Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

OS DEJECTOS DOS OUTROS

  
   © Raimo Bergroth | Dreamstime.com


Habituamo-nos a pensar que não conseguimos fazer aquilo que nunca fizemos, e aquilo que nos repugna fazer. Tratar dos outros quando isso envolve repugnância parece portanto uma tarefa impossível; e a repugnância parece um obstáculo inultrapassável. Há naturalmente pessoas que fazem esse serviço por nós, e a quem pagamos. E contenta-nos pensar que, em podendo, lhes podemos pagar para que nos seja poupado não o trabalho, como se pensa muitas vezes, mas justamente a nossa repugnância.

Em certos casos (e.g. crianças pequenas), lidar com os dejectos dos outros é comparativamente mais fácil. Sabemos que o fazemos para que as pessoas com quem temos de lidar se tornem autónomas, e deixem de precisar de quem remexa nelas. A verdadeira dificuldade só aparece em circunstâncias em que falta esta certeza, em especial quando sabemos que as coisas só vão piorar, e vão piorar cada vez mais.

Veja-se os casos em que pela primeira vez temos que tratar de uma pessoa muito velha ou muito doente, sem qualquer experiência, sem qualquer preparação, ou em qualquer emergência. Se nos tivessem dito antes o que haveríamos de vir a fazer teríamos fugido a sete pés. Estas descrições têm o condão de meter medo, e de tornar ainda mais difícil o que já de si é repugnante; mais tarde, se nos acontece ter de cumprir essa tarefa, encontramos frequentemente um alívio sombrio em impressionar os outros com histórias das nossas façanhas. Podemos desta maneira trocar o medo que sentimos por uma reputação imerecida de valentia.

E no entanto há uma espécie de coragem particular que só sobrevém em situações de ignorância e inépcia; a altura em que pela primeira vez, e sem grande alternativa, temos que fazer coisas de que nunca nos julgaríamos capazes. O melhor exemplo são as ocasiões em que os dejectos dos outros entram em contacto connosco. A alguns durante filmes violentos intriga o modo como uma peça de roupa em condições normais de limpeza que foi prolongamente ensopada em sangue poderá readquirir a sua pureza pristina. Não são apenas inquietações de dona de casa:  são a expressão do horror daquele primeiro momento incontrolado de contacto com os outros.

O primeiro momento, porém, não dura para sempre. Uma vez estragada a camisola, ou sujas as mãos, não há grande coisa a fazer. Nessas alturas a afeição pela camisola defunta e pelas nossas mãos incontaminadas atenua-se muito; percebemos que a nossa repugnância era apenas, como dizia um general nas suas memórias, uma certa ideia da repugnância. Podemos até vir a achar nisso alguma satisfação; será em parte a satisfação das coisas bem feitas, da fralda bem mudada e da retrete bem limpa; mas é sobretudo a satisfação de perceber que nos tornámos sem querer numa daquelas pessoas a quem costumamos pagar para que o nojo nos seja poupado.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia

OS TESOUROS DOS OUTROS

  


Os tesouros dos outros são sempre o nosso lixo; e os nossos dejectos têm um certo encanto. É verdade que uma revista ou um jornal que está a ser lido por alguém ao lado suscita entusiasmo. Mas mal conseguimos chegar à sua posse o entusiasmo desvanece-se como algodão doce: o título que prometia tanta informação limita-se a confirmar aquilo que já sabíamos; a fotografia que nunca tínhamos visto era apenas uma fotografia que não estavamos a ver bem.

A afeição que temos por nós inclui os nossos próprios dejectos. Duas peças de roupa suja absolutamente idênticas são tratadas de maneiras muito diferentes se soubermos que uma dela era nossa. A nossa sujidade será suja, mas é a nossa sujidade; e o nosso cheiro é nosso. Se é a proximidade connosco que nos move à indulgência para connosco, então a conclusão só pode ser a de que somos fundamentalmente diferentes das outras pessoas.

Isto explica que aquilo a que os outros prestam atenção, e sobretudo aquilo que os outros guardaram, raras vezes tenha interesse para nós. Tal não impede bem entendido que muitas vezes os outros tenham grande interesse para nós, e pelas mais variadas razões. O nosso interesse, no entanto, ou exclui como excentricidade aquilo que eles acumularam, ou faz do que eles acumularam uma corroboração daquilo que já sabíamos sobre eles. Os tesouros dos outros não nos surpreendem, e raras vezes nos afectam.

No espólio de uma pessoa que morreu não nos incomoda aquilo que achamos que qualquer pessoa deve guardar: as últimas vontades, as fotografias, os extractos do banco ou, em caso de inclinação, os poemas. Mas essa parte do espólio vêmo-la simplesmente como extensão da pessoa que tinha morrido. Incomoda-nos pelo contrário aquilo que nós nunca guardaríamos:  os parafusos, as agendas vazias, os bocados de madeira que imaginamos agora que o morto tivesse a intenção de ter colado a outros bocados de madeira que não imaginamos onde possam estar. A essas coisas chamamos lixo e, quando depende de nós, deitamo-las fora. Mas antes de as deitar fora perguntamos com rancor e perplexidade que espécie de pessoa as iria guardar.

Ao ver certo lixo de alguém podemos duvidar que se trate de uma pessoa. A diferença entre os tesouros da mulher que vive rodeada de sacos de plástico até ao tecto e os nossos próprios tesouros é para nós uma diferença quase biológica, como entre um tiranossauro e uma pomba, ou entre um literato e uma porteira. Em nossa opinião somos quase sempre literatos rodeados por tiranossauros; e raramente porteiras num mar de pombas. Os nossos tesouros têm para nós um grande encanto; imaginamos que possam vir a intrigar e até a fascinar quem venha depois remexer nas nossas gavetas. Os dos outros no melhor dos casos suscitam indiferença; e nos demais casos desconfiança e até repulsa.


Miguel Tamen
Escreve de acordo com a antiga ortografia