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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 17 a 23 de maio de 2021

 

“Portugal – Ser e Representação” de Miguel Real (Difel, 1998) constitui uma reflexão crucial, no conjunto de uma obra que atinge os quarenta anos de persistente labor intelectual.

 

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PERMANENTE INTERROGAÇÃO

Os quarenta anos de Escrita de Miguel Real correspondem a uma permanente interrogação sobre o tema dos mitos e da essência da cultura. Eis por que razão a sua obra tem de ser analisada a partir do seu sentido crítico e não apenas através de uma identificação simplificadora das glosas que tem desenvolvido, por exemplo, a partir de Teixeira de Pascoaes, Jorge Dias, António José Saraiva e Eduardo Lourenço. De facto, o elemento dominante encontrado pelo ensaísta no homem português de “ser o que não é”, leva-nos à compreensão de que a riqueza do pensamento de Miguel Real é a sua capacidade de pôr em causa os lugares comuns e de assumir a complexidade. Tal como refere José Gil, sobre o “ensaísmo trágico”, relativamente a Eduardo Lourenço, Miguel Real não segue os dois caminhos tradicionais do pensamento filosófico – ora partindo dos grandes conceitos, com o horizonte reconfortante e estável das sínteses, como em Kant e Hegel; ora exercendo a análise pura e direta da decomposição das noções. Miguel Real prefere os conceitos, encarados como “figuras simbólicas”, a partir da função ontológica do mito. Com efeito, aceita que há dois tipos de existência – a empírica e a mítica, mas é a segunda que estrutura a primeira e fá-la consistente. A mitificação do empírico conduz-nos ao primado do sentido crítico, não havendo confusão entre a invocação dos mitos, o seu efeito, e a respetiva aceitação. Eis por que são importantes os mitos que a sociedade produz, assumindo a dupla dimensão de integração e renovação. De facto, o mito evolui e adapta-se à realidade e, simultaneamente, contribui para fazer alterar a própria realidade. Não por acaso, M. Real faz da crítica literária o seu terreno de eleição, a fim de compreender melhor a capacidade criadora. É a busca da complexidade hermeneutica, ontológica e histórico-sociológica que o preocupa. O “imaginário português” é, assim, o campo de ação do analista, como fator de liberdade, de independência e de diversidade. Ao aventurar-se no lugar dos outros e no campo do ser o que não se é,  depara-se, tantas vezes, com uma menor compreensão daquilo que verdadeiramente põe em causa. Pode, assim, aplicar-se-lhe o que Eduardo Lourenço afirma em “Heterodoxia – I”: “o homem é livre de aceder a uma visão geral da vida através duma reflexão incondicionada, cuja essência consiste na possibilidade de recusar ou discutir toda a espécie de postulados”. Por isso a distância em relação à ideia de sistema, e a evidente preferência pelo método ensaístico, tal como preconizado por Sílvio Lima. E assim eis-nos perante a interrogação exigente sobre o modo como somos e como imaginaríamos ou deveríamos ser. Daí uma especial coerência em recusar os temas circunstanciais ou as ilusões da moralidade – o que se evidencia nas incursões romanescas, com evidente sucesso, em que a singularidade dialoga com a comunidade, sem pretensão de uma qualquer conclusão edificante.

 

QUALIDADES E DEFEITOS…

Portugal é visto com qualidades e defeitos, com avanços e recuos, com características próprias, as mais das vezes contraditórias: a Providência e o anti-clericalismo; a unidade e a diversidade; o conformismo e o inconformismo; o lirismo e o picaresco, a tragédia e a ilusão. Afinal, urge denunciar o “irrealismo prodigioso da imagem que os portugueses fazem de si mesmos”, como lemos no autor de “O Labirinto da Saudade”. Longe da placidez das explicações unívocas, encontramos no caminho da nossa História: os gestos traumáticos da independência nacional; a longa hesitação do Mestre de Avis; o desastre de Alfarrobeira; a tragédia do Infante Santo; a morte da esperança do Principe Perfeito; a loucura de D. Sebastião; a ambiguidade do Quinto Império; o efeito do Ouro do Brasil; a partida da Corte para o Brasil; a humilhação do Ultimato inglês; o colonialismo; a neutralidade colaborante do Estado Novo… Tudo se projeta na vida coletiva, na gestação e desenvolvimento dos mitos. “Os Lusíadas” são uma genial ficção, em que Camões segue os passos de Virgílio e põe-nos na linhagem de Eneias e dos heróis de Tróia. É uma ficção grandiosa que não esconde a excecionalidade de uma evolução dificilmente explicável de uma “existência crepuscular”. De facto, só a crítica, do mito e pelo mito, pode tentar encontrar uma chave para esse encontro com o destino difícil de explicar.

 

EUROPA E LUSOFONIA

Os mitos da Europa e da lusofonia obrigam, no fundo, à interrogação paradoxal sobre o velho continente e as relações ancestrais ambíguas que o tempo tem procurado resolver: depois de a Europa nos ter feito e de nós termos feito a Europa é tempo de assumir criticamente um sonho, apesar do desencantamento que resulta do confronto com a realidade. Afinal, Portugal e a Europa fazem-se mutuamente, designadamente através de uma relação ibérica inteiramente nova e absolutamente necessária… É de uma reconciliação connosco próprios que falamos, deixando de nos sentirmos marginais ou sós – com uma garantia de segurança e liberdade. De facto temos “Duas Europas”: uma, a nossa (em conjunto com a Espanha), castiça, do sul, arrastada pela má consciência de termos sido grandes; e a outra nórdica, avançada e acelerada… Já a “lusofonia” corresponderá a um espaço de língua, que não significa espaço de cultura unívoca. Tratar-se-á sempre de uma ligação de geometria variável, em que as complementaridades e as imperfeições serão muito mais importantes do que qualquer falso sucedâneo imperial. E Miguel Real diz-nos que, como nó central do imaginário português, o sebastianismo é um ativo cultural gerado pela consciência popular. Fernando Gil diz ser a alucinação um operador natural da evidência. O que obriga a que a crítica do mito se torne aguilhão de maior exigência futura. Prova póstuma de existência e desafio à lucidez. 

 

Guilherme d'Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

                                         

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXX - REPRESENTANDO O OFICIAL E O REAL


Nem sempre o número de países que cada potência colonial gerou é proporcional ao de falantes.  


Por exemplo, o francês tem menos falantes como língua materna ou segunda que o português, mas gerou quatro vezes mais países do que aqueles que têm o nosso idioma como oficial ou língua segunda, o que lhe dá maior projeção e prestígio nos fóruns e organizações internacionais permitindo-lhe, até hoje, ser a segunda língua oficial mais representativa a seguir ao inglês.   


Como consequência de um passado colonial ligado à França e à Bélgica, há entre 25 a 30 países que têm o francês como língua oficial. Além da França, Bélgica,  Luxemburgo, Suíça e Mónaco (na Europa), há mais de vinte países africanos, o Canadá (Quebeque), apesar de haver países árabes, colonizados pela França, que não adotaram o francês como língua oficial. 


Portugal, enquanto império colonial, defendeu a unidade administrativa e política das suas colónias, atendendo apenas à sua descontinuidade geográfica, o que se repercutiu no número de países gerado pela sua descolonização.  


Ao invés do processo de descolonização espanhol na América Latina, que originou uma pulverização nacionalista de vários países, o mesmo não sucedeu com o Brasil, apesar das tentativas no Rio Grande do Sul entre 1835 e 1845 e na então província do Grão-Pará, para bem da unidade brasileira, mas que do ponto de vista estratégico e pela frieza e natural força representativa dos números seria mais benéfico para a língua portuguesa. Não teríamos hoje, porém, um país com a dimensão continental e potencialidades que o Brasil tem.       


Há uma acentuada diferença entre o oficial e o real, daí resultando vantagens e desvantagens consoante o contexto, estratégia e perspetiva, com reflexos inerentes à representatividade linguística global dos vários idiomas.

02.04.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXIX - FONIAS “BOAS” E “MÁS”


Há teorias, tipo imperialista, que defendem haver línguas superiores, eleitas, mais perfeitas, coerentes e harmoniosas, baseadas na sua perfeição intrínseca, na superioridade de um povo, de uma raça, face às quais cedem as línguas inferiores e imperfeitas.   


O mesmo sucede para quem defende a teoria das línguas ricas e desenvolvidas, por confronto com as pobres e subdesenvolvidas.   


A ser assim, um país pobre, subdesenvolvido ou em vias de desenvolvimento, não falante de uma língua de eleição ou superior, deveria juntar-se ao grupo de línguas ricas e de países desenvolvidos.      


Sucede, porém, que apesar da maioria dos países africanos terem como língua oficial o francês e o inglês, nenhum deles consta do grupo dos países mais desenvolvidos e ricos, embora contribuam com os seus recursos naturais para o desenvolvimento e riqueza daqueles.      


Conclui-se, assim, que não é suficiente falar e ter como idioma oficial o inglês ou o francês para se chegar a desenvolvido e rico mais depressa. 


E aceitar que há fonias “boas” e “más” é não querer perceber a estratégia e dinâmica dos blocos, ou estar ao serviço das supostas “boas”, colocando as presumíveis “más” numa inaceitável posição de subalternidade e subserviência.  


Daí que quando se fala em anglofonia, francofonia ou lusofonia, o importante é o que tais conceitos encerram como definição de espaço linguístico.

 

26.03.21
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXVIII - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (XI)       


Não basta a língua portuguesa e a lusofonia serem de natureza transnacional e transcontinental, nem terem centenas de milhões de falantes, pois a sua força numa dimensão comunitária só será efetiva quando o português for um idioma de poder, representando países de reconhecida relevância política, cultural e económica, não excluídos em termos económicos, sociais, culturais, educacionais e de cidadania. 


Sem esquecer ser a CPLP a representação jurídica de uma organização internacional, interestadual e intergovernamental de base comunitária e não territorial, quadro institucional por excelência da lusofonia, que não esgota, sendo-lhe o idioma e o mundo lusófono anteriores e mais abrangentes, com fins predominantemente culturais em redor de uma língua comum (bloco linguístico) e subsidiariamente de cooperação variada, de vocação aberta e amiga do Direito Internacional (especialmente Público), de inclinação restrita na sua composição, com personalidade jurídica, autonomia administrativa e financeira, órgãos próprios, de insuficiente maturidade, sem obrigações verdadeiramente jurídicas para os seus membros, antes políticas, nem meios ou mecanismos judiciais de atuação e coação sobre os mesmos. 


Conclui-se que também a CPLP pode e deve dar uma resposta adequada e positiva ao futuro da língua portuguesa, da lusofonia e à sua defesa como valores permanentes, começando desde logo pela vontade política. O mesmo quanto ao IILP, um nado morto, até hoje.       


Mas essa presumível vontade permanente de valores permanentes não é permanente, podendo dividir-se ou multiplicar-se noutros idiomas ou tentar uniformizar-se na diversidade de um só, tal como um dia sucedeu com a língua dos gregos e romanos, podendo haver uma separação estrutural e lenta entre o português de Portugal, do Brasil e dos países africanos, ou a recriação de um espaço maior, diverso e predominantemente lusófono, quiçá iberófono, presumivelmente liderado pelo Brasil, país de escala continental, por maioria de razão se um dia uma potência dominante.   


Se o latim do império romano não perdurou, na sua pureza, até hoje, fragmentando-se em várias línguas, por que não com outras, como a portuguesa, formando uma família de línguas?

 

19.03.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício
 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXVII - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (X)


Quanto a críticas, ficou patente que uma das maiores que se nos oferece fazer à lusofonia e à CPLP é o culto de subalternização, tantas vezes difundido, voluntária ou inconscientemente, pelos próprios lusófonos, como que inerente a uma inevitabilidade e vergonha associadas ao seu pretenso estatuto secundário a nível mundial. Em tal contexto, a subalternação a que tem sido votada a língua portuguesa é um bom exemplo, pela negativa, sem fundamento e a necessitar de ser ultrapassado.


Além da inoperacionalidade prática do desativado e até hoje gorado IILP, dos problemas  infindáveis para a consensualização de um acordo ortográfico, aludiram-se outros exemplos, alguns da responsabilidade de cada um de nós, como uma espécie de fatalidade, crítica ou indiferença resignada a que tantos portugueses e outros lusófonos se agarram, a que não é alheia uma autoflagelação, miserabilismo e pessimismo de que se faz eco, entre nós, uma certa filosofia e imprensa portuguesa onde, no essencial, se faz o culto de tudo o que nos inferioriza, com um especial gosto de nos fazer sobressair no que há de pior na Europa ou a nível mundial, sem direito a sabermos o que temos de bom ou melhor. Isso prova, quanto a nós, portugueses, que não é só o “ferrete” dos antigos emigrantes analfabetos, incultos e pobres que deu causa à referida inferiorização, a começar pela língua. 


Há que erradicar este culto doentio e obsessivo de um discurso catastrofista, interessado em só nos diminuir, apetecendo concluir, a ser assim, que a termos tanto queixume, por maioria de razão o devem ter quase a totalidade dos outros, porque excluídos das sociedades 15% mais ricas do mundo, onde nos incluímos. 


Há que combater uma certa visão “egocêntrica negativa” de quem se acha pobre por se comparar com os mais ricos, de um povo que regressou ao ponto de partida após longas viagens, acabado o império e superada a depressão.


Com o fim do império e integração na UE, cabe também contrariar essa natureza pessimista de um certo caráter nacional, começando pelo língua e lusofonia, a enriquecer e crioulizar com novos termos e vocábulos, onde na música e artes plásticas em geral tal presença já é notória entre nós: Sara Tavares, Mariza, os Da Wiesel, Lura, Terrakota, Kalaf, Roberto Chichorro, Kiki Lima, entre outros. Quanto à literatura indicia-se ser o romance que mais se tem destacado na literatura lusófona. Sobretudo   de África, em que o espaço português tem funcionado como principal mercado, onde autores como Pepetela, Mia Couto, Germano Almeida, Agualusa e Ondjaki mantêm ligações e consequente consagração, enriquecimento e “dependência”, possibilitando uma relação de proximidade e de pertença lusófona. À semelhança do que acontece em antigas potências coloniais como a Inglaterra, França, Holanda e Espanha. 


Sinal evolutivo de que as arte e cultura atual dos países ex-colonizadores têm cada vez mais como protagonistas nomes oriundos das ex-colónias.    

 

12.03.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO


LXXVI - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (IX)


A criação da CPLP fez surgir expetativas nos países que a integram, causando um entusiasmo inicial, que ficou aquém do desejável, mesmo que se defenda que poderia e deveria dar um contributo valioso para o ensino, divulgação e valorização da língua portuguesa no espaço lusófono e no mundo, dado que que a língua e os laços históricos comuns, um mesmo sentimento de pertença e de afetos, geraram uma solidariedade que deveria ser difundida e partilhada.       


Apesar de ser uma organização proclamatória de objetivos e princípios algo abstratos, vagos e indefinidos, numa linguagem típica de documentos e declarações em tom oficioso tantas vezes, até agora, não concretizados nem regulamentados na prática, também é verdade que apesar da insatisfação gerada, é uma ideia ambiciosa, para concretizar.   


No plano multilateral, é de todo o interesse poder ser um instrumento diplomático, credível e operacional para os países que a compõem. Nada impede que não possa alargar as suas áreas de intervenção para além da língua e cultura em geral, caso da área económica. Não é esta, para já, a sua vocação prioritária. A descontinuidade geográfica, a dispersão dos seus membros por vários continentes, onde integrados em organizações regionais, a isso a condicionam, sendo a CPLP uma mais valia para que os Estados membros que a integram possam ganhar um poder acrescido e margem de manobra nas áreas regionais de que são parte.   


Quanto ao bloco lusófono e à CPLP serão, como amiúde já referimos, aquilo que no essencial quiser e vier a ser o Brasil, dos povos lusófonos atuais o portador preferencial de todas as caraterísticas de uma potência emergente a nível mundial, que se converterá num novo centro, após ter sido a sede da transferência do centro imperial de Lisboa para o Rio de Janeiro com a corte de D. João VI, alimentando de novo o sonho e a realidade, para alguns, de que aí se situa o futuro de Portugal, uma vez que este aí se projetou, ampliou, transformou e tem a sua condição e conclusão natural por excelência.   


Portugal, por seu lado, tem responsabilidades históricas para com os outros povos que falam a mesma língua, porque criou uma família, não lhe sendo legítimo abandonar ou inferiorizar algo que lhes é comum.

 

05.03.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXV - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (VIII)


Dessa língua, apesar de portuguesa, não são os portugueses os seus senhores e donos, antes ela senhora e dona de quem a fala.   


Compreensível que toda a comunidade lusófona, nomeadamente via CPLP, coopere e participe a nível multilateral na sua preservação, promoção e internacionalização, inclusive na afetação e gestão de recursos.   


Também as comunidades lusófonas no estrangeiro, ou culturalmente descendentes de lusófonos, ou filiadas culturalmente na lusofonia, são um capital cuja defesa e uso não podem ser deixados ao sabor de uma natural espontaneidade, baseada tão só em afetos e sentimentos, mesmo que valiosos. É necessário crer na convicção, poder e relevância social dos lusófonos, seus descendentes ou culturalmente filiados na lusofonia (mesmo que lusófilos), mobilizando-os na defesa de causas da língua portuguesa e da lusofonia, como ideia estratégica, para o exercício da cidadania plena e intervenção num mundo globalizado. O que poderia ser feito com o apoio de uma organização institucionalizada, do tipo CPLP, pese embora a sua natureza interestadual e intergovernamental. 


E apesar dessas comunidades não deverem ser esquecidas a nível da língua e da cultura, não pode ser sobretudo a partir delas que se deve promover a nossa língua no exterior, dado que sendo uma língua de futuro, de vanguarda e estratégica tem, por inerência, passaporte para todos os continentes.   


A par do idioma comum, a lusofonia pode e deve ser também uma das ideias e aposta estratégica de Portugal, demais países da CPLP e restante mundo lusófono.


O que propicia a venda de toda a espécie de bens culturais lusófonos e provenientes dos média. Que possibilita empregar excedentes de mão-de-obra causados pelo sistema de ensino, deslocalizando-os para onde necessários ao ensino da nossa língua, investigações, culturas afins, etc..         


Sem esquecer que há comunidades lusófonas e lusófilas espalhadas pelo mundo (incluindo as portuguesas) letradas, de elevado nível de vida e poder de decisão, que têm laços afetivos, mantêm visitas regulares, têm apetência por bens lusófonos, a começar pelos dos respetivos países, sejam alimentares, culturais, desportivos ou outros, corroborado pelo poder dos lobbies e oportunidades como a da atual presidência portuguesa da União Europeia, em plena pandemia, podendo incentivar ajudas (por que não, por exemplo, delineando estratégias europeias de auxílio no continente africano a nível da COVID 19?).     

 

26.02.2021     
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXIV - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (VII)


No campo jurídico a preservação, divulgação, promoção e internacionalização de todas as línguas como um bem jurídico comum da humanidade, por um lado e, por outro, da língua portuguesa como bem jurídico partilhado de todos os lusófonos, nunca inviabilizou uma pesquisa multiforme de vários projetos para uma língua universal, que falharam, mesmo após a criação da primeira língua artificial de vocação universal e de uma pretensa língua neutral.   


Estamos no tempo das línguas internacionais, de comunicação global, transitando-se da ideia de uma língua universal para a de uma internacional de comunicação global, dotada de um fim funcional e prático, que nem o esperanto ousou limitar ou ultrapassar, apesar de ser o exemplo mais bem conseguido de língua universal. 


O fim da segunda guerra mundial, foi sobretudo o triunfo doa anglófonos, da língua inglesa, porque os países dela saídos aconchegaram-se no abrigo da economia sobrevivente dos países falantes de inglês, em particular dos Estados Unidos da América, extensivo às nações do mundo ocidental que, por arrastamento, se aplicou às economias nipónica e asiática em geral. Os então países do bloco de leste ficaram fora deste espaço, caindo no de influência russa, que foi uma questão de tempo, como hoje sabemos.       


Prevalece a ideia de que os que detêm o poder impõem a sua língua, sejam conquistadores, colonizadores, vencedores ou administradores.   


Mas há que não esquecer que os conquistados, colonizados, perdedores e súbditos de outrora podem ser os conquistadores, colonizadores, vencedores e administradores de amanhã, como sucedeu após a intervenção americana na segunda grande guerra, dada a sua força económica e militar, veiculando a língua inglesa, do antigo colonizador europeu, seu ex-inimigo, nomeadamente aquando da independência. 


Também o futuro do nosso idioma será essencialmente decidido fora de Portugal, não só pelo potencial económico, cultural e demográfico reconhecidamente elevado de alguns falantes do seu núcleo duro (ainda que em países por desenvolver ou em desenvolvimento), mas também pela necessidade de uma política linguística dirigida a falantes não nativos que a difunda e promova para além do seu restrito espaço geolinguístico.

 

19.02.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXIII - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (VI)


Como exemplo paradigmático da importância da língua portuguesa na CPLP, concluímos que a fala comum é a força que lhe dá movimento e a sua imagem de marca, antepondo-se a componente linguística e cultural em geral a outras componentes, como a económica. 


Na União Europeia hipervaloriza-se a componente económica e monetária, secundarizando-se o problema linguístico. 


Nesta perspetiva, a sobrevivência e o futuro da língua portuguesa joga-se sobretudo na lusofonia, nomeadamente via CPLP, e não na UE, onde além da predominância do fator económico, se tem sobreposto, na prática, um regime de plurilinguismo restrito (unidade sem diversidade), progressivamente afastado de um critério formal fundado num regime de pluralismo linguístico geral baseado na igualdade linguística (diversidade sem unidade).   


Na prática, para a burocracia de Bruxelas, predomina o conceito economicista sobre os alegados custos de uma Europa multilingue, pelo que a UE tem, de facto, tido uma atitude linguística interna apologista de uma política progressivamente monolingue. 


Das atuais línguas oficiais da UE, o português é tido como uma língua dominada, em número de falantes e a seguir, por ordem decrescente, ao alemão, francês, italiano, espanhol, polaco e holandês, em paralelo com o checo e grego, mas acima do inglês, dado o Brexit e ser apenas idioma oficial, por agora, na Irlanda (embora paradoxalmente o inglês domine, uma vez falado pela potência mundial dominante).   


O mesmo não sucede tomando como referência o critério objetivo de difusão mundial das línguas, em que a portuguesa é uma língua dominante e em crescimento, essencialmente pelo contributo do Brasil e potencialidades dos países africanos lusófonos, nomeadamente de Angola e de Moçambique, o que deve ser visto sem complexos por Portugal, à semelhança do que sucedeu (e sucede) pela  globalização do inglês por influência dos Estados Unidos em relação à antiga potência colonizadora, pois serão os descendentes e colonizados da velha Europa imperial os futuros impérios linguísticos.   


Segundo Ivo de Castro, “A história da língua portuguesa pode ser resumida numa frase: falamos uma língua que nasceu fora do nosso território (de nós, portugueses) e cujo futuro será em larga medida decidido fora das nossas mãos. A língua portuguesa, numa visão temporal ampla, acha-se de passagem por Portugal”.    

 

12.02.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

LXXII - UMA SÍNTESE EVOLUTIVA (V)


A CPLP, organização internacional dotada de personalidade jurídica, veio institucionalizar a lusofonia, não provida de personalidade jurídica.


Partindo do pressuposto de que os países da CPLP, mesmo os mais desenvolvidos, como Portugal e o Brasil, são economias com desempenhos periféricos no atual contexto económico mundial (para além das assimetrias entre as partes), em que a cidadania lusófona pouco mais é que mera retórica; indicia-se que a sustentabilidade da lusofonia e da CPLP dependerão, no essencial e imediato, do relacionamento cultural, educacional, científico e tecnológico entre os países e o mundo lusófono que a partilham, cuja aproximação é facilitada no imediato por uma fala comum. 


Porquê não reforçar algo que nos une em permanência, através de um reforço da oralidade, som, luz, imagem, emoções e sentimentos, que uma mesma fala, no imediato, sem esforço e com naturalidade, comunica e transmite?   


Desde a criação de uma rede de formação e de docência CPLP, de livrarias lusófonas, de uma agência de notícias, de uma rede de rádio e de TV do conjunto de países e comunidades lusófonas dispersas pelo mundo, de feiras, congressos, simpósios, festivais, certames ou concursos, eventos paralelos na área do livro, do audiovisual (do CD ao DVD, passando por telenovelas, filmes, séries, documentários, reportagens ou séries televisivas), da música, da dança, do cinema, do teatro, da pintura, da escultura, da informática, da investigação científica, universitária, técnica, jurídica, ou outra, de toda a espécie de literatura, desde a técnica e científica, passando pelo jornalismo. Enveredar, a nível de ensino, pelo estudo de literatura de língua portuguesa ou lusófona, e não apenas angolana, brasileira, cabo-verdiana, moçambicana, portuguesa, etc., consoante o país em questão.


À semelhança do Prémio Camões, para a literatura lusófona, serem criados e partilhados outros prémios para as artes e ciências em geral. 


Investir no ensino, investigação, ciência, tecnologia e cultura em geral, numa perspetiva não estritamente linguística e imediatista, mas também porque é por aí que transitam e se produzem as ideias e o conhecimento.   


Essa aproximação direta e privilegiada, proporcionada pela língua, pode ser estendida ao desporto, do futebol ao atletismo, da natação a outras modalidades relacionadas com o mar que nos abraça, suas costas e praias, além de outros desportos, através da realização de torneios, taças e campeonatos. E porque não uns Jogos Luso-Afro-Asiático-Brasileiros, ou quejandos? 


Ou alguém duvida que iniciativas destas podem fazer mais pelo idioma e laços comuns do que as reuniões e cimeiras da CPLP até hoje feitas? 


Estas apostas para o futuro, passem ou não no quadro da CPLP, ou tão só por associações ou por sociedades civis lusófonas (consoante as situações), não impedem, no mínimo, que não possam ter contribuições políticas, incentivando-as, se e quando conveniente, ou necessário. 


Aliás, tais apostas devem ser feitas ou incentivadas pela CPLP enquanto bloco e não a nível bilateral, contrariando o que vem sucedendo e dando o exemplo, como referência, para as associações e sociedade civil em geral.  


05.02.2021
Joaquim Miguel de Morgado Patrício