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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

NÃO POR RECEITA; MAS COMO PROCURA…


Haydn portrait by Ludwig Guttenbrunn      

  

Franz Joseph Haydn, quartetos e sinfonias, sonatas, "A Criação!" O equilíbrio em tudo, não por receita, mas como procura. Até nas admiráveis "Sete últimas palavras de Cristo na cruz"! Assim, ao som da música, nos balançamos entre a vida e a morte, o sofrimento e o perdão, entre o que julgamos saber e o que definitivamente ainda não conhecemos, entre a escassez e a plenitude. Tudo é graça neste concerto do ser que aspiramos com o estar que somos. Humano é desafiar o caos, o absurdo. Há sempre música na vida quando no silêncio encontramos a música inicial que nos harmoniza. Há sempre uma qualquer hora em que, em cada um de nós, se revela, tão intimamente que só cada um o pressente, esse mistério antigo que levou Antero a falar na "mão de Deus, na sua mão direita" ou Pessoa da "noite antiquíssima e idêntica...igual por dentro ao silêncio"... E fez o Eça exaltar os "regatos espertos" e outros assombros dos campos de Portugal que, ele mesmo, Zé Maria, de tão longe saboreou...


João Ameal não terá sido um historiador maior. Mas, há mais de meio século, deixou no prefácio à sua “História de Portugal” uma afirmação que nunca esqueci: "A História é a nossa vida antes de nós". Lembro-me de ter lido, por essa altura (teria já quinze anos?), da biblioteca da minha Mãe, um livro intitulado "Le Prestige du Passé", que me abriu os olhos para o facto de, no liceu, andar a estudar uma história que prestigiava o passado e enaltecia os nossos antepassados...


Todavia, hoje ainda, esse facto me não incomoda. Marcou um tempo da minha vida, tal como os movimentos culturais, com os seus conhecimentos científicos e técnicos, as suas ideologias e sistemas políticos e sociais, as suas religiões, como relação ao transcendente e aos outros (amigos e inimigos), marcaram o tempo das civilizações na história. Para mim, com maior ou menor prestígio, mais ou menos enaltecido, o passado que a investigação histórica nos vai revelando, desta ou daquela maneira, é sempre "a nossa vida antes de nós". Fui lendo com gosto as histórias da vida privada que, na senda de Georges Duby, tantos historiadores por esse mundo foram percorrendo; entre nós, ainda incipientemente e recentemente, com impulso de José Mattoso, Apesar da escassez de crónicas que registem o quotidiano com a ênfase que outras dão aos factos e feitos militares, políticos, científicos e religiosos, com a ajuda de alguns pormenores que vão surgindo, da arqueologia de sítios de habitação de objetos utensílios de uso comum, bem como das obras de arte e literárias ilustrativas de modos, hábitos e costumes, é possível ir imaginando e reconstruindo, com alguma fidelidade, atitudes e comportamentos, condições de vida, valores e organizações sociais.


Sobretudo, vamos entendendo como o engenho humano foi reagindo e resolvendo situações de abastança e de penúria, de saúde e de doença, na paz e na guerra, em períodos de fixação ou de migração. Desses afrontamentos se tiraram valores orientadores da vida de todos os dias, bem documentados no acervo dos nossos provérbios e ditados. Estes tantas vezes a merecerem o entendimento e a concordância de recém-chegados à nossa terra. Por vezes, através de pequenos ensaios monográficos, tenho-me aberto à perspetiva que junta o quotidiano à "Grande História": a narração de aventuras reais a partir de objetos representados numa pintura de outro tempo pode levar-nos à descoberta de mundos que um olhar, atento ao quotidiano que nos rodeia, encontra... Que prazer me deu ler, por exemplo, o "Vermeer´s Hat" de Timothy Brook!


A escrita e a leitura da História já não são, como na perspetiva romântica da afirmação das nacionalidades, uma exaltação do ego étnico, político ou popular, mitológico. É, sim, cada vez mais, a descoberta de um passado com feitos melhores e piores, com as suas contradições e as suas esperanças, a experiência dessa dialética da condição humana, onde nascem e se transmitem os valores em que nos reconhecemos. Também, o exercício contemporâneo da historiografia tem vindo a recorrer a fontes externas às propriamente nacionais, facultando-nos um entendimento de nós pelo olhar dos outros: Kirti Chauduri ou Sanjay Subramanyam e outros ajudam-nos a compreender melhor situações e figuras históricas que julgávamos só nossas, mas que são mais universais e complexas. Maiores por isso. A chegada dos portugueses à India, que já existia e se agitava quando o Gama lá aportou, surge também, vista do outro lado, como um tecido de encontros, conflitos e alianças, fidelidades e traições, enganos e desenganos, afrontamentos e aculturações que foram construindo a casa-mundo que habitamos. Goa não existe sem Portugal e a Índia. Portugal não é inteiro sem Goa. E quanto, quanto, da Índia só em Goa se revela? 

  

Camilo Martins de Oliveira 

A MÚSICA ENTRE MUITAS ROTAS

 

Num texto introdutório a "S. Francisco Xavier - A Rota do Oriente", produzido por Jordi Savall, escreveu Rui Vieira Néry: "Como reagiram todas essas diferentes culturas ao impacto da música ocidental, e como reagiram os músicos peninsulares aos sons desconhecidos das tradições locais? As vihuelas e as guitarras que iam a bordo estabeleceram contacto com outros instrumentos de corda dedilhada como o sarod indiano ou a biwa japonesa. Os tambores europeus encontraram-se com a ampla gama de virtuosísticas percussões africanas e a sofisticada tradição da tabla indiana. A flauta e a flauta doce, que podem ter acompanhado facilmente os marinheiros peninsulares, descobriram a atmosfera poética do shakuhachi japonês." Que resultou daqui?” - continua Néry: "Eis o desafio deste disco: seguir os passos de Francisco Xavier e visitar os diversos mundos musicais que ele atravessou: canto e polifonia sacra, canções e danças populares da Península, o reportório profano cosmopolita dos principais centros urbanos europeus, os sons da música africana, indiana, japonesa e chinesa, assim como o entrelaçamento musical de tudo isso, na base de um diálogo entre músicos de diferentes tradições culturais."


No seu "Tratado em que se contêm muito sucinta e abreviadamente algumas contradições e diferenças de costumes entre a gente da Europa e esta província do Japão", o jesuíta Padre Luís Froes (séc.XVI) considera que a música japonesa "é a mais horrenda que se pode dar", mas também reconhece que "todos os nossos instrumentos lhes são insuaves e desgostosos"... Já o dominicano Frei Gaspar da Cruz, no seu "Tratado das cousas da China" que, publicado em Évora em 1570, é a primeira monografia sobre a China a ser impressa na Europa, escreve: "Os instrumentos que usam para tanger são umas violas como as nossas, ainda que não tão bem feitas, com as suas caravelhas para as temperarem, e há umas de feição de guitarras que são mais pequenas, e outras à feição de viola de arco que são menores. Usam também de doçairias e de rabecas, e de uma maneira de charamelas que quase arremedam as de nosso uso. Usam de uma maneira de cravos que têm muitas cordas de fio de latão; tangem-nos com as unhas que para isso criam; soam muito e fazem mui boa harmonia. Tangem muitas vezes muitos instrumentos juntos concertados em quatro vozes que fazem muito boa consonância." Um século depois da publicação do "Tratado" de Frei Gaspar, um jesuíta português, o Padre Tomás Pereira, era pessoa notável em Pequim, e muito estimado pelo imperador Kangxi. Um jesuíta belga, o Pe. Verbiest, escrevia em 1680: "Construímos um carrilhão numa torre da igreja e noutra colocámos um órgão fabricado com tubos de estanho conforme as regras da música. Todos querem visitá-lo e creio que, no Oriente inteiro, não há um de tamanha grandeza. Estas duas obras de arte, devidas à habilidade e engenho do Pe. Pereira, músico muito habilidoso, são de uma perfeição acabada"... E em 1735, o Pe. Du Halde escrevia: "A facilidade com que, por meio das notas, retemos uma ária logo à primeira audição, surpreendeu o falecido imperador Kangxi. No ano de 1679, mandou que viessem ao seu palácio os Padres Grimaldi e Pereira, para tocarem um órgão e um cravo que outrora lhe tinham oferecido. Saboreou as nossas árias da Europa e pareceu ter gosto nisso. Em seguida mandou que os seus músicos tocassem uma ária da China num dos seus instrumentos, e ele mesmo o tocou com muita graça. O Padre Pereira tomou nota da ária inteira enquanto os músicos a cantavam. Quando terminaram, o Padre repetiu-a sem falhar um tom, e como se há muito já conhecesse. O Imperador ficou muito surpreendido, custou-lhe a crer. Teceu grandes louvores à precisão, à beleza e à facilidade da música da Europa. Admirou sobretudo como o Padre em tão curto tempo aprendera uma ária que tanto lhe havia custado a ele e aos seus músicos..."


Ocorrem-me duas reflexões: A primeira sobre o modo como, em tempos passados, de guerra conquista, ganância e exploração, sempre surgiram os que procuraram transmitir a ciência que tinham e também conhecer a dos outros. Houve, para além do proselitismo religioso, o desejo de dialogar: teriam esses missionários dos séculos XVI e XVII menos razões para crer, apesar da fé inabalável nas verdades da sua própria religião, na superioridade da sua cultura? Não seria, afinal, a vocação de comunicar mais forte do que a aparente necessidade de impor modelos? E, perante as sevícias impostas pelos senhores da guerra e do dinheiro a gentes estranhas, quantos missionários protestaram em defesa do valor divino do humano... A segunda sobre o valor universal e redentor da música: o "Quarteto para o fim do tempo", que Messiaen compôs em 1940 num campo de prisioneiros de guerra, onde foi estreado em instrumentos de fortuna, e que é ainda hoje tocado por violino, clarinete, violoncelo e piano, é um exemplo superior da arte do compositor francês; ou o concerto para a mão esquerda, que Ravel escreveu para o pianista austríaco Wittgenstein que, amputado da mão direita, o tocou em Viena em 1931; ou Lorin Maazel a dirigir a New York Philarmonic na Coreia do Norte; ou o concerto dado em Ramalah pela orquestra Divan, composta por palestinianos e israelitas, dirigida por Daniel Barenboim... Em 1975, José António Abreu, um luso-descendente, jesuíta, famoso professor de música e economia, ensaiou com jovens de bairros da lata da Venezuela, o primeiro concerto de uma nova orquestra, numa garagem abandonada de Caracas. Hoje, 370 mil crianças pobres da Venezuela já aprendem, tocam e ensinam música... Entre elas, já nasceram "estrelas" como a Orquestra Simon Bolivar e o seu maestro Gustavo Dudamel, que atuam nas mais afamadas salas do mundo!


A fechar este passeio por memórias, lembro a minha emoção quando, há 20 anos(?), vivi o silêncio de inúmeros japoneses que, no Suntory Hall, em Tóquio, escutavam Maria João Pires tocar Mozart, ou sinto ainda Carlos Paredes em Nova Iorque e Osaka, Fernando Alvim com Mário Pacheco ou Zina Torre do Valle em Tokyo e Seul. E nunca esquecerei o Coro Gregoriano de Lisboa, com a saudosa maestrina Maria Helena Pires de Matos, em Kobe, no bairro mais devastado pelo terramoto de 1995, e também num cântico pela paz, com monges da ordem Shingon, no mosteiro budista de Tere Dera... Tal como sempre guardarei no coração esse ceguinho desconhecido que tangia uma guitarra, na rua do Salitre, debaixo das janelas das salas de aula do Colégio de Clenardo». 


Camilo Martins de Oliveira

 

Obs: Reposição de texto publicado em 10.08.2012 neste blogue.

EVOCAÇÃO DO MAESTRO MANUEL IVO CRUZ


Refiro aqui textos de relevância cultural indiscutível, escritos e publicados muito recentemente por Guilherme d’Oliveira Martins: o longo artigo intitulado precisamente “Manuel Ivo Cruz“, evocação do maestro Manuel Ivo Cruz, meu irmão, texto que abre a edição da revista “As Artes Entre as Letras” (nº 280 – 16 de dezembro de 2020) a ele dedicado, e “Um Diálogo de Relógios”, conto de Guilherme d’Oliveira Martins, este na publicação que assinala o Natal de 2020 do Centro Nacional de Cultura, entidade que tem uma parceria com a revista dirigida por Nassalete Miranda.


No ponto de vista pessoal, e independentemente da amizade que me liga a Guilherme d’Oliveira Martins, da admiração pela sua vasta obra e pela colaboração que mantenho no Centro Nacional de Cultura, importa aqui e agora assinalar a interessantíssima análise histórica, artística e também familiar que liga Manuel Ivo Cruz à grande tradição da música portuguesa, na continuidade da vida e obra do nosso pai, Ivo Cruz (1901-1985), maestro, compositor, diretor-fundador da Orquestra Filarmónica de Lisboa e Diretor do Conservatório Nacional de 1932 até à sua aposentação em 1968.


E registo com óbvio interesse, neste número evocativo da revista, o meu irmão Manuel, como individualidade, como maestro e homem de cultura, “referência na musicologia portuguesa contemporânea, tendo sido uma muito relevante presença como maestro e como estudioso e divulgador da história da música em Portugal” escreveu Guilherme d’Oliveira Martins: e mais acrescenta um longo e detalhado currículo de Manuel Ivo Cruz, destacando não só a atividade como maestro mas também como escritor de temas da história e da criação musical e a sua internacionalização designadamente na formação na Academia de Mozart na Universidade de Salzburgo e em numerosíssimos concertos, que dirigiu designadamente em Portugal, Espanha, Alemanha, França, Grécia, Brasil, EUA Rússia e Venezuela.


Em Portugal desempenhou também funções relevantes em entidades de formação e cultura musical, muitas delas evocadas no número especial da revista, com estudos e artigos de Guilherme d’Oliveira Martins, mas também do próprio homenageado (“Reflexões em Dó Maior”) e de Leonor Cruz (“Saudades”) e de Victor Dias, João Pereira Bastos, Carlos Guilherme, Elvira Racher, João Correia Alves, José Miguel Júdice, Sofia Lourenço, Teresa Cardoso de Meneses.


E ainda artigos e textos diversos em áreas diversas da revista, estes da autoria de Paulo Ferreira da Cunha, António José Borges, Vasco Rosa, Rui Baptista, André Ventura, Lurdes Neves, Maria Virgínia Monteiro, A. Campos Matos, Levi Guerra e ainda outras rubricas e temas culturais diversos.


Tudo isto, repita-se, numa revista dedicada ao meu irmão maestro Manuel Ivo Cruz, com fotografias na capa e em numerosos artigos, imagens que largamente ilustram a edição e confirmam o tema geral: “A memória não se apaga”, sublinha precisamente a capa.


Menos ainda se apaga num irmão!...


DUARTE IVO CRUZ 

A VIDA DOS LIVROS

De 30 de novembro a 6 de dezembro de 2020

Manuel Ivo Cruz (1935-2010), autor de “O Essencial sobre a Ópera em Portugal” (INCM, 2008), é uma referência na musicologia portuguesa contemporânea, tendo tido uma muito relevante presença como maestro e como estudioso e divulgador da história da música em Portugal. Com uma assinalável presença na cidade do Porto, tornou-se aí um fator de prestígio e de afirmação de uma cultura musical de qualidade, em coerência com a história muito rica da cidade nesse domínio.


UMA FAMÍLIA DE ARTISTAS

Originário de uma família na qual as Artes tiveram sempre um papel muito importante, Manuel Ivo Soares Cardoso Cruz era filho do maestro Ivo Cruz (1901-1985) e formou-se em Ciências Histórico-Filosóficas pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Recorde-se que o Pai do Maestro teve uma longa carreira no Conservatório Nacional, onde trabalhou com Vianna da Mota, a quem sucedeu na direção da instituição (1938-1971), tendo iniciado a sua formação musical em Lisboa com António Tomás Lima e Tomás Borba, tendo estudado depois em Munique Composição, Direção de Orquestra, Estética e História da Música. Fundou a Sociedade Coral Duarte Lobo, para a execução da música portuguesa pré-clássica, tendo ainda promovido as primeiras audições modernas de compositores como Carlos Seixas (1704-1742) e João de Sousa Carvalho (1745-1798). Entre vasta produção, inclusive literária na revista “Contemporânea” (1915-26) e “Música” (1924-25), sua obra é vasta, sendo porventura a mais conhecida a Sinfonia de Amadis, estreada em Lisboa em 1953. É assinalável a coleção bibliográfica que reuniu e se encontra na Biblioteca Nacional de Portugal, na qual se inclui o maior conjunto conhecido de autógrafos de João Domingos Bomtempo (1775-1842). Lembra-se este percurso, uma vez que o filho, com grande autonomia de estilo e de cultura, desenvolveu o conhecimento e a divulgação da história da música portuguesa, em especial quanto à sua projeção internacional. É, aliás, fundamental a bibliografia que Manuel Ivo Cruz (filho) produziu e que é fundamental para o conhecimento da História da Música em Portugal – como “O Teatro Nacional de S. Carlos” (Lello, 1992) e “O Essencial sobre a Ópera em Portugal” (INCM. 2008). O conhecimento da ação de D. João V no desenvolvimento da cultura musical em Portugal, em especial com a fundação em 1713 da Escola de Música do Seminário da Patriarcal mereceu da parte do Maestro Manuel Ivo Cruz um interesse especial, que permite compreendermos melhor a importância da música na cultura portuguesa. Não esquecemos, por outro lado, no seu ambiente familiar, a obra que tem sido desenvolvida no domínio da História do Teatro pelo irmão do Maestro, Duarte Ivo Cruz, dirigente do Centro Nacional de Cultura, em tantos domínios complementar da de Manuel Ivo Cruz.   

UM TALENTO REVELADO DESDE CEDO
Com sólida formação musical, deu o seu primeiro concerto ainda estudante, com 19 anos, tendo sido bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, tendo-se diplomado com distinção, como maestro, na Academia de Mozart da Universidade de Salzburgo, na Áustria. Regressado a Lisboa, foi diretor musical e chefe da Orquestra Filarmónica de Lisboa, tendo dirigido programas de música na Radiotelevisão Portuguesa (RTP), colaborando nas temporadas de ópera do Teatro da Trindade, em Lisboa, e nos concertos das orquestras sinfónicas da então Emissora Nacional. Foi ainda maestro-diretor do Teatro Nacional de São Carlos, sendo o grande animador dos Cursos Internacionais da Costa do Estoril, e maestro convidado, com grande sucesso, em Espanha, Alemanha, França, Grécia, Itália, Brasil, Estados Unidos da América, Rússia e Venezuela. Foi presidente e diretor artístico do Círculo Portuense de Ópera, no Porto, e da Ópera de Câmara do Real Teatro de Queluz. Como grande pedagogo, foi estudioso e divulgador de obras musicais portuguesas menos conhecidas, fazendo, para isso, investigação na área da musicologia histórica portuguesa e apresentando um vasto reportório documentado e publicado pela EMI, Numérica, Tecla, Jorsom e Solemio. Em 1969, Manuel Ivo Cruz recebeu o Prémio Moreira e Sá do Orfeão Portuense e foi distinguido pela França com o título de Oficial de Mérito Cultural e Artístico, pelo Brasil com a Ordem do Rio Branco e em Portugal com o Grande Oficialato da Ordem do Infante D. Henrique. Em 2004, nas comemorações do 50.º aniversário da carreira artística, com a Medalha Municipal de Mérito, grau ouro, entregue pela Câmara Municipal do Porto.

UMA REFERÊNCIA CULTURAL
O Maestro ministrou cursos na Universidade do Pará e em S. Paulo. Foi sócio honorário da Sociedade Brasileira de Musicologia, Sócio Correspondente da Academia de Letras e Música do Brasil, Membro do Conselho Português da Música, da Associação Portuguesa de Ciências Musicais, Fundador e Vice-Presidente da Conferénce Européenne de la Musique e do Observatoire Européen des Sciences, des Techniques et de l’Economie de la Musique.

Ao longo dos 50 anos de carreira, o Maestro Manuel Ivo Cruz  dirigiu a maior parte das obras que se inscrevem no reportório da música sinfónica. É porventura o Maestro português que mais óperas dirigiu, em quantidade e em diversidade. Também dirigiu primeiras audições de obras de compositores como António Victorino d’Almeida, Cláudio Carneyro, João Domingos Bomtempo, ou João Pedro Oliveira. A par da sua longa atividade artística, o Maestro Manuel Ivo Cruz cultivou uma rica bibliofilia musical que lhe permitiu reunir o acervo documental que serviu de base ao protocolo estabelecido entre o Maestro e o Centro Regional do Porto da Universidade Católica Portuguesa. O destaque desse espólio refere-se a fontes relevantes do Património Musical Português dos finais do século XIX e primeira metade do Século XX, entre as quais se encontram a obra integral do compositor Ivo Cruz (Pai) e peças de Miguel Ângelo Pereira, Ciríaco de Cardoso e de João Arroyo entre outros. O espólio abrange ainda partituras de orquestra, óperas, música de câmara portuguesa, muitas delas dirigidas em primeira audição pelo próprio maestro. O acervo é ainda enriquecido por libretos dos séculos XVIII e XIX, gravuras, discos, coleções de postais e programas de concerto e ainda por inúmeros livros de referência.

 

Guilherme d’Oliveira Martins
Oiça aqui as minhas sugestões – Ensaio Geral, Rádio Renascença

CRÓNICA DA CULTURA

 

ENNIO MORRICONE (1928-2020)

 

Perdemos uma enorme referência. Morricone, o grande músico, o grande maestro do rigor, deixou-nos em julho passado.  

Que todas as vozes saibam sempre dizer da sua grande capacidade para entender o essencial.

Um amigo seu fez saber que, quando Morricone escreveu a música para a missa em honra do Papa Francisco apresentada na Chiesa del Gesù em 2015, falou dela com profundo entusiasmo, mas quase certo de ser o momento de um ponto final na sua carreira.

Todavia, a sua luminosidade já tinha ultrapassado os limites, indo a mais pontos do universo com a sua extraordinária assinatura. 

Ennio Morricone e a Sétima Arte: a árvore e o musgo.

 

Captava em algumas linhas musicais a essência de um filme. 

Como não recordar Cinema Paraíso
 do cineasta italiano Giuseppe Tornatore, extraordinário marco da história do cinema? 


Com este filme e nele e por ele a música de Ennio, naquele  tudo existir, um aprender a amar. 

Filme e música para toda a vida. Atalho mais claro à via do coração. Da oração. 

Os beijos – cenas que o padre da vila mandava cortar - que nos fazem chorar e sorrir neste filme, esclarecidos pela música que tudo faz renascer em entendimento e doçura, chegam ao encontro dos nossos olhos, e, um nó, em nós, num mundo de sentimento especial e de saudade, leva a que a terra-argila, se deixe fechar na nossa mão. 

Com Ennio Morricone, a música envolveu-se por via do cinema na cultura a uma escala de universo erudito e popular.

Magia!


Teresa Bracinha Vieira

ALDIR BLANC: ATÉ SEMPRE!

 

A noite de 26 de abril foi a mais dolorosa desde o seu internamento com Covid 19.

 

E assim foi chegando o seu momento do tempo final do mundo. Que enfim, receba este nosso adeus, num até sempre!

 

Aldir, compositor, escritor, formado em Medicina, consagrou-se como “ourives do palavreado” por Dorival Caymmi. É também um dos compositores mais gravados por Elis Regina.

 

Em 2006 publicou o livro "Rua dos Artistas e transversais" pela chancela da Agir. Neste livro reuniram-se todas as suas inúmeras crónicas.

 

Aldir Blanc foi um homem à frente do seu tempo, corajoso, tudo denunciando, procurando ater-se ao significado da linguagem das ruas. Nunca viveu à sombra do medo de colocar o dedo nas feridas, mesmo sob condições muito adversas. Agora com as novas ameaças à democracia no país de Aldir Blanc, quando ele fez 70 anos disse, numa entrevista:

 

Eu vivo de adiantamentos, empréstimos e tal. Mas há muito canalha com casa em Búzios construída com os meus direitos de autor."

 

E noutra altura:

 

Quando uma escola de samba vence subvencionada pela mais antiga ditadura africana, o esquema todo está podre. Pode ser que a rua ajude, mas desconfio que não será fácil porque, como se viu recentemente em política, tudo é manipulado.

 

Amante do jazz, os seus favoritos, Duke Ellington, Coltrane e Mingus, nunca serão esquecidos nas horas de compor. Autor de tantos clássicos como “Mestre-sala dos Mares” ou “O Bêbado e o Equilibrista” Aldir está para sempre entre nós!

 

Aldir Blanc, verdadeiro património brasileiro, aos 73 anos, tem vivido num profundo e sabido desconforto material. Aldir, sempre tão lúcido, lembremos que o lema dele tem sido "colocar no mesmo barco realidade e poesia, rindo da própria agonia".

 

Lê-se que os seus amigos e familiares “fizeram uma vaquinha” para o ajudar nestes tempos de doença a fim de poder ser transferido para um outro hospital mais preparado para Covid 19. Solicitavam qualquer doação de qualquer quantia que junta a outra o pudessem ajudar.

 

Ouvi na TSF que há tempos, ele teria sublinhado deste modo, o facto de ter feito medicina e de se ter especializado em psiquiatria:

 

"Eu talvez tenha feito boa psiquiatria na época porque eu era, antes, músico, percussionista e letrista".

 

E se não como explicar a letra “Resposta ao Tempo” de Aldir Blanc?

 

"Resposta ao Tempo"

Batidas na porta da frente
É o tempo
Eu bebo um pouquinho pra ter
Argumento
Mas fico sem jeito, calado
Ele ri
Ele zomba do quanto eu chorei
Porque sabe passar

E eu não sei

Num dia azul de verão sinto vento
Há folhas no meu coração é o tempo
Recordo um amor que eu perdi
Ele ri
Diz que somos iguais
Se eu notei
Pois não sabe ficar
E eu também não sei

E gira em volta de mim
Sussurra que apaga os caminhos
Que amores terminam no escuro
Sozinhos

Respondo que ele aprisiona
Eu liberto
Que ele adormece as paixões
E eu desperto
E o tempo se rói com inveja
De mim
Me vigia querendo aprender
Como eu morro de amor
Pra tentar reviver

No fundo é uma eterna criança
Que não soube amadurecer
Eu posso, ele não vai poder
Me esquecer

 

“Resposta ao tempo”, um clássico, nunca não parou de atrair grandes vozes, como Milton NascimentoLeila PinheiroSimone e Fafá de Belém.

 

E eis um mundo que muitos conhecem:

Um mundo mesmo

 

Cristovão Bastos / Chico Buarque / Paulo César Pinheiro /
Paulinho da Viola / Abel Silva / Elton Medeiros

 

Edu Lobo ou Paulinho da Viola atrevo-me a dizer, que todos em força de espírito pediriam aos deuses que o apelo fosse até à sua cama de hospital e a canção fosse

Me Dá A Penúltima

Eu gosto quando alvorece
Porque parece que está anoitecendo
E gost quando anoitece,que só vendo
Porque penso que alvorece
E então parece que eu pude
Mais uma vez,outra noite,
Reviver a juventude (…)

 

 

Aldir, que contigo também aprendi o quanto sempre estive atraída por um ponto distante, íman à Bossa Nova também no Canecão.

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Há mulheres cuja voz é perturbadora e profunda como o tempo.

 

Tentávamos seguir o poder que nos sonhos nos tinha sido conferido pela música celta. Música também de Portugal, da Escócia, da Galiza, da Irlanda, música igualmente improvisada por trovadores; música que utiliza flautas e harpas e pianos e as línguas locais nas letras das músicas.

 

Sem que compreendêssemos porquê, sabíamos que iriamos encontrar por entre aquela escuridão, o predestinar da voz de Loreena McKennitt.

 

Era Primavera fria e no céu daquela noite só uma brecha de lua se deixava desvendar.

 

Seguíamos pelas ruas desertas procurando ouvir o rumo da voz desejada.

 

Os nossos olhos diziam a surpresa do nada no que era o tudo daquela noite sem sombras.

 

Todavia, caminhávamos, caminhávamos sem supor que a bússola dos nossos passos nos levaria a um largo imenso alumiado por lanternas suspensas das árvores.

 

De repente, no centro do ar de uma clareira, ao piano, uma mulher dona de magia, cuja voz de tão bela, de tão perturbadora, de tão profunda, nos seduzia, enquanto nós, agora abraçados, nos recordávamos termos dito um ao outro antes das trevas:

 

Till you come to me 

 

 
Teresa Bracinha Vieira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

Minha Princesa de mim:

 

   O blogue do CNC entendeu que e reedição da carta que segue anexa à presente - e foi escrita há uns anos, e por ele publicada a 2 de agosto de 2015, quando eu, feito heterónimo, redigia correspondência de um tio meu para outra Princesa, isto é, uma Princesa dele  -  poderia ser um complemento de leitura a uma crónica do Professor Anselmo Borges, publicada, no Diário de Notícias e no mesmo blogue, a 12 e 13 do corrente, intitulada A Pena de Morte e o Inferno.  

                                                               

   Acontece que deparei com os textos que acima refiro, em certo dia desta semana (2ª de novembro de 2019) que me dera umas horas para escutar o oratório The Dream of Gerontius, de Edward Elgar, magnífica peça musical composta para um texto escrito pelo cardeal John Henry Newman, lá para finais do século XIX. O registo de que disponho deve-se, além dos três solistas (a mezzo Catherine Wyn-Rogers, o tenor Andrew Staples e o barítono Thomas Hampson), ao Staatsopernchor Berlin e ao RIAS Kammerchor, todos com a Staatskapelle Berlin, sob a direção de Daniel Barenboim. Não sei porquê - o que, aliás, me sucede com frequência -, talvez pela força da música, penseissenti a peça inteira e todos os momentos em que me envolveu, como uma e poderosa mensagem, a dizer que o valor divino do humano nos leva a celebrar a nossa vida como inesgotável oportunidade de renovação, como contínuo convite a uma conversão que sempre nos surge a ser destino nosso.

 

   Por isso mesmo há tantas maneiras de afirmá-lo e, todavia, o que diz o japonês Kenzaburo Oe, o anglo católico cardeal Newman, o tio meu heterónimo e o douto filósofo Anselmo Borges me parece indivisível na sua própria simplicidade: a vida humana, ela própria, é a quintessência da sua dignidade que se consubstancia nessa mesma vida. Nos escritos vários que nestes meus textos vou referindo ou citando, a consideração da vida humana pressupõe sempre pensarsentir que, independentemente das fraquezas e faltas de cada um, do maior ou menor poder coercivo de qualquer circunstância, a dignidade divina dessa mesma vida lhe é inata e inalienável. No Sonho de Gerôncio, ela própria é colocada já numa circunstância post mortem, em que a sua alma canta a conversão final - a pura, misericordiosa graça - como destino finalmente cumprido. Deixo-te o original inglês da lírica de Newman, acompanhado de tradução minha, feita para esta carta, apenas com alguma preocupação com encontrar palavras que nos ajudassem a meditar na nossa língua... Talvez por me ter lembrado de que me ditar poderia querer significar dizer-me, a mim mesmo, as palavras que iluminam.

 

   O sonho de Gerôncio é uma experiência onírica às portas da morte, uma vida que se redescobre na outra margem da corrente de Caronte - como se morrer fosse acordar de novo e nenhuma outra esperança ou simples expectativa pudesse ter sentido, além do cumprimento da promessa inicial da vida como destino. Atentar contra uma vida humana, seja como for, é apenas soberba loucura. Qualquer vida está recolhida no segredo de Deus.

 

   A abrir a parte segunda do oratório, a alma de Gerôncio canta:   

 

I went to sleep and now I am refreshed,
A strange refreshment : for I feel in me 
An inexpressive lightness, and a sense
Of freedom, as I were at length myself
And never had been before. How still it is!
I hear no more the busy beat of time,
No, nor my fluttering breath, nor struggling pulse;
Nor does one moment differ from the next
This silence pours a solitariness
Into the very essence of my soul;
And the deep rest, so soothing and so sweet, 
Hath something too of sternness and of pain.

 
Another marvel: someone has me fast 
Within his ample palm; 
A uniform
And gentle pressure tells me I am not
Selfmoving, but borne forward on my way.
And hark! I hear a singing ; yet in sooth
I cannot of that music rightly say  
Whether I hear, or touch, or taste the tones.                         
Oh, what a heart subdoing melody!

 

Fui dormir, dormi, e fiquei fresco,
Com bem estranha frescura: pois então me senti
Tão indizivelmente leve e livre  
Que nem de me cuidar soía,

Como dantes. Mágico silêncio este!
Já não ouço o reincidente bater do tempo,
Nem o meu respirar vibrante  e agitado pulso;
Já nenhum momento é diferente do próximo.
Este silêncio derrama soledade
Na quintessência da minha alma.
E a repouso tão carinhoso e doce
Não falta severidade e pena.


Maravilha nova: alguém me agasalha

Na palma da sua mão;
Uma pressão
Uniforme e gentil diz-me que não vim por mim
Mas que, a caminho, me trouxeram para     aqui.
Escutai bem! Ouço cantar; mas, na verdade,
De tal música ao certo não sei dizer 
Se a ouço, toco ou provo os tons.
É só melodia que subjuga o coração!

 

   Tal como, tantas vezes, no decurso desta vida, nos vemos perdidos, assim talvez seja ao descobrirmo-nos do lado de lá. Mas algo nos dirá que não chegámos ali por nossa auto moção, e que uma qualquer música, inaudita ainda, nos encherá e guiará o coração.

 

Camilo Maria

                

PS.- Queres então abrir o texto que partilho?

 

Camilo Martins de Oliveira

CARTAS NOVAS À PRINCESA DE MIM

 

  Minha Princesa de mim:

 

    Já que tanto gostei de escutar obras do londrino Richard Jones, morto em 1744, sem data de nascimento conhecida, nem muito mais da sua vida, fui ao meu precioso The New Grove Dictionary of Music and Musicians, em vinte grossos (e pesados) volumes, editado em 1980 pela Macmillan, Londres, onde encontrei, na página 702 do nono volume, o artigo referente ao "nosso" compositor, redigido por Stoddard Lincoln, que confirma saber-se apenas que Jones terá nascido por finais do século XVII: All that is known of his life is that he succeeded Stefano Carbonelli as the leader of the orchestra at Drury Lane about 1730, and that he was succeeded in turn by one of his pupils, Michael Festing, and by Richard Clarke. An announcement of his death is found in the Daily Advertiser of 20 January 1744.

 

   Aprendi um pouco mais sobre o compositor, através de comentários à sua obra, dos quais ressalto o trecho que agora para ti traduzo, ao pensarsentir como pode um artista, seja ele um misfit ou desadaptado, soberanamente entender a sua (e nossa) herança cultural e, depois, dizer-nos muito mais do que os nossos ouvidos tenham escutado ou os nossos olhos enxergado:

 

   É evidente para quem examinar a sua música para violino que ele terá sido um excelentíssimo executante desse instrumento. Cheia de duplas pausas, largos intervalos, padrões de cruzamentos de cordas e ornamentações florais, está escrita num idioma técnico extremamente avançado para o seu tempo. Igual carácter violinístico se encontra na sua música para cravo, e com frequência temos a impressão de estar a tocar uma transcrição de qualquer concerto grosso de Corelli ou Vivaldi pelos acentuados contrastes que implica a diferenciação entre "solo" e "tutti". Apesar do estilo de Jones ser essencialmente italiano, é extraordinário pela sua originalidade. A música é ritmicamente vigorosa, são ricas as harmonias e largas as melodias, caracterizadas por cadências inesperadas e frequentes mudanças de rumo...

 

   Em 1757, treze anos após a morte de Richard Jones, nascia Lady Georgiana Spencer, numa família a que também, mais tarde, e noutro século, pertenceriam, quer Winston Churchill, quer Diana Spencer, ou Lady Di, princesa de Gales. Georgiana tornar-se-ia, pelo casamento com o 5º do título, Duquesa de Devonshire, e, por suas paixões - amorosas e outras - uma figura emblemática do século XVIII inglês. Aconselho-te, Princesa de mim, a sua biografia por Amanda Foreman, publicada pela Harper Collins, Londres, em 1998, que me ajudou a familiarizar-me com a Inglaterra aristocrática, cultural e política do tempo. Mas, para nada te esconder, confesso que me cativou sobretudo a personalidade contrastante de Georgiana Spencer: podia ser caprichosa e quebrar louça, mas nunca deixou de admirar e amar a sua amiga Lady Elisabeth (Bess) Foster, mesmo enquanto esta foi amante do duque seu marido. "My dear Bess, do you hear the voice of my heart crying to you? Do you feel what is for me to be separated from you...? Mandaram os fados que, com exceção, talvez, do conde Charles Grey - do qual teve a sua única filha ilegítima, Eliza Courtney, e com quem teve de romper, por imposição do duque seu marido, que lhe deu a escolher entre o amante e os seus próprios filhos - os seus amores foram todos casos de sofrimento e desgraça. Mas é-me difícil não admirar a beleza, não só de feições, mas de um olhar e uma expressão de afirmação determinada, da mulher que Thomas Gainsborough tão bem retratou. E é igualmente esta biografia, escrita por Amanda Foreman dois séculos mais tarde, um belo retrato de uma mulher em tempos passados. Creio que será a literatura histórica anglo-saxónica a maior cultivadora da biografia como arte de melhor se entenderem tempos idos através de um olhar perscrutador de personagens que, talvez por serem pessoas humanas, como que nos dão a mão para um passeio mais próximo da vida então partilhada.

 

    A minha carta seguinte, Princesa de mim, retoma o fio da meada desta. Mas até lá deixa-me explicar-te por que é que esta minha lembrança de Georgiana Spencer me levou a reler The Dance to the Music of Time, escrito, já no século XX, por Anthony Powell, livro de que te falarei nessa próxima carta. Muito simplesmente te digo que frequentemente me acontece pensarsentir as possíveis razões que levaram o Gaëtan, meu irmão - e, contrariamente a mim, que sou canhoto (não necessariamente sinistro), destro de nascença - a desenhar com a mão esquerda. Seria realmente a sageza tantas vezes invocada de querer que o gesto do carvão sobre o papel não saísse espontâneo, mas antes obedecesse a um reflexo mentalmente controlado? A partir daqui, refleti eu nas razões que nos levam a suspeitar ou mesmo apontar qualquer traço autobiográfico em textos de ficcionistas. Será que qualquer analogia ou coincidência entre autor e personagem - ou, tão somente, circunstâncias de vida - necessariamente marca tal intenção ou apenas descuidada inconfidência? Antes, não poderá, pelo contrário, um autor procurar desenhar ou escrever o que crê diferente ou mesmo oposto? Ainda que o faça, não enquanto poeta fingidor e pessoano, mas pelo rigor mental que pretende? Dou a palavra, agora, ao início do capítulo 2 do 1º volume de The Dance to the Music of Time (são doze volumes). Vais gostar, traduzo:

 

   Não é fácil - aliás, talvez nem seja desejável - julgar os outros por critérios uniformes.  Um comportamento odioso, mesmo inaceitável, de uma pessoa poderá ser perfeitamente tolerável noutra; princípios de conduta aparentemente indispensáveis serão relaxados na prática - o que até pode ser arriscado - para bem daqueles cuja natureza pareça exigir tais medidas excecionais. Eis uma das dificuldades com que deparamos ao lançar no papel a condição humana, e assim sofremos uma perplexidade que de facto justifica que no drama shakespeariano a comédia alterne com a tragédia: assim, certas personagens e certas ações apenas se podem conceber em termos que só a elas se aplicam, independentemente das consequências. No palco, todavia, as máscaras correspondem a certo tipos de caracteres; na vida de todos os dias, os actores desempenham o seu papel sem contudo se preocuparem com o propósito da cena, nem das palavras proferidas pelo resto da distribuição; daí resulta uma tendência geral a levar tudo para o nível da farsa, mesmo tratando-se de um tema mais sério. Esse menos prezo das unidades não pode ser admitido na vida humana, apesar de existirem momentos em que a observação atenta revela, desta ou daquela maneira, que os diferentes elementos já não são, no fim da peça, tão irreconciliáveis quanto pudéssemos imaginar durante o 1º ato.

 

Camilo Maria

 

Camilo Martins de Oliveira

JOÃO GILBERTO

 

A UNESCO considerou, que a morte de João Gilberto "é uma perda para o património cultural”


Não chega de saudade não! Não chegará nunca! João Gilberto e seu Violão ou o azul num frente a frente.


Vai minha tristeza

E diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer


Chega de saudade

A realidade é que sem ela não há paz
Não há beleza, é só tristeza e melancolia
Que não sai de mim, não sai de mim, não sai

(…)


“Chega de Saudade”, escrita por Tom Jobim e Vinícius de Moraes, foi gravada por João Gilberto, em 1958.

O cantor e compositor, considerado o precursor do género musical Bossa Nova e grande responsável pela sua disseminação pelo mundo, vivia arruinado em miserabilidade e solidão no Rio de Janeiro. Assim li hoje.


E diz-se que os seus olhos nunca choraram pois apenas olhavam um para o outro.

Caetano afirmou sempre
que qualquer músico brasileiro pós-1959 (há quem chegue até nos Beatles) foi reinventado por João Gilberto. A sua experiência alterou de forma irreversível nosso DNA musical.


Creio João Gilberto, que viveste sempre por um projeto de primavera com as horas absolutamente soltas pelas notas que teus dedos imprimiram nas cordas do teu violão: esse que tão bem conhecia teu saber antigo de fogo duplo. E tu, tempo que nunca se deteve, imortalizaste em nós as canções que nos fotografaram o coração. Tu, testemunha da condição natural do poeta: consciência de que o rio vital era por ali.



Álbum completo 2019 - João Gilberto Melhores canções de todos os tempos.

 

Teresa Bracinha Vieira