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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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PENSAR O NOSSO IMPENSADO…

  


Os escritos da prisão de Luandino Vieira acabam de ser reunidos em arquivo digital, com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian. Grande parte da obra ficcional do autor de “Luuanda” foi escrita durante os 12 anos em que esteve preso – de 1961 a 1964 em várias cadeias da cidade de Luanda, tendo sido enviado para o Tarrafal, em Cabo Verde, onde permaneceu até 1972, altura em que foi transferido para Lisboa, em regime de residência fixa, até 1974. São do período da prisão 17 cadernos com anotações diarísticas, correspondência, postais, desenhos, cancioneiros populares, esboços literários, textos em quimbundo, traduções e notas várias.  Em 2015, a editorial Caminho publicou em livro “Papéis da Prisão – Apontamentos, diários e correspondência” (1962-1970)” ainda com apoio da Gulbenkian. E agora, graças ao trabalho realizado sob a coordenação de Margarida Calafate Ribeiro e Roberto Vecchi, com a equipa do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, todo o acervo ficou acessível para consulta pública.


Foi-me dado reencontrar Luandino Vieira, retomando um antigo diálogo extraordinário, que se tem traduzido em admiração e amizade. E de novo falámos, em várias declinações, dos mundos da língua portuguesa. Língua portuguesa que apenas ganha sentido pleno se vista como pluralidade. E ambos nos demos, sem combinação prévia, a lembrar palavra por palavra o “Chiquinho” de Baltazar Lopes, o Caleijão, a importância e a riqueza dos crioulos, as incertezas, os debates no seio da revista “Claridade” sobre a importância simbólica do protagonista do romance fundador da moderna literatura de Cabo Verde. E esse encontro inesquecível ocorreu, num rasgo de felicidade, um dia apenas depois de termos iniciado ali mesmo a invocação de Eduardo Lourenço, vindo à baila o que Roberto Vecchi dissera no lançamento desse colóquio, que constituiu um aperitivo para a reflexão necessária sobre o ensaísta de “Do Colonialismo como Nosso Impensado” (Gradiva, 2014).


Quer no testemunho direto de Luandino Vieira, quer na releitura dos textos de Eduardo Lourenço, podemos encontrar, de modo objetivo, sem complexos, nem justificações retrospetivas anacrónicas, uma análise do presente e do futuro sobre um “impensado” que reclama uma leitura desapaixonada sobre quem somos na relação com a História. De facto, a raiz verdadeira de uma «estranha permanência e difusão do mito do nosso colonialismo ‘diferente dos outros’ reside na identidade substancial das situações metropolitana e colonial, ambas coloniais, a tal ponto que salvas certas manifestações tipicamente esclavagistas e cada vez mais incompatíveis com os tempos, com a melhor consciência do mundo, o colonizado da metrópole não acha muito estranha a situação do colonizado das “províncias”, nem a má consciência o apavora quando se comporta diante dele como no fundo o senhorito da Metrópole se comporta para com ele. A nossa idílica harmonia colonial, condimentada com epiderme exótica e alguma água benta, repousa sobre esta cinzenta identidade». E enquanto ingleses, franceses, holandeses e belgas foram colonialistas que se aceitaram como tais, nós (como os castelhanos) não sabemos o que isso é, “somos colonialistas como somos portugueses”. E assim há um “espantoso silêncio” a esconder a aventura colonial – “sob a indiferença dos trópicos e o esquecimento do mundo”.


É esse esquecimento que nos obriga a pensar que não fomos os únicos a deixarmo-nos esquecer dessa maneira. Eduardo Lourenço foi claro na explicitação de essenciais intuições sobre as nossas especificidades, já que “tudo isto está de acordo com a nossa maneira de estar no mundo”. E por isso mesmo o impensado (do salazarismo e do colonialismo) não pode ser visto de ânimo leve. E “só no dia em que de portas adentro descobrirmos o sentido do que nos aconteceu deveras e medirmos a nossa agora exata dimensão, a já visível ressaca será crise de identidade e reformulação de destino”.    


GOM

O MAIS JOVEM PÁRA-QUEDISTA DO MUNDO

 

 

 

Agora que Marcelo Rebelo de Sousa voltou a aproximar Angola e Portugal, pondo-nos nos braços uns dos outros, num daqueles kandandos apertados (que é como os caluandas chamam a um abraço amigo), veio-me à lembrança do luandense, que eu também sou, um episódio de sonho e inocência

 

 

Quando flutuam no céu não sei se parecem anjos se, longe e pequeninos, são mais alforrecas.

 

Em “O Dia Mais Longo”, invade-se a Normandia. Milhares de barcos tapam o mar, a multidão de soldados de infantaria chapinha na última onda da praia fugindo à metralha alemã. Entretanto, os pára-quedistas saltam atrás das linhas inimigas.

 

Recordo a aldeia de St. Mère Église. Os páras tinham os boches à espera. Vinham no ar e eram ceifados sem piedade. Um ficou preso no campanário da igrejinha. Fingiu-se morto e ficou pendurado, horas, os sinos a ensurdecer-lhe os ouvidos, vendo o morticínio dos camaradas. Episódio real, o pára sobreviveu no filme e na vida.

 

No filme mais fácil de assobiar de que os meus lábios se lembram, “A Ponte do Rio Kway”, saltam em território inimigo para sabotar a ponte que o prisioneiro Alec Guinness construiu para os japoneses. William Holden, o pára-quedista americano, salta com a alegre elasticidade moral yankee que o fez logo mais herói a meus olhos do que a sorumbática honradez do britânico Guinness.

 

Saí da matinée e, aos 7 anos, vi os primeiros páras saltar, num festival a que Luanda assistiu mal a guerra começou.

 

No ar, os velhos Nordatlas, chamados barrigas de jinguba, roncavam, preguiçosos. Abriram-se como torneiras e o azul celeste povoou-se de pontos negros caindo vertiginosos para a morte. De repente, nascia-lhes na cabeça uma salvadora e ampla cabeleira. Flutuavam, então, presos a esses alucinados lençóis de Deus.

 

Três amigos, 7 anos como eu, extasiaram. A imaginação exigiu-lhes igual cabeleira. Cortaram plásticos, novelos de fio grosso. Procuraram local propício: uma obra em construção. Subiram a um andar. No chão, dois montes da amarela areia do Bengo garantiam queda macia.

 

O resto é pura epopeia. Um amarrou ao pescoço o científico e improvisado pára-quedas. Os outros, em rígida continência, tributavam-lhe a coragem. Saltou.  O plástico reagiu com eficácia newtoniana e abriu-se. Numa imparável cadeia de efeitos, a corda esticou e, ai meu Deus, o pescoço do mais jovem boina verde do mundo viu-se apertado. Faltou-lhe o ar e os olhos (mania que os olhos têm) esbugalharam-se, aflitos, para o mundo. Tentava gritar roucos sons intraduzíveis.

 

Os amigos foram amigos. Correram escadas, saltaram andaimes, trovejando “tem calma! tem calma!”, “já aterras! já aterras!

 

Corriam desenfreados e pairava o herói em histérica majestade. Aterraram juntos: os dois maratonistas de andaimes esfolando-se no cimento, o atónito pára-quedista na areia dourada. Cinema puro: terminava com um fio de sangue, suor tropical e sem lágrimas a aventura militar de um trio empreendedor e aberto à experimentação científica.

 

Muito estremeceu depois o céu de Angola, mas já não com a valente inocência de uns principezinhos sem asas.

 

Manuel S. Fonseca