Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Um espaço de encontro e de diálogo, em defesa de uma cultura livre e pluridisciplinar. Estamos certos de que o Centro Nacional de Cultura continuará, como há sete décadas, a dizer que a cultura em Portugal vale a pena!
Por ocasião dos dez anos da sua morte, recordamos a personalidade de Maria Barroso (1925-2015) na biografia escrita por Leonor Xavier (“Um Olhar Sobre a Vida”, Oficina do Livro, 2012), onde a educadora e a cidadã são justamente lembradas.
Maria Barroso e Mário Soares são um símbolo fundamental do pensamento e da prática da democracia no Portugal Moderno. Trata-se de um duo que funcionou sempre como uma equipa em que a coerência e a sensibilidade se associaram na perfeição, em nome de uma atitude humanista como aguilhão capaz de mobilizar os cidadãos para a liberdade e a justiça. Como educadora, Maria Barroso ligou a sua atividade cívica e política à ideia de emancipação pedagógica, uma vez que a função essencial da escola tem a ver com a preparação de jovens para a liberdade e para a responsabilidade de modo que a participação e a representação constituam meios eficazes para a defesa do bem comum. A república escolar de António Sérgio constituía a base do autogoverno democrático que os grandes pedagogos defenderam, ao invés da demagogia e da tentação de cultivar falsas soluções assentes na ilusão dos salvadores providenciais…
Leonor Xavier quando escreveu Um Olhar sobre a Vida de Maria Barroso (Oficina do Livro, 2012) compreendeu-o perfeitamente que a educação, a cultura e a vida cívica se misturam naturalmente na vida da sua biografada. No percurso que analisou com grande cuidado e rigor dá-nos a dimensão de uma personalidade fascinante, com uma vocação própria que se afirmou com qualidades extraordinárias ao longo da vida, como aluna do Conservatório, como estudante da Faculdade de Letras, como artista de eleição do Teatro Nacional, com reconhecimento unanime, e naturalmente como pedagoga, como parlamentar e militante da sociedade civil.
Encontramo-la, nascida numa família algarvia de raiz democrática, com o pai preso e deportado para os Açores. Frequentou o Liceu Dona Filipa de Lencastre e foi aluna do curso de Arte Dramática. Depois de concluir o curso dos liceus no Pedro Nunes, inicia a frequência de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras. David Mourão-Ferreira recorda esses tempos, no Convento de Jesus: “Mal nos apercebíamos da luminosa rede de afetos que ali se ia tecendo”. Tal grupo reunia personalidades que viriam a ser marcantes na cultura portuguesa: Sebastião da Gama. Luís Filipe Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo, Eurico Lisboa, Maria de Lourdes Belchior, Joel Serrão, Helena Cidade Moura. A jovem Maria de Jesus destaca como mestres Vitorino Nemésio, Jacinto do Prado Coelho, Hernâni Cidade, Andrée Crabé Rocha e Virgínia Rau, admirando especialmente Delfim Santos professor da Filosofia Antiga ou Vieira de Almeida na cadeira de Lógica.
Segue escrupulosamente os ensaios no teatro. A mãe acompanha-a e fica à sua espera no camarim, durante as representações noturnas. Estreia-se no Teatro Nacional em 1944 no Auto da Pastora Perdida e da Velha Gaiteira de Santiago Presado. Norberto Lopes fala de “uma promessa radiosa com a qual o teatro português deve contar”. Nos corredores da Faculdade conhece Mário Soares num episódio ligado a uma injustiça de que foi vítima por uma falta inexistente dada pelos compromissos com o teatro. Em maio de 1945, participa na grande manifestação estudantil do final da Guerra em que Mário Soares intervém, mas tem de correr para o ensaio geral no Teatro Nacional. Representava o papel de Elsa, a dactilógrafa, na peça Vidas sem Rumo, com Raul de Carvalho, Paiva Raposo e José Gamboa. Pouco depois, por escolha da própria Amélia Rey Colaço desempenha em Frei Luís de Sousa o papel de Maria de Noronha, ao lado de Palmira Bastos, destacando-se junto do público e dos críticos, pela segurança e pela emoção com que representa. Fernando Fragoso dirá “É um atriz que sobe a olhos vistos. E defendeu-se briosamente envolta num halo de graça e de frescura”.
No tempo do MUD juvenil e do final da Guerra, que exigia abertura democrática, Mário Soares é preso em 1947 e o regime endurece na perseguição aos seus opositores. Maria Barroso anima memoráveis recitais poéticos. Diz poemas como ninguém. São extraordinárias as suas intervenções, começadas em Santarém, que logo alertaram a polícia política. Traz para a praça pública a poesia do Novo Cancioneiro empolgando um público entusiástico. O poema de Álvaro Feijó Nossa Senhora da Apresentação era emblemático – “Aquela que não tem mantos da cor do céu / Aquela que não tem fios nos cabelos”, numa denúncia forte da injustiça, da miséria e da fome. Mas também fazia ouvir as palavras inesquecíveis de Mataram a Tuna, de Manuel da Fonseca – “Ah meus amigos desgraçados, se a vida é curta e a morte certa / despertemos e vamos / eia / vamos fazer qualquer coisa de louco e heroico / como era a Tuna do Zé Jacinto / tocando a marcha Almadanim!”.
No Teatro Nacional, o seu desempenho continua a destacar-se. Robles Monteiro convida-a para protagonizar Benilde ou a Virgem Mãe de José Régio. E este faz-lhe confiança. É um grande sucesso, que entusiasma o próprio autor. Norberto Lopes diz: “Dentre a gente nova (…) permitimo-nos destacar o nome de Maria Barroso, que está em plena curva ascensional de uma carreira brilhante, onde pode vir a ocupar um lugar de primeiro plano, se os fados não a desviarem do caminho florido que tem à sua frente”. O final do texto revelar-se-ia profético, por más razões. A polícia política rondava. Infelizmente, com a terceira prisão de Mário Soares, coincidente com a encenação de Paulina Vestida de Azul, de Joaquim Paço d’Arcos, vem uma terrível decisão. Não poderia continuar a trabalhar no D. Maria II, por uma ordem vinda da polícia e do Ministério da Educação. “Foi um desgosto. Senti que era uma injustiça” – confessa Maria Barroso. Amélia Rey Colaço considera um golpe fatal, que atinge o coração do Teatro.
Ao reler Leonor Xavier, sentimos saudade e gratidão. E não esquecei o dia em que, convidando-a para evocar os Cadernos da Poesia, e sem qualquer preparação, foi possível ouvir a sua voz fantástica a recordar a grande poesia como voz de liberdade. “Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos. / Porque os outros calculam mas tu não” – como disse Sophia.
Recordamos hoje o primeiro centenário do nascimento de Maria Barroso.
No centenário do nascimento de Maria Barroso, importa lembrar um tandem com uma importância muito grande quer na preparação da democracia portuguesa, quer na sua institucionalização e consolidação. Leonor Xavier quando escreveu Um Olhar sobre a Vida de Maria Barroso (Oficina do Livro, 2012) compreendeu-o perfeitamente. Esse tandem associou Mário Soares e Maria Barroso. No percurso que analisou com grande cuidado e rigor dá-nos a dimensão da cidadã, com uma vocação própria, que se afirma com uma singular qualidade, como aluna do Conservatório, como estudante da Faculdade de Letras, como prometedora artista do Teatro Nacional, com reconhecimento unanime, e ainda como pedagoga e como parlamentar e militante da sociedade civil. Encontramo-la nascida numa família algarvia de raiz democrática, com o pai preso e deportado para os Açores. Frequenta o Liceu Dona Filipa de Lencastre e é aluna do curso de Arte Dramática. Depois de concluir o curso dos liceus no Pedro Nunes, inicia a frequência de Histórico-Filosóficas na Faculdade de Letras. David Mourão-Ferreira recorda esses tempos, no Convento de Jesus: “Mal nos apercebíamos da luminosa rede de afetos que ali se ia tecendo”. Tal grupo reunia personalidades que viriam a ser marcantes na cultura portuguesa: Sebastião da Gama. Luís Filipe Lindley Cintra, Matilde Rosa Araújo, Eurico Lisboa, Maria de Lourdes Belchior, Joel Serrão, Helena Cidade Moura. A jovem destaca como mestres Vitorino Nemésio, Jacinto do Prado Coelho, Hernâni Cidade, Andrée Crabé Rocha e Virgínia Rau. Maria de Jesus admira especialmente Delfim Santos professor da Filosofia Antiga ou Vieira de Almeida na cadeira de Lógica.
Vai às aulas da parte da manhã, vem a casa almoçar e segue para os ensaios no teatro. A mãe acompanha-a no caminho e fica à sua espera no camarim, durante as representações noturnas. Estreia-se no Teatro Nacional em 1944 no Auto da Pastora Perdida e da Velha Gaiteira de Santiago Presado. Norberto Lopes fala de “uma promessa radiosa com a qual o teatro português deve contar”. E é nos corredores da Faculdade que conhece Mário Soares num episódio ligado a uma injustiça de que foi vítima, com uma falta inexistente dada pelos compromissos com o teatro. Em maio de 1945, participa na grande manifestação estudantil do final da Guerra em que Mário Soares intervém. Maria Barroso não assiste até ao fim, pois tem de correr para o ensaio geral no Teatro Nacional. Representava o papel de Elsa, a dactilógrafa, na peça Vidas sem Rumo, com Raul de Carvalho, Paiva Raposo e José Gamboa. Pouco depois, por escolha de Amélia Rey Colaço desempenha no Frei Luís de Sousa o papel de Maria de Noronha, ao lado de Palmira Bastos, destacando-se junto do público e dos críticos, pela segurança e pela emoção com que representa. Fernando Fragoso dirá “É um atriz que sobe a olhos vistos. E defendeu-se briosamente envolta num halo de graça e de frescura”. Mário Soares é preso em 1947, o regime endurece na perseguição dos seus opositores. É o tempo do MUD juvenil e o final da Guerra exigia a abertura democrática. Maria de Jesus envolve-se na ação política em memoráveis recitais poéticos. Diz poesia como ninguém mais. São extraordinárias as suas aparições, começadas em Santarém, que alertaram a polícia política. Traz para a praça pública a poesia do Novo Cancioneiro empolgando um público entusiástico. O poema de Álvaro Feijó Nossa Senhora da Apresentação era emblemático – “Aquela que não tem mantos da cor do céu / Aquela que não tem fios nos cabelos”, como denúncia da injustiça, da miséria e da fome. Mas também fazia ouvir as palavras fortes de Mataram a Tuna, de Manuel da Fonseca – “Ah meus amigos desgraçados, se a vida é curta e a morte certa / despertemos e vamos / eia / vamos fazer qualquer coisa de louco e heroico / como era a Tuna do Zé Jacinto / tocando a marcha Almadanim!”. E havia ainda Dois poemas de Amor na Hora Triste, de Álvaro Feijó, Chácara das Bruxas Dançando, de Carlos de Oliveira, Elegia ao Companheiro Morto, de Mário Dionísio, Mar Atlântico de Manuel da Fonseca e Prometeu Agrilhoado, de Joaquim Namorado. A voz compassada e firme não podia deixar indiferentes os que a ouviam. Ecoa no nosso ouvido a lembrança da sua voz!
No Teatro Nacional, o seu desempenho continua a destacar-se. Robles Monteiro convida-a para protagonizar Benilde ou a Virgem Mãe de José Régio. E este faz confiança. É um grande sucesso, que entusiasma o próprio Régio. Logo a seguir representa Retablo de Maravillas em comemoração do centenário de Cervantes. No papel de Adela, na peça A Casa de Bernarda Alba de Garcia Lorc,a é aplaudida entusiasticamente pelo público. Norberto Lopes diz: “Dentre a gente nova (…) permitimo-nos destacar o nome de Maria Barroso, que está em plena curva ascensional de uma carreira brilhante, onde pode vir a ocupar um lugar de primeiro plano, se os fados não a desviarem do caminho florido que tem à sua frente”. O final do texto revelar-se-ia profético, por más razões. A polícia política rondava. Infelizmente, com a terceira prisão de Mário Soares, coincidente com a encenação da peça Paulina Vestida de Azul, de Joaquim Paço d’Arcos, vem a terrível decisão. Não poderia continuar a trabalhar no D. Maria II, por uma ordem vinda da polícia e do Ministério da Educação. “Foi um desgosto. Senti que era uma injustiça” – confessa Maria Barroso. Amélia Rey Colaço considera um golpe fatal, que atinge o coração do Teatro. Leonor Xavier sintetiza de modo exemplar uma lição de vida, que corresponde à coragem permanente de alguém que não se deixa abater, seguindo em frente. “Para o cenário de uma vida, há os momentos iluminado de palco, as emoções que se exprimem na força do significado, os silêncios quietos na sombra dos bastidores. Na história de Maria de Jesus, o cenário é arte de amor e de liberdade, de compadecimento e de paz”.
Ao reler Leonor, na biografia de Maria Barroso, senti uma grande gratidão. A admiração que sempre tive por uma cidadã exemplar, por uma mulher de armas, fica como um exemplo que o tempo se encarregará de afirmar e reavivar. Em tudo o que fez deixou uma luminosidade especial, que ainda persiste na herança que nos deixou. O tandem que comecei por referir é uma marca irrepetível da nossa democracia. Tive o raro privilégio de acompanhar essa ligação extraordinária, humana, cívica e política. E não esquecei nunca o dia em que, convidando-a para evocar os Cadernos da Poesia, e sem qualquer preparação, pudemos ouvir a sua voz fantástica a recordar a grande poesia como voz de liberdade. “Porque os outros vão à sombra dos abrigos / E tu vais de mãos dadas com os perigos. / Porque os outros calculam mas tu não” – como disse Sophia. E muito fica por contar.
Maria Barroso e Augusto de Figueiredo em "Benilde ou a Virgem Mãe" de José Régio (in site da C.M. de Vila do Conde)
ATORES, ENCENADORES (XIX) REFERÊNCIAS A MANOEL DE OLIVEIRA, JOSÉ RÉGIO, MARIA BARROSO por Duarte Ivo Cruz
Fazemos aqui uma abordagem global a três nomes exponenciais da cena portuguesa – e cada um deles, a seu modo e na biografia respetiva, em muito transcendeu a abordagem específica da arte do espetáculo. Referimos Manoel de Oliveira, na sequência da publicação anterior, mas também, pelas razões que adiante se explicam, José Régio e Maria Barroso.
Como bem sabemos, cada um transcendeu em muito a expressão dramática, aliás, também cada um deles, assumindo-a num nível de qualidade excecional. Mas é o teatro e o espetáculo que aqui os relaciona – e a partir da peça “Benilde ou a Virgem Mãe”, peça escrita por José Régio em 1947, estreada no Teatro Nacional de D. Maria II em 1947-1948 com Maria Barroso na protagonista, e filmada por Manoel de Oliveira em 1975 com Maria Barroso no papel de Genoveva.
Maria Barroso termina o curso de teatro do então Conservatório Nacional em 1943 e no ano seguinte ingressa na Companhia do TMDM II dirigida, como se sabe, por Amélia Rey Colaço e Robles Monteiro. Prossegue estudos na Faculdade de Letras de Lisboa, enquanto assume diversos papéis de protagonista no Nacional, com destaque para a Maria de Noronha do “Frei Luís de Sousa” em 1946. No ano seguinte estreia-se no cinema com “Aqui Portugal” de Armando Miranda: mas mais importante do que isso, nessa mesma temporada de 47-48, fará a protagonista da “Benilde” no D. Maria, com Augusto de Figueiredo no papel de Eduardo.
António Braz Teixeira assinala que «tal como o rei de “Jacob e o Anjo”, também a protagonista de “Benilde”, porque foi escolhida por Deus, só na morte serenamente aceite ou desejada (…) alcança a verdadeira liberdade redentora» (in “Teatro I” ed. INCM-2005 pág. 22). E o próprio Régio destacará esta interpretação, quase a última que Maria Barroso assume no Teatro Nacional antes de ser afastada em 1948. A crítica da época é aliás unânime em reconhecer a notável interpretação de Maria Barroso. “É o reconhecimento do seu talento. É a consagração do seu nome. É o ponto iluminado do seu palco” escreverá, meio século decorrido, Leonor Xavier, que reproduz um conjunto relevante de críticas da época. (in “Maria Barroso – Um Olhar Sobre a Vida”, ed. Difusão Cultural - 1995 pág. 98).
Maria Barroso afasta-se dos palcos. Mas em 1965, retoma a carreira em duas interpretações notáveis que marcaram o início de atividade do Teatro Villaret: “O Segredo” de Henry James e a “Antígona” de Jean Anouille, que já evocamos nesta série de artigos.
Ora bem: em 1975 estreia em Lisboa o filme de Manoel de Oliveira precisamente denominado “Benilde ou Virgem-Mãe”. Aqui, a protagonista é Maria Antónia Mata, e Maria Barroso assume o papel de Genoveva “velha criada da casa”. O texto teatral articula-se na expressão cinematográfica: diz João Bénard da Costa que “é o cinema que invade o teatro, num jogo de alçapões e sótãos, como se sob a profundidade do primeiro se escondesse o espaço do segundo”… (in “Histórias do Cinema” ed. Europália e INCM 1991 pág. 153).
E Eduardo Prado Coelho: «Em primeiro lugar, o filme nunca pretende figurar, melhor ou pior, uma realidade, mas sim registar uma peça de teatro. Quer dizer que, com “Benilde”, Manoel de Oliveira avança sim pouco mais na sua conceção sobre a passividade do cinema. Em segundo lugar, opera-se, neste movimento de câmara, uma passagem para um espaço deliberadamente fechado, onde o exterior adquire uma força simbólica desmesurada (…). Em terceiro lugar, este espaço fechado é o espaço maldito que, na sua velha clausura, assistiu ao enlouquecimento da mãe de Benilde, ao bizarro comportamento do pai, e serve agora como explicação para o mistério que envolve o estado de Benilde”. (in “Vinte Anos de Cinema Português – 1962-1982” ed. ICLP pág. 58).
Entretanto, quero aqui frisar a expressão dramática e a qualidade do texto em si, e a sua “adaptabilidade” digamos assim, a formas de espetáculo em si mesmas distintas: o que em rigor se deve ao extraordinário talento de José Régio, que como sabemos não esteve, ao longo da vida, especialmente ligado aos meios teatrais e/ou cinematográficos…
Maria Barroso faria pequenas intervenções em dois filmes de Manoel de Oliveira: “Amor de Perdição” (1977) e “Le Soulier de Satin” (1984).
E seja-me permitido terminar com uma citação de texto de minha autoria, a propósito da “Benilde” - peça:
“Luta Benilde pela sua verdade. E só a morte evidente mostra a verdade essencial e subjetiva das suas vozes. (…) Teatro e grande teatro é a tensão doseada e progressiva de «Benilde ou a Virgem-Mãe», o seu remate inesperado, a dúvida que sempre subsiste”… (in “História do Teatro Português”- Verbo ed. 2001, pág.296).
DUARTE IVO CRUZ
Obs: Reposição de texto publicado em 15.04.15 neste blogue.
Mais de vinte anos depois da conversa, em que me perguntou se eu seria sua biógrafa, é-me difícil fazer uma reflexão objetiva sobre a personalidade, o mérito, o percurso da mulher notável que é Maria Barroso. Na sua personalidade, vejo a liberdade como princípio de vida, a família como força e estrutura de carácter, a política como disciplina de comportamento, a fé como misteriosa e firme revelação em idade madura.
O que acrescentar que sobre ela não se saiba ou não tenha sido dito?
Mais do que factos da vida pública, são agora desejados os detalhes sobre a sua vida privada. Se discretamente atenuou a sua própria expressão, para mais ser conhecida por primeira-dama e mulher de Mário Soares. Se foi essa a sua vontade, em vez de se distinguir pela sua intervenção e ação nas causas em que se tem envolvido, desde sempre. Perguntam-me como é a organização dos seus dias. Se é uma mulher independente. Se determina os rituais da casa e da família. Se tem uma relação próxima com os netos. Se tem uma agenda própria. E mais e mais. Parecem ser mais importantes estas minúcias do que o seu percurso de vida. O ambiente em que nasceu, os estudos, os amigos, o teatro, o amor, a política.
Talvez sejam menos conhecidos os seus concretos gestos de atenção aos outros, mais ainda aos mais simples, aos anónimos cidadãos que chegam perto, a dar-lhe uma palavra, a ouvir-lhe a voz. Poderão ser lembrados os seus tons de feminilidade, a sua maneira clássica de vestir, a determinação no estilo, a harmonia nas cores, a escolha do pequeno enfeite que sempre usa, a combinar com as variadas circunstâncias em que está presente. Na sua expressão pública, Maria Barroso diz a importância da família, na ordenação da sociedade. E na vida privada fala da casa dos pais, das brincadeiras com os irmãos. Lembra cenários de juventude à roda da mesa de jantar, repartidas então as fases difíceis de todos e de cada um. Forte e claro é o discurso amoroso constante, sempre que fala do seu amor. As prisões, os exílios, as separações, os medos. A coragem, o atrevimento, são nela justos motivos de orgulho.
Não tem temperamento para silêncio ou omissão, nas questões políticas e sociais de atualidade ela afirma-se. Quando tem uma causa a defender, fala o quanto pode, debate, imagina, propõe ideias, dá sugestões, defende opiniões, abre hipóteses de solução. Sabe que os problemas que apresenta pertencem, preocupam e dizem respeito a todos e a todas. Podendo ser intolerante e até radical quando discorda, ela sente a compaixão, pratica a solidariedade, a doçura. É reconhecido o seu estilo, o seu jeito, a sua maneira de ser na fantástica capacidade de comunicação que mantém com as instituições, os poderes, os cidadãos.
Na sua postura, vejo a marca de formação que recebeu como atriz nos anos 1940 da sua juventude, quando no Teatro Nacional pertenceu à Companhia Amélia Rey Colaço-Robles Monteiro, surpreendendo pelo talento que a poderia ter consagrado como uma das notáveis da sua geração. Aplaudida então pelo público e pela crítica, para sempre lhe ficou a clareza na maneira de falar, a certa medida das frases, a colocação de pausas e pontos finais, o momento justo da respiração. As costas direitas, o olhar determinado, a expressão dos olhos a confirmar o que diz e como diz.
Sem desânimo nem pausas ou ausências, Maria Barroso tem tido perto de duzentas intervenções públicas em média, por ano. Umas largas dezenas de idas e vindas entre Lisboa e as mais variadas geografias do país não a cansam. Uma vintena de viagens anuais, acrescentando aos destinos europeus as mais variadas rotas de longa distância estimulam-na. Para que a solidariedade cresça no seu curso para a transformação dos males deste mundo, faz conferências nas escolas secundárias e nas universidades, promove debates e congressos, anima causas e ações. A violência na televisão e na imprensa, em especial, tem sido motivo de textos e pronunciamentos. Assim como a família, a educação, a violência, a assistência aos flagelados, às vítimas de seca ou de chuva, têm sido suas razões de ser. Pela defesa dos direitos humanos e pela cooperação inspira-se para campanhas a lançar, cresce em energias, tem disponibilidade absoluta. Sempre que procura ajudas, apoios, parcerias, raramente recebe recusas, porque a urgência de realizar é total e as soluções possíveis existem.
Nestes dias sombrios, releio o que Maria Barroso me disse e escrevi, no último capítulo da sua história: "O meu reencontro com a fé deu-me uma serenidade muito grande para olhar todo o percurso da minha vida, despedir-me deste mundo sem receio nem angústia."