disse em Escrito de Memória, 1973).

 

 

PRESENÇA DA PALAVRA

 

Na relação com as palavras, importa lembrar que, além de poeta seguro e talentoso, com indiscutíveis provas dadas, Pedro Tamen é um tradutor excecional, com larguíssima experiência com notáveis resultados. Além das traduções de final de sessenta, sob o pseudónimo M. Rodrigues Martins, temos um rol notável, desde Tomás Kêmpis (com Isabel Bénard da Costa) até Gustave Flaubert, Marcel Proust, Georges Perec, Pascal Quignard, Javier Marias ou Michel Houellebecq. Homem de cultura, Pedro Tamen tem um percurso ligado ao que António Alçada Baptista designou como a “Aventura da Moraes”. Vindo da revista “Anteu – cadernos de cultura” (1954), passaria pelo jornal “Encontro” da JUC, onde seria chefe de redação (1955-1957), dirigiu o Centro Cultural de Cinema (CCC) e publicou o primeiro livro Poema para todos os dias (1956). Terminado o curso de Direito, é incorporado no Exército uma primeira vez (1957), mas o ano de 1958 vai significar uma mudança – que se prende aos sobressaltos causados pela candidatura presidencial do General Humberto Delgado, pelo memorando do Bispo do Porto a Salazar, que levaria o prelado ao exílio, e ao início do pontificado de João XXIII. António Alçada Baptista transforma a Livraria Morais da Rua da Assunção num centro de renovação política e religiosa. Pedro Tamen entrou como seu sócio, aos quais se juntou uma equipa constituída por João Bénard da Costa, Nuno Bragança, Luís de Sousa Costa, Helena e Alberto Vaz da Silva, E lança o Círculo da Poesia, com o inesquecível símbolo solar de José Escada, onde publica O Sangue, a Água e o Vinho. Anima as coleções Circulo do Humanismo Cristão e “O Tempo e o Modo” (que dará título à revista em 1963). Segundo António Alçada, havia a “poderosa força da inércia” e a “frágil força da mudança” e um grupo de jovens propunha-se agitar as águas no pensamento e na ação. Pedro Tamen formula o programa – simples e claro: “a ação começa na consciência. A consciência, pela ação, insere-se no tempo. Assim, a consciência atenta e virtuosa procurará o modo de influir no tempo. Por isso, se a consciência for atenta e virtuosa, assim será o tempo e o modo”. A Morais afirma-se como pioneira na reflexão dos grandes temas do Concílio Vaticano II e a revista concretiza-se em 29 de janeiro de 1963 – António Alçada Baptista era o proprietário e diretor, João Bénard da Costa, chefe de redação, Pedro Tamen, editor, além da participação ativa de Nuno Bragança, Alberto Vaz da Silva e Mário Murteira. Não era, porém, uma revista de católicos. Haveria de seguir os passos de Emmanuel Mounier, que fizera em 1932 da revista “Esprit” um lugar de abertura e diálogo com não católicos. Era preciso abrir espaços, havia outros católicos de um setor mais técnico, como Adérito Sedas Nunes e Alfredo de Sousa, mas havia também jovens estudantes da greve de 1962, como Jorge Sampaio, Jorge Santos, Manuel de Lucena e José Medeiros Ferreira, e havia ainda oposicionistas clássicos como Mário Soares e Francisco Salgado Zenha… Sobre a abertura aos não católicos, João Bénard recorda: “um de nós sugeriu que se rezasse uma Avé Maria para que o espírito nos iluminasse”. E a votação fez-se – cinco votos a favor, dois contra e a abertura foi decidida!

 

Como editor, como poeta, como escritor, como intelectual ativo, Pedro Tamen é uma personalidade das mais marcantes do nosso tempo. Os critérios que usou desde o “Círculo da Poesia” até à Gulbenkian, demonstram bem como pôde rodear-se dos melhores, num momento rico da nossa criação cultural. O seu talento foi um natural complemento da qualidade de escolha. Usando a expressão de Ruy Belo sobre a geração dos “vencidos do catolicismo”, a verdade é que estes, como os ancestrais de 1870, não foram vencidos no largo prazo, sendo símbolos vivos do que podemos designar como a “paixão crítica”. Quando foi inventada a expressão “vencidos da vida”, havia um misto de ironia e de revolta. Contra a ideia de fatalismo do insucesso ou do atraso, foi o sentido crítico que venceu nas duas gerações – a da “Vida Nova” e de “O Tempo e o Modo” com a dureza da denúncia e a aventura das propostas audaciosas.

 

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

VINTE LIVROS PARA FÉRIAS…

 

À semelhança de outros anos, escolhemos vinte livros que serão uma excelente oportunidade de leitura para este verão…

 

Revista «Colóquio – Letras» - Correspondência inédita de Alexandre O’Neill e Diálogo Edgar Morin e Eduardo Lourenço.
«Rimas» de Francisco Petrarca (tradução de Vasco Graça Moura), (Quetzal).
«Obras Pioneiras da Cultura Portuguesa» (diversos volumes) - coordenação Carlos Fiolhais e José Eduardo Franco (Circulo de Leitores)
«A Cidade Virtuosa» - Alfarrabi (tradução de Catarina Belo) (F. C. Gulbenkian).
«Obras Completas de Maria Judite de Carvalho» – vol. I «Tanta Gente Mariana» e «As Palavras Poupadas» (Minotauro).
«Antero – ou a Noite Intacta» (Gradiva)
«Estuário» - Lídia Jorge (D. Quixote).
«Obra Perfeitamente Incompleta» - José Sesinando (Tinta da China).
«Na Prática a Teoria é Outra» - Vítor Cunha Rego (D. Quixote).
«O Fiel Defunto» - Germano Almeida (Caminho).
«O Fogo Será a Tua Casa» - Nuno Camarneiro (D. Quixote)
«A Sociedade dos Sonhadores» - José Eduardo Agualusa (D. Quixote)
«Gente Séria» - Hugo Mezena (Planeta).
«Portugal no Golfo Pérsico – 500 Anos» (vários autores), (Biblioteca Nacional de Portugal).
«O Fundo da Gaveta» - Vasco Pulido Valente (D. Quixote).
«Memórias Secretas» - Mário Cláudio (D. Quixote).
«Um Amante no Porto» - Rita Ferro (D. Quixote).
«Em Minúsculas» - Herberto Helder (Porto Editora).
«Os Ricos» - Maria Filomena Mónica (Esfera dos Livros).
«Correspondência Eugénio de Andrade e Jorge de Sena, 1949-1978» (Guerra e Paz). 

 

BOAS LEITURAS!