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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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ALDIR BLANC: ATÉ SEMPRE!

 

A noite de 26 de abril foi a mais dolorosa desde o seu internamento com Covid 19.

 

E assim foi chegando o seu momento do tempo final do mundo. Que enfim, receba este nosso adeus, num até sempre!

 

Aldir, compositor, escritor, formado em Medicina, consagrou-se como “ourives do palavreado” por Dorival Caymmi. É também um dos compositores mais gravados por Elis Regina.

 

Em 2006 publicou o livro "Rua dos Artistas e transversais" pela chancela da Agir. Neste livro reuniram-se todas as suas inúmeras crónicas.

 

Aldir Blanc foi um homem à frente do seu tempo, corajoso, tudo denunciando, procurando ater-se ao significado da linguagem das ruas. Nunca viveu à sombra do medo de colocar o dedo nas feridas, mesmo sob condições muito adversas. Agora com as novas ameaças à democracia no país de Aldir Blanc, quando ele fez 70 anos disse, numa entrevista:

 

Eu vivo de adiantamentos, empréstimos e tal. Mas há muito canalha com casa em Búzios construída com os meus direitos de autor."

 

E noutra altura:

 

Quando uma escola de samba vence subvencionada pela mais antiga ditadura africana, o esquema todo está podre. Pode ser que a rua ajude, mas desconfio que não será fácil porque, como se viu recentemente em política, tudo é manipulado.

 

Amante do jazz, os seus favoritos, Duke Ellington, Coltrane e Mingus, nunca serão esquecidos nas horas de compor. Autor de tantos clássicos como “Mestre-sala dos Mares” ou “O Bêbado e o Equilibrista” Aldir está para sempre entre nós!

 

Aldir Blanc, verdadeiro património brasileiro, aos 73 anos, tem vivido num profundo e sabido desconforto material. Aldir, sempre tão lúcido, lembremos que o lema dele tem sido "colocar no mesmo barco realidade e poesia, rindo da própria agonia".

 

Lê-se que os seus amigos e familiares “fizeram uma vaquinha” para o ajudar nestes tempos de doença a fim de poder ser transferido para um outro hospital mais preparado para Covid 19. Solicitavam qualquer doação de qualquer quantia que junta a outra o pudessem ajudar.

 

Ouvi na TSF que há tempos, ele teria sublinhado deste modo, o facto de ter feito medicina e de se ter especializado em psiquiatria:

 

"Eu talvez tenha feito boa psiquiatria na época porque eu era, antes, músico, percussionista e letrista".

 

E se não como explicar a letra “Resposta ao Tempo” de Aldir Blanc?

 

"Resposta ao Tempo"

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito, calado
Ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar

E eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que eu perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
E eu desperto
E o tempo se rói com inveja
De mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

 

“Resposta ao tempo”, um clássico, nunca não parou de atrair grandes vozes, como Milton NascimentoLeila PinheiroSimone e Fafá de Belém.

 

E eis um mundo que muitos conhecem:

Um mundo mesmo

 

Cristovão Bastos / Chico Buarque / Paulo César Pinheiro /
Paulinho da Viola / Abel Silva / Elton Medeiros

 

Edu Lobo ou Paulinho da Viola atrevo-me a dizer, que todos em força de espírito pediriam aos deuses que o apelo fosse até à sua cama de hospital e a canção fosse

Me Dá A Penúltima

Eu gosto quando alvorece
Porque parece que está anoitecendo
E gost quando anoitece,que só vendo
Porque penso que alvorece
E então parece que eu pude
Mais uma vez,outra noite,
Reviver a juventude (…)

 

 

Aldir, que contigo também aprendi o quanto sempre estive atraída por um ponto distante, íman à Bossa Nova também no Canecão.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há mulheres cuja voz é perturbadora e profunda como o tempo.

 

Tentávamos seguir o poder que nos sonhos nos tinha sido conferido pela música celta. Música também de Portugal, da Escócia, da Galiza, da Irlanda, música igualmente improvisada por trovadores; música que utiliza flautas e harpas e pianos e as línguas locais nas letras das músicas.

 

Sem que compreendêssemos porquê, sabíamos que iriamos encontrar por entre aquela escuridão, o predestinar da voz de Loreena McKennitt.

 

Era Primavera fria e no céu daquela noite só uma brecha de lua se deixava desvendar.

 

Seguíamos pelas ruas desertas procurando ouvir o rumo da voz desejada.

 

Os nossos olhos diziam a surpresa do nada no que era o tudo daquela noite sem sombras.

 

Todavia, caminhávamos, caminhávamos sem supor que a bússola dos nossos passos nos levaria a um largo imenso alumiado por lanternas suspensas das árvores.

 

De repente, no centro do ar de uma clareira, ao piano, uma mulher dona de magia, cuja voz de tão bela, de tão perturbadora, de tão profunda, nos seduzia, enquanto nós, agora abraçados, nos recordávamos termos dito um ao outro antes das trevas:

 

Till you come to me 

 

 
Teresa Bracinha Vieira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O blogue do CNC entendeu que e reedição da carta que segue anexa à presente - e foi escrita há uns anos, e por ele publicada a 2 de agosto de 2015, quando eu, feito heterónimo, redigia correspondência de um tio meu para outra Princesa, isto é, uma Princesa dele  -  poderia ser um complemento de leitura a uma crónica do Professor Anselmo Borges, publicada, no Diário de Notícias e no mesmo blogue, a 12 e 13 do corrente, intitulada A Pena de Morte e o Inferno.  

                                                               

   Acontece que deparei com os textos que acima refiro, em certo dia desta semana (2ª de novembro de 2019) que me dera umas horas para escutar o oratório The Dream of Gerontius, de Edward Elgar, magnífica peça musical composta para um texto escrito pelo cardeal John Henry Newman, lá para finais do século XIX. O registo de que disponho deve-se, além dos três solistas (a mezzo Catherine Wyn-Rogers, o tenor Andrew Staples e o barítono Thomas Hampson), ao Staatsopernchor Berlin e ao RIAS Kammerchor, todos com a Staatskapelle Berlin, sob a direção de Daniel Barenboim. Não sei porquê - o que, aliás, me sucede com frequência -, talvez pela força da música, penseissenti a peça inteira e todos os momentos em que me envolveu, como uma e poderosa mensagem, a dizer que o valor divino do humano nos leva a celebrar a nossa vida como inesgotável oportunidade de renovação, como contínuo convite a uma conversão que sempre nos surge a ser destino nosso.

 

   Por isso mesmo há tantas maneiras de afirmá-lo e, todavia, o que diz o japonês Kenzaburo Oe, o anglo católico cardeal Newman, o tio meu heterónimo e o douto filósofo Anselmo Borges me parece indivisível na sua própria simplicidade: a vida humana, ela própria, é a quintessência da sua dignidade que se consubstancia nessa mesma vida. Nos escritos vários que nestes meus textos vou referindo ou citando, a consideração da vida humana pressupõe sempre pensarsentir que, independentemente das fraquezas e faltas de cada um, do maior ou menor poder coercivo de qualquer circunstância, a dignidade divina dessa mesma vida lhe é inata e inalienável. No Sonho de Gerôncio, ela própria é colocada já numa circunstância post mortem, em que a sua alma canta a conversão final - a pura, misericordiosa graça - como destino finalmente cumprido. Deixo-te o original inglês da lírica de Newman, acompanhado de tradução minha, feita para esta carta, apenas com alguma preocupação com encontrar palavras que nos ajudassem a meditar na nossa língua... Talvez por me ter lembrado de que me ditar poderia querer significar dizer-me, a mim mesmo, as palavras que iluminam.

 

   O sonho de Gerôncio é uma experiência onírica às portas da morte, uma vida que se redescobre na outra margem da corrente de Caronte - como se morrer fosse acordar de novo e nenhuma outra esperança ou simples expectativa pudesse ter sentido, além do cumprimento da promessa inicial da vida como destino. Atentar contra uma vida humana, seja como for, é apenas soberba loucura. Qualquer vida está recolhida no segredo de Deus.

 

   A abrir a parte segunda do oratório, a alma de Gerôncio canta:   

 

I went to sleep and now I am refreshed,
A strange refreshment : for I feel in me 
An inexpressive lightness, and a sense
Of freedom, as I were at length myself
And never had been before. How still it is!
I hear no more the busy beat of time,
No, nor my fluttering breath, nor struggling pulse;
Nor does one moment differ from the next
This silence pours a solitariness
Into the very essence of my soul;
And the deep rest, so soothing and so sweet, 
Hath something too of sternness and of pain.

 
Another marvel: someone has me fast 
Within his ample palm; 
A uniform
And gentle pressure tells me I am not
Selfmoving, but borne forward on my way.
And hark! I hear a singing ; yet in sooth
I cannot of that music rightly say  
Whether I hear, or touch, or taste the tones.                         
Oh, what a heart subdoing melody!

 

Fui dormir, dormi, e fiquei fresco,
Com bem estranha frescura: pois então me senti
Tão indizivelmente leve e livre  
Que nem de me cuidar soía,

Como dantes. Mágico silêncio este!
Já não ouço o reincidente bater do tempo,
Nem o meu respirar vibrante  e agitado pulso;
Já nenhum momento é diferente do próximo.
Este silêncio derrama soledade
Na quintessência da minha alma.
E a repouso tão carinhoso e doce
Não falta severidade e pena.


Maravilha nova: alguém me agasalha

Na palma da sua mão;
Uma pressão
Uniforme e gentil diz-me que não vim por mim
Mas que, a caminho, me trouxeram para     aqui.
Escutai bem! Ouço cantar; mas, na verdade,
De tal música ao certo não sei dizer 
Se a ouço, toco ou provo os tons.
É só melodia que subjuga o coração!

 

   Tal como, tantas vezes, no decurso desta vida, nos vemos perdidos, assim talvez seja ao descobrirmo-nos do lado de lá. Mas algo nos dirá que não chegámos ali por nossa auto moção, e que uma qualquer música, inaudita ainda, nos encherá e guiará o coração.

 

Camilo Maria

                

PS.- Queres então abrir o texto que partilho?

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

  Minha Princesa de mim:

 

    Já que tanto gostei de escutar obras do londrino Richard Jones, morto em 1744, sem data de nascimento conhecida, nem muito mais da sua vida, fui ao meu precioso The New Grove Dictionary of Music and Musicians, em vinte grossos (e pesados) volumes, editado em 1980 pela Macmillan, Londres, onde encontrei, na página 702 do nono volume, o artigo referente ao "nosso" compositor, redigido por Stoddard Lincoln, que confirma saber-se apenas que Jones terá nascido por finais do século XVII: All that is known of his life is that he succeeded Stefano Carbonelli as the leader of the orchestra at Drury Lane about 1730, and that he was succeeded in turn by one of his pupils, Michael Festing, and by Richard Clarke. An announcement of his death is found in the Daily Advertiser of 20 January 1744.

 

   Aprendi um pouco mais sobre o compositor, através de comentários à sua obra, dos quais ressalto o trecho que agora para ti traduzo, ao pensarsentir como pode um artista, seja ele um misfit ou desadaptado, soberanamente entender a sua (e nossa) herança cultural e, depois, dizer-nos muito mais do que os nossos ouvidos tenham escutado ou os nossos olhos enxergado:

 

   É evidente para quem examinar a sua música para violino que ele terá sido um excelentíssimo executante desse instrumento. Cheia de duplas pausas, largos intervalos, padrões de cruzamentos de cordas e ornamentações florais, está escrita num idioma técnico extremamente avançado para o seu tempo. Igual carácter violinístico se encontra na sua música para cravo, e com frequência temos a impressão de estar a tocar uma transcrição de qualquer concerto grosso de Corelli ou Vivaldi pelos acentuados contrastes que implica a diferenciação entre "solo" e "tutti". Apesar do estilo de Jones ser essencialmente italiano, é extraordinário pela sua originalidade. A música é ritmicamente vigorosa, são ricas as harmonias e largas as melodias, caracterizadas por cadências inesperadas e frequentes mudanças de rumo...

 

   Em 1757, treze anos após a morte de Richard Jones, nascia Lady Georgiana Spencer, numa família a que também, mais tarde, e noutro século, pertenceriam, quer Winston Churchill, quer Diana Spencer, ou Lady Di, princesa de Gales. Georgiana tornar-se-ia, pelo casamento com o 5º do título, Duquesa de Devonshire, e, por suas paixões - amorosas e outras - uma figura emblemática do século XVIII inglês. Aconselho-te, Princesa de mim, a sua biografia por Amanda Foreman, publicada pela Harper Collins, Londres, em 1998, que me ajudou a familiarizar-me com a Inglaterra aristocrática, cultural e política do tempo. Mas, para nada te esconder, confesso que me cativou sobretudo a personalidade contrastante de Georgiana Spencer: podia ser caprichosa e quebrar louça, mas nunca deixou de admirar e amar a sua amiga Lady Elisabeth (Bess) Foster, mesmo enquanto esta foi amante do duque seu marido. "My dear Bess, do you hear the voice of my heart crying to you? Do you feel what is for me to be separated from you...? Mandaram os fados que, com exceção, talvez, do conde Charles Grey - do qual teve a sua única filha ilegítima, Eliza Courtney, e com quem teve de romper, por imposição do duque seu marido, que lhe deu a escolher entre o amante e os seus próprios filhos - os seus amores foram todos casos de sofrimento e desgraça. Mas é-me difícil não admirar a beleza, não só de feições, mas de um olhar e uma expressão de afirmação determinada, da mulher que Thomas Gainsborough tão bem retratou. E é igualmente esta biografia, escrita por Amanda Foreman dois séculos mais tarde, um belo retrato de uma mulher em tempos passados. Creio que será a literatura histórica anglo-saxónica a maior cultivadora da biografia como arte de melhor se entenderem tempos idos através de um olhar perscrutador de personagens que, talvez por serem pessoas humanas, como que nos dão a mão para um passeio mais próximo da vida então partilhada.

 

    A minha carta seguinte, Princesa de mim, retoma o fio da meada desta. Mas até lá deixa-me explicar-te por que é que esta minha lembrança de Georgiana Spencer me levou a reler The Dance to the Music of Time, escrito, já no século XX, por Anthony Powell, livro de que te falarei nessa próxima carta. Muito simplesmente te digo que frequentemente me acontece pensarsentir as possíveis razões que levaram o Gaëtan, meu irmão - e, contrariamente a mim, que sou canhoto (não necessariamente sinistro), destro de nascença - a desenhar com a mão esquerda. Seria realmente a sageza tantas vezes invocada de querer que o gesto do carvão sobre o papel não saísse espontâneo, mas antes obedecesse a um reflexo mentalmente controlado? A partir daqui, refleti eu nas razões que nos levam a suspeitar ou mesmo apontar qualquer traço autobiográfico em textos de ficcionistas. Será que qualquer analogia ou coincidência entre autor e personagem - ou, tão somente, circunstâncias de vida - necessariamente marca tal intenção ou apenas descuidada inconfidência? Antes, não poderá, pelo contrário, um autor procurar desenhar ou escrever o que crê diferente ou mesmo oposto? Ainda que o faça, não enquanto poeta fingidor e pessoano, mas pelo rigor mental que pretende? Dou a palavra, agora, ao início do capítulo 2 do 1º volume de The Dance to the Music of Time (são doze volumes). Vais gostar, traduzo:

 

   Não é fácil - aliás, talvez nem seja desejável - julgar os outros por critérios uniformes.  Um comportamento odioso, mesmo inaceitável, de uma pessoa poderá ser perfeitamente tolerável noutra; princípios de conduta aparentemente indispensáveis serão relaxados na prática - o que até pode ser arriscado - para bem daqueles cuja natureza pareça exigir tais medidas excecionais. Eis uma das dificuldades com que deparamos ao lançar no papel a condição humana, e assim sofremos uma perplexidade que de facto justifica que no drama shakespeariano a comédia alterne com a tragédia: assim, certas personagens e certas ações apenas se podem conceber em termos que só a elas se aplicam, independentemente das consequências. No palco, todavia, as máscaras correspondem a certo tipos de caracteres; na vida de todos os dias, os actores desempenham o seu papel sem contudo se preocuparem com o propósito da cena, nem das palavras proferidas pelo resto da distribuição; daí resulta uma tendência geral a levar tudo para o nível da farsa, mesmo tratando-se de um tema mais sério. Esse menos prezo das unidades não pode ser admitido na vida humana, apesar de existirem momentos em que a observação atenta revela, desta ou daquela maneira, que os diferentes elementos já não são, no fim da peça, tão irreconciliáveis quanto pudéssemos imaginar durante o 1º ato.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

JOÃO GILBERTO

 

A UNESCO considerou, que a morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural”


Não chega de saudade não! Não chegará nunca! João Gilberto e seu Violão ou o azul num frente a frente.


Vai minha tristeza

E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer


Chega de saudade

A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza e melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

(…)


“Chega de Saudade”, escrita por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi gravada por João Gilberto, em 1958.

O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado em miserabilidade e solidão no Rio de Janeiro. Assim li hoje.


E diz-se que os seus olhos nunca choraram pois apenas olhavam um para o outro.

Caetano afirmou sempre
que qualquer músico brasileiro pós-1959 (há quem chegue até nos Beatles) foi reinventado por João Gilberto. A sua experiência alterou de forma irreversível nosso DNA musical.


Creio João Gilberto, que viveste sempre por um projeto de primavera com as horas absolutamente soltas pelas notas que teus dedos imprimiram nas cordas do teu violão: esse que tão bem conhecia teu saber antigo de fogo duplo. E tu, tempo que nunca se deteve, imortalizaste em nós as canções que nos fotografaram o coração. Tu, testemunha da condição natural do poeta: consciência de que o rio vital era por ali.



Álbum completo 2019 - João Gilberto Melhores canções de todos os tempos.

 

Teresa Bracinha Vieira

A ESTÉTICA DO EFÉMERO – III

   

Da apresentação de Debussy et le mystère de l´instant (PerrinParis, 1972), de Vladimir Yankélévitch, destaco (traduzo): Dois movimentos inversos parecem, em Debussy, percorrer o espaço musical: um é descida aos infernos da profundidade; o outro, regresso ao ar livre, ascensão aos grandes espaços de luz. Mas quando estudamos esses dois movimentos, depressa compreendemos que, para Debussy, nem um nem outro é essencial: o essencial é o instante impalpável, esse mesmo a que chamamos aparição em desaparecimento, surto em fundo de silêncio e de trevas; esse instante é o relâmpago, ou, inversamente (o que vai dar ao mesmo) a fagulha que a aparição é quando a surpreendemos a desaparecer: o Meio dia é, no mesmo instante, o zénite da luz e a luz surpreendida no primeiro instante do seu declínio.

 

   Debussy dá voz às coisas mais imponderáveis e mais precárias, às mais inconsistentes e às mais inexistentes da criação: um breve encontro e uma leve respiração, uma reminiscência fugitiva que, como estrela cadente, atravessa o espaço noturno da memória, um reflexo que estremece na água, um sopro de vento passando pelo ar da tardinha, uma nuvem no céu.

 

   Ocorreu-me este trecho, talvez, pela associação do seu último parágrafo à inspiração de haiku e de muita caligrafia e pintura japonesa. Por algo que é a surpresa do infinito intemporal - que, enquanto tal, só pode existir fora da criação inteligível - na fugacidade dum instante apenas desta vida.Tal privilégio é um dom, uma graça. Talvez pareça poder repetir-se, mas jamais se repete, como a história da nossa humanidade. Tal como Debussy não pôs em música a vespertina sesta de um fauno, mas sonhou o Prélude à l´après midi d´un faune. Prelúdio que acabo de escutar, com direção do seu maestro titular, D. E. Inghelbrecht, na interpretação do Orchestre National (orquestra, em francês, é substantivo masculino), em 1962. Inspirada num poema de Mallarmé, escrito em 1865, a obra orquestral tem, mais ou menos, trinta anos de atraso (1892-1894), mas, para o que aqui proponho, guarda esta atualidade, em palavras do próprio Debussy, numa carta a H. G. Villars, futuro marido de Colette: O Prélude à l´après-midi d´un faune talvez seja o resto de sonho que ficou no fundo da flauta do fauno? Mais precisamente, é a impressão geral do poema, pois, se o seguíssemos mais de perto, a música perderia o fôlego como cavalo de tiro que concorresse ao Grande Prémio contra um puro sangue. É também o desdém dessa "ciência de castores" que torna pesados os nossos briosos cérebros, e depois não tem respeito pelo tom! e tem um modo que procura conter todos os matizes, o que é muito logicamente demonstrável. Mas, ainda assim, segue o movimento ascendente do poema, e é esse cenário maravilhoso descrito no texto que, com mais humanidade talvez, nos trazem trinta e dois violinistas bem cedo levantados! O final é o último verso prolongado: Adeus casal, vou ver a sombra em que te tornas. Contudo, é sobre tal expectativa que se fecha esta obra musical, que se ficou pelo prelúdio só, sem os previstos interlúdios e uma paráfrase final. Apesar da novidade do estilo, foi muito aplaudida a sua primeira audição pública, em dezembro de 1894, na Société Nationale, em Paris, sob a direção do maestro suíço Gustave Doret. Só a partir de 1912, com o balé de Diaghilev, coreografia e interpretação de Nijinsky, vai a representação à cena, provocando uma onda de escândalos que tornaram famosa a composição musical de Debussy, mais ainda do que o poema lascivo de Mallarmé. Por mim, sempre gostei de sonambular ao som do Prélude à l´après-midi d´un faune, cujo erotismo se esvanece pelo suave embalar da melodia hipnótica, mergulhando-me num sossego tão esquecido de mim que talvez me fizesse lembrar aquele anúncio de que o sono é a antecâmara da morte. Nesta peça, afinal, Debussy traz-nos, em nove minutos, um instante revelador, e põe-nos dentro dele, como se aquela contemplação do efémero mais não fosse do que uma canção de embalar a morte no gosto da vida que a sustenta...

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

  Chove, é cinzenta e sombria a manhã, mas ocorre-me que Brahms, em alemão, quer dizer giesta, esse arbusto de flores brilhantemente amarelas que nos alegra os campos, e deixo que a música do concerto em ré menor de Johannes Brahms, para piano e orquestra, continue a tratar de mim. Lentamente, muito de mansinho, refletidamente, pensandossentindo. Como se fosse tocada no meu universo interior. No final, apesar deste ser um Rondo, Allegro non troppo, nada me impele ao aplauso, a qualquer manifestação. Toda a música tem os seus espaço-tempo de silêncio. Por vezes, no final de uma audição, o silêncio manda ainda mais, ficou-nos cá dentro, em nós edificou uma casa onde habita aquela música. Como se construísse um amor mais íntimo. Lembro-me desse verso do David Mourão-Ferreira que a grande Amália canta com música de Alain Oulman: Vou recolher à casa onde nasci, por teus dedos de sombra edificada... E recordo ainda os versos com que Goethe abre o seu Divã Oriental, e José Bruyr a sua biografia de Brahms na Solfèges (Seuil, Paris, 1965): Wenn der Dichter will verstehen, muss in Dichters Land gehen. Quando se quer compreender o poeta, tem de se ir à terra dele.

 

   Passou uma hora sobre esse recolhimento. Volto à carta, porque, entre as diferentes interpretações desse concerto que aqui tenho, encontro uma que talvez deixe o Glenn Gould mais acompanhado por outro oficiante do mesmo rito: trata-se da de Claudio Arrau, chileno, nascido em 1903, em Chillán, falecido em 1991, em Mürzzuschlag, na Áustria. A sua reputada virtuosidade em nada diminui a profundidade intelectual e espiritual que procura encontrar naquilo que toca. Nesse sentido, e para melhor compreendermos o que ficou dito nas minhas cartas anteriores sobre o entendimento do concerto de Brahms, traduzo-te um texto de John Clark, acerca das Conversations with Arrau, de Joseph Horowitz, sobre as inúmeras controvérsias que o pianista, ao longo da sua carreira internacional, teve com múltiplos maestros, precisamente por causa deste "nosso" 1º concerto:

 

   No caso do primeiro concerto, Arrau torna-se inesperadamente dogmático, insistindo em que há apenas uma maneira de interpretar os dois primeiros andamentos. O primeiro andamento é Maestoso, não Allegro. Executá-lo pela batida 6/4 em seis tempos é a única maneira de criar «a qualidade trágica, a grandeza, a profundidade» que o pianista vê na partitura. O segundo andamento, Adagio, também em 6/4, deve ser muito lento, tanto mais quanto Arrau o concebe como reflexo da tragédia dos Schumann: a morte de Robert, a aflição de Clara. As tónicas religiosas conotam também o segundo andamento e Brahms até teria escrito no manuscrito as seguintes palavras: Benedictus qui venit in nomine domini. Imaginemos o tanto que Arrau se comoveu com estas palavras da missa. Ao escutá-lo, não nos podemos impedir de sentir a extraordinária profundidade da sua resposta à dor. A execução do concerto em ré menor de Brahms representa uma das obras primas do vasto repertório pianístico de Claudio Arrau.

 

   O registo que agora começo a escutar é de outubro de 1969, com a Royal Concertgebow Orchestra, de e em Amsterdam,sob a direcção de Bernard Haitink. O som é menos americano, diria eu: tem o feitiço de uma tranquilidade submarina. Lindíssimo e, como Arrau queria, profundamente comovente. Fecho os olhos e deixo que a música venha morar no meu íntimo silêncio.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Já que teimei em voltar a escutar o concerto em ré menor, para piano e orquestra, de Johann Brahms, ouvindo ainda o "prelúdio" verbal de Leonard Bernstein - que dirigia a Filarmónica de Nova Iorque e o solista Glenn Gould -, tal como te contei em carta anterior, deixa-me traduzir-te uns trechos da conversa entre Seiji Ozawa e Haruki Murakami sobre a audição que, eles também, fizeram deste registo. Não o fiz na outra carta, para deixar-te só com as palavras de Bernstein e o meu sentimento. Para começar, o romancista e melómano Murakami comenta, pouco depois da música começar, que tudo aquilo lhe parece muito lento, tão surpreendentemente lento que talvez justifique a prévia advertência de Bernstein. Ao que o maestro Ozawa retorque: É evidente que este trecho é tocado de acordo com um ritmo binário amplo, dois tempos que se decompõem assim: um dois três, quatro cinco seis. Lenny dirige-o como se houvesse seis, porque um simples ritmo binário seria demasiado lento para manter um intervalo consistente entre as batidas. Não tem opção. Em geral, antes será um e e, dois e e, dirigido um...dois... É claro que há uma data de maneiras de o fazer, mas acontece que quase todos os maestros o fazem assim. Aqui, com um tempo tão lento, repito, Bernstein não podia manter um intervalo consistente entre as batidas, e por isso se viu obrigado a dirigir em: um dois três, quatro cinco seis. Eis por que falta fluidez à orquestra e ela se atola.

 

   E eis que então, nesta conversa - quiçá como sinal de que um grande músico está sempre atento , e aberto, não só à escrita original da música, mas também à recriação que, vez após vez, a faz acontecer - quando Murakami lhe aponta, logo à entrada do piano, que este também vai lento, Ozawa responde: Sim, mas tal parece-me bastante aceitável, sobretudo quando nunca se ouviu este trecho noutra versão. Temos a impressão de que foi escrito assim. Dir-se-ia quase uma ária bucólica, tocada com grande descontração...   ... Escute bem: quando chegamos a esse passo é impossível não nos encantarmos...

 

   Atrevo-me a dizer-te que a avaliação global deste registo do concerto de Brahms - por Ozawa e Murakami - não busca ser abonatória, provavelmente pela cedência de Bernstein à imposição de Gould... E, como admirador, discípulo e assistente de Lenny, que o maestro japonês sempre foi, até lhe custou discordar daquela iniciativa do mestre se explicar à plateia antes do concerto. Todavia, tem plena consciência de que, se Bernstein tivesse tomado a outra opção, isto é, a de encarregar um assistente de o substituir na altura, o escolhido seria forçosamente ele próprio, Seiji. Susto enorme, que até em sonhos o assombra... Mas a amizade verdadeira é fiel, não se deixa ressentir com faltas ou mesmo pequenos defeitos daqueles a quem bem queremos. O que não impedirá Ozawa - pois que a amizade também deve ser lúcida - de estabelecer outra comparação: a dessa interpretação de Bernstein com Gould com uma deste mesmo pianista canadiano com a Cleveland Orchestra, dirigida por um assistente de George Szell, pois este se recusara a seguir os tempi queridos pelo solista. Traduzo-te o trecho dos comentários durante a audição do solo para piano do primeiro andamento do concerto:

 

Ozawa - É surpreendentemente lento, mas contudo, assim tocado por Gould, funciona. Não ficamos com a impressão de que o tempo está errado.

 

Murakami - Ele devia ter um sentido muito afinado do ritmo. Isto é, era capaz de manter um tempo tão espreguiçado e simultaneamente inserir o som do piano na estrutura da orquestra...

 

Ozawa - Tinha uma compreensão do fluxo musical à prova de bala. E, por outro lado, o Lenny tinha razão ao dizer que ele se atirava de corpo e alma...

 

   Como terás percebido, Princesa de mim, delicio-me com estas conversas entre músicos e melómanos [alguns fãs quiçá não possam ler uma partitura, mas talvez utopicamente a saibam de ouvido e de cor(ação)]. Confirmam-me, como crisma na fé, que o universo da música é o do tempo de encontros inesperados com uma revelação sempre irrepetível no mesmo modo...

 

   Acontecimento, eis tudo o que ela é, entrega de um inexplicável de nós a um momento de sons que nos cativam. Assim também entendo os títulos de livros de Vladimir Jankélévitch: L´Enchantement Musical (o encantamento ou feitiço musical), La Musique et l´Inneffable (a música e o inefável), Debussy et le Mystère de l´Instant (Debussy e o mistério do instante). E creio que cada instante é a chave da escuta musical. Por isso me retiro agora mesmo da escrita desta carta, e não ouvirei mais música hoje. Amanhã, esteja cinzento e chuvoso o dia, ou radioso de sol já primaveril, sozinho novamente escutarei o concerto em ré menor de Brahms, para piano e orquestra, interpretado por Bernstein, com a Sinfónica de Nova Iorque, e por Glenn Gould. Sem me lembrar já dos comentários que aqui te traduzi, nem de emoções das minhas audições passadas. Mas tão somente, porque nunca pude evitá-lo, com o sentimento de gratidão por uma partilha procurada. Por quem dá e quem recebe. "Ortodoxos","puristas", "fundamentalistas" poderão julgar de outro modo, mas eu pensossinto que as vidas e seus dons, sejam reflexão profunda ou audácia liberta, entregam-se-nos, não para serem julgados, mas para que partilhemos um novo salto, um passo, um encanto, uma interrogação. No caso presente, sou comovido pela coragem fraterna e humana de dois intérpretes (um grande maestro e um pianista genial) que aceitaram revelar-se publicamente na simultaneidade das suas ideias divergentes, das suas respetivas imperfeições mas, sobretudo, no esforço passional de busca da compreensão de uma oferta de música escrita pelo alemão Johannes Brahms um século antes, quiçá sob o desgosto da morte trágica do seu amigo Robert Schumann. 

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

Minha Princesa de mim:

 

   Fui enchendo estas minhas últimas manhãs musicais com Beethoven e Brahms... Comecei, dias atrás, por assistir no canal Mezzo ao 3º concerto para piano de Beethoven, interpretado por Mitsuko Uchida e, dirigida por Bernard Haitink, a orquestra do Concertgebow de Amsterdam, nesta sala holandesa. Comoveu-me muito o silêncio da escuta e, no final, a explosão de aplausos do público, sentidamente vibrante do toque carismático da interpretação, quer da orquestra, quer da solista japonesa, mulher já da minha idade, que hoje saboreia de alma cheia o encanto do que vai tocando. Filha de um diplomata japonês de primeiro plano - que, aliás, foi embaixador em Paris, onde o conheci - a Mitsuko empenha-se na música que toca com tal entrega e sábia alegria, que me faz lembrar a Rosa Mota a correr a maratona e, comovida, a rir toda, depois de cortar a meta. Encontrei-as, a ambas, separadamente, várias vezes no Japão, e foi sempre muito gratificante para mim o conforto que me transmitiu o coração da sua humanidade.

 

   A Rosa Mota ainda hoje é uma estrela no Império do Sol Nascente. Uma estrelinha do norte, a guiar o caminho de muitas jovens nipónicas para a corrida de fundo: pequenina e esguia como elas, entusiasmou-as a tentar triunfos. Tem, em Omura, um estádio com o seu nome, que até serve como talismã para treinos de principiantes... Também a figura franzina, com ar de quem está a pedir licença para sair, de Maria João Pires, ficou para sempre na memória dos melómanos japoneses que para a escutarem esgotavam as lotações das mais prestigiadas salas de concerto do Japão. Aliás, o piano de Maria João é Yamaha, e num desses, e no Japão, ela gravou os seus primeiros discos. Encontrei-a por lá muitas vezes, já tinha estado com ela em Bruxelas e New York, mas foi em Tokyo que mais me emocionei, no Suntory Hall completamente cheio, meditativamente escutada por japoneses, a tocar Bach. Inesquecível hora e meia, respirando a íntima harmonia de tanta gente budista e shintoísta, comungando as frases musicais de um cristão alemão setecentista ali animadas pelos dedos e pela alma de uma portuguesa agnóstica, tão brilhante quanto tímida...

 

   A redescoberta emotiva do 3º de Beethoven por Mitsuko Uchida, na televisão, levou-me à escuta de outras interpretações, de que te falarei, e a curiosidade à leitura de comentários de Seiji Osawa. Estes incidem sobre um registo de Mitsuko Uchida com a Concertgebow em 1994 (dessa vez o maestro foi Kurt Sanderling) em que o chefe japonês e o seu interlocutor Murakami se deslumbram com a graça e transparência do toque da sua compatriota e, pela inventividade, a comparam a Glenn Gould.  Foram estes que me conduziram a Brahms, por desejo de revisitar a gravação do seu 1º concerto para piano e orquestra, numa interessantíssima interpretação de Glenn Gould com a New York Philarmonic, dirigida por Leonard Bernstein, no Carnegie Hall, em 1962. Ao tempo, Ozawa era assistente de Bernstein na direcção daquela orquestra; lembro-me do tal concerto ser notícia "viral" (como hoje se diz), e de ter comprado, alguns anos depois, com o registo em cd - que ainda guardo - do concerto propriamente dito, também o da inesperada intervenção do maestro Leonard Bernstein, a esclarecer a audiência, imediatamente antes de dirigir a Filarmónica de Nova Iorque, com o pianista Glenn Gould. Lenny surge na ribalta e diz: Não se preocupem, o Sr. Gould está mesmo cá. Já vai entrar em cena. [Risos abafados do público].

 

   Como sabem, não tenho por hábito falar aquando dos meus concertos, com exceção das «Thursday Night Previews».

 

Mas estamos aqui perante uma situação que, creio, merece que lhe dediquemos algumas palavras. Vão ouvir uma interpretação do Concerto em ré menor de Brahms...interpretação essa que é, digamos, pouco ortodoxa, que se distingue de todas as outras que alguma vez escutei, ou até sonhei, pela excepcional amplitude dos seus tempi e do frequente desrespeito das indicações de Brahms sobre a dinâmica. Não posso dizer que estou totalmente de acordo com o conceito do Sr. Gould, donde resulta uma interessante pergunta: Então, porque vim acompanhá-lo? [Múrmurios do público]. Faço-o

 

porque o Sr. Gould é um artista de tal valor e sinceridade, que é meu dever prestar uma séria atenção a tudo o que ele elabore de boa fé, e porque o seu conceito desta obra é tão interessante que me leva a sentir que também este público merece escutá-la assim.

 

   Mas está por responder a sempiterna questão: Quem manda num concerto? O solista? [Risos contidos do público]. Ou será o chefe de orquestra? [Risos sonoros]. É claro que a resposta varia conforme os executantes. Mas na maioria dos casos, o solista e o chefe entendem-se para chegar a uma interpretação coerente, recorrendo quer à persuasão, quer à sedução, por vezes mesmo a ameaças. [Risos]. Aconteceu-me uma única vez na vida ter de me dobrar às ideias totalmente inovadoras dum solista, e incompatíveis com as minhas, e foi aquando da última vez que acompanhei o Sr. Gould. [Mistura de grunhidos e risos no público]. Mas desta vez, as nossas divergências são tais, que me senti na obrigação de vos fazer este discurso preliminar.

 

   Voltemos portanto à pergunta de há pouco, ainda em suspenso: Porque raio aceitei dirigir este concerto? Porque não escolhi outra retirada menos difícil, como mudar de solista ou confiar a direção da orquestra a um dos meus assistentes? Primeiro, porque estou fascinado e feliz por ter a oportunidade de trazer nova luz a uma obra tão frequentemente tocada. Em segundo lugar, mais importante ainda, porque a interpretação do Sr. Gould tem momentos de espantosa frescura e empenho. Em terceiro lugar, porque todos nós temos algo a aprender com este extraordinário artista, cujas interpretações são alimentadas de reflexão. Finalmente, porque em música há o que Dimitri Mitropoulos soía chamar «elemento desportivo», um composto de curiosidade, de aventura, de experimentação. E posso-vos assegurar de que, no decurso desta passada semana, ensaiar este concerto de Brahms com o Sr. Gould foi uma verdadeira aventura. E é com o mesmo espírito qua vamos agora tocá-lo para vós. [Grande ovação].

 

   Traduzi na íntegra este "prefácio" do maestro Leonard Bernstein, diretamente do registo sonoro de que disponho, por duas razões:

 

1. Esta curta charla revela bem o espantoso pedagogo, dotado de tão humano sentido de humor, que ele sempre foi, um homem que procurava na música a proximidade com os outros, a busca da harmonia no respeito pela diferença e no amor da liberdade.

 

2. E ele diz, bem melhor do que jamais eu seria capaz, muito do que me ocorreu dizer-te, Princesa de mim, em continuação das minhas últimas duas cartas, sobre a interpretação como segunda criação musical ou, melhor ainda, remetendo-me às memórias dos gratificantes momentos em que se produz e acontece, como co-criação na liberdade dos filhos de Deus. Todos buscamos, de cada vez que "fazemos" música, um evangelho, uma boa nova libertadora. Tal como descobrimos que não há arte sem generosidade.

 

Camilo Maria 

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS DE CAMILO MARIA DE SAROLEA

 

 

Minha Princesa de mim:

 

   Na minha já idosa discoteca, constituída passo a passo, escuta a escuta, ao longo de muitas décadas, ainda se arrumam discos em vinil (78, 45 e 33 rotações) e inúmeros cd. Quando, com alguma nostálgica paciência, a percorro como catálogo dos meus gostos e preferências musicais, e caleidoscópio de tantas e tão diversas emoções, consigo sempre desenhar mais um traço, feição ou expressão, de um retrato meu que a vida, com as suas fidelidades, mutações e caprichos, foi animando. Assim me surpreendo a olhar para facetas menos lembradas da minha complexidade, tal como me repouso no encontro com o que talvez seja o meu pensarsentir estrutural, aquele corpo-e-alma que, de múltiplas maneiras, mais revelado ou mais escondido, se terá vestido para um novo encontro. Aparências ou manifestações que a circunstância de mim foi e vai desvendando e o meu pudor agasalhando em mistérios musicais que são a forma universal de segredar e entender o indizível. Por isso também guardo diversas interpretações das mesmas obras que, como te dizia em carta passada, são sempre, no tempo e no modo de cada momento, aquilo que foi composto e o que se escuta. Diz Jankélévitch que a música de Debussy nos fala da solidariedade simultaneamente impossível e necessária do ser e do não-ser...   ...numa linguagem que jamais alguém tinha falado, nem nunca mais alguém falará. Mas qualquer música, em diversas interpretações, é sempre nova. Adiante voltarei a citar-te um luminoso texto do melómano filósofo francês.

 

   Por mim, pois, prefiro dizer que, por muito clara que seja a sua partitura, qualquer momento musical é irrepetível: nasce de uma inspiração e da sua escrita, cuja tradição é depois traduzida por quem lhe dá o som da sua reanimação. Ganha outra vida própria, partilha que desabrocha em ofertas, como no milagre da multiplicação dos pães (que aliás, curiosamente, tão "filosoficamente" comoveu José Saramago) ou na conversão humana de Valjean (em Les Misérables de Victor Hugo, "comprada" pelo clérigo que o deixou fugir com a prata que lhe roubara).

 

   Em cartas futuras voltarei a todos estes temas. Mas nesta apenas quero levar-te a um cantinho da minha discoteca, onde com alguma frequência me acontece conviver com música inglesa dos séculos XVI e XVII: Dowland, Purcell, Byrd, e tantos outros. Esta manhã, já radiosa e ainda fria, repetidamente escutei If music be the food of love, título e primeiro verso duma ária para voz solo e contínuo, de Purcell. Canta a soprano Catherine Bott, no registo editado pela Chandos. O poema é de Henry Heveningham, apolónio a alumiar uma sensualidade sufocada por condição cortesã, exaltando prazeres que nos invadam olhos e ouvidos e tenham transportes tão violentos que magoem... e a própria veemência da música paradoxalmente vem enaltecer um secreto erótico desejo: Certo é que morrerei pelos vossos encantos, a menos que os vossos braços me salvem...

 

   Aquele primeiro verso, que dá título, Se a música é o alimento do amor..., esse, e só esse, é de Shakespeare. Ao escrever discorrendo esta carta, ocorreu-me que a música, nesse verso, talvez seja alimento do amor pelo poder de confundir desejos apenas dizíveis pelo inefável, na expressão livre e sem alvo de um só Desejo. Certos místicos, com os quais não me identifico nem achego (não sou cantante judeu, inda que bíblico, como Salomão, nem alumbrado espanhol, como Teresa d´Ávila), vivem e testemunham, ou imaginam, transes em que desejos se confundem.  Como noutro soneto de Shakespeare (CXXXV, na edição da Cambridge University Press, 1966), que agora mesmo para ti traduzo:

 

Whoever hath her wish, thou hast thy will,  
And ´Will´ to boot , and ´Will´ in over plus,  
More than enough and I that vex thee still, 
To thy sweet will making addition thus. 


Wilt thou whose will is large and spacious, 
Not once vouchsafe to hide my will in thine?  
Shall will in others seem right gracious,  
And in my will no fair acceptance shine?   

 

The sea all water yet receives rain still,  
And in abundance addeth to his store
So thou be rich in will add to thy will     

 

One will of mine to make thy large will more
Let no unkind, no fair beseechers kill,
Think all but one, and me in that one ´Will´.


Uma qualquer faz votos, tu só desejo tens,
E Desejo de sobra, Desejo para esbanjar.
E mesmo sofrendo mais dos teus desdéns
Ao teu terno desejo me quero somar.

 

 Não irás tu, cujo desejo é vasto e espaçoso,
Deixar que o meu no teu se abrigue?
Se doutros o desejo tens por gracioso,
Porque lanças sobre o meu sombra que o castigue?

 

Se o mar que é todo água acolhe chuva ainda
P´ra que em abundância a si a acrescente,
Tu, tão rica de desejo, o teu desejo alinda

 

E acresce com um só desejo de mim...
Não deixes que o teu  desprezo nos ausente,
Deixa só que o meu seja teu  desejo enfim...

 

         

   Esta tradução não é nem literal nem literária. Foi momentânea, talvez fácil, certamente conveniente. Também teve opções: como a de traduzir wish - que quer dizer desejo, aspiração, mas também voto como desejo de bem - por este voto; e Will que significa vontade, capacidade de decisão (até um testamento se chama will), por Desejo, no sentido de vontade condicionada por outra, isto é, não coerciva. Para exprimir-te dois sentidos: 1- o de que o desejo humano só verdadeiramente o é se partilhado, pois que, não o sendo, ou será suspiro contínuo, ou ira e violência ; 2- e o de que só a música - que é linguagem que nada afirma nem representa - pode em boa verdade (que, como o pensarsentir, é sempre uma vitória sobre a tentação do dogma) pôr-nos na onda inefável do indizível, caminho para a realidade invisível que, diz-me o sentimento de mim, do amor humano e do desejo de Deus, é afinal, ela só, a verdade ontológica, sem formulações tentativas. Pode assim ser outro modo do misticismo. 

 

   Quiçá o que, afinal, Princesa de mim, eu hoje te quero dizer antes seja bem dito pelo grande Shakespeare, nestes versos de The Passionate Pilgrim:

 

    If music and sweet poetry agree,
    As they must needs, the sister and the brother, 
    Then must the love be great ´
twixt thee and me,
 
    Because thou lov´st the one, and I the other,
 
    Dowland to thee is dear, whose heavenly touch
   
    Upon the lute doth ravish human sense;
  
    Spenser to me, whose deep conceit is such
 
    As, passing all conceit, needs no defence.

 

   Gosto muito dessa referência a Dowland, tocador de alaúde e compositor, e a Edmund Spenser, poeta, ambos admirados por Shakespeare. Não te traduzo o poema, apenas recordo, por essencial ao tema de que te falo, que ´twixt é a abreviatura de betwixt, palavra de origem saxónica, já arcaísmo poético ao tempo de Shakespeare, para significar between. Assim, o verso em que surge diz, em português: deve então ser grande o amor entre ti e mim / porque tu amas um e eu o outro... Partindo da condição de que se a música e a doce poesia concordam, / como, necessariamente (as they must needs), irmão e irmã, / deve então ser grande o amor entre ti e mim, porque amas um e eu o outro (mais do que a ideia de troca está aqui a de completação, a comunhão pela diferença): o poeta traz a inspiração de Spenser, mais fecunda que outra qualquer, a sua amada traz Dowland, cujo divinal toque de alaúde rapta os humanos sentidos.

 

   Do amor erótico a qualquer mística, o desejo que se despoja e vive livre transforma-se de impulso a possuir em busca de comunhão. Para tanto, precisa sempre de parceiro. Tal como o Evangelho também não distingue o amor de Deus do amor ao próximo. Mas termino traduzindo o prometido trecho de La musique et l´ineffable de Vladimir Jankélévitch. Por ele começa o capítulo 3 (Le charme et l´alibi) do livro. Com o subtítulo de L´opération poétique:

 

   A obra de encantamento que é o espressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético. Faz música, ordena o sonho a Sócrates, e não pares de operar. Fazer é de uma ordem totalmente diferente de dizer. Compor música, tocá-la interpretando-a, cantá-la ou mesmo escutá-la recriando-a não serão, afinal, três modos de operar, três atitudes bem mais drásticas do que gnósticas? O criador, o executante que é recriador ativo, o ouvinte que é recriador fictício, todos três participam numa espécie de operação mágica: o executante coopera com o primeiro operador fazendo com que a obra exista efetivamente no ar vibrante durante um certo lapso de tempo, e o ouvinte recriador terciário coopera pela imaginação ou por gestos adventícios...

 

   Nota, Princesa de mim, que a frase A obra de encantamento que é o expressivo inexpressivo não é um dito, mas um facto, e nisso se aparenta ao ato poético se inspira também na Poética musical de Igor Stravinsky. E não será isso ainda o que Shakespeare sugere ao juntar a evocação de Dowland à de Spenser?

 

Camilo Maria           

 

Camilo Martins de Oliveira