Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

Blogue do Centro Nacional de Cultura

Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

10. OVER FLOW - UM EXCESSO FLUTUANTE E TRANSBORDANTE

CENA MARÍTIMA DE PESADELO AMBIENTAL GLOBAL E NACIONAL  

 

“Tendo em conta a relação de proximidade do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), com o rio e o mar, que desagua logo ali, achei que talvez fosse uma oportunidade interessante olhar para este planeta de plástico em que vivemos, procurar uma perspetiva crítica”.

 

Palavras do artista japonês Tadashi Kawamata, que o MAAT, em Lisboa, convidou para a sua primeira exposição em Portugal, que ocupa a sala principal do museu, a Galeria Oval, abordando um dos mais graves problemas ambientais do nosso planeta, o plástico, numa instalação submersa onde os detritos plásticos dos oceanos são o foco nuclear.

 

Garrafas, garrafões, bidões, cordas, brinquedos, grades, baldes, vassouras, esfregonas, pás, recipientes de lixo, embalagens de iogurte, de sumos, escovas de dentes, palhinhas, cotonetes, sacos, chinelos, sapatos, peças de automóveis, de barcos, boias, redes e armadilhas de pesca, tudo em plástico, eis os ingredientes, entre outros, que fazem parte desta cena marítima de pesadelo ambiental.

 

São centenas de quilos de detritos plásticos recolhidos à mão em praias portuguesas, lixo produzido em Portugal e em muitos continentes, graças a uma rede de colaborações que se manteve ao longo de um ano de investigação, planeamento e montagem, tendo como resultado final uma malha de cabos cruzados simulando a linha de superfície da água, em que estão suspensos materiais plásticos que materializam uma paisagem náutica e marítima que corporiza uma das mais graves ameaças ambientais que enfrentamos, de momento, na Terra. 

 

Imagem do mundo de hoje, com demasiada produção, demasiado consumo, demasiada massificação, um excesso transbordante, em que o visitante “(…) não só submerge num vasto interior escultórico, como é também convidado a mergulhar na evocação de uma paisagem marítima imaginária onde, como por efeito de uma catástrofe, os seres vivos foram substituídos pelos escombros da civilização humana” (disponível no esboço da exposição no MAAT).   

 

É uma experiência de pura contemplação, vista de cima para baixo, à medida que descemos, gradualmente e num círculo oval, do plano superior de entrada na galeria para o piso inferior, e vista de baixo para cima, numa experiência contemplativa e imersiva a partir de um ponto de observação subaquático, simulando olhar-se para cima do fundo do mar.

 

Eis um excesso excessivo, flutuante e transbordante de material plástico. 

 

Uma embriaguez de plástico com oceanos transformados em caixotes de lixo.

 

Um pesadelo ambiental de lixeira, entulho e poluição marítima que nos acusa e questiona.

 

Sendo o plástico um material que dura para sempre, em vez de desaparecer, acumula-se, parte-se em pedaços cada vez mais pequenos, em micropartículas, que entram na corrente sanguínea dos animais e, tantas vezes, por meio destes, nas pessoas.

 

E sendo o mar o maior ecossistema da Terra e a sua principal garantia de habitabilidade, produzindo quase metade do oxigénio que se respira e absorvendo uma percentagem significativa do dióxido de carbono que emitimos, melhor se compreende - dizem os especialistas - que em nenhum sistema natural o impacto do plástico é tão danoso quanto no mar.   

 

De uma descoberta inovadora e revolucionária, flexível e versátil, de sentido democrático e garante de uma acessibilidade universal, o plástico tornou-se, com o seu excesso massificador e transbordante, uma força destrutiva e um pesadelo do meio ambiente, com especial enfoque no mar.

 

Calcula-se que haja, neste momento, 150 milhões de toneladas de plástico no mar, prevendo-se, se a espiral de produção continuar, que sejam 250 milhões em 2025, uma tonelada de plástico por cada três toneladas de peixe, podendo em 2050 o peso de plástico ser superior ao de peixe, e que apenas 1% das aves marinhas do planeta não terá ingerido plástico nem o terá no seu organismo, acabando por entrar na cadeia alimentar,  à medida que se transformam em “microplásticos”.

 

Toda esta consciência ecológica que nos angustia, interpela e faz pensar, sobressai nesta exposição, sendo de uma pedagogia acutilante e instrutiva, apelando a coisas simples que todos podemos fazer, concluindo:    

 

“Ao longo das últimas décadas acreditámos que o problema do plástico seria possível de resolução através da reciclagem. Hoje sabemos que a melhor maneira de impedir a produção de lixo é fazer com que nada chegue a tornar-se”.   

 

Na Galeria Oval do MAAT, até 1 de abril de 2019 (patente desde 5 de outubro deste ano). 

 

06.11.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

9. NÃO CULPEM NEM SACRALIZEM O MAR (III)

 

Há necessidade de olhar para o mar através do encontro de culturas que é visível na arte, monumentos, religião, costumes e tradições deixados pelo interagir recíproco a partir das primeiras viagens, e em que ressalta, nos nossos dias, a disseminação da língua portuguesa pelos descobrimentos, pela diáspora lusíada, lusófona e contemporânea, pelo seu potencial geoestratégico, o que decorre, em primeiro lugar, de ter sido capaz de atravessar vários espaços geográficos deslocalizados territorialmente e alcançados pelo mar, numa descontinuidade linguística.

 

Se foi o mar, e não a UE nem a continentalidade europeia, que foi essencial para a internacionalização e vanguardismo de uma língua que não é apenas nossa, se é verdade que Portugal só é um país pequeno se lhe retirarmos o mar, tudo aconselha a uma mudança de atitude assente no facto de ser para nós um recurso estratégico, mas também, desde logo, para a Europa e o mundo lusófono, de que somos parte, por direito próprio.

 

Há um mar de oportunidades perdidas, há potencial que tem de se concretizar, há que recolher amostras no âmbito do projeto de extensão da plataforma continental que vai permitir ampliar a área de soberania autorizada pela convenção das Nações Unidas sobre o direito do mar, há que catalogar, compreender, estudar e valorizar os seus recursos naturais, há que navegá-lo e explorá-lo em vez de apenas contemplá-lo. Desde os usos tradicionais como as pescas, construção naval, transportes e turismo, às energias renováveis, indústria eólica, criação de algas para produção de biocombustíveis e biomassa, expansão da aquacultura, exploração offshore de gás e petróleo, fixação de reservas marinhas para preservação da biodiversidade, desenvolvimento da biotecnologia marinha para a indústria farmacêutica, de cosmética e alimentar, extração de novos metais e minerais. Sem esquecer uma governação integrada do mar, onde também estão presentes o ambiente, a ciência, a defesa, a diplomacia, a cultura, incluindo a língua, a literatura e as artes em geral.   

 

Paradoxal e significativo que a cerimónia de assinatura de adesão à CEE tenha ocorrido nos claustros do Mosteiro dos Jerónimos, celebrizando a importância do mar para Portugal, para a Europa e para o mundo e a que demos, via oceano, uma contribuição específica para a globalização planetária.   

 

Sem excluir as coexistências, urge que o mar volte a ter um significado e um valor especial para Portugal.

 

Sem o culpar nem sacralizar.

 

30.10.2018

Joaquim Miguel de Morgado Patrício

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

8. NÃO CULPEM NEM SACRALIZEM O MAR (II) 

 

Mas há quem culpe o mar:       

 

“Mas o mar, o Atlântico, desequilibrou-nos. Ao pé da sedução e do mistério do mar, tudo é relativo. Tudo é pouco. A dificuldade de motivação que os Portugueses têm e a sua dependência do carisma motivador de alguém vêm daí”.

 

“Faz-nos olhar para o fim das coisas sem olhar para o princípio ou para o meio delas”, pelo que “Os Portugueses, de uma forma geral, confundem desejo com vontade, fantasia com ambição, improvisação com genialidade, esforço com método, impunidade com tolerância”.

 

Daí a culpa, em todo o caso, ser do mar e, por contraditório que pareça, “O mar tem sempre razão, diz-nos a nossa identidade”[1].     

 

Ter como caraterísticas duradouras, senão mesmo como carateres intrínsecos dos portugueses, por exemplo, uma alegada dificuldade de motivação, falta de método e incapacidade de planeamento aliada ao talento para improvisar, em consonância com o mistério do mar, que nos atrai e torna difícil distinguir o sonho da realidade, é redutor, simplificando, em demasia, o que é complexo. Tê-las como resultantes do modo de ser português, em que a culpa é do mar, que torna tudo pouco, indiferente e relativo, é esquecer que aquelas são sempre suscetíveis de modificação, em razão de condições culturais, económicas, sociais, ou outras, alterando os nossos carateres comportamentais à medida que se altera a natureza estrutural de tais condições.  

 

Se o mar “desequilibra” na sua imensidão avassaladora e misteriosa, como se justifica que não vingue igual raciocínio, em paralelo ou por analogia, em relação a países como a pequena e rica Dinamarca, com uma única fronteira terrestre (como nós), por sinal com a poderosa Alemanha? E por que não quanto a outros, também confrontados com a relevante componente marítima, realçando o que lhe devem em competitividade, liberdade, individualidade, riqueza e soberania, como Singapura, Japão, Canadá, Islândia, Inglaterra e Estados Unidos? Embora influenciando-nos, nunca foi, nem é, culpando-o que nos redimimos, tornando-nos mais europeus através do desejo de dissolução em espaços mais “civilizados” e “desenvolvidos”, mas antes, e sempre, em conjunção com ele.   

 

Há que afastar tendências para hipostasiar o mar como componente da realidade portuguesa, quer culpando-o ou exaltando-o.   

 

Não é culpando-o através de teorias culpabilizantes, endeusando-o, idolatrando-o ou sacralizando-o, através de teorias míticas e messiânicas sobre o seu inexplicável “mistério” e consequente singularidade e universalidade do povo português, que melhor o compreenderemos como fator essencial da nossa identidade e em termos de estratégia. 

 

Para além de um dos maiores ativos que possuímos, a par da língua, é ainda, à semelhança desta, uma realidade óbvia e consensual, que não se restringe a um interesse nacional claro, evidente, manifesto, permanente e irrenunciável, mas também a uma realidade e a um interesse permanentemente estratégico. 

 

Se o critério é a objetividade, há que não qualificar abusivamente como realidade absoluta, inferior ou ter como culpável algo que o não é, havendo que normalizar o mar, objetivando-o racionalmente. Embora saibamos, pela experiência comum, que também tudo é subjetivo, se tivermos como referência que os nossos conhecimentos e pensamentos são consequência da perceção pessoal de cada um de nós, tornando discutível a mera objetividade como critério total.    

 

23.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício  

 


[1] Pinto Leite, António, Portugal, a culpa é do mar, crónica de imprensa publicada e reunida no livro Qual é o mal?, Sopa de Letras, 1.ª edição, Novembro 2002, pp. 31 a 33. 

 

MEDITANDO E PENSANDO PORTUGAL

 

7. NÃO CULPEM NEM SACRALIZEM O MAR (I)

 

O mar, para nós, portugueses, sempre foi admirado, amado, glorificado, mitificado,   temido e culpabilizado, pela sua presença física avassaladoramente inevitável e ser parte integrante da nossa História e identidade. 

 

Sempre foi, e é, um interesse permanente. Pela sua imutabilidade e irrefutável geografia marítima e situação geográfica de Portugal.

 

Há uma conceção imperialista do mar, assente num discurso habitualmente efusivo, lembrando “o Mundo que os portugueses criaram”, a sua ação “civilizadora”, que viabilizou que o nome de Portugal integre intemporalmente a História Universal.

 

Sem patriotismos exaltados, atente-se nas sugestivas palavras da historiadora inglesa Elaine Sanceau:

 

“Portugal descobriu dois terços da terra (…) basta olhar para um mapa para ver a maravilha de tal feito e reparar na pequena dimensão deste País localizado na periferia ocidental da Europa (…) cuja população andaria, em 1500, por dois milhões de cidadãos (…) que se estendeu por três continentes e dois oceanos, promoveu portos comerciais e construiu fortalezas à volta de África, dominou o oceano Índico desde Moçambique até às Molucas, estabeleceu contactos com a China e o Japão e, no hemisfério ocidental, estava colonizando os imensos espaços do Brasil: impossível, ter-se-á exclamado ao ouvir isto pela primeira vez: obviamente impossível - mas aconteceu”[1].

 

Esta relação instintiva e imemorial, assim contextualizada, foi associada ao Império Português.   

 

Findo o Império, desvaloriza-se e substitui-se a sua presença omnipresente por uma  conceção que o secundariza, passando a ser, no essencial, apenas contemplado e usufruído em termos de lazer, tendo o discurso do mar como passadista e saudosista, que pouco nos vale no presente e servirá no futuro, pois o tempo não volta para trás.

 

É o Portugal terra e raiz, da finisterra ibérica, do regresso às origens, contrário à dura e  não lucrativa aventura em regiões que estão além do nosso mar, o Portugal europeu e europeísta. 

 

Perdido o império colonial, a ausência de interesse pelo mar foi corroborada por um novo e grande desígnio: a adesão e integração na Comunidade Económica Europeia. A reconversão de Portugal é uma opção europeia pela continentalidade, em que a Europa passa a exercer uma atração centrípeta no plano económico, cultural, social, psicológico. As alterações estruturais da nossa economia conduziram a uma maior dependência dos corredores terrestres, nomeadamente do transporte rodoviário, ligadas a uma visão de inserção geoeconómica nas economias europeias, em detrimento do transporte marítimo e da frota mercante nacional. 

 

Se antes virávamos costas à Europa, a começar por Espanha, e apesar de sempre europeus de pleno direito, passámos a virar as costas ao mar, embora uma nação marítima debruçada para o Atlântico.

 

Tido, por muitos, como um anacronismo do passado, e contrário, na sua maritimidade pluricontinental, à continentalidade eurocêntrica da União Europeia, foi desvalorizado, rejeitado e culpabilizado. 

 

Da rejeição das teorias míticas e ideias messiânicas da “salvação da Pátria”, alegadamente retrógadas, seria de esperar, à luz do modernismo que ambicionávamos e ambicionamos, que a adesão europeia não fosse uma nova redenção tão ansiosamente esperada. Mas foi-o. Mesmo que se pense que “O que está errado é que a ideia de Europa nos tenha deslumbrado tão profundamente, ao ponto de acharmos que nos podíamos dar ao luxo de dispensar a nossa geografia, e de nos abstermos de explorar o nosso recurso principal - o mar -, esquecendo-nos do que somos e de onde vimos. O que é pena é que não tenhamos percebido que era (…) nessa nossa ligação com o mar (e através dele com o resto do mundo) que estava o conteúdo mais valioso do nosso contributo para o projeto europeu”[2].

 

Com milhares de quilómetros de costa sobre o oceano e, ao mesmo tempo, uma das maiores zonas económicas exclusivas da Europa, seriam razões suficientes para Portugal ser um país marítimo. Vivendo, em termos económicos e geopolíticos, nas últimas décadas, de costas voltadas para o mar, é um país com mar, mas não é hoje um país marítimo. 

 

À perceção imperialista e passadista, há a necessidade de afirmação de uma conceção do mar ligada a um desenvolvimento sustentável, à preservação da natureza, em comunhão e conjugação de esforços com a ciência, a inovação, a tecnologia, a que acresce à geografia presente, a que se projeta no futuro, através do levantamento e delimitação da sua plataforma continental.  

 

16.10.2018
Joaquim Miguel de Morgado Patrício 

 

 

[1] Palavras citadas e retiradas do livro Direito Internacional do Mar e Temas de Direito Marítimo, de Luís da Costa Diogo e Rui Januário, Áreas Editora, Lisboa 2000, p. 13.

[2] Pitta e Cunha, Tiago, Portugal e o Mar, Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2011, p. 12.

 

CRÓNICA DA CULTURA


    Hopper

 

À Porta do Mar

 

O sótão da linda casa de praia era todo forrado a pinho: tetos, paredes e chãos, portas, postigos e rebordos de claraboias. As camas tinham colchas de chita, as fronhas das almofadas de enfeite e os cortinados que tapavam a área das roupas, eram também de chita. Nas paredes fotografias recortadas das revistas mostravam praias exóticas de palmeiras convidativas e, aos cantos dos quartos, dependuradas junto ao teto esconso, as colunas de som do gira-discos faziam presença. Estas colunas de som não eram mais do que as camas das bonecas com o fundo forrado a chita e exposto como colunas de som, ou ainda alguns legos, montados em retângulo, forrados igualmente a chita, e que cumpriam a mesma função. Ali se viviam parte das férias em reuniões com amigos e escutando-se a Françoise Hardy – sobretudo a canção Mon Amie la Rose, Adamo, ou ainda a canção Rain and Tears que nos levava à lágrima ao canto do olho. Contudo, o silêncio total fazia-se entre nós com o Don´t Let Me Down dos Beatles. Enfim, a era da modernidade não tinha nascido. O mesmo é dizer que a civilização do desejo também não se tinha concluído, ao menos ali dentro de nós.

 

Não recordo que houvesse alguma multiplicação de necessidades o que quereria dizer que o consumo em nós não tinha liderança. A nossa relação com as coisas e com os outros estava estabelecida sem que fosse desassossegada, pelo menos entre amigos, e, não obstante a televisão existir, estávamos sempre melhor no nosso universo mental de afetos, exprimindo-nos em diálogos de amizade, de cumplicidade de namoricos que nos expunham deliciosos mistérios, do que em frente a um ecrã de televisão que apenas aqui e ali, nos proporcionava um impacto de momento, como era o caso da serie Bonanza.

 

Éramos todos muito novos e no entanto surgia e implantava-se uma realidade que iria colocar fim à boa velha sociedade de consumo em que vivíamos. O creme Nivea, sem o notarmos, já era. A difusão de produtos deu lugar em todos nós, a uma estranha reatividade provocada pelo marketing, enquanto forma de nos comunicar a conquista de uma liberdade de muitos e diferentes sótãos, em que se decretava ser a chita, um pano de baixo valor, e a fidelização do nosso bem-estar, devia sentar-se agora à porta da piscina e não à porta do mar. 

 

O produto, o mercado e o consumidor era a nova predominância em trio, sem que chegasse até nós a razão do hiperconsumidor ser um ator a responsabilizar com urgência. Ainda tínhamos pudor de pedir aos nossos pais mais do que nos ofereciam, é certo, todavia o imperativo de olhar para o que não tínhamos, ia-se impondo, ou não fossemos frágeis por excesso, a fim de podermos resistir ao mero empréstimo gratuito de provarmos uma felicidade potencialmente mais recheada do que aquela que sempre vivêramos nos sótãos das nossas alegrias e segredos.

 

Enquanto vai triunfando um capitalismo globalizado, não nos damos conta que passámos a segundo ou terceiro plano de tudo o que é vida. Nascem os turboconsumidores subjugados pelo estatuto social, ausentes da cultura da coluna de som feita com a cama das bonecas. As novas experiências emocionais são infiéis ao próprio tempo que duram, e no seu universo não cabe escutar com emoção Don´t Let Me Down dos Beatles. Tudo é dessincronizado, hiperindividualista, onde moldar o corpo é reorganizar a vida, e, pouco a pouco, este novo espírito insere-se na nossa relação com a família, com a política, com a religião, com a cultura e mesmo com a dimensão do tempo.

 

Quem sabe que as pechinchas do low- cost, ou os pseudo leques de opções que se diz oferecer na atual sociedade, só produzem desequilíbrios de alma, embora os seus seguidores incondicionais encontrem nas farmácias de quem imitam, os comprimidos da felicidade alheia e a tenham como sua. E tudo vale mesmo que as verdades passem a verdadinhas.

 

Na realidade, as festas do nada, as noivas do stress, as ansiedades tão frequentes, o dinheiro cada vez mais preocupação obsessiva, as relações sexuais problemáticas, a gravidez a fazer-se uma batalha para se conquistar, a procura cega da diversão a todo o custo, enfim, como escrevia Aragon «Quem fala de felicidade tem muitas vezes os olhos tristes» e, é, esta frase, cada vez mais o nosso espetáculo ao vivo.

 

E diz-me o aconchego do sótão da casa de praia que nem todo o balanço desta sociedade é apenas negativo como afirmam os seus habituais detratores. Diz-me este sótão que não esqueço, que o individuo continua a viver para algo mais do que o que lhes é passageiro, e ainda assim, este sótão, também deixa claro que não há que fazer o elogio a um regime que gera males infinitos, insucessos educativos, injustiças sociais, pobrezas inauditas, velhices abandonadas e tudo o que carece afinal de um reinventar de vida, e à beira-mar, no mínimo com esse horizonte se deve questionar

virá a humanidade a ser, então, mais feliz?, virá a ouvir uma outra Françoise Hardy – Mon Amie la Rose?

 

 

Teresa Bracinha Vieira

CRÓNICA DA CULTURA

 

Eram seis da manhã quando acordámos nos quartos do sótão que tanto amávamos na nossa casa de praia. A empregada bateu as palmas ao entrar nos nossos quartos totalmente forrados a pinho e salpicados com fotos dos nossos ídolos e gritava

 

Vá meninos se querem ver aquela cor do mar no céu, vamos a sair da cama depressa.

 

E nós os três meio trôpegos de sono vestimo-nos num ápice, e, escadas para que te quero que se faz tarde.

 

Cada um a roer a sua maçã, descemos a ladeira de terra e pedra que dava acesso à praia e ali na areia nos sentámos ao lado do António Lameja, nosso banheiro e salvador, mas que não nos salvava dos banhos gelados a que pelas 11h o nosso pai dava ordem que todos tomássemos.

 

O meu irmão mais velho perguntou-lhe

 

É esta a cor?

 

Não, chiu! é mais daqui a bocadinho, mas estejam calados, pois ela pode fugir.

 

A nossa ansiedade e alegria cresciam à luz de prata daquela manhã em que veríamos a tal cor no mar colada com o céu e que em agosto só naquele dia e hora surgiria.

 

Agora de pé, já, gritou Lameja, olhem bem lá no fundo do horizonte: veem aquele tom amarelo? Aí vem a tal luz que sobe para o céu e se torna azul e branca e que é igual à dos santinhos dos missais que mostram a cor dos milagres.

 

Sai de dentro daquela nuvem lá ao fundo? Perguntei

 

Não menina, essa é uma nuvem que acorda mais tarde e quando se abre, sai por seu pé, bem leve, um pouco do sol, aquele que depois é gordo durante o dia.

 

Mas vejam agora. Olhem.

 

E fixámo-nos todos numa auréola que tomava cor amarela e azul e branca e dela saiam uns traços lindos do mar, erguidos para o céu, ou, do céu descidos para o mar, tudo num abraço de cores e luz esplendorosas.

 

Que lindo, que lindo disse o meu irmão mais novo, agarrando-me os ombros. Aquilo é um milagre ou é a natureza lá do alto que chama o mar e ele sobe sozinho?

 

E o Lameja

 

Ó meninos, não duvidem, aquilo é milagre não veem logo? São focos de luz com vida que se cruzam em mar e céu e dão nesta cor de oiro de pasmarmos. Debaixo das águas os peixes também a veem, e, logo saltam para dentro dos barcos dos pescadores, não sendo precisos anzois ou redes, e fazem-no por tanta beleza terem visto, preferindo morrer logo a seguir a esta hora do dia do mês e do ano e, morrem transformados em oiro! Pronto! Viram? Vá, ide para casa, já viram o segredo.

 

Tiveram muita sorte, podia até chover. Ide, ide tomar o pequeno-almoço.

 

Subimos a ladeira devagar, mas íamos olhando para trás, para o mar e o céu.

 

Que viste mana?

 

Uma borboleta que veio do céu beber agua e tu?

 

Um fantasma bom. Um daqueles que toma conta das aparições desta hora.

 

E tu mano, que achas? Ou antes o que viste tu?

 

Ora eu vi o mundo quando estamos a dormir.

 

Entrámos em casa e a empregada perguntou-nos: que tal? Como foi, meninos?

 

Eu respondi

 

Pois parece que vamos ter peixes de oiro para o almoço. Sabes cozinhá-los?

 

Os de oiro, não.

 

Ainda bem. Devem ser rijos. Mas queres que te conte o que vi?

 

Sim, menina.

 

Pois vi o céu azul vestido de borboleta para esconder que é princesa que namora com o mar àquela hora e abraçam-se e tudo.

 

Com beijos?

 

Claro, com beijos também, acho que é uma hora de intimidades com muitas cores. Nada de especial, mas mesmo assim é muito bom.

 

Jesus Maria! Até estou arrepiada. De fato Nosso Senhor não pertence à raça humana!

 

Teresa Bracinha Vieira

A LÍNGUA PORTUGUESA NO MUNDO

 

XVII - “DA MINHA LÍNGUA VÊ-SE O MAR” 

 

1. Vergílio Ferreira, na cerimónia em que lhe foi atribuído o prémio Europália, em 1991, leu um discurso onde afirma a ligação da língua portuguesa com o mar. Registamos aqui essa emblemática e representativa citação: 


“A alma do meu país teve o tamanho do mundo (…). Uma língua é o lugar donde se vê o mundo, e em que se tratam os limites do nosso pensar e sentir. Da minha língua vê-se o mar. Na minha língua ouve-se o seu rumor, como da dos outros se ouvirá o da floresta ou o silêncio do deserto. Por isso a voz do mar foi em nós a da nossa inquietação. Assim o apelo que vinha dele foi o apelo que ia de nós. E foi nessa consubstanciação que um novo espírito se formou”.                                         

Tentando detetar e interpretar as linhas de força daqui emergentes, podemos concluir que foi viajando, pelo mar e através dele, que se descobriu e descobre a ousadia de Portugal, não se limitando à sua pequenez territorial, aprendendo que o mundo é um conjunto de territórios entrelaçados por oceanos. Sendo um país limitado por terra, por um maior e mais populoso, a ambição possível era o mar. Existindo vontade de crescer, ou ia por mar, no achamento de outras terras e povos desconhecidos, ou abria-se e voltava-se em pleno para a Europa, não lhe virando as costas, pois é também do mar que a vemos. A opção prioritária foi o mar. Não iam sozinhos os intérpretes de tais viagens. Outros viajantes os acompanhavam e ultrapassavam em termos de importância, intemporalidade e longevidade: a cultura, a língua e a religião. Sendo companhia e intérprete permanente de todos os outros, a língua acaba por assumir um lugar primordial, corroborado pelas suas inegáveis consequências na atualidade e em termos estratégicos.

2. O mar, para nós, portugueses, sempre foi, e é, um interesse permanente, pela sua imutabilidade e incontestável geografia marítima e situação geográfica de Portugal. Perdido o império, a ausência de interesse pelo mar foi suprida pelo novo desígnio de adesão e integração na Comunidade Económica Europeia, onde impera uma opção europeia pela continentalidade e em que a Europa passa a exercer uma atração centrípeta no essencial.

Mesmo assim, continuamos a ser uma nação de vocação marítima debruçada para o Atlântico. Onde a omnipresença do mar e da viagem é constante na arte, nos monumentos, na religião, nos costumes e tradições deixados pelo interagir sucessivo a partir das primeiras viagens. Assim como na expressão artística por excelência da nossa língua, ou seja, na literatura portuguesa e lusófona. E em que sobressai, ainda, a disseminação da língua portuguesa na sequência dos descobrimentos, pela diáspora portuguesa, lusófona e contemporânea, pela sua dimensão de mercado e potencial geoestratégico, dado ter sido capaz de atravessar espaços geográficos deslocalizados territorialmente e abraçados pelo mar, numa descontinuidade linguística banhada por vários oceanos e continentes, como transoceânica e intercontinental, enriquecendo-a e miscigenando-a.

Numa consciência e compreensão dos nossos interesses permanentes emergem, como defesa, continuidade e projeção do nosso ser e identidade o mar e a língua portuguesa, reciprocamente sempre interligados, com e pela a adesão à viagem, o que implica uma abertura ao outro, o que é reforçado por se constatar que o mar une todos os países de língua portuguesa.

Se o mar, pela sua natureza e por imperativo geográfico, é insuperável, tendo sempre sido, e continuando a ser, um interesse permanente, já o nosso idioma, embora também tenha, até agora, caraterísticas de permanência, está mais dependente de um ato de vontade nosso, firme e incessante, que podemos continuar a defender, se quisermos, perante toda e qualquer ameaça.

Joaquim Miguel De Morgado Patrício
07 de novembro de 2016
 

Oração ao Mar

 

  o mar, o mar, sempre recomeçado!
     VALÉRY

 

 

Ontem fui ao mar. A este mar das fotografias onde costumo ir com o meu marido. Fui àquele mar de oceano Atlântico que é uma mar cheio, um mar cuja movimentação não pára, um mar que nos abraça para sempre a memória com uma beleza e uma força indizíveis.

Tenho ido ao mar este ano, mas nenhum estava como o de ontem. Entregava-se, provocava-nos, enrolava-nos, fazia ninho connosco quando o mergulhávamos. Não sei dizer o tanto que ele é para mim. Nunca soube. Só queria ter a certeza de que ele não se esquecerá de mim e das horas minhas dentro dele. É que são horas dele e gostaria que o soubesse por ser uma entrega. Sim, por ser uma entrega.

O meu marido ensinou-me em Cabo verde, a “furar” as ondas grandes, e se o meu amor pelo mar já era inseparável de mim, a partir daí, passou a viciar-me num feitiço de paz e turbulência lúcidas, num feitiço de quem me diz coisas que mais ninguém diz ou sabe dizer como eu quereria. Por ele, por graças a ele,  sinto-me menos só nas inúmeras vezes que a vida nos faz só.

Nele viajo por todas as realidades desejadas que o não foram e por todas as alegrias fantásticas que o são. Nele viajo fazendo o transbordo das ondas enquanto chamo o céu à pele do mar e peço que me segure sempre, num até além de maio, e possa eu senti-lo de novo, e ter tempo de emendar naturezas e caminhos de aguarelas que me escaparam nos dias em que vagabundos os meus olhos o não viram.

Do meu mundo, o mar, é muito do que me resta. É para mim o meu grande livro encadernado. Eu e ele, juntos, seremos sempre os autores de inacabadas cartas inéditas, ainda que as dele me sejam entregues por um correio de ar, por ser um modo explícito da verdade subir ao céu.

Esperarei mar. Esperarei ver-te sempre e sentir-te como quem se apoia sem pudor naquela estação da vida que só se percorre de mão dada à tua margem.


Amén!

Tua Teresa

 

Tua Teresa Bracinha Vieira

Agosto 2016