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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ANTOLOGIA


RECORDAÇÕES MUSICAIS E UMA PRINCESA…
por Camilo Martins de Oliveira


Três edições discográficas recentes e um livro que recebi ainda com cheiro a tinta trazem-me à memória uma pessoa querida de mim, logo direi quem. Os discos são recordações de géneros musicais (e não só) diferentes (graças a Deus!): um, que me chegou de Londres, dá pelo título de "18th-century Portuguese Love Songs"; o segundo reúne várias gravações de música do séc. XVI sob o tema do "Elogio da Loucura" de Erasmus van Rotterdam; o terceiro é uma interessante e sentida achega ao fado, não só enquanto expressão musical, mas como tradição de sensibilidades culturais e seu encontro. Também já veremos como. A pessoa recordada por mim foi - e é-me - muito próxima: pelo seu nome (incompleto) de batismo era meu homónimo: Camilo Maria, 15º marquês de Sarolea, nascido em 1900 e falecido em 1979. Confiou-me um perturbante espólio de cartas e apontamentos vários, alguns dos quais se referem às obras ou temas que acima invoquei. Os textos respetivos foram redigidos em várias línguas: francês, alemão, algum inglês, castelhano, italiano e português. Por vezes recheados de citações e trechos em latim e grego. Confesso que, muitas vezes, me inspirei neles para o que, ao sabor do gosto de dizer ou da necessidade íntima de fazê-lo, eu mesmo escrevi autenticamente meu. Hesitei em rever essa herança interior, por receio ao espelho. E mais ainda receei manifestá-lo, porque o pudor deverá ser discreto. Mas nem sempre resistimos à tentação de comunicar o que temos por indizível. Ao escrever estas linhas (quantas serão?), move-me um como reconhecimento da brevidade da vida, e o assentimento de que há um coração dos homens cuja idade não sabemos, talvez por ser na eternidade. Numa carta escrita a uma princesa que não ouso identificar, Camilo Maria cita estes versos de "modinhas" portuguesas de fins de setecentos ou princípio de oitocentos, as tais de que William Beckford dizia que "os que nunca as escutaram nunca conhecerão a música mais voluptuosa e feiticeira que existiu desde os Sibaritas. "Foi por mim, foi pela sorte /minha desgraça tecida/sou, ó céus, bem desgraçada / nem morro nem tenho vida!" Ou ainda: "Amor vem manso, mansinho, / no coração habitar. / E depois de estar de dentro, quer só ele as regras dar... / Ai amor, amor, amor / vocês zombam com amor / e não é para zombar..." Vêm as citações na sequência de uma referência circunstancial: "Achei-te triste e fechada esta manhã, eu que te estava (e estou!) tão grato por me teres visitado. Talvez depois da tua partida, pela tarde, o dia entristeceu e se fechou. Mas rezo e penso que as nuvens tão baixas nos trazem para perto o céu... e que esta chuva miudinha vai encharcando os campos de frutas e flores, de sombras futuras e benignas, e de cores, tantas cores, que ainda não vemos! Tudo afinal se cria no escuro silencioso do mistério, nesta promessa ininteligível do Deus que esperamos... É bom contemplar, neste despojamento húmido e incolor do inverno, o Ser que é e está além das aparências. Na saudade, que se exprime sempre em português, estás comigo, dou-te a mão e olho. E o que vejo é uma paisagem que se despe com um misterioso pudor, lento e manso, verde, amarelo, castanho, cinzento, melancólico e frio... tão cheio da graça que emprenha a terra e nos torna sublimes de esperança! Bem hajas!" Nenhuma correspondência entre Sarolea e a Princesa (de …)  é datada. Tampouco achei nela indicação de lugar ou destino. Mesmo a simples alusão a efemérides ou a tempos circunstanciais não me permitem datá-la ou localizá-la. Como se tudo se situasse fora do tempo e do espaço. Ou como se a atualidade de coisas passadas reclamasse a constância de algum modo de ser... Talvez o ser tenha, para além do ser-se, uma consistência própria. Uma densidade ignota, entre a gravidade e a graça, na alma de cada ser humano. Somos, como diz Ortega y Gasset, que tanto gosto de citar, trânsfugas da natureza... Mas seremos também, acredito, trânsfugas de nós mesmos. Há um qualquer território da nossa alma, dessa parte de nós que inconscientemente, por vezes, definimos arriscando dizer "sou eu mas não sei explicar"... há, em cada um de nós, esse território ou terra de ninguém. Onde Jacob lutará com o anjo. Ou onde, talvez, infelizmente, já não haja luta alguma. A ideia da condição humana como batalha, o desgosto do mundo a par da insatisfação com o silêncio de Deus, tudo isto marca a pessoa e os escritos de Camilo Maria que tantas vezes usava uma tradução italiana dum seu apelido alemão, apresentando-se como Vecchio Borgo. Veremos, se for eu capaz de os traduzir, outros passos de textos em que ele quis dizer um percurso espiritual que, todavia, para quem o conheceu "em sociedade", era insuspeitado. Estava simplesmente no lado de lá, no lado do silêncio. Transcrevo, de uma das cartas (de amor?) que sou tentado a revelar, este trecho: "Alheio, mudo, indiferente,/ nos leva o tempo o momento,/ o dia, a hora, a vida toda.../ na roda desse vento acordamos e sabemos/ a manhã que já foi ou já se irá embora!/ Peregrinos hoje e sempre.../ Em qualquer hora!


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 25.01.13 neste blogue.

ANTOLOGIA

  


RECORDANDO MOZART
por Camilo Martins de Oliveira


A Maçonaria, como muitas outras instituições, também tem os seus mitos fundadores: neste caso, teria sido fundada por Hiram, o arquiteto do templo de Salomão, em Jerusalém. Ou, ainda, ascende à criação do mundo pelo próprio Grande Arquiteto, momento fixado, num calendário maçónico, em 4 mil anos antes de Cristo... Mais prosaicamente, as ordens que hoje incluímos na designação genérica de Maçonaria, resultam da transformação, na Inglaterra do princípio do século XVIII, de corporações de pedreiros, que até aí existiam para defesa de um ofício e da classe que o exercia, em centros de reflexão filosófica orientada pela procura do aperfeiçoamento dos indivíduos e das sociedades, em conformidade com valores próprios do Iluminismo: autonomia das pessoas e do pensamento, racionalismo, solidariedade e universalismo. A iniciação na nova ordem não obrigava à renúncia da fé religiosa de cada um, nem à contestação da tradição eclesial ou da legitimidade do poder político, desde que fosse aceite o preceito de que aqueles não eram nem podiam ser isentos de crítica racional... A esse sentido junta-se uma oportunidade de promoção social que - num ambiente político e convencional diferente, em que as próprias instituições eclesiásticas se deviam sujeitar ao poder do príncipe "iluminado" - servia também as ambições dos músicos (Haydn e Mozart, p. exemplo), por vezes cansados do tratamento que lhes impunham os seus senhores temporais, fossem estes príncipes da Igreja (como Colloredo) ou seculares (como os Esterhazy). A adesão à Maçonaria, tal como a submissão ao novo poder imperial, traduzem sobretudo o desejo, e a cautela, de se manterem na crista da onda, mais livres como homens e como artistas, e poderem privar com uma elite de patrocinadores que já não corresponde ao padrão do senhor feudal que os tratava como lacaios... Mas não duvidemos da sinceridade e do entusiasmo de Mozart quanto aos ideais de racionalidade, liberdade e fraternidade com que a Maçonaria lhe acena: testemunham-no vários passos da sua correspondência familiar. E, ainda, os hinos ou cânticos escritos para várias solenidades ou efemérides maçónicas. Há um sentimento de emancipação que se contrapõe ao "jugo" do arcebispo Colloredo de Salzburg e à lembrança das vezes em que este terá humilhado e magoado o genial compositor que tinha ao seu serviço. É evidente que o reconhecimento da primazia da razão implica o da liberdade da consciência e, colateralmente, o da igualdade entre os homens e a afirmação da fraternidade como valor universal. Num tempo em que o absolutismo monárquico se afirmava e as igrejas cristãs, na esteira das lutas da Reforma e Contra-Reforma eram ferozmente apologéticas e afirmavam a sua autoridade sobre as consciências, tal reclamação da autonomia intrínseca aos seres racionais era, para muitos, fascinante. Aliás, já a própria evolução das corporações "operárias" para círculos mais especulativos contou com a presença influente de membros do clero, da nobreza e da alta burguesia que se pretendiam ou desejavam "esclarecidos". As designações das lojas maçónicas, como veremos acompanhando Mozart, são proclamações dos ideais acima apontados. Mozart, como Haydn e Leopoldo Mozart, iniciam-se na Maçonaria da Viena do imperador José II, quando esses ideais se manifestam com mais força na capital do império austríaco, em ascensão e expansão rápidas, mas finalmente breve. Se aquando da iniciação destes músicos praticamente no último dos 5 anos do apogeu das lojas vienenses, estas eram oito, em breve não seriam mais de duas, na sequência da determinação "Freimaurerpatent" de José II, com data de 11 de dezembro de 1785. O "despotismo iluminado", pressentindo a crise de que a Revolução Francesa seria a referência máxima, impunha a sua ordem. Com o encerramento de lojas como sua causa e efeito, as deserções aumentam: o próprio Ignaz von Born, Grão-Mestre da loja "Zur wahrer Eintracht" (da verdadeira concórdia), em que Haydn fora iniciado a 11 de fevereiro de 1785 (Mozart, nessa altura já com o grau de mestre na loja "Die Woltätigkeit" - o benfazer - assistiu à cerimónia) abandonará a ordem em 21 de agosto de 1786. A sociedade dos livre-pensadores e bem-pensantes vienenses que, ao abrigo do suposto liberalismo secular e crítico do imperador, se reunia e reconhecia nas lojas maçónicas, resignou-se. Os éditos imperiais visavam as lojas "deístas", mais fiéis à tradição britânica "newtoniana", como a "Zur wahren Eintracht", que muitos suspeitavam, ou mesmo acusavam, de materialismo e ateísmo, pelo que os respetivos membros não seriam nem verdadeiros católicos nem austríacos de verdade… A loja de Mozart, "Zur Wohltätigkeit", apesar da desconfiança dos seus relativamente ao que consideravam a hegemonia e autoritarismo da Igreja Romana sobre o pensamento e as consciências, apoiou as reformas de José II, vincando bem a sua fidelidade aos princípios e valores de um catolicismo "iluminado". O próprio Mozart compôs, em janeiro de 1786, dois hinos maçónicos ("Ihr unsre neue Leiter" e "Zerfliesset heut"), em celebração do encerramento da "Zur Wohltätigkeit" e da abertura da "Zur neugekrönte Hoffnung", resultante da fusão, conforme à determinação imperial, da loja em que fora iniciado com a "Zur gekrönte Hoffnung". A primeira é um apelo, no momento do encerramento, à colaboração de todos na continuidade da construção do edifício maçónico: "Vós que sois os nossos novos mestres/sede agradecidos também pela vossa fidelidade/guiai-nos constantemente pela senda da virtude/para que cada um se alegre com a cadeia/que o une a seres melhores/e lhe adoça o cálice da vida..." A segunda é claramente um aplauso às reformas josefinas: "Entregai-vos hoje, caros irmãos,/a arroubos de contentamento e cânticos de alegria/ porque a benevolência de José/ de novo nos coroou, a nós cujo peito/ arde de uma tripla chama,/ e coroou a nossa esperança..." Ambos estes cânticos foram escritos para solista (tenor),coro masculino e órgão, em jeito de cantata. Curiosamente, a música sacra composta por Mozart para celebrações litúrgicas católicas é bastante mais rica do que a maçónica: 19 missas (incluindo a de Requiem), vésperas, litanias, motetes e outras peças, além de muitas sonatas de igreja para órgão. Também as suas cartas testemunham, em vários passos a sua fé religiosa e crença firme na imortalidade da alma: "Dizes que não devo esquecer-me de que tenho uma alma imortal - escreve ele, em 1781 ,ao pai - e eu, não só me lembro disso como nisso firmemente acredito. Se assim não fosse, que diferença haveria entre os homens e os animais?". Homem do seu tempo, Wolfgang Amadeus não só não deixou de interrogar a sua fé, como deixou que esta interrogasse o tempo e o modo do mundo em que viveu... E neste a Maçonaria inspirava-se também do que alguém apelidou de "religio duplex", encontrando-lhe a presumível fonte na coexistência, no antigo Egipto, de uma religião exotérica (para todos) e outra esotérica (só para alguns iniciados). "A Flauta Mágica", pelo seu enredo e desfecho, como pelo recurso à evocação de divindades egípcias, é disso exemplo. Mas confrontado com a "reforma" josefina - que visou coartar o secretismo e a influência conspiratória que vocacionam organizações de "iniciados" - Mozart não hesitou em apoiá-la, por inspiração da sua fé católica.

 

Camilo Martins de Oliveira

Obs: Reposição de texto publicado em 18.01.13 neste blogue.

QUANDO SE CANTAVA ÓPERA NO PALÁCIO DE QUELUZ

  


Refere-se novamente a alternância entre teatros históricos, teatros românticos e neo-românticos, cineteatros e teatros contemporâneos, bem como a sequência de crónicas e evocações de edifícios de vocação de espetáculo e edifícios onde também se produziram espetáculos, mesmo que para tal não fossem especificamente concebidos e construídos.


E assim, nessa alternância de temas, descrições e evocações, citamos hoje um Palácio que constitui referencial histórico e arquitetónico de primeiro plano, e onde se produziram espetáculos de envolvimento cénico e musical.


Trata-se do Palácio de Queluz, não na globalidade histórica e monumental inerente, mas na realização, também na perspetiva histórica, de espetáculos cénicos, designadamente de componente musical. E evocamos três eventos dignos de registo.


Em primeiro lugar, a criação de um edifício de madeira, projeto do arquiteto Inácio de Oliveira Bernardes, onde a partir de 1790 se realizaram espetáculos de musica e teatro. De início foi episódica a sua atividade, e D. Maria I manda destruir o edifício, para se erguer no local o Pavilhão onde se instalou depois de enviuvar. Posteriormente, e durante largos anos, aí se alojaram figuras oficiais, designadamente Chefes de Estado estrangeiros em visita oficial.


Mas havia uma tradição de espetáculo que remonta a anos anteriores. E nesse sentido, e tal como já tivemos ocasião de escrever, ficou uma história no mínimo insólita, a do rei D. Miguel a interpretar o papel de D. Quixote na ópera de António José da Silva, com musica atribuída a António Teixeira.


Sabemos bem que se trata da primeira peça de António José da Silva, datada de 1733 com o nome de “Vida do Grande D. Quixote de La Mancha e do Gordo Sancho Pança”. E podemos acrescentar: o que até nós chegou da produção musical de António Teixeira (1703-1755?), hoje mais ou menos esquecido, permite-nos avaliar o que deverá ter sido o espetáculo.


Isto apesar de João de Freitas Branco não garantir a autoria da musica de cena do “D. Quixote”: mas refere-a em outros textos da António José.  


Certo é que a grande maioria das peças de António José da Silva foi executada com suporte musical de António Teixeira. Pode pois aceitar-se que também dele terá sido a música do “D. Quixote”, o que garantiria a qualidade!

 

DUARTE IVO CRUZ

Obs: Reposição de texto publicado em 05.01.19 neste blogue.

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim: 


   Gabriel Fauré (1845-1924), compositor francês, foi mestre de capela na igreja da Madalena, em Paris. Gosto de o pensarsentir como um agnóstico de alma profundamente religiosa, e talvez seja no seu Requiem que ele assim tal qual mais se revela. Li algures - não me recordo de onde nem quando - a notícia de que essa obra foi executada pela primeira vez na própria igreja da Madalena, nas exéquias de um paroquiano. No final, o pároco perguntou a Fauré que peça era aquela, pois não a conhecia. O compositor respondeu que era uma missa de requiem sua, o que lhe valeu uma reprimenda e a injunção de não voltar a repeti-la ali, pois no acervo da Madalena já havia coisas dessas em número suficiente... Por outro lado, sei que a primeira intenção de Fauré foi comemorar a morte do pai, terminando a primeira versão da obra já para acompanhar a morte da mãe, dois anos mais tarde. Digo-te isto por sentir que a mansidão da música desta encomenda de almas se inspira muito na devoção de um amor filial. 


   É verdade que, como muito bem aponta Lionel Salter na apresentação do registo da peça na EMI (entre os Great Recordings of the Century), interpretada pela Orchestre de la Société des Concerts du Conservatoire e os Choeurs Elisabeth Brasseur, sob direção do belga André Cluytens, e com os solistas Victoria de los Angeles (soprano espanhola) e Dietrich Fischer Dieskau (barítono alemão), este Requiem se afasta muito dos modelos clássicos, de Mozart a Cherubini, da ênfase teatral do Requiem dramático de Verdi, em que o homem tremendo de terror fala, balbuciando, em morte eterna, e sobretudo da visão apocalíptica grandiosa de Berlioz, com as suas "fanfarras fulminantes"... O próprio Gabriel Fauré disse, em carta a um amigo, que o meu Requiem é tão meigo como eu. O meu Requiem... já alguém disse que ele não exprime o susto da morte, já lhe chamaram uma cantiga de embalar a morte. Mas é assim que sinto a morte: como feliz libertação, aspiração à felicidade do além, mais do que um trânsito doloroso. Compreendo Fauré:  todo ele, pensossinto eu, se exprime essencialmente nessa prece pelo descanso do coração na mão de Deus, na sua mão direita, como sonhou o nosso Antero, e que o breve Pie Jesu exprime: Pie Jesu, Domine, / dona eis requiem. / Pie Jesu, Domine, / dona eis requiem sempiternam. Escuto hoje esse sereno pedido de ternura («piedoso Jesus, Senhor, dá-lhes descanso, / misericordioso Jesus, Senhor, dá-lhes eterno descanso») na voz de Victoria de los Angeles e, já noutro registo, nas dos meninos do Choir of New College de Oxford, sob a direcção de Edward Higginbottom (ERATO). Na verdade, fui buscar ambos os discos, para me acompanharem na reflexão sobre a primeira das Cinq méditations sur la mort - autrement dit sur la vie, de François Cheng (Albin Michel, Paris, 2013). A morte, afinal, terá o mérito de – traduzo - nos levar a tomar consciência do que é, na essência, a noção de vida. Vem-nos ao espírito uma palavra que parece caracterizar essa noção: a palavra «devir». Sim, é isso a vida: algo que advém e que devém. Logo que vinda, entra em processo de devir. Sem devir, não haveria vida: a vida só é vida enquanto devir. A partir daí, compreendemos a importância do tempo. É no tempo que aquilo se passa. Ora, é precisamente a existência da morte que nos confere o tempo. Vida-tempo-morte: eis um todo indissociável, a não ser que seja morte-tempo-vida. Façamos os malabarismos que quisermos, não conseguiremos escapar a essas três entidades concomitantes e cúmplices, que determinam qualquer fenómeno vivo. Pois se o tempo nos parece um terrível devorador de vidas, ele é simultaneamente o seu grande fornecedor. Sujeitar-nos ao seu domínio é o preço que temos de pagar para entrar no processo do devir. Esse domínio manifesta-se por incessantes ciclos de nascimentos e de mortes; fixa a condição trágica do nosso destino, condição essa que também poderá ser fundação de uma certa grandeza. 


   
Nesse sentido, para o sino-francês François Cheng, refugiado em França aos vinte anos, sem saber uma palavra da língua local, hoje membro da Académie Française, poeta e pensador que respira uma espiritualidade alimentada de taoísmo e cristianismo (que descobriu, anos depois de chegar à Europa, em Assis, pelo exemplo da São Francisco), a morte corporal, que tanto nos angustia e assusta, pode revelar-se como a dimensão mais íntima, mais secreta, mais pessoal, da nossa existência. Pode ser esse núcleo de necessidade à volta do qual a vida se articula. Neste sentido, é mesmo revolucionário o Cântico das Criaturas de S. Francisco de Assis, que à morte corporal chama «nossa irmã». Abre-se-nos então uma mudança de perspetiva: em vez de encararmos a morte como um espantalho, a partir deste lado da vida, poderíamos encarar a vida a partir do outro lado, que é a nossa morte. Nessa postura, enquanto estivermos em vida, a nossa orientação e os nossos atos serão sempre impulsos para a vida. 


   
O mesmo Cheng conta, no seu opúsculo Assise - une rencontre inattendue (Albin Michel, Paris, 2014) como, em 1971, no momento em que se naturalizava francês, teve o privilégio de escolher um nome próprio: François. É certo que tal nome tem o condão de significar «francês», minha nova cidadania. Mas a razão mais determinante foi que, dez anos antes, em 1961, me tinha encontrado com o irmão universal que todo o Ocidente conhece, e no qual qualquer ser, mesmo vindo de longe, se pode reconhecer: Francisco de Assis. 


   
O autor deste encantador livrinho, Princesa de mim, que te aconselho a ler, fez questão em publicá-lo anexando-lhe o Laudato si´... esse canto franciscano das criaturas, que acaba assim: 


               Louvado sejas, meu Senhor,
               pela nossa irmã, a Morte corporal,
               a quem nenhum homem vivo pode escapar.
               Infelizes os que morrem
               em pecado mortal;
               felizes aqueles que ela surpreende
               a fazer a tua vontade,
               pois não lhes será ruim segunda morte.
 


               Louvai e bendizei o meu Senhor,
               dai-lhe graças
               e servi-o com toda a humildade!
 


   
Fiz esta tradução da versão francesa de François Cheng, por dele falarmos agora. Lembro-me todavia de já te ter enviado outra minha versão para português, essa diretamente feita do dialeto úmbrio original, em que foi composto o Laudes Creaturarum - ou Cantico di Frate Sole, assim chamado por virtude da 2ª estrofe (versos 5 a 9) - provavelmente em 1224-25, em São Damião (Assis), onde Cheng também se demorou, 736 anos depois. Para ilustrar o que se diz a seguir, deixo-te hoje, sem tradução, essa estância, como São Francisco a cantou: 


               Laudato sie, mi´Signore, cum tucte le tue creature,
               Spetialmente messor lo fratre sole,
               Lo qual´è iorno, et allumini noi per lui.
               Et ellu è bellu e radiante cum grande splendore:
               De te, Altissimo, porta significatione.
 


   
Pelos vistos, Princesa de mim, o nosso Sto. António não teria tido grande dificuldade em traduzir o seu português alfacinha para um dialeto italiano... Quiçá menos ainda em comungar nesse amor universal, divino, telúrico e humano. Já muitos autores observaram também como o texto franciscano «os laços que tece com a cultura latina, essa escrita ornamentada com rimas e assonâncias, poderosamente ritmadas pelo modelo dos salmos...» (Danielle Boillet) ou sublinharam, como Frédéric Ozanam (Les Poètes franciscains en Italie au treizième siècle, Paris 1882), o «valor humano e religioso deste texto». Traduzo: 


   O poema de São Francisco é bem curto, e todavia nele encontramos toda a sua alma: a sua fraterna amizade das criaturas; a caridade que guiava esse homem humilde e tímido através das querelas públicas; esse amor infinito que, depois de ter procurado Deus na natureza e de o ter servido na humanidade sofredora, a mais não aspirava do que a encontrar a morte. 
 


   
E é por este santo pobre de Deus que o intelectual, e também poeta, chinês, François Cheng verá em Jesus Cristo a Via (dao) do seu taoísmo de raízes milenares. A fechar esta carta, Princesa, traduzo-te um trecho significativo do Assise - une rencontre inattendue, onde, através dum chinês que escreve em francês também eu experimento um encontro meu que, louvado seja!, é sempre inesperado: 


   O que ele vê diz-lhe que, apesar de tudo, há sempre razão de louvor. E que outra coisa louvar, se não a própria Criação, com o esplendor do céu estrelado e a magnificência da terra fecunda, essa Criação que, certo dia, a partir do Nada, fez advir o Tudo? Ao louvar, vemos desenrolar-se todo o processo do advento, uma doação total, pela qual só podemos e devemos dizer o nosso reconhecimento. Ele reconhece o facto de que milagrosamente o Ser é, e de que graças a esse facto primeiro, ele mesmo, por minúsculo que seja, ele é. Ao louvar, mergulha totalmente no infinito, no Aberto. Sabe-se parte legítima de uma imensa aventura em devir, a da Vida, com tudo o que ela comporta de desafios e paixões, de dores e de alegrias, de corridas para o abismo e de elevação para a transcendência. Os sofrimentos de cada um e de todos só podem ser ultrapassados no abandono constante à marcha da Via, a única que não nos trairá. Por experiência, Francisco sabe que o que move a aventura da Vida não se limita à potência material, antes é o próprio amor. Por isso, depois de ter louvado as criaturas, cada uma enquanto dom único, ele distingue em particular o destino humano: «Louvado sejas tu, meu Senhor, pelos que perdoam por amor de ti; que suportam provações e doenças; felizes os que se mantêm em paz, pois que, por ti, ó Altíssimo, serão coroados!» 


   
Eis o que cantam os versos 23 a 26 do Laudes Creaturarum: 


               Laudato si´mi´Signore, per quelli ke perdonano per lo tuo amore
               Et sostengo infirmitate et tribulatione.
 


               Beati quelli ke´l sosterrano in pace,
               Ka da te, Altissimo, sirano incoronati.
 


   
Há muita vida, Princesa, para além da vanglória e do conforto, da desilusão e do pessimismo, de tudo o que afinal é esse individualismo tacanho que ensombra os nossos dias... 


Camilo Maria   

Camilo Martins de Oliveira


Obs: Reposição de texto publicado em 24.06.18 neste blogue.

NÃO POR RECEITA; MAS COMO PROCURA…


Haydn portrait by Ludwig Guttenbrunn      

  

Franz Joseph Haydn, quartetos e sinfonias, sonatas, "A Criação!" O equilíbrio em tudo, não por receita, mas como procura. Até nas admiráveis "Sete últimas palavras de Cristo na cruz"! Assim, ao som da música, nos balançamos entre a vida e a morte, o sofrimento e o perdão, entre o que julgamos saber e o que definitivamente ainda não conhecemos, entre a escassez e a plenitude. Tudo é graça neste concerto do ser que aspiramos com o estar que somos. Humano é desafiar o caos, o absurdo. Há sempre música na vida quando no silêncio encontramos a música inicial que nos harmoniza. Há sempre uma qualquer hora em que, em cada um de nós, se revela, tão intimamente que só cada um o pressente, esse mistério antigo que levou Antero a falar na "mão de Deus, na sua mão direita" ou Pessoa da "noite antiquíssima e idêntica...igual por dentro ao silêncio"... E fez o Eça exaltar os "regatos espertos" e outros assombros dos campos de Portugal que, ele mesmo, Zé Maria, de tão longe saboreou...


João Ameal não terá sido um historiador maior. Mas, há mais de meio século, deixou no prefácio à sua “História de Portugal” uma afirmação que nunca esqueci: "A História é a nossa vida antes de nós". Lembro-me de ter lido, por essa altura (teria já quinze anos?), da biblioteca da minha Mãe, um livro intitulado "Le Prestige du Passé", que me abriu os olhos para o facto de, no liceu, andar a estudar uma história que prestigiava o passado e enaltecia os nossos antepassados...


Todavia, hoje ainda, esse facto me não incomoda. Marcou um tempo da minha vida, tal como os movimentos culturais, com os seus conhecimentos científicos e técnicos, as suas ideologias e sistemas políticos e sociais, as suas religiões, como relação ao transcendente e aos outros (amigos e inimigos), marcaram o tempo das civilizações na história. Para mim, com maior ou menor prestígio, mais ou menos enaltecido, o passado que a investigação histórica nos vai revelando, desta ou daquela maneira, é sempre "a nossa vida antes de nós". Fui lendo com gosto as histórias da vida privada que, na senda de Georges Duby, tantos historiadores por esse mundo foram percorrendo; entre nós, ainda incipientemente e recentemente, com impulso de José Mattoso, Apesar da escassez de crónicas que registem o quotidiano com a ênfase que outras dão aos factos e feitos militares, políticos, científicos e religiosos, com a ajuda de alguns pormenores que vão surgindo, da arqueologia de sítios de habitação de objetos utensílios de uso comum, bem como das obras de arte e literárias ilustrativas de modos, hábitos e costumes, é possível ir imaginando e reconstruindo, com alguma fidelidade, atitudes e comportamentos, condições de vida, valores e organizações sociais.


Sobretudo, vamos entendendo como o engenho humano foi reagindo e resolvendo situações de abastança e de penúria, de saúde e de doença, na paz e na guerra, em períodos de fixação ou de migração. Desses afrontamentos se tiraram valores orientadores da vida de todos os dias, bem documentados no acervo dos nossos provérbios e ditados. Estes tantas vezes a merecerem o entendimento e a concordância de recém-chegados à nossa terra. Por vezes, através de pequenos ensaios monográficos, tenho-me aberto à perspetiva que junta o quotidiano à "Grande História": a narração de aventuras reais a partir de objetos representados numa pintura de outro tempo pode levar-nos à descoberta de mundos que um olhar, atento ao quotidiano que nos rodeia, encontra... Que prazer me deu ler, por exemplo, o "Vermeer´s Hat" de Timothy Brook!


A escrita e a leitura da História já não são, como na perspetiva romântica da afirmação das nacionalidades, uma exaltação do ego étnico, político ou popular, mitológico. É, sim, cada vez mais, a descoberta de um passado com feitos melhores e piores, com as suas contradições e as suas esperanças, a experiência dessa dialética da condição humana, onde nascem e se transmitem os valores em que nos reconhecemos. Também, o exercício contemporâneo da historiografia tem vindo a recorrer a fontes externas às propriamente nacionais, facultando-nos um entendimento de nós pelo olhar dos outros: Kirti Chauduri ou Sanjay Subramanyam e outros ajudam-nos a compreender melhor situações e figuras históricas que julgávamos só nossas, mas que são mais universais e complexas. Maiores por isso. A chegada dos portugueses à India, que já existia e se agitava quando o Gama lá aportou, surge também, vista do outro lado, como um tecido de encontros, conflitos e alianças, fidelidades e traições, enganos e desenganos, afrontamentos e aculturações que foram construindo a casa-mundo que habitamos. Goa não existe sem Portugal e a Índia. Portugal não é inteiro sem Goa. E quanto, quanto, da Índia só em Goa se revela? 

  

Camilo Martins de Oliveira 

A MÚSICA ENTRE MUITAS ROTAS

 

Num texto introdutório a "S. Francisco Xavier - A Rota do Oriente", produzido por Jordi Savall, escreveu Rui Vieira Néry: "Como reagiram todas essas diferentes culturas ao impacto da música ocidental, e como reagiram os músicos peninsulares aos sons desconhecidos das tradições locais? As vihuelas e as guitarras que iam a bordo estabeleceram contacto com outros instrumentos de corda dedilhada como o sarod indiano ou a biwa japonesa. Os tambores europeus encontraram-se com a ampla gama de virtuosísticas percussões africanas e a sofisticada tradição da tabla indiana. A flauta e a flauta doce, que podem ter acompanhado facilmente os marinheiros peninsulares, descobriram a atmosfera poética do shakuhachi japonês." Que resultou daqui?” - continua Néry: "Eis o desafio deste disco: seguir os passos de Francisco Xavier e visitar os diversos mundos musicais que ele atravessou: canto e polifonia sacra, canções e danças populares da Península, o reportório profano cosmopolita dos principais centros urbanos europeus, os sons da música africana, indiana, japonesa e chinesa, assim como o entrelaçamento musical de tudo isso, na base de um diálogo entre músicos de diferentes tradições culturais."


No seu "Tratado em que se contêm muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e esta província do Japão", o jesuíta Padre Luís Froes (séc.XVI) considera que a música japonesa "é a mais horrenda que se pode dar", mas também reconhece que "todos os nossos instrumentos lhes são insuaves e desgostosos"... Já o dominicano Frei Gaspar da Cruz, no seu "Tratado das cousas da China" que, publicado em Évora em 1570, é a primeira monografia sobre a China a ser impressa na Europa, escreve: "Os instrumentos que usam para tanger são umas violas como as nossas, ainda que não tão bem feitas, com as suas caravelhas para as temperarem, e há umas de feição de guitarras que são mais pequenas, e outras à feição de viola de arco que são menores. Usam também de doçairias e de rabecas, e de uma maneira de charamelas que quase arremedam as de nosso uso. Usam de uma maneira de cravos que têm muitas cordas de fio de latão; tangem-nos com as unhas que para isso criam; soam muito e fazem mui boa harmonia. Tangem muitas vezes muitos instrumentos juntos concertados em quatro vozes que fazem muito boa consonância." Um século depois da publicação do "Tratado" de Frei Gaspar, um jesuíta português, o Padre Tomás Pereira, era pessoa notável em Pequim, e muito estimado pelo imperador Kangxi. Um jesuíta belga, o Pe. Verbiest, escrevia em 1680: "Construímos um carrilhão numa torre da igreja e noutra colocámos um órgão fabricado com tubos de estanho conforme as regras da música. Todos querem visitá-lo e creio que, no Oriente inteiro, não há um de tamanha grandeza. Estas duas obras de arte, devidas à habilidade e engenho do Pe. Pereira, músico muito habilidoso, são de uma perfeição acabada"... E em 1735, o Pe. Du Halde escrevia: "A facilidade com que, por meio das notas, retemos uma ária logo à primeira audição, surpreendeu o falecido imperador Kangxi. No ano de 1679, mandou que viessem ao seu palácio os Padres Grimaldi e Pereira, para tocarem um órgão e um cravo que outrora lhe tinham oferecido. Saboreou as nossas árias da Europa e pareceu ter gosto nisso. Em seguida mandou que os seus músicos tocassem uma ária da China num dos seus instrumentos, e ele mesmo o tocou com muita graça. O Padre Pereira tomou nota da ária inteira enquanto os músicos a cantavam. Quando terminaram, o Padre repetiu-a sem falhar um tom, e como se há muito já conhecesse. O Imperador ficou muito surpreendido, custou-lhe a crer. Teceu grandes louvores à precisão, à beleza e à facilidade da música da Europa. Admirou sobretudo como o Padre em tão curto tempo aprendera uma ária que tanto lhe havia custado a ele e aos seus músicos..."


Ocorrem-me duas reflexões: A primeira sobre o modo como, em tempos passados, de guerra conquista, ganância e exploração, sempre surgiram os que procuraram transmitir a ciência que tinham e também conhecer a dos outros. Houve, para além do proselitismo religioso, o desejo de dialogar: teriam esses missionários dos séculos XVI e XVII menos razões para crer, apesar da fé inabalável nas verdades da sua própria religião, na superioridade da sua cultura? Não seria, afinal, a vocação de comunicar mais forte do que a aparente necessidade de impor modelos? E, perante as sevícias impostas pelos senhores da guerra e do dinheiro a gentes estranhas, quantos missionários protestaram em defesa do valor divino do humano... A segunda sobre o valor universal e redentor da música: o "Quarteto para o fim do tempo", que Messiaen compôs em 1940 num campo de prisioneiros de guerra, onde foi estreado em instrumentos de fortuna, e que é ainda hoje tocado por violino, clarinete, violoncelo e piano, é um exemplo superior da arte do compositor francês; ou o concerto para a mão esquerda, que Ravel escreveu para o pianista austríaco Wittgenstein que, amputado da mão direita, o tocou em Viena em 1931; ou Lorin Maazel a dirigir a New York Philarmonic na Coreia do Norte; ou o concerto dado em Ramalah pela orquestra Divan, composta por palestinianos e israelitas, dirigida por Daniel Barenboim... Em 1975, José António Abreu, um luso-descendente, jesuíta, famoso professor de música e economia, ensaiou com jovens de bairros da lata da Venezuela, o primeiro concerto de uma nova orquestra, numa garagem abandonada de Caracas. Hoje, 370 mil crianças pobres da Venezuela já aprendem, tocam e ensinam música... Entre elas, já nasceram "estrelas" como a Orquestra Simon Bolivar e o seu maestro Gustavo Dudamel, que atuam nas mais afamadas salas do mundo!


A fechar este passeio por memórias, lembro a minha emoção quando, há 20 anos(?), vivi o silêncio de inúmeros japoneses que, no Suntory Hall, em Tóquio, escutavam Maria João Pires tocar Mozart, ou sinto ainda Carlos Paredes em Nova Iorque e Osaka, Fernando Alvim com Mário Pacheco ou Zina Torre do Valle em Tokyo e Seul. E nunca esquecerei o Coro Gregoriano de Lisboa, com a saudosa maestrina Maria Helena Pires de Matos, em Kobe, no bairro mais devastado pelo terramoto de 1995, e também num cântico pela paz, com monges da ordem Shingon, no mosteiro budista de Tere Dera... Tal como sempre guardarei no coração esse ceguinho desconhecido que tangia uma guitarra, na rua do Salitre, debaixo das janelas das salas de aula do Colégio de Clenardo». 


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 10.08.2012 neste blogue.

EVOCAÇÃO DO MAESTRO MANUEL IVO CRUZ


Refiro aqui textos de relevância cultural indiscutível, escritos e publicados muito recentemente por Guilherme d’Oliveira Martins: o longo artigo intitulado precisamente “Manuel Ivo Cruz“, evocação do maestro Manuel Ivo Cruz, meu irmão, texto que abre a edição da revista “As Artes Entre as Letras” (nº 280 – 16 de dezembro de 2020) a ele dedicado, e “Um Diálogo de Relógios”, conto de Guilherme d’Oliveira Martins, este na publicação que assinala o Natal de 2020 do Centro Nacional de Cultura, entidade que tem uma parceria com a revista dirigida por Nassalete Miranda.


No ponto de vista pessoal, e independentemente da amizade que me liga a Guilherme d’Oliveira Martins, da admiração pela sua vasta obra e pela colaboração que mantenho no Centro Nacional de Cultura, importa aqui e agora assinalar a interessantíssima análise histórica, artística e também familiar que liga Manuel Ivo Cruz à grande tradição da música portuguesa, na continuidade da vida e obra do nosso pai, Ivo Cruz (1901-1985), maestro, compositor, diretor-fundador da Orquestra Filarmónica de Lisboa e Diretor do Conservatório Nacional de 1932 até à sua aposentação em 1968.


E registo com óbvio interesse, neste número evocativo da revista, o meu irmão Manuel, como individualidade, como maestro e homem de cultura, “referência na musicologia portuguesa contemporânea, tendo sido uma muito relevante presença como maestro e como estudioso e divulgador da história da música em Portugal” escreveu Guilherme d’Oliveira Martins: e mais acrescenta um longo e detalhado currículo de Manuel Ivo Cruz, destacando não só a atividade como maestro mas também como escritor de temas da história e da criação musical e a sua internacionalização designadamente na formação na Academia de Mozart na Universidade de Salzburgo e em numerosíssimos concertos, que dirigiu designadamente em Portugal, Espanha, Alemanha, França, Grécia, Brasil, EUA Rússia e Venezuela.


Em Portugal desempenhou também funções relevantes em entidades de formação e cultura musical, muitas delas evocadas no número especial da revista, com estudos e artigos de Guilherme d’Oliveira Martins, mas também do próprio homenageado (“Reflexões em Dó Maior”) e de Leonor Cruz (“Saudades”) e de Victor Dias, João Pereira Bastos, Carlos Guilherme, Elvira Racher, João Correia Alves, José Miguel Júdice, Sofia Lourenço, Teresa Cardoso de Meneses.


E ainda artigos e textos diversos em áreas diversas da revista, estes da autoria de Paulo Ferreira da Cunha, António José Borges, Vasco Rosa, Rui Baptista, André Ventura, Lurdes Neves, Maria Virgínia Monteiro, A. Campos Matos, Levi Guerra e ainda outras rubricas e temas culturais diversos.


Tudo isto, repita-se, numa revista dedicada ao meu irmão maestro Manuel Ivo Cruz, com fotografias na capa e em numerosos artigos, imagens que largamente ilustram a edição e confirmam o tema geral: “A memória não se apaga”, sublinha precisamente a capa.


Menos ainda se apaga num irmão!...


DUARTE IVO CRUZ 

A VIDA DOS LIVROS

De 30 de novembro a 6 de dezembro de 2020

Manuel Ivo Cruz (1935-2010), autor de “O Essencial sobre a Ópera em Portugal” (INCM, 2008), é uma referência na musicologia portuguesa contemporânea, tendo tido uma muito relevante presença como maestro e como estudioso e divulgador da história da música em Portugal. Com uma assinalável presença na cidade do Porto, tornou-se aí um fator de prestígio e de afirmação de uma cultura musical de qualidade, em coerência com a história muito rica da cidade nesse domínio.


UMA FAMÍLIA DE ARTISTAS

Originário de uma família na qual as Artes tiveram sempre um papel muito importante, Manuel Ivo Soares Cardoso Cruz era filho do maestro Ivo Cruz (1901-1985) e formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Recorde-se que o Pai do Maestro teve uma longa carreira no Conservatório Nacional, onde trabalhou com Vianna da Mota, a quem sucedeu na direção da instituição (1938-1971), tendo iniciado a sua formação musical em Lisboa com António Tomás Lima e Tomás Borba, tendo estudado depois em Munique Composição, Direção de Orquestra, Estética e História da Música. Fundou a Sociedade Coral Duarte Lobo, para a execução da música portuguesa pré-clássica, tendo ainda promovido as primeiras audições modernas de compositores como Carlos Seixas (1704-1742) e João de Sousa Carvalho (1745-1798). Entre vasta produção, inclusive literária na revista “Contemporânea” (1915-26) e “Música” (1924-25), sua obra é vasta, sendo porventura a mais conhecida a Sinfonia de Amadis, estreada em Lisboa em 1953. É assinalável a coleção bibliográfica que reuniu e se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal, na qual se inclui o maior conjunto conhecido de autógrafos de João Domingos Bomtempo (1775-1842). Lembra-se este percurso, uma vez que o filho, com grande autonomia de estilo e de cultura, desenvolveu o conhecimento e a divulgação da história da música portuguesa, em especial quanto à sua projeção internacional. É, aliás, fundamental a bibliografia que Manuel Ivo Cruz (filho) produziu e que é fundamental para o conhecimento da História da Música em Portugal – como “O Teatro Nacional de S. Carlos” (Lello, 1992) e “O Essencial sobre a Ópera em Portugal” (INCM. 2008). O conhecimento da ação de D. João V no desenvolvimento da cultura musical em Portugal, em especial com a fundação em 1713 da Escola de Música do Seminário da Patriarcal mereceu da parte do Maestro Manuel Ivo Cruz um interesse especial, que permite compreendermos melhor a importância da música na cultura portuguesa. Não esquecemos, por outro lado, no seu ambiente familiar, a obra que tem sido desenvolvida no domínio da História do Teatro pelo irmão do Maestro, Duarte Ivo Cruz, dirigente do Centro Nacional de Cultura, em tantos domínios complementar da de Manuel Ivo Cruz.   

UM TALENTO REVELADO DESDE CEDO
Com sólida formação musical, deu o seu primeiro concerto ainda estudante, com 19 anos, tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo-se diplomado com distinção, como maestro, na Academia de Mozart da Universidade de Salzburgo, na Áustria. Regressado a Lisboa, foi diretor musical e chefe da Orquestra Filarmónica de Lisboa, tendo dirigido programas de música na Radiotelevisão Portuguesa (RTP), colaborando nas temporadas de ópera do Teatro da Trindade, em Lisboa, e nos concertos das orquestras sinfónicas da então Emissora Nacional. Foi ainda maestro-diretor do Teatro Nacional de São Carlos, sendo o grande animador dos Cursos Internacionais da Costa do Estoril, e maestro convidado, com grande sucesso, em Espanha, Alemanha, França, Grécia, Itália, Brasil, Estados Unidos da América, Rússia e Venezuela. Foi presidente e diretor artístico do Círculo Portuense de Ópera, no Porto, e da Ópera de Câmara do Real Teatro de Queluz. Como grande pedagogo, foi estudioso e divulgador de obras musicais portuguesas menos conhecidas, fazendo, para isso, investigação na área da musicologia histórica portuguesa e apresentando um vasto reportório documentado e publicado pela EMI, Numérica, Tecla, Jorsom e Solemio. Em 1969, Manuel Ivo Cruz recebeu o Prémio Moreira e Sá do Orfeão Portuense e foi distinguido pela França com o título de Oficial de Mérito Cultural e Artístico, pelo Brasil com a Ordem do Rio Branco e em Portugal com o Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2004, nas comemorações do 50.º aniversário da carreira artística, com a Medalha Municipal de Mérito, grau ouro, entregue pela Câmara Municipal do Porto.

UMA REFERÊNCIA CULTURAL
O Maestro ministrou cursos na Universidade do Pará e em S. Paulo. Foi sócio honorário da Sociedade Brasileira de Musicologia, Sócio Correspondente da Academia de Letras e Música do Brasil, Membro do Conselho Português da Música, da Associação Portuguesa de Ciências Musicais, Fundador e Vice-Presidente da Conferénce Européenne de la Musique e do Observatoire Européen des Sciences, des Techniques et de l’Economie de la Musique.

Ao longo dos 50 anos de carreira, o Maestro Manuel Ivo Cruz  dirigiu a maior parte das obras que se inscrevem no reportório da música sinfónica. É porventura o Maestro português que mais óperas dirigiu, em quantidade e em diversidade. Também dirigiu primeiras audições de obras de compositores como António Victorino d’Almeida, Cláudio Carneyro, João Domingos Bomtempo, ou João Pedro Oliveira. A par da sua longa atividade artística, o Maestro Manuel Ivo Cruz cultivou uma rica bibliofilia musical que lhe permitiu reunir o acervo documental que serviu de base ao protocolo estabelecido entre o Maestro e o Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa. O destaque desse espólio refere-se a fontes relevantes do Património Musical Português dos finais do século XIX e primeira metade do Século XX, entre as quais se encontram a obra integral do compositor Ivo Cruz (Pai) e peças de Miguel Ângelo Pereira, Ciríaco de Cardoso e de João Arroyo entre outros. O espólio abrange ainda partituras de orquestra, óperas, música de câmara portuguesa, muitas delas dirigidas em primeira audição pelo próprio maestro. O acervo é ainda enriquecido por libretos dos séculos XVIII e XIX, gravuras, discos, coleções de postais e programas de concerto e ainda por inúmeros livros de referência.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA

 

ENNIO MORRICONE (1928-2020)

 

Perdemos uma enorme referência. Morricone, o grande músico, o grande maestro do rigor, deixou-nos em julho passado.  

Que todas as vozes saibam sempre dizer da sua grande capacidade para entender o essencial.

Um amigo seu fez saber que, quando Morricone escreveu a música para a missa em honra do Papa Francisco apresentada na Chiesa del Gesù em 2015, falou dela com profundo entusiasmo, mas quase certo de ser o momento de um ponto final na sua carreira.

Todavia, a sua luminosidade já tinha ultrapassado os limites, indo a mais pontos do universo com a sua extraordinária assinatura. 

Ennio Morricone e a Sétima Arte: a árvore e o musgo.

 

Captava em algumas linhas musicais a essência de um filme. 

Como não recordar Cinema Paraíso
 do cineasta italiano Giuseppe Tornatore, extraordinário marco da história do cinema? 


Com este filme e nele e por ele a música de Ennio, naquele  tudo existir, um aprender a amar. 

Filme e música para toda a vida. Atalho mais claro à via do coração. Da oração. 

Os beijos – cenas que o padre da vila mandava cortar - que nos fazem chorar e sorrir neste filme, esclarecidos pela música que tudo faz renascer em entendimento e doçura, chegam ao encontro dos nossos olhos, e, um nó, em nós, num mundo de sentimento especial e de saudade, leva a que a terra-argila, se deixe fechar na nossa mão. 

Com Ennio Morricone, a música envolveu-se por via do cinema na cultura a uma escala de universo erudito e popular.

Magia!


Teresa Bracinha Vieira

ALDIR BLANC: ATÉ SEMPRE!

 

A noite de 26 de abril foi a mais dolorosa desde o seu internamento com Covid 19.

 

E assim foi chegando o seu momento do tempo final do mundo. Que enfim, receba este nosso adeus, num até sempre!

 

Aldir, compositor, escritor, formado em Medicina, consagrou-se como “ourives do palavreado” por Dorival Caymmi. É também um dos compositores mais gravados por Elis Regina.

 

Em 2006 publicou o livro "Rua dos Artistas e transversais" pela chancela da Agir. Neste livro reuniram-se todas as suas inúmeras crónicas.

 

Aldir Blanc foi um homem à frente do seu tempo, corajoso, tudo denunciando, procurando ater-se ao significado da linguagem das ruas. Nunca viveu à sombra do medo de colocar o dedo nas feridas, mesmo sob condições muito adversas. Agora com as novas ameaças à democracia no país de Aldir Blanc, quando ele fez 70 anos disse, numa entrevista:

 

Eu vivo de adiantamentos, empréstimos e tal. Mas há muito canalha com casa em Búzios construída com os meus direitos de autor."

 

E noutra altura:

 

Quando uma escola de samba vence subvencionada pela mais antiga ditadura africana, o esquema todo está podre. Pode ser que a rua ajude, mas desconfio que não será fácil porque, como se viu recentemente em política, tudo é manipulado.

 

Amante do jazz, os seus favoritos, Duke Ellington, Coltrane e Mingus, nunca serão esquecidos nas horas de compor. Autor de tantos clássicos como “Mestre-sala dos Mares” ou “O Bêbado e o Equilibrista” Aldir está para sempre entre nós!

 

Aldir Blanc, verdadeiro património brasileiro, aos 73 anos, tem vivido num profundo e sabido desconforto material. Aldir, sempre tão lúcido, lembremos que o lema dele tem sido "colocar no mesmo barco realidade e poesia, rindo da própria agonia".

 

Lê-se que os seus amigos e familiares “fizeram uma vaquinha” para o ajudar nestes tempos de doença a fim de poder ser transferido para um outro hospital mais preparado para Covid 19. Solicitavam qualquer doação de qualquer quantia que junta a outra o pudessem ajudar.

 

Ouvi na TSF que há tempos, ele teria sublinhado deste modo, o facto de ter feito medicina e de se ter especializado em psiquiatria:

 

"Eu talvez tenha feito boa psiquiatria na época porque eu era, antes, músico, percussionista e letrista".

 

E se não como explicar a letra “Resposta ao Tempo” de Aldir Blanc?

 

"Resposta ao Tempo"

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito, calado
Ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar

E eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que eu perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
E eu desperto
E o tempo se rói com inveja
De mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

 

“Resposta ao tempo”, um clássico, nunca não parou de atrair grandes vozes, como Milton NascimentoLeila PinheiroSimone e Fafá de Belém.

 

E eis um mundo que muitos conhecem:

Um mundo mesmo

 

Cristovão Bastos / Chico Buarque / Paulo César Pinheiro /
Paulinho da Viola / Abel Silva / Elton Medeiros

 

Edu Lobo ou Paulinho da Viola atrevo-me a dizer, que todos em força de espírito pediriam aos deuses que o apelo fosse até à sua cama de hospital e a canção fosse

Me Dá A Penúltima

Eu gosto quando alvorece
Porque parece que está anoitecendo
E gost quando anoitece,que só vendo
Porque penso que alvorece
E então parece que eu pude
Mais uma vez,outra noite,
Reviver a juventude (…)

 

 

Aldir, que contigo também aprendi o quanto sempre estive atraída por um ponto distante, íman à Bossa Nova também no Canecão.

Teresa Bracinha Vieira