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Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

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A VIDA DOS LIVROS

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   De 5 a 11 de setembro de 2022

 

"Agosto Azul" (1904) de Manuel Teixeira-Gomes (1860-1941) é uma obra-prima na qual encontramos as extraordinárias qualidades literárias e estilísticas do seu autor. A sua leitura permite-nos usufruir virtudes artísticas únicas, pelas quais ganhamos com melhor conhecimento de Portugal, na sua beleza e na riqueza da nossa identidade, que atingem a plenitude da qualidade.

 

Manuel Teixeira Gomes _ a vida dos livros CNC.png

 

AS CORES MÁGICAS DO ALGARVE

Continuo com os livros. Vim à Feira do Livro, para celebrar sessenta anos dos Clássicos da Fundação Gulbenkian – como sinal de que os grandes textos sobrevivem para além dos episódios passageiros. Mas trouxe nos olhos as cores mágicas do mar do Algarve e os ecos das palavras de Teixeira-Gomes. Ainda é Agosto, como recordei com Nuno Júdice, quando nos encontrámos. E releio. “O calor abateu com o declinar do Sol que desaparece quando aproamos à barra. Como se extingue o braseiro no vasto disco de bronze amarelo assim se afogou o Sol em cinzas ao resvalar no polido oiro pálido do céu. Descobre-se a curva inteira da baía; mas a atmosfera perde a sua jubilosa limpidez, satura-se a humidade que a repassa de tons cetíneos e esfuma-se a poente de puídas cambraias arroxadas. A superfície do mar embebe-se de violeta, nas restingas da barra, a água rola espumas de arco-íris. O ar arrefece sem que bafeje o mais ténue sopro de arejo”.

 

Como esquecer estas palavras inapagáveis numa paisagem às vezes tão distraidamente olhada por tantos forasteiros. Desde o azul cobalto que avisto da minha janela ao roxo sombrio que faz realçar o “azul-verdoso” dos campos, continuo a recordar a descrição sentida. “A luz parece morrer numa atonia de pérola sem brilho; mas à revivescência do crepúsculo forra-se inesperadamente o horizonte do purpúreo damasco-escuro lavrado a fogo. Nesse plano ardente as altas serras do Algarve, que fecham a bacia do rio, ampliam-se e endurecem tornadas em maciço vidro fosco. A noite cresce do oriente com asas tenebrosas de morcego; esvai-se o crepúsculo e a escuridão cristaliza”. Avizinha-se a vila. Olham-se os “retalhos de papel furado por luzes cujos trémulos reflexos penetram profundamente no coração da água. Suspiram as estrelas no cristal negro do céu”. Estamos perante uma das invocações mais belas da literatura e da língua portuguesas, saída da oficina magistral de um artista espontâneo e cultivado. E nesse barlavento é o Algarve todo que se encontra, a ilustrar a vida, a memória, a paisagem. Que é a paisagem senão a expressão do encontro entre a vida e a humanidade?  Ou não estivéssemos na convergência do Mediterrâneo e do Atlântico, ou, se quisermos, no mediterrânico atlântico – que Teixeira-Gomes não cessaria de recordar até aos últimos dias da sua vida em Bougie.

 

PATRIMÓNIO E CULTURA EM PLENO

Tenho insistido nesta noção ampla de património e de cultura, envolvendo a relação das pessoas com o meio natural, bem como a compreensão da arte como capacidade de olhar e entender o mundo e a vida com olhos de ver. É a vida que importa e a língua como consequência natural dessa vitalidade. E nas palavras que lembrámos há um constante vai-e-vem entre o que o artista vê e sente e a transição de um dia glorioso que a pouco e pouco se desvanece na imersão da noite, no magnífico céu estrelado que nos projeta para uma dimensão desconhecida que a cultura e a arte revelam. E regresso a Manuel Teixeira-Gomes e ao seu “Agosto Azul”, a que não me canso de voltar. Desconfiado das revoluções artísticas, o mestre prefere salientar a vitalidade das metamorfoses que a cada passo encontramos: “Cuido até que um talento pouco literário pode ser mais proveitoso à riqueza da língua do que o mais poderoso e versado humanista. Não faltam exemplos históricos de línguas empobrecidas por excesso de claridade e ressecadas à inclemência dos preceitos infrangíveis”, mas ganhas por uma ampla “gama de meios-tons, onde a cor se conjuga ao sentimento”, os quais, “alargando a vida, sugerem sensações inefáveis”. E eis o maior dos elogios à língua e à literatura, à criação e à cultura como modo ético de melhor nos fazermos compreender. É a palavra viva que importa.

 

Guilherme d'Oliveira Martins

 

 

 

AGOSTO AZUL…

CNC Diário de Agosto _ dia 31.jpg

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO (XXXI) - 31 de agosto de 2017

 


Chegados ao dia 31, devemos invocar o grande escritor português do mês de Agosto – que é Manuel Teixeira Gomes.

 

Agosto Azul – é uma referência inesquecível, que invoca o Algarve, o Sul, o Sol, o Mediterrâneo. Sim, porque Portugal é fruto do casamento marítimo do Mediterrâneo com o Atlântico. Daí o Promontório Sagrado, que une as duas extraordinárias vocações e influências. E de Teixeira Gomes, o algarvio que foi Embaixador, escritor, Presidente da República, referência cívica devemos lembrar um pequeno retrato que nos deixou:

 

«Fiz-me negociante, ganhei bastante dinheiro e durante quase vinte anos (1890-1910) viajei, passando em Portugal poucos meses. Montei a vida de forma que na região compreendida pelo norte da França, a Bélgica e a Holanda, onde vendia os produtos do Algarve, levava quatro ou cinco meses, ia a casa liquidar contas, e depois nos cinco meses restantes, livre e despreocupado, metia-me no Mediterrâneo, cujas costas visitei por assim dizer passo a passo».

 

De tal modo foi apaixonado do Mediterrâneo que acabou seus dias em Bougie, lembrando no azul-cobalto do mar o seu Algarve de sempre… E a Norberto Lopes, confessará como é o seu dia. E descobrimos como são diferentes os hábitos desse tempo. E a vida frugal do escritor impressiona-nos…

 

«Levanto-me às quatro da manhã. Preparo eu mesmo, no quarto, o meu almoço. São as melhores horas do dia, aquelas em que ainda posso fazer alguma coisa: ler, escrever. Ao meio-dia, janto. Às duas e meia, saio para ir ao correio. Às quatro, tomo um chá de tília – e em seguida recolho-me. Creio que é, em parte, devido a este regime alimentar que me vou aguentando. Além disso, tenho as cartas, os artigos, os livros, é isto que me prende à vida».

 

Ah! Como se lembra a sociedade rural de antanho – o almoço ao alvorecer, a janta ao meio-dia, e, por fim, a merenda e a ceia… Como mudou tudo, por causa da eletricidade e da possibilidade de termos luz durante mais tempo e não apenas dependente do irmão sol…

 

 

 

 

 

DIÁRIO DE AGOSTO
por Guilherme d'Oliveira Martins